Santo Agostinho


Resumo

Este episódio do podcast Filosofia Vermelha apresenta uma análise da filosofia de Santo Agostinho, um dos pensadores mais importantes do final da Antiguidade. A discussão se concentra em dois temas centrais de sua obra mais conhecida, ‘Confissões’: o problema do mal e a natureza do tempo.

A primeira parte do episódio explora a questão do mal, apresentando o dilema teológico: se Deus é bom e criou todas as coisas, como explicar a existência do mal? O episódio detalha a solução agostiniana, que rejeita a premissa de que o mal é uma ‘coisa’ criada por Deus. Em vez disso, Agostinho argumenta que o mal é a ‘privação do bem’ – uma diminuição da bondade que deveria estar presente. A origem do mal é atribuída ao livre-arbítrio humano, que pode escolher afastar-se do bem maior para um bem menor.

A segunda parte aborda a complexa reflexão de Agostinho sobre o tempo. O episódio destaca a famosa afirmação do filósofo: ‘Se ninguém me perguntar, eu sei o que é o tempo; se quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei’. A análise explora o paradoxo da existência do passado (que já não é) e do futuro (que ainda não é), concluindo que, para Agostinho, o único tempo que realmente existe é o presente.

Agostinho propõe que não existem três tempos (passado, presente e futuro), mas sim ‘o presente das coisas passadas’ (memória), ‘o presente das coisas presentes’ (intuição direta) e ‘o presente das coisas futuras’ (expectativa). O tempo é, portanto, uma ‘extensão da alma’ (distensio animae), algo de natureza psicológica que existe na mente humana através da memória, atenção e espera.

O episódio também inclui uma breve biografia de Santo Agostinho, destacando seu nascimento na África (na atual Argélia), sua conversão ao cristianismo, sua ordenação como bispo de Hipona e o contexto histórico de sua vida durante o declínio do Império Romano. A obra ‘Confissões’ é apresentada como uma autobiografia filosófica que combina narrativa pessoal, reflexão teológica e investigação filosófica.


Indicações

Books

  • Confissões — A obra mais significativa de Santo Agostinho, descrita como uma autobiografia filosófica onde ele narra seu percurso até a conversão ao cristianismo e discute temas como tempo, eternidade, criação e mal. O apresentador recomenda fortemente sua leitura, destacando sua beleza e conteúdo filosófico.
  • A Essência do Cristianismo — Obra de Feuerbach mencionada como parte do curso ‘Crítica da Religião, Feuerbach, Nietzsche e Freud’ oferecido pelo podcast. O curso prepara para ler este clássico da filosofia que trata do tema da religião de maneira crítica.
  • O Anticristo — Obra de Nietzsche mencionada como parte do curso ‘Crítica da Religião, Feuerbach, Nietzsche e Freud’. Junto com Feuerbach e Freud, forma a tríade de autores que tratam criticamente da religião no curso oferecido.
  • O Futuro de uma Ilusão — Obra de Freud mencionada como parte do curso ‘Crítica da Religião, Feuerbach, Nietzsche e Freud’. O curso capacita para ler este texto que aborda a religião de forma crítica.

Courses

  • Introdução à Filosofia dos Pré-Socráticos à Sartre — Curso oferecido pelo podcast que visa colocar o aluno em contato direto com textos principais da história da filosofia, incluindo Platão, Aristóteles, Sêneca, Marco Aurélio, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Nietzsche, Marx, Wittgenstein, entre outros.
  • A Filosofia de Karl Marx, uma introdução — Curso que ensina sobre os aspectos filosóficos dos textos escritos pelo próprio Karl Marx, focando na filosofia marxista.
  • Crítica da Religião, Feuerbach, Nietzsche e Freud — Curso que prepara para ler três clássicos da filosofia que tratam do tema da religião de maneira crítica: ‘A Essência do Cristianismo’ de Feuerbach, ‘O Anticristo’ de Nietzsche e ‘O Futuro de uma Ilusão’ de Freud.
  • Filosofia para a Vida, Refletir para Viver Melhor — Novo curso anunciado que se propõe a resgatar a filosofia como terapia para a alma, tratando filosoficamente questões que todos enfrentam em suas vidas. Ainda em gravação no momento do episódio.

Films

  • Santo Agostinho (1972) — Filme de Roberto Rossellini sobre a vida de Santo Agostinho mencionado no episódio. Há também produções mais recentes sobre o filósofo que o apresentador já assistiu.

Music

  • Sonata nº 19 em Sol menor, Op. 49 nº 1 — Trecho musical de Ludwig van Beethoven tocado durante a pausa do episódio. O compositor alemão (1770-1827) é apresentado brevemente, e os ouvintes são direcionados para a playlist ‘Clássicas Filosofia Vermelha’ no Spotify para conhecer melhor as músicas dos intervalos.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao episódio sobre Santo Agostinho — O episódio é apresentado com foco em Santo Agostinho e sua obra ‘Confissões’. São anunciados os dois temas principais que serão abordados: o problema filosófico do mal e a natureza do tempo. O apresentador levanta a questão central sobre como conciliar a existência de um Deus bom com a presença do mal no mundo.
  • 00:04:55Biografia de Santo Agostinho e contexto histórico — É apresentada uma breve biografia de Agostinho, destacando seu nascimento em 354 d.C. em Tagaste (atual Argélia), sua mãe Santa Mônica, sua conversão entre 384-386 d.C., seu batismo por Ambrósio em 387, a morte de sua mãe e de seu filho Adeodato, sua ordenação como sacerdote em 391 e consagração como bispo de Hipona em 395. O episódio enfatiza que Agostinho foi um filósofo africano.
  • 00:08:15Análise da obra ‘Confissões’ de Agostinho — A obra ‘Confissões’ é descrita como a mais significativa de Agostinho, uma autobiografia filosófica escrita cerca de 13 anos após sua conversão. É uma obra em primeira pessoa que narra seu percurso até o cristianismo, tratando de temas como tempo, eternidade, criação e mal. O apresentador compartilha sua experiência pessoal ao ler a obra na juventude e recomenda sua leitura.
  • 00:10:25O problema filosófico do mal em Agostinho — Inicia-se a discussão sobre a questão do mal, apresentando o silogismo problemático: se Deus criou todas as coisas e o mal é uma coisa, então Deus criou o mal. Agostinho percebe que a solução requer questionar a premissa de que ‘o mal é uma coisa’. Ele desenvolve uma reflexão ontológica onde tudo o que possui ser é bom, sendo o mal entendido como ‘privação do bem’.
  • 00:13:24A solução agostiniana: o mal como privação do bem — É explicada a estratégia de Agostinho através de dois silogismos: (1) Todas as coisas que Deus criou são boas, o mal não é bom, logo o mal não foi criado por Deus; (2) Deus criou todas as coisas, Deus não criou o mal, logo o mal não é uma coisa. O mal é definido como ‘a perda do bem’ ou ‘diminuição da propriedade do bem’. Algo é mau por ter menos bem do que deveria ter.
  • 00:15:39A origem do mal no livre-arbítrio humano — Agostinho esclarece quando e como o mal entrou no mundo. Como o mal não é uma ‘coisa’, não pode ser escolhido diretamente. O mal surge quando a vontade humana abandona um bem maior e se inclina para um bem menor. A fonte do mal reside, portanto, no livre-arbítrio. O mal é o próprio ato de escolher um bem menor, não a coisa para a qual a vontade se volta.
  • 00:20:45A questão do tempo em Santo Agostinho — Inicia-se a discussão sobre a natureza do tempo, citando a famosa afirmação de Agostinho: ‘Se ninguém me perguntar, eu sei o que é o tempo; se quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei’. O problema é apresentado como um enigma filosófico: se o passado já não existe e o futuro ainda não veio, como podem existir? E se o presente sempre fosse presente, seria eternidade, não tempo.
  • 00:22:34O problema da existência do passado e do futuro — Agostinho questiona a existência do passado e do futuro. Se não existem, o que dizer das coisas passadas e futuras? Ele argumenta que todas essas coisas só podem estar no presente. A infância, por exemplo, já não existe, mas sua lembrança existe no presente. As ações futuras são premeditadas no presente, mas só existirão quando se tornarem presentes.
  • 00:26:27A redefinição agostiniana dos tempos — Agostinho conclui que é impróprio afirmar que existem três tempos (passado, presente e futuro). O mais exato seria dizer que existem ‘o presente das coisas passadas’ (memória), ‘o presente das coisas presentes’ (intuição direta) e ‘o presente das coisas futuras’ (expectativa). Estes três existem em nossa mente, mas não podemos afirmar sua existência fora dela.
  • 00:27:34Conclusão: o tempo como extensão da alma — O balanço da reflexão mostra que, para Agostinho, o único tempo que realmente existe é o presente, embora não tenha duração. O tempo é uma sucessão ininterrupta de instantes. Influenciado por Aristóteles e pelos estoicos, Agostinho vê o tempo como algo de natureza psicológica, uma ‘extensão da alma’ (distensio animae) ligada à memória, intuição e espera.

Dados do Episódio

  • Podcast: Filosofia Vermelha
  • Autor: Glauber Ataide
  • Categoria: Society & Culture Philosophy
  • Publicado: 2024-12-09T09:00:00Z
  • Duração: 00:29:53

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Olá, amigos e amigas do Saber.

[00:00:03] Neste episódio de hoje, vamos falar sobre um dos filósofos mais interessantes do final da Antiguidade,

[00:00:11] Santo Agostinho.

[00:00:12] Sua obra mais conhecida tem o título Confissões

[00:00:15] e são uma espécie de autobiografia filosófica

[00:00:19] na qual seu ator discute diversos temas clássicos da filosofia,

[00:00:24] dos quais apresentaremos dois neste episódio,

[00:00:27] o mal e o tempo.

[00:00:30] Todo indivíduo se pergunta alguma vez pela origem do mal.

[00:00:35] Se Deus existe, como conciliar sua bondade com a existência do mal no mundo?

[00:00:41] Se Deus é o Criador de todas as coisas,

[00:00:44] isso quer dizer que Ele criou também o mal?

[00:00:48] Como seria possível um Deus bom criar o mal?

[00:00:52] Veremos neste episódio que Agostinho tem uma resposta a essa questão.

[00:00:57] Agostinho também se pergunta pela

[00:00:59] natureza do tempo.

[00:01:02] Utilizamos o conceito sem problema algum em nossa vida cotidiana,

[00:01:06] mas se alguém nos perguntar o que é de fato o tempo,

[00:01:10] nos vemos em dificuldades.

[00:01:12] E também Agostinho percebeu isso em sua obra

[00:01:14] e ele fez uma afirmação que é a seguinte, olha,

[00:01:17] o que é o tempo?

[00:01:19] Se ninguém me perguntar, eu o sei.

[00:01:22] Se alguém me perguntar, já não o sei.

[00:01:25] Mas Agostinho nos fornece, mesmo diante dessa dificuldade,

[00:01:29] uma interessante reflexão filosófica sobre a natureza do tempo,

[00:01:35] a qual apresentaremos também neste episódio.

[00:01:38] Então vamos lá, acompanhe.

[00:01:53] Antes de iniciar, um agradecimento a todos os apoiadores

[00:01:57] que tornam este trabalho possível.

[00:01:59] O podcast Filosofia Vermelha é um oferecimento

[00:02:03] de nossos apoiadores na plataforma Apoia-se.

[00:02:07] Embora nosso podcast seja um dos maiores de filosofia

[00:02:10] não apenas no Brasil, mas em todo o mundo de língua portuguesa,

[00:02:14] nós ainda não temos os recursos necessários

[00:02:17] para manter este trabalho no ar.

[00:02:19] Para se tornar um de nossos apoiadores,

[00:02:22] acesse o link na descrição deste episódio

[00:02:24] e torne-se um apoiador.

[00:02:26] Você pode entrar o link diretamente também em seu navegador,

[00:02:29] é

[00:02:29] apoia.se

[00:02:32] barra filosofia vermelha.

[00:02:34] O nosso segundo recado é sobre os nossos cursos de filosofia.

[00:02:39] Se você busca uma visão geral, panorâmica de toda a história da filosofia,

[00:02:43] faça sua inscrição no curso

[00:02:45] Introdução à Filosofia dos Pré-Socráticos à Sartre.

[00:02:50] Nosso objetivo com este curso é colocar você em contato direto

[00:02:54] com alguns dos principais textos de toda a história da filosofia.

[00:02:58] Isso significa que,

[00:02:59] ao invés de você ler comentadores ou literatura secundária,

[00:03:03] os nossos vídeos vão lhe preparar para que você leia diretamente

[00:03:06] textos cuidadosamente selecionados de filósofos como

[00:03:10] Platão, Aristóteles, Sêneca, Marco Aurélio, Santo Agostinho,

[00:03:15] Tomás de Aquino, René Descartes, Immanuel Kant, Nietzsche,

[00:03:20] Karl Marx, Wittgenstein, etc.

[00:03:22] Para mais informações, basta acessar o link na descrição deste episódio

[00:03:27] ou o link que você encontra em nosso site.

[00:03:29] www.filosofiaepsicanalise.org

[00:03:34] E lembrando que nós temos ainda mais dois outros cursos.

[00:03:38] No curso A Filosofia de Karl Marx, uma introdução,

[00:03:41] você aprenderá sobre os aspectos filosóficos dos textos escritos pelo próprio Karl Marx.

[00:03:47] E no curso Crítica da Religião, Feuerbach, Nietzsche e Freud,

[00:03:52] você será preparado para ler três clássicos da filosofia

[00:03:55] que tratam do tema da religião de maneira crítica.

[00:03:58] Você será capacitado.

[00:03:59] Você será capaz de ler A Essência do Cristianismo, de Feuerbach,

[00:04:02] O Anticristo, de Nietzsche e O Futuro de uma Ilusão, de Freud.

[00:04:06] Para mais informações, ver a grade curricular e já se inscrever,

[00:04:10] basta acessar o link na descrição deste episódio

[00:04:13] ou os links que você encontra em nosso site, mais uma vez,

[00:04:17] www.filosofiaepsicanalise.org

[00:04:21] E, pessoal, tenho uma novidade para vocês.

[00:04:25] Nós iniciamos, nesta semana,

[00:04:28] a gravação de nosso livro,

[00:04:29] em breve divulgaremos mais detalhes,

[00:04:32] mas já adiantamos o nome.

[00:04:35] Filosofia para a Vida, Refletir para Viver Melhor.

[00:04:39] Neste curso, nos propomos a resgatar a filosofia

[00:04:42] enquanto uma terapia para a alma,

[00:04:45] tratando filosoficamente várias questões

[00:04:48] que todos enfrentamos em nossas vidas.

[00:04:50] Fique atento para os próximos anúncios.

[00:04:53] Voltemos, então, ao nosso tema

[00:04:55] Agostinho, o Mal e o Tempo.

[00:04:58] Agostinho, o Mal e o Tempo.

[00:04:59] Vamos iniciar apresentando uma breve biografia de Santo Agostinho

[00:05:02] e falando um pouco sobre sua obra Confissões.

[00:05:07] Agostinho nasceu no ano 354 d.C.,

[00:05:11] da Era Cristã, na cidade de Tagaste,

[00:05:15] uma pequena cidade da Numídia, na África.

[00:05:18] Interessante ressaltar este ponto logo de início.

[00:05:21] Agostinho foi um filósofo africano.

[00:05:24] A cidade na qual ele nasceu fica hoje na Argélia.

[00:05:29] A mãe de Agostinho se chamava Mônica

[00:05:31] e ela foi tão importante na vida de Agostinho

[00:05:34] e, consequentemente, também da igreja,

[00:05:37] que ela foi canonizada e se tornou a Santa Mônica.

[00:05:42] Sua mãe era uma cristã fervorosa

[00:05:44] e foi por sua influência que Agostinho viria

[00:05:47] a se converter em sua fase adulta.

[00:05:50] Entre 384 e 386,

[00:05:54] Santo Agostinho faz profundas reflexões

[00:05:57] e acaba se convertendo em um filósofo africano.

[00:05:58] Agostinho se retira para uma vida semi-monástica

[00:06:04] com sua mãe, seu irmão, seu filho Adeodato

[00:06:07] e alguns amigos.

[00:06:09] Agostinho é batizado por Ambrósio,

[00:06:12] importante nome da igreja, em 387

[00:06:16] e ele inicia sua jornada de volta à África.

[00:06:20] No meio dessa jornada, no entanto,

[00:06:22] sua mãe morre.

[00:06:24] E quando ele finalmente consegue retornar a Tagaste,

[00:06:27] ele vem de uma vida de desespero.

[00:06:28] Ele retorna de sua herança paterna

[00:06:30] e funda uma comunidade religiosa

[00:06:32] e passa a gozar de grande notoriedade

[00:06:35] pela vida assética que levava.

[00:06:39] No ano 389, morre seu filho Adeodato

[00:06:43] com apenas 17 anos de idade.

[00:06:47] E dois anos depois, em 391,

[00:06:50] ele foi ordenado sacerdote de Hipona

[00:06:52] e isso por pressão dos fiéis.

[00:06:55] É que na época não era incomum

[00:06:57] esta pressão por poderes,

[00:06:58] mas era necessário levar partes da congregação

[00:07:00] para alguém assumir um cargo como este.

[00:07:04] No ano 395, ele foi consagrado bispo

[00:07:07] e é daí que vem um dos famosos títulos

[00:07:10] com que ele é conhecido,

[00:07:12] o Bispo de Hipona.

[00:07:14] Muitas vezes você vai ler isso

[00:07:16] em livros de filosofia.

[00:07:18] Agostinho, o Bispo de Hipona.

[00:07:21] Agostinho passa então vários anos

[00:07:22] escrevendo contra sismáticos e heréticos

[00:07:26] e daquela pequena cidade,

[00:07:28] da África,

[00:07:30] ele vai então entrar para a história

[00:07:32] da filosofia ocidental.

[00:07:34] Ele morre então no ano 430,

[00:07:37] no momento em que os vândalos

[00:07:40] sitiavam a cidade.

[00:07:42] Inclusive, o momento da morte de Agostinho

[00:07:45] é historicamente bem interessante.

[00:07:48] Há alguns filmes bem legais

[00:07:49] que contam a vida de Santo Agostinho

[00:07:51] e um deles é o filme

[00:07:53] que tem o título Santo Agostinho

[00:07:55] é um filme de 1972

[00:07:57] do Roberto Rossellini.

[00:07:58] Agora, este não é o único.

[00:08:01] Há produções mais recentes.

[00:08:03] Eu já assisti mais de um filme

[00:08:05] sobre Santo Agostinho.

[00:08:07] Tendo apresentado então brevemente

[00:08:09] a vida de Santo Agostinho,

[00:08:11] vamos falar agora rapidamente

[00:08:12] sobre sua obra Confissões.

[00:08:15] Esta é a obra mais significativa

[00:08:18] de Santo Agostinho,

[00:08:19] a mais conhecida.

[00:08:21] É uma obra parcialmente autobiográfica

[00:08:24] na qual ele narra o percurso

[00:08:26] até sua conversão ao cristianismo.

[00:08:28] Ele descreve

[00:08:30] os seus erros,

[00:08:32] sua vida de pecados,

[00:08:34] seu desespero,

[00:08:35] suas lutas internas

[00:08:37] e as dúvidas que finalmente

[00:08:38] o levarão a abraçar a fé cristã.

[00:08:42] Este livro foi escrito

[00:08:43] cerca de 13 anos depois

[00:08:45] de sua conversão.

[00:08:47] A obra é escrita em primeira pessoa

[00:08:50] na forma de uma conversa

[00:08:52] íntima com Deus

[00:08:53] e sua escrita é de uma refinada beleza.

[00:08:57] Agostinho a escreveu

[00:08:58] quando contava com pouco mais

[00:09:00] de 40 anos de idade

[00:09:02] e tendo em vista que ele viveria

[00:09:04] até os 76,

[00:09:06] as Confissões então não podem ser consideradas

[00:09:08] de fato uma biografia completa,

[00:09:11] já que ele ainda viveu

[00:09:13] por muitos anos

[00:09:14] depois de ter escrito essa obra.

[00:09:16] As Confissões não são meramente

[00:09:18] uma biografia,

[00:09:20] mas também uma obra de filosofia

[00:09:22] e uma bela peça literária.

[00:09:25] Nela são tratados

[00:09:26] diversos temas filosóficos,

[00:09:28] tais como sobre o tempo,

[00:09:31] a eternidade,

[00:09:32] a criação e o mal, por exemplo.

[00:09:35] Agora, acima de tudo,

[00:09:37] as Confissões não são apenas

[00:09:39] a história pessoal de Agostinho,

[00:09:41] mas são representativas

[00:09:43] da peregrinação do gênero humano

[00:09:46] em sua busca pela verdade.

[00:09:48] Eu me lembro que

[00:09:49] eu li esta obra quando tinha

[00:09:51] aproximadamente 18 ou 19 anos de idade

[00:09:54] e foi uma obra que me marcou

[00:09:56] profundamente,

[00:09:58] tanto pela beleza,

[00:09:58] quanto pelo conteúdo filosófico.

[00:10:01] Na época, eu estava iniciando

[00:10:02] meus estudos em filosofia

[00:10:03] e eu achei de uma inteligência ímpar,

[00:10:07] de uma inteligência única.

[00:10:09] Se você tiver a oportunidade,

[00:10:11] eu recomendo fortemente

[00:10:12] que você entre em contato,

[00:10:14] que você leia as Confissões de Santo Agostinho.

[00:10:17] Mas vamos avançar então

[00:10:19] e falar sobre um dos temas

[00:10:20] que Agostinho aborda nessa obra,

[00:10:22] que é a questão do mal.

[00:10:25] Vejam só.

[00:10:26] Santo Agostinho foi uma das grandes,

[00:10:28] grandes mentes do Ocidente

[00:10:30] que se ocupou do chamado

[00:10:31] problema filosófico do mal.

[00:10:34] E sua abordagem da questão foi

[00:10:36] uma síntese interessante

[00:10:38] que buscava responder não apenas

[00:10:40] a uma questão teórica,

[00:10:42] mas também a problemas de ordem prática

[00:10:44] na consolidação da Igreja

[00:10:46] de seu tempo e de uma filosofia cristã.

[00:10:49] Agostinho trabalhou

[00:10:50] na construção, na solidificação

[00:10:53] de uma filosofia cristã.

[00:10:56] De forma geral,

[00:10:57] uma maneira de abordar,

[00:10:58] dar a relação entre Deus e o mal

[00:11:00] é através do seguinte silogismo.

[00:11:04] Vamos lá.

[00:11:05] Primeira premissa.

[00:11:07] Deus criou todas as coisas.

[00:11:09] Segunda premissa.

[00:11:11] O mal é uma coisa.

[00:11:14] Conclusão.

[00:11:15] Deus criou o mal.

[00:11:18] Claro, né?

[00:11:19] Se Deus criou todas as coisas

[00:11:20] e o mal é uma coisa,

[00:11:22] então Deus criou o mal.

[00:11:25] Agora, esta formulação

[00:11:27] é devastadora.

[00:11:28] É devastadora para o cristianismo.

[00:11:30] Deus não seria bom

[00:11:32] se ele tivesse criado o mal.

[00:11:34] E Agostinho percebeu, então,

[00:11:36] que a solução passava

[00:11:38] por uma compreensão adequada

[00:11:39] da própria natureza do mal.

[00:11:42] Porque, veja,

[00:11:44] o argumento que nós acabamos de apresentar

[00:11:46] depende da ideia de que

[00:11:48] o mal é uma coisa.

[00:11:50] É a segunda premissa, né?

[00:11:52] A primeira, Deus criou todas as coisas.

[00:11:54] Segunda, o mal é uma coisa.

[00:11:57] Agora,

[00:11:57] a segunda premissa,

[00:11:57] a segunda premissa,

[00:11:57] a segunda premissa,

[00:11:57] a segunda premissa,

[00:11:58] a segunda premissa,

[00:11:58] a segunda premissa,

[00:11:58] a segunda premissa,

[00:11:58] a segunda premissa,

[00:11:58] a segunda premissa,

[00:11:58] a segunda premissa.

[00:11:58] Então, se o mal não for uma coisa

[00:12:02] neste sentido,

[00:12:04] então o mal não precisaria

[00:12:06] ter sido criado.

[00:12:08] Então, veja, Agostinho toma

[00:12:09] outro ponto de partida.

[00:12:11] Ele questiona, inicialmente,

[00:12:13] se há alguma evidência

[00:12:15] convincente de que

[00:12:17] um Deus bom existe.

[00:12:19] E se ele existe e é bom ao mesmo tempo,

[00:12:22] então ele seria incapaz

[00:12:24] de criar o mal.

[00:12:25] De modo que a fonte do mal

[00:12:27] deve ser buscada

[00:12:28] em outro lugar. Então, sua posição, a posição de Agostinho,

[00:12:32] ela pode ser resumida através do seguinte silogismo, tá?

[00:12:36] E cada silogismo vai levar a uma conclusão diferente. Então, vejam só

[00:12:40] o primeiro silogismo. Todas as coisas que Deus criou são boas.

[00:12:44] Segunda premissa, o mal não é bom. Conclusão,

[00:12:48] o mal não foi criado por Deus. Eu repito,

[00:12:52] todas as coisas que Deus criou são boas, o mal não é bom,

[00:12:56] logo, o mal não foi criado por Deus. Agora,

[00:13:00] há um outro silogismo. Vejam só este segundo silogismo,

[00:13:04] tá? Deus criou todas as coisas. Segunda

[00:13:08] premissa, Deus não criou o mal. Conclusão, o mal

[00:13:12] não é uma coisa. Eu repito, Deus criou todas as coisas,

[00:13:17] Deus não criou o mal, logo, o mal

[00:13:20] não é uma coisa. Esta é a estratégia de Santo Agostinho.

[00:13:24] Se o mal não é uma coisa, então o argumento

[00:13:28] contra o cristianismo desenvolvido pelo primeiro silogismo

[00:13:31] não tem fundamento porque uma de suas premissas é falsa.

[00:13:36] A questão fundamental é compreender a natureza, o que é

[00:13:40] o mal em si. Uma categoria filosófica fundamental

[00:13:44] para compreender essa reflexão de Agostinho é a categoria

[00:13:48] de ser. Para Agostinho, tudo o que possui

[00:13:52] ser é bom.

[00:13:54] Como a fonte do ser é perfeitamente bom, assim como

[00:13:58] tudo o que ele trouxe à existência. E a bondade é uma

[00:14:02] propriedade que varia, portanto, em diferentes níveis.

[00:14:06] Então veja, somente após suas reflexões ontológicas é que Agostinho

[00:14:10] então estará pronto para responder sobre a natureza

[00:14:14] do mal, sua origem e a forma pela qual entrou no mundo.

[00:14:18] A sua conclusão é que o mal não possui uma natureza,

[00:14:23] mas a perda do bem recebeu o nome

[00:14:27] de mal, o qual seria uma diminuição da propriedade

[00:14:31] do bem. Vejam só, aqui reside

[00:14:35] a chave da questão. Mais uma vez,

[00:14:39] a perda do bem recebeu o nome de mal, o que

[00:14:43] seria uma diminuição da propriedade do bem.

[00:14:47] Então veja, o bem tem um ser substancial,

[00:14:51] mas o mal não.

[00:14:53] E desde que todas as coisas foram feitas boas por Deus,

[00:14:57] tudo aquilo que é corrompido é privado do bem.

[00:15:02] Então, afirmar que alguma coisa é má

[00:15:05] significa apenas dizer que ela possui uma quantidade

[00:15:09] menor de bem do que deveria ter. Agora, por último,

[00:15:13] restaria ainda esclarecer quando e por onde o mal

[00:15:17] entrou no mundo. Agostinho observou que o mal não poderia ser

[00:15:21] escolhido, porque

[00:15:22] ele não era uma coisa a ser escolhida. Alguém pode apenas

[00:15:27] afastar-se do bem, isso é, de um grau maior para um

[00:15:31] grau menor, tendo em vista que todas as coisas foram

[00:15:35] criadas boas. Então, quando a vontade

[00:15:39] abandona o que está acima de si e se inclina para o que está

[00:15:43] abaixo, então ela se torna má. Isso não

[00:15:47] se deve ao fato de que é má a coisa para a qual ela se vira,

[00:15:51] mas sim ao fato de que ela é má a coisa para a qual ela se vira,

[00:15:51] mas sim ao fato de que é má a coisa para a qual ela se vira,

[00:15:51] mas sim ao fato de que é má a coisa para a qual ela se vira,

[00:15:52] o próprio gesto de se virar. O mal, então, é o próprio ato

[00:15:57] de escolher um bem menor, de modo que sua fonte para Agostinho

[00:16:02] reside no livre-arbítrio. Se você não compreendeu toda

[00:16:06] esta argumentação logo de primeira, não se preocupe, isso não era mesmo

[00:16:10] esperado. Esse tipo de reflexão filosófica exige

[00:16:14] tempo, exige que você vá aos textos e pense por

[00:16:18] si mesmo. Então, nós vamos para a nossa clássica pausa musical,

[00:16:22] a fim de que você absorva o conteúdo exposto até o momento

[00:16:26] e recupere a concentração para o restante do episódio.

[00:16:30] Você ouvirá um trecho da sonata número 19 em sol menor,

[00:16:34] opus 49, número 1, de Ludwig van Beethoven,

[00:16:38] compositor alemão nascido em 1770 e falecido

[00:16:42] em 1827. E enquanto você aprecia

[00:16:46] esta música, eu gostaria de pedir que você avalie o nosso

[00:16:50] podcast com 5 estrelas no Spotify,

[00:16:52] ou em qualquer outra plataforma através da qual você nos ouve.

[00:16:56] Isso não dura nem 10 segundos, e assim você nos ajuda a chegar a mais

[00:17:00] pessoas.

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[00:20:22] Caso você tenha interesse em conhecer melhor as músicas que tocamos nos intervalos dos episódios,

[00:20:29] basta procurar pela playlist Clássicas Filosofia Vermelha no Spotify.

[00:20:34] Em nosso perfil no Spotify, há um link direto para essa playlist na terceira aba.

[00:20:40] Voltemos então ao nosso tema, Santo Agostinho, Mal e o Tempo.

[00:20:45] Vamos falar agora sobre a questão do tempo,

[00:20:48] que é uma outra discussão filosófica que Agostinho traz em sua obra,

[00:20:52] Confissão.

[00:20:52] Confissões.

[00:20:53] Agostinho tem uma das abordagens filosóficas mais conhecidas sobre o tempo.

[00:20:59] Inclusive, a pergunta que é, pois, o tempo,

[00:21:02] ele mesmo responde em suas confissões dizendo o seguinte,

[00:21:06] se ninguém me perguntar, eu sei.

[00:21:09] Se eu quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.

[00:21:14] Vejam só, é bem interessante.

[00:21:15] Isso acontece não apenas com o tempo,

[00:21:17] mas com várias outras questões de difícil definição filosófica.

[00:21:22] A gente geralmente utiliza diversos conceitos em nossa vida cotidiana,

[00:21:27] mas se a gente quiser responder daquela maneira socrática,

[00:21:30] o que é isso, a gente já não sabe responder.

[00:21:34] E com o tempo acontece algo semelhante.

[00:21:36] Nós usamos o conceito a todo momento, mas se quisermos dar uma definição do que é o tempo,

[00:21:43] a gente não sabe explicar a quem nos faz a pergunta.

[00:21:46] Agora, para Agostinho, a dificuldade reside não apenas em exprimir ou traduzir,

[00:21:52] por palavras, o conceito, mas também em aprendê-lo no próprio pensamento.

[00:21:59] As três divisões do tempo em passado, presente e futuro

[00:22:03] não constituem nenhum problema em nossa vida cotidiana.

[00:22:07] Todos se entendem perfeitamente em relação ao tempo e sua passagem.

[00:22:12] Agora, a conceituação do problema em sua forma clássica e socrática,

[00:22:17] perguntando o que é isso, o que é o tempo,

[00:22:19] bom, essa conceituação constitui,

[00:22:22] constitui um enigma filosófico quase insuperável para Santo Agostinho.

[00:22:28] Um dos aspectos dessa questão diz respeito à existência do passado e do futuro.

[00:22:34] Se o passado já não existe e o futuro ainda não veio,

[00:22:38] de que modo que existem estes dois tempos?

[00:22:42] Vejam só que questão interessante.

[00:22:44] Passado e futuro existem, o passado já não existe, o futuro não veio.

[00:22:49] Mas de que forma a gente pode dizer,

[00:22:52] que passado e presente existem, se é que existem?

[00:22:56] Agora, e o presente?

[00:22:58] Se o presente fosse sempre presente e não passasse para o pretérito,

[00:23:03] já não seria tempo, mas eternidade.

[00:23:06] Então, Agostinho se coloca a pergunta,

[00:23:08] se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito,

[00:23:14] como que nós podemos afirmar que ele existe,

[00:23:17] se a causa da sua existência é a mesma pela qual ele deixará de existir,

[00:23:22] o centro do problema, então, seria a existência do tempo,

[00:23:27] o seu ser, o que suscita também problemas ontológicos.

[00:23:32] Se o passado e o futuro não existem,

[00:23:35] o que dizer também das próprias coisas passadas e futuras?

[00:23:39] Agostinho se indaga, então, onde elas estão, se de fato existem.

[00:23:43] Vejam só, nós estamos falando agora das coisas passadas e futuras.

[00:23:49] Primeiro, nós nos perguntamos sobre o que é o passado.

[00:23:52] O próprio passado e o futuro.

[00:23:55] Agora, nós estamos falando das coisas passadas e das coisas futuras.

[00:24:00] E por isso que Agostinho se indaga, ele se pergunta,

[00:24:04] onde de fato estão essas coisas?

[00:24:07] Elas de fato existem?

[00:24:09] Então, mais uma vez, ele evoca a dificuldade de se responder a esse tipo de problema

[00:24:14] e ele afirma ter uma única certeza.

[00:24:18] Todas essas coisas só podem estar no presente,

[00:24:21] porque, se elas não existem,

[00:24:22] se elas são futuras, elas ainda não estão lá.

[00:24:25] E se são pretéritas, já não estão lá.

[00:24:29] E mesmo que nós narremos os acontecimentos do passado na memória,

[00:24:34] este relato não são as próprias coisas,

[00:24:37] mas sim, nas palavras de Agostinho,

[00:24:40] as palavras concebidas pelas imagens daqueles fatos,

[00:24:44] os quais, ao passarem pelos sentidos,

[00:24:47] gravaram no espírito uma espécie de vestígio.

[00:24:51] Fecha.

[00:24:52] Um exemplo para deixar isso mais claro.

[00:24:56] A infância de todo adulto, por exemplo,

[00:24:58] que já não existe no presente,

[00:25:00] existe em um passado que já não é.

[00:25:03] Sua invocação na memória, no entanto,

[00:25:06] é vista no tempo presente,

[00:25:08] porque ela ainda pode ser lembrada.

[00:25:11] Agora, no que diz respeito às ações futuras,

[00:25:14] nós as premeditamos na maior parte do tempo.

[00:25:17] E esta premeditação certamente é presente também.

[00:25:22] Ao passo que a ação premeditada ainda não existe,

[00:25:26] porque ela é futura.

[00:25:28] Apenas quando nós empreendemos o que foi premeditado,

[00:25:32] é que a ação, então, existirá,

[00:25:35] porque aí ela já não mais será futura, mas presente.

[00:25:39] Então, quando nós dizemos que nós vemos os acontecimentos futuros,

[00:25:44] nós não enxergamos os próprios acontecimentos ainda inexistentes,

[00:25:48] mas sim suas causas ou os prognósticos

[00:25:51] já adotados de existência.

[00:25:54] Um exemplo seria a antecipação no pensamento do nascer do Sol.

[00:25:59] Quando nós avistamos a aurora,

[00:26:02] nós predizemos que o Sol nascerá.

[00:26:05] O que se vê é presente.

[00:26:07] O que se anuncia é futuro.

[00:26:10] Não é o próprio Sol que é futuro,

[00:26:12] porque o Sol já existe,

[00:26:14] mas sim o seu nascimento, que ainda não se realizou.

[00:26:18] Agora, a aurora não é ainda,

[00:26:21] o nascimento do Sol e nem sua imagem formada em meu espírito.

[00:26:25] Então, Agostinho vai concluir,

[00:26:27] as coisas futuras ainda não existem.

[00:26:31] Uma das conclusões de Agostinho é que

[00:26:33] não há tempos futuros e nem pretéritos,

[00:26:37] sendo impróprio afirmar que os tempos são três,

[00:26:40] pretérito, presente e futuro.

[00:26:42] Vejam só que interessante como isso é contra o senso comum.

[00:26:46] Agostinho afirma que é impróprio afirmar que os tempos são três,

[00:26:51] pretérito, presente e futuro.

[00:26:54] Para Agostinho, o mais exato seria dizer que

[00:26:57] os tempos são presente das coisas passadas,

[00:27:01] presente das presentes e presente das futuras,

[00:27:04] porque estes três tempos existem em nossa mente,

[00:27:08] ao passo que nós não podemos afirmar nada

[00:27:10] sobre sua existência fora dela.

[00:27:13] Esta é uma das partes mais importantes deste episódio

[00:27:16] nesta reflexão sobre o tempo em Santo Agostinho.

[00:27:20] Então, vejam só.

[00:27:21] Não há pretérito, presente e futuro,

[00:27:23] mas presente das coisas passadas,

[00:27:26] presente das presentes e presente das futuras.

[00:27:29] Qual é o balanço, então, que nós podemos fazer

[00:27:31] desta reflexão de Santo Agostinho?

[00:27:34] De forma geral, a abordagem de Agostinho sobre o tempo,

[00:27:37] enquanto um continuum infinitamente divisível,

[00:27:41] é fortemente influenciada por Aristóteles

[00:27:44] e também pelos estoicos.

[00:27:46] Para Agostinho, o único tempo que realmente existe

[00:27:49] é o presente,

[00:27:50] embora o presente,

[00:27:51] não tenha duração.

[00:27:53] Então, o tempo seria, sim,

[00:27:55] uma sucessão ininterrupta de instantes

[00:27:58] em que o passado se torna presente

[00:28:00] e cede lugar ao futuro.

[00:28:03] Não há unidades indivisíveis de tempo,

[00:28:06] embora os espaços de tempo sejam mensuráveis.

[00:28:09] Além disso, nós podemos também dizer

[00:28:11] que o tempo é algo da ordem da alma

[00:28:14] ou de natureza psicológica.

[00:28:18] Vejam só.

[00:28:18] O tempo é algo de natureza,

[00:28:21] psicológica.

[00:28:23] Embora tendo uma ligação com o movimento,

[00:28:25] o tempo não está no movimento

[00:28:28] ou nas coisas em movimento,

[00:28:30] mas sim na alma.

[00:28:32] E conforme se revela estruturalmente ligado

[00:28:35] à memória, à intuição e à espera,

[00:28:37] como nós vimos anteriormente

[00:28:39] em relação às coisas passadas,

[00:28:41] presentes e futuras,

[00:28:42] o tempo é, predominantemente,

[00:28:45] uma distêntio anime

[00:28:47] ou uma extensão da alma.

[00:28:50] Foi este, então, o nosso episódio de hoje.

[00:28:53] E lembrando, mais uma vez,

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