O SILÊNCIO DO ABUSO
Resumo
Este episódio do Vibes em Análise aborda o tema complexo e delicado do abuso e assédio, explorando suas múltiplas dimensões psicológicas, sociais e culturais. Os psicanalistas Lucas Liedtke e André Alves iniciam a conversa destacando a importância de falar sobre o assunto com respeito e sensibilidade, reconhecendo que se trata de uma realidade mais comum do que se imagina e que afeta profundamente a vida das vítimas.
A discussão avança para as definições e nuances entre abuso e assédio, destacando a relação de poder, a imposição e a usurpação do corpo e da agência do outro. São explorados os mecanismos psíquicos de defesa, como a negação, a clivagem e a dissociação, que muitas vezes são acionados pelas vítimas para sobreviver à experiência traumática. Teorias psicanalíticas, incluindo as de Freud e Ferenczi, são discutidas para entender como o trauma se instala e se repete, e como a ‘confusão de línguas’ entre a ternura infantil e a paixão adulta pode ser devastadora.
O episódio conta com a participação da jornalista e comentarista cultural Mili Lacombe, que compartilha sua perspectiva feminista e pessoal, enfatizando como o feminismo oferece uma linguagem para a raiva organizada e rotas de fuga. A psicanalista Ana Laura Prats contribui com uma reflexão sobre a interface entre psicanálise e a questão social do abuso, discutindo a diferença entre ser vítima de um ato violento e a vitimização como defesa neurótica, e a importância do reconhecimento e da elaboração simbólica do trauma.
Por fim, os hosts refletem sobre os desafios de falar sobre abuso em um contexto hipermidiático, alertando para os riscos da banalização e da exposição sensacionalista, que podem retraumatizar as vítimas. Eles enfatizam a necessidade de espaços seguros para a escuta e a elaboração, como a análise, e concluem reforçando a importância do cuidado, da delicadeza e da quebra do pacto de silêncio que encobre a violência.
Indicações
Conceitos
- Confusão de Línguas (Ferenczi) — Teoria central discutida, que explica a violação psíquica no abuso infantil como o encontro entre a ‘linguagem da ternura’ da criança e a ‘linguagem da paixão’ do adulto, gerando uma confusão devastadora.
- Desmentido (Ferenczi) — Conceito crucial mencionado por André. Refere-se ao mecanismo pelo qual a vítima é desacreditada por outros (ou por si mesma), o que constitui um segundo trauma, muitas vezes mais grave que o abuso inicial.
- Clivagem e Dissociação — Mecanismos de defesa psíquicos primitivos discutidos. A clivagem é descrita como ‘livrar-se daquilo que incomoda’ ao custo de se livrar de uma parte de si, levando ao abandono da coerência. A dissociação é vista como necessária para a sobrevivência, mas que produz uma ruptura entre corpo e mente.
Livros
- Instrumental — Livro do pianista James Rhodes, mencionado por Lucas, que descreve os efeitos devastadores do abuso sexual na infância, usando a metáfora de começar uma maratona com uma perna a menos e uma mochila de tijolos nas costas.
- O Corpo Guarda as Marcas — Livro de Bessel van der Kolk, citado na discussão sobre trauma. A obra aborda como o trauma fica fisicamente gravado no sistema nervoso, como uma cicatriz, e explora a ideia de ‘trauma junk’ e a compulsão à repetição.
- Lutas e Metamorfoses de uma Mulher — Livro de Édouard Louis mencionado por André. A obra conta a história da mãe do autor e sua luta pela libertação de um relacionamento abusivo, ilustrando a dificuldade de interromper ciclos de violência.
Movimentos
- Movimento Me Too — Campanha global contra o assédio sexual e a violência de gênero, citada por Mili Lacombe e posteriormente pelos hosts. Foi destacado por oferecer um campo de possibilidades para que vítimas falassem publicamente, mas também por seus riscos e complexidades em um contexto midiático.
Pessoas
- Sándor Ferenczi — Psicanalista húngaro frequentemente citado. Sua teoria da ‘confusão de línguas’ entre a ternura da criança e a paixão do adulto é fundamental para entender a violação psíquica no abuso infantil. Seu conceito de ‘desmentido’ também é crucial.
- Audre Lorde — Escritora e ativista citada por Mili Lacombe. Lorde é referência para a ideia de transformar a tristeza em ‘raiva organizada’ como ferramenta de luta e superação.
- Vera Iaconelli — Psicanalista brasileira. Foi mencionado um texto dela na Folha de S.Paulo intitulado ‘Por que o homem comum estupra?’, que discute a dimensão coletiva e performática do estupro como uma reafirmação da masculinidade patriarcal.
- Darien Lieder — Mencionado no contexto do podcast ‘É Só Sexo’. Articula a ideia de que a sexualidade de muitos homens se constrói sobre um desejo de vingança pela posição de assujeitamento vivida na infância.
- Ailton Krenak — Líder indígena e pensador brasileiro citado por Mili Lacombe. Foi referenciado com a frase ‘quando a gente está na frente de um deserto, só resta a gente atravessar, dar o primeiro passo’, aplicada à luta contra o abuso.
- Luiz Claudio Figueiredo — Psicanalista mencionado por André. É referenciado por seu texto sobre a ‘prática do testemunho’, destacando a importância de encontrar palavras para expressar o vivido e sair do circuito aprisionador de silêncios.
Servicos
- Disque 100 — Serviço gratuito e anônimo do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil, mencionado no final do episódio como um canal para denunciar violações de direitos humanos.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução ao tema do abuso e assédio — Os hosts Lucas e André introduzem o episódio, destacando a prevalência e as diversas formas de abuso e assédio na sociedade. Eles mencionam casos públicos conhecidos e dados alarmantes sobre violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, enfatizando a necessidade de romper o silêncio e criar redes de acolhimento.
- 00:04:11 — A abordagem delicada e a importância da escuta — André pergunta a Lucas como abordar um tema tão delicado. Lucas reflete sobre a importância da delicadeza e da paciência, criticando a superficialidade dos ‘avisos de gatilho’. Eles discutem a dificuldade de reconhecer o abuso, tanto pela vítima quanto pelo agressor e pela sociedade, e a necessidade de empatia para lidar com todas as configurações possíveis desse reconhecimento (ou não).
- 00:10:10 — Definindo abuso, assédio e a questão do trauma — Os hosts detalham as definições de abuso (ato de violência mais explícito, com relação de poder) e assédio (comportamentos repetitivos e constrangedores, muitas vezes sutis). A conversa avança para a teoria do trauma em Freud, a confusão entre fantasia e realidade, e a crítica à psicanálise clássica que pode culpar a vítima. A ‘confusão de línguas’ de Ferenczi é apresentada como um contraponto crucial.
- 00:20:37 — Repetição do trauma e mecanismos de defesa — A discussão aborda a compulsão à repetição do trauma, onde vítimas podem reviver dinâmicas abusivas. Eles criticam a simplificação das ‘red flags’ e alertam para a generalização, destacando que cada caso deve ser visto com delicadeza. São explorados mecanismos de defesa como a clivagem e a dissociação, que levam a uma ruptura entre corpo e mente e à formação de um ‘falso self’.
- 00:26:53 — Depoimento de Mili Lacombe sobre feminismo e trauma — A jornalista Mili Lacombe fala sobre como o feminismo oferece uma dimensão social ao sofrimento, transformando a tristeza em raiva organizada. Ela compartilha sua experiência pessoal de abuso na infância e na vida adulta, destacando a dificuldade de reconhecer relacionamentos abusivos mesmo com ‘letramento’. Ela usa a metáfora da âncora para descrever o trauma e como o feminismo ajuda a cortá-la.
- 00:34:03 — Masculinidade, poder e a cultura do estupro — Retomando a fala de Mili, os hosts discutem as mecânicas sociais que ensinam mulheres a não demonstrar desejo e homens a desafiar o ‘não’. Eles analisam a construção frágil do ego masculino, hiperidentificado com a virilidade, e como isso sustenta a cultura do estupro. A conversa também aborda o assédio entre homens e a dificuldade de assumir a posição de vítima.
- 00:42:03 — Perversão, negação e a estrutura do abusador — Os hosts discutem a perversão como estrutura psíquica, onde o sujeito se coloca acima da lei (denegação). Eles ponderam que nem todo abusador é um perverso típico, muitos são neuróticos, e alertam para o risco de patologizar o comportamento, destacando que o abuso pode ser uma posição que muitos podem assumir em algum momento, dependendo de nuances culturais e subjetivas.
- 00:47:31 — Caso Gisele Pelicot e a retomada da palavra — Usando o caso extremo de Gisele Pelicot, estuprada por anos pelo marido e outros homens, os hosts discutem a coragem da vítima em renunciar ao anonimato. Eles veem nisso um ato de resistência contra o ‘desmentido’ (conceito de Ferenczi), uma tentativa de expulsar o agressor de dentro de si e retomar a agência sobre sua própria narrativa e sofrimento.
- 00:50:12 — Entrevista com a psicanalista Ana Laura Prats — Ana Laura Prats discute a interface entre psicanálise e a questão social do abuso. Ela esclarece que não há oposição entre trauma real e fantasia inconsciente, e que experiências traumáticas atuais sempre dialogam com o infantil. Ela diferencia ser vítima de um ato violento da ‘vitimização’ como defesa neurótica, e fala sobre o direito político de denunciar, ponderando os riscos das redes sociais.
- 01:07:08 — O silêncio, a escuta e os riscos da hiperexposição — Os hosts refletem sobre a importância da escuta silenciosa e atenta, em contraste com a tendência de interromper relatos com experiências pessoais. Eles discutem os riscos da hiperexposição de traumas nas redes sociais, que pode banalizar o tema, retraumatizar a vítima e criar um ‘duplo choque’ (Ferenczi) quando a denúncia não é levada a sério. A análise é apontada como um espaço seguro para elaboração.
- 01:15:48 — Caminhos para a cura e considerações finais — Lucas e André discutem as duas rotas psíquicas diante do trauma: lembrar incessantemente ou nunca lembrar. Eles defendem a busca por um ‘meio termo’ através da elaboração simbólica, possível em terapias (incluindo corporais e expressivas) e em vínculos seguros. Eles reforçam a responsabilidade dos adultos na proteção das crianças e encerram destacando que o cuidado não se faz em silêncio e que o sensível precisa de escuta.
Dados do Episódio
- Podcast: vibes em análise
- Autor: floatvibes
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2025-02-20T09:00:00Z
- Duração: 01:18:28
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/90f830c0-f4cb-0139-d4ee-0acc26574db2/episode/43509abc-1dff-435b-82ed-a25c30109a34/
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Dados do Podcast
- Nome: vibes em análise
- Tipo: episodic
- Site: https://vibes-em-analise.zencast.website
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Transcrição
[00:00:00] Existem dores e machucados que você enxerga, como um hematoma ou uma cicatriz na pele.
[00:00:06] Tem outras que parecem que se escondem na nossa alma.
[00:00:09] São as feridas que povoam nossa mente e que muitas vezes nos silenciam
[00:00:13] e a gente já nem sabe como tentar se curar ou pedir ajuda.
[00:00:17] Abusos e assédios acontecem de muitas formas, no físico, psicológico, no verbal, não verbal.
[00:00:24] Um toque não consentido, uma palavra que humilha, um segredo que nos corrói por dentro.
[00:00:30] Esse é um mal mais comum do que se pensa, que se infiltra em espaços onde deveria existir segurança.
[00:00:37] Na nossa casa, no ambiente de trabalho, na escola, no transporte público,
[00:00:41] nas nossas relações com estranhos que a gente acabou de conhecer ou com pessoas muito, muito íntimas.
[00:00:48] P. Diddy, Harvey Weinstein, Donald Trump, Kevin Spacey, Woody Allen, Neil Gaiman, os Irmãos Menendez, o Robinho, o Daniel Alves.
[00:00:59] Sem falar…
[00:01:00] Sem falar nos tantos casos de padres, pastores e atos muito hediondos e criminosos de pedofilia.
[00:01:06] Nem todo homem, mas quase 100% das vezes um homem.
[00:01:11] E daí a gente tem que pensar, que mundo é esse que a gente construiu,
[00:01:14] em que tantos homens montam a sua sexualidade, a sua identidade e também a sociedade inteira
[00:01:20] em cima da ideia de dominação das mulheres?
[00:01:24] E como será que a gente desmonta isso?
[00:01:27] Por que por mais denúncias…
[00:01:30] denúncias, expositos, cancelamentos e até mesmo punições de alguns desses homens,
[00:01:36] parece que esse ideal do masculino que pode assediar, submeter, mandar, violar, abusar e estuprar,
[00:01:45] segue impune.
[00:01:46] E pior, segue crescendo.
[00:01:48] Segundo o último estudo da Unicef e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública,
[00:01:53] a violência sexual contra crianças e adolescentes vem crescendo rapidamente a cada ano no Brasil.
[00:01:57] Ou pelo menos, há um grande aumento de denúncias.
[00:02:00] Em 2023, houve uma média de 1 ocorrência a cada 8 minutos, sendo que esse dado é, obviamente, subnotificado.
[00:02:09] 87% dos episódios registrados são contra meninas, e, em metade dos casos, a vítima tem entre 10 e 14 anos.
[00:02:18] Recentemente, o aumento de casos foi principalmente na faixa de 0 a 4 anos.
[00:02:24] O mais abominável aqui é perceber que a responsabilidade de proteger essas crianças e adolescentes,
[00:02:27] O mais abominável aqui é perceber que a responsabilidade de proteger essas crianças e adolescentes,
[00:02:29] O mais abominável aqui é perceber que a responsabilidade de proteger essas crianças e adolescentes,
[00:02:30] deveria ser de todos nós.
[00:02:32] Mas a gente segue falhando.
[00:02:34] Falar mais sobre abuso e assédio é imprescindível porque a gente precisa se educar, se fortalecer,
[00:02:40] esclarecer algumas coisas e desconstruir mitos e medos.
[00:02:45] E romper com o pacto de silêncio que encobre a violência.
[00:02:49] É dar suporte para quem precisa, conseguir criar redes de acolhimento, fortalecer leis que possam proteger e punir.
[00:02:57] E acima de tudo, é a gente precisar falar sobre violência contra crianças e adolescentes,
[00:02:59] falar mais e escutar mais.
[00:03:01] Sem invalidar, sem minimizar.
[00:03:05] Quando um relato desses encontra espaço,
[00:03:08] Quando uma vítima é vista e acreditada e protegida,
[00:03:12] Ai sim o ciclo começa a se romper.
[00:03:15] E um dia, talvez, o silêncio do abuso se transforme em justiça e cura.
[00:03:20] Oi, eu sou o Lucas Liedtke.
[00:03:22] E eu sou o André Alves.
[00:03:24] E a gente está começando uma nova temporada do Vibes em Análise.
[00:03:27] nosso podcast que se desafia a analisar as
[00:03:29] vibes que estão submersas no inconsciente
[00:03:32] coletivo. O André e eu
[00:03:33] somos psicanalistas e pesquisadores
[00:03:35] e as nossas análises estão no perfil
[00:03:37] arroba floatvibes e a gente tem
[00:03:39] uma newsletter que você pode assinar na plataforma
[00:03:42] Substack. Esse episódio
[00:03:43] conta com o apoio da Drogaria São Paulo
[00:03:45] e Drogaria Espacheco, bandeiras
[00:03:47] do grupo DPSP,
[00:03:49] que se dedicam ao cuidado com a saúde e o
[00:03:51] bem-estar e que entendem que saúde mental
[00:03:53] também é uma parte essencial da qualidade
[00:03:55] de vida. E se você quer manter
[00:03:57] essa iniciativa do projeto Vibes e Análise no ar
[00:03:59] e trocar algumas referências no nosso
[00:04:01] grupo, pode se tornar membro do
[00:04:03] Vibes e Análise na plataforma
[00:04:05] Apoia-se. Todos esses links estão
[00:04:07] aqui na descrição do episódio.
[00:04:09] Então vamos lá. Lucas, por onde a gente
[00:04:11] começa a elaborar esse assunto
[00:04:13] tão delicado?
[00:04:27] .
[00:04:49] E sinceramente
[00:04:51] isso de aviso de gatilho, às vezes
[00:04:53] me parece até um pouco
[00:04:55] cínico, porque
[00:04:56] é
[00:04:57] quase como se depois de avisar que tem
[00:04:59] gatilho, você pode
[00:05:01] ficar meio isento pra falar
[00:05:03] do assunto com indelicadeza.
[00:05:06] Ao mesmo tempo que
[00:05:07] obviamente a gente não quer que alguém se sinta mal
[00:05:09] escutando o episódio,
[00:05:12] isso também não pode nos fazer
[00:05:13] evitar abordar esse
[00:05:15] tema, porque esse é um assunto
[00:05:17] realmente muito importante
[00:05:19] pra todo mundo.
[00:05:21] E em diferentes medidas
[00:05:23] esse assunto é pesado
[00:05:24] e dolorido pra todo mundo, ou pelo menos
[00:05:27] deveria ser. Porque
[00:05:29] sinceramente, se você
[00:05:31] que tá escutando, acha que esse assunto
[00:05:33] não é difícil pra você, é porque
[00:05:35] você ainda não entendeu
[00:05:37] do que que se trata.
[00:05:39] Dá quase que pra dizer assim, olha, tem alguma coisa
[00:05:41] errada aí com você.
[00:05:43] Por que que eu digo isso? Porque o que tá em
[00:05:45] questão aqui é
[00:05:47] primeiro a gente assimilar
[00:05:49] o fato de que abusos e assédios
[00:05:51] acontecem, e muito,
[00:05:53] de que não é
[00:05:55] uma invenção,
[00:05:57] não é agenda política,
[00:05:59] não é frescura, não é mentira,
[00:06:02] não é fantasia,
[00:06:03] não é, entre aspas,
[00:06:05] culpa da vítima. E segundo,
[00:06:08] que é muito fundamental
[00:06:09] a gente entender a gravidade
[00:06:11] do reconhecimento
[00:06:13] ou do não reconhecimento de um abuso.
[00:06:16] Por parte da vítima,
[00:06:18] ou por parte do abusador,
[00:06:20] ou por parte
[00:06:21] dos outros, de todos nós.
[00:06:24] Todas as configurações
[00:06:25] aí que podem acontecer de reconhecer,
[00:06:27] ou não reconhecer, são muito penosas.
[00:06:30] É difícil quando a vítima
[00:06:31] se dá conta do que aconteceu, é difícil
[00:06:33] quando ela não se dá conta do que aconteceu,
[00:06:36] quando acreditam nela,
[00:06:37] ou quando não acreditam nela.
[00:06:40] Todos os cenários aí tem suas dores
[00:06:41] e seus desafios pra serem
[00:06:43] enfrentados. E merecem
[00:06:46] toda a empatia
[00:06:47] que a gente pode encontrar
[00:06:49] dentro da gente pra lidar com isso.
[00:06:52] Seja na clínica, ou
[00:06:53] com as pessoas que
[00:06:54] fazem parte da nossa vida.
[00:06:57] Então, pra gente entrar nesse tema
[00:06:59] com o respeito que ele merece,
[00:07:02] se você que nos escuta
[00:07:04] não foi abusado,
[00:07:06] ou se você não lembra,
[00:07:08] ou não reconhece que foi abusado,
[00:07:10] você certamente conhece alguém que foi abusado.
[00:07:13] Ou então você pode
[00:07:14] fazer de conta que não sabe,
[00:07:16] ou que não lembra, e isso é uma coisa
[00:07:18] que a gente faz
[00:07:19] de forma muito inconsciente. Não é aquela repressão
[00:07:22] de, ah, não quero nem lembrar disso.
[00:07:24] É mais tipo, nossa, eu já tinha esquecido
[00:07:26] mesmo dessa história.
[00:07:27] Agora que eu tô lembrando
[00:07:28] aquela história que aconteceu com fulano.
[00:07:31] Porque é difícil mesmo enfrentar
[00:07:33] esses acontecimentos.
[00:07:35] E é difícil não só pra quem é abusado, mas pra quem
[00:07:37] é testemunha de um abuso.
[00:07:39] Ou quem é conivente também com um caso
[00:07:41] de abuso. Porque a gente pode muito bem
[00:07:43] fazer de conta que não aconteceu.
[00:07:45] Fechar os olhos,
[00:07:47] fingir que não sabia,
[00:07:49] fazer isso tão bem que a gente se convence
[00:07:51] nós mesmos.
[00:07:53] E aqui, o mecanismo de defesa do ego
[00:07:55] em questão é a negação.
[00:07:57] É muito bom isso que você disse, Lucas,
[00:07:59] porque eu comecei
[00:08:01] te perguntando sobre como a gente aborda
[00:08:03] esse tema tão delicado.
[00:08:06] E aí você
[00:08:07] falou dessa palavra também, de delicadeza.
[00:08:10] E eu penso que
[00:08:11] ela é muito fundamental pra gente
[00:08:13] pensar esse assunto.
[00:08:15] Do ponto de vista da sensibilidade,
[00:08:18] das nuances,
[00:08:20] do sensível mesmo.
[00:08:21] Esse trabalho que tem muito a ver com o trabalho
[00:08:23] clínico, de escutar
[00:08:24] e elaborar o que é doloroso,
[00:08:27] a partir do que é sensível.
[00:08:30] Do que causa algum tipo
[00:08:31] de inflamação.
[00:08:33] E com o que mexe com as partes mais
[00:08:35] delicadas, mas também mais violentas
[00:08:37] do nosso inconsciente.
[00:08:39] E aí quando você fala em negação,
[00:08:41] eu penso exatamente em como
[00:08:43] existem muitas
[00:08:45] formas da gente negar.
[00:08:48] E é preciso muita
[00:08:49] delicadeza, e eu também
[00:08:51] penso que muita paciência
[00:08:53] pra gente conseguir pensar
[00:08:54] no que a gente nega.
[00:08:57] Porque existe um certo
[00:08:59] comportamento reativo quando a gente tá falando
[00:09:01] da negação. Em que a gente
[00:09:03] corta de vez aquela conversa.
[00:09:05] Não quero falar sobre isso, não quero escutar sobre isso,
[00:09:07] não quero propor esse tema.
[00:09:10] E a paciência
[00:09:10] é uma forma da gente pensar que,
[00:09:13] bom, vamos com calma.
[00:09:15] Até porque esse
[00:09:17] é um assunto tão
[00:09:19] estranho, no sentido de
[00:09:21] estranhado mesmo,
[00:09:22] pela sociedade como um todo,
[00:09:24] que eu não sei se você concorda,
[00:09:26] Lucas, mas parece que a gente…
[00:09:27] a gente tem um vocabulário meio limitado
[00:09:29] pra falar sobre esse assunto.
[00:09:31] Como se a linguagem fosse também
[00:09:33] limitada diante do horror.
[00:09:35] Mas fica difícil a gente conseguir, por exemplo,
[00:09:38] distinguir o que é
[00:09:39] um abuso psicológico de um
[00:09:41] assédio moral, muitas vezes.
[00:09:44] Ou mesmo essa
[00:09:45] fronteira entre abuso e tóxico,
[00:09:48] que é uma palavra que
[00:09:49] parece que ganhou muitos outros sentidos
[00:09:51] nos últimos anos.
[00:09:53] Como se a gente precisasse construir
[00:09:55] todo um glossário pra falar
[00:09:57] sobre assédio, sobre terror psicológico,
[00:10:00] sobre abuso sexual, sobre violência patrimonial,
[00:10:03] sobre gaslighting, sobre…
[00:10:05] uma gramática realmente muito ampla
[00:10:07] pra gente pensar nesse assunto.
[00:10:10] A definição de abuso sexual, por exemplo,
[00:10:12] segundo a OMS,
[00:10:15] é essa crença de que uma
[00:10:16] atividade sexual foi
[00:10:18] imposta em relação a alguém
[00:10:21] sem o consentimento de ambos.
[00:10:23] Mas olha como é amplo.
[00:10:25] Olha como a gente pode pensar isso de maneiras diferentes.
[00:10:27] E por isso mesmo
[00:10:28] fica complicado.
[00:10:31] Só que o que a gente precisa
[00:10:32] quando tá falando de questões difíceis e complexas?
[00:10:35] De paciência?
[00:10:36] De sensibilidade?
[00:10:38] Sim, acho importante mesmo a gente se
[00:10:40] debruçar um pouco sobre esses conceitos,
[00:10:42] essas diferenças, pra ajudar a nomear
[00:10:44] as coisas e nomear
[00:10:46] as histórias, os diferentes
[00:10:48] episódios e subjetividades em cada caso.
[00:10:51] Já existem
[00:10:52] algumas divergências, inclusive,
[00:10:54] nessas definições, quando se fala de
[00:10:56] abuso.
[00:10:58] Sim, a gente tá falando de um ato
[00:11:00] de violência. Tem uma relação de
[00:11:02] poder ali que o agressor exerce,
[00:11:04] um controle, uma intimidação,
[00:11:07] uma exploração sobre a vítima
[00:11:08] que pode ser físico, pode ser
[00:11:10] emocional, sexual ou até
[00:11:12] financeiro. Tem como
[00:11:14] exemplos a violência doméstica,
[00:11:16] o abuso infantil, a exploração
[00:11:18] sexual. É um ato
[00:11:20] de violência mais explícita.
[00:11:22] Ele pode ser mais físico,
[00:11:24] ou ameaçador, de coerção,
[00:11:26] de força e causar traumas físicos
[00:11:28] e psicológicos.
[00:11:30] Entrando mais no campo do assédio,
[00:11:33] é algo que pode ser um pouco
[00:11:34] mais sutil, mais subliminar,
[00:11:37] menos explícito.
[00:11:39] Muitas vezes acontece com frequência,
[00:11:41] repetitivo, causa esse
[00:11:42] constrangimento, ou uma coisa
[00:11:44] que é mais leve, desconforto,
[00:11:46] uma intimidação, e que a gente vê
[00:11:48] muito em contextos sociais,
[00:11:51] profissionais, como assédio moral no trabalho,
[00:11:53] ou assédio sexual,
[00:11:54] ou comentários que são inapropriados,
[00:11:56] na internet,
[00:11:58] ou perseguição, stalking,
[00:12:00] humilhações.
[00:12:02] Não precisa ser nada físico também.
[00:12:04] Podem ser só falas.
[00:12:06] E no campo sexual, quando a gente pensa
[00:12:08] juridicamente, a gente está falando
[00:12:10] também de importunação sexual,
[00:12:12] ou estupro, que aí não existe uma hierarquia,
[00:12:15] e o estupro também não é sinônimo
[00:12:16] de penetração. Esse é um grande senso comum
[00:12:18] também que precisa ser
[00:12:20] repensado.
[00:12:22] Abuso e assédio são violências que
[00:12:24] podem gerar grandes traumas na vítima.
[00:12:26] Então vai ser importante a gente abrir
[00:12:28] esse sub-tema do trauma também.
[00:12:30] E uma palavra que é muito fundamental pra essa
[00:12:32] conversa que a gente está tendo, eu penso que é
[00:12:34] imposição. A gente está nesse
[00:12:36] campo do faz o que eu quero, faz o que
[00:12:38] eu mando. Eu faço
[00:12:40] com que você desempenhe
[00:12:42] o que eu quero através da coação
[00:12:44] ou do assédio.
[00:12:46] Eu não preciso me preocupar com os efeitos
[00:12:48] do que eu falo ou faço
[00:12:49] em você. E se a gente
[00:12:52] vai pro campo do abuso,
[00:12:54] a coisa fica ainda mais séria, porque
[00:12:56] a gente está falando de uma usurpação
[00:12:58] do corpo alheio.
[00:13:00] A gente retira do outro
[00:13:02] a agência
[00:13:04] ou o domínio sobre
[00:13:06] o seu próprio corpo. Entre muitas aspas
[00:13:08] aqui, claro. Mas a gente
[00:13:10] está nesse campo da imposição
[00:13:12] e da intrusão.
[00:13:14] E claro que isso vai produzir, como
[00:13:16] você falou, efeitos
[00:13:18] muito traumáticos.
[00:13:20] E aí vale a gente entrar mais na questão
[00:13:22] do trauma e puxar
[00:13:24] alguma coisa teórica. A teoria do trauma,
[00:13:26] a teoria da fantasia, enfim.
[00:13:28] Tem uma parte ali bem
[00:13:30] importante do estudo do Freud.
[00:13:32] A primeira teoria do Freud, na verdade,
[00:13:34] pra explicar os sintomas histéricos
[00:13:36] é a teoria do trauma.
[00:13:38] Que seria o vestígio psíquico
[00:13:40] de um episódio
[00:13:41] que é recalcado como uma defesa
[00:13:43] pra evitar essa dor psíquica
[00:13:45] e depois, mais tarde, começa
[00:13:48] a gerar alguns sintomas.
[00:13:50] Um único episódio de abuso pode ser
[00:13:52] tão traumatizante que transforma
[00:13:54] totalmente o nosso psiquismo.
[00:13:56] A teoria do trauma
[00:13:58] do Freud caminhou pra teoria
[00:14:00] da sedução e da fantasia.
[00:14:02] Que é muito interessante,
[00:14:04] mas muito delicado
[00:14:05] e que se tornou também um tanto
[00:14:08] problemático, porque tem
[00:14:10] muita coisa na psicanálise
[00:14:11] mais clássica que nos provoca a
[00:14:14] enxergar, ou que dá
[00:14:16] margem pra muita interpretação
[00:14:18] errada com algum viés
[00:14:19] que coloca a culpa na vítima.
[00:14:22] Que vai nessa linha de afirmar
[00:14:24] que a vítima também
[00:14:26] desejou. Que existia um desejo
[00:14:28] inconsciente. Que não foi
[00:14:30] bem assim, que a vítima fantasiou
[00:14:32] com muita coisa.
[00:14:34] Ou o Freud
[00:14:36] trouxe a sexualidade infantil,
[00:14:38] colocou isso assim como uma discussão
[00:14:39] que foi muito polêmica e tudo mais.
[00:14:41] E afirmando que a criança é um ser sexual
[00:14:44] mais livre, sem noção,
[00:14:47] dá pra se intuir
[00:14:48] muitas vezes que, bom, então
[00:14:49] a criança é que seduziu o adulto.
[00:14:53] Tudo isso
[00:14:53] até pode ser em
[00:14:56] alguma parte verdadeiro.
[00:14:58] Mas nada disso pode ser usado
[00:15:00] pra desimplicar
[00:15:01] o abusador enquanto um sujeito que
[00:15:03] agiu de forma irresponsável,
[00:15:06] criminosa e
[00:15:07] desumana. Porque se
[00:15:09] uma criança age de uma forma mais erótica
[00:15:11] com um adulto, cabe ao
[00:15:13] adulto intervir,
[00:15:15] trazer a criança pra
[00:15:17] civilização. Fazê-la
[00:15:19] entender o que é um carinho
[00:15:21] e o que é uma estimulação sexual.
[00:15:23] O adulto vai ter que fazê-la
[00:15:26] as coisas. Essa é a confusão
[00:15:28] de línguas do Ferenczi,
[00:15:30] que é essa teoria de que existe
[00:15:32] uma violação psíquica
[00:15:33] causada por uma confusão de duas línguas.
[00:15:36] A linguagem da ternura da criança
[00:15:38] e essa outra da paixão
[00:15:40] do adulto. Então, se a teoria
[00:15:42] do Freud centralizou muito o desejo
[00:15:44] na criança e no conflito
[00:15:46] edípico, o Ferenczi
[00:15:48] é um que traz de volta a questão do
[00:15:50] abuso real, que foi até meio
[00:15:51] desprezado pela psicanálise, como se
[00:15:54] não fosse uma preocupação tão importante.
[00:15:56] É como se o Freud tivesse
[00:15:57] minimizado a importância do trauma
[00:16:00] real, do abuso real, em favor das
[00:16:01] fantasias inconscientes.
[00:16:03] O melhor exemplo disso é o caso Dora.
[00:16:06] A Dora era uma jovem de 18
[00:16:08] anos que o Freud não
[00:16:10] soube lidar com o trauma
[00:16:12] sexual real que ela viveu,
[00:16:14] porque ele ficou muito fixado numa
[00:16:15] tentativa de investigar as fantasias inconscientes
[00:16:18] dela, que sim, existiam,
[00:16:20] faziam parte ali da clínica e do caso dela.
[00:16:22] E ele foi muito criticado depois disso
[00:16:24] pela falta de empatia que ele teve.
[00:16:26] A Dora, inclusive, abandonou o tratamento
[00:16:27] e não resolveu os sintomas
[00:16:30] que ela tinha. É, aqui a gente está
[00:16:32] em um dos maiores vespeiros da psicanálise,
[00:16:34] Lucas. Mas também nos ajuda
[00:16:36] a pensar em como
[00:16:37] não dá pra gente falar
[00:16:39] desse tema com apenas
[00:16:42] um autor. Aliás, não dá
[00:16:43] talvez nem pra gente falar sobre esse tema só
[00:16:45] na psicanálise. A gente precisa
[00:16:47] convocar vários outros campos
[00:16:50] pra gente conseguir articular
[00:16:52] e pensar, inclusive,
[00:16:53] em formas de atravessamento.
[00:16:55] E muito menos só com autores homens também.
[00:16:57] Já basta dois homens falando sobre esse assunto,
[00:16:59] não é mesmo?
[00:17:01] Mas talvez esse seja
[00:17:03] um ponto muito fundamental
[00:17:05] que é…
[00:17:07] Eu tenho uma impressão de que os homens falam um pouco
[00:17:09] sobre isso. Falam um pouco
[00:17:11] sobre essa gramática que a gente está
[00:17:13] tentando construir de assédios e abusos.
[00:17:16] É, e isso é o que você
[00:17:17] fala no episódio do Conflitos do Masculino,
[00:17:19] que é o homem tem
[00:17:21] muita dificuldade de falar.
[00:17:23] E o que a gente pode fazer com o trauma?
[00:17:25] Se não, pelo menos,
[00:17:27] começar a falar sobre ele.
[00:17:29] Eu sou da hipótese teórica, assim, de que
[00:17:31] o trauma é uma mistura de
[00:17:33] não conseguir esquecer e também
[00:17:35] não conseguir lembrar.
[00:17:37] E por não conseguir lembrar, tem uma
[00:17:39] passagem aí do lembrar pro falar.
[00:17:42] Falar sobre, colocar em palavras,
[00:17:44] deixar os afetos
[00:17:45] aparecerem
[00:17:47] e escolherem os significantes
[00:17:49] que a gente vai usar pra trazer
[00:17:51] pra linguagem algo que é indizível.
[00:17:53] E aí vem um processo,
[00:17:55] catártico, tem com certeza
[00:17:57] um caminho onde você se sente
[00:17:59] mal por lembrar e
[00:18:01] falar. E tem o se sentir bem também.
[00:18:03] Dá até pra pensar numa curva de sofrimento
[00:18:05] perante a lembrança de um episódio
[00:18:07] traumático. De movimentar
[00:18:09] um sofrimento que está cristalizado e voltar
[00:18:11] a libidinizar
[00:18:13] uma parte do corpo, muitas vezes,
[00:18:15] que ficou ferida. Porque
[00:18:17] a verdade é que se a gente lembra
[00:18:19] de um abuso, a gente, se a gente
[00:18:21] já lembra, a gente já sofre. O sofrimento
[00:18:23] já é real. Então, falar,
[00:18:25] a respeito, pode ser um alívio.
[00:18:27] Depois de um sofrimento inicial
[00:18:29] em ter que mexer com aquilo,
[00:18:31] vem uma descompressão, vem um descarrego,
[00:18:33] inclusive de afetos negativos.
[00:18:36] Ódio, raiva,
[00:18:37] tristeza, nojo,
[00:18:39] culpa, vergonha, todos esses, e a gente vai
[00:18:41] falar um pouco mais sobre eles.
[00:18:43] Por mais controverso que seja,
[00:18:45] sim, tem algumas coisas do pensamento do
[00:18:47] Van der Kolk que também são interessantes
[00:18:49] de pensar. Trauma como
[00:18:50] algo que está fisicamente gravado
[00:18:53] no nosso sistema nervoso.
[00:18:55] Mais como uma cicatriz
[00:18:57] do que como uma história.
[00:18:59] Porque uma pessoa, ela pode mentir,
[00:19:01] mas o seu corpo não mente.
[00:19:03] Tem algo ali na memória corporal, do seu sistema
[00:19:05] fisiológico,
[00:19:06] que pode até explicar
[00:19:08] de certa forma porque
[00:19:10] vítimas de trauma
[00:19:11] tão frequentemente retornam a situações
[00:19:15] em que a experiência traumática
[00:19:16] talvez aconteça.
[00:19:18] O que Freud olharia por um campo da
[00:19:20] compulsão pela repetição.
[00:19:22] E que aqui ele
[00:19:24] traz essa,
[00:19:25] essa ideia de trauma junk,
[00:19:26] de uma dependência num efeito
[00:19:29] ali de opioides endógenos
[00:19:31] que são provocados no seu corpo
[00:19:33] pela adrenalina e depois
[00:19:35] pelo relaxamento, enfim.
[00:19:37] Tem aí um sequestro
[00:19:39] da mente, como ele vai dizer no livro
[00:19:41] O Corpo Guarda as Marcas.
[00:19:44] E aí quando um trauma é pouco
[00:19:45] elaborado, essa dinâmica
[00:19:47] interrelacional de um trauma pode se repetir
[00:19:49] porque fica quase que um centro
[00:19:51] gravitacional,
[00:19:53] puxa tudo de novo
[00:19:54] que aparece para aquele conflito
[00:19:57] original. E aí a gente
[00:19:59] confunde as situações, a gente confunde
[00:20:01] as pessoas. Elas podem
[00:20:03] ser parecidas, mas elas
[00:20:05] não são iguais.
[00:20:07] Só que quando a gente fica colado demais
[00:20:09] num afeto, numa imagem,
[00:20:11] numa memória, a gente não enxerga
[00:20:13] o que está diante da gente.
[00:20:15] E inclusive talvez a gente faça
[00:20:17] sim algumas coisas
[00:20:18] se repetirem.
[00:20:21] Que é aquele texto tão fundamental do Freud
[00:20:23] recordar, repetir.
[00:20:24] Elaborar. O que não é bem elaborado
[00:20:26] e simbolizado a gente repete para tentar encontrar
[00:20:28] sentido. Mas de novo, as histórias
[00:20:31] nunca são iguais, os personagens
[00:20:33] também não.
[00:20:35] Só que tem uma coisa que hoje em dia
[00:20:37] se faz muito, que é por exemplo
[00:20:38] lista de red flags.
[00:20:41] Só que essa bandeira vermelha
[00:20:43] ela é um sinal.
[00:20:44] É um sinal importante, mas não é uma evidência.
[00:20:47] Não é porque em um relacionamento
[00:20:48] abusivo existia um
[00:20:51] certo tipo de comportamento que isso
[00:20:53] vai necessariamente configurar outro
[00:20:54] relacionamento abusivo com outra pessoa
[00:20:56] se aquele comportamento aparecer de novo.
[00:20:59] Existem comportamentos e comportamentos,
[00:21:01] mas para a gente não generalizar.
[00:21:02] E é muito capaz de você mesmo provocar
[00:21:05] ou incorporar esse comportamento
[00:21:07] porque é uma dinâmica
[00:21:08] que já é conhecida para você.
[00:21:11] Mesmo que isso gere sofrimento.
[00:21:14] Bom, e aí os motivos para isso
[00:21:15] são muitos, não dá para a gente generalizar.
[00:21:18] Então, de novo
[00:21:19] tem que ser olhado com delicadeza
[00:21:21] e com tempo, caso a caso
[00:21:23] em uma análise,
[00:21:24] bastante profunda.
[00:21:26] Você usou essa expressão, Lucas, do sequestro da mente
[00:21:29] e eu fui longe pensando nela.
[00:21:31] Porque quando a gente está falando sobre
[00:21:33] um abuso infantil, por exemplo,
[00:21:36] tem algo muito comum da gente dizer
[00:21:37] que é como
[00:21:39] é nesse momento que
[00:21:41] a criança perde a infância.
[00:21:43] Ou a infância lhe é sequestrada.
[00:21:45] Exatamente pela imagem que você convocou
[00:21:47] antes de como algo que ela não tem
[00:21:49] condições de receber
[00:21:50] é inserido, é imposto
[00:21:53] e isso gera uma confusão.
[00:21:54] Uma confusão muito grande.
[00:21:56] E quando a gente está falando de abuso de uma forma geral
[00:21:59] a corpulidade
[00:22:00] é sequestrada.
[00:22:03] A sexualidade é sequestrada.
[00:22:05] Como se o sujeito, vítima,
[00:22:06] não tivesse mais direito.
[00:22:09] Ou mesmo
[00:22:10] um certo domínio
[00:22:12] ou uma intimidade com essas partes
[00:22:15] de si.
[00:22:16] E aí eu fui pensando também no sequestro
[00:22:18] da imagem do corpo.
[00:22:21] Da possibilidade de, inclusive,
[00:22:22] o sujeito representar o próprio corpo.
[00:22:25] Porque o sujeito
[00:22:26] que sofre o abuso, geralmente vai ter
[00:22:28] muita dificuldade de lidar com a agência
[00:22:30] em relação ao próprio corpo.
[00:22:32] De usar, de exercer,
[00:22:34] de sentir o próprio corpo.
[00:22:36] E de estabelecer limites, inclusive, do que o próprio sujeito
[00:22:38] faz com o próprio corpo.
[00:22:40] Não sei se você experimenta isso também, Lucas,
[00:22:42] mas na clínica é muito
[00:22:44] impressionante como
[00:22:46] casos de abuso geralmente
[00:22:48] estão muito ligados a distúrbios de imagem.
[00:22:51] Até porque
[00:22:52] a sobrevivência do sujeito
[00:22:54] em relação ao abuso, geralmente
[00:22:56] só consegue ser operada com mecanismos
[00:22:58] psíquicos muito primitivos
[00:23:00] e arcaicos,
[00:23:02] exatamente nesse campo do sequestro,
[00:23:05] como a clivagem
[00:23:06] e a dissociação.
[00:23:07] Que são duas ideias muito importantes
[00:23:09] para o pensamento do Ferenczi que você foi buscar
[00:23:12] e eu acho definitivamente um aporte teórico
[00:23:14] fundamental para a gente discutir
[00:23:15] essas questões.
[00:23:17] Mas o Ferenczi falava da clivagem
[00:23:19] como livrar-se daquilo que incomoda.
[00:23:23] E o preço disso
[00:23:24] é se livrar de uma parte de si.
[00:23:26] E aí o custo dessa operação
[00:23:27] é o abandono total da coerência.
[00:23:30] O sujeito se acostuma
[00:23:32] a sacrificar partes de si.
[00:23:34] Se acostuma a não ter acesso
[00:23:36] ao corpo, à infância,
[00:23:38] à sexualidade, a não poder pensar
[00:23:40] sobre isso.
[00:23:41] E aí olha como é curioso.
[00:23:43] Se o abuso e o assédio geralmente
[00:23:45] são negados
[00:23:46] pelo meio social de uma forma geral,
[00:23:50] isso também vai ser negado
[00:23:51] dentro do próprio sujeito.
[00:23:54] Criança se tornasse uma espécie
[00:23:55] de escrava psíquica do adulto.
[00:23:58] Sofrendo essa clivagem que você está falando,
[00:24:00] essa dissociação,
[00:24:02] esse isolamento,
[00:24:03] o que pode levar à formação de um falso self também.
[00:24:06] Porque aí você existe
[00:24:07] para satisfazer o outro.
[00:24:09] E você vai se distanciando do seu self verdadeiro
[00:24:11] que ficou estagnado
[00:24:13] num momento muito importante
[00:24:15] do seu desenvolvimento.
[00:24:16] Ao mesmo tempo, a dissociação é meio que
[00:24:19] fundamental para o sujeito não enlouquecer.
[00:24:21] Sim, sobreviver.
[00:24:22] E isso,
[00:24:24] vai produzir um estado
[00:24:26] iminente de loucura.
[00:24:28] Porque a contenção de tudo isso
[00:24:31] ela é contínua.
[00:24:32] Ela não é algo que se resolve, se enterra alguma coisa.
[00:24:35] É como uma barragem
[00:24:36] que tem que ser mantida ou feita
[00:24:38] a manutenção dessa barragem frequentemente
[00:24:40] ou continuamente.
[00:24:42] E isso produz uma ruptura entre corpo e mente.
[00:24:45] Entre o sujeito livre e o sujeito preso.
[00:24:47] Que é essa imagem que você acabou de trazer.
[00:24:50] O sujeito para
[00:24:51] de se enxergar como agente do próprio corpo.
[00:24:53] Uma forma de se enxergar como agente do próprio corpo.
[00:24:54] Então, a parte da subjetividade
[00:24:55] ou do próprio corpo vão ficar exatamente
[00:24:58] prisioneiras, como você falou.
[00:25:00] E aí, essa imagem
[00:25:02] que você falou de ficar preso do adulto
[00:25:04] é exatamente porque o abusado
[00:25:06] geralmente internaliza o abusador.
[00:25:10] E aí é muito frequente que a gente escute
[00:25:12] inclusive casos de pessoas que foram
[00:25:14] abusadas e que desempenham
[00:25:16] comportamentos abusivos.
[00:25:18] Esse abusador internalizado
[00:25:20] que segue agindo, reproduzindo
[00:25:22] uma lógica de usurpar, de perseguir,
[00:25:24] de violentar.
[00:25:26] Tem um texto muito polêmico
[00:25:28] do pianista inglês
[00:25:29] o James Rhodes
[00:25:31] que chama Instrumental.
[00:25:34] E é muito
[00:25:35] bom pra gente pensar nos efeitos do abuso.
[00:25:39] Que ele fala assim
[00:25:39] Se a gente compara a vida a uma corrida,
[00:25:42] a uma maratona,
[00:25:44] o abuso sexual na infância tem o
[00:25:46] claro efeito de fazer com que na linha
[00:25:47] de partida, uma das suas pernas
[00:25:50] seja removida.
[00:25:51] E alguém coloque nas suas costas
[00:25:53] uma musculatura.
[00:25:54] Uma mochila cheia de tijolos.
[00:25:56] E aí em outro trecho ele diz que o ato
[00:25:58] físico do estupro que ele sofreu na infância
[00:26:00] e na adolescência
[00:26:01] sempre que acontecia
[00:26:03] parecia que ele deixava pra trás
[00:26:05] um pedaço de si.
[00:26:08] Até chegar num ponto em que
[00:26:10] ele se dava conta de que
[00:26:12] praticamente não sobrou nada
[00:26:14] dele. Porque esses pedaços
[00:26:15] eles não voltam com o tempo.
[00:26:18] Eu penso que essa imagem é muito
[00:26:19] boa pra gente
[00:26:23] descrever
[00:26:24] não só a infância, mas em qualquer etapa
[00:26:26] da vida. Em como uma
[00:26:28] parte do sujeito é removida
[00:26:30] à força e o peso
[00:26:31] se torna insuportável.
[00:26:34] E aí é muito difícil reconquistar
[00:26:36] a estabilidade.
[00:26:38] Tem esse movimento duplo então do abuso, que é
[00:26:40] arremessar um fardo enorme
[00:26:41] e retirar a capacidade de elaboração
[00:26:43] e simbolização ao mesmo tempo.
[00:26:53] Para a gente estudar,
[00:26:54] expandir as nossas linhas de pensamento,
[00:26:55] a gente convidou a Mili Lacombe.
[00:26:58] Ela é comentarista cultural,
[00:26:59] jornalista, escritor e roteirista.
[00:27:02] Faz vídeos muito legais
[00:27:04] nas mídias sociais.
[00:27:05] Vamos escutar um pouco.
[00:27:07] Eu acho que o feminismo, ele traz
[00:27:09] a consciência de que
[00:27:12] é uma questão social.
[00:27:13] De que não aconteceu nas nossas vidas
[00:27:15] porque a gente errou.
[00:27:17] Porque a gente estava com a saia muito curta.
[00:27:20] Porque a gente estava andando na rua
[00:27:21] num horário errado. Porque a gente bebeu
[00:27:23] muito. Porque a gente aceitou
[00:27:26] ir com o pai da nossa amiga
[00:27:27] para o quarto, sozinhas.
[00:27:30] Ele dá a dimensão do social
[00:27:32] e na hora que ele dá a dimensão do social
[00:27:34] ele faz a gente narrar
[00:27:36] o nosso sofrimento
[00:27:37] de um outro jeito. A gente olha
[00:27:40] para o lado e entende que outras mulheres
[00:27:41] passaram pelas mesmas coisas.
[00:27:44] E começa a entender
[00:27:46] que a gente precisa
[00:27:48] não de tristeza,
[00:27:50] mas de raiva.
[00:27:51] De raiva organizada.
[00:27:53] Como sugeriu a Audre Lorde.
[00:27:56] Para sair desse estado de coisas.
[00:27:58] E acho que a diferença entre
[00:28:00] adulto e criança.
[00:28:01] Comigo, por exemplo. Comigo aconteceu a primeira vez
[00:28:04] quando eu tinha 11 anos.
[00:28:05] Eu sabia que o que estava acontecendo
[00:28:07] foi o pai de uma amiga minha que me levou
[00:28:09] para o quarto. Algumas vezes
[00:28:11] isso não está claro na minha cabeça.
[00:28:13] Eu apaguei isso da minha memória.
[00:28:16] Eu não lembro quantas vezes.
[00:28:17] Mas eu tenho a memória bem nítida
[00:28:19] de uma das vezes. E o que ele fazia
[00:28:22] comigo naquele quarto.
[00:28:23] Eu sabia que não estava certo, mas ao mesmo tempo
[00:28:25] eu não conseguia sair. Já adulta
[00:28:28] eu tinha um outro entendimento
[00:28:30] óbvio do que estava acontecendo, mas ainda assim
[00:28:32] eu não consegui sair também.
[00:28:34] Eu acho que essas marcas
[00:28:36] de criança, talvez elas fiquem mais fundas.
[00:28:38] Elas são mais difíceis da gente
[00:28:40] alcançar e trazer para fora.
[00:28:42] Porque o que acontece
[00:28:43] na prática, é que mesmo pessoas
[00:28:45] com muito letramento a respeito do que é
[00:28:48] a cartilha de um relacionamento
[00:28:50] abusivo, tem muita
[00:28:52] dificuldade para entender
[00:28:53] quando elas estão dentro de um relacionamento
[00:28:56] abusivo. Eu acho que a história
[00:28:58] dos relacionamentos abusivos
[00:28:59] ela é melhor contada
[00:29:02] pelas pessoas que estão fora dele
[00:29:04] e enxergam.
[00:29:06] Eu consigo enxergar com muita facilidade
[00:29:07] quando uma amiga ou um amigo
[00:29:09] está dentro de um relacionamento abusivo.
[00:29:12] Mas recentemente eu vivi
[00:29:14] um e eu não enxerguei.
[00:29:15] Eu não enxerguei. Eu desconfiei
[00:29:18] mas eu não quis ver.
[00:29:20] Então eu acho muito importante
[00:29:22] que a gente esteja começando a se questionar.
[00:29:23] Respeito do que são os relacionamentos
[00:29:26] abusivos. Quais as técnicas
[00:29:28] de abuso dentro de um relacionamento
[00:29:29] desse tipo. E como a gente pode sair.
[00:29:32] Mas como tudo na vida
[00:29:33] depende muito da nossa rede de afetos.
[00:29:36] Para que a gente primeiro veja.
[00:29:38] Para que a gente enxergue.
[00:29:40] E uma vez vendo
[00:29:41] consiga ferramentas
[00:29:44] tecnologias para sair.
[00:29:46] Porque não é fácil
[00:29:47] mesmo depois de enxergar
[00:29:49] encontrar tecnologias para sair.
[00:29:51] E o feminismo oferece.
[00:29:53] Ele não só faz a gente enxergar
[00:29:55] como ele oferece caminhos de fuga.
[00:29:57] Rotas de fuga. E depois
[00:29:59] rotas para que a gente ajude
[00:30:01] outras pessoas a escaparem.
[00:30:03] Como todo o trauma
[00:30:05] do abuso sexual, se ele não é
[00:30:07] elaborado, ele vai ser
[00:30:09] uma âncora
[00:30:11] afundando a gente. Sem nem que a gente
[00:30:13] saiba porque a gente está
[00:30:15] se afogando. E sem que a gente
[00:30:17] entenda que águas são essas que estão fazendo
[00:30:19] a gente se afogar. A partir
[00:30:21] da ideia de que é um
[00:30:23] problema social. Então não aconteceu
[00:30:25] só com você. E a partir
[00:30:28] da ideia de que você
[00:30:29] narrando a sua dor
[00:30:31] você pode dar contornos a ela
[00:30:34] e com isso ir
[00:30:35] para a superfície, eu acho
[00:30:37] que tudo muda. O feminismo é bizarro.
[00:30:40] Por isso
[00:30:41] ele faz a gente enxergar
[00:30:43] que águas são essas que
[00:30:45] estão afogando a gente.
[00:30:47] Ele corta essa âncora
[00:30:49] que está deixando a gente
[00:30:52] se afogar. E aos
[00:30:53] poucos a gente vai indo para a superfície.
[00:30:55] E quando a gente chega na superfície
[00:30:57] a gente olha para o lado e vê uma multidão
[00:31:00] de mulheres
[00:31:02] e de outras pessoas
[00:31:03] que já foram abusadas.
[00:31:05] E a gente cola um trauma no outro.
[00:31:08] E aí a gente fala
[00:31:09] eu não saí ainda, mas eu sei como saí
[00:31:11] desse lugar.
[00:31:14] E se a gente não elabora
[00:31:15] a gente cai num lugar de muita
[00:31:17] amargura, de muita tristeza,
[00:31:19] de muito rancor. E eu costumo
[00:31:21] dizer que de todos os sentimentos
[00:31:23] amargura e rancor
[00:31:25] são os piores.
[00:31:27] Porque eles não levam a gente a lugar nenhum.
[00:31:30] A raiva é muito poderosa.
[00:31:32] E o feminismo
[00:31:33] ele é um letramento da raiva.
[00:31:36] Ele é uma linguagem
[00:31:37] da raiva. Ele é essa
[00:31:39] ferramenta de luta.
[00:31:42] A gente viu o muro
[00:31:43] e o feminismo dá as armas para a gente
[00:31:45] derrubar aquele muro. Porque a ideia
[00:31:48] da luta feminista
[00:31:49] não é que a gente necessariamente
[00:31:51] supere nossos traumas. Nossos traumas
[00:31:53] estão aqui e a gente vai ter que cada uma de nós
[00:31:55] superar da maneira que for. A ideia é que
[00:31:57] nunca mais mulheres
[00:31:59] e outras pessoas passem por isso.
[00:32:02] A luta fica mais bonita
[00:32:03] quando a gente entende que a gente não está
[00:32:05] lutando para a gente. Tem aquele
[00:32:07] uma vez eu ouvi um
[00:32:09] ditado que eu acho que é africano.
[00:32:11] É muito bonita a ideia de que você
[00:32:13] vai plantar uma árvore porque um dia
[00:32:15] você vai poder se descansar
[00:32:17] na sombra dela. Mas é mais
[00:32:19] bonita ainda a ideia de que você vai plantar uma
[00:32:21] árvore sabendo que não é
[00:32:23] você que vai usar aquela sombra.
[00:32:26] Alguém que ainda está nascendo
[00:32:27] vai deitar naquela sombra.
[00:32:29] Movimentos como o Me Too
[00:32:31] eles foram revolucionários à medida
[00:32:33] em que eles ofereceram
[00:32:35] um campo de possibilidades para que
[00:32:37] muitas mulheres conseguissem
[00:32:39] coragem, espaço,
[00:32:42] vísceras
[00:32:43] para tornar pública a nossa
[00:32:45] história. Ele não é só
[00:32:47] um campo de alegria e felicidade
[00:32:50] a partir do momento que a gente consegue falar
[00:32:51] olhar para o lado e ver que tem outras histórias
[00:32:53] como a nossa, a gente dá as mãos e vai
[00:32:55] alegre para a vida. Não é isso, porque
[00:32:57] na hora que a gente fala, a gente revive.
[00:33:00] Tem histórias muito antigas.
[00:33:01] Por exemplo, toda vez que eu conto
[00:33:03] a respeito do meu abuso aos
[00:33:05] 11 anos, eu volto para ele.
[00:33:07] Vem uma raiva muito grande. O meu abusador já
[00:33:09] morreu, mas a quantidade de noites que eu
[00:33:11] coloquei a cabeça no travesseiro pensando em como
[00:33:13] eu poderia matar ele, foram várias
[00:33:15] noites. Várias noites.
[00:33:17] Então, essa dimensão de violência, se não for
[00:33:19] organizada, ela pode
[00:33:20] envenenar a gente que sente tudo isso.
[00:33:23] Então, é preciso
[00:33:25] navegar por essas águas com muito cuidado.
[00:33:28] E também porque na hora que a gente se expõe,
[00:33:29] a sociedade se volta contra a gente.
[00:33:31] Uma sociedade patriarcal está absolutamente
[00:33:33] armada para silenciar
[00:33:35] a gente toda vez que a gente levanta a mão
[00:33:37] e diz, aconteceu comigo.
[00:33:39] A gente tem casos e casos que falam
[00:33:41] sobre isso. Então, eu acho
[00:33:43] que é inevitável, é o único caminho
[00:33:45] que a gente pode percorrer, mas
[00:33:47] ele não é um caminho sem espinhos.
[00:33:50] Como diz o Ayrton Krenak,
[00:33:51] quando a gente está na frente de um deserto,
[00:33:53] só resta a gente
[00:33:55] atravessar, dar o primeiro passo.
[00:33:57] E eu acho que a gente está
[00:33:58] na frente desse deserto e a gente já deu os primeiros
[00:34:01] passos.
[00:34:03] A gente agradece bastante a participação da Mili,
[00:34:05] nossa fala é muito corajosa
[00:34:08] e que
[00:34:08] nos provoca ter que
[00:34:11] relembrar algumas coisas
[00:34:13] bastante básicas,
[00:34:15] mas muito reprimidas
[00:34:17] e nem tão básicas para muita gente.
[00:34:19] Da mecânica social que a gente sabe
[00:34:21] que existe, historicamente,
[00:34:23] culturalmente, de que a mulher
[00:34:25] foi e continua sendo
[00:34:27] muitas vezes ensinada a não demonstrar
[00:34:29] o seu desejo.
[00:34:31] Então, quando o assunto é tesão,
[00:34:33] quando envolve interesse sexual,
[00:34:36] é possível que ela diga não
[00:34:37] mesmo quando quer dizer sim.
[00:34:40] O homem, por sua vez,
[00:34:41] é ensinado a ignorar e desafiar
[00:34:43] esse não, como se o não
[00:34:45] de qualquer mulher fosse sempre um sim
[00:34:47] disfarçado. Existem sim
[00:34:49] mulheres e mães
[00:34:52] que são abusadoras,
[00:34:53] principalmente em aspectos mais da violência
[00:34:55] física ou psicológica,
[00:34:57] que são as tantas histórias de maus tratos
[00:34:59] que a gente conhece
[00:35:01] e se depara muito na clínica.
[00:35:03] Mas a gente sabe que a grande maioria
[00:35:05] dos casos de abuso e assédio vem de homens.
[00:35:08] E isso passa
[00:35:09] por um grande desafio
[00:35:11] de reconstrução da masculinidade.
[00:35:14] Que ego masculino é esse
[00:35:15] que é tão frágil
[00:35:16] que não consegue lidar com uma negativa
[00:35:19] do outro? Esse
[00:35:20] ego de um homem que está
[00:35:22] hiperidentificado com
[00:35:24] o grande mito da virilidade
[00:35:27] de acreditar que vai conseguir sempre tudo
[00:35:29] independente da vontade do outro.
[00:35:31] E a gente está falando de homens héteros
[00:35:33] mas a gente também está falando de homens gays.
[00:35:36] E isso é uma coisa que começou
[00:35:37] a se falar mais abertamente
[00:35:39] recentemente. O homem gay
[00:35:41] que assedia numa festa,
[00:35:43] num banheiro,
[00:35:45] no transporte público, que assedia um motorista
[00:35:47] de aplicativo que está trabalhando.
[00:35:50] E aí por que que é assédio?
[00:35:51] Porque esse cara está numa posição subalterna
[00:35:54] ao passageiro que é o cliente.
[00:35:56] E aí esse homem que é assediado
[00:35:57] ou importunado, seja ele gay ou hétero,
[00:35:59] isso não interessa, também vai ter
[00:36:01] muita dificuldade de assumir isso.
[00:36:04] Até pra si mesmo.
[00:36:06] Porque é uma posição mais
[00:36:07] atípica pro homem.
[00:36:09] Isso de se queixar de ter sido tratado
[00:36:11] como um objeto sexual.
[00:36:14] O mais comum
[00:36:14] é esse homem que é assediado,
[00:36:17] ele pode fingir que se sentiu lisonjado
[00:36:20] ou alegar
[00:36:21] que isso não incomodou.
[00:36:23] Até porque a gente não vê muito os homens se permitindo
[00:36:25] ocupar um lugar frágil
[00:36:27] e vulnerável. De quem não conseguiu
[00:36:29] se defender. E porque
[00:36:31] existe esse pressuposto de que o homem
[00:36:33] é um sujeito que tem que estar sempre
[00:36:35] pronto pro sexo. Não pode
[00:36:37] negar fogo. Mas depois
[00:36:39] a ficha pode cair. Isso acontece.
[00:36:41] E aí vem uma série de afetos
[00:36:43] em relação a esse episódio, não se tornando
[00:36:45] inconscientes. Raiva do outro,
[00:36:48] o que pode abrir precedentes
[00:36:49] de homofobia.
[00:36:51] Nojo. Ou raiva de si por não ter reagido.
[00:36:54] Medo que aconteça de novo.
[00:36:56] Vergonha que alguém fique sabendo.
[00:36:58] Que façam
[00:36:59] bullying com ele. Enfim.
[00:37:01] O que a gente tem que pensar é que
[00:37:03] todo corpo tem
[00:37:05] limites que precisam ser respeitados.
[00:37:08] Não importa
[00:37:09] a roupa que você tá.
[00:37:12] Bom, o carnaval tá aí
[00:37:13] pra nos ajudar de uma forma
[00:37:15] muito extrema a
[00:37:17] recordar desses limites.
[00:37:19] E você tinha falado antes, né, André,
[00:37:21] essa imposição, da coação
[00:37:23] que é. E eu me pergunto, assim, se a gente tá
[00:37:25] perdendo um pouco esse
[00:37:27] tato. O tato subjetivo
[00:37:29] mesmo. E aí a gente apela pro tato físico
[00:37:31] de uma forma mais
[00:37:33] tática, que muitas vezes é
[00:37:35] invasiva, inapropriada.
[00:37:37] Ou mesmo essa história de sair
[00:37:38] enviando nude, não solicitada,
[00:37:42] sabe, sem claquete, sem
[00:37:43] contexto. Ou esses
[00:37:45] episódios de se aproveitar de
[00:37:47] pessoas que tão num estado inconsciente,
[00:37:49] dormindo, ou drogada,
[00:37:51] ou drogar a pessoa propositalmente
[00:37:53] pra cometer esses crimes.
[00:37:55] Bom, tem a história horrorosa
[00:37:57] da francesa que foi estuprada
[00:37:59] por muitos anos pelo marido
[00:38:01] e outras dezenas de homens.
[00:38:03] Então, atrocidades
[00:38:05] à parte, tem uma boa questão
[00:38:07] que gira em torno de tudo isso, que é sobre educação.
[00:38:10] Educação sexual.
[00:38:11] E a nossa relação com a pornografia,
[00:38:13] que é a nossa grande
[00:38:15] escola. E aí, como
[00:38:17] pensar melhor na relação de conversa
[00:38:19] e transparência que a gente tem que ter com
[00:38:21] crianças, com adolescentes, de poder
[00:38:23] falar abertamente sobre o seu corpo,
[00:38:25] sobre o corpo do outro, de estabelecer
[00:38:27] o que pode e o que
[00:38:29] não pode fazer, ou
[00:38:31] deixar o outro fazer.
[00:38:32] E o que pode ou não pode
[00:38:35] falar sobre o outro, sobre o
[00:38:37] corpo do outro, ou
[00:38:38] deixar o outro falar também.
[00:38:40] Nossa, Lucas, tanta coisa que você falou que
[00:38:42] me fez pensar.
[00:38:45] Especificamente isso que você disse sobre
[00:38:46] deixar falar. Porque a
[00:38:48] Millie trouxe no depoimento,
[00:38:51] dela, aquela imagem da âncora
[00:38:52] e de como o feminismo
[00:38:55] ou os feminismos ajudam a romper
[00:38:57] a corrente dessa
[00:38:59] âncora e deixar
[00:39:01] que o sujeito vá pra superfície, pra ver
[00:39:03] que tem uma série de outras pessoas que
[00:39:05] também passaram por experiências
[00:39:06] traumáticas, difíceis e que estão
[00:39:09] exatamente nesse campo. E aí, juntando
[00:39:11] isso que você disse e o que ela falou,
[00:39:14] me veio a imagem de que
[00:39:15] não dá pra gente falar
[00:39:17] debaixo d’água. A gente precisa
[00:39:19] exatamente conseguir respirar.
[00:39:21] E a gente precisa, inclusive, do outro
[00:39:22] pra poder apontar e nos ajudar a navegar
[00:39:25] algumas dessas situações.
[00:39:27] E como a gente fala aqui, Lucas,
[00:39:29] não existe sujeito fora da cultura. E é no caos
[00:39:31] da cultura que geralmente são forjadas as nossas
[00:39:33] fantasias.
[00:39:35] E na cultura que a gente habita,
[00:39:37] uma das fantasias inconscientes mais fundantes
[00:39:39] é a de que o homem é superior
[00:39:41] à mulher. Uma ideia
[00:39:43] de masculinidade que exige
[00:39:44] provas permanentes.
[00:39:47] A invasão, o submetimento,
[00:39:49] o assédio, o abuso,
[00:39:51] o estupro.
[00:39:52] É aquela história que a gente escuta
[00:39:54] de muitas mulheres estupradas por seus maridos
[00:39:57] em que elas dizem
[00:39:59] ele queria repetir o que ele
[00:40:01] via nos filmes pornô.
[00:40:03] A Vera Iaconelli publicou um texto
[00:40:05] muito interessante na Folha
[00:40:06] que o título é
[00:40:08] Por que o homem comum estupra?
[00:40:11] Em que ela fala dessa dimensão
[00:40:12] coletiva do estupro.
[00:40:15] Porque é como se o estupro fosse uma
[00:40:16] interlocução com a comunidade masculina.
[00:40:19] Mesmo que uma interlocução imaginária.
[00:40:21] É uma prestação de
[00:40:23] contas aos companheiros reais
[00:40:24] e virtuais. É uma
[00:40:26] reafirmação de que a ideia de masculinidade
[00:40:29] é construída em cima da hierarquia e
[00:40:30] do submetimento. Lá no
[00:40:33] É Só Sexo, o
[00:40:34] Darien Lieder vai inclusive articular uma ideia
[00:40:36] muito lúcida sobre como a sexualidade de muitos
[00:40:39] mas muitos homens
[00:40:40] vai se construir em cima de um desejo
[00:40:42] de vingança da posição de assujeitamento.
[00:40:46] A gente é resultado
[00:40:46] de uma relação muito desigual de poder.
[00:40:48] Os nossos cuidadores durante muito
[00:40:50] tempo fazem o que quiserem com a gente.
[00:40:53] A gente fala do cuidado,
[00:40:54] claro, numa lógica de responsabilidade, de afeto,
[00:40:57] de carinho, mas tem uma quantidade
[00:40:58] imensa de
[00:41:00] atravessamentos, de submetimentos
[00:41:02] que vão sendo armazenados no nosso
[00:41:04] inconsciente. E aí
[00:41:06] muitos homens vão extrair o
[00:41:08] prazer de uma identificação
[00:41:11] com o lugar de superior.
[00:41:13] E como bem nos ensina o
[00:41:14] binômio sadismo-mazoquismo, um
[00:41:16] jogo projetivo muito
[00:41:18] traiçoeiro de sentir prazer com a
[00:41:20] dor e com o suposto prazer
[00:41:22] sentido pela vítima.
[00:41:25] E aí você falou disso de
[00:41:26] não poder falar,
[00:41:28] não conseguir falar.
[00:41:30] E o que eu penso é que nesse campo
[00:41:32] do abuso, muita coisa também está
[00:41:34] colocada no não dito.
[00:41:36] Sabe, naquele sentido de
[00:41:38] ele ou ela diz
[00:41:40] que não quer, mas na verdade eu
[00:41:42] sei que quer. E aí a gente volta
[00:41:44] naquela ideia de usurpação.
[00:41:47] Porque é uma usurpação
[00:41:48] do limite. O outro diz
[00:41:50] ou intervém
[00:41:51] ou se nega, mas
[00:41:54] eu passo por cima disso mesmo assim.
[00:42:03] A gente pode puxar uma questão aí que eu fiquei
[00:42:06] pensando também de falar sobre perversão.
[00:42:08] Desse exercício exagerado
[00:42:10] e desmedido de poder.
[00:42:12] De controlar o outro e que
[00:42:14] está baseado em crenças, como você falou,
[00:42:16] misóginas, autoritárias.
[00:42:18] Mas que são
[00:42:20] injustificáveis. E esse é um lugar que o sujeito
[00:42:22] abusador ocupa, do qual ele não
[00:42:24] quer sair.
[00:42:26] Se a gente pensa na perversão como uma estrutura
[00:42:28] psíquica, bom, o problema
[00:42:30] é que infelizmente o sujeito perverso
[00:42:32] raramente vai buscar terapia
[00:42:34] ou análise.
[00:42:36] Ainda que ele sofra, mas é um sofrimento
[00:42:38] diferente. O mecanismo
[00:42:40] da perversão é o que o Freud vai
[00:42:42] chamar de denegação.
[00:42:44] Que não é aquela grande recusa da lei
[00:42:46] que existe na psicose, mas
[00:42:47] reconhecer que a lei existe, mas se sentir
[00:42:50] acima da lei. Então é verdade, existe uma
[00:42:52] lei, mas ela vale pra vocês, não pra mim.
[00:42:54] E esse gozo do perverso
[00:42:55] está em levar vantagem sobre o outro.
[00:42:58] É uma saída estratégica
[00:43:00] que, pra criar
[00:43:02] defesas contra a própria angústia,
[00:43:04] o sujeito produz angústia
[00:43:05] no outro.
[00:43:08] Não sei se adianta muito a gente se aliviar
[00:43:10] com isso, mas dá pra pensar que
[00:43:11] o perverso não é tão livre assim
[00:43:13] quanto parece. Porque ele é escravo
[00:43:16] do fetichismo, ele é movido
[00:43:18] pela angústia e não pelo desejo de prazer.
[00:43:20] E assim, de jeito nenhum
[00:43:22] todo sujeito abusador é um
[00:43:24] perverso típico, como a gente está
[00:43:26] colocando aqui. A maioria dos abusadores
[00:43:28] provavelmente são neuróticos mesmo.
[00:43:31] Mas assim, suspendendo
[00:43:32] um pouco talvez até essas estruturas,
[00:43:34] nomenclaturas e classificações,
[00:43:37] eu acho
[00:43:38] importante a gente pensar
[00:43:39] nessa nomeação
[00:43:41] definitiva de abusador,
[00:43:44] mas pensar também no abuso
[00:43:46] como uma posição
[00:43:47] que
[00:43:47] grande
[00:43:48] parte de nós
[00:43:50] em algum momento pode assumir.
[00:43:54] Sabe aquela história assim de
[00:43:55] meio meme
[00:43:57] que se fala hoje, que é talvez eu seja
[00:43:59] normal demais pra um namorado tóxico
[00:44:01] e tóxico demais pra um namorado normal?
[00:44:04] Porque
[00:44:04] é a delicadeza que a gente estava falando. Esses limites
[00:44:07] do abuso, eles
[00:44:09] são de alguma forma relativos.
[00:44:11] Eles são de alguma forma subjetivos.
[00:44:13] Eles variam conforme a cultura.
[00:44:14] O que não era abuso antes
[00:44:16] hoje pode ser.
[00:44:18] Outra cultura varia muito.
[00:44:20] Varia conforme a pessoa.
[00:44:22] Varia até conforme o seu momento de vida.
[00:44:24] Diante de um mesmo comportamento sexual
[00:44:26] de alguém, em um dia
[00:44:28] você pode se sentir muito ofendido
[00:44:30] e importunado
[00:44:31] e no outro dia ouvindo de outra pessoa
[00:44:34] isso pode não te abalar.
[00:44:36] Ou ainda pode até te citar.
[00:44:39] Então tem muita nuance.
[00:44:41] E obviamente
[00:44:41] essa necessidade de diálogo
[00:44:43] do respeito ao sim
[00:44:45] e ao não.
[00:44:47] E da gente conseguir respeitar,
[00:44:48] também, os nossos próprios nãos.
[00:44:51] Os nãos internos.
[00:44:52] Pois é, né, Lucas? Mas é difícil
[00:44:54] a gente não cair na tentação
[00:44:57] de pensar na perversão
[00:44:58] quando a gente está falando sobre casos de abuso.
[00:45:01] Você citou esse episódio
[00:45:03] muito estarrecedor
[00:45:04] da Gisele Pelicot.
[00:45:06] Talvez um dos mais estarrecedores que a gente tem a notícia
[00:45:08] pelo menos nos últimos anos.
[00:45:11] Ela descobri que era drogada
[00:45:13] pelo marido e estuprada por
[00:45:14] mais de 50 homens.
[00:45:17] Mas para além da barbárie,
[00:45:18] desse caso, onde a gente localiza
[00:45:20] psiquicamente esse marido?
[00:45:23] Inclusive se a gente pensar
[00:45:24] na perversão como um prazer desmedido
[00:45:26] e sem mediação da dor alheia.
[00:45:29] Ou seja,
[00:45:30] precisa inclusive dopar, que é para romper
[00:45:32] ou silenciar qualquer
[00:45:34] barreira possível e extrair prazer
[00:45:36] disso, dessa posição de vulnerabilidade.
[00:45:40] Mas para além
[00:45:41] da barbárie desse caso e da dor
[00:45:43] dessa mulher, o que me parece muito fundamental
[00:45:44] é a força que ela tem de estar
[00:45:46] na frente das câmeras.
[00:45:48] De falar sobre tudo isso publicamente.
[00:45:52] Inclusive de manter o sobrenome
[00:45:53] de casada, teoricamente
[00:45:54] o nome do marido, sabe?
[00:45:57] Ela renunciou ao direito
[00:45:59] ao anonimato
[00:46:00] e eu penso que é uma tentativa
[00:46:03] de transferir pelo menos uma
[00:46:05] parte da vergonha de volta
[00:46:07] para os acusados.
[00:46:09] A decisão dela de tornar
[00:46:11] tudo isso público com o nome
[00:46:13] que veio do marido
[00:46:14] é um sinal pra mim de que ela
[00:46:17] recusa o lugar de vítima
[00:46:18] passiva. Eu não tô dizendo que toda
[00:46:20] vítima de abuso tem que se colocar
[00:46:22] publicamente. Não. Não é isso
[00:46:24] que eu tô dizendo. Mas eu
[00:46:26] fico pensando nesse caso como uma tentativa
[00:46:28] que ela tá fazendo de tentar expulsar
[00:46:30] o Dominique de dentro dela. De retomar
[00:46:33] as palavras.
[00:46:34] É um antídoto contra
[00:46:36] uma espécie também de retorno do
[00:46:38] desmentido. Convocando o outro
[00:46:40] conceito fundamental do Ferenze.
[00:46:42] Que resumindo bastante,
[00:46:45] muitas vezes pessoas que se
[00:46:46] sentem vítimas ou que atravessam a
[00:46:48] esses episódios traumáticos acabam sendo
[00:46:50] desmentidas. Inclusive por pessoas próximas.
[00:46:53] Que é um
[00:46:54] mecanismo muito forte de retraumatização.
[00:46:57] Porque vai discreditar
[00:46:59] a percepção, o sofrimento,
[00:47:01] a própria condição de sujeito
[00:47:03] de quem vivenciou a situação traumática.
[00:47:05] E aí quem acaba
[00:47:06] sendo desmentido não é o evento, mas é o
[00:47:08] sujeito inteiro.
[00:47:10] Porque quando o sujeito é desmentido, a cena
[00:47:12] traumática volta.
[00:47:15] E o direito à palavra e
[00:47:16] simbolização do sofrimento é
[00:47:18] de novo roubado ou sequestrado.
[00:47:21] É meio por aí
[00:47:22] que eu enxergo a
[00:47:24] Gisele nesse momento e essa
[00:47:26] tentativa de
[00:47:27] colocar a público.
[00:47:31] E pegando o que você tinha dito anteriormente,
[00:47:33] Lucas, a gente também sabe
[00:47:34] que uma das dimensões mais difíceis do
[00:47:36] traumático é conseguir
[00:47:38] falar sobre o traumático. E quando
[00:47:40] a gente não consegue elaborar, a gente repete.
[00:47:43] Tem uma história que eu acho muito impressionante
[00:47:45] que o Edouard Louis,
[00:47:46] o escritor francês
[00:47:48] descreve sobre a mãe dele.
[00:47:50] Nesse projeto tão ambicioso
[00:47:52] de autobiografia que ele tem.
[00:47:55] No livro Lutas e Metamorfoses
[00:47:56] de uma Mulher, ele conta a história da libertação
[00:47:59] da mãe dele, que lutava
[00:48:00] pelo direito de ser mulher contra a não existência
[00:48:02] que era imposta a ela pelo pai
[00:48:04] do Louis.
[00:48:06] E como essa mulher sobreviveu àquilo
[00:48:08] que deveria ter destroçado ela.
[00:48:11] Ela consegue bancar uma separação
[00:48:12] muito dura e, tempos depois,
[00:48:14] ela se envolve com outro homem
[00:48:16] e passa novamente a se
[00:48:18] sentir submetida à degradação.
[00:48:20] E aí é um outro livro em que o Edouard Louis
[00:48:22] vai descrever, no Munique Se Liberta,
[00:48:24] como essa mulher vai precisar
[00:48:26] de muito apoio e muita força para conseguir
[00:48:28] atravessar o traumático que se repetiu.
[00:48:30] Ele tem uma perspectiva muito interessante
[00:48:32] sobre como é difícil
[00:48:34] a gente interromper
[00:48:36] circuitos e ciclos de violência.
[00:48:38] Como um dos princípios básicos da violência
[00:48:40] é a repetição e é o silêncio.
[00:48:42] Não é por acaso
[00:48:44] que a violência é tão recorrente no Brasil.
[00:48:46] A gente só consegue combater violência
[00:48:48] com mais violência e não necessariamente
[00:48:50] com palavra e com lei.
[00:48:52] O Derrida, o filósofo francês,
[00:48:54] vai trazer uma ideia de
[00:48:56] espectralidade.
[00:48:58] Ele diz que existem espectros na nossa vida,
[00:49:00] algo que anula
[00:49:02] a posição entre o presente e o ausente.
[00:49:04] Um espectro é uma
[00:49:06] espécie de fantasma, alguma coisa que existe
[00:49:08] e não existe. E a violência
[00:49:10] é um pouco isso, uma assombração.
[00:49:12] E olha como o abuso
[00:49:14] está nesse campo. A gente fala,
[00:49:16] inclusive, de o abuso.
[00:49:18] Como se a gente fosse limitar
[00:49:20] a um único episódio.
[00:49:22] Como se tivesse fim.
[00:49:24] Mas a verdade é que geralmente, como tudo
[00:49:26] no campo traumático, a gente experimenta
[00:49:28] uma cadeia de abusos.
[00:49:30] E o abuso
[00:49:32] e o assédio vão se diluindo
[00:49:34] e se apresentando em vários campos da nossa vida.
[00:49:36] Nas relações,
[00:49:38] no trabalho, na família,
[00:49:40] nas mídias sociais.
[00:49:42] E a parte mais difícil
[00:49:44] dessa vivência
[00:49:46] é interromper o próximo capítulo.
[00:49:48] É superar a sensação de que
[00:49:50] a ausência dos abusos, na verdade,
[00:49:52] está nos indicando que tem uma incidência
[00:49:54] prestes a acontecer.
[00:49:56] O próximo episódio está logo ali.
[00:49:58] Essa é a sintomatologia do
[00:50:00] estresse pós-traumático. Está prestes
[00:50:02] a acontecer. E eu não consigo sequer falar
[00:50:04] sobre isso.
[00:50:12] E para a gente aprofundar ainda mais a complexidade
[00:50:14] desse tema, vamos escutar a Ana Laura Prats.
[00:50:16] Ana Laura é dona de casa,
[00:50:18] mãe,
[00:50:20] psicanalista do campo lacaniano, escritora
[00:50:22] e está por trás do podcast
[00:50:24] Ouvindo Vozes.
[00:50:26] Falar de abuso a partir da psicanálise
[00:50:28] sempre
[00:50:30] impõe um desafio
[00:50:32] que é a interface
[00:50:34] entre
[00:50:36] a noção de
[00:50:38] sujeito com a qual
[00:50:40] a psicanálise trabalha
[00:50:42] e a questão social
[00:50:44] e política envolvida
[00:50:46] nesse debate. Durante algum
[00:50:48] tempo, a gente aprendia
[00:50:50] que haveria uma oposição
[00:50:52] entre a chamada teoria
[00:50:54] do trauma
[00:50:56] elaborada pelo Freud,
[00:50:58] que a neurose seria provocada
[00:51:00] por justamente uma
[00:51:02] cena de abuso
[00:51:04] sexual sofrido na infância
[00:51:06] e que depois teria
[00:51:08] sido substituída
[00:51:10] pela noção de fantasia inconsciente.
[00:51:12] E se
[00:51:14] supunha que esse avanço
[00:51:16] digamos assim da teoria
[00:51:18] a partir da escuta clínica
[00:51:20] dos casos significaria
[00:51:22] que o sujeito
[00:51:24] o paciente ou a paciente
[00:51:26] teria inventado a cena
[00:51:28] chamada cena de sedução
[00:51:30] ou a cena de abuso.
[00:51:32] E no fundo nunca houve essa
[00:51:34] oposição porque
[00:51:36] a noção de realidade
[00:51:38] com a qual a psicanálise
[00:51:40] opera é uma noção
[00:51:42] extremamente sofisticada
[00:51:44] que implica
[00:51:46] em não haver exatamente
[00:51:48] uma separação
[00:51:50] absoluta entre
[00:51:52] o que acontece na realidade
[00:51:54] material,
[00:51:56] objetiva e o que acontece
[00:51:58] no mundo da fantasia.
[00:52:00] Significa que nós
[00:52:02] sempre estamos
[00:52:04] interpretando os acontecimentos
[00:52:06] a partir da nossa subjetividade
[00:52:08] o que de modo algum
[00:52:10] implica em afirmar
[00:52:12] que os fatos e
[00:52:14] acontecimentos
[00:52:16] não tenham ocorrido
[00:52:18] com aquele sujeito em questão.
[00:52:20] Então o primeiro ponto
[00:52:22] que precisa estar bem claro
[00:52:24] é que não há oposição
[00:52:26] entre trauma e fantasia.
[00:52:28] Primeiro porque num certo sentido
[00:52:30] o encontro com o sexual
[00:52:32] ele sempre é traumático
[00:52:34] mesmo que não aconteça
[00:52:36] algum abuso concreto
[00:52:38] estrito senso
[00:52:40] porque o psiquismo
[00:52:42] nunca consegue
[00:52:44] toda a experiência
[00:52:46] do encontro com o sexual
[00:52:48] nós não temos palavras suficientes
[00:52:50] para dar conta de elaborar
[00:52:52] esse encontro que a um só tempo
[00:52:54] provoca uma experiência
[00:52:56] de satisfação
[00:52:58] de gozo e ao mesmo tempo
[00:53:00] mal estar, ao mesmo tempo incompreensão
[00:53:02] e por outro lado
[00:53:04] qualquer experiência humana
[00:53:06] sempre é uma interpretação
[00:53:08] digamos da experiência
[00:53:10] e cada sujeito vai
[00:53:12] entender, vai
[00:53:14] experienciar de uma maneira diferente.
[00:53:16] Um outro ponto importante
[00:53:18] que a psicanálise traz
[00:53:20] é que qualquer experiência
[00:53:22] traumática
[00:53:24] qualquer experiência de abuso
[00:53:26] sobretudo abuso sexual
[00:53:28] sofrido na vida adulta
[00:53:30] ele sempre vai
[00:53:32] remeter a alguma
[00:53:34] experiência do infantil
[00:53:36] e do encontro com o sexual
[00:53:38] na infância, mesmo que
[00:53:40] não tenha sido uma experiência
[00:53:42] concretamente
[00:53:44] abusiva na infância
[00:53:46] ela vai, a experiência atual
[00:53:48] ela vai dialogar
[00:53:50] com outras experiências
[00:53:52] da infância que
[00:53:54] de alguma maneira
[00:53:56] constituíram a subjetividade
[00:53:58] desse sujeito
[00:54:00] que está passando por essa experiência
[00:54:02] atual. Essa foi uma das grandes
[00:54:04] descobertas também do Freud
[00:54:06] a partir de um determinado momento
[00:54:08] ele
[00:54:10] não trabalha mais com
[00:54:12] uma oposição entre neuroses
[00:54:14] atuais e neuroses de defesa
[00:54:16] que seriam essas neuroses construídas
[00:54:18] na infância e passa a
[00:54:20] considerar que no fundo todos os
[00:54:22] sintomas neuróticos de alguma
[00:54:24] maneira remetem à infância. Então isso
[00:54:26] também é algo muito importante
[00:54:28] a gente levar em conta que
[00:54:30] os abusos que acontecem na fase
[00:54:32] adulta eles atualizam
[00:54:34] outras experiências que
[00:54:36] muitas vezes estão
[00:54:38] recalcadas, que o sujeito não
[00:54:40] lembra, mas que estão ali
[00:54:42] de alguma forma operando
[00:54:44] ativamente nas experiências
[00:54:46] atuais. Um outro ponto que eu
[00:54:48] considero bem importante
[00:54:50] é esclarecer
[00:54:52] que existe uma diferença
[00:54:54] entre ser
[00:54:56] vítima de um acontecimento traumático
[00:54:58] seja ele
[00:55:00] sexual, um abuso sexual
[00:55:02] um abuso psicológico
[00:55:04] ou uma situação violenta
[00:55:06] de qualquer outra ordem
[00:55:08] mesmo violências sociais
[00:55:10] traumas, por exemplo
[00:55:12] de guerra com os quais Freud trabalhou
[00:55:14] muito, então
[00:55:16] a diferenciação entre
[00:55:18] ser vítima de um
[00:55:20] ato violento, de uma cena violenta
[00:55:22] e a vitimização
[00:55:24] a vitimização
[00:55:26] que é uma manifestação
[00:55:28] neurótica de se
[00:55:30] desimplicar dos
[00:55:32] acontecimentos que acontecem
[00:55:34] na vida quaisquer que eles sejam
[00:55:36] durante muito tempo se
[00:55:38] convencionou de alguma forma
[00:55:40] que uma análise
[00:55:42] precisaria levar o sujeito
[00:55:44] a se implicar
[00:55:46] nos acontecimentos
[00:55:48] mesmo nos acontecimentos traumáticos
[00:55:50] e isso não deixa de ser verdade
[00:55:52] nós que trabalhamos com a clínica
[00:55:54] sabemos que
[00:55:56] essa é uma parte importante do tratamento
[00:55:58] até pro sujeito poder elaborar
[00:56:00] e sair e conseguir
[00:56:02] se desvencilhar daquela cena traumática
[00:56:04] e não ficar vivendo
[00:56:06] eternamente na cena
[00:56:08] da violência ou na cena do abuso
[00:56:10] porque esse é o
[00:56:12] grande ponto, a cena
[00:56:14] do abuso, a cena traumática
[00:56:16] ela não se resume ao momento em que
[00:56:18] ela aconteceu, ela se perpetua na vida
[00:56:20] do sujeito e isso é o que causa
[00:56:22] a maior quantidade de
[00:56:24] transtornos e de
[00:56:26] dificuldades pro sujeito lidar
[00:56:28] e viver com essa situação
[00:56:30] como se ele ficasse num eterno
[00:56:32] estado de expectativa de
[00:56:34] que aquilo pudesse voltar a acontecer
[00:56:36] então poder
[00:56:38] reviver a cena
[00:56:40] simbolicamente
[00:56:42] elaborar, processar e
[00:56:44] conseguir sair da cena
[00:56:46] é algo muito importante
[00:56:48] num processo de análise
[00:56:50] mas a gente não pode confundir
[00:56:52] essa defesa neurótica
[00:56:54] da vitimização com
[00:56:56] em contrapartida ajudar
[00:56:58] o sujeito a se reconhecer como vítima
[00:57:00] isso também é muito importante
[00:57:02] porque existe uma dificuldade
[00:57:04] digamos narcísica
[00:57:06] de se reconhecer como vítima
[00:57:08] se reconhecer como vítima é uma coisa muito difícil
[00:57:10] não é algo fácil
[00:57:12] porque narcisicamente
[00:57:14] ninguém quer reconhecer
[00:57:16] que foi usado
[00:57:18] que foi abusado
[00:57:20] que foi enganado
[00:57:22] que foi muitas vezes manipulado
[00:57:24] quando a gente está falando de abuso psicológico
[00:57:26] por exemplo
[00:57:28] então essa sutileza
[00:57:30] de poder ajudar
[00:57:32] na clínica sujeitos
[00:57:34] que muitas vezes
[00:57:36] até aceitam situações
[00:57:38] e se perpetuam em situações de abuso
[00:57:40] justamente por não conseguirem
[00:57:42] reconhecer que são vítimas
[00:57:44] e também na tentativa de salvar
[00:57:46] muitas vezes o agressor
[00:57:48] porque é muito comum
[00:57:50] que o agressor seja alguém conhecido
[00:57:52] alguém por quem
[00:57:54] o sujeito tem uma relação afetiva
[00:57:56] tem uma relação ambígua
[00:57:58] tem muitas vezes uma relação de dependência
[00:58:00] emocional
[00:58:02] então essa é uma condução clínica
[00:58:04] que eu considero bastante relevante também
[00:58:06] em relação ao uso das mídias
[00:58:08] e das redes sociais para denúncias de abuso
[00:58:10] eu acho que a primeira coisa
[00:58:12] que precisa ser levado em conta
[00:58:14] é o componente político
[00:58:16] as vítimas de violência
[00:58:18] de abuso
[00:58:20] elas tem todo o direito
[00:58:22] de vir a público
[00:58:24] de denunciar
[00:58:26] porque em geral
[00:58:28] as vítimas são mulheres
[00:58:30] e a gente sabe que as mulheres
[00:58:32] foram silenciadas
[00:58:34] quando não estigmatizadas
[00:58:36] quando não
[00:58:38] culpabilizadas
[00:58:40] pela própria violência sofrida
[00:58:42] então
[00:58:44] enquanto um instrumento
[00:58:46] de luta
[00:58:48] e de visibilidade
[00:58:50] e de poder dar voz
[00:58:52] a quem historicamente
[00:58:54] sempre sofreu violência
[00:58:56] e teve que se calar
[00:58:58] esse ato de vir a público
[00:59:00] poder falar da violência
[00:59:02] sofrida
[00:59:04] correndo o risco inclusive
[00:59:06] de ser revitimizada
[00:59:08] porque muitas vezes
[00:59:10] em geral as mulheres
[00:59:12] que sofrem abusos
[00:59:14] elas são acusadas
[00:59:16] de histeria
[00:59:18] são acusadas de estar inventando
[00:59:20] são acusadas de
[00:59:22] serem falsas denúncias
[00:59:24] e na maior parte das vezes
[00:59:26] as denúncias são verdadeiras
[00:59:28] existem já
[00:59:30] estatísticas em relação a isso
[00:59:32] a ocorrência de falsas denúncias
[00:59:34] é desproporcionalmente
[00:59:36] inferior
[00:59:38] as denúncias verdadeiras
[00:59:40] então eu acho que é um instrumento
[00:59:42] político muito importante
[00:59:44] evidentemente que
[00:59:46] não se trata de fomentar
[00:59:48] políticas de cancelamento
[00:59:50] ou fenômenos de massa
[00:59:52] que acabam condenando pessoas
[00:59:54] antes de verificar
[00:59:56] se o fato realmente aconteceu
[00:59:58] então a gente tem que tomar o devido cuidado
[01:00:00] em relação a isso
[01:00:02] mas sem tirar o direito
[01:00:04] de uma população
[01:00:06] que sempre sofreu calada
[01:00:08] poder usar um instrumento potente
[01:00:10] que existe hoje
[01:00:12] para poder denunciar a violência sofrida
[01:00:14] agora as questões subjetivas
[01:00:16] que estão em jogo
[01:00:18] quando isso vem à tona
[01:00:20] precisam também ser tratadas
[01:00:22] num outro nível que não no nível público
[01:00:24] então a gente está aí numa interface
[01:00:26] entre público e privado
[01:00:28] que é muito delicada
[01:00:30] e que precisa ser tratada com a devida cautela
[01:00:32] muito legal escutar a Ana Laura
[01:00:34] trazer esse olhar bem psicanalítico
[01:00:36] de como a psicanálise também nos ajuda
[01:00:38] a lidar com essa rede de ambivalências
[01:00:40] porque tudo complica
[01:00:42] radicalmente
[01:00:44] quando os casos acontecem
[01:00:46] dentro do ambiente familiar
[01:00:48] que é a grande maioria dos casos
[01:00:50] e aí a gente tem esses afetos
[01:00:52] e relações que são contraditórios
[01:00:54] o abusador não é um estranho
[01:00:56] mas alguém que a gente gosta
[01:00:58] alguém que a gente admira, que a gente confia
[01:01:00] ou confiava, que a gente ama
[01:01:02] ou como diz a Bell Hooks
[01:01:04] onde há abuso é porque
[01:01:06] a prática amorosa falhou
[01:01:08] e o que a gente pensa às vezes
[01:01:10] é até que assim
[01:01:12] um amor verdadeiro ou incondicional
[01:01:14] ele exige que eu possa perdoar
[01:01:16] um abuso
[01:01:18] isso vai mostrar que meu amor é mais forte
[01:01:20] ou será que
[01:01:22] o amor nos torna fraco
[01:01:24] então?
[01:01:26] como é que a gente vai continuar amando
[01:01:28] mesmo apesar de sofrer um episódio de abuso
[01:01:30] ou muitos episódios
[01:01:32] e aí vira esse terrorismo íntimo
[01:01:34] que a gente fica
[01:01:36] bom, a gente consegue então parar de amar
[01:01:38] o que tem pra fazer nessa hora
[01:01:40] você denuncia
[01:01:42] você tenta perdoar, você rompe
[01:01:44] corta os laços
[01:01:46] como que pode
[01:01:48] existir isso de amar um abusador
[01:01:50] ou de sentir dor
[01:01:52] mas também sentir algum nível de prazer
[01:01:54] são afetos muito conflitantes
[01:01:56] e que vão criando essa cisão
[01:01:58] psíquica aí no sujeito
[01:02:00] que a gente já falou
[01:02:02] e aí eu queria retomar o título do episódio
[01:02:04] e falar mais sobre o silêncio
[01:02:06] ou o silenciamento
[01:02:08] como você falou um pouco atrás
[01:02:10] ou esse segredo
[01:02:12] e aí como essas operações vão gerar
[01:02:14] mais culpa
[01:02:16] e mais vergonha na vítima
[01:02:18] culpa por ter tido
[01:02:20] alguma parte nessa história
[01:02:22] ou por talvez até ter sentido
[01:02:24] algum tipo de prazer
[01:02:26] ou por ter achado que provocou o outro
[01:02:28] mas assim
[01:02:30] ou mesmo por falar sobre esse assunto
[01:02:32] e provocar algum tipo de desconforto
[01:02:34] ou de desmonte
[01:02:36] exato, porque aí tem os possíveis efeitos
[01:02:38] dessa revelação, dessa exposição
[01:02:40] que podem ser tão assustadores
[01:02:42] que a vítima pode achar
[01:02:44] pior permanecer
[01:02:46] numa situação de abuso
[01:02:48] tem o medo, tem as ameaças
[01:02:50] o abusador pode ameaçar a vítima com chantagem
[01:02:52] se ela contar pra alguém
[01:02:54] alguma coisa vai acontecer
[01:02:56] junto com a culpa, com o medo
[01:02:58] tem a vergonha
[01:03:00] a vergonha de que isso pode manchar a sua imagem
[01:03:02] ou também manchar a imagem do abusador
[01:03:04] que é alguém
[01:03:06] talvez da família, alguém que é importante
[01:03:08] como é que eu vou ser a pessoa que vou revelar
[01:03:10] pra todo mundo
[01:03:12] de alguma forma quase que tentar destruir
[01:03:14] a vida dessa pessoa
[01:03:16] porque ela parece que destruiu a minha
[01:03:18] ou destruir a família
[01:03:20] sim, a instituição, ou perder o emprego
[01:03:22] tem esse conceito do quid pro quo
[01:03:24] que é essa frase latina
[01:03:26] que diz que é algo que é dado
[01:03:28] ou recebido em troca de alguma coisa
[01:03:30] então você consegue um emprego, mantém um emprego
[01:03:32] se você fizer isso, se você topar isso
[01:03:34] se você não contar
[01:03:36] e aí começa uma grande manipulação
[01:03:38] então as consequências
[01:03:40] psíquicas ou
[01:03:42] reais na vida concreta de uma
[01:03:44] vítima são muito vastas
[01:03:46] mas eu acho que tem alguns estereótipos
[01:03:48] que a gente tem que questionar
[01:03:50] com relação às vítimas
[01:03:52] tem esse de que alguém
[01:03:54] que sofreu abuso sexual
[01:03:56] não vai mais ter satisfação
[01:03:58] sexual e que vai estar
[01:04:00] sempre submetido a só
[01:04:02] dar prazer pro outro, a não pensar
[01:04:04] no seu próprio prazer
[01:04:06] isso pode acontecer, mas não acontece com todo mundo
[01:04:08] tem as questões de
[01:04:10] abalo na autoestima, de você não conseguir
[01:04:12] não, de você topar coisas que você não quer
[01:04:14] e de ficar se colocando de novo
[01:04:16] no papel de abusado, isso pode acontecer
[01:04:18] mas também não tá
[01:04:20] sobre determinado, tanto é que
[01:04:22] como você falou um pouco antes
[01:04:24] a gente sabe que grande parte dos
[01:04:26] abusadores são adultos que foram
[01:04:28] abusados quando criança
[01:04:30] o que não justifica os seus atos, mas é uma realidade
[01:04:32] e aí nesses casos a saída
[01:04:34] que foi encontrada é uma incorporação
[01:04:36] da linguagem do abuso
[01:04:38] uma ética do abuso, que se repete
[01:04:40] mas na posição contrária
[01:04:42] como um tipo de retaliação
[01:04:44] fui abusado, agora é minha vez de abusar
[01:04:46] e aí nesses casos mais graves
[01:04:48] parece que só existem essas duas posições
[01:04:50] pro sujeito ocupar, ou a passividade
[01:04:52] da vítima, ou a atividade do agressor
[01:04:54] e isso se instaura muitas
[01:04:56] vezes depois também na transferência, na análise
[01:04:58] o analisando vai reencenar aquela posição
[01:05:00] vai convocar o analista
[01:05:02] e aí o analista vai ter que conseguir
[01:05:04] responder de um outro lugar
[01:05:06] pra construir uma nova posição
[01:05:08] em análise, em transferência
[01:05:10] e quebrar esse ciclo
[01:05:12] de perpetuação que vai sendo às vezes
[01:05:14] transgeracional, e a gente pode pensar
[01:05:16] muito em agressão física também
[01:05:18] quando você é apanha dos seus pais
[01:05:20] você vai batendo os seus filhos
[01:05:22] esse é o grande entrado, como é que você quebra isso
[01:05:24] como é que rompe o ciclo de violência
[01:05:26] é, pois é Lucas
[01:05:28] lembrei de como
[01:05:30] antes da gente gravar esse episódio
[01:05:32] acho que você tocou num ponto
[01:05:34] muito interessante, de como esse tema
[01:05:36] ele geralmente é abordado
[01:05:38] na ótica da pessoa
[01:05:40] muita gente chama essa conversa pra si
[01:05:42] hum, sim
[01:05:44] começa como uma elaboração
[01:05:46] mas acaba indo pra um caso pessoal
[01:05:48] enfim, não existe nada de errado com isso
[01:05:50] mas me faz pensar exatamente
[01:05:52] nessa associação
[01:05:54] com a análise que você fez
[01:05:56] porque uma análise é um lugar
[01:05:58] em que você pode falar sobre esse assunto
[01:06:00] sem que alguém vá te interromper
[01:06:02] ou colocar a sua própria experiência
[01:06:04] pessoal em cima do seu relato
[01:06:06] o analista não vai dizer
[01:06:08] eu também passei por isso
[01:06:10] bom, espera-se que não
[01:06:12] é interessante pensar nisso
[01:06:14] quando a gente escuta o relato de alguém
[01:06:16] quando alguém divide a sua história pessoal
[01:06:18] vem alguma coisa muito forte
[01:06:20] dentro de nós, dizer
[01:06:22] ah, eu também passei por isso
[01:06:24] ou eu sei o que você está sofrendo
[01:06:26] ou eu entendo
[01:06:28] que é também uma forma de interromper
[01:06:30] mesmo que a gente não queira invalidar
[01:06:32] a gente vê uma chance muito valiosa
[01:06:34] de colocar pra fora uma dor
[01:06:36] que está perdida
[01:06:38] nas nossas esquinas mais íntimas
[01:06:40] e coberta pelo déficit
[01:06:42] de escuta
[01:06:44] mas o outro provavelmente
[01:06:46] também está vindo de um lugar semelhante
[01:06:48] e nesse momento
[01:06:50] o eu te entendo
[01:06:52] ou eu também vivi isso
[01:06:54] ou eu lidei dessa forma
[01:06:56] não é o que necessariamente
[01:06:58] ou geralmente está se buscando
[01:07:00] mas o que está se buscando
[01:07:02] é uma das partes mais humanas
[01:07:04] que existem na nossa experiência
[01:07:06] que é eu te escuto
[01:07:08] e a sua dor importa
[01:07:10] vamos falar mais da sua dor
[01:07:12] é uma delicadeza que a gente está o tempo inteiro
[01:07:14] convocando e eu também penso
[01:07:16] que é o silêncio que a gente colocou no título desse episódio
[01:07:18] o silêncio
[01:07:20] no sentido não de silenciar
[01:07:22] mas de também
[01:07:24] conseguir escutar em silêncio
[01:07:26] uma prática do testemunho
[01:07:28] mesmo, como diz o Luiz Claudio Figueiredo
[01:07:30] num dos meus textos favoritos
[01:07:32] porque se o abuso
[01:07:34] como o traumático de uma forma geral
[01:07:36] e a violência
[01:07:38] tem o poder de aniquilar
[01:07:40] a palavra
[01:07:42] um dos passos mais difíceis
[01:07:44] é conseguir encontrar palavras
[01:07:46] para se expressar o que viveu
[01:07:48] é sair desse circuito
[01:07:50] aprisionador de silêncios
[01:07:52] o silêncio do abusador
[01:07:54] dos cúmplices
[01:07:56] das eventuais pessoas para quem se tenha contado
[01:07:58] e que tenham recomendado
[01:08:00] que você deve manter isso em silêncio
[01:08:02] no ambiente de trabalho isso é muito recorrente
[01:08:04] por exemplo
[01:08:06] e o silêncio imposto pelo próprio psiquismo
[01:08:08] como a gente falou no começo da nossa conversa
[01:08:10] é que bom que você trouxe isso André
[01:08:12] eu tenho mesmo um comentário sobre isso
[01:08:14] tenho receio inclusive de ser mal interpretado
[01:08:16] acho que existe esse risco
[01:08:18] mas eu vou tentar me expressar aqui da melhor forma
[01:08:20] porque num tempo
[01:08:22] hiper midiático
[01:08:24] vamos pensar um pouco
[01:08:26] sobre quais podem ser os efeitos
[01:08:28] em si e no outro
[01:08:30] de você produzir
[01:08:32] e publicar
[01:08:34] e patrocinar o seu post
[01:08:36] e consumir conteúdos
[01:08:38] sobre experiências e relatos pessoais
[01:08:40] de abuso
[01:08:42] assim como
[01:08:44] falar e gerar conteúdo sobre suicídio
[01:08:46] dependendo de como isso é feito
[01:08:48] isso pode ser perigoso
[01:08:50] porque pode estimular ao suicídio
[01:08:52] ou falar sobre pedofilia
[01:08:54] pode ser um estímulo a pedofilia
[01:08:56] os relatos sobre abusos
[01:08:58] são importantes
[01:09:00] mas produzem diferentes efeitos
[01:09:02] nas pessoas
[01:09:04] o movimento que a Milly mencionou aqui
[01:09:06] do Me Too que é ali de 2017
[01:09:08] essa campanha global contra o assédio sexual
[01:09:10] violência de gênero
[01:09:12] uma exposição de casos
[01:09:14] que foi levando a um efeito cascata
[01:09:16] com milhares de pessoas
[01:09:18] principalmente mulheres
[01:09:20] compartilhando as suas próprias histórias
[01:09:22] de assédio, de abuso, de violência
[01:09:24] em vários setores
[01:09:26] esse foi um movimento muito importante
[01:09:28] para trazer essa discussão
[01:09:30] sobre consentimento
[01:09:32] sobre cultura do silêncio
[01:09:34] que protege o agressor
[01:09:36] tudo isso inspirou várias mudanças
[01:09:38] legais, políticas, culturais
[01:09:40] em vários países
[01:09:42] encorajou as vítimas a buscarem justiça
[01:09:44] e a não se sentirem tão sozinhas
[01:09:46] ao mesmo tempo
[01:09:48] é muito impressionante como
[01:09:50] foi se proliferando
[01:09:52] esses vídeos de exposições públicas
[01:09:54] de histórias pessoais de abuso
[01:09:56] e que entram numa função
[01:09:58] de vertical de conteúdo
[01:10:00] fazendo uma pesquisa aqui sobre esse tema
[01:10:02] não é difícil, por exemplo
[01:10:04] você encontrar vídeos de psicólogos
[01:10:06] ou psicanalistas
[01:10:08] que começam o seu vídeo para falar sobre abuso
[01:10:10] contando a sua própria história
[01:10:12] não que isso esteja
[01:10:14] errado
[01:10:16] mas geralmente o tom
[01:10:18] é quase assim
[01:10:20] olha, descubra você também
[01:10:22] que você também foi abusado
[01:10:24] você provavelmente foi, mas você não lembra
[01:10:26] descubra e venha tratar
[01:10:28] o seu trauma aqui comigo
[01:10:30] porque eu também passei por isso
[01:10:32] e aí a gente tem que começar a cuidar melhor
[01:10:34] do que a gente está fazendo
[01:10:36] porque ainda que seja com boas intenções
[01:10:38] de levantar uma pauta importante
[01:10:40] para as pessoas que estão em sofrimento
[01:10:42] e por mais catártico que seja isso
[01:10:44] esse compartilhamento de situações difíceis
[01:10:46] a gente tem que se questionar
[01:10:48] se a praça pública da internet
[01:10:50] é o melhor espaço para tudo isso
[01:10:52] ou o único espaço
[01:10:54] a gente já disse isso antes aqui
[01:10:56] mas um processo analítico
[01:10:58] ele é justamente em ajudar o sujeito
[01:11:00] a transformar as suas fraturas em marcas
[01:11:02] que é uma coisa que
[01:11:04] precisa de um ambiente seguro
[01:11:06] e a internet a céu aberto
[01:11:08] como existe hoje, não é o lugar
[01:11:10] criado para isso
[01:11:12] e mais, se as mídias sociais se organizam
[01:11:14] numa cadeia de rede de influência
[01:11:16] e a gente tem esse psiquismo individual
[01:11:18] tão mediatizado
[01:11:20] o que acontece quando tantos traumas
[01:11:22] de abuso e detalhes tão íntimos
[01:11:24] vão sendo compartilhados em larga escala
[01:11:26] é toda essa associação
[01:11:28] que o Pinchewski faz entre
[01:11:30] mídia e trauma
[01:11:32] de como a gente inclusive pode
[01:11:34] confundir o que foi vivido
[01:11:36] do que foi assistido ou testemunhado
[01:11:38] ou de como a gente é estimulado
[01:11:40] se tivesse acontecido com a gente
[01:11:42] e isso não é de agora
[01:11:44] isso é uma questão muito séria
[01:11:46] do campo investigativo inclusive
[01:11:48] eu lembro de uma aula de psicofísica na psicologia
[01:11:50] que abordou isso
[01:11:52] que falava sobre como se você vai interrogar
[01:11:54] uma possível vítima de abuso
[01:11:56] você tem que ter muito cuidado
[01:11:58] com as perguntas que você vai fazer
[01:12:00] porque as próprias perguntas ou o tom das perguntas
[01:12:02] podem induzir o sujeito a fantasiar
[01:12:04] com um abuso que não aconteceu
[01:12:06] ou que até aconteceu, mas que não foi bem assim
[01:12:08] ou descobrir o abuso
[01:12:10] se mistura com uma formatação
[01:12:12] que pode ser meio criativa
[01:12:14] e tendenciosa de uma história de abuso
[01:12:16] na intenção às vezes de levantar uma polêmica
[01:12:18] de querer expor alguém
[01:12:20] de querer incriminar alguém
[01:12:22] e isso pode inclusive retraumatizar o sujeito
[01:12:24] então esse tom
[01:12:26] mais sensacionalista de muitos conteúdos
[01:12:28] hoje agravam esse risco
[01:12:30] porque banalizam
[01:12:32] e simplificam o tema
[01:12:34] por isso que eu falei até da história do aviso de gatilho
[01:12:36] que às vezes é meio cara de pau
[01:12:38] porque a intenção é engatilhar
[01:12:40] e provocar a audiência numa posição
[01:12:42] não só de vítima
[01:12:44] como ela é de fato
[01:12:46] mas também de vitimizado
[01:12:48] e isso só vai dificultar o atravessamento do trauma
[01:12:50] então o ponto aqui é que
[01:12:52] a banalização do abuso
[01:12:54] pode generalizar
[01:12:56] esse fenômeno
[01:12:58] e gerar mais sensação de abuso
[01:13:00] e pensando assim em viralismo
[01:13:02] em tentativas de engajamento
[01:13:04] do conteúdo
[01:13:06] esse efeito do expose pode ser até negativo
[01:13:08] do tipo assim, olha
[01:13:10] você fez a sua fala ali
[01:13:12] mas ninguém se importou muito
[01:13:14] que você compartilhou seu trauma online
[01:13:16] ah, é só mais um
[01:13:18] ou pior, não acreditam em você
[01:13:20] dizem que você tá fazendo isso só pra querer chamar atenção
[01:13:22] e aí vem a história do duplo choque
[01:13:24] que o Ferenczi fala
[01:13:26] que é o segundo choque
[01:13:28] que é quando a vítima tenta quebrar o silêncio
[01:13:30] mas não é levada a sério
[01:13:32] é desacreditada
[01:13:34] por causa do jeito, da forma como ela fez
[01:13:36] do lugar que ela fez
[01:13:38] de abandono
[01:13:40] que é o desmentido que eu falei antes
[01:13:42] exatamente, isso, o desmentido
[01:13:52] é muito delicado, mas também interessante
[01:13:54] esse debate que você propõe, Lucas
[01:13:56] sobre
[01:13:58] os pactos de silêncio
[01:14:00] mas também os pactos
[01:14:02] de hipercomunicação e mediatização
[01:14:04] desse tema
[01:14:06] até porque
[01:14:08] a gente está muito longe
[01:14:10] como sociedade, psicoesfera
[01:14:12] de conseguir elaborar
[01:14:14] algumas coisas muito
[01:14:16] bárbaras
[01:14:18] que as mídias sociais nos permitem fazer
[01:14:20] exato, André
[01:14:22] e sem falar que é muito diferente você
[01:14:24] contar uma história
[01:14:26] numa terapia
[01:14:28] ou alguém de confiança com quem você está conversando
[01:14:30] do que você produzir um conteúdo
[01:14:32] e deixar isso lá no seu feed
[01:14:34] ou um conteúdo que continua viralizando
[01:14:36] e sendo relembrado
[01:14:38] por quem compartilha e comenta
[01:14:40] de que aquilo aconteceu com você
[01:14:42] porque diante do trauma
[01:14:44] eu penso que existem duas rotas psíquicas
[01:14:46] nenhuma das duas
[01:14:48] é muito boa
[01:14:50] nenhuma é ideal
[01:14:52] uma é você ficar lembrando incessantemente
[01:14:54] continuamente
[01:14:56] muitas pessoas ficam famosas
[01:14:58] por causa dos seus relatos de abuso
[01:15:00] e isso pode se tornar um aprisionamento
[01:15:02] porque você vai sendo atormentado também por isso
[01:15:04] você ficar lembrando
[01:15:06] incessantemente
[01:15:08] com frequência, com intensidade
[01:15:10] isso atrapalha a sua vida e te bloqueia
[01:15:12] de ter novas experiências
[01:15:14] a outra saída que também provoca
[01:15:16] outro tipo de sofrimento é não lembrar nunca
[01:15:18] é não reconhecer nunca
[01:15:20] é nunca ter falado disso com ninguém
[01:15:22] permanecer um grande segredo
[01:15:24] e a gente sabe onde que isso vai
[01:15:26] desembocar em todos os sintomas
[01:15:28] e somatizações e fobias
[01:15:30] será que tem um meio termo entre essas duas
[01:15:32] saídas de falar
[01:15:34] sem ficar totalmente tomado
[01:15:36] o que fala e narra
[01:15:38] e revive enquanto fala
[01:15:40] eu acredito que tem algumas terapias que ajudam muito nisso
[01:15:42] e outras talvez de alguma forma
[01:15:44] prejudiquem mais o sujeito do que
[01:15:46] liberem ele
[01:15:48] o que a gente precisa acreditar
[01:15:50] e confiar é que aquilo que foi
[01:15:52] tão sem sentido possa ter algum sentido
[01:15:54] ou que tinha um sentido tão fechado
[01:15:56] possa ganhar um sentido mais aberto
[01:15:58] e o que era difícil e traumático
[01:16:00] pode se tornar
[01:16:02] com o tempo mais aceitável
[01:16:04] e superável, porque todo acontecimento
[01:16:06] por mais verdadeiro ou factual que seja
[01:16:08] trágico ou horroroso
[01:16:10] ele é revestido por alguma camada subjetiva
[01:16:12] uma superfície
[01:16:14] mais ou menos fictícia
[01:16:16] essa pele simbólica
[01:16:18] que pode ser uma grande condenação
[01:16:20] ou também a única salvação que a gente tem
[01:16:22] diante do que aconteceu
[01:16:24] a psicanálise é uma grande aliada
[01:16:26] nesse sentido de reparação de um trauma
[01:16:28] mas tem muitas outras coisas que ajudam também
[01:16:30] até pensando em terapias corporais
[01:16:32] ou em terapias
[01:16:34] expressivas de
[01:16:36] teatro, dança, artes visuais
[01:16:38] onde as pessoas consigam
[01:16:40] processar as suas emoções
[01:16:42] de uma forma não verbal
[01:16:44] ou práticas de mindfulness que regulam
[01:16:46] o nosso sistema nervoso
[01:16:48] promovem mais a nossa calma
[01:16:50] e obviamente também um senso de comunidade
[01:16:52] e de vínculos
[01:16:54] onde a gente tenha relações seguras
[01:16:56] e apoio social pra encarar
[01:16:58] essa recuperação do trauma
[01:17:00] e algo de prevenção
[01:17:02] também, de educação
[01:17:04] como a gente falou ali
[01:17:06] ou terapia
[01:17:08] pra todo mundo
[01:17:10] o Ferenczi vai falar da nossa
[01:17:12] responsabilidade dos adultos
[01:17:14] em proteger e compreender as necessidades
[01:17:16] emocionais das crianças
[01:17:18] sem impor as nossas próprias
[01:17:20] confusões e desejos
[01:17:22] vale também a gente
[01:17:24] lembrar aqui
[01:17:26] de serviços como o serviço do
[01:17:28] Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania
[01:17:30] que é o Disque 100
[01:17:32] um serviço gratuito e anônimo
[01:17:34] que permite denunciar violações
[01:17:36] de direitos humanos
[01:17:38] e é isso
[01:17:40] vamos se cuidar
[01:17:42] e cuidar dos outros
[01:17:44] e lembrar
[01:17:46] que o cuidado
[01:17:48] não é feito em silêncio
[01:17:50] e que sem delicadeza
[01:17:52] não tem como a gente escutar
[01:17:54] o que é sensível
[01:17:56] e se tem uma coisa que a gente
[01:17:58] falou bastante nesse episódio
[01:18:00] é que o sensível precisa de escuta
[01:18:02] então vamos ficar por aqui
[01:18:04] vamos seguir pensando e se cuidando
[01:18:06] até mais
[01:18:08] tchau