História Pirata #138 - John Locke
Resumo
Este episódio do História Pirata oferece uma análise profunda de John Locke, com foco principal em sua obra ‘Dois Tratados sobre o Governo Civil’. Os apresentadores Rafinha e Daniel Gomes de Carvalho abordam o tema em três blocos principais.
No primeiro bloco, discutem a história do livro como documento, explorando suas várias edições, a questão da autoria (que foi anônima inicialmente) e como diferentes versões do texto circularam pela Europa e América, criando ‘vários Lockes’ que influenciaram o Iluminismo e as revoluções de maneiras distintas. Eles criticam a ideia simplista de ‘influência’ e enfatizam a necessidade de analisar as edições específicas que eram lidas em cada contexto histórico.
O segundo bloco traça a trajetória biográfica de Locke, desde sua origem em uma família puritana envolvida com manufaturas, sua educação em Oxford, sua associação crucial com Anthony Ashley Cooper, o Conde de Shaftesbury, que o introduziu à política de oposição (Whigs), até seu exílio na Holanda e seu retorno após a Revolução Gloriosa. São discutidas suas outras obras, como a ‘Carta sobre a Tolerância’ e o ‘Ensaio sobre o Entendimento Humano’, e seu envolvimento prático com o governo e o comércio inglês, incluindo investimentos em companhias ligadas ao tráfico de escravizados.
O terceiro e último bloco mergulha na teoria política de Locke presente nos ‘Dois Tratados’. Os apresentadores explicam que o objetivo central da obra é afirmar o direito de resistência à autoridade injusta. Para fundamentar isso, Locke desenvolve as teorias do consentimento, da confiança (trust) e da propriedade. A discussão detalha os conceitos de estado de natureza (diferente do de Hobbes), lei natural, e como a propriedade é derivada do trabalho (‘mixing of labor’), mas também como a introdução do dinheiro e a compra do trabalho alheio legitimam a desigualdade. O episódio aborda diretamente a aparente contradição entre a defesa da liberdade e a justificação da escravidão por Locke, argumentando que esta não era uma hipocrisia, mas parte coerente de seu sistema de pensamento. Por fim, questiona-se se Locke pode ser chamado de ‘pai do liberalismo’, concluindo que, embora suas ideias tenham sido apropriadas por liberais posteriores, seu contexto e preocupações (como evitar a guerra civil) eram específicos do século XVII.
Indicações
Books
- Dois Tratados sobre o Governo Civil — A obra central de John Locke, analisada em profundidade no episódio. Discute a origem do governo no consentimento, o direito de resistência e a teoria da propriedade.
- Ensaio sobre o Entendimento Humano — A grande obra epistemológica de Locke, mencionada como sendo escrita na casa do Conde de Shaftesbury. Demorou cerca de 20 anos para ficar pronta.
- Carta sobre a Tolerância — Texto de Locke defendendo a separação entre comunidade religiosa (voluntária) e comunidade política, e a indiferença do Estado em matéria de fé, com exceção de católicos e ateus.
- A Moderação no Pensamento Político Francês, Uma Virtude de Mentes Corajosas — Livro de Aurélien Craiutu que Daniel estava lendo e que o levou a reler Montesquieu. Discute a moderação como virtude política.
- O Espírito das Leis — Obra do Barão de Montesquieu, que Daniel estava relendo, incentivado pela leitura de Craiutu. É discutida brevemente a interpretação de que Montesquieu defendia mais um equilíbrio de poderes do que uma separação rígida.
- Civil Imagination — Livro de Ariella Azoulay sobre fotografia e política, que Rafinha estava lendo, dando continuidade a ‘The Civil Contract of Photography’ da mesma autora.
- Freedom’s Debt: The Royal African Company and the Politics of the Atlantic Slave Trade, 1672-1752 — Livro de William Pettigrew recomendado pelo professor Leo Marx. Argumenta como as políticas pós-Revolução Gloriosa contribuíram para o aumento do tráfico de escravizados.
People
- John Dunn — Intérprete de Locke frequentemente citado no episódio. Sua análise histórica de Locke é recomendada, especialmente sua ideia de que Locke devotou sua vida a duas grandes questões: como conhecemos e como devemos viver.
- Peter Laslett — Historiador citado por seu estudo sobre quando e por que os ‘Dois Tratados’ foram escritos. Ele argumenta que a maior parte da obra foi escrita antes da Revolução Gloriosa.
- Anthony Ashley Cooper (Conde de Shaftesbury) — Aristocrata e político que foi protetor e amigo íntimo de Locke. Sua associação foi crucial para o desenvolvimento intelectual e político de Locke. Daniel brinca que um professor dizia que Shaftesbury era melhor que Locke.
- Robert Filmer — Autor de ‘Patriarcha’, defensor do direito divino dos reis. Locke escreve o primeiro tratado principalmente para refutar suas ideias.
- Hugo Grócio — Jurista e filósofo que defendia a ideia de um comunismo primitivo positivo (propriedade comum original). Locke desenvolve sua teoria da propriedade em parte respondendo a ele.
- Crawford Macpherson — Intérprete canadense citado por sua teoria de que o estado de natureza em Locke tem dois estágios: um pré-monetário e outro pós-invenção do dinheiro.
Linha do Tempo
- 00:04:58 — Introdução e estrutura do episódio sobre John Locke — Os apresentadores anunciam o tema do episódio: John Locke. Eles estruturam o programa em três blocos: 1) a história do livro ‘Dois Tratados sobre o Governo’ como documento; 2) a trajetória biográfica e outras obras de Locke; 3) a teoria social e política central da obra. Eles brincam com o nome ‘Joãozinho Louco’ e preparam o terreno para uma análise histórica aprofundada.
- 00:06:00 — As duas grandes questões da vida intelectual de Locke — Daniel cita o intérprete John Dunn para apresentar as duas grandes questões que guiaram a vida intelectual de Locke: como os seres humanos podem conhecer e como eles devem tentar viver. Para responder a essas questões, Locke escreveu sobre uma ampla gama de assuntos, desde comércio exterior até a interpretação das epístolas de São Paulo. Muitos de seus manuscritos não foram publicados em vida, o que nos dá hoje mais acesso ao seu pensamento do que seus contemporâneos tiveram.
- 00:08:09 — A autoria anônima e as várias edições dos ‘Dois Tratados’ — É discutido o fato de que a obra ‘Dois Tratados sobre o Governo’ foi publicada anonimamente em 1690. Locke só reconheceu a autoria em seu testamento. Ele tinha grande receio de que editores e comerciantes de livros alterassem seu texto. O livro teve várias edições ainda em vida de Locke, com inúmeras correções feitas por ele, mas ele permanecia insatisfeito. A quarta edição (1713) é geralmente a base das edições modernas, mas não se sabe se ela reflete exatamente a vontade final do autor.
- 00:16:55 — Os ‘vários Lockes’ que circularam pela Europa e América — Os apresentadores explicam que não existe um ‘Locke’ único que influenciou a posteridade. As versões que circularam na França (traduzidas por um pastor huguenote) e na América eram edições truncadas, sem o primeiro tratado na íntegra e sem o primeiro capítulo do segundo tratado. Portanto, o ‘Locke’ lido por Montesquieu, Voltaire e Rousseau era diferente do texto completo. Isso explica por que suas ideias puderam ser usadas para defender tanto a revolução quanto a monarquia em contextos diferentes.
- 00:22:21 — Trajetória biográfica: família, educação e início da carreira — Inicia-se o segundo bloco, sobre a vida de Locke. Ele nasceu em 1632, filho de um advogado puritano que lutou pelo Parlamento na Guerra Civil Inglesa. A família era de comerciantes (tecidos e couro), mas não pertencia à gentry. Com ajuda de contatos do pai, Locke entrou na Westminster School e depois em Oxford. Lá, estudou medicina, botânica e trabalhou com Robert Boyle. Seu primeiro texto conhecido, ‘O Magistrado Civil’, defendia a obediência passiva à autoridade, uma posição que mudaria radicalmente mais tarde.
- 00:30:13 — A associação crucial com o Conde de Shaftesbury — O ponto de virada na vida de Locke foi sua associação com Anthony Ashley Cooper, o primeiro Conde de Shaftesbury, um político rico e influente que mudou de lado várias vezes. Locke tratou de uma doença grave de Shaftesbury e se tornou seu protegido, morando em sua casa. Essa associação o colocou no centro da política de oposição (Whigs) e foi na casa de Shaftesbury que ele começou a escrever o ‘Ensaio sobre o Entendimento Humano’. Shaftesbury promoveu Locke e o envolveu na redação de textos políticos.
- 00:37:10 — Exílio na Holanda e escrita dos ‘Dois Tratados’ — Com a repressão dos Stuart contra os Whigs, Locke foi acusado de conspiração e se exilou na Holanda em 1683. Foi nesse período de exílio, após a morte de Shaftesbury e quando Locke já tinha 52 anos sem ter publicado suas grandes obras, que ele começou a escrever os ‘Dois Tratados’. O texto foi, portanto, escrito antes da Revolução Gloriosa (1688-89), como um chamado à ação, e não apenas como uma justificativa posterior do evento.
- 00:41:06 — A ‘Carta sobre a Tolerância’ e os limites da tolerância lockeana — Discute-se a ‘Carta sobre a Tolerância’, escrita em 1685 em resposta à revogação do Édito de Nantes por Luís XIV. Locke defende que a comunidade política, originada de um pacto, deve proteger direitos civis. O magistrado não pode interferir na salvação das almas. A comunidade religiosa é voluntária, diferente da política. A tolerância em Locke está ligada à indiferença do Estado em relação à religião. No entanto, ele exclui da tolerância os católicos (por lealdade a um poder externo, o Papa) e os ateus (por considerá-los incapazes de manter compromissos morais sem a crença em Deus).
- 00:51:48 — Objetivo central dos ‘Dois Tratados’: o direito de resistência — Inicia-se o terceiro bloco, sobre a teoria política de Locke. O objetivo central dos ‘Dois Tratados’ é afirmar o direito de resistência à autoridade injusta, um direito de revolução em última instância. Para desenvolver essa tese, Locke articula três teorias fundamentais: a teoria do consentimento (o que torna os governos legítimos), a teoria da confiança (trust, como pensam as relações entre governantes e governados) e a teoria da propriedade (como os seres humanos podem possuir bens).
- 01:02:41 — Estado de natureza, lei natural e igualdade em Locke — Explica-se o estado de natureza em Locke: os homens nascem livres, iguais e racionais, mas não livres ou iguais a Deus. A lei natural é expressão da vontade divina. Na natureza, cada indivíduo detém o poder executivo da lei natural, podendo punir ofensores. Diferente de Hobbes, o estado de natureza em Locke não é um retrato do comportamento humano sem governo, mas uma condição que mostra os direitos e deveres que os homens possuem como criaturas de Deus. A liberdade absoluta é autocontraditória; a verdadeira liberdade existe sob a lei.
- 01:13:37 — A teoria da propriedade: trabalho, dinheiro e desigualdade — Locke enfrenta o debate sobre a origem da propriedade. Contra Grócio (que defendia um comunismo original positivo) e Filmer (que a vincula a Deus), Locke argumenta que a propriedade privada surge quando o homem mistura seu trabalho com os recursos da natureza. O trabalho cria valor. No entanto, com a criação do dinheiro (um produto imperecível aceito por consentimento tácito), é possível acumular riqueza sem desperdício e, crucialmente, comprar o trabalho de outros. Assim, a propriedade se desvincula do trabalho direto do proprietário, legitimando a desigualdade e o trabalho assalariado (ou servil).
- 01:22:19 — Passagem para a sociedade civil e a teoria do trust — Os inconvenientes do estado de natureza (cada um é juiz em causa própria, dificuldade de proteger a propriedade) levam os homens a criar a sociedade civil. Eles transferem para a comunidade seu poder individual de executar a lei natural. Esse poder é dado por consentimento, mas sob a forma de um ‘trust’ (confiança), não de um contrato entre partes iguais. O governo é um delegado do povo, que pode ser dissolvido se trair essa confiança. A propriedade cria um vínculo forte com a sociedade: quem herda uma propriedade deve aceitar as leis da comunidade que a protege.
- 01:34:21 — Locke e a escravidão: coerência, não contradição — Aborda-se a questão espinhosa de como Locke, defensor da liberdade, justificava a escravidão e tinha investimentos no tráfico. No parágrafo 57, Locke argumenta que quem, por sua própria culpa, perdeu o direito à vida (por exemplo, em uma guerra justa), pode ser usado como escravo. Para Locke, os escravizados africanos se encaixavam nessa categoria. Portanto, a escravidão não era uma hipocrisia ou contradição em seu pensamento, mas uma parte coerente dele, baseada na ideia de que certas pessoas haviam perdido seus direitos naturais.
- 01:36:59 — Locke como ‘pai do liberalismo’? Conclusões finais — Os apresentadores questionam se Locke pode ser chamado de ‘pai do liberalismo’, já que o termo é do século XIX. Embora liberais posteriores tenham se apropriado de suas ideias, o contexto de Locke era diferente: sua grande preocupação era evitar a guerra civil religiosa. Sua teoria visava justificar o direito de revolução e estabelecer um governo baseado no consentimento e na proteção da propriedade (em sentido amplo). O episódio conclui que, apesar das complexidades e dos aspectos problemáticos de seu pensamento, Locke ofereceu uma nova finalidade para a política: estabelecer as condições para a liberdade, e não definir a felicidade em si.
Dados do Episódio
- Podcast: História Pirata
- Autor: História Pirata
- Categoria: History
- Publicado: 2025-02-21T00:00:00Z
- Duração: 01:40:38
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/hist%C3%B3ria-pirata/d65f6080-7f7b-0138-ee0e-0acc26574db2/hist%C3%B3ria-pirata-138-john-locke/8e77c8a8-45a1-4623-8fb5-bffeb0130df8
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Dados do Podcast
- Nome: História Pirata
- Site: https://soundcloud.com/user-409417183
- UUID: d65f6080-7f7b-0138-ee0e-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Bom dia, boa tarde, boa noite,
[00:00:18] tripulantes. Aqui quem fala é o
[00:00:20] Rafinha e eu sou o marinheiro que
[00:00:22] comanda esse motim. Bem-vindos a
[00:00:24] bordo, porque esse é o podcast
[00:00:26] História Pirata. Fala,
[00:00:29] pirataria, eu sou o Daniel Gomes de
[00:00:31] Carvalho e eu também comando este
[00:00:33] motim. E aí, Rafinha, segundo
[00:00:35] programa do ano, você está feliz, está contente?
[00:00:38] Feliz e contente
[00:00:39] são sempre dois
[00:00:41] adjetivos.
[00:00:43] Contente, feliz, adjetivo.
[00:00:45] Adjetivos, né? Que são
[00:00:47] complexos de serem utilizados
[00:00:49] em pleno 2025,
[00:00:51] que esse ano que eu nem
[00:00:53] começou e eu não considero
[00:00:55] pacas. O que
[00:00:57] a gente quer saber, Dani, não é se você está
[00:00:59] feliz, não é se você está contente,
[00:01:01] porque isso ninguém se interessa,
[00:01:03] é o que você está lendo. É isso
[00:01:05] que o povo quer saber. Não, o povo
[00:01:07] não pensa em outra coisa.
[00:01:09] E no último programa, eu falei
[00:01:11] que eu estava lendo, já terminei,
[00:01:13] e adorei, no final das contas, o livro
[00:01:15] do Aurelien Creighton,
[00:01:17] A Moderação no Pensamento Político
[00:01:19] Francês, Uma Virtude de Mentes
[00:01:21] Corajosas. E
[00:01:23] esse livro me
[00:01:25] levou a uma releitura, que eu estou
[00:01:27] começando agora, que é a
[00:01:29] O Espírito das Leis,
[00:01:31] do Barão de Montesquieu, estou aqui
[00:01:33] no começo, e é
[00:01:35] legal, até comentei lá no nosso Instagram
[00:01:37] como o Creighton,
[00:01:39] no livro dele, tenta deixar muito
[00:01:41] claro como Montesquieu não defende
[00:01:43] a separação de poderes.
[00:01:46] Ele defende muito mais a
[00:01:47] questão dos poderes vigiando-se
[00:01:49] uns aos outros, e que também é errado dizer
[00:01:51] que para Montesquieu, o legislativo
[00:01:53] se restringe à Assembleia,
[00:01:55] ao Executivo, ao Rei, ao Presidente.
[00:01:57] Na verdade,
[00:01:59] segundo a interpretação, a leitura do Creighton,
[00:02:02] para Montesquieu,
[00:02:04] o poder legislativo
[00:02:05] muitas vezes é exercido
[00:02:07] pelo Rei, pelo Monarca, ou pelo
[00:02:09] Presidente, assim como
[00:02:11] o poder legislativo,
[00:02:13] a Assembleia Legislativa, por exemplo, a Assembleia de Deputados,
[00:02:16] às vezes vai exercer
[00:02:17] elementos do poder Executivo, como há
[00:02:19] um balanço e uma
[00:02:20] forma recíproca
[00:02:23] desses poderes se limitarem.
[00:02:25] Bom, e aí, depois de ler o Creighton,
[00:02:27] eu falei, não, preciso reler o Montesquieu,
[00:02:29] para rever algumas questões,
[00:02:30] para ver se eu concordo com algumas leituras que ele faz,
[00:02:33] enfim, muito bacana.
[00:02:35] E você, cara, o que você anda lendo?
[00:02:38] Cara, eu continuo
[00:02:39] nas minhas leituras
[00:02:40] sobre fotografia, e aí
[00:02:43] eu estou dando continuidade
[00:02:44] num trabalho da mesma autora
[00:02:47] que eu citei aqui na semana passada,
[00:02:49] semana passada não, né,
[00:02:50] há duas semanas atrás,
[00:02:52] que é a Ariela Azoulay,
[00:02:55] mas agora eu estou lendo Civil Imagination,
[00:02:57] a política ontológica,
[00:02:59] o último programa eu estava
[00:03:03] lendo
[00:03:04] The Civil Contract of Photography
[00:03:08] e agora o Civil
[00:03:09] Imagination.
[00:03:11] Agora, se vocês
[00:03:13] querem continuar
[00:03:15] escutando as nossas
[00:03:16] experiências com as nossas leituras,
[00:03:20] continuar escutando
[00:03:21] aqui o História Pirata,
[00:03:23] ajudar este programa
[00:03:24] a se manter sempre no mar,
[00:03:27] você sabe que há duas formas,
[00:03:29] de fazê-lo, a primeira e a mais importante
[00:03:31] é sempre ajudando a divulgar
[00:03:32] o nosso podcast. A segunda forma
[00:03:35] já depende de uma questão material,
[00:03:37] já depende de uma questão financeira,
[00:03:40] é fazendo um pix.
[00:03:41] A nossa chave pix é também o nosso e-mail,
[00:03:43] podcast.historiapirata
[00:03:46] arroba gmail.com
[00:03:48] repita, podcast.historiapirata
[00:03:52] arroba gmail.com
[00:03:56] arroba gmail.com
[00:03:57] Meu caro Dani,
[00:03:58] vamos anunciar o nosso podcast,
[00:03:59] vamos anunciar o programa de hoje agora?
[00:04:00] É o programa do Joãozinho Louco?
[00:04:02] Sabia, eu sabia,
[00:04:04] eu tinha certeza absoluta,
[00:04:06] você viu que eu levantei essa bola
[00:04:09] pra esperar você dar esse corte
[00:04:11] da quinta série
[00:04:12] que você tanto adora.
[00:04:15] Como vocês já sabem,
[00:04:17] pois clicaram no episódio de hoje,
[00:04:18] o programa de hoje é sobre
[00:04:20] John Locke, e pra isso
[00:04:22] nós dividimos o programa aqui em
[00:04:24] três blocos para vocês.
[00:04:26] No primeiro, falar um pouco
[00:04:28] sobre a história,
[00:04:29] da fortuna dos dois tratados,
[00:04:31] a história do livro.
[00:04:32] No segundo bloco, trajetórias,
[00:04:35] trajetórias no plural não, né?
[00:04:38] A trajetória e as obras
[00:04:39] de John Locke, como elas estão
[00:04:41] envolvidas. E no terceiro e derradeiro
[00:04:43] bloco, é o ponto central,
[00:04:45] talvez, aí, do tratado sobre
[00:04:47] o governo, a teoria social e política
[00:04:50] da obra em questão
[00:04:51] selecionada pro episódio de hoje.
[00:04:54] Então, bora pro programa,
[00:04:55] vamos ao primeiro bloco
[00:04:57] falar sobre a história do livro.
[00:04:58] Vamos para a história desta obra.
[00:05:04] Bom, no nosso programa
[00:05:06] sobre o Hobbes, eu disse
[00:05:08] que muito da minha leitura de Hobbes
[00:05:10] estava ancorada em alguns autores, né?
[00:05:12] Eu mencionei, por exemplo, Richard Tuck,
[00:05:14] mencionei, por exemplo,
[00:05:16] Quentin Skinner, e hoje
[00:05:18] vou mencionar um outro intérprete do John Locke,
[00:05:21] que é o John Dunn.
[00:05:22] Vou mencionar ele em vários momentos
[00:05:24] aqui no programa de hoje, então
[00:05:25] deixo a recomendação pra quem quiser
[00:05:28] um autor que faz uma análise
[00:05:29] histórica de Locke, John Dunn.
[00:05:32] John Dunn, na sua introdução
[00:05:34] do seu livro sobre Locke,
[00:05:37] diz assim,
[00:05:38] Locke devotou a sua
[00:05:40] vida intelectual a
[00:05:42] duas grandes questões.
[00:05:44] Como os seres humanos
[00:05:46] podem conhecer
[00:05:47] e como
[00:05:49] os seres humanos devem
[00:05:52] tentar viver. Segundo Dunn,
[00:05:54] essas são as duas grandes questões,
[00:05:56] que são grandes questões,
[00:05:58] que Locke tentou responder na sua vida.
[00:06:00] Só que pra responder a essas duas questões,
[00:06:03] Locke escreve sobre
[00:06:04] comércio exterior,
[00:06:06] cunhagem de moedas, cultivo de árvores,
[00:06:09] a interpretação
[00:06:10] das epístolas de São Paulo,
[00:06:12] sem contar que Locke
[00:06:13] deixou muitos manuscritos
[00:06:16] não publicados.
[00:06:17] Há muitos textos de Locke
[00:06:19] que foram escritos por ele que não foram publicados.
[00:06:22] Isso permite a nós
[00:06:23] sabermos mais
[00:06:25] sobre os pensamentos de Locke,
[00:06:28] do que os contemporâneos do autor.
[00:06:30] E isso é muito legal,
[00:06:31] isso é muito interessante. Mas eu queria começar
[00:06:33] o programa de hoje fazendo a mesma
[00:06:35] coisa que eu fiz no nosso último programa.
[00:06:38] Porque, de novo, nós somos
[00:06:39] historiadores.
[00:06:41] E como nós podemos pensar
[00:06:44] os dois tratados
[00:06:46] do Locke, os dois tratados sobre o governo
[00:06:47] civil do Locke,
[00:06:49] como historiadores. A gente fez isso no programa
[00:06:51] passado com Leviathan. Pensar
[00:06:53] o Leviathan enquanto documento.
[00:06:55] E aí eu disse pra vocês que,
[00:06:58] se a gente analisar o Leviathan enquanto
[00:07:00] historiadores, é preciso pensar
[00:07:01] a publicação do Leviathan,
[00:07:04] a impressão, a circulação,
[00:07:06] a recepção,
[00:07:08] as várias edições. Não que pessoas de outros
[00:07:09] campos do conhecimento não precisem
[00:07:11] também considerar essas coisas. Mas
[00:07:13] eu queria deixar claro que é muito caro a nós
[00:07:16] essa análise
[00:07:17] desses textos enquanto documentos.
[00:07:19] Quer dizer, não simplesmente ler
[00:07:21] o Leviathan e falar
[00:07:23] isso que está escrito aí é o que Hobbes
[00:07:25] pensa. É uma expressão do pensamento de
[00:07:27] Hobbes. Não apenas ler
[00:07:29] os dois tratados do Locke e dizer
[00:07:31] ah, isso é uma
[00:07:33] expressão de como Locke
[00:07:35] pensa. Bom,
[00:07:38] então, dito
[00:07:39] isso, eu quero começar citando
[00:07:41] uma frase.
[00:07:44] Em parte alguma
[00:07:45] encontrei uma descrição
[00:07:47] mais clara
[00:07:49] da propriedade do que
[00:07:51] em um livro intitulado
[00:07:53] Os Dois Tratados sobre o Governo.
[00:07:56] Então, isso é um
[00:07:57] trecho de uma carta que diz
[00:07:59] que os dois tratados sobre o governo de Locke
[00:08:01] são um grande livro.
[00:08:04] Representam um grande livro.
[00:08:06] Bom, o problema é que quem escreveu
[00:08:07] essa frase foi o próprio Locke.
[00:08:09] Numa carta para o primo dele. O primo dele
[00:08:11] se chamava Richard King.
[00:08:13] Ricardo Rei.
[00:08:15] Então, é uma carta do Locke para o primo,
[00:08:18] o reverendo Richard King,
[00:08:19] sobre a sua própria obra.
[00:08:21] Escrita um ano antes, inclusive, da morte
[00:08:23] do próprio Locke. Escrita essa carta de 1703.
[00:08:26] Bom,
[00:08:27] isso mostra para vocês
[00:08:29] que não se sabia,
[00:08:32] na época de Locke,
[00:08:33] que essa obra era de autoria dele.
[00:08:37] Bom, de qualquer maneira,
[00:08:37] não deixa de ser curioso
[00:08:39] o Locke comparar o próprio livro
[00:08:41] às obras de Aristóteles.
[00:08:44] A verdade é que
[00:08:45] dois séculos depois,
[00:08:48] dá para o mais de dois séculos depois,
[00:08:50] dois séculos e um quarto depois,
[00:08:52] muitos de nós concordamos
[00:08:54] com o que o Locke dizia sobre si próprio.
[00:08:56] Quer dizer, até hoje a gente está estudando,
[00:08:57] textos de Locke,
[00:08:58] se a gente está estudando os textos de Locke até hoje,
[00:09:00] é porque, de alguma maneira, a gente concorda
[00:09:02] que realmente é um texto muito importante.
[00:09:05] E a época também concordou.
[00:09:06] Esse texto, os dois tratados sobre o governo,
[00:09:09] logo foram traduzidos para o francês,
[00:09:12] para o alemão, para o italiano,
[00:09:14] para o russo, para o espanhol,
[00:09:16] para o sueco, para o norueguês,
[00:09:18] para o hebraico, para o árabe, para o japonês,
[00:09:20] para o hindi.
[00:09:22] Se vocês pegarem o texto
[00:09:24] publicado na época,
[00:09:27] na carta,
[00:09:27] no frontispício,
[00:09:29] vocês encontram
[00:09:32] a data de 1690
[00:09:34] como a data da impressão.
[00:09:36] Então, os dois tratados sobre o governo
[00:09:38] foram impressos
[00:09:39] em 1690.
[00:09:41] Só que aí vem uma questão.
[00:09:44] Quando ele foi escrito?
[00:09:46] E por que ele foi escrito?
[00:09:50] E aí, há um estudo muito famoso
[00:09:52] sobre isso, que é o estudo de um historiador
[00:09:54] chamado Peter Laszlitz.
[00:09:55] O Peter Laszlitz tentou entender,
[00:09:57] bom, tudo bem, a obra foi impressa
[00:10:00] em 1690, mas
[00:10:01] quando ela foi escrita,
[00:10:04] e por que ela foi escrita?
[00:10:05] Aliás, se o Locke morreu
[00:10:08] e muitos não sabiam que a obra
[00:10:10] era dele, como é que a gente sabe que a obra
[00:10:11] é do Locke?
[00:10:13] O Locke faz três referências
[00:10:16] a esse texto ao longo da vida dele.
[00:10:19] A primeira
[00:10:20] é justamente nessa carta
[00:10:22] que eu mencionei para vocês, para o Richard King.
[00:10:24] A segunda
[00:10:25] é num outro texto chamado,
[00:10:27] Thoughts Concerning Reading and Study
[00:10:30] for a Gentleman.
[00:10:31] E nesse texto ele reconhece que essa obra
[00:10:33] é importante, que ela é usada por outras
[00:10:35] pessoas. Bom, mas
[00:10:37] por essas duas referências, não dá para saber
[00:10:39] que Locke é autor dos dois tratados
[00:10:41] sobre o governo civil.
[00:10:43] Agora, no testamento de Locke,
[00:10:46] que foi assinado duas
[00:10:47] semanas antes da morte de Locke,
[00:10:50] Locke reconhece que ele é
[00:10:51] autor desse texto. Ele deixa
[00:10:53] esse texto para a biblioteca da Universidade de
[00:10:55] Oxford, e
[00:10:57] ele, no testamento, Locke,
[00:10:59] mostra-se muito aflito, muito
[00:11:01] ansioso, porque ele
[00:11:03] tinha medo que as pessoas lessem
[00:11:05] versões alteradas do texto dele.
[00:11:08] Isso que a gente vai ver agora era uma
[00:11:09] grande questão para ele. Ele tinha medo
[00:11:11] de versões que podiam aparecer
[00:11:13] da sua obra.
[00:11:15] Além disso, além dessas referências,
[00:11:18] há rascunhos
[00:11:19] e correções de autoria de Locke
[00:11:21] dessa obra.
[00:11:23] Então, enfim, tudo nos leva a crer
[00:11:25] que, de fato, os dois tratados sobre o governo civil,
[00:11:27] são de Locke.
[00:11:29] Mas é interessante pensar que,
[00:11:31] mesmo em Oxford, na época,
[00:11:33] alguns desconfiavam se a obra
[00:11:35] era dele mesmo. Em contrapartida,
[00:11:38] alguns outros
[00:11:39] autores, como Pierre Bale,
[00:11:41] em textos, sugerem
[00:11:43] que um círculo mais
[00:11:45] restrito de pessoas já sabia de antemão,
[00:11:47] antes da morte de Locke, antes do testamento,
[00:11:50] que essa obra era de
[00:11:51] John Locke. Bom,
[00:11:54] então, há muitos
[00:11:55] indícios bastante seguros,
[00:11:57] de que a obra é dele. Há muitos indícios
[00:11:59] bastante seguros. Só que
[00:12:01] eu queria voltar nesse ponto, que eu acho
[00:12:03] um ponto interessante. O Locke
[00:12:05] sempre
[00:12:06] tinha muito receio,
[00:12:10] muita aflição
[00:12:11] do que poderiam fazer com os textos
[00:12:13] dele. Há um
[00:12:16] texto, de junho
[00:12:17] de 1704, no qual
[00:12:19] Locke diz assim. Os livros, diz ele,
[00:12:22] me parecem algo
[00:12:23] pestilento e que contamina
[00:12:26] a todos quando participam.
[00:12:27] Quando o seu comércio
[00:12:28] contamina com alguma coisa perversa
[00:12:31] e brutal. Editores,
[00:12:33] encadernadores, vendedores
[00:12:35] e outros que fazem dos livros
[00:12:37] comércio e fontes de ganho,
[00:12:39] parecem ser tomados por um espírito
[00:12:41] de tal modo retorcido e corrupto
[00:12:44] que tem um modo de negociar
[00:12:46] que lhes é peculiar e que
[00:12:47] vai contra o bem da sociedade e aquela
[00:12:49] probidade geral que dá coesão
[00:12:51] à humanidade. Então, ele tinha uma certa
[00:12:53] desconfiança do que
[00:12:56] as pessoas iam fazer com o seu livro, especialmente
[00:12:57] os comerciantes do livro.
[00:13:00] E também é interessante pensar
[00:13:01] que os dois tratados do Locke
[00:13:03] tiveram várias edições
[00:13:05] distintas.
[00:13:07] Inclusive, edições distintas enquanto
[00:13:09] Locke estava vivo. Então, por exemplo,
[00:13:11] a primeira edição não continha
[00:13:13] o parágrafo 21.
[00:13:16] Vocês podem
[00:13:17] conferir aí quando vocês forem ler o texto.
[00:13:19] E o Locke não gostava da primeira edição.
[00:13:21] Mesmo assim, a primeira edição se esgota
[00:13:23] em 1694.
[00:13:25] Para a segunda impressão do texto,
[00:13:27] ele fez mais de
[00:13:29] 150 alterações.
[00:13:32] E mesmo assim, ele, Locke,
[00:13:33] ficou insatisfeito com essas
[00:13:35] alterações que ele fez.
[00:13:37] O Locke,
[00:13:39] junto àquele que era uma espécie
[00:13:41] de testa de ferro dele, chamado Clark,
[00:13:43] junto à Churchill, que também
[00:13:45] trabalhava no processo de edição,
[00:13:47] eles decidiram vender
[00:13:48] essa segunda edição a um preço
[00:13:51] barato para que ela se esgotasse
[00:13:53] mais rápido, o que demorou quatro anos para acontecer.
[00:13:55] A terceira edição dos dois
[00:13:57] tratados, ela aparece em 1798,
[00:14:00] ela incorpora várias
[00:14:01] correções, mas mesmo assim,
[00:14:04] Locke
[00:14:05] estava insatisfeito.
[00:14:08] A gente encontra,
[00:14:09] se a gente pegar na documentação,
[00:14:11] correções dessa edição na
[00:14:13] caligrafia de Pierre Coste,
[00:14:15] embora também apareça às vezes a caligrafia
[00:14:17] do próprio Locke.
[00:14:19] O Locke deixa,
[00:14:22] não só para esse texto, mas para vários textos
[00:14:23] dele, correções
[00:14:25] para futuras pessoas que fossem,
[00:14:27] fazer novas impressões dos seus textos.
[00:14:30] Então, possivelmente,
[00:14:31] ele deixou essas correções
[00:14:33] para Churchill,
[00:14:34] que trabalhava também com seus textos,
[00:14:37] ou para Peter King, que era um
[00:14:39] dos seus herdeiros. Seja como
[00:14:41] for, Locke já havia
[00:14:43] morrido, mas aparece,
[00:14:45] ainda no século XVIII, uma quarta edição,
[00:14:48] 1713,
[00:14:50] sob a chancela de
[00:14:51] Churchill. E essa
[00:14:53] quarta edição, ela parece
[00:14:55] ser, de fato, a mais rebuscada, a mais
[00:14:57] complexa, que incorpora mais
[00:14:59] correções. Bom,
[00:15:01] há várias outras edições do texto.
[00:15:03] Locke já está morto. Até 1764,
[00:15:06] com mais alterações.
[00:15:08] E é interessante,
[00:15:09] então, a gente pensar que as versões que são
[00:15:11] publicadas na atualidade,
[00:15:13] geralmente se baseiam
[00:15:14] nessa quarta edição.
[00:15:18] E o que fica claro
[00:15:19] para a gente, é que não dá para saber
[00:15:21] se essa quarta edição
[00:15:23] é exatamente aquilo que
[00:15:25] Locke quisesse que a gente lesse.
[00:15:27] Aquilo que Locke queria, desculpa, que a gente
[00:15:29] lesse.
[00:15:31] Então, esse é um ponto importante.
[00:15:34] Segundo ponto.
[00:15:35] É um senso comum, muitos de vocês
[00:15:37] já escutaram, e não está errado isso,
[00:15:40] a ideia de que Locke
[00:15:41] influenciou o Iluminismo
[00:15:43] e de Locke influenciou
[00:15:45] a Era das Revoluções.
[00:15:47] Aí, vamos supor que você é um estudioso de
[00:15:49] história, e você vai lá
[00:15:51] todo inocente, pega
[00:15:53] uma edição traduzida
[00:15:54] por alguma editora brasileira do texto,
[00:15:57] de Locke, e começa a fazer
[00:15:59] relações com Voltaire, com Montesquieu,
[00:16:02] com Rousseau,
[00:16:03] com as Revoluções, etc.
[00:16:05] O problema é que
[00:16:07] se você for um historiador das
[00:16:09] ideias, que trabalha com história intelectual,
[00:16:12] você não pode fazer isso
[00:16:13] assim dessa maneira. Você tem que se perguntar
[00:16:15] antes que
[00:16:16] edição de Locke
[00:16:19] era lida, por exemplo, pelos
[00:16:21] iluministas franceses.
[00:16:23] E a verdade é que havia uma tradução
[00:16:25] francesa
[00:16:27] na primeira edição
[00:16:28] que foi feita por um pastor
[00:16:31] uguenote que vivia na Holanda,
[00:16:33] e nessa versão francesa dos dois
[00:16:35] tratados do Locke, não havia
[00:16:37] o prefácio, não havia
[00:16:39] o primeiro tratado na íntegra,
[00:16:41] e não havia o capítulo inicial do segundo tratado.
[00:16:44] Quer dizer,
[00:16:45] a versão de Locke
[00:16:47] que Montesquieu leu, que Voltaire leu
[00:16:49] e que Rousseau leu, era uma
[00:16:51] versão ainda mais reduzida
[00:16:53] chamada de gouvernement civil.
[00:16:55] Sobre o governo civil.
[00:16:57] Então, veja, que se você
[00:16:59] disser assim, a Locke influenciou
[00:17:01] o iluminismo,
[00:17:04] e aí se começasse a fazer relações,
[00:17:05] você, como historiador, ia errar.
[00:17:08] Porque a pergunta que você tem
[00:17:09] que fazer é, que Locke influenciou
[00:17:11] o iluminismo? Que Locke chega
[00:17:13] ao iluminismo? E, possivelmente,
[00:17:16] o Locke que chega
[00:17:17] é um Locke bem alterado daquelas
[00:17:19] edições que circulavam
[00:17:21] na Inglaterra no começo do século XVII.
[00:17:24] Então, é um Locke muito específico.
[00:17:25] É um Locke diferente.
[00:17:27] Do Locke daquele cara que estava lá
[00:17:29] vivendo, etc. Aliás,
[00:17:32] a edição
[00:17:33] americana,
[00:17:35] a edição que foi lida na época
[00:17:37] da independência dos Estados Unidos,
[00:17:39] era uma edição
[00:17:40] bem curiosa,
[00:17:43] inclusive, porque ela obedecia
[00:17:45] a…
[00:17:47] Era a quarta edição,
[00:17:49] era aquela edição que eu falei
[00:17:51] para vocês que era mais rebuscada,
[00:17:52] que teve mais correções,
[00:17:54] mas, embora fosse a quarta edição inglesa,
[00:17:57] ela obedecia as regras
[00:17:59] francesas, ou seja,
[00:18:01] não tinha a quase totalidade do primeiro
[00:18:03] tratado, não tinha o primeiro capítulo do
[00:18:05] segundo tratado, e essa era a edição
[00:18:07] que circulou nos Estados Unidos até o século XX.
[00:18:11] Isso é muito
[00:18:11] interessante, né, Rafa?
[00:18:13] Então, se a gente pensar… Por isso que a gente tem
[00:18:15] que tomar muito cuidado quando a gente fala em influência,
[00:18:17] a Locke influenciou o iluminismo.
[00:18:19] É um Locke muito específico,
[00:18:21] que passa por diversos filtros,
[00:18:23] crivos e seleções, etc.
[00:18:26] Então, é fantástico.
[00:18:27] É fantástico a gente pensar que há um texto,
[00:18:29] os dois tratados sobre o governo
[00:18:31] de Locke, que surgem na Inglaterra,
[00:18:34] passam lá pelos protestantes
[00:18:35] franceses na Holanda,
[00:18:37] passam pela crítica francesa, chegam até
[00:18:39] o Novo Mundo a partir de uma série
[00:18:41] de filtros.
[00:18:43] Isso explica também por que
[00:18:45] que, por exemplo, durante a independência dos Estados Unidos,
[00:18:48] teve gente que usou Locke
[00:18:49] para defender a independência,
[00:18:51] mas teve também gente que usou Locke
[00:18:54] para defender a monarquia.
[00:18:55] Tá?
[00:18:57] Durante a Revolução Francesa
[00:18:59] apareceram quatro
[00:19:01] diferentes versões
[00:19:02] dos tratados sobre o governo civil do Locke.
[00:19:05] Então, podemos dizer que existiam quatro
[00:19:07] Lockes diferentes circulando
[00:19:09] durante a Revolução Francesa.
[00:19:11] Isso também explica por que
[00:19:12] os ingleses ficavam incomodados.
[00:19:14] Explica parcialmente por que os ingleses
[00:19:17] ficavam incomodados com o fato
[00:19:19] dos franceses usarem Locke
[00:19:21] para defender a Revolução Francesa.
[00:19:23] Então, tem uma edição, eu queria
[00:19:25] fazer até um estudo sobre ela em algum momento,
[00:19:27] uma edição de 1798
[00:19:28] de um bispo chamado Thomas
[00:19:31] Arrington, e esse bispo
[00:19:33] faz uma introdução
[00:19:34] dizendo que Locke
[00:19:36] nunca apoiaria Thomas Paine
[00:19:38] e os modernos democratas.
[00:19:41] Quer dizer, Thomas Paine
[00:19:42] fazia uso de Locke para defender as Revoluções.
[00:19:46] E o Thomas Arrington
[00:19:47] diz nessa edição, numa introdução
[00:19:49] que ele faz para essa edição de Locke,
[00:19:51] que isso é um absurdo, que Thomas Paine
[00:19:53] nunca faria isso. Bom, a primeira edição
[00:19:55] espanhola dos dois tratados vem
[00:19:57] à luz em 1821,
[00:19:59] depois há uma segunda edição que é destruída
[00:20:01] no prelo,
[00:20:03] no processo ali
[00:20:04] antes da publicação efetiva.
[00:20:07] Então, para concluir
[00:20:09] essa primeira parte, e aqui
[00:20:11] eu queria fazer essa discussão histórica
[00:20:13] com vocês aqui, nossos ouvintes, para a gente pensar
[00:20:15] do ponto de vista da história
[00:20:17] intelectual, não existe
[00:20:19] um Locke que
[00:20:21] influencia a posteridade. Existem vários
[00:20:23] Lockes, por assim dizer,
[00:20:25] que são construídos,
[00:20:27] apropriados, quer dizer, John Locke,
[00:20:29] a pessoa que estava lá andando
[00:20:31] por Oxford no século XVII.
[00:20:34] E John Locke,
[00:20:35] o autor, não são
[00:20:37] a mesma pessoa exatamente.
[00:20:40] Então,
[00:20:41] isso que eu estou falando para Locke, vale para várias
[00:20:43] coisas, né? Então, quando você,
[00:20:45] como historiador, como historiadora,
[00:20:47] como pessoa que gosta de história,
[00:20:49] for fazer relações entre os textos,
[00:20:51] é importante perguntar quem publicou,
[00:20:54] como publicou, quais edições
[00:20:55] circulavam, como ele foi recebido,
[00:20:57] em resumo, pensar
[00:20:59] esses textos filosóficos
[00:21:01] enquanto fontes.
[00:21:03] É isso que eu estou tentando mostrar para vocês. Se você não
[00:21:05] fizer isso, você corre o risco
[00:21:07] de fazer umas relações absurdas.
[00:21:10] Falar, se Locke influenciou
[00:21:11] os Estados Unidos, eu posso
[00:21:13] pegar aqui o texto do Locke e fazer umas relações.
[00:21:15] Só que, às vezes, aquela parte do texto
[00:21:17] que você está fazendo relação não circulava
[00:21:19] nos Estados Unidos no século XVIII.
[00:21:21] É por isso que eu,
[00:21:23] e assim termina esse primeiro bloco,
[00:21:25] sou muito crítico,
[00:21:27] a ideia de influência, né? Locke
[00:21:29] influenciou. Essa ideia
[00:21:31] geralmente nos leva a enganos, a equívocos,
[00:21:33] né? É melhor, eu acho, falar
[00:21:35] em outros termos. Não sei se você concorda,
[00:21:37] Rafa. Dani, não somente
[00:21:39] eu concordo, mas acho que
[00:21:40] quem é ouvinte
[00:21:43] de mais longa data aqui no História Pirata
[00:21:45] já está
[00:21:47] bastante acostumado, inclusive, né?
[00:21:49] Com essa discussão. Afinal de contas,
[00:21:51] ela é recorrente aqui
[00:21:52] e a gente já a teve
[00:21:54] em outras circunstâncias.
[00:21:57] Bora para o segundo bloco, Dani?
[00:21:59] Poeira.
[00:22:00] Então, o primeiro bloco do programa fica por aqui.
[00:22:03] Vamos ao segundo bloco do programa
[00:22:05] de hoje, falar um pouco sobre a trajetória.
[00:22:07] Eu ia falar as trajetórias
[00:22:09] novamente. A trajetória
[00:22:11] e as obras de
[00:22:13] John Locke.
[00:22:21] Então, vamos agora organizar as coisas.
[00:22:23] Locke
[00:22:24] nasceu em Somerset
[00:22:26] em 1600.
[00:22:27] Em 1732. Para quem gosta de
[00:22:28] sincronicidades, é o mesmo ano que nasceram
[00:22:31] Uffendorf e Spinoza.
[00:22:33] Locke morreu
[00:22:34] na casa de campo de uns amigos
[00:22:36] em Essex, no ano
[00:22:39] de 1704. Sétimo
[00:22:41] ano. Então, ele
[00:22:43] nasceu no sétimo ano do reinado de Carlos I
[00:22:45] e morreu
[00:22:46] no reinado da Rainha Ana.
[00:22:49] Morre, então, aos 72 anos.
[00:22:51] Locke, que, pelo menos, dizia
[00:22:53] que era um celibatário.
[00:22:54] E é interessante,
[00:22:56] porque, veja,
[00:22:57] Francis Bacon era advogado.
[00:23:00] O Hobbes, como a gente viu
[00:23:01] no nosso último programa,
[00:23:03] ele ensinava nobres.
[00:23:05] O Newton chegou a ser
[00:23:07] acadêmico por necessidade,
[00:23:09] até ser admitido ali depois como administrador
[00:23:11] nas esferas aristocráticas.
[00:23:14] O Locke é um dos poucos
[00:23:15] dentre os grandes de sua época
[00:23:17] que escolheu ser
[00:23:19] catedrático, estar associado a uma universidade.
[00:23:22] Bom, Locke era
[00:23:23] filho de puritanos.
[00:23:26] O pai de Locke,
[00:23:27] também chamado John Locke,
[00:23:29] era um advogado que serviu como clérigo
[00:23:32] e capitão da cavalaria
[00:23:33] nas forças parlamentares durante a Guerra Civil Inglesa.
[00:23:36] Então, já temos aqui um programa
[00:23:38] sobre a Guerra Civil Inglesa,
[00:23:39] mas nós queremos regravá-lo
[00:23:41] com a Verônica Calzone, que já disse
[00:23:43] que se a gente não chamar para esse programa,
[00:23:45] ela vai ficar brava com a gente.
[00:23:46] Mas é claro que a gente vai chamar,
[00:23:47] então a gente quer refazer esse programa.
[00:23:49] Mas, bom, nesse programa a gente fala sobre a Guerra Civil
[00:23:51] entre as forças do parlamento e as forças reais
[00:23:54] na Inglaterra do século XVII.
[00:23:56] E o John Locke,
[00:23:57] pai, atuou
[00:23:59] nas forças parlamentares.
[00:24:00] O avô de Locke, Nicholas Locke,
[00:24:03] havia ganhado um dinheiro
[00:24:05] como fabricante de tecidos.
[00:24:07] Ele recrutou para trabalhar
[00:24:08] nas suas… não eram fábricas
[00:24:10] no sentido, obviamente, moderno,
[00:24:13] era mais no sentido de manufatura.
[00:24:14] Então ele recruta para o trabalho na sua manufatura
[00:24:17] os aldeões da área rural
[00:24:19] ali em torno do porto de Bristol.
[00:24:21] E é ali mesmo que ele, inclusive,
[00:24:22] vendia seus produtos.
[00:24:24] Ou seja, a família do pai
[00:24:26] era uma família envolvida no ramo das roupas
[00:24:29] e a família da mãe
[00:24:31] era uma família envolvida no ramo do couro.
[00:24:34] Mesmo assim,
[00:24:35] então não era uma família pobre,
[00:24:37] mas também não era uma família
[00:24:39] com riqueza suficiente
[00:24:40] para ingressar na gentry,
[00:24:43] para serem gentlemen,
[00:24:44] num setor, em resumo,
[00:24:46] da pequena nobreza inglesa.
[00:24:48] Não tinham dinheiro suficiente para isso,
[00:24:49] para comprar um brasão de gentlemen
[00:24:52] e essas coisas.
[00:24:53] Seja como for, o pai de John Locke,
[00:24:55] o John Locke pai,
[00:24:57] lega ao filho terras,
[00:25:00] casas de fazenda
[00:25:01] e uma pequena mina.
[00:25:03] Em 1647,
[00:25:06] Locke consegue
[00:25:07] uma ajuda
[00:25:08] a partir do pai.
[00:25:10] Então o pai de Locke havia lutado
[00:25:13] ao lado de uma família muito poderosa
[00:25:15] que era a família Popham,
[00:25:17] que era uma família parlamentar.
[00:25:19] E devido a essa ajuda do amigo do pai,
[00:25:22] Locke conseguiu entrar
[00:25:23] na Westminster School como bolsista.
[00:25:25] E Locke estava lá
[00:25:28] justamente quando
[00:25:30] o Carlos I foi executado,
[00:25:32] o rei da Inglaterra foi executado
[00:25:33] em 1649.
[00:25:35] Em 1652, Locke segue para Oxford.
[00:25:39] Então Locke tinha nesse momento
[00:25:40] 20 anos de idade.
[00:25:42] E lá ele estuda
[00:25:44] na Christ Church College,
[00:25:47] que estava sob direção
[00:25:48] de um independente chamado
[00:25:50] John Owen. Independente significa
[00:25:52] um crítico do establishment
[00:25:55] anglicano, da igreja anglicana
[00:25:56] e também do autoritarismo presbiteriano.
[00:26:00] Justamente, Rafa,
[00:26:02] o primeiro dos textos mais conhecidos
[00:26:03] de Locke era uma
[00:26:05] saudação a Oliver Cromwell
[00:26:07] devido à vitória
[00:26:09] contra os holandeses
[00:26:10] em 1653.
[00:26:13] Locke, na universidade,
[00:26:16] chega a ter um desempenho
[00:26:17] satisfatório, não foi um mau aluno,
[00:26:20] mas não foi também um aluno
[00:26:21] de grande destaque. Seja como for,
[00:26:24] ele entra,
[00:26:25] na medicina,
[00:26:26] ele se dedica bastante à botânica,
[00:26:29] se associa a Robert Boyle,
[00:26:31] o Boyle, talvez o pessoal estuda
[00:26:33] na escola, a lei dos gases,
[00:26:35] aquelas coisas, é estudado até hoje
[00:26:37] nas escolas, e Locke trabalha
[00:26:39] no laboratório do Robert Boyle,
[00:26:41] no laboratório de High Street.
[00:26:43] Trabalha também, Locke também trabalha
[00:26:45] com o doutor Thomas Siderhan,
[00:26:48] que foi um dos pioneiros
[00:26:49] no tratamento de doenças infecciosas
[00:26:50] na medicina. Bom, em 1675,
[00:26:53] Locke se torna
[00:26:54] bacharel em medicina.
[00:26:56] Quer dizer, Locke
[00:26:58] jamais foi filósofo em Oxford.
[00:27:02] Isso é importante
[00:27:03] também dizer. Apesar disso,
[00:27:05] a correspondência de Locke mostra
[00:27:06] que ele era alguém muito preocupado,
[00:27:08] já muito jovem, com questões de
[00:27:10] Estado, religião, etc.
[00:27:13] E justamente, a primeira obra
[00:27:15] que ele escreve para publicação
[00:27:16] se chama
[00:27:18] O Magistrado Civil.
[00:27:21] Também há alguns textos que ele escreve
[00:27:22] na faculdade sobre a lei natural,
[00:27:24] mas nesse texto
[00:27:25] O Magistrado Civil, Locke insiste
[00:27:28] que o poder dos magistrados
[00:27:30] ele é supremo.
[00:27:33] Quer dizer, as decisões
[00:27:34] do poder legislativo
[00:27:35] obrigam a consciência de todos
[00:27:38] a obedecê-la. E não há
[00:27:40] outro remédio que não
[00:27:42] a obediência passiva.
[00:27:45] Então, citando aqui um trecho
[00:27:46] do texto, Locke diz assim
[00:27:47] A multidão é tão avessa
[00:27:50] aos freios contra o mar
[00:27:52] e cujas tempestades e resfriados
[00:27:54] sacas nunca se pode
[00:27:55] precaver o bastante. Ou seja, Rafa,
[00:27:59] o jovem Locke
[00:28:00] era um cara que não defendia
[00:28:02] o direito de resistência, como
[00:28:04] defenderá o velho Locke.
[00:28:05] O primeiro Locke, ele tem
[00:28:08] a mesma preocupação que Hobbes,
[00:28:10] que é a preocupação com a paz.
[00:28:12] E para que a paz aconteça,
[00:28:14] o jovem Locke recomenda
[00:28:15] a obediência.
[00:28:18] Então, Locke vai mudar de ideia
[00:28:19] sobre isso ao longo da sua vida.
[00:28:22] Bom, apesar disso,
[00:28:24] é importante ressaltar que
[00:28:25] mesmo assim, esse jovem Locke, embora
[00:28:27] ele fosse alguém defensor da
[00:28:29] autoridade, etc, ele não
[00:28:31] era um defensor do direito divino.
[00:28:33] Como também não era Hobbes.
[00:28:35] Como também não era Hobbes.
[00:28:37] Então, assim, é tentador
[00:28:39] é tentador para nós hoje
[00:28:41] dizer que Locke
[00:28:44] na sua juventude era um
[00:28:45] roubista, um roubesiano.
[00:28:48] Porém, os
[00:28:50] historiadores, como o próprio John Dunn,
[00:28:51] como Peter Laszlo, dizem
[00:28:54] cuidado com isso, porque havia outros
[00:28:56] pensadores que eram mais lidos do que
[00:28:58] Hobbes, embora não sejam conhecidos
[00:29:00] hoje, ou tão conhecidos hoje,
[00:29:02] que defendiam ideias semelhantes. Então, por exemplo,
[00:29:04] há um pensador chamado Henry Stubber
[00:29:06] com o qual Locke
[00:29:08] certamente teve contato e que
[00:29:10] tinha ideias muito parecidas. Então, não
[00:29:12] dá para dizer que o jovem Locke era um roubesiano
[00:29:14] ou um roubista,
[00:29:16] seja lá como a gente quiser falar.
[00:29:18] Apesar de tudo,
[00:29:20] o jovem Locke
[00:29:21] sempre se mostra nos seus textos,
[00:29:24] nos seus textos, cartas, alguém muito frustrado
[00:29:26] e muito incomodado com a
[00:29:28] maneira pela qual
[00:29:30] a questão política era discutida
[00:29:31] na universidade. Isso talvez até explique um pouco
[00:29:34] por que o Locke foi para a medicina.
[00:29:37] Bom,
[00:29:39] qual é, qual parece
[00:29:40] ser, pelo menos para nós,
[00:29:42] a grande virada na vida de Locke?
[00:29:44] Parece que é quando
[00:29:46] ele se associa ao
[00:29:48] Anthony Ashley Cooper,
[00:29:50] o primeiro conde de Shepardsburg.
[00:29:52] Inclusive, Rafa, um grande
[00:29:54] amigo nosso, professor
[00:29:56] Valdir, professor de literatura,
[00:29:59] foi meu professor na escola,
[00:30:00] depois meu colega deu aula com a gente,
[00:30:02] ele costumava dizer que o Shepardsburg
[00:30:04] é muito melhor que o Locke, e que a melhor
[00:30:06] coisa que o Locke fez na vida dele foi salvar a vida
[00:30:08] do Shepardsburg.
[00:30:10] E vou falar agora sobre isso. O Shepardsburg,
[00:30:13] o primeiro, são vários, né,
[00:30:14] na história, condes de Shepardsburg. O primeiro,
[00:30:17] ele era um cara bastante
[00:30:18] rico, tinha terras e investimentos
[00:30:20] dentro e fora da Inglaterra,
[00:30:22] o primeiro
[00:30:24] de Shepardsburg havia apoiado
[00:30:26] o Carlos I,
[00:30:28] depois, na Guerra Civil, ele apoia o Parlamento,
[00:30:30] depois ele apoia Cromwell,
[00:30:32] depois ele se torna oponente de Cromwell,
[00:30:34] e depois ele se torna um arquiteto
[00:30:36] da restauração quando os Stuarts
[00:30:38] voltam a governar a Inglaterra.
[00:30:41] Bom, então
[00:30:42] era alguém que mudou de posição várias vezes,
[00:30:44] o primeiro conde de Shepardsburg.
[00:30:46] Se ele fosse um partido,
[00:30:48] ele seria o PMDB.
[00:30:50] É, seria algo assim,
[00:30:52] mas assim, ele era um cara muito estudado,
[00:30:54] muito estudioso, muito inteligente, né,
[00:30:56] o primeiro conde de Shepardsburg.
[00:30:58] E ele sofria de uma doença
[00:30:59] muito grave,
[00:31:02] idátide, né,
[00:31:04] enfim, depois vocês podem pesquisar
[00:31:06] aí o que é, eu não vou falar,
[00:31:08] já pedi pra uma amiga médica explicar, mas eu não vou explicar
[00:31:10] porque senão depois eu falo alguma besteira aqui
[00:31:12] e eu não quero fazer isso.
[00:31:14] Seja como for,
[00:31:15] 1666, ele vai a Oxford
[00:31:18] porque tinha uma lenda
[00:31:20] que tinha umas águas em Oxford lá com poder curativo.
[00:31:22] Então ele vai lá pra tentar,
[00:31:24] melhorar da sua doença.
[00:31:26] E quem trata
[00:31:27] do Shepardsburg é Locke.
[00:31:31] E Locke e Shepardsburg
[00:31:32] se tornam grandes amigos.
[00:31:35] Um ano depois,
[00:31:36] Locke se muda pra casa
[00:31:38] de Shepardsburg.
[00:31:40] Ele passa a morar na casa de Shepardsburg e se torna
[00:31:42] seu protedor. E é interessante que
[00:31:44] entre
[00:31:46] 1667 e 1683,
[00:31:50] os
[00:31:50] Stuart estão
[00:31:52] reinando na Inglaterra. É o período
[00:31:54] da restauração. E o
[00:31:55] Conde de Shepardsburg é um dos líderes
[00:31:58] da oposição contra
[00:32:00] o rei Carlos II na Inglaterra.
[00:32:02] E justamente em
[00:32:03] 1668 é quando
[00:32:05] Locke escreve um texto importante
[00:32:07] sobre taxa de juros, sobre como é
[00:32:09] fútil o governo tentar
[00:32:11] controlar a taxa de juros.
[00:32:13] Bom, Locke,
[00:32:16] ele era médico, como nós falamos,
[00:32:18] além de pensador, etc.
[00:32:19] Locke retira um
[00:32:21] abscesso do fígado de Ashley Cooper.
[00:32:24] Do Shepardsburg. E ele insere
[00:32:26] ali um pequeno tubo, através
[00:32:28] da parede do estômago, pra evitar
[00:32:30] formar novos abscessos. E parece que isso
[00:32:31] que o Locke faz é super importante pra história
[00:32:33] da medicina e tal.
[00:32:35] O Ashley Cooper, o Conde de Shepardsburg,
[00:32:38] usou esses tubos pro resto da sua
[00:32:40] vida. Inclusive
[00:32:42] os críticos do Shepardsburg diziam
[00:32:43] que ele era uma grande torneira,
[00:32:45] porque ele tinha esse tubo. Acontece
[00:32:48] que o Locke caiu nas graças do Shepardsburg.
[00:32:51] E o Shepardsburg
[00:32:52] passa a fazer
[00:32:53] de tudo pra promover Locke. Então ele
[00:32:55] contrata Locke pra preparar minutas,
[00:32:58] pra escrever registros, negociações.
[00:33:00] Então o Locke, no final das contas, vai ter um trabalho
[00:33:02] parecido com o de Hobbes.
[00:33:04] De escrever coisas
[00:33:06] pra esses aristocratas. O Edmund Burke
[00:33:08] tinha um trabalho parecido. É algo que os
[00:33:10] grandes filósofos ingleses dessa época
[00:33:11] vão se engajar bastante, de servir
[00:33:13] esses aristocratas. Desde
[00:33:15] então, com essa associação
[00:33:18] com o Shepardsburg, Locke
[00:33:20] passa a conhecer os meandros
[00:33:22] das questões de Estado.
[00:33:23] E é na casa do
[00:33:25] Lorde que ele vai escrever
[00:33:27] a sua grande obra, o Ensaio sobre o Entendimento
[00:33:29] Humano, que a gente não vai abordar no
[00:33:31] programa, a gente vai se concentrar nas
[00:33:33] questões políticas, mas é a grande obra de
[00:33:35] Locke. Os primeiros esboços
[00:33:37] do Ensaio sobre o Entendimento Humano
[00:33:39] são de 1671, quer dizer
[00:33:41] a obra demorou 20 anos pra ficar
[00:33:43] pronta. É, pelo menos.
[00:33:46] Pelo menos. Bom,
[00:33:48] o neto de Shepardsburg,
[00:33:50] que será depois o terceiro
[00:33:52] conde de Shepardsburg, e que será
[00:33:53] um filósofo importante, será
[00:33:55] um dos pupilos de Locke. Assim como
[00:33:57] os irmãos dele, né? Então os filhos do Shepardsburg
[00:34:00] serão todos ali educados por
[00:34:02] Locke. Então, Locke,
[00:34:03] associado ao conde de Shepardsburg,
[00:34:06] passa a cuidar dos jardins
[00:34:07] do mestre dele, da educação
[00:34:10] dos seus filhos, da questão
[00:34:12] da moderação e do muito do que deve ser
[00:34:14] o ideal do comportamento
[00:34:16] de um gentleman. E na
[00:34:18] companhia de Shepardsburg, Locke
[00:34:19] toma contato com textos e autores
[00:34:21] que falam sobre resistência,
[00:34:23] origens do poder político,
[00:34:27] direitos do povo.
[00:34:29] Tá? Então, por exemplo,
[00:34:30] se você pegar textos como
[00:34:31] Os Ensaios sobre a Tolerância,
[00:34:33] As Constituições Fundamentais da Carolina,
[00:34:36] As Cartas de uma Pessoa de Qualidade,
[00:34:37] são textos que possivelmente
[00:34:39] são produzidos,
[00:34:41] pensados, em colaboração
[00:34:43] entre Locke e Shepardsburg. A gente não sabe o quanto
[00:34:45] é de um ou de outro, não dá pra
[00:34:47] saber isso. Né? Então,
[00:34:49] em grande medida, não totalmente,
[00:34:51] tá, Rafa? Mas em grande medida,
[00:34:53] o Locke economista, o Locke pedagogo,
[00:34:56] o Locke teórico, o Locke filósofo,
[00:34:58] se desenvolve com o Conde.
[00:35:00] Né? E não em Oxford.
[00:35:03] Mas nesse outro período.
[00:35:04] Aliás, entre 1675
[00:35:06] e 1679,
[00:35:09] Locke e Shepardsburg
[00:35:10] se mudou pra França.
[00:35:13] Tá? E lá na França,
[00:35:14] Shepardsburg vai acabar morrendo, né,
[00:35:15] de tuberculose pulmonar.
[00:35:18] E, bom, enquanto isso, nesse período,
[00:35:20] acontece na Inglaterra,
[00:35:22] aquilo que nós chamamos,
[00:35:23] de a crise de exclusão.
[00:35:26] Aqui, que é a crise de exclusão,
[00:35:28] é, Carlos II
[00:35:30] ia morrer, e o seu sucessor
[00:35:32] seria Jaime II.
[00:35:34] Uma parte do… Resumindo
[00:35:36] aqui a história, tá? Uma parte do parlamento
[00:35:38] não queria que Jaime II
[00:35:39] assumisse o poder, porque Jaime II
[00:35:41] era católico. Tá? Esse grupo,
[00:35:44] que era favorável à exclusão,
[00:35:46] a não passar o poder
[00:35:48] para Jaime II, e sim para
[00:35:49] um outro herdeiro, que era um filho bastardo
[00:35:52] de Carlos II, passa a ser chamado
[00:35:53] de os Whigs.
[00:35:56] Aqueles que defendiam que não,
[00:35:58] Jaime II tem que assumir,
[00:35:59] porque é o direito divino, é…
[00:36:01] Passa a ser chamado de Tories.
[00:36:04] Tá? Aqui, bem simplificando
[00:36:05] essa história, pra gente não ficar… não perder muito tempo
[00:36:07] nela. E, bom,
[00:36:10] os diários mostram que
[00:36:11] Locke esteve sempre
[00:36:13] na companhia de Shepardsburg,
[00:36:15] enquanto Shepardsburg
[00:36:17] era uma das grandes lideranças dos Whigs.
[00:36:21] Daqueles que defendiam
[00:36:22] que não. O Jaime II,
[00:36:23] o Jaime II poderia ser excluído da sucessão
[00:36:26] se o parlamento assim o quisesse.
[00:36:28] Tá? E, de acordo com os diários
[00:36:30] de Locke, mesmo depois que o
[00:36:31] Shepardsburg morre, Shepardsburg morre
[00:36:33] em janeiro de 1683,
[00:36:36] mesmo depois disso,
[00:36:38] o Locke continua comparecendo
[00:36:39] nas reuniões, nos encontros
[00:36:41] dos Whigs.
[00:36:44] E é muito interessante. Bom, 1683
[00:36:46] acontece
[00:36:47] uma das últimas queimas de livros da história
[00:36:49] da Inglaterra, em Oxford, no
[00:36:51] Pátio das Escolas. Muitos dos livros
[00:36:53] que são queimados ali
[00:36:55] eram livros que estavam nas prateleiras
[00:36:57] de Locke. Pessoas
[00:36:59] próximas a Shepardsburg, como Russell,
[00:37:02] como Sidney, são executadas.
[00:37:05] E o Locke
[00:37:05] mesmo foi acusado de conspiração.
[00:37:07] E é aí, nesse momento, 1683,
[00:37:10] que Locke se exila
[00:37:11] na Holanda, em Rotterdam.
[00:37:13] E ele jamais volta a Oxford, inclusive.
[00:37:16] E, ao que tudo indica,
[00:37:17] é nesse momento
[00:37:19] que Locke começa a
[00:37:21] escrever os dois tratados.
[00:37:23] Tá? 1684,
[00:37:27] Locke
[00:37:27] está com 52 anos de idade.
[00:37:30] Shepardsburg já havia morrido.
[00:37:31] E, nesse momento, Locke ainda não tinha publicado
[00:37:33] nada daquilo que
[00:37:35] tornou ele famoso. Então, ele ainda
[00:37:37] não era um pensador conhecido.
[00:37:40] Bom, quando é expedida
[00:37:41] uma ordem regia
[00:37:43] para expulsar Locke
[00:37:44] da sua carreira acadêmica, devido às suas
[00:37:47] posições sobre tolerância e liberdade,
[00:37:50] fica claro que os reis Stuart
[00:37:52] estão atacando
[00:37:53] os pensadores mais críticos,
[00:37:56] os Whigs das universidades.
[00:37:59] Posteriormente, inclusive,
[00:38:00] os professores se recusaram a admitir
[00:38:02] livros de Locke na universidade.
[00:38:04] Bom, enquanto isso,
[00:38:06] então, isso é 1684 na Inglaterra.
[00:38:09] 1685
[00:38:10] na França, Luís XIV
[00:38:12] revoga o éxito de Nantes.
[00:38:14] Quer dizer, o éxito de Nantes
[00:38:15] havia dado uma certa tolerância,
[00:38:18] uma relativa tolerância
[00:38:19] a protestantes. Luís XIV revoga
[00:38:22] isso. E,
[00:38:23] então, Locke, que está exilado na Holanda,
[00:38:26] fica próximo
[00:38:27] de muitos protestantes
[00:38:29] franceses
[00:38:32] que estavam também exilados lá
[00:38:33] e que são conhecidos, eu li isso
[00:38:35] num historiador recentemente, pelo nome
[00:38:37] de refugiados. Então, há um historiador que diz que,
[00:38:39] nesse momento, o nome refugiados
[00:38:41] começa a ser usado. Pessoas
[00:38:44] que saem da Inglaterra e, principalmente,
[00:38:46] as que saem da França, devido a questões
[00:38:47] religiosas. Então, Locke se torna próximo
[00:38:50] desses grupos. Bom,
[00:38:52] lá na Inglaterra,
[00:38:53] como nós já falamos no nosso podcast
[00:38:55] sobre as Revoluções Inglesas,
[00:38:57] 1688. 1689,
[00:39:00] Jaime II
[00:39:01] acaba deposto.
[00:39:04] É a chamada Revolução Gloriosa.
[00:39:06] Guilherme de Orange,
[00:39:07] William de Orange,
[00:39:09] que vinha também dos Países Baixos,
[00:39:11] assume a coroa inglesa. Bom,
[00:39:13] após a Revolução Gloriosa,
[00:39:16] as coisas melhoram pra Locke.
[00:39:18] Obviamente.
[00:39:19] Locke vai voltar pra Inglaterra
[00:39:22] já como homem influente,
[00:39:23] com amigos poderosos,
[00:39:25] etc. E é nesse momento
[00:39:28] que as grandes obras
[00:39:30] de Locke, as mais conhecidas,
[00:39:32] são publicadas. Então,
[00:39:33] 1689, há a impressão
[00:39:36] anônima da Carta sobre a Tolerância,
[00:39:39] em seguida,
[00:39:41] há a impressão anônima
[00:39:42] dos dois tratados sobre o governo civil.
[00:39:43] Aí vocês podem perguntar, poxa, Daniel, se o Jaime II
[00:39:46] caiu, por que
[00:39:48] publicaram anonimamente?
[00:39:49] Então, vale lembrar
[00:39:51] que 1689,
[00:39:53] 1690, as pessoas ainda temiam
[00:39:55] que Jaime II voltasse.
[00:39:57] Havia essa possibilidade. Havia o temor
[00:39:59] de uma grande repressão,
[00:40:01] de uma reação contra a Revolução Gloriosa.
[00:40:04] Bom, 1689
[00:40:05] é publicado o grande
[00:40:07] livro de Locke, o Ensaio sobre o Entendimento
[00:40:09] Humano, com o nome de Locke
[00:40:11] na página onde está o título
[00:40:13] da obra. E justamente,
[00:40:15] isso também é uma das grandes questões.
[00:40:17] As três obras são publicadas ali
[00:40:19] simultaneamente, praticamente,
[00:40:20] e há uma
[00:40:22] grande discussão entre
[00:40:24] os intérpretes de Locke
[00:40:26] sobre a relação entre os dois
[00:40:28] tratados sobre o governo e o
[00:40:30] Ensaio sobre o Entendimento Humano.
[00:40:32] Bom, 1694,
[00:40:34] ele publica os Pensamentos sobre Educação,
[00:40:37] 1695,
[00:40:38] a Racionalidade do Cristianismo.
[00:40:41] Então, primeiro,
[00:40:42] sobre a Carta da Tolerância
[00:40:45] em Locke. Bom,
[00:40:46] 1685,
[00:40:49] Locke havia escrito
[00:40:50] a Letter
[00:40:52] Concerning Toleration,
[00:40:54] a Carta sobre a Tolerância.
[00:40:56] Essa carta foi escrita, então,
[00:40:58] diante das políticas repressivas
[00:41:00] de Luiz XIV, a revogação
[00:41:02] do éxito de Nantes, por exemplo, a perseguição
[00:41:04] contra os protestantes.
[00:41:06] Nesse texto, Locke defende
[00:41:08] que a comunidade política
[00:41:10] tem origem num pacto,
[00:41:13] num acordo,
[00:41:14] e a função desse acordo
[00:41:16] é preservar
[00:41:17] e ampliar os direitos civis.
[00:41:20] E justamente,
[00:41:21] a jurisdição do magistrado
[00:41:23] termina nesses direitos.
[00:41:26] Quer dizer, o magistrado
[00:41:27] não pode imiscuir-se,
[00:41:29] não pode mexer no que
[00:41:31] diz respeito à salvação das almas.
[00:41:33] Então, lendo aqui o Locke, diz o Locke, o seu poder,
[00:41:35] o poder do magistrado, consiste
[00:41:37] somente na força externa.
[00:41:40] A verdadeira e salvadora religião
[00:41:41] consiste na persuasão
[00:41:43] interna da mente. Quer dizer, Rafa,
[00:41:45] a solução que o Locke oferece
[00:41:47] para evitar a repressão e a guerra civil
[00:41:49] é pensar a religião,
[00:41:51] como uma questão individual.
[00:41:52] E pensar a comunidade religiosa
[00:41:56] como sendo
[00:41:58] não uma comunidade política.
[00:42:00] Então, a comunidade religiosa não é uma comunidade política.
[00:42:03] Porque ela é uma comunidade
[00:42:04] voluntária, ou seja,
[00:42:06] na qual as pessoas entram espontaneamente,
[00:42:08] de forma autônoma, e podem sair dela.
[00:42:10] Assim que é a comunidade religiosa.
[00:42:12] É diferente da comunidade política.
[00:42:14] A comunidade política, diz Locke,
[00:42:16] ela pode outorgar leis,
[00:42:19] receber obediência,
[00:42:20] obrigar o comportamento,
[00:42:21] o cumprimento dessas leis com a força.
[00:42:23] A comunidade religiosa não pode fazer isso.
[00:42:26] Então, é por isso que, para Locke,
[00:42:28] o poder político
[00:42:29] tem que ser
[00:42:31] indiferente à comunidade religiosa.
[00:42:33] Como assim, indiferente?
[00:42:36] A ideia de tolerância
[00:42:38] em Locke
[00:42:39] é relacionada à ideia de indiferença.
[00:42:41] É diferente da nossa ideia de tolerância, né, Rafa?
[00:42:43] Quando a gente fala hoje em tolerância,
[00:42:45] a gente pensa, por exemplo,
[00:42:47] em proteção dos mais vulneráveis,
[00:42:49] e coisas assim. É diferente, né?
[00:42:51] Em Locke,
[00:42:53] o poder político
[00:42:54] deve ser indiferente à comunidade religiosa.
[00:42:57] Então, o que isso significa?
[00:42:59] O poder político não deve
[00:43:01] restringir ou reprimir
[00:43:03] as crenças religiosas,
[00:43:05] e, ao mesmo tempo, não deve
[00:43:07] favorecê-las ou aplicá-las
[00:43:09] enquanto lei, a não ser na medida
[00:43:11] em que elas tentem
[00:43:12] se impor sobre as outras,
[00:43:14] ou violar os direitos das outras. Aí, sim.
[00:43:17] E aí, uma frase famosa de Locke,
[00:43:19] no texto, toda a igreja é ortodoxa,
[00:43:21] ortodoxa para si mesma,
[00:43:23] e herética para as outras.
[00:43:26] Então,
[00:43:27] a limite, veja, a religião
[00:43:28] que não respeitar os direitos civis,
[00:43:31] a religião que não aceitar
[00:43:33] a tolerância,
[00:43:35] essa religião não deve ser aceita.
[00:43:36] E, óbvio, que aí o Locke está pensando nos católicos.
[00:43:40] Mas,
[00:43:41] seja como for, o Locke defende a tolerância,
[00:43:43] por exemplo, em relação aos muçulmanos.
[00:43:45] Então, o Locke diz, ó, se os islâmicos
[00:43:47] aceitarem as regras da comunidade política,
[00:43:50] não,
[00:43:51] fomentarem a sedição, a guerra civil,
[00:43:53] a gente pode tolerá-los normalmente.
[00:43:56] Tá? A mesma coisa
[00:43:57] dos ameríndios.
[00:43:58] Desde que os ameríndios respeitem os direitos civis,
[00:44:02] as suas religiões
[00:44:03] podem ser aceitas. Então, ele diz, por exemplo,
[00:44:05] o exemplo que ele dá é o exemplo do
[00:44:07] sacrifício de crianças. Ah, então, uma religião
[00:44:09] que sacrifica crianças, ela não deve ser
[00:44:11] aceita, porque ela desrespeita o direito
[00:44:13] civil, que é o direito à vida.
[00:44:15] Ô, Dani, deixa eu só te fazer uma pergunta.
[00:44:17] Quando ele faz referência a essas outras
[00:44:19] religiões, principalmente as religiões ameríndias,
[00:44:21] ele tá aceitando esses exemplos
[00:44:23] inventando, né,
[00:44:25] aparentemente, a partir do que você tá falando,
[00:44:28] ou ele tá
[00:44:29] de fato partindo
[00:44:31] de alguma premissa, entendeu? Porque
[00:44:33] ainda que seja
[00:44:35] uma questão
[00:44:37] sobre tolerância,
[00:44:39] falar sobre
[00:44:41] o desconhecido nesse tom
[00:44:43] carrega
[00:44:45] uma intolerância também, né?
[00:44:47] Um desconhecido imagético,
[00:44:49] um desconhecido que ele só existe
[00:44:51] dentro da minha cabeça. Tipo, me pegou
[00:44:53] muito essa coisa do exemplo que você deu
[00:44:55] do… Ah, se há
[00:44:57] uma religião que tá assassinando as crianças,
[00:45:00] mas essa religião é sempre a do
[00:45:01] outro, né? É de uma
[00:45:03] esfera não europeia, né?
[00:45:04] É o exemplo do Locke, não. E é muito importante,
[00:45:07] Rafa. Não, não tô falando que foi você, né? Tô falando
[00:45:09] que foi o Locke mesmo, a Locke. É, não, porque
[00:45:10] parece que foi, porque óbvio que eu não daria esse
[00:45:13] exemplo, né? E é importante
[00:45:15] o que você tá estressando,
[00:45:17] o que você tá enfatizando,
[00:45:20] porque a gente vai chegar
[00:45:21] na questão do Locke com a América daqui a pouco,
[00:45:23] pra gente falar da questão da escravidão.
[00:45:25] Né? E justamente aí
[00:45:27] a gente começa a pensar um pouco nessas relações. É claro que
[00:45:29] ele tá pensando na América, porque ele mesmo
[00:45:31] tem envolvimentos com a América. Chegaremos lá.
[00:45:33] Mas antes eu só queria dizer também
[00:45:35] que o Locke também
[00:45:37] dizia que ateu não deve ser tolerado.
[00:45:40] Porque, segundo ele,
[00:45:41] os ateus,
[00:45:44] por negarem a existência
[00:45:45] de Deus, eles são incapazes
[00:45:47] de respeitar as comunidades políticas.
[00:45:50] Porque pra eles,
[00:45:51] como não há vida após a morte, como não há
[00:45:52] inferno e céu, eles não confiam em nada.
[00:45:55] Nenhum compromisso com o ateu é confiável.
[00:45:57] Então, é interessante que
[00:45:59] embora ele defenda a tolerância,
[00:46:01] ele ainda acredita que a crença religiosa,
[00:46:04] por mais diversa
[00:46:05] que ela seja, ela é necessária
[00:46:06] para que exista a moralidade.
[00:46:10] E aí, assim,
[00:46:11] citando aqui o John Dunn,
[00:46:13] a rejeição de Locke
[00:46:15] da tolerância em relação aos ateus,
[00:46:18] por mais que seja chocante
[00:46:19] pra gente hoje, era consistente,
[00:46:21] com o argumento dele.
[00:46:23] Para quem é crença em Deus,
[00:46:25] ainda é necessária pra fundamentar
[00:46:27] a moralidade. Mas eu também queria dizer
[00:46:29] que, ainda enquanto
[00:46:31] Locke estava vivo, e logo após a morte
[00:46:33] de Locke, as pessoas começam
[00:46:35] a usar as ideias de Locke
[00:46:37] para defender coisas muito
[00:46:39] mais radicais.
[00:46:41] É o caso, por exemplo, de John Tolland,
[00:46:43] um autor muito importante,
[00:46:45] que, enfim, vai influenciar o Thomas Paine.
[00:46:47] O John Tolland escreve o texto
[00:46:49] O Cristianismo Sem Mistério,
[00:46:51] em 1696,
[00:46:53] e o Tolland, a partir de Locke,
[00:46:56] vai defender uma religião
[00:46:57] baseada na razão.
[00:46:59] O que, certamente,
[00:47:01] deve ter incomodado Locke.
[00:47:04] Outro autor,
[00:47:05] William Molyneux,
[00:47:07] passa a defender
[00:47:08] a Irlanda, a partir
[00:47:11] das ideias de Locke. A autonomia da Irlanda
[00:47:13] em relação à coroa inglesa.
[00:47:14] O que, certamente, também deve ter incomodado
[00:47:17] Locke, porque Locke odiava os católicos.
[00:47:20] Quando Locke fala do…
[00:47:21] das religiões intolerantes,
[00:47:22] ele está pensando principalmente nos católicos.
[00:47:25] Então, veja, há católicos que vão usar o pensamento
[00:47:27] de Locke para defender a si próprio.
[00:47:29] E aí,
[00:47:30] vem aquela frase do John Donne, que eu cito na minha aula
[00:47:33] na faculdade.
[00:47:34] Se o iluminismo
[00:47:36] foi, em grande parte, herança de Locke,
[00:47:40] certamente não foi
[00:47:41] a herança que Locke queria deixar.
[00:47:44] Mas, bom, vamos voltar
[00:47:45] à vida de Locke. A Revolução Gloriosa
[00:47:47] acontece, Guilherme de Orange
[00:47:49] é… é…
[00:47:50] se torna rei da Inglaterra.
[00:47:53] Em 1690, Locke
[00:47:55] vai trabalhar no Ministério
[00:47:57] do Comércio de Guilherme de Orange, como um funcionário
[00:47:59] muito bem pago.
[00:48:01] E o Locke trabalha lá pela
[00:48:03] reorganização da cunhagem de moedas,
[00:48:06] pelo estabelecimento
[00:48:07] do sistema de crédito, via
[00:48:09] Banco da Inglaterra, e, em suma,
[00:48:11] pela prosperidade do comércio inglês.
[00:48:13] Então, o John Donne fala, o Locke
[00:48:15] trabalha por um programa de imperialismo
[00:48:17] comercial bastante consciente.
[00:48:20] Palavras do John Donne.
[00:48:20] O John Donne, que é um autor
[00:48:23] que, enfim, é muito preocupado com questões de anacronismo,
[00:48:25] etc.
[00:48:27] O Donne, por exemplo, é muito
[00:48:29] crítico a vincular Locke ao liberalismo,
[00:48:31] etc. Mas, mesmo assim, o Donne
[00:48:33] diz isso.
[00:48:35] Locke passa, então, os últimos anos de vida
[00:48:37] em Essex, nos domínios
[00:48:39] de Sir Francis Mashon,
[00:48:41] acompanhado da esposa dele,
[00:48:43] que era amiga de Locke, era filósofa
[00:48:45] também, a Damaris Mashon.
[00:48:47] E Locke passa esses anos,
[00:48:48] os últimos anos da sua vida,
[00:48:50] em uma biblioteca, revisando livros,
[00:48:52] escrevendo cartas. Muitas pessoas
[00:48:55] procuravam os conselhos de Locke.
[00:48:57] Já havia um grupo, enquanto Locke ainda estava
[00:48:59] vivo, havia um grupo no parlamento
[00:49:00] que era chamado de os Lockeanos.
[00:49:04] E o Locke, por exemplo,
[00:49:07] pensava na atuação
[00:49:08] de Isaac Newton, na Casa da Moeda,
[00:49:12] como uma grande contribuição
[00:49:13] dos pensadores ao governo.
[00:49:15] A principal figura
[00:49:17] do governo do Guilherme III,
[00:49:19] do Guilherme de Orange, até 1780,
[00:49:20] o Lord Somers,
[00:49:22] era patrono do colégio. O colégio era um
[00:49:24] clube de correspondência ligado a Locke.
[00:49:27] Então, podemos dizer,
[00:49:28] e por isso que eu dei esses dados, que no final da vida
[00:49:30] o Locke tinha uma importância
[00:49:32] para o governo inglês e para as medidas do governo inglês.
[00:49:35] O Locke morre
[00:49:36] em 29 de outubro de 1704
[00:49:38] e ele morre oficialmente
[00:49:40] como um gentleman,
[00:49:42] como um membro da gentry, da pequena nobreza inglesa,
[00:49:45] por assim dizer, de maneira simplificada.
[00:49:48] E pegando
[00:49:49] essas contribuições do Locke,
[00:49:50] a questão comercial,
[00:49:52] o Leo Marx, professor lá da
[00:49:54] Federal Fluminense,
[00:49:56] ele me indicou um livro,
[00:49:58] uns dois, três meses atrás, de um autor chamado
[00:50:00] William Petty Greel, chamado
[00:50:02] Freedom’s Debt,
[00:50:04] a Dívida da Liberdade,
[00:50:07] a Companhia Africana Real
[00:50:08] e a Política do Tráfico
[00:50:11] Atlântico de Escravizados,
[00:50:12] de 1672
[00:50:14] e 1752. E esse autor
[00:50:16] argumenta, e vamos discutir isso melhor
[00:50:18] agora, nesse livro,
[00:50:20] Freedom’s Debt,
[00:50:22] a Dívida da Liberdade,
[00:50:24] esse autor argumenta como
[00:50:26] as medidas
[00:50:30] as consequências
[00:50:33] políticas das medidas
[00:50:34] feitas na Revolução Gloriosa,
[00:50:36] por exemplo, fim de algumas restrições,
[00:50:39] etc., contribuíram
[00:50:40] para o aumento do tráfico
[00:50:42] de pessoas escravizadas no começo do século XVIII.
[00:50:45] Então ele faz um vínculo
[00:50:46] entre as heranças da Revolução Gloriosa
[00:50:48] e o aumento do tráfico,
[00:50:50] e da escravidão
[00:50:52] no Império Inglês.
[00:50:54] Bom, vamos falar algumas coisas
[00:50:56] sobre os dois tratados sobre o governo do Locke.
[00:50:58] Primeiro, eu disse pra vocês
[00:51:01] que o Locke publicou
[00:51:02] os dois tratados sobre o governo
[00:51:04] em 1689 e 1690,
[00:51:06] então logo após a Revolução Gloriosa.
[00:51:09] E o Locke
[00:51:10] tinha esperanças que esse livro,
[00:51:13] quando ele foi publicado, fosse
[00:51:14] suficiente, palavras do Locke,
[00:51:17] para consolidar o trono
[00:51:18] de Guilherme de Orange.
[00:51:20] Para confirmar ele
[00:51:22] no seu título. Então, de fato,
[00:51:25] isso é uma questão importante.
[00:51:26] Nas propostas encaminhadas durante a Revolução Gloriosa,
[00:51:29] há muitas propostas que se
[00:51:30] assemelham, e no processo posterior,
[00:51:32] ao texto de Locke.
[00:51:33] Em 1781,
[00:51:36] Josiah Tucker
[00:51:37] afirmou que era de…
[00:51:40] Em 1781, um século depois,
[00:51:43] que era de amplo conhecimento
[00:51:44] que o tratado de Locke foi escrito
[00:51:46] para justificar a Revolução Gloriosa.
[00:51:48] Então, por muitos anos, Rafinha,
[00:51:50] os dois tratados
[00:51:52] sobre o governo de Locke
[00:51:54] foram lidos
[00:51:55] como uma justificativa,
[00:51:59] uma defesa
[00:51:59] da Revolução Gloriosa.
[00:52:02] E, de fato, o texto é publicado
[00:52:04] no contexto da Revolução Gloriosa,
[00:52:06] e o próprio Locke fez essa relação.
[00:52:09] Porém,
[00:52:11] hoje a gente sabe
[00:52:12] que a maior parte
[00:52:14] dos dois tratados do Locke
[00:52:16] foram escritos antes
[00:52:18] da Revolução Gloriosa.
[00:52:20] Foram escritos naquele período de exílio.
[00:52:23] E saber isso
[00:52:24] torna algumas passagens
[00:52:27] dos dois tratados mais claras,
[00:52:28] porque lá nos dois tratados,
[00:52:30] ele fala de uma revolução a ser promovida,
[00:52:34] ele fala de
[00:52:35] convocar e dissolver o parlamento,
[00:52:37] ele não fala, muitas vezes,
[00:52:39] de uma justificativa de algo que aconteceu,
[00:52:41] mas de algo que vai acontecer.
[00:52:44] Por exemplo, no parágrafo
[00:52:45] 225,
[00:52:46] quando ele se refere a uma longa série
[00:52:48] de abusos e artifícios,
[00:52:50] ele se refere a uma ação de Carlos II,
[00:52:52] e não de Jaime II,
[00:52:53] que foi o rei derrubado na Revolução Gloriosa.
[00:52:56] E é interessante, porque
[00:52:57] a biblioteca de Locke, de 1681,
[00:53:00] tinha quase todos os livros
[00:53:01] mencionados no tratado.
[00:53:03] E muitas anotações sugerem
[00:53:05] que o Locke estava trabalhando,
[00:53:07] ao mesmo tempo, no ensaio sobre
[00:53:09] entendimento humano e nos dois tratados.
[00:53:12] E mais, Rafa,
[00:53:13] nos dois tratados,
[00:53:16] na parte 2,
[00:53:17] o Locke se refere
[00:53:20] ao patriarca de Robert Fulmer.
[00:53:23] E ele se refere
[00:53:24] às edições de 1679,
[00:53:28] e não às edições posteriores,
[00:53:29] o que nos sugere que o segundo tratado
[00:53:31] foi escrito antes do primeiro tratado.
[00:53:35] Primeiro ele escreve o segundo,
[00:53:36] depois o primeiro.
[00:53:37] Até porque na parte 2 ele cita
[00:53:39] a parte 2 na parte 1,
[00:53:43] mas ele não cita a parte 1 na parte 2.
[00:53:45] Entendeu?
[00:53:46] E é interessante,
[00:53:49] porque se a gente
[00:53:49] começar a ver as citações que ele faz,
[00:53:52] quando o Locke fala no
[00:53:53] Rei Jaime, no segundo tratado,
[00:53:56] não parece que ele está falando do Jaime II,
[00:53:57] parece que ele está falando do Jaime I,
[00:53:59] do primeiro James, do primeiro Rei James.
[00:54:02] Então, veja,
[00:54:03] tudo indica, e isso é um estudo que
[00:54:05] Peter Laszlo fez, que o texto é
[00:54:07] escrito antes, o que torna muitas passagens
[00:54:10] mais claras.
[00:54:11] Bom, segunda coisa,
[00:54:14] muitas pessoas entendem Locke
[00:54:16] como um porta-voz
[00:54:17] da burguesia.
[00:54:19] Bom, é verdade
[00:54:22] que a família de Locke
[00:54:24] tinha investimentos prósperos
[00:54:26] na Companhia da África,
[00:54:29] na Companhia Lostring
[00:54:30] e no Banco da Inglaterra.
[00:54:32] Então, por isso que a gente pode dizer que o Locke
[00:54:34] lucrava, sim, com a escravidão.
[00:54:36] Locke investia em hipotecas,
[00:54:38] emprestava dinheiro a juros e especulava
[00:54:40] na antiga e na nova Companhia das Índias Orientais.
[00:54:43] Locke faz várias críticas
[00:54:45] às pessoas que não trabalhavam,
[00:54:47] aos indigentes, a moradores de juros,
[00:54:49] de rua, a ociosos,
[00:54:52] fala que, enfim, os filhos têm que trabalhar
[00:54:53] a partir dos três anos de idade.
[00:54:55] Então, há aspectos do Locke
[00:54:57] que nós podemos perfeitamente
[00:54:59] conectar com a expansão comercial
[00:55:01] inglesa, com a expansão da escravidão
[00:55:04] e isso nós falamos, inclusive na sua
[00:55:05] atuação prática no final da vida.
[00:55:07] Contudo,
[00:55:10] e isso é o Peter Laszlo que
[00:55:11] enfatiza, Locke
[00:55:14] ele aplaude
[00:55:16] a recusa de
[00:55:17] Somers e Guilherme III,
[00:55:19] a política econômica aos comerciantes da Inglaterra.
[00:55:21] Locke tinha desdém pelos advogados
[00:55:23] e, por incrível que pareça,
[00:55:25] por mais contraditório que pareça,
[00:55:27] ele tinha desdém por aqueles que faziam
[00:55:29] da medicina uma profissão.
[00:55:31] Então, ele não parece alguém muito ligado
[00:55:33] às classes médias. Então, se a gente entender
[00:55:35] burguesia como classes médias,
[00:55:37] ele não parece muito favorável,
[00:55:39] entusiasta desse grupo.
[00:55:41] Bom, mas é fato
[00:55:43] que nos surpreende a liberdade
[00:55:45] de Locke face à sua própria família,
[00:55:47] à igreja, à sociedade,
[00:55:49] etc.
[00:55:51] Então, é mais ou menos.
[00:55:53] É mais ou menos.
[00:55:55] Outra questão
[00:55:57] que as pessoas colocam, que é legal
[00:55:59] também. Locke estava
[00:56:01] respondendo Hobbes?
[00:56:03] Porque geralmente a gente vê essa
[00:56:05] contraposição, Locke e Hobbes.
[00:56:07] É verdade
[00:56:09] que Hobbes teve uma grande influência intelectual
[00:56:11] no século XVII, a gente já falou sobre
[00:56:13] isso aqui, e certamente
[00:56:15] algumas passagens de Locke podem ser referências
[00:56:17] a Hobbes. Porém,
[00:56:19] os defensores
[00:56:21] da monarquia Stuart,
[00:56:23] como a gente já viu no nosso programa sobre
[00:56:25] Hobbes, usavam muito mais
[00:56:27] as obras
[00:56:29] de Robert Filmer
[00:56:31] do que as obras de Hobbes.
[00:56:33] Então, por exemplo, quando Locke está
[00:56:35] criticando a questão da propriedade
[00:56:37] e do comunismo primitivo,
[00:56:39] ele está fazendo uma crítica a Robert Filmer,
[00:56:41] não a Hobbes. E, na verdade,
[00:56:43] muitas pessoas, inclusive o próprio
[00:56:45] Isaac Newton, viam Locke como
[00:56:47] um hobbista, ou como um hobbesiano.
[00:56:49] O próprio Leibniz,
[00:56:51] por exemplo, achava que Hobbes e Locke,
[00:56:53] em vez de adversários, estavam no mesmo grupo.
[00:56:55] Enfim,
[00:56:57] há muitas coisas semelhantes.
[00:56:59] Então, vou dar um exemplo
[00:57:01] claro aqui. Então, uma frase do Locke,
[00:57:03] aqui no ensaio sobre entendimento humano.
[00:57:05] No ensaio sobre entendimento humano, Locke diz
[00:57:07] a proposição onde não há propriedade
[00:57:09] e não há injustiça é tão certa
[00:57:11] quanto qualquer demonstração de Euclides.
[00:57:13] Essa é uma frase de Locke
[00:57:15] no ensaio sobre entendimento humano.
[00:57:17] No ensaio de Hobbes, no Leviathan, capítulo 15.
[00:57:19] Onde não há um próprio,
[00:57:21] uma propriedade, não há injustiça.
[00:57:23] Quer dizer, basicamente a mesma frase,
[00:57:25] a mesma ideia. Hobbes e Locke
[00:57:27] tinham muitos elementos em comum
[00:57:29] nas ideias de soberania,
[00:57:31] de submissão,
[00:57:33] de autoridade, etc.
[00:57:35] Bom, recentemente foi publicado um artigo
[00:57:37] na revista da Universidade de Chicago
[00:57:39] de um autor chamado
[00:57:41] Felix Waldman.
[00:57:43] John Locke as a reader of Thomas Hobbes.
[00:57:45] E, nesse texto,
[00:57:47] ele mostra uma documentação nova
[00:57:49] que mostrava que, na verdade,
[00:57:51] Locke estava bem atento ao Hobbes.
[00:57:53] Mais do que a gente imaginava.
[00:57:55] Então, tudo isso para dizer
[00:57:57] que a relação entre Hobbes e Locke
[00:57:59] é uma discussão, é um problema, uma questão.
[00:58:01] Assim como a relação entre Locke
[00:58:03] e a burguesia, Locke
[00:58:05] e a questão econômica,
[00:58:07] são questões interessantes
[00:58:09] para a gente pensar.
[00:58:11] Bom, para resumir e terminar esse segundo bloco,
[00:58:13] vou citar aqui o grande
[00:58:15] Peter Laslett.
[00:58:17] O historiador Peter Laslett diz assim
[00:58:19] Hobbes e Locke estavam
[00:58:21] emaranhados no tecido vivo
[00:58:23] composto pelos incontáveis
[00:58:25] fios e fibras
[00:58:27] que crescem juntos e ligam
[00:58:29] uma geração intelectual
[00:58:31] àquela que a sucede no mesmo país
[00:58:33] numa mesma e pequena sociedade.
[00:58:35] Ou seja, Laslett está dizendo
[00:58:37] que Lobbes e
[00:58:39] Locke
[00:58:41] Corta aí, Gabriel.
[00:58:43] Ou seja,
[00:58:45] Laslett está dizendo
[00:58:47] que Locke e Hobbes
[00:58:49] compartilham de uma série de pressupostos
[00:58:51] e valores
[00:58:53] e questões que são de uma época,
[00:58:55] que são de um grupo amplo
[00:58:57] e que não pertence só aos dois.
[00:58:59] Em história, Rafa,
[00:59:01] a gente tem que tomar cuidado para achar que tudo
[00:59:03] que existiu é tudo que a gente conhece.
[00:59:05] E não, o que a gente conhece
[00:59:07] geralmente é uma parte pequena do que existiu.
[00:59:09] Existiram muito mais coisas
[00:59:11] que estavam acontecendo.
[00:59:13] Nando, eu queria deixar aqui um bônus.
[00:59:15] Para quem está escutando esse episódio.
[00:59:17] Que eu quero uma reação
[00:59:21] um react
[00:59:23] para a gente usar um termo da moda
[00:59:25] aqui ao vivo
[00:59:27] ao vivo não, porque está gravado
[00:59:29] mas completamente espontâneo
[00:59:31] para os nossos ouvintes.
[00:59:33] Eu queria que você desmutasse
[00:59:35] rapidinho
[00:59:37] e
[00:59:39] abrisse o WhatsApp
[00:59:41] e olhasse a capa que eu acabei de fazer
[00:59:43] para esse programa. Mas desmuta porque a gente quer
[00:59:45] escutar a sua reação.
[00:59:49] Eu achei
[00:59:51] muito bom, cara. Eu acho que
[00:59:53] essa capa aqui vai fazer esse programa
[00:59:55] ser um dos mais escutados de todos os tempos.
[00:59:57] Acho ótimo então.
[00:59:59] Então vamos para o terceiro
[01:00:01] e último bloco do programa de hoje.
[01:00:03] Falar um pouco mais a fundo sobre os dois
[01:00:05] tratados sobre o governo. Falar, discutir
[01:00:07] na verdade, a teoria social
[01:00:09] e a teoria política presente nos tratados.
[01:00:15] Bom, então
[01:00:21] vamos agora à parte que eu acho que
[01:00:23] muita gente deve estar
[01:00:25] pensando, deve estar
[01:00:27] querendo mais nesse episódio, que é pensar um pouco
[01:00:29] as ideias de Locke mesmo
[01:00:31] nos dois tratados sobre o governo e pensar
[01:00:33] o que ele diz, quais são
[01:00:35] seus posicionamentos. E claro,
[01:00:37] vou falar aqui a mesma coisa que eu disse sobre Hobbes.
[01:00:39] O Locke é um pensador altamente complexo.
[01:00:41] Há muitos especialistas
[01:00:43] no mundo em Locke. Então,
[01:00:45] eu estou aqui me alinhando
[01:00:47] a determinadas leituras, a determinadas
[01:00:49] interpretações, que obviamente não são
[01:00:51] a palavra final.
[01:00:53] Não são
[01:00:55] a verdade absoluta sobre esse tema
[01:00:57] e sobre essa questão. Bom,
[01:00:59] dito isso, vamos lá.
[01:01:01] Qual que é o objetivo
[01:01:03] dos dois tratados
[01:01:05] sobre o governo de Locke?
[01:01:07] Afirmar
[01:01:09] um direito de resistência
[01:01:11] à autoridade injusta.
[01:01:13] É isso.
[01:01:15] Esse é o grande objetivo. Quer dizer, um direito
[01:01:17] em última instância de revolução.
[01:01:19] Direito de resistência à autoridade.
[01:01:21] Então, esse é o objetivo. Mostrar
[01:01:23] que a gente tem o direito de resistir
[01:01:25] à autoridade injusta.
[01:01:27] Para isso,
[01:01:29] três teorias são fundamentais.
[01:01:31] Então, para que o Locke
[01:01:33] consiga desenvolver essa
[01:01:35] questão, três teorias
[01:01:37] são fundamentais. Primeiro,
[01:01:39] o que torna os governos
[01:01:41] legítimos, que é a teoria
[01:01:43] do consentimento. Segundo,
[01:01:45] como os súditos e governantes
[01:01:47] devem pensar as suas relações,
[01:01:49] que é a teoria da confiança. E terceiro,
[01:01:51] como os seres humanos
[01:01:53] podem possuir bens,
[01:01:55] que é a teoria da propriedade.
[01:01:57] Então, para desenvolver
[01:01:59] a sua tese fundamental,
[01:02:01] Locke se desdobra em três teses.
[01:02:03] A teoria do consentimento,
[01:02:05] a teoria da confiança e a teoria da propriedade.
[01:02:07] E tudo isso é pensado,
[01:02:09] é escrito, no contexto da
[01:02:11] política inglesa, da doutrina
[01:02:13] constitucional da Inglaterra e
[01:02:15] das pretensões da monarquia absoluta,
[01:02:17] e principalmente contra o direito divino,
[01:02:19] a ideia de que o poder do rei
[01:02:21] vem de Deus, e o direito patriarcal,
[01:02:23] a ideia de que o poder real é
[01:02:25] uma espécie de poder paterno.
[01:02:27] E isso daria legitimidade a ele.
[01:02:29] Então, nesse contexto,
[01:02:31] querendo responder a essas coisas,
[01:02:33] ele articula essas teorias.
[01:02:35] Então, vamos entender como é que
[01:02:37] o Locke faz isso.
[01:02:39] Para Locke, nós somos
[01:02:41] livres uns dos outros,
[01:02:43] somos
[01:02:45] iguais uns aos outros,
[01:02:47] mas
[01:02:49] não estamos livres de Deus,
[01:02:51] tampouco somos
[01:02:53] iguais a Deus.
[01:02:55] Por isso, a gente não pode se suicidar.
[01:02:57] Por isso, a gente não pode
[01:02:59] renunciar livremente à nossa liberdade,
[01:03:01] porque, em última instância,
[01:03:03] pertencemos a Deus.
[01:03:05] Então, não há, na natureza,
[01:03:07] ou nas escrituras, ou na Bíblia,
[01:03:09] provas de que Deus
[01:03:11] criou alguém superior a outro alguém.
[01:03:13] Então, o direito divino, ele é
[01:03:15] descartado por Locke por falta de provas.
[01:03:17] Nada na natureza e nada nas escrituras
[01:03:19] legitima o direito divino.
[01:03:21] As leis da natureza,
[01:03:23] diz Locke,
[01:03:25] são expressão da vontade de Deus.
[01:03:27] Então, elas estabelecem
[01:03:29] os limites da liberdade natural.
[01:03:31] Há, por sua vez, a liberdade
[01:03:33] sem nenhuma restrição,
[01:03:35] ela é
[01:03:37] meaningless, ela não tem significado.
[01:03:39] A liberdade sem restrição,
[01:03:41] ela é autocontraditória,
[01:03:43] então, tudo que eu quisesse,
[01:03:45] eu ia acabar destruindo a própria liberdade.
[01:03:47] Então, a liberdade absoluta,
[01:03:49] ela é a destruição da própria liberdade.
[01:03:51] Então, a liberdade irrestrita e absoluta,
[01:03:53] ela é autocontraditória.
[01:03:55] Por isso que o Locke pensa que onde não há lei,
[01:03:57] não há liberdade. Na natureza é assim,
[01:03:59] na natureza há restrições.
[01:04:01] A gente consegue fazer tudo.
[01:04:03] A liberdade ilimitada
[01:04:05] consiste em jogar os homens
[01:04:07] entre brutos.
[01:04:09] Bom, quando o Locke fala em igualdade,
[01:04:11] eu sei que algumas pessoas aí já estão pensando
[01:04:13] na questão da escravidão. A gente vai chegar lá,
[01:04:15] só vamos seguir o raciocínio de Locke
[01:04:17] e a gente vai pensar essa questão.
[01:04:19] Bom, o que que Locke entende
[01:04:21] por razão? Locke diz
[01:04:23] nos tratados assim,
[01:04:25] nascemos livres,
[01:04:27] assim como nascemos
[01:04:29] racionais.
[01:04:31] E a liberdade está
[01:04:33] fundamentada na posse
[01:04:35] da razão. É isso que nos tornaria
[01:04:37] diferentes dos seres irracionais.
[01:04:39] Então, a razão,
[01:04:41] diz Locke, é o vínculo,
[01:04:43] a partir do qual o gênero humano
[01:04:45] se torna uma sociedade, a partir do qual
[01:04:47] o gênero humano se irmana.
[01:04:49] Então, é assim que Locke justifica,
[01:04:51] por exemplo, porque que os filhos
[01:04:53] devem ser subordinados aos pais.
[01:04:55] Porque, embora os filhos venham
[01:04:57] a este mundo destinados à plena
[01:04:59] igualdade, as crianças
[01:05:01] não nascem com a plena
[01:05:03] posse da razão. E é por isso que as crianças
[01:05:05] estão subordinadas aos pais.
[01:05:07] Assim como os pais estão subordinados
[01:05:09] a Deus e às leis de Deus.
[01:05:11] Portanto, qualquer
[01:05:13] homem que negar que
[01:05:15] o outro homem, claro que estou usando
[01:05:17] homem aqui porque é o termo que aparece, mas qualquer
[01:05:19] ser humano que negar que o outro
[01:05:21] ser humano é tão livre
[01:05:23] e igual quanto ele,
[01:05:25] está submetendo o outro ser humano
[01:05:27] à sua vontade. Está recusando
[01:05:29] a reconhecer a humanidade
[01:05:31] do outro ser humano por meio da sua razão.
[01:05:33] Então, ao fazer
[01:05:35] isso, esse ser humano torna-se
[01:05:37] passível de ser destruído pela pessoa prejudicada
[01:05:39] e pelo resto da humanidade.
[01:05:41] Então, não pode
[01:05:43] haver
[01:05:45] nenhuma forma
[01:05:47] arbitrária de poder
[01:05:49] de um homem sobre outro homem.
[01:05:51] Nada disso se justifica
[01:05:53] pela natureza ou pela Bíblia.
[01:05:55] Na natureza,
[01:05:57] então vamos à questão do estado de natureza,
[01:05:59] na natureza
[01:06:01] estamos todos em perfeita liberdade.
[01:06:03] Na natureza, somos iguais
[01:06:05] uns aos outros, capazes
[01:06:07] de um comportamento racional.
[01:06:09] Portanto, na natureza, somos
[01:06:11] capazes de compreender e
[01:06:13] colaborar uns com os outros. É assim
[01:06:15] que nascemos. E aí, diz Locke,
[01:06:17] no princípio, o mundo todo
[01:06:19] era América.
[01:06:21] Frase importante. Na natureza,
[01:06:23] todos têm o direito
[01:06:25] de punir as pessoas que
[01:06:27] ferem a lei da natureza e reclamar
[01:06:29] uma retribuição em nome próprio
[01:06:31] e também em nome da razão
[01:06:33] e da equidade comum fixada por Deus.
[01:06:35] Então, esse poder coletivo
[01:06:37] contra os ofensores
[01:06:39] é parte da própria humanidade.
[01:06:41] E aí,
[01:06:43] vem uma frase famosa de Locke, uma outra
[01:06:45] passagem importante. Diz Locke,
[01:06:47] na natureza, cada um
[01:06:49] detém o poder executivo
[01:06:51] da lei da natureza.
[01:06:53] Então, o poder executivo está nas mãos
[01:06:55] de cada um na natureza. Então,
[01:06:57] o que é o estado de natureza?
[01:06:59] É uma condição na qual
[01:07:01] o poder executivo
[01:07:03] da lei está nas mãos
[01:07:05] dos indivíduos. Então,
[01:07:07] para falar de maneira mais simples, sou eu
[01:07:09] que vou garantir com as minhas próprias mãos
[01:07:11] a execução da lei,
[01:07:13] do certo e do errado, da justiça.
[01:07:15] Então, esse poder
[01:07:17] natural que nós temos uns
[01:07:19] sobre os outros na natureza
[01:07:21] é o que vai tornar possível
[01:07:23] criar o governo depois.
[01:07:25] Porque é esse poder que a gente vai renunciar.
[01:07:27] Justamente, o governo
[01:07:29] vai ser definido por Locke como o direito
[01:07:31] comum de punir que é depositado
[01:07:33] em suas mãos. Então, perceba,
[01:07:35] Rafa, que o estado de natureza
[01:07:37] em Locke, ele já é em algum
[01:07:39] uma medida social e político.
[01:07:41] Ele já tem um elemento social e político.
[01:07:43] Então, para mencionar aqui
[01:07:45] o John Donne, se em Hobbes
[01:07:47] o estado de natureza
[01:07:49] é um retrato
[01:07:51] de como os homens agiriam
[01:07:53] se não estivessem submetidos à autoridade política,
[01:07:55] em Locke,
[01:07:57] o estado de natureza é a condição
[01:07:59] na qual Deus põe
[01:08:01] todos os homens no mundo. Então, essa é a diferença
[01:08:03] entre o estado de natureza em Hobbes
[01:08:05] e Locke.
[01:08:07] Em Locke, o estado de natureza é a condição
[01:08:09] na qual Deus põe todos os homens no mundo
[01:08:11] para mostrar não como os homens
[01:08:13] são, mas que direitos
[01:08:15] e deveres eles possuem
[01:08:17] enquanto criaturas de Deus.
[01:08:19] Então, perceba que
[01:08:21] em Locke, em Hobbes e também em Rousseau,
[01:08:23] o estado de natureza não é um momento
[01:08:25] histórico.
[01:08:27] De novo, vou repetir isso que eu falei no nosso último programa.
[01:08:29] É um erro achar que quando
[01:08:31] esses autores falam em estado de natureza, eles estão falando
[01:08:33] num momento específico do passado. Não se trata disso.
[01:08:35] Não se trata em absoluto de história.
[01:08:37] Se trata de uma condição
[01:08:39] no caso de Locke.
[01:08:41] Bom, a lei natural
[01:08:43] ela é ao mesmo tempo
[01:08:45] um mandamento de Deus,
[01:08:47] uma norma da razão, e uma lei
[01:08:49] presente na própria natureza das coisas,
[01:08:51] por assim dizer.
[01:08:53] Então, também é um pressuposto
[01:08:55] para Locke
[01:08:57] a existência objetiva
[01:08:59] das leis naturais. Quer dizer,
[01:09:01] qualquer criatura humana,
[01:09:03] tendo razão, consegue entender
[01:09:05] as leis naturais.
[01:09:07] Então,
[01:09:09] conseguem entender
[01:09:11] as leis naturais. E a propriedade?
[01:09:13] Não se fala aqui em Locke
[01:09:15] eu falei da liberdade,
[01:09:17] falei da razão, falei da igualdade,
[01:09:19] mas não falei da propriedade.
[01:09:21] Quando Locke escreve sobre propriedade,
[01:09:23] Locke está inserido
[01:09:25] num debate bem específico.
[01:09:27] Então, um autor
[01:09:29] ao qual Locke está respondendo, chamado
[01:09:31] Hugo Grócio,
[01:09:33] dizia que, na natureza,
[01:09:35] todos tinham
[01:09:37] direito à propriedade.
[01:09:39] Todos tinham direito à natureza.
[01:09:41] E a propriedade privada
[01:09:43] surge mediante um acordo. Isso a gente chama
[01:09:45] de comunismo original positivo.
[01:09:47] Quer dizer, no princípio dos tempos,
[01:09:49] a natureza era a propriedade de todos.
[01:09:51] O Robert Fulmer,
[01:09:53] outro autor ao qual Locke
[01:09:55] está respondendo,
[01:09:57] diz que a propriedade vem de Deus,
[01:09:59] que inclui
[01:10:01] a própria relação dos súditos e a coroa.
[01:10:03] Quer dizer, os súditos são propriedade também da coroa.
[01:10:05] E Robert Fulmer diz
[01:10:07] que a propriedade vem de Deus e que isso é importante
[01:10:09] porque, se a propriedade fosse uma criação humana,
[01:10:13] portanto, ela poderia ser
[01:10:15] refeita, revista ou até mesmo
[01:10:17] findada. Então, veja,
[01:10:19] o Locke tem que responder
[01:10:21] a Hugo Grócio
[01:10:23] e tem que dizer, ó, não,
[01:10:25] a propriedade não é,
[01:10:27] ela não surge a partir de um pacto, como diz
[01:10:29] Hugo Grócio, porque se a propriedade
[01:10:31] surge a partir de um pacto,
[01:10:33] quer dizer que a gente pode refazer esse pacto.
[01:10:35] Então o Locke quer
[01:10:37] responder ao Grócio nesse sentido. Mas o Locke
[01:10:39] também quer responder ao Fulmer e dizer
[01:10:41] que a propriedade não vem de Deus. Mas aí criamos um problema.
[01:10:43] Como é que o Locke
[01:10:45] vai defender que a propriedade é uma criação
[01:10:47] humana
[01:10:49] e não divina,
[01:10:51] e ao mesmo tempo ele vai defender que a propriedade
[01:10:53] é um direito privado, ou seja,
[01:10:55] um direito que dispensa um pacto?
[01:10:57] Como é que o Locke vai articular isso?
[01:10:59] E é aí que vai vir
[01:11:01] a questão do trabalho.
[01:11:03] Para Locke,
[01:11:05] Deus
[01:11:07] concedeu o mundo aos homens,
[01:11:09] mas Deus, diz Locke,
[01:11:11] ordenou
[01:11:13] que os homens usem o mundo
[01:11:15] por meio dos seus esforços.
[01:11:17] Então, Deus,
[01:11:19] ao dar o mundo em comum aos homens,
[01:11:21] ordenou-lhes também que trabalhem.
[01:11:23] Nada foi feito por Deus,
[01:11:25] diz Locke, para que o homem
[01:11:27] desperdice ou destrua. Então você entende,
[01:11:29] Rafa, o vínculo que o Locke faz
[01:11:31] entre propriedade
[01:11:33] e trabalho era uma maneira
[01:11:35] de, ao mesmo tempo, dizer que a propriedade
[01:11:37] não é uma criação de Deus,
[01:11:39] quer dizer, que Deus não criou a propriedade
[01:11:41] e, portanto, não tornou
[01:11:43] os súditos proprietários da coroa,
[01:11:45] mas também
[01:11:47] não dizer que a propriedade surge por um acordo,
[01:11:49] e que no começo todos eram
[01:11:51] proprietários e veio um acordo e tal.
[01:11:55] A questão é essa.
[01:11:57] A inserção do tema do trabalho
[01:11:59] e do esforço vem para resolver isso.
[01:12:01] Bom, há um intérprete
[01:12:03] de Locke,
[01:12:05] do qual eu mencionei inclusive no
[01:12:07] programa passado, porque ele também escreve
[01:12:09] sobre Hobbes, que é um autor
[01:12:11] canadense chamado Crawford Macpherson.
[01:12:13] E o Macpherson diz que o estado de natureza
[01:12:15] em Locke, ele possui duas fases,
[01:12:17] duas etapas,
[01:12:19] dois estágios. Uma primeira
[01:12:21] fase antes da criação da moeda
[01:12:23] e uma segunda fase
[01:12:25] depois da criação da moeda.
[01:12:27] Então, bom, no princípio
[01:12:29] dos tempos,
[01:12:31] segundo Locke, haveria um
[01:12:33] comunismo primitivo, quer dizer, não há propriedade.
[01:12:35] As pessoas
[01:12:37] que são especialistas em Locke
[01:12:39] debatem se o comunismo primitivo
[01:12:41] em Locke era negativo
[01:12:43] ou positivo. Ou como assim, negativo,
[01:12:45] ninguém era proprietário de nada. Ou positivo,
[01:12:47] todos eram proprietários de tudo.
[01:12:49] Não sei se você lembra, Rafa, durante a minha
[01:12:51] tese de doutorado,
[01:12:53] na minha defesa de tese,
[01:12:55] o professor Cícero Romão Araújo, da Ciência Política
[01:12:57] da USP, colocou essa questão,
[01:12:59] discordando de mim, inclusive da leitura que eu fazia
[01:13:01] lá de Locke. Bom, no
[01:13:03] princípio dos tempos, seja como for,
[01:13:05] os bens da natureza eram comuns.
[01:13:07] Bom,
[01:13:09] e aí, vem aquilo
[01:13:11] que o Locke, o termo que o Locke usa
[01:13:13] é o termo labor mixing.
[01:13:15] Quer dizer, tudo
[01:13:17] era comum a todos, ou não era
[01:13:19] comum a ninguém, não havia propriedade
[01:13:21] privada na natureza.
[01:13:23] Até que o homem tem que trabalhar
[01:13:25] nessa natureza. Então diz Locke,
[01:13:27] tudo quanto o homem
[01:13:29] retire do estado em que a natureza o proveu
[01:13:31] e mistura com o seu
[01:13:33] trabalho, se transforma
[01:13:35] em sua propriedade.
[01:13:37] Então, o trabalho é o elemento
[01:13:39] de distinção. O trabalho
[01:13:41] aumenta a produtividade em relação
[01:13:43] à terra inculta, por isso que há
[01:13:45] em Locke, inclusive, o vínculo entre
[01:13:47] propriedade e abundância.
[01:13:49] É aquela frase famosa, que
[01:13:51] depois o Adam Smith vai retomar,
[01:13:53] que o Locke diz assim, um rei
[01:13:55] de um território grande e fértil na América
[01:13:57] se alimenta,
[01:13:59] mora e veste-se pior
[01:14:01] que um trabalhador na Inglaterra.
[01:14:03] Quer dizer, para ele a propriedade
[01:14:05] por estar vinculada
[01:14:07] ao trabalho, implica
[01:14:09] no aumento da produtividade.
[01:14:11] É o trabalho, diz Locke,
[01:14:13] que estabelece a diferença
[01:14:15] do valor de cada coisa.
[01:14:17] Isso que está no parágrafo 40
[01:14:19] do segundo
[01:14:21] tratado, é uma das passagens mais
[01:14:23] importantes da história do pensamento humano,
[01:14:25] porque ele está dizendo que o trabalho
[01:14:27] cria valor.
[01:14:29] Mas o que o Locke quer
[01:14:31] com isso, é mostrar que
[01:14:33] a propriedade não se origina do consentimento,
[01:14:35] não se origina
[01:14:37] da permissão, e não se origina
[01:14:39] de Deus, como diziam os outros teóricos,
[01:14:41] como Grócio, Robert Filmer.
[01:14:43] Assim, isso significa
[01:14:45] que o monarca não pode
[01:14:47] fazer o que ele quiser com os súditos.
[01:14:49] E o monarca não pode fazer o que ele quiser
[01:14:51] com a propriedade dos súditos.
[01:14:53] Então, o vínculo entre propriedade
[01:14:55] e trabalho, em Locke,
[01:14:57] é uma maneira de tentar defender
[01:14:59] a propriedade contra a arbitrariedade
[01:15:01] dos monarcas.
[01:15:03] Então, isso é muito importante.
[01:15:05] Embora no parágrafo 90
[01:15:07] do primeiro tratado, o Locke
[01:15:09] diga que
[01:15:11] indivíduos sem herdeiros, a propriedade volta
[01:15:13] para a comunidade.
[01:15:15] Em 1667, o Locke
[01:15:17] chegou a escrever que, para manter a justiça,
[01:15:19] é possível que haja transferências de propriedade.
[01:15:21] Bom, a questão é
[01:15:23] tudo isso, segundo
[01:15:25] Macpherson, que eu estou falando aqui,
[01:15:27] seria na primeira fase
[01:15:29] do estado de natureza.
[01:15:31] A segunda fase
[01:15:33] é quando a moeda é criada.
[01:15:35] Essa primeira fase é pré-monetária.
[01:15:37] Bom, acontece que
[01:15:39] a gente vai produzindo, produzindo, produzindo
[01:15:41] e a gente produz mais coisas
[01:15:43] do que a gente precisa. Então, o Rafa tem uma plantação
[01:15:45] de alface. Ele pode comer
[01:15:47] três alfaces por dia, mas ele não consegue
[01:15:49] comer quatro. O que ele
[01:15:51] faz com o quarto alface?
[01:15:53] Ele troca por outros produtos.
[01:15:55] Então, ele troca o quarto alface por um
[01:15:57] chocolate. E aí,
[01:15:59] no dia, ele come três alfaces e um
[01:16:01] chocolate. Aí, o Rafa
[01:16:03] aumenta a produtividade da sua terra
[01:16:05] e aí o Rafa produz
[01:16:07] oito alfaces.
[01:16:09] Mas o Rafa não aguenta comer quatro
[01:16:11] alfaces e quatro chocolates.
[01:16:13] Então, o último
[01:16:15] alface, em vez do Rafa trocar
[01:16:17] por um chocolate,
[01:16:19] ele troca por um produto
[01:16:21] imperecível,
[01:16:23] tipo um pedaço de um
[01:16:25] metal, que
[01:16:27] no futuro ele possa trocar por algo imperecível.
[01:16:29] Então, o dinheiro
[01:16:31] surge em decorrência
[01:16:33] da produtividade
[01:16:35] e de uma forma importante
[01:16:37] para evitar o desperdício. O dinheiro tem uma
[01:16:39] qualidade ética, na medida em que
[01:16:41] sem o dinheiro, a gente desperdiçaria
[01:16:43] coisas. Então, a acumulação
[01:16:45] de dinheiro significa
[01:16:47] uma maior circulação de produtos,
[01:16:49] que aquele alface está circulando
[01:16:51] e o Rafa pega esse imperecível,
[01:16:53] esse elemento imperecível,
[01:16:55] que é o dinheiro. Então, a acumulação
[01:16:57] não representa em si
[01:16:59] um mal.
[01:17:01] Embora o Locke, em vários momentos, reconheça
[01:17:03] a fragilidade moral
[01:17:05] que o dinheiro pode engendrar.
[01:17:07] A questão é,
[01:17:09] o dinheiro-propriedade, então a conversão da propriedade
[01:17:11] em dinheiro, diferentemente
[01:17:13] da conversão do trabalho em propriedade,
[01:17:15] ela ainda
[01:17:17] está no
[01:17:19] estado de natureza. Ela ainda não
[01:17:21] depende da legislação para existir.
[01:17:23] Mesmo assim,
[01:17:25] é importante dizer que, a partir
[01:17:27] do momento em que a moeda
[01:17:29] nos permite representar
[01:17:31] e conservar quantidades de trabalho,
[01:17:33] isso significa
[01:17:35] que o proprietário legítimo
[01:17:37] já não é necessariamente
[01:17:39] mais o trabalhador. Ou seja, Rafa,
[01:17:41] sempre que eu dou aula disso, sempre os
[01:17:43] alunos falam assim, ai professor,
[01:17:45] se para Locke a propriedade
[01:17:47] vem do trabalho, então Locke
[01:17:49] não deveria ser um comunista,
[01:17:51] porque é o trabalho que é propriedade,
[01:17:53] então o trabalhador que tudo produz,
[01:17:55] a ele tudo pertence. E a resposta é não.
[01:17:57] Porque, com a
[01:17:59] criação do dinheiro, a propriedade
[01:18:01] passa a se destacar
[01:18:03] do trabalho. E o Locke
[01:18:05] diz isso com muita clareza. No parágrafo
[01:18:07] 51, Locke diz assim,
[01:18:09] o trabalho, no princípio,
[01:18:11] dá início à propriedade.
[01:18:13] Está lá no parágrafo 51, o
[01:18:15] segundo tratado. É no princípio
[01:18:17] que o trabalho dá início à propriedade,
[01:18:19] e não sempre. A partir do momento
[01:18:21] em que o dinheiro é inserido,
[01:18:23] eu posso usar esse dinheiro para
[01:18:25] comprar o trabalho dos outros.
[01:18:27] Então, olha o que diz o Locke no parágrafo 28,
[01:18:29] a grama que meu
[01:18:31] cavalo pastou,
[01:18:33] a relva que o meu criado cortou,
[01:18:35] o minério que eu extraí
[01:18:37] em algum lugar, são minha
[01:18:39] propriedade, sem a permissão
[01:18:41] ou consentimento de qualquer outra
[01:18:43] pessoa. Então, a propriedade não vem de
[01:18:45] Deus, a propriedade não
[01:18:47] necessita do consentimento de um monarca,
[01:18:49] mas,
[01:18:51] o trabalho do empregado que o patrão
[01:18:53] comprou, é trabalho do patrão.
[01:18:55] Na verdade,
[01:18:57] quando, e é legal isso,
[01:18:59] Rafa, quando Locke fala do trabalho do empregado,
[01:19:01] ele não usa o termo trabalho, ele usa o termo
[01:19:03] serviço.
[01:19:05] Porque o trabalho, na verdade, é daquele
[01:19:07] que comprou o trabalho.
[01:19:09] No parágrafo 130 do
[01:19:11] primeiro tratado, Locke
[01:19:13] diz assim, ele
[01:19:15] fala em transmissão a partir de Abraão,
[01:19:17] pois o direito ao poder que
[01:19:19] cabe ao amo, em ambos os casos,
[01:19:21] quer sobre os escravos ou sobre os
[01:19:23] cavalos, decorre
[01:19:25] tão somente da compra.
[01:19:27] Então,
[01:19:29] fica claro porque
[01:19:31] como a escravidão
[01:19:33] e não só a escravidão,
[01:19:35] mas o trabalho assalariado,
[01:19:37] é incorporado
[01:19:39] no pensamento de Locke. Fica muito claro
[01:19:41] se você leu o texto com atenção. Então,
[01:19:43] no parágrafo 148, ele diz
[01:19:45] que valor daria um homem a 10 ou 100 mil
[01:19:47] acres de terra excelente, bem cultivada
[01:19:49] e bem proibida de gado,
[01:19:51] no meio das regiões interiores da América,
[01:19:53] onde não tivesse esperanças
[01:19:55] de comércio com outras partes
[01:19:57] do mundo que lhe trouxesse de
[01:19:59] dinheiro pela venda do produto.
[01:20:01] Está no parágrafo 148.
[01:20:03] Ficou claro, Rafa,
[01:20:05] a maneira como a questão
[01:20:07] do trabalho e da escravidão se articulam,
[01:20:09] para entender porque Locke
[01:20:11] não é o comunista.
[01:20:13] Bom,
[01:20:15] dito isso,
[01:20:17] sobre o estado de natureza em Locke,
[01:20:19] como é que a gente sai da natureza
[01:20:21] e entra
[01:20:23] na sociedade civil?
[01:20:25] Bom, o estado de natureza para Locke
[01:20:27] tem inconvenientes.
[01:20:29] No estado de natureza,
[01:20:31] cada homem é juiz
[01:20:33] de sua própria causa.
[01:20:35] Então, se eu tentar tomar a propriedade do Rafinha,
[01:20:37] o Rafinha é que vai ter que proteger a propriedade dele
[01:20:39] e depois julgar
[01:20:41] se o que eu fiz é certo ou errado.
[01:20:43] Cada homem é juiz em sua própria causa.
[01:20:45] Mas veja,
[01:20:47] isso cria problemas.
[01:20:49] Eu, como um grande lutador de jiu-jitsu,
[01:20:51] consigo vencer o Rafinha.
[01:20:53] Em vários momentos.
[01:20:55] Quer dizer,
[01:20:57] há inconvenientes.
[01:20:59] Então, na falta de um juízo autorizado,
[01:21:01] não é fácil
[01:21:03] convencer os homens do equívoco
[01:21:05] na sua interpretação sobre a lei da natureza.
[01:21:07] Quer dizer, não havendo um juiz da natureza,
[01:21:09] autorizado, como é que a gente vai saber
[01:21:11] quem está certo ou errado? Cada um está defendendo o seu.
[01:21:13] Então, na natureza,
[01:21:15] para Locke, a guerra não é um estado,
[01:21:17] como em Hobbes.
[01:21:19] A guerra é um incidente.
[01:21:21] Mas, evidentemente, na natureza,
[01:21:23] a guerra é mais frequente.
[01:21:25] Porque os homens criam a sociedade política.
[01:21:27] O maior
[01:21:29] e principal fim
[01:21:31] da união dos homens em sociedades políticas
[01:21:33] e da submissão desses homens a um governo
[01:21:35] é a conservação
[01:21:37] de sua propriedade.
[01:21:39] Mas atenção!
[01:21:41] Quando Locke usa a palavra propriedade no texto,
[01:21:43] às vezes ele usa a palavra propriedade
[01:21:45] como significando
[01:21:47] a propriedade da terra,
[01:21:49] dos minérios, etc.
[01:21:51] Mas, em boa parte das vezes,
[01:21:53] quando ele fala propriedade,
[01:21:55] ele fala propriedade da minha liberdade
[01:21:57] e também propriedade dos meus bens.
[01:21:59] A propriedade no sentido mais amplo.
[01:22:01] Então, a propriedade
[01:22:03] nos ajuda
[01:22:05] a concebermos a nós próprios
[01:22:07] como distintos e separados do mundo.
[01:22:09] Quer dizer, por meio da ideia de propriedade,
[01:22:11] os homens passam do mundo abstrato
[01:22:13] da liberdade e da igualdade
[01:22:15] para o mundo concreto da liberdade política.
[01:22:17] Então,
[01:22:19] em outros termos,
[01:22:21] por que a gente passa da natureza
[01:22:23] para o estado de sociedade?
[01:22:25] Porque a natureza é a inconveniência
[01:22:27] de termos de proteger
[01:22:29] a nossa própria propriedade
[01:22:31] e aí, no sentido mais amplo de propriedade,
[01:22:33] propriedade da vida e tal,
[01:22:35] aliada aos riscos de agressão externa
[01:22:37] e ao fato de sermos juízes
[01:22:39] em nossas próprias causas,
[01:22:41] o que engendra, evidentemente, injustiças.
[01:22:43] Então, diz Locke,
[01:22:45] Deus certamente
[01:22:47] designou o governo
[01:22:49] para conter a parcialidade
[01:22:51] e a violência dos homens.
[01:22:53] Então, o surgimento da sociedade civil
[01:22:55] por necessidade e conveniência
[01:22:57] acontece quando
[01:22:59] todos os indivíduos
[01:23:01] transferem para a sociedade
[01:23:03] ou para o corpo coletivo
[01:23:05] o seu poder individual
[01:23:07] de exercer a lei da natureza
[01:23:09] e proteger a sua própria propriedade.
[01:23:11] Então é uma escolha, uma escolha fundamental
[01:23:13] nos termos de Locke.
[01:23:15] Um número qualquer de homens pode fazê-lo.
[01:23:17] Então, sendo
[01:23:19] racional,
[01:23:21] a sociedade, portanto, não é uma derivação
[01:23:23] da família, a sociedade não é uma derivação
[01:23:25] do poder do pai.
[01:23:27] O poder civil não vem de Deus
[01:23:29] diretamente, não é uma designação de Deus,
[01:23:31] não vem diretamente da família.
[01:23:33] O poder civil deriva
[01:23:35] do consentimento.
[01:23:37] O termo que Locke usa é
[01:23:39] trust. O poder civil
[01:23:41] vem do trust, o consentimento
[01:23:43] tácito
[01:23:45] ou explícito.
[01:23:47] Então, o que isso significa,
[01:23:49] Rafa? Quando a gente cria
[01:23:51] a sociedade civil e o governo,
[01:23:53] tudo que a gente abdica
[01:23:55] é do nosso poder sobre os outros
[01:23:57] e nunca do nosso poder sobre nós mesmos.
[01:23:59] Ô Dani, deixa eu te fazer
[01:24:01] uma pergunta aqui, vou fazer um momento
[01:24:03] fogueira, repetir
[01:24:05] o momento fogueira do programa passado,
[01:24:07] mas sem ser uma polêmica
[01:24:09] atual. Por que que
[01:24:11] esse debate sobre o estado de natureza e o estado de
[01:24:13] sociedade, ele aparece
[01:24:15] de forma tão frequente
[01:24:17] nas obras, assim?
[01:24:19] Dentro desse contexto,
[01:24:21] obviamente, né? Qual é
[01:24:23] a…
[01:24:25] Se você souber explicar, é lógico, né?
[01:24:27] Da onde que vem esse
[01:24:29] interesse, ou se esse
[01:24:31] interesse, de fato, tá ligado a alguma coisa?
[01:24:33] Não, Rafa. Há uma
[01:24:35] grande tradição nas universidades,
[01:24:37] na filosofia política,
[01:24:39] de pensar o direito
[01:24:41] a partir da ideia do direito natural.
[01:24:43] Então, se a gente fosse fazer uma
[01:24:45] história disso, a gente voltaria, por exemplo,
[01:24:47] a São Tomás de Aquino.
[01:24:49] Ou até mesmo antes, quando São Tomás de Aquino
[01:24:51] fala do direito natural, da lei natural,
[01:24:53] você tem esse debate ali na segunda
[01:24:55] escolástica espanhola,
[01:24:57] e aí você tem os
[01:24:59] ingleses pensando esse direito, que é uma das
[01:25:01] grandes originalidades aqui, que é pensar
[01:25:03] esse direito natural a partir do indivíduo,
[01:25:05] e não a partir de corpos
[01:25:07] coletivos ou de deus.
[01:25:09] Então, o Locke,
[01:25:11] quando fala em estado de natureza
[01:25:13] e direito natural,
[01:25:15] ele tá inserido num debate que é
[01:25:17] muito amplo e voltaria, pelo menos,
[01:25:19] abaixo da de médias. Mas se a gente quiser, também,
[01:25:21] a gente pode voltar aos romanos, etc.
[01:25:23] Mas eu pensaria a escolástica
[01:25:25] ali como um momento fundamental em que se coloca
[01:25:27] o problema do direito natural, que vai ser
[01:25:29] encarado pelos escolásticos espanhóis,
[01:25:31] sobre os quais a gente pode fazer um programa
[01:25:33] aí um dia, chamar Raquel
[01:25:35] St. Williams pra fazer,
[01:25:37] ou o Zeron,
[01:25:39] os protestantes ingleses, enfim,
[01:25:41] depois. Então é nesse sentido, Rafa.
[01:25:43] Tá dentro de uma longa
[01:25:45] tradição de discussão.
[01:25:47] E é interessante, nas sessões
[01:25:49] 120, 121 e 122
[01:25:51] dos tratados,
[01:25:53] o Locke diz
[01:25:55] que a preservação da propriedade
[01:25:57] privada, que propriedade mesmo no sentido
[01:25:59] dos bens, né, terra, etc.,
[01:26:01] é tão ligada ao surgimento
[01:26:03] dos governos
[01:26:05] que caso um homem que entrou
[01:26:07] numa comunidade política
[01:26:09] se retire dela, ele é
[01:26:11] obrigado a deixar
[01:26:13] a sociedade civil a sua propriedade.
[01:26:15] E isso difere bastante o
[01:26:17] Locke dos liberais de hoje, né?
[01:26:19] Pra um liberal de hoje,
[01:26:21] se eu tenho uma propriedade aqui no Brasil
[01:26:23] e eu me mudo pros Estados Unidos,
[01:26:25] eu não perco a minha propriedade.
[01:26:27] Ela continua minha, eu posso continuar
[01:26:29] ganhando e levando dinheiro pra fora. Aqui,
[01:26:31] há um vínculo
[01:26:33] muito grande. Da mesma forma,
[01:26:35] Rafa, o filho desse homem,
[01:26:37] caso queira tomar como herança
[01:26:39] a propriedade do seu pai,
[01:26:41] ele tem que aceitar as regras
[01:26:43] da comunidade que
[01:26:45] se dispôs a preservar aquela sua propriedade, né?
[01:26:47] Então, veja, você
[01:26:49] herdou uma propriedade do seu pai.
[01:26:51] Você herdou uma propriedade do seu pai.
[01:26:53] Aquela propriedade foi preservada por uma
[01:26:55] comunidade específica.
[01:26:57] Né? Pela polícia daquela
[01:26:59] sociedade, pelos impostos daquela sociedade
[01:27:01] que protegeram aquela propriedade. Você não pode
[01:27:03] simplesmente vazar e levar seu dinheiro
[01:27:05] com você. Tá? Embora
[01:27:07] este filho,
[01:27:09] o herdeiro, possa
[01:27:11] se desvincular da sociedade que o pai
[01:27:13] adentrou, ele não pode fazer isso
[01:27:15] sem abandonar a propriedade do pai.
[01:27:17] Tá? Então,
[01:27:19] a propriedade em Locke, Rafa,
[01:27:21] ela é um direito menos absoluto do que ela
[01:27:23] é hoje. Não é engraçado pensar isso?
[01:27:25] Tá? É por um lado que
[01:27:27] você não pode ter a propriedade de um lugar e morar no outro.
[01:27:29] Sem se submeter às regras
[01:27:31] daquela sociedade. Né? Então,
[01:27:33] é preciso que você, né? Se você…
[01:27:35] As propriedades são vínculos fundamentais
[01:27:37] entre o indivíduo e a sociedade civil.
[01:27:39] Se alguém quer fluir das
[01:27:41] suas possibilidades e ser
[01:27:43] favorecido pelas leis que as protegem,
[01:27:45] você tem que concordar também
[01:27:47] com as outras leis da sociedade na qual
[01:27:49] ele é inserido. E é
[01:27:51] por isso, e aí vem um ponto polêmico,
[01:27:53] que o Peter Laslett, por exemplo,
[01:27:55] vai dizer que Locke não é
[01:27:57] um contrato à lista.
[01:27:59] Tá? Porque
[01:28:01] se existe um
[01:28:03] acordo, um trust,
[01:28:05] não há como se entende hoje um contrato
[01:28:07] em Locke. Veja, o trust,
[01:28:09] a confiança, não é um contrato,
[01:28:11] não é um pacto. Porque Locke, então,
[01:28:13] não seria um contrato à lista, porque não
[01:28:15] há em Locke um pacto entre as duas partes.
[01:28:17] Em Hobbes, a gente viu que há uma questão
[01:28:19] entre o soberano, que garante
[01:28:21] a paz e que protege, e os
[01:28:23] súditos. Aqui em Locke, não. Aqui você tem
[01:28:25] um governo que é composto por
[01:28:27] delegados do povo. Delegados que podem
[01:28:29] ser afastados se não corresponderem
[01:28:31] à confiança, a trust que é
[01:28:33] neles depositada.
[01:28:35] Outra questão.
[01:28:37] Como é que são os poderes em Locke?
[01:28:39] O Locke defende que o poder
[01:28:41] legislativo, poder legislativo é a alma
[01:28:43] que dá forma, vida e unidade à sociedade
[01:28:45] política. O poder legislativo
[01:28:47] ele é capaz de
[01:28:49] oferir sentenças sobre infrações,
[01:28:51] já que ele pode baixar
[01:28:53] regras de acordo com a lei da natureza.
[01:28:55] Então, regras ou leis imparciais,
[01:28:57] portanto, consequentemente justas
[01:28:59] para todos. A justiça vem
[01:29:01] daquilo que não é arbitrário, né?
[01:29:03] Para poder sancionar
[01:29:05] essas leis,
[01:29:07] o poder legislativo precisa de força.
[01:29:09] E, portanto, do poder
[01:29:11] executivo.
[01:29:13] Para proteger-se dos seus inimigos
[01:29:15] e para se comunicar com eles
[01:29:17] também, é preciso também um outro
[01:29:19] poder, que é o poder federativo.
[01:29:21] Veja, não se trata em Locke
[01:29:23] de poderes se vigiando.
[01:29:27] Há em Locke uma supremacia do poder
[01:29:29] legislativo, pelo menos é assim que eu interpreto,
[01:29:31] de modo que o poder executivo
[01:29:33] e o poder federativo
[01:29:35] são derivados dele.
[01:29:37] Então, o judiciário em Locke não é um poder.
[01:29:39] O judiciário em Locke é um atributo do Estado.
[01:29:43] Bom, é claro que depois o Locke
[01:29:45] vai ser lido enquanto um pai da separação
[01:29:47] de poderes, etc.
[01:29:49] Mas veja que não é bem isso.
[01:29:51] Bom, já é caminhando aqui
[01:29:53] para o fim da minha síntese.
[01:29:55] Para Locke, o poder
[01:29:57] político, então, ele não é
[01:29:59] diferente do poder
[01:30:01] que cada indivíduo tem para preservar
[01:30:03] a si próprio. A não ser na medida
[01:30:05] em que esse poder político é coletivo.
[01:30:07] Então, os governantes, o que eles têm?
[01:30:09] O poder que lhes é confiado.
[01:30:11] É a ideia de trust. O poder que lhes é
[01:30:13] confiado para a preservação dos direitos
[01:30:15] naturais. Então, esse poder
[01:30:17] não é do dono,
[01:30:19] então, longe de ser o dono de quem
[01:30:21] governava, o monarca legítimo
[01:30:23] ele é servidor das pessoas.
[01:30:25] Então, o governo,
[01:30:27] se ele não cumprir a sua meta,
[01:30:29] se ele não servir às pessoas,
[01:30:31] esse governo pode e deve ser
[01:30:33] dissolvido e o poder retornar
[01:30:35] para as pessoas que o
[01:30:37] criaram. Então, esse movimento
[01:30:39] que é o direito de revolução,
[01:30:41] não restaura o Estado de natureza, pois o povo
[01:30:43] pode estabelecer depois um novo legislativo.
[01:30:45] Então, se o governo não age
[01:30:47] de acordo com aquilo que quer
[01:30:49] o povo, é claro que a concepção
[01:30:51] de povo em Locke é bem mais restrita
[01:30:53] que a nossa, não inclui as mulheres,
[01:30:55] não inclui as pessoas escravizadas, etc.
[01:30:57] Mas, se o governo não age de acordo
[01:30:59] com o povo, entramos em uma
[01:31:01] situação próxima ao Estado
[01:31:03] de natureza. Então, a monarquia
[01:31:05] absoluta, ela é incompatível
[01:31:07] com a sociedade civil
[01:31:09] porque ela é arbitrária, porque o monarca
[01:31:11] absoluto julga em causa própria, como fazem
[01:31:13] os homens a natureza.
[01:31:15] Então, a monarquia absoluta coloca um homem
[01:31:17] no Estado de natureza, acima da lei.
[01:31:19] Ela concentra o poder legislativo
[01:31:21] e executivo num homem, e quando
[01:31:23] a lei termina,
[01:31:25] começa o arbitrário, e portanto
[01:31:27] a tirania.
[01:31:29] O Jaime da Inglaterra
[01:31:31] é condenado por se colocar em estado
[01:31:33] de guerra com o seu povo, deixando
[01:31:35] o povo à mercê daquilo
[01:31:37] que cada indivíduo tem para se proteger,
[01:31:39] que é o Estado de natureza. Então, nas
[01:31:41] sociedades políticas que são bem ordenadas,
[01:31:43] os homens que exercem
[01:31:45] poder legislativo devem ser
[01:31:47] cidadãos comuns,
[01:31:49] oriundos do corpo principal
[01:31:51] para os quais eles legislam,
[01:31:53] e que retornam àquela condição quando
[01:31:55] não estão exercendo o seu ofício.
[01:31:57] No final das contas, o Locke está
[01:31:59] advogando em favor
[01:32:01] do direito de um grupo de líderes,
[01:32:03] representantes, empreenderem uma ação
[01:32:05] revolucionária.
[01:32:07] Locke
[01:32:09] defende a liberdade
[01:32:11] como algo que é ampliado
[01:32:13] por meio das leis.
[01:32:15] A liberdade natural do homem
[01:32:17] consiste em estar livre de qualquer
[01:32:19] poder superior sobre a terra e não
[01:32:21] estar submetido à vontade ou autoridade
[01:32:23] legislativa do homem. A liberdade do homem
[01:32:25] em sociedade consiste
[01:32:27] em não estar submetido a nenhum outro
[01:32:29] poder senão aquele estabelecido
[01:32:31] mediante um consentimento.
[01:32:33] Em outras palavras, a liberdade da natureza
[01:32:35] é tudo,
[01:32:37] a não ser o que a natureza proíbe.
[01:32:39] E a natureza é a vontade divina.
[01:32:41] A liberdade em sociedade
[01:32:43] significa viver sob
[01:32:45] uma regra comum, regra
[01:32:47] essa que é fruto de um poder
[01:32:49] que existe sobre o nosso consentimento.
[01:32:51] Então, se eu estou obedecendo a uma
[01:32:53] regra que é feita
[01:32:55] por um governo que tem a minha
[01:32:57] confiança, que é fruto do meu
[01:32:59] consentimento, esta
[01:33:01] obediência não limita,
[01:33:03] mas amplia
[01:33:05] a minha liberdade. Essa obediência
[01:33:07] amplia a minha liberdade
[01:33:09] porque eu estou obedecendo em liberdade
[01:33:11] porque essa lei me protege.
[01:33:13] Então, a liberdade
[01:33:15] depende da constância,
[01:33:17] a liberdade depende da
[01:33:19] previsibilidade, a liberdade
[01:33:21] depende da igualdade perante a lei,
[01:33:23] constância, previsibilidade,
[01:33:25] igualdade que a razão pode entender.
[01:33:27] O inconstante e o
[01:33:29] arbitrário são inimigos da liberdade.
[01:33:31] Então, assim como a razão
[01:33:33] liberta os seres humanos
[01:33:35] do ponto de vista da natureza,
[01:33:37] a lei liberta os seres humanos
[01:33:39] na arena política.
[01:33:41] Então, a lei
[01:33:43] amplia a liberdade, claro,
[01:33:45] quando ela é justa,
[01:33:47] quando ela é fruto de um governo
[01:33:49] legítimo. Então é isso, assim, na natureza
[01:33:51] eu tenho que me proteger. Se tem uma lei
[01:33:53] que protege a minha vida,
[01:33:55] ora, obedecendo a uma boa lei,
[01:33:57] eu estou me tornando mais livre,
[01:33:59] pois estou me tornando mais,
[01:34:01] com um gozo mais sereno e seguro
[01:34:03] das minhas propriedades. Então,
[01:34:05] quando alguém,
[01:34:07] então, agora é uma questão interessante,
[01:34:09] porque, de novo, as pessoas
[01:34:11] falam, nossa, professor, mas como é que alguém
[01:34:13] que fala tudo isso
[01:34:15] investia e tinha
[01:34:17] parte financeira
[01:34:19] na questão da escravidão?
[01:34:21] Olha o que o Locke diz
[01:34:23] no parágrafo 57.
[01:34:25] Ele diz assim,
[01:34:27] quando alguém, por sua própria
[01:34:29] culpa, perdeu
[01:34:31] o direito à própria vida,
[01:34:33] aquele para quem ele perdeu
[01:34:35] esse direito, pode
[01:34:37] demorar sem tomá-la
[01:34:39] e fazer uso dessa pessoa
[01:34:41] para seu próprio serviço, sem
[01:34:43] infligir com isso injúria
[01:34:45] alguma. Então, quer dizer,
[01:34:47] aqui o Locke está admitindo
[01:34:49] que algumas pessoas podem perder o direito
[01:34:51] à vida, e quando você perde esse
[01:34:53] direito, você pode ser usado
[01:34:55] como uma pessoa escrava
[01:34:57] de uma outra pessoa.
[01:34:59] Então, esse parágrafo 57 pode ser
[01:35:01] visto como uma forma de entender
[01:35:03] como é que o Locke, no meio de tudo isso,
[01:35:05] entende a escravidão. Então, é
[01:35:07] preciso lembrar, na constituição da Carolina
[01:35:09] e nas instruções para o governador
[01:35:11] Nicholson da Virgínia, o Locke
[01:35:13] parece convencido
[01:35:15] de que isso que eu falei agora
[01:35:17] do parágrafo 57, era o caso das pessoas
[01:35:19] negras escravizadas. Então, o escravizado
[01:35:21] sem propriedade
[01:35:23] de si mesmo,
[01:35:25] para Locke, é alguém que não possui
[01:35:27] qualidade política. Então, é por isso, Rafa,
[01:35:29] que eu digo para os meus alunos, que meus alunos falam assim,
[01:35:31] os jovens, eles têm,
[01:35:33] eles hoje estão moralistas, né?
[01:35:35] Então, eles têm uma tendência
[01:35:37] a fazer uma explicação moralista das coisas.
[01:35:39] Então, eles falam, ai, professor, então o Locke era hipócrita.
[01:35:41] Não, não é isso. A questão
[01:35:43] entre o Locke e a escravidão não é hipocrisia.
[01:35:45] Ou problemático,
[01:35:47] como os nobres
[01:35:49] gostam de falar. Pelo contrário,
[01:35:51] a questão da escravidão faz
[01:35:53] parte do pensamento do Locke. É muito mais grave.
[01:35:55] Não é que ele se contradiz,
[01:35:57] não é uma contradição.
[01:35:59] É uma coisa que é parte do
[01:36:01] pensamento dele. Ficou claro isso, Rafa?
[01:36:03] Porque eu acho que isso é muito importante,
[01:36:05] eu acho que muita gente tem dúvida, né?
[01:36:07] Sobre esse ponto, porque nem sempre as pessoas sabem
[01:36:09] explicar isso direito. Aqui eu ofereci
[01:36:11] uma explicação.
[01:36:13] Bom, aí, para a gente
[01:36:15] terminar,
[01:36:17] é verdade que Locke pode
[01:36:19] ser chamado de liberal?
[01:36:21] Isso é muito complicado, né? Porque na época do Locke,
[01:36:23] a palavra liberal tinha outros
[01:36:25] significados. Liberal significava
[01:36:27] generoso, etc.
[01:36:29] E o liberalismo
[01:36:31] é um termo que surge
[01:36:33] no século 19. Então, assim,
[01:36:35] é mais de 150 anos depois
[01:36:37] da morte de Locke que surge, de fato,
[01:36:39] um liberalismo, etc.
[01:36:41] É verdade
[01:36:43] que muitos liberais,
[01:36:45] farão uso de Locke.
[01:36:47] Então, no futuro,
[01:36:49] liberais vão se apropriar
[01:36:51] de elementos de Locke. Mas,
[01:36:53] ao mesmo tempo, acho que isso ficou claro hoje também,
[01:36:55] há muitas diferenças também entre Locke
[01:36:57] e os liberais. Então,
[01:36:59] é meio complicado pensar Locke
[01:37:01] como um pai do liberalismo, porque, na verdade,
[01:37:03] esse termo é do século 19,
[01:37:05] e mais do que a questão
[01:37:07] das palavras, né? Locke
[01:37:09] está preocupado com outras questões. Então, nós
[01:37:11] vimos hoje que a questão da propriedade em Locke,
[01:37:13] ela respondia ali a um debate muito
[01:37:15] específico, que não tem a ver com
[01:37:17] o liberalismo propriamente dito, etc.
[01:37:19] Bom, mas há autores
[01:37:21] que pensam que Locke,
[01:37:23] de fato, ele tem elementos importantes
[01:37:25] para a história do liberalismo. É o caso, por exemplo,
[01:37:27] do José Guilherme Mercure. O José Guilherme
[01:37:29] Mercure foi um estudioso do liberalismo,
[01:37:31] brasileiro, líder no mundo
[01:37:33] inteiro. Lá no livro dele,
[01:37:35] O Liberalismo Antigo e Moderno,
[01:37:37] diz que Locke
[01:37:39] seria fundamental
[01:37:41] para a história do liberalismo,
[01:37:43] na medida em que Locke teria inaugurado
[01:37:45] uma nova finalidade
[01:37:47] para a teoria política. Quer dizer,
[01:37:49] em Locke, o objetivo
[01:37:51] do Estado não é garantir
[01:37:53] a felicidade, como
[01:37:55] era entre os antigos.
[01:37:57] A função do Estado, diz o
[01:37:59] Mercure, para Locke
[01:38:01] é estabelecer as condições
[01:38:03] da liberdade. E aí a gente faz
[01:38:05] o uso
[01:38:07] dessa liberdade para ser feliz se a gente quiser.
[01:38:09] Então, para ele, o Locke
[01:38:11] teria sido parte da formação
[01:38:13] de um novo telos, uma nova
[01:38:15] finalidade para a teoria política,
[01:38:17] a qual seria importante
[01:38:19] para a história do liberalismo.
[01:38:21] Mas é importante também enfatizar um último ponto,
[01:38:23] que uma das grandes
[01:38:25] preocupações do Locke é evitar
[01:38:27] a guerra civil. Então, quando Locke
[01:38:29] pensa os direitos como individuais,
[01:38:31] quando Locke pensa a propriedade
[01:38:33] como derivada do trabalho,
[01:38:35] ele está justamente procurando
[01:38:37] justificar o direito de revolução
[01:38:39] e pensar a religião enquanto
[01:38:41] uma coisa individual como forma de
[01:38:43] evitar novas guerras civis.
[01:38:45] Então, o problema da guerra civil,
[01:38:47] o problema do século XVII, as guerras de religião,
[01:38:49] é um problema
[01:38:51] fundamental
[01:38:53] na teoria política
[01:38:55] Lockeana, na teoria política
[01:38:57] de John Locke. Então, Rafa,
[01:38:59] é claro que muitas coisas
[01:39:01] eu não falei, enfim, não dá para a gente falar
[01:39:03] tudo, há pessoas, há muitas pessoas
[01:39:05] que passam a vida estudando Locke,
[01:39:07] mas espero que tenha servido, pelo menos
[01:39:09] como introdução, uma compreensão
[01:39:11] um pouco mais aprofundada que o habitual,
[01:39:13] mas que, ainda assim,
[01:39:15] falta muita coisa para dizer, certamente.
[01:39:17] Achei ótimo,
[01:39:19] Dani, e só queria terminar esse programa
[01:39:21] dizendo que todo mundo
[01:39:23] sabe que o verdadeiro pai do liberalismo
[01:39:25] é você.
[01:39:27] Não, eu sou
[01:39:29] pai de ninguém, cara.
[01:39:31] Aqui não há paternidade.
[01:39:39] É isso, então, minha gente. Muito obrigado
[01:39:41] para vocês que escutaram
[01:39:43] esse programa até aqui.
[01:39:45] Não deixem de nos acompanhar
[01:39:47] no nosso Instagram,
[01:39:49] no arroba
[01:39:51] e continuar essa conversa por lá.
[01:39:53] Tamo junto e até
[01:39:55] o próximo programa.
[01:39:57] Falou, pirataria!
[01:40:11] Transcrição e Legendas Pedro Ribeiro Carta