INTIMIDADES SINTÉTICAS
Resumo
Este episódio do Vibes em Análise, conduzido pelos psicanalistas Lucas Liedtke e André Alves, investiga o conceito de ‘intimidades sintéticas’ no contexto contemporâneo. Partindo do filme Her (2013) e de dados sobre a solidão como epidemia global, os hosts exploram como a tecnologia e a inteligência artificial estão sendo usadas para preencher lacunas afetivas, oferecendo relações programadas e assistidas.
A discussão começa com uma reflexão sobre a própria definição de intimidade, distanciando-a da mera privacidade ou superexposição. André propõe a intimidade como um processo dinâmico de partilha que permite o desconhecimento mútuo e a transformação, citando conceitos como a ‘estimidade’ de Lacan. Lucas contrasta isso com a lógica atual de ‘show do eu’ e visibilidade saturada, onde a intimidade é mercantilizada e esvaziada de seu caráter reservado.
Os hosts então analisam como a aceleração da vida e a cultura do ‘match’ promovem uma síntese prejudicial do tempo necessário para construir intimidade. Eles discutem os riscos de relações com inteligência artificial, que, ao eliminar a vergonha, o risco, a ausência e o conflito, oferecem uma confirmação compulsiva e podem levar a um atrofiamento das capacidades relacionais. A conversa também aborda a ‘artificialidade autêntica’ e como a hiperconexão pode gerar uma falsa sensação de proximidade acompanhada de solidão latente.
André encerra com uma reflexão inspirada no livro Intimacies, de Adam Phillips e Leo Bersani, sugerindo que a intimidade genuína pode residir na capacidade de se interessar pelo que não se é, criando um espaço para subjetividades hipotéticas e ‘intimidades despessoalizadas’ longe do peso da performance e da vergonha.
Indicações
Conceitos
- Estimidade (Lacan) — Conceito psicanalítico resgatado por Christian Dunker e discutido por André. Refere-se à descoberta de si mesmo fora de si, no outro, destacando que nosso íntimo é formado pelo estranho e pelo outro, não apenas pelo familiar.
- Artificialidade Autêntica — Conceito desenvolvido pelos hosts da Float Vibes, mencionado por André. Refere-se ao sintoma coletivo de um tempo em que a inautenticidade se tornou estranhamente real, onde a versão mais autêntica acaba sendo a mais sintética.
Ferramentas_Tecnologicas
- Replika — Chatbot de IA mencionado por André. Definido como um ‘companheiro’ projetado para simular interações humanas e oferecer suporte emocional 24/7, com milhões de usuários, muitos relatando redução da solidão.
- Character.AI — Ferramenta de IA citada por André, que permitia interagir com personagens como a Taylor Swift. Teve aderência massiva entre jovens, com volume de consultas comparável a uma fração significativa das buscas do Google.
Filmes
- Her — Filme de 2013 dirigido por Spike Jonze, citado na abertura como premissa central do episódio. Retrata um escritor solitário que desenvolve um relacionamento com um sistema operacional inteligente, mostrando-se surpreendentemente atual em 2025.
Livros
- O Reinvenção da Intimidade — Livro de Christian Dunker mencionado por André, que resgata o conceito lacaniano de ‘estimidade’.
- A Arte de Amar — Livro de Christian Dunker citado por Lucas, que contém a passagem: ‘Uma conversa é sempre uma viagem de risco…’ sobre a travessia de limites na intimidade.
- Intimacies (Adam Phillips & Leo Bersani) — Livro mencionado por André no final do episódio, uma conversa entre os autores que explora novas formas de intimidade, como o ‘narcisismo impessoal’ e as ‘intimidades despessoalizadas’.
- Psicanálise e Entrevista com a Inteligência Artificial (Henri Crutzen) — Livro citado por Lucas, que discute as condições para uma convivência entre psicanálise e IA.
Pessoas
- Paula Sibilia — Pesquisadora citada por Lucas, autora da obra que articula o conceito do ‘show do Eu’, uma oposição ao diálogo íntimo na era da superexposição.
- Carol Tiuquinha — Psicanalista e pesquisadora de relacionamentos convidada para o episódio. Ela aprofunda a discussão sobre hiperconexão, solidão e o uso de IA nas dinâmicas relacionais.
- Davidson Faustino — Sociólogo e filósofo mencionado por Lucas, que problematizou em um artigo as relações com IA, alertando para a ilusão de compreensão perfeita e personalizada oferecida pelos chatbots.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução: O cenário atual das intimidades sintéticas — O episódio começa citando o filme Her e dados recentes que mostram uma abertura crescente para relacionamentos com IA. É apresentado o contexto da solidão como epidemia global declarada pela OMS, criando um cenário propício para o surgimento de ‘intimidades sintéticas’. Os hosts Lucas e André se apresentam e lançam a questão central: será que temos topado formas muito sintéticas de intimidade e relação?
- 00:07:41 — Definindo intimidade: além da privacidade e do saber — André discute a intimidade não como um estado final de conhecimento mútuo, mas como um processo contínuo que permite um ambiente seguro para o desconhecimento e a transformação. Ele introduz o conceito lacaniano de ‘estimidade’ – descobrir-se fora de si, no outro. A intimidade é vista como a partilha das partes mais esquisitas e a capacidade de ‘sofrer juntos’, tornando a vida mais tolerável.
- 00:11:44 — Intimidade vs. Tirania da Visibilidade — Lucas contrasta a intimidade com a lógica atual de superexposição e ‘show do eu’. Ele argumenta que a intimidade requer penumbra, sussurro e a manutenção de um abismo entre os sujeitos, enquanto a cultura atual mercantiliza a confissão e banaliza a vida privada. Ele exemplifica com os ‘dailies’ de influenciadores, uma tentativa de recuperar uma mística perdida pela excessiva visibilidade.
- 00:15:47 — História da intimidade: do quarto burguês à tela — André traça um panorama histórico, mostrando como a intimidade, como espaço privado e interior, é uma invenção burguesa ligada à propriedade privada e ao lar como refúgio. Ele contrasta isso com a era atual, onde o ‘quarto sagrado’ foi substituído pela ‘tela’, e o diário íntimo se tornou post público, levando a uma desproteção e esvaziamento da experiência subjetiva.
- 00:21:26 — O significado de ‘sintético’: artificialidade e síntese — Após um intervalo, os hosts retomam discutindo o termo ‘sintético’. André conecta ao conceito de ‘artificialidade autêntica’ – a produção de mundos genuinamente falsos. Ele também aborda a ‘síntese’ no sentido de aceleração e redução, como na pressa em chamar todos de ‘amigo’ ou em decidir o potencial de um relacionamento no primeiro encontro, tentando pular as etapas necessárias para a formação da intimidade.
- 00:24:48 — Vergonha, risco e o tempo da intimidade — Lucas argumenta que a vergonha e o risco são componentes essenciais da intimidade humana, que são eliminados nas interações com IA. Ele cita Christian Dunker sobre a conversa como uma ‘viagem de risco’ e defende que a intimidade requer aposta, ousadia e a tolerância à possibilidade de a coisa ‘degringolar’. A tentativa de controle e higienização total esteriliza a possibilidade de vínculo.
- 00:29:02 — Administração da intimidade e conexão vs. relação — André comenta sobre um sintoma clínico contemporâneo: relacionamentos que tentam administrar a intimidade com regras rígidas, mantendo territórios separados e evitando a mistura e a invasão. Ele problematiza a troca do conceito de ‘relação’ pelo de ‘conexão’ ou ‘contato’, predominante no ambiente digital, que favorece o registro imaginário e o controle, em detrimento do corpo e do incontrolável.
- 00:37:46 — Entrevista: Carol Tiuquinha sobre hiperconexão e solidão — A psicanalista Carol Tiuquinha é introduzida para aprofundar o tema. Ela argumenta que a hiperconexão cria uma falsa sensação de proximidade, mas uma vivência de solidão latente, devido ao esvaziamento dos vínculos. Ela critica a cultura da edição, a aversão ao conflito (ghosting) e o uso da IA para evitar conversas difíceis, interpretar mensagens e buscar fórmulas relacionais, o que atrofia a capacidade de lidar com o desconforto e a alteridade.
- 00:51:26 — A economia da companhia: IAs como relações assistidas — André discute o fenômeno dos chatbots de IA (como Replika e Character.AI) como parte de uma ‘economia da companhia’, oferecendo validação e suporte emocional 24/7. Ele alerta que essas ‘relações assistidas’ são baseadas em confirmação compulsiva e eliminam conflito e ausência, promovendo um modelo relacional que nega a imperfeição e o estranhamento necessários para vínculos reais, podendo levar a um atrofiamento da capacidade relacional.
- 01:08:33 — Conclusão: Repensando a anatomia da intimidade — Os hosts concluem refletindo sobre a necessidade de não temer o ‘abismo’ do outro e de criar condições para a intimidade genuína. Eles propõem uma ‘anatomia da intimidade’ pessoal, pensando em quais relações tornaram a vida mais vivível. André finaliza citando o livro Intimacies, que fala de ‘intimidades despessoalizadas’ e da importância de se interessar pelo que não se é, criando espaços protegidos para o imprevisível e impublicável, longe do peso da vergonha.
Dados do Episódio
- Podcast: vibes em análise
- Autor: floatvibes
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2025-05-13T09:00:00Z
- Duração: 01:15:08
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/90f830c0-f4cb-0139-d4ee-0acc26574db2/episode/627dc8e1-893d-4340-a7cb-af6099942ac7
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Dados do Podcast
- Nome: vibes em análise
- Tipo: episodic
- Site: https://vibes-em-analise.zencast.website
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Transcrição
[00:00:00] Um escritor solitário desenvolve um relacionamento improvável com um sistema operacional projetado
[00:00:05] para atender a todas as suas necessidades.
[00:00:08] Essa é a premissa do filme Her, idealizado e dirigido pelo Spike Jonze em 2013, e que
[00:00:13] nunca pareceu tão atual.
[00:00:16] Segundo o Institute of Family Studies, um em cada quatro jovens adultos acha que namorados
[00:00:22] ou namoradas geradas por IA poderiam substituir o romance na vida real.
[00:00:27] Enquanto isso, uma pesquisa da Talk mostrou que 31% dos brasileiros acreditam que as pessoas
[00:00:33] deveriam ter o direito de casar com uma inteligência artificial.
[00:00:37] Ao mesmo tempo, a OpenAI, criadora do chat GPT, alega suposta preocupação sobre usuários
[00:00:43] que estão se tornando emocionalmente dependentes de seus assistentes virtuais.
[00:00:47] É muito curioso pensar que essa história do filme Her se passa exatamente no ano de
[00:00:51] 2025.
[00:00:53] O tempo das intimidades sintéticas definitivamente começou.
[00:00:56] Em janeiro de 2013…
[00:00:57] Em janeiro de 2025, a Organização Mundial de Saúde declarou que a solidão é uma epidemia
[00:01:02] global, e criou uma comissão internacional para conexão social, afirmando que o crescente
[00:01:09] isolamento social tem se revelado uma ameaça grave à saúde física, psicológica e emocional
[00:01:14] das pessoas ao redor do mundo.
[00:01:16] Parece o cenário perfeito para que as intimidades sintéticas tornem-se a norma.
[00:01:21] Enquanto alguns dados indicam que estamos casando e namorando menos, outros estudos argumentam
[00:01:27] que não é bem uma questão de indisponibilidade relacional, mas uma mudança nos rótulos.
[00:01:32] Situationships, contatinhos, conversantes, casual mas não impessoal.
[00:01:38] Tem todo um novo repertório de modelos de relação que podem ser mais plurais, esporádicas,
[00:01:43] informais, e será que também menos íntimas?
[00:01:46] Afinal, intimidade é sobre dividir a rotina, dividir o mesmo teto, ou há outras formas
[00:01:51] de estreitar a proximidade dos nossos vínculos?
[00:01:54] Juntando tudo isso, dá pra gente se perguntar…
[00:01:57] Será que a gente tem topado formas muito sintéticas de intimidade?
[00:02:02] E até de relação.
[00:02:04] Dá pra pensar naquela analogia de que parece que a gente tá tentando matar a sede bebendo
[00:02:08] refrigerante.
[00:02:09] É sintético, não é água.
[00:02:12] E tem algo nesse líquido que a gente não sabe muito bem o que é, mas que é radicalmente
[00:02:17] insuficiente.
[00:02:18] Ou melhor, intencionalmente insuficiente.
[00:02:21] Nesse episódio, um dos pontos que a gente vai levantar é…
[00:02:27] Exatamente porque elas acabam tendo um caráter altamente adictivo e programadamente insatisfatórios.
[00:02:34] Oi, eu sou o Lucas Liedtke.
[00:02:35] E eu sou o André Alves.
[00:02:37] Esse é o Vibes em Análise, o nosso podcast que se desafia a analisar as vibes que estão
[00:02:41] submersas no inconsciente coletivo.
[00:02:44] O André e eu somos psicanalistas e pesquisadores.
[00:02:46] Nossas análises estão no perfil Float Vibes.
[00:02:49] E a gente tem uma newsletter que você pode assinar na plataforma Substack.
[00:02:52] E a gente tem um grupo de trocas e novidades rolando no Telegram.
[00:02:56] Se você quiser entrar…
[00:02:57] É só procurar Float Vibes ou clicar no link aqui na descrição do episódio.
[00:03:01] E agora, uma parte bastante importante.
[00:03:04] Talvez você não saiba, ou talvez você não se lembre, mas as plataformas de áudio, como
[00:03:09] Spotify e qualquer outra que você esteja usando agora, não remuneram os criadores
[00:03:13] de podcasts pelos plays que a gente gera pra eles.
[00:03:16] Sim, a gente não ganha pra produzir esse conteúdo.
[00:03:19] E é exatamente por isso que talvez você escute intervalos comerciais nesse episódio.
[00:03:24] Mesmo que você seja assinante de um serviço premium.
[00:03:26] É, esses anúncios existem pra ajudar a pagar alguns dos nossos custos de produção.
[00:03:32] Mas se você valoriza o nosso trabalho e quer nos ajudar a eliminar os anúncios,
[00:03:36] pode apoiar esse projeto por R$15,00 mensais e ainda ter os seguintes benefícios.
[00:03:41] Primeiro, você vai ter acesso antecipado aos episódios.
[00:03:44] Ou seja, vai poder ouvir alguns dias antes do lançamento oficial.
[00:03:47] Segundo, você vai ter acesso a todos os conteúdos pagos da nossa newsletter no Substack.
[00:03:53] Inclusive as referências, as dicas de livros e outros links
[00:03:55] para o nosso site.
[00:03:56] E terceiro, a gente tem agora o Vibes em Análise Sessão em Grupo.
[00:04:02] Um novo formato de episódio.
[00:04:04] Esporádico e exclusivo com acesso apenas para os apoiadores.
[00:04:08] E que vai ser criado com base em perguntas e questões enviadas por quem nos escuta.
[00:04:14] Então vamos lá.
[00:04:14] A gente conta com você e se a gente chegar em pelo menos 500 apoiadores,
[00:04:18] a gente se compromete a eliminar os breaks comerciais dos próximos episódios.
[00:04:22] O link para virar um apoiador do Vibes em Análise no Apoia-se
[00:04:25] está aqui na descrição.
[00:04:26] Então, pensa com carinho aí para fazer parte.
[00:04:30] Beleza?
[00:04:31] Beleza.
[00:04:32] Vamos lá.
[00:04:33] Lucas, sendo bem sincero, você namoraria uma inteligência artificial?
[00:04:37] Eu namoraria uma inteligência artificial.
[00:04:56] Eu namoraria uma inteligência artificial.
[00:04:56] Eu namoraria uma inteligência artificial.
[00:04:56] Desde que, um, fosse uma relação não monogâmica.
[00:05:01] E dois, de que existisse um corpo.
[00:05:04] Algum corpo, alguma fisicalidade mesmo, assim, com toque, com textura.
[00:05:09] E não só uma tela com palavras e respostas genéricas.
[00:05:13] Por enquanto, eu ainda não acho tão estimulante, assim, esses papos e flertes com robôs.
[00:05:20] No comecinho até que rolou um pouco desse fascínio para mim, mas depois perdeu a graça.
[00:05:24] Isso de querer ficar falando mais de mim.
[00:05:26] Ou de fazer perguntas sobre o outro que eu estou projetando ali.
[00:05:30] De tentar criar algum senso de intimidade.
[00:05:33] Isso não me atrai muito.
[00:05:34] Ao mesmo tempo, se isso, de alguma forma, alivia um sentimento de solidão para algumas pessoas,
[00:05:41] aí, como diz o meme, quem somos nós para julgar?
[00:05:45] Fiquei pensando até um pouco na história, na discussão toda aí dos bebês reborn.
[00:05:49] De por que alguém tem e cuida de um bebê que é um boneco realista e não de um bebê humano.
[00:05:56] Por quê?
[00:05:56] Porque o bebê não é um bebê realista.
[00:05:56] Porque o bebê não é um bebê realista.
[00:05:56] Porque o bebê não é um bebê realista.
[00:05:56] Porque o bebê não é um bebê realista.
[00:05:56] Porque o bebê não é um bebê realista.
[00:05:56] Porque o bebê não é um bebê realista.
[00:05:56] Bom, por centenas de motivos.
[00:05:58] É artificial?
[00:05:59] É.
[00:06:00] Mas existem causas, motivações e efeitos que são bem reais.
[00:06:05] E o que me parece ser o problema maior em desenvolver uma relação interpessoal com a inteligência
[00:06:11] artificial é que ela se torne uma substituição absoluta para relações humanas.
[00:06:17] Relações que falham.
[00:06:19] Relações que estão falhando demais.
[00:06:20] Se você já é muito introvertido ou tem alguns bloqueios sociais,
[00:06:26] afetivos, e começa a se isolar, ainda mais porque vai se suprindo com a companhia virtual de robôs,
[00:06:33] isso me parece um problema.
[00:06:35] E tem pesquisas mostrando que isso está acontecendo.
[00:06:38] A gente já viu alguns casos isolados mais graves, com desfechos bem tristes e trágicos.
[00:06:44] Porque essa interação com pessoas automatizadas pode nos fazer regredir a um tipo de amor que é muito infantil.
[00:06:53] Porque é muito totalizante.
[00:06:54] É muito demandante.
[00:06:57] De não saber lidar com frustrações, com a espera da resposta do outro.
[00:07:01] Com as faltas nossas e as dos outros.
[00:07:04] Mas assim, olhando em um lado otimista, eu fico pensando que talvez esses AI characters,
[00:07:11] dependendo de como eles são programados,
[00:07:13] poderiam servir como algum tipo de aliado para ajudar algumas pessoas a praticar formas de interação.
[00:07:20] Aprimorar a linguagem, não sei, tipo um treino, sabe?
[00:07:22] Mas dá para dizer que é uma relação…
[00:07:24] Que existe intimidade.
[00:07:27] Acho que a ideia do episódio também é a gente começar falando sobre intimidade.
[00:07:32] E aí entrar mais nessa noção de intimidade artificial ou sintética, André.
[00:07:36] Então, o que você tem a dizer sobre a definição de intimidade?
[00:07:41] Como que você vê esse conceito ou sentimento se manifestando hoje em dia?
[00:07:46] É, intimidade é uma dessas palavras bem grandes, com muitos significados.
[00:07:50] Mas, num sentido bem unicotiano, a intimidade é uma experiência fundamental
[00:07:54] do nosso desenvolvimento.
[00:07:56] É a capacidade da gente se sentir seguro, acolhido, em um certo tipo de sintonia com o outro,
[00:08:03] num ambiente que é favorável ao desenvolvimento do nosso senso de si e também da nossa autonomia.
[00:08:08] Claro, a gente sabe, vale sempre lembrar, que a intimidade não é um estado final,
[00:08:13] mas um processo contínuo do nosso desenvolvimento,
[00:08:16] que se estende ao longo da vida e vai se manifestar de diferentes jeitos
[00:08:19] nas nossas relações de amizade, de amor, de afeto, de uma forma geral.
[00:08:24] Ou seja…
[00:08:24] Ou seja, a intimidade tem a ver com a criação de um espaço em que o sujeito pode colocar suas incertezas,
[00:08:30] seus medos, as suas contradições, seus absurdos, as estranhezas, as esquisitices, os defeitos, enfim…
[00:08:37] Todas as partes de si que também estão naquele espaço do vir a ser, do se tornar.
[00:08:44] Ou seja, intimidade não é necessariamente privacidade, mas intimidade é uma partilha.
[00:08:50] Junto com o outro, a gente acessa as nossas partes mais desconhecidas,
[00:08:53] mais privadas.
[00:08:54] Profundas, mais esquisitas.
[00:08:56] E aí, lá no Reinvenção da Intimidade, o Dunker, inclusive, resgata um termo muito feliz do Lacan,
[00:09:01] que é a estimidade.
[00:09:03] Ou seja, você se descobrir fora de si, no outro.
[00:09:07] Olha que loucura que é a alteridade e o encontro com outras pessoas.
[00:09:12] Só que a experiência com o outro, não como uma forma de confirmar o que eu já sei sobre mim,
[00:09:17] mas sim de me sentir seguro o suficiente para deixar aparecer o que me deixa inseguro,
[00:09:22] o que eu não sei sobre mim.
[00:09:25] Várias vezes a gente pensa na intimidade como algo que é assim…
[00:09:28] Ah, eu sei tudo sobre o outro, e o outro sabe tudo sobre mim.
[00:09:32] Mas eu prefiro pensar na intimidade como esse estado dinâmico,
[00:09:36] esse ambiente que nos permite nos desconhecer juntos.
[00:09:40] Então, a intimidade também tem a ver com uma dinâmica do encontro que, em última instância,
[00:09:44] permite em nós algum tipo de transformação.
[00:09:48] E aí, me adiantando um pouco, Lucas, a gente vai falar de bebês reborn,
[00:09:52] de inteligência artificial…
[00:09:54] De aplicativos e de todas essas tecnologias de programação das relações.
[00:10:01] O problema da cultura do match, por exemplo,
[00:10:04] de que você tem que ser pareado com a pessoa que é, entre aspas, ideal para você,
[00:10:09] é que a gente está falando aí de uma concepção de intimidade em que dois ou mais
[00:10:13] vão compartilhar aquilo que sabem sobre si.
[00:10:17] Do que você gosta, o que te interessa, enfim.
[00:10:20] Como se a escolha amorosa, e não só a relacional,
[00:10:24] fosse feita pelas nossas capacidades boas, pelo que a gente e o outro tem de ideal.
[00:10:31] Só que não é bem assim.
[00:10:32] Porque, bom, primeiro, a gente nunca tem muita clareza do que determina as nossas escolhas,
[00:10:38] ou seja, sempre tem uma dose de indeterminação no que a gente quer.
[00:10:42] Segundo, é aquela ideia muito conhecida, a gente também escolhe o incômodo.
[00:10:48] A gente também escolhe, de alguma forma, o defeito do outro, a falha do outro,
[00:10:52] a falta do outro.
[00:10:54] Aquilo que nos atrai e nos assusta ou nos irrita ao mesmo tempo.
[00:10:58] Em terceiro lugar, eu também penso que o encontro amoroso
[00:11:01] tem algo de se ligar a alguém que vai nos oferecer esse ambiente minimamente acolhedor
[00:11:07] para que a gente possa sofrer juntos.
[00:11:10] Alguém que nos interessa não só porque essa pessoa nos enxerga num pedestal
[00:11:14] ou nos oferece uma imagem tão bonita, lustrosa e interessante
[00:11:17] que nos faz querer ser essa pessoa,
[00:11:19] mas também alguém que se importa com a nossa dor.
[00:11:23] Alguém que vai…
[00:11:24] Alguém que vai tornar o sofrimento da vida mais tolerável.
[00:11:27] Alguém que vai tornar o não saber da vida e de si mais tolerável.
[00:11:33] E claro que boa parte disso não é consciente.
[00:11:36] Faz sentido, Lucas?
[00:11:37] Faz muito sentido, André.
[00:11:39] Eu estava pensando bem nessa mesma linha.
[00:11:41] E quando eu penso em intimidade,
[00:11:44] eu penso bastante no oposto do regime que se vive hoje,
[00:11:48] que é excessivamente a céu aberto.
[00:11:51] Você falou de clareza.
[00:11:53] E o que existe hoje é uma luz ofuscante.
[00:11:57] É uma visibilidade saturada da conexão com mais e mais e mais
[00:12:03] e de um compartilhar que parece que pega e toca em tudo, de todo mundo.
[00:12:08] Sem espaço ou sem valor para esses cantos mais escuros que você foi trazendo aí.
[00:12:14] Pegando de novo aquela imagem do Citarella, que a gente gosta bastante,
[00:12:17] das clareiras na floresta, que são essas plataformas hipermediáticas,
[00:12:23] onde todos podem enxergar e ler tudo o que todos mostram e falam e escrevem.
[00:12:30] Só que a intimidade me remete a outro tipo de iluminação.
[00:12:34] Uma luz que é mais baixa, uma penumbra mais reservada.
[00:12:38] Um mistério que é interessante porque está na meia-luz.
[00:12:42] Não é um grito, é um sussurro, é uma confidência.
[00:12:46] E existe aí uma distância.
[00:12:49] A gente pensa em intimidade e pensa em proximidade,
[00:12:52] quando na verdade é mobilidade.
[00:12:53] A gente pensa muito mais sobre sustentar um abismo entre os sujeitos.
[00:12:58] Um abismo que existe entre nós.
[00:13:00] Existe um abismo e ainda assim eu consigo te tocar e te sentir e te escutar e me sentir escutado.
[00:13:07] E isso é íntimo.
[00:13:09] Só que a lógica corrente hoje é a da incitação à supervisibilidade.
[00:13:14] Quanto mais gente souber, melhor.
[00:13:17] Quanto mais gente me ver, melhor.
[00:13:19] E assim a gente mercantiliza a intimidade.
[00:13:22] A confissão.
[00:13:23] Se tornou midiática, se tornou interativa, lucrativa.
[00:13:28] E aí se formam essas arenas onde a imagem de si é reeditada e republicada à exaustão
[00:13:35] para exibir uma espécie de intimidade inventada.
[00:13:39] Essa é muito a premissa do show do Eu, articulado pela Paula Sibilia,
[00:13:43] que é esse espetáculo enquanto uma oposição ao diálogo.
[00:13:48] Eu gostei que você falou de privacidade porque eu estava pensando também
[00:13:52] que é importante pontuar essa diferença entre intimidade e privacidade
[00:13:57] porque não é a mesma coisa.
[00:13:59] A gente tem que pensar que quando muita coisa que era privada se tornou pública
[00:14:04] e muita coisa que era pública se tornou privada, a noção de intimidade mudou bastante.
[00:14:09] Porque você pode ter acesso às imagens cotidianas da vida de alguém
[00:14:14] ou vídeos dos órgãos sexuais de alguém, mas isso não produz intimidade.
[00:14:20] O que a gente vê é um festival de vidas privadas sendo oferecidas
[00:14:25] de forma inclusive a banalizar tudo que se mostra.
[00:14:28] E vai se tornando eventualmente desinteressante também.
[00:14:31] É um pouco daquele mar de mesmice.
[00:14:33] Já vi, já vi, já vi.
[00:14:35] Não tem pudor, não tem camada, não tem dúvida, não tem subtexto.
[00:14:40] Esses dias a Nina, pesquisadora aqui da Float que trabalha com a gente,
[00:14:44] me explicou que os influenciadores agora têm os tais dos dailies,
[00:14:48] que são essas contas fechadas, mas que qualquer um pode pedir pra entrar,
[00:14:52] em que eles revelam uma suposta autenticidade mais radical das suas vidas,
[00:14:57] como, por exemplo, as marcas que eles realmente consomem
[00:15:01] e não as publis que fazem abertas pro grande público.
[00:15:05] Como se fosse esse mundo secreto e mais espontâneo e menos filtrado.
[00:15:10] E esse mundo vale mais.
[00:15:12] Mas, no fim, é tudo meio que a mesma coisa.
[00:15:15] A gente tá tentando recuperar algo que parece que tá
[00:15:17] pra sempre perdido.
[00:15:19] Isso soa meio que como uma tentativa de criar uma mística em vidas que perderam valor
[00:15:24] porque foram torradas pelas luzes dos holofotes.
[00:15:28] Pela tirania da visibilidade.
[00:15:30] De quem quer ou precisa aparecer a qualquer custo.
[00:15:35] Que imagem, hein, Lucas?
[00:15:37] Torradas pela luz dos holofotes.
[00:15:39] E aí eu fiquei pensando que esses dailies lembram os blogs
[00:15:43] e lembram os diários.
[00:15:45] E aí eu acho interessante retomar isso.
[00:15:47] Que a Paula contextualiza muito bem na obra dela
[00:15:50] de como a intimidade é uma invenção burguesa.
[00:15:53] Lá atrás, no século XX e XIX,
[00:15:55] com a ascensão da burguesia na Europa
[00:15:57] e o fortalecimento da propriedade privada,
[00:16:00] o lar foi se tornando um espaço de refúgio
[00:16:03] que se diferenciava do mundo público, do trabalho
[00:16:06] e das obrigações sociais
[00:16:08] e virou um lugar pra se proteger do desamparo
[00:16:12] do ambiente urbano em pleno desenvolvimento.
[00:16:15] A casa burguesa era organizada pra preservar a vida privada.
[00:16:20] E aí surgem os conceitos de quarto pessoal,
[00:16:23] a carta íntima, o diário pessoal,
[00:16:25] esses instrumentos pra cultivar um eu interior.
[00:16:29] Esse movimento é interessante porque ele também vem acompanhado
[00:16:32] de novas ideias de amor, inclusive do casamento por afeto,
[00:16:35] ao invés de ser só um arranjo econômico e social.
[00:16:38] E aí, esse indivíduo burguês que está enclausurado
[00:16:41] no silêncio do seu lar e do seu quarto privado,
[00:16:44] ele faz o quê?
[00:16:45] Ele lê e escreve sozinho, concentrado,
[00:16:49] ensimesmado num ambiente livre de ruídos e outras intromissões.
[00:16:53] E isso se torna essencial pra formação de uma subjetividade
[00:16:57] que seja bastante sua, bastante peculiar.
[00:17:01] Mas hoje, esse quarto sagrado se tornou bem raro.
[00:17:05] A gente passou de cada um tem direito a seu quarto
[00:17:08] pra cada um tem direito a sua tela.
[00:17:10] E o diário íntimo se tornou post público.
[00:17:13] E assim a gente se desprotege.
[00:17:16] A gente se lança à exposição.
[00:17:18] Nas ruas, nas vitrines, nos telões do mundo inteiro.
[00:17:22] E a gente tem um arsenal de técnicas de estilização da vida íntima
[00:17:28] pra tornar ela um espetáculo e esvaziar o seu real caráter íntimo.
[00:17:33] Eu acho que todo mundo já passou por uma situação meio ridícula
[00:17:36] de que algo muito pessoal e importante aconteceu com você
[00:17:40] e você resolveu publicar esse relato.
[00:17:43] Essa notícia, essa história.
[00:17:45] E a partir daí, as pessoas até podem encontrar você
[00:17:48] e puxar o assunto assim.
[00:17:49] E aí, conta mais como é que foi.
[00:17:51] Mas parece que alguma coisa do brilho original daquela experiência
[00:17:55] já se esvaziou pra você e pros outros.
[00:17:57] Porque virou uma história pública.
[00:17:59] O que mais tem pra se contar
[00:18:01] se você já disse quase tudo?
[00:18:03] Ou o melhor que tinha pra falar?
[00:18:05] E pra tanta gente?
[00:18:07] Como é que você conta das suas férias pra um amigo
[00:18:09] que viu 10 fotos ou vídeos por dia
[00:18:11] do que você tava experienciando?
[00:18:13] Ou mesmo vídeos em que você narra
[00:18:15] sobre o que você tá vivendo em tempo real
[00:18:17] enquanto protagonista, autor e narrador da sua vida?
[00:18:21] Aí o sujeito se torna mídia.
[00:18:24] E apesar de alguns ganhos,
[00:18:26] vamos considerar que existem grandes perdas também.
[00:18:29] Nossa, tanta coisa que você disse, Lucas,
[00:18:31] que eu fiquei pensando aqui em mil comentários.
[00:18:35] Mas indo por esse final,
[00:18:37] talvez essa cena que você desenhou pra gente,
[00:18:41] de ir contar pra um amigo
[00:18:43] aquilo que já foi excessivamente
[00:18:45] transformado em conteúdo,
[00:18:47] parece uma forma estranha de tentar
[00:18:49] alimentar a intimidade
[00:18:51] porque não se preserva uma condição
[00:18:53] meio fundamental dessa experiência
[00:18:55] íntima que é
[00:18:57] a surpresa.
[00:18:59] E a surpresa porque a intimidade
[00:19:01] não é necessariamente um saber
[00:19:03] que se detém
[00:19:05] e que se é compartilhado.
[00:19:07] Mas sim uma curiosidade que se mantém.
[00:19:09] Sim.
[00:19:10] Uma curiosidade pelo que
[00:19:12] ainda não chegou.
[00:19:14] É aquele momento em que
[00:19:16] um amigo diz pra você…
[00:19:18] Bom, eu e você já vivemos essa situação algumas vezes.
[00:19:20] Mas um amigo diz pra você
[00:19:22] alguma coisa que aconteceu
[00:19:24] ou algum pensamento que teve
[00:19:26] e os dois sustentam juntos um lugar de
[00:19:28] nossa, que louco isso.
[00:19:30] Caramba, e você sentiu isso?
[00:19:32] Ou nossa, mas o que será que o outro sentiu
[00:19:34] dessa história que você estava contando?
[00:19:36] Enfim, você falou em abismo
[00:19:38] e eu pensei na intimidade como essa experiência curiosa
[00:19:40] dos dois olharem pra baixo e falando
[00:19:42] nossa, parece fundo, hein?
[00:19:44] Ou
[00:19:46] o que será que tem aí?
[00:19:48] Naquela ideia do inconsciente como infinito
[00:19:50] que a gente carrega dentro de nós
[00:19:52] a intimidade talvez seja exatamente
[00:19:54] essa possibilidade.
[00:19:56] E também de pensar que
[00:19:58] bom, o descontentamento
[00:20:00] é a condição básica.
[00:20:02] Não vai estar tudo às claras
[00:20:04] e nem sempre a gente
[00:20:06] tem qualquer tipo de clareza
[00:20:08] inclusive.
[00:20:10] Na hipótese psicanalítica a gente
[00:20:12] sabe que a sexualidade, o amor, a
[00:20:14] vinculação, a agressividade, o trabalho
[00:20:16] são dimensões
[00:20:18] que estão eternamente em disputa
[00:20:20] e tudo isso
[00:20:22] tem que ser gerido porque a gente não consegue
[00:20:24] necessariamente controlar.
[00:20:26] E aí o que acontece? A gente sofre.
[00:20:28] O título do Freud
[00:20:30] Civilization and its Discontents
[00:20:32] A civilização
[00:20:34] e os seus descontentamentos.
[00:20:36] E como é difícil
[00:20:38] a gente fazer essas dimensões
[00:20:40] se apaziguarem minimamente.
[00:20:42] E por isso que a experiência humana
[00:20:44] muitas vezes é tão solitária
[00:20:46] porque nossa, eu tenho que dar conta de tudo isso.
[00:20:48] Ainda mais
[00:20:50] como você foi convocar a Paula
[00:20:52] no show do Eu em que o tempo inteiro
[00:20:54] a gente ainda tem que transformar tudo isso num show
[00:20:56] de preferência num show muito afirmativo
[00:20:58] muito positivo
[00:21:00] enfim, muito rap crático.
[00:21:02] E aí a intimidade
[00:21:04] tá um pouco mais nesse campo
[00:21:06] na partilha dos descontentamentos
[00:21:08] do sofrer do qual eu tinha
[00:21:10] falado, mas também desse abismo
[00:21:12] que você nos mostrou, Lucas.
[00:21:14] Acho que é, tem tudo isso
[00:21:16] e tem uma série de coisas
[00:21:18] que eu tenho que conseguir dar conta.
[00:21:26] A gente vai fazer agora um breve
[00:21:28] intervalo e voltamos daqui a pouco.
[00:21:30] Mas assim, Lucas, a gente definiu
[00:21:32] muito bem a intimidade
[00:21:34] e aí pegando
[00:21:36] o nosso título
[00:21:38] talvez a gente possa fazer a mesma coisa
[00:21:40] com um sintético ou sintéticas.
[00:21:42] Faz algum tempo
[00:21:44] que a gente escreveu uma análise bem interessante
[00:21:46] sobre o que a gente chamou de
[00:21:48] artificialidade autêntica.
[00:21:50] Sobre a gente estar
[00:21:52] se tornando especialmente
[00:21:54] competentes em produzir mundos
[00:21:56] objetos e relações que são
[00:21:58] autenticamente artificiais.
[00:22:00] Genuinamente falsas, fakes
[00:22:02] de verdade.
[00:22:04] O jeito que a gente definiu é que artificialidade autêntica
[00:22:06] é o sintoma coletivo
[00:22:08] de um tempo em que a inautenticidade
[00:22:10] se tornou estranhamente real.
[00:22:12] Como se a gente habitasse um estado
[00:22:14] de distorção da realidade
[00:22:16] e de nós mesmos tão grande que aquela pergunta
[00:22:18] mas isso é real?
[00:22:20] Parece até meio descartável.
[00:22:22] Claro, a gente segue precisando saber
[00:22:24] o que é verdade, mas a gente também
[00:22:26] ressente amargamente qualquer
[00:22:28] realidade que coloque as nossas ficções
[00:22:30] em perigo. E aí parece
[00:22:32] que muitas vezes a versão
[00:22:34] mais autêntica acaba sendo exatamente
[00:22:36] a versão mais sintética.
[00:22:38] É tudo falso, mas é tudo muito incrível.
[00:22:40] Só que tem outro sentido desse termo
[00:22:42] pra gente pensar, e aí eu queria saber
[00:22:44] o que você constrói
[00:22:46] a partir disso, que é a ideia
[00:22:48] de síntese, de resumo,
[00:22:50] de ser
[00:22:52] uma forma um pouco mais redutiva
[00:22:54] da gente lidar com a intimidade.
[00:22:56] E aí a gente tá falando de um outro sintoma
[00:22:58] muito grande do nosso tempo, que é
[00:23:00] a aceleração da intimidade.
[00:23:02] Como se não desse tempo
[00:23:04] da gente deixar a intimidade se formar.
[00:23:06] É a gente sair de um primeiro
[00:23:08] encontro já decidido sobre o potencial
[00:23:10] amoroso desse encontro.
[00:23:12] Ou mesmo, ai, parece que a gente já se
[00:23:14] conhece há anos. Ou não, nada a ver comigo.
[00:23:16] Próximo. Ou um comportamento
[00:23:18] social que eu sei que te intriga
[00:23:20] bastante, Lucas.
[00:23:22] Que é todo mundo se chamar de amigo e amiga
[00:23:24] sem se conhecer direito.
[00:23:28] Pra mim tem uma parte
[00:23:30] curiosa nisso, que é
[00:23:32] um impulso social, bem brasileiro
[00:23:34] inclusive, de querer
[00:23:36] se amigar do outro muito rapidamente.
[00:23:38] Só que parece que
[00:23:40] também tem uma espécie de tentativa de
[00:23:42] síntese do tempo que a intimidade leva
[00:23:44] pra se formar. Então eu já adianto,
[00:23:46] eu já rompo com esse tempo,
[00:23:48] eu tento pular pra frente,
[00:23:50] como uma espécie de apelo
[00:23:52] também, que é me acolhe, pelo amor
[00:23:54] de Deus, ou vamos construir uma coisa aqui
[00:23:56] que seja suficientemente
[00:23:58] amparadora. Mas eu queria te ouvir
[00:24:00] um pouco sobre isso. Acho legal,
[00:24:02] André, esse ponto. É como se pudesse
[00:24:04] decidir também, como se a intimidade fosse uma
[00:24:06] decisão, e aí você já coloca
[00:24:08] isso como uma construção
[00:24:10] que pode soar meio
[00:24:12] artificial.
[00:24:14] Eu fiquei pensando nessa questão do tempo,
[00:24:16] da pressa, e
[00:24:18] de que a intimidade realmente é um
[00:24:20] processo, é uma dinâmica,
[00:24:22] leva um tempo, e
[00:24:24] existem alguns momentos
[00:24:26] difíceis, eu acho, na construção da intimidade.
[00:24:28] Por isso que esse amigo
[00:24:30] que a gente fala assim pra qualquer pessoa
[00:24:32] pode ser superficial,
[00:24:34] e até às vezes meio falso, até às vezes
[00:24:36] interesseiro. E aí, fazendo um paralelo,
[00:24:38] trazendo pra história da inteligência artificial,
[00:24:40] eu fiquei pensando que um dos
[00:24:42] pontos críticos dessa
[00:24:44] interação relacional com a inteligência
[00:24:46] artificial é a questão da vergonha.
[00:24:48] Por quê? Isso de você
[00:24:50] não ter vergonha de falar
[00:24:52] de tudo e qualquer coisa
[00:24:54] pra um robô, por um lado
[00:24:56] pode ser libertador, pode ser interessante,
[00:24:58] você pode se escutar falando e tudo mais,
[00:25:00] mas por outro, é muito
[00:25:02] limitador. Uma coisa que eu gosto de falar
[00:25:04] às vezes é assim,
[00:25:06] tudo bem você se envergonhar um pouco
[00:25:08] na intenção de criar uma conexão
[00:25:10] essencialmente humana. Tudo bem
[00:25:12] você se expor
[00:25:14] de um jeito que possa ser meio
[00:25:16] embaraçoso, meio cringe,
[00:25:18] porque você pode ter
[00:25:20] certeza que o seu cringe vai ser lido como
[00:25:22] fofo e bonitinho por alguém,
[00:25:24] mas o medo da rejeição pode ser muito
[00:25:26] paralisante. Ou quando você
[00:25:28] vê, de repente você dá um
[00:25:30] passo mais largo do que deveria,
[00:25:32] ou do que o outro tava prevendo, ou
[00:25:34] desejando que você ia dar.
[00:25:36] Então a intimidade tem algo aí dessa
[00:25:38] dinâmica e de um risco.
[00:25:40] Tem que ter mesmo uma parcela
[00:25:42] de risco. Aquela coisa de
[00:25:44] será que já é hora de dizer isso?
[00:25:46] A gente já tem intimidade pra esse tipo de
[00:25:48] conversa? Ou vai soar
[00:25:50] apressado demais? Ou vai soar
[00:25:52] forçado demais?
[00:25:54] Será que já é hora de tocar o outro?
[00:25:56] De beijar? Qual que é o ritmo
[00:25:58] e o tempo do outro? Será que o outro
[00:26:00] vai gostar de mim? Será que o outro já gosta de mim?
[00:26:02] Como que você vai conviver e lidar
[00:26:04] com essas dúvidas que são tão
[00:26:06] humanas e existenciais
[00:26:08] em uma relação com o robô?
[00:26:10] Se ele foi programado pra te
[00:26:12] agradar, pra vocês se darem bem e continuarem
[00:26:14] interagindo. Então
[00:26:16] a intimidade não sintética
[00:26:18] ela se faz a partir de algum índice
[00:26:20] mínimo de aposta
[00:26:22] e de ousadia. De que
[00:26:24] a qualquer momento a coisa pode
[00:26:26] degringolar. No livro A Arte de Amar
[00:26:28] o Dunker diz assim
[00:26:30] Uma conversa é sempre uma viagem de
[00:26:32] risco. Podemos atravessar limites
[00:26:34] e magoar o outro ao devassar
[00:26:36] a sua intimidade. Mas também
[00:26:38] podemos não atravessar nem magoar
[00:26:40] por não ter criado a intimidade
[00:26:42] que só a travessia de limites
[00:26:44] pode estabelecer.
[00:26:46] Fecha aspas. Então
[00:26:48] nisso de se relacionar
[00:26:50] com intimidade, construindo e conquistando
[00:26:52] e fazendo a manutenção da intimidade
[00:26:54] tem algo aí de
[00:26:56] ir ao encontro do outro e de se deixar
[00:26:58] ser encontrado pelo outro
[00:27:00] que não vai dar pra ser
[00:27:02] precisamente calculado e controlado
[00:27:04] ou sintetizado.
[00:27:06] É aquela cena assim de
[00:27:08] ah, eu vou encontrar essa pessoa hoje pra
[00:27:10] conhecê-la ao vivo ou conhecê-la melhor
[00:27:12] mas já decidi
[00:27:14] que eu não vou falar hoje sobre tal assunto
[00:27:16] porque eu tenho medo de ser julgado
[00:27:18] ou de ser mal compreendido
[00:27:20] ou isso vai assustar. E aí você
[00:27:22] pode passar boa parte do encontro
[00:27:24] trabalhando psiquicamente pra
[00:27:26] isolar isso que você decidiu que não vai
[00:27:28] falar, que não vai mostrar.
[00:27:30] E o outro simplesmente sentir que você tá
[00:27:32] por algum motivo na defensiva
[00:27:34] escondendo alguma coisa.
[00:27:36] Claro que a gente tem que se observar
[00:27:38] e medir as coisas que a gente fala e faz
[00:27:40] mas não vai ter entrega
[00:27:42] e não vai ter um convite pra
[00:27:44] entrega se tudo for tão
[00:27:46] editado e higienizado
[00:27:48] porque isso esteriliza
[00:27:50] demais. E aí a semente da
[00:27:52] relação morre antes que
[00:27:54] qualquer tipo de vínculo pudesse
[00:27:56] brotar e florescer.
[00:27:58] Como você tava dizendo, tem alguma
[00:28:00] coisa que escapa do que
[00:28:02] a gente sabe sobre nós que precisa
[00:28:04] ser controlada.
[00:28:06] É isso que a gente tem que
[00:28:08] pensar.
[00:28:10] E é isso que vai ajudar a construir.
[00:28:12] E isso envolve algum nível de
[00:28:14] nervosismo, de medo, até de ansiedade.
[00:28:16] Porque todo esse trabalho de como a gente
[00:28:18] vai tentando controlar a forma como o
[00:28:20] outro supostamente nos enxerga
[00:28:22] e o que o outro pensa da gente, esse
[00:28:24] esforço todo é pra nos deixar menos
[00:28:26] ansioso ou mais ansioso?
[00:28:28] Porque a gente controlando mais ou menos
[00:28:30] alguma coisa vai escapar.
[00:28:32] E isso tem muito mais valor.
[00:28:34] Que é esse algo a mais que precisa
[00:28:36] se revelar ali só pra nós, naquele
[00:28:38] encontro cara a cara, frente a frente
[00:28:40] num tipo de nudez
[00:28:42] que vai mostrar o que tem por trás
[00:28:44] das nossas máscaras sociais públicas
[00:28:46] ou das nossas personas
[00:28:48] digitais. Então
[00:28:50] conversando no Instagram ou no WhatsApp
[00:28:52] você parecia tão isso ou aquilo, mas aqui
[00:28:54] agora comigo, olhando no meu olho
[00:28:56] a um metro de distância
[00:28:58] você é desse outro jeito.
[00:29:00] Isso acontece bastante.
[00:29:02] Acontece bastante.
[00:29:04] Engraçado, Lucas, que você foi falando
[00:29:06] e eu fui pensando num outro
[00:29:08] tipo de
[00:29:10] sintoma relacional que tem
[00:29:12] aparecido bastante na clínica, que são
[00:29:14] relacionamentos com uma espécie de
[00:29:16] tentativa de administração da intimidade.
[00:29:18] Como se desse pra
[00:29:20] cultivar algum
[00:29:22] tipo de parceria ou de
[00:29:24] enlaçamento que não
[00:29:26] tivesse muita mistura.
[00:29:28] Que os territórios, os espaços fossem
[00:29:30] muito bem definidos, muitas regras
[00:29:32] contratos
[00:29:34] quase uma visão mais objetiva
[00:29:36] do que é um relacionamento
[00:29:38] que é um tipo de intimidade
[00:29:40] que também vem com
[00:29:42] um valor de excitação até
[00:29:44] relativamente alto, mas
[00:29:46] tem uma sustentação
[00:29:48] relacional muito baixa
[00:29:50] porque parece que se perde o interesse muito rápido
[00:29:52] porque talvez
[00:29:54] o interesse não está exatamente
[00:29:56] em cultivar o desconhecido como a gente está falando
[00:29:58] até aqui, mas em manter o outro
[00:30:00] distante das áreas que eu não quero revelar
[00:30:02] ou não me deixar ser atravessado
[00:30:04] ou invadido pelo outro. E aí a gente
[00:30:06] está falando desse paradoxo
[00:30:08] muito curioso dos tempos
[00:30:10] da hiperconexão, que é a gente
[00:30:12] trocar uma ideia de relação por
[00:30:14] uma ideia de conexão ou de contato.
[00:30:16] Bom, dá pra gente fazer
[00:30:18] uma vasta conversa sobre
[00:30:20] como o
[00:30:22] encontro no ambiente virtual
[00:30:24] não é de corpos, mas de imagens
[00:30:26] e o encontro de imagens
[00:30:28] faz predominância
[00:30:30] alguma espécie de controle
[00:30:32] como você estava falando
[00:30:34] porque a gente sabe, não tem coisa mais
[00:30:36] fora de controle
[00:30:38] do que o corpo
[00:30:40] do que ser um ser
[00:30:42] psicossocial
[00:30:44] e psicosomático, mas
[00:30:46] esse encontro de imagens vai ser
[00:30:48] uma predominância do registro imaginário
[00:30:50] é o que
[00:30:52] alguns psicanalistas vão chamar de
[00:30:54] superexitação da película imagética
[00:30:56] que é um termo mais rebuscado
[00:30:58] pra gente pensar
[00:31:00] em que nesse tempo que sobram recursos
[00:31:02] de conexão, parece que falta tempo
[00:31:04] e disposição pra gente
[00:31:06] topar minimamente o que é desconhecido
[00:31:08] estranho ou fora do controle
[00:31:10] e aí dá-lhe auto-amor
[00:31:12] e esses imperativos
[00:31:14] que vão nos dizer que então a gente tem que amar
[00:31:16] a si mesmo mesmo. E essa ideia
[00:31:18] de estar em contato
[00:31:20] de que parece que você pode acessar qualquer
[00:31:22] pessoa das quais você gosta
[00:31:24] o tempo todo com a facilidade
[00:31:26] de alguns toques numa tela
[00:31:28] ou até de alguns comandos de voz
[00:31:30] vai criando esse tipo estranho
[00:31:32] de presença
[00:31:34] que é uma presença muito ausente
[00:31:36] ou uma presença descorporificada
[00:31:38] e muitas vezes
[00:31:40] uns tipos de vínculo meio
[00:31:42] unidirecionais
[00:31:44] demais
[00:31:46] se a gente pensar, por exemplo
[00:31:48] nas relações parassociais
[00:31:50] em quantas vezes a gente mantém
[00:31:52] relações ou acha que mantém
[00:31:54] relações com os nossos
[00:31:56] ídolos, os nossos criadores de conteúdo
[00:31:58] favoritos, enfim
[00:32:00] a gente também está falando dessas interações muito
[00:32:02] unilaterais
[00:32:04] entre um usuário de mídia e uma figura midiática
[00:32:06] que conecta totalmente
[00:32:08] com o que você estava falando antes
[00:32:10] do sujeito se tornando mídia
[00:32:12] e que acabam sendo
[00:32:14] mais um tipo de relações
[00:32:16] sem intimidades
[00:32:18] que no final das contas fazem
[00:32:20] a gente pensar em como anda
[00:32:22] difícil a gente realmente
[00:32:24] conseguir cultivar
[00:32:26] formas de intimidade
[00:32:28] que sejam bilaterais
[00:32:30] ou multilaterais
[00:32:32] e que estejam mais
[00:32:34] colocadas numa ideia de processo dinâmico
[00:32:36] que precisa ser
[00:32:38] mantido ao longo do tempo
[00:32:40] e que precisam de um tempo
[00:32:42] e que não podem ser imediatamente construídas
[00:32:44] ou artificializadas
[00:32:46] você não acha?
[00:32:48] é, e aí complica bastante também quando a gente
[00:32:50] entra mais nesse campo do amor romântico
[00:32:52] porque do jeito que eu enxergo
[00:32:54] e quem quiser discordar
[00:32:56] fique à vontade, não estamos aqui para ser
[00:32:58] ditatorial sobre o amor romântico
[00:33:00] que é amar ou que não é amar
[00:33:02] mas eu penso que não
[00:33:04] existe amor romântico sem intimidade
[00:33:06] você concorda, André?
[00:33:08] eu concordo, e eu acho que
[00:33:10] a gente anda ficando muito bons
[00:33:12] em tentar criar a discordância
[00:33:14] desse princípio
[00:33:16] perigosamente bons
[00:33:18] ao mesmo tempo, seguindo na linha que a gente está
[00:33:20] traçando aqui
[00:33:22] eu tenho pensado sobre como o interesse
[00:33:24] amoroso pode sucumbir
[00:33:26] quando não há mais
[00:33:28] estranhamento
[00:33:30] e redescoberta do outro
[00:33:32] quando a gente presume conhecer o outro tão bem
[00:33:34] que a gente não deixa mais
[00:33:36] o outro nos surpreender
[00:33:38] porque você já capturou
[00:33:40] e domesticou o outro de uma forma
[00:33:42] imaginária, e aí viram aqueles casais
[00:33:44] que ficam constantemente
[00:33:46] reclamando um do outro, projetando
[00:33:48] afetos e comportamentos um no outro
[00:33:50] e ninguém consegue mais se transformar
[00:33:52] porque o outro está ali nos relembrando
[00:33:54] o tempo todo
[00:33:56] entre aspas, como a gente é
[00:33:58] e aí é o clássico de que quando o casal se separa
[00:34:00] ele não volta a se sentir mais livre
[00:34:02] para tentar se conhecer
[00:34:04] e se autodesconhecer
[00:34:06] e esse é um ângulo da intimidade que me parece prejudicial
[00:34:08] porque é invasivo
[00:34:10] é limitante
[00:34:12] e circunscreve o outro em uma sobredeterminação
[00:34:14] sobre quem esse sujeito é
[00:34:16] tem uma correlação importante
[00:34:18] também entre intimidade e sexo
[00:34:20] que vale a gente pensar a respeito
[00:34:22] a gente falou um pouco sobre isso
[00:34:24] no episódio disfunções do sexo
[00:34:26] e aí eu não concordo quando se diz
[00:34:28] sexo com intimidade é sempre melhor
[00:34:30] porque pode também ser
[00:34:32] bastante monótono
[00:34:34] e seguro demais
[00:34:36] existe algo na intimidade
[00:34:38] que pode não ajudar as pessoas
[00:34:40] a experimentarem
[00:34:42] e arriscarem outras posições
[00:34:44] tanto posições sexuais
[00:34:46] dos seus corpos, mas principalmente posições
[00:34:48] subjetivas e dinâmicas
[00:34:50] na relação
[00:34:52] é a Nicole Kidman no Baby Girl
[00:34:54] que mesmo com o maridão atencioso
[00:34:56] empático, bonito
[00:34:58] nível Antônio Bandeiras
[00:35:00] ela não conseguia gozar com ele
[00:35:02] então a intimidade não pode intimidar
[00:35:04] a fantasia
[00:35:06] e aí que eu acho que volta para a questão da vergonha
[00:35:08] porque quando a vergonha é neutralizada
[00:35:10] e tudo se torna
[00:35:12] tão familiar demais
[00:35:14] isso pode nos deixar tão protegidos
[00:35:16] que a interação se torna
[00:35:18] desestimulante
[00:35:20] você falou do conceito do Lacan
[00:35:22] da estimidade, e eu acho que é sobre isso
[00:35:24] é essa torção
[00:35:26] que vai e volta
[00:35:28] para o outro
[00:35:30] que tem que se manter sempre girando
[00:35:32] de algum jeito
[00:35:34] essa tensão entre intimidade e exterioridade
[00:35:36] aquela figura topológica da fita de mobius
[00:35:38] contínuo
[00:35:40] em que interno e externo são
[00:35:42] uma artificialidade
[00:35:44] porque a separação entre um e o outro
[00:35:46] é uma ilusão
[00:35:48] aquela imagem do Asher com as formigas caminhando
[00:35:50] do lado de dentro, depois de fora
[00:35:52] e assim até o infinito
[00:35:54] sendo que elas nunca mudaram de lado
[00:35:56] porque elas estavam sempre
[00:35:58] todo mudando de lado
[00:36:00] sem saber que estavam mudando
[00:36:02] então a estimidade é pensar que o nosso íntimo
[00:36:04] é formado pelo estranho
[00:36:06] e não só pelo familiar
[00:36:08] é formado pelo outro
[00:36:10] e não só pelo eu
[00:36:12] então esse é um conceito interessante
[00:36:14] porque ele expõe a falta radical
[00:36:16] do sujeito
[00:36:18] e aí eu queria só fazer uma coisa que
[00:36:20] já virou um clichê aqui que eu sempre faço
[00:36:22] que é puxar um pouco
[00:36:24] pro nosso lado da psicanálise
[00:36:26] porque se o burguês
[00:36:28] aquele, se o quarto do burguês era um lugar
[00:36:30] sagrado e recém conquistado
[00:36:32] numa vibe meio
[00:36:34] virginal wolf
[00:36:36] como um espaço pra poder buscar
[00:36:38] e cultivar intimidade consigo
[00:36:40] e se proteger dos ruídos
[00:36:42] das demandas do
[00:36:44] novo mundo moderno
[00:36:46] outra modalidade pra se criar mais
[00:36:48] intimidade consigo
[00:36:50] que surge no século 20
[00:36:52] é porque não no divã da psicanálise
[00:36:54] que é um lugar onde a gente fala
[00:36:56] sim pra ser escutado
[00:36:58] mas principalmente pra escutar
[00:37:00] a gente mesmo
[00:37:02] e explorar e intensificar essa intimidade
[00:37:04] consigo, com as nossas faltas
[00:37:06] e as nossas fantasias
[00:37:08] porque se a intimidade é
[00:37:10] investigada apenas na estimidade
[00:37:12] a partir de toda uma parafernalha
[00:37:14] digital que a gente produz
[00:37:16] e toda uma indústria cultural
[00:37:18] de talk shows, de podcasts
[00:37:20] de reality shows que prometem
[00:37:22] intimidade, e aí a gente tá
[00:37:24] quebrando as paredes opacas
[00:37:26] do quarto privado ou do consultório
[00:37:28] clínico e substituindo
[00:37:30] elas por paredes de vidro
[00:37:32] e eu acredito que isso afeta radicalmente
[00:37:34] negativamente
[00:37:36] a produção da nossa subjetividade
[00:37:46] e aí pra aprofundar mais nesse tema
[00:37:48] a gente chamou a Carol Tiuquinha
[00:37:50] ela é psicanalista, pesquisadora de relacionamentos
[00:37:52] colunista em vários canais
[00:37:54] e veículos e tá por trás do podcast
[00:37:56] Amores Possíveis
[00:37:58] A grande questão
[00:38:00] que se coloca
[00:38:02] é que
[00:38:04] a hiperconexão cria
[00:38:06] uma falsa
[00:38:08] sensação de proximidade
[00:38:10] mas
[00:38:12] uma vivência
[00:38:14] de solidão latente, então
[00:38:16] não por acaso a gente
[00:38:18] tá vivendo essa epidemia de solidão
[00:38:20] quando esse estudo da
[00:38:22] Meta e da Gallup
[00:38:24] que saiu em 2023 mostra
[00:38:26] que uma a cada
[00:38:28] quatro pessoas no mundo se sentem sozinha
[00:38:30] e que essa sensação de solidão
[00:38:32] tem muito a ver
[00:38:34] com um esvaziamento
[00:38:36] dos vínculos
[00:38:38] fica claro que
[00:38:40] ter muitos amigos
[00:38:42] nas redes sociais
[00:38:44] 300 grupos de WhatsApp
[00:38:46] não tá sendo
[00:38:48] suficiente
[00:38:50] porque a gente não tá tendo
[00:38:52] aprofundamento nessa
[00:38:54] hiperconexão
[00:38:56] o que eu percebo
[00:38:58] é que essas falsas conexões
[00:39:00] elas geram mais solidão
[00:39:02] porque elas são sempre
[00:39:04] editadas, mediadas
[00:39:06] moderadas
[00:39:08] e distanciadas
[00:39:10] tem uma espécie de sensação
[00:39:12] de controle
[00:39:14] nas mensagens
[00:39:16] nas fotos
[00:39:18] e eu percebo muito na clínica
[00:39:20] as pessoas evitando inclusive
[00:39:22] discutirem com
[00:39:24] companheiros, companheiras
[00:39:26] namorados, namoradas, chefes
[00:39:28] amigas
[00:39:30] presencialmente e preferindo
[00:39:32] mandar textões
[00:39:34] porque na mensagem você lê
[00:39:36] relê, tem tempo
[00:39:38] de interpretar
[00:39:40] faz um print screen e manda pro grupo
[00:39:42] de amigos, lê as mensagens
[00:39:44] na análise
[00:39:46] então você tem uma sensação
[00:39:48] de que você tá
[00:39:50] analisando esses sinais
[00:39:52] digitais
[00:39:54] quando na verdade você tá se afastando
[00:39:56] de um
[00:39:58] encontro genuíno
[00:40:00] a própria cultura da edição
[00:40:02] dos filtros
[00:40:04] gera pra gente
[00:40:06] uma lógica de vidas
[00:40:08] felizes onde todo mundo
[00:40:10] sabe a regra do jogo
[00:40:12] mas todo mundo cai na angústia
[00:40:14] de se sentir
[00:40:16] inseguro, insuficiente
[00:40:18] menos bem sucedido
[00:40:20] feliz
[00:40:22] do que
[00:40:24] deveria ou poderia
[00:40:26] ser
[00:40:28] eu vejo que a hiperconexão
[00:40:30] também tem feito com que a gente
[00:40:32] tem evitado cada vez
[00:40:34] mais o atrito
[00:40:36] e a incerteza
[00:40:38] então a gente evita
[00:40:40] os conflitos com o ghosting
[00:40:42] ao mesmo tempo que eu posso tá hiperconectado
[00:40:44] eu desligo
[00:40:46] quando eu não quero falar
[00:40:48] eu saio do grupo de whatsapp
[00:40:50] ou eu me escondo
[00:40:52] em avatares e eu
[00:40:54] proclamo palavras de
[00:40:56] ódio que eu não falaria
[00:40:58] ao vivo
[00:41:00] e aí eu acho que eu tô me
[00:41:02] colocando no mundo
[00:41:04] quando na verdade eu não tô me
[00:41:06] conectando com
[00:41:08] o humano do outro
[00:41:10] com a
[00:41:12] alteridade do outro
[00:41:14] e pensando
[00:41:16] nessa lógica
[00:41:18] o que eu vejo é que a gente tá
[00:41:20] desconectado emocionalmente
[00:41:22] tanto das nossas emoções
[00:41:24] quanto das emoções
[00:41:26] uns dos outros
[00:41:28] a gente nem se dá o tempo de sentir
[00:41:30] o que a gente
[00:41:32] tá sentindo nessa relação
[00:41:34] ou como reverberou na gente
[00:41:36] a fala
[00:41:38] da pessoa que a gente ama
[00:41:40] a recusa do convite
[00:41:42] por parte da nossa
[00:41:44] mãe, a gente já tá
[00:41:46] respondendo
[00:41:48] eu percebo que a gente tá muito hábil
[00:41:50] pra transbordar o medo
[00:41:52] a raiva
[00:41:54] o ciúme
[00:41:56] ao invés de se dar tempo pra
[00:41:58] digerir
[00:42:00] pra não entender
[00:42:02] pra ficar na dúvida
[00:42:04] e isso é um pouco um reflexo
[00:42:06] de uma lógica
[00:42:08] de quem tira as dúvidas no Google
[00:42:10] e que hoje pergunta as coisas
[00:42:12] pro chat GPT
[00:42:14] se eu tenho um mundo
[00:42:16] que me dá cada vez mais certezas
[00:42:18] e controles
[00:42:20] sustentar as incertezas
[00:42:22] tem sido cada vez
[00:42:24] mais
[00:42:26] difícil
[00:42:28] e com a inteligência artificial
[00:42:30] o que eu percebo
[00:42:32] que tá acontecendo
[00:42:34] é que essa lógica
[00:42:36] do controle da rapidez
[00:42:38] tá sendo levada
[00:42:40] a vigésima potência
[00:42:42] a gente tá recorrendo
[00:42:44] a inteligência artificial
[00:42:46] pra buscar as palavras certas
[00:42:48] as conversas certas
[00:42:50] as fotos com melhor
[00:42:52] engajamento
[00:42:54] então hoje em dia já existem
[00:42:56] algumas de inteligência artificial
[00:42:58] que te vendem um serviço
[00:43:00] que fala quais são as suas fotos
[00:43:02] que tem maior chance
[00:43:04] de match em aplicativos
[00:43:06] ou serviços de IA
[00:43:08] que fazem um filtro
[00:43:10] de matchmakers digitais
[00:43:12] pra achar as melhores pessoas
[00:43:14] para você
[00:43:16] quem determina
[00:43:18] essa compatibilidade
[00:43:20] quais são os riscos
[00:43:22] da gente achar
[00:43:24] que existem critérios
[00:43:26] determinados por um algoritmo
[00:43:28] que vão
[00:43:30] dar contorno
[00:43:32] ao nosso desejo
[00:43:34] que é algo completamente
[00:43:36] inconsciente
[00:43:38] intangível
[00:43:40] que não cabe
[00:43:42] em algo
[00:43:44] binário e algoritmico
[00:43:46] e o que eu acho preocupante
[00:43:48] é ver
[00:43:50] quanto mais pessoas
[00:43:52] estão usando também
[00:43:54] a inteligência artificial como
[00:43:56] uma ferramenta
[00:43:58] para interpretar
[00:44:00] as mensagens dos outros
[00:44:02] ao invés de mais uma vez
[00:44:04] chamar a pessoa para conversa
[00:44:06] então você já faz a própria DR
[00:44:08] e já tira as conclusões
[00:44:10] daquela relação
[00:44:12] com a sua inteligência artificial
[00:44:14] e se desinveste
[00:44:16] de uma relação real
[00:44:18] que é cheia de contradições
[00:44:20] a gente precisa lembrar
[00:44:22] e eu estava agora nesse evento
[00:44:24] com o Michael Barkey
[00:44:26] que foi um dos produtores
[00:44:28] daquele documentário
[00:44:30] o Dilema das Redes
[00:44:32] e agora eles estão fazendo um
[00:44:34] que é o Dilema do IA
[00:44:36] eles fazem um trabalho
[00:44:38] do Human Center of Technology
[00:44:40] exatamente para pensar na responsabilidade
[00:44:42] da construção dos IAs
[00:44:44] e do uso dos IAs
[00:44:46] daqui para frente
[00:44:48] e a gente tem que lembrar
[00:44:50] que o IA hoje
[00:44:52] está ligado em você
[00:44:54] seguir usando ele
[00:44:56] e em te agradar
[00:44:58] então ele sempre vai te dar razão
[00:45:00] vai falar nossa
[00:45:02] mas você está certíssima
[00:45:04] essa pessoa não devia ter cancelado
[00:45:06] que maravilhosa a mensagem
[00:45:08] que você mandou
[00:45:10] quanto mais a gente se relaciona
[00:45:12] com o IA
[00:45:14] mais atrofiado
[00:45:16] a gente fica
[00:45:18] para lidar com o conflito
[00:45:20] com o silêncio
[00:45:22] com o inesperado
[00:45:24] com o diferente
[00:45:26] eu percebo que a gente
[00:45:28] não está
[00:45:30] se treinando
[00:45:32] para lidar com o desconforto
[00:45:34] para lidar
[00:45:36] com algo que foi colocado no
[00:45:38] South by Southwest
[00:45:40] com a polaridade
[00:45:42] que não gera uma polarização
[00:45:44] porque hoje em dia
[00:45:46] essa nossa hiperconexão
[00:45:48] faz com que a gente fale
[00:45:50] de coisas diferentes
[00:45:52] e a polarização
[00:45:54] então é um discurso de ódio
[00:45:56] sempre muito inflamado
[00:45:58] ou eu bloqueio a pessoa
[00:46:00] ou eu saio do grupo
[00:46:02] e aí eu vou lá para o meu IA
[00:46:04] para ele dizer que eu tenho razão
[00:46:06] e para a minha bolha
[00:46:08] e se eu puder entrar em contato
[00:46:10] com quem pensa diferente
[00:46:12] com as polaridades
[00:46:14] se eu puder ouvir
[00:46:16] sem atacar
[00:46:18] sem querer pensar
[00:46:20] quem tem razão
[00:46:22] eu acho muito preocupante
[00:46:24] a gente usar o IA
[00:46:26] como os coachs
[00:46:28] de relacionamento 4.0
[00:46:30] quando a gente
[00:46:32] pensa que as pessoas
[00:46:34] estão fazendo esses serviços
[00:46:36] de os IAs
[00:46:38] nos ensinarem como a gente
[00:46:40] pode se relacionar melhor
[00:46:42] a gente está de novo acreditando
[00:46:44] que existem fórmulas
[00:46:46] será que existem fórmulas
[00:46:48] que a gente pode treinar
[00:46:50] através do IA
[00:46:52] eu deveria
[00:46:54] me relacionar melhor
[00:46:56] treinando o meu desconforto
[00:46:58] em encontros
[00:47:00] reais
[00:47:02] em conversas difíceis
[00:47:04] feitas ao vivo
[00:47:06] em stalkear menos
[00:47:08] e me conectar
[00:47:10] menos digitalmente
[00:47:12] e criar intimidade
[00:47:14] no momento ao vivo
[00:47:16] porque eu sinto que a gente reclama
[00:47:18] que as conversas ficam no digital
[00:47:20] mas a gente se protege
[00:47:22] no digital
[00:47:24] eu gostaria de fazer um convite
[00:47:26] a gente estar ao vivo
[00:47:28] e ser capaz de ouvir
[00:47:30] interagir com menos pauta
[00:47:32] e mais troca
[00:47:34] com menos stalking
[00:47:36] menos vontade de acertar
[00:47:38] se relacionar melhor
[00:47:40] é entrar na lógica da produtividade
[00:47:42] o que é o melhor
[00:47:44] o que é o acertar
[00:47:46] se relacionar com o André
[00:47:48] é diferente de se relacionar com o Lucas
[00:47:50] não dá pra gente querer replicar
[00:47:52] modelos
[00:47:54] de relação
[00:47:56] e quanto mais a gente buscar as fórmulas
[00:47:58] eu sinto que mais a gente vai
[00:48:00] se distanciar
[00:48:02] da empatia
[00:48:04] da presença
[00:48:06] da abertura
[00:48:08] do interesse
[00:48:10] a gente vai ficar circunscrito
[00:48:12] na sociedade do desempenho
[00:48:14] na tentativa
[00:48:16] de construir um avatar de nós mesmos
[00:48:18] um ideal
[00:48:20] de eu
[00:48:22] que agora é um ideal que sabe
[00:48:24] se relacionar
[00:48:26] que a gente possa ter coragem de voltar
[00:48:28] a ser
[00:48:30] espontâneo
[00:48:32] que a gente seja menos love entertainer
[00:48:34] que a gente possa ser
[00:48:36] companhia uns pros outros
[00:48:38] testemunhas uns
[00:48:40] da vida dos outros
[00:48:42] mais do que
[00:48:44] solucionadores
[00:48:46] uns das vidas dos outros
[00:48:48] eu percebo que como a gente não tá
[00:48:50] vivendo vazios
[00:48:52] e esperas na vida
[00:48:54] porque hoje em dia
[00:48:56] eu vivo uma vida hiper conectada
[00:48:58] e on demand
[00:49:00] eu também espero um amor
[00:49:02] on demand
[00:49:04] a gente precisa parar
[00:49:06] de produtivizar
[00:49:08] a relação e entender
[00:49:10] que o vazio e a espera
[00:49:12] no amor não é sinônimo
[00:49:14] de enrolação
[00:49:16] é construção
[00:49:18] é dúvida
[00:49:20] é certeza
[00:49:22] é risco
[00:49:24] e não existe amor sem risco
[00:49:26] sem aposta
[00:49:28] sem descompasso
[00:49:30] eu acho muito interessante no trabalho da Carol
[00:49:32] essa ideia de possibilidade
[00:49:34] de construir
[00:49:36] amores e porque não intimidades
[00:49:38] que sejam um pouco mais possíveis
[00:49:40] menos idealizadas
[00:49:42] mas também que se mantém nesse campo
[00:49:44] da possibilidade
[00:49:46] e a possibilidade é exatamente como
[00:49:48] o vir a ser que a gente falou no começo
[00:49:50] mas também
[00:49:52] esse desconhecimento que você tava falando
[00:49:54] um pouco antes no episódio, Lucas
[00:49:56] principalmente quando você falou
[00:49:58] sobre sexo ou encontro sexual
[00:50:00] que eu acho que também tem a ver
[00:50:02] com a fala da Carol
[00:50:04] porque se tem uma coisa
[00:50:06] que a sexualidade
[00:50:08] mantém em nós de alguma forma
[00:50:10] é o contato
[00:50:12] com aquilo que existe de intolerável
[00:50:14] pra esse eu
[00:50:16] tão estruturado
[00:50:18] ou pra nossa identidade de uma forma geral
[00:50:20] a sexualidade teoricamente
[00:50:22] é um campo radical de experimentação
[00:50:24] e de
[00:50:26] desconhecimento, de surpresa
[00:50:28] e de risco
[00:50:30] e as relações de alguma forma também tem a ver
[00:50:32] com essa tolerância ao risco
[00:50:34] por isso que
[00:50:36] dá pra gente conectar com
[00:50:38] o problema
[00:50:40] da inteligência artificial
[00:50:42] ou das formas de uso
[00:50:44] que a gente tem testemunhado até aqui
[00:50:46] eu tenho pensado
[00:50:48] como soluções
[00:50:50] muito capengas pra esse problema enorme
[00:50:52] do século antissocial
[00:50:54] como o Derek Thompson chamou na Atlantic
[00:50:56] ou mesmo essa epidemia
[00:50:58] de solidão sobre a qual a gente fala
[00:51:00] com uma certa frequência
[00:51:02] esse deficit de intimidade
[00:51:04] essa carência de cuidado
[00:51:06] a degeneração
[00:51:08] do senso de comunidade
[00:51:10] que são temas que a gente
[00:51:12] fala recorrentemente
[00:51:14] eu sei que parece exagero
[00:51:16] mas eu acho, Lucas, que a gente está testemunhando
[00:51:18] e fazendo parte
[00:51:20] de mais um experimento cognitivo a céu aberto
[00:51:22] um pouco como aconteceu
[00:51:24] com as mídias sociais
[00:51:26] por exemplo, ano passado a gente teve
[00:51:28] uma aderência muito massiva
[00:51:30] de jovens e adolescentes, principalmente
[00:51:32] nos Estados Unidos, ao Caret AI
[00:51:34] aquela ferramenta que
[00:51:36] te permite interagir
[00:51:38] com uma inteligência artificial que parece a Taylor Swift
[00:51:40] ou seu personagem de anime
[00:51:42] favorito, sei lá
[00:51:44] o Caret AI só não foi mais
[00:51:46] popular do que o ChatGPT em 2024
[00:51:48] a gente está falando
[00:51:50] de cerca de 20 mil consultas
[00:51:52] por segundo
[00:51:54] é 20% do volume de solicitações
[00:51:56] atendidas pela pesquisa do Google
[00:51:58] é um troço muito grande
[00:52:00] e aí o que está envolvido
[00:52:02] nessas, aspas, relações
[00:52:04] primeiro
[00:52:06] os chatbots fazem a gente
[00:52:08] acreditar
[00:52:10] que eles nos entendem
[00:52:12] vem validação
[00:52:14] apoio emocional, amor
[00:52:16] uma série de formas sintéticas
[00:52:18] de confirmação
[00:52:20] e existe por trás uma preocupação
[00:52:22] legítima com os nossos
[00:52:24] lados mais vulneráveis
[00:52:26] e que claro, estão sendo controlados
[00:52:28] por empresas com fins lucrativos
[00:52:30] tem toda essa conversa
[00:52:32] que também é importante
[00:52:34] mas o que muitos usuários estão dizendo, por exemplo
[00:52:36] nas mídias sociais e alguns estudos
[00:52:38] começaram a aparecer a respeito disso
[00:52:40] que eles acabam sendo
[00:52:42] muito tomados
[00:52:44] pela ideia de que tem alguém
[00:52:46] sempre disponível para você
[00:52:48] sempre pronto a te
[00:52:50] entender
[00:52:52] a te acolher
[00:52:54] a te oferecer intimidade
[00:52:56] essa espécie de modelo
[00:52:58] relacional em que as relações
[00:53:00] são assistidas
[00:53:02] porque vamos lembrar, passo um
[00:53:04] dessa tecnologia é o de assistente
[00:53:06] estar num lugar
[00:53:08] sempre disponível a resolver problemas
[00:53:10] que a gente tenha no dia a dia
[00:53:12] é o que parte do mercado vem chamando
[00:53:14] de a economia da companhia
[00:53:16] ou do acompanhamento
[00:53:18] principalmente de idosos e crianças
[00:53:20] indivíduos, para quem a gente sabe
[00:53:22] o cuidado não está necessariamente
[00:53:24] tão disponível
[00:53:26] a gente não anda tendo tanto tempo para isso
[00:53:28] mas quando eu falo sobre
[00:53:30] relações assistidas
[00:53:32] é por exemplo o replica
[00:53:34] que se define como um
[00:53:36] companheiro de chatbot alimentado
[00:53:38] por inteligência artificial projetado para
[00:53:40] simular interações semelhantes às humanas
[00:53:42] e te oferecer suporte emocional
[00:53:44] o tempo
[00:53:46] todo
[00:53:48] como um parceiro, um amigo ou um mentor
[00:53:50] por isso eu estou citando o que diz no website deles
[00:53:52] existem mais de 30 milhões
[00:53:54] de pessoas que usam o replica todos os dias
[00:53:56] e aproximadamente
[00:53:58] 60% dos usuários tem menos de 30 anos de idade
[00:54:00] mais de 70%
[00:54:02] desses usuários relatam
[00:54:04] que o replica ajuda a reduzir um sentimento
[00:54:06] de solidão
[00:54:08] e vão definir esse companheiro de inteligência artificial
[00:54:10] como alguém que se importa
[00:54:12] alguém que está sempre ali para te escutar e conversar
[00:54:14] sempre do seu lado
[00:54:16] eu trocaria esse verbo de escutar e conversar
[00:54:18] por confirmar
[00:54:20] por dizer que sim
[00:54:22] você está certo
[00:54:24] sim, deve ter sido difícil para você
[00:54:26] mas o que mais me chama a atenção
[00:54:28] é essa ideia de disponibilidade 24x7
[00:54:30] como se a gente
[00:54:32] estivesse precisando se assistir o tempo todo
[00:54:34] que eu acho que conecta muito bem
[00:54:36] com aquela imagem da parede de vidro
[00:54:38] que você falou anteriormente
[00:54:40] sempre tem alguém ao nosso lado
[00:54:42] só que esse não é o papel das relações
[00:54:44] na nossa vida
[00:54:46] claro, a solidão e o déficit de intimidade
[00:54:48] tem a ver
[00:54:50] com também uma ausência
[00:54:52] ou mesmo
[00:54:54] com uma sensação
[00:54:56] de que qualitativamente
[00:54:58] e ou quantitativamente
[00:55:00] não existem pessoas implicadas
[00:55:02] ou que se importem com a nossa dor
[00:55:04] com a nossa subjetividade
[00:55:06] com mesmo o nosso amor
[00:55:08] só que quando a gente vai incorporando
[00:55:10] essa gramática meio tech
[00:55:12] substituindo relação por conexão
[00:55:14] a gente também vai apostando
[00:55:16] numa ideia de que uma relação não pode ter fricção
[00:55:18] de que uma boa relação
[00:55:20] é aquela em que ninguém discorda de nós
[00:55:22] como esse assistente virtual
[00:55:24] só que a gente sabe que não
[00:55:26] existem relações possíveis
[00:55:28] ou vínculos possíveis
[00:55:30] pelo menos do jeito que a gente acredita
[00:55:32] sem conflito
[00:55:34] e sem ausência
[00:55:36] a gente se forma
[00:55:38] e as nossas relações se formam
[00:55:40] nos intervalos e também nos desencontros
[00:55:42] também nos descontentamentos
[00:55:44] se as tecnologias de AI
[00:55:46] são construídas em cima da premissa
[00:55:48] talvez a gente possa
[00:55:50] desconfiar um pouco mais
[00:55:52] dessa ideia de que tem um agente
[00:55:54] que está sempre interessado
[00:55:56] em nos dar apoio e suporte
[00:55:58] o tempo todo
[00:56:00] de uma forma meio perfeita
[00:56:02] porque uma relação precisa da imperfeição
[00:56:04] porque é uma experiência fundamental
[00:56:06] de estranhamento
[00:56:08] só que a inteligência artificial
[00:56:10] nesse campo da intimidade
[00:56:12] não é estranhamento
[00:56:14] é afirmação compulsiva
[00:56:16] então se na abertura do episódio
[00:56:18] eu penso que a nossa interação
[00:56:20] tão recorrente com a inteligência artificial
[00:56:22] é uma experiência só de reafirmação
[00:56:30] a gente vai fazer um intervalo
[00:56:32] bem breve e volta já já
[00:56:34] eu vejo que tem
[00:56:36] no pano de fundo de toda essa discussão
[00:56:38] um contexto atual
[00:56:40] de desmistificar
[00:56:42] o amor romântico, como a gente já falou
[00:56:44] e de fazer uma crítica
[00:56:46] que é bastante válida
[00:56:48] na questão da dependência afetiva
[00:56:50] hoje a gente tem
[00:56:52] mais medo de ser ou parecer
[00:56:54] dependente de outra pessoa
[00:56:56] claro que sim, a gente precisa se proteger
[00:56:58] não topar relações
[00:57:00] que são nocivas, que nos limitam demais
[00:57:02] ou entrar em relações
[00:57:04] só para pertencer a uma normatividade
[00:57:06] da vida em casal
[00:57:08] ou para não se sentir sozinho
[00:57:10] mas parece que essa tal
[00:57:12] dependência emocional se tornou
[00:57:14] um problema psicológico que a gente tem que resolver
[00:57:16] e aí vem a inteligência artificial
[00:57:18] preenchendo essa demanda
[00:57:20] contemporânea
[00:57:22] como se depender de uma inteligência artificial
[00:57:24] fosse menos prejudicial
[00:57:26] até porque isso pode ficar mais em segredo
[00:57:28] como se você pudesse ter um amante
[00:57:30] puramente digital
[00:57:32] para suprir algumas demandas que você esconde
[00:57:34] das pessoas de carne e osso
[00:57:36] com quem você se relaciona
[00:57:38] ou com quem você nem começou a se relacionar
[00:57:40] o problema é que essas são relações
[00:57:42] entre aspas eu acho
[00:57:44] que podem ficar bem regredidas
[00:57:46] mais infantilizadas como a gente falou
[00:57:48] e aí esse cenário propõe
[00:57:50] um tipo de transferência
[00:57:52] que é meio diferente porque
[00:57:54] não é com um sujeito humano que escuta
[00:57:56] que interpreta, que se ausenta
[00:57:58] como você disse
[00:58:00] mas é uma instância técnica ou simbólica
[00:58:02] sempre disponível, responsiva
[00:58:04] que promete a ilusão de ser
[00:58:06] perfeitamente compreensiva e personalizada
[00:58:08] para você
[00:58:10] o Davidson Faustino que é um sociólogo
[00:58:12] filósofo, um grande pensador
[00:58:14] que a gente admira, já participou do
[00:58:16] nosso episódio inconsciente artificial
[00:58:18] ele problematizou isso muito bem
[00:58:20] num artigo que ele escreveu
[00:58:22] para o site Outras Palavras
[00:58:24] ele diz assim
[00:58:48] .
[00:58:58] .
[00:59:06] .
[00:59:16] .
[00:59:22] .
[00:59:24] .
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[00:59:28] .
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[01:04:10] conversados, que eu não sei o quanto eles são tão programáveis assim.
[01:04:15] Pelo menos por enquanto.
[01:04:17] E sem falar que tem isso, a inteligência artificial não vai levar duas horas
[01:04:19] ou dois dias para te responder uma mensagem.
[01:04:22] E aí não tem hiato por desejo, que se cria na ausência.
[01:04:27] Alguma dose de ausência.
[01:04:29] Não abandono, mas ausência.
[01:04:31] Um intervalo que inclusive nos faz suportar a ausência
[01:04:35] e não tomar ela por abandono.
[01:04:37] E tem um outro ponto que talvez a IA seja realmente muito superior,
[01:04:42] que é a memória.
[01:04:44] A memória sobre nós.
[01:04:46] Sobre aquela relação de tudo que já foi conversado.
[01:04:49] Porque quando a gente está interessado em alguém, a gente lembra mais.
[01:04:53] Mas quando a gente está mais ou menos interessado por dezenas ou centenas de pessoas
[01:04:58] e a gente está se relacionando com tanta gente,
[01:05:00] são tantas conversas que a gente se atrapalha.
[01:05:03] Aí o próprio sujeito questiona o seu interesse.
[01:05:06] Nossa, eu não lembrava que a gente tinha falado.
[01:05:07] Ou que eu tinha feito essa piada.
[01:05:10] Sabe aquela sensação de foi pra você que eu falei tal coisa?
[01:05:13] E isso gera uma insegurança.
[01:05:14] Será que eu estou tão interessado assim?
[01:05:16] Ou essa relação é só mais uma notificação que eu preciso responder?
[01:05:20] Eu sinto que esse é o preço da hiperconexão.
[01:05:23] E que tem deixado muita gente insegura
[01:05:25] sobre os interesses que os outros têm na gente
[01:05:27] ou que a gente mesmo tem nos outros.
[01:05:29] Porque a gente sabe que a ilusão é aquela, né?
[01:05:32] De que a melhor opção vai sempre estar no próximo swipe.
[01:05:35] No próximo seguidor.
[01:05:36] No próximo futebol.
[01:05:37] Foguinho.
[01:05:38] Isso é compulsivo.
[01:05:40] Essa é a exaustão relacional.
[01:05:43] E ao mesmo tempo que existe uma crença mágica
[01:05:44] de que o próximo match vai ser perfeito,
[01:05:48] também existe muita desilusão e desesperança.
[01:05:52] Mas acho que se apaixonar sempre foi assim também.
[01:05:55] Pois é.
[01:05:55] E aí é meio doido porque eu tenho escutado, Lucas,
[01:05:59] alguns relatos e eu ando pesquisando ativamente sobre isso também.
[01:06:04] Passei por algumas horas na comunidade do Reddit.
[01:06:07] De 60 mil usuários que vão dando dicas
[01:06:10] de como quebrar as barreiras de segurança
[01:06:12] pra fazer, por exemplo, o ChatGPT engajar em sexting contigo.
[01:06:19] Contar as fantasias sexuais que a máquina supostamente tem.
[01:06:24] Enfim.
[01:06:25] Mas também tenho ouvido essas histórias de como
[01:06:27] ah, eu tô tendo uma DR com meu parceiro, minha parceira
[01:06:32] e aí eu pedi pro ChatGPT escrever a resposta.
[01:06:35] Ou mesmo peguei o histórico.
[01:06:37] O histórico do WhatsApp, das conversas que eu tive
[01:06:39] nos últimos três anos com a minha ex-namorada.
[01:06:41] Coloquei isso no ChatGPT e pedi pro ChatGPT
[01:06:44] me dizer o que que deu errado.
[01:06:46] André, para de dar ideia pras pessoas.
[01:06:50] O TikTok tá cheio disso, né?
[01:06:52] É muito impressionante.
[01:06:54] Mas isso tem chegado muito na clínica,
[01:06:55] nos grupos de supervisão, seminários, enfim.
[01:06:58] O uso massivo tá sendo cada vez mais presente
[01:07:03] nas dinâmicas relacionais.
[01:07:05] E eu acho que o que a gente tá falando,
[01:07:07] no final das contas,
[01:07:08] é como a troca da relação pela conexão,
[01:07:11] esse estado em contato,
[01:07:13] as relações parassociais,
[01:07:14] as relações sintéticas,
[01:07:15] os bebês reborn,
[01:07:17] essas relações assistidas por IA,
[01:07:20] sei lá, até mesmo o OnlyFans,
[01:07:22] tudo isso tem promovido também
[01:07:24] algumas formas meio solitárias
[01:07:26] e hipercontroladoras de intimidade.
[01:07:28] Uma espécie de ilusão de proximidade,
[01:07:31] de estranhamento e de amparo,
[01:07:32] mas que tenta eliminar o risco do encontro.
[01:07:34] E, de alguma forma,
[01:07:36] dá pra gente pensar que isso promove
[01:07:38] algum tipo de atrofiamento
[01:07:40] da nossa capacidade relacional.
[01:07:42] Como se eliminar o risco fosse a resposta.
[01:07:45] Eliminar a ausência fosse a resposta.
[01:07:48] Só que o perigo aí
[01:07:49] é que a gente acabe topando
[01:07:50] formas muito masturbatórias de relação.
[01:07:53] Porque pra não ser masturbatório,
[01:07:54] a gente tem que abrir mão do controle.
[01:07:56] Só que nesses exemplos,
[01:07:57] o controle segue preservado,
[01:08:00] predominante, soberano, onipotente.
[01:08:03] Esse cálculo neurótico sintético
[01:08:04] inibe a possibilidade de transformação psicomotiva,
[01:08:06] como o sinal do encontro.
[01:08:08] Eu não tô falando que a gente tem que parar de usar tudo isso,
[01:08:10] que tá tudo errado e tal.
[01:08:11] Inclusive, li um livro bastante interessante
[01:08:14] pra esse episódio,
[01:08:15] do Henri Crutzen,
[01:08:17] aquele psicanalista belga, se eu não me engano,
[01:08:20] chamado Psicanálise e Entrevista com a Inteligência Artificial.
[01:08:23] Condições para uma convivência.
[01:08:26] Mas, ao mesmo tempo,
[01:08:27] existem também alguns alertas
[01:08:29] que a gente tem que prestar mais atenção.
[01:08:32] A volta que eu acho
[01:08:33] que a gente tem que ser capaz de dar,
[01:08:35] juntando numa dimensão mais psicológica,
[01:08:36] é que sujeitos dependentes
[01:08:39] de formas sintéticas de intimidade
[01:08:41] vão produzir pactos sociais
[01:08:42] cada vez mais sintéticos,
[01:08:44] mais artificialmente autênticos
[01:08:46] e mais antissociais, no sentido de
[01:08:48] não haver respeito à outra idade,
[01:08:50] à diferença.
[01:08:52] Não há direito do outro, porque o outro é um elemento
[01:08:54] semi-artificial, cuja função é me servir,
[01:08:57] é me saciar.
[01:08:58] Não sei se tô indo muito longe.
[01:09:00] E fico pensando, assim, se tem algum
[01:09:02] tipo de direcionamento,
[01:09:04] talvez, eu diria,
[01:09:06] de forma bem poética,
[01:09:09] que é sobre tentar não temer
[01:09:11] tanto assim
[01:09:12] o espaço interior desse
[01:09:14] abismo da alma, da nossa e do outro.
[01:09:17] E pensar quais condições
[01:09:19] que a gente tá criando pra proporcionar
[01:09:21] um certo grau de intimidade com as pessoas.
[01:09:24] É sobre viver
[01:09:25] alguma coisa juntos que não é
[01:09:26] compartilhada com o resto do mundo?
[01:09:29] Ou é sobre conseguir suportar
[01:09:30] o silêncio juntos?
[01:09:33] Suportar a ausência
[01:09:34] um do outro?
[01:09:35] É fazer
[01:09:36] ou falar algo pro outro que não foi
[01:09:38] ensaiado, que não seja tão
[01:09:40] performático? Algo que seja
[01:09:42] inédito e criado
[01:09:43] dentro do seu repertório de comportamentos
[01:09:46] e de discursos?
[01:09:48] Porque até frases automáticas
[01:09:50] a gente usa pra flertar com as pessoas.
[01:09:53] Então, como que se constrói
[01:09:54] intimidade? A gente tentou, eu acho,
[01:09:56] nesse episódio, fazer um grande passeio
[01:09:58] sobre essa questão. Mas o mais
[01:10:00] importante talvez seja você pensar como você
[01:10:02] na sua vida construiu intimidade
[01:10:04] com algumas pessoas. O que que tá?
[01:10:06] E como que a intimidade
[01:10:08] também não aconteceu?
[01:10:10] Ou se desfez? O que que aconteceu
[01:10:13] ou deixou de acontecer que fez com que
[01:10:14] a intimidade não se desenvolvesse?
[01:10:17] E não contribuísse positivamente
[01:10:18] pra aquela relação? Consegue pensar
[01:10:20] em alguma coisa? Que interessante
[01:10:22] isso que você falou, Lucas.
[01:10:24] Fiquei pensando por um
[01:10:26] minuto na
[01:10:27] anatomia da intimidade
[01:10:30] que cada um de nós pode fazer.
[01:10:33] E tentar pensar em quais
[01:10:34] foram as relações ou os enlaçamentos,
[01:10:36] que, de alguma forma,
[01:10:38] tornaram a vida mais
[01:10:40] vivível e menos sintética.
[01:10:42] Mais emocionante. Mais afetada.
[01:10:45] Eu vou fazer uma pequena confissão
[01:10:46] agora. Eu acho que nesse episódio
[01:10:48] eu deixei o melhor pro final.
[01:10:50] Na minha pesquisa, eu cruzei com uma
[01:10:52] verdadeira joia, que me fez ficar ainda mais
[01:10:54] interessado nesse tema.
[01:10:56] Eu trombei com um livro que eu não conhecia
[01:10:58] chamado Intimacies,
[01:11:00] ou Intimidades, que é uma conversa
[01:11:02] publicada em 2010, acho que não tem
[01:11:04] em português, entre o Adam
[01:11:06] Phillips, aquele psicanalista
[01:11:08] britânico que a gente já citou algumas vezes no
[01:11:10] Vibes em Análise, e o Leo Bersani,
[01:11:13] o acadêmico estadunidense
[01:11:14] tão importante pra teoria queer.
[01:11:17] Dois nomes que influenciam muito o meu trabalho
[01:11:18] e que já conversaram sobre o tema
[01:11:20] que a gente tá elaborando aqui.
[01:11:22] Notícias do meu narcisismo. Fiquei até meio
[01:11:24] viajando, que olha que interessante a gente
[01:11:26] fazendo esse encontro, eu e você.
[01:11:28] Enfim, me deixa com os meus ideais.
[01:11:30] No livro, eles vão trabalhar
[01:11:31] algumas ideias que convocam a nossa
[01:11:34] humanidade, ou as nossas
[01:11:36] capacidades de reinventar o que torna a gente
[01:11:38] humano. E eu acho que essa é uma ideia muito
[01:11:40] fundamental pra gente falar sobre intimidade.
[01:11:43] Principalmente quando a gente tá tão
[01:11:44] engolido, substituído, assistido
[01:11:46] e seduzido pela máquina.
[01:11:48] Bom, e também eles vão
[01:11:50] tecendo ou falando de outras
[01:11:52] formas de intimidade.
[01:11:54] Uma delas que eles chamam de narcisismo
[01:11:56] impessoal, que é uma espécie
[01:11:58] de despojamento do ego.
[01:12:00] Um reconhecimento do potencial
[01:12:02] não psicologizado
[01:12:04] do eu no outro.
[01:12:06] Eles falam, por exemplo, sobre como
[01:12:08] Freud, de uma certa maneira, produziu com a
[01:12:10] psicanálise uma nova forma de
[01:12:12] estar presente pra outra pessoa.
[01:12:15] Uma forma que libera
[01:12:16] tanto o analista quanto o analisando
[01:12:18] pra poder pensar, sentir
[01:12:20] e falar livremente.
[01:12:22] Inclusive aqui entra uma daquelas frases
[01:12:24] polêmicas do Adam Phillips. Psicanálise
[01:12:26] é sobre o que duas pessoas
[01:12:28] podem dizer uma pra outra
[01:12:30] se elas concordarem em não transar.
[01:12:33] A gente sabe que pra análise
[01:12:34] acontecer, a gente precisa de uma dose muito
[01:12:36] curiosa de assimetria.
[01:12:38] O analisando geralmente não sabe muito
[01:12:40] sobre a história pessoal do analista
[01:12:42] ou supõe
[01:12:44] algumas coisas. O suposto saber
[01:12:46] que o analista talvez tenha sobre o analisando
[01:12:48] ou sustente sobre o mundo e a vida,
[01:12:50] enfim. Por outro lado,
[01:12:52] tudo que o analista sabe sobre o analisando
[01:12:55] é o próprio paciente
[01:12:56] que traz e conta.
[01:12:58] Não deixa de ser uma fração de saber.
[01:13:01] Nessa direção, é como se a análise
[01:13:02] também fosse uma prática entre íntimos
[01:13:04] estranhos ou uma prática
[01:13:06] íntima entre estranhamentos.
[01:13:09] Ou talvez,
[01:13:10] uma outra imagem que eles constroem no livro,
[01:13:12] de intimidades despessoalizadas.
[01:13:15] No sentido, por exemplo,
[01:13:16] de que a pessoalidade do analista
[01:13:18] ou a identidade do analista, por exemplo,
[01:13:20] não importa tanto ou não deveria importar
[01:13:22] pra que o setting analítico conseguisse
[01:13:24] se sustentar.
[01:13:26] Lendo isso, Lucas, eu fico pensando que a intimidade
[01:13:28] não é apenas encontrar alguém
[01:13:30] que te aceita como você é
[01:13:31] ou que sabe tudo sobre quem você é
[01:13:34] ou que já soube.
[01:13:36] Mas, principalmente, estar disposto
[01:13:38] a se interessar pelo que você não é.
[01:13:41] Pelo que você pode pensar
[01:13:43] ou pelo que pode ser pensado,
[01:13:45] falado e sentido juntos.
[01:13:47] Topar o exercício da possibilidade
[01:13:49] e da potência sem o compromisso
[01:13:51] da identidade.
[01:13:52] E nem as exigências da demanda.
[01:13:55] Um espaço entre dois
[01:13:57] ou mais pessoas pra suportar
[01:13:59] subjetividades hipotéticas.
[01:14:02] Versões não plausíveis
[01:14:03] de você.
[01:14:04] Sabe quando a gente fala, nossa,
[01:14:06] eu não sei o que fazer, eu não sei o que fazer.
[01:14:06] Eu adoro encontrar os meus amigos, sentar numa mesa de bar
[01:14:09] e falar o que vier à cabeça.
[01:14:10] E falar um monte de bobagem
[01:14:12] e dizer coisas que são impublicáveis.
[01:14:15] É também
[01:14:16] essa zona que é íntima
[01:14:18] porque a gente consegue suportar
[01:14:20] coisas imprevisíveis,
[01:14:22] inacreditáveis, impublicáveis
[01:14:24] sobre nós mesmos. E que talvez
[01:14:26] só possam se manifestar.
[01:14:28] Porque a gente se coloca nessas relações
[01:14:30] íntimas que estão, de alguma forma,
[01:14:33] protegidas do peso
[01:14:34] de uma palavra muito
[01:14:36] especial que você falou aqui hoje, que é
[01:14:38] a vergonha. Vamos ficar por aqui?
[01:14:40] Vamos. Seguir pensando
[01:14:42] e topando
[01:14:44] essa zona de risco que é a intimidade.
[01:14:47] Então vamos nessa. Até mais.
[01:14:48] Até. Tchau.
[01:15:06] Tchau.
[01:15:08] Tchau.