Relativismo e pós-modernidade
Resumo
Este episódio examina o relativismo como uma das características mais marcantes da pós-modernidade. O apresentador contextualiza o relativismo contrastando a pós-modernidade com a modernidade, destacando como esta última valorizava noções como verdade, razão, objetividade e fé no progresso científico, enquanto a pós-modernidade questiona esses fundamentos.
A análise filosófica do relativismo começa definindo-o como a posição de que toda afirmação é verdadeira apenas em relação às crenças ou valores de um indivíduo ou grupo. O episódio contrasta essa visão com o objetivismo, que defende que a verdade é descoberta e não varia de pessoa para pessoa, sendo regida pelas três leis fundamentais da lógica: identidade, não-contradição e terceiro excluído.
O apresentador identifica problemas centrais do relativismo, incluindo sua autorrefutação (a afirmação “tudo é relativo” se aplicaria a si mesma), a confusão entre condições de verdade e critérios para a verdade, e a tentativa de desqualificar as leis da lógica como meras construções culturais ocidentais. Ele argumenta que essa desqualificação ignora a estrutura lógica universal subjacente a todas as afirmações, evidenciada até mesmo na computação moderna.
Por fim, o episódio explora as consequências éticas do relativismo, sugerindo que, levado ao extremo, ele poderia justificar teoricamente atos horrendos se uma sociedade assim o decidisse, e interdita discussões sobre a universalidade de valores como a dignidade humana. A reflexão conclui que o relativismo, ao negar a possibilidade de verdade objetiva, transforma o diálogo em mera troca de opiniões ou tentativas de convencimento baseadas no prazer ou interesse, não na força da verdade.
Indicações
Cursos
- Filosofia para a Vida – Refletir para Viver Melhor — Curso anunciado pelo apresentador, que visa usar a filosofia para ajudar a viver de maneira mais satisfatória, examinando pensamentos e a realidade para evitar sofrimentos desnecessários.
- Introdução à Filosofia — Um dos outros cursos oferecidos, mencionado na conclusão do episódio.
- Crítica da Religião — Outro curso oferecido, mencionado na conclusão do episódio.
- Filosofia de Karl Marx — Curso sobre o pensamento de Karl Marx, mencionado na conclusão do episódio.
Plataformas
- Apoia-se — Plataforma de financiamento coletivo através da qual os ouvintes podem apoiar mensalmente o podcast Filosofia Vermelha.
Playlists
- Clássicas Filosóficas / Clássicas Filosofia Vermelha — Playlist no Spotify com as músicas clássicas tocadas nos intervalos dos episódios do podcast.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução ao tema do relativismo e pós-modernidade — O episódio inicia questionando a existência de valores absolutos e universais na ciência, ética e estética. Apresenta o relativismo como uma tendência da época, influenciada pelas ciências sociais, que considera tudo dependente de época, lugar, classe e gênero. A pós-modernidade é definida como o período de crise do universal, onde a busca pela verdade parece fadada ao fracasso.
- 00:04:41 — Contextualização histórica: modernidade versus pós-modernidade — Retomando o tema após anúncios, o apresentador contrasta a modernidade (séculos XIV-XIX) com a pós-modernidade. A modernidade, representada por pensadores como Descartes, Kant, Hegel e Marx, valorizava verdade, razão, objetividade e grandes metanarrativas como o marxismo. A pós-modernidade, também chamada de modernidade líquida por Bauman, questiona esses fundamentos, desconstruindo a confiança na razão e na ciência, e focando em lutas parciais e identitárias em vez de revoluções globais.
- 00:18:39 — Definição filosófica do relativismo e introdução ao objetivismo — Após uma pausa musical, o episódio analisa o relativismo em sua forma filosófica, definindo-o como a visão de que toda afirmação é verdadeira apenas em relação às crenças de um indivíduo ou grupo. São dados exemplos como a forma de dirigir ou crenças históricas sobre a Terra. Em oposição, apresenta-se o objetivismo, que defende que a verdade é descoberta e depende da realidade, sendo regida pelas três leis fundamentais da lógica: identidade, não-contradição e terceiro excluído.
- 00:22:31 — Problemas lógicos do relativismo: autorrefutação e confusão conceitual — O apresentador expõe os problemas filosóficos do relativismo. Primeiro, a afirmação “tudo é relativo” é autorrefutável, pois se aplica a si mesma. Segundo, o relativismo confunde condições de verdade (o que torna uma afirmação verdadeira na realidade) com critérios para a verdade (os testes para justificá-la). Argumenta-se que, enquanto os critérios podem ser relativos ao contexto, as condições de verdade são objetivas. O episódio também rebate a ideia de que as leis da lógica são meras construções culturais ocidentais.
- 00:27:35 — Conclusão e implicações éticas do relativismo — A conclusão argumenta que, se tudo é relativo, o diálogo se reduz a uma troca de opiniões ou a tentativas de convencimento baseadas no prazer, não na verdade. Cita Nietzsche para destacar que o prazer não é critério de verdade. Finalmente, aborda as graves implicações éticas: o relativismo moral poderia, em teoria, justificar atrocidades como tortura ou estupro se uma sociedade assim o decidisse, e impede discussões sobre a universalidade de valores inegociáveis como a dignidade humana, especialmente em contextos de opressão cultural ou religiosa.
Dados do Episódio
- Podcast: Filosofia Vermelha
- Autor: Glauber Ataide
- Categoria: Society & Culture Philosophy
- Publicado: 2025-02-17T09:00:00Z
- Duração: 00:31:57
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/dd38e8c0-673a-0138-a0de-0acc26574db2/episode/5af6f2ac-5b8b-4554-b701-218f781d5610/
- UUID Episódio: 5af6f2ac-5b8b-4554-b701-218f781d5610
Dados do Podcast
- Nome: Filosofia Vermelha
- Tipo: episodic
- Site: https://www.filosofiaepsicanalise.org/
- UUID: dd38e8c0-673a-0138-a0de-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Olá, amigos e amigas do Saber!
[00:00:03] Neste episódio de hoje, vamos falar sobre relativismo.
[00:00:07] Será que existem valores absolutos e universais nos campos da ciência, da ética e da estética?
[00:00:15] Ou será que tudo se resume à questão de gosto, preferências pessoais e construções sociais?
[00:00:21] Se toda afirmação não passa de mera opinião, então não há mais discussão que faça sentido.
[00:00:30] Diante da impossibilidade de afirmar como o mundo realmente é,
[00:00:35] o que resta são apenas tentativas de convencer o outro a uma determinada linha de ação ou pensamento,
[00:00:43] segundo o prazer ou interesse.
[00:00:45] A busca pela verdade se torna uma empreitada não apenas fadada ao fracasso, mas até mesmo impossível.
[00:00:54] Veremos neste episódio alguns problemas do relativismo.
[00:00:58] Vivemos em uma época em que, sob influência das ciências sociais,
[00:01:03] tendemos a considerar tudo como relativo, dependente de época, lugar, classe, gênero e outros determinantes.
[00:01:13] Fomos progressivamente habituados à ideia de que não existem valores universais ou objetivos.
[00:01:21] A pós-modernidade é o período de crise do universal.
[00:01:25] E essa tendência faz caminho em…
[00:01:28] em praticamente todos os campos do conhecimento.
[00:01:31] Mas, não sem grandes tensões e inconsistências,
[00:01:36] algumas das quais vamos apresentar neste episódio de hoje.
[00:01:40] Então, vamos lá, acompanhem.
[00:01:42] Música
[00:01:42] Música
[00:01:47] Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer…
[00:01:57] Música
[00:01:57] Música
[00:01:57] Música
[00:01:57] Música
[00:01:57] Música
[00:01:58] Música
[00:01:58] todos os nossos apoiadores.
[00:01:59] O podcast Filosofia Vermelha
[00:02:02] é um oferecimento
[00:02:04] de todos os que contribuem
[00:02:05] mensalmente com este trabalho
[00:02:07] através da plataforma Apoia-se.
[00:02:10] A todos vocês, meu
[00:02:11] muito obrigado. Sua contribuição
[00:02:14] é fundamental para que
[00:02:15] possamos seguir adiante
[00:02:17] ajudando mais pessoas. Torne-se
[00:02:20] você também um apoiador
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[00:02:23] deste episódio. Outra forma
[00:02:26] muito simples de apoiar este
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[00:02:29] podcast com 5 estrelas.
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[00:02:33] 150 mil inscritos
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[00:02:49] deste episódio. Basta ir até o nosso
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[00:02:54] E por último, é
[00:02:55] com grande satisfação que eu
[00:02:57] anuncio o lançamento de meu mais novo
[00:02:59] curso, Filosofia para a Vida
[00:03:01] Refletir para Viver Melhor.
[00:03:04] A filosofia pode
[00:03:05] nos ajudar a viver de maneira
[00:03:07] mais satisfatória. Muitos
[00:03:09] dos problemas pelos quais passamos
[00:03:11] têm origem em nossos pensamentos
[00:03:13] e não nas próprias coisas.
[00:03:16] De modo que enxergar
[00:03:17] a realidade sem erros e ilusões
[00:03:19] pode nos poupar
[00:03:21] muito sofrimento. Nossos tempos
[00:03:23] precisam de filosofia cada vez
[00:03:25] mais. Vivemos hoje na chamada
[00:03:27] sociedade do terapismo
[00:03:29] na qual questões meramente
[00:03:31] existenciais são tratadas
[00:03:33] como casos patológicos e onde
[00:03:35] psiquiatras são questionados
[00:03:38] sobre o sentido da vida.
[00:03:40] Nem todo sofrimento
[00:03:41] é doença. De modo que em muitos
[00:03:43] casos o auxílio de um filósofo
[00:03:45] é mais adequado do que
[00:03:47] o de um médico. Há doenças
[00:03:49] que de fato provocam dores físicas, mas
[00:03:51] há dores da alma que
[00:03:53] não são oriundas de nenhuma
[00:03:56] enfermidade. Mas simplesmente
[00:03:57] de nossa condição humana.
[00:04:00] É um erro tratar qualquer
[00:04:01] sofrimento como patológico.
[00:04:03] O nosso principal objetivo
[00:04:05] com este novo curso é
[00:04:07] apresentar reflexões que lhe ajudem a
[00:04:09] encarar diversas situações
[00:04:12] de sua vida de uma outra
[00:04:13] perspectiva, levando você
[00:04:15] a um exame profundo não apenas
[00:04:17] de sua própria alma, o sentido
[00:04:19] grego da palavra psique,
[00:04:21] mas também de seu lugar no mundo
[00:04:23] e de suas relações com os outros.
[00:04:26] Para Vera Grat,
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[00:04:39] Voltemos então ao nosso tema
[00:04:41] Relativismo e Pós-Modernidade.
[00:04:44] Vejam,
[00:04:45] hoje é praticamente
[00:04:47] parte do senso comum a afirmação
[00:04:49] de que tudo é relativo.
[00:04:52] Parece não ser mais possível
[00:04:53] ter certeza sobre
[00:04:55] absolutamente nenhum assunto.
[00:04:57] O que vai na contramão, todavia,
[00:04:59] daquela convicção
[00:05:01] fervorosa que anima
[00:05:03] fanáticos religiosos e
[00:05:05] militantes políticos radicais.
[00:05:08] Agora, esta desconfiança
[00:05:10] generalizada de
[00:05:11] todas as instituições,
[00:05:13] inclusive das ciências e da
[00:05:15] política, é parte da chamada
[00:05:17] pós-modernidade.
[00:05:19] O termo pós-modernismo
[00:05:21] se refere a uma ideologia.
[00:05:24] E por vezes encontramos
[00:05:25] também a expressão pós-modernidade.
[00:05:27] A qual parece mais
[00:05:29] apropriada para expressar uma
[00:05:31] concepção histórica,
[00:05:33] cronológica, referindo-se
[00:05:35] àquele período que sucede
[00:05:37] e reage à modernidade.
[00:05:40] Inicialmente, vamos
[00:05:41] contextualizar o relativismo
[00:05:43] e apresentá-lo como uma
[00:05:45] das características mais marcantes
[00:05:47] da pós-modernidade.
[00:05:49] E na segunda parte, vamos mostrar
[00:05:51] filosoficamente alguns de seus
[00:05:53] problemas. Agora,
[00:05:55] antes de falar sobre a
[00:05:57] pós-modernidade, nós já antecipamos
[00:05:59] que a nossa
[00:06:00] caracterização é ainda bem
[00:06:03] incompleta. A pós-modernidade
[00:06:06] pode ser visto como
[00:06:07] um agrupamento de diversas
[00:06:09] disciplinas acadêmicas
[00:06:10] sem muita coesão ou
[00:06:12] unidade orgânica, envolvendo
[00:06:15] também uma grande diversidade
[00:06:17] de autores. No que
[00:06:19] diz respeito à filosofia,
[00:06:21] a pós-modernidade pode ser
[00:06:23] caracterizada como uma
[00:06:24] corrente que busca reinterpretar
[00:06:27] o que é o conhecimento
[00:06:28] e quais as formas de alcançá-lo.
[00:06:31] O que envolve também
[00:06:32] trazer novas perspectivas sobre
[00:06:35] o que é verdade, razão,
[00:06:37] valor, significado
[00:06:39] linguístico, o próprio eu,
[00:06:41] etc. Vamos começar
[00:06:43] falando sobre a pós-modernidade.
[00:06:46] Vejam,
[00:06:47] uma das melhores formas de
[00:06:49] aprender algo novo é através
[00:06:51] de comparações e contrastes.
[00:06:54] Por isso, nós
[00:06:55] vamos apresentar de maneira sucinta
[00:06:56] como a pós-modernidade
[00:06:59] se estabelece em oposição
[00:07:01] a algumas características
[00:07:03] da modernidade,
[00:07:05] o que vai nos ajudar a compreender
[00:07:07] por que o relativismo
[00:07:09] é um dos principais traços
[00:07:11] do período em que vivemos.
[00:07:13] A modernidade pode ser
[00:07:15] caracterizada como a época
[00:07:17] de valorização de certas
[00:07:19] noções como verdade,
[00:07:21] razão, objetividade,
[00:07:24] fé no progresso científico
[00:07:25] e,
[00:07:26] e emancipação universal.
[00:07:28] Essas são características
[00:07:30] da modernidade.
[00:07:32] Este foi o período
[00:07:34] do pensamento europeu surgido da
[00:07:36] Renascença, foi aproximadamente
[00:07:38] dos séculos XIV ao XVII
[00:07:40] e cristalizado
[00:07:42] no Iluminismo,
[00:07:44] mais ou menos dos séculos XVII
[00:07:46] ao XIX. Então, a
[00:07:48] modernidade envolveu estes períodos,
[00:07:50] Renascença e Iluminismo.
[00:07:53] E alguns dos
[00:07:54] principais representantes do pensamento
[00:07:56] moderno são
[00:07:57] René Descartes, John Locke,
[00:08:00] George Berkeley, David Hume,
[00:08:02] Leibniz, Immanuel Kant,
[00:08:05] Hegel, Karl Marx,
[00:08:06] entre outros.
[00:08:07] A modernidade é a época das chamadas
[00:08:10] grandes metanarrativas,
[00:08:13] das quais o marxismo
[00:08:14] é uma das principais.
[00:08:17] Agora, para termos
[00:08:18] uma ideia geral do que define
[00:08:20] a modernidade, nós vamos
[00:08:22] tomar como exemplo as linhas gerais
[00:08:24] do marxismo e o
[00:08:26] contexto do qual ele surgiu.
[00:08:28] Tenha em mente, todavia, que
[00:08:30] embora isso expresse uma
[00:08:32] característica geral da modernidade,
[00:08:35] isso não significa
[00:08:36] que cada pensador em
[00:08:38] particular apresente
[00:08:40] todos os aspectos que vamos
[00:08:42] descrever a seguir.
[00:08:44] Então, vamos lá. Comecemos por
[00:08:46] Karl Marx, só para dar uma
[00:08:48] ideia geral do que caracteriza
[00:08:50] o período moderno, porque Karl
[00:08:52] Marx é exemplar do que
[00:08:54] significa ser um pensador
[00:08:56] da modernidade.
[00:08:58] É que Karl Marx, assim como
[00:09:00] seus antecessores no idealismo
[00:09:02] alemão, tinha
[00:09:04] um forte senso científico.
[00:09:07] O pensamento de
[00:09:08] Marx se baseia no concreto,
[00:09:10] na vida real dos homens e na
[00:09:12] economia. A sua
[00:09:14] principal obra se chama
[00:09:15] O Capital, e nela Marx
[00:09:18] realiza um exame minucioso
[00:09:20] da estrutura da sociedade
[00:09:22] capitalista.
[00:09:24] Agora, antes de Marx,
[00:09:26] Hegel também já trazia
[00:09:27] a realidade histórica para
[00:09:30] a reflexão filosófica.
[00:09:32] O livro mais importante de Hegel é
[00:09:34] A Fenomenologia do Espírito,
[00:09:36] e um dos primeiros títulos
[00:09:38] que Hegel pensou para essa obra
[00:09:40] foi Ciência
[00:09:42] da Experiência da Consciência.
[00:09:45] E outra de suas
[00:09:46] obras mais relevantes, A Ciência
[00:09:48] da Lógica, também
[00:09:50] evidencia já pelo título
[00:09:51] o intento, o objetivo
[00:09:54] de transformar a
[00:09:56] filosofia em uma ciência.
[00:09:58] O filósofo alemão
[00:09:59] Fichte, também do mesmo período,
[00:10:02] um idealista alemão,
[00:10:03] Fichte também considerava que estava fazendo
[00:10:06] ciência, como revela
[00:10:08] o título também de uma de suas principais
[00:10:10] obras, que é O Fundamento
[00:10:12] da Doutrina da Ciência.
[00:10:14] Enfim, repare aqui
[00:10:16] quantas vezes o termo
[00:10:18] ciência é utilizado
[00:10:20] em obras deste período.
[00:10:21] Então, quando Friedrich Engels,
[00:10:24] amigo e colaborador
[00:10:26] de Marx, dá o nome
[00:10:28] de socialismo científico
[00:10:30] ao sistema de pensamento que
[00:10:32] ambos construíram juntos,
[00:10:34] Engels estava apenas expressando
[00:10:36] algo comum do caldeirão
[00:10:38] cultural de sua época.
[00:10:40] O marxismo fornecia
[00:10:42] uma leitura abrangente
[00:10:43] de toda a história da humanidade,
[00:10:46] apreendia a totalidade
[00:10:48] da realidade social
[00:10:49] e buscava uma transformação
[00:10:52] revolucionária a nível
[00:10:53] planetário. Neste
[00:10:55] sentido, o marxismo
[00:10:57] é um produto característico
[00:10:59] da modernidade.
[00:11:01] Agora vamos fazer o contraste.
[00:11:04] A pós-modernidade,
[00:11:06] por sua vez, será
[00:11:07] o questionamento de tudo isso.
[00:11:10] Também chamada pelo
[00:11:11] filósofo e sociólogo polonês
[00:11:13] Zygmunt Bauman de
[00:11:15] modernidade líquida,
[00:11:17] a pós-modernidade caracteriza-se
[00:11:20] por uma tentativa de
[00:11:21] desconstrução das bases
[00:11:24] e dos legados do iluminismo.
[00:11:25] Principalmente sua
[00:11:27] confiança na razão e na ciência.
[00:11:30] A pós-modernidade
[00:11:31] é um movimento cultural, político
[00:11:34] e filosófico, buscando
[00:11:36] desconstruir as
[00:11:37] grandes metanarrativas surgidas
[00:11:40] na modernidade, tais como
[00:11:42] o marxismo. Como acabamos
[00:11:44] de ver, o marxismo é uma dessas
[00:11:45] grandes metanarrativas da
[00:11:47] modernidade. E alguns
[00:11:49] dos principais pensadores pós-modernos
[00:11:52] são Michel Foucault,
[00:11:53] Jacques Derrida, Thomas
[00:11:55] Kuhn e Jean-François
[00:11:57] Lyotard, entre outros.
[00:11:59] Para Michel Foucault, por exemplo,
[00:12:01] não fazia sentido falar
[00:12:03] em nome da razão, da verdade
[00:12:05] ou do conhecimento.
[00:12:07] Na década de 1970,
[00:12:10] a atmosfera na França
[00:12:12] era de um crescente
[00:12:13] anticomunismo, e o próprio Foucault
[00:12:15] rompe com o marxismo em sua
[00:12:17] obra Em Defesa da Sociedade
[00:12:20] de 1976.
[00:12:22] Para o filósofo francês,
[00:12:24] a filosofia não deveria
[00:12:25] ser normativa, mas apenas
[00:12:27] analítica. Era necessário
[00:12:30] para Foucault abandonar
[00:12:32] a ideia de revolução em favor
[00:12:34] das lutas marginais.
[00:12:36] As lutas descentralizadas
[00:12:38] visavam a uma
[00:12:39] realidade histórica, a uma
[00:12:41] forma de poder que não é jurídica,
[00:12:44] econômica, política ou
[00:12:45] étnica. Seria um tipo de
[00:12:48] poder de origem religiosa, o
[00:12:49] chamado poder pastoral.
[00:12:51] Isso explica diversos
[00:12:53] movimentos sociais de inspiração,
[00:12:55] uma de suas principais
[00:12:58] características é o foco em
[00:12:59] pequenas lutas parciais,
[00:13:02] identitárias,
[00:13:03] abandonando toda a ideia de revolução
[00:13:06] e colocando em seu lugar
[00:13:07] pequenas transformações
[00:13:10] sociais. Não por acaso
[00:13:11] o tema da cidade é
[00:13:13] tão comum entre alguns destes movimentos.
[00:13:16] Enquanto o marxismo
[00:13:17] busca a transformação do mundo,
[00:13:20] movimentos inspirados
[00:13:21] pela ideologia pós-moderna querem
[00:13:23] apenas uma cidade melhorada,
[00:13:25] parques abertos 24 horas
[00:13:28] por dia, ciclovias,
[00:13:30] despoluição dos rios
[00:13:31] para que seja possível nadar
[00:13:33] neles novamente, etc.
[00:13:35] A luta do trabalhador contra o capital
[00:13:38] desaparece do horizonte
[00:13:40] desses movimentos.
[00:13:41] Agora, as primeiras décadas do
[00:13:43] século XXI são uma colcha
[00:13:46] de retalhos. O período
[00:13:48] em que vivemos é um grande
[00:13:49] mosaico de épocas, de
[00:13:51] diversos períodos e situações
[00:13:53] históricas que existem lá
[00:13:55] do lado. Se a rejeição
[00:13:57] pós-moderna da razão e da ciência
[00:13:59] nos levou, de certa maneira,
[00:14:02] aos movimentos antivacina
[00:14:03] e à defesa da Terra plana,
[00:14:06] outras regiões do globo,
[00:14:07] dominadas pelo fundamentalismo
[00:14:09] religioso, parecem não
[00:14:11] ter saído ainda da Idade Média.
[00:14:14] Os períodos históricos nunca
[00:14:15] são homogêneos, de modo que
[00:14:17] em toda época histórica é possível
[00:14:19] identificar diversas
[00:14:21] características das sociedades
[00:14:24] precedentes, de modo
[00:14:25] que o velho e o novo
[00:14:27] sempre coexistem por um
[00:14:29] certo período. Nós vamos
[00:14:31] analisar na sequência os problemas
[00:14:33] filosóficos do relativismo.
[00:14:35] Agora, antes disso, faremos
[00:14:37] a nossa clássica pausa musical
[00:14:39] a fim de que você absorva
[00:14:41] melhor o conteúdo exposto até agora
[00:14:43] e também revigore a
[00:14:45] concentração para o restante do
[00:14:47] episódio, o qual será um pouco
[00:14:49] mais exigente a propósito.
[00:14:52] Você ouvirá agora um trecho
[00:14:53] da sonata número 32,
[00:14:55] em dó menor, opus 111,
[00:14:58] de Ludwig van Beethoven.
[00:15:00] Beethoven nasceu no ano de
[00:15:01] 1770 em Bonn, na Alemanha,
[00:15:03] e faleceu em 1827
[00:15:06] em Viena, na Áustria.
[00:15:08] Ah, enquanto você
[00:15:10] aparecer esta música, gostaria
[00:15:11] de pedir que você avalie o nosso podcast
[00:15:14] com cinco estrelas no Spotify
[00:15:15] ou em qualquer outra
[00:15:17] plataforma através da qual você nos ouve.
[00:15:20] Isso não dura nem dez segundos
[00:15:22] e, dessa forma, você contribui
[00:15:24] com este trabalho e nos
[00:15:25] ajuda a chegar a mais pessoas.
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[00:15:55] state-of-the-art.com.br
[00:16:25] A CRIAÇÃO
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[00:18:15] Caso você tenha interesse em conhecer melhor as músicas que tocamos aqui nos intervalos dos episódios,
[00:18:22] basta procurar pela playlist
[00:18:24] Clássicas Filosóficas.
[00:18:25] Clássicas Filosofia Vermelha no Spotify.
[00:18:28] Em nosso perfil, na terceira aba,
[00:18:29] há um link direto para esta
[00:18:31] playlist. Voltemos então
[00:18:33] ao nosso tema Relativismo
[00:18:35] e Pós-Modernidade.
[00:18:37] Vamos analisar agora o relativismo
[00:18:39] em sua forma filosófica.
[00:18:42] Nós podemos inicialmente
[00:18:43] descrevê-lo como a posição
[00:18:45] básica de que toda
[00:18:47] afirmação é verdadeira
[00:18:49] apenas em relação às
[00:18:51] crenças ou valores de um
[00:18:53] indivíduo ou de um grupo.
[00:18:55] Isso quer dizer que
[00:18:56] uma afirmação qualquer, como por exemplo
[00:18:59] a terra é redonda,
[00:19:02] se torna verdadeira
[00:19:03] pelo próprio ato de aceitação
[00:19:06] de tal proposição.
[00:19:08] No campo moral,
[00:19:09] nós podemos dar o exemplo da
[00:19:11] obrigação de dirigir do lado
[00:19:13] direito da estrada.
[00:19:15] Na Inglaterra, por exemplo, os motoristas usam
[00:19:17] o lado esquerdo.
[00:19:19] De modo que, tal obrigação
[00:19:21] de dirigir do lado direito
[00:19:23] existe no Brasil e em vários outros lugares.
[00:19:25] Mas, não na Inglaterra
[00:19:28] ou na Irlanda.
[00:19:29] Fornecendo ainda outro exemplo,
[00:19:31] a afirmação de que a terra é plana
[00:19:34] era verdadeira
[00:19:35] para muitas pessoas na antiguidade,
[00:19:38] mas não para a maioria
[00:19:39] de nós hoje.
[00:19:41] Agora, em oposição aos relativistas,
[00:19:44] nós temos os
[00:19:45] objetivistas.
[00:19:47] Estes acreditam que a verdade
[00:19:49] não é simplesmente construída
[00:19:52] por determinado grupo
[00:19:53] social. Não.
[00:19:55] Mas que a verdade é descoberta
[00:19:58] e não varia de pessoa
[00:20:00] para pessoa.
[00:20:01] O que torna uma proposição
[00:20:03] verdadeira ou falsa é a
[00:20:05] própria realidade,
[00:20:07] independente se alguém aceita
[00:20:09] aquilo como verdade ou não.
[00:20:12] Uma verdade chamada
[00:20:13] absoluta, demais, está em
[00:20:15] conformidade com as três leis
[00:20:17] fundamentais da lógica a saber.
[00:20:20] A lei da identidade,
[00:20:21] a lei da não-contradição
[00:20:23] e a lei do terceiro exclusivo.
[00:20:25] Vamos explicar
[00:20:27] estas três leis da lógica
[00:20:29] tomando como exemplo a proposição
[00:20:31] 2 é um número par
[00:20:33] a qual vamos chamar simplesmente
[00:20:35] de P.
[00:20:37] A letra P simboliza
[00:20:39] a proposição 2 é um
[00:20:41] número par. Vejam só
[00:20:43] a lei da identidade, a primeira
[00:20:45] que nós citamos. A lei da identidade
[00:20:47] diz que P é
[00:20:49] idêntico a si mesmo e
[00:20:51] diferente de tudo mais, como por
[00:20:53] exemplo, da proposição
[00:20:55] a grama é verde,
[00:20:57] que nós vamos chamar de Q.
[00:20:59] Então, a lei da identidade é apenas
[00:21:01] isso. Você dizer que 2
[00:21:03] é um número par, isso é
[00:21:05] diferente de tudo mais, inclusive
[00:21:07] de uma proposição estranha
[00:21:09] qualquer como a grama é
[00:21:11] verde. É uma lei bem básica,
[00:21:13] bem simples, a lei da identidade.
[00:21:16] A segunda, a lei
[00:21:17] da não-contradição. Esta
[00:21:19] afirma que P não
[00:21:21] pode ser verdadeira
[00:21:23] e falsa ao mesmo tempo,
[00:21:25] e na mesma relação. De
[00:21:27] modo que seria uma
[00:21:29] violação a esta regra
[00:21:31] afirmar, por exemplo, que
[00:21:32] 2 é um número par e
[00:21:35] 2 não é um número
[00:21:37] par. Não, tem que ser uma ou outra.
[00:21:40] Ou você fala que 2 é um
[00:21:41] número par, ou você fala que 2 não
[00:21:43] é um número par. Essa
[00:21:45] lei da não-contradição afirma
[00:21:47] que uma mesma proposição não
[00:21:49] pode ser as duas coisas ao
[00:21:51] mesmo tempo e na mesma relação.
[00:21:54] Já a lei do
[00:21:55] ser excluído vai afirmar que
[00:21:57] P ou é verdadeiro
[00:21:59] ou falso. Dizendo de outra
[00:22:01] maneira, ou P é
[00:22:03] verdadeiro ou então a sua
[00:22:05] negação é verdadeira.
[00:22:07] Agora, uma observação muito
[00:22:09] importante sobre essas três leis
[00:22:11] fundamentais da lógica.
[00:22:13] Observe que essas três leis
[00:22:15] não dizem nada
[00:22:17] acerca da possibilidade de alguém
[00:22:19] verificar o valor
[00:22:21] de verdade da proposição P.
[00:22:24] A partir desta
[00:22:25] três leis da lógica, nós
[00:22:27] podemos identificar alguns
[00:22:29] problemas do relativismo.
[00:22:31] Em primeiro lugar, nós devemos avaliar
[00:22:33] se o relativismo
[00:22:35] é verdadeiro ou falso
[00:22:37] no sentido absoluto do termo.
[00:22:40] Vejam só, a afirmação
[00:22:42] de que tudo é relativo
[00:22:44] no sentido de que
[00:22:46] o critério de verdade de cada
[00:22:48] proposição é dado de maneira
[00:22:50] pessoal, social e histórica.
[00:22:52] Vejam bem,
[00:22:54] essa afirmação não considera
[00:22:55] a si própria como relativa,
[00:22:57] mas ela se coloca de maneira
[00:22:59] absoluta. Então,
[00:23:01] ela é autorrefutável
[00:23:04] porque, ao afirmar
[00:23:05] que tudo é relativo,
[00:23:07] isso inclui a si própria,
[00:23:10] de modo que ninguém
[00:23:11] tem o dever moral ou intelectual
[00:23:13] de concordar que tudo
[00:23:15] é relativo. Se esta
[00:23:17] proposição, por outro lado, é
[00:23:19] falsa, significa que
[00:23:21] qualquer indivíduo que afirma que
[00:23:23] tudo é relativo,
[00:23:25] está apenas expressando sua própria
[00:23:28] opinião, uma preferência
[00:23:30] pessoal, um gosto, de modo
[00:23:32] que, tampouco, neste
[00:23:33] caso, nós temos a obrigação
[00:23:36] de concordar com esta
[00:23:37] afirmação. Outro problema
[00:23:39] é que o relativismo
[00:23:41] também confunde entre
[00:23:44] condições de verdade
[00:23:45] e critérios para a
[00:23:47] verdade. Duas coisas
[00:23:49] distintas, vejam só. Condições
[00:23:51] de verdade e critérios
[00:23:54] para a verdade. O relativismo,
[00:23:55] o relativismo vai confundir isso. Vejam bem.
[00:23:58] Uma condição de verdade
[00:23:59] descreve aquilo que
[00:24:01] constitui a verdade de uma
[00:24:03] afirmação, sendo
[00:24:05] ontológica e associada
[00:24:07] ao que a verdade é em
[00:24:09] si mesma. Tomemos como exemplo
[00:24:11] a afirmação
[00:24:12] Há dinossauros vivos na Austrália.
[00:24:16] Bom, as condições
[00:24:17] de verdade para tal afirmação
[00:24:19] seriam a obtenção
[00:24:21] do real estado de coisas, a saber,
[00:24:24] dinossauros vivendo
[00:24:25] na Austrália. Agora,
[00:24:27] critérios para a verdade,
[00:24:29] por outro lado, são testes
[00:24:31] epistemológicos para
[00:24:33] decidir ou justificar
[00:24:35] quais afirmações são verdadeiras
[00:24:37] ou falsas. No caso
[00:24:39] dos dinossauros vivendo na Austrália,
[00:24:42] alguns dos critérios
[00:24:43] seriam relatos de
[00:24:45] testemunhas oculares,
[00:24:47] a descoberta de pegadas recentes
[00:24:49] de dinossauros, restos
[00:24:51] de material genético testável
[00:24:53] em laboratório, etc.
[00:24:55] Então, neste sentido,
[00:24:57] as condições para a verdade
[00:24:59] podem ser relativas
[00:25:01] a determinadas pessoas ou grupos
[00:25:03] sociais. Isso pode ser, tá?
[00:25:05] As condições para a verdade.
[00:25:07] De tal maneira que os antigos,
[00:25:09] por exemplo, estavam
[00:25:10] epistemologicamente justificados
[00:25:13] em acreditar que a Terra
[00:25:15] era plana, embora eles
[00:25:17] estivessem errados
[00:25:19] quanto a isso. Diante de novas
[00:25:21] evidências, a crença deve ser
[00:25:23] corrigida, mas, reparei,
[00:25:25] os critérios de verdade
[00:25:27] não tornam as condições
[00:25:30] de verdade relativas.
[00:25:32] A afirmação,
[00:25:34] por exemplo, a Terra
[00:25:35] é plana, é objetivamente
[00:25:38] verdadeira ou falsa,
[00:25:40] independente
[00:25:41] da evidência que determinado grupo
[00:25:43] tem à sua disposição.
[00:25:46] Os pós-modernos
[00:25:47] buscam desqualificar não apenas
[00:25:49] qualquer afirmação objetiva
[00:25:51] sobre a realidade, mas
[00:25:53] até mesmo as três
[00:25:55] leis fundamentais da lógica.
[00:25:57] Alguns afirmam que
[00:25:58] estas são apenas expressões da lógica
[00:26:01] ocidental,
[00:26:03] aristotélica, colonialista,
[00:26:06] imperialista, e que
[00:26:07] por isso essas três leis da lógica
[00:26:09] não devem ser consideradas
[00:26:11] universais. Agora,
[00:26:13] essa afirmação parte de uma
[00:26:15] confusão básica entre o
[00:26:17] status lógico de uma proposição
[00:26:19] e o processo social
[00:26:21] utilizado para chegar
[00:26:23] a esta conclusão.
[00:26:25] Paremos, por exemplo, o estilo
[00:26:27] utilizado por Tomás de Aquino
[00:26:29] em suas obras, com
[00:26:31] uma forma de tradição oral
[00:26:33] de uma comunidade indígena
[00:26:35] brasileira. Mesmo
[00:26:37] que os nativos se expressem de maneira
[00:26:39] poética e sem uma estrutura
[00:26:41] rígida, como através
[00:26:43] da formação de silogismos,
[00:26:45] isso não diz nada sobre
[00:26:47] a estrutura lógica
[00:26:49] subjacente às próprias afirmações.
[00:26:52] Não se pode
[00:26:53] confundir estrutura lógica,
[00:26:55] com forma de
[00:26:57] expressão. A própria
[00:26:59] computação moderna, por exemplo,
[00:27:01] está solidamente
[00:27:02] alicerçada na lógica aristotélica,
[00:27:05] de modo que não há
[00:27:07] nenhum sistema de computação
[00:27:09] oriental no qual uma
[00:27:11] variável booleana possa
[00:27:13] ser verdadeira e falsa ao mesmo
[00:27:15] tempo, contrariando a
[00:27:17] lei aristotélica da não-contradição.
[00:27:19] Também na China, as
[00:27:21] linguagens de programação obedecem
[00:27:23] às mesmas leis do Ocidente,
[00:27:25] mostrando que essa suposta
[00:27:27] diferença cultural não
[00:27:29] diz respeito ao próprio modo
[00:27:31] de operação do pensamento.
[00:27:33] À guisa de conclusão,
[00:27:35] o que é que nós podemos afirmar?
[00:27:37] Vejam bem, se tudo
[00:27:39] é relativo, não faz
[00:27:41] sentido discutir em busca
[00:27:43] da verdade. Qualquer
[00:27:45] diálogo não passaria de uma
[00:27:47] troca de opiniões,
[00:27:49] e se houver intenção de convencer
[00:27:51] alguém sobre determinado ponto de
[00:27:53] vista, isso não vai ser muito
[00:27:55] diferente da abordagem de
[00:27:56] um vendedor buscando fazer
[00:27:59] negócios com o cliente.
[00:28:01] O convencimento se daria não por
[00:28:03] força da verdade, mas pela
[00:28:05] promessa de prazer ou de uma
[00:28:07] vantagem. Agora, Nietzsche
[00:28:09] afirma, no entanto, que
[00:28:10] nenhum tipo de prazer jamais
[00:28:13] pode ser considerado
[00:28:14] um critério de verdade.
[00:28:17] Em sua obra O Anticristo,
[00:28:19] Nietzsche afirma que
[00:28:20] o prazer prova apenas o prazer
[00:28:23] e nada mais.
[00:28:25] Nietzsche se pergunta, olha,
[00:28:26] onde é que está escrito que
[00:28:28] os juízos verdadeiros
[00:28:30] produzem mais prazeres do que os
[00:28:32] falsos? Ou que exista
[00:28:34] uma harmonia pré-estabelecida
[00:28:37] na natureza, de tal
[00:28:38] maneira que sentimentos
[00:28:40] agradáveis decorram
[00:28:42] necessariamente da verdade?
[00:28:45] Não, Nietzsche afirma, olha,
[00:28:47] a experiência dos espíritos mais
[00:28:48] profundos mostra justamente o
[00:28:50] contrário. E essa frase é do Nietzsche,
[00:28:53] vejam só, abre aspas,
[00:28:55] necessário grandeza de alma
[00:28:57] para isso. Servir
[00:28:59] à verdade é a tarefa
[00:29:01] mais difícil. Fecha aspas.
[00:29:03] Então, como podemos ver,
[00:29:05] mesmo Nietzsche,
[00:29:07] elencado às vezes entre os filósofos
[00:29:09] da pós-modernidade,
[00:29:11] expressava às vezes um conceito
[00:29:12] objetivista de verdade.
[00:29:15] Se a afirmação
[00:29:16] tudo é relativo é objetivamente
[00:29:19] verdadeira, ela
[00:29:21] cai em sua própria armadilha
[00:29:23] e se torna também relativo.
[00:29:25] Sendo não mais que uma
[00:29:27] opinião, entre outras, e
[00:29:29] sem a validade universal que
[00:29:31] almejava. Ninguém tem
[00:29:33] um dever moral ou intelectual de
[00:29:35] concordar com esta proposição.
[00:29:37] Mas, se o fizer,
[00:29:39] tem que abandonar qualquer
[00:29:40] pretensão à validade
[00:29:42] universal de suas próprias afirmações.
[00:29:45] A questão fica mais séria,
[00:29:47] no entanto, se levarmos a
[00:29:49] discussão para o campo moral,
[00:29:51] porque o relativismo
[00:29:53] concede que determinados
[00:29:55] atos horrendos, como
[00:29:56] a tortura ou o estupro, por exemplo,
[00:29:59] possam ser teoricamente
[00:30:01] justificados se
[00:30:03] uma determinada sociedade
[00:30:04] assim o decidir. Agora,
[00:30:07] situações menos exageradas
[00:30:09] já existem em nosso
[00:30:11] mundo globalizado.
[00:30:13] Em alguns países, por exemplo,
[00:30:14] a opressão da mulher é um traço
[00:30:17] cultural com fortes ligações
[00:30:18] com a religião, de modo que
[00:30:21] o relativismo interdita
[00:30:23] aqui qualquer
[00:30:24] discussão mais ampla sobre
[00:30:26] a universalidade de certos valores
[00:30:29] inegociáveis, tais como
[00:30:31] a dignidade humana.
[00:30:33] Agora, este é um tema, no entanto,
[00:30:35] para outro episódio.
[00:30:37] E lembrando, mais uma vez, inscreva-se
[00:30:39] em nosso novo curso
[00:30:40] Filosofia para a Vida – Refletir para Viver Melhor.
[00:30:43] O link está na descrição
[00:30:44] deste episódio e também em nosso site
[00:30:47] www.filosofiaepicanalise.org
[00:30:51] E aqui na descrição deste episódio
[00:30:53] você encontra também o link para a nossa
[00:30:54] e para os nossos outros cursos, tais como
[00:30:57] Introdução à Filosofia,
[00:30:59] Crítica da Religião e a Filosofia
[00:31:01] de Karl Marx. E se você
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