Fisher e os Fisherianos #01 - Victor Marques


Resumo

Este episódio inaugural da série “Fisher e os Fisherianos” apresenta uma conversa extensa com o professor e editor Victor Marques, um dos principais responsáveis pela edição brasileira de “Realismo Capitalista” de Mark Fisher. A discussão percorre a trajetória de Victor com a obra de Fisher, desde seus primeiros contatos através da blogosfera e da crítica musical até o envolvimento profundo com a tradução e divulgação de seus textos no Brasil.

Os participantes analisam o conceito central de “realismo capitalista” – a ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo – e como sua recepção no Brasil foi marcada por um contexto político e econômico distinto do norte global, especialmente durante o auge dos governos Lula. A conversa explora a evolução do pensamento de Fisher, sua passagem pela CCRU (Unidade de Pesquisa em Cultura Cibernética) e sua relação complexa com figuras como Nick Land, cujo pensamento ‘aceleracionista’ migrou para a extrema-direita.

Um tópico central é a noção de “hiperstição”, desenvolvida no ambiente da CCRU, entendida como uma ficção que, ao ser crida e atuada, torna-se realidade, contaminando e remodelando o mundo. Victor Marques argumenta que este é o conceito fundamental de Fisher, ligado à ideia de ‘perdição’ e à construção de um “comunismo hipersticional”. A discussão também aborda o projeto inacabado de Fisher, “O Desejo Pós-Capitalista”, que visava entender como reconstruir a consciência de classe e a ação coletiva em um momento de interregno e colapso da ordem neoliberal.

O episódio termina refletindo sobre a importância de Fisher como um intelectual orgânico e engajado, que via a teoria como uma forma de intervenção prática na realidade. São destacados seus esforços para conectar imaginação política radical com organização coletiva, na tentativa de reabrir futuros alternativos e escapar da prisão do realismo capitalista.


Indicações

Articles

  • Um Estudo em Práticas Hipersticionais — Texto acadêmico de Victor Marques, recomendado por ele mesmo, que explora os conceitos de hipertensão, alças estranhas, guerras temporais e teoria-ficção no contexto do CCRU e do pensamento de Fisher.

Books

  • Realismo Capitalista — O livro seminal de Mark Fisher, discutido como a melhor edição mundial é a brasileira, com tradução esmerada e pós-fácil explicativo. É apresentado como uma análise da sensação de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
  • O Desejo Pós-Capitalista — Último livro de Fisher, publicado postumamente a partir de suas aulas. Discute a reconstrução da consciência de classe e a busca por um horizonte pós-capitalista, abordando autores como Lukács e experiências históricas de elevação da consciência.
  • Neo-Reaction a Basilisk — Livro de Elizabeth Sandifer recomendado por Mauri Gonzo, que analisa e critica a alt-right e pensadores como Nick Land e Mencius Moldbug, explicando as ideologias por trás do Vale do Silício contemporâneo.
  • Flatline Constructs — Tese de doutorado de Mark Fisher, mencionada como um texto fundacional onde ele trabalha com o conceito de ‘hiperficção’, antecessor da ‘hiperstição’. Ainda não traduzida para o português.

Movies

  • In the Mouth of Madness — Filme de John Carpenter citado por Victor Marques como uma ilustração perfeita do processo hipersticional: uma ficção de horror que começa a contaminar a realidade e transformar o mundo, abrindo portas para entidades extradimensionais.
  • A Batalha do Chile — Documentário sobre o governo de Salvador Allende recomendado por Victor Marques, que mostra a auto-organização proletária e as experiências de democracia radical que Fisher estudaria em seu livro inacabado.

People

  • Nick Land — Filósofo britânico e ex-colega de Fisher na CCRU, descrito como uma figura ‘maligna’ e ‘inimigo político’. Seu pensamento ‘aceleracionista’ migrou para a extrema-direita e influencia figuras do Vale do Silício como Peter Thiel.
  • Jorge Adel Dato — Professor e tradutor cearense, colaborador de Victor Marques na tradução de ‘Realismo Capitalista’. Foi uma das pessoas que introduziu Victor ao blog K-Punk de Mark Fisher.
  • Grant Morrison — Escritor de quadrinhos, citado em relação ao conceito de ‘hipersigilo’ em sua obra ‘Os Invisíveis’, que tem paralelos com a ideia de hipertensão discutida pelo CCRU e por Fisher.

Podcasts

  • Vira-Casacas — Podcast em que Victor Marques participou discutindo Nick Land, o ‘iluminismo sombrio’ e a influência do aceleracionismo na extrema-direita contemporânea e no Vale do Silício.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Abertura e apresentação da série sobre Mark Fisher — Mauri Gonzo apresenta o primeiro episódio da série “Fisher e os Fisherianos”, dedicada a explorar o pensamento de Mark Fisher com diferentes especialistas. Ele introduz o convidado, Victor Marques, professor e editor envolvido na tradução de “Realismo Capitalista” para o português. A proposta é mapear as diferentes leituras e o impacto de Fisher no Brasil.
  • 00:04:51Apresentação de Victor Marques e seu primeiro contato com Fisher — Victor Marques se apresenta como professor da UFABC, militante da esquerda brasileira e ex-diretor da revista Jacobin. Ele conta sua trajetória política e como conheceu a obra de Mark Fisher, inicialmente através do blog K-Punk e, posteriormente, pela recomendação de Slavoj Žižek sobre o livro “Realismo Capitalista”. Ele reflete sobre como a primeira leitura não o impactou profundamente, possivelmente devido ao contexto otimista do Brasil na época.
  • 00:11:25O processo de tradução do Realismo Capitalista para o português — Victor Marques detalha o meticuloso trabalho por trás da tradução brasileira de “Realismo Capitalista”, realizada em colaboração com Jorge Adel Dato, Michael da Silveira e Rodrigo Gonçalves. Ele defende que a edição brasileira é a melhor do mundo, destacando o esmero na busca por replicar a fluidez do estilo de Fisher, a acessibilidade da tradução e a inclusão de textos bônus e um pós-fácil explicativo que contextualiza a obra e sua recepção.
  • 00:15:41Análise das capas: a diferença entre a edição original e a brasileira — Os participantes comparam a capa da edição original de “Realismo Capitalista” (um prédio espelhado, símbolo de estabilidade financeira) com a capa da edição brasileira (um prédio sendo implodido). Victor Marques interpreta essa mudança como um reflexo do contexto histórico diferente: o livro chegou ao Brasil depois da crise de 2008 e em meio ao colapso da ordem neoliberal, simbolizando a desestabilização e o interregno político que se seguiram.
  • 00:29:01O reencontro com Fisher e o conceito de cancelamento do futuro — Victor Marques relata seu reencontro decisivo com a obra de Fisher por volta de 2014-2015, quando percebeu que o autor oferecia a melhor leitura da “temporalidade contemporânea”. Ele destaca a ideia do “cancelamento do futuro” e a tentativa de Fisher de “reconquistar o futuro”. Nesta fase, Fisher se debatia com questões estratégicas e organizacionais, engajando-se politicamente e tentando articular crítica teórica com prática militante, fugindo do cinismo acadêmico.
  • 00:39:07Fisher, a CCRU e a relação com Nick Land e o aceleracionismo — A conversa aborda a formação de Fisher na CCRU e sua relação com Nick Land. Victor Marques define Land como um “inimigo político”, um propagandista do Capital com uma leitura “gótica” de Marx. Ele contrasta a trajetória de ambos: enquanto Fisher buscava um comunismo hipersticional, Land derivou para um aceleracionismo de extrema-direita, influenciando figuras do Vale do Silício. A discussão explora como a ficção científica atua como hiperstição, moldando a realidade.
  • 00:54:05Fisher como intelectual orgânico e a crise da ordem neoliberal — Victor Marques posiciona Fisher como um intelectual orgânico no sentido gramsciano, cujo pensamento influenciou movimentos como o do Partido Trabalhista britânico sob Corbyn e a campanha de Bernie Sanders. Ele argumenta que Fisher estava lendo a crise de sua época como um “interregno”, um período em que a velha ordem (neoliberal) está morrendo e a nova ainda não nasceu. Nesse vácuo, disputam-se diferentes sistemas de realidade através da hiperstição.
  • 01:04:29Hiperstição como conceito fundamental e o comunismo ácido — Victor Marques apresenta sua tese interpretativa: o conceito central de Fisher é o de “perdição” ou “hiperstição”. Ele ilustra com o filme “In the Mouth of Madness”, onde uma ficção contamina a realidade. Fisher via o comunismo não como utopia distante, mas como um projeto hipersticional a ser construído através da elevação da consciência (feminista, negra, de classe, psicodélica) e da ação coletiva. O neoliberalismo, por sua vez, seria um projeto de “deflacionamento” dessas consciências.
  • 01:30:34O projeto inacabado: O Desejo Pós-Capitalista e a elevação da consciência — Os participantes discutem o livro inacabado de Fisher, “O Desejo Pós-Capitalista”, baseado em suas últimas aulas. Victor Marques especula que o livro exploraria experiências como o governo Allende no Chile, os Panteras Negras e os autonomistas italianos, vendo nelas momentos de “elevação da consciência” que o neoliberalismo buscou suprimir. A ideia era recuperar esses espectros do passado para reabrir futuros possíveis e construir uma agência coletiva emancipatória.
  • 01:46:09Encerramento e próximos passos da série Fisheriana — Mauri Gonzo agradece a Victor Marques e antecipa os próximos episódios da série, que trarão outros especialistas para discutir diferentes aspectos da obra de Fisher. São mencionados os planos editoriais, incluindo a tradução de “The Weird and the Eerie” (O Estranho e o Sinistro) e a organização de fascículos com textos do blog K-Punk. Victor convida o público para um futuro curso de extensão sobre “O Desejo Pós-Capitalista” na UFABC.

Dados do Episódio

  • Podcast: Crise Crise Crise
  • Autor: Crise Crise Crise
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2025-05-22T16:39:33Z
  • Duração: 01:53:14

Referências


Dados do Podcast

  • Nome: Crise Crise Crise
  • Tipo: episodic
  • Site: https://crise.love
  • UUID: 15f3f0a0-5023-013c-f72c-0acc26574db2

Transcrição

[00:00:00] É isso aí galera

[00:00:27] Voltando aqui a tweet do Cris

[00:00:29] E voltando, quem tá aqui

[00:00:31] Nos acompanhando pela

[00:00:32] Autonomia Literária, pelo YouTube da Autonomia Literária

[00:00:35] Esse aqui é o primeiro episódio

[00:00:38] De uma série que eu me propus a fazer

[00:00:39] Que é completamente maluca

[00:00:41] Quem não sabe, eu sou a Mauri Gonzo

[00:00:43] Sou

[00:00:44] Podcaster, editor

[00:00:47] Jornalista, maluco, etc

[00:00:49] Tem essa banda, que eu chamo meu podcast

[00:00:51] Banda, o Cris e Cris e Cris

[00:00:52] E estamos aqui pra falar de quem?

[00:00:55] Marquinho Pescador, Mark Fisher

[00:00:57] Mark Fisher

[00:00:58] É

[00:00:59] Um dos nomes mais celebrados hoje

[00:01:02] Da esquerda global, especialmente aqui no Brasil

[00:01:05] Desde a tradução do Realismo Capitalista

[00:01:07] E cá

[00:01:08] Comigo, trouxe ninguém mais, ninguém menos

[00:01:10] Pra gente falar desse primeiro episódio

[00:01:12] A ideia é trazer diferentes

[00:01:14] Especialistas, pessoas que estudam

[00:01:16] Fisher com as mais diferentes

[00:01:18] Sacadas, ideias

[00:01:20] Leituras do Fisher

[00:01:22] Trazer essa galera pra cá

[00:01:25] Pra gente conseguir entender

[00:01:26] O que cada um vê do Fisher

[00:01:27] E a gente conseguir criar

[00:01:29] Um mapa, um plano geral

[00:01:31] De tudo que a gente tem pensado

[00:01:34] E produzido sobre o Fisher hoje aqui no Brasil

[00:01:35] E pra começar

[00:01:36] Tinha pessoa melhor pra ter aqui hoje

[00:01:39] Agradeço muito, muito, muito

[00:01:41] Por estar aqui entre a gente

[00:01:42] Dr. Vitor Marques

[00:01:44] Publisher da Jacobin, Vitor?

[00:01:48] Eu tô de licença, cara

[00:01:49] Não respondi ainda oficialmente

[00:01:51] Publisher, licenciado

[00:01:53] Eu era diretor de

[00:01:56] Como é que eles me chamavam lá?

[00:01:57] Diretor de produção de desenho

[00:01:59] Desenvolvimento, alguma coisa assim

[00:02:00] Mas a Jacobina impressa

[00:02:04] Tá meio numa

[00:02:05] Latência aí, eu acho que a gente vai

[00:02:08] Nos próximos meses retomar

[00:02:09] Então tô reestabelecendo meus contatos

[00:02:11] Jacobinos pra gente fazer uma nova edição

[00:02:14] Impressa da Jacobina

[00:02:15] Maravilha, e Vitor foi

[00:02:17] Um principal nome por trás

[00:02:20] Da edição em português de Realismo Capitalista

[00:02:22] Ele assina junto com o Rodrigo

[00:02:24] Estudo da Série vai estar aqui semana que vem

[00:02:26] O Pós Fácil

[00:02:27] Que

[00:02:29] Conta

[00:02:29] Cara, é um dos melhores textos

[00:02:31] Assim, sobre fichas

[00:02:32] Você acabou de conhecer

[00:02:34] Você quer saber mais

[00:02:35] A recomendação sempre é

[00:02:38] Acabei de chegar, a gente acabou de chegar

[00:02:39] Então, ó, compra o Realismo Capitalista

[00:02:42] Lá no site da Autonomia Literária

[00:02:45] Com o cupom

[00:02:46] Hashtag crise, crise, crise

[00:02:47] Você ganha 25% de desconto

[00:02:49] E você perdeu semana passada o cupom

[00:02:52] Lá do Luciano Huck

[00:02:54] Aí você vai ter que pagar 25%

[00:02:56] Não sei se você viu o cupom do Luciano Huck, Vitor

[00:02:58] Não, não cheguei

[00:02:59] Não, não, circulou uma imagem aí

[00:03:01] Do camarada Huck

[00:03:03] Do camarada Huck recomendando

[00:03:05] E aí o pessoal da Autonomia

[00:03:07] Deu 50% de desconto

[00:03:08] Aí o pessoal comprou o ficha

[00:03:09] Então foi uma boa

[00:03:11] Raipando o ficha

[00:03:13] Isso daí é uma ficção em atividade

[00:03:16] Até porque eu acho que é uma ficção também, né

[00:03:18] Esse print do Huck

[00:03:20] Ninguém sabe

[00:03:21] Ninguém sabe a verdade por trás das coisas

[00:03:24] Tá no devir real da ficção

[00:03:27] Exatamente

[00:03:28] É uma impressão

[00:03:29] É uma impressão

[00:03:29] É uma extinção

[00:03:29] Então assim, lê o primeiro capítulo

[00:03:33] Eu sempre peço para as pessoas

[00:03:35] Como é que é? O que é que fala?

[00:03:37] Bicho, lê o primeiro capítulo

[00:03:38] Só lê o primeiro capítulo do Realismo Capitalista

[00:03:41] E me diz se você não vai terminar esse livro

[00:03:43] E depois no pós-fácil

[00:03:45] O Vitor explica, tim-tim por tim-tim

[00:03:47] Quem foi o McFish

[00:03:49] Porque o pensamento dele é tão importante hoje

[00:03:52] E aqui também

[00:03:54] Essas atividades

[00:03:55] O que a gente anda falando

[00:03:56] Tem muito a ver com o lançamento do

[00:03:59] Desejo Pós-Capitalista

[00:04:00] Que é o último livro

[00:04:02] Não é bem um livro, né

[00:04:04] A gente pode contar a história depois

[00:04:05] Mas o último livro do Fischer lançado agora em português

[00:04:09] A gente ainda tem mais edições para fazer aí

[00:04:11] Pela Autoromia Literária

[00:04:13] A editora com a qual a gente colabora

[00:04:16] Que fez, está fazendo todas as obras do Fischer no Brasil

[00:04:18] Também lançou

[00:04:19] Que está esgotado

[00:04:20] O Fantasma da Minha Vida

[00:04:22] Que o Vitor, muito obrigado, inclusive

[00:04:24] Fez o convite para eu fazer a introdução

[00:04:26] E, bom

[00:04:28] Então, a gente vai lá

[00:04:29] A gente tem um universo fischeriano para trazer

[00:04:31] E para discutir

[00:04:33] Com toda a galera

[00:04:34] E aí, Vitor

[00:04:35] Bom, eu queria pedir para você se apresentar

[00:04:37] Se faltou alguma coisa

[00:04:38] Sei que você é professor também

[00:04:40] Imagino que tem mais algumas atividades

[00:04:43] E queria saber também

[00:04:45] Como você conheceu o McFisher

[00:04:47] Como foi o seu primeiro contato com a obra do nosso querido autor?

[00:04:51] Bom, eu sou o Vitor Marx

[00:04:53] Sou professor

[00:04:54] Sou militante político da esquerda brasileira

[00:04:58] Desde o início da minha vida

[00:04:59] Desde a minha adolescência

[00:05:00] Sou do Quixadá, no Ceará

[00:05:02] Muito mal acostumado, assim, a São Paulo

[00:05:05] Querendo voltar para o Ceará o tempo todo

[00:05:07] Mas, infelizmente, ainda por aqui

[00:05:10] Dou aula

[00:05:12] Isso eu me orgulho

[00:05:13] Na Universidade Federal do ABC

[00:05:15] Que é uma bela universidade

[00:05:17] Estamos, inclusive, pensando, Amorim

[00:05:19] Acho que já tínhamos trocado essa ideia contigo

[00:05:21] De fazer um curso de extensão lá

[00:05:22] Justamente pelo mote da publicação do novo livro

[00:05:26] Do Desejo Pós-Capitalistas

[00:05:28] Que é um curso de extensão lá

[00:05:28] Que é um curso de extensão lá

[00:05:28] Que é um curso

[00:05:29] Então a gente queria meio que

[00:05:31] Trabalhar o livro na forma de curso

[00:05:33] Dar o curso que o Fisher estava dando

[00:05:35] Talvez uma aula introdutória

[00:05:37] Depois uma aula para cada capítulo

[00:05:39] E uma aula final

[00:05:40] Fechando o negócio

[00:05:42] Acho que vou fazer esse curso de extensão

[00:05:44] Então as pessoas da UFABC já estão começando a ouvir falar sobre isso

[00:05:48] Mas como é extensão, justamente para a comunidade externa

[00:05:51] Todo mundo que quiser aparecer por lá

[00:05:52] Vai estar mais que convidado

[00:05:54] Então começo já fazendo aí um jabazinho

[00:05:57] Para uma coisa que ainda não está totalmente

[00:05:58] Certa, mas que é o meu projeto

[00:06:00] Para o próximo quadrimestre na UFABC

[00:06:02] Eu trabalhei também com a

[00:06:05] Revista Jacobina

[00:06:06] Que é uma revista socialista

[00:06:09] Internacionalista

[00:06:10] A Jacobina é a nossa edição brasileira

[00:06:12] Ela está um pouco como

[00:06:13] Estava falando, durmente

[00:06:15] Faz um ano aí que não tem a edição impressa

[00:06:18] Mas nós começamos já aí

[00:06:20] As negociações e as conversas

[00:06:22] Para ter a próxima edição impressa da Jacobina

[00:06:24] Sobre classe

[00:06:25] Trabalho no Brasil

[00:06:27] No ano de 2017

[00:06:28] Em 2025, no século XXI

[00:06:30] Acho que também tem muito a ver com o que o Fischer

[00:06:32] Estava pensando bastante

[00:06:34] Nessas últimas aulas

[00:06:37] Desde a discussão que ele faz

[00:06:39] Com o Lukács

[00:06:39] Sobre classe, consciência de classe

[00:06:43] Até o papel que a classe

[00:06:45] Está jogando hoje na política internacional

[00:06:47] Porque de fato houve um retorno

[00:06:48] Pelo menos do vocabulário

[00:06:50] Classe trabalhadora

[00:06:51] Que na década de 90 virou quase assim

[00:06:53] Uma coisa que foi proibida de se falar

[00:06:57] Não tinha mais

[00:06:57] Trabalhadoras

[00:06:58] Classe trabalhadora

[00:06:59] Todo mundo classe média

[00:07:00] E hoje a classe trabalhadora aparece

[00:07:03] Mas, vai dizer o Fischer

[00:07:05] Você tem a experiência de classe

[00:07:07] Sem a consciência de classe

[00:07:08] Sem um projeto coletivo de classe

[00:07:10] Acho que esse era todo o dilema

[00:07:12] Que ele estava se debatendo nos últimos anos de vida

[00:07:14] E como ele podia contribuir politicamente para isso

[00:07:16] Eu acho que esse é um excelente projeto

[00:07:19] Se tem um projeto que eu posso dizer

[00:07:21] Que eu dedico a minha vida

[00:07:23] É tentar construir

[00:07:25] A partir da diversidade

[00:07:27] Da experiência de classe

[00:07:28] Das várias lutas

[00:07:30] Contra a desigualdade

[00:07:32] Contra a injustiça

[00:07:33] Contra a opressão

[00:07:34] Contra a exploração

[00:07:35] Pelos mais distintos sujeitos

[00:07:37] Como é que a gente articula essas lutas

[00:07:39] No sentido de produzir

[00:07:41] Uma agência coletiva emancipatória

[00:07:43] Capaz de intervir na história

[00:07:45] De construir o seu próprio destino

[00:07:47] Eu então, nesse sentido, sou um daqueles da velha guarda

[00:07:50] Que ainda acredito num projeto de emancipação universal

[00:07:53] Em que a gente com as nossas diferenças

[00:07:55] Com a nossa diversidade

[00:07:56] Possamos trabalhar junto

[00:07:57] Para mudar a substância da nossa sociedade

[00:07:58] Para mudar substancialmente o mundo

[00:07:59] E construir um mundo radicalmente diferente

[00:08:02] Um mundo movido por um desejo emancipatório

[00:08:05] E um mundo que seja pós-capitalista

[00:08:07] Acho que nos dois sentidos

[00:08:09] Primeiro no sentido de ser anticapitalista

[00:08:11] De abolir o capitalismo

[00:08:15] Mas também pós-capitalista no sentido de

[00:08:17] Construir em cima de coisas que o capitalismo produziu

[00:08:21] Inclusive a tecnologia digital

[00:08:24] A capacidade de a gente estar aqui conversando a distância

[00:08:28] E de como a gente pode usar, na verdade, a inteligência artificial

[00:08:31] Para trabalhar menos

[00:08:32] Em vez de deixar que ela nos controle

[00:08:35] E manipule a nossa vida

[00:08:37] Que ela seja uma ferramenta para a liberdade

[00:08:40] Eu acho que isso…

[00:08:42] Talvez esse tipo de projeto seja hoje um pouco em baixa

[00:08:47] Como a gente está vivendo em tempos tão distópicos

[00:08:51] Ou você ainda tem uma certa atração do realismo capitalista acontecendo

[00:08:55] Mas eu acho também que o realismo capitalista está em retirada

[00:08:57] Essa talvez seja uma posição um pouco polêmica

[00:09:00] Eu acho que tem poucas pessoas hoje que acham que

[00:09:04] Assim, o capitalismo vai continuar indefinidamente

[00:09:08] Mas eu acho que em vez de um desejo pós-capitalista

[00:09:12] Coletivamente articulado

[00:09:14] Que a gente está, na verdade, vivendo uma certa resignação

[00:09:18] Com relação ao próprio fim do mundo

[00:09:23] Você está achando que é mais fácil imaginar o fim do mundo mesmo?

[00:09:27] Ou o fim do capitalismo?

[00:09:28] Isso daí já era mais fácil

[00:09:29] O realismo capitalista é isso

[00:09:31] É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo

[00:09:34] E agora é o fim do mundo

[00:09:36] O problema é que hoje o fim do mundo está muito palpável

[00:09:39] As pessoas não acham que o capitalismo é

[00:09:42] Não vai ter aquele reinado indefinido

[00:09:45] Mas de 90 o capitalismo ainda tinha uma certa pujança

[00:09:48] Inclusive o projeto neoliberal que prometia

[00:09:51] Autonomia, desburocratização

[00:09:54] Liberdades individuais

[00:09:56] Florescimento

[00:09:57] Desenvolvimento individual

[00:09:58] As pessoas ainda de alguma maneira acreditavam nisso

[00:10:01] Hoje a catástrofe, o colapso

[00:10:03] A descrença total está muito mais dominante

[00:10:07] Então o fim do mundo está à mão, digamos assim

[00:10:10] De uma maneira que a própria eternidade do capitalismo

[00:10:13] Já está menos forte do que foi há pouco tempo atrás

[00:10:16] Isso é verdade, mas isso é verdade

[00:10:19] Porém, antes da gente entrar nisso aqui, Victor

[00:10:22] Você não contou

[00:10:23] Como você conheceu o Mark Fisher?

[00:10:24] Essa é uma boa história

[00:10:26] Eu não tenho certeza

[00:10:27] Acho que isso meio que se perde um pouco nas brumas do tempo

[00:10:31] E até peço ajuda para alguns amigos

[00:10:34] Já fiz essa pergunta para alguns amigos

[00:10:35] Como eu conheci o Mark Fisher?

[00:10:38] Porque tem um amigo muito querido

[00:10:40] Que é o Jorge Adel Dato

[00:10:42] Do Ceará também

[00:10:44] É professor na Universidade de Sobral

[00:10:46] Na Uva de Sobral

[00:10:49] Já fui lá também participar de algumas atividades com ele

[00:10:53] E o Jorge é importante nessa história também

[00:10:55] Porque

[00:10:56] Foi com ele que eu traduzi

[00:10:59] O artigo

[00:11:00] Não prestar para nada

[00:11:02] Na madrugada que a gente ficou sabendo da morte do Fisher

[00:11:06] De um dia para o outro

[00:11:08] Era um artigo que ainda não estava

[00:11:10] Não estava à disposição em português

[00:11:14] Mas era um artigo que toda vez que eu lia

[00:11:16] Eu literalmente chorava

[00:11:17] Ele me abalava muito

[00:11:19] E com a morte do Fisher passou a me abalar ainda mais

[00:11:22] Então esse foi o primeiro momento que a gente

[00:11:25] Parou assim para pensar

[00:11:27] Não é possível que o livro do Fisher ainda não esteja em português

[00:11:32] Então o Jorge Adel Dato é um dos tradutores

[00:11:35] Um dos quatro

[00:11:37] Acho que é o Jorge, o Michael, o Rodrigo

[00:11:40] Estou esquecendo alguém?

[00:11:43] Não, é exatamente

[00:11:45] É o Michael da Silveira, o Rodrigo Gonçalves e o Jorge Adel Dato

[00:11:48] E eu fiz a revisão dessa tradução

[00:11:51] Antes de eu retornar a esse ponto

[00:11:53] Eu acho que o Antônio Galvão

[00:11:57] No lançamento do Desejos Pós-Capitalistas

[00:12:00] Ele falou uma coisa que eu concordo demais

[00:12:03] Que essa edição brasileira

[00:12:05] É a melhor edição do Realismo Capitalista que existe no mundo

[00:12:09] Ele já foi traduzido para dezenas de línguas diferentes

[00:12:14] Mas o nível de esmero

[00:12:17] De carinho, de minuciosidade com que nós trabalhamos isso

[00:12:21] Essa tradução

[00:12:23] Eu pessoalmente bati ela

[00:12:26] Com a italiana, com a espanhola

[00:12:29] Eu li frase por frase

[00:12:32] Você viu a tradução também

[00:12:34] Eu com o Michael da Silveira e o Jorge Adel Dato

[00:12:36] Nós discutimos isso intensamente

[00:12:38] Eu acho que a gente conseguiu

[00:12:40] De uma maneira talvez pouco comum

[00:12:43] Replicar a fluidez do estilo do Fisher

[00:12:48] Como se ele estivesse falando em uma língua nativa

[00:12:51] É uma tradução que não é truncada

[00:12:53] Ela é bonita

[00:12:55] Ela é de fácil assimilação

[00:12:57] Ela é gostosa do jeito que o Fisher escreve

[00:12:59] Porque às vezes isso se perde na tradução também

[00:13:02] Ele é um baita escritor

[00:13:03] É muito agradável lê-lo

[00:13:04] Então a gente construiu uma tradução que é também

[00:13:07] Bastante agradável

[00:13:09] Muito interessante

[00:13:11] Que não exige a pessoa ser especialista

[00:13:14] Ela é bastante acessível

[00:13:17] Você não fica perdido no texto

[00:13:19] E ainda vem de quebra com esse pós-fácil

[00:13:22] Junto com o Rodrigo Gonçalves

[00:13:24] Que dá um mapa direitinho

[00:13:26] Por que ele está falando isso?

[00:13:27] De onde é que isso está vindo?

[00:13:28] Que tipo de coisa ele viveu antes?

[00:13:31] Qual é a formação acadêmica dele?

[00:13:33] Quais são as referências?

[00:13:34] E o que ele foi fazer depois?

[00:13:36] Qual foi o impacto desse livro

[00:13:38] Já na Inglaterra, nos Estados Unidos?

[00:13:40] Todo esse mapeamento da recepção do Realismo Capitalista

[00:13:42] Já está presente

[00:13:44] Quando o sujeito vai ler o Realismo Capitalista em português

[00:13:48] E ainda tem o bônus

[00:13:50] Tem alguns textos adicionais como esse

[00:13:52] O Não Prestar Pra Nada

[00:13:53] Que acaba entrando na edição

[00:13:55] Acho também

[00:13:56] Como Matar Um Zumbi

[00:13:57] Que é um excelente texto de intervenção política antineoliberal

[00:14:01] Do Fischer

[00:14:02] Acho que tem também um que é

[00:14:05] Ninguém está entediado

[00:14:07] Mas tudo é entediante

[00:14:08] Alguma coisa assim

[00:14:09] Então acho que dá uma amplitude a mais

[00:14:11] Do que o Fischer estava tratando

[00:14:14] Então fecho esse parênteses sobre a belíssima edição

[00:14:18] Que está…

[00:14:19] Que o público brasileiro tem à sua disposição

[00:14:22] Eu vou falar só um instante

[00:14:24] Eu comparo o Fischer com o Rockstar

[00:14:27] E os livros dele com discos

[00:14:29] E o Realismo Capitalista é que nem aqueles discos japoneses

[00:14:32] Como chega atrasado

[00:14:34] Você precisa dar um tchan

[00:14:36] Então tem faixa bônus

[00:14:38] Tem esse pós-fácil

[00:14:42] Realmente é a melhor edição que eu conheço

[00:14:45] Que eu já peguei na mão do Fischer

[00:14:48] É a mais completa, a mais interessante

[00:14:50] E a que mais representa o espírito dele

[00:14:54] Acho que o fato de ter demorado

[00:14:56] Fez com que ela tenha vindo com tanta atenção

[00:14:59] Tanta gente botando a mão

[00:15:00] Tanta gente ali olhando

[00:15:03] Momento a momento

[00:15:05] Preparando nota

[00:15:07] Porque é isso assim

[00:15:08] O Fischer não é um autor necessariamente fácil

[00:15:11] Porque ele faz muitas referências a muitas coisas ao mesmo tempo

[00:15:14] De diferentes contextos e tudo mais

[00:15:16] Que precisa realmente desse olhar

[00:15:19] Por mais de uma pessoa

[00:15:20] Para conseguir garantir que a obra vai

[00:15:22] Funcionar em português, por exemplo

[00:15:24] Mas você ainda não contou, Victor

[00:15:27] Tem um detalhe estético

[00:15:28] Até que a diferença de capa

[00:15:30] Eu não sei em que medida isso foi pensado

[00:15:33] Mas acho que tem uma coisa que vale a pena comentar

[00:15:35] As pessoas não estão vendo aqui

[00:15:36] Quem está assistindo eu vou mostrar

[00:15:38] A capa original do Realismo Capitalista é essa

[00:15:41] Com um prédiozinho espelhado

[00:15:43] Típico assim

[00:15:44] Dos centros financeiros

[00:15:46] Da cidade

[00:15:48] Desses prédios onde estão os bancos

[00:15:50] Os fundos financeiros

[00:15:52] Esse tipo de coisa

[00:15:53] Parece essa coisa meio de Matrix

[00:15:55] É uma estética própria da virada do século

[00:15:59] E eu acho que aí mostra a estabilidade

[00:16:01] Do Realismo Capitalista nesse momento

[00:16:03] Como o livro é traduzido 10 anos depois

[00:16:06] A capa aqui é de um prédio sendo implodido

[00:16:10] Já é o colapso

[00:16:12] É um livro que já aparece aqui para o nosso público

[00:16:15] Depois do que eu chamo assim meio brincando

[00:16:17] Do evento de colapso de realidade

[00:16:19] Porque eu acho que de fato

[00:16:21] Os efeitos políticos da crise de 2008

[00:16:24] Com o qual o Fischer está dialogando diretamente

[00:16:27] Então esse é um livro de 2009

[00:16:29] Ele é uma resposta imediata

[00:16:31] A quente

[00:16:33] Porque o Fischer está blogueando sobre ela

[00:16:35] Está escrevendo no blog sobre essas coisas

[00:16:37] Mas os efeitos políticos dela são um pouco demorados

[00:16:41] Primeiro porque vai ter um tempo assim

[00:16:43] Para os movimentos

[00:16:45] Aparecerem

[00:16:47] Seja os movimentos da direita

[00:16:49] Como os movimentos do Burfer

[00:16:51] Do Trump

[00:16:53] Do Tipar, esse tipo de coisa

[00:16:55] Mas os nossos movimentos contestatórios

[00:16:57] Como o pessoal do Occupy Wall Street

[00:16:59] Das acampadas

[00:17:01] Da Praça do Sol

[00:17:03] Da Praça Tahrir

[00:17:05] Da própria Primavera Árabe

[00:17:07] Você tem essa convulsão ali

[00:17:09] Entre 2011 e 2013 mais ou menos

[00:17:11] E logo depois

[00:17:13] Você tem a implosão do Centro

[00:17:15] Que é o Brexit

[00:17:17] Que é a vitória do Donald Trump

[00:17:19] É o início da ascensão

[00:17:21] Da direita populista

[00:17:23] E dessas forças políticas

[00:17:25] Que eram muito marginais

[00:17:27] Que de repente elas tomam

[00:17:29] A centralidade

[00:17:31] Vão para o centro do tabuleiro do palco

[00:17:33] Até algumas tentativas nossas

[00:17:35] Então eu acho que reflete muito

[00:17:37] Digamos assim

[00:17:39] O Fischer estava ainda vendo essa possibilidade

[00:17:41] Ele estava falando

[00:17:43] Da desestabilização

[00:17:45] Do pacto neoliberal

[00:17:47] Pós crise de 2008

[00:17:49] Mas a coisa fica muito mais evidente

[00:17:51] Nas suas consequências políticas

[00:17:53] De 2015 em diante

[00:17:55] O Fischer está também comentando sobre isso

[00:17:57] Dialogando inclusive

[00:17:59] Aparece bastante de novo

[00:18:01] Nas últimas aulas dele

[00:18:03] Que são de 2017

[00:18:05] Do desejo dos pós capitalistas

[00:18:07] Que a gente vai falar mais tarde

[00:18:09] Eu ainda não respondi a pergunta

[00:18:11] E agora eu vou responder

[00:18:13] Porque o Realismo Capitalista

[00:18:15] É um livro de blog

[00:18:17] Todos os textos

[00:18:19] Todos os conceitos que aparecem

[00:18:21] No texto eles são experimentados

[00:18:23] No ambiente do blog

[00:18:25] Então eles são testados lá

[00:18:27] Inclusive com feedback da caixa de comentários

[00:18:29] Porque o Fischer abre a caixa de comentários

[00:18:31] Tem um debate grande no blog deles

[00:18:33] Formam uma rede de blogs

[00:18:35] Debatendo, assumindo aqueles conceitos

[00:18:37] Meio que tornando os conceitos

[00:18:39] De fato assim

[00:18:41] Não só de intervenção da realidade

[00:18:43] De diagnóstico

[00:18:45] Mas dando uma certa concretude

[00:18:49] E eu acho que eu acompanhava

[00:18:51] O blog do Fischer

[00:18:53] Eu não tenho certeza disso

[00:18:55] Eu acho

[00:18:57] Porque o Jorge Adel Dato

[00:18:59] Por isso que eu falei do Jorge Adel Dato

[00:19:01] Lá de trás

[00:19:03] Quando eu perguntei para ele

[00:19:05] Como é que a gente conheceu o Fischer

[00:19:07] Ele falou que a gente lia o blog dele

[00:19:09] Ali na primeira metade da década

[00:19:11] Nós éramos blogueiros também

[00:19:13] Meio ligado assim

[00:19:15] A uma literatura um pouco surrealista

[00:19:17] Fantástica

[00:19:19] Uma comparada a Gonzo

[00:19:21] A gente gostava disso daí

[00:19:23] E a gente estava atrás dos blogs internacionais

[00:19:25] Que estavam falando coisas interessantes

[00:19:27] E como o Fischer gostava basicamente

[00:19:29] Das mesmas coisas que a gente

[00:19:31] Tipo o Philip K. Dick

[00:19:33] E Joy Division

[00:19:35] Esse tipo de coisa que

[00:19:37] Adolescentes nerd meio esquisitos gostam

[00:19:39] É provável que a gente tenha esbarrado neles

[00:19:41] Diz o Jorge Adel Dato

[00:19:43] Que o K-Punk estava na nossa lista

[00:19:45] Do blogs que a gente seguia no nosso blog

[00:19:47] Isso daí eu não tenho nem como comprovar

[00:19:49] Nem descomprovar

[00:19:51] Tem sim

[00:19:53] Se você me der o endereço

[00:19:55] Eu acho aqui

[00:19:57] Se perderam

[00:19:59] Nem vale a pena ir atrás

[00:20:01] Mas eu sei também

[00:20:03] Que eu comprei o Realismo Capitalista

[00:20:05] Logo quando ele saiu

[00:20:07] Tá

[00:20:09] Eu comprei não porque

[00:20:11] Eu associava ele ao K-Punk

[00:20:13] Mas porque eu estava em uma fase

[00:20:15] Muito Zizekiana

[00:20:17] Aí já não como blogueiro

[00:20:19] No começo da primeira metade

[00:20:21] Da década dos anos 2000

[00:20:23] Mas já agora no meu mestrado

[00:20:25] Eu tinha ido para a filosofia

[00:20:27] Tinha saído da biologia

[00:20:29] Ido trabalhar com filosofia

[00:20:31] Com teoria

[00:20:33] O Zizek estava aparecendo como uma figura

[00:20:35] Curiosa também

[00:20:37] Um cara que não se encaixava muito

[00:20:39] No ambiente

[00:20:41] Mesmo no vocabulário acadêmico tradicional

[00:20:43] Estava inclusive trazendo uma leitura

[00:20:45] Do Lenin

[00:20:47] Que era uma coisa totalmente fora de moda

[00:20:49] Nessa época

[00:20:51] Quase foi cancelado

[00:20:53] Por falar do Lenin algumas vezes

[00:20:55] Mas fez coletâneas com textos do Lenin

[00:20:57] Colocou o Lenin na capa

[00:20:59] Esse tipo de coisa

[00:21:01] E era um cara engraçado

[00:21:03] Então era bastante divertido também

[00:21:05] Ler as coisas do Zizek

[00:21:07] Depois acho que foi ficando muito repetitivo

[00:21:09] Porque ele estava um pouco deslocado da realidade

[00:21:11] Já não é uma referência para mim

[00:21:13] Mas eu confesso que ali nos anos 2007

[00:21:15] 2008, 2009

[00:21:17] Eu estava lendo tudo que o Zizek publicava

[00:21:19] Todo livro novo que ele lançava

[00:21:21] Eu comprava

[00:21:23] E ele falou

[00:21:25] Olha, tem um livro muito bom

[00:21:27] Inclusive acho que é um blurb

[00:21:29] Que está na contracapa

[00:21:31] É isso

[00:21:33] O Realismo Capitalista recebe um blurb do Zizek

[00:21:35] Que na época era uma coisa super importante

[00:21:37] Ele era um brasileiro

[00:21:39] Que estava trabalhando

[00:21:41] Meio que na escola técnica

[00:21:43] Na educação continuada britânica

[00:21:45] Ele não estava na primeira linha

[00:21:47] Digamos assim

[00:21:49] Eu acho que quando sai o Realismo Capitalista

[00:21:51] Ele já é editor da

[00:21:53] Da The Wire

[00:21:55] Porque um tempo ele trabalha

[00:21:57] Como editor de opinião da The Wire

[00:21:59] Sim

[00:22:01] Agora não tenho certeza se já era agora

[00:22:03] Se foi ali ou se foi um pouco depois

[00:22:05] Não tenho certeza

[00:22:07] Ele é um grande estabelecido

[00:22:09] Alguém conhecido pela produção de alta teoria

[00:22:11] Esse tipo de coisa

[00:22:13] O melhor momento da carreira dele

[00:22:15] Foi ter sido crítico de música

[00:22:17] Ter sido publicado

[00:22:19] A partir do momento que ele virou esse blogueiro

[00:22:21] Ficou conhecido na blogosfera

[00:22:23] Pegou amizade com uma galera que escrevia em blog

[00:22:25] E também era jornalista de música

[00:22:27] E começou a publicar os textos

[00:22:29] Que depois vão parar lá no

[00:22:31] Fantasma da minha vida, por exemplo

[00:22:33] Mas não só

[00:22:35] São republicanos do K-Punk, etc

[00:22:37] Que aí tem essa pegada mais

[00:22:39] De crítico musical

[00:22:41] Só que obviamente

[00:22:43] Crítico musical super intelectual

[00:22:45] Dentro da tradição britânica

[00:22:47] Onde ele veio

[00:22:49] E era o máximo de conhecimento

[00:22:51] Que as pessoas tinham sobre o Fischer

[00:22:53] Eu lembro disso porque eu lembro dele

[00:22:55] Nas páginas da The Wire

[00:22:57] Eu conheci ele como crítico de música, por exemplo

[00:22:59] Pois é, então ele recebe esse blurb do Gigi

[00:23:01] Que eu vejo o Gigi falando sobre o livro

[00:23:03] Que era uma contribuição importante

[00:23:05] E eu compro sem esperar muita coisa

[00:23:07] Sem conectá-lo, sem associá-lo

[00:23:09] Com o K-Punk

[00:23:11] Eu acho que eu já tinha visto o K-Punk antes

[00:23:13] Mas eu não estava ligando o nome com a pessoa

[00:23:15] Eu não estava acompanhando o blog na época que o livro sai

[00:23:17] Isso aí eu tenho certeza

[00:23:19] Posso ter acompanhado antes

[00:23:21] Na pré-história, digamos assim

[00:23:23] Do Fischer

[00:23:25] No começo dos anos 2000

[00:23:27] Eu gosto do livro

[00:23:29] Acho o livro interessante

[00:23:31] Mas é engraçado que ele não me pega assim

[00:23:33] Da maneira como ele vai me pegar depois

[00:23:35] A minha primeira leitura

[00:23:37] Não é a leitura que me impacta

[00:23:39] Mas eu acho

[00:23:41] Mas essa é a minha tese sobre a recepção

[00:23:43] Inicial desse bagulho do Fischer no Brasil

[00:23:45] Do realismo capitalista no Brasil

[00:23:47] Capitalist Realism

[00:23:49] Do fato de que o Fischer

[00:23:51] Ele está

[00:23:53] Falando sobre uma crise global

[00:23:55] Que não pegou do mesmo jeito

[00:23:57] A gente não ter passado

[00:23:59] Demorou alguns anos

[00:24:01] Para a gente ter uma crise econômica

[00:24:03] Aguda

[00:24:05] Quanto foi a crise de 2008

[00:24:07] Para o, entre aspas, primeiro mundo

[00:24:09] Para o norte global

[00:24:11] E ficou um pouco mais difícil a gente olhar

[00:24:13] Putz, mas como não existe um mundo diferente

[00:24:15] Se aqui no Brasil a gente está tendo uma experiência diferente

[00:24:17] Do que vocês estão tendo aí

[00:24:19] Nesses buracos que vocês vivem

[00:24:21] Que vocês chamam de primeiro mundo

[00:24:23] E eu acho que isso fez muita diferença para a gente

[00:24:25] Era o auge do governo Lula

[00:24:27] A gente elegeu a Dilma pela primeira vez

[00:24:29] Em 2010

[00:24:31] O livro sai em 2009

[00:24:33] Eu acho que qualquer jovem

[00:24:35] Mais ou menos da nossa idade

[00:24:37] Até mais jovem que a gente

[00:24:39] Talvez um pouco mais velho

[00:24:41] Não estava preocupado com essas questões aí da crise não

[00:24:43] Talvez isso seja uma explicação psicológica

[00:24:45] De porque essa minha primeira leitura

[00:24:47] Não

[00:24:49] Cala fundo

[00:24:51] De alguma maneira

[00:24:53] E não produz um investimento libidinal

[00:24:55] Que mais tarde vai aparecer

[00:24:57] Eu não tenho certeza, Maurinho

[00:24:59] Porque eu acho que na época

[00:25:01] Tem temas semelhantes

[00:25:03] E embora

[00:25:05] Eu evidentemente

[00:25:07] Votei no Lula

[00:25:09] Sempre que eu votei

[00:25:11] Desde a primeira vez da minha vida

[00:25:13] Desde 2002 que eu voto no Lula

[00:25:15] Sempre que ele se candidatou eu votei nele

[00:25:17] E eu fui para a primeira posse do Lula

[00:25:19] E tudo

[00:25:21] Eu venho de uma certa tradição

[00:25:23] Que às vezes

[00:25:25] Até em São Paulo isso é mais forte

[00:25:27] Do que no Ceará

[00:25:29] Tem até nome

[00:25:31] Uma tradição anarcopetista

[00:25:33] Digamos assim

[00:25:35] As pessoas que votam no PT

[00:25:37] Mas que tem uma formação

[00:25:39] Militante

[00:25:41] Teórica

[00:25:43] Ligada à tradição autonomista

[00:25:45] E claro que isso no petismo

[00:25:47] Tem até um certo sentido mais profundo

[00:25:49] Porque alguns dos fundadores importantes

[00:25:51] Do PT

[00:25:53] Se filiam a essa tradição de maneira muito explícita

[00:25:55] Então

[00:25:57] O Pedagogia do Oprimido, do Paulo Freire

[00:25:59] É um livro tipicamente petista

[00:26:01] É um livro importante para o autonomismo brasileiro

[00:26:03] O outro livro

[00:26:05] Quando os novos atores entram em cena

[00:26:07] Do Eder Sader

[00:26:09] Que é um livro também central para o autonomismo brasileiro

[00:26:11] E era dirigente do PT

[00:26:13] O Eder Sader foi até a sua morte

[00:26:15] Dirigente do Partido dos Trabalhadores

[00:26:17] Mas na época

[00:26:19] Eu já estava assim

[00:26:21] Com a sensação

[00:26:23] Certo?

[00:26:25] Que depois até melhorou um pouco

[00:26:27] De que

[00:26:29] O PT era algo não muito diferente

[00:26:31] Da socialdemocracia

[00:26:33] Pós 89

[00:26:35] Digamos assim

[00:26:37] Na Europa

[00:26:39] E que havia

[00:26:41] De alguma maneira se integrado ao sistema

[00:26:43] E portanto estava fazendo algo

[00:26:45] Como uma gestão do neoliberalismo

[00:26:47] Depois a gente foi até criando expressões

[00:26:49] Para tentar articular isso

[00:26:51] Como a Nancy Fraser fala

[00:26:53] Do neoliberalismo progressista

[00:26:55] Então eu estava meio

[00:26:57] Já nessa época com o diagnóstico

[00:26:59] De que

[00:27:01] Por aí não vai sair muita coisa

[00:27:03] Mas eu acho que realmente

[00:27:05] Quando o livro do Fischer sai

[00:27:07] Talvez seja um dos melhores momentos

[00:27:09] Do governo Lula

[00:27:11] E aí você fica

[00:27:13] E era o momento em que você tinha

[00:27:15] Os governos progressistas na Bolívia

[00:27:17] A Venezuela estava bem

[00:27:19] Você tinha

[00:27:21] Aquela Pink Tide no máximo

[00:27:23] De que você poderia usar

[00:27:25] As eleições para aprofundar

[00:27:27] Intensificar o processo de democratização

[00:27:29] Fazer até ameaças

[00:27:31] Ao sistema de propriedade

[00:27:33] A reprodução capitalista

[00:27:35] Combinando de alguma maneira

[00:27:37] Pressão nas ruas

[00:27:39] Com atividade institucional, eleitoral

[00:27:41] Aliás, esse é o tipo de estratégia

[00:27:43] Que eu ainda defendo

[00:27:45] É isso que eu acredito

[00:27:47] Uma combinação que o nosso

[00:27:49] Finado Olavo de Carvalho

[00:27:51] Chamaria de estratégia das tesouras

[00:27:53] Que vem um pouco a militância de rua

[00:27:55] Radical fazendo pressão por um lado

[00:27:57] E você tem os munchevics

[00:27:59] Na institucionalidade

[00:28:01] Sendo de alguma maneira

[00:28:03] Pressionados ou estimulados

[00:28:05] Por essa ação

[00:28:07] Que vem de fora

[00:28:09] E você provoca mudança social

[00:28:11] A partir daí

[00:28:13] Eu sou ao contrário do Olavo de Carvalho

[00:28:15] Que denunciava a estratégia das tesouras

[00:28:17] Eu acho que a esquerda usa pouco

[00:28:19] Da estratégia das tesouras

[00:28:21] Que é uma excelente estratégia

[00:28:23] Para ajudar a construir poder

[00:28:25] Mas então você tem razão

[00:28:27] Talvez na época eu estava muito conectado

[00:28:29] Com o ciclo de governos progressistas

[00:28:31] Olhando bastante

[00:28:33] O que estava acontecendo

[00:28:35] De experimento de democracia radical

[00:28:37] Na Bolívia

[00:28:39] Na formação dos conselhos populares

[00:28:41] Toda essa ideia

[00:28:43] De alguma maneira você pode juntar

[00:28:45] A institucionalidade com militância

[00:28:47] Com reivindicação

[00:28:49] Contestatória

[00:28:51] E isso produzir algum tipo de avanço social

[00:28:53] Talvez por isso que o Fischer não me pega

[00:28:55] Aí o meu segundo momento

[00:28:57] Meu reencontro com o Fischer

[00:28:59] Talvez o meu terceiro reencontro

[00:29:01] É em 2014, 2015

[00:29:03] Em que eu acho

[00:29:05] Que aí é quando eu percebo

[00:29:07] Que ele faz a melhor leitura

[00:29:09] Da estrutura

[00:29:11] Da temporalidade contemporânea

[00:29:13] É isso que me pega

[00:29:15] É a ideia do

[00:29:17] Cancelamento do futuro

[00:29:19] E na verdade

[00:29:21] Até uma reivindicação do futuro

[00:29:23] Uma tentativa de reclaim

[00:29:25] De reconquistar o futuro

[00:29:27] De reivindicar o futuro novamente

[00:29:29] De criar algum tipo de horizonte

[00:29:31] Mais amplo

[00:29:33] Porque aí

[00:29:35] Talvez se a gente tiver essa oportunidade

[00:29:37] Também discutir um pouco estratégia política

[00:29:39] E eu acho

[00:29:41] O Fischer é importante para mim

[00:29:43] E eu acho que a gente fez tanto esforço

[00:29:45] Para trazê-lo

[00:29:47] Porque ele não é

[00:29:49] Um comentarista crítico

[00:29:51] Desengajado

[00:29:53] Que está falando

[00:29:55] Sobre, sei lá, sociedade

[00:29:57] Flutuando acima dela

[00:29:59] Sobretudo nos últimos anos

[00:30:01] Os últimos 10 anos da vida dele

[00:30:03] Era alguém que estava o tempo todo

[00:30:05] Se debatendo

[00:30:07] Se confrontando

[00:30:09] Com questões de natureza estratégica

[00:30:11] Organizacional

[00:30:13] Programática

[00:30:15] De formulação

[00:30:17] E de como a atividade política

[00:30:19] Entra em contato

[00:30:21] Com a formulação crítica

[00:30:23] Essa era a preocupação dele

[00:30:25] Ele estava engajado com o movimento

[00:30:27] Com o autonomismo britânico também

[00:30:29] Com o coletivo Plan C

[00:30:31] Eu acho que a gente menciona isso

[00:30:33] No pós-fácil

[00:30:35] E ao mesmo tempo em 2012

[00:30:37] Ele já se filia ao Partido Trabalhista

[00:30:39] Ou seja, três anos antes do Corbyn

[00:30:41] Que é o momento em que a esquerda britânica

[00:30:43] Vai para o Partido Trabalhista

[00:30:45] Depois é um desastre total

[00:30:47] A gente pode falar disso também mais tarde

[00:30:49] Mas ele faz essa aposta

[00:30:51] Ele é um sujeito que está querendo fazer apostas

[00:30:53] Ele não está

[00:30:55] Com um olhar distante

[00:30:57] Ele não é um acadêmico

[00:30:59] Tanto que ele não é um acadêmico praticamente

[00:31:01] Vai ser mais no fim da vida

[00:31:03] Que ele vai passar até aulas

[00:31:05] Vai lecionar na Goldsmiths e tudo mais

[00:31:07] Ele não é um acadêmico

[00:31:09] Que ignora

[00:31:11] A décima primeira tese sobre o Führer-Badumax

[00:31:13] Pelo contrário

[00:31:15] É um acadêmico bastante engajado com essa ideia

[00:31:17] Eu acho interessante você falar isso

[00:31:19] Amaury, porque eu acho que esse talvez seja

[00:31:21] A descrição central

[00:31:23] Da atividade do Fischer

[00:31:25] Ele até chama isso de

[00:31:27] Conjunção espinozista-nittiana-marxista

[00:31:31] De que a sua teoria não deve ser

[00:31:33] Meramente representativa

[00:31:35] Contemplativa

[00:31:37] E tem aí toda a discussão da hipertensão

[00:31:39] Que a gente pode falar um pouco

[00:31:41] Sobre isso

[00:31:43] De como a teoria é na verdade

[00:31:45] Uma forma de intervenção

[00:31:47] Na realidade

[00:31:49] Uma forma de se engajar de maneira transformadora

[00:31:51] Com a realidade

[00:31:53] Então ele acha que essa teoria

[00:31:55] Que serve apenas para pairar em cima da realidade

[00:31:57] Contemplar passivamente a realidade

[00:31:59] Não serve para nada

[00:32:01] Então ele obedece enquanto ativista

[00:32:03] Essa injução espinozista-nittiana-marxista

[00:32:07] De que não vale de nada

[00:32:09] Apenas interpretar

[00:32:11] De várias maneiras

[00:32:13] Você tem que se engajar de maneira prática

[00:32:15] Com um horizonte de transformação

[00:32:17] E que exigem apostas

[00:32:19] Isso é um nível de contingência

[00:32:21] Da atividade política

[00:32:23] Que eu pessoalmente

[00:32:25] Acho que é

[00:32:27] Intransponível

[00:32:29] Você não tem como escapar disso

[00:32:31] E até o marxismo demorou

[00:32:33] Para entender isso

[00:32:35] Porque o marxismo achou em algum momento

[00:32:37] Que produzir uma teoria

[00:32:39] Como materialismo histórico

[00:32:41] Ele daria um mapa

[00:32:43] Em que você saberia exatamente

[00:32:45] O caminho da intervenção

[00:32:47] Que você poderia a priori

[00:32:49] Definir teoricamente

[00:32:51] O que vai dar certo ou não

[00:32:53] E eu acho que hoje a gente escapou desse tipo de ilusão

[00:32:55] Ninguém sabe o que fazer a priori

[00:32:57] A política é uma atividade experimental

[00:32:59] E isso quer dizer

[00:33:01] Que você tem que apostar em coisas

[00:33:03] E o legal do Fischer

[00:33:05] É que ele apostava

[00:33:07] E as vezes algumas coisas que ele apostava dava errado

[00:33:09] E ele pagava o preço por essa aposta

[00:33:11] Mas aí você quer ser um militante

[00:33:13] É um negócio

[00:33:15] É muito interessante que ele tenha se engajado

[00:33:17] Politicamente

[00:33:19] E ele tenha feito o que ele fez

[00:33:21] No sentido político e de busca

[00:33:23] Porque ele vem de um

[00:33:25] Espaço onde o cinismo

[00:33:27] Impera

[00:33:29] As pessoas são cínicas

[00:33:31] Na academia

[00:33:33] No jornalismo

[00:33:35] O jornalista adora isso

[00:33:37] Não, eu sou uma pessoa neutra

[00:33:39] Eu tenho que reportar os fatos

[00:33:41] E aí você não tem uma atividade política mais

[00:33:43] Isso o Fischer foi muito importante para mim

[00:33:45] Você não tem uma atividade política

[00:33:47] Mais incisiva

[00:33:49] Só porque você é jornalista

[00:33:51] Eu acho que é um absurdo isso

[00:33:53] E acho que o Fischer para mim por exemplo

[00:33:55] Para mim também funcionou

[00:33:57] Nesse ponto de vista

[00:33:59] Tipo, não, você é um jornalista

[00:34:01] Mas você pode militar, ser ativista

[00:34:03] Ter causas

[00:34:05] Lutar por coisas

[00:34:07] Para além de, tipo, estou aqui contando

[00:34:09] O que está acontecendo no mundo

[00:34:11] E a quebra dessa barreira

[00:34:13] Desse cinismo

[00:34:15] Desse sarcasmo

[00:34:17] Ah não, isso aí também

[00:34:19] Esquerda e direita é tudo horrível

[00:34:21] Ela exige que você

[00:34:23] Se coloque em risco

[00:34:25] É muito fácil você estar

[00:34:27] Em uma posição mais cínica

[00:34:29] De interpretador do mundo

[00:34:31] Professor de tudo

[00:34:33] Se você não vai

[00:34:35] Não, minha aposta é essa

[00:34:37] Isso aqui vai dar certo desse jeito

[00:34:39] Óbvio que isso não quer dizer

[00:34:41] Que você tem que abandonar a posição crítica

[00:34:43] Pelo contrário

[00:34:45] Você tem que ser a pessoa que tem que trazer a crítica

[00:34:47] Para o ambiente

[00:34:49] Para o ambiente material

[00:34:51] Mas isso não quer dizer

[00:34:53] Que você tem que se eximir completamente

[00:34:55] Porque é isso

[00:34:57] É muito simples

[00:34:59] Muito fácil você entrar lá

[00:35:01] Hoje eu nem uso mais Twitter

[00:35:03] Mas você entrar lá no Twitter e escrever uma medusa de coisas

[00:35:05] Olha só meus hot takes

[00:35:07] Olha meu textão aqui no Facebook

[00:35:09] Como era antigamente

[00:35:11] E aí, para onde você vai a partir disso

[00:35:13] Então assim

[00:35:15] Acho que para muita gente isso pode ter feito diferença

[00:35:17] Para mim eu sei que fez também

[00:35:19] E eu também reencontrei o Fischer

[00:35:21] É muito interessante assim

[00:35:23] Que me parece que

[00:35:25] Vamos descobrir agora ao longo

[00:35:27] Dessas conversas que a gente vai ter

[00:35:29] Como são essas falhas do Fischer

[00:35:31] Porque eu acho que outras pessoas me parecem

[00:35:33] Também ter essa relação

[00:35:35] Ah, eu li o Fischer, conhecia e tal

[00:35:37] Mas quando a gente foi chegando

[00:35:39] Na nossa crise de 2015

[00:35:41] O impeachment da Dilma

[00:35:43] Ele ficou inevitável aqui no Brasil

[00:35:45] E essa crise obviamente não acontece só no Brasil

[00:35:47] Que é a crise que vai dar no Trump

[00:35:49] É a crise que vai dar no Brexit

[00:35:51] É diferente

[00:35:53] Todas elas se entrelaçam

[00:35:55] Assim, olha

[00:35:57] Eu sou uma pessoa que sempre

[00:35:59] Fiquei de olho na extrema direita

[00:36:01] Sempre

[00:36:03] Um lance de ser punk

[00:36:05] Aí você conhece um monte de nazista

[00:36:07] Porque tem skinhead

[00:36:09] Aí você tem que ficar preocupado de não apanhar

[00:36:11] Essas fitas em geral

[00:36:13] Eu não sou uma pessoa de brigar na rua

[00:36:15] Nada contra, mas não é meu tipo

[00:36:17] Mas você tem que se preocupar

[00:36:19] Você tem que entender de onde está vindo

[00:36:21] E eu não esperava

[00:36:23] Que a extrema direita

[00:36:25] Fosse conseguir se articular tão bem

[00:36:27] No nível global

[00:36:29] Ao ponto de eleger o Trump em 2016

[00:36:31] Eu achava que era possível

[00:36:33] Eu achava que ia matar ele

[00:36:35] Se ele fosse eleito

[00:36:37] E ele está aí até agora

[00:36:39] No novo mandato

[00:36:41] E agora a extrema direita

[00:36:43] É uma coisa que está sendo debatida, lida

[00:36:45] Todo mundo agora conhece

[00:36:47] Não, eu sei

[00:36:49] Somente a extrema direita

[00:36:51] Quem olha

[00:36:53] Quem monitora

[00:36:55] Isso

[00:36:57] Eu duvido que alguém imaginava

[00:36:59] Que esses caras vão conquistar o poder

[00:37:01] Através do voto

[00:37:03] Nessa mania muito louca de redes sociais

[00:37:05] Eu acho que as pessoas tinham

[00:37:07] Diferentes perspectivas

[00:37:09] Quando elas se juntam

[00:37:11] A gente consegue perceber isso

[00:37:13] Mas eu lembro que 2016

[00:37:15] Foi quase chocante

[00:37:17] Essa

[00:37:19] Agora eu queria aproveitar aqui as perguntas da plateia, a interação, e o Denilson, que também é do Ceará, Vitor, ele falou…

[00:37:29] A maravilha, um conterrâneo cearense.

[00:37:31] Exatamente, ele está lá no canal da Autonomia e ele perguntou, ele veio aqui falar que o Fischer é tipo intelectual orgânico, como o Granch cita.

[00:37:40] O que você acha que tem de Granch em Fischer e de Fischer em Granch? Você acha que existe um diálogo entre eles? Possível ou impossível?

[00:37:47] Esse diálogo é um diálogo que estava sendo travado pelo último Fischer, o Fischer pós-realismo capitalista, que adota essa postura de intelectual orgânico também,

[00:37:58] porque agora ele é conhecido pelo livro, ele é chamado muito a participar de conferências, mas também de discussões internas de grupos de militantes,

[00:38:06] de gente que está preocupada com estratégia política.

[00:38:11] E eu tendo a achar, na verdade, que nessa fase aí, problemas com realidades…

[00:38:17] Em relação à hegemonia, que são problemas que também o Laclau e a Chantal Mouffe estão trabalhando, passam a ser muito importantes para o Fischer.

[00:38:27] E acho que ele tem uma influência que é…

[00:38:31] É engraçado também que em alguns momentos você vê o Fischer dialogando com coisas que na juventude ele rejeitava.

[00:38:40] Então, o último Fischer, por exemplo, do comunismo ácido, holizético, vai fazer um debate com os filhos.

[00:38:47] Tipes com a contracultura da década de 60, que o Fischer da década de 90, punk, desprezava.

[00:38:55] Como uns maconheiros sujos.

[00:38:57] Tem postagem do Fischer falando mal de maconha e tudo.

[00:39:01] Ele gostava mais de, sei lá, de speed, vitamina, coisa assim.

[00:39:07] O Fischer parece muito mais um abstemio que gosta dos estados altos de consciência em tese do que um usuário como o Nick Land.

[00:39:16] Como o Nick Land, é.

[00:39:18] Então, e uma coisa que eu acho que ele revisita também, de uma maneira produtiva, é a relação com os estudos culturais.

[00:39:26] De certa maneira, a CCRU é criada, acho que talvez seja bom a gente entrar nisso,

[00:39:32] a unidade de pesquisa em cultura cibernética na qual o Fischer é formado.

[00:39:37] O pensamento dele, o fundacional do pensamento dele está nessa época da década de 90.

[00:39:42] Ele não nega isso, ele reconhece toda a influência que o Nick Land,

[00:39:46] apesar de ter se tornado essa figura, digamos assim, torpe, viu, até?

[00:39:53] O Fischer nunca criou uma linha de ruptura, dizendo, ah, eu não considero, mas ele sempre foi…

[00:40:00] Como eu costumava dizer, o Nick Land é o nosso Nietzsche, a mesma mistura do reacionário com o futurista.

[00:40:10] Eu acho que o Nick Land, de fato, é o Júlio Zévola da…

[00:40:14] Da…

[00:40:16] Da cibernética.

[00:40:18] E queria até já deixar a dica, para quem não ouviu, o Vitor participou do Vira Casacas,

[00:40:22] um dos podcasts amigos aqui do Crise, um dos grandes podcasts brasileiros de política,

[00:40:28] falando sobre o Nick Land, os aceleracionistas contemporâneos, como está a extrema direita no mundo hoje,

[00:40:33] o que é esse governo Trump, e lá está, assim, está bem explicado.

[00:40:37] A galera ficou falando, eu achei muito engraçado, porque eu falei, pô, cacete, mano, eu sou muito online, mano,

[00:40:42] eu conheço todos os nomes que o Vitor está falando, e a galera falando…

[00:40:46] A gente não pensou em nenhum.

[00:40:48] Não, galera, assim, eu estava com um caderninho, tipo, puta que pariu, mano, eu conheço cada um desses desgraçados, mano,

[00:40:53] é bem, sabe, eu ouvi falar do Mike Anderson, vem aquela cabeça de ovo na mente…

[00:40:57] A cabeça de ovo.

[00:40:58] Filha da mãe.

[00:41:00] Mas, bem, é…

[00:41:02] Não, mas vamos lá, retomar.

[00:41:04] Que é nóis, vamos lá.

[00:41:05] Só recomendar o podcast, porque aí a gente vai voltar a falar desse assunto especificamente, vamos lá.

[00:41:10] Posso até fazer um parênteses sobre isso, porque eu estou quase na situação de me ver obrigado a escrever um breve ensaio,

[00:41:15] talvez que vire um livretinho e tal, até porque eu escutei muitas entrevistas do Peter Phil e do Mike Anderson e do David Sacks

[00:41:24] para fazer aquele podcast, mais do que seria saudável para um ser humano, tá?

[00:41:30] Então, eu tenho que usar isso para dar alguma utilidade a esse sofrimento que eu me autoimpus.

[00:41:36] Então, talvez eu escreva um ensaio que a gente publique na forma de um livreto.

[00:41:41] Se eu conseguir me organizar para isso nas próximas semanas, vou fazer.

[00:41:44] Mas, realmente, recordar…

[00:41:45] Recomendo que deem uma olhada no episódio do Vira-Casaca, sobre o iluminismo sombrio,

[00:41:51] que mostra a influência hoje que o Nick Land tem, né?

[00:41:54] Que é uma coisa, assim, assustadora.

[00:41:56] Esses caras do Vale do Silício estão lendo o Nick Land.

[00:41:59] O Peter Phil lê Nick Land.

[00:42:01] O Mike Anderson diz que o Nick Land é o filósofo mais importante da nossa época.

[00:42:05] Mas eu quero ver que vagabundo lê o Fang No Man, né?

[00:42:08] Porque esses caras, eles não vão ler Machinic Desire, Meltdown, esses textos mais…

[00:42:13] Ou Cyber Gothic.

[00:42:15] Eles vão ler o…

[00:42:17] Porque, assim, me perdoa, Vitor, agora a gente pode falar que estão entre amigos.

[00:42:23] Decaiu muito a qualidade do texto do Nick Land.

[00:42:26] É meio inacreditável, assim.

[00:42:27] Esses dias eu estava comentando…

[00:42:28] Não, no Twitter ele está retardado, total.

[00:42:30] No Blue Sky…

[00:42:31] Esse é o Nick Land mesmo?

[00:42:33] Porque ele não está conseguindo nem pensar direito, mas…

[00:42:36] Eu comentei isso no Blue Sky e o Peter Phil me falou

[00:42:37] que ele parece um paleoconservador médio, assim.

[00:42:42] Eu vou ver um Olavo de Carvalho, assim.

[00:42:44] Exatamente.

[00:42:44] Está na parada…

[00:42:45] É, o cara virou mais um comunicador de extrema-direita

[00:42:50] que fala todas as besteiras de sempre para todo mundo

[00:42:53] e pega esse bagulho do aceleracionismo para ele

[00:42:56] e fica falando, não, eu entendo o aceleracionismo, porque eu inventei esse negócio.

[00:42:59] Mas, em termos de…

[00:43:01] Assim, não sei se você teve o desprazer de ler,

[00:43:03] eu fui tentar ler o Dark Enlightenment

[00:43:06] e, basicamente, é um texto jornalístico, quase, assim.

[00:43:09] Um ensaiozão, assim, que explica

[00:43:11] esse aqui é o Mitchell’s Moldbug, leiam ele e tal.

[00:43:14] E é muito interessante,

[00:43:15] porque…

[00:43:16] É um comentador do Mitchell’s Moldbug.

[00:43:18] Exato!

[00:43:19] É absurdo isso!

[00:43:20] Um cara burro que não é o Mitchell’s Moldbug

[00:43:21] ter um comentador desse nível, desse tipo, que é o Nick Landy…

[00:43:24] Tem um comentário que eu fiz no Vira-Casaco,

[00:43:26] que eu falei, ah, esse cara aqui acho que não vale nem a pena comentar

[00:43:28] porque não tem nada de interessante aqui.

[00:43:30] Mas o Nick Landy não é um sujeito burro, né?

[00:43:33] Não, então…

[00:43:34] E até o comentário que ele faz do Mitchell’s Moldbug

[00:43:36] é muito melhor do que o próprio Curt Arvin.

[00:43:40] Exato.

[00:43:40] Ele virou, talvez, a principal referência do Neo-Reaction na internet,

[00:43:45] acho que virou o príncipe da Neo-Reação,

[00:43:47] porque, de fato, era o cara mais inteligente no…

[00:43:50] Lógico, mas ele é o Olavo de Carvalho mesmo.

[00:43:52] Postos gigantescos, repetidos, qualquer coisa,

[00:43:56] não existe estrutura nenhuma do pensamento, é chutado e tal.

[00:44:00] Um livro que eu recomendo muito pra quem quiser conhecer

[00:44:03] é o pensamento do Mitchell’s Moldbug, que tira um sarro muito bom, inclusive,

[00:44:07] e explica como a gente chegou nesse ponto.

[00:44:11] É um livro de 2016, nem é novo,

[00:44:14] de uma autora tão…

[00:44:15] Uma autora trans, ela tem a edição com o nome morto dela também,

[00:44:19] mas vocês talvez consigam comprar aí, pirar, ou baixar, pirar, sei lá.

[00:44:24] Chama Neo-Reaction a Basilisk, que é sobre o…

[00:44:28] É um pouco…

[00:44:29] São seis ensaios sobre alt-right, o texto original é.

[00:44:33] Tem o ensaio sobre Nick Land, tem o ensaio sobre Mitchell’s Moldbug,

[00:44:36] e ela fala muito também do Eugene…

[00:44:40] Não é Morozov, como é que é o nome dele?

[00:44:42] Que é o cara que…

[00:44:43] Yardukov, alguma coisa assim.

[00:44:45] Que é o cara cujo…

[00:44:46] Da inteligência artificial também, né?

[00:44:48] Isso, que é o cara cujo blog vai dar nessa galera de inteligência artificial completamente maluca

[00:44:55] que acredita no tal do basilisco de Rótico,

[00:44:58] que é uma ideia completamente bizarra, que pra começar você tem que ter uma inteligência artificial,

[00:45:03] tem que chegar a tal da singularidade.

[00:45:04] A gente ainda não tem, não deve chegar com os LLMs,

[00:45:07] assim, eu acho isso completamente bizarro,

[00:45:09] porque a arquitetura do pensamento humano não vai chegar…

[00:45:13] Não chega perto pelas LLMs e não vai chegar.

[00:45:16] Eu sei que a galera tá vendo as transformações pelas LLMs e acredita que vai dar certo,

[00:45:22] mas claramente não vai.

[00:45:24] E aí você tem que acreditar que um dia vai ter inteligência artificial

[00:45:27] que pode criar um construto mental de você mesmo que vai te aprisionar

[00:45:31] se você não ajudar a inteligência artificial a seguir e se dar bem.

[00:45:36] E isso faz parte da ideologia atual do Vale do Silício,

[00:45:41] que tem a ver com essa situação atual do mundo que tá.

[00:45:44] E esse livro é muito bom porque ela destrói,

[00:45:47] a Elizabeth Sandford destrói o Mansions Board,

[00:45:50] ela chama ele de burro pra baixo,

[00:45:52] e é muito divertido, muito engraçado como ela vai,

[00:45:55] e ela tem todo um respeito pelo Land, quando ela vai falar do Land,

[00:45:58] ela fala que o Nick Land é um cara super inteligente,

[00:46:01] é foda eu estar respondendo ele porque eu acho que ele tem coisas e tudo mais,

[00:46:07] e o pior, naquela época o Nick Land não tinha derretido tanto,

[00:46:10] Ainda tinha.

[00:46:11] Ainda tinha várias coisas aí que ele tava pensando,

[00:46:14] foi antes da publicação, acredito, inclusive do Dark Enlightenment.

[00:46:17] Mas é um livro muito bom que eu recomendo muito a todo mundo,

[00:46:20] queria traduzir, mas vai ser difícil e tudo mais,

[00:46:23] até porque ele é um pouco antigo,

[00:46:25] mas explica bem a situação e como as coisas andam.

[00:46:29] Mas bem, vamos voltar…

[00:46:30] Vamos retomar o fio da merda, porque eu tinha mais uma coisa pra falar sobre isso.

[00:46:33] Primeiro, só deixar claro que eu acho o Nick Land uma figura maligna,

[00:46:38] e eu considero ele um adversário político,

[00:46:40] não mais que um adversário, um inimigo mesmo,

[00:46:42] e acho que sempre foi, tá certo?

[00:46:45] O Nick Land sempre foi um propagandista do Capital,

[00:46:50] um propagandista marxista do Capital,

[00:46:52] porque eu acho que no final das contas já defendi isso em outros momentos,

[00:46:55] o que ele tem é uma leitura do Marx,

[00:46:59] uma leitura que eles mesmos chamam de gótica,

[00:47:01] eles têm uma leitura gótica do Capital.

[00:47:03] Quer dizer, aquilo que o Marx via como alienação,

[00:47:06] até como elemento ideológico que encobria a realidade,

[00:47:09] o sujeito automático.

[00:47:11] O sujeito automático é um termo tipicamente do desejo maquínico landiano, digamos assim.

[00:47:17] Então, para eles, para o Land, o Capital é o grande sujeito da modernidade.

[00:47:23] E o Capital é o que vai gerar a inteligência artificial,

[00:47:26] que de alguma forma é o Telos da história humana.

[00:47:30] E essa inteligência artificial é esse atrator estranho

[00:47:34] que está jogando seus tentáculos no passado

[00:47:38] para direcionar toda a história humana

[00:47:41] nesse processo de colapso, liquefação pós-humana, inumana.

[00:47:46] Eu acho que ele sempre foi um inimigo.

[00:47:50] Mas ele tem uma capacidade libidinal impressionante.

[00:47:55] Ele é um sujeito sedutor, não sei se hoje ainda.

[00:47:58] Mas você pega as pessoas que entraram em contato com o Nick Land na década de 90,

[00:48:03] você dá para sentir o efeito do carisma magnético que ele exerceu,

[00:48:08] nessas pessoas.

[00:48:10] No Codwin Ashon, no Mark Fisher, em todo o pessoal do CCRU,

[00:48:16] inclusive no Hamilton Grant, no Ray Brassier.

[00:48:20] A gente entrava na sala com o Nick Land e a gente se sentia energizado.

[00:48:25] O pensamento ganhava uma outra relevância.

[00:48:28] Era alguém que levava muito a sério o que estava fazendo,

[00:48:32] inclusive a nível da sua própria destruição física do seu corpo.

[00:48:37] Ele passava dias pirando no escritório dele em Warwick,

[00:48:43] fazendo todo tipo de experiência química com o próprio cérebro.

[00:48:47] Mas ele era um sujeito que dava a entender que era para valer.

[00:48:52] Mas justamente a ideia do CCRU era se contrapor

[00:48:55] ao tipo de crítica cultural que era feito em Birmingham,

[00:49:00] que é de onde saiu a Sad Plant, que foi a orientadora do Fisher,

[00:49:05] e a tradição que era ligada…

[00:49:09] Meu Deus, agora me deu um branco.

[00:49:12] Ligada ao Shush Hall,

[00:49:16] que era um intelectual marxista negro muito interessante,

[00:49:21] mas dessa tradição gramsciana, hegemônica,

[00:49:24] que estava fazendo a discussão…

[00:49:26] Os textos dele, no final da década de 70, começo da década de 80,

[00:49:30] são, para mim, magistrais.

[00:49:32] O livro The Hard Road to Renew é, para mim,

[00:49:35] uma estrutura obrigatória, inclusive para hoje,

[00:49:37] para entender melhor como foi a transição do Fordismo

[00:49:40] para o pós-Fordismo, do compacto social-democrata

[00:49:43] para o neoliberalismo e, portanto, para tentar ter mais pistas

[00:49:47] para entender a transição que estamos passando hoje.

[00:49:50] Isso pode ser um pouco polêmico também,

[00:49:53] mas acho que a era neoliberal, digamos assim,

[00:49:58] o compacto, a ordem da globalização neoliberal está ruindo.

[00:50:05] Tem toda uma discussão na esquerda se o neoliberalismo está em crise ou não.

[00:50:08] Isso vai depender do que se considera como neoliberalismo,

[00:50:11] qual é a sua definição de neoliberalismo.

[00:50:13] Mas acho que, como uma era, se a gente fizer uma…

[00:50:16] ter uma interpretação do neoliberalismo como uma fase do capitalismo,

[00:50:20] para mim é claramente a fase que começa a aparecer

[00:50:25] com a crise do Fordismo em 68,

[00:50:28] depois com a quebra do sistema de Bretton Woods,

[00:50:33] depois com a crise do petróleo em 73

[00:50:36] e começa a tomar forma em 79

[00:50:39] com as eleições do Reagan e da Margaret Thatcher,

[00:50:42] mais ou menos simultâneas,

[00:50:43] acho que com a diferença de menos de um ano entre um e outro,

[00:50:46] e depois que a esquerda institucional partidária entra também

[00:50:50] na forma do neoliberalismo progressista

[00:50:52] e todo mundo tem um acordo amplo de como gerir a economia

[00:50:55] nessas bases, uma economia globalizada

[00:50:59] e com fluxos desregulados de…

[00:51:03] capital financeiro,

[00:51:04] mas também a desregulação do próprio mundo do trabalho.

[00:51:07] Então isso foi um período histórico

[00:51:09] que eu acho que está em vias de morrer.

[00:51:12] A gente não sabe exatamente…

[00:51:14] Por isso que o Fischer,

[00:51:17] embora eu acho que ele não tenha usado essa frase,

[00:51:20] ele está dentro desse campo de autores

[00:51:22] que começaram a ler de novo o Gramsci,

[00:51:25] porque a gente ainda está falando de Gramsci,

[00:51:27] de intelectual orgânico,

[00:51:29] leu o novo Gramsci quando ele estava falando

[00:51:32] do fim de outra ordem, de outro compacto,

[00:51:35] que é o compacto liberal,

[00:51:37] que vai se estabelecer ali do final

[00:51:40] das guerras franco-prussianas da Comuna de Paris

[00:51:42] na década de 70 em diante,

[00:51:44] e até que entre em crise com a Primeira Guerra Mundial,

[00:51:48] depois com a Grande Depressão

[00:51:51] e vai dar origem para outra coisa.

[00:51:54] Então eu tenho a certeza que o capitalismo

[00:51:56] está sempre se reconfigurando, se reorganizando

[00:51:58] a partir da crise,

[00:52:00] a partir do tipo de…

[00:52:01] de luta anticapitalista que se forma

[00:52:05] e das ideias que estão circulando.

[00:52:07] Acho que esses são os três elementos,

[00:52:09] são os agentes políticos,

[00:52:11] as condições técnicas do capital

[00:52:16] em uma determinada época

[00:52:18] e as ideias, o ambiente intelectual que está…

[00:52:21] Então o Fischer estava prestando atenção nisso,

[00:52:24] ele estava lendo também, de alguma maneira,

[00:52:26] esse Gramsci da década de 20,

[00:52:29] começo da década de 30,

[00:52:31] e estava vendo como Schutthold

[00:52:33] tinha lido esse Gramsci ali no final da década de 70,

[00:52:36] década de 80,

[00:52:38] e ele está elaborando uma teoria do interregno.

[00:52:42] Você vê os últimos posts dele,

[00:52:45] são muitos que falam, ó, alguma coisa quebrou,

[00:52:48] acabou o consenso,

[00:52:50] agora nós estamos em terra incógnita,

[00:52:52] não sabe se vai para lá ou para cá e tal.

[00:52:54] Teve até alguém que mencionou aqui no…

[00:52:58] Estou vendo os comentários do lado, né?

[00:53:01] Que é muito impressionante a importância

[00:53:03] que o Fischer de um lado e o Nicky Land do outro

[00:53:05] acabaram adquirindo na meta política contemporânea, de fato.

[00:53:09] Você vê a influência que o pensamento do Fischer teve

[00:53:14] na tentativa de refazer o Partido Trabalhista na Inglaterra,

[00:53:19] no próprio movimento dos Sanders nos Estados Unidos,

[00:53:22] na Jacobina,

[00:53:23] o pessoal do Podemos, em algum momento, lendo o Fischer,

[00:53:26] até aqui o cara do Chile,

[00:53:29] que também depois deu uma escorregada,

[00:53:30] braba, mas era um leitor do Fischer.

[00:53:33] Ou seja, essas pessoas que estavam no movimento de rua,

[00:53:36] no movimento contra a austeridade,

[00:53:38] nas grandes insurgências que aconteceram aí

[00:53:41] na primeira metade da década passada

[00:53:44] e que tentaram produzir uma nova articulação hegemônica

[00:53:48] a partir dessa crise de representatividade.

[00:53:52] E o Fischer era o grande intelectual disso,

[00:53:56] era o cara que melhor nos ajudava a entender

[00:53:58] a dinâmica da temporalidade contemporânea,

[00:54:00] os riscos e os perigos dessa terra incógnita,

[00:54:04] desse interregno,

[00:54:05] mas também as oportunidades, as possibilidades,

[00:54:08] o espaço de manobra que se abria para a gente

[00:54:11] para pensar fora da caixa,

[00:54:13] para trazer propostas diferentes,

[00:54:15] para reformular o nosso programa,

[00:54:17] para criar uma estratégia de articulação das lutas,

[00:54:20] incorporando a diversidade de processos de contestação,

[00:54:25] de indignação,

[00:54:27] e tentando construir uma nova maioria social a partir dele.

[00:54:30] Claro que quando a gente vê hoje

[00:54:33] o cenário em que, sei lá, o Fischer

[00:54:38] está morto, literalmente, acabou se matando,

[00:54:43] e as apostas dele perderam,

[00:54:47] as minhas apostas, aqui eu estou falando

[00:54:49] numa posição muito pessoal,

[00:54:51] não que elas não possam ser revitalizadas,

[00:54:54] a perda não produziu nada,

[00:54:57] eu acho que tem acúmulo de,

[00:54:59] seja organizativo, seja de formulação,

[00:55:02] para uma próxima rodada, que eu acho que vai vir,

[00:55:05] então nós temos que estar preparados até para

[00:55:09] transmitir o que nós aprendemos dessa rodada

[00:55:12] para a próxima geração aí

[00:55:15] que vai assumir também as próximas batalhas,

[00:55:17] eu acredito muito nisso.

[00:55:19] Mas, enfim, o Fischer perdeu,

[00:55:23] e o Nick Land está muito influente,

[00:55:26] eu falei, eu acho que o Peter Thiel lê o Nick Land,

[00:55:29] talvez seja o próximo presidente dos Estados Unidos

[00:55:32] que leia o Nick Land também,

[00:55:34] toda essa galera do Vale do Silício

[00:55:36] é muito influenciada hoje pelo Nick Land,

[00:55:38] o Marc Andreessen, pelo que eu entendi,

[00:55:40] ele tem cópias do Nick Land que ele distribui

[00:55:42] lá para os Crypto Bros do Vale do Silício,

[00:55:46] e ainda mais o Nick Land está influente e rico,

[00:55:49] porque ele comprava Bitcoin no começo de 2010,

[00:55:54] mais ou menos, então…

[00:55:56] É, não, e assim,

[00:55:58] rapidamente ainda para ficar no assunto Land,

[00:56:01] o Land voltou a publicar muita coisa,

[00:56:03] voltou a sair vários livros ali por uma editora dele,

[00:56:07] não sei aonde está baseado,

[00:56:09] é muito interessante porque ele se cercou desse mistério,

[00:56:12] então ele é um personagem meio opaco,

[00:56:16] a gente ainda não…

[00:56:18] imagino que ele esteja morando em Xangai ainda,

[00:56:20] mas eu não tenho certeza, de verdade.

[00:56:22] Nem eu, não sei.

[00:56:23] Eu não tenho certeza, a gente acredita,

[00:56:25] mas não dá para ter certeza, ele pode estar nos Estados Unidos,

[00:56:27] agora, ou na Inglaterra, vai saber.

[00:56:30] Talvez seja mais interessante para ele estar nos Estados Unidos.

[00:56:32] Exatamente.

[00:56:33] Aliás, seria perigoso para ele, de certa forma,

[00:56:35] estar na China, em algum aspecto,

[00:56:37] mas pelo que eu entendo, ele tem uma companheira

[00:56:39] que foi transferida para Xangai,

[00:56:41] foi dar aula em Xangai, e foi assim que ele foi parar,

[00:56:44] lá em Xangai.

[00:56:46] Aí, a partir de onde ele está,

[00:56:48] e aí ele vai se enamorar pela China,

[00:56:53] pela China contemporânea, né?

[00:56:55] Mas já na década de 90, né,

[00:56:56] ele publicava, tem aquele artigo que começa com

[00:56:58] No China, rise from the future,

[00:57:00] antes de ele ir para a China.

[00:57:02] Você vê como é um cara que tem um certo tino, né?

[00:57:05] Ele estava percebendo assim, ó,

[00:57:07] a coisa está indo para lá, para o Oriente.

[00:57:10] Sim, mas o grande lance para mim,

[00:57:12] dessa galera como um todo,

[00:57:13] é sacar que existe muita leitura,

[00:57:18] na cultura mesmo,

[00:57:19] tipo, todos esses bagulhos,

[00:57:21] tudo que o Landy fala, etc.

[00:57:24] Eu sempre falo assim,

[00:57:26] para algum amigo, assim,

[00:57:28] que pira mais nessa parte das relações,

[00:57:30] você já leu William Gibson?

[00:57:32] Você já leu Neil Stephenson?

[00:57:34] Você já leu Os Invisíveis, do Grant Morrison?

[00:57:36] Tudo isso estava, de certa forma,

[00:57:38] prefigurado dentro desses outros lugares.

[00:57:41] Por exemplo, essa ascensão da China e da Ásia como um todo,

[00:57:44] obviamente, já vem desde a ideia dos anos 80,

[00:57:47] do Japão hiper tecnológico,

[00:57:50] e a China ganhando, né?

[00:57:52] Você passa isso do Japão para a Coreia,

[00:57:54] e hoje a China é o grande…

[00:57:56] O foco tecnológico hoje na Ásia,

[00:57:59] quem está mais à frente de todo mundo é a China,

[00:58:02] mas aí a China também vai ganhar essa luta aí,

[00:58:05] não tem mais como nenhum dos vizinhos da China

[00:58:07] serem maiores que a China hoje em dia.

[00:58:09] Já perderam, esse bonde já passou.

[00:58:11] E o Nick Lange já sacava isso nos anos 90,

[00:58:15] porque meio que o mundo virou um romance cyberpunk.

[00:58:19] É o que eu tenho falado.

[00:58:21] Está sendo horrível, assim, em 2025.

[00:58:24] E até então você falava assim,

[00:58:25] ah, parece cyberpunk,

[00:58:26] a gente está vivendo talvez uma novela cyberpunk,

[00:58:28] daqui a pouco a gente vai estar vivendo…

[00:58:31] E agora, efetivamente, assim,

[00:58:33] depois da pandemia e da situação atual do mundo,

[00:58:36] eu acredito que a gente vive num romance cyberpunk 100%.

[00:58:43] Os caras estão falando de criar conceitos na vida real

[00:58:48] que eram de ficção científica.

[00:58:50] A ideia dos Network Cities que o Trump lançou,

[00:58:54] que ele não está discutindo muito ainda,

[00:58:56] mas faz parte, muita gente estudiosa da extrema-direita

[00:59:00] nos Estados Unidos está falando,

[00:59:01] olha, esse negócio é importante e tudo mais.

[00:59:04] Cara, é basicamente a mesma ideia dos Franchulados,

[00:59:07] Franchulates, que tinha em Snow Crash,

[00:59:10] que é de 92, eu acho, o livro, saca?

[00:59:15] Então, eu vejo muito isso como o Nick Lange escreve.

[00:59:18] O Nick Lange está lá pirando o William Gibson,

[00:59:21] o cibergótico.

[00:59:24] Aquele texto cibergótico é basicamente a leitura que ele faz

[00:59:27] da trilogia da ponte, trilogia do Sprawl,

[00:59:31] que é a trilogia inicial dos romances de cyberpunk do William Gibson.

[00:59:37] A trilogia da ponte é a segunda, mas a trilogia do Sprawl é a primeira.

[00:59:41] Neuromancer, Count Zero e Monolith Overdrive.

[00:59:44] E eu falo para todo mundo, cara, vocês precisam ler essas coisas.

[00:59:47] Vocês precisam ouvir a música que o Mark Fisher pirava nos anos 90.

[00:59:50] Vocês precisam entender que esses caras estavam olhando para o futuro,

[00:59:53] e não era porque…

[00:59:55] E aí, eles eram antenas.

[00:59:59] Eles perceberam isso, parece que eles prefiguravam,

[01:00:02] mas eles só estavam falando assim,

[01:00:03] não, cara, mas está escrito aqui um livro de ficção científica.

[01:00:06] Ficção científica sempre é certa.

[01:00:08] Mas…

[01:00:10] Isso eu acho que é interessante a maioria da gente falar,

[01:00:12] porque também esse pessoal do Vale do Silício que começou a ler o Nick Lange,

[01:00:16] quem quiser saber mais disso, a gente remete ao episódio do Vira-Casacas.

[01:00:20] São…

[01:00:22] E às vezes eles mesmo se chamam de Dark Maga, né?

[01:00:25] O Elon Musk reivindicou, por exemplo, essa identidade.

[01:00:31] Eles são uns nerdões, né?

[01:00:34] Então eles estão muito ligados na ficção científica,

[01:00:37] inclusive nessa ideia, que é também uma ideia cara ao CCRU,

[01:00:42] de que a ficção científica não é que ela prevê o futuro,

[01:00:46] é que ela produz o futuro.

[01:00:48] A ficção científica tem um elemento hiperticional forte.

[01:00:51] Ela é uma ficção que se torna realidade,

[01:00:54] que contamina a realidade,

[01:00:56] que se espalha, que propaga,

[01:00:58] que atualiza certas virtualidades.

[01:01:04] Essa noção, e eu acho também que…

[01:01:07] Até eu tinha mencionado essa coisa dos Crypto Bros e do Bitcoin,

[01:01:11] porque eu acho também que o Bitcoin tem um efeito hiperticional muito forte, cara.

[01:01:15] A ideia quase messiânica, apocalíptica de uma hiperbitcoinização,

[01:01:21] ela forma esse atrator, tá certo?

[01:01:24] Que leva mais pessoas a entrarem.

[01:01:26] Quanto mais pessoas acreditam, mais o negócio cresce

[01:01:29] e vira essa estrutura de profecia autorrealizável.

[01:01:31] Claro que às vezes a magia acaba, né?

[01:01:34] Alguns profecias autorrealizáveis, elas se desfazem.

[01:01:37] O circuito hiperticional pode, em algum momento, se dissolver.

[01:01:42] Mas enquanto ele está atuante,

[01:01:44] o circuito hiperticional, essa relação da ficção com a realidade,

[01:01:49] uma realidade que tende a uma ficção,

[01:01:51] e na medida que a realidade tende a ficção,

[01:01:53] a ficção vai ficando cada vez mais real e mais eficaz.

[01:01:56] Cara, não existe exemplo melhor, na minha humilde opinião,

[01:01:59] a respeito de como funciona uma hipertensão

[01:02:02] e como ela pode significar, do que o Bitcoin,

[01:02:07] mas no caso mais específico, da moeda em si.

[01:02:10] A ideia da moeda no capital, ela se transforma em outra coisa.

[01:02:13] A desmoeda era uma coisa de troca e ela vira capital no capitalismo.

[01:02:16] Porém, no fim das contas,

[01:02:18] ao fugir dos ovos, uma coisa que eu aprendi quando era muito jovem,

[01:02:22] mas é muito interessante quando você aprende,

[01:02:24] você fala, caralho, é isso mesmo?

[01:02:26] Porque a moeda, na verdade, ela é uma entidade absolutamente ficcional.

[01:02:30] Apesar de ancorada na realidade, na produtividade,

[01:02:34] na produção da economia de certo país,

[01:02:36] ela depende da crença das pessoas nela.

[01:02:39] A questão atual, por exemplo, que a gente fica debatendo aí,

[01:02:42] quando o dólar vai cair, quando o dólar vai cair,

[01:02:44] isso aí é só porque as pessoas acreditam.

[01:02:46] O dólar só existe desse jeito porque as pessoas acreditam.

[01:02:48] E os Estados Unidos continua sendo a maior economia que funciona.

[01:02:51] Eu queria fazer só um parênteses que eu acho que é importante,

[01:02:53] porque tem toda uma discussão teórica no campo da CCRU

[01:02:58] sobre o papel da crença no hype.

[01:03:03] Porque, na verdade, o que eles falam é assim,

[01:03:05] você não precisa acreditar mesmo.

[01:03:07] Você só precisa agir como você acreditar.

[01:03:09] Você precisa só acreditar que as pessoas acreditam.

[01:03:12] Então, por exemplo, o sujeito não precisa,

[01:03:15] para um fundo de pensão comprar Bitcoin, não precisa.

[01:03:17] Não precisa acreditar que o Bitcoin é uma coisa sólida.

[01:03:21] Ele precisa só acreditar que as pessoas vão acreditar,

[01:03:23] que ele vai aumentar ainda.

[01:03:26] Sem escrever a superstição no grande outro.

[01:03:29] O grande outro que o Fischer fala do realismo capitalista,

[01:03:32] que é quem cai em todas as mentiras.

[01:03:36] É para quem se fala, é para quem o PR fala.

[01:03:39] O que eu também gostaria, talvez, assim,

[01:03:42] eu não gostaria de terminar essa nossa discussão

[01:03:44] sem falar sobre isso.

[01:03:47] Eu, a minha avaliação,

[01:03:49] acho que todo mundo tem uma entrada no Fischer, né?

[01:03:51] E todo mundo tem uma,

[01:03:53] algum elemento do Fischer também que fala assim,

[01:03:55] isso aqui é o que eu acho que é central para o Fischer, tá?

[01:03:58] E eu tenho uma tese interpretativa, digamos assim,

[01:04:02] agora eu colocando meu bonezinho de especialista em Fischer.

[01:04:05] Eu acho que eu li tudo que o Fischer publicou,

[01:04:07] eu sou talvez um dos maiores especialistas.

[01:04:09] Tem um antônio Galvão, né?

[01:04:11] Mentira, mentira.

[01:04:12] Eu duvido que você tenha lido todas as resenhas que ele escreveu na Wired.

[01:04:14] Não, é verdade.

[01:04:15] E, vez por outra, aparece um texto,

[01:04:16] que eu nunca tinha encontrado o Fischer.

[01:04:18] Eu também, mano.

[01:04:19] Caramba, tinha esse texto,

[01:04:20] já que ele estava se escondendo e tal.

[01:04:22] É ridículo.

[01:04:23] Não, é porque você vai ler Fischer,

[01:04:24] tem que ler comentários de fora, um bicho.

[01:04:26] Pronto.

[01:04:27] Mas a minha tese interpretativa

[01:04:29] é que o conceito fundamental do Fischer

[01:04:33] é o conceito de perdição.

[01:04:35] Que é um conceito que não aparece explicitamente

[01:04:37] no realismo capitalista,

[01:04:38] mas que você pode lê-lo no realismo capitalista.

[01:04:43] Eu acho até que o…

[01:04:46] A ideia de perdição dentro do CCRU

[01:04:49] é mais tributária do Fischer do que do Lange.

[01:04:52] Tá?

[01:04:53] E…

[01:04:54] Claro que tem…

[01:04:56] A divergência fundamental entre eles

[01:04:58] é o que eles querem hiperticionar.

[01:05:00] Eu tenho uma contribuição a isso depois,

[01:05:02] mas, por favor.

[01:05:03] Então, quem tiver algum interesse sobre isso,

[01:05:06] é uma interdição teórica um pouco pesada,

[01:05:08] não sei se dá pra gente chegar num nível

[01:05:10] de refinamento que seria necessário aqui

[01:05:14] num papo mais irreverente como esse.

[01:05:16] Mas eu escrevi um texto que eu acho que é interessante, tá?

[01:05:19] Esse texto meu eu recomendo.

[01:05:21] Se bem que, como entrada no Fischer,

[01:05:23] tem um pós-fácil do realismo capitalista,

[01:05:25] que você compra o livro, baixa no meu Academia.edu,

[01:05:28] que o pós-fácil tá lá também disponível.

[01:05:30] Mas tem um outro texto que tá também online,

[01:05:33] tá aberto, que se chama

[01:05:34] Um Estudo em Práticas Hiperticionais

[01:05:36] Alças Estranhas, Guerras Temporais e Teoria Ficção.

[01:05:40] E guerras temporais tem a ver com

[01:05:43] o texto do CCRU sobre os…

[01:05:45] Os…

[01:05:46] Os Lêmures Fantasmas de Madagascar,

[01:05:49] que é uma releitura do Burroughs, né?

[01:05:53] E eu acho que esse texto é mais do Fischer,

[01:05:55] porque ele não tem aquela parada meio maluca

[01:05:57] de número e de construções meio abstratas

[01:06:01] que o Nick Lef faz.

[01:06:02] É um texto bem narrativo,

[01:06:04] e o Fischer é um cara…

[01:06:06] Narrativo, digamos assim.

[01:06:07] Ele é um cara da canção, digamos.

[01:06:09] Por incrível que pareça.

[01:06:12] Eu acho que ele escreve mais como uma canção

[01:06:14] do que como um jungle.

[01:06:15] É…

[01:06:18] E a ideia de guerras temporais é muito interessante.

[01:06:21] Eu discuto isso no artigo.

[01:06:24] Mas…

[01:06:25] O…

[01:06:27] O antepassado da ideia de hipertensão

[01:06:30] é uma coisa que tá presente na…

[01:06:32] Na tese de doutorado do Fischer.

[01:06:35] Também a gente pode recomendar isso.

[01:06:36] Uma hora vai ser traduzido pro português.

[01:06:38] Eu acho que tá na lista aí da autonomia.

[01:06:40] Que é o Flatline Constructs.

[01:06:41] Pra quem tá olhando aqui no vídeo,

[01:06:43] eu tô mostrando aqui o livro.

[01:06:44] Construtos da Linha Plana.

[01:06:47] Materialismo gótico e teoria ficção cibernética.

[01:06:51] E ele trabalha não com a ideia de hipertensão,

[01:06:54] mas com a ideia de hiperficção.

[01:06:56] Mas é basicamente a mesma coisa.

[01:06:57] É uma ficção que se torna eficaz na…

[01:06:59] Que contamina a realidade.

[01:07:01] E um dos maiores exemplos que ele dá sobre isso…

[01:07:04] Acho que ele termina o livro falando sobre Toy Story.

[01:07:06] Mas antes de falar sobre Toy Story,

[01:07:08] ele fala sobre In the Dark…

[01:07:12] Como é que é?

[01:07:13] In the Mouth of Darkness?

[01:07:15] Ou é o…

[01:07:17] É isso aí.

[01:07:18] O filme do Wes Craven, não é?

[01:07:20] In the Mouth of Darkness?

[01:07:21] Não, é do Carpenter.

[01:07:22] Do John Carpenter.

[01:07:23] In the Mouth of Darkness, do Brasil…

[01:07:25] Ah, vou achar esse nome aqui enquanto você explica um pouquinho.

[01:07:28] Esse…

[01:07:30] É um…

[01:07:31] Ó, seu telefone tá…

[01:07:32] Opa, meu microfone cortou.

[01:07:34] Esse filme é fenomenal.

[01:07:35] Esse filme é fenomenal.

[01:07:36] É muito estranho.

[01:07:37] Eu acho incrível.

[01:07:38] É bizarro.

[01:07:39] E é estranho, assim,

[01:07:40] um cara fazendo um doutorado em filosofia

[01:07:42] e um capítulo da tese dele

[01:07:46] é sobre um livro do…

[01:07:48] Um filme do Carpenter.

[01:07:49] É, cara do Fisher.

[01:07:50] É um filme.

[01:07:51] É uma ilustração do que é o processo hipertensional.

[01:07:54] Não sei se tem gente que tá nos acompanhando

[01:07:56] que já viu esse filme.

[01:07:57] Eu recomendo muito.

[01:07:58] Mas a ideia é que tem um…

[01:08:00] Um escritor de ficção científica

[01:08:03] que ele é meio Stephen King,

[01:08:06] meio Lovecraft.

[01:08:08] O texto dele é muito Lovecraftiano.

[01:08:10] Tem criaturas Lovecraftianas.

[01:08:11] O filme é Lovecraftiano.

[01:08:13] As temáticas Lovecraftianas estão ali.

[01:08:15] Mas ele é um cara já, ao contrário do Lovecraft,

[01:08:17] morre pobre e desconhecido,

[01:08:19] é um cara…

[01:08:20] Um grande best-seller,

[01:08:22] como o Stephen King.

[01:08:24] Só que aí o que acontece

[01:08:26] é que a ficção dele começa a contaminar o mundo.

[01:08:30] As pessoas vão lendo o livro dele

[01:08:32] à beira da loucura, exatamente.

[01:08:34] Vão lendo o livro dele,

[01:08:36] vão pirando,

[01:08:37] e à medida que as pessoas vão sendo contaminadas,

[01:08:40] apossadas por essa ficção,

[01:08:44] elas vão transformando o mundo.

[01:08:46] E ele fala que isso abre espaço

[01:08:48] para a entrada dos…

[01:08:50] The Old Ones.

[01:08:52] Os antigos.

[01:08:53] Que também é uma figura Lovecraftiana.

[01:08:56] São esses monstros extradimensionais.

[01:08:59] E no filme tem toda essa questão do autor falando

[01:09:03] que pensava que estava fazendo eles,

[01:09:06] mas eles que estavam me fazendo.

[01:09:08] Ou seja, ele mesmo entra num circuito,

[01:09:10] num cibernético,

[01:09:12] onde o espalhamento da ficção dele

[01:09:16] abre as portas

[01:09:18] para a transformação do nosso mundo.

[01:09:21] E essas criaturas do horror,

[01:09:25] além da compreensão humana,

[01:09:27] vão entrar na realidade.

[01:09:30] Por uma brecha que a ficção produziu.

[01:09:36] Eu acho que esse é o tema fundamental do Fisher.

[01:09:40] E, de alguma maneira,

[01:09:43] isso tem a ver com outra noção.

[01:09:45] O Nick Land, quando ele quer tirar onda do Fisher,

[01:09:49] ele vai falar assim,

[01:09:50] ah, o Fisher, na verdade,

[01:09:51] é uma interpretação esquerdista do Philip K. Dick.

[01:09:59] Uma reinterpretação gnóstica

[01:10:02] que eu acho que, de fato, tem muito a ver

[01:10:05] e já está, de alguma maneira, ali no…

[01:10:08] nos próprios situacionistas,

[01:10:11] depois no Baudrillard e tal.

[01:10:13] Mas tem uma coisa muito importante do Philip K. Dick,

[01:10:18] é essa ideia de um sistema de realidade.

[01:10:23] Então, tem um sistema de realidade

[01:10:25] que, quando começa o livro ou o conto,

[01:10:27] ele é relativamente sólido, é estável.

[01:10:31] E ele é reproduzido,

[01:10:33] como o capital se reproduz.

[01:10:35] E as relações capitalistas se reproduzem

[01:10:37] pelo efeito do capital na vida normal.

[01:10:39] Está certo?

[01:10:40] Mas ele é uma ficção.

[01:10:42] Ele é uma ficção que se espalhou tanto,

[01:10:46] que todo mundo atuou de acordo com essa ficção,

[01:10:49] que ele ganhou uma solidez de uma realidade.

[01:10:53] E você tem um pessoal que está fazendo guerra temporal

[01:10:57] que é tentando trazer à tona futuros

[01:11:00] que estão virtualmente presentes,

[01:11:02] mas não se atualizaram

[01:11:04] e que, de alguma forma, concorrem com o sistema de realidade.

[01:11:06] E claro que o grande momento da crise,

[01:11:11] e eu acho que essa não é apenas a crise simbólica

[01:11:14] que aparece na ficção,

[01:11:16] mas é a crise política,

[01:11:18] que é a crise econômica do capital desencadeia,

[01:11:20] a crise de representação,

[01:11:22] a crise de representatividade.

[01:11:24] É quando o sistema não dá conta.

[01:11:26] Por isso que eu falei lá atrás

[01:11:28] do colapso do sistema de realidade,

[01:11:30] que é um termo Philip Dickiano,

[01:11:32] e o Fischer assume essa ideia de sistema de realidade.

[01:11:36] Então a gente poderia pensar, na verdade,

[01:11:38] isso tem a ver com a ideia de guerras mágicas também,

[01:11:41] que você tem sistema de realidade em concorrência

[01:11:45] e você tem uns que se espalham mais ou menos,

[01:11:49] que são capazes de viralizar ou não,

[01:11:51] de modo que às vezes algo se estabiliza

[01:11:53] com um sistema de realidade que é sólido,

[01:11:56] que é tipo uma matriz.

[01:11:58] Mas às vezes esse sistema de realidade colapsa,

[01:12:00] você vê que ele dá um bug ali,

[01:12:02] começa com pequenas rachaduras

[01:12:04] e as pessoas vão perdendo a convicção,

[01:12:07] a confiança naquele sistema de realidade

[01:12:10] até que ele se desmorona.

[01:12:12] Tudo que é sólido desmancha no ar.

[01:12:14] Exatamente.

[01:12:16] O desmoronamento do sistema de realidade

[01:12:18] é um perigo,

[01:12:20] porque nesse claro escuro,

[01:12:22] nesse interregno, surgem monstros

[01:12:24] e eles também se aproveitam

[01:12:26] desse canal de abertura.

[01:12:28] Opa, tem uma brecha aqui na qual eu posso entrar

[01:12:31] para disputar a natureza da realidade.

[01:12:34] Certo?

[01:12:36] E o fascismo é isso,

[01:12:38] a direita dissidente que aparece

[01:12:40] no momento de crise

[01:12:42] e ajuda também a dissolver o centro,

[01:12:44] tá?

[01:12:46] Dissolver o centro.

[01:12:48] Então a extrema-direita tem um papel dissolvente também.

[01:12:51] Ela vai denunciar o status quo, o sistema,

[01:12:54] essa forma de representação não serve,

[01:12:57] nós vamos colocar outra coisa no lugar.

[01:13:00] Muitas vezes se aproveitando de uma falha

[01:13:03] ou de organização ou de imaginação,

[01:13:06] ou o que talvez seja pior,

[01:13:08] da elaboração do circuito

[01:13:10] entre imaginação e organização,

[01:13:12] porque essa é a base da imperdição.

[01:13:15] Como é que você cria, digamos assim,

[01:13:17] uma visão de futuro

[01:13:19] que ela seja libidinal, atraente, sedutora o suficiente

[01:13:23] para as pessoas se engajarem com ela

[01:13:25] no nível do desejo,

[01:13:28] querendo que aquilo venha à tona,

[01:13:31] participar desse processo de remodelagem da realidade,

[01:13:35] tá certo?

[01:13:36] Seguindo um atrator,

[01:13:38] que pode não acontecer, ele é virtual ainda,

[01:13:41] mas que conforme ele se apodera da realidade,

[01:13:44] ele ganha uma dimensão de inevitabilidade.

[01:13:47] Não tem escapatória,

[01:13:49] a história está indo para isso.

[01:13:52] Eu…

[01:13:55] O Fischer termina a vida falando de comunismo hiperticional.

[01:13:59] Tá certo?

[01:14:00] E a minha compreensão

[01:14:05] é que durante uma parte do século XX,

[01:14:09] o comunismo

[01:14:12] exercia

[01:14:14] uma capacidade de magnetismo,

[01:14:17] de atração, de encantamento, de sedução,

[01:14:20] que ganhava as pessoas.

[01:14:22] Eu vou construir isso.

[01:14:24] E o fato de que esse horizonte parecia estar se realizando,

[01:14:28] porque as revoluções estavam acontecendo,

[01:14:30] o movimento dos trabalhadores estava se fortalecendo e tal,

[01:14:34] você fala, é, realmente esse é o caminho,

[01:14:36] a história caminha inexoravelmente

[01:14:39] para isso, para esse horizonte.

[01:14:41] Isso produz um mito muito forte.

[01:14:44] Tá certo?

[01:14:45] E você fala, não, eu vou fazer parte disso,

[01:14:47] eu quero fazer parte dessa história.

[01:14:49] Aí eu vou me juntar num partido,

[01:14:51] eu vou me juntar num sindicato.

[01:14:53] Não é uma mera crença.

[01:14:55] Tá certo?

[01:14:56] É uma participação,

[01:14:57] é entrar num processo de agência econômica,

[01:14:59] num processo de agência coletiva.

[01:15:01] É você

[01:15:03] se deixar envolver pelo processo

[01:15:05] e à medida que você se envolve,

[01:15:07] você está reforçando o processo.

[01:15:09] Tá?

[01:15:10] E aí, na década de 80,

[01:15:12] o artigozinho do Fukuyama,

[01:15:14] que a gente gosta tanto de falar mal,

[01:15:17] ele realmente

[01:15:19] é um diagnóstico de um momento

[01:15:21] que ninguém acreditava mais nesse mito.

[01:15:23] Até o dirigente partidário lá

[01:15:25] talvez fizesse uma performance de crença,

[01:15:29] mas uma hora meio que

[01:15:31] você vê que você está que nem um desenho animado

[01:15:33] andando em cima do nada,

[01:15:35] aí você olha para baixo e você cai.

[01:15:37] Tá?

[01:15:38] E desde então,

[01:15:40] a esquerda internacional

[01:15:42] não tem

[01:15:44] um projeto abrangente,

[01:15:47] diverso, excitante,

[01:15:50] que possa incorporar

[01:15:53] várias agências coletivas

[01:15:55] numa agência,

[01:15:57] várias agências individuais

[01:15:59] numa agência coletiva,

[01:16:01] somar as agências,

[01:16:03] dar potência à capacidade de ação.

[01:16:06] Porque, no final das contas,

[01:16:08] eu acho que esse é o circuito

[01:16:10] que o Fischer estava preocupado em fazer.

[01:16:12] Tá?

[01:16:13] Como é que você chama as pessoas para a ação?

[01:16:16] Quando as pessoas veem que a coisa está

[01:16:18] engrenando de alguma maneira.

[01:16:19] Claro que você tem que ter uns loucos antes,

[01:16:21] meio assim, meio uns profetas,

[01:16:23] uns militantes,

[01:16:24] umas coisas que vão botar trabalho

[01:16:26] onde ninguém está botando fé ainda.

[01:16:28] Tá certo?

[01:16:29] Mas quando a coisa ganha tração, você fala

[01:16:31] opa, conseguimos conquistar jornal de trabalho,

[01:16:33] conseguimos conquistar

[01:16:35] certos benefícios,

[01:16:37] realmente a organização coletiva

[01:16:39] produz efeitos na realidade.

[01:16:41] E isso vai atraindo pessoas e

[01:16:43] nossa, nós somos poderosos,

[01:16:44] nós conseguimos mudar as coisas,

[01:16:46] nós podemos fazer um mundo que responda

[01:16:48] as nossas necessidades

[01:16:49] e não as necessidades do capital.

[01:16:52] Eu estou entusiasmado com isso agora,

[01:16:54] porque eu acho que essa é a grande

[01:16:55] formulação do Fischer, tá certo?

[01:16:57] Um socialismo hiperticional

[01:17:00] na criação dessa ideia de uma

[01:17:03] de uma imaginação visionária

[01:17:05] que entra em circuito com formas

[01:17:07] organizadas de ação coletiva que

[01:17:09] conseguem exercer eficazmente

[01:17:12] poder no mundo aqui e agora.

[01:17:14] Quanto mais poder você exerce,

[01:17:16] mais confiança você tem no seu próprio poder,

[01:17:19] mais você atrai gente e mais poder você exerce.

[01:17:22] E aí você cria um horizonte de escape,

[01:17:24] uma produção de um outro tipo

[01:17:26] de sistema de realidade.

[01:17:33] Realmente, Dr. Victor,

[01:17:35] eu acho que agora você matou a charada.

[01:17:38] Eu vou, obviamente, a gente vai linkar

[01:17:41] o seu texto sobre…

[01:17:44] Não li, admito, vou ler logo já,

[01:17:47] assim que sair daqui, talvez.

[01:17:49] Mas vou me dedicar à leitura dele,

[01:17:52] porque eu acho que é meio essencial

[01:17:55] essa sua maneira de você ver

[01:17:58] onde o Fischer está.

[01:18:00] Eu, sobre hipertensão, é muito interessante, assim.

[01:18:03] Eu sempre me pergunto qual é a história do conceito.

[01:18:06] A gente não tem uma história específica

[01:18:08] de como ele foi criado.

[01:18:10] O CCRU também tinha essa opacidade

[01:18:12] que a gente vê no LinkedIn como um todo.

[01:18:14] E essa opacidade, às vezes, dificulta algumas coisas.

[01:18:18] Eu, esses tempos, lá no site do Cris,

[01:18:20] eu traduzi, desde que eu ouvi falar

[01:18:22] pela primeira vez o conceito de hipertensão,

[01:18:24] eu lembrei do hipersigilo,

[01:18:26] que era como o próprio Grant Morrison,

[01:18:29] A. Grant Morrison, que é uma pessoa nominária hoje,

[01:18:33] como Grant Morrison definiu

[01:18:35] o próprio trabalho de Linhas Invisíveis.

[01:18:37] O próprio texto dele já foi definido por ele mesmo

[01:18:40] como uma coisa hipertensional, de certa forma,

[01:18:43] porque ele pensava só, ao invés de usar

[01:18:46] a ideia de superstição, ele trazia o sigilo,

[01:18:49] que é uma das formas de se fazer magia.

[01:18:53] E magia tem a ver exatamente com linguagem.

[01:18:56] E ele faz, em um certo momento,

[01:18:58] ainda no começo dos Invisíveis,

[01:19:00] quando as vendas estão meio baixas,

[01:19:02] ele cria um sigilo, porque você pode,

[01:19:04] em tese, fazer isso a partir dos conceitos

[01:19:06] da magia do caos, você pode criar o próprio sigilo.

[01:19:09] Ele cria um sigilo, e o interessante do sigilo

[01:19:12] é que você precisa carregar ele,

[01:19:14] você precisa colocar ele no mundo

[01:19:16] a partir do momento que você tem

[01:19:18] uma entrada no mundo,

[01:19:21] você tem uma experiência muito forte,

[01:19:23] e isso, em tese, segundo a magia do caos,

[01:19:26] que o Peter Carroll, já um dos estudos

[01:19:28] do Austin Schultzman espera,

[01:19:30] e, ao mesmo tempo, já se conectando com

[01:19:33] Burroughs, como a gente já citou aqui,

[01:19:35] o Burroughs do vírus enquanto linguagem,

[01:19:37] você precisa desse momento forte

[01:19:39] para botar esse sigilo no mundo.

[01:19:41] E aí ele sugere a todos os leitores dos Invisíveis

[01:19:44] para fazer um punhetaço, no dia de ação de graças,

[01:19:47] de 1995,

[01:19:50] para produzir a continuidade dos Invisíveis.

[01:19:54] Eu traduzi esse texto aí esses dias,

[01:19:57] botei lá no crise.log, quem quiser vai dar uma olhada,

[01:20:00] e era uma mídia meio perdida,

[01:20:02] mas essa história ele conta depois,

[01:20:04] ah, fiz um punhetaço, essa fita, etc,

[01:20:06] mas o texto original eu traduzi lá,

[01:20:08] porque não existia a versão em português,

[01:20:10] e aí eu achei muito interessante,

[01:20:12] porque assim, vejam só como essas teias

[01:20:16] se cruzam.

[01:20:19] O Mac Fisher teve uma banda,

[01:20:22] um grupo de música eletrônica,

[01:20:24] chamava The Generation, eles foram receber

[01:20:26] uma carta de uma banda de hard rock horrível americana

[01:20:31] da mesma época, que chamava também The Generation,

[01:20:33] depois eles mudaram de nome,

[01:20:35] mas o primeiro EP oficial do The Generation

[01:20:38] chama Entropy in the UK,

[01:20:40] que é o arco seguinte de Grant Morrison

[01:20:44] a quando ele convoca esse punhetaço,

[01:20:47] e além disso, o personagem principal

[01:20:50] desse arco, Entropy in the UK,

[01:20:53] é baseado no mesmo personagem,

[01:20:56] que é o personagem meio sigilado

[01:21:00] de um autor de ficção científica britânico

[01:21:02] chamado Michael Moorcock,

[01:21:05] que está no label,

[01:21:08] é mais ou menos o personagem,

[01:21:10] a figurinha do The Generation,

[01:21:12] que eles levam pra tudo,

[01:21:14] é o personagem dele,

[01:21:15] e esse personagem é a base do personagem principal,

[01:21:19] Gideon Stargrave,

[01:21:21] que vai estar nesse arco, Entropy in the UK,

[01:21:23] que tem o mesmo nome do disco.

[01:21:25] Então assim, que está interconectado, isso tá,

[01:21:27] um dia eu tenho que perguntar só pra Grant Morrison,

[01:21:29] se eu quero um dia perguntar,

[01:21:31] se existe essa relação,

[01:21:35] porque é isso, de novo,

[01:21:37] o Fisher é um cara que está na cultura,

[01:21:39] e como a principal fonte de expressão dele é a escrita,

[01:21:41] ele vai parar na ficção,

[01:21:43] ele vai escrever pra isso,

[01:21:46] e é muito interessante que você tenha essa leitura,

[01:21:48] porque é louco pra mim que a gente vai

[01:21:51] descer dos mesmos caminhos,

[01:21:53] vem por caminhos diferentes,

[01:21:54] e a gente chega na mesma coisa,

[01:21:56] mas eu queria aproveitar que a gente está indo pro final,

[01:21:58] Victor, eu sei que você tem muito mais o que falar,

[01:22:00] e eu te espero,

[01:22:01] estou esperando loucamente,

[01:22:03] como vários de nós aqui,

[01:22:05] nesse seu curso livre aí,

[01:22:07] sobre o desejo pós-capitalista,

[01:22:09] e o que eu queria,

[01:22:10] só aproveitar aqui,

[01:22:12] o Jerry Cornelius, exatamente, Marcelo,

[01:22:14] o Jerry Cornelius é o personagem do Michael Moorcock,

[01:22:18] e eu queria só comentar aqui,

[01:22:21] o que o Tela de Locadora falou aqui,

[01:22:23] que é o seguinte,

[01:22:25] eu, vamos lá,

[01:22:27] vou botar aqui na tela,

[01:22:29] falando nisso de realidade,

[01:22:30] tem um negócio que eu queria conversar numa mesa com o Fisher e os Malucos,

[01:22:32] temos o Fisher e os Malucos aqui,

[01:22:34] eu gosto de dizer que o tiro de Luigi e Mangione,

[01:22:37] não perfurou só um corpo,

[01:22:38] também perfurou a realidade,

[01:22:40] o que vocês acham desse comentário?

[01:22:42] O que você acha, Victor?

[01:22:44] De alguma maneira, ele conseguiu um hype,

[01:22:49] então, nesse sentido,

[01:22:51] teve efeitos contaminadores,

[01:22:56] o ato, digamos assim, meio isolado,

[01:22:59] performático,

[01:23:01] e fez parte, passou a fazer parte da cultura pop,

[01:23:07] no entanto,

[01:23:10] claro que,

[01:23:12] nesses momentos, talvez,

[01:23:14] às vezes, pequenos furos,

[01:23:16] eles são o que é necessário para,

[01:23:19] aliás, o realismo capitalista acaba assim,

[01:23:21] não sei se vocês lembram dessa passagem,

[01:23:23] eu acho que é uma das passagens mais belas do livro,

[01:23:26] eu vou ler aqui um pouco,

[01:23:34] ele fala,

[01:23:35] a longa e escura noite do fim da história,

[01:23:37] deve ser encarada como uma enorme oportunidade,

[01:23:39] a própria generalidade opressiva do realismo capitalista,

[01:23:43] significa que,

[01:23:44] mesmo tênues vislumbres de possibilidades políticas e econômicas alternativas,

[01:23:48] são capazes de gerar um efeito desproporcionalmente grande,

[01:23:51] o menor dos eventos pode abrir um buraco

[01:23:54] na cinzenta cortina reacionária,

[01:23:56] que encurtou os horizontes de possibilidades sobre o realismo capitalista,

[01:24:00] isso é excelente,

[01:24:02] de uma situação em que nada pode acontecer,

[01:24:05] onde está tudo dominado,

[01:24:07] não existe futuro alternativo,

[01:24:09] tudo possível,

[01:24:10] é a maior solidez daquele sistema de realidade,

[01:24:13] de repente tudo é possível de novo,

[01:24:16] o futuro se reabre,

[01:24:17] novos caminhos estão à disposição.

[01:24:20] É interessante como essa imagem,

[01:24:23] também assim,

[01:24:24] de um rasgo,

[01:24:26] um buraco na cortina cinzenta do realismo capitalista,

[01:24:31] o realismo capitalista é quase como um véu,

[01:24:33] tem um elemento semignóstico aqui também,

[01:24:37] que remete ao Philip K. Dick,

[01:24:39] remete à Matrix,

[01:24:40] remete a essa ideia de que a gente está preso em sistemas de realidade,

[01:24:44] e às vezes uma pequena brecha,

[01:24:47] um pequeno bug,

[01:24:48] um pequeno furo é o suficiente

[01:24:50] para desencadear processos de desmoronamento disso.

[01:24:56] Eu quero só aproveitar aqui,

[01:24:59] depois vou trazer a questão da pessoa Zeca Moringa,

[01:25:03] eu nunca sei se são…

[01:25:05] Eu terminei de responder a pergunta,

[01:25:07] mas o meu ceticismo com relação a essa brecha específica

[01:25:12] é que ela não abriu espaço para um processo de agenciamento coletivo.

[01:25:17] Mas veja só…

[01:25:18] De fato, eu não acho que vai ser possível

[01:25:20] ter algum nível de eficácia material

[01:25:24] e ter, portanto, uma política

[01:25:27] capaz de enfrentar o realismo capitalista de maneira emancipatória

[01:25:32] se a gente não conseguir reestruturar a possibilidade da ação coletiva.

[01:25:37] A capacidade das pessoas fazerem coisas juntos,

[01:25:40] de a gente ter um projeto de natureza comum.

[01:25:44] E aí…

[01:25:45] Sabe por que isso eu acho tão interessante?

[01:25:47] Vamos voltar agora para o desejo dos pós-capitalistas,

[01:25:49] porque ele tem um capítulo fantástico

[01:25:53] e acho legal até que ele usa o feminismo

[01:25:56] e toda a discussão de standpoint

[01:25:58] para discutir a história de consciência de classe do Lukács,

[01:26:01] para a gente entender o que é consciência de classe.

[01:26:05] E a noção de consciência de classe,

[01:26:06] que o Fischer está tentando articular,

[01:26:08] tanto nesse capítulo diretamente sobre o Lukács,

[01:26:11] Lukács com o feminismo da década de 60,

[01:26:14] as duas coisas juntas,

[01:26:15] mas depois ele tem também um capítulo só sobre classe,

[01:26:19] está certo?

[01:26:20] Qual é a teoria dele de consciência de classe

[01:26:22] que ele está interpretando

[01:26:24] na chave do modelo hiperticional

[01:26:26] o Lukács de História e Consciência de Classe?

[01:26:29] Que consciência de classe não é

[01:26:31] eu sou um indivíduo trabalhador

[01:26:33] e eu, de repente, tenho consciência

[01:26:35] daquilo que eu realmente sou,

[01:26:36] que sou um trabalhador, está certo?

[01:26:38] Então a gente geralmente usa consciência de classe

[01:26:40] nesse sentido.

[01:26:41] Você fala, pô, o cara é um trabalhador,

[01:26:43] mas ele não tem consciência,

[01:26:45] porque ele não saca que ele é um trabalhador

[01:26:47] e ele fica aí lambendo as botas do patrão.

[01:26:49] Tudo bem, há um âmbito legítimo de uso para isso.

[01:26:54] Mas o que o Fischer está falando é

[01:26:57] consciência de classe não é meramente representativo.

[01:27:02] Consciência de classe é o processo,

[01:27:05] o processo de formação do que a gente,

[01:27:07] às vezes, no marxismo,

[01:27:08] chamaria de classe para si.

[01:27:11] Então você pode ter um conjunto de indivíduos

[01:27:13] que são proletários, que são explorados,

[01:27:15] que vendem o seu trabalho,

[01:27:16] que não têm propriedade, esse tipo de coisa e tal.

[01:27:18] E eles estão aí atomizados,

[01:27:20] batendo uns nos outros no mundo.

[01:27:22] Bom, é a classe em si.

[01:27:24] Eles estão competindo uns com os outros,

[01:27:25] querendo jogar um para baixo

[01:27:27] para pegar um emprego melhor, uma promoção,

[01:27:29] não sei o quê e tal.

[01:27:31] E aí essa é a classe em si.

[01:27:36] Mas essa não é uma classe como agente político.

[01:27:38] Essa não é uma classe como sujeito coletivo.

[01:27:41] Essa classe como sujeito coletivo é um projeto.

[01:27:44] Ela precisa ser construída.

[01:27:46] Ela não está dada.

[01:27:48] E a consciência de classe é você desenvolver

[01:27:52] a consciência do sujeito coletivo,

[01:27:54] de você fazer parte de um processo de conscientização

[01:27:58] que é a expansão da classe para si,

[01:28:00] e a classe para si ganhando potência,

[01:28:02] ganhando força,

[01:28:03] ganhando capacidade de realizar coisa no mundo.

[01:28:05] Eu agora sou parte dessa classe

[01:28:07] porque eu tenho um projeto autônomo

[01:28:10] de uma outra sociedade

[01:28:12] vista pela perspectiva dos proletários.

[01:28:17] E, de fato, só é classe de verdade como age como tal.

[01:28:20] Então, olha só, o Fischer nos deu uma leitura aqui.

[01:28:23] É uma pena que ele não conseguiu terminar o Comunismo Ácido,

[01:28:27] porque isso era o que ele…

[01:28:29] O curso é uma preparação para o livro dele.

[01:28:31] Está certo?

[01:28:32] Eu, inclusive…

[01:28:35] Muito boa a ideia, Luca.

[01:28:38] Acho que também tem relação com consciência de raça

[01:28:41] do movimento negro.

[01:28:42] Isso, com certeza.

[01:28:43] E essas consciências, elas entram.

[01:28:45] E aí o Fischer vai falar sobre a teoria de standpoint,

[01:28:49] que não é de lugar de fala.

[01:28:51] É muito interessante.

[01:28:52] E ele debate muito bem nos livros de pós-catalistas,

[01:28:55] recomendo a leitura do livro de verdade.

[01:28:57] Aí não é, tipo assim, a compra, porque é legal.

[01:28:59] Comprem, porque realmente ele vai debater isso

[01:29:02] de uma maneira bem interessante.

[01:29:04] E ele vai fazer essa relação com o Lukács.

[01:29:07] E é muito legal, porque ele fala…

[01:29:09] Pô, não entendo bem exatamente, porque é difícil, né,

[01:29:11] essa leitura de Lukács.

[01:29:13] Eu acho ótimo ele como professor.

[01:29:15] Um parêntese sobre isso.

[01:29:16] Você vê que professor simpático.

[01:29:18] Exato, exato, exato.

[01:29:20] O esforço que ele está tendo ali de pensar junto com os alunos.

[01:29:24] Você tem zero condescendência.

[01:29:26] Exato.

[01:29:27] Você não está tendo uma posição de superioridade moral ou intelectual.

[01:29:30] Nada, nada.

[01:29:31] Não, não.

[01:29:32] Me ajudem aqui a ler esse negócio e tal.

[01:29:34] É complicado mesmo, mas vamos trabalhando junto.

[01:29:37] Junto a gente chega lá.

[01:29:38] A única generosidade que…

[01:29:40] É algo que eu me inspiro como professor.

[01:29:44] Sim, sim.

[01:29:45] Eu acho que inspira todos os professores,

[01:29:46] todo mundo que dá aula e teve contato com o Fischer,

[01:29:49] deveria ler Desejo de Pós-Capitalista

[01:29:52] para sacar essas vicissitudes do Fischer,

[01:29:57] enquanto falante.

[01:29:58] O Fischer enquanto fala é um pouco diferente,

[01:30:00] mas é muito interessante.

[01:30:02] Mas bem, o que eu só…

[01:30:04] Tem um ponto para concluir.

[01:30:05] Isso daí eu também não posso deixar,

[01:30:07] sair daqui sem falar isso.

[01:30:09] Vamos lá.

[01:30:10] Ele não terminou esse último livro.

[01:30:13] Ele às vezes falava assim, né?

[01:30:14] O nosso desejo não tem nome.

[01:30:16] Ele não tinha também muito apego,

[01:30:18] se é comunismo libertário,

[01:30:20] se é comunismo libertacional,

[01:30:22] se é socialismo democrático,

[01:30:24] se é pós-capitalista.

[01:30:25] Ele está tateando também.

[01:30:26] Isso daí são os grandes movimentos de massa

[01:30:30] que vão definir qual é o nome do nosso projeto,

[01:30:33] está certo?

[01:30:34] Mas nós estamos apontando nessa direção

[01:30:36] e eu quero fazer parte dessa construção coletiva.

[01:30:40] E seria um livro em que ele iria discutir isso.

[01:30:42] Certamente é um livro em que ele iria discutir

[01:30:45] o Chile do Allende,

[01:30:48] que tinha uma aula prevista no livro sobre isso.

[01:30:52] Ele estava também estudando experiências da América Latina,

[01:30:56] eu tenho certeza que ele iria acabar parando no Paulo Freire,

[01:30:59] ele iria falar dos Panteras Negras,

[01:31:01] ele estaria retomando.

[01:31:03] Seria um livro também para retomar esse espectro,

[01:31:06] seria um livro de espectrologia,

[01:31:08] de assombrologia de alguma maneira,

[01:31:10] das possibilidades que justamente essa passagem

[01:31:13] da crise do Fordismo,

[01:31:15] da crise do compacto keynesiano social-democrata na década de 70,

[01:31:19] abriu oportunidades que a gente acabou não aproveitando,

[01:31:23] mas que estão lá,

[01:31:24] que estão pulsando,

[01:31:25] que a gente pode conjurar, digamos assim,

[01:31:27] a gente pode fazer os nossos encantamentos

[01:31:29] para nos inspirar a reabrir certos caminhos.

[01:31:32] Crie seus sigilos.

[01:31:34] E o Fischer diz o seguinte,

[01:31:37] nesse momento, pós-68,

[01:31:39] você tem uma série de elevações de consciência,

[01:31:43] é muito interessante a terminologia,

[01:31:46] o tipo de teoria que ele estava, digamos assim, tateando,

[01:31:50] Conscious Raising, elevação da consciência,

[01:31:54] como seria a melhor maneira de traduzir isso, Amaury?

[01:31:58] É elevação da consciência, elevação da consciência.

[01:32:00] Assim como o comunismo dissérgico cabe mais que ácido,

[01:32:04] porque quando você fala ácido em inglês britânico,

[01:32:08] você está falando de estados alterados da mente,

[01:32:10] você não está remetendo a nenhuma acepção

[01:32:13] que a gente tem no Brasil de sarcástico ou ácido,

[01:32:22] uma pessoa que está sendo muito cínica.

[01:32:25] Não, o comunismo ácido é um comunismo doidão mesmo.

[01:32:29] O meu comentário favorito,

[01:32:31] quando eu lancei a tradução lá na Jacobin,

[01:32:33] no Instagram da Jacobin, é

[01:32:35] pô, o comunismo dissérgico é quando eu estou com 5 gramas de cogumelo na mente

[01:32:39] e vi um MBL falar merda aqui.

[01:32:41] É isso aí um pouquinho, camarada.

[01:32:43] Também é, faz parte.

[01:32:45] Faz parte, eu acho que é importante a gente…

[01:32:47] O Fischer está sempre falando,

[01:32:50] nos últimos textos, nas últimas intervenções,

[01:32:54] dessa ideia de ascensão da consciência,

[01:32:56] elevação da consciência

[01:32:58] e as possibilidades de elevação da consciência

[01:33:01] que o final da década de 60, começo da década de 70, colocaram.

[01:33:05] Ele fala em múltiplos aspectos.

[01:33:07] A elevação da consciência nesses grupos de conscious raising feministas,

[01:33:11] onde as mulheres iam falar dos seus problemas,

[01:33:14] eu acho isso também muito comovente, muito emocionante.

[01:33:16] A gente tem que traduzir o texto do Fischer falando sobre isso.

[01:33:19] O texto das mulheres chegando,

[01:33:21] nossa, isso não é um problema meu, não é um problema individual.

[01:33:25] Ao colocar coletivamente essas questões,

[01:33:28] elas começam a perceber e ver as estruturas

[01:33:31] intelectuais de dominação, as estruturas sociais de dominação.

[01:33:35] Não é meu problema, não sou eu.

[01:33:37] E a partir disso, a possibilidade de intervenção coletiva

[01:33:40] para transformar a realidade.

[01:33:42] Mas a mesma coisa estava acontecendo no black power,

[01:33:44] black conscious, blacks beautiful,

[01:33:46] a elevação da consciência negra.

[01:33:48] Outra coisa que estava acontecendo…

[01:33:50] O movimento Pride.

[01:33:51] Aliás, nas greves às vezes selvagens,

[01:33:53] White Cat Strike, que estavam colocando em questão

[01:33:56] até o próprio trabalho, o próprio trabalho assalariado

[01:34:00] e o crescimento dessa autonomia nas fábricas

[01:34:04] que estavam saindo do controle dos patrões.

[01:34:07] E a ascensão da consciência psicodélica,

[01:34:12] que é a alteração dos estados da consciência,

[01:34:15] o LSD era…

[01:34:17] Então, é o Timothy Leary.

[01:34:19] E é meio assim, os Panteras Negras com Weather on the Ground

[01:34:22] tirando o Timothy Leary da prisão e colocando ele lá em…

[01:34:25] Aonde?

[01:34:26] Ele vai para a Gélia, não vai para o meio.

[01:34:28] Vai para a Gélia.

[01:34:29] Era a ligação do Gay Liberation Front com a libertação palestina.

[01:34:35] Mas você imagina…

[01:34:36] Cara, você imagina que loucura.

[01:34:38] Eu queria fazer um filme…

[01:34:39] É bizarro que a Rainha Inês não saca isso.

[01:34:41] Você imagina um filme que junta os sequestrados brasileiros,

[01:34:46] os sequestrados não, os liberados pelos sequestros brasileiros na Gélia,

[01:34:50] o Timothy Leary.

[01:34:51] Tipo, a Gélia era o lugar mais legal de estar

[01:34:54] numa virada dos 60 para os 70,

[01:34:56] porque estavam todos os revolucionários do mundo

[01:34:58] que tinham que fugir dos seus países,

[01:35:00] iam para lá.

[01:35:01] Era o lugar, era o ponto de lá de sair.

[01:35:04] E a Revolução Cubana foram as primícias, digamos assim.

[01:35:07] Elas foram os que estimularam, inspiraram os grandes movimentos,

[01:35:12] inclusive movimentos de massa, contra a cultura, contra a guerra,

[01:35:15] mas também greves gerais que aconteceram no final da década de 60, começo de 70.

[01:35:22] E isso estava tudo no mesmo…

[01:35:24] Esse caldo de cultura fermentando, imagina,

[01:35:27] psicodelia com a luta de libertação nacional anticolonial,

[01:35:31] com os Panteras Negras organizando a Rainbow Coalition,

[01:35:36] juntando latino com redneck em Chicago.

[01:35:41] Aquela coisa maravilhosa do Fred Hampton.

[01:35:45] E, ao mesmo tempo, o Porto Madeira lá na Itália,

[01:35:51] a Rádio Alice na Itália.

[01:35:54] Então, todo o rolê dos autonomistas italianos…

[01:35:56] Uma pergunta aqui para a gente estar chegando ao fim,

[01:36:00] porque senão a gente vai ficar umas seis horas.

[01:36:03] Outro dia a gente vai falar ainda mais.

[01:36:05] A gente vai ter muito mais coisa de Fischer.

[01:36:07] Vou trazer muito mais o Victor Mikes para falar várias coisas,

[01:36:10] mas eu queria te perguntar uma.

[01:36:13] Você já citou, mas eu queria ter certeza.

[01:36:15] A minha aula que eu queria ver do Desejo Pós-Capitalista

[01:36:18] é sobre os autonomistas italianos.

[01:36:20] Eu queria ver todas elas, com certeza,

[01:36:22] mas a que eu mais fiquei assim, meu Deus do céu, está na beira,

[01:36:25] porque ele cita muito os autonomistas italianos.

[01:36:27] É a primeira aula que ele vai dar antes, na volta às aulas,

[01:36:31] as aulas que ele propôs ali, das dez que faltam.

[01:36:35] O que eu fico mais curioso é a visão dele sobre os autonomistas italianos.

[01:36:39] Ele fala muito no Comunismo Discérgico, nesse texto inacabado,

[01:36:42] sobre os autonomistas italianos.

[01:36:44] E eu queria entender qual foi a pira dele, o que bateu nele.

[01:36:48] Porque, realmente, essa questão de classe, consciência de classe,

[01:36:52] sobre tempo, sobre todos esses debates que a gente está trazendo aqui,

[01:36:56] mostrando que falam com todo mundo e sobre todo mundo.

[01:36:59] No seu caso, Victor, qual é a aula que você…

[01:37:02] Assim, se fosse para escolher uma, qual a aula do Fischer,

[01:37:05] das dez aulas que faltam do Desejo Pós-Capitalista que você queria ver?

[01:37:08] A aula que eu, com certeza, gostaria de ver é a aula sobre o Chile,

[01:37:12] sobre a experiência do socialismo democrático latino-americano,

[01:37:16] as possibilidades tecnológicas que estavam colocadas.

[01:37:19] É uma doideira, não sei até em que medida o Fischer ia se aprofundar nisso,

[01:37:23] mas o governo Allende chama os cibereticistas britânicos

[01:37:28] para trabalhar para o governo, para construir uma rede de computadores

[01:37:32] para fazer planejamento democrático da produção,

[01:37:36] juntando os cordões industriais, as fábricas nacionalizadas,

[01:37:40] as cooperativas, para tentar criar um sistema de participação democrática

[01:37:44] na gestão da economia.

[01:37:46] Vem o Stadford Beer da Inglaterra para ajudar.

[01:37:49] O Francisco Varela estava no Chile nesse momento,

[01:37:52] dando aula de cibernética para o pessoal do governo chileno

[01:37:56] para pensar nessas coisas.

[01:37:58] Acho que esse é também um capítulo da nossa história,

[01:38:02] porque a coisa se junta.

[01:38:04] Porque o Fischer tem também muita consciência disso aqui,

[01:38:08] que talvez a Unidade Popular,

[01:38:13] a experiência do governo Allende foi o ápice,

[01:38:17] e mesmo por ser o ápice, o início do declínio desse processo.

[01:38:20] Claro que depois ainda teve a revolução dos cravos,

[01:38:27] logo em seguida, em 1974, em Portugal,

[01:38:30] que ainda está no mesmo conjunto de coisas.

[01:38:32] Mas o Chile foi muito duro,

[01:38:34] porque no Chile os socialistas ganharam democraticamente,

[01:38:37] em eleições livres, totalmente limpas,

[01:38:40] começaram a fazer um processo de transição social-econômica democrática,

[01:38:44] com mobilização de massa.

[01:38:46] Quem assistiu o filme A Batalha do Chile deve acompanhar.

[01:38:51] Aliás, esse é um filme que você deveria passar junto com essa aula,

[01:38:54] A Batalha do Chile, a formação dos cordões industriais,

[01:38:57] da auto-organização proletária.

[01:38:59] Eu gostaria de ver essa discussão,

[01:39:02] mas foi exatamente nesse momento que o neoliberalismo começou a acontecer.

[01:39:06] Isso é verdade.

[01:39:07] E começou a reação sangrenta.

[01:39:10] Então, mas…

[01:39:12] Até hoje, as correntes mais atrozes da extrema-direita.

[01:39:17] O que não tem com os Chicago Boys, entendeu?

[01:39:20] Acabou esse negócio, não vão experimentar mais coisa nenhuma.

[01:39:23] Acabou a democracia, nós vamos…

[01:39:25] O Vitor Rara, com quem eu tenho uma…

[01:39:28] Porque o meu nome é uma homenagem ao Vitor Rara,

[01:39:31] o cantautor chileno,

[01:39:33] que é, como dizia o escape, né?

[01:39:36] Cortaram seus dedos e sua língua e ainda assim gritou revolução.

[01:39:41] Lá no estádio onde teve…

[01:39:44] Massacres.

[01:39:46] Massacres, tortura.

[01:39:48] Aí depois os militantes sendo jogados de helicóptero.

[01:39:51] Que tem a ver também com o que eu falei lá no Vira Casacas,

[01:39:54] porque isso depois virou um meme da alt-right.

[01:39:57] Exatamente.

[01:39:58] Que junta Pinochet com Hoppe, austríaco libertário,

[01:40:02] pra dizer que é pra jogar os subversivos, os militantes,

[01:40:05] do helicóptero pra removê-lo fisicamente da sociedade.

[01:40:09] É…

[01:40:10] Aí que tá.

[01:40:11] Uma coisa que eu gosto do Hoppe, não gosto de nada,

[01:40:13] mas o que eu quero dizer que eu gosto é que é o seguinte,

[01:40:15] o Hoppe, ele rompe também esse véu,

[01:40:18] no sentido de que…

[01:40:20] Existiu uma ideia, um papinho vagabundo

[01:40:23] entre os neoliberais e depois os libertários estadunidenses,

[01:40:27] que se chamam de libertários, não tem nada a ver com o que a gente conhece como libertário por aqui,

[01:40:31] e com todo o anarcocapitalismo, etc,

[01:40:34] de que é sobre liberdade, né?

[01:40:36] O bagulho é sobre…

[01:40:38] Não é, é sobre liberdade de você ter.

[01:40:40] É repressão violenta, zero voz…

[01:40:44] Exato.

[01:40:45] Acaba a democracia, acaba o sindicato, acaba…

[01:40:48] Sabe, a Seguridade Social, que foi até privatizada no Chile.

[01:40:52] E é o neoliberalismo mostrando a que veio, na sua forma mais descarada.

[01:40:56] E o Hayek e o Milton Friedman indo lá, confraternizar com…

[01:41:02] Acho que os caras ficaram…

[01:41:03] Com Pinochet.

[01:41:04] Ficaram com tanto medo da ascensão socialista-comunista

[01:41:07] no final dos anos 60 e começo dos anos 70,

[01:41:09] que os caras acabaram com o sistema que existia

[01:41:14] do grande acordo social-democrata dos anos 60 e 70,

[01:41:18] dos anos 50 e 60,

[01:41:20] pra botar outra coisa no lugar.

[01:41:22] E aí vem o choque do petróleo, que pra mim é muito essencial,

[01:41:24] as pessoas falam muito pouco, porque eu acho meio importantíssimo,

[01:41:27] inclusive no fim da imaginação da ficção científica,

[01:41:32] porque a ficção científica fala…

[01:41:33] O Fischer acaba falando também, viu?

[01:41:35] Ele fala como o choque do petróleo produz uma recessão

[01:41:38] que fragiliza o movimento operário,

[01:41:41] vai ajudando a desmobilizar os sindicatos…

[01:41:44] Tem tudo isso, mas pra mim, acima de tudo,

[01:41:46] tem o primeiro momento que a gente percebe

[01:41:49] de que os recursos são finitos.

[01:41:52] Que esses recursos…

[01:41:55] Existe uma ideia de abundância por trás desse grande acordo,

[01:42:01] que ocorre mais no primeiro mundo,

[01:42:03] mas que a gente aqui no terceiro mundo estava empurrando pra frente,

[01:42:06] tentando inclusive ser mais social-democrata, mais comunista,

[01:42:09] mais do que social-democrata, mais comunista em vários lugares,

[01:42:12] mas no caso da crise do petróleo,

[01:42:16] a primeira especialmente, depois você vai ter uma segunda

[01:42:19] pra reforçar, ó, aconteceu uma vez, pode acontecer duas,

[01:42:22] que você acaba com a ideia de possibilidade da hiperabundância,

[01:42:27] e a possibilidade da hiperabundância é um problema pro comunismo,

[01:42:29] porque o comunismo é a ideia…

[01:42:30] Você acabar com a ideia econômica de economia,

[01:42:34] você acabar com o recurso ser escasso,

[01:42:37] e você poder ter uma hiperabundância pro trabalhador,

[01:42:40] pra trabalhadora, pra todo mundo.

[01:42:42] A gente não precisa mais guardar dinheiro,

[01:42:44] porque as nossas técnicas são capazes de tudo.

[01:42:47] Só que quando a gente chega na ideia de que existe uma finitude efetiva

[01:42:50] dos recursos, que a gente lida com ele aqui no planeta Terra,

[01:42:53] e a gente vê a materialidade dela acontecendo,

[01:42:56] isso destrói a cabeça de milhares, milhões de pessoas.

[01:42:58] Isso destrói a cabeça de milhares, milhões de pessoas.

[01:42:59] Isso destrói a cabeça de milhares, milhões de pessoas.

[01:43:01] E aí a ficção científica vai entrar em colapso,

[01:43:04] vai entrar em curto-circuito até criar o cyberpunk,

[01:43:06] que é, de certa forma, uma resposta, não uma resposta,

[01:43:09] mas um acontecimento final disso, assim,

[01:43:12] porque aí quando é materialidade, come a hipertensão.

[01:43:16] Quando é materialidade, ela vai esgotar todo o nosso jeito de viver e de pensar.

[01:43:22] Aí é outro papo, que eu até poderia voltar, não sei se aqui,

[01:43:26] mas eu já falei sobre isso, por exemplo, lá no Canal do Transe, com o Moisés,

[01:43:27] mas eu já falei sobre isso, por exemplo, lá no Canal do Transe, com o Moisés,

[01:43:30] que é uma discussão sobre aceleracionismo de esquerda,

[01:43:32] comunismo de luxo totalmente automatizado, abundância,

[01:43:35] questão ecológica e tal.

[01:43:37] Acho que dá pano para manga e eu queria algumas coisas para falar sobre isso também.

[01:43:42] Acho que dá pano para manga e eu queria algumas coisas para falar sobre isso também.

[01:43:43] Mas eu queria terminar com uma coisa.

[01:43:45] Não, tem mais uma pergunta aí, dá para falar.

[01:43:47] Essa linha do argumento.

[01:43:49] O que o Fiji estava pensando no final da vida?

[01:43:51] O que teria sido importante ele escrever para a gente, está certo?

[01:43:54] O que teria sido importante ele escrever para a gente, está certo?

[01:43:55] Como os processos de elevação da consciência, consciência negra,

[01:43:58] consciência feminista, consciência de classe, consciência psicodélica,

[01:44:02] está certo?

[01:44:04] Constituíam um problema para o sistema de realidade estabelecido.

[01:44:07] E o neoliberalismo é a estratégia meio que leninista da classe proprietária

[01:44:14] para deflacionar a consciência, para jogar a consciência para baixo.

[01:44:18] Então é isso, o Fiji termina a vida dele dizendo o seguinte, olha,

[01:44:21] o neoliberalismo foi um projeto político de deflacionamento

[01:44:25] da consciência, não é por acaso que o neoliberalismo vem junto

[01:44:31] com o proibicionismo, com a guerra às drogas, que era para deflacionar

[01:44:36] a consciência psicodélica também, criminalizar a consciência psicodélica.

[01:44:41] Não é por acaso que o neoliberalismo vem junto, sobretudo nos Estados Unidos,

[01:44:45] com o encarceramento em massa, está certo?

[01:44:48] Que é uma maneira de quebrar as comunidades negras também,

[01:44:51] era um ataque à ideia de consciência negra também nesse momento.

[01:44:54] Você troca as drogas psicodélicas pelo crack e cocaína.

[01:44:57] É um massacre.

[01:45:00] E não é por acaso que o neoliberalismo vem com uma ofensiva de quebrar a coluna vertebral dos sindicatos,

[01:45:08] como a Tati faz com os mineiros na Inglaterra,

[01:45:11] como o Reagan faz com os controladores de voo nos Estados Unidos.

[01:45:15] Acabar com os sindicatos, esmagar, eliminar a consciência de classe, atomizar.

[01:45:20] As pessoas estavam pensando alto demais, estavam fantasiando,

[01:45:23] estavam criando ficções que poderiam se tornar realidade.

[01:45:28] Acaba com isso, baixa a consciência, deflaciona, individualiza, atomiza.

[01:45:34] Rompe o circuito hiperticional de fortalecimento dessa utopia coletivizada.

[01:45:41] O Fischer falou, eu não gosto de falar de utopia, eu gosto de falar de desperdição.

[01:45:45] Também aparece nos últimos textos dele.

[01:45:47] Mas você pode dizer que uma utopia só é eficaz

[01:45:51] quando ela entra numa dinâmica hiperticional.

[01:45:54] Ela alimenta práticas de organização e de ação coletiva no momento

[01:45:58] que tornam a própria execução da utopia mais provável, mais palpável, mais inteligível.

[01:46:06] Perfeito, perfeito, Victor.

[01:46:09] Só antes da gente terminar, tem uma pergunta aqui da Grazi.

[01:46:12] Foto, ela pergunta aqui.

[01:46:15] Saberiam dizer, eu não sei mesmo, eu não lembro,

[01:46:19] se tem algo escrito em que o Fischer cita Gregory Bateson?

[01:46:23] Eu não sei se ele cita o Gregory Bateson, eu não lembro.

[01:46:27] E se eu tivesse que chutar, eu chutaria que não.

[01:46:30] Mas aí a gente tem que fazer pelo menos uma pesquisa no K-Punk e ver se aparece.

[01:46:37] Ele certamente cita muito os ciberneticistas da primeira,

[01:46:41] chamada de primeira ordem, da primeira geração.

[01:46:44] O Norbert Wiener, o McCulloch, o von Neumann,

[01:46:48] esse pessoal aparece.

[01:46:51] O Wiener aparece até como uma espécie de vilão no CCRU,

[01:46:54] porque ele gostava da cibernética negativa,

[01:46:58] a cibernética do controle, a cibernética da estabilidade.

[01:47:01] O pessoal do CCRU era a cibernética positiva,

[01:47:05] do escape, do runaway, do colapso.

[01:47:10] E eu sei, eles não…

[01:47:15] Eu sei que eles estavam lendo o Reinfeldt,

[01:47:18] o Foster,

[01:47:19] e eu sei que eles estavam lendo…

[01:47:21] Em algum momento eles leram também o Varela e o Maturana,

[01:47:24] que são ciberneticistas de segunda ordem, dessa segunda geração.

[01:47:28] Mas o Bateson…

[01:47:30] Eu acho que o Fischer nem chega a escrever sobre eles,

[01:47:34] mas ele menciona que era uma das coisas que estava dentro da leitura do CCRU.

[01:47:39] A própria ideia de autopoiese,

[01:47:42] depois a ideia de strange loops lá do Hofstadter,

[01:47:46] que eu falo também num livro sobre…

[01:47:47] num artigo sobre perdição.

[01:47:50] Eles estavam bem interessados na cibernética enquanto teoria.

[01:47:54] Mas lendo pela lente do Baudrillard,

[01:47:58] que eu acho que é quem traz para o campo da teoria no sentido francês,

[01:48:02] essa teoria crítica francesa,

[01:48:04] quem traz os elementos cibernéticos,

[01:48:07] inclusive essa ideia de que você não tem mais o território e o modelo,

[01:48:12] porque agora você tem um circuito de retroalimentação entre uma coisa e outra,

[01:48:16] então o modelo está alterando o território também,

[01:48:18] não tem nenhum que precede um ao outro.

[01:48:20] Isso eles tiram tipicamente do Baudrillard

[01:48:22] e eu acho que é uma inspiração para essa ideia de perfeição.

[01:48:27] Grazi, eu pretendo chamar a professora Letícia Cesarino,

[01:48:33] que é uma das maiores especialistas em Bateson no Brasil,

[01:48:36] para falar do Fischer.

[01:48:37] Sei que ela é uma pessoa muito interessada no texto do Fischer

[01:48:40] e sei também que ela acabou de lançar agora um livro sobre o Bateson.

[01:48:45] Acho que é essencial que a gente traga esse debate.

[01:48:49] Mas bem, Victor, queria muito agradecer a sua presença aqui,

[01:48:53] a estreia da nossa série.

[01:48:56] Sei que vai ficar um monte de coisa para a gente falar,

[01:48:58] porque é para ficar também um pouco,

[01:49:00] para a gente ter outros momentos, para a gente ter outros debates.

[01:49:03] Acho que esse lance do ecossocialismo e da abundância

[01:49:07] é interessante porque o que eu estava querendo colocar,

[01:49:11] e eu acho que a gente pode depois aí um dia rebater,

[01:49:14] é dentro da ficção científica, porque eu acho que aí você tem…

[01:49:19] Aí você vai ver a leitura do Fischer

[01:49:21] em relação a como que esse colapso ocorre dentro da ficção científica.

[01:49:25] Vamos ter, se tudo der certo, quero trazer o Rodrigo semana que vem

[01:49:29] para a gente falar do próximo livro traduzido do Fischer,

[01:49:31] que é O Estranho e o Sinistro, que ele já terminou a tradução,

[01:49:35] aí a gente já está trabalhando devagar aqui na autonomia

[01:49:37] para lançar ele ano que vem.

[01:49:39] E, olha gente, sigam o Victor nas redes sociais,

[01:49:43] às vezes tem em rede social, Victor, ainda?

[01:49:45] Você usa esse negócio horroroso?

[01:49:47] Eu não tenho nada, não tenho atuação em redes sociais.

[01:49:50] Eu era ativo no Twitter, mas enfim, o Twitter virou aquela coisa,

[01:49:54] botei a minha conta como privada lá,

[01:49:57] às vezes por outro eu olho, mas eu nunca mais tenho feito mais nada lá.

[01:50:01] Venha para o Blue Sky, professor.

[01:50:02] Facebook eu nem entro.

[01:50:05] Venha para o Blue Sky.

[01:50:06] Eu estou um pouco off de redes sociais.

[01:50:08] Talvez eu vá para o Blue Sky depois.

[01:50:11] Venha, venha.

[01:50:12] Vou fazer algum tipo de atividade lá,

[01:50:14] mas por enquanto, o mais interessante,

[01:50:17] talvez vocês pegarem o meu Academia.edu,

[01:50:20] que tem as coisas que eu escrevi lá e darem uma olhada.

[01:50:23] E claro que no YouTube também tem, acho que dezenas de outras falas minhas,

[01:50:27] dá para encontrar.

[01:50:29] Rede social hoje eu estou por fora.

[01:50:31] Maravilha.

[01:50:32] Mas me procurem no YouTube e me procurem no Academia.edu.

[01:50:35] O seu artigo citado sobre a superstição vai estar linkado

[01:50:38] nas inscrições do podcast e também lá no crise.love.

[01:50:41] Talvez escreva mais alguma coisinha.

[01:50:44] E Zeca, fica de olho lá no crise.love,

[01:50:46] que com certeza eu vou fazer questão de avisar

[01:50:49] quando o Victor tiver o curso dele.

[01:50:52] Curso livre sobre Fischer, o desejo pós-capitalista.

[01:50:55] A gente vai fazer chamada, vai falar para todo mundo,

[01:50:58] porque é muito importante e muito legal.

[01:51:01] E é isso, gente.

[01:51:03] Compre em Mark Fischer, use o cupom

[01:51:05] hashtag crise, crise, crise no site da Autonomia.

[01:51:08] Você ganha 25% de desconto sobre qualquer coisa.

[01:51:10] Conto sobre qualquer livro do Fischer que você comprar

[01:51:12] e qualquer outro título da Autonomia.

[01:51:14] Inclui os jogos, tem lá o Belo Levante, Polarizando também.

[01:51:17] O Das Capital, o Capital acho que também está lá.

[01:51:21] E a gente, mano, vai ser isso.

[01:51:28] Forte abraço, fiquem de olho aqui no crise,

[01:51:31] entre no crise.love, crise.love também no Blue Sky.

[01:51:34] A gente está sempre atualizando.

[01:51:36] Vamos saber dos próximos capítulos aí.

[01:51:38] A gente vai falar com bastante gente aí.

[01:51:39] Se preparem que vai ter conversas, diálogos

[01:51:42] e até quebra-pau aí para a gente falar dos termos,

[01:51:46] as traduções do Fischer,

[01:51:48] por que traduzir assim e não traduzir assado.

[01:51:51] E a gente espera contar aí com a audiência leitora de todo mundo

[01:51:56] que parece que esse cara aí está bem famoso, esse Mark Fischer.

[01:52:00] Um abraço, Victor. Até em breve.

[01:52:03] É, pessoal, minha última recada é compre o Desejo pós-capitalista.

[01:52:07] São aulas muito gostosas.

[01:52:08] São aulas muito gostosas de ler.

[01:52:10] E em breve a gente vai estar lançando aí o The Weird and the Eerie,

[01:52:14] que vai ser difícil também traduzir isso.

[01:52:16] Não, é isso. É o Estranho e o Sinistro.

[01:52:18] Já foi decidido pelo Rodrigo.

[01:52:20] Mas também eu vou começar a organizar agora uma coletânea,

[01:52:26] tipo um fascículo do K-Punk, para a gente não lançar o caramato.

[01:52:29] Ah, sim.

[01:52:30] Os últimos textos políticos do Fischer.

[01:52:33] De 2011 para 2017 de política.

[01:52:37] A gente vai dividir, né?

[01:52:39] A gente vai dividir aí os fascículos do K-Punk.

[01:52:42] Eu vou pegar a parte cultural.

[01:52:44] Maravilha. Você pega a parte cultural e eu pego as intervenções políticas recentes.

[01:52:48] Isso. E aí a gente vai pensar nos outros ângulos.

[01:52:51] A gente vai conversar com essa galera aí que a gente vai trazer aos próximos tempos

[01:52:55] para a gente chegar numa edição tão bonita de Fischer como tem sido até agora.

[01:53:00] Mas é isso, galera. Fiquem de olho nas redes.

[01:53:02] crise.love acha a gente.

[01:53:04] Até mais. Valeu. Um abraço.

[01:53:06] Valeu, galera do Crise. Valeu, Amaury.

[01:53:08] Tamo junto.