Fisher e os Fisherianos #01 - Victor Marques
Resumo
Este episódio inaugural da série “Fisher e os Fisherianos” apresenta uma conversa extensa com o professor e editor Victor Marques, um dos principais responsáveis pela edição brasileira de “Realismo Capitalista” de Mark Fisher. A discussão percorre a trajetória de Victor com a obra de Fisher, desde seus primeiros contatos através da blogosfera e da crítica musical até o envolvimento profundo com a tradução e divulgação de seus textos no Brasil.
Os participantes analisam o conceito central de “realismo capitalista” – a ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo – e como sua recepção no Brasil foi marcada por um contexto político e econômico distinto do norte global, especialmente durante o auge dos governos Lula. A conversa explora a evolução do pensamento de Fisher, sua passagem pela CCRU (Unidade de Pesquisa em Cultura Cibernética) e sua relação complexa com figuras como Nick Land, cujo pensamento ‘aceleracionista’ migrou para a extrema-direita.
Um tópico central é a noção de “hiperstição”, desenvolvida no ambiente da CCRU, entendida como uma ficção que, ao ser crida e atuada, torna-se realidade, contaminando e remodelando o mundo. Victor Marques argumenta que este é o conceito fundamental de Fisher, ligado à ideia de ‘perdição’ e à construção de um “comunismo hipersticional”. A discussão também aborda o projeto inacabado de Fisher, “O Desejo Pós-Capitalista”, que visava entender como reconstruir a consciência de classe e a ação coletiva em um momento de interregno e colapso da ordem neoliberal.
O episódio termina refletindo sobre a importância de Fisher como um intelectual orgânico e engajado, que via a teoria como uma forma de intervenção prática na realidade. São destacados seus esforços para conectar imaginação política radical com organização coletiva, na tentativa de reabrir futuros alternativos e escapar da prisão do realismo capitalista.
Indicações
Articles
- Um Estudo em Práticas Hipersticionais — Texto acadêmico de Victor Marques, recomendado por ele mesmo, que explora os conceitos de hipertensão, alças estranhas, guerras temporais e teoria-ficção no contexto do CCRU e do pensamento de Fisher.
Books
- Realismo Capitalista — O livro seminal de Mark Fisher, discutido como a melhor edição mundial é a brasileira, com tradução esmerada e pós-fácil explicativo. É apresentado como uma análise da sensação de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
- O Desejo Pós-Capitalista — Último livro de Fisher, publicado postumamente a partir de suas aulas. Discute a reconstrução da consciência de classe e a busca por um horizonte pós-capitalista, abordando autores como Lukács e experiências históricas de elevação da consciência.
- Neo-Reaction a Basilisk — Livro de Elizabeth Sandifer recomendado por Mauri Gonzo, que analisa e critica a alt-right e pensadores como Nick Land e Mencius Moldbug, explicando as ideologias por trás do Vale do Silício contemporâneo.
- Flatline Constructs — Tese de doutorado de Mark Fisher, mencionada como um texto fundacional onde ele trabalha com o conceito de ‘hiperficção’, antecessor da ‘hiperstição’. Ainda não traduzida para o português.
Movies
- In the Mouth of Madness — Filme de John Carpenter citado por Victor Marques como uma ilustração perfeita do processo hipersticional: uma ficção de horror que começa a contaminar a realidade e transformar o mundo, abrindo portas para entidades extradimensionais.
- A Batalha do Chile — Documentário sobre o governo de Salvador Allende recomendado por Victor Marques, que mostra a auto-organização proletária e as experiências de democracia radical que Fisher estudaria em seu livro inacabado.
People
- Nick Land — Filósofo britânico e ex-colega de Fisher na CCRU, descrito como uma figura ‘maligna’ e ‘inimigo político’. Seu pensamento ‘aceleracionista’ migrou para a extrema-direita e influencia figuras do Vale do Silício como Peter Thiel.
- Jorge Adel Dato — Professor e tradutor cearense, colaborador de Victor Marques na tradução de ‘Realismo Capitalista’. Foi uma das pessoas que introduziu Victor ao blog K-Punk de Mark Fisher.
- Grant Morrison — Escritor de quadrinhos, citado em relação ao conceito de ‘hipersigilo’ em sua obra ‘Os Invisíveis’, que tem paralelos com a ideia de hipertensão discutida pelo CCRU e por Fisher.
Podcasts
- Vira-Casacas — Podcast em que Victor Marques participou discutindo Nick Land, o ‘iluminismo sombrio’ e a influência do aceleracionismo na extrema-direita contemporânea e no Vale do Silício.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Abertura e apresentação da série sobre Mark Fisher — Mauri Gonzo apresenta o primeiro episódio da série “Fisher e os Fisherianos”, dedicada a explorar o pensamento de Mark Fisher com diferentes especialistas. Ele introduz o convidado, Victor Marques, professor e editor envolvido na tradução de “Realismo Capitalista” para o português. A proposta é mapear as diferentes leituras e o impacto de Fisher no Brasil.
- 00:04:51 — Apresentação de Victor Marques e seu primeiro contato com Fisher — Victor Marques se apresenta como professor da UFABC, militante da esquerda brasileira e ex-diretor da revista Jacobin. Ele conta sua trajetória política e como conheceu a obra de Mark Fisher, inicialmente através do blog K-Punk e, posteriormente, pela recomendação de Slavoj Žižek sobre o livro “Realismo Capitalista”. Ele reflete sobre como a primeira leitura não o impactou profundamente, possivelmente devido ao contexto otimista do Brasil na época.
- 00:11:25 — O processo de tradução do Realismo Capitalista para o português — Victor Marques detalha o meticuloso trabalho por trás da tradução brasileira de “Realismo Capitalista”, realizada em colaboração com Jorge Adel Dato, Michael da Silveira e Rodrigo Gonçalves. Ele defende que a edição brasileira é a melhor do mundo, destacando o esmero na busca por replicar a fluidez do estilo de Fisher, a acessibilidade da tradução e a inclusão de textos bônus e um pós-fácil explicativo que contextualiza a obra e sua recepção.
- 00:15:41 — Análise das capas: a diferença entre a edição original e a brasileira — Os participantes comparam a capa da edição original de “Realismo Capitalista” (um prédio espelhado, símbolo de estabilidade financeira) com a capa da edição brasileira (um prédio sendo implodido). Victor Marques interpreta essa mudança como um reflexo do contexto histórico diferente: o livro chegou ao Brasil depois da crise de 2008 e em meio ao colapso da ordem neoliberal, simbolizando a desestabilização e o interregno político que se seguiram.
- 00:29:01 — O reencontro com Fisher e o conceito de cancelamento do futuro — Victor Marques relata seu reencontro decisivo com a obra de Fisher por volta de 2014-2015, quando percebeu que o autor oferecia a melhor leitura da “temporalidade contemporânea”. Ele destaca a ideia do “cancelamento do futuro” e a tentativa de Fisher de “reconquistar o futuro”. Nesta fase, Fisher se debatia com questões estratégicas e organizacionais, engajando-se politicamente e tentando articular crítica teórica com prática militante, fugindo do cinismo acadêmico.
- 00:39:07 — Fisher, a CCRU e a relação com Nick Land e o aceleracionismo — A conversa aborda a formação de Fisher na CCRU e sua relação com Nick Land. Victor Marques define Land como um “inimigo político”, um propagandista do Capital com uma leitura “gótica” de Marx. Ele contrasta a trajetória de ambos: enquanto Fisher buscava um comunismo hipersticional, Land derivou para um aceleracionismo de extrema-direita, influenciando figuras do Vale do Silício. A discussão explora como a ficção científica atua como hiperstição, moldando a realidade.
- 00:54:05 — Fisher como intelectual orgânico e a crise da ordem neoliberal — Victor Marques posiciona Fisher como um intelectual orgânico no sentido gramsciano, cujo pensamento influenciou movimentos como o do Partido Trabalhista britânico sob Corbyn e a campanha de Bernie Sanders. Ele argumenta que Fisher estava lendo a crise de sua época como um “interregno”, um período em que a velha ordem (neoliberal) está morrendo e a nova ainda não nasceu. Nesse vácuo, disputam-se diferentes sistemas de realidade através da hiperstição.
- 01:04:29 — Hiperstição como conceito fundamental e o comunismo ácido — Victor Marques apresenta sua tese interpretativa: o conceito central de Fisher é o de “perdição” ou “hiperstição”. Ele ilustra com o filme “In the Mouth of Madness”, onde uma ficção contamina a realidade. Fisher via o comunismo não como utopia distante, mas como um projeto hipersticional a ser construído através da elevação da consciência (feminista, negra, de classe, psicodélica) e da ação coletiva. O neoliberalismo, por sua vez, seria um projeto de “deflacionamento” dessas consciências.
- 01:30:34 — O projeto inacabado: O Desejo Pós-Capitalista e a elevação da consciência — Os participantes discutem o livro inacabado de Fisher, “O Desejo Pós-Capitalista”, baseado em suas últimas aulas. Victor Marques especula que o livro exploraria experiências como o governo Allende no Chile, os Panteras Negras e os autonomistas italianos, vendo nelas momentos de “elevação da consciência” que o neoliberalismo buscou suprimir. A ideia era recuperar esses espectros do passado para reabrir futuros possíveis e construir uma agência coletiva emancipatória.
- 01:46:09 — Encerramento e próximos passos da série Fisheriana — Mauri Gonzo agradece a Victor Marques e antecipa os próximos episódios da série, que trarão outros especialistas para discutir diferentes aspectos da obra de Fisher. São mencionados os planos editoriais, incluindo a tradução de “The Weird and the Eerie” (O Estranho e o Sinistro) e a organização de fascículos com textos do blog K-Punk. Victor convida o público para um futuro curso de extensão sobre “O Desejo Pós-Capitalista” na UFABC.
Dados do Episódio
- Podcast: Crise Crise Crise
- Autor: Crise Crise Crise
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2025-05-22T16:39:33Z
- Duração: 01:53:14
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/crise-crise-crise/15f3f0a0-5023-013c-f72c-0acc26574db2/fisher-e-os-fisherianos-01-victor-marques/5e584e31-550b-4ae4-bc5f-9a9f7db6a274
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Dados do Podcast
- Nome: Crise Crise Crise
- Tipo: episodic
- Site: https://crise.love
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Transcrição
[00:00:00] É isso aí galera
[00:00:27] Voltando aqui a tweet do Cris
[00:00:29] E voltando, quem tá aqui
[00:00:31] Nos acompanhando pela
[00:00:32] Autonomia Literária, pelo YouTube da Autonomia Literária
[00:00:35] Esse aqui é o primeiro episódio
[00:00:38] De uma série que eu me propus a fazer
[00:00:39] Que é completamente maluca
[00:00:41] Quem não sabe, eu sou a Mauri Gonzo
[00:00:43] Sou
[00:00:44] Podcaster, editor
[00:00:47] Jornalista, maluco, etc
[00:00:49] Tem essa banda, que eu chamo meu podcast
[00:00:51] Banda, o Cris e Cris e Cris
[00:00:52] E estamos aqui pra falar de quem?
[00:00:55] Marquinho Pescador, Mark Fisher
[00:00:57] Mark Fisher
[00:00:58] É
[00:00:59] Um dos nomes mais celebrados hoje
[00:01:02] Da esquerda global, especialmente aqui no Brasil
[00:01:05] Desde a tradução do Realismo Capitalista
[00:01:07] E cá
[00:01:08] Comigo, trouxe ninguém mais, ninguém menos
[00:01:10] Pra gente falar desse primeiro episódio
[00:01:12] A ideia é trazer diferentes
[00:01:14] Especialistas, pessoas que estudam
[00:01:16] Fisher com as mais diferentes
[00:01:18] Sacadas, ideias
[00:01:20] Leituras do Fisher
[00:01:22] Trazer essa galera pra cá
[00:01:25] Pra gente conseguir entender
[00:01:26] O que cada um vê do Fisher
[00:01:27] E a gente conseguir criar
[00:01:29] Um mapa, um plano geral
[00:01:31] De tudo que a gente tem pensado
[00:01:34] E produzido sobre o Fisher hoje aqui no Brasil
[00:01:35] E pra começar
[00:01:36] Tinha pessoa melhor pra ter aqui hoje
[00:01:39] Agradeço muito, muito, muito
[00:01:41] Por estar aqui entre a gente
[00:01:42] Dr. Vitor Marques
[00:01:44] Publisher da Jacobin, Vitor?
[00:01:48] Eu tô de licença, cara
[00:01:49] Não respondi ainda oficialmente
[00:01:51] Publisher, licenciado
[00:01:53] Eu era diretor de
[00:01:56] Como é que eles me chamavam lá?
[00:01:57] Diretor de produção de desenho
[00:01:59] Desenvolvimento, alguma coisa assim
[00:02:00] Mas a Jacobina impressa
[00:02:04] Tá meio numa
[00:02:05] Latência aí, eu acho que a gente vai
[00:02:08] Nos próximos meses retomar
[00:02:09] Então tô reestabelecendo meus contatos
[00:02:11] Jacobinos pra gente fazer uma nova edição
[00:02:14] Impressa da Jacobina
[00:02:15] Maravilha, e Vitor foi
[00:02:17] Um principal nome por trás
[00:02:20] Da edição em português de Realismo Capitalista
[00:02:22] Ele assina junto com o Rodrigo
[00:02:24] Estudo da Série vai estar aqui semana que vem
[00:02:26] O Pós Fácil
[00:02:27] Que
[00:02:29] Conta
[00:02:29] Cara, é um dos melhores textos
[00:02:31] Assim, sobre fichas
[00:02:32] Você acabou de conhecer
[00:02:34] Você quer saber mais
[00:02:35] A recomendação sempre é
[00:02:38] Acabei de chegar, a gente acabou de chegar
[00:02:39] Então, ó, compra o Realismo Capitalista
[00:02:42] Lá no site da Autonomia Literária
[00:02:45] Com o cupom
[00:02:46] Hashtag crise, crise, crise
[00:02:47] Você ganha 25% de desconto
[00:02:49] E você perdeu semana passada o cupom
[00:02:52] Lá do Luciano Huck
[00:02:54] Aí você vai ter que pagar 25%
[00:02:56] Não sei se você viu o cupom do Luciano Huck, Vitor
[00:02:58] Não, não cheguei
[00:02:59] Não, não, circulou uma imagem aí
[00:03:01] Do camarada Huck
[00:03:03] Do camarada Huck recomendando
[00:03:05] E aí o pessoal da Autonomia
[00:03:07] Deu 50% de desconto
[00:03:08] Aí o pessoal comprou o ficha
[00:03:09] Então foi uma boa
[00:03:11] Raipando o ficha
[00:03:13] Isso daí é uma ficção em atividade
[00:03:16] Até porque eu acho que é uma ficção também, né
[00:03:18] Esse print do Huck
[00:03:20] Ninguém sabe
[00:03:21] Ninguém sabe a verdade por trás das coisas
[00:03:24] Tá no devir real da ficção
[00:03:27] Exatamente
[00:03:28] É uma impressão
[00:03:29] É uma impressão
[00:03:29] É uma extinção
[00:03:29] Então assim, lê o primeiro capítulo
[00:03:33] Eu sempre peço para as pessoas
[00:03:35] Como é que é? O que é que fala?
[00:03:37] Bicho, lê o primeiro capítulo
[00:03:38] Só lê o primeiro capítulo do Realismo Capitalista
[00:03:41] E me diz se você não vai terminar esse livro
[00:03:43] E depois no pós-fácil
[00:03:45] O Vitor explica, tim-tim por tim-tim
[00:03:47] Quem foi o McFish
[00:03:49] Porque o pensamento dele é tão importante hoje
[00:03:52] E aqui também
[00:03:54] Essas atividades
[00:03:55] O que a gente anda falando
[00:03:56] Tem muito a ver com o lançamento do
[00:03:59] Desejo Pós-Capitalista
[00:04:00] Que é o último livro
[00:04:02] Não é bem um livro, né
[00:04:04] A gente pode contar a história depois
[00:04:05] Mas o último livro do Fischer lançado agora em português
[00:04:09] A gente ainda tem mais edições para fazer aí
[00:04:11] Pela Autoromia Literária
[00:04:13] A editora com a qual a gente colabora
[00:04:16] Que fez, está fazendo todas as obras do Fischer no Brasil
[00:04:18] Também lançou
[00:04:19] Que está esgotado
[00:04:20] O Fantasma da Minha Vida
[00:04:22] Que o Vitor, muito obrigado, inclusive
[00:04:24] Fez o convite para eu fazer a introdução
[00:04:26] E, bom
[00:04:28] Então, a gente vai lá
[00:04:29] A gente tem um universo fischeriano para trazer
[00:04:31] E para discutir
[00:04:33] Com toda a galera
[00:04:34] E aí, Vitor
[00:04:35] Bom, eu queria pedir para você se apresentar
[00:04:37] Se faltou alguma coisa
[00:04:38] Sei que você é professor também
[00:04:40] Imagino que tem mais algumas atividades
[00:04:43] E queria saber também
[00:04:45] Como você conheceu o McFisher
[00:04:47] Como foi o seu primeiro contato com a obra do nosso querido autor?
[00:04:51] Bom, eu sou o Vitor Marx
[00:04:53] Sou professor
[00:04:54] Sou militante político da esquerda brasileira
[00:04:58] Desde o início da minha vida
[00:04:59] Desde a minha adolescência
[00:05:00] Sou do Quixadá, no Ceará
[00:05:02] Muito mal acostumado, assim, a São Paulo
[00:05:05] Querendo voltar para o Ceará o tempo todo
[00:05:07] Mas, infelizmente, ainda por aqui
[00:05:10] Dou aula
[00:05:12] Isso eu me orgulho
[00:05:13] Na Universidade Federal do ABC
[00:05:15] Que é uma bela universidade
[00:05:17] Estamos, inclusive, pensando, Amorim
[00:05:19] Acho que já tínhamos trocado essa ideia contigo
[00:05:21] De fazer um curso de extensão lá
[00:05:22] Justamente pelo mote da publicação do novo livro
[00:05:26] Do Desejo Pós-Capitalistas
[00:05:28] Que é um curso de extensão lá
[00:05:28] Que é um curso de extensão lá
[00:05:28] Que é um curso
[00:05:29] Então a gente queria meio que
[00:05:31] Trabalhar o livro na forma de curso
[00:05:33] Dar o curso que o Fisher estava dando
[00:05:35] Talvez uma aula introdutória
[00:05:37] Depois uma aula para cada capítulo
[00:05:39] E uma aula final
[00:05:40] Fechando o negócio
[00:05:42] Acho que vou fazer esse curso de extensão
[00:05:44] Então as pessoas da UFABC já estão começando a ouvir falar sobre isso
[00:05:48] Mas como é extensão, justamente para a comunidade externa
[00:05:51] Todo mundo que quiser aparecer por lá
[00:05:52] Vai estar mais que convidado
[00:05:54] Então começo já fazendo aí um jabazinho
[00:05:57] Para uma coisa que ainda não está totalmente
[00:05:58] Certa, mas que é o meu projeto
[00:06:00] Para o próximo quadrimestre na UFABC
[00:06:02] Eu trabalhei também com a
[00:06:05] Revista Jacobina
[00:06:06] Que é uma revista socialista
[00:06:09] Internacionalista
[00:06:10] A Jacobina é a nossa edição brasileira
[00:06:12] Ela está um pouco como
[00:06:13] Estava falando, durmente
[00:06:15] Faz um ano aí que não tem a edição impressa
[00:06:18] Mas nós começamos já aí
[00:06:20] As negociações e as conversas
[00:06:22] Para ter a próxima edição impressa da Jacobina
[00:06:24] Sobre classe
[00:06:25] Trabalho no Brasil
[00:06:27] No ano de 2017
[00:06:28] Em 2025, no século XXI
[00:06:30] Acho que também tem muito a ver com o que o Fischer
[00:06:32] Estava pensando bastante
[00:06:34] Nessas últimas aulas
[00:06:37] Desde a discussão que ele faz
[00:06:39] Com o Lukács
[00:06:39] Sobre classe, consciência de classe
[00:06:43] Até o papel que a classe
[00:06:45] Está jogando hoje na política internacional
[00:06:47] Porque de fato houve um retorno
[00:06:48] Pelo menos do vocabulário
[00:06:50] Classe trabalhadora
[00:06:51] Que na década de 90 virou quase assim
[00:06:53] Uma coisa que foi proibida de se falar
[00:06:57] Não tinha mais
[00:06:57] Trabalhadoras
[00:06:58] Classe trabalhadora
[00:06:59] Todo mundo classe média
[00:07:00] E hoje a classe trabalhadora aparece
[00:07:03] Mas, vai dizer o Fischer
[00:07:05] Você tem a experiência de classe
[00:07:07] Sem a consciência de classe
[00:07:08] Sem um projeto coletivo de classe
[00:07:10] Acho que esse era todo o dilema
[00:07:12] Que ele estava se debatendo nos últimos anos de vida
[00:07:14] E como ele podia contribuir politicamente para isso
[00:07:16] Eu acho que esse é um excelente projeto
[00:07:19] Se tem um projeto que eu posso dizer
[00:07:21] Que eu dedico a minha vida
[00:07:23] É tentar construir
[00:07:25] A partir da diversidade
[00:07:27] Da experiência de classe
[00:07:28] Das várias lutas
[00:07:30] Contra a desigualdade
[00:07:32] Contra a injustiça
[00:07:33] Contra a opressão
[00:07:34] Contra a exploração
[00:07:35] Pelos mais distintos sujeitos
[00:07:37] Como é que a gente articula essas lutas
[00:07:39] No sentido de produzir
[00:07:41] Uma agência coletiva emancipatória
[00:07:43] Capaz de intervir na história
[00:07:45] De construir o seu próprio destino
[00:07:47] Eu então, nesse sentido, sou um daqueles da velha guarda
[00:07:50] Que ainda acredito num projeto de emancipação universal
[00:07:53] Em que a gente com as nossas diferenças
[00:07:55] Com a nossa diversidade
[00:07:56] Possamos trabalhar junto
[00:07:57] Para mudar a substância da nossa sociedade
[00:07:58] Para mudar substancialmente o mundo
[00:07:59] E construir um mundo radicalmente diferente
[00:08:02] Um mundo movido por um desejo emancipatório
[00:08:05] E um mundo que seja pós-capitalista
[00:08:07] Acho que nos dois sentidos
[00:08:09] Primeiro no sentido de ser anticapitalista
[00:08:11] De abolir o capitalismo
[00:08:15] Mas também pós-capitalista no sentido de
[00:08:17] Construir em cima de coisas que o capitalismo produziu
[00:08:21] Inclusive a tecnologia digital
[00:08:24] A capacidade de a gente estar aqui conversando a distância
[00:08:28] E de como a gente pode usar, na verdade, a inteligência artificial
[00:08:31] Para trabalhar menos
[00:08:32] Em vez de deixar que ela nos controle
[00:08:35] E manipule a nossa vida
[00:08:37] Que ela seja uma ferramenta para a liberdade
[00:08:40] Eu acho que isso…
[00:08:42] Talvez esse tipo de projeto seja hoje um pouco em baixa
[00:08:47] Como a gente está vivendo em tempos tão distópicos
[00:08:51] Ou você ainda tem uma certa atração do realismo capitalista acontecendo
[00:08:55] Mas eu acho também que o realismo capitalista está em retirada
[00:08:57] Essa talvez seja uma posição um pouco polêmica
[00:09:00] Eu acho que tem poucas pessoas hoje que acham que
[00:09:04] Assim, o capitalismo vai continuar indefinidamente
[00:09:08] Mas eu acho que em vez de um desejo pós-capitalista
[00:09:12] Coletivamente articulado
[00:09:14] Que a gente está, na verdade, vivendo uma certa resignação
[00:09:18] Com relação ao próprio fim do mundo
[00:09:23] Você está achando que é mais fácil imaginar o fim do mundo mesmo?
[00:09:27] Ou o fim do capitalismo?
[00:09:28] Isso daí já era mais fácil
[00:09:29] O realismo capitalista é isso
[00:09:31] É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo
[00:09:34] E agora é o fim do mundo
[00:09:36] O problema é que hoje o fim do mundo está muito palpável
[00:09:39] As pessoas não acham que o capitalismo é
[00:09:42] Não vai ter aquele reinado indefinido
[00:09:45] Mas de 90 o capitalismo ainda tinha uma certa pujança
[00:09:48] Inclusive o projeto neoliberal que prometia
[00:09:51] Autonomia, desburocratização
[00:09:54] Liberdades individuais
[00:09:56] Florescimento
[00:09:57] Desenvolvimento individual
[00:09:58] As pessoas ainda de alguma maneira acreditavam nisso
[00:10:01] Hoje a catástrofe, o colapso
[00:10:03] A descrença total está muito mais dominante
[00:10:07] Então o fim do mundo está à mão, digamos assim
[00:10:10] De uma maneira que a própria eternidade do capitalismo
[00:10:13] Já está menos forte do que foi há pouco tempo atrás
[00:10:16] Isso é verdade, mas isso é verdade
[00:10:19] Porém, antes da gente entrar nisso aqui, Victor
[00:10:22] Você não contou
[00:10:23] Como você conheceu o Mark Fisher?
[00:10:24] Essa é uma boa história
[00:10:26] Eu não tenho certeza
[00:10:27] Acho que isso meio que se perde um pouco nas brumas do tempo
[00:10:31] E até peço ajuda para alguns amigos
[00:10:34] Já fiz essa pergunta para alguns amigos
[00:10:35] Como eu conheci o Mark Fisher?
[00:10:38] Porque tem um amigo muito querido
[00:10:40] Que é o Jorge Adel Dato
[00:10:42] Do Ceará também
[00:10:44] É professor na Universidade de Sobral
[00:10:46] Na Uva de Sobral
[00:10:49] Já fui lá também participar de algumas atividades com ele
[00:10:53] E o Jorge é importante nessa história também
[00:10:55] Porque
[00:10:56] Foi com ele que eu traduzi
[00:10:59] O artigo
[00:11:00] Não prestar para nada
[00:11:02] Na madrugada que a gente ficou sabendo da morte do Fisher
[00:11:06] De um dia para o outro
[00:11:08] Era um artigo que ainda não estava
[00:11:10] Não estava à disposição em português
[00:11:14] Mas era um artigo que toda vez que eu lia
[00:11:16] Eu literalmente chorava
[00:11:17] Ele me abalava muito
[00:11:19] E com a morte do Fisher passou a me abalar ainda mais
[00:11:22] Então esse foi o primeiro momento que a gente
[00:11:25] Parou assim para pensar
[00:11:27] Não é possível que o livro do Fisher ainda não esteja em português
[00:11:32] Então o Jorge Adel Dato é um dos tradutores
[00:11:35] Um dos quatro
[00:11:37] Acho que é o Jorge, o Michael, o Rodrigo
[00:11:40] Estou esquecendo alguém?
[00:11:43] Não, é exatamente
[00:11:45] É o Michael da Silveira, o Rodrigo Gonçalves e o Jorge Adel Dato
[00:11:48] E eu fiz a revisão dessa tradução
[00:11:51] Antes de eu retornar a esse ponto
[00:11:53] Eu acho que o Antônio Galvão
[00:11:57] No lançamento do Desejos Pós-Capitalistas
[00:12:00] Ele falou uma coisa que eu concordo demais
[00:12:03] Que essa edição brasileira
[00:12:05] É a melhor edição do Realismo Capitalista que existe no mundo
[00:12:09] Ele já foi traduzido para dezenas de línguas diferentes
[00:12:14] Mas o nível de esmero
[00:12:17] De carinho, de minuciosidade com que nós trabalhamos isso
[00:12:21] Essa tradução
[00:12:23] Eu pessoalmente bati ela
[00:12:26] Com a italiana, com a espanhola
[00:12:29] Eu li frase por frase
[00:12:32] Você viu a tradução também
[00:12:34] Eu com o Michael da Silveira e o Jorge Adel Dato
[00:12:36] Nós discutimos isso intensamente
[00:12:38] Eu acho que a gente conseguiu
[00:12:40] De uma maneira talvez pouco comum
[00:12:43] Replicar a fluidez do estilo do Fisher
[00:12:48] Como se ele estivesse falando em uma língua nativa
[00:12:51] É uma tradução que não é truncada
[00:12:53] Ela é bonita
[00:12:55] Ela é de fácil assimilação
[00:12:57] Ela é gostosa do jeito que o Fisher escreve
[00:12:59] Porque às vezes isso se perde na tradução também
[00:13:02] Ele é um baita escritor
[00:13:03] É muito agradável lê-lo
[00:13:04] Então a gente construiu uma tradução que é também
[00:13:07] Bastante agradável
[00:13:09] Muito interessante
[00:13:11] Que não exige a pessoa ser especialista
[00:13:14] Ela é bastante acessível
[00:13:17] Você não fica perdido no texto
[00:13:19] E ainda vem de quebra com esse pós-fácil
[00:13:22] Junto com o Rodrigo Gonçalves
[00:13:24] Que dá um mapa direitinho
[00:13:26] Por que ele está falando isso?
[00:13:27] De onde é que isso está vindo?
[00:13:28] Que tipo de coisa ele viveu antes?
[00:13:31] Qual é a formação acadêmica dele?
[00:13:33] Quais são as referências?
[00:13:34] E o que ele foi fazer depois?
[00:13:36] Qual foi o impacto desse livro
[00:13:38] Já na Inglaterra, nos Estados Unidos?
[00:13:40] Todo esse mapeamento da recepção do Realismo Capitalista
[00:13:42] Já está presente
[00:13:44] Quando o sujeito vai ler o Realismo Capitalista em português
[00:13:48] E ainda tem o bônus
[00:13:50] Tem alguns textos adicionais como esse
[00:13:52] O Não Prestar Pra Nada
[00:13:53] Que acaba entrando na edição
[00:13:55] Acho também
[00:13:56] Como Matar Um Zumbi
[00:13:57] Que é um excelente texto de intervenção política antineoliberal
[00:14:01] Do Fischer
[00:14:02] Acho que tem também um que é
[00:14:05] Ninguém está entediado
[00:14:07] Mas tudo é entediante
[00:14:08] Alguma coisa assim
[00:14:09] Então acho que dá uma amplitude a mais
[00:14:11] Do que o Fischer estava tratando
[00:14:14] Então fecho esse parênteses sobre a belíssima edição
[00:14:18] Que está…
[00:14:19] Que o público brasileiro tem à sua disposição
[00:14:22] Eu vou falar só um instante
[00:14:24] Eu comparo o Fischer com o Rockstar
[00:14:27] E os livros dele com discos
[00:14:29] E o Realismo Capitalista é que nem aqueles discos japoneses
[00:14:32] Como chega atrasado
[00:14:34] Você precisa dar um tchan
[00:14:36] Então tem faixa bônus
[00:14:38] Tem esse pós-fácil
[00:14:42] Realmente é a melhor edição que eu conheço
[00:14:45] Que eu já peguei na mão do Fischer
[00:14:48] É a mais completa, a mais interessante
[00:14:50] E a que mais representa o espírito dele
[00:14:54] Acho que o fato de ter demorado
[00:14:56] Fez com que ela tenha vindo com tanta atenção
[00:14:59] Tanta gente botando a mão
[00:15:00] Tanta gente ali olhando
[00:15:03] Momento a momento
[00:15:05] Preparando nota
[00:15:07] Porque é isso assim
[00:15:08] O Fischer não é um autor necessariamente fácil
[00:15:11] Porque ele faz muitas referências a muitas coisas ao mesmo tempo
[00:15:14] De diferentes contextos e tudo mais
[00:15:16] Que precisa realmente desse olhar
[00:15:19] Por mais de uma pessoa
[00:15:20] Para conseguir garantir que a obra vai
[00:15:22] Funcionar em português, por exemplo
[00:15:24] Mas você ainda não contou, Victor
[00:15:27] Tem um detalhe estético
[00:15:28] Até que a diferença de capa
[00:15:30] Eu não sei em que medida isso foi pensado
[00:15:33] Mas acho que tem uma coisa que vale a pena comentar
[00:15:35] As pessoas não estão vendo aqui
[00:15:36] Quem está assistindo eu vou mostrar
[00:15:38] A capa original do Realismo Capitalista é essa
[00:15:41] Com um prédiozinho espelhado
[00:15:43] Típico assim
[00:15:44] Dos centros financeiros
[00:15:46] Da cidade
[00:15:48] Desses prédios onde estão os bancos
[00:15:50] Os fundos financeiros
[00:15:52] Esse tipo de coisa
[00:15:53] Parece essa coisa meio de Matrix
[00:15:55] É uma estética própria da virada do século
[00:15:59] E eu acho que aí mostra a estabilidade
[00:16:01] Do Realismo Capitalista nesse momento
[00:16:03] Como o livro é traduzido 10 anos depois
[00:16:06] A capa aqui é de um prédio sendo implodido
[00:16:10] Já é o colapso
[00:16:12] É um livro que já aparece aqui para o nosso público
[00:16:15] Depois do que eu chamo assim meio brincando
[00:16:17] Do evento de colapso de realidade
[00:16:19] Porque eu acho que de fato
[00:16:21] Os efeitos políticos da crise de 2008
[00:16:24] Com o qual o Fischer está dialogando diretamente
[00:16:27] Então esse é um livro de 2009
[00:16:29] Ele é uma resposta imediata
[00:16:31] A quente
[00:16:33] Porque o Fischer está blogueando sobre ela
[00:16:35] Está escrevendo no blog sobre essas coisas
[00:16:37] Mas os efeitos políticos dela são um pouco demorados
[00:16:41] Primeiro porque vai ter um tempo assim
[00:16:43] Para os movimentos
[00:16:45] Aparecerem
[00:16:47] Seja os movimentos da direita
[00:16:49] Como os movimentos do Burfer
[00:16:51] Do Trump
[00:16:53] Do Tipar, esse tipo de coisa
[00:16:55] Mas os nossos movimentos contestatórios
[00:16:57] Como o pessoal do Occupy Wall Street
[00:16:59] Das acampadas
[00:17:01] Da Praça do Sol
[00:17:03] Da Praça Tahrir
[00:17:05] Da própria Primavera Árabe
[00:17:07] Você tem essa convulsão ali
[00:17:09] Entre 2011 e 2013 mais ou menos
[00:17:11] E logo depois
[00:17:13] Você tem a implosão do Centro
[00:17:15] Que é o Brexit
[00:17:17] Que é a vitória do Donald Trump
[00:17:19] É o início da ascensão
[00:17:21] Da direita populista
[00:17:23] E dessas forças políticas
[00:17:25] Que eram muito marginais
[00:17:27] Que de repente elas tomam
[00:17:29] A centralidade
[00:17:31] Vão para o centro do tabuleiro do palco
[00:17:33] Até algumas tentativas nossas
[00:17:35] Então eu acho que reflete muito
[00:17:37] Digamos assim
[00:17:39] O Fischer estava ainda vendo essa possibilidade
[00:17:41] Ele estava falando
[00:17:43] Da desestabilização
[00:17:45] Do pacto neoliberal
[00:17:47] Pós crise de 2008
[00:17:49] Mas a coisa fica muito mais evidente
[00:17:51] Nas suas consequências políticas
[00:17:53] De 2015 em diante
[00:17:55] O Fischer está também comentando sobre isso
[00:17:57] Dialogando inclusive
[00:17:59] Aparece bastante de novo
[00:18:01] Nas últimas aulas dele
[00:18:03] Que são de 2017
[00:18:05] Do desejo dos pós capitalistas
[00:18:07] Que a gente vai falar mais tarde
[00:18:09] Eu ainda não respondi a pergunta
[00:18:11] E agora eu vou responder
[00:18:13] Porque o Realismo Capitalista
[00:18:15] É um livro de blog
[00:18:17] Todos os textos
[00:18:19] Todos os conceitos que aparecem
[00:18:21] No texto eles são experimentados
[00:18:23] No ambiente do blog
[00:18:25] Então eles são testados lá
[00:18:27] Inclusive com feedback da caixa de comentários
[00:18:29] Porque o Fischer abre a caixa de comentários
[00:18:31] Tem um debate grande no blog deles
[00:18:33] Formam uma rede de blogs
[00:18:35] Debatendo, assumindo aqueles conceitos
[00:18:37] Meio que tornando os conceitos
[00:18:39] De fato assim
[00:18:41] Não só de intervenção da realidade
[00:18:43] De diagnóstico
[00:18:45] Mas dando uma certa concretude
[00:18:49] E eu acho que eu acompanhava
[00:18:51] O blog do Fischer
[00:18:53] Eu não tenho certeza disso
[00:18:55] Eu acho
[00:18:57] Porque o Jorge Adel Dato
[00:18:59] Por isso que eu falei do Jorge Adel Dato
[00:19:01] Lá de trás
[00:19:03] Quando eu perguntei para ele
[00:19:05] Como é que a gente conheceu o Fischer
[00:19:07] Ele falou que a gente lia o blog dele
[00:19:09] Ali na primeira metade da década
[00:19:11] Nós éramos blogueiros também
[00:19:13] Meio ligado assim
[00:19:15] A uma literatura um pouco surrealista
[00:19:17] Fantástica
[00:19:19] Uma comparada a Gonzo
[00:19:21] A gente gostava disso daí
[00:19:23] E a gente estava atrás dos blogs internacionais
[00:19:25] Que estavam falando coisas interessantes
[00:19:27] E como o Fischer gostava basicamente
[00:19:29] Das mesmas coisas que a gente
[00:19:31] Tipo o Philip K. Dick
[00:19:33] E Joy Division
[00:19:35] Esse tipo de coisa que
[00:19:37] Adolescentes nerd meio esquisitos gostam
[00:19:39] É provável que a gente tenha esbarrado neles
[00:19:41] Diz o Jorge Adel Dato
[00:19:43] Que o K-Punk estava na nossa lista
[00:19:45] Do blogs que a gente seguia no nosso blog
[00:19:47] Isso daí eu não tenho nem como comprovar
[00:19:49] Nem descomprovar
[00:19:51] Tem sim
[00:19:53] Se você me der o endereço
[00:19:55] Eu acho aqui
[00:19:57] Se perderam
[00:19:59] Nem vale a pena ir atrás
[00:20:01] Mas eu sei também
[00:20:03] Que eu comprei o Realismo Capitalista
[00:20:05] Logo quando ele saiu
[00:20:07] Tá
[00:20:09] Eu comprei não porque
[00:20:11] Eu associava ele ao K-Punk
[00:20:13] Mas porque eu estava em uma fase
[00:20:15] Muito Zizekiana
[00:20:17] Aí já não como blogueiro
[00:20:19] No começo da primeira metade
[00:20:21] Da década dos anos 2000
[00:20:23] Mas já agora no meu mestrado
[00:20:25] Eu tinha ido para a filosofia
[00:20:27] Tinha saído da biologia
[00:20:29] Ido trabalhar com filosofia
[00:20:31] Com teoria
[00:20:33] O Zizek estava aparecendo como uma figura
[00:20:35] Curiosa também
[00:20:37] Um cara que não se encaixava muito
[00:20:39] No ambiente
[00:20:41] Mesmo no vocabulário acadêmico tradicional
[00:20:43] Estava inclusive trazendo uma leitura
[00:20:45] Do Lenin
[00:20:47] Que era uma coisa totalmente fora de moda
[00:20:49] Nessa época
[00:20:51] Quase foi cancelado
[00:20:53] Por falar do Lenin algumas vezes
[00:20:55] Mas fez coletâneas com textos do Lenin
[00:20:57] Colocou o Lenin na capa
[00:20:59] Esse tipo de coisa
[00:21:01] E era um cara engraçado
[00:21:03] Então era bastante divertido também
[00:21:05] Ler as coisas do Zizek
[00:21:07] Depois acho que foi ficando muito repetitivo
[00:21:09] Porque ele estava um pouco deslocado da realidade
[00:21:11] Já não é uma referência para mim
[00:21:13] Mas eu confesso que ali nos anos 2007
[00:21:15] 2008, 2009
[00:21:17] Eu estava lendo tudo que o Zizek publicava
[00:21:19] Todo livro novo que ele lançava
[00:21:21] Eu comprava
[00:21:23] E ele falou
[00:21:25] Olha, tem um livro muito bom
[00:21:27] Inclusive acho que é um blurb
[00:21:29] Que está na contracapa
[00:21:31] É isso
[00:21:33] O Realismo Capitalista recebe um blurb do Zizek
[00:21:35] Que na época era uma coisa super importante
[00:21:37] Ele era um brasileiro
[00:21:39] Que estava trabalhando
[00:21:41] Meio que na escola técnica
[00:21:43] Na educação continuada britânica
[00:21:45] Ele não estava na primeira linha
[00:21:47] Digamos assim
[00:21:49] Eu acho que quando sai o Realismo Capitalista
[00:21:51] Ele já é editor da
[00:21:53] Da The Wire
[00:21:55] Porque um tempo ele trabalha
[00:21:57] Como editor de opinião da The Wire
[00:21:59] Sim
[00:22:01] Agora não tenho certeza se já era agora
[00:22:03] Se foi ali ou se foi um pouco depois
[00:22:05] Não tenho certeza
[00:22:07] Ele é um grande estabelecido
[00:22:09] Alguém conhecido pela produção de alta teoria
[00:22:11] Esse tipo de coisa
[00:22:13] O melhor momento da carreira dele
[00:22:15] Foi ter sido crítico de música
[00:22:17] Ter sido publicado
[00:22:19] A partir do momento que ele virou esse blogueiro
[00:22:21] Ficou conhecido na blogosfera
[00:22:23] Pegou amizade com uma galera que escrevia em blog
[00:22:25] E também era jornalista de música
[00:22:27] E começou a publicar os textos
[00:22:29] Que depois vão parar lá no
[00:22:31] Fantasma da minha vida, por exemplo
[00:22:33] Mas não só
[00:22:35] São republicanos do K-Punk, etc
[00:22:37] Que aí tem essa pegada mais
[00:22:39] De crítico musical
[00:22:41] Só que obviamente
[00:22:43] Crítico musical super intelectual
[00:22:45] Dentro da tradição britânica
[00:22:47] Onde ele veio
[00:22:49] E era o máximo de conhecimento
[00:22:51] Que as pessoas tinham sobre o Fischer
[00:22:53] Eu lembro disso porque eu lembro dele
[00:22:55] Nas páginas da The Wire
[00:22:57] Eu conheci ele como crítico de música, por exemplo
[00:22:59] Pois é, então ele recebe esse blurb do Gigi
[00:23:01] Que eu vejo o Gigi falando sobre o livro
[00:23:03] Que era uma contribuição importante
[00:23:05] E eu compro sem esperar muita coisa
[00:23:07] Sem conectá-lo, sem associá-lo
[00:23:09] Com o K-Punk
[00:23:11] Eu acho que eu já tinha visto o K-Punk antes
[00:23:13] Mas eu não estava ligando o nome com a pessoa
[00:23:15] Eu não estava acompanhando o blog na época que o livro sai
[00:23:17] Isso aí eu tenho certeza
[00:23:19] Posso ter acompanhado antes
[00:23:21] Na pré-história, digamos assim
[00:23:23] Do Fischer
[00:23:25] No começo dos anos 2000
[00:23:27] Eu gosto do livro
[00:23:29] Acho o livro interessante
[00:23:31] Mas é engraçado que ele não me pega assim
[00:23:33] Da maneira como ele vai me pegar depois
[00:23:35] A minha primeira leitura
[00:23:37] Não é a leitura que me impacta
[00:23:39] Mas eu acho
[00:23:41] Mas essa é a minha tese sobre a recepção
[00:23:43] Inicial desse bagulho do Fischer no Brasil
[00:23:45] Do realismo capitalista no Brasil
[00:23:47] Capitalist Realism
[00:23:49] Do fato de que o Fischer
[00:23:51] Ele está
[00:23:53] Falando sobre uma crise global
[00:23:55] Que não pegou do mesmo jeito
[00:23:57] A gente não ter passado
[00:23:59] Demorou alguns anos
[00:24:01] Para a gente ter uma crise econômica
[00:24:03] Aguda
[00:24:05] Quanto foi a crise de 2008
[00:24:07] Para o, entre aspas, primeiro mundo
[00:24:09] Para o norte global
[00:24:11] E ficou um pouco mais difícil a gente olhar
[00:24:13] Putz, mas como não existe um mundo diferente
[00:24:15] Se aqui no Brasil a gente está tendo uma experiência diferente
[00:24:17] Do que vocês estão tendo aí
[00:24:19] Nesses buracos que vocês vivem
[00:24:21] Que vocês chamam de primeiro mundo
[00:24:23] E eu acho que isso fez muita diferença para a gente
[00:24:25] Era o auge do governo Lula
[00:24:27] A gente elegeu a Dilma pela primeira vez
[00:24:29] Em 2010
[00:24:31] O livro sai em 2009
[00:24:33] Eu acho que qualquer jovem
[00:24:35] Mais ou menos da nossa idade
[00:24:37] Até mais jovem que a gente
[00:24:39] Talvez um pouco mais velho
[00:24:41] Não estava preocupado com essas questões aí da crise não
[00:24:43] Talvez isso seja uma explicação psicológica
[00:24:45] De porque essa minha primeira leitura
[00:24:47] Não
[00:24:49] Cala fundo
[00:24:51] De alguma maneira
[00:24:53] E não produz um investimento libidinal
[00:24:55] Que mais tarde vai aparecer
[00:24:57] Eu não tenho certeza, Maurinho
[00:24:59] Porque eu acho que na época
[00:25:01] Tem temas semelhantes
[00:25:03] E embora
[00:25:05] Eu evidentemente
[00:25:07] Votei no Lula
[00:25:09] Sempre que eu votei
[00:25:11] Desde a primeira vez da minha vida
[00:25:13] Desde 2002 que eu voto no Lula
[00:25:15] Sempre que ele se candidatou eu votei nele
[00:25:17] E eu fui para a primeira posse do Lula
[00:25:19] E tudo
[00:25:21] Eu venho de uma certa tradição
[00:25:23] Que às vezes
[00:25:25] Até em São Paulo isso é mais forte
[00:25:27] Do que no Ceará
[00:25:29] Tem até nome
[00:25:31] Uma tradição anarcopetista
[00:25:33] Digamos assim
[00:25:35] As pessoas que votam no PT
[00:25:37] Mas que tem uma formação
[00:25:39] Militante
[00:25:41] Teórica
[00:25:43] Ligada à tradição autonomista
[00:25:45] E claro que isso no petismo
[00:25:47] Tem até um certo sentido mais profundo
[00:25:49] Porque alguns dos fundadores importantes
[00:25:51] Do PT
[00:25:53] Se filiam a essa tradição de maneira muito explícita
[00:25:55] Então
[00:25:57] O Pedagogia do Oprimido, do Paulo Freire
[00:25:59] É um livro tipicamente petista
[00:26:01] É um livro importante para o autonomismo brasileiro
[00:26:03] O outro livro
[00:26:05] Quando os novos atores entram em cena
[00:26:07] Do Eder Sader
[00:26:09] Que é um livro também central para o autonomismo brasileiro
[00:26:11] E era dirigente do PT
[00:26:13] O Eder Sader foi até a sua morte
[00:26:15] Dirigente do Partido dos Trabalhadores
[00:26:17] Mas na época
[00:26:19] Eu já estava assim
[00:26:21] Com a sensação
[00:26:23] Certo?
[00:26:25] Que depois até melhorou um pouco
[00:26:27] De que
[00:26:29] O PT era algo não muito diferente
[00:26:31] Da socialdemocracia
[00:26:33] Pós 89
[00:26:35] Digamos assim
[00:26:37] Na Europa
[00:26:39] E que havia
[00:26:41] De alguma maneira se integrado ao sistema
[00:26:43] E portanto estava fazendo algo
[00:26:45] Como uma gestão do neoliberalismo
[00:26:47] Depois a gente foi até criando expressões
[00:26:49] Para tentar articular isso
[00:26:51] Como a Nancy Fraser fala
[00:26:53] Do neoliberalismo progressista
[00:26:55] Então eu estava meio
[00:26:57] Já nessa época com o diagnóstico
[00:26:59] De que
[00:27:01] Por aí não vai sair muita coisa
[00:27:03] Mas eu acho que realmente
[00:27:05] Quando o livro do Fischer sai
[00:27:07] Talvez seja um dos melhores momentos
[00:27:09] Do governo Lula
[00:27:11] E aí você fica
[00:27:13] E era o momento em que você tinha
[00:27:15] Os governos progressistas na Bolívia
[00:27:17] A Venezuela estava bem
[00:27:19] Você tinha
[00:27:21] Aquela Pink Tide no máximo
[00:27:23] De que você poderia usar
[00:27:25] As eleições para aprofundar
[00:27:27] Intensificar o processo de democratização
[00:27:29] Fazer até ameaças
[00:27:31] Ao sistema de propriedade
[00:27:33] A reprodução capitalista
[00:27:35] Combinando de alguma maneira
[00:27:37] Pressão nas ruas
[00:27:39] Com atividade institucional, eleitoral
[00:27:41] Aliás, esse é o tipo de estratégia
[00:27:43] Que eu ainda defendo
[00:27:45] É isso que eu acredito
[00:27:47] Uma combinação que o nosso
[00:27:49] Finado Olavo de Carvalho
[00:27:51] Chamaria de estratégia das tesouras
[00:27:53] Que vem um pouco a militância de rua
[00:27:55] Radical fazendo pressão por um lado
[00:27:57] E você tem os munchevics
[00:27:59] Na institucionalidade
[00:28:01] Sendo de alguma maneira
[00:28:03] Pressionados ou estimulados
[00:28:05] Por essa ação
[00:28:07] Que vem de fora
[00:28:09] E você provoca mudança social
[00:28:11] A partir daí
[00:28:13] Eu sou ao contrário do Olavo de Carvalho
[00:28:15] Que denunciava a estratégia das tesouras
[00:28:17] Eu acho que a esquerda usa pouco
[00:28:19] Da estratégia das tesouras
[00:28:21] Que é uma excelente estratégia
[00:28:23] Para ajudar a construir poder
[00:28:25] Mas então você tem razão
[00:28:27] Talvez na época eu estava muito conectado
[00:28:29] Com o ciclo de governos progressistas
[00:28:31] Olhando bastante
[00:28:33] O que estava acontecendo
[00:28:35] De experimento de democracia radical
[00:28:37] Na Bolívia
[00:28:39] Na formação dos conselhos populares
[00:28:41] Toda essa ideia
[00:28:43] De alguma maneira você pode juntar
[00:28:45] A institucionalidade com militância
[00:28:47] Com reivindicação
[00:28:49] Contestatória
[00:28:51] E isso produzir algum tipo de avanço social
[00:28:53] Talvez por isso que o Fischer não me pega
[00:28:55] Aí o meu segundo momento
[00:28:57] Meu reencontro com o Fischer
[00:28:59] Talvez o meu terceiro reencontro
[00:29:01] É em 2014, 2015
[00:29:03] Em que eu acho
[00:29:05] Que aí é quando eu percebo
[00:29:07] Que ele faz a melhor leitura
[00:29:09] Da estrutura
[00:29:11] Da temporalidade contemporânea
[00:29:13] É isso que me pega
[00:29:15] É a ideia do
[00:29:17] Cancelamento do futuro
[00:29:19] E na verdade
[00:29:21] Até uma reivindicação do futuro
[00:29:23] Uma tentativa de reclaim
[00:29:25] De reconquistar o futuro
[00:29:27] De reivindicar o futuro novamente
[00:29:29] De criar algum tipo de horizonte
[00:29:31] Mais amplo
[00:29:33] Porque aí
[00:29:35] Talvez se a gente tiver essa oportunidade
[00:29:37] Também discutir um pouco estratégia política
[00:29:39] E eu acho
[00:29:41] O Fischer é importante para mim
[00:29:43] E eu acho que a gente fez tanto esforço
[00:29:45] Para trazê-lo
[00:29:47] Porque ele não é
[00:29:49] Um comentarista crítico
[00:29:51] Desengajado
[00:29:53] Que está falando
[00:29:55] Sobre, sei lá, sociedade
[00:29:57] Flutuando acima dela
[00:29:59] Sobretudo nos últimos anos
[00:30:01] Os últimos 10 anos da vida dele
[00:30:03] Era alguém que estava o tempo todo
[00:30:05] Se debatendo
[00:30:07] Se confrontando
[00:30:09] Com questões de natureza estratégica
[00:30:11] Organizacional
[00:30:13] Programática
[00:30:15] De formulação
[00:30:17] E de como a atividade política
[00:30:19] Entra em contato
[00:30:21] Com a formulação crítica
[00:30:23] Essa era a preocupação dele
[00:30:25] Ele estava engajado com o movimento
[00:30:27] Com o autonomismo britânico também
[00:30:29] Com o coletivo Plan C
[00:30:31] Eu acho que a gente menciona isso
[00:30:33] No pós-fácil
[00:30:35] E ao mesmo tempo em 2012
[00:30:37] Ele já se filia ao Partido Trabalhista
[00:30:39] Ou seja, três anos antes do Corbyn
[00:30:41] Que é o momento em que a esquerda britânica
[00:30:43] Vai para o Partido Trabalhista
[00:30:45] Depois é um desastre total
[00:30:47] A gente pode falar disso também mais tarde
[00:30:49] Mas ele faz essa aposta
[00:30:51] Ele é um sujeito que está querendo fazer apostas
[00:30:53] Ele não está
[00:30:55] Com um olhar distante
[00:30:57] Ele não é um acadêmico
[00:30:59] Tanto que ele não é um acadêmico praticamente
[00:31:01] Vai ser mais no fim da vida
[00:31:03] Que ele vai passar até aulas
[00:31:05] Vai lecionar na Goldsmiths e tudo mais
[00:31:07] Ele não é um acadêmico
[00:31:09] Que ignora
[00:31:11] A décima primeira tese sobre o Führer-Badumax
[00:31:13] Pelo contrário
[00:31:15] É um acadêmico bastante engajado com essa ideia
[00:31:17] Eu acho interessante você falar isso
[00:31:19] Amaury, porque eu acho que esse talvez seja
[00:31:21] A descrição central
[00:31:23] Da atividade do Fischer
[00:31:25] Ele até chama isso de
[00:31:27] Conjunção espinozista-nittiana-marxista
[00:31:31] De que a sua teoria não deve ser
[00:31:33] Meramente representativa
[00:31:35] Contemplativa
[00:31:37] E tem aí toda a discussão da hipertensão
[00:31:39] Que a gente pode falar um pouco
[00:31:41] Sobre isso
[00:31:43] De como a teoria é na verdade
[00:31:45] Uma forma de intervenção
[00:31:47] Na realidade
[00:31:49] Uma forma de se engajar de maneira transformadora
[00:31:51] Com a realidade
[00:31:53] Então ele acha que essa teoria
[00:31:55] Que serve apenas para pairar em cima da realidade
[00:31:57] Contemplar passivamente a realidade
[00:31:59] Não serve para nada
[00:32:01] Então ele obedece enquanto ativista
[00:32:03] Essa injução espinozista-nittiana-marxista
[00:32:07] De que não vale de nada
[00:32:09] Apenas interpretar
[00:32:11] De várias maneiras
[00:32:13] Você tem que se engajar de maneira prática
[00:32:15] Com um horizonte de transformação
[00:32:17] E que exigem apostas
[00:32:19] Isso é um nível de contingência
[00:32:21] Da atividade política
[00:32:23] Que eu pessoalmente
[00:32:25] Acho que é
[00:32:27] Intransponível
[00:32:29] Você não tem como escapar disso
[00:32:31] E até o marxismo demorou
[00:32:33] Para entender isso
[00:32:35] Porque o marxismo achou em algum momento
[00:32:37] Que produzir uma teoria
[00:32:39] Como materialismo histórico
[00:32:41] Ele daria um mapa
[00:32:43] Em que você saberia exatamente
[00:32:45] O caminho da intervenção
[00:32:47] Que você poderia a priori
[00:32:49] Definir teoricamente
[00:32:51] O que vai dar certo ou não
[00:32:53] E eu acho que hoje a gente escapou desse tipo de ilusão
[00:32:55] Ninguém sabe o que fazer a priori
[00:32:57] A política é uma atividade experimental
[00:32:59] E isso quer dizer
[00:33:01] Que você tem que apostar em coisas
[00:33:03] E o legal do Fischer
[00:33:05] É que ele apostava
[00:33:07] E as vezes algumas coisas que ele apostava dava errado
[00:33:09] E ele pagava o preço por essa aposta
[00:33:11] Mas aí você quer ser um militante
[00:33:13] É um negócio
[00:33:15] É muito interessante que ele tenha se engajado
[00:33:17] Politicamente
[00:33:19] E ele tenha feito o que ele fez
[00:33:21] No sentido político e de busca
[00:33:23] Porque ele vem de um
[00:33:25] Espaço onde o cinismo
[00:33:27] Impera
[00:33:29] As pessoas são cínicas
[00:33:31] Na academia
[00:33:33] No jornalismo
[00:33:35] O jornalista adora isso
[00:33:37] Não, eu sou uma pessoa neutra
[00:33:39] Eu tenho que reportar os fatos
[00:33:41] E aí você não tem uma atividade política mais
[00:33:43] Isso o Fischer foi muito importante para mim
[00:33:45] Você não tem uma atividade política
[00:33:47] Mais incisiva
[00:33:49] Só porque você é jornalista
[00:33:51] Eu acho que é um absurdo isso
[00:33:53] E acho que o Fischer para mim por exemplo
[00:33:55] Para mim também funcionou
[00:33:57] Nesse ponto de vista
[00:33:59] Tipo, não, você é um jornalista
[00:34:01] Mas você pode militar, ser ativista
[00:34:03] Ter causas
[00:34:05] Lutar por coisas
[00:34:07] Para além de, tipo, estou aqui contando
[00:34:09] O que está acontecendo no mundo
[00:34:11] E a quebra dessa barreira
[00:34:13] Desse cinismo
[00:34:15] Desse sarcasmo
[00:34:17] Ah não, isso aí também
[00:34:19] Esquerda e direita é tudo horrível
[00:34:21] Ela exige que você
[00:34:23] Se coloque em risco
[00:34:25] É muito fácil você estar
[00:34:27] Em uma posição mais cínica
[00:34:29] De interpretador do mundo
[00:34:31] Professor de tudo
[00:34:33] Se você não vai
[00:34:35] Não, minha aposta é essa
[00:34:37] Isso aqui vai dar certo desse jeito
[00:34:39] Óbvio que isso não quer dizer
[00:34:41] Que você tem que abandonar a posição crítica
[00:34:43] Pelo contrário
[00:34:45] Você tem que ser a pessoa que tem que trazer a crítica
[00:34:47] Para o ambiente
[00:34:49] Para o ambiente material
[00:34:51] Mas isso não quer dizer
[00:34:53] Que você tem que se eximir completamente
[00:34:55] Porque é isso
[00:34:57] É muito simples
[00:34:59] Muito fácil você entrar lá
[00:35:01] Hoje eu nem uso mais Twitter
[00:35:03] Mas você entrar lá no Twitter e escrever uma medusa de coisas
[00:35:05] Olha só meus hot takes
[00:35:07] Olha meu textão aqui no Facebook
[00:35:09] Como era antigamente
[00:35:11] E aí, para onde você vai a partir disso
[00:35:13] Então assim
[00:35:15] Acho que para muita gente isso pode ter feito diferença
[00:35:17] Para mim eu sei que fez também
[00:35:19] E eu também reencontrei o Fischer
[00:35:21] É muito interessante assim
[00:35:23] Que me parece que
[00:35:25] Vamos descobrir agora ao longo
[00:35:27] Dessas conversas que a gente vai ter
[00:35:29] Como são essas falhas do Fischer
[00:35:31] Porque eu acho que outras pessoas me parecem
[00:35:33] Também ter essa relação
[00:35:35] Ah, eu li o Fischer, conhecia e tal
[00:35:37] Mas quando a gente foi chegando
[00:35:39] Na nossa crise de 2015
[00:35:41] O impeachment da Dilma
[00:35:43] Ele ficou inevitável aqui no Brasil
[00:35:45] E essa crise obviamente não acontece só no Brasil
[00:35:47] Que é a crise que vai dar no Trump
[00:35:49] É a crise que vai dar no Brexit
[00:35:51] É diferente
[00:35:53] Todas elas se entrelaçam
[00:35:55] Assim, olha
[00:35:57] Eu sou uma pessoa que sempre
[00:35:59] Fiquei de olho na extrema direita
[00:36:01] Sempre
[00:36:03] Um lance de ser punk
[00:36:05] Aí você conhece um monte de nazista
[00:36:07] Porque tem skinhead
[00:36:09] Aí você tem que ficar preocupado de não apanhar
[00:36:11] Essas fitas em geral
[00:36:13] Eu não sou uma pessoa de brigar na rua
[00:36:15] Nada contra, mas não é meu tipo
[00:36:17] Mas você tem que se preocupar
[00:36:19] Você tem que entender de onde está vindo
[00:36:21] E eu não esperava
[00:36:23] Que a extrema direita
[00:36:25] Fosse conseguir se articular tão bem
[00:36:27] No nível global
[00:36:29] Ao ponto de eleger o Trump em 2016
[00:36:31] Eu achava que era possível
[00:36:33] Eu achava que ia matar ele
[00:36:35] Se ele fosse eleito
[00:36:37] E ele está aí até agora
[00:36:39] No novo mandato
[00:36:41] E agora a extrema direita
[00:36:43] É uma coisa que está sendo debatida, lida
[00:36:45] Todo mundo agora conhece
[00:36:47] Não, eu sei
[00:36:49] Somente a extrema direita
[00:36:51] Quem olha
[00:36:53] Quem monitora
[00:36:55] Isso
[00:36:57] Eu duvido que alguém imaginava
[00:36:59] Que esses caras vão conquistar o poder
[00:37:01] Através do voto
[00:37:03] Nessa mania muito louca de redes sociais
[00:37:05] Eu acho que as pessoas tinham
[00:37:07] Diferentes perspectivas
[00:37:09] Quando elas se juntam
[00:37:11] A gente consegue perceber isso
[00:37:13] Mas eu lembro que 2016
[00:37:15] Foi quase chocante
[00:37:17] Essa
[00:37:19] Agora eu queria aproveitar aqui as perguntas da plateia, a interação, e o Denilson, que também é do Ceará, Vitor, ele falou…
[00:37:29] A maravilha, um conterrâneo cearense.
[00:37:31] Exatamente, ele está lá no canal da Autonomia e ele perguntou, ele veio aqui falar que o Fischer é tipo intelectual orgânico, como o Granch cita.
[00:37:40] O que você acha que tem de Granch em Fischer e de Fischer em Granch? Você acha que existe um diálogo entre eles? Possível ou impossível?
[00:37:47] Esse diálogo é um diálogo que estava sendo travado pelo último Fischer, o Fischer pós-realismo capitalista, que adota essa postura de intelectual orgânico também,
[00:37:58] porque agora ele é conhecido pelo livro, ele é chamado muito a participar de conferências, mas também de discussões internas de grupos de militantes,
[00:38:06] de gente que está preocupada com estratégia política.
[00:38:11] E eu tendo a achar, na verdade, que nessa fase aí, problemas com realidades…
[00:38:17] Em relação à hegemonia, que são problemas que também o Laclau e a Chantal Mouffe estão trabalhando, passam a ser muito importantes para o Fischer.
[00:38:27] E acho que ele tem uma influência que é…
[00:38:31] É engraçado também que em alguns momentos você vê o Fischer dialogando com coisas que na juventude ele rejeitava.
[00:38:40] Então, o último Fischer, por exemplo, do comunismo ácido, holizético, vai fazer um debate com os filhos.
[00:38:47] Tipes com a contracultura da década de 60, que o Fischer da década de 90, punk, desprezava.
[00:38:55] Como uns maconheiros sujos.
[00:38:57] Tem postagem do Fischer falando mal de maconha e tudo.
[00:39:01] Ele gostava mais de, sei lá, de speed, vitamina, coisa assim.
[00:39:07] O Fischer parece muito mais um abstemio que gosta dos estados altos de consciência em tese do que um usuário como o Nick Land.
[00:39:16] Como o Nick Land, é.
[00:39:18] Então, e uma coisa que eu acho que ele revisita também, de uma maneira produtiva, é a relação com os estudos culturais.
[00:39:26] De certa maneira, a CCRU é criada, acho que talvez seja bom a gente entrar nisso,
[00:39:32] a unidade de pesquisa em cultura cibernética na qual o Fischer é formado.
[00:39:37] O pensamento dele, o fundacional do pensamento dele está nessa época da década de 90.
[00:39:42] Ele não nega isso, ele reconhece toda a influência que o Nick Land,
[00:39:46] apesar de ter se tornado essa figura, digamos assim, torpe, viu, até?
[00:39:53] O Fischer nunca criou uma linha de ruptura, dizendo, ah, eu não considero, mas ele sempre foi…
[00:40:00] Como eu costumava dizer, o Nick Land é o nosso Nietzsche, a mesma mistura do reacionário com o futurista.
[00:40:10] Eu acho que o Nick Land, de fato, é o Júlio Zévola da…
[00:40:14] Da…
[00:40:16] Da cibernética.
[00:40:18] E queria até já deixar a dica, para quem não ouviu, o Vitor participou do Vira Casacas,
[00:40:22] um dos podcasts amigos aqui do Crise, um dos grandes podcasts brasileiros de política,
[00:40:28] falando sobre o Nick Land, os aceleracionistas contemporâneos, como está a extrema direita no mundo hoje,
[00:40:33] o que é esse governo Trump, e lá está, assim, está bem explicado.
[00:40:37] A galera ficou falando, eu achei muito engraçado, porque eu falei, pô, cacete, mano, eu sou muito online, mano,
[00:40:42] eu conheço todos os nomes que o Vitor está falando, e a galera falando…
[00:40:46] A gente não pensou em nenhum.
[00:40:48] Não, galera, assim, eu estava com um caderninho, tipo, puta que pariu, mano, eu conheço cada um desses desgraçados, mano,
[00:40:53] é bem, sabe, eu ouvi falar do Mike Anderson, vem aquela cabeça de ovo na mente…
[00:40:57] A cabeça de ovo.
[00:40:58] Filha da mãe.
[00:41:00] Mas, bem, é…
[00:41:02] Não, mas vamos lá, retomar.
[00:41:04] Que é nóis, vamos lá.
[00:41:05] Só recomendar o podcast, porque aí a gente vai voltar a falar desse assunto especificamente, vamos lá.
[00:41:10] Posso até fazer um parênteses sobre isso, porque eu estou quase na situação de me ver obrigado a escrever um breve ensaio,
[00:41:15] talvez que vire um livretinho e tal, até porque eu escutei muitas entrevistas do Peter Phil e do Mike Anderson e do David Sacks
[00:41:24] para fazer aquele podcast, mais do que seria saudável para um ser humano, tá?
[00:41:30] Então, eu tenho que usar isso para dar alguma utilidade a esse sofrimento que eu me autoimpus.
[00:41:36] Então, talvez eu escreva um ensaio que a gente publique na forma de um livreto.
[00:41:41] Se eu conseguir me organizar para isso nas próximas semanas, vou fazer.
[00:41:44] Mas, realmente, recordar…
[00:41:45] Recomendo que deem uma olhada no episódio do Vira-Casaca, sobre o iluminismo sombrio,
[00:41:51] que mostra a influência hoje que o Nick Land tem, né?
[00:41:54] Que é uma coisa, assim, assustadora.
[00:41:56] Esses caras do Vale do Silício estão lendo o Nick Land.
[00:41:59] O Peter Phil lê Nick Land.
[00:42:01] O Mike Anderson diz que o Nick Land é o filósofo mais importante da nossa época.
[00:42:05] Mas eu quero ver que vagabundo lê o Fang No Man, né?
[00:42:08] Porque esses caras, eles não vão ler Machinic Desire, Meltdown, esses textos mais…
[00:42:13] Ou Cyber Gothic.
[00:42:15] Eles vão ler o…
[00:42:17] Porque, assim, me perdoa, Vitor, agora a gente pode falar que estão entre amigos.
[00:42:23] Decaiu muito a qualidade do texto do Nick Land.
[00:42:26] É meio inacreditável, assim.
[00:42:27] Esses dias eu estava comentando…
[00:42:28] Não, no Twitter ele está retardado, total.
[00:42:30] No Blue Sky…
[00:42:31] Esse é o Nick Land mesmo?
[00:42:33] Porque ele não está conseguindo nem pensar direito, mas…
[00:42:36] Eu comentei isso no Blue Sky e o Peter Phil me falou
[00:42:37] que ele parece um paleoconservador médio, assim.
[00:42:42] Eu vou ver um Olavo de Carvalho, assim.
[00:42:44] Exatamente.
[00:42:44] Está na parada…
[00:42:45] É, o cara virou mais um comunicador de extrema-direita
[00:42:50] que fala todas as besteiras de sempre para todo mundo
[00:42:53] e pega esse bagulho do aceleracionismo para ele
[00:42:56] e fica falando, não, eu entendo o aceleracionismo, porque eu inventei esse negócio.
[00:42:59] Mas, em termos de…
[00:43:01] Assim, não sei se você teve o desprazer de ler,
[00:43:03] eu fui tentar ler o Dark Enlightenment
[00:43:06] e, basicamente, é um texto jornalístico, quase, assim.
[00:43:09] Um ensaiozão, assim, que explica
[00:43:11] esse aqui é o Mitchell’s Moldbug, leiam ele e tal.
[00:43:14] E é muito interessante,
[00:43:15] porque…
[00:43:16] É um comentador do Mitchell’s Moldbug.
[00:43:18] Exato!
[00:43:19] É absurdo isso!
[00:43:20] Um cara burro que não é o Mitchell’s Moldbug
[00:43:21] ter um comentador desse nível, desse tipo, que é o Nick Landy…
[00:43:24] Tem um comentário que eu fiz no Vira-Casaco,
[00:43:26] que eu falei, ah, esse cara aqui acho que não vale nem a pena comentar
[00:43:28] porque não tem nada de interessante aqui.
[00:43:30] Mas o Nick Landy não é um sujeito burro, né?
[00:43:33] Não, então…
[00:43:34] E até o comentário que ele faz do Mitchell’s Moldbug
[00:43:36] é muito melhor do que o próprio Curt Arvin.
[00:43:40] Exato.
[00:43:40] Ele virou, talvez, a principal referência do Neo-Reaction na internet,
[00:43:45] acho que virou o príncipe da Neo-Reação,
[00:43:47] porque, de fato, era o cara mais inteligente no…
[00:43:50] Lógico, mas ele é o Olavo de Carvalho mesmo.
[00:43:52] Postos gigantescos, repetidos, qualquer coisa,
[00:43:56] não existe estrutura nenhuma do pensamento, é chutado e tal.
[00:44:00] Um livro que eu recomendo muito pra quem quiser conhecer
[00:44:03] é o pensamento do Mitchell’s Moldbug, que tira um sarro muito bom, inclusive,
[00:44:07] e explica como a gente chegou nesse ponto.
[00:44:11] É um livro de 2016, nem é novo,
[00:44:14] de uma autora tão…
[00:44:15] Uma autora trans, ela tem a edição com o nome morto dela também,
[00:44:19] mas vocês talvez consigam comprar aí, pirar, ou baixar, pirar, sei lá.
[00:44:24] Chama Neo-Reaction a Basilisk, que é sobre o…
[00:44:28] É um pouco…
[00:44:29] São seis ensaios sobre alt-right, o texto original é.
[00:44:33] Tem o ensaio sobre Nick Land, tem o ensaio sobre Mitchell’s Moldbug,
[00:44:36] e ela fala muito também do Eugene…
[00:44:40] Não é Morozov, como é que é o nome dele?
[00:44:42] Que é o cara que…
[00:44:43] Yardukov, alguma coisa assim.
[00:44:45] Que é o cara cujo…
[00:44:46] Da inteligência artificial também, né?
[00:44:48] Isso, que é o cara cujo blog vai dar nessa galera de inteligência artificial completamente maluca
[00:44:55] que acredita no tal do basilisco de Rótico,
[00:44:58] que é uma ideia completamente bizarra, que pra começar você tem que ter uma inteligência artificial,
[00:45:03] tem que chegar a tal da singularidade.
[00:45:04] A gente ainda não tem, não deve chegar com os LLMs,
[00:45:07] assim, eu acho isso completamente bizarro,
[00:45:09] porque a arquitetura do pensamento humano não vai chegar…
[00:45:13] Não chega perto pelas LLMs e não vai chegar.
[00:45:16] Eu sei que a galera tá vendo as transformações pelas LLMs e acredita que vai dar certo,
[00:45:22] mas claramente não vai.
[00:45:24] E aí você tem que acreditar que um dia vai ter inteligência artificial
[00:45:27] que pode criar um construto mental de você mesmo que vai te aprisionar
[00:45:31] se você não ajudar a inteligência artificial a seguir e se dar bem.
[00:45:36] E isso faz parte da ideologia atual do Vale do Silício,
[00:45:41] que tem a ver com essa situação atual do mundo que tá.
[00:45:44] E esse livro é muito bom porque ela destrói,
[00:45:47] a Elizabeth Sandford destrói o Mansions Board,
[00:45:50] ela chama ele de burro pra baixo,
[00:45:52] e é muito divertido, muito engraçado como ela vai,
[00:45:55] e ela tem todo um respeito pelo Land, quando ela vai falar do Land,
[00:45:58] ela fala que o Nick Land é um cara super inteligente,
[00:46:01] é foda eu estar respondendo ele porque eu acho que ele tem coisas e tudo mais,
[00:46:07] e o pior, naquela época o Nick Land não tinha derretido tanto,
[00:46:10] Ainda tinha.
[00:46:11] Ainda tinha várias coisas aí que ele tava pensando,
[00:46:14] foi antes da publicação, acredito, inclusive do Dark Enlightenment.
[00:46:17] Mas é um livro muito bom que eu recomendo muito a todo mundo,
[00:46:20] queria traduzir, mas vai ser difícil e tudo mais,
[00:46:23] até porque ele é um pouco antigo,
[00:46:25] mas explica bem a situação e como as coisas andam.
[00:46:29] Mas bem, vamos voltar…
[00:46:30] Vamos retomar o fio da merda, porque eu tinha mais uma coisa pra falar sobre isso.
[00:46:33] Primeiro, só deixar claro que eu acho o Nick Land uma figura maligna,
[00:46:38] e eu considero ele um adversário político,
[00:46:40] não mais que um adversário, um inimigo mesmo,
[00:46:42] e acho que sempre foi, tá certo?
[00:46:45] O Nick Land sempre foi um propagandista do Capital,
[00:46:50] um propagandista marxista do Capital,
[00:46:52] porque eu acho que no final das contas já defendi isso em outros momentos,
[00:46:55] o que ele tem é uma leitura do Marx,
[00:46:59] uma leitura que eles mesmos chamam de gótica,
[00:47:01] eles têm uma leitura gótica do Capital.
[00:47:03] Quer dizer, aquilo que o Marx via como alienação,
[00:47:06] até como elemento ideológico que encobria a realidade,
[00:47:09] o sujeito automático.
[00:47:11] O sujeito automático é um termo tipicamente do desejo maquínico landiano, digamos assim.
[00:47:17] Então, para eles, para o Land, o Capital é o grande sujeito da modernidade.
[00:47:23] E o Capital é o que vai gerar a inteligência artificial,
[00:47:26] que de alguma forma é o Telos da história humana.
[00:47:30] E essa inteligência artificial é esse atrator estranho
[00:47:34] que está jogando seus tentáculos no passado
[00:47:38] para direcionar toda a história humana
[00:47:41] nesse processo de colapso, liquefação pós-humana, inumana.
[00:47:46] Eu acho que ele sempre foi um inimigo.
[00:47:50] Mas ele tem uma capacidade libidinal impressionante.
[00:47:55] Ele é um sujeito sedutor, não sei se hoje ainda.
[00:47:58] Mas você pega as pessoas que entraram em contato com o Nick Land na década de 90,
[00:48:03] você dá para sentir o efeito do carisma magnético que ele exerceu,
[00:48:08] nessas pessoas.
[00:48:10] No Codwin Ashon, no Mark Fisher, em todo o pessoal do CCRU,
[00:48:16] inclusive no Hamilton Grant, no Ray Brassier.
[00:48:20] A gente entrava na sala com o Nick Land e a gente se sentia energizado.
[00:48:25] O pensamento ganhava uma outra relevância.
[00:48:28] Era alguém que levava muito a sério o que estava fazendo,
[00:48:32] inclusive a nível da sua própria destruição física do seu corpo.
[00:48:37] Ele passava dias pirando no escritório dele em Warwick,
[00:48:43] fazendo todo tipo de experiência química com o próprio cérebro.
[00:48:47] Mas ele era um sujeito que dava a entender que era para valer.
[00:48:52] Mas justamente a ideia do CCRU era se contrapor
[00:48:55] ao tipo de crítica cultural que era feito em Birmingham,
[00:49:00] que é de onde saiu a Sad Plant, que foi a orientadora do Fisher,
[00:49:05] e a tradição que era ligada…
[00:49:09] Meu Deus, agora me deu um branco.
[00:49:12] Ligada ao Shush Hall,
[00:49:16] que era um intelectual marxista negro muito interessante,
[00:49:21] mas dessa tradição gramsciana, hegemônica,
[00:49:24] que estava fazendo a discussão…
[00:49:26] Os textos dele, no final da década de 70, começo da década de 80,
[00:49:30] são, para mim, magistrais.
[00:49:32] O livro The Hard Road to Renew é, para mim,
[00:49:35] uma estrutura obrigatória, inclusive para hoje,
[00:49:37] para entender melhor como foi a transição do Fordismo
[00:49:40] para o pós-Fordismo, do compacto social-democrata
[00:49:43] para o neoliberalismo e, portanto, para tentar ter mais pistas
[00:49:47] para entender a transição que estamos passando hoje.
[00:49:50] Isso pode ser um pouco polêmico também,
[00:49:53] mas acho que a era neoliberal, digamos assim,
[00:49:58] o compacto, a ordem da globalização neoliberal está ruindo.
[00:50:05] Tem toda uma discussão na esquerda se o neoliberalismo está em crise ou não.
[00:50:08] Isso vai depender do que se considera como neoliberalismo,
[00:50:11] qual é a sua definição de neoliberalismo.
[00:50:13] Mas acho que, como uma era, se a gente fizer uma…
[00:50:16] ter uma interpretação do neoliberalismo como uma fase do capitalismo,
[00:50:20] para mim é claramente a fase que começa a aparecer
[00:50:25] com a crise do Fordismo em 68,
[00:50:28] depois com a quebra do sistema de Bretton Woods,
[00:50:33] depois com a crise do petróleo em 73
[00:50:36] e começa a tomar forma em 79
[00:50:39] com as eleições do Reagan e da Margaret Thatcher,
[00:50:42] mais ou menos simultâneas,
[00:50:43] acho que com a diferença de menos de um ano entre um e outro,
[00:50:46] e depois que a esquerda institucional partidária entra também
[00:50:50] na forma do neoliberalismo progressista
[00:50:52] e todo mundo tem um acordo amplo de como gerir a economia
[00:50:55] nessas bases, uma economia globalizada
[00:50:59] e com fluxos desregulados de…
[00:51:03] capital financeiro,
[00:51:04] mas também a desregulação do próprio mundo do trabalho.
[00:51:07] Então isso foi um período histórico
[00:51:09] que eu acho que está em vias de morrer.
[00:51:12] A gente não sabe exatamente…
[00:51:14] Por isso que o Fischer,
[00:51:17] embora eu acho que ele não tenha usado essa frase,
[00:51:20] ele está dentro desse campo de autores
[00:51:22] que começaram a ler de novo o Gramsci,
[00:51:25] porque a gente ainda está falando de Gramsci,
[00:51:27] de intelectual orgânico,
[00:51:29] leu o novo Gramsci quando ele estava falando
[00:51:32] do fim de outra ordem, de outro compacto,
[00:51:35] que é o compacto liberal,
[00:51:37] que vai se estabelecer ali do final
[00:51:40] das guerras franco-prussianas da Comuna de Paris
[00:51:42] na década de 70 em diante,
[00:51:44] e até que entre em crise com a Primeira Guerra Mundial,
[00:51:48] depois com a Grande Depressão
[00:51:51] e vai dar origem para outra coisa.
[00:51:54] Então eu tenho a certeza que o capitalismo
[00:51:56] está sempre se reconfigurando, se reorganizando
[00:51:58] a partir da crise,
[00:52:00] a partir do tipo de…
[00:52:01] de luta anticapitalista que se forma
[00:52:05] e das ideias que estão circulando.
[00:52:07] Acho que esses são os três elementos,
[00:52:09] são os agentes políticos,
[00:52:11] as condições técnicas do capital
[00:52:16] em uma determinada época
[00:52:18] e as ideias, o ambiente intelectual que está…
[00:52:21] Então o Fischer estava prestando atenção nisso,
[00:52:24] ele estava lendo também, de alguma maneira,
[00:52:26] esse Gramsci da década de 20,
[00:52:29] começo da década de 30,
[00:52:31] e estava vendo como Schutthold
[00:52:33] tinha lido esse Gramsci ali no final da década de 70,
[00:52:36] década de 80,
[00:52:38] e ele está elaborando uma teoria do interregno.
[00:52:42] Você vê os últimos posts dele,
[00:52:45] são muitos que falam, ó, alguma coisa quebrou,
[00:52:48] acabou o consenso,
[00:52:50] agora nós estamos em terra incógnita,
[00:52:52] não sabe se vai para lá ou para cá e tal.
[00:52:54] Teve até alguém que mencionou aqui no…
[00:52:58] Estou vendo os comentários do lado, né?
[00:53:01] Que é muito impressionante a importância
[00:53:03] que o Fischer de um lado e o Nicky Land do outro
[00:53:05] acabaram adquirindo na meta política contemporânea, de fato.
[00:53:09] Você vê a influência que o pensamento do Fischer teve
[00:53:14] na tentativa de refazer o Partido Trabalhista na Inglaterra,
[00:53:19] no próprio movimento dos Sanders nos Estados Unidos,
[00:53:22] na Jacobina,
[00:53:23] o pessoal do Podemos, em algum momento, lendo o Fischer,
[00:53:26] até aqui o cara do Chile,
[00:53:29] que também depois deu uma escorregada,
[00:53:30] braba, mas era um leitor do Fischer.
[00:53:33] Ou seja, essas pessoas que estavam no movimento de rua,
[00:53:36] no movimento contra a austeridade,
[00:53:38] nas grandes insurgências que aconteceram aí
[00:53:41] na primeira metade da década passada
[00:53:44] e que tentaram produzir uma nova articulação hegemônica
[00:53:48] a partir dessa crise de representatividade.
[00:53:52] E o Fischer era o grande intelectual disso,
[00:53:56] era o cara que melhor nos ajudava a entender
[00:53:58] a dinâmica da temporalidade contemporânea,
[00:54:00] os riscos e os perigos dessa terra incógnita,
[00:54:04] desse interregno,
[00:54:05] mas também as oportunidades, as possibilidades,
[00:54:08] o espaço de manobra que se abria para a gente
[00:54:11] para pensar fora da caixa,
[00:54:13] para trazer propostas diferentes,
[00:54:15] para reformular o nosso programa,
[00:54:17] para criar uma estratégia de articulação das lutas,
[00:54:20] incorporando a diversidade de processos de contestação,
[00:54:25] de indignação,
[00:54:27] e tentando construir uma nova maioria social a partir dele.
[00:54:30] Claro que quando a gente vê hoje
[00:54:33] o cenário em que, sei lá, o Fischer
[00:54:38] está morto, literalmente, acabou se matando,
[00:54:43] e as apostas dele perderam,
[00:54:47] as minhas apostas, aqui eu estou falando
[00:54:49] numa posição muito pessoal,
[00:54:51] não que elas não possam ser revitalizadas,
[00:54:54] a perda não produziu nada,
[00:54:57] eu acho que tem acúmulo de,
[00:54:59] seja organizativo, seja de formulação,
[00:55:02] para uma próxima rodada, que eu acho que vai vir,
[00:55:05] então nós temos que estar preparados até para
[00:55:09] transmitir o que nós aprendemos dessa rodada
[00:55:12] para a próxima geração aí
[00:55:15] que vai assumir também as próximas batalhas,
[00:55:17] eu acredito muito nisso.
[00:55:19] Mas, enfim, o Fischer perdeu,
[00:55:23] e o Nick Land está muito influente,
[00:55:26] eu falei, eu acho que o Peter Thiel lê o Nick Land,
[00:55:29] talvez seja o próximo presidente dos Estados Unidos
[00:55:32] que leia o Nick Land também,
[00:55:34] toda essa galera do Vale do Silício
[00:55:36] é muito influenciada hoje pelo Nick Land,
[00:55:38] o Marc Andreessen, pelo que eu entendi,
[00:55:40] ele tem cópias do Nick Land que ele distribui
[00:55:42] lá para os Crypto Bros do Vale do Silício,
[00:55:46] e ainda mais o Nick Land está influente e rico,
[00:55:49] porque ele comprava Bitcoin no começo de 2010,
[00:55:54] mais ou menos, então…
[00:55:56] É, não, e assim,
[00:55:58] rapidamente ainda para ficar no assunto Land,
[00:56:01] o Land voltou a publicar muita coisa,
[00:56:03] voltou a sair vários livros ali por uma editora dele,
[00:56:07] não sei aonde está baseado,
[00:56:09] é muito interessante porque ele se cercou desse mistério,
[00:56:12] então ele é um personagem meio opaco,
[00:56:16] a gente ainda não…
[00:56:18] imagino que ele esteja morando em Xangai ainda,
[00:56:20] mas eu não tenho certeza, de verdade.
[00:56:22] Nem eu, não sei.
[00:56:23] Eu não tenho certeza, a gente acredita,
[00:56:25] mas não dá para ter certeza, ele pode estar nos Estados Unidos,
[00:56:27] agora, ou na Inglaterra, vai saber.
[00:56:30] Talvez seja mais interessante para ele estar nos Estados Unidos.
[00:56:32] Exatamente.
[00:56:33] Aliás, seria perigoso para ele, de certa forma,
[00:56:35] estar na China, em algum aspecto,
[00:56:37] mas pelo que eu entendo, ele tem uma companheira
[00:56:39] que foi transferida para Xangai,
[00:56:41] foi dar aula em Xangai, e foi assim que ele foi parar,
[00:56:44] lá em Xangai.
[00:56:46] Aí, a partir de onde ele está,
[00:56:48] e aí ele vai se enamorar pela China,
[00:56:53] pela China contemporânea, né?
[00:56:55] Mas já na década de 90, né,
[00:56:56] ele publicava, tem aquele artigo que começa com
[00:56:58] No China, rise from the future,
[00:57:00] antes de ele ir para a China.
[00:57:02] Você vê como é um cara que tem um certo tino, né?
[00:57:05] Ele estava percebendo assim, ó,
[00:57:07] a coisa está indo para lá, para o Oriente.
[00:57:10] Sim, mas o grande lance para mim,
[00:57:12] dessa galera como um todo,
[00:57:13] é sacar que existe muita leitura,
[00:57:18] na cultura mesmo,
[00:57:19] tipo, todos esses bagulhos,
[00:57:21] tudo que o Landy fala, etc.
[00:57:24] Eu sempre falo assim,
[00:57:26] para algum amigo, assim,
[00:57:28] que pira mais nessa parte das relações,
[00:57:30] você já leu William Gibson?
[00:57:32] Você já leu Neil Stephenson?
[00:57:34] Você já leu Os Invisíveis, do Grant Morrison?
[00:57:36] Tudo isso estava, de certa forma,
[00:57:38] prefigurado dentro desses outros lugares.
[00:57:41] Por exemplo, essa ascensão da China e da Ásia como um todo,
[00:57:44] obviamente, já vem desde a ideia dos anos 80,
[00:57:47] do Japão hiper tecnológico,
[00:57:50] e a China ganhando, né?
[00:57:52] Você passa isso do Japão para a Coreia,
[00:57:54] e hoje a China é o grande…
[00:57:56] O foco tecnológico hoje na Ásia,
[00:57:59] quem está mais à frente de todo mundo é a China,
[00:58:02] mas aí a China também vai ganhar essa luta aí,
[00:58:05] não tem mais como nenhum dos vizinhos da China
[00:58:07] serem maiores que a China hoje em dia.
[00:58:09] Já perderam, esse bonde já passou.
[00:58:11] E o Nick Lange já sacava isso nos anos 90,
[00:58:15] porque meio que o mundo virou um romance cyberpunk.
[00:58:19] É o que eu tenho falado.
[00:58:21] Está sendo horrível, assim, em 2025.
[00:58:24] E até então você falava assim,
[00:58:25] ah, parece cyberpunk,
[00:58:26] a gente está vivendo talvez uma novela cyberpunk,
[00:58:28] daqui a pouco a gente vai estar vivendo…
[00:58:31] E agora, efetivamente, assim,
[00:58:33] depois da pandemia e da situação atual do mundo,
[00:58:36] eu acredito que a gente vive num romance cyberpunk 100%.
[00:58:43] Os caras estão falando de criar conceitos na vida real
[00:58:48] que eram de ficção científica.
[00:58:50] A ideia dos Network Cities que o Trump lançou,
[00:58:54] que ele não está discutindo muito ainda,
[00:58:56] mas faz parte, muita gente estudiosa da extrema-direita
[00:59:00] nos Estados Unidos está falando,
[00:59:01] olha, esse negócio é importante e tudo mais.
[00:59:04] Cara, é basicamente a mesma ideia dos Franchulados,
[00:59:07] Franchulates, que tinha em Snow Crash,
[00:59:10] que é de 92, eu acho, o livro, saca?
[00:59:15] Então, eu vejo muito isso como o Nick Lange escreve.
[00:59:18] O Nick Lange está lá pirando o William Gibson,
[00:59:21] o cibergótico.
[00:59:24] Aquele texto cibergótico é basicamente a leitura que ele faz
[00:59:27] da trilogia da ponte, trilogia do Sprawl,
[00:59:31] que é a trilogia inicial dos romances de cyberpunk do William Gibson.
[00:59:37] A trilogia da ponte é a segunda, mas a trilogia do Sprawl é a primeira.
[00:59:41] Neuromancer, Count Zero e Monolith Overdrive.
[00:59:44] E eu falo para todo mundo, cara, vocês precisam ler essas coisas.
[00:59:47] Vocês precisam ouvir a música que o Mark Fisher pirava nos anos 90.
[00:59:50] Vocês precisam entender que esses caras estavam olhando para o futuro,
[00:59:53] e não era porque…
[00:59:55] E aí, eles eram antenas.
[00:59:59] Eles perceberam isso, parece que eles prefiguravam,
[01:00:02] mas eles só estavam falando assim,
[01:00:03] não, cara, mas está escrito aqui um livro de ficção científica.
[01:00:06] Ficção científica sempre é certa.
[01:00:08] Mas…
[01:00:10] Isso eu acho que é interessante a maioria da gente falar,
[01:00:12] porque também esse pessoal do Vale do Silício que começou a ler o Nick Lange,
[01:00:16] quem quiser saber mais disso, a gente remete ao episódio do Vira-Casacas.
[01:00:20] São…
[01:00:22] E às vezes eles mesmo se chamam de Dark Maga, né?
[01:00:25] O Elon Musk reivindicou, por exemplo, essa identidade.
[01:00:31] Eles são uns nerdões, né?
[01:00:34] Então eles estão muito ligados na ficção científica,
[01:00:37] inclusive nessa ideia, que é também uma ideia cara ao CCRU,
[01:00:42] de que a ficção científica não é que ela prevê o futuro,
[01:00:46] é que ela produz o futuro.
[01:00:48] A ficção científica tem um elemento hiperticional forte.
[01:00:51] Ela é uma ficção que se torna realidade,
[01:00:54] que contamina a realidade,
[01:00:56] que se espalha, que propaga,
[01:00:58] que atualiza certas virtualidades.
[01:01:04] Essa noção, e eu acho também que…
[01:01:07] Até eu tinha mencionado essa coisa dos Crypto Bros e do Bitcoin,
[01:01:11] porque eu acho também que o Bitcoin tem um efeito hiperticional muito forte, cara.
[01:01:15] A ideia quase messiânica, apocalíptica de uma hiperbitcoinização,
[01:01:21] ela forma esse atrator, tá certo?
[01:01:24] Que leva mais pessoas a entrarem.
[01:01:26] Quanto mais pessoas acreditam, mais o negócio cresce
[01:01:29] e vira essa estrutura de profecia autorrealizável.
[01:01:31] Claro que às vezes a magia acaba, né?
[01:01:34] Alguns profecias autorrealizáveis, elas se desfazem.
[01:01:37] O circuito hiperticional pode, em algum momento, se dissolver.
[01:01:42] Mas enquanto ele está atuante,
[01:01:44] o circuito hiperticional, essa relação da ficção com a realidade,
[01:01:49] uma realidade que tende a uma ficção,
[01:01:51] e na medida que a realidade tende a ficção,
[01:01:53] a ficção vai ficando cada vez mais real e mais eficaz.
[01:01:56] Cara, não existe exemplo melhor, na minha humilde opinião,
[01:01:59] a respeito de como funciona uma hipertensão
[01:02:02] e como ela pode significar, do que o Bitcoin,
[01:02:07] mas no caso mais específico, da moeda em si.
[01:02:10] A ideia da moeda no capital, ela se transforma em outra coisa.
[01:02:13] A desmoeda era uma coisa de troca e ela vira capital no capitalismo.
[01:02:16] Porém, no fim das contas,
[01:02:18] ao fugir dos ovos, uma coisa que eu aprendi quando era muito jovem,
[01:02:22] mas é muito interessante quando você aprende,
[01:02:24] você fala, caralho, é isso mesmo?
[01:02:26] Porque a moeda, na verdade, ela é uma entidade absolutamente ficcional.
[01:02:30] Apesar de ancorada na realidade, na produtividade,
[01:02:34] na produção da economia de certo país,
[01:02:36] ela depende da crença das pessoas nela.
[01:02:39] A questão atual, por exemplo, que a gente fica debatendo aí,
[01:02:42] quando o dólar vai cair, quando o dólar vai cair,
[01:02:44] isso aí é só porque as pessoas acreditam.
[01:02:46] O dólar só existe desse jeito porque as pessoas acreditam.
[01:02:48] E os Estados Unidos continua sendo a maior economia que funciona.
[01:02:51] Eu queria fazer só um parênteses que eu acho que é importante,
[01:02:53] porque tem toda uma discussão teórica no campo da CCRU
[01:02:58] sobre o papel da crença no hype.
[01:03:03] Porque, na verdade, o que eles falam é assim,
[01:03:05] você não precisa acreditar mesmo.
[01:03:07] Você só precisa agir como você acreditar.
[01:03:09] Você precisa só acreditar que as pessoas acreditam.
[01:03:12] Então, por exemplo, o sujeito não precisa,
[01:03:15] para um fundo de pensão comprar Bitcoin, não precisa.
[01:03:17] Não precisa acreditar que o Bitcoin é uma coisa sólida.
[01:03:21] Ele precisa só acreditar que as pessoas vão acreditar,
[01:03:23] que ele vai aumentar ainda.
[01:03:26] Sem escrever a superstição no grande outro.
[01:03:29] O grande outro que o Fischer fala do realismo capitalista,
[01:03:32] que é quem cai em todas as mentiras.
[01:03:36] É para quem se fala, é para quem o PR fala.
[01:03:39] O que eu também gostaria, talvez, assim,
[01:03:42] eu não gostaria de terminar essa nossa discussão
[01:03:44] sem falar sobre isso.
[01:03:47] Eu, a minha avaliação,
[01:03:49] acho que todo mundo tem uma entrada no Fischer, né?
[01:03:51] E todo mundo tem uma,
[01:03:53] algum elemento do Fischer também que fala assim,
[01:03:55] isso aqui é o que eu acho que é central para o Fischer, tá?
[01:03:58] E eu tenho uma tese interpretativa, digamos assim,
[01:04:02] agora eu colocando meu bonezinho de especialista em Fischer.
[01:04:05] Eu acho que eu li tudo que o Fischer publicou,
[01:04:07] eu sou talvez um dos maiores especialistas.
[01:04:09] Tem um antônio Galvão, né?
[01:04:11] Mentira, mentira.
[01:04:12] Eu duvido que você tenha lido todas as resenhas que ele escreveu na Wired.
[01:04:14] Não, é verdade.
[01:04:15] E, vez por outra, aparece um texto,
[01:04:16] que eu nunca tinha encontrado o Fischer.
[01:04:18] Eu também, mano.
[01:04:19] Caramba, tinha esse texto,
[01:04:20] já que ele estava se escondendo e tal.
[01:04:22] É ridículo.
[01:04:23] Não, é porque você vai ler Fischer,
[01:04:24] tem que ler comentários de fora, um bicho.
[01:04:26] Pronto.
[01:04:27] Mas a minha tese interpretativa
[01:04:29] é que o conceito fundamental do Fischer
[01:04:33] é o conceito de perdição.
[01:04:35] Que é um conceito que não aparece explicitamente
[01:04:37] no realismo capitalista,
[01:04:38] mas que você pode lê-lo no realismo capitalista.
[01:04:43] Eu acho até que o…
[01:04:46] A ideia de perdição dentro do CCRU
[01:04:49] é mais tributária do Fischer do que do Lange.
[01:04:52] Tá?
[01:04:53] E…
[01:04:54] Claro que tem…
[01:04:56] A divergência fundamental entre eles
[01:04:58] é o que eles querem hiperticionar.
[01:05:00] Eu tenho uma contribuição a isso depois,
[01:05:02] mas, por favor.
[01:05:03] Então, quem tiver algum interesse sobre isso,
[01:05:06] é uma interdição teórica um pouco pesada,
[01:05:08] não sei se dá pra gente chegar num nível
[01:05:10] de refinamento que seria necessário aqui
[01:05:14] num papo mais irreverente como esse.
[01:05:16] Mas eu escrevi um texto que eu acho que é interessante, tá?
[01:05:19] Esse texto meu eu recomendo.
[01:05:21] Se bem que, como entrada no Fischer,
[01:05:23] tem um pós-fácil do realismo capitalista,
[01:05:25] que você compra o livro, baixa no meu Academia.edu,
[01:05:28] que o pós-fácil tá lá também disponível.
[01:05:30] Mas tem um outro texto que tá também online,
[01:05:33] tá aberto, que se chama
[01:05:34] Um Estudo em Práticas Hiperticionais
[01:05:36] Alças Estranhas, Guerras Temporais e Teoria Ficção.
[01:05:40] E guerras temporais tem a ver com
[01:05:43] o texto do CCRU sobre os…
[01:05:45] Os…
[01:05:46] Os Lêmures Fantasmas de Madagascar,
[01:05:49] que é uma releitura do Burroughs, né?
[01:05:53] E eu acho que esse texto é mais do Fischer,
[01:05:55] porque ele não tem aquela parada meio maluca
[01:05:57] de número e de construções meio abstratas
[01:06:01] que o Nick Lef faz.
[01:06:02] É um texto bem narrativo,
[01:06:04] e o Fischer é um cara…
[01:06:06] Narrativo, digamos assim.
[01:06:07] Ele é um cara da canção, digamos.
[01:06:09] Por incrível que pareça.
[01:06:12] Eu acho que ele escreve mais como uma canção
[01:06:14] do que como um jungle.
[01:06:15] É…
[01:06:18] E a ideia de guerras temporais é muito interessante.
[01:06:21] Eu discuto isso no artigo.
[01:06:24] Mas…
[01:06:25] O…
[01:06:27] O antepassado da ideia de hipertensão
[01:06:30] é uma coisa que tá presente na…
[01:06:32] Na tese de doutorado do Fischer.
[01:06:35] Também a gente pode recomendar isso.
[01:06:36] Uma hora vai ser traduzido pro português.
[01:06:38] Eu acho que tá na lista aí da autonomia.
[01:06:40] Que é o Flatline Constructs.
[01:06:41] Pra quem tá olhando aqui no vídeo,
[01:06:43] eu tô mostrando aqui o livro.
[01:06:44] Construtos da Linha Plana.
[01:06:47] Materialismo gótico e teoria ficção cibernética.
[01:06:51] E ele trabalha não com a ideia de hipertensão,
[01:06:54] mas com a ideia de hiperficção.
[01:06:56] Mas é basicamente a mesma coisa.
[01:06:57] É uma ficção que se torna eficaz na…
[01:06:59] Que contamina a realidade.
[01:07:01] E um dos maiores exemplos que ele dá sobre isso…
[01:07:04] Acho que ele termina o livro falando sobre Toy Story.
[01:07:06] Mas antes de falar sobre Toy Story,
[01:07:08] ele fala sobre In the Dark…
[01:07:12] Como é que é?
[01:07:13] In the Mouth of Darkness?
[01:07:15] Ou é o…
[01:07:17] É isso aí.
[01:07:18] O filme do Wes Craven, não é?
[01:07:20] In the Mouth of Darkness?
[01:07:21] Não, é do Carpenter.
[01:07:22] Do John Carpenter.
[01:07:23] In the Mouth of Darkness, do Brasil…
[01:07:25] Ah, vou achar esse nome aqui enquanto você explica um pouquinho.
[01:07:28] Esse…
[01:07:30] É um…
[01:07:31] Ó, seu telefone tá…
[01:07:32] Opa, meu microfone cortou.
[01:07:34] Esse filme é fenomenal.
[01:07:35] Esse filme é fenomenal.
[01:07:36] É muito estranho.
[01:07:37] Eu acho incrível.
[01:07:38] É bizarro.
[01:07:39] E é estranho, assim,
[01:07:40] um cara fazendo um doutorado em filosofia
[01:07:42] e um capítulo da tese dele
[01:07:46] é sobre um livro do…
[01:07:48] Um filme do Carpenter.
[01:07:49] É, cara do Fisher.
[01:07:50] É um filme.
[01:07:51] É uma ilustração do que é o processo hipertensional.
[01:07:54] Não sei se tem gente que tá nos acompanhando
[01:07:56] que já viu esse filme.
[01:07:57] Eu recomendo muito.
[01:07:58] Mas a ideia é que tem um…
[01:08:00] Um escritor de ficção científica
[01:08:03] que ele é meio Stephen King,
[01:08:06] meio Lovecraft.
[01:08:08] O texto dele é muito Lovecraftiano.
[01:08:10] Tem criaturas Lovecraftianas.
[01:08:11] O filme é Lovecraftiano.
[01:08:13] As temáticas Lovecraftianas estão ali.
[01:08:15] Mas ele é um cara já, ao contrário do Lovecraft,
[01:08:17] morre pobre e desconhecido,
[01:08:19] é um cara…
[01:08:20] Um grande best-seller,
[01:08:22] como o Stephen King.
[01:08:24] Só que aí o que acontece
[01:08:26] é que a ficção dele começa a contaminar o mundo.
[01:08:30] As pessoas vão lendo o livro dele
[01:08:32] à beira da loucura, exatamente.
[01:08:34] Vão lendo o livro dele,
[01:08:36] vão pirando,
[01:08:37] e à medida que as pessoas vão sendo contaminadas,
[01:08:40] apossadas por essa ficção,
[01:08:44] elas vão transformando o mundo.
[01:08:46] E ele fala que isso abre espaço
[01:08:48] para a entrada dos…
[01:08:50] The Old Ones.
[01:08:52] Os antigos.
[01:08:53] Que também é uma figura Lovecraftiana.
[01:08:56] São esses monstros extradimensionais.
[01:08:59] E no filme tem toda essa questão do autor falando
[01:09:03] que pensava que estava fazendo eles,
[01:09:06] mas eles que estavam me fazendo.
[01:09:08] Ou seja, ele mesmo entra num circuito,
[01:09:10] num cibernético,
[01:09:12] onde o espalhamento da ficção dele
[01:09:16] abre as portas
[01:09:18] para a transformação do nosso mundo.
[01:09:21] E essas criaturas do horror,
[01:09:25] além da compreensão humana,
[01:09:27] vão entrar na realidade.
[01:09:30] Por uma brecha que a ficção produziu.
[01:09:36] Eu acho que esse é o tema fundamental do Fisher.
[01:09:40] E, de alguma maneira,
[01:09:43] isso tem a ver com outra noção.
[01:09:45] O Nick Land, quando ele quer tirar onda do Fisher,
[01:09:49] ele vai falar assim,
[01:09:50] ah, o Fisher, na verdade,
[01:09:51] é uma interpretação esquerdista do Philip K. Dick.
[01:09:59] Uma reinterpretação gnóstica
[01:10:02] que eu acho que, de fato, tem muito a ver
[01:10:05] e já está, de alguma maneira, ali no…
[01:10:08] nos próprios situacionistas,
[01:10:11] depois no Baudrillard e tal.
[01:10:13] Mas tem uma coisa muito importante do Philip K. Dick,
[01:10:18] é essa ideia de um sistema de realidade.
[01:10:23] Então, tem um sistema de realidade
[01:10:25] que, quando começa o livro ou o conto,
[01:10:27] ele é relativamente sólido, é estável.
[01:10:31] E ele é reproduzido,
[01:10:33] como o capital se reproduz.
[01:10:35] E as relações capitalistas se reproduzem
[01:10:37] pelo efeito do capital na vida normal.
[01:10:39] Está certo?
[01:10:40] Mas ele é uma ficção.
[01:10:42] Ele é uma ficção que se espalhou tanto,
[01:10:46] que todo mundo atuou de acordo com essa ficção,
[01:10:49] que ele ganhou uma solidez de uma realidade.
[01:10:53] E você tem um pessoal que está fazendo guerra temporal
[01:10:57] que é tentando trazer à tona futuros
[01:11:00] que estão virtualmente presentes,
[01:11:02] mas não se atualizaram
[01:11:04] e que, de alguma forma, concorrem com o sistema de realidade.
[01:11:06] E claro que o grande momento da crise,
[01:11:11] e eu acho que essa não é apenas a crise simbólica
[01:11:14] que aparece na ficção,
[01:11:16] mas é a crise política,
[01:11:18] que é a crise econômica do capital desencadeia,
[01:11:20] a crise de representação,
[01:11:22] a crise de representatividade.
[01:11:24] É quando o sistema não dá conta.
[01:11:26] Por isso que eu falei lá atrás
[01:11:28] do colapso do sistema de realidade,
[01:11:30] que é um termo Philip Dickiano,
[01:11:32] e o Fischer assume essa ideia de sistema de realidade.
[01:11:36] Então a gente poderia pensar, na verdade,
[01:11:38] isso tem a ver com a ideia de guerras mágicas também,
[01:11:41] que você tem sistema de realidade em concorrência
[01:11:45] e você tem uns que se espalham mais ou menos,
[01:11:49] que são capazes de viralizar ou não,
[01:11:51] de modo que às vezes algo se estabiliza
[01:11:53] com um sistema de realidade que é sólido,
[01:11:56] que é tipo uma matriz.
[01:11:58] Mas às vezes esse sistema de realidade colapsa,
[01:12:00] você vê que ele dá um bug ali,
[01:12:02] começa com pequenas rachaduras
[01:12:04] e as pessoas vão perdendo a convicção,
[01:12:07] a confiança naquele sistema de realidade
[01:12:10] até que ele se desmorona.
[01:12:12] Tudo que é sólido desmancha no ar.
[01:12:14] Exatamente.
[01:12:16] O desmoronamento do sistema de realidade
[01:12:18] é um perigo,
[01:12:20] porque nesse claro escuro,
[01:12:22] nesse interregno, surgem monstros
[01:12:24] e eles também se aproveitam
[01:12:26] desse canal de abertura.
[01:12:28] Opa, tem uma brecha aqui na qual eu posso entrar
[01:12:31] para disputar a natureza da realidade.
[01:12:34] Certo?
[01:12:36] E o fascismo é isso,
[01:12:38] a direita dissidente que aparece
[01:12:40] no momento de crise
[01:12:42] e ajuda também a dissolver o centro,
[01:12:44] tá?
[01:12:46] Dissolver o centro.
[01:12:48] Então a extrema-direita tem um papel dissolvente também.
[01:12:51] Ela vai denunciar o status quo, o sistema,
[01:12:54] essa forma de representação não serve,
[01:12:57] nós vamos colocar outra coisa no lugar.
[01:13:00] Muitas vezes se aproveitando de uma falha
[01:13:03] ou de organização ou de imaginação,
[01:13:06] ou o que talvez seja pior,
[01:13:08] da elaboração do circuito
[01:13:10] entre imaginação e organização,
[01:13:12] porque essa é a base da imperdição.
[01:13:15] Como é que você cria, digamos assim,
[01:13:17] uma visão de futuro
[01:13:19] que ela seja libidinal, atraente, sedutora o suficiente
[01:13:23] para as pessoas se engajarem com ela
[01:13:25] no nível do desejo,
[01:13:28] querendo que aquilo venha à tona,
[01:13:31] participar desse processo de remodelagem da realidade,
[01:13:35] tá certo?
[01:13:36] Seguindo um atrator,
[01:13:38] que pode não acontecer, ele é virtual ainda,
[01:13:41] mas que conforme ele se apodera da realidade,
[01:13:44] ele ganha uma dimensão de inevitabilidade.
[01:13:47] Não tem escapatória,
[01:13:49] a história está indo para isso.
[01:13:52] Eu…
[01:13:55] O Fischer termina a vida falando de comunismo hiperticional.
[01:13:59] Tá certo?
[01:14:00] E a minha compreensão
[01:14:05] é que durante uma parte do século XX,
[01:14:09] o comunismo
[01:14:12] exercia
[01:14:14] uma capacidade de magnetismo,
[01:14:17] de atração, de encantamento, de sedução,
[01:14:20] que ganhava as pessoas.
[01:14:22] Eu vou construir isso.
[01:14:24] E o fato de que esse horizonte parecia estar se realizando,
[01:14:28] porque as revoluções estavam acontecendo,
[01:14:30] o movimento dos trabalhadores estava se fortalecendo e tal,
[01:14:34] você fala, é, realmente esse é o caminho,
[01:14:36] a história caminha inexoravelmente
[01:14:39] para isso, para esse horizonte.
[01:14:41] Isso produz um mito muito forte.
[01:14:44] Tá certo?
[01:14:45] E você fala, não, eu vou fazer parte disso,
[01:14:47] eu quero fazer parte dessa história.
[01:14:49] Aí eu vou me juntar num partido,
[01:14:51] eu vou me juntar num sindicato.
[01:14:53] Não é uma mera crença.
[01:14:55] Tá certo?
[01:14:56] É uma participação,
[01:14:57] é entrar num processo de agência econômica,
[01:14:59] num processo de agência coletiva.
[01:15:01] É você
[01:15:03] se deixar envolver pelo processo
[01:15:05] e à medida que você se envolve,
[01:15:07] você está reforçando o processo.
[01:15:09] Tá?
[01:15:10] E aí, na década de 80,
[01:15:12] o artigozinho do Fukuyama,
[01:15:14] que a gente gosta tanto de falar mal,
[01:15:17] ele realmente
[01:15:19] é um diagnóstico de um momento
[01:15:21] que ninguém acreditava mais nesse mito.
[01:15:23] Até o dirigente partidário lá
[01:15:25] talvez fizesse uma performance de crença,
[01:15:29] mas uma hora meio que
[01:15:31] você vê que você está que nem um desenho animado
[01:15:33] andando em cima do nada,
[01:15:35] aí você olha para baixo e você cai.
[01:15:37] Tá?
[01:15:38] E desde então,
[01:15:40] a esquerda internacional
[01:15:42] não tem
[01:15:44] um projeto abrangente,
[01:15:47] diverso, excitante,
[01:15:50] que possa incorporar
[01:15:53] várias agências coletivas
[01:15:55] numa agência,
[01:15:57] várias agências individuais
[01:15:59] numa agência coletiva,
[01:16:01] somar as agências,
[01:16:03] dar potência à capacidade de ação.
[01:16:06] Porque, no final das contas,
[01:16:08] eu acho que esse é o circuito
[01:16:10] que o Fischer estava preocupado em fazer.
[01:16:12] Tá?
[01:16:13] Como é que você chama as pessoas para a ação?
[01:16:16] Quando as pessoas veem que a coisa está
[01:16:18] engrenando de alguma maneira.
[01:16:19] Claro que você tem que ter uns loucos antes,
[01:16:21] meio assim, meio uns profetas,
[01:16:23] uns militantes,
[01:16:24] umas coisas que vão botar trabalho
[01:16:26] onde ninguém está botando fé ainda.
[01:16:28] Tá certo?
[01:16:29] Mas quando a coisa ganha tração, você fala
[01:16:31] opa, conseguimos conquistar jornal de trabalho,
[01:16:33] conseguimos conquistar
[01:16:35] certos benefícios,
[01:16:37] realmente a organização coletiva
[01:16:39] produz efeitos na realidade.
[01:16:41] E isso vai atraindo pessoas e
[01:16:43] nossa, nós somos poderosos,
[01:16:44] nós conseguimos mudar as coisas,
[01:16:46] nós podemos fazer um mundo que responda
[01:16:48] as nossas necessidades
[01:16:49] e não as necessidades do capital.
[01:16:52] Eu estou entusiasmado com isso agora,
[01:16:54] porque eu acho que essa é a grande
[01:16:55] formulação do Fischer, tá certo?
[01:16:57] Um socialismo hiperticional
[01:17:00] na criação dessa ideia de uma
[01:17:03] de uma imaginação visionária
[01:17:05] que entra em circuito com formas
[01:17:07] organizadas de ação coletiva que
[01:17:09] conseguem exercer eficazmente
[01:17:12] poder no mundo aqui e agora.
[01:17:14] Quanto mais poder você exerce,
[01:17:16] mais confiança você tem no seu próprio poder,
[01:17:19] mais você atrai gente e mais poder você exerce.
[01:17:22] E aí você cria um horizonte de escape,
[01:17:24] uma produção de um outro tipo
[01:17:26] de sistema de realidade.
[01:17:33] Realmente, Dr. Victor,
[01:17:35] eu acho que agora você matou a charada.
[01:17:38] Eu vou, obviamente, a gente vai linkar
[01:17:41] o seu texto sobre…
[01:17:44] Não li, admito, vou ler logo já,
[01:17:47] assim que sair daqui, talvez.
[01:17:49] Mas vou me dedicar à leitura dele,
[01:17:52] porque eu acho que é meio essencial
[01:17:55] essa sua maneira de você ver
[01:17:58] onde o Fischer está.
[01:18:00] Eu, sobre hipertensão, é muito interessante, assim.
[01:18:03] Eu sempre me pergunto qual é a história do conceito.
[01:18:06] A gente não tem uma história específica
[01:18:08] de como ele foi criado.
[01:18:10] O CCRU também tinha essa opacidade
[01:18:12] que a gente vê no LinkedIn como um todo.
[01:18:14] E essa opacidade, às vezes, dificulta algumas coisas.
[01:18:18] Eu, esses tempos, lá no site do Cris,
[01:18:20] eu traduzi, desde que eu ouvi falar
[01:18:22] pela primeira vez o conceito de hipertensão,
[01:18:24] eu lembrei do hipersigilo,
[01:18:26] que era como o próprio Grant Morrison,
[01:18:29] A. Grant Morrison, que é uma pessoa nominária hoje,
[01:18:33] como Grant Morrison definiu
[01:18:35] o próprio trabalho de Linhas Invisíveis.
[01:18:37] O próprio texto dele já foi definido por ele mesmo
[01:18:40] como uma coisa hipertensional, de certa forma,
[01:18:43] porque ele pensava só, ao invés de usar
[01:18:46] a ideia de superstição, ele trazia o sigilo,
[01:18:49] que é uma das formas de se fazer magia.
[01:18:53] E magia tem a ver exatamente com linguagem.
[01:18:56] E ele faz, em um certo momento,
[01:18:58] ainda no começo dos Invisíveis,
[01:19:00] quando as vendas estão meio baixas,
[01:19:02] ele cria um sigilo, porque você pode,
[01:19:04] em tese, fazer isso a partir dos conceitos
[01:19:06] da magia do caos, você pode criar o próprio sigilo.
[01:19:09] Ele cria um sigilo, e o interessante do sigilo
[01:19:12] é que você precisa carregar ele,
[01:19:14] você precisa colocar ele no mundo
[01:19:16] a partir do momento que você tem
[01:19:18] uma entrada no mundo,
[01:19:21] você tem uma experiência muito forte,
[01:19:23] e isso, em tese, segundo a magia do caos,
[01:19:26] que o Peter Carroll, já um dos estudos
[01:19:28] do Austin Schultzman espera,
[01:19:30] e, ao mesmo tempo, já se conectando com
[01:19:33] Burroughs, como a gente já citou aqui,
[01:19:35] o Burroughs do vírus enquanto linguagem,
[01:19:37] você precisa desse momento forte
[01:19:39] para botar esse sigilo no mundo.
[01:19:41] E aí ele sugere a todos os leitores dos Invisíveis
[01:19:44] para fazer um punhetaço, no dia de ação de graças,
[01:19:47] de 1995,
[01:19:50] para produzir a continuidade dos Invisíveis.
[01:19:54] Eu traduzi esse texto aí esses dias,
[01:19:57] botei lá no crise.log, quem quiser vai dar uma olhada,
[01:20:00] e era uma mídia meio perdida,
[01:20:02] mas essa história ele conta depois,
[01:20:04] ah, fiz um punhetaço, essa fita, etc,
[01:20:06] mas o texto original eu traduzi lá,
[01:20:08] porque não existia a versão em português,
[01:20:10] e aí eu achei muito interessante,
[01:20:12] porque assim, vejam só como essas teias
[01:20:16] se cruzam.
[01:20:19] O Mac Fisher teve uma banda,
[01:20:22] um grupo de música eletrônica,
[01:20:24] chamava The Generation, eles foram receber
[01:20:26] uma carta de uma banda de hard rock horrível americana
[01:20:31] da mesma época, que chamava também The Generation,
[01:20:33] depois eles mudaram de nome,
[01:20:35] mas o primeiro EP oficial do The Generation
[01:20:38] chama Entropy in the UK,
[01:20:40] que é o arco seguinte de Grant Morrison
[01:20:44] a quando ele convoca esse punhetaço,
[01:20:47] e além disso, o personagem principal
[01:20:50] desse arco, Entropy in the UK,
[01:20:53] é baseado no mesmo personagem,
[01:20:56] que é o personagem meio sigilado
[01:21:00] de um autor de ficção científica britânico
[01:21:02] chamado Michael Moorcock,
[01:21:05] que está no label,
[01:21:08] é mais ou menos o personagem,
[01:21:10] a figurinha do The Generation,
[01:21:12] que eles levam pra tudo,
[01:21:14] é o personagem dele,
[01:21:15] e esse personagem é a base do personagem principal,
[01:21:19] Gideon Stargrave,
[01:21:21] que vai estar nesse arco, Entropy in the UK,
[01:21:23] que tem o mesmo nome do disco.
[01:21:25] Então assim, que está interconectado, isso tá,
[01:21:27] um dia eu tenho que perguntar só pra Grant Morrison,
[01:21:29] se eu quero um dia perguntar,
[01:21:31] se existe essa relação,
[01:21:35] porque é isso, de novo,
[01:21:37] o Fisher é um cara que está na cultura,
[01:21:39] e como a principal fonte de expressão dele é a escrita,
[01:21:41] ele vai parar na ficção,
[01:21:43] ele vai escrever pra isso,
[01:21:46] e é muito interessante que você tenha essa leitura,
[01:21:48] porque é louco pra mim que a gente vai
[01:21:51] descer dos mesmos caminhos,
[01:21:53] vem por caminhos diferentes,
[01:21:54] e a gente chega na mesma coisa,
[01:21:56] mas eu queria aproveitar que a gente está indo pro final,
[01:21:58] Victor, eu sei que você tem muito mais o que falar,
[01:22:00] e eu te espero,
[01:22:01] estou esperando loucamente,
[01:22:03] como vários de nós aqui,
[01:22:05] nesse seu curso livre aí,
[01:22:07] sobre o desejo pós-capitalista,
[01:22:09] e o que eu queria,
[01:22:10] só aproveitar aqui,
[01:22:12] o Jerry Cornelius, exatamente, Marcelo,
[01:22:14] o Jerry Cornelius é o personagem do Michael Moorcock,
[01:22:18] e eu queria só comentar aqui,
[01:22:21] o que o Tela de Locadora falou aqui,
[01:22:23] que é o seguinte,
[01:22:25] eu, vamos lá,
[01:22:27] vou botar aqui na tela,
[01:22:29] falando nisso de realidade,
[01:22:30] tem um negócio que eu queria conversar numa mesa com o Fisher e os Malucos,
[01:22:32] temos o Fisher e os Malucos aqui,
[01:22:34] eu gosto de dizer que o tiro de Luigi e Mangione,
[01:22:37] não perfurou só um corpo,
[01:22:38] também perfurou a realidade,
[01:22:40] o que vocês acham desse comentário?
[01:22:42] O que você acha, Victor?
[01:22:44] De alguma maneira, ele conseguiu um hype,
[01:22:49] então, nesse sentido,
[01:22:51] teve efeitos contaminadores,
[01:22:56] o ato, digamos assim, meio isolado,
[01:22:59] performático,
[01:23:01] e fez parte, passou a fazer parte da cultura pop,
[01:23:07] no entanto,
[01:23:10] claro que,
[01:23:12] nesses momentos, talvez,
[01:23:14] às vezes, pequenos furos,
[01:23:16] eles são o que é necessário para,
[01:23:19] aliás, o realismo capitalista acaba assim,
[01:23:21] não sei se vocês lembram dessa passagem,
[01:23:23] eu acho que é uma das passagens mais belas do livro,
[01:23:26] eu vou ler aqui um pouco,
[01:23:34] ele fala,
[01:23:35] a longa e escura noite do fim da história,
[01:23:37] deve ser encarada como uma enorme oportunidade,
[01:23:39] a própria generalidade opressiva do realismo capitalista,
[01:23:43] significa que,
[01:23:44] mesmo tênues vislumbres de possibilidades políticas e econômicas alternativas,
[01:23:48] são capazes de gerar um efeito desproporcionalmente grande,
[01:23:51] o menor dos eventos pode abrir um buraco
[01:23:54] na cinzenta cortina reacionária,
[01:23:56] que encurtou os horizontes de possibilidades sobre o realismo capitalista,
[01:24:00] isso é excelente,
[01:24:02] de uma situação em que nada pode acontecer,
[01:24:05] onde está tudo dominado,
[01:24:07] não existe futuro alternativo,
[01:24:09] tudo possível,
[01:24:10] é a maior solidez daquele sistema de realidade,
[01:24:13] de repente tudo é possível de novo,
[01:24:16] o futuro se reabre,
[01:24:17] novos caminhos estão à disposição.
[01:24:20] É interessante como essa imagem,
[01:24:23] também assim,
[01:24:24] de um rasgo,
[01:24:26] um buraco na cortina cinzenta do realismo capitalista,
[01:24:31] o realismo capitalista é quase como um véu,
[01:24:33] tem um elemento semignóstico aqui também,
[01:24:37] que remete ao Philip K. Dick,
[01:24:39] remete à Matrix,
[01:24:40] remete a essa ideia de que a gente está preso em sistemas de realidade,
[01:24:44] e às vezes uma pequena brecha,
[01:24:47] um pequeno bug,
[01:24:48] um pequeno furo é o suficiente
[01:24:50] para desencadear processos de desmoronamento disso.
[01:24:56] Eu quero só aproveitar aqui,
[01:24:59] depois vou trazer a questão da pessoa Zeca Moringa,
[01:25:03] eu nunca sei se são…
[01:25:05] Eu terminei de responder a pergunta,
[01:25:07] mas o meu ceticismo com relação a essa brecha específica
[01:25:12] é que ela não abriu espaço para um processo de agenciamento coletivo.
[01:25:17] Mas veja só…
[01:25:18] De fato, eu não acho que vai ser possível
[01:25:20] ter algum nível de eficácia material
[01:25:24] e ter, portanto, uma política
[01:25:27] capaz de enfrentar o realismo capitalista de maneira emancipatória
[01:25:32] se a gente não conseguir reestruturar a possibilidade da ação coletiva.
[01:25:37] A capacidade das pessoas fazerem coisas juntos,
[01:25:40] de a gente ter um projeto de natureza comum.
[01:25:44] E aí…
[01:25:45] Sabe por que isso eu acho tão interessante?
[01:25:47] Vamos voltar agora para o desejo dos pós-capitalistas,
[01:25:49] porque ele tem um capítulo fantástico
[01:25:53] e acho legal até que ele usa o feminismo
[01:25:56] e toda a discussão de standpoint
[01:25:58] para discutir a história de consciência de classe do Lukács,
[01:26:01] para a gente entender o que é consciência de classe.
[01:26:05] E a noção de consciência de classe,
[01:26:06] que o Fischer está tentando articular,
[01:26:08] tanto nesse capítulo diretamente sobre o Lukács,
[01:26:11] Lukács com o feminismo da década de 60,
[01:26:14] as duas coisas juntas,
[01:26:15] mas depois ele tem também um capítulo só sobre classe,
[01:26:19] está certo?
[01:26:20] Qual é a teoria dele de consciência de classe
[01:26:22] que ele está interpretando
[01:26:24] na chave do modelo hiperticional
[01:26:26] o Lukács de História e Consciência de Classe?
[01:26:29] Que consciência de classe não é
[01:26:31] eu sou um indivíduo trabalhador
[01:26:33] e eu, de repente, tenho consciência
[01:26:35] daquilo que eu realmente sou,
[01:26:36] que sou um trabalhador, está certo?
[01:26:38] Então a gente geralmente usa consciência de classe
[01:26:40] nesse sentido.
[01:26:41] Você fala, pô, o cara é um trabalhador,
[01:26:43] mas ele não tem consciência,
[01:26:45] porque ele não saca que ele é um trabalhador
[01:26:47] e ele fica aí lambendo as botas do patrão.
[01:26:49] Tudo bem, há um âmbito legítimo de uso para isso.
[01:26:54] Mas o que o Fischer está falando é
[01:26:57] consciência de classe não é meramente representativo.
[01:27:02] Consciência de classe é o processo,
[01:27:05] o processo de formação do que a gente,
[01:27:07] às vezes, no marxismo,
[01:27:08] chamaria de classe para si.
[01:27:11] Então você pode ter um conjunto de indivíduos
[01:27:13] que são proletários, que são explorados,
[01:27:15] que vendem o seu trabalho,
[01:27:16] que não têm propriedade, esse tipo de coisa e tal.
[01:27:18] E eles estão aí atomizados,
[01:27:20] batendo uns nos outros no mundo.
[01:27:22] Bom, é a classe em si.
[01:27:24] Eles estão competindo uns com os outros,
[01:27:25] querendo jogar um para baixo
[01:27:27] para pegar um emprego melhor, uma promoção,
[01:27:29] não sei o quê e tal.
[01:27:31] E aí essa é a classe em si.
[01:27:36] Mas essa não é uma classe como agente político.
[01:27:38] Essa não é uma classe como sujeito coletivo.
[01:27:41] Essa classe como sujeito coletivo é um projeto.
[01:27:44] Ela precisa ser construída.
[01:27:46] Ela não está dada.
[01:27:48] E a consciência de classe é você desenvolver
[01:27:52] a consciência do sujeito coletivo,
[01:27:54] de você fazer parte de um processo de conscientização
[01:27:58] que é a expansão da classe para si,
[01:28:00] e a classe para si ganhando potência,
[01:28:02] ganhando força,
[01:28:03] ganhando capacidade de realizar coisa no mundo.
[01:28:05] Eu agora sou parte dessa classe
[01:28:07] porque eu tenho um projeto autônomo
[01:28:10] de uma outra sociedade
[01:28:12] vista pela perspectiva dos proletários.
[01:28:17] E, de fato, só é classe de verdade como age como tal.
[01:28:20] Então, olha só, o Fischer nos deu uma leitura aqui.
[01:28:23] É uma pena que ele não conseguiu terminar o Comunismo Ácido,
[01:28:27] porque isso era o que ele…
[01:28:29] O curso é uma preparação para o livro dele.
[01:28:31] Está certo?
[01:28:32] Eu, inclusive…
[01:28:35] Muito boa a ideia, Luca.
[01:28:38] Acho que também tem relação com consciência de raça
[01:28:41] do movimento negro.
[01:28:42] Isso, com certeza.
[01:28:43] E essas consciências, elas entram.
[01:28:45] E aí o Fischer vai falar sobre a teoria de standpoint,
[01:28:49] que não é de lugar de fala.
[01:28:51] É muito interessante.
[01:28:52] E ele debate muito bem nos livros de pós-catalistas,
[01:28:55] recomendo a leitura do livro de verdade.
[01:28:57] Aí não é, tipo assim, a compra, porque é legal.
[01:28:59] Comprem, porque realmente ele vai debater isso
[01:29:02] de uma maneira bem interessante.
[01:29:04] E ele vai fazer essa relação com o Lukács.
[01:29:07] E é muito legal, porque ele fala…
[01:29:09] Pô, não entendo bem exatamente, porque é difícil, né,
[01:29:11] essa leitura de Lukács.
[01:29:13] Eu acho ótimo ele como professor.
[01:29:15] Um parêntese sobre isso.
[01:29:16] Você vê que professor simpático.
[01:29:18] Exato, exato, exato.
[01:29:20] O esforço que ele está tendo ali de pensar junto com os alunos.
[01:29:24] Você tem zero condescendência.
[01:29:26] Exato.
[01:29:27] Você não está tendo uma posição de superioridade moral ou intelectual.
[01:29:30] Nada, nada.
[01:29:31] Não, não.
[01:29:32] Me ajudem aqui a ler esse negócio e tal.
[01:29:34] É complicado mesmo, mas vamos trabalhando junto.
[01:29:37] Junto a gente chega lá.
[01:29:38] A única generosidade que…
[01:29:40] É algo que eu me inspiro como professor.
[01:29:44] Sim, sim.
[01:29:45] Eu acho que inspira todos os professores,
[01:29:46] todo mundo que dá aula e teve contato com o Fischer,
[01:29:49] deveria ler Desejo de Pós-Capitalista
[01:29:52] para sacar essas vicissitudes do Fischer,
[01:29:57] enquanto falante.
[01:29:58] O Fischer enquanto fala é um pouco diferente,
[01:30:00] mas é muito interessante.
[01:30:02] Mas bem, o que eu só…
[01:30:04] Tem um ponto para concluir.
[01:30:05] Isso daí eu também não posso deixar,
[01:30:07] sair daqui sem falar isso.
[01:30:09] Vamos lá.
[01:30:10] Ele não terminou esse último livro.
[01:30:13] Ele às vezes falava assim, né?
[01:30:14] O nosso desejo não tem nome.
[01:30:16] Ele não tinha também muito apego,
[01:30:18] se é comunismo libertário,
[01:30:20] se é comunismo libertacional,
[01:30:22] se é socialismo democrático,
[01:30:24] se é pós-capitalista.
[01:30:25] Ele está tateando também.
[01:30:26] Isso daí são os grandes movimentos de massa
[01:30:30] que vão definir qual é o nome do nosso projeto,
[01:30:33] está certo?
[01:30:34] Mas nós estamos apontando nessa direção
[01:30:36] e eu quero fazer parte dessa construção coletiva.
[01:30:40] E seria um livro em que ele iria discutir isso.
[01:30:42] Certamente é um livro em que ele iria discutir
[01:30:45] o Chile do Allende,
[01:30:48] que tinha uma aula prevista no livro sobre isso.
[01:30:52] Ele estava também estudando experiências da América Latina,
[01:30:56] eu tenho certeza que ele iria acabar parando no Paulo Freire,
[01:30:59] ele iria falar dos Panteras Negras,
[01:31:01] ele estaria retomando.
[01:31:03] Seria um livro também para retomar esse espectro,
[01:31:06] seria um livro de espectrologia,
[01:31:08] de assombrologia de alguma maneira,
[01:31:10] das possibilidades que justamente essa passagem
[01:31:13] da crise do Fordismo,
[01:31:15] da crise do compacto keynesiano social-democrata na década de 70,
[01:31:19] abriu oportunidades que a gente acabou não aproveitando,
[01:31:23] mas que estão lá,
[01:31:24] que estão pulsando,
[01:31:25] que a gente pode conjurar, digamos assim,
[01:31:27] a gente pode fazer os nossos encantamentos
[01:31:29] para nos inspirar a reabrir certos caminhos.
[01:31:32] Crie seus sigilos.
[01:31:34] E o Fischer diz o seguinte,
[01:31:37] nesse momento, pós-68,
[01:31:39] você tem uma série de elevações de consciência,
[01:31:43] é muito interessante a terminologia,
[01:31:46] o tipo de teoria que ele estava, digamos assim, tateando,
[01:31:50] Conscious Raising, elevação da consciência,
[01:31:54] como seria a melhor maneira de traduzir isso, Amaury?
[01:31:58] É elevação da consciência, elevação da consciência.
[01:32:00] Assim como o comunismo dissérgico cabe mais que ácido,
[01:32:04] porque quando você fala ácido em inglês britânico,
[01:32:08] você está falando de estados alterados da mente,
[01:32:10] você não está remetendo a nenhuma acepção
[01:32:13] que a gente tem no Brasil de sarcástico ou ácido,
[01:32:22] uma pessoa que está sendo muito cínica.
[01:32:25] Não, o comunismo ácido é um comunismo doidão mesmo.
[01:32:29] O meu comentário favorito,
[01:32:31] quando eu lancei a tradução lá na Jacobin,
[01:32:33] no Instagram da Jacobin, é
[01:32:35] pô, o comunismo dissérgico é quando eu estou com 5 gramas de cogumelo na mente
[01:32:39] e vi um MBL falar merda aqui.
[01:32:41] É isso aí um pouquinho, camarada.
[01:32:43] Também é, faz parte.
[01:32:45] Faz parte, eu acho que é importante a gente…
[01:32:47] O Fischer está sempre falando,
[01:32:50] nos últimos textos, nas últimas intervenções,
[01:32:54] dessa ideia de ascensão da consciência,
[01:32:56] elevação da consciência
[01:32:58] e as possibilidades de elevação da consciência
[01:33:01] que o final da década de 60, começo da década de 70, colocaram.
[01:33:05] Ele fala em múltiplos aspectos.
[01:33:07] A elevação da consciência nesses grupos de conscious raising feministas,
[01:33:11] onde as mulheres iam falar dos seus problemas,
[01:33:14] eu acho isso também muito comovente, muito emocionante.
[01:33:16] A gente tem que traduzir o texto do Fischer falando sobre isso.
[01:33:19] O texto das mulheres chegando,
[01:33:21] nossa, isso não é um problema meu, não é um problema individual.
[01:33:25] Ao colocar coletivamente essas questões,
[01:33:28] elas começam a perceber e ver as estruturas
[01:33:31] intelectuais de dominação, as estruturas sociais de dominação.
[01:33:35] Não é meu problema, não sou eu.
[01:33:37] E a partir disso, a possibilidade de intervenção coletiva
[01:33:40] para transformar a realidade.
[01:33:42] Mas a mesma coisa estava acontecendo no black power,
[01:33:44] black conscious, blacks beautiful,
[01:33:46] a elevação da consciência negra.
[01:33:48] Outra coisa que estava acontecendo…
[01:33:50] O movimento Pride.
[01:33:51] Aliás, nas greves às vezes selvagens,
[01:33:53] White Cat Strike, que estavam colocando em questão
[01:33:56] até o próprio trabalho, o próprio trabalho assalariado
[01:34:00] e o crescimento dessa autonomia nas fábricas
[01:34:04] que estavam saindo do controle dos patrões.
[01:34:07] E a ascensão da consciência psicodélica,
[01:34:12] que é a alteração dos estados da consciência,
[01:34:15] o LSD era…
[01:34:17] Então, é o Timothy Leary.
[01:34:19] E é meio assim, os Panteras Negras com Weather on the Ground
[01:34:22] tirando o Timothy Leary da prisão e colocando ele lá em…
[01:34:25] Aonde?
[01:34:26] Ele vai para a Gélia, não vai para o meio.
[01:34:28] Vai para a Gélia.
[01:34:29] Era a ligação do Gay Liberation Front com a libertação palestina.
[01:34:35] Mas você imagina…
[01:34:36] Cara, você imagina que loucura.
[01:34:38] Eu queria fazer um filme…
[01:34:39] É bizarro que a Rainha Inês não saca isso.
[01:34:41] Você imagina um filme que junta os sequestrados brasileiros,
[01:34:46] os sequestrados não, os liberados pelos sequestros brasileiros na Gélia,
[01:34:50] o Timothy Leary.
[01:34:51] Tipo, a Gélia era o lugar mais legal de estar
[01:34:54] numa virada dos 60 para os 70,
[01:34:56] porque estavam todos os revolucionários do mundo
[01:34:58] que tinham que fugir dos seus países,
[01:35:00] iam para lá.
[01:35:01] Era o lugar, era o ponto de lá de sair.
[01:35:04] E a Revolução Cubana foram as primícias, digamos assim.
[01:35:07] Elas foram os que estimularam, inspiraram os grandes movimentos,
[01:35:12] inclusive movimentos de massa, contra a cultura, contra a guerra,
[01:35:15] mas também greves gerais que aconteceram no final da década de 60, começo de 70.
[01:35:22] E isso estava tudo no mesmo…
[01:35:24] Esse caldo de cultura fermentando, imagina,
[01:35:27] psicodelia com a luta de libertação nacional anticolonial,
[01:35:31] com os Panteras Negras organizando a Rainbow Coalition,
[01:35:36] juntando latino com redneck em Chicago.
[01:35:41] Aquela coisa maravilhosa do Fred Hampton.
[01:35:45] E, ao mesmo tempo, o Porto Madeira lá na Itália,
[01:35:51] a Rádio Alice na Itália.
[01:35:54] Então, todo o rolê dos autonomistas italianos…
[01:35:56] Uma pergunta aqui para a gente estar chegando ao fim,
[01:36:00] porque senão a gente vai ficar umas seis horas.
[01:36:03] Outro dia a gente vai falar ainda mais.
[01:36:05] A gente vai ter muito mais coisa de Fischer.
[01:36:07] Vou trazer muito mais o Victor Mikes para falar várias coisas,
[01:36:10] mas eu queria te perguntar uma.
[01:36:13] Você já citou, mas eu queria ter certeza.
[01:36:15] A minha aula que eu queria ver do Desejo Pós-Capitalista
[01:36:18] é sobre os autonomistas italianos.
[01:36:20] Eu queria ver todas elas, com certeza,
[01:36:22] mas a que eu mais fiquei assim, meu Deus do céu, está na beira,
[01:36:25] porque ele cita muito os autonomistas italianos.
[01:36:27] É a primeira aula que ele vai dar antes, na volta às aulas,
[01:36:31] as aulas que ele propôs ali, das dez que faltam.
[01:36:35] O que eu fico mais curioso é a visão dele sobre os autonomistas italianos.
[01:36:39] Ele fala muito no Comunismo Discérgico, nesse texto inacabado,
[01:36:42] sobre os autonomistas italianos.
[01:36:44] E eu queria entender qual foi a pira dele, o que bateu nele.
[01:36:48] Porque, realmente, essa questão de classe, consciência de classe,
[01:36:52] sobre tempo, sobre todos esses debates que a gente está trazendo aqui,
[01:36:56] mostrando que falam com todo mundo e sobre todo mundo.
[01:36:59] No seu caso, Victor, qual é a aula que você…
[01:37:02] Assim, se fosse para escolher uma, qual a aula do Fischer,
[01:37:05] das dez aulas que faltam do Desejo Pós-Capitalista que você queria ver?
[01:37:08] A aula que eu, com certeza, gostaria de ver é a aula sobre o Chile,
[01:37:12] sobre a experiência do socialismo democrático latino-americano,
[01:37:16] as possibilidades tecnológicas que estavam colocadas.
[01:37:19] É uma doideira, não sei até em que medida o Fischer ia se aprofundar nisso,
[01:37:23] mas o governo Allende chama os cibereticistas britânicos
[01:37:28] para trabalhar para o governo, para construir uma rede de computadores
[01:37:32] para fazer planejamento democrático da produção,
[01:37:36] juntando os cordões industriais, as fábricas nacionalizadas,
[01:37:40] as cooperativas, para tentar criar um sistema de participação democrática
[01:37:44] na gestão da economia.
[01:37:46] Vem o Stadford Beer da Inglaterra para ajudar.
[01:37:49] O Francisco Varela estava no Chile nesse momento,
[01:37:52] dando aula de cibernética para o pessoal do governo chileno
[01:37:56] para pensar nessas coisas.
[01:37:58] Acho que esse é também um capítulo da nossa história,
[01:38:02] porque a coisa se junta.
[01:38:04] Porque o Fischer tem também muita consciência disso aqui,
[01:38:08] que talvez a Unidade Popular,
[01:38:13] a experiência do governo Allende foi o ápice,
[01:38:17] e mesmo por ser o ápice, o início do declínio desse processo.
[01:38:20] Claro que depois ainda teve a revolução dos cravos,
[01:38:27] logo em seguida, em 1974, em Portugal,
[01:38:30] que ainda está no mesmo conjunto de coisas.
[01:38:32] Mas o Chile foi muito duro,
[01:38:34] porque no Chile os socialistas ganharam democraticamente,
[01:38:37] em eleições livres, totalmente limpas,
[01:38:40] começaram a fazer um processo de transição social-econômica democrática,
[01:38:44] com mobilização de massa.
[01:38:46] Quem assistiu o filme A Batalha do Chile deve acompanhar.
[01:38:51] Aliás, esse é um filme que você deveria passar junto com essa aula,
[01:38:54] A Batalha do Chile, a formação dos cordões industriais,
[01:38:57] da auto-organização proletária.
[01:38:59] Eu gostaria de ver essa discussão,
[01:39:02] mas foi exatamente nesse momento que o neoliberalismo começou a acontecer.
[01:39:06] Isso é verdade.
[01:39:07] E começou a reação sangrenta.
[01:39:10] Então, mas…
[01:39:12] Até hoje, as correntes mais atrozes da extrema-direita.
[01:39:17] O que não tem com os Chicago Boys, entendeu?
[01:39:20] Acabou esse negócio, não vão experimentar mais coisa nenhuma.
[01:39:23] Acabou a democracia, nós vamos…
[01:39:25] O Vitor Rara, com quem eu tenho uma…
[01:39:28] Porque o meu nome é uma homenagem ao Vitor Rara,
[01:39:31] o cantautor chileno,
[01:39:33] que é, como dizia o escape, né?
[01:39:36] Cortaram seus dedos e sua língua e ainda assim gritou revolução.
[01:39:41] Lá no estádio onde teve…
[01:39:44] Massacres.
[01:39:46] Massacres, tortura.
[01:39:48] Aí depois os militantes sendo jogados de helicóptero.
[01:39:51] Que tem a ver também com o que eu falei lá no Vira Casacas,
[01:39:54] porque isso depois virou um meme da alt-right.
[01:39:57] Exatamente.
[01:39:58] Que junta Pinochet com Hoppe, austríaco libertário,
[01:40:02] pra dizer que é pra jogar os subversivos, os militantes,
[01:40:05] do helicóptero pra removê-lo fisicamente da sociedade.
[01:40:09] É…
[01:40:10] Aí que tá.
[01:40:11] Uma coisa que eu gosto do Hoppe, não gosto de nada,
[01:40:13] mas o que eu quero dizer que eu gosto é que é o seguinte,
[01:40:15] o Hoppe, ele rompe também esse véu,
[01:40:18] no sentido de que…
[01:40:20] Existiu uma ideia, um papinho vagabundo
[01:40:23] entre os neoliberais e depois os libertários estadunidenses,
[01:40:27] que se chamam de libertários, não tem nada a ver com o que a gente conhece como libertário por aqui,
[01:40:31] e com todo o anarcocapitalismo, etc,
[01:40:34] de que é sobre liberdade, né?
[01:40:36] O bagulho é sobre…
[01:40:38] Não é, é sobre liberdade de você ter.
[01:40:40] É repressão violenta, zero voz…
[01:40:44] Exato.
[01:40:45] Acaba a democracia, acaba o sindicato, acaba…
[01:40:48] Sabe, a Seguridade Social, que foi até privatizada no Chile.
[01:40:52] E é o neoliberalismo mostrando a que veio, na sua forma mais descarada.
[01:40:56] E o Hayek e o Milton Friedman indo lá, confraternizar com…
[01:41:02] Acho que os caras ficaram…
[01:41:03] Com Pinochet.
[01:41:04] Ficaram com tanto medo da ascensão socialista-comunista
[01:41:07] no final dos anos 60 e começo dos anos 70,
[01:41:09] que os caras acabaram com o sistema que existia
[01:41:14] do grande acordo social-democrata dos anos 60 e 70,
[01:41:18] dos anos 50 e 60,
[01:41:20] pra botar outra coisa no lugar.
[01:41:22] E aí vem o choque do petróleo, que pra mim é muito essencial,
[01:41:24] as pessoas falam muito pouco, porque eu acho meio importantíssimo,
[01:41:27] inclusive no fim da imaginação da ficção científica,
[01:41:32] porque a ficção científica fala…
[01:41:33] O Fischer acaba falando também, viu?
[01:41:35] Ele fala como o choque do petróleo produz uma recessão
[01:41:38] que fragiliza o movimento operário,
[01:41:41] vai ajudando a desmobilizar os sindicatos…
[01:41:44] Tem tudo isso, mas pra mim, acima de tudo,
[01:41:46] tem o primeiro momento que a gente percebe
[01:41:49] de que os recursos são finitos.
[01:41:52] Que esses recursos…
[01:41:55] Existe uma ideia de abundância por trás desse grande acordo,
[01:42:01] que ocorre mais no primeiro mundo,
[01:42:03] mas que a gente aqui no terceiro mundo estava empurrando pra frente,
[01:42:06] tentando inclusive ser mais social-democrata, mais comunista,
[01:42:09] mais do que social-democrata, mais comunista em vários lugares,
[01:42:12] mas no caso da crise do petróleo,
[01:42:16] a primeira especialmente, depois você vai ter uma segunda
[01:42:19] pra reforçar, ó, aconteceu uma vez, pode acontecer duas,
[01:42:22] que você acaba com a ideia de possibilidade da hiperabundância,
[01:42:27] e a possibilidade da hiperabundância é um problema pro comunismo,
[01:42:29] porque o comunismo é a ideia…
[01:42:30] Você acabar com a ideia econômica de economia,
[01:42:34] você acabar com o recurso ser escasso,
[01:42:37] e você poder ter uma hiperabundância pro trabalhador,
[01:42:40] pra trabalhadora, pra todo mundo.
[01:42:42] A gente não precisa mais guardar dinheiro,
[01:42:44] porque as nossas técnicas são capazes de tudo.
[01:42:47] Só que quando a gente chega na ideia de que existe uma finitude efetiva
[01:42:50] dos recursos, que a gente lida com ele aqui no planeta Terra,
[01:42:53] e a gente vê a materialidade dela acontecendo,
[01:42:56] isso destrói a cabeça de milhares, milhões de pessoas.
[01:42:58] Isso destrói a cabeça de milhares, milhões de pessoas.
[01:42:59] Isso destrói a cabeça de milhares, milhões de pessoas.
[01:43:01] E aí a ficção científica vai entrar em colapso,
[01:43:04] vai entrar em curto-circuito até criar o cyberpunk,
[01:43:06] que é, de certa forma, uma resposta, não uma resposta,
[01:43:09] mas um acontecimento final disso, assim,
[01:43:12] porque aí quando é materialidade, come a hipertensão.
[01:43:16] Quando é materialidade, ela vai esgotar todo o nosso jeito de viver e de pensar.
[01:43:22] Aí é outro papo, que eu até poderia voltar, não sei se aqui,
[01:43:26] mas eu já falei sobre isso, por exemplo, lá no Canal do Transe, com o Moisés,
[01:43:27] mas eu já falei sobre isso, por exemplo, lá no Canal do Transe, com o Moisés,
[01:43:30] que é uma discussão sobre aceleracionismo de esquerda,
[01:43:32] comunismo de luxo totalmente automatizado, abundância,
[01:43:35] questão ecológica e tal.
[01:43:37] Acho que dá pano para manga e eu queria algumas coisas para falar sobre isso também.
[01:43:42] Acho que dá pano para manga e eu queria algumas coisas para falar sobre isso também.
[01:43:43] Mas eu queria terminar com uma coisa.
[01:43:45] Não, tem mais uma pergunta aí, dá para falar.
[01:43:47] Essa linha do argumento.
[01:43:49] O que o Fiji estava pensando no final da vida?
[01:43:51] O que teria sido importante ele escrever para a gente, está certo?
[01:43:54] O que teria sido importante ele escrever para a gente, está certo?
[01:43:55] Como os processos de elevação da consciência, consciência negra,
[01:43:58] consciência feminista, consciência de classe, consciência psicodélica,
[01:44:02] está certo?
[01:44:04] Constituíam um problema para o sistema de realidade estabelecido.
[01:44:07] E o neoliberalismo é a estratégia meio que leninista da classe proprietária
[01:44:14] para deflacionar a consciência, para jogar a consciência para baixo.
[01:44:18] Então é isso, o Fiji termina a vida dele dizendo o seguinte, olha,
[01:44:21] o neoliberalismo foi um projeto político de deflacionamento
[01:44:25] da consciência, não é por acaso que o neoliberalismo vem junto
[01:44:31] com o proibicionismo, com a guerra às drogas, que era para deflacionar
[01:44:36] a consciência psicodélica também, criminalizar a consciência psicodélica.
[01:44:41] Não é por acaso que o neoliberalismo vem junto, sobretudo nos Estados Unidos,
[01:44:45] com o encarceramento em massa, está certo?
[01:44:48] Que é uma maneira de quebrar as comunidades negras também,
[01:44:51] era um ataque à ideia de consciência negra também nesse momento.
[01:44:54] Você troca as drogas psicodélicas pelo crack e cocaína.
[01:44:57] É um massacre.
[01:45:00] E não é por acaso que o neoliberalismo vem com uma ofensiva de quebrar a coluna vertebral dos sindicatos,
[01:45:08] como a Tati faz com os mineiros na Inglaterra,
[01:45:11] como o Reagan faz com os controladores de voo nos Estados Unidos.
[01:45:15] Acabar com os sindicatos, esmagar, eliminar a consciência de classe, atomizar.
[01:45:20] As pessoas estavam pensando alto demais, estavam fantasiando,
[01:45:23] estavam criando ficções que poderiam se tornar realidade.
[01:45:28] Acaba com isso, baixa a consciência, deflaciona, individualiza, atomiza.
[01:45:34] Rompe o circuito hiperticional de fortalecimento dessa utopia coletivizada.
[01:45:41] O Fischer falou, eu não gosto de falar de utopia, eu gosto de falar de desperdição.
[01:45:45] Também aparece nos últimos textos dele.
[01:45:47] Mas você pode dizer que uma utopia só é eficaz
[01:45:51] quando ela entra numa dinâmica hiperticional.
[01:45:54] Ela alimenta práticas de organização e de ação coletiva no momento
[01:45:58] que tornam a própria execução da utopia mais provável, mais palpável, mais inteligível.
[01:46:06] Perfeito, perfeito, Victor.
[01:46:09] Só antes da gente terminar, tem uma pergunta aqui da Grazi.
[01:46:12] Foto, ela pergunta aqui.
[01:46:15] Saberiam dizer, eu não sei mesmo, eu não lembro,
[01:46:19] se tem algo escrito em que o Fischer cita Gregory Bateson?
[01:46:23] Eu não sei se ele cita o Gregory Bateson, eu não lembro.
[01:46:27] E se eu tivesse que chutar, eu chutaria que não.
[01:46:30] Mas aí a gente tem que fazer pelo menos uma pesquisa no K-Punk e ver se aparece.
[01:46:37] Ele certamente cita muito os ciberneticistas da primeira,
[01:46:41] chamada de primeira ordem, da primeira geração.
[01:46:44] O Norbert Wiener, o McCulloch, o von Neumann,
[01:46:48] esse pessoal aparece.
[01:46:51] O Wiener aparece até como uma espécie de vilão no CCRU,
[01:46:54] porque ele gostava da cibernética negativa,
[01:46:58] a cibernética do controle, a cibernética da estabilidade.
[01:47:01] O pessoal do CCRU era a cibernética positiva,
[01:47:05] do escape, do runaway, do colapso.
[01:47:10] E eu sei, eles não…
[01:47:15] Eu sei que eles estavam lendo o Reinfeldt,
[01:47:18] o Foster,
[01:47:19] e eu sei que eles estavam lendo…
[01:47:21] Em algum momento eles leram também o Varela e o Maturana,
[01:47:24] que são ciberneticistas de segunda ordem, dessa segunda geração.
[01:47:28] Mas o Bateson…
[01:47:30] Eu acho que o Fischer nem chega a escrever sobre eles,
[01:47:34] mas ele menciona que era uma das coisas que estava dentro da leitura do CCRU.
[01:47:39] A própria ideia de autopoiese,
[01:47:42] depois a ideia de strange loops lá do Hofstadter,
[01:47:46] que eu falo também num livro sobre…
[01:47:47] num artigo sobre perdição.
[01:47:50] Eles estavam bem interessados na cibernética enquanto teoria.
[01:47:54] Mas lendo pela lente do Baudrillard,
[01:47:58] que eu acho que é quem traz para o campo da teoria no sentido francês,
[01:48:02] essa teoria crítica francesa,
[01:48:04] quem traz os elementos cibernéticos,
[01:48:07] inclusive essa ideia de que você não tem mais o território e o modelo,
[01:48:12] porque agora você tem um circuito de retroalimentação entre uma coisa e outra,
[01:48:16] então o modelo está alterando o território também,
[01:48:18] não tem nenhum que precede um ao outro.
[01:48:20] Isso eles tiram tipicamente do Baudrillard
[01:48:22] e eu acho que é uma inspiração para essa ideia de perfeição.
[01:48:27] Grazi, eu pretendo chamar a professora Letícia Cesarino,
[01:48:33] que é uma das maiores especialistas em Bateson no Brasil,
[01:48:36] para falar do Fischer.
[01:48:37] Sei que ela é uma pessoa muito interessada no texto do Fischer
[01:48:40] e sei também que ela acabou de lançar agora um livro sobre o Bateson.
[01:48:45] Acho que é essencial que a gente traga esse debate.
[01:48:49] Mas bem, Victor, queria muito agradecer a sua presença aqui,
[01:48:53] a estreia da nossa série.
[01:48:56] Sei que vai ficar um monte de coisa para a gente falar,
[01:48:58] porque é para ficar também um pouco,
[01:49:00] para a gente ter outros momentos, para a gente ter outros debates.
[01:49:03] Acho que esse lance do ecossocialismo e da abundância
[01:49:07] é interessante porque o que eu estava querendo colocar,
[01:49:11] e eu acho que a gente pode depois aí um dia rebater,
[01:49:14] é dentro da ficção científica, porque eu acho que aí você tem…
[01:49:19] Aí você vai ver a leitura do Fischer
[01:49:21] em relação a como que esse colapso ocorre dentro da ficção científica.
[01:49:25] Vamos ter, se tudo der certo, quero trazer o Rodrigo semana que vem
[01:49:29] para a gente falar do próximo livro traduzido do Fischer,
[01:49:31] que é O Estranho e o Sinistro, que ele já terminou a tradução,
[01:49:35] aí a gente já está trabalhando devagar aqui na autonomia
[01:49:37] para lançar ele ano que vem.
[01:49:39] E, olha gente, sigam o Victor nas redes sociais,
[01:49:43] às vezes tem em rede social, Victor, ainda?
[01:49:45] Você usa esse negócio horroroso?
[01:49:47] Eu não tenho nada, não tenho atuação em redes sociais.
[01:49:50] Eu era ativo no Twitter, mas enfim, o Twitter virou aquela coisa,
[01:49:54] botei a minha conta como privada lá,
[01:49:57] às vezes por outro eu olho, mas eu nunca mais tenho feito mais nada lá.
[01:50:01] Venha para o Blue Sky, professor.
[01:50:02] Facebook eu nem entro.
[01:50:05] Venha para o Blue Sky.
[01:50:06] Eu estou um pouco off de redes sociais.
[01:50:08] Talvez eu vá para o Blue Sky depois.
[01:50:11] Venha, venha.
[01:50:12] Vou fazer algum tipo de atividade lá,
[01:50:14] mas por enquanto, o mais interessante,
[01:50:17] talvez vocês pegarem o meu Academia.edu,
[01:50:20] que tem as coisas que eu escrevi lá e darem uma olhada.
[01:50:23] E claro que no YouTube também tem, acho que dezenas de outras falas minhas,
[01:50:27] dá para encontrar.
[01:50:29] Rede social hoje eu estou por fora.
[01:50:31] Maravilha.
[01:50:32] Mas me procurem no YouTube e me procurem no Academia.edu.
[01:50:35] O seu artigo citado sobre a superstição vai estar linkado
[01:50:38] nas inscrições do podcast e também lá no crise.love.
[01:50:41] Talvez escreva mais alguma coisinha.
[01:50:44] E Zeca, fica de olho lá no crise.love,
[01:50:46] que com certeza eu vou fazer questão de avisar
[01:50:49] quando o Victor tiver o curso dele.
[01:50:52] Curso livre sobre Fischer, o desejo pós-capitalista.
[01:50:55] A gente vai fazer chamada, vai falar para todo mundo,
[01:50:58] porque é muito importante e muito legal.
[01:51:01] E é isso, gente.
[01:51:03] Compre em Mark Fischer, use o cupom
[01:51:05] hashtag crise, crise, crise no site da Autonomia.
[01:51:08] Você ganha 25% de desconto sobre qualquer coisa.
[01:51:10] Conto sobre qualquer livro do Fischer que você comprar
[01:51:12] e qualquer outro título da Autonomia.
[01:51:14] Inclui os jogos, tem lá o Belo Levante, Polarizando também.
[01:51:17] O Das Capital, o Capital acho que também está lá.
[01:51:21] E a gente, mano, vai ser isso.
[01:51:28] Forte abraço, fiquem de olho aqui no crise,
[01:51:31] entre no crise.love, crise.love também no Blue Sky.
[01:51:34] A gente está sempre atualizando.
[01:51:36] Vamos saber dos próximos capítulos aí.
[01:51:38] A gente vai falar com bastante gente aí.
[01:51:39] Se preparem que vai ter conversas, diálogos
[01:51:42] e até quebra-pau aí para a gente falar dos termos,
[01:51:46] as traduções do Fischer,
[01:51:48] por que traduzir assim e não traduzir assado.
[01:51:51] E a gente espera contar aí com a audiência leitora de todo mundo
[01:51:56] que parece que esse cara aí está bem famoso, esse Mark Fischer.
[01:52:00] Um abraço, Victor. Até em breve.
[01:52:03] É, pessoal, minha última recada é compre o Desejo pós-capitalista.
[01:52:07] São aulas muito gostosas.
[01:52:08] São aulas muito gostosas de ler.
[01:52:10] E em breve a gente vai estar lançando aí o The Weird and the Eerie,
[01:52:14] que vai ser difícil também traduzir isso.
[01:52:16] Não, é isso. É o Estranho e o Sinistro.
[01:52:18] Já foi decidido pelo Rodrigo.
[01:52:20] Mas também eu vou começar a organizar agora uma coletânea,
[01:52:26] tipo um fascículo do K-Punk, para a gente não lançar o caramato.
[01:52:29] Ah, sim.
[01:52:30] Os últimos textos políticos do Fischer.
[01:52:33] De 2011 para 2017 de política.
[01:52:37] A gente vai dividir, né?
[01:52:39] A gente vai dividir aí os fascículos do K-Punk.
[01:52:42] Eu vou pegar a parte cultural.
[01:52:44] Maravilha. Você pega a parte cultural e eu pego as intervenções políticas recentes.
[01:52:48] Isso. E aí a gente vai pensar nos outros ângulos.
[01:52:51] A gente vai conversar com essa galera aí que a gente vai trazer aos próximos tempos
[01:52:55] para a gente chegar numa edição tão bonita de Fischer como tem sido até agora.
[01:53:00] Mas é isso, galera. Fiquem de olho nas redes.
[01:53:02] crise.love acha a gente.
[01:53:04] Até mais. Valeu. Um abraço.
[01:53:06] Valeu, galera do Crise. Valeu, Amaury.
[01:53:08] Tamo junto.