200 - Cinismo e a Morte da Esquerda
Resumo
O episódio é uma conversa com Jonas Manoel e Eribaldo Maia, autores do livro “Cinismo e a Morte da Esquerda”. Eles partem da angústia compartilhada em seu grupo de amigos para analisar a profunda crise da esquerda brasileira. O diagnóstico central aponta para uma esquerda hegemônica (lulista/petista) que, ao adotar uma estratégia de recuo constante justificada pelo “mito da correlação de forças”, abandonou sua própria gramática política e passou a gerir a ordem neoliberal, tornando-se cínica. O cinismo se manifesta na defesa de políticas que atacam sua própria base (como o BPC) e na negação da realidade, criando um moralismo vazio e uma performance estética desconectada da prática transformadora.
A crítica também se volta para a esquerda radical. Os autores identificam nela um “superego leninista severo”, uma tendência à autoproclamação como vanguarda, um moralismo de superioridade e um descolamento da realidade brasileira e da classe trabalhadora. Essa esquerda radical frequentemente cai em um “cosplay de bolchevique”, priorizando a defesa abstrata de experiências socialistas estrangeiras em detrimento da escuta das demandas imediatas e da construção de vínculos afetivos e de confiança com o povo. A falta de conhecimento sobre orçamento, política pública e a realidade nacional é apontada como um grave déficit.
A discussão avança para exemplos concretos da paralisia e do cinismo, como a greve geral de 2017, desmobilizada após uma negociação no campo adversário; o ataque ao BPC proposto pelo próprio governo Lula e a posterior campanha de desinformação petista sobre o tema; e as contradições entre o discurso ambiental e o plano safra recorde para o agronegócio. Eribaldo Maia desenvolve o conceito de “negacionismo político”, onde a esquerda hegemônica molda a realidade para justificar sua estratégia falida, alimentando-se da “chantagem liberal” do medo do fascismo, enquanto suas políticas de austeridade geram o mal-estar social que fortalece a extrema-direita.
Apesar do diagnóstico severo, o tom não é de pessimismo fatalista, mas de urgência para a reconstrução. Os autores enfatizam a necessidade de a esquerda radical superar seus vícios, aprender com a realidade brasileira, ouvir as demandas populares e se engajar nas lutas concretas do dia a dia, como a defesa do BPC ou a redução da jornada de trabalho. A reconstrução de uma alternativa revolucionária é vista como um trabalho longo, sem glamour, mas que precisa começar imediatamente, transformando a angústia atual em um “fantasma” a assombrar a ordem estabelecida.
Indicações
Books
- Cinismo e a Morte da Esquerda — Livro escrito a quatro mãos por Jonas Manoel e Eribaldo Maia, que é o tema central do episódio. Analisa a crise, o cinismo e a paralisia da esquerda brasileira a partir de uma perspectiva teórica, histórica e filosófica.
Concepts
- Mito da Correlação de Forças — Conceito central criticado por ambos os autores. Refere-se à retórica usada pela esquerda hegemônica para justificar recuos constantes e a falta de iniciativa política, tratando a correlação de forças como um dado imutável em vez de um campo de disputa.
- Chantagem Liberal — Conceito de Slavoj Žižek, mencionado por Eribaldo Maia. Descreve a estratégia de forçar o apoio a um candidato ou governo (o ‘mal menor’) sob a ameaça do retorno do fascismo, mesmo quando suas políticas alimentam as condições para o crescimento da extrema-direita.
People
- Mark Fisher — Autor citado por Eribaldo Maia em relação aos conceitos de ‘realismo capitalista’ e ‘superego leninista severo’, usados para analisar a paralisia discursiva e os vícios da esquerda radical.
- Vladimir Lênin — Referência constante na discussão, especialmente sobre os conceitos de vanguarda (como função, não título) e sobre a necessidade de associar demandas imediatas (‘paz, pão e terra’) a um projeto revolucionário (‘todo poder aos sovietes’).
- Carl Schmitt — Citado por Eribaldo Maia com a frase ‘o César é o senhor da gramática’, ilustrando a importância de a esquerda disputar e manter sua própria gramática política para formular problemas e soluções.
- Davi De Castro — Mencionado por Jonas Manoel como uma exceção na esquerda radical por sua capacidade de formular críticas decentes a políticas econômicas complexas, como o novo Teto de Gastos.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Abertura e apresentação do tema do livro — Os apresentadores dão as boas-vindas e introduzem o tema do episódio: a discussão sobre o livro “Cinismo e a Morte da Esquerda”, escrito a quatro mãos por Jonas Manoel e Eribaldo Maia. Eles brincam com a volta do “filho pródigo” (Jonas) ao podcast e explicam que o livro surgiu da angústia compartilhada em um grupo de amigos diante do recuo constante da esquerda.
- 00:04:09 — Origem do livro e os dois eixos da crise — Eribaldo Maia explica a gênese do livro, partindo de um texto seu chamado “A Vergonhosa Morte da Esquerda Brasileira”. Ele delineia os dois eixos discursivos que caracterizam a crise: de um lado, a retórica da justificação do imobilismo (o mito da correlação de forças); de outro, o discurso da impossibilidade, que flerta com o realismo capitalista e acusa qualquer crítica de utopismo. A esquerda estaria morta por não resistir e cínica por reproduzir as condições de sua própria impossibilidade.
- 00:08:12 — Análise teórica vs. receita de bolo e o mito da correlação — Jonas Manoel complementa, explicando que o grupo de amigos de formação diversa permitiu uma análise teórica e histórica profunda, não uma “receita de bolo” tática. Ele critica a autorreferência da esquerda (“sou de esquerda porque sou de esquerda”) e foca no “mito da correlação de forças”, que paralisa a ação ao não perguntar como mudá-la. Para ilustrar, ele contrasta as conquistas arrancadas durante o governo Bolsonaro (como novo Fundeb e piso da enfermagem) com a paralisia atual sob um governo teoricamente aliado.
- 00:15:13 — Exemplo da greve de 2017 e o cinismo da esquerda institucional — Zami (Exame) compartilha sua experiência pessoal na greve geral de 2017 como um momento de certeza sobre a “morte” da esquerda. Ele descreve como uma mobilização massiva foi desmobilizada quando a negociação foi levada para o campo do inimigo (o Congresso), seguindo uma lógica cínica de defesa do imposto sindical em detrimento da classe trabalhadora. Ele também relata um caso no trabalho onde pessoas de esquerda fugiam do diálogo diante de críticas legítimas de uma colega reacionária sobre votos do PT contra pessoas com autismo, exemplificando a negação das contradições.
- 00:22:13 — Abandono da gramática política e a ascensão do moralismo — Eribaldo Maia desenvolve a analogia militar de não jogar no campo do inimigo, expandindo-a para o abandono da “gramática” política da esquerda. Ao assimilar a gramática do adversário (como a lógica do empreendedorismo), a esquerda perde seus referenciais e a capacidade de se diferenciar. O que sobra é um moralismo e uma performance estética (camisa vermelha, chapéu do MST) vazios de conteúdo político transformador. Ele argumenta que a direita tem sido mais eficaz em pautar o debate, a ponto de um reacionário poder criticar legitimamente um governo de esquerda por fazer políticas de direita.
- 00:29:25 — A esquerda radical também é parte do problema — Jonas Manoel introduz uma autocrítica crucial: a esquerda radical também é responsável pela situação, ainda que em menor grau que a hegemônica. Ele argumenta que se a esquerda radical tivesse mais força social (como na Argentina sob Cristina Kirchner), pressionaria a esquerda hegemônica para a esquerda. No entanto, a esquerda radical brasileira sofre com a autoproclamação como vanguarda (um título, não uma função), o desconhecimento do Brasil, propostas econômicas mirabolantes (como a auditoria da dívida como solução mágica) e um vício em glorificar experiências socialistas estrangeiras (“cosplay de bolchevique”) em vez de atuar nas lutas concretas.
- 00:43:53 — Superego leninista, déficit de escuta e a necessidade de vínculo — Eribaldo Maia aprofunda a crítica à esquerda radical através do conceito de Mark Fisher do “superego leninista severo”, que gera um moralismo de superioridade e um “narcisismo das pequenas diferenças” que impede a união e a frente comum. Ele destaca o déficit de escuta: a esquerda radical acha que precisa ensinar a “ciência imortal” ao proletariado, quando na verdade precisa aprender com as pessoas, ouvir suas demandas imediatas (como paz, pão e terra) e dar corpo revolucionário a elas. A construção de vínculos afetivos e de confiança, como fazem as igrejas neopentecostais, é essencial.
- 00:59:48 — A importância de entender orçamento e política pública — Jonas Manoel e Eribaldo Maia enfatizam que a esquerda radical precisa entender o básico de orçamento e política pública para fazer crítica e agitação eficazes. Jonas relata um caso chocante de uma reunião de direção partidária onde se debatia congelamento de preços nos moldes dos anos 80, ignorando completamente as causas reais da alta de alimentos em 2021 (destruição de estoques reguladores e falta de limite à exportação). Ele critica a simplificação da dívida pública como solução mágica e alerta para o surgimento de uma nova burguesia especializada em gerir bens públicos privatizados via PPPs, um inimigo concreto que a esquerda precisa entender.
- 01:09:17 — O negacionismo político e a chantagem liberal — Eribaldo Maia analisa o “negacionismo político” da esquerda hegemônica. Ele descreve como ela cria uma mitologia para justificar contradições flagrantes (ex.: discurso ambiental vs. plano safra recorde para o agronegócio; lista de isenções fiscais lançada por Haddad, mas pacote que não as mexe). Essa estratégia se alimenta da “chantagem liberal” (conceito de Zizek): a ideia de que, para evitar o fascismo, é preciso apoiar incondicionalmente o mal menor, mesmo quando suas políticas (de austeridade, ataque a direitos) geram o mal-estar social que alimenta a extrema-direita. É um curto-circuito que nega a realidade e produz sua própria impossibilidade.
- 01:23:28 — Considerações finais: o cinismo em ação e a urgência de recomeçar — Jonas Manoel conclui exemplificando o cinismo com o caso do BPC: primeiro, mentiras de que não havia ataque; depois, após a derrota no Congresso, alegação de que Lula vetaria (sendo que foi o governo que propôs). Ele critica a omissão de figuras como Guilherme Boulos. Esse cinismo destrói a credibilidade. A mensagem final é de urgência, não de desespero: é preciso começar agora, sem glamour, a construir uma alternativa revolucionária a partir do trabalho cotidiano, das lutas concretas e da superação dos vícios diagnosticados. O livro é apresentado como uma contribuição para esse debate necessário.
Dados do Episódio
- Podcast: Revolushow
- Autor: Revolushow
- Categoria: News Politics
- Publicado: 2024-12-27T12:31:31Z
- Duração: 01:37:16
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/revolushow/ca3a2360-cb21-0134-10da-25324e2a541d/200-cinismo-e-a-morte-da-esquerda/f5d097bf-9bb3-423f-b845-c30ee85b8ec7
- UUID Episódio: f5d097bf-9bb3-423f-b845-c30ee85b8ec7
Dados do Podcast
- Nome: Revolushow
- Tipo: episodic
- Site: https://revolushow.com/
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Transcrição
[00:00:00] Olá pessoal, estamos começando mais um episódio do Revolu Show, seu podcast de esquerda, mas
[00:00:25] sem perder a ternura. No episódio de hoje, como vocês estão lendo aí, como vocês vão ouvir agora
[00:00:30] nesse momento, nós vamos falar sobre este livro e, na verdade, este tema, que puta que pariu,
[00:00:36] tá foda, que é o cinismo e a morte das esquerdas no nosso querido e terrível Brasil e talvez no
[00:00:42] mundo também. Para falar sobre isso, nós temos aqui o retorno do filho pródigo ao lado esquerdo
[00:00:47] de mim, João Emanuel de Igualas Mães. Teve boatos de que eu estava na pior, mas se isso é estar na
[00:00:56] pior, porra, que aqui é tá bem, né? Só quem tiver aí mais de 30 anos vai lembrar desse meme
[00:01:02] fantástico, né? Infelizmente, vocês aí jovens não vão saber do que eu estou falando. Quero dizer
[00:01:08] que é uma honra e um prazer, nesse final de 2024, voltar à casa, né? A Bíblia Sagrada, ela fala,
[00:01:15] né? Que o filho pródigo sempre volta ao lar e aí o outro filho ciumento fala assim para o pai,
[00:01:22] pai, mas eu sempre estive aqui, sempre cuidei de você, sempre fiz as coisas e você está dando
[00:01:27] mais atenção àquele vagabundo. Aí a Bíblia vem com a lição muito importante, é você sempre esteve
[00:01:34] aqui, mas o outro está desgarrado, ou seja, mais vale ser um vagabundo do que um filho dedicado.
[00:01:39] Então, por isso, eu estou aqui, essa é a lição que fica para a gente falar,
[00:01:45] né? Do novo livro de Aribaldo Maia e de minha autoria. A gente escreveu a quatro mãos e é que
[00:01:52] eu não falei isso a quatro mãos no vídeo, a galera ficou tirando onda, perguntando se a gente era
[00:01:55] ambidesto, mas aí eu não sei se eu entendi a piada, mas é isso, a gente tem livro novo na praça e que
[00:02:02] vai ser um prazer conversar hoje sobre ele no Revoluchou. A última vez que eu vim aqui, o exame
[00:02:10] ainda tinha cabelo, né? Tinha, minha barba estava escura, minha barba ainda, não estava nem
[00:02:15] pensando em paginação de piso, obra, não aguento mais, velho. Ah, o lado esquerdo de Jônio Manuel,
[00:02:22] né? Nós temos aí nosso querido Aribaldo Maia. Diga olá, Aribaldo. Olá, pessoal, dizer que é um
[00:02:28] prazer retornar aqui ao Revoluchou, dizer e defender um pouquinho o Jones, né? Que é uma coisa que eu
[00:02:33] não faço muito, que é dizer que foi a quatro mãos que a gente escreveu digitando, né? Precisa de duas
[00:02:38] mãos para digitar no teclado, então, portanto, foi a quatro mãos mesmo que a gente escreveu. É isso.
[00:02:43] E além desse sermão psicodélico que o Jones deu pra gente, dizer que vai ser um prazer conversar
[00:02:49] sobre esse tema, que eu acho que é muito importante, muito fundamental, terminou que a gente
[00:02:53] tocou em questões importantíssimas para a esquerda no livro e que a gente vai trocar aqui uma ideia
[00:03:00] com todo mundo aqui. Muito bom, muito bem. Esse livro, né? Quando eu vi a chamada dele, a primeira
[00:03:09] coisa que veio na minha cabeça é, porra, estou querendo gravar sobre a morte da esquerda, já tem um tempo,
[00:03:13] né? Pensado no sapato, não sei o que, mas eu fico num misto de preguiça e, ao mesmo tempo, coisa demais
[00:03:21] para fazer, ao mesmo tempo, e aí não consegui organizar nada. E quando eu vi o livro, eu falei assim,
[00:03:25] bom, é isso. Vamos falar com o Jones e com o Eribaldo e vamos gravar sobre isso, que é extremamente
[00:03:31] importante. Eribaldo. Vou começar pelo Eribaldo, porque eu vou fazer essa maldade com o Jones hoje.
[00:03:37] É, faz muito tempo que eu não faço essa maldade com o Jones.
[00:03:43] É, desse livro, que eu não sei como é que surgiu, mas aí vai passar para o nosso público, no geral, né?
[00:03:49] Do cinismo e da morte da esquerda brasileira, né? Enfim, como é que surgiu a ideia de escrever sobre
[00:03:55] isso, além de, obviamente, uma angústia terrível, né? Que vem nos assolando aí, já tem um bom tempo,
[00:04:03] né? E nos últimos presentes anos também vem assolando cada vez mais, né? Como é que veio essa parada?
[00:04:09] É, eu acho que essa ideia…
[00:04:13] A ideia do livro surgiu um pouco partindo do grupo onde eu e o Jones faz parte, né? Dos amigos aí.
[00:04:20] E a gente sempre troca notícias das políticas, vez ou outra, no intervalo das conversas de
[00:04:28] besteirol, a gente troca uma notícia ou outra. E são sempre notícias muito otimistas, muito para
[00:04:32] cima, né? E você vai se angustiando nesse processo, né? E terminou que eu tinha escrito um texto
[00:04:40] chamado…
[00:04:43] A Vergonhosa Morte da Esquerda Brasileira. E, a partir disso, o Jones teve o estalo da gente desenvolver
[00:04:50] essa ideia num livro, né? Então, o Jones deu essa ideia de a gente pegar textos, reelaborar textos,
[00:04:58] escrever textos inéditos, chamar pessoas para compor o livro também, como o caso do De Casta e de Adelaide,
[00:05:07] que está na orelha, enfim. E tentar desenvolver um pouco uma ideia que é…
[00:05:13] Para quem serve a esquerda, finalmente? Se é só para gerir a ordem, se é só para ficar fazendo
[00:05:23] oposições. Ou seja, para quem serve a esquerda, né? Já que faz tanto tempo que a gente tem uma
[00:05:28] sensação de recuo e de derrota. A gente não tem mais uma sensação, há muito tempo, de avançar.
[00:05:35] Ou de, ao menos, de conseguir impor uma resistência suficientemente forte que consiga barrar o avanço,
[00:05:43] da direita, da extrema-direita. Eu acho que, diante desse cenário, foi que surgiu um pouco a ideia do livro,
[00:05:50] onde eu acho que tem dois caminhos, assim, de perguntas, né? De questões. De um lado, né?
[00:05:58] Você tem um conjunto de discursos, por assim dizer, que estão dentro daquela retórica, que é a retórica
[00:06:06] da justificação do imobilismo, da qual, talvez, e Jones sempre fala sobre isso, porque eu acho que foi a parte
[00:06:13] mais, que é o mito da correlação de forças, né? Da eterna correlação de forças que nunca muda, que sempre
[00:06:20] piora e isso justifica você sempre estar recuando, recuando, recuando, negociando, negociando, negociando
[00:06:26] sempre para pior, né? Então, você vai de eleição em eleição, de mal menor a mal menor, o mal vai se
[00:06:33] tornando cada vez maior, né? E, de um outro lado, um conjunto de discursos que é um discurso que
[00:06:42] flerta com o que Mark Fisher chama de realismo capitalista, que é o discurso da impossibilidade.
[00:06:49] Então, veja, se você está criticando essa esquerda que está falando de que a correlação de forças não
[00:06:54] permite fazer nada, etc., é porque você é um utópico sonhador que está propondo um conjunto de propostas
[00:07:01] políticas que são irreais e, muitas vezes, as pessoas não estão nem propondo uma revolução socialista,
[00:07:06] uma revolução comunista, etc. Às vezes, a pessoa está cobrando uma promessa de campanha e, aí, cobrar essa
[00:07:12] promessa é algo impossível. Então, você é um web comunista, você é um web socialista, você é uma pessoa que nunca
[00:07:18] trabalhou e todo esse tipo de discurso que a gente vê circulando na internet. Então, acho que esses dois
[00:07:24] campos ideológicos discursivos, por assim dizer, refletem isso que a gente chama de um cinismo e a
[00:07:31] morte da esquerda brasileira, né? Morte porque é uma esquerda que não consegue mais resistir e propor
[00:07:37] alternativas em relação à ofensiva da direita e da extrema-direita e cinismo porque ela,
[00:07:42] cinicamente, de um modo cínico, se coloca e reproduz as condições da sua própria impossibilidade
[00:07:50] de existir, né? Então, acho que é mais ou menos esses dois elementos centrais, pelo menos ao meu ver,
[00:07:58] que motivaram a feitura do livro, né? Dois elementos centrais aí, simples, tranquilos de a gente pensar, né?
[00:08:09] Jones, sinta-se à vontade aí.
[00:08:12] Veja, a gente tem um grupo de amigos, né? Que a gente criou na época da pandemia para não surtar, né?
[00:08:21] E aí, esse grupo serve para resenha, serve para brincadeira e serve para debater política, né?
[00:08:26] E a gente criou uma brincadeira interna no grupo que é o eribaldismo cultural, né?
[00:08:33] Que é basicamente a ideia de que tudo que está ruim vai piorar, né? E qual é a explicação para isso?
[00:08:42] Tem uma coisa de realismo mágico, à la Gabo, né? Que é dizer que enterraram a cabeça de burro no Brasil
[00:08:49] e de lá para cá nada nunca mais vai dar certo. E tem um elemento de olhar o que é a devastação teórica,
[00:08:57] política, imaginativa e organizativa do que se chama vulgarmente de esquerda brasileira, né?
[00:09:03] Então, há muito tempo, há muitos anos, que a gente vem constantemente trocando ideias, debatendo
[00:09:07] e aí tem uma coisa muito legal que esse grupo de amigos…
[00:09:12] Gente com formações bem diferentes, né?
[00:09:14] Eribaldo, embora venha da história, como é o meu caso, é um cara muito voltado para o debate da filosofia,
[00:09:19] da psicanálise, da psicologia, um cara que manja muito de arte, embora tenha um gosto cinematográfico
[00:09:25] ultra duvidoso e por aí vai.
[00:09:27] Eu sou alguém que veio da história também, só que com o tempo fui migrando muito mais para um debate
[00:09:35] sociológico, de história do Brasil, do movimento operário, também nos últimos tempos focando cada vez mais
[00:09:42] no debate.
[00:09:42] O Clídes é um cara que vem da história, mas também da geografia, debate de questão militar.
[00:09:48] Paulinho é veterinário, é o médico da gente, inclusive.
[00:09:51] Durante a pandemia, quando a gente estava com algum problema, a Paulinho, veterinário,
[00:09:56] se a gente precisava ir no médico ou não.
[00:09:58] O Paulo é um cara de saúde do trabalhador, que debate saúde coletiva.
[00:10:03] Maxwell migrou para a tecnologia, mas vem da história também.
[00:10:06] Pesquisou o movimento operário na intersecção com o movimento negro, no mestrado dele.
[00:10:11] Ele fez uma dissertação.
[00:10:12] É um mestrado muito interessante.
[00:10:13] Então, essa influência de coisas, o Belo Deus seria assim, fala, olha, Ibaldo, vamos sintetizar a argumentação,
[00:10:22] porque qual é a premissa aqui, Zami?
[00:10:24] Eu acho que o Ibaldo vai concordar integralmente.
[00:10:29] Existem os absurdos do dia a dia.
[00:10:33] A gente não pode só ficar comentando os absurdos do dia a dia.
[00:10:38] A suposta esquerda está apoiando um projeto do Eduardo.
[00:10:42] Eduardo Paes, que legitima ataque à educação pública e aos professores.
[00:10:47] A suposta esquerda está calada com o fato do BNDES estar ajudando a privatizar escolas,
[00:10:54] inclusive a privatização de escolas que está se desfreitas da Fazenda de São Paulo,
[00:10:58] é com o apoio do BNDES.
[00:11:00] A suposta esquerda está, os ministros indicando suas esposas, tudo para cargo no TCU,
[00:11:06] no Tribunal de Contas, para ganhar 40 mil reais para o resto da vida.
[00:11:12] Todos esses fatos, se a gente não consegue olhá-los a partir de uma análise teórica mais profunda,
[00:11:19] eles viram, como diria Marx, batatas num saco de batatas.
[00:11:23] Vira só um ajuntamento de fatos que nessa conjuntura, na era da internet,
[00:11:28] informação acelerada diária, a gente acaba perdendo o fio, a conexão.
[00:11:32] Então, o que a gente se propôs?
[00:11:34] A gente se propôs muito mais uma análise teórica, histórica e filosófica
[00:11:39] sobre esses pressupostos dessa morte da esquerda.
[00:11:42] Do que uma receita de bolo, um debate eleitoral, de tática eleitoral,
[00:11:46] de tática discursiva imediata.
[00:11:49] Então, eu acho que, por exemplo, a Herbaldo faz um debate muito bom
[00:11:53] sobre o elemento de falta de iniciativa política e, colocando com minhas palavras,
[00:12:00] uma coisa meio autorreferenciada.
[00:12:02] Então, assim, sou de esquerda porque sou de esquerda, porque sou muito revolucionário,
[00:12:06] porque sou pelo pobre.
[00:12:07] Aí, a realidade, o pobre, a revolução é uma questão menor.
[00:12:12] É como eu me autorreferencio e eu fico satisfeito com minha autorreferência
[00:12:16] e não tenho iniciativa política para nada.
[00:12:19] Eu foquei muito no debate, como a Herbaldo colocou,
[00:12:21] sobre o mito da correlação de forças e como não se percebe a política
[00:12:27] como um campo de disputas.
[00:12:30] Então, a correlação de forças está desfavorável, beleza.
[00:12:32] Por quê? E como mudá-la?
[00:12:35] Porque, assim, a correlação de forças está desfavorável.
[00:12:38] Não, está tranquilo.
[00:12:39] Isso aí choveu numa olhada.
[00:12:42] Como é que a gente faz?
[00:12:43] Então, acho que tem um debate filosófico, Zami,
[00:12:46] porque tem várias coisas que estão passando.
[00:12:48] E aí, só para fechar o raciocínio,
[00:12:51] eu comecei a fazer um levantamento
[00:12:52] sobre vitórias que a gente teve no Congresso durante o governo Bolsonaro.
[00:12:59] Por quê?
[00:13:00] O que é que eu estou querendo mostrar?
[00:13:01] E, provavelmente, eu grave um vídeo sobre isso antes de entrar de férias.
[00:13:04] Bicho, durante o governo Bolsonaro,
[00:13:06] como existia um pressuposto de que todo mundo que tem cheiro de esquerda
[00:13:10] não vai estar…
[00:13:12] defendendo as merdas do governo Bolsonaro,
[00:13:15] tudo que é sindicato, movimento social, jornalista, intelectual, coletivo,
[00:13:21] todo mundo ia para cima das merdas do Bolsonaro.
[00:13:24] Mesmo com o Congresso arquirreacionário, golpista,
[00:13:28] um texto fascistóide e tal,
[00:13:30] a gente conseguiu arrancar novo Fundeb,
[00:13:32] a gente conseguiu arrancar o piso da enfermagem,
[00:13:34] a gente conseguiu arrancar auxílio emergencial de 600 reais,
[00:13:37] a gente conseguiu impedir a privatização da atenção primária à saúde,
[00:13:42] Bolsonaro tentou, gente,
[00:13:43] apresentou a medida provisória, foi derrotado,
[00:13:47] a gente conseguiu mudar o padrão de concessão de benefícios sociais,
[00:13:51] fortalecendo as políticas sociais,
[00:13:54] conseguiu, por exemplo, ser aprovado em 2020
[00:13:57] que uma família que recebe BPC e tem, por exemplo,
[00:14:01] dois idosos que recebem o BPC Luas,
[00:14:03] essa família pode ter dois BPCs Luas,
[00:14:06] tudo isso foi conquista durante o governo Bolsonaro,
[00:14:09] que a gente arrancou…
[00:14:10] Vou aproveitar isso aí que você falou,
[00:14:12] específica do BPC,
[00:14:13] que me toca enquanto assistente social,
[00:14:15] isso é uma pauta do Conselho Federal de Serviço Social,
[00:14:19] dos Conselhos de Serviço Social,
[00:14:20] só de mais de 20 anos.
[00:14:21] Pois é, e a gente arrancou em 2020.
[00:14:24] Governo Bolsonaro, Congresso Arte e Reacionário,
[00:14:28] tudo isso que a gente sabe.
[00:14:30] Só que agora a gente está tendo menos conquistas,
[00:14:32] teoricamente uma situação melhor,
[00:14:34] já que o Executivo Federal, teoricamente,
[00:14:38] seria aliado da classe trabalhadora,
[00:14:41] vai colocar o pobre no orçamento
[00:14:42] e o rico no imposto de renda, e por aí vai.
[00:14:45] Então, assim, tem algo aqui para explicar
[00:14:48] de maneira mais profunda,
[00:14:50] indo até as raízes, aos fundamentos do problema,
[00:14:54] e acho que foi isso que a gente tentou fazer.
[00:14:57] Muito bom.
[00:14:59] Joane, deixa seu microfone sempre no mudo,
[00:15:02] porque ele está dando retorno.
[00:15:04] Aí, beleza.
[00:15:06] Vou bater a palminha para a edição, né?
[00:15:07] Agora, eu sou o editor desse podcast.
[00:15:09] De novo.
[00:15:11] Então, esse ponto, né?
[00:15:13] Acho que vocês trouxeram muitos elementos,
[00:15:15] que são elementos que são essenciais
[00:15:19] e que a gente vai entrar mais à frente
[00:15:20] nessa discussão aqui do podcast.
[00:15:24] E eu estou aqui tentando me lembrar
[00:15:25] do momento em que eu falei assim,
[00:15:27] nossa, bicho, a parte considerável da esquerda morreu aqui.
[00:15:29] Sabe?
[00:15:31] E, para mim, acho que…
[00:15:34] Enfim, um ponto para mim que foi um ponto
[00:15:36] de certeza dessa obviedade
[00:15:40] foi lá para 2020,
[00:15:41] 2017, mais ou menos.
[00:15:42] É antes, né? Bem antes, na verdade.
[00:15:44] Acho que ali, no período da Dilma, já estava um negócio
[00:15:46] meio bizarro, né?
[00:15:48] Mas, em 2017, quando teve
[00:15:51] a greve geral, de 2017,
[00:15:53] não sei se todo mundo lembra aqui,
[00:15:54] e aí, da qual eu participei,
[00:15:57] não era organizado politicamente,
[00:15:58] mas participei do processo
[00:15:59] reorganizado politicamente,
[00:16:02] foi organizado politicamente muitos anos atrás.
[00:16:05] E aí, eu participei,
[00:16:06] e teve um momento ali que foi realmente
[00:16:09] uma mobilização gigantesca,
[00:16:11] em volta redonda, eu não vi uma mobilização dessa
[00:16:12] há muitos anos, e
[00:16:14] o Michel Temer foi lá,
[00:16:17] negociou o imposto sindical
[00:16:19] e morreu Maria
[00:16:20] na organização seguinte, né?
[00:16:23] Da greve.
[00:16:24] E eu fiquei assim, puta que pariu, né?
[00:16:26] Então, assim, os caras dão essa concessão,
[00:16:29] obviamente, puxa para o campo deles,
[00:16:31] porque tem um pressuposto militar básico
[00:16:33] que é o seguinte,
[00:16:35] você
[00:16:36] não deve
[00:16:38] tentar jogar no campo
[00:16:40] do inimigo.
[00:16:42] Você tem que arrastar o seu inimigo para o seu campo.
[00:16:45] Porque, ao arrastar
[00:16:46] para o seu campo, você toma controle
[00:16:48] do que você está fazendo.
[00:16:50] Então, quando o Michel Temer faz isso, o que ele faz?
[00:16:52] Ele arrasta esse campo
[00:16:54] para o campo que ele tem mais possibilidade
[00:16:57] de embate,
[00:16:59] que não é a rua,
[00:17:01] que é o Congresso,
[00:17:03] que é
[00:17:04] os corredores ali
[00:17:06] do Palácio do Planalto,
[00:17:08] que é essa área, né?
[00:17:10] E a galera vai, né?
[00:17:13] Vai, sim.
[00:17:13] Teve uma ascensão de mobilização absurda.
[00:17:17] Na seguinte,
[00:17:18] deveria mobilizar ainda mais, né?
[00:17:20] Para você crescer isso.
[00:17:22] Não, ele vai e arrasta
[00:17:23] para o campo dele.
[00:17:25] E o que acontece logo depois, em seguida,
[00:17:28] é o Impocínio Calmorra
[00:17:30] do mesmo jeito, né?
[00:17:31] Da mesma forma, né?
[00:17:33] Então, assim, era uma mobilização hipócrita,
[00:17:36] cínica, né?
[00:17:37] De, na verdade, de defesa
[00:17:39] do imposto sindical, na defesa da classe
[00:17:41] trabalhadora, né?
[00:17:43] Que fica óbvio na mobilização
[00:17:45] seguinte, em que esse campo,
[00:17:47] né? Que aí tem a CTB,
[00:17:49] tem a CUT, né?
[00:17:51] E outras
[00:17:52] centrais sindicais aí,
[00:17:55] obviamente, pelegas, né?
[00:17:57] Tem as que são não, obviamente,
[00:17:59] pelegas. E que desaparecem,
[00:18:01] né? Que desaparecem e desmobilizam tudo.
[00:18:04] Nesse processo.
[00:18:06] E perdem, né?
[00:18:07] Então, eu acho que fica muito esse movimento,
[00:18:09] né? Esse movimento dos últimos
[00:18:11] anos, né? Eu acho dos últimos
[00:18:13] 24 anos, né?
[00:18:15] Pra ser, pra no mínimo,
[00:18:17] dizer, né? Porque tem mais.
[00:18:19] De fazer esse movimento de você,
[00:18:22] né? O Lenin tem um texto que é
[00:18:23] dois passos pra frente, um passo atrás, né? E a galera é tipo assim,
[00:18:25] três passos pra trás, um passo pra frente.
[00:18:28] Né? Então,
[00:18:29] fica nesse movimento de três passos pra trás, um passo
[00:18:31] pra frente, né? Três passos atrás, um passo
[00:18:33] pra frente. Da qual
[00:18:35] eu já ouvi uma piada uma vez, que, na verdade,
[00:18:37] a tática é uma tática,
[00:18:39] simples, né? A terra é redonda, né? Você vai dando
[00:18:41] três passos atrás, um passo pra frente.
[00:18:43] Uma hora você consegue pegar a burguesia pelas costas.
[00:18:45] Porque parece que é isso que vai fazer,
[00:18:47] né? Porque se essa galera tem uma estratégia, uma estratégia
[00:18:49] tão boa que ninguém sabe, nem eles.
[00:18:52] Né?
[00:18:53] Então, a gente tá nesse momento, né?
[00:18:55] Que é esse momento de, ao mesmo tempo, a gente reorganizar
[00:18:57] as forças
[00:18:59] da esquerda radical e, ao mesmo
[00:19:01] tempo, ter que se deparar
[00:19:03] com essas forças de uma suposta esquerda
[00:19:06] que fica trucada
[00:19:07] no meio do caminho, né?
[00:19:09] Que eu vi ao vivo isso
[00:19:11] esses dias no meu trabalho. No trabalho, no local
[00:19:13] que eu não vou citar onde eu trabalho, porque
[00:19:15] as pessoas têm um porco de arma
[00:19:17] e outras coisas a mais,
[00:19:20] né? Então, assim, no meu trabalho
[00:19:21] eu tava me deparando pra conversar com uma psicóloga
[00:19:24] extremamente racionária
[00:19:25] e ter que concordar com ela, porque ela tava
[00:19:27] reclamando, né? Porque ela tem um filho com autismo,
[00:19:30] de que, no processo de passar
[00:19:31] o BPC, de passar várias coisas
[00:19:33] no Congresso,
[00:19:35] os congressistas da assim chamada
[00:19:37] esquerda votaram a favor
[00:19:39] de, né, limitar um monte
[00:19:41] de coisa relacionada ao autismo,
[00:19:43] né? Ao aspecto autismo,
[00:19:45] autista e etc e tudo mais. E ela
[00:19:47] com razão reclamando disso e com razão
[00:19:49] falando assim, tá vendo? Essa porra aí, falou que não ia fazer
[00:19:51] o caralho de hipocrisia do
[00:19:53] cara aí, ela é reacionária, sabe?
[00:19:56] E eu assim, bom, concordo
[00:19:57] com você, nessa parte. E o resto,
[00:20:00] né? E aí, as outras pessoas que minimamente,
[00:20:02] né? Tipo, ah, votei no Lula, pá, não sei o que,
[00:20:03] sou de esquerda, simplesmente saíam.
[00:20:07] Saiam, assim,
[00:20:07] diálogo zero, não quer diálogo, medo
[00:20:09] de conversar com as pessoas,
[00:20:11] porque é isso, né? Assim, é a
[00:20:13] contradição levada ao máximo
[00:20:15] e as pessoas não querem aceitar essa contradição levada
[00:20:17] ao máximo. Elas entram num processo
[00:20:19] de negação, né? Dessa
[00:20:21] contradição e simplesmente
[00:20:23] somem, né? Como se
[00:20:25] as coisas fossem resolver
[00:20:27] magicamente, né? E no
[00:20:29] final, a culpa, né? Do, do, da
[00:20:31] extrema direita crescer, vai
[00:20:33] ser de quem? Da esquerda radical, que apontou
[00:20:35] as contradições, como se,
[00:20:37] né? As pessoas,
[00:20:39] que estão no nosso entorno, fossem burras,
[00:20:42] né? E totalmente incapazes
[00:20:43] de ver o óbvio, né?
[00:20:45] É, porque é isso, né? Assim,
[00:20:47] é o óbvio que tá ocorrendo, né?
[00:20:49] Assim, preço do arroz
[00:20:51] tá subindo de novo pra 30, subiu pra 30 reais,
[00:20:53] que não era o valor de 30 reais aí de 5
[00:20:55] quilos, né? Algumas coisas
[00:20:57] já, de, de, valor tão subindo, mas, enfim,
[00:20:59] por conta da questão da, da crise climática,
[00:21:01] né? E também por outras questões,
[00:21:03] de especulação, é…
[00:21:05] As pessoas tão vendo esse negócio, sabe?
[00:21:07] E aí você coloca em pauta,
[00:21:09] a nível federal,
[00:21:11] uma bizarrice, como, como, né?
[00:21:13] O ataque ao BPC, o Benefício de Prestação
[00:21:15] Constituada, né? Que até
[00:21:17] alguns anos atrás, né? Eu tava falando
[00:21:19] sobre o ataque do BPC do, do
[00:21:21] governo Bolsonaro, que também tinha
[00:21:23] tentado no governo Michel Temer,
[00:21:25] é… E nesse, o governo tem a capacidade
[00:21:27] de passar, né?
[00:21:29] De tentar passar, né? É…
[00:21:31] E sem vergonha!
[00:21:33] Nenhuma na cara, tá ligado? Sem vergonha,
[00:21:35] nenhuma na cara. Enfim, é…
[00:21:37] Então, esses são os pontos que eu queria,
[00:21:39] queria colocar, acho que os camaradas
[00:21:41] têm muito mais, é…
[00:21:43] a falar sobre. É…
[00:21:45] De, desse momento que a gente tá vivendo
[00:21:47] dessa, dessa morte, né?
[00:21:48] Da, dessa esquerda
[00:21:50] institucionalizada,
[00:21:53] né? Na verdade, desse apodrecimento
[00:21:55] em velocidade, na velocidade
[00:21:57] da luz, né? É…
[00:21:58] Que o que já era ruim há vinte e poucos
[00:22:01] anos atrás, em dois
[00:22:03] anos piorou pra caralho,
[00:22:05] né? É… Tá ocorrendo,
[00:22:07] né? Enfim, é…
[00:22:09] Eribaldo, se você quiser
[00:22:09] falar alguma coisa, sinta-se à vontade.
[00:22:13] É, eu acho que tu, Zé, me trouxe
[00:22:15] uma analogia muito boa,
[00:22:17] que é a analogia da…
[00:22:18] da questão militar, né? De não se jogar
[00:22:20] no campo do adversário, do inimigo, né?
[00:22:24] Porque… E aí,
[00:22:25] trazendo um pouco essa analogia pra um pouco
[00:22:27] da linguagem do que eu tentei fazer
[00:22:29] no livro, né? Que é…
[00:22:31] Esse jogar no campo do inimigo
[00:22:33] não é somente esse processo
[00:22:35] de negociação, mas é
[00:22:36] assim… Uma assimilação de uma própria…
[00:22:39] de uma própria gramática, né?
[00:22:41] E aí, gramática no sentido de, tipo,
[00:22:43] a gente fala português, a gente pode falar, cada um
[00:22:45] pode falar o que quer, mas a gente fala
[00:22:46] dados os problemas de erros
[00:22:49] do português coloquial que todo mundo tem,
[00:22:51] a gente fala baseado numa gramática,
[00:22:53] num conjunto de regras
[00:22:55] que determinam o que…
[00:22:56] e como a gente vai falar.
[00:22:59] Quando você entra no campo do adversário,
[00:23:01] você vai politicamente falar dentro de um
[00:23:03] conjunto de regras que é determinado por esse adversário.
[00:23:05] Então você vê que isso não tá
[00:23:07] somente nessa negociação, mas tá, por exemplo,
[00:23:09] quando se
[00:23:11] abre mão da luta pelos
[00:23:13] trabalhadores em prol de uma…
[00:23:15] de dialogar
[00:23:17] com as pessoas
[00:23:18] da classe média baixa
[00:23:21] e pobres pela lógica
[00:23:23] do empreendedorismo
[00:23:24] que tá, por exemplo, muito relacionada
[00:23:27] a essa lógica de contar
[00:23:29] o número de empregados
[00:23:30] pelo número de pessoas em ultra-precarização
[00:23:33] em trabalhos
[00:23:34] precários. Por exemplo, a pessoa vende fruta
[00:23:37] na feira duas vezes por semana.
[00:23:39] Ou a pessoa trabalha de Uber.
[00:23:41] Ou a pessoa trabalha de entregador
[00:23:43] com bicicleta alugada
[00:23:44] daquelas bicicletas que aluga
[00:23:46] nas praças, etc.
[00:23:49] Então você termina esquecendo
[00:23:51] o que constitui
[00:23:55] a esquerda, não somente
[00:23:57] a partir dos símbolos, das cores,
[00:24:01] de um certo moralismo
[00:24:03] de esquerda que substitui…
[00:24:05] Fischer diz algo muito interessante.
[00:24:07] Quando você não…
[00:24:09] Quando você não tem mais conteúdo político,
[00:24:10] só sobra o moralismo.
[00:24:12] Então você começa a surgir
[00:24:15] um moralismo de esquerda
[00:24:16] que também se reflete numa performance
[00:24:19] de esquerda, que foi um pouco o que o Jones falou.
[00:24:22] Então você
[00:24:22] é lulista,
[00:24:26] você anda com o chapéu do MST
[00:24:27] e aí nada contra, não é um problema isso,
[00:24:29] mas você anda com o chapéu do MST,
[00:24:31] veste a camisa vermelha,
[00:24:33] fica fazendo ela em toda foto.
[00:24:34] Ontem mesmo eu vi uma conhecida no Instagram
[00:24:37] que o aniversário dela tem uma toalha,
[00:24:39] uma toalha de lula atrás do bolo
[00:24:41] e é isso.
[00:24:43] Quando você parte para
[00:24:45] a política pragmática,
[00:24:49] para a prática política,
[00:24:51] para a construção,
[00:24:53] porque a política não é somente a defesa
[00:24:55] do que você acredita ser certo,
[00:24:57] mas é a construção de fazer com que
[00:24:59] aquilo que você acredita ser certo
[00:25:01] se torne material e concreto
[00:25:03] na vida das pessoas.
[00:25:04] Se você não faz isso, você não está fazendo nada.
[00:25:07] E aí o que acontece?
[00:25:09] A direita tem feito isso
[00:25:11] de uma maneira muito mais eficiente
[00:25:12] a tal ponto que não somente
[00:25:15] a esquerda, por ter abandonado
[00:25:16] sua gramática, por ter abandonado
[00:25:19] e aí quando você abandona sua gramática,
[00:25:21] você abandona seus referenciais,
[00:25:23] você abandona, você perde a capacidade
[00:25:25] de defender e de produzir
[00:25:27] trincheiras que demarcam
[00:25:29] a sua diferenciação
[00:25:31] com o seu inimigo,
[00:25:33] fazendo com que não haja mais diferenciação
[00:25:35] a ponto de que uma pessoa reacionária
[00:25:37] vai legitimamente
[00:25:38] criticar um governo de esquerda
[00:25:41] porque o governo de esquerda está fazendo
[00:25:42] pautas que um governo de direita faria
[00:25:45] enquanto você vai ver no Congresso
[00:25:47] o centrão defendendo
[00:25:49] uma pauta
[00:25:51] que é uma pauta de esquerda
[00:25:53] ainda que feita de maneira
[00:25:55] cínica, completamente cínica
[00:25:56] para se aproveitar disso e para poder
[00:25:59] enfim, influir no jogo político.
[00:26:02] Isso tudo para dizer que a crise das esquerdas
[00:26:05] que leva a essa morte
[00:26:06] ela não é somente uma crise
[00:26:08] de falta de
[00:26:10] uma explicação um pouco racionalista
[00:26:12] como se fosse só uma falta de convicção
[00:26:14] política das pessoas.
[00:26:16] Então o petista,
[00:26:17] o lulista desse campo
[00:26:21] democrático popular, por assim dizer,
[00:26:23] ele entrou nessa
[00:26:24] porque ele convictamente é um peleiro.
[00:26:27] Ele convictamente
[00:26:29] é uma pessoa que
[00:26:30] abandonou suas pautas.
[00:26:32] Alguns eu acredito que sim,
[00:26:34] outros não. Outros estão achando que
[00:26:36] são de esquerda fazendo o que estão fazendo.
[00:26:39] Porque esse solo
[00:26:41] que permite surgir uma esquerda
[00:26:42] está sendo degradado pela própria esquerda.
[00:26:46] Então eu acho que
[00:26:47] ao meu ver, se tu viu 2017
[00:26:49] eu acho que você tem resquícios disso
[00:26:51] ao meu ver em 2013
[00:26:53] num momento muito específico
[00:26:55] quando, por exemplo,
[00:26:56] há aquelas movimentações que é uma outra
[00:26:58] explicação para o junho de 2013.
[00:27:00] Há aquela
[00:27:01] explosão de reivindicações
[00:27:03] que são reivindicações, apesar de muito
[00:27:06] difusas, legítimas
[00:27:07] e a partir disso
[00:27:11] Dilma vai na TV
[00:27:12] anuncia um conjunto de pacotes
[00:27:16] e medidas antineoliberais
[00:27:18] dizendo que vai
[00:27:19] partir para cima, que vai produzir
[00:27:22] um conjunto de investimentos estatais
[00:27:24] etc.
[00:27:25] E dias depois, se eu não me engano, um dia depois
[00:27:28] ela volta atrás.
[00:27:30] E aí na eleição dela,
[00:27:31] na campanha, ela fala
[00:27:33] que não vai ter austeridade,
[00:27:34] nem que a vaca tussa
[00:27:36] e quando é em 2014
[00:27:38] vem com o Joaquim Levy colocando
[00:27:40] um projeto econômico de austeridade
[00:27:42] violentíssimo, que é quando
[00:27:44] aí sim, não foi em 2013,
[00:27:46] que é quando a popularidade dela realmente começa a cair.
[00:27:49] Ou seja, você tem
[00:27:50] uma degradação do solo de esquerda
[00:27:52] justamente num processo em que a esquerda
[00:27:54] não sustenta mais sua gramática.
[00:27:56] Ou seja, não sustenta mais o solo
[00:27:58] político que permite com que ela
[00:28:00] floresça.
[00:28:01] Ou seja, não aduba
[00:28:03] esse solo, não nutre,
[00:28:04] esse solo de conteúdos que
[00:28:06] permitam a esquerda florescer.
[00:28:08] Tem uma frase muito interessante de Carl Schmitt
[00:28:10] que é o César é o senhor
[00:28:12] da gramática. E que fazer
[00:28:14] política é você se assenhorar
[00:28:16] dessa gramática. É fazer com que
[00:28:18] as pessoas enunciem
[00:28:20] suas vontades e seus desejos políticos
[00:28:22] a partir da sua gramática.
[00:28:25] Se você abandona
[00:28:26] sua própria gramática, você abandona
[00:28:28] a possibilidade das pessoas comuns
[00:28:30] enunciarem seus problemas
[00:28:32] a partir da sua gramática de esquerda.
[00:28:34] Porque a própria esquerda já enuncia
[00:28:36] seus problemas, formula seus problemas,
[00:28:39] formula sua estratégia,
[00:28:40] formula sua estática e formula
[00:28:42] suas soluções
[00:28:44] a partir de um solo que não é mais
[00:28:46] dado por ela. É dado pela direita,
[00:28:49] é dado pela extrema direita.
[00:28:50] A tal ponto de que o que sobrou
[00:28:52] pra esquerda hoje,
[00:28:54] por exemplo, analisando um pouco
[00:28:56] o governo Lula, é que ele tem caído
[00:28:58] na mesma coisa que Dilma caiu
[00:29:00] antes, que é você vai
[00:29:02] recuando, recuando, recuando pra se
[00:29:04] manter no poder. E vende isso como
[00:29:06] estratégia política,
[00:29:09] sapiência política,
[00:29:11] só que vai chegar o momento
[00:29:12] em que você tá com calcanhar
[00:29:14] no abismo.
[00:29:16] Ou você finca a posição pra não
[00:29:18] cair, ou você começa a avançar
[00:29:20] ou você vai pro abismo.
[00:29:24] Então, por exemplo,
[00:29:25] Rodrigo Nunes, ele vai dizer, ó, Dilma
[00:29:26] não caiu porque avançou. Ela
[00:29:28] caiu porque não tinha mais pra onde recuar.
[00:29:31] E me parece que a gente, que a
[00:29:32] burguesia tem dado chão pra recuar,
[00:29:34] porque ela sabe que tá sendo
[00:29:36] benéfico, tá passando coisas que nunca
[00:29:38] passaram antes. Por exemplo, o ataque à BPC,
[00:29:40] abono salarial,
[00:29:42] enfim, privatização do presídio e coisas
[00:29:44] do tipo. Aberrações desse tipo.
[00:29:47] Então você cria uma lógica
[00:29:48] em que ser de esquerda
[00:29:50] se tornou cada vez mais
[00:29:53] uma estética
[00:29:54] cuja
[00:29:56] substância é apenas um moralismo
[00:29:58] e cuja prática política existe
[00:30:00] apenas pra fazer com que essa estética
[00:30:04] exista.
[00:30:04] E que esse moralismo se sustente
[00:30:06] porque você não tem mais nada de diferente.
[00:30:10] Então você se apega
[00:30:11] nesse lugar
[00:30:12] performativo e vazio
[00:30:14] da política e, em última instância,
[00:30:16] cria um fenômeno, e aí pra concluir,
[00:30:18] cria um fenômeno muito complexo
[00:30:21] que a gente tem visto um pouco
[00:30:22] nas redes sociais e que
[00:30:24] de certa forma
[00:30:25] aparece um pouco no livro
[00:30:28] que é uma
[00:30:30] fanatização desse
[00:30:32] campo lulista.
[00:30:34] Então não importa o que faça, não importa
[00:30:36] o que aconteça, não importa
[00:30:38] ou como diz o ditado,
[00:30:41] haja o que haja,
[00:30:42] você vai estar ali defendendo, você vai estar
[00:30:44] ali xingando
[00:30:46] todo mundo, criticando todo mundo que
[00:30:48] critica e naquela eterna lógica de que
[00:30:50] o governo nunca faz nada de errado,
[00:30:53] ele cai por causa
[00:30:55] desses webcomunistas que são
[00:30:56] extremamente irrelevantes,
[00:30:58] porque não elegem ninguém
[00:30:59] e, ao mesmo tempo,
[00:31:02] financiados pela CIA,
[00:31:03] por empresas,
[00:31:04] e que estão ali
[00:31:07] pra destruir
[00:31:09] Lula e o PT, porque eles querem
[00:31:11] tomar a esquerda pra eles
[00:31:13] pagos por uma direita
[00:31:16] que está manipulando
[00:31:17] o jogo político. Ou seja, você tem
[00:31:19] uma esquerda que é morta porque ela é incapaz
[00:31:21] e aí morta não no sentido de que
[00:31:23] acabou a esquerda no Brasil,
[00:31:25] não é isso, obviamente,
[00:31:27] mas morta no sentido que é uma esquerda incapaz
[00:31:30] de estabelecer
[00:31:32] trincheiras e definir
[00:31:33] qual é o seu campo,
[00:31:34] de sustentar as suas pautas
[00:31:36] e de produzir uma gramática
[00:31:39] que articule a luta
[00:31:41] popular e os interesses populares
[00:31:43] em torno dessa
[00:31:44] sua própria gramática.
[00:31:46] Acho que tem um aspecto também
[00:31:48] que aparece no livro
[00:31:50] e que é a maior
[00:31:53] contribuição que ele deu foi a Herbaldo,
[00:31:55] que a gente não fica só na posição
[00:31:56] fácil de criticar a esquerda hegemônica
[00:31:59] e deixar
[00:32:01] os comunistas de lado, né?
[00:32:02] A chamada esquerda radical.
[00:32:04] Porque aí tem um pressuposto aqui
[00:32:06] que eu falei outro dia
[00:32:08] desse numa palestra lá em São Paulo
[00:32:09] e eu acho que eu preciso gravar
[00:32:12] um vídeo sobre isso, que é
[00:32:14] a esquerda hegemônica é tão pelega porque a esquerda radical
[00:32:16] não tem força. Dado que
[00:32:18] se a gente tivesse mais
[00:32:20] força política pra pautar
[00:32:22] o debate público, pra pautar
[00:32:25] mobilização social
[00:32:26] com mais força, ela não conseguiria
[00:32:28] ser tão pelega, porque do lado
[00:32:30] dela teria uma resistência
[00:32:32] muito maior. Então, por exemplo,
[00:32:34] quando a gente vai
[00:32:36] comparar o governo Cristina Kirchner
[00:32:38] com o governo Lula, por exemplo,
[00:32:40] uma das grandes diferenças que fez o governo
[00:32:42] Cristina Kirchner ser mais avançadinho
[00:32:44] propôs uma lei de meios,
[00:32:47] propôs a reestatização da YPF,
[00:32:49] que é o equivalente a Petrobras
[00:32:50] deles, propôs a reestatização
[00:32:52] das ferrovias argentinas,
[00:32:54] que é um símbolo da soberania
[00:32:56] nacional do país, quando o Perón lá
[00:32:58] virou presidente e reestatizou
[00:32:59] as ferrovias da Inglaterra.
[00:33:02] É porque na Argentina,
[00:33:04] tem uma esquerda radical
[00:33:05] com muito mais força e
[00:33:08] relevância social do que a esquerda
[00:33:10] radical brasileira.
[00:33:12] Porque do ponto de vista de concepção de projeto,
[00:33:14] a Cristina Kirchner não é muito diferente do Lula.
[00:33:16] Então tem um elemento que a gente não pode
[00:33:18] só… Ah, é muito bom dizer, ah, o fascismo
[00:33:20] sempre… Ah, aliás, a social-democracia
[00:33:22] sempre degenera pra direita.
[00:33:24] Concordo. Ah,
[00:33:26] a esquerda
[00:33:28] petista é pelega.
[00:33:30] Tamo junto, concordo.
[00:33:32] Ah, o governo Lula
[00:33:33] não toca luta nenhuma.
[00:33:34] Também acho. Ah, a CUT
[00:33:36] não faz nada. Tamo de acordo.
[00:33:39] Dito isto,
[00:33:41] se, por exemplo, pegando o exemplo do mundo
[00:33:42] sindical,
[00:33:44] agora, recentemente, teve o acordo
[00:33:47] da Convenção Coletiva
[00:33:48] dos Bancários.
[00:33:50] O que a CUT fez? A CUT
[00:33:52] defendeu ter 1% só de reajuste
[00:33:54] salarial
[00:33:55] dos bancários do Brasil inteiro.
[00:33:58] E assim os bancos batendo recorde por cima
[00:34:00] de recorde por cima de recorde
[00:34:02] por cima de recorde dos lucros.
[00:34:04] Né? A militância do
[00:34:06] PCBR, que constrói a oposição bancária,
[00:34:09] fez uma luta, fez
[00:34:10] a crítica, fez a mobilização, mas não conseguiu
[00:34:12] derrotar isso. Mas você vê, por exemplo,
[00:34:16] tem uma fundamental
[00:34:17] pra enfrentar
[00:34:18] o sindicalismo pelego da CUT.
[00:34:21] A esquerda radical
[00:34:22] chegou em peso nisso?
[00:34:24] Conseguiu articular? Conseguiu mobilizar?
[00:34:27] É uma pauta, inclusive, que tem
[00:34:28] um apelo popular muito grande. Todo mundo sabe que
[00:34:30] banco no Brasil tem lucro rápido.
[00:34:32] Tá ligado? Não tem nem
[00:34:34] dificuldade de explicar isso.
[00:34:36] Tem alguma coisa errada. Banco no Brasil tem lucro
[00:34:38] recorde e os trabalhadores só ganharam
[00:34:40] 1% de aumento em 2024.
[00:34:42] E a CUT desmobilizando a Assembleia.
[00:34:45] E quando
[00:34:45] ela perdia uma Assembleia
[00:34:47] porque, por exemplo, a categoria decretava
[00:34:50] greve, ela dava um jeito de remarcar
[00:34:52] outra Assembleia, fazer Assembleia online
[00:34:54] até não ter greve.
[00:34:56] Então, eu acho que tem um elemento de olhar
[00:34:58] pra si também. E aqui, veja,
[00:35:00] tem um
[00:35:01] problema na tradição
[00:35:04] leninista, que não é um problema
[00:35:06] de Lênin. Mas é um problema
[00:35:08] na tradição leninista, que é
[00:35:09] Lênin, quando formula a ideia de
[00:35:12] vanguarda revolucionária,
[00:35:14] a ideia de vanguarda revolucionária
[00:35:16] era quase
[00:35:18] com a teorização a nível
[00:35:20] de função.
[00:35:22] Você é vanguarda revolucionária
[00:35:24] se você está conseguindo atuar
[00:35:26] enquanto vanguarda revolucionária.
[00:35:28] Veja, ser vanguarda
[00:35:30] revolucionária não é um título de nobreza.
[00:35:32] Não é um elemento de autorrua.
[00:35:34] Não é uma identidade.
[00:35:36] Não é tipo assim, eu torço pelo esporte do Clube do Recife.
[00:35:38] Não, beleza. Mas não.
[00:35:40] Ser vanguarda é função.
[00:35:42] Você não é vanguarda revolucionária
[00:35:44] se você
[00:35:45] consegue atuar enquanto tal. Então, não é
[00:35:48] título. Não é
[00:35:50] autodesignação. Não é
[00:35:52] elemento de nobreza. Não é elemento de
[00:35:54] superioridade moral. Percebe?
[00:35:56] E aí você vê
[00:35:57] uma esquerda radical que ela tem
[00:36:00] uma tendência a autoproclamação.
[00:36:03] E aí,
[00:36:04] esse elemento que a Heribaldi colocou
[00:36:06] é de se colocar no plano da superioridade.
[00:36:09] Se colocar no plano
[00:36:10] da superioridade. Então, eu sou
[00:36:12] superior moralmente à esquerda
[00:36:14] pelega. Massa.
[00:36:16] O que é que isso significa em termos de ação política?
[00:36:19] Uma tendência
[00:36:20] também a desconhecer o Brasil.
[00:36:23] A ter uma
[00:36:23] baixa
[00:36:25] capacidade formulativa
[00:36:28] sobre a realidade brasileira. Um dos
[00:36:30] exemplos disso é que
[00:36:32] até hoje no debate econômico,
[00:36:34] do que se chama de esquerda radical,
[00:36:36] pupula
[00:36:37] soluções mirabolantes para os problemas
[00:36:40] econômicos da classe trabalhadora. Então,
[00:36:42] uma dessas soluções mirabolantes é, por exemplo,
[00:36:44] dizer assim, não, a gente
[00:36:46] faz auditoria da dívida pública,
[00:36:48] metade do orçamento brasileiro
[00:36:50] vai para pagamento de juros da dívida
[00:36:52] pública. Se a gente faz auditoria, é
[00:36:54] tudo roubo, para de pagar, sobra 50%
[00:36:56] do orçamento e todos os problemas
[00:36:58] estão resolvidos. Veja, isso é falso.
[00:37:01] Do começo ao fim.
[00:37:03] Mas,
[00:37:04] aí, como é uma explicação fácil,
[00:37:07] porque, veja que
[00:37:08] beleza, é isso mesmo? Então, para resolver
[00:37:10] saúde, educação,
[00:37:12] cultura, assistência social, moradia,
[00:37:14] basta só fazer uma auditoria,
[00:37:17] contratar uns
[00:37:18] 20 contador
[00:37:19] e está resolvido. Porra, bicho,
[00:37:22] é fácil demais, está ligado?
[00:37:25] E aí,
[00:37:26] quando não tem, por exemplo, Zan,
[00:37:27] quando o Haddad lançou o projeto
[00:37:30] do novo TETGAS,
[00:37:33] na época,
[00:37:34] a gente ainda estava no
[00:37:36] PCB. A nota do PCB
[00:37:38] saiu com erro de análise
[00:37:39] sobre o novo TETGAS,
[00:37:42] a nota
[00:37:43] da UP saiu com erro de análise
[00:37:46] sobre o novo TETGAS e a nota dos
[00:37:48] maoístas da nova democracia saiu com erro
[00:37:50] de análise. Na prática,
[00:37:53] se o David De Castro
[00:37:54] não existisse,
[00:37:56] boa parte da esquerda radical
[00:37:57] não teria conseguido formular uma crítica
[00:38:00] decente ao novo TETGAS.
[00:38:02] E aí, na cabeça de algumas pessoas,
[00:38:04] David é um social-democrata,
[00:38:05] David é um reformista, é um degenerado,
[00:38:07] porque ele é do PSOL. Então, repare o elemento
[00:38:10] de superioridade moral
[00:38:11] descolado da luta política,
[00:38:14] da prática política, da capacidade
[00:38:16] de entender as coisas, de formular
[00:38:18] um discurso para as amplas massas,
[00:38:20] para a classe trabalhadora organizada.
[00:38:22] E tem um elemento também
[00:38:23] que é um elemento
[00:38:26] de…
[00:38:27] Vou usar uma linguagem mais chula,
[00:38:29] se me permitem, que é gozar
[00:38:31] com o falo dos outros.
[00:38:34] Eu sou comunista, comunista,
[00:38:36] comunista muito radical. O que eu faço
[00:38:38] no Brasil? Nada. Mas eu fico
[00:38:40] divulgando o quanto a Coreia Popular é foda.
[00:38:43] Olha o socialismo lá.
[00:38:45] Socialismo dando certo.
[00:38:46] Eu fico divulgando o quanto a China é foda.
[00:38:49] Eu fico divulgando o quanto
[00:38:50] a União Soviética foi do caralho.
[00:38:52] É claro que a gente precisa conhecer a história
[00:38:54] do movimento operário mundial.
[00:38:56] A história do socialismo no plano global.
[00:38:58] Agora, ser comunista não pode ser
[00:39:01] ser metaleiro.
[00:39:03] Ser emo.
[00:39:04] Que é um bagulho que você monta
[00:39:06] um grupinho que todo mundo consome
[00:39:08] mais ou menos a mesma coisa, se veste
[00:39:10] de maneira semelhante, vai para lugares
[00:39:12] semelhantes e tal. E você cria
[00:39:14] um microgrupo
[00:39:16] cultural e identificação
[00:39:18] ali, né?
[00:39:20] Veja, do caralho. A Coreia Popular
[00:39:22] tem muitas coisas boas.
[00:39:24] Por exemplo, a Coreia Popular
[00:39:25] é autossuficiente em sistemas
[00:39:28] de comunicação. Ela tem
[00:39:30] seu GPS próprio. E o Brasil? Como é que está a situação?
[00:39:32] Está bem?
[00:39:34] Como é que estão as telecomunicações brasileiras?
[00:39:36] Como é que está o sistema de internet brasileiro?
[00:39:38] A gente tem um sistema de satélite próprio?
[00:39:40] As imagens que a gente faz da Amazônia,
[00:39:42] por exemplo, para monitorar desmatamento
[00:39:44] e queimada. A gente sabe
[00:39:46] quem está produzindo essas imagens?
[00:39:48] Eu dou uma dica para vocês, bom gente.
[00:39:50] É empresa que fica
[00:39:52] no grande irmão do norte.
[00:39:55] E esse irmão é tipo
[00:39:56] Caim, viu? Que matou a Bel.
[00:39:58] Então, para vocês saberem, tudo
[00:40:00] imagens de empresas dos Estados Unidos, inclusive imagens
[00:40:02] da NASA.
[00:40:04] Para vocês terem uma ideia,
[00:40:06] a gente não tem capacidade de produzir
[00:40:08] dados qualitativos
[00:40:10] sobre a nossa própria realidade dependendo
[00:40:12] dos Estados Unidos, olha.
[00:40:14] Olha. Sabe? Então,
[00:40:16] tem um elemento também aqui de autocrítica,
[00:40:19] Zami,
[00:40:20] que a gente não pode só apontar
[00:40:22] os erros da esquerda
[00:40:24] majoritária que morreu e que não
[00:40:26] consegue atuar mais enquanto força
[00:40:27] transformadora, mas a gente precisa se perguntar
[00:40:30] também se a gente consegue atuar
[00:40:32] enquanto força transformadora.
[00:40:34] Esse ano,
[00:40:36] e aí para concluir, uma das coisas que mais me chamou
[00:40:38] atenção foi que
[00:40:40] no meu canal,
[00:40:42] nas palestras, na comunicação
[00:40:44] pública, eu entrei
[00:40:46] em confrontos contra várias
[00:40:48] políticas públicas neoliberais, ou
[00:40:50] tocadas pelo governo Lula ou tocadas por governos
[00:40:52] estaduais, como a privatização
[00:40:54] de presídios, o apoio
[00:40:56] do BNDES a
[00:40:57] financiamento e modelagem de
[00:41:00] PPPs, de parceria público-privada,
[00:41:02] e mais recentemente a questão do BPC,
[00:41:04] Zami,
[00:41:06] tem muitos comunistas que acham
[00:41:08] que eu virei reformista. Por quê?
[00:41:11] Porque eu estou falando muito
[00:41:12] de orçamento, política
[00:41:14] pública, e
[00:41:16] por exemplo, passei muito tempo
[00:41:18] esse ano falando sobre o ataque ao
[00:41:20] BPC, tentando ajudar na
[00:41:22] mobilização das famílias e das pessoas
[00:41:24] afetadas. Então,
[00:41:25] peraí, peraí, peraí,
[00:41:29] a gente sempre repete
[00:41:30] lêndia dizendo que as pessoas não se movem
[00:41:32] por abstração, que as pessoas se movem por
[00:41:34] trabalho, por comida, por direitos,
[00:41:36] por moradia e tal.
[00:41:38] Aí vem o ataque ao BPC que
[00:41:39] atende mais de 4 milhões de pessoas,
[00:41:42] que é fundamental na renda de
[00:41:44] milhões de famílias brasileiras e na
[00:41:46] economia de vários pequenos municípios,
[00:41:48] porque o que mais tem é município no Brasil,
[00:41:50] que basicamente a economia do município
[00:41:52] gira em torno de aposentadoria rural,
[00:41:54] BPC, LOA, Bolsa Família
[00:41:56] e alguns poucos empregos que tem na
[00:41:58] prefeitura. É isso.
[00:42:00] Mas aí você entrar nesse
[00:42:02] combate, você fazer a
[00:42:04] crítica, você tentar mobilizar, você tentar
[00:42:05] politizar sobre isso. É reformismo
[00:42:07] ou porque é só uma política pública? Então, o que é
[00:42:09] ser revolucionário? É ficar falando que tem
[00:42:11] que acabar amanhã o Estado, o direito, a
[00:42:13] língua, a família, um bocado de coisa
[00:42:16] tem que acabar, né?
[00:42:18] Só que, assim, você precisa organizar
[00:42:20] a classe trabalhadora, você precisa ter
[00:42:21] influência na classe trabalhadora. Você precisa, inclusive,
[00:42:24] superar um vício
[00:42:25] que é um vício típico de ambientes
[00:42:28] pequeno-burgueses, que é achar que
[00:42:29] as pessoas vão aderir a uma proposta
[00:42:31] política só na base do convencimento.
[00:42:34] Né? As pessoas vão
[00:42:36] cada vez mais botar fé numa
[00:42:37] proposta comunista se elas conhecem
[00:42:39] os comunistas. Se os comunistas estão
[00:42:41] no seu dia-a-dia, se estão lutando
[00:42:44] com ela, se estabelece relação
[00:42:45] de confiança, se começa a chamar a gente pelo
[00:42:47] apelido, pelo nome, se começa
[00:42:49] a fazer graças, se a gente conhece o nome
[00:42:51] do menino, o menino Dona Maria.
[00:42:54] Como é o nome do menino? Como é o apelido
[00:42:55] do brunguero lá? Sabe? Se a gente
[00:42:57] tem presença, se a gente tá organizando
[00:42:59] o dia-a-dia das lutas. Então, eu acho que tem
[00:43:01] um elemento também, Zami, de autocrítica.
[00:43:04] É fundamental. Se a gente
[00:43:06] não consegue exercer
[00:43:08] a função de autocrítica
[00:43:10] e dizer assim, ó,
[00:43:12] a gente também tá errando
[00:43:13] e nós somos parte do problema
[00:43:16] da morte da esquerda. É claro que
[00:43:18] a gente não é parte do problema principal.
[00:43:20] Por quê? O problema principal é
[00:43:22] quem lidera. Quem é hegemônico
[00:43:24] é o centro da
[00:43:26] cobrança. Né?
[00:43:28] Então, assim, quem é que lidera a esquerda brasileira?
[00:43:30] É o PCBR? Não. Quem é que lidera
[00:43:32] a esquerda brasileira? É Eribaldo Maia, Jonas Manoel
[00:43:34] não. Então, assim, você que tá cobrando
[00:43:35] não é a gente. Mas a gente tem que
[00:43:38] também se ver como parte do problema
[00:43:40] porque senão você tá só
[00:43:42] querendo trocar uma hegemonia
[00:43:43] pela outra sem
[00:43:45] realmente enfrentar
[00:43:48] as questões de fundo problemáticas que estão colocadas.
[00:43:53] Muito bom, Eribaldo.
[00:43:54] Se você quiser…
[00:43:56] Bom, eu acho que tem um
[00:43:58] elemento disso que o Jonas falou sobre
[00:43:59] a esquerda radical, que foi algo que eu tentei
[00:44:02] trazer bastante, né? De que
[00:44:04] é claro que a esquerda radical
[00:44:06] é muito menos responsável
[00:44:08] do que a esquerda hegemônica
[00:44:10] porque a esquerda hegemônica é hegemônica.
[00:44:12] Então, se você é hegemônico, tem mais
[00:44:14] poder, tem mais aparelhos,
[00:44:16] etc., você tem mais responsabilidade.
[00:44:18] Mas isso não significa sair da sua
[00:44:20] responsabilidade. Porque todos nós,
[00:44:22] enquanto campo de esquerda, né?
[00:44:24] E aí, sempre que eu falo isso, aparece
[00:44:26] alguém dizendo assim, ah, mas essa galera
[00:44:28] não é esquerda, não. Você tem que começar a
[00:44:30] chamar as coisas pelo que são. Mas, veja,
[00:44:32] no imaginário popular,
[00:44:34] esse grupo é
[00:44:36] esquerda. Inclusive, se eles fazem uma besteira,
[00:44:38] respinga na esquerda radical.
[00:44:40] Então, eu me lembro, por exemplo, uma vez que eu fui
[00:44:42] fazer uma panfletagem, eu não sei se foi
[00:44:44] na Federal, enfim,
[00:44:46] com os terceirizados, e aí
[00:44:47] dando lá e foi…
[00:44:50] Aquela coisa, né? Aquele vício que a gente tinha, porque o governo
[00:44:52] lula isso, aquilo, aquilo, outro, e a
[00:44:54] funcionária pegou e fez assim. Mas vocês não são
[00:44:56] do PT, não, é?
[00:44:57] É claro,
[00:44:59] na cabeça
[00:45:01] dela,
[00:45:01] é tudo esquerda, é tudo
[00:45:04] PT. E faz sentido,
[00:45:06] ele hegemoniza
[00:45:08] o campo.
[00:45:10] Então, é nesse sentido que a gente coloca tudo como esquerda.
[00:45:12] Mas a esquerda radical também tem,
[00:45:14] por menor que seja, a sua responsabilidade
[00:45:16] e o seu próprio processo de morte.
[00:45:19] Que passa por algo, Fischer
[00:45:20] chama de superego leninista
[00:45:22] severo.
[00:45:24] Que é uma espécie disso que o Jonas
[00:45:26] descreveu um pouco.
[00:45:27] De que eu, se essa
[00:45:29] esquerda é uma esquerda que se
[00:45:31] degenerou, que
[00:45:33] pelegou,
[00:45:36] que
[00:45:36] entrou nesse processo de virar
[00:45:39] um neoliberalismo progressista,
[00:45:41] pra usar esse termo de Nancy Fraser,
[00:45:44] que eu acho que cabe perfeitamente
[00:45:45] ao PT hoje, né? Esse neoliberalismo
[00:45:47] progressista.
[00:45:49] Então, eu sou o bastião
[00:45:51] da…
[00:45:54] doetos da esquerda.
[00:45:57] Só que você cai nesse processo
[00:45:59] contrário, né? Você se torna…
[00:46:01] um outro tipo de moralismo, né?
[00:46:03] Esse moralismo em que você é superior,
[00:46:05] você se acha melhor,
[00:46:07] inclusive criando uma espécie
[00:46:09] de narcisismo das pequenas
[00:46:11] diferenças, onde começa
[00:46:13] a se criar um conjunto de conflitos
[00:46:15] e disputas entre a própria esquerda radical
[00:46:18] que impossibilita
[00:46:19] algo que a
[00:46:21] esquerda hegemônica faz bem melhor
[00:46:23] do que a gente, que é dialogar.
[00:46:27] O governo Lula pode dialogar mal,
[00:46:29] mas dialoga. Até demais.
[00:46:31] Então, a gente não consegue dialogar
[00:46:35] com os nossos. A gente não consegue
[00:46:36] confluir um conjunto de interesses que,
[00:46:39] por mais que hajam diferenças
[00:46:41] significativas, há um horizonte próximo.
[00:46:44] Há um elemento próximo
[00:46:45] de… pra construir,
[00:46:47] por exemplo, uma frente
[00:46:48] antineoliberal de esquerda radical
[00:46:51] que seria necessário num momento como esse
[00:46:53] pra fazer isso que o João está falando, por exemplo.
[00:46:55] Você pressionar
[00:46:56] a esquerda hegemônica mais
[00:46:59] a esquerda. Você pressionar
[00:47:01] as instituições mais à esquerda.
[00:47:03] Você produzir mais capilaridade
[00:47:05] social, até de um ponto
[00:47:07] de vista egoísta mesmo, das organizações
[00:47:09] egoistamente se utilizar
[00:47:11] desse processo de frente pra poder
[00:47:13] aumentar o seu partido,
[00:47:15] disputar o campo, disputar
[00:47:17] militantes, etc. Normal.
[00:47:19] Tudo isso faz parte do jogo
[00:47:21] pragmático do fazendo político.
[00:47:23] Mas isso não acontece.
[00:47:25] Então, esse superego leninista severo
[00:47:27] cria uma espécie
[00:47:29] também de performatividade,
[00:47:31] de uma esquerda radical, onde você…
[00:47:33] Eu sempre chamo isso de
[00:47:35] cosplay de bolchevique, né? Eu lembro
[00:47:37] de um rapazinho, na época que eu militava,
[00:47:39] aquele Recife, né?
[00:47:41] Verão, um calor
[00:47:43] do satanás, aí chega o jovem
[00:47:45] com aquele boné de inverno,
[00:47:47] aquele chapéuzinho de inverno
[00:47:49] do Exército Vermelho,
[00:47:50] o cérebro dele, possivelmente, derretendo
[00:47:53] por dentro.
[00:47:54] Ele escuta o Revoluchou. Eu quero dizer,
[00:47:57] camarada, foi mal aí. É só um exemplo anedótico.
[00:47:59] Eu fico chateado.
[00:48:01] Mas ele tem que ficar chateado
[00:48:03] se ele continuar usando isso no calor.
[00:48:05] Aí, amigo, bota um boné.
[00:48:07] Eu espero que ele use um bonézinho,
[00:48:09] um negócio, um chapéuzinho de palha, que é mais refrescante.
[00:48:13] E deixa um bonézinho lá,
[00:48:14] que é bonitinho.
[00:48:15] Deixa no quarto de decoração, faz parte.
[00:48:18] E aí, usa
[00:48:19] no link do
[00:48:21] Instagram, sei lá,
[00:48:23] bota o nome de um revolucionário morto qualquer.
[00:48:26] E cria-se
[00:48:27] toda essa…
[00:48:31] aparência, né? Essa performatividade
[00:48:33] que, no fundo, não tem conexão
[00:48:35] nenhuma. E que cria, inclusive,
[00:48:37] imaginariamente, uma idealização
[00:48:39] do povo trabalhador.
[00:48:41] Como se fosse um povo imanentemente
[00:48:43] revolucionário e que só
[00:48:45] precisa conhecer a ciência imortal
[00:48:47] do proletariado pra poder despertar
[00:48:49] nos seus olhos os seus
[00:48:51] os seus interesses.
[00:48:54] Quando, na verdade,
[00:48:55] eu sempre fico me perguntando, né? Será que o trabalhador
[00:48:57] não sabe que a vida dele está muito ruim,
[00:48:59] que tem alguém lascando ele, quando ele,
[00:49:01] quando ele pega três horas de ônibus
[00:49:03] lotado num calor do cão,
[00:49:05] ele sabe. Tanto que há, por exemplo,
[00:49:07] uma raiva ao patrão,
[00:49:09] meio que intuitiva.
[00:49:11] Há um sentimento,
[00:49:13] muitas vezes, antipolítico,
[00:49:14] que não é politizado, mas que expressa
[00:49:17] uma insatisfação
[00:49:18] contra o sistema,
[00:49:21] ainda que isso tenha sido
[00:49:23] majoritariamente
[00:49:24] direcionado
[00:49:25] pra uma extrema-direita
[00:49:29] que se coloca como
[00:49:31] como vai dizer
[00:49:32] Florestan Fernandes, num processo de
[00:49:34] contra-revolução preventiva
[00:49:36] extremamente radical
[00:49:38] e revolucionária em relação ao que
[00:49:40] ao que a própria burguesia faz.
[00:49:43] Então você cria
[00:49:44] um espaço político de não-política
[00:49:47] onde a única
[00:49:49] coisa que lhe diferencia
[00:49:50] da paralisia
[00:49:53] da esquerda hegemônica
[00:49:54] é que você está
[00:49:56] paralisado, porém, lendo Marx,
[00:50:00] lendo Lênin,
[00:50:01] lendo Rosa, lendo
[00:50:02] Mao
[00:50:04] e com o chapeuzinho do
[00:50:06] do Exército Vermelho da União Soviética
[00:50:09] na cabeça,
[00:50:10] falando contra o sistema e achando
[00:50:12] que uma hora o proletariado vai ouvir
[00:50:14] aquilo e vai automaticamente
[00:50:17] se contaminar.
[00:50:20] É uma visão
[00:50:21] também, de certa forma,
[00:50:24] um vício de um
[00:50:24] marxismo quase que iluminista.
[00:50:28] É claro
[00:50:29] que Marx é muito influenciado pelo iluminismo,
[00:50:31] e por essa tradição
[00:50:32] filosófica moderna
[00:50:33] de defesa da razão, etc.
[00:50:37] Mas é um iluminismo
[00:50:38] quase que kantiano,
[00:50:41] de que você vai esclarecer
[00:50:43] as pessoas das ferramentas
[00:50:44] de esclarecimento, que são
[00:50:46] os conceitos e os
[00:50:48] textos dos autores
[00:50:50] marxistas, e que isso
[00:50:52] vai produzir alguma mobilização política.
[00:50:55] Quando mobilização política,
[00:50:56] ainda que não
[00:50:58] preceda a teoria,
[00:51:00] ela
[00:51:00] se faz para além
[00:51:02] da teoria, porque ela tem uma especificidade
[00:51:04] própria.
[00:51:06] Isso não significa cair na antiteoria,
[00:51:09] mas significa associar
[00:51:11] esses dois elementos
[00:51:12] de maneira orgânica.
[00:51:15] Por exemplo, o trabalhador entende que é
[00:51:16] explorado quando ele ganha muito pouco
[00:51:18] e o patrão está muito rico.
[00:51:20] Ele tem intuição disso.
[00:51:23] Você não precisa explicar muito…
[00:51:25] Você não precisa explicar para o trabalhador
[00:51:27] que sente que é explorado
[00:51:29] que ele é explorado.
[00:51:29] Você precisa dar uma solução
[00:51:31] para essa exploração.
[00:51:33] Você precisa dar uma solução para a situação
[00:51:35] de vida que ele tem. Você não precisa explicar
[00:51:37] que a burguesia joga ele numa condição de vida
[00:51:40] de mera reprodução
[00:51:41] da materialidade
[00:51:44] orgânica do seu corpo
[00:51:45] e da sua família, porque ele sabe disso
[00:51:47] quando fecha as contas, ou quando as contas não fecham.
[00:51:51] O que você tem
[00:51:52] que dar é uma solução para isso.
[00:51:54] O que você tem que dar é um caminho de luta
[00:51:56] para que a vida dele não se torne mera
[00:51:57] reprodução da sua capacidade
[00:51:59] orgânica e da sua família.
[00:52:02] Você tem que dar um caminho para que
[00:52:04] a vida dele não seja somente a exploração
[00:52:05] no trabalho, que ele possa ganhar mais do que ele precisa
[00:52:08] somente para se reproduzir,
[00:52:09] comer para se reproduzir.
[00:52:11] E aí, nesse processo de luta
[00:52:13] que também precisa…
[00:52:15] Jones, eu acho que citou uma coisa que eu acho que é muito importante
[00:52:17] que é construção de um
[00:52:19] vínculo afetivo.
[00:52:23] Construção de um vínculo
[00:52:24] afetivo, ou seja, é a classe
[00:52:25] trabalhadora você conhecer…
[00:52:27] Por que o neopentecostalismo se dá
[00:52:29] muito bem nas periferias?
[00:52:31] Quem já foi, conhece periferia, sabe que
[00:52:33] igreja na periferia é pequena.
[00:52:37] Ela é pequena,
[00:52:38] ela é no terraço da casa
[00:52:39] de alguém, no máximo num galpãozinho
[00:52:41] e assim por diante. Tem um ou outro é maior.
[00:52:44] Por quê? Porque o pastor conhece
[00:52:45] a pessoa.
[00:52:47] Conhece a família da pessoa.
[00:52:50] A pessoa não tem acesso a
[00:52:51] uma boa casa, não tem acesso
[00:52:53] a saneamento, não tem acesso a saúde
[00:52:55] direito, não tem acesso a uma boa escola,
[00:52:57] tem um trabalho precaríssimo e aí
[00:52:59] o pastor, diante de uma vida
[00:53:01] que é negado
[00:53:03] o direito de existência, até como
[00:53:05] ser jurídico, civil, dentro da nossa
[00:53:07] sociedade, mínimo, o pastor
[00:53:10] vai e reconhece aquela pessoa como pessoa.
[00:53:12] Por exemplo, tem estudos que mostram
[00:53:13] em entrevistas, gente que
[00:53:15] vai na igreja, aí teve
[00:53:17] o primeiro aniversário na igreja,
[00:53:19] uma senhora que teve o primeiro aniversário
[00:53:21] da vida dela, ganhou
[00:53:23] uma havaiana, a sandália
[00:53:26] dela lascada, e disse assim,
[00:53:27] eu me senti gente pela primeira vez,
[00:53:29] nesse dia. A partir desse dia,
[00:53:32] acabou que o pastor está
[00:53:33] falado. Ele ganhou
[00:53:35] afetivamente aquela pessoa. Como a gente pode
[00:53:37] ganhar afetivamente também as pessoas?
[00:53:40] Como a gente pode
[00:53:40] ouvir? E aí, ao meu ver, um pouco
[00:53:43] dessa solução para
[00:53:45] a esquerda radical é um déficit de
[00:53:47] escuta. Como a gente
[00:53:49] tem muita certeza que nós somos
[00:53:51] a vanguarda,
[00:53:54] que nós somos
[00:53:55] os revolucionários, que nós estamos certos
[00:53:57] porque nós temos a verdade,
[00:53:59] que nós somos marxistas.
[00:54:02] Então, a gente não ouve.
[00:54:04] Ouve muito pouco. E principalmente
[00:54:06] as pessoas. A gente sempre tem um olhar
[00:54:07] de como se as pessoas precisassem aprender,
[00:54:10] porque elas não são revolucionárias ainda. Então, elas têm
[00:54:12] que aprender com a gente. Quando, na verdade,
[00:54:13] a gente tem que aprender com elas.
[00:54:16] A gente tem que aprender com elas
[00:54:17] no sentido de que a gente vai ouvir
[00:54:19] aquelas demandas, entender
[00:54:21] o que elas querem e
[00:54:23] construir uma política voltada
[00:54:26] para o que elas querem.
[00:54:28] Então, veja, quando o Lênin,
[00:54:29] adota o lema, porque os bolcheviques
[00:54:32] não criaram, eles adotam o lema
[00:54:34] paz, pão e terra. Por que eles
[00:54:36] adotam? Era o lema que as pessoas
[00:54:38] queriam.
[00:54:40] Ou seja, ele ouviu, escuta,
[00:54:43] só que ele acrescenta
[00:54:44] todo o poder aos soviéticos.
[00:54:46] Que é a sacada. É você dar
[00:54:48] o corpo revolucionário a uma
[00:54:50] demanda imediata das pessoas.
[00:54:52] Então, eu acho que
[00:54:54] esse jogo
[00:54:55] entre o imanente
[00:54:58] da sociedade,
[00:54:59] da convivência imediata com as pessoas
[00:55:01] e esse aspecto que eu acho que
[00:55:04] aí está mais estabelecido da esquerda
[00:55:06] radical, que é o transcendente,
[00:55:07] o que aponta para a necessidade
[00:55:09] revolucionária, precisa se
[00:55:11] conciliar.
[00:55:15] Precisa dialogar.
[00:55:17] E aí, dialoga
[00:55:18] com esse processo de você ouvir
[00:55:19] o que as pessoas têm a dizer, construir
[00:55:22] pautas que as pessoas
[00:55:23] demandam
[00:55:26] como imediatas
[00:55:28] e para isso você tem que fazer o que…
[00:55:29] o que o João nos falou. Você precisa conhecer o país.
[00:55:31] Você precisa conhecer as pessoas do seu país.
[00:55:34] Você precisa conhecer a realidade
[00:55:35] dessas pessoas para poder você conseguir
[00:55:37] ter como comunicar.
[00:55:39] Ter um solo para comunicar com essas pessoas.
[00:55:41] Senão, você vai sempre continuar falando
[00:55:43] de Lenin, falando muito bem de União
[00:55:45] Soviética, de China, de Coreia do Norte,
[00:55:47] de Vietnã, de Laos, de qualquer país
[00:55:49] socialista que seja em Cuba,
[00:55:51] mas não vai ser capaz de
[00:55:53] falar com o seu vizinho.
[00:55:55] Muito bom. Esse elemento que você traz, Erivaldo,
[00:55:57] é muito bom porque, assim,
[00:55:59] a pessoa que faz
[00:56:02] esse movimento de achar que ela vai lá
[00:56:04] e, enfim, só precisa ensinar
[00:56:06] a ciência imortal do proletariado, que o proletariado
[00:56:08] seguirá, enfim,
[00:56:10] e etc.,
[00:56:12] ela insiste
[00:56:14] na senão antilenista. O próprio Lenin
[00:56:16] fala isso, se eu me lembro bem,
[00:56:17] no Que Fazer, ou se eu estou confundindo,
[00:56:20] sobre essa questão de a gente achar
[00:56:24] que a gente só precisa chegar lá,
[00:56:26] contar para eles a verdade
[00:56:27] e, ao contar a verdade, eles vão
[00:56:30] virar e falar assim, porra, pode crer, você não contou a verdade.
[00:56:33] Seguir o EI.
[00:56:35] Que é exatamente esse ponto.
[00:56:38] Você colocar
[00:56:40] e pautar
[00:56:41] a necessidade da redução
[00:56:44] da escala 6x1,
[00:56:46] de redução da carga horária de trabalho
[00:56:48] para 30 horas semanais, de que
[00:56:50] a gente não deve
[00:56:51] acabar com benefício de prestação
[00:56:54] continuada.
[00:56:56] Explicar para as pessoas, às vezes,
[00:56:57] o que é a prestação de benefício continuada.
[00:56:59] Muita gente não sabe.
[00:57:01] Você fazer todo esse movimento
[00:57:03] é um movimento também
[00:57:05] que transforma você naquilo que a gente já falou,
[00:57:07] que é um referencial
[00:57:08] daquela trabalhadora.
[00:57:11] Recentemente teve, por exemplo, um movimento
[00:57:13] que foi feito pelo PCBR
[00:57:15] lá dentro do Zafari,
[00:57:16] aquele supermercado
[00:57:20] que tinha uma escala
[00:57:21] de 10x1.
[00:57:23] Isso eu acho muito importante.
[00:57:25] O sindicato não faz nada.
[00:57:27] Bom, se o sindicato…
[00:57:27] O sindicato não faz nada.
[00:57:28] Se os trabalhadores fizeram alguma coisa,
[00:57:29] como o prego se destaca com a martelada,
[00:57:32] façamos nós que não podemos ser demitidos pelo Zafari.
[00:57:35] O Zafari vai fazer o quê?
[00:57:37] Assim, efetivamente.
[00:57:38] Se ninguém ali trabalha no Zafari.
[00:57:39] E aí aqueles trabalhadores vão olhar e falar assim,
[00:57:41] porra, esses malucos aqui nem trabalham aqui.
[00:57:44] A gente concorda com o que eles estão falando.
[00:57:46] É esses caras aqui que sabem o que estão fazendo.
[00:57:50] Não é, porra,
[00:57:51] os sindicatos que se fodam, né?
[00:57:52] Eu estava numa propriedade recentemente
[00:57:54] com um camarada e falei exatamente isso.
[00:57:56] Falei assim, olha,
[00:57:57] é isso, né?
[00:57:58] A gente vai lá pra dentro do mercado tal
[00:58:00] que é aqui em Volta Redonda
[00:58:01] que está em processo de falir
[00:58:03] e vamos fazer a agitação.
[00:58:05] O que o mercado vai fazer?
[00:58:05] Botar a gente pra fora.
[00:58:06] Eu vou ficar lá na calçada e vou continuar gritando.
[00:58:08] Ele vai me demitir?
[00:58:08] Não posso ser demitido.
[00:58:11] Sabe?
[00:58:13] De poder pautar isso
[00:58:15] e poder pautar algo que seja
[00:58:17] algo que realmente, efetivamente,
[00:58:19] atinja a vida daquelas pessoas que estão lá dentro.
[00:58:24] Pô, não está pagando décimo terceiro.
[00:58:25] Não está pagando o salário.
[00:58:27] Saca?
[00:58:28] Vou chegar lá com um megafone
[00:58:31] e começar a falar sobre os benefícios
[00:58:33] e as alegrias
[00:58:35] profundas de você
[00:58:37] morar em Cuba.
[00:58:39] Porque a saúde pública…
[00:58:40] Depois, pô. Agitação é uma coisa. Propaganda é outra.
[00:58:43] Só que aí, no processo de você agitar,
[00:58:46] você atrai a pessoa
[00:58:47] e aí você vai discutir
[00:58:49] as questões que são importantes
[00:58:51] e mostrar que existe um outro mundo que é possível.
[00:58:54] Saca?
[00:58:54] Mas a agitação é isso, né?
[00:58:57] Então, assim,
[00:58:57] além de anti-leninista em vários sentidos,
[00:58:59] é anti-propagandista,
[00:59:01] anti-agitativo, né?
[00:59:04] E a gente consegue entender
[00:59:05] esse processo de você atrair.
[00:59:09] Então, a galera que vai vir…
[00:59:10] Ó, o Jonas virou reformista porque ele está falando
[00:59:11] de benefício de prestação continuada.
[00:59:14] Porra!
[00:59:15] Então, falar do preço
[00:59:19] da passagem é o quê, então?
[00:59:22] Sabe?
[00:59:23] Falar da necessidade de estatização
[00:59:25] do sistema
[00:59:27] público de transporte é o quê, então?
[00:59:29] Sabe?
[00:59:29] Porque está falando de política pública?
[00:59:31] Tem que dizer que transporte não é política pública.
[00:59:33] Está vendo?
[00:59:35] E ainda tem um erro fantástico
[00:59:37] das pessoas não entenderem o que é política pública.
[00:59:40] Demonstra mais uma vez aí
[00:59:41] que o básico não está sendo feito.
[00:59:45] Por parte da esquerda radical.
[00:59:48] Você tem que entender o orçamento.
[00:59:49] Você tem que…
[00:59:50] Obviamente que você não precisa
[00:59:52] transformar-se num economista
[00:59:55] ou num…
[00:59:55] Ou num especialista
[00:59:58] em políticas públicas.
[00:59:59] Não é isso, necessariamente.
[01:00:00] Mas o básico você tem que entender.
[01:00:01] Você tem que entender que imposto é uma coisa, taxa é outra.
[01:00:04] Você tem que entender que…
[01:00:06] O que é a superávit primário
[01:00:11] e você tem que entender que
[01:00:12] se a lei orçamentária do município,
[01:00:14] do Estado e da União
[01:00:15] aprovou um determinado valor,
[01:00:18] não significa que ele pode executar aquilo.
[01:00:20] Significa que ele não pode ultrapassar aquilo.
[01:00:23] Mas ele pode executar menos daquilo.
[01:00:25] E aí, o que acontece?
[01:00:25] E aí, é o pulo do gato no negócio.
[01:00:27] De entender o que é realmente executado
[01:00:29] e o que não é executado.
[01:00:30] A gente tem que saber essas coisas.
[01:00:32] Porque senão é isso.
[01:00:32] A gente vai ficar eternamente…
[01:00:34] O cara fala um negócio, você não entende,
[01:00:37] passa o troço.
[01:00:39] Você não consegue traduzir
[01:00:41] o que está se apresentando ali na sua frente.
[01:00:44] E, ao mesmo tempo, fazer esse movimento
[01:00:45] de entender a história nacional.
[01:00:48] De entender a história do Brasil.
[01:00:50] De entender
[01:00:51] as múltiplas siglas partidárias
[01:00:55] de onde elas vêm.
[01:00:57] O que elas defenderam ao longo de todos esses anos.
[01:01:00] Porque aí você compreende
[01:01:02] quais são as tendências vindouras.
[01:01:05] Entender, por exemplo,
[01:01:06] fiz um exercício no começo do ano passado
[01:01:08] que foi interessante.
[01:01:10] Que é uma coisa básica.
[01:01:11] Aqui é o Ministério da Economia.
[01:01:13] Quem é o Ministério da Economia?
[01:01:14] É o Haddad.
[01:01:15] Tá bom.
[01:01:15] Quem que está em todo o secretariado?
[01:01:16] Porque isso é público.
[01:01:19] Quem que está logo abaixo dele
[01:01:20] em todo o secretariado?
[01:01:21] Porra, Galípolo,
[01:01:23] Rogério Serón.
[01:01:24] Quem que são esses?
[01:01:25] Eles colocam o currículo deles lá, pô.
[01:01:27] Tá lá o currículo dos caras.
[01:01:28] Aí você vai ver.
[01:01:29] Rogério Serón
[01:01:30] participou do processo de privatização
[01:01:33] do Ibirapuera.
[01:01:35] Porra, aí você já sabe de onde é que…
[01:01:37] Que não vai pra muito longe, né?
[01:01:39] Saca?
[01:01:41] Entendeu?
[01:01:41] Então, assim, a gente tem que saber fazer essa leitura.
[01:01:43] E quando a gente fala de fazer análise de conjuntura,
[01:01:46] não é você olhar só as coisas.
[01:01:49] É você fazer um processo de pesquisa também.
[01:01:50] De avaliar o que está acontecendo.
[01:01:53] De avaliar quem são as figuras.
[01:01:54] E você faz isso.
[01:01:55] Desde o nível nacional
[01:01:57] ao nível do município.
[01:02:00] Quem que são as intermediações políticas
[01:02:03] que estão diretamente ligadas ao município
[01:02:05] que você reside.
[01:02:06] Seja ele pequeno, grande, médio, corto.
[01:02:09] Enfim, tanto faz.
[01:02:10] Quem são?
[01:02:10] Estão ligadas a quem?
[01:02:12] Você já sabe quais são as tendências possíveis
[01:02:14] ali naquele governo.
[01:02:17] E aí você faz a avaliação disso.
[01:02:19] Enfim.
[01:02:20] Eu acho que essa autocrítica
[01:02:22] que é extremamente necessária de ser feita
[01:02:24] tem que ser feita
[01:02:25] e tem que ser corrigida.
[01:02:29] Não adianta você fazer
[01:02:29] o velho careca.
[01:02:33] O bom comunista não é aquele
[01:02:34] que percebe o erro.
[01:02:35] O bom comunista é que imediatamente ele resolve.
[01:02:38] Então não adianta a gente
[01:02:39] perceber qual é o problema se a gente não resolve o negócio.
[01:02:42] A gente fica eternamente
[01:02:43] falando diagnóstico.
[01:02:45] O que você tem? Você tem câncer. Massa.
[01:02:48] Acabou.
[01:02:49] Deu o tratamento.
[01:02:52] E a solução do bagulho?
[01:02:54] Deixa eu só ter uma
[01:02:56] partezinha rápida de uma coisa que tu falou.
[01:02:58] Veja. Eu não acho que todo
[01:03:00] comunista individualmente tem que
[01:03:02] ser especialista em política pública.
[01:03:04] Mas eu acho que as organizações
[01:03:06] comunistas tem que ter muito
[01:03:08] acúmulo nisso. Vou só te dar um exemplo
[01:03:10] que foi uma coisa
[01:03:12] que me chocou. Eu já falei disso várias vezes.
[01:03:14] Mas como chocou tanto e eu não faço
[01:03:16] terapia, aí o meu jeito de botar pra fora
[01:03:18] é nessas conversas.
[01:03:19] Era 2020.
[01:03:20] Final de 2021.
[01:03:24] Aquele momento de alta absurda
[01:03:25] do preço dos alimentos, né?
[01:03:27] Carne, verdura, arroz, feijão e tal.
[01:03:30] Aí tava lá na reunião
[01:03:32] da direção nacional
[01:03:33] do meu antigo partido.
[01:03:35] Aí começou um debate sobre
[01:03:37] a nota política
[01:03:41] que a gente ia lançar. O que defender
[01:03:43] pra baixar o preço dos alimentos, né?
[01:03:46] Aí a galera trouxe aquele debate
[01:03:47] dos anos 80 sobre congelamento
[01:03:49] de preços.
[01:03:51] O debate dos anos 80 sobre congelamento
[01:03:53] de preços.
[01:03:54] Na época dos fiscais de Sarney
[01:03:56] e por aí vai.
[01:03:57] Tem um longo debate pra falar
[01:04:00] se isso faz sentido ou não.
[01:04:01] Fato concreto é que no Brasil
[01:04:04] o preço dos alimentos de 2021
[01:04:06] não tava disparado
[01:04:07] por causa de um ciclo
[01:04:09] hiperinflacionário.
[01:04:11] Tava disparado por dois motivos fundamentais.
[01:04:14] Primeiro, a política de estoques
[01:04:16] reguladores tinha sido destruída pelo
[01:04:18] governo Bolsonaro. Já tinha começado no governo
[01:04:20] Temer. O governo Bolsonaro acelerou
[01:04:22] o que ficou sem instrumento de política
[01:04:24] pública pra estabilizar os
[01:04:25] choques de preço. Segundo,
[01:04:27] todos os países do mundo praticamente
[01:04:29] tinham estabelecido limites à exportação
[01:04:32] de alimentos no processo
[01:04:34] da pandemia pela desestruturação
[01:04:36] das cadeias produtivas. E foi o que aconteceu.
[01:04:38] A nível de mercado mundial,
[01:04:40] os preços dos alimentos dispararam porque
[01:04:41] a oferta
[01:04:43] tava menor. O Brasil foi um dos pouquíssimos
[01:04:46] países do mundo que não estabeleceu
[01:04:48] limite nenhum pra exportação.
[01:04:50] Consequência prática,
[01:04:51] o lucro de você exportar
[01:04:53] era infinitamente maior
[01:04:55] do que você abastecer o mercado interno,
[01:04:58] a oferta
[01:04:59] pro mercado interno diminuir.
[01:05:01] O dólar tava lá na casa do caralho.
[01:05:02] Tava lá na casa do caralho.
[01:05:04] Consequentemente, pra baixar o preço
[01:05:06] dos alimentos, era uma medida imediata
[01:05:07] pra estabelecer limite pra exportação.
[01:05:10] De maneira imediata,
[01:05:13] isso já abaixaria
[01:05:14] o preço dos alimentos porque a reconstrução
[01:05:16] da política de estoques reguladores
[01:05:17] leva um pouquinho mais
[01:05:20] de tempo, né? E aí
[01:05:22] eu fiquei chocado,
[01:05:23] chocado
[01:05:25] como ninguém
[01:05:27] tava acompanhando o que tava debatendo
[01:05:29] o Movimento dos Pequenos
[01:05:32] Agricultores, o MST,
[01:05:35] a CPT,
[01:05:37] o Movimento Indígena,
[01:05:38] assim, tava a galera
[01:05:40] na sua verdade, ah, eu lembro
[01:05:42] que nos anos 80, quando aumentou o preço
[01:05:44] dos alimentos, a gente defendeu congelar
[01:05:46] os preços.
[01:05:48] Não, tá tudo bem, mas tá errado.
[01:05:50] Então, veja, quando a gente
[01:05:52] não entende isso,
[01:05:53] política pública,
[01:05:56] orçamento, governança
[01:05:58] burguesa, não pra gerir o capitalismo.
[01:06:00] E aí, eu vou me permitir, por exemplo,
[01:06:02] discordar abertamente do meu querido amigo
[01:06:04] Elie Jabou. Elie Jabou fala que a gente tem que
[01:06:06] aprender como é que funciona o capitalismo pra gerir
[01:06:08] o capitalismo. Não. O comunista não tem que
[01:06:10] gerir o capitalismo. O comunista tem que
[01:06:12] entender detalhes da engrenagem
[01:06:14] pra melhor combatê-la.
[01:06:17] Porque senão a gente…
[01:06:18] Hoje, sabe o que que tá acontecendo no Brasil,
[01:06:20] gente? Tá se
[01:06:22] fortalecendo cada vez mais uma
[01:06:24] burguesia, que é uma burguesia
[01:06:26] que, basicamente, ela tira seu lucro da
[01:06:28] gestão de bens públicos privatizados via
[01:06:30] PPP. Em que o maior
[01:06:32] exemplo disso é a CCR de São
[01:06:34] Paulo. Que os três donos
[01:06:36] da CCR entraram na nova lista
[01:06:38] de bilionários brasileiros.
[01:06:40] Estão crescendo a nível
[01:06:42] de taxas chinesas,
[01:06:44] de crescimento econômico. E aí,
[01:06:46] é claro, a partir do momento que você forma
[01:06:48] uma nova burguesia especializada
[01:06:50] só na gestão de bens públicos privatizados,
[01:06:52] via PPPs, o que que essa nova
[01:06:54] burguesia vai fazer?
[01:06:56] Ela vai defender cada vez mais
[01:06:58] a privatização
[01:07:00] de ativos públicos pra garantir a sua taxa
[01:07:02] de lucro. Porque ela não produz um
[01:07:04] parafuso. Pra ela manter a taxa de lucro,
[01:07:06] ela precisa cada vez mais de estradas,
[01:07:08] rodovias, terminais portuários,
[01:07:10] aeroportos e tudo que você imaginar
[01:07:12] sendo privatizado. Então, por exemplo,
[01:07:14] quando você não entende isso, não sabe o papel
[01:07:16] do BNDES, não sabe o que é uma
[01:07:18] PPP, não sabe quem escreveu a lei de PPPs,
[01:07:20] foi Fernando Haddad,
[01:07:22] atenção, quem escreveu
[01:07:25] a lei de PPPs no Brasil foi
[01:07:26] Fernando Haddad, né?
[01:07:28] Então, você nem percebe,
[01:07:30] por exemplo, que fala-se tanto de correlação
[01:07:32] de forças, tem um novo inimigo sendo criado.
[01:07:36] Uma
[01:07:36] fração burguesa
[01:07:38] ultra-especializada em gestão
[01:07:40] de bens públicos privatizados,
[01:07:43] cada vez mais agressiva,
[01:07:44] cada vez mais bilionária e que é,
[01:07:46] por exemplo, a ponta de lança hoje da
[01:07:48] iniciativa de uma candidatura presencial
[01:07:50] do Tarcísio de Freitas.
[01:07:52] Então, quando você não sabe
[01:07:54] disso, até na hora de conjuntura, né?
[01:07:57] Fica meu capenga, até
[01:07:58] pra onde vai. Então, veja, a organização
[01:08:00] política, ela precisa sim, entendeu?
[01:08:02] Da realidade brasileira, assim. Gente, não dá,
[01:08:04] não dá, pelo amor de Deus, toda vez que vocês ouvirem
[01:08:06] assim, não, o problema brasileiro é
[01:08:08] dívida pública, porque é corrupção,
[01:08:10] se a gente fizer auditoria, tá tudo
[01:08:12] resolvido, porque a gente libera 50%
[01:08:14] do orçamento. Toda vez que vocês ouvirem isso,
[01:08:16] joguem uma cadeira, não, brincadeira, joguem cadeira
[01:08:18] em ninguém não, mas assim, saia correndo,
[01:08:21] comece a chorar, se
[01:08:22] desespere, né?
[01:08:25] Grite,
[01:08:26] sabe? Clame pelo
[01:08:28] amor do Senhor Jesus Cristo, porque só vocês
[01:08:30] terem uma ideia do que isso significa.
[01:08:33] O Gessé Souza, né?
[01:08:34] Que tá longe de ser uma esquerda radical e tal,
[01:08:37] ele foi dar entrevista pro Reinaldo
[01:08:38] Azevedo e pro Valfredo Vardes,
[01:08:40] e aí, a certa altura do programa, o Gessé
[01:08:42] vem com esse mesmo discursinho.
[01:08:44] Não, o problema do Brasil é a dívida pública,
[01:08:46] porque ninguém faz auditoria, não faz auditoria
[01:08:48] porque é fraude, então, se fizesse auditoria,
[01:08:50] a gente tava com dinheiro sobrando
[01:08:52] pra dar dinheiro pro povo.
[01:08:54] Então, assim, você que se acha puta
[01:08:56] revolucionário do caralho, se você
[01:08:58] vem com esse discursinho aí falso, simplista,
[01:09:01] saiba que você e Gessé
[01:09:02] Souza e Reinaldo Azevedo
[01:09:04] têm
[01:09:06] o mesmo programa econômico, viu?
[01:09:08] Eu me preocuparia.
[01:09:11] Eu me preocuparia.
[01:09:12] Se vocês estivessem vendo o vídeo, vocês estariam vendo a careta
[01:09:14] que eu tô fazendo agora. Eu me preocuparia
[01:09:16] com isso.
[01:09:17] Eu acho que tem uma dimensão
[01:09:20] desse…
[01:09:22] cinismo, que é um pouco
[01:09:25] num dos textos
[01:09:26] que eu tentei colocar, que é um pouco
[01:09:28] o negacionismo.
[01:09:30] Um pouco dessa fala de Jones,
[01:09:33] que eu acho que dialoga um pouco com isso que eu tô
[01:09:34] querendo trazer, que é um pouco o negacionismo político
[01:09:36] dentro das esquerdas.
[01:09:39] Veja, você tem um processo
[01:09:41] de ascensão
[01:09:42] da extrema-direita.
[01:09:44] Se a gente for colocar
[01:09:46] pensando do ponto de vista
[01:09:48] a partir de 2014,
[01:09:51] 2003, 2014,
[01:09:52] um processo de ascensão
[01:09:54] da extrema-direita, que se consolida
[01:09:56] com a eleição
[01:09:58] de Bolsonaro, e que a partir
[01:10:00] daí veio pra ficar.
[01:10:02] Pode ganhar ou não eleições,
[01:10:04] pode, inclusive,
[01:10:07] ter ou não um candidato forte na próxima
[01:10:08] eleição de 2026, mas o fato
[01:10:10] é que a extrema-direita tem pautado o debate.
[01:10:13] Seja o debate do ponto
[01:10:14] de vista político, moral,
[01:10:16] mas também tem pautado o debate
[01:10:18] junto com outras forças da direita,
[01:10:20] que são muito heterogêneas,
[01:10:22] o debate econômico,
[01:10:25] a partir de uma
[01:10:26] pressão para uma neoliberalização
[01:10:28] cada vez maior da política econômica
[01:10:30] do Brasil, e que
[01:10:31] adota
[01:10:33] insistentemente,
[01:10:37] desde Dilma
[01:10:38] até aqui,
[01:10:41] a estratégia que
[01:10:42] se deu certo num momento,
[01:10:44] já se mostra falha
[01:10:48] há muito tempo, que é a estratégia
[01:10:50] de você recuar,
[01:10:52] porque você não tem
[01:10:54] correlações de forças, é o mito
[01:10:56] da correlação de forças, você não tem correlação de forças,
[01:10:58] então você recua, mas aqui eu vou partir do pressuposto
[01:11:00] de que beleza, tá certo esse argumento,
[01:11:03] você recua porque não tem
[01:11:04] correlação de forças pra você se sustentar
[01:11:06] no poder até você ter correlação de forças
[01:11:08] pra avançar, e aí você nunca tem
[01:11:10] correlação de forças pra avançar, e aí você
[01:11:12] necessariamente vai recuando, recuando, recuando,
[01:11:15] e a situação
[01:11:16] política vai ficando cada vez pior,
[01:11:18] tanto de um lado, de que o mal menor
[01:11:20] vai ficando cada vez
[01:11:21] mais mal, vai sendo
[01:11:24] pior, então era Aécio,
[01:11:27] então hoje em dia você
[01:11:28] botar Aécio contra
[01:11:30] Bolsonaro, qualquer pessoa,
[01:11:32] qualquer pessoa do campo progressista,
[01:11:34] votaria em Aécio sem sombra de dúvidas,
[01:11:37] votaria em Aécio,
[01:11:39] mas Aécio já foi um grande inimigo,
[01:11:41] tal qual Alckmin,
[01:11:43] Alckmin já foi
[01:11:44] uma figura horrível,
[01:11:46] então agora Alckmin é o camarada Alckmin,
[01:11:48] que faz corte de cabelo ao estilo Maltzatung,
[01:11:50] que já é um grande esquerdo,
[01:11:51] que já é um grande estadunidista,
[01:11:53] então assim você vai
[01:11:55] reconfigurando os campos
[01:11:57] da direita, da esquerda, da extrema direita
[01:11:59] pelo Brasil. O grande problema
[01:12:01] é que isso, o grande problema dessa
[01:12:03] estratégia, inclusive essa estratégia
[01:12:05] já, ainda
[01:12:07] que sem concordar com ela,
[01:12:09] mas dizendo que o problema do PT não é
[01:12:11] recuar demais, mas é estar convicto
[01:12:13] nessa estratégia, que é o argumento
[01:12:15] do Breno Altman, é que
[01:12:17] o grande problema disso é que
[01:12:19] você não tem algo elementar,
[01:12:21] na política, que é a política
[01:12:23] como uma prática, ela demanda
[01:12:25] que você aprenda com os erros
[01:12:27] da prática que você tenta colocar
[01:12:29] em jogo.
[01:12:31] Imagine, por exemplo,
[01:12:33] se Einstein
[01:12:35] estivesse fazendo qualquer cálculo
[01:12:37] e esses cálculos que só foram, por exemplo,
[01:12:40] muito tempo depois
[01:12:41] confirmados através de algumas pesquisas,
[01:12:44] essas pesquisas
[01:12:46] se mostrarem falha, mas aí
[01:12:47] você insiste em fazer com que aqueles cálculos
[01:12:49] dêem certo, isso vai dar um problema.
[01:12:51] Então, como até Safatle, uma vez
[01:12:53] num debate sobre essa questão da morte da esquerda
[01:12:55] falou algo que resume
[01:12:57] bem, que é
[01:12:58] se você não aprende com
[01:13:01] um erro, veja,
[01:13:03] aí é um problema muito sério,
[01:13:05] porque você começa a entrar num processo
[01:13:07] de negação da realidade, então você começa a moldar
[01:13:09] a realidade para que a sua
[01:13:12] estratégia se
[01:13:13] faça correta, mesmo
[01:13:15] que toda a realidade diga que não.
[01:13:18] Então você cria
[01:13:19] uma espécie de negacionismo político que
[01:13:21] aparece, por exemplo, ao meu ver,
[01:13:23] em algumas
[01:13:24] contradições
[01:13:26] discursivas
[01:13:28] do governo Lula
[01:13:31] e dessa esquerda do campo
[01:13:33] progressista, que é, por exemplo,
[01:13:35] a defesa do meio ambiente. Então, Lula
[01:13:37] na campanha falava o quanto
[01:13:39] Bolsonaro era horrível para o meio ambiente,
[01:13:41] o quanto era feio, o quanto queimada é ruim,
[01:13:43] o quanto não combater é ruim
[01:13:45] e
[01:13:46] você tem uma série de
[01:13:49] medidas como, por exemplo, a mais
[01:13:51] significativa para mim, um plano safra
[01:13:53] recorde para setores
[01:13:55] da burguesia que estão diretamente
[01:13:57] associados aos processos
[01:13:59] de destruição do meio ambiente
[01:14:01] no Brasil, inclusive destruição
[01:14:03] de camadas freáticas
[01:14:05] de aquíferos
[01:14:07] e coisas do tipo.
[01:14:10] Por exemplo, a Coca-Cola
[01:14:11] esqueci a cidade
[01:14:13] de Minas Gerais, mas a Coca-Cola
[01:14:15] prejudicou uma cidade
[01:14:17] por conta
[01:14:17] do consumo desenfreado,
[01:14:21] e pouco regulamentado
[01:14:23] da água. Enfim, então você
[01:14:25] dá uma série de benefícios
[01:14:27] de um plano safra recorde
[01:14:30] enquanto, ao mesmo tempo
[01:14:31] que você fez o discurso
[01:14:34] em defesa do meio ambiente, dá um plano safra
[01:14:35] recorde, coloca Marina Silva
[01:14:37] no meio ambiente, você, ao mesmo tempo,
[01:14:39] também não investe,
[01:14:43] você direcionou recursos públicos
[01:14:45] para o plano safra, mas não direcionou
[01:14:47] recursos públicos para
[01:14:49] não só reestruturar
[01:14:51] do ponto de vista institucional
[01:14:52] o IBAMA e os órgãos de defesa
[01:14:54] do meio ambiente, mas você não
[01:14:56] investiu para repor
[01:14:58] o que foi tirado dos governos
[01:15:00] anteriores, para realmente
[01:15:02] reestruturar, por exemplo, planos de cargos e carreiras
[01:15:05] com a reivindicação de servidores
[01:15:06] ligados a essas instituições
[01:15:08] e assim por diante.
[01:15:10] Então você tem uma contradição que é
[01:15:12] ou você está a favor do meio ambiente ou você está fazendo
[01:15:14] o que você está fazendo, as duas coisas não dá.
[01:15:17] Mas como se cria essa
[01:15:18] dicotomia de que
[01:15:21] a estratégia está certa
[01:15:22] dentro do campo progressista. O problema
[01:15:26] é o Congresso, o problema é os
[01:15:28] webcomunistas, o problema é que o Brasil
[01:15:30] não tem correlação de forças. Você cria
[01:15:32] toda uma mitologia para justificar
[01:15:35] de que, sim, ele é a favor
[01:15:36] do meio ambiente, mas corta
[01:15:39] o coração dele e dá um plano safra recorde.
[01:15:43] Você tem que entender que o coração dele
[01:15:44] sangra.
[01:15:47] Então você cria um problema enorme
[01:15:48] quanto a isso. Ou então, por exemplo,
[01:15:51] aquela jogada que, ao meu ver,
[01:15:53] foi uma das jogadas mais baixas
[01:15:55] que eu vi de um
[01:15:57] governo petista, que foi Haddad
[01:15:59] pega semanas antes de…
[01:16:01] Ficou aquele tempão que era muita
[01:16:03] pressão por conta de que sabia
[01:16:05] que ia ter um pacote fiscal.
[01:16:07] Já havia indícios de que o pacote seria
[01:16:09] muito austero. Então passa
[01:16:11] um bom tempo dele tentando
[01:16:12] ajustar um pacote que
[01:16:14] parecesse não tão
[01:16:17] austero para a base
[01:16:19] do campo progressista.
[01:16:21] Mas que fosse austero o suficiente
[01:16:23] para agradar o banqueiro
[01:16:25] e etc. Tanto que a
[01:16:27] febre abanta adorando a coisa.
[01:16:30] Ele pega e lança, Haddad solta,
[01:16:33] a lista das empresas que recebem
[01:16:35] isenção fiscal e quanto custa
[01:16:37] cada isenção.
[01:16:39] Que dava, se eu não me engano, um total de 500 e poucos
[01:16:41] bilhões
[01:16:41] de isenção.
[01:16:46] Massa.
[01:16:47] E aí, quando lança,
[01:16:48] o pacote não mexe em nada.
[01:16:51] As isenções. E tu jogou essa
[01:16:52] lista pra quê?
[01:16:55] Porque ele jogou, a reação da galera
[01:16:56] foi, tá vendo? Haddad indo pra
[01:16:59] cima
[01:16:59] dos ricos do Brasil, quando na verdade
[01:17:03] não foi. Então você cria um discurso
[01:17:05] negacionista
[01:17:06] que parte do próprio governo
[01:17:08] que é, vamos botar o pobre no orçamento.
[01:17:11] E aí o que é que você faz como
[01:17:12] principal medida política? Arcabou-se
[01:17:14] fiscal e depois ajuste fiscal
[01:17:17] como consequência do arcabou-se fiscal.
[01:17:18] Que atacou majoritariamente
[01:17:20] quem? O povo pobre, que é a
[01:17:23] base eleitoral do petismo.
[01:17:25] Então veja, até do ponto de vista eleitoral
[01:17:27] é burro.
[01:17:28] Porque você tá atacando a sua própria
[01:17:31] base que vota em você. E por mais que
[01:17:32] você brigue com Jones,
[01:17:34] com quem quer que seja,
[01:17:36] com João Carvalho, com Deus,
[01:17:39] com quem você quiser brigar,
[01:17:41] essas pessoas vão sentir na
[01:17:42] pele os efeitos
[01:17:44] das políticas
[01:17:46] neoliberais e de austeridade
[01:17:48] do governo Lula. E essas pessoas vão
[01:17:50] ficar insatisfeitas.
[01:17:53] E essa insatisfação
[01:17:54] vai se traduzir em
[01:17:56] perda de popularidade, como tem se traduzido.
[01:17:59] E pode se traduzir,
[01:18:00] claro, depende também de quem é direita vai ter
[01:18:02] como candidato, uma série de questões, mas pode se
[01:18:04] traduzir numa derrota eleitoral.
[01:18:08] Então veja, até
[01:18:08] do ponto de vista eleitoral é burro.
[01:18:11] Só que é isso, é um
[01:18:13] discurso
[01:18:15] tautológico que produz
[01:18:16] um estado de negação.
[01:18:18] De que é
[01:18:20] como a estratégia está
[01:18:22] funcionando.
[01:18:24] A gente está se mantendo no poder, mas
[01:18:26] essa estratégia se alimenta
[01:18:28] de um elemento fundamental,
[01:18:31] que é um texto
[01:18:32] de Zizek de
[01:18:33] Blau, da eleição
[01:18:37] de Biden
[01:18:38] com…
[01:18:40] Não foi Biden, não. Foi de
[01:18:42] Trump com Hillary Clinton
[01:18:45] e da
[01:18:46] eleição de…
[01:18:48] de…
[01:18:50] do Macron com
[01:18:51] a Le Pen.
[01:18:55] Foi mais ou menos naquela época.
[01:18:57] Que ele chama isso de uma
[01:18:59] chantagem liberal.
[01:19:02] O PT hoje,
[01:19:03] por outro lado, de se alimentar desse
[01:19:05] negacionismo, que faz com que
[01:19:07] ele consiga aparecer
[01:19:09] ao mesmo tempo como defensor
[01:19:11] do meio ambiente e governo
[01:19:13] que mais cedeu verbas para o agronegócio
[01:19:15] ao mesmo tempo
[01:19:17] e que defende os pobres
[01:19:19] e ataca os pobres.
[01:19:20] Ao mesmo tempo, sem isso gerar uma
[01:19:22] contradição na cabeça
[01:19:23] do campo progressista,
[01:19:26] por outro lado, ele se nutre
[01:19:28] dessa chantagem
[01:19:29] liberal que alimenta
[01:19:33] esse tipo de
[01:19:34] negacionismo, que é
[01:19:36] se você não defender a gente,
[01:19:38] o fascismo voltará.
[01:19:41] Então, para o fascismo
[01:19:42] não voltar, você tem que estar disposto
[01:19:44] a qualquer coisa, porque com o fascismo não se brinca.
[01:19:49] Então, você usa uma verdade que é
[01:19:50] com o fascismo não se brinca,
[01:19:53] o fascismo é muito perigoso,
[01:19:54] mas você usa essa verdade
[01:19:57] para promover um programa
[01:19:58] que alimenta o surgimento do fascismo.
[01:20:01] Por quê?
[01:20:02] O fascismo, historicamente, se alimenta
[01:20:04] do ressentimento,
[01:20:06] do mal-estar social,
[01:20:08] da insatisfação social,
[01:20:11] principalmente
[01:20:12] quando o Benjamin vai falar, por exemplo,
[01:20:14] que o fascismo sempre surge de uma revolução fracassada.
[01:20:17] Ou seja, é uma demanda popular
[01:20:18] para mudar tudo isso,
[01:20:20] todas as coisas, e não é atendida
[01:20:22] por uma esquerda que prefere apenas gerir
[01:20:24] e dar uma melhoradazinha na coisa.
[01:20:28] Então, por exemplo,
[01:20:29] a crítica de Benjamin à social-democracia era essa.
[01:20:33] Então, ao
[01:20:34] promover uma política que vai produzir
[01:20:37] essa
[01:20:38] insatisfação, porque a vida das pessoas
[01:20:40] vai piorar por conta de perda de acesso
[01:20:42] à BPC, a abono salarial,
[01:20:45] a um aumento do salário mínimo, por mais que haja
[01:20:46] aumento, esse aumento
[01:20:48] vai ser muito menor do que,
[01:20:50] inclusive, comparado aos governos petistas,
[01:20:53] inclusive pode,
[01:20:54] enfim, Jones pode falar disso melhor do que eu,
[01:20:56] que é, inclusive ele pode ser menor
[01:20:58] do que a inflação de alimentos,
[01:21:00] que é, talvez, a principal, o cargo-chefe
[01:21:02] do que faz uma pessoa sentir
[01:21:04] que a vida dela está melhorando ou não,
[01:21:06] é poder comer melhor
[01:21:07] para o grosso da classe trabalhadora brasileira.
[01:21:11] E aí você gera
[01:21:12] insatisfação com a política econômica, que gera
[01:21:14] precarização e gera pobreza,
[01:21:17] por mais que o PIB esteja
[01:21:18] crescendo, mas nessas horas,
[01:21:20] se esquece que Maria Conceição Tavares
[01:21:22] falava que não se come PIB, né?
[01:21:24] Então você gera uma política
[01:21:26] que gera mal-estar e que gera insatisfação
[01:21:29] e gera uma demanda
[01:21:30] de transformação social
[01:21:32] de as pessoas olharem e dizerem
[01:21:35] eu quero mudar tudo isso que está aí,
[01:21:36] não à toa Bolsonaro usa essa frase,
[01:21:39] e vem uma extrema-direita e diz
[01:21:41] vamos mudar tudo isso que está aí.
[01:21:45] E aí você vai ter que
[01:21:47] lutar contra essa extrema-direita
[01:21:48] a todo custo.
[01:21:49] Como? Entregando tudo.
[01:21:52] E aí gera mais força para a extrema-direita.
[01:21:54] Ou seja, você cai num paradoxo
[01:21:56] que é a sua própria
[01:21:58] ação política que produz.
[01:22:00] Ou seja, é uma
[01:22:01] negação de perceber
[01:22:03] que o que você está fazendo
[01:22:05] gera as impossibilidades
[01:22:08] não só do campo da esquerda, mas como
[01:22:09] sua própria possibilidade.
[01:22:11] Que eu se fosse petista
[01:22:12] e como
[01:22:16] bom petista, preocupado em manter
[01:22:17] a hegemonia do meu partido,
[01:22:19] eu estaria preocupado com os rumos
[01:22:21] do PT.
[01:22:23] A não ser que ele queira só ser
[01:22:25] hegemônico dentro da esquerda.
[01:22:28] A não ser que seja só isso.
[01:22:31] Então, eu acho que
[01:22:32] um pouco do que eu tentei trabalhar num dos momentos
[01:22:35] do livro foi esse estado
[01:22:37] de negação que é um curto circuito
[01:22:40] da estratégia política
[01:22:41] adotada principalmente pelo campo
[01:22:43] lulista.
[01:22:46] Muito bom.
[01:22:47] Então, eu acho que a gente já chegou aqui no
[01:22:49] famoso ponto ótimo do nosso
[01:22:51] querido podcast, ainda
[01:22:52] mantendo o meu recorde de
[01:22:55] uma hora e meia de podcast
[01:22:57] não ultrapassando mais ou menos
[01:22:59] do que isso. E vamos para
[01:23:01] os nossos finalmentes
[01:23:02] para a gente avançar
[01:23:05] e para a gente demarcar
[01:23:07] também quais são as possibilidades. Acho que a gente já
[01:23:09] demarcou uma parte considerável.
[01:23:11] A gente conseguir fazer com que a esquerda
[01:23:13] renasça
[01:23:15] na medida do possível
[01:23:17] dos próximos anos.
[01:23:19] Jones, sinta-se à vontade aí para você trazer
[01:23:20] suas considerações, suas avaliações
[01:23:22] para a galera na hora que for
[01:23:24] dar uma olhada e lida no livro de você e de Eribaldo.
[01:23:28] Então, veja.
[01:23:29] Eu acho que o livro vocês vão gostar.
[01:23:32] Acho que está com uma linguagem
[01:23:33] acessível, fácil,
[01:23:35] sem perder o rigor teórico.
[01:23:37] Porque, assim,
[01:23:39] rigor teórico é fundamental.
[01:23:42] Acho que a gente consegue
[01:23:43] passear por vários temas. Então, a gente
[01:23:45] fala sobre junho de 2013,
[01:23:47] a gente fala sobre medo, a gente fala
[01:23:49] sobre correlação de forças, a gente fala
[01:23:51] sobre o que é essa vanguarda revolucionária,
[01:23:54] a gente fala
[01:23:55] sobre a falta
[01:23:57] de iniciativa política,
[01:23:59] a gente fala sobre o elemento cinismo.
[01:24:01] O elemento cinismo, inclusive, eu acho que
[01:24:03] tem algo que precisa
[01:24:05] ser explicado, a gente acabou não falando, mas muito rapidamente.
[01:24:07] Veja, uma das coisas que caracteriza
[01:24:09] o que se chama majoritariamente esquerda hoje
[01:24:11] é uma postura cínica.
[01:24:13] O Mano Brown, numa entrevista muito famosa
[01:24:15] para o Le Monde Diplomatique Brasil,
[01:24:18] final de 2017,
[01:24:19] em que ele praticamente previu a vitória do Bolsonaro,
[01:24:22] o Mano Brown fala,
[01:24:23] um dos elementos que eu estou vendo na periferia
[01:24:25] é que a periferia não está acreditando
[01:24:27] mais em política, em movimento social,
[01:24:29] em um partido que é tudo chaveca, é tudo palavra.
[01:24:32] Palavras de conversa
[01:24:33] fiada, de mentira.
[01:24:35] Então, por exemplo, o que a gente viu agora
[01:24:37] em relação à questão do BPC?
[01:24:40] Eu passei
[01:24:41] meses debatendo o ataque
[01:24:43] ao BPC e um bocado de gente
[01:24:45] negando que existia ataque ao BPC.
[01:24:47] Negando que tinha mudança
[01:24:49] de critério no BPC.
[01:24:50] Então, o Paulo Gala mentiu.
[01:24:53] O Paulo Gala chegou a dizer, exame,
[01:24:54] tu que é assistente social, não sei se tu viu isso,
[01:24:56] ele chegou a dizer que basta ter um atestado médico
[01:24:59] de um médico parceiro que você consegue
[01:25:01] o BPC ou auxílio-doença.
[01:25:03] Sabe? O Paulo Gala mentiu,
[01:25:05] o André Roncalha mentiu,
[01:25:08] o Carlito Neto mentiu,
[01:25:10] as mídias governistas mentiram,
[01:25:11] então um bocado de gente mentiu,
[01:25:12] dizendo que não tinha ataque ao BPC, negando
[01:25:14] todas as mudanças de critério que estavam ali colocadas
[01:25:17] que iam restringir o acesso
[01:25:19] ao BPC, que, diga-se
[01:25:21] de passagem, é pra completar
[01:25:23] a contrarreforma trabalhista e da previdência
[01:25:25] do Michel Temer, né?
[01:25:26] Porque a partir do momento que você faz o ataque
[01:25:29] aos direitos trabalhistas e à previdência social,
[01:25:31] é lógico que várias pessoas
[01:25:33] pobres, quando chegassem na idade,
[01:25:35] iam recorrer ao BPC loas,
[01:25:37] já que não tinha mais tempo de contribuição
[01:25:39] pra se aposentar pela previdência social.
[01:25:41] Então, é um complemento
[01:25:44] à contrarreforma trabalhista
[01:25:45] e à previdência do Michel Temer, né?
[01:25:46] Do Michel Temer e do Bolsonaro.
[01:25:49] E, depois que começou
[01:25:51] uma mobilização, o debate começou
[01:25:53] a crescer, entrou em cena
[01:25:54] vários coletivos de mães,
[01:25:57] de filhos com deficiência,
[01:26:00] o Conselho Federal de Serviço
[01:26:01] Social, a
[01:26:02] Associação dos Gestores Municipais
[01:26:05] de Políticas Sociais, não sei o quê,
[01:26:07] um bocado de gente entrou em cena e começou a ter pressão,
[01:26:09] foi o que aconteceu.
[01:26:11] O mesmo campo petista
[01:26:13] que mentia, dizendo que não tinha
[01:26:15] ataque ao BPC, foi
[01:26:17] pras redes sociais,
[01:26:19] dizer que o relatório do deputado
[01:26:21] Isnaldo Bulhões, que é do
[01:26:22] PMDB de Alagoas, que reduziu
[01:26:25] um pouco os ataques ao BPC,
[01:26:27] é uma vitória do governo,
[01:26:29] sendo que o projeto do governo foi derrotado, gente.
[01:26:32] E, agora,
[01:26:33] tem gente dizendo que ainda
[01:26:35] ficou ataques ao BPC, mas, gente,
[01:26:37] reduziu um pouco o dano,
[01:26:39] mas ainda ficou vários ataques.
[01:26:41] Aí, agora, tem gente dizendo,
[01:26:42] feita a deputada Dandara, de Minas Gerais,
[01:26:44] que é lá de Uberlândia,
[01:26:47] do PT, ela falou assim, gente,
[01:26:49] vai em fake news, Lula vai vetar
[01:26:51] o ataque ao BPC.
[01:26:55] Primeiro não tem ataque.
[01:26:57] Primeiro não tem ataque.
[01:26:59] Mente, mente, mente, mente, mente.
[01:27:01] Depois, que é derrotado
[01:27:03] no Congresso,
[01:27:05] e não é porque o PMDB é do bem,
[01:27:07] é demagogia, gente.
[01:27:09] Todo mundo sabe que, hoje, tem um bocado
[01:27:11] de deputado estadual, tem vereador de deputado federal
[01:27:13] que se elege com voto, por exemplo,
[01:27:15] de pessoas que têm PCD na família.
[01:27:18] Você tem,
[01:27:18] gente que elege um voto
[01:27:21] de familiares,
[01:27:23] de coletivos envolvidos com direito de pessoas
[01:27:24] PCDs. Então, tem um nicho
[01:27:26] ali de voto, de opinião pública, de mobilização.
[01:27:29] Para além
[01:27:30] do elemento municipal, né?
[01:27:32] Porque várias cidades dependem da renda do BPC,
[01:27:34] por exemplo, para ter mercado consumidor.
[01:27:37] Aí, pede no Congresso,
[01:27:39] mente que pede, está sentindo
[01:27:40] a pressão, que começa a dizer assim,
[01:27:43] não, mas Lula vai vetar o ataque, mas
[01:27:44] tomara que vete mesmo, é para isso que a gente
[01:27:46] está lutando. Mas, veja, foi o governo que propôs,
[01:27:48] pois.
[01:27:50] Veja, o nome disso é cinismo.
[01:27:53] O nome disso é cinismo.
[01:27:55] Desculpa, não tem
[01:27:56] outra coisa. O nome disso é
[01:27:58] cinismo. Assim como
[01:28:00] o queridíssimo
[01:28:03] deputado federal e líder
[01:28:04] do MTSCT, Guilherme Boulos,
[01:28:07] ele está calado sobre o ataque ao BPC.
[01:28:10] Tem uma porrada de gente na base do MTSCT
[01:28:12] que recebe BPC.
[01:28:14] Uma porrada de gente.
[01:28:16] O Guilherme Boulos foi o deputado federal
[01:28:18] da esquerda mais bem votado do Brasil
[01:28:20] na última eleição. Era esperado, né?
[01:28:23] Que o cara polida de um movimento
[01:28:24] que tem uma porrada de gente que recebe BPC.
[01:28:26] Está ele falando de super salário
[01:28:27] nas redes sociais. Não dá uma palavra sobre o ataque ao BPC.
[01:28:31] Veja, vocês podem
[01:28:32] achar que as pessoas não são inteligentes, que elas
[01:28:34] não sacam isso. Elas sacam.
[01:28:37] É isso que vai
[01:28:38] matando a credibilidade,
[01:28:40] vai matando a confiança,
[01:28:42] vai matando a relação de construção
[01:28:44] coletiva, o que se chama
[01:28:46] de esquerdas com o povo trabalhador.
[01:28:48] Então, é por isso que a gente colocou
[01:28:49] o cinismo como parte do título.
[01:28:53] Esse elemento cínico
[01:28:54] é muito forte
[01:28:56] nessa morte das esquerdas brasileiras.
[01:28:58] Então, assim,
[01:29:00] ninguém acha que é fácil,
[01:29:02] ninguém acha que é um passeio no parque,
[01:29:04] ninguém acha que a gente vai mudar a correlação
[01:29:06] de forças amanhã, ninguém acha que a gente
[01:29:08] vai reconstruir a esquerda brasileira amanhã.
[01:29:10] A nossa questão é urgência
[01:29:12] de tentar.
[01:29:14] Urgência de começar.
[01:29:16] Urgência de começar
[01:29:17] a construir uma alternativa.
[01:29:19] Porque se hoje essa alternativa não está posta,
[01:29:22] ela não vai nascer por abiogênese.
[01:29:24] Olha, lembrei agora do ensino médio.
[01:29:26] Ela não vai nascer do nada.
[01:29:28] Ela vai ser construída
[01:29:29] hoje, aos poucos,
[01:29:32] com muito trabalho,
[01:29:33] sem glamour,
[01:29:35] sem grandes resultados no imediato,
[01:29:38] mas ela precisa ser construída
[01:29:39] hoje, uma alternativa de poder,
[01:29:42] uma alternativa revolucionária
[01:29:43] para a classe trabalhadora brasileira.
[01:29:45] Eu acho que o nosso livro tenta
[01:29:47] contribuir com isso.
[01:29:49] Dá uma modesta contribuição
[01:29:51] minha e de Eribaldo,
[01:29:53] em que a gente tem histórias semelhantes
[01:29:55] de militância e de estudo, mas também tem perspectivas
[01:29:57] diferentes, parte também de lugares
[01:29:59] diferentes. Então, acho que as visões
[01:30:01] se completam
[01:30:03] bastante. Eribaldo até brincou
[01:30:05] dizendo que achava que a gente teria mais discordâncias,
[01:30:08] mas
[01:30:09] a coisa foi muito harmônica.
[01:30:12] Isso acontece, evidentemente,
[01:30:13] porque Eribaldo não falou de adorno
[01:30:15] e eu não falei de louçudo, então a coisa…
[01:30:17] casou, a coisa
[01:30:19] casou, mais fácil. Mas é isso,
[01:30:21] eu acho que vocês vão gostar.
[01:30:23] Um ótimo livro. E mandar um abraço,
[01:30:25] claro, para a nossa chefinha,
[01:30:28] para a nossa editora,
[01:30:30] Marcília Brito,
[01:30:31] que organizou todo o processo
[01:30:34] do livro, coordenou
[01:30:35] todos os trabalhos, e o livro
[01:30:37] ficou muito lindo. A capa ficou muito
[01:30:39] bonita, cá entre nós.
[01:30:41] Então, acho que é isso. Desejar um feliz
[01:30:43] 2025 para todo mundo,
[01:30:45] que as festas, na medida do possível,
[01:30:47] são boas. Bebam um pouco,
[01:30:50] moderem o uso de drogas,
[01:30:52] usem camisinha,
[01:30:54] cuidado para não
[01:30:56] pular bebo nas sete ondas
[01:30:57] e não se afogar na praia, que isso aí
[01:30:59] é um perigo danado.
[01:31:01] Cuidado na hora de dirigir,
[01:31:03] porque a extrema-direita e a esquerda
[01:31:05] pelega tiraram o DPVAT,
[01:31:07] então agora não tem mais DPVAT, então cuidado
[01:31:09] na hora de dirigir, pelo amor de Deus.
[01:31:12] E acho que é isso. Eu espero que 2025
[01:31:13] seja um ano de muitas lutas.
[01:31:15] E para concluir de verdade, em 2025,
[01:31:17] a partir de
[01:31:19] 13 de janeiro, temos
[01:31:21] o Portal de Notícias
[01:31:23] de Esquerda,
[01:31:25] que vai ser tocado pelo jornalista
[01:31:27] Mauro Lopes. Então, todos os dias,
[01:31:29] de segunda a sexta, a partir de sete horas
[01:31:31] da manhã, seu resumo
[01:31:33] diário de notícias do dia. Acompanhe lá
[01:31:35] no meu canal, o João de Manoel, que vai
[01:31:37] ser uma nova iniciativa de comunicação
[01:31:39] de esquerda do jornalismo crítico e opinativo,
[01:31:42] que vocês vão gostar
[01:31:43] bastante. Inclusive, o exame será convidado
[01:31:45] com frequência para
[01:31:47] falar… Vai ser convidado… Ah, eu trabalho!
[01:31:50] Eu trabalho a porra nenhuma não, Zambi.
[01:31:51] Eu trabalho a porra
[01:31:54] nenhuma não. Vai estar lá
[01:31:55] para a gente debater os temas importantes e estratégicos
[01:31:58] do Brasil e do mundo para a classe
[01:31:59] trabalhadora. É isso. Um beijo.
[01:32:01] Amo vocês e quero dizer
[01:32:03] ao RevoluShow,
[01:32:06] como diria um
[01:32:07] conhecido político burguês, não vamos
[01:32:09] desistir, João de Manoel.
[01:32:11] Em 2025, eu estarei mais com
[01:32:13] vocês. Um beijo.
[01:32:16] Muito bom.
[01:32:17] E aí, Erivaldo, se você tem vontade.
[01:32:20] Queria agradecer o espaço,
[01:32:22] dizer que é muito bom estar de volta,
[01:32:24] dizer às pessoas
[01:32:25] que vão comprar o livro,
[01:32:27] que, apesar
[01:32:29] desse tom da chamada
[01:32:31] ser mais
[01:32:33] pessimista, está falando de algo
[01:32:35] da morte, etc., de um aspecto
[01:32:38] cínico da esquerda,
[01:32:39] acho que esse livro não é um livro
[01:32:41] pessimista. Ele é apenas
[01:32:44] um livro que,
[01:32:45] se você acha que está
[01:32:47] tudo bem, inclusive foi essa chamada,
[01:32:49] se você acha que está tudo bem, ok, tudo bem,
[01:32:51] tranquilo, vá na paz, siga em frente.
[01:32:53] Agora, se você acha, assim como eu,
[01:32:55] assim como o Jones e outras pessoas,
[01:32:57] tem algum incômodo, acha que algo está
[01:32:59] errado na esquerda, que a gente está fazendo
[01:33:01] alguma coisa errada,
[01:33:03] esse livro é para você. É claro que
[01:33:05] eu e o Jones tentamos colocar as nossas posições,
[01:33:07] as nossas questões, mas isso é uma abertura
[01:33:09] de debate, que para a esquerda renascer,
[01:33:11] ela não vai renascer das palavras
[01:33:13] minhas e de Jones como mágica,
[01:33:15] ela vai depender de mim,
[01:33:17] de Jones, de Zamigliano, de todo mundo
[01:33:19] e de todos vocês que estão acompanhando
[01:33:21] aqui e mais gente ainda.
[01:33:23] Então, esse espaço de acolhimento
[01:33:25] dessa angústia. Eu estou
[01:33:27] muito angustiado com a situação política.
[01:33:29] Então, é o acolhimento, da gente se acolher
[01:33:31] nessa angústia e, quem sabe, transformar
[01:33:33] isso em algo positivo.
[01:33:35] E se a esquerda morreu,
[01:33:37] um dos textos, eu faço isso,
[01:33:39] se a esquerda morreu,
[01:33:41] é bom lembrar que Marx, quando apresentou
[01:33:43] o comunismo
[01:33:44] para o mundo,
[01:33:46] ele apresenta como é
[01:33:47] sendo o texto, dizendo que um espectro
[01:33:49] ronda a Europa,
[01:33:51] o espectro do comunismo, um fantasma.
[01:33:53] Não é à toa que Fischer
[01:33:55] adora a imagem do fantasma.
[01:33:57] Sejamos, então, esse fantasma
[01:33:58] a assombrar, porque você ia começar a ter medo.
[01:34:02] E nada melhor
[01:34:03] do que para botar medo do que um fantasma.
[01:34:05] Então, acho que existe esse aspecto
[01:34:07] fundamental.
[01:34:09] O livro, além do trabalho de Marcília
[01:34:11] também, nesse livro, eu queria lembrar
[01:34:13] de Caterine, que fez a capa, que ficou lindíssima,
[01:34:16] de Cristine, que fez a
[01:34:17] revisão, de Gabriel, que fez a
[01:34:18] diagramação, enfim, além do
[01:34:21] prefácio que foi feito por Davi De Cache,
[01:34:23] que ficou excelente,
[01:34:24] do prefácio e a orelha, que também ficou ótima,
[01:34:26] de Adelaide. Então, agradecer demais a todo mundo,
[01:34:29] dizer às pessoas que
[01:34:30] em 2025 a gente
[01:34:33] vai ter um ano
[01:34:34] difícil politicamente, mas que a gente tem
[01:34:36] a chance de, quem sabe, dar corpo
[01:34:39] a esse fantasma, através de muitas
[01:34:40] iniciativas, dentre elas
[01:34:42] o Revolut Show, que já é um espaço para isso,
[01:34:44] o canal de Jones com a
[01:34:47] nova iniciativa de noticiários
[01:34:49] para a classe trabalhadora
[01:34:51] com uma perspectiva crítica.
[01:34:53] Enfim, eu acho que tem muita coisa boa
[01:34:55] surgindo também, apesar
[01:34:57] das muitas dificuldades que também
[01:34:59] tem e que vão continuar tendo
[01:35:01] nos próximos tempos.
[01:35:03] Dizer a todo mundo Feliz Natal, Feliz Ano Novo,
[01:35:05] curtam as festas, com as moderações
[01:35:07] que o Jones falou aí, que é importante
[01:35:09] porque a gente é de militantes vivos,
[01:35:11] então fiquem vivos para o ano que vem.
[01:35:14] E é isso, comprem o livro,
[01:35:15] cheguem junto, também chegam
[01:35:17] lá nas minhas redes, no meu canal.
[01:35:19] Tudo é Eribaldo Maia, com o nome desse
[01:35:21] vocês vão achar. Eribaldo com H, com o nome desse
[01:35:23] vocês vão achar, saca?
[01:35:24] Então tem lá tudo, e para a gente trocar a ideia
[01:35:27] e quem sabe estar discutindo mais
[01:35:29] essas questões e outras, que eu acho
[01:35:31] que são muito importantes para esse
[01:35:33] momento. Valeu a Exame, valeu Jones,
[01:35:35] vamos embora.
[01:35:37] Muito bom, muito bem.
[01:35:39] Eu acho que é isso, né, queria agradecer
[01:35:41] Jones aí, Eribaldo por terem
[01:35:46] recebido o chamado aí para a gente.
[01:35:47] A gente fazer essa gravação para a gente
[01:35:48] falar de um tema tão importante no apagar
[01:35:50] das luzes de 2024, para a gente ter um
[01:35:52] 2025 de muita
[01:35:55] luta, de muito debate,
[01:35:56] muita discussão, muita encheção
[01:35:58] de saco, né, enfim, né,
[01:36:01] de coisas que a gente vai ter aí
[01:36:03] pela frente para fazer.
[01:36:04] E aproveitar também para dar as dicas aí para o
[01:36:06] jovem, né, nesse momento que você está aí,
[01:36:08] fim de ano, né, acontecendo, Natal
[01:36:10] já, quando esse podcast acontecer,
[01:36:13] Natal já se foi.
[01:36:14] Então algumas dicas importantes
[01:36:16] para o jovem nesse exato momento.
[01:36:17] Primeiro, jovem, você que está aí
[01:36:19] trabalhando como PJ, como uma parte
[01:36:21] considerável, não esqueça de pagar o INSS.
[01:36:23] Se você acredita profundamente que você
[01:36:25] não vai se aposentar, tudo bem,
[01:36:27] mas você vai se acidentar.
[01:36:29] Então, em algum momento, você vai precisar da auxílio-doença.
[01:36:32] Então, não se esqueça
[01:36:33] que tem a possibilidade disso.
[01:36:35] E outra coisa que é muito importante,
[01:36:37] experimente aí no fim de ano,
[01:36:39] quando você estiver no auge da doideira,
[01:36:41] tomar um carbãozinho ativado, uma dipirona antes de dormir
[01:36:43] e no dia seguinte, me agradeça.
[01:36:45] Porque a ressaca não virá.
[01:36:47] Não tenha essa alegria.
[01:36:49] Mantenha-se vivo. Não dê esse mole.
[01:36:53] E a gente aí agradece
[01:36:55] a todo mundo que veio até agora, ouviu esse podcast.
[01:36:58] A gente se vê numa próxima
[01:36:59] gravação, num próximo RevoluShow,
[01:37:01] no próximo ano que está vindo aí
[01:37:02] e começando.
[01:37:04] Para vocês, um belo e maravilhoso tchau, tchau!
[01:37:08] Tchau, tchau!
[01:37:08] Tchau, tchau!