Juliana Dal Piva: Militares mataram Rubens Paiva de diferentes maneiras


Resumo

A jornalista Juliana Dal Piva, autora do livro “Crime Sem Castigo – Como os Militares Mataram Rubens Paiva”, conversa com João Rabelo sobre o emblemático caso do desaparecimento e assassinato do ex-deputado Rubens Paiva durante a ditadura militar. Ela detalha o longo processo de investigação que envolveu a imprensa, a Comissão Nacional da Verdade e o Ministério Público Federal para desvendar as mentiras oficiais e identificar os responsáveis.

Juliana explica como os militares criaram uma versão falsa de fuga após a prisão de Paiva em sua casa no Leblon em janeiro de 1971, forjando documentação e uma suposta diligência ao Alto da Boa Vista onde teria ocorrido um tiroteio. Na realidade, Paiva morreu durante a tortura no DOI-CODI do Rio de Janeiro, e seu corpo foi enterrado clandestinamente, posteriormente desenterrado e movido várias vezes para ocultar o crime.

A conversa aborda o papel fundamental da viúva Eunice Paiva, que desde os anos 1970 lutou incansavelmente por investigações, e de jornalistas como Fritz Utzeri e Heraldo Dias, que comprovaram cientificamente a falsidade da versão oficial. Juliana também descreve como a revelação da Casa da Morte de Petrópolis levou ao médico Amílcar Lobo, que testemunhou os últimos momentos de Rubens Paiva.

O episódio detalha o trabalho conjunto da Comissão da Verdade e do Ministério Público Federal entre 2012 e 2014 que finalmente identificou os assassinos, incluindo o tenente Antônio Huges de Carvalho (responsável pela tortura) e o general Bellian (comandante do DOI-CODI). Apesar da denúncia em 2014 e da abertura de processo criminal, o caso encontra-se parado no Supremo Tribunal Federal, aguardando julgamento sobre a aplicação da Lei de Anistia a crimes contra a humanidade.

Juliana reflete sobre a importância do caso Rubens Paiva como exemplo da violência sistemática da ditadura e da luta contínua por memória, verdade e justiça, destacando como os militares “mataram Rubens Paiva de diferentes maneiras” - não apenas tirando sua vida, mas ocultando o corpo, forjando documentação e perpetuando mentiras por décadas.


Indicações

Books

  • Crime Sem Castigo – Como os Militares Mataram Rubens Paiva — Livro de Juliana Dal Piva que investiga minuciosamente o assassinato e desaparecimento de Rubens Paiva, baseado em sua pesquisa de mestrado no CPDOC da FGV.
  • Feliz Ano Velho — Livro de Marcelo Rubens Paiva mencionado como fonte que continha descrições físicas do torturador responsável pela morte de seu pai, ajudando na identificação.

Organizations

  • Comissão Nacional da Verdade — Comissão criada para investigar violações de direitos humanos durante a ditadura militar, fundamental para revelar as circunstâncias da tortura, ocultação do corpo e nomes dos militares envolvidos no caso Rubens Paiva em 2014.
  • Ministério Público Federal - Grupo de Justiça de Transição — Grupo do MPF no Rio de Janeiro que trabalhou em conjunto com a Comissão da Verdade entre 2012 e 2014 para investigar o caso, coletar provas e oferecer denúncia contra os responsáveis.

People

  • Eunice Paiva — Viúva de Rubens Paiva que lutou incansavelmente por décadas para investigar o desaparecimento do marido, denunciando internacionalmente o caso e pressionando instituições brasileiras.
  • Fritz Utzeri e Heraldo Dias — Dupla de jornalistas do Jornal do Brasil que, em 1978, comprovou cientificamente a falsidade da versão oficial da fuga de Rubens Paiva, medindo postes e demonstrando inconsistências na perícia.
  • Inês Etienne Romeu — Única sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis, que fez um relatório detalhado identificando torturadores, incluindo o médico Amílcar Lobo, crucial para as investigações.
  • Cláudio Fonteles — Ex-procurador-geral da República e conselheiro da Comissão Nacional da Verdade que pesquisou arquivos do SNI e intermediou o contato com testemunhas militares como o tenente-coronel Avólio.

Linha do Tempo

  • 00:04:08Aproximação de Juliana Dal Piva com o caso Rubens Paiva — Juliana explica como se aproximou da história primeiro como repórter e depois como pesquisadora acadêmica, acompanhando casos de mortos e desaparecidos desde 2010. Ela relata que o caso surgiu durante entrevistas com militares, especialmente após uma conversa com o coronel Paulo Malhães em 2012, onde ele sugeriu ter informações sobre o caso. Sua motivação era ouvir os próprios agentes do regime para entender o que aconteceu.
  • 00:09:33Quem foi Rubens Paiva e por que se tornou alvo — Juliana descreve Rubens Paiva como um engenheiro branco de classe média alta que vivia no Leblon com a família. Ele não integrava grupos de oposição armada, mas atuava em uma rede de informantes que ajudava na comunicação com exilados. Sua prisão ocorreu após militares interceptarem uma carta vinda do Chile com seu telefone. Paiva foi preso em casa, diante da família, o que era incomum para a época, já que normalmente as prisões eram feitas clandestinamente em ‘pontos’ de encontro.
  • 00:15:11A versão oficial forjada da fuga e os enterros clandestinos — Juliana detalha a versão falsa criada pelos militares: que Paiva teria fugido durante uma diligência ao Alto da Boa Vista. Na realidade, ele morreu durante a tortura em cerca de 24 horas. Os militares levaram seu corpo até a estrada, incendiaram um Fusca para simular um tiroteio, e fizeram o primeiro enterro clandestino. Posteriormente, com obras na estrada, o corpo foi desenterrado e levado para a Praia do Recreio. Em 1973, Paulo Malhães participou de uma operação para retirar os restos mortais da praia e jogá-los em um rio não especificado.
  • 00:24:35A luta de Eunice Paiva e o papel do Conselho de Direitos Humanos — A conversa aborda a luta incansável de Eunice Paiva, viúva de Rubens, que desde 1971 buscava investigações através do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Como a polícia estava envolvida no crime, ela recorreu a esta instância que tinha conselheiros do MDB. Apesar de ser ignorada inicialmente, com ajuda de jornalistas que comprovaram a falsidade da versão oficial, o caso foi reaberto em 1979. O primeiro inquérito só foi instaurado em 1986, durante o governo Sarney, mas foi arquivado sem apontar culpados.
  • 00:32:27A revelação da Casa da Morte e o médico Amílcar Lobo — Juliana explica como a descoberta da Casa da Morte de Petrópolis, um centro clandestino de tortura, levou ao médico Amílcar Lobo. A única sobrevivente, Inês Etienne Romeu, fez um relatório detalhado identificando os agentes, incluindo Lobo. Inês posteriormente localizou o consultório do médico e confrontou-o com outros ex-presos políticos. Amílcar Lobo acabou admitindo ter visto Rubens Paiva morrendo dentro do DOI-CODI, tornando-se uma testemunha crucial para o caso.
  • 00:37:37O trabalho da Comissão da Verdade e identificação dos assassinos — Entre 2012 e 2014, a Comissão Nacional da Verdade e o Ministério Público Federal trabalharam conjuntamente para desvendar o caso. O ex-procurador-geral Cláudio Fonteles pesquisou arquivos do SNI e foi procurado pelo tenente-coronel Avólio, que se ofereceu como testemunha. Avólio e o coronel Leão identificaram o tenente Antônio Huges de Carvalho como o torturador responsável pela morte de Paiva. Com base em descrições físicas e fotos, confirmou-se que Huges era o ‘oficial de olho verde’ mencionado por testemunhas.
  • 00:43:35Situação atual do caso e a questão da Lei de Anistia — Juliana explica que os responsáveis foram denunciados em 2014 e um processo foi aberto na Justiça Federal - o primeiro processo criminal por assassinato na ditadura. O TRF2 confirmou a abertura, mas o ministro Teori Zavascki (posteriormente morto) trancou o caso para julgar se crimes contra a humanidade são passíveis de anistia. Atualmente, o recurso está com o ministro Alexandre de Moraes. Dos cinco réus, três já morreram; dois permanecem vivos: o general Bellian e Jaci Oxendorf, ambos recebendo pensões do Estado.

Dados do Episódio

  • Podcast: Ilustríssima Conversa
  • Autor: Folha de S.Paulo
  • Categoria: Arts News Society & Culture
  • Publicado: 2025-02-08T08:00:00Z
  • Duração: 00:50:06

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] O primeiro momento em que eles fizeram um enterro clandestino do corpo do Rubens Paiva

[00:00:08] foi lá na estrada da Boa Vista.

[00:00:11] Então, a gente presume que no momento que eles subiram a estrada, eles levaram o corpo do Rubens.

[00:00:17] E eles levam esse fusca até lá, aí eles tacam fogo, fingem um tiroteio, forjam tudo aquilo

[00:00:26] e provavelmente também fazem esse enterro clandestino do corpo do Rubens Paiva.

[00:00:31] Algum tempo depois, porque uma obra começou na estrada, eles têm que retirar o corpo do Rubens Paiva de lá

[00:00:38] e aí levam para o recreio.

[00:00:41] E alguns anos depois, em 1973, segundo o relato do Paulo Malhães, ele faz uma operação para retirar da praia

[00:00:48] e aí, segundo os depoimentos dele, jogar num rio que ele não especificou exatamente qual.

[00:00:56] O sucesso do filme Ainda Estou Aqui reabriu o interesse pelo assassinato de Rubens Paiva

[00:01:05] que aconteceu num dos períodos mais violentos da ditadura militar, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici.

[00:01:12] Em 20 de janeiro de 71, feriado na cidade do Rio de Janeiro, militares da aeronáutica foram até a casa de Paiva,

[00:01:19] no Leblon, e o prenderam diante da família.

[00:01:22] Com calma, ele os convenceu a deixá-lo trocar de roupa,

[00:01:26] e a dirigir seu próprio carro até a terceira zona aérea no aeroporto Santos Dumont, onde seria interrogado.

[00:01:32] Poucas horas depois, ele foi transferido para o Centro de Repressão Política DOI-COD do Primeiro Exército

[00:01:38] e nunca mais foi visto com vida.

[00:01:41] Seu corpo jamais foi devolvido à família e os culpados nunca foram julgados ou punidos.

[00:01:46] Se hoje o Brasil conhece a identidade dos responsáveis pelo crime,

[00:01:50] isso se deve, em grande parte, à luta da família e ao trabalho da imprensa,

[00:01:55] uma vez que o Estado brasileiro demorou a cumprir o seu papel institucional,

[00:01:59] tanto durante a ditadura militar quanto na redemocratização.

[00:02:03] O primeiro inquérito para investigar o desaparecimento de Paiva só foi instaurado em 1986, 15 anos após a prisão.

[00:02:12] A morte do ex-deputado só foi reconhecida pelo Brasil em 1996, 25 anos depois do assassinato.

[00:02:19] Já as circunstâncias da tortura, da ocultação do corpo e o nome dos militares envolvidos

[00:02:24] só vieram a público em 2014, com as revelações da Comissão Nacional da Verdade.

[00:02:30] O emaranhado de versões, reviravoltas e o modo como cada peça se encaixou

[00:02:34] em um dos casos mais emblemáticos da repressão política no regime militar

[00:02:38] foram investigados pela jornalista Juliana Dalpiva, convidada dessa semana do Ilustríssima Conversa.

[00:02:45] A Juliana lança agora o livro Crime Sem Castigo – Como os Militares Mataram Rubens Paiva, pela editora Matrix,

[00:02:52] fruto do trabalho de mestrado…

[00:02:54] que ela fez no CPDOC da Fundação Getúlio Vargas.

[00:02:57] Com esse trabalho, Juliana se soma ao grupo de jornalistas que ajudou a elucidar a morte

[00:03:02] e o desaparecimento de Rubens Paiva.

[00:03:04] Na nossa conversa, ela explica as versões que os militares criaram para afastar a possibilidade de crime

[00:03:10] e contextualiza como se chegou aos nomes dos envolvidos.

[00:03:14] Em 2014, ela própria entrevistou o tenente-coronel reformado Paulo Malhães,

[00:03:19] agente do Centro de Informações do Exército.

[00:03:22] Durante um encontro com o ex-militar,

[00:03:24] revelou a missão que recebeu em 1973,

[00:03:27] retirar os restos mortais de Paiva da Praia do Recreio dos Bandeirantes

[00:03:31] e, em seguida, dar-lhes uma destruição definitiva.

[00:03:35] Juliana também fala sobre o trabalho da imprensa,

[00:03:37] que chegou literalmente a fazer escavações em busca do corpo de Rubens Paiva

[00:03:42] e como vê a responsabilização dos culpados.

[00:03:48] Eu sou João Rabelo, repórter da Folha,

[00:03:51] e vou estar aqui com vocês enquanto Eduardo Sombini está em férias.

[00:03:54] E este é o Ilustríssima Conversa.

[00:04:08] Juliana, seja muito bem-vinda ao Ilustríssima Conversa.

[00:04:11] É um prazer ter você aqui.

[00:04:13] O seu livro traça um longo panorama de todas as informações disponíveis

[00:04:17] sobre o desaparecimento do Rubens Paiva em 20 de janeiro de 71 até o momento presente.

[00:04:23] É um trabalho de fôlego minucioso que funciona como um fio nesse labirinto.

[00:04:29] Eu queria que você explicasse um pouco como você se aproxima dessa história.

[00:04:34] É um prazer enorme para mim estar aqui,

[00:04:37] conversar com vocês no Ilustríssima Conversa.

[00:04:39] Obrigada demais pelo convite.

[00:04:42] Eu me aproximo dessa história, primeiro como repórter,

[00:04:46] depois como pesquisadora acadêmica.

[00:04:48] Já acompanho casos de mortos e desaparecidos,

[00:04:53] desde 2010, vinha fazendo ali um trabalho,

[00:04:58] primeiro de entender mesmo estudar, e foi uma coisa que eu fiz por conta própria.

[00:05:03] Eu passei ainda na faculdade, em 2008, um período na Universidade de Buenos Aires,

[00:05:09] e entrei muito em contato com aquele mundo da justiça de transição,

[00:05:15] do julgamento dos militares lá, e dos espaços de memória.

[00:05:19] E aí quando eu volto para o Brasil, no fim de 2008,

[00:05:23] eu vou me formar, e aí o Brasil vai discutir a lei de anistia,

[00:05:28] a constitucionalidade da lei de anistia, em abril de 2010,

[00:05:32] e eu começo a cobrir os casos a partir disso.

[00:05:34] Em seguida vem a criação da Comissão da Verdade,

[00:05:36] e o caso do Rubens, ele acaba surgindo para mim,

[00:05:40] num contexto em que, ao tentar me especializar em entrevistar militares

[00:05:45] que integraram o pior do regime, o horror do regime, os torturadores, e assassinos também,

[00:05:52] que acho que essa é a palavra correta para quem cometeu o assassinato,

[00:05:56] não era sequer autor, assim, teve um breve período em que teve pena de morte no Brasil,

[00:06:02] mas a ditadura agiu de modo ilegal, em grande parte do tempo,

[00:06:06] mesmo para as próprias leis que eles criaram.

[00:06:08] Então, eu tinha essa vontade, sabe, de ouvir essas pessoas,

[00:06:14] porque em alguns casos, só eles sabem também o que aconteceu.

[00:06:19] Tentar esse diálogo que aparece, assim, quase impossível,

[00:06:22] era também, de certa maneira, necessário.

[00:06:25] E aí, eu começo a entrevistar militares,

[00:06:28] é um trabalho que eu também faço, em grande parte, quando eu estou no Globo,

[00:06:32] junto com um colega querido, que é o Chico Otávio.

[00:06:35] E aí, o Rubens Paiva surge para mim, ainda em 2012,

[00:06:40] durante uma entrevista que a gente fez com o coronel Paulo Malhães,

[00:06:44] e no final da entrevista, assim, como quem não quer nada, ele deixa escapar, sabe?

[00:06:49] Assim, ah, é que ele tinha alguma informação, sabe?

[00:06:50] Assim, ah, é que ele tinha alguma informação, sabe?

[00:06:50] Assim, ah, é que ele tinha alguma informação, sabe?

[00:06:51] Assim, ah, é que ele tinha alguma informação, sabe?

[00:06:51] Assim, ah, é que ele tinha alguma informação, sabe?

[00:06:52] Assim, ah, é que ele tinha alguma informação, sabe?

[00:06:52] Assim, ah, é que ele tinha alguma informação, sabe?

[00:06:53] Assim, ah, é que ele tinha alguma informação, sabe?

[00:06:53] Assim, ah, é que ele tinha alguma informação, sabe?

[00:06:54] Assim, ah, é que ele tinha alguma informação, sabe?

[00:06:54] Ele não tinha participado do interrogatório sobre tortura do Rubens Paiva,

[00:07:00] obviamente que ele não usava essas expressões, mas ele falava sobre a prisão,

[00:07:04] mas que ele sabia alguma coisa sobre o caso.

[00:07:06] Só que ele não quis dizer nesse dia.

[00:07:09] E aí, vai passando o tempo, em 2014, em março de 2014,

[00:07:14] ele começa a dar entrevistas sobre isso,

[00:07:18] sem saber ali, mas de maneira concomitante,

[00:07:21] ele dá um depoimento para a Comissão da Verdade

[00:07:23] do Rio de Janeiro, admitindo que tinha

[00:07:25] participado da ocultação de cadáver do deputado

[00:07:28] tempos depois do assassinato,

[00:07:30] deu uma entrevista para o Chico Otávio,

[00:07:32] a gente já não estava mais trabalhando junto nessa época,

[00:07:34] e dá uma entrevista

[00:07:36] para mim. A entrevista do Chico, ele deu

[00:07:37] uma entrevista em off, e aí alguns dias

[00:07:39] depois, ele já tinha marcado essa entrevista comigo também,

[00:07:42] e a gente falou sobre vários outros

[00:07:43] assuntos, e no meio da entrevista,

[00:07:45] do nada, assim, ele começa

[00:07:47] a puxar a história da operação

[00:07:49] que ele fez na Praia do Recreio,

[00:07:51] para desenterrar o corpo

[00:07:53] do Rubens Paiva, os restos mortais,

[00:07:55] e dar um fim,

[00:07:57] uma solução final, para ter

[00:07:59] assim, sabe, João, essa noção

[00:08:01] do quão cruel

[00:08:03] é tudo isso, porque

[00:08:05] e é um pouco

[00:08:07] quando a gente discutiu o título

[00:08:09] do meu livro, que é

[00:08:10] Crime Sem Castigo, como os militares mataram o Rubens Paiva,

[00:08:14] os militares mataram o Rubens Paiva

[00:08:15] de diferentes maneiras, para além

[00:08:17] de tirar a vida do Rubens Paiva,

[00:08:19] mataram o Rubens Paiva,

[00:08:21] ocultaram o cadáver do Rubens Paiva,

[00:08:24] mentiram sobre o que

[00:08:25] fizeram, sobre isso, forjaram

[00:08:28] documentação em torno disso,

[00:08:30] e fizeram essa crueldade

[00:08:32] com o corpo do Rubens Paiva,

[00:08:34] que foi enterrar e desenterrar várias

[00:08:35] vezes. Então, eu me

[00:08:37] somo a uma geração,

[00:08:39] uma geração não, mas a um

[00:08:41] grupo de jornalistas, que

[00:08:43] desde os anos 70,

[00:08:45] vem ajudando

[00:08:47] a construir as peças,

[00:08:49] peças desse caso, e muito

[00:08:51] com a ajuda

[00:08:53] da Eunice Paiva, desde os anos

[00:08:55] 70, com uma iniciativa, que é uma das

[00:08:57] coisas que eu tentei documentar muito na minha pesquisa,

[00:09:00] como ela

[00:09:01] sempre teve ali, na linha

[00:09:03] de frente de todas as iniciativas

[00:09:05] possíveis para se abrir investigações

[00:09:07] em torno do crime,

[00:09:09] essa foi uma luta da

[00:09:11] Eunice desde o início,

[00:09:13] que se investigasse o crime

[00:09:15] contra o marido dela.

[00:09:18] Sim, é

[00:09:19] essa altura, eu acho que todo mundo já sabe,

[00:09:21] já tem uma noção de quem foi o Rubens

[00:09:23] Paiva, mas eu queria que você

[00:09:25] começasse falando

[00:09:26] quem foi e por que ele se tornou

[00:09:29] um alvo da repressão

[00:09:31] política na ditadura militar.

[00:09:33] O Rubens Paiva era,

[00:09:35] na ocasião do desaparecimento,

[00:09:38] um engenheiro,

[00:09:39] um homem branco, de classe

[00:09:41] de classe

[00:09:43] media alta, de elite, que viveu

[00:09:45] com a família, no

[00:09:47] Leblon, essa era

[00:09:49] um pouco a fachada, né,

[00:09:51] aí, como ele

[00:09:53] não integrava nenhum dos grupos

[00:09:55] de oposição,

[00:09:57] e nenhum dos grupos de oposição

[00:09:58] que fazia ações armadas,

[00:10:01] ele fazia, assim, até

[00:10:03] isso é uma coisa que a gente escuta muito da própria

[00:10:05] família, o que dava, e o que dava

[00:10:07] naquele momento era integrar uma rede

[00:10:09] de informantes que ajudava

[00:10:11] a fazer uma

[00:10:13] comunicação entre pessoas que tinham

[00:10:15] saído do Brasil,

[00:10:17] seja por um autoexame,

[00:10:19] exílio, né, pessoas que tentaram se exilar,

[00:10:21] seja quem foi retirado

[00:10:23] do país por meio dos

[00:10:25] sequestros, e o desaparecimento

[00:10:27] do Rubens Paiva acontece logo depois

[00:10:29] do último dos sequestros

[00:10:31] que foram feitos pelas organizações

[00:10:33] de luta armada, em que

[00:10:35] eles libertam, são 70

[00:10:38] presos, que é o

[00:10:39] embaixador suíço, e aí

[00:10:41] já era uma tática que na época

[00:10:43] estava quase se esgotando,

[00:10:45] porque acaba

[00:10:47] que,

[00:10:49] na medida em que, depois

[00:10:51] do sequestro do embaixador americano,

[00:10:54] isso foi sendo replicado,

[00:10:56] aí a ditadura foi ficando

[00:10:57] cada vez mais violenta, né,

[00:10:59] quem fosse encontrado,

[00:11:01] que tivesse participado dessas ações,

[00:11:03] era assassinado,

[00:11:05] né, o Virgílio

[00:11:07] Gomes da Silva, que é da ELN,

[00:11:09] um dos primeiros ali,

[00:11:11] líder do sequestro do

[00:11:13] embaixador americano,

[00:11:15] ele vai ser, assim,

[00:11:17] assassinado com uma violência,

[00:11:19] uma violência absurda, depois que ele foi

[00:11:21] capturado, e assim aconteceu

[00:11:23] com vários outros, alguns não

[00:11:25] foram assassinados, mas também foram barbaramente

[00:11:27] violentados, e aí eles começam a fazer outros

[00:11:29] sequestros, pra tentar libertar

[00:11:31] outras pessoas, e aí

[00:11:33] essa situação vai, assim, 69,

[00:11:35] 70, 71, até o início

[00:11:37] de 71, é um

[00:11:39] período muito violento, ainda

[00:11:41] vai ter alguns anos de uma violência,

[00:11:43] até 75, 76, uma

[00:11:45] violência extremada, né,

[00:11:47] em torno,

[00:11:49] de uma política de desaparecimentos.

[00:11:51] Agora a gente sabe,

[00:11:53] João, inclusive, por causa

[00:11:55] de um documento que foi liberado pelos

[00:11:57] americanos, pela CIA,

[00:11:59] ele tem um telegrama da CIA,

[00:12:02] que tomou conhecimento,

[00:12:03] não se sabe exatamente como, mas

[00:12:05] de uma reunião, entre

[00:12:06] o então presidente Geisel,

[00:12:09] com o Figueiredo, e

[00:12:11] o chefe do Centro de Informações do Exército,

[00:12:13] que é o Milton Tavares

[00:12:15] Souza, o general Miltinho,

[00:12:16] em que eles discutiram,

[00:12:19] como manter uma política

[00:12:21] de execuções e

[00:12:23] desaparecimentos. Inclusive os

[00:12:25] americanos têm, se não me engano, sete linhas

[00:12:27] deste documento,

[00:12:29] tarjadas até hoje, sem liberar esse documento,

[00:12:31] que foi descoberto em 2018, e

[00:12:33] até hoje não se liberou o restante

[00:12:35] do que está tarjado.

[00:12:37] Mas, e isso é uma noção

[00:12:39] importante, que aí chega o Rubens,

[00:12:41] né, pra gente não fugir muito

[00:12:43] do tema. O Centro de Informações

[00:12:45] do Exército,

[00:12:47] era um órgão do gabinete do Ministro do Exército,

[00:12:49] e

[00:12:51] alguns dos principais oficiais

[00:12:53] do regime, né,

[00:12:55] da ditadura, estavam

[00:12:57] nomeados ali, sob liderança

[00:12:59] do próprio ministro Orlando Geisel,

[00:13:01] e atuando em todo o país.

[00:13:03] Um deles

[00:13:05] vai atuar também

[00:13:07] na prisão e

[00:13:09] no assassinato, por consequência,

[00:13:11] do Rubens Paiva, que é

[00:13:13] o tenente-coronel Rubens Paim

[00:13:15] Sampaio, que esteve em várias ações

[00:13:17] pelo país, esteve na Casa da Morte

[00:13:19] da Metrópole, esteve na Araguaia,

[00:13:21] em várias missões, com

[00:13:23] muita

[00:13:25] violência. E é apontado

[00:13:27] por uma das testemunhas, no caso

[00:13:29] do Rubens, como quem ajudou ali,

[00:13:31] quem deu entrada ao Rubens dentro do

[00:13:33] DOI-COD. Porque o Rubens é preso em casa,

[00:13:35] levado

[00:13:37] para o DOI-COD. E segundo

[00:13:39] aí também, o Amilcar Lobo

[00:13:41] é visto já em

[00:13:43] condições gravíssimas,

[00:13:45] assim, morrendo

[00:13:47] dentro do DOI-COD. E uma outra testemunha

[00:13:49] que também diz que viu a tortura,

[00:13:51] um dos militares, que foi

[00:13:53] uma testemunha bastante importante para o Ministério Público Federal,

[00:13:55] que aponta, inclusive,

[00:13:57] quem eram os militares

[00:13:59] responsáveis pela própria tortura

[00:14:01] do Rubens Paiva dentro do

[00:14:03] DOI-COD do Rio de Janeiro. Mas

[00:14:05] esse tenente-coronel que estava falando,

[00:14:07] que é o Rubens Paiva Sampaio,

[00:14:09] ele era do gabinete do ministro.

[00:14:11] Quando ele é apontado no

[00:14:13] crime, João, ele não

[00:14:15] admite. Ah, eu

[00:14:17] participei do assassinato

[00:14:19] do Rubens Paiva. Mas ele admite

[00:14:21] que tomou conhecimento,

[00:14:23] sim, da prisão do Rubens Paiva, por meio de uma

[00:14:25] ligação que é feita ao CIE,

[00:14:27] que era um órgão do gabinete. Então,

[00:14:29] o gabinete do ministro

[00:14:31] do Exército, em janeiro de

[00:14:33] 1971, tomou conhecimento

[00:14:35] da prisão do Rubens Paiva.

[00:14:37] Ao mesmo tempo em que

[00:14:39] oficialmente

[00:14:41] eles mentiram durante

[00:14:43] décadas, dizendo que o Rubens Paiva

[00:14:45] tinha fugido. Inclusive fizeram

[00:14:47] uma documentação totalmente

[00:14:49] fraudulenta pra sustentar

[00:14:51] essa versão. Muito

[00:14:53] provavelmente, no mesmo momento em que

[00:14:55] eles estavam lá fotografando o Fusquinha

[00:14:57] que eles levaram no Alto da Boa Vista

[00:14:59] pra fingir que estavam fazendo algum tipo de perícia,

[00:15:01] foi o momento em que eles fizeram

[00:15:03] o primeiro enterro do corpo

[00:15:05] do Rubens Paiva. O primeiro enterro clandestino

[00:15:07] que foi feito pra ocultar

[00:15:09] o cadáver. Sim.

[00:15:11] Mas por qual motivo o Rubens

[00:15:13] Paiva foi levado pra prisão?

[00:15:15] O telefone da casa dele

[00:15:17] tava anotado

[00:15:19] numa carta que tava vindo

[00:15:21] com uma senhora,

[00:15:23] com duas senhoras, que vinham do

[00:15:25] Chile, que tinham encontrado

[00:15:27] exilados do Chile. E aí

[00:15:29] eles obrigam uma delas

[00:15:31] a telefonar pra casa

[00:15:33] do Rubens Paiva

[00:15:35] e aí ele atende o telefone

[00:15:37] e em seguida eles vão lá.

[00:15:39] Eles descobrem essa

[00:15:41] atuação do Rubens

[00:15:43] como alguém que fazia

[00:15:45] essa parte dessa

[00:15:47] mínima rede de troca de informações.

[00:15:49] Então assim, ele foi preso

[00:15:51] em casa, desarmado

[00:15:53] e esse é um aspecto também, sabe

[00:15:55] João, que acho que é importante explicar

[00:15:57] pra quem tá acompanhando a gente

[00:15:59] aqui no Ilustríssima Conversa

[00:16:01] por que que eu vou estudar o caso do Rubens

[00:16:03] Paiva? Não é porque é um caso famoso

[00:16:05] o caso do Rubens foge

[00:16:07] a regra em vários aspectos

[00:16:09] da ditadura, né?

[00:16:11] Como ele foi preso em casa

[00:16:13] na frente da família, existiam

[00:16:15] muitas testemunhas disso.

[00:16:17] Normalmente, naquele período

[00:16:19] quando os agentes

[00:16:21] do ECOD

[00:16:23] e do Centro de Informações do Exército

[00:16:25] iam prender pessoas, sequestrar

[00:16:27] porque era feito clandestinamente

[00:16:29] eles iam num ponto

[00:16:31] que era como se chamava naquela época

[00:16:33] os encontros entre pessoas

[00:16:35] das organizações de oposição

[00:16:37] à ditadura. E aí

[00:16:39] eles sequestravam as pessoas

[00:16:41] não registravam essa prisão, sumiam

[00:16:43] com elas, seja pra torturar

[00:16:45] por alguns dias, seja pra assassinar. O Rubens não tá

[00:16:47] em nenhum ponto. Ele tava em casa

[00:16:49] com a mulher e os filhos

[00:16:51] e ele tinha uma rede de influência

[00:16:53] pela pessoa

[00:16:55] que ele é, a família

[00:16:57] socialmente falando. Então ele tinha

[00:16:59] acesso a uma rede que naquela época

[00:17:01] por pior que fosse

[00:17:03] a violência

[00:17:05] e a censura

[00:17:07] e a ditadura em si

[00:17:09] tinha alguma influência de perguntar

[00:17:11] cadê o Rubens? Como é que ele saiu de casa

[00:17:13] saudável, sem nenhum problema

[00:17:15] como é que uma pessoa que saiu de casa

[00:17:17] pelas mãos

[00:17:19] de militares não volta?

[00:17:21] Então eles não podiam

[00:17:23] na medida em que mataram o Rubens Paiva

[00:17:25] simplesmente

[00:17:27] dizer que

[00:17:29] tem uma expressão que o Hélio Gasperi usa

[00:17:31] nos livros dele que é

[00:17:33] o receituário de lorotas do DOI

[00:17:35] não cabia aquele receituário

[00:17:37] então eles vão

[00:17:39] forjar uma documentação

[00:17:41] pra

[00:17:43] mentir sobre uma fuga

[00:17:45] e aí eles fazem uma perícia

[00:17:47] mequetrefe

[00:17:49] uns documentos forjados

[00:17:51] ali de que

[00:17:53] três pessoas tinham ido com ele pra uma

[00:17:55] diligência no Alto da Boa Vista

[00:17:57] e a ironia dessa documentação

[00:17:59] que é uma sindicância até João

[00:18:01] porque sindicância diferente de um inquérito

[00:18:03] criminal é uma questão

[00:18:05] administrativa

[00:18:07] não se reconhece a existência de um crime

[00:18:09] ao abrir uma sindicância

[00:18:11] e aí a ironia dessa sindicância é que

[00:18:13] as pessoas envolvidas nessa sindicância

[00:18:15] seja por serem responsáveis da perícia

[00:18:17] seja por serem apontadas como as pessoas

[00:18:19] que estavam na tal da diligência

[00:18:21] em que o Rubens teria fugido

[00:18:23] segundo a história fake deles

[00:18:25] são

[00:18:27] ou as testemunhas do caso

[00:18:29] muitos anos depois vão se tornar

[00:18:31] as principais testemunhas do caso

[00:18:33] e também ali nesse conjunto

[00:18:35] de documentos estão os nomes

[00:18:37] de alguns dos assassinos apontados

[00:18:39] pelo Ministério Público Federal

[00:18:41] então esse documento

[00:18:43] vai se voltar contra eles

[00:18:45] e essa é uma outra singularidade desse caso

[00:18:47] a ditadura ia

[00:18:49] perseguindo a pessoa, registrando no prontuário

[00:18:51] que é onde eles colocavam

[00:18:53] as informações sobre os perseguidos

[00:18:55] e aí quando a pessoa desaparece

[00:18:57] em seguida começa a não ter mais

[00:18:59] informação sobre o desaparecimento dela

[00:19:01] ou então que há essas informações falsas

[00:19:03] que fugiu

[00:19:05] que não se sabe

[00:19:07] o fato deles terem feito

[00:19:09] essa sindicância apontou

[00:19:11] quem estava no doi-code naquela noite

[00:19:13] iluminou alguns nomes

[00:19:15] para pelo menos tomar um depoimento

[00:19:17] e aí quando

[00:19:19] finalmente foi possível fazer uma investigação

[00:19:21] séria sobre isso

[00:19:23] que nesse caso só aconteceu

[00:19:25] entre 2012 e 2014

[00:19:27] um pouco

[00:19:29] pela Comissão Nacional da Verdade

[00:19:31] um pouco pelo Ministério Público Federal

[00:19:33] é que você vai contrastar os depoimentos

[00:19:35] procurar outras provas, outra documentação

[00:19:37] e aí você vai vendo as lacunas

[00:19:39] as mentiras

[00:19:41] e aí se chega finalmente ao nome dos assassinos

[00:19:43] Certo

[00:19:45] Você até relata no livro

[00:19:47] que essa sindicância foi iniciada em

[00:19:49] 27 de janeiro e concluída em

[00:19:51] 11 de fevereiro

[00:19:53] é um tempo muito rápido

[00:19:55] e indicou que não havia responsabilidade dos militares

[00:19:57] no desaparecimento do

[00:19:59] Rubens Paiva

[00:20:01] eu acho que é interessante você contextualizar

[00:20:03] qual que foi

[00:20:05] essa versão que os militares criaram

[00:20:07] de uma fuga

[00:20:09] numa estrada

[00:20:11] no Alto da Boa Vista

[00:20:13] O que acontece? O Rubens é levado

[00:20:15] por todas as informações que a gente

[00:20:17] consegue saber

[00:20:19] em função de quem estava lá

[00:20:21] e testemunhou ao longo dos anos

[00:20:23] ao longo de todas essas investigações

[00:20:25] desde os anos 70

[00:20:27] é que ele provavelmente morreu em cerca de 24 horas

[00:20:29] durante a tortura

[00:20:31] ele não conseguiu sobreviver

[00:20:33] a mais do que isso

[00:20:35] e aí essas datas

[00:20:37] que aparecem nos documentos

[00:20:39] elas são assim, eu acredito que parte

[00:20:41] dessa ficção

[00:20:43] provavelmente esse documento está tudo pronto

[00:20:45] para a gente

[00:20:47] para quem não é do Rio de Janeiro

[00:20:49] o DOI-COD do Rio de Janeiro

[00:20:51] é um quartel que fica na Barão de Mesquita

[00:20:53] na rua Barão de Mesquita

[00:20:55] na Tijuca

[00:20:57] que é na zona norte do Rio de Janeiro

[00:20:59] eles dizem

[00:21:01] que pegaram um fusca

[00:21:03] que era uma viatura

[00:21:05] do DOI

[00:21:07] na época eram tenentes

[00:21:09] que são os irmãos Oxendorf

[00:21:11] e o general Raimundo

[00:21:13] na época capitão

[00:21:15] os responsáveis pela diligência

[00:21:17] então três militares

[00:21:19] colocaram Rubens Paiva dentro desse fusca

[00:21:21] supostamente

[00:21:23] na historinha deles

[00:21:25] e vão pela estrada

[00:21:27] do Alto da Boa Vista na Floresta da Tijuca

[00:21:29] fazer uma diligência

[00:21:31] de reconhecimento

[00:21:33] de sei lá o que que eles queriam reconhecer

[00:21:35] segundo essa história mentirosa

[00:21:37] na prática

[00:21:39] até cruzando os depoimentos

[00:21:41] dos demais

[00:21:43] e é o que o Malhães sobretudo relata

[00:21:45] e os outros militares relataram isso

[00:21:47] ao longo do tempo também

[00:21:49] o primeiro momento em que eles fizeram

[00:21:51] um enterro clandestino do corpo do Rubens Paiva

[00:21:53] foi lá na estrada da Boa Vista

[00:21:55] então a gente presume

[00:21:57] que no momento que eles

[00:21:59] subiram a estrada

[00:22:01] eles levaram o corpo do Rubens

[00:22:03] e eles levam esse fusca até lá

[00:22:05] aí eles tacam fogo

[00:22:07] fingem um tiroteio

[00:22:09] forjam tudo aquilo

[00:22:11] e provavelmente

[00:22:13] também fazem esse enterro clandestino

[00:22:15] do corpo do Rubens Paiva

[00:22:17] algum tempo depois

[00:22:19] porque uma obra começou na estrada

[00:22:21] eles tem que retirar o corpo do Rubens Paiva

[00:22:23] de lá

[00:22:25] e aí levam pro recreio

[00:22:27] e alguns anos depois

[00:22:29] em 1973

[00:22:31] segundo o relato do Paulo Malhães

[00:22:33] ele faz uma operação para retirar da praia

[00:22:35] e aí segundo

[00:22:37] os depoimentos dele

[00:22:39] jogar num rio que ele não especificou exatamente

[00:22:41] qual

[00:22:43] por isso que a gente não sabe até hoje

[00:22:45] mas é um relato concreto

[00:22:47] dos restos mortais do Rubens Paiva

[00:22:49] e é João assim

[00:22:51] relatar isso

[00:22:53] me exige profissionalmente

[00:22:55] dizer que essa é a história

[00:22:57] mas é de uma violência

[00:22:59] falei aqui algumas vezes

[00:23:01] eles tentaram matar o Rubens Paiva

[00:23:03] pra além de tirar a vida dele

[00:23:05] essa violência toda com o corpo

[00:23:07] também

[00:23:09] que é de uma brutalidade

[00:23:11] de um horror

[00:23:13] que é de reduzir

[00:23:15] no tanto que é

[00:23:17] desumano

[00:23:19] não só tirar a vida da pessoa

[00:23:21] mas não dá sequer a dignidade

[00:23:23] da entrega do cadáver

[00:23:25] mas não, ficar zanzando

[00:23:27] pela cidade do Rio de Janeiro

[00:23:29] com os restos mortais

[00:23:31] porque não podiam admitir

[00:23:33] que tinham cometido esse crime

[00:23:35] contra uma pessoa

[00:23:37] que tinha sido presa

[00:23:39] na frente da família

[00:23:41] e que além de tudo era alguém que ali socialmente tinha relações

[00:23:43] internacionalmente

[00:23:45] porque o caso já vinha sendo

[00:23:47] a família Paiva

[00:23:49] vinha denunciando, e sobretudo a Eunice

[00:23:51] internacionalmente o caso

[00:23:53] então ao longo de décadas

[00:23:55] eles vão sustentar essa mentira da fuga

[00:23:57] porque eles não tinham o que alegar

[00:23:59] ao mesmo tempo

[00:24:01] e tudo isso que a gente está falando aqui

[00:24:03] eles também produziam documentos internos

[00:24:05] em que eles listavam o Rubens Paiva

[00:24:07] como falecida

[00:24:09] esse é um documento que eu achei no acervo do SNI

[00:24:11] numa das listas de presos

[00:24:13] que eles produziram ao longo do tempo

[00:24:15] eles faziam isso

[00:24:17] em 1977 eles tinham esse conhecimento

[00:24:19] formalizado em documentação interna deles

[00:24:21] de que o Rubens Paiva tinha morrido

[00:24:23] e mesmo assim sustentavam a mentira

[00:24:25] da fuga

[00:24:27] que só sustentavam porque não tinham como

[00:24:29] admitir que mentiram

[00:24:31] todo mundo sabia que era mentira

[00:24:33] você relata que as cobranças da Eunice Paiva

[00:24:35] a viúva

[00:24:37] do ex-deputado

[00:24:39] se é que a gente pode chamar assim

[00:24:41] porque ela só foi reconhecida como viúva

[00:24:43] em 1996

[00:24:45] que é quando a morte dele foi reconhecida

[00:24:47] pelo estado brasileiro

[00:24:49] mas as cobranças dela funcionavam como um agente

[00:24:51] para os posicionamentos institucionais

[00:24:53] ela ia cobrando

[00:24:55] e o estado tinha que se posicionar

[00:24:57] de algum modo com isso

[00:24:59] e o primeiro movimento dessa luta

[00:25:01] foi no conselho de defesa dos direitos

[00:25:03] da pessoa humana

[00:25:05] com envio de cartas

[00:25:07] e também um pedido de habeas corpus

[00:25:09] no superior tribunal militar

[00:25:11] embora a família tenha sofrido

[00:25:13] muitas derrotas nesse processo

[00:25:15] o que que ficou desses primeiros movimentos

[00:25:17] para o caso?

[00:25:19] João, até para as pessoas entenderem

[00:25:21] esse conselho era como se fosse o conselho de direitos humanos

[00:25:23] na época

[00:25:25] em tese, quem deveria investigar crime

[00:25:27] era a polícia

[00:25:29] com auxílio do ministério público

[00:25:31] essa premissa

[00:25:33] já existia naquela época

[00:25:35] essa seria

[00:25:37] se o estado fosse um estado

[00:25:39] democrático, real

[00:25:41] quem deveria fazer a investigação

[00:25:43] uma pessoa que desapareceu

[00:25:45] ou que foi assassinada era a polícia?

[00:25:47] mas como é que você ia pedir ajuda para a polícia

[00:25:49] se a polícia que tinha assassinado

[00:25:51] e era uma polícia

[00:25:53] que na época também estava totalmente misturada

[00:25:55] com as forças armadas

[00:25:57] você não podia pedir

[00:25:59] para as forças de segurança

[00:26:01] nenhuma ajuda nesse sentido

[00:26:03] então é por isso que a Eunice vai

[00:26:05] ao conselho de direitos humanos

[00:26:07] da época que chamava

[00:26:09] conselho de defesa de direitos das pessoas humanas

[00:26:11] inclusive porque o conselho

[00:26:13] tinha na época integrantes

[00:26:15] do MDB, nomeados

[00:26:17] entre os seus conselheiros

[00:26:19] e o pedido dela

[00:26:21] era que o conselho examinasse o caso

[00:26:23] abrisse uma investigação sobre o desaparecimento

[00:26:25] porque a história da fuga era uma mentira

[00:26:27] e a Eunice vai tentar muito

[00:26:29] isso durante

[00:26:31] cerca de 10 anos

[00:26:33] entre 71 e 79

[00:26:35] aí tem em 71 a primeira iniciativa

[00:26:37] e ela é ignorada

[00:26:39] eles vão usar

[00:26:41] essa sindicância, essa perícia

[00:26:43] essas mentiras todas

[00:26:45] para arquivar

[00:26:47] e aí você vê como a burocracia

[00:26:49] ela ajuda muito

[00:26:51] ninguém para para olhar a realidade

[00:26:53] do que significa

[00:26:55] do que está sendo dito

[00:26:57] ah, o ofício tal disse tal

[00:26:59] isso vai sendo passado à frente dessa maneira

[00:27:01] eu me lembro de ler esses documentos

[00:27:03] e pensar isso

[00:27:05] não é possível

[00:27:07] não é razoável

[00:27:09] a pessoa sumiu

[00:27:11] desapareceu

[00:27:13] a gente se sente

[00:27:15] sem nada

[00:27:17] para se ter noção

[00:27:19] do tamanho da violência daquele tempo

[00:27:21] e aí tem um trabalho

[00:27:23] que eu acho que é uma outra coisa

[00:27:25] que eu trago dentro do livro

[00:27:27] foi muito importante a atuação

[00:27:29] de vários jornalistas ao longo do tempo

[00:27:31] e uma dupla incrível

[00:27:33] que existia no Jornal do Brasil

[00:27:35] na época

[00:27:37] que era o Fritz Utseri e o Heraldo Dias

[00:27:39] eles são assim

[00:27:41] dentro do conjunto de jornalistas os primeiros

[00:27:43] eles vão cientificamente

[00:27:45] comprovar que é mentira

[00:27:47] a história da fuga, vão medir os postes

[00:27:49] vão ver que a perícia é falsa

[00:27:51] e fazem uma grande reportagem

[00:27:53] em 1978 demonstrando tudo isso

[00:27:55] é interessante até que

[00:27:57] você relata que eles

[00:27:59] literalmente escavaram

[00:28:01] não tem um relato de que eles

[00:28:03] fizeram de tudo o que eles puderam

[00:28:05] assim

[00:28:07] eu tanto levantei a documentação

[00:28:09] do que quando eu fui fazer a pesquisa

[00:28:11] eles já tinham falecido

[00:28:13] então eu entrevistei familiares

[00:28:15] e também recuperei entrevistas deles

[00:28:17] ao longo do tempo

[00:28:19] e aí tem esses relatos

[00:28:21] da montagem de uma

[00:28:23] rede de segurança

[00:28:25] com a ABI, com a OAB

[00:28:27] na época para que essa investigação fosse feita

[00:28:29] e com uma parceria ali

[00:28:31] braço a braço com a própria UNICE

[00:28:33] para que se pudesse avançar

[00:28:35] e aí eles vão escavar

[00:28:37] vão atrás

[00:28:39] de militares daquela época

[00:28:41] são ameaçados

[00:28:43] por A mais B

[00:28:45] que a história da fuga era mentira

[00:28:47] eles também conseguem um depoimento

[00:28:49] de um dos conselheiros

[00:28:51] da época que admite

[00:28:53] que foi pressionado a arquivar o caso

[00:28:55] votar pelo arquivamento

[00:28:57] e isso faz com que o caso no conselho

[00:28:59] seja reaberto em 1979

[00:29:01] em mais uma das tentativas da UNICE

[00:29:03] porque naquela época não tinha muito bem

[00:29:05] uma noção de quando

[00:29:07] os militares iam deixar a presidência da república

[00:29:09] então ela estava ali

[00:29:11] ainda tentando aí já advogar

[00:29:13] já em 1979

[00:29:15] a UNICE já era advogada

[00:29:17] e ela sempre no bastidor

[00:29:19] tentando se movimentar politicamente

[00:29:21] para que isso fosse investigado

[00:29:23] fosse para frente

[00:29:25] mas infelizmente essa segunda tentativa não vai para frente

[00:29:27] ela só consegue realmente abrir

[00:29:29] um inquérito

[00:29:31] para investigar o caso

[00:29:33] no governo Sarney

[00:29:35] já em 86

[00:29:37] quando um dos conselheiros

[00:29:39] da época assume

[00:29:41] o ministério da justiça

[00:29:43] que a polícia federal abre essa investigação

[00:29:45] e ela

[00:29:47] tem uma coisa muito importante

[00:29:49] sobre ela que é

[00:29:51] ter tomado depoimento de muita gente formalmente

[00:29:53] poder fazer esse registro documental

[00:29:55] das coisas

[00:29:57] mas ela também é arquivada sem apontar

[00:29:59] os criminosos

[00:30:01] apesar de ter muitos elementos

[00:30:03] para poder fazer isso

[00:30:05] inclusive o juiz da época

[00:30:07] deu uma decisão

[00:30:09] duríssima em cima do pedido

[00:30:11] de arquivamento do ministério público

[00:30:13] porque via elementos

[00:30:15] para o caso seguir

[00:30:17] e o ministério público é que estava

[00:30:19] abrindo mão de levar isso adiante

[00:30:21] e o que agora

[00:30:23] eu já vivendo

[00:30:25] um Brasil democrático

[00:30:27] ao fazer a pesquisa vou entender

[00:30:29] quando finalmente o acervo do SNI

[00:30:31] é liberado para a gente pesquisar

[00:30:33] a gente descobre que essa investigação estava sendo monitorada

[00:30:35] durante o tempo todo

[00:30:37] vários depoimentos

[00:30:39] que eram encaminhados para o SNI

[00:30:41] que ainda existia no governo Sarney

[00:30:43] só vai acabar no governo Collor

[00:30:45] e que servia

[00:30:47] aos militares

[00:30:49] não mais exatamente

[00:30:51] ao então presidente da república

[00:30:53] que era o Sarney

[00:30:55] mas servia para que eles se protegessem

[00:30:57] um dos dois irmãos Oxendorf

[00:30:59] vai ter cargos importantes

[00:31:01] em Brasília

[00:31:03] que é um dos acusados pelo crime

[00:31:05] um dos irmãos Oxendorf

[00:31:07] vai ter cargos importantes em Brasília

[00:31:09] depois ao longo dos anos 90

[00:31:11] essas pessoas não tiveram alguma influência

[00:31:13] o general Bellian

[00:31:15] que era então comandante do DOI

[00:31:17] na época do assassinato do Rubens Paiva

[00:31:19] bom, a mulher dele

[00:31:21] foi funcionária de gabinete

[00:31:23] do Bolsonaro

[00:31:25] então eles mantém

[00:31:27] essa relação dessa rede

[00:31:29] e assim

[00:31:31] eu fui e voltei nesse caso

[00:31:33] durante muito tempo, João

[00:31:35] é um labirinto

[00:31:37] eu acabo descobrindo essa história

[00:31:39] da relação do Bolsonaro

[00:31:41] íntima com

[00:31:43] o general e a ponto

[00:31:45] da mulher dele

[00:31:47] trabalhar no gabinete do Bolsonaro

[00:31:49] quando eu e a Juliana Castro

[00:31:51] que era minha colega no Globo na época

[00:31:53] estamos investigando os funcionários do Bolsonaro

[00:31:55] e aí esse sobrenome aqui

[00:31:57] Bellian eu conheço

[00:31:59] então

[00:32:01] acaba que você dá a volta a volta

[00:32:03] e de certa maneira em alguns aspectos

[00:32:05] sempre para no mesmo lugar

[00:32:07] você menciona isso da imprensa

[00:32:09] a participação da imprensa no caso

[00:32:11] foi super importante

[00:32:13] você falou um pouco nos personagens da história

[00:32:15] que vão ajudar a montar esse quebra cabeça

[00:32:17] como que a revelação

[00:32:19] da casa da morte de Petrópolis

[00:32:21] leva ao médico

[00:32:23] Amilcar Lobo

[00:32:25] e o que as revelações dele trazem para o caso

[00:32:27] a gente deve

[00:32:29] a descoberta da casa da morte de Petrópolis

[00:32:31] que foi um dos centros clandestinos

[00:32:33] onde uma das piores faces

[00:32:35] da ditadura

[00:32:37] um pouco disso que eu estava falando agora há pouco

[00:32:39] sobre como eles próprios

[00:32:41] não cumpriram nem as leis que eles

[00:32:43] criaram para a época

[00:32:45] eles criam

[00:32:47] um local clandestino

[00:32:49] para levar pessoas que eles

[00:32:51] sequestram, torturar elas

[00:32:53] e depois desaparecer

[00:32:55] com os cadáveres

[00:32:57] após o assassinato delas

[00:32:59] essa é a nomenclatura correta

[00:33:01] para dizer o que eles faziam lá em Petrópolis

[00:33:03] e a gente só sabe disso

[00:33:05] porque uma única pessoa sobreviveu

[00:33:07] a esse horror

[00:33:09] que é a Inês Etienne Romeu

[00:33:11] a Inês

[00:33:13] foi uma das

[00:33:15] dirigentes da VPR

[00:33:17] e ela foi presa

[00:33:19] em maio de 71

[00:33:21] um pouco depois do assassinato do Rubens Paiva

[00:33:23] e ela ficou cerca de 3 meses presa

[00:33:25] dentro dessa casa

[00:33:27] e por uma série de razões

[00:33:29] sobreviveu a essa tortura

[00:33:31] e foi libertada

[00:33:33] por eles dentro do que

[00:33:35] ela própria relatou ali

[00:33:37] eles queriam que ela fosse

[00:33:39] uma espécie de informante

[00:33:41] deles e

[00:33:43] ela ao ser libertada

[00:33:45] já começa a denunciar tudo

[00:33:47] mas ela consegue ser libertada

[00:33:49] e aí ela se entrega para os militares

[00:33:51] para responder pelos crimes que eles acusavam

[00:33:53] ela fica presa durante vários anos

[00:33:55] quando ela está para sair da prisão

[00:33:57] ela começa a investigar

[00:33:59] esse local onde ela estava

[00:34:01] e a memória da Inês

[00:34:03] era absolutamente impressionante

[00:34:05] então ela faz um relatório gigante

[00:34:07] listando tudo que ela lembrava

[00:34:09] da casa, do lugar, da prisão

[00:34:11] de um grupo de cerca de 20 militares

[00:34:13] que ela descreve com o nome

[00:34:15] características físicas

[00:34:17] é um dos relatos mais impressionantes

[00:34:19] que eu já li em 15 anos

[00:34:21] de documentação

[00:34:23] é difícil um depoimento que supere

[00:34:25] o grau de detalhe que a Inês conseguiu dar

[00:34:27] e ela

[00:34:29] lembra do Amilcar Lobo

[00:34:31] que é

[00:34:33] um médico que vai atender ela

[00:34:35] lá em Petrópolis

[00:34:37] e aí, porque essa história

[00:34:39] é isso que estou falando agora a pouco sobre

[00:34:41] porque nós estamos no mesmo lugar

[00:34:43] o militar que leva

[00:34:45] o Amilcar Lobo do DOI-COD

[00:34:47] que era onde ele dava

[00:34:49] pantão

[00:34:51] para a casa da morte de Petrópolis

[00:34:53] é o tenente coronel Rubens Paim Sampaio

[00:34:55] que também é o homem

[00:34:57] que deu a entrada ao Rubens Paiva

[00:34:59] dentro do DOI-COD

[00:35:01] e ele era um oficial do centro de informações do exército

[00:35:03] mas ele tinha esse trânsito

[00:35:05] porque ele está em cima

[00:35:07] oficial do gabinete do ministro

[00:35:09] ele tem mais trânsito

[00:35:11] e mais importância na hierarquia

[00:35:13] e relações com a cúpula

[00:35:15] do que os DOIs

[00:35:17] os DOIs existiam, tinha em São Paulo, tinha no Rio

[00:35:19] tinha em Recife, tinha na Bahia

[00:35:21] tinha pelo Brasil

[00:35:23] mas os oficiais do gabinete do ministro

[00:35:25] tinham quase que carta branca para fazer

[00:35:27] ações pelo país todo

[00:35:29] e é ele quem leva

[00:35:31] segundo o próprio Amilcar Lobo

[00:35:33] porque deu um amigo que depois escreveu um livro

[00:35:35] então a Inês

[00:35:37] ajuda e aí também aqui

[00:35:39] a Inês lembra de tudo isso

[00:35:41] relata tudo

[00:35:43] e ela chama um grande jornalista

[00:35:45] chamado Laguinho

[00:35:47] para ajudar ela

[00:35:49] a localizar, porque a Inês estava presa

[00:35:51] e aí o Laguinho vai

[00:35:53] fazer essa investigação até achar a casa

[00:35:55] vai lá fazer foto

[00:35:57] acham a casa

[00:35:59] um pouco depois que a Inês é libertada

[00:36:01] ela sai da prisão em 1979

[00:36:03] não é tão rápido

[00:36:05] porque tinha tudo isso, ditadura

[00:36:07] tem uma certa insegurança

[00:36:09] ela vai fazer o reconhecimento

[00:36:11] da denúncia pública da casa em 81

[00:36:13] e na mesma semana

[00:36:15] ela vai lá, dá de cara com a casa

[00:36:17] identifica as pessoas da casa

[00:36:19] inclusive um dos donos da casa

[00:36:21] na época

[00:36:23] e volta ao Rio de Janeiro

[00:36:25] e vai atrás do consultório do Amilcar Lobo

[00:36:27] e você me atendeu

[00:36:29] em tal lugar, em tal dia

[00:36:31] e ele não tem nem como dizer que não

[00:36:33] e aí vários presos políticos

[00:36:35] vão ao consultório

[00:36:37] e começam a dizer, você também me atendeu

[00:36:39] lá no DOI-COD e tudo mais

[00:36:41] e aí o Amilcar Lobo é apontado

[00:36:43] como um médico que

[00:36:45] acompanhava as torturas

[00:36:47] no DOI-COD até para dizer

[00:36:49] pode continuar

[00:36:51] a história do Amilcar é um pouco complexa

[00:36:53] porque

[00:36:55] ele acaba ao longo do tempo

[00:36:57] dando depoimentos no sentido de reconhecer

[00:36:59] os absurdos que ele próprio

[00:37:01] participou

[00:37:03] ele é talvez um dos únicos

[00:37:05] que tenha apontado

[00:37:07] e tenha falado depois sobre

[00:37:09] o que aconteceu, até ajudado a esclarecer

[00:37:11] determinadas coisas e ele confessa

[00:37:13] ter visto o Rubens Paiva dentro

[00:37:15] do DOI

[00:37:17] no período em que ele estava lá

[00:37:19] e viu o Rubens Paiva morrendo

[00:37:21] literalmente

[00:37:23] nos últimos momentos de vida

[00:37:25] A Comissão Nacional da Verdade foi digamos

[00:37:27] um ponto chave para a descoberta dos nomes

[00:37:29] dos assassinos do Rubens Paiva

[00:37:31] junto das investigações do Ministério Público Federal

[00:37:33] queria que você contextualizasse

[00:37:35] esse processo

[00:37:37] final das investigações

[00:37:39] João

[00:37:41] é fundamental

[00:37:43] um conjunto de forças que se

[00:37:45] colocou ali entre 2012

[00:37:47] e 2014

[00:37:49] para que depois de 40 anos

[00:37:51] se chegasse finalmente aos nomes

[00:37:53] dos assassinos do Rubens Paiva

[00:37:55] até então não se sabia

[00:37:57] quando os trabalhos da Comissão da Verdade começaram

[00:37:59] e também quando foi criado o grupo

[00:38:01] Justiça de Transição do Ministério Público Federal

[00:38:03] no Rio de Janeiro

[00:38:05] existiam duas missões

[00:38:07] quem são os assassinos

[00:38:09] onde está o Rubens Paiva

[00:38:11] um primeiro ponto

[00:38:13] fundamental da gente citar aqui

[00:38:15] sim o trabalho da Comissão da Verdade

[00:38:17] mas muito trabalho

[00:38:19] do Dr. Cláudio Fonteles

[00:38:21] ex-procurador-geral da República

[00:38:23] que se abriu a esse diálogo

[00:38:25] difícil

[00:38:27] que eu estava falando no início sobre entrevistar militares

[00:38:29] ele era

[00:38:31] ex-procurador-geral da República

[00:38:33] e foi escolhido

[00:38:35] pela presidente

[00:38:37] então presidente Dilma Rousseff

[00:38:39] para ser um dos conselheiros

[00:38:41] e o Fonteles foi pesquisar

[00:38:43] um acervo do SNI

[00:38:45] faz um relatório sobre o caso do Rubens

[00:38:47] em função de alguns documentos

[00:38:49] que ele encontra no SNI

[00:38:51] e ele é procurado

[00:38:53] pelo Tenente-Coronel

[00:38:55] Avólio

[00:38:57] que tinha sido agente

[00:38:59] do quartel, lá da Baranda de Mesquita

[00:39:01] e o Avólio se oferece

[00:39:03] como testemunha daquela noite

[00:39:05] junto aí com um outro colega

[00:39:07] que é o Coronel Leão

[00:39:09] e aí eles vão ao Fonteles

[00:39:11] contam o que sabem

[00:39:13] e o Fonteles

[00:39:15] começa a fazer essa investigação

[00:39:17] e também faz uma ponte

[00:39:19] dessa testemunha

[00:39:21] que ele se apresenta como uma testemunha

[00:39:23] do momento da tortura

[00:39:25] posso apontar quem é

[00:39:27] o torturador

[00:39:29] que é responsável pelo assassinato do Rubens Paiva

[00:39:31] que é um homem

[00:39:33] que chama

[00:39:35] Tenente Huges

[00:39:37] Antônio Huges de Carvalho

[00:39:39] nessa ocasião já tinha morrido

[00:39:41] em 2005, mas ele ajudava

[00:39:43] a fechar as pontas, ele era responsável

[00:39:45] pela tortura, mas

[00:39:47] e aí vem a história do General Bellian

[00:39:49] General Bellian era o responsável maior

[00:39:51] até os militares

[00:39:53] aliás, os militares são os que mais sabem sobre isso

[00:39:55] como a hierarquia e a disciplina

[00:39:57] estão acima de tudo

[00:39:59] então, ele era

[00:40:01] o Huges pode ter torturado, mas

[00:40:03] o responsável pelo quartel naquele dia

[00:40:05] era o então

[00:40:07] Coronel Bellian, agora General Bellian

[00:40:09] que soube

[00:40:11] do que estava acontecendo, segundo os próprios

[00:40:13] subordinados dele ali

[00:40:15] e aí o Fonteles

[00:40:17] faz também um certo meio de caminho

[00:40:19] entre o

[00:40:21] Avólio e o Ministério Público Federal

[00:40:23] e aí tem um trabalho

[00:40:25] muito importante

[00:40:27] do Procurador Sérgio

[00:40:29] Suyama e do Procurador Antônio

[00:40:31] Passo Cabral, que já vinham ali

[00:40:33] investigando, ouvindo testemunhas

[00:40:35] também, só que o trabalho do Ministério Público Federal

[00:40:37] é de maneira diferente, né

[00:40:39] da Comissão da Verdade, porque

[00:40:41] o Ministério Público Federal tem que agir

[00:40:43] de acordo com o Código Penal

[00:40:45] então tem uma série de limitações

[00:40:47] que a Comissão Nacional da Verdade

[00:40:49] tinha mais

[00:40:51] flexibilidade para tomar esses depoimentos

[00:40:53] que inclusive no início eram

[00:40:55] de maneira sigilosa

[00:40:57] e também sem a identificação

[00:40:59] e aí isso vai sendo costurado

[00:41:01] no bastidor, e essa investigação

[00:41:03] vai avançando, e aí

[00:41:05] até, esse é um outro detalhe fundamental

[00:41:07] quando o nome do Huges

[00:41:09] vem à tona, eles não sabiam

[00:41:11] exatamente como se pronunciava, como se escrevia

[00:41:13] segundo o que falaram pro Fonteles

[00:41:15] e pra Comissão da Verdade

[00:41:17] e aí, depois de um

[00:41:19] trabalho longo de investigação, os procuradores

[00:41:21] chegam a uma foto de um

[00:41:23] Coronel Huges, vem que ele tinha

[00:41:25] medalha do pacificador com palma

[00:41:27] vários dos militares

[00:41:29] que participaram dos piores horrores da

[00:41:31] ditadura tinham medalha

[00:41:33] naquele período, e aí

[00:41:35] a foto que vem, ela bate

[00:41:37] com a descrição

[00:41:39] que o Marcelo Rubens Paiva

[00:41:41] tinha feito no livro dele, no Feliz Ano Velho

[00:41:43] em função

[00:41:45] de um depoimento de uma senhora que tinha sido

[00:41:47] presa com o pai

[00:41:49] que era uma das que veio do Chile com as cartas

[00:41:51] ela tinha feito a descrição

[00:41:53] de um oficial ouro

[00:41:55] de olho verde

[00:41:57] acho que estão falando de olho verde

[00:41:59] e aí, essa descrição era muito parecida

[00:42:01] com a foto que eles

[00:42:03] encontram, e que aí

[00:42:05] pelas outras características se chega

[00:42:07] ao Tenente Antônio

[00:42:09] Huges de Carvalho, e aí se chega

[00:42:11] especificamente ao torturador

[00:42:13] responsável pela tortura

[00:42:15] ali do Rubens Paiva

[00:42:17] então, foram várias pecinhas que foram

[00:42:19] sendo montadas

[00:42:21] e que permitiram se chegar

[00:42:23] sabe, e aí também

[00:42:25] também tem um outro trabalho importante

[00:42:27] da imprensa que é, contei aqui

[00:42:29] sobre a história do Malianz já, o Malianz

[00:42:31] vem à tona nesse período, que é pra

[00:42:33] tentar ali entender quem eram os outros

[00:42:35] militares responsáveis

[00:42:37] pela ocultação de cadáver

[00:42:39] e também por onde

[00:42:41] está o Rubens Paiva, né, que acontece

[00:42:43] mas aí, depois que o Malianz dá essas

[00:42:45] entrevistas, em março de

[00:42:47] 2014, ele é

[00:42:49] assassinado num assalto

[00:42:51] 30 dias depois de uma entrevista que ele deu pra

[00:42:53] mim, e mais ou menos isso também acho que foi

[00:42:55] ele deu a entrevista pra mim numa semana, na outra semana ele deu o

[00:42:57] depoimento pra Comissão Nacional da Verdade

[00:42:59] e aí, né, em seguida

[00:43:01] em abril, ele é assassinado

[00:43:03] num assalto em casa

[00:43:05] e a partir disso

[00:43:07] o Ministério Público Federal vai lá fazer busca e apreensão

[00:43:09] na casa dele, acha documentos inclusive

[00:43:11] de crimes que ele tinha cometido no exterior

[00:43:13] permite investigações na Argentina

[00:43:15] então abre realmente

[00:43:17] uma caixa ali de

[00:43:19] inúmeros outros casos

[00:43:21] Juliana, a gente já tá caminhando aqui pro

[00:43:23] final, eu queria saber em que

[00:43:25] pé que tá o caso atualmente, assim, esses

[00:43:27] esses responsáveis pelo

[00:43:29] assassinato, eles foram

[00:43:31] em algum grau responsabilizados

[00:43:33] como é que tá a história?

[00:43:35] João, é assim, essa é um

[00:43:37] uma parte

[00:43:39] difícil até de

[00:43:41] explicar, porque o livro chama

[00:43:43] Crimes Sem Castigo porque eles não foram

[00:43:45] criminalmente

[00:43:47] responsabilizados por um

[00:43:49] assassinato, né, e também por

[00:43:51] essa violência absurda em torno da

[00:43:53] ocultação do cadáver do

[00:43:55] Rubens Paio, eles foram denunciados

[00:43:57] em 2014, e aí

[00:43:59] a gente vê um

[00:44:01] início de um processo de

[00:44:03] exercício de justiça acontecer

[00:44:05] porque o Ministério Público Federal

[00:44:07] oferece a denúncia e

[00:44:09] um juiz

[00:44:11] na primeira instância

[00:44:13] pega a denúncia e abre o processo, não

[00:44:15] arquiva, não recusa, abre o

[00:44:17] processo, é uma decisão histórica

[00:44:19] o primeiro processo

[00:44:21] criminal de

[00:44:23] um assassinato cometido

[00:44:25] na ditadura que ganha

[00:44:27] a abertura de um processo na Justiça Federal

[00:44:29] o TRF2

[00:44:31] tem que julgar um recurso dos militares

[00:44:33] porque aí eles vão e começam, a

[00:44:35] ladainha da lei de anistia, eles querem

[00:44:37] anistiar os crimes que nem se sabe

[00:44:39] que crimes são, então não deixa

[00:44:41] investigar, não deixa processar, não deixa

[00:44:43] julgar, que é uma interpretação

[00:44:45] a lei de anistia não prevê assim

[00:44:47] esse cheque em branco, e aí

[00:44:49] o TRF2 dá uma

[00:44:51] outra decisão histórica que é pra confirmar

[00:44:53] a abertura do processo, aí

[00:44:55] o Ministro Teori recebe um outro

[00:44:57] recurso dos militares e tranca o

[00:44:59] processo pra julgar

[00:45:01] um aspecto que é

[00:45:03] a discussão que tá colocada até hoje

[00:45:05] que é o crime contra a humanidade

[00:45:07] o desaparecimento forçado num contexto de ditadura

[00:45:09] de um cadáver que nunca apareceu

[00:45:11] é um crime permanente

[00:45:13] o Ministério Público Federal está trazendo

[00:45:15] ao Judiciário Brasileiro reconhecer

[00:45:17] isso, um crime contra

[00:45:19] a humanidade, o Brasil é democrático?

[00:45:21] é um Estado democrático

[00:45:23] é assim que se apresenta, então

[00:45:25] nos países democráticos

[00:45:27] crimes assim não são possíveis de anistia

[00:45:29] esse é um entendimento internacional

[00:45:31] desde

[00:45:33] do pós-guerra

[00:45:35] da segunda guerra

[00:45:37] essa discussão o Supremo não fez ainda

[00:45:39] você me perguntou sobre como está o caso

[00:45:41] o Teori morreu num acidente

[00:45:43] e aí enfim

[00:45:45] o caso rodou lá, tá

[00:45:47] hoje no gabinete do Ministro Alexandre de Moraes

[00:45:49] ele pediu no final

[00:45:51] do ano passado um parecer

[00:45:53] pra PGR

[00:45:55] sobre a situação

[00:45:57] do caso, a PGR

[00:45:59] deu um parecer

[00:46:01] reforçando o entendimento

[00:46:03] do grupo de justiça de transição

[00:46:05] do Rio de Janeiro, que é

[00:46:07] um crime não é possível de anistia

[00:46:09] tá com o Ministro Alexandre de Moraes

[00:46:11] o recurso para

[00:46:13] reabrir o caso

[00:46:15] ou não, o Supremo

[00:46:17] nunca discutiu isso

[00:46:19] seria histórico pro Brasil ver o Supremo

[00:46:21] decidir

[00:46:23] o que é um crime contra a humanidade

[00:46:25] criar esse limite

[00:46:27] e aí

[00:46:29] depois a gente

[00:46:31] vai discutir em que

[00:46:33] caso se aplica a lei de anistia

[00:46:35] em casos concretos

[00:46:37] pra crimes concretos

[00:46:39] e não de maneira abstrata

[00:46:41] do tipo, ah era militar, trabalhou no DOI

[00:46:43] então peraí lei de anistia

[00:46:45] pra todo mundo sem nem saber

[00:46:47] o que é que foi que cada um fez

[00:46:49] essa é a questão, né

[00:46:51] mas o Brasil tem essa tradição triste

[00:46:53] lamentável sobre

[00:46:55] anistiar crimes sem nem saber

[00:46:57] quais crimes são

[00:46:59] assim, dentro desse processo

[00:47:01] antes

[00:47:03] até do Ministro Teori morrer

[00:47:05] teve uma única audiência

[00:47:07] de instrução

[00:47:09] que foi em novembro de 2015

[00:47:11] que eu acompanhei

[00:47:13] eu, o Procurador Sérgio Suyama

[00:47:15] a Vera Paiva

[00:47:17] uma das filhas do Rubens Paiva

[00:47:19] em que eles foram obrigados a comparecer

[00:47:21] dos cinco réus, três compareceram

[00:47:23] todos ainda estavam vivos naquela época

[00:47:25] e foi um momento assim

[00:47:27] muito emocionante

[00:47:29] você me pergunta sobre teve justiça ou não teve

[00:47:31] há algum exercício de justiça

[00:47:33] quando eles são levados ao Poder Judiciário

[00:47:35] pra sentar no banco destinado aos réus

[00:47:37] pra ouvir uma testemunha

[00:47:39] ser chamada pra depor

[00:47:41] e ela poder democraticamente

[00:47:43] ali se sentir protegida

[00:47:45] e dizer pra juíza responsável

[00:47:47] pela audiência que gostaria de depor

[00:47:49] sem que eles acompanhassem

[00:47:51] porque durante a ditadura

[00:47:53] ela não teve essa possibilidade

[00:47:55] e já no governo Sarney quando ela teve que prestar depoimento

[00:47:57] no inquérito que tinha sido aberto

[00:47:59] os militares não deram

[00:48:01] a chance a ela

[00:48:03] de depor em condições seguras

[00:48:05] com presença de advogado

[00:48:07] então foi a primeira vez

[00:48:09] que ela pôde se sentir acolhida

[00:48:11] como testemunha dentro do Poder Judiciário

[00:48:13] e eles foram e tiveram que sair

[00:48:15] e tiveram que voltar

[00:48:17] então algum exercício de justiça

[00:48:19] existiu

[00:48:21] ele só é incompleto

[00:48:23] porque não se julga, não se concretiza

[00:48:25] e aí de lá pra cá

[00:48:27] são dez anos

[00:48:29] dos cinco, três morreram

[00:48:31] tem dois que estão vivos ainda

[00:48:33] um deles é o General Bellion

[00:48:35] o outro é um dos irmãos Oxendorf

[00:48:37] Jaci Oxendorf

[00:48:39] tá vivo ainda

[00:48:41] recebendo inclusive

[00:48:43] uma quantia bastante significativa do Estado brasileiro

[00:48:45] agora pra mim, João

[00:48:47] isso foi o que foi possível provar

[00:48:49] tem mais gente que é responsável

[00:48:51] pelo assassinato do Robens Paiva

[00:48:53] e que não foi denunciado

[00:48:55] porque é isso também

[00:48:57] tem que trabalhar em cima de prova

[00:48:59] não dá pra trabalhar sem prova

[00:49:01] isso do ponto de vista criminal

[00:49:03] o Ministério Público Federal não pode oferecer denúncia sem ter prova

[00:49:05] esse conjunto, esse sim

[00:49:07] conseguiram provas pra apontar

[00:49:15] Pra recapitular

[00:49:17] a Juliana Dalpiva é autora de Crimes Sem Castigo

[00:49:19] Como os Militares Mataram Rubens Paiva

[00:49:21] publicada agora pela Editora Matrix

[00:49:23] Juliana, obrigado pela sua participação

[00:49:25] foi um prazer ter você aqui

[00:49:27] João, eu que agradeço demais

[00:49:29] o espaço, deixo um beijo enorme

[00:49:31] pra toda a equipe da Ilustríssima

[00:49:37] Este foi o Ilustríssima Conversa

[00:49:39] Eu sou João Rabello

[00:49:41] e a edição de som foi feita pelo Rafael Conkli

[00:49:43] Se você quiser compartilhar

[00:49:45] comigo as suas impressões sobre o episódio

[00:49:47] me manda um e-mail no

[00:49:49] joao.rabello

[00:49:51] arroba grupo folha ponto com ponto br

[00:49:53] Até daqui a duas semanas