#239 - Caetano Galindo: A busca por “pureza” na língua é um mecanismo de exclusão
Resumo
A entrevista conversa com Caetano Galindo sobre seu trabalho de divulgação e pesquisa em torno da língua portuguesa, a partir do livro Na Ponta da Língua. Ele explica a proposta de contar a história do idioma por meio de uma “lista qualquer” de palavras — no caso, partes do corpo — e mostra como a etimologia revela contatos culturais, disputas e mudanças constantes, defendendo uma visão de língua viva, distante do academicismo e do purismo gramatical.
O papo avança para a formação do português a partir do “latim popular” e para o debate sobre a relação entre o português do Brasil e o de Portugal, considerando diferenças linguísticas, peso demográfico, exportação cultural e possíveis reações políticas. Em seguida, Galindo discute preconceito linguístico como um mecanismo social ligado a raça, classe e exclusão educacional, criticando retóricas de “pureza” (inclusive na extrema direita) e desmontando mitos como o do “sotaque neutro”, ao mesmo tempo em que reconhece a norma-padrão como ferramenta de acesso em contextos formais.
Por fim, ele fala do ofício de tradução — com destaque para Ulisses e Graça Infinita — enfatizando a tradução como uma forma de escrita que exige recriar efeitos de linguagem e viver emocionalmente o texto. A conversa termina com sua faceta de ficcionista (especialmente o romance fragmentário Lia), suas influências literárias e indicações de leituras recentes.
Anotações
- 00:18:39 — Norma culta como instrumento social Caetano Galindo defende que a norma culta do português é um instrumento útil e poderoso para acesso e credibilidade social, permitindo que o conteúdo seja levado a sério. Ele contrasta isso com o valor expressivo de formas populares, mas reconhece as exigências do contexto institucional e profissional.
- 00:18:44 — Norma culta como ferramenta social O trecho discute como a norma culta do português funciona como um instrumento de acesso e credibilidade, permitindo que a pessoa seja avaliada pelo conteúdo e não pela forma. Também aborda que diferentes contextos sociais e profissionais exigem códigos linguísticos distintos.
- 00:37:53 — Mulheres como narradoras da vida Caetano relembra a influência marcante das tias e de um ambiente familiar majoritariamente feminino, que moldou sua visão de mundo. Ele reflete sobre como as mulheres conduziam as histórias e as relações, e sobre o impacto de ter uma filha nessa percepção.
- 00:40:50 — Afeto por fragmentos de alguém Ele fala sobre abandonar a ideia inicial do texto e se fascinar pela possibilidade de criar uma relação de afeto com alguém conhecido apenas por pequenos recortes desconexos. Comenta que esse encanto por incompletude se parece com como conhecemos as pessoas na vida real, em fatias e pedaços.
Indicações
Livros
- Na Ponta da Língua (Caetano Galindo) — Livro mais recente, usa partes do corpo para explorar etimologia e história do português
- Latinha em Pó (Caetano Galindo) — Continuação do projeto de divulgação sobre a formação do português (mencionado como livro anterior)
- Ulisses (James Joyce) — Traduzido por Galindo; exemplo de obra que muda radicalmente de estilo e exigiu anos de revisão
- Graça Infinita (David Foster Wallace) — Traduzido por Galindo; descrito como experiência intensa e emocionalmente pesada
- Oblivion (David Foster Wallace) — Livro de contos citado como possível próximo lançamento do autor no Brasil; considerado por ele uma grande obra
- Lia (Caetano Galindo) — Romance fragmentário “em álbum de retratos”, pensado para ser lido em qualquer ordem
- Ratos e Homens (John Steinbeck) — Citado ao comentar mudanças na literatura e a leitura contemporânea do realismo clássico
- Os Vulneráveis (Sigrid Nunez) — Leitura recente indicada, elogiada pela mistura de biografia, ensaio e ficção
- Corcunda (Hunchback) (Saou Ichikawa) — Leitura recente indicada; descrito como “pancada” e “maravilha”, ainda sem tradução no Brasil
Linha do Tempo
- [00:01] — Apresentação de Caetano Galindo e do livro Na Ponta da Língua
- [00:02] — Conceito do livro: contar a história do idioma por palavras das partes do corpo
- [00:03] — Exemplo etimológico: a origem peculiar da palavra “nuca”
- [00:04] — Formação do português a partir do latim popular (“latim vagabundo”)
- [00:06] — Debate “português” vs. “brasileiro”: demografia, cultura e futuro do idioma
- [00:09] — Trajetória pessoal: família faladora, passagem pela música e chegada às Letras
- [00:10] — Preconceito linguístico: o caso “adevogado/advogado” e a confusão fala vs. escrita
- [00:12] — Racismo e classe na história do “português correto” e estigmatização do brasileiro
- [00:15] — “Pureza” linguística como cavalo de Troia ideológico e instrumento de exclusão
- [00:20] — Mito do “sotaque neutro” e o papel histórico da mídia na padronização
- [00:23] — Tradução literária: como Galindo entrou na área e o papel da universidade
- [00:25] — Processos de tradução: Ulisses (décadas de trabalho) vs. Graça Infinita (13 meses)
- [00:28] — Impacto emocional de traduzir Graça Infinita e luto durante o projeto
- [00:31] — Aulas online e vídeos abertos: pandemia, internet e circulação do conhecimento
- [00:32] — Oblivion (Wallace): bastidores do curso e perspectiva de tradução no Brasil
- [00:33] — Ficção: o romance Lia, livros anteriores e a peça Analívia
- [00:34] — Influências e preferência por escrever personagens mulheres
- [00:39] — Construção fragmentária de Lia e crítica ao realismo “redondo”
- [00:43] — Leituras recentes e recomendações de autoras contemporâneas
Dados do Episódio
- Podcast: BdF Entrevista
- Autor: Brasil de Fato
- Categoria: News / Daily News
- Publicado: 2025-05-28
- Duração: 0h45m
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/bdf-entrevista/d80af6a0-d8ce-0137-1e2e-0acc26574db2/239-caetano-galindo-a-busca-por-pureza-na-l%C3%ADngua-%C3%A9-um-mecanismo-de-exclus%C3%A3o/aa971319-99cd-462d-9dd7-fc942a1c721f?t=1124.0
- UUID Episódio: aa971319-99cd-462d-9dd7-fc942a1c721f
Dados do Podcast
- Nome: BdF Entrevista
- Tipo: episodic
- Site: https://podcast.brasildefato.com.br/category/brasil-de-fato-entrevista/
- UUID: d80af6a0-d8ce-0137-1e2e-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] A gente coloca o nosso coração em coisas para as quais eles não dão a menor pelota.
[00:00:19] É isso, o Zuckerberg não está pensando numa máquina de escrever soneto, ele não quer
[00:00:23] saber.
[00:00:24] Caetano Galindo trabalha com a linguagem em diferentes frentes.
[00:00:28] É professor do Departamento de Literatura e Linguística da Universidade Federal do Paraná,
[00:00:34] tradutor, divulgador científico e escritor de ficção.
[00:00:38] Seu livro mais recente é Na Ponta da Língua, que explora a história e a origem de palavras
[00:00:44] que usamos no dia a dia.
[00:00:46] O livro, lançado em março deste ano, dá sequência à investigação sobre a língua
[00:00:51] portuguesa, iniciada com Latinha em Pó, de 2023.
[00:00:56] Como uma prosa fluida longe do academicismo, os dois livros buscam disseminar conhecimentos
[00:01:01] geralmente restritos às universidades e propõem olhar para a língua portuguesa não como
[00:01:07] uma série de regras cristalizadas nas gramáticas, e sim como algo vivo, em constante mutação
[00:01:14] e disputa.
[00:01:15] Olá, eu sou a Raquel Settes, esse é o BDF Entrevista, e hoje a gente conversa
[00:01:23] com o Caetano Galindo, que fala com a gente direto de Curitiba.
[00:01:26] Oi Caetano, obrigada por ter aceitado o nosso convite, e eu já queria começar a
[00:01:34] nossa conversa falando sobre o Na Ponta da Língua.
[00:01:37] Eu vou ler um trechinho aqui da descrição que tem no próprio site da editora, que
[00:01:40] diz o seguinte, a proposta da publicação não é ser apenas um guia etimológico,
[00:01:46] é também mostrar como cada um de nós pode ser um investigador do português.
[00:01:51] Então queria que você falasse um pouco mais desse livro, ele vai por partes do corpo,
[00:01:56] como que é?
[00:01:57] É, bom, primeiro te agradeço o convite, Raquel, é um prazer estar aqui conversando
[00:02:02] com vocês.
[00:02:04] Esse livro surgiu meio que de uma ideia que eu tinha algum tempo de que seria
[00:02:09] possível falar da história do idioma, toda a história do idioma, a partir de
[00:02:14] uma lista de palavras, qualquer lista de palavras.
[00:02:18] Eu resolvi me propor uma lista de palavras, tinha que ter um tamanho decente, tinha que
[00:02:22] ter algum tipo de solidez, e eu pensei nas palavras para as partes do corpo, e escrevi
[00:02:28] esse livro num passeio, do topo da cabeça até a sola dos pés, passando pela história
[00:02:33] de cada uma dessas palavras, e não só a história de onde elas vieram, mas as
[00:02:36] vezes que ligações elas têm com palavras de outros idiomas, o que que elas podem
[00:02:40] nos mostrar sobre processos gerais de formação do vocabulário, como que a
[00:02:44] gente pode aprender a ler a história das palavras, a usar um dicionário etimológico
[00:02:50] para entender mais sobre a história da língua.
[00:02:52] Então é por isso que o livro tem um pouco essas duas funções, de um lado é fornecer
[00:02:57] informação sobre tudo isso, mas de outro é permitir que a pessoa que lê se
[00:03:01] torne ela própria capaz de fazer novas perguntas, se torne ela própria capaz
[00:03:06] de ir para lugares onde o livro ainda não a levou.
[00:03:10] Dá para dar uma palhinha de alguma coisa, alguma parte do corpo?
[00:03:15] Dá, eu sou péssimo de lembrar de exemplos de primeira, mas por exemplo, a nossa palavra
[00:03:22] nuca é o fruto de um equívoco que envolve duas escolas rivais de anatomia no final
[00:03:29] da Idade Média, e dois termos do árabe que acabaram se fundindo, a gente ficou
[00:03:34] com a forma, ou seja, o som de uma palavra, e o sentido da outra palavra, havia uma
[00:03:38] palavra nuca e uma palavra nucra, a gente juntou as duas e fez a nossa nuca a partir
[00:03:44] de uma confusão histórica de um debate universitário, por assim dizer, e é uma
[00:03:47] palavra que curiosamente não existe em boa parte das línguas que a gente
[00:03:51] conhece, as pessoas falam a parte de trás da cabeça, a gente tem uma palavra
[00:03:54] específica para essa parte do corpo e só tem essa palavra porque coisas muito
[00:03:57] estranhas aconteceram na história do contato de Portugal com outras culturas
[00:04:01] europeias e não europeias, no caso dos árabes, especificamente.
[00:04:06] Falando dessa parte da formação da língua, que é o tema principal do latim pop,
[00:04:11] você conta que o português ele não vem exatamente do latim das gramáticas,
[00:04:16] ele vem do latim que era falado pelas camadas populares, você até brinca que
[00:04:22] é um latim podre, e eu acho bonito pensar que o português ele nasceu da
[00:04:26] língua viva, não da língua cristalizada, da língua gramática, em manuais.
[00:04:33] Eu lembro visual, claramente, do momento em que um professor meu na graduação,
[00:04:39] o professor José Luiz Mércer, disse essa frase, que o português do mais
[00:04:45] recatado purista, falado hoje em Lisboa ou em São Paulo, Rio de Janeiro,
[00:04:49] ou em qualquer lugar, nada mais é do que latim vagabundo, estropiado com o
[00:04:54] passar dos séculos. Isso fez uma explosão na minha cabeça, mudou
[00:04:59] muita coisa pra mim. E com o passar do tempo, eu fui percebendo que essa é uma
[00:05:04] verdade que é muito conhecida no estudo de linguística histórica, desde sempre,
[00:05:09] e que é muito conhecida dentro dos cursos de letras, quando as pessoas
[00:05:12] fazem disciplinas de linguística histórica, mas que continua tendo esse
[00:05:15] potencial de explodir a cabeça das pessoas pra maior parte dos leitores.
[00:05:19] O latim pop, na verdade, é fruto desse projeto de levar informações
[00:05:25] sobre a formação da língua portuguesa, especificamente do português
[00:05:27] brasileiro, pra fora da universidade, sendo que dentro da universidade,
[00:05:31] às vezes, elas são já muito bem estabelecidas. Ninguém fica chocado
[00:05:35] quando num curso de letras você diz, olha, o que a gente fala é fruto do latim
[00:05:38] popular, porque, óbvio, quem é que seriam as pessoas que iam colonizar uma
[00:05:42] região nova e inóspita, distante do território? Não iam ser os
[00:05:45] falantes da versão acadêmica erudita do idioma. Era gente pobre, gente
[00:05:51] pouco alfabetizada, muitas vezes não alfabetizada, gente usuária das
[00:05:54] versões populares da língua. E é dessa língua que vai derivar todo o universo das
[00:05:59] línguas românicas, não só o português, né? O francês mais chique vem do
[00:06:02] mesmístico lugar também. Você falou aí do português brasileiro, né? Existe
[00:06:06] até algumas vertentes na academia que acham que, em algum momento, vão
[00:06:11] separar, né, as duas línguas, até a língua brasileira e a língua
[00:06:14] portuguesa. Como que você se coloca aí nessa… Um dos grandes mandamentos
[00:06:19] da linguística histórica é nunca fazer previsões. As coisas acontecem
[00:06:23] de jeitos improváveis. Mas é verdade que a balança da importância relativa das
[00:06:30] variedades do idioma hoje tá muito desequilibrada. Nós somos 200 milhões de
[00:06:36] falantes, os portugueses são 10. Até a metade do século nós vamos ter
[00:06:40] passado… Tá batendo em 300 milhões de falantes se a gente somar os países
[00:06:43] africanos e o Brasil. E Portugal tá diminuindo de população. Então, é
[00:06:48] óbvio que a gente tá vendo uma reversão de polaridade que faz com que esse nome
[00:06:54] português passe a ser mais questionável. É um ponto até curioso, né, porque muitas
[00:07:00] outras culturas já resolveram essa briga por nós, né? Os franceses, quando
[00:07:03] traduzem um livro brasileiro, escrevem traduzido do brasileiro. Eles não
[00:07:07] pensam mais em chamar nossa língua de português. Isso acontece em
[00:07:10] outros lugares já. É engraçado, né, a gente deu um pulo. Uma, duas gerações
[00:07:16] atrás as pessoas achavam que a gente falava espanhol. Aí deu um tempinho do
[00:07:20] mundo tomar consciência de que a gente falava português e agora as pessoas já
[00:07:23] estão dizendo que a gente fala brasileiro. Nós ainda não resolvemos
[00:07:25] essa questão, mas muita gente lá fora já resolveu por nós. Ao mesmo tempo eu
[00:07:30] gosto de dizer que é uma questão menos importante. É uma questão que vai
[00:07:33] ser resolvida naturalmente. Em algum momento talvez isso aconteça.
[00:07:38] Há quem diga, como você apontou, que os sistemas já estão diferentes o
[00:07:41] suficiente para a gente poder falar em línguas diferentes e que essa
[00:07:43] diferença vai se ampliar. Há quem diga também que os portugueses vão se ver
[00:07:48] cada vez mais usuários da nossa variedade de língua. A migração é muito
[00:07:52] grande, a nossa exportação cultural é muito grande, a nossa invasão cultural
[00:07:56] é muito grande. Os youtubers, né, as crianças portuguesas estão falando
[00:08:00] como os youtubers brasileiros. Memes brasileiros, desenhos animados,
[00:08:05] youtubers brasileiros. Já existe hoje em gerações mais jovens de Portugal
[00:08:10] um certo tipo de bilinguismo. Eles são capazes de falar brasileiro como uma
[00:08:15] espécie de língua jocosa, afetiva, às vezes carinhosa, enquanto que as gerações
[00:08:21] mais antigas ainda às vezes podem ter um certo receio quanto a esse grau de
[00:08:25] invasão. Como é que isso vai se determinar no futuro, no tipo de
[00:08:30] política que a gente vem vendo? Não sei, pode haver uma reação super
[00:08:33] violenta em Portugal, que nesse momento, por exemplo, está virando uma
[00:08:37] estranha guinada direita, aqui o país parecia ser imune nos últimos
[00:08:41] tempos. Será que a gente vai ver um recrudescimento de políticas
[00:08:44] nacionalistas, exclusivistas, xenofóbicas, anti-brasileiras, que vai fazer com que
[00:08:49] haja um recrudescimento de posturas conservadoras em Portugal? Pode ser.
[00:08:53] Isso vai ampliar a distância entre eles e nós? Talvez. Eles vão se ver
[00:08:58] afogados pela nossa presença numérica, cultural, musical, cinematográfica?
[00:09:02] Pode ser também. Eu prefiro não fazer previsões nesse caso, mas o
[00:09:06] cenário é realmente muito instável agora. E Caetano, falando um pouquinho da sua
[00:09:10] trajetória, conta pra gente como que nasceu esse seu interesse, esse seu amor
[00:09:14] pela linguagem. Tem um dado curioso que eu não venho de uma família de
[00:09:21] universitários, eu não venho de uma família de escritores. Ninguém tinha
[00:09:26] educação universitária entre os meus pais, por exemplo, mas eu venho de uma
[00:09:31] família de gente que gostava de falar, gente que gostava de brincar com
[00:09:34] a língua, de piadas, trocadilhos, contar histórias, gente muito faladora, gente
[00:09:39] muito falante. E isso eu acho que foi uma coisa que ficou em mim e no meu
[00:09:44] irmão. Meu irmão Rogério é jornalista, tem um jornal aqui em Curitiba,
[00:09:47] então nós dois trabalhamos ligados a questões de linguagem, tanto eu na
[00:09:52] universidade quanto o Rogério no plural. E do meu ponto de vista teve o
[00:09:58] fato de que eu escolhi ser músico, eu estudei pra ser músico, eu me formei
[00:10:02] pra ser músico e eu tive uma lesão num determinado momento e tive que
[00:10:05] abandonar o conservatório e acabei caindo na faculdade de letras. E eu acho
[00:10:10] que essas duas coisas pra mim se fundiram de um jeito muito forte. Eu tenho
[00:10:14] um amor meio estético por todas as manifestações da língua, não só por
[00:10:21] aquelas que tradicionalmente seriam vistas como manifestações estéticas,
[00:10:24] poesia de alta qualidade. Eu gosto, eu sinto prazer de lidar com as
[00:10:29] versões mais erradas, estropiadas, distantes, arrevesadas, improvisadas.
[00:10:35] Eu gosto de tudo na língua portuguesa. E bom, já que a gente está falando de
[00:10:39] língua portuguesa tem um assunto que é meio inescapável que é o preconceito
[00:10:43] linguístico. Vou chamar agora a um vídeo que o Caetano Galindo fez para o
[00:10:47] Museu da Língua Portuguesa falando um pouquinho sobre isso.
[00:10:50] Quem por acaso acha que a pronúncia advogado é um erro e demonstra a
[00:10:54] inferioridade intelectual? Primeiro, está cometendo um claro caso de
[00:10:58] preconceito linguístico, que é quando você considera a forma aparente de se
[00:11:02] dizer mais importante do conteúdo. Segundo, está cometendo um outro tipo de
[00:11:06] erro clássico, que é achar que a escrita deve digitar os padrões de
[00:11:09] pronúncia e não o contrário. Mas tem um dado ainda mais interessante aqui.
[00:11:13] Quem por acaso acha que advogado é uma pronúncia mais correta que advogado
[00:11:18] por representar a pureza daquele encontro dv que está na escrita, não está
[00:11:22] prestando atenção no seguinte detalhe. O nosso som de em português só se
[00:11:26] transforma em j quando tem um i do lado dele, como em dia, como em dica, como em
[00:11:32] pedido. Portanto, se você fala advogado, você está colocando uma vogalzinha
[00:11:37] pequena ali exatamente como quem fala advogado. Você pode até não perceber, mas o
[00:11:42] fato é incontornável. Tenta pronunciar advogado, pneu, ou pior ainda, ritmo.
[00:11:50] Pois é, esse preconceito linguístico muitas vezes acaba nem passando por
[00:11:55] preconceito. Mas Caetano, a gente sabe que esse tipo de discriminação vem do
[00:12:01] racismo e também de uma discriminação de classe, né? Não é, digamos que é um
[00:12:06] preconceito mais socialmente aceito, mas que as raízes dele vêm dessas coisas
[00:12:10] mais pesadas, né? Essas coisas são todas muito atadas no
[00:12:14] Brasil, né? Preconceito de classe, preconceito de nível educacional,
[00:12:17] preconceito racial. A bem, na verdade, uma boa parte do projeto, por assim dizer, da
[00:12:23] agenda por trás da escrita e da publicação do latim e pote, entra ver
[00:12:27] com isso, com dar a público, deixar claro para as pessoas o quanto houve na
[00:12:34] história da formação do português no Brasil, uma associação entre tudo
[00:12:40] que era autenticamente brasileiro e, portanto, muito marcado pela presença
[00:12:44] africana, com coisas ruins, tabuisadas, estigmatizadas, feias, e tudo que era
[00:12:50] branco, europeu e isento desse processo de formação como algo elevado, refinado e
[00:12:56] etc. Nós todos fomos criados para odiar aquilo que nos é mais tipicamente nosso,
[00:13:04] as marcas mais claras do português do Brasil. Esse exemplo, esse exemplo, por
[00:13:08] exemplo, derivou de uma polêmica que tinha acontecido uma semana antes na
[00:13:12] internet, né? Com a Miria Gondemberg, um texto da Folha, um videozinho que ela
[00:13:16] fez para Folha em que ela dizia que as pessoas passaram mais tempo
[00:13:18] criticando a pronúncia dela da palavra advogado, criticando o conteúdo, e eu
[00:13:22] achei que ele dava um gancho interessante, né? Porque há muita
[00:13:26] evidência para a gente supor que essa nossa tendência a evitar encontros
[00:13:30] consonantais e preencher tudo com o vogal e dizer ritmo e dizer técnico.
[00:13:35] Técnico é tão legal que a gente cria uma palavra pré-proparoxítona, a
[00:13:39] gente coloca o acento na quarta sílaba, ele traz para frente, para falar
[00:13:42] técnico, que é uma coisa que a gramática diria que não é possível.
[00:13:46] Essa nossa tendência tem muita gente com motivos muito bons por aí para dizer
[00:13:50] que ela provavelmente vem da influência das línguas do grupo banto, das línguas
[00:13:54] africanas que mais estiveram presentes no Brasil, que são línguas em que não
[00:13:58] existe sílaba só de consoante. Toda sílaba tem que ter uma consoante e
[00:14:01] uma vogal, exatamente como no japonês contemporâneo, por exemplo.
[00:14:04] Aí é estranho, você pega um bando de falantes que falam uma língua em
[00:14:08] que todas as sílabas têm que ter uma vogal, coloca para aprender
[00:14:10] português, eles geram um português que curiosamente também tem uma
[00:14:14] tendência a preencher todas as sílabas com vogal, e falta só dizer
[00:14:18] isso foi por causa daquilo. E não é à toa que a gente vai ver uma série
[00:14:22] de manifestações preconceituosas dizendo que essa pronúncia, de, por
[00:14:25] exemplo, advogado, advogado, representa tosqueira, representa inferioridade,
[00:14:32] enquanto que ela pode simplesmente representar o bom e velho caminho
[00:14:36] normal da mudança linguística, a língua portuguesa no Brasil,
[00:14:40] mudando de acordo com as influências que ela recebeu no Brasil.
[00:14:43] A gente tem um problema de aceitar o que é o autêntico nosso como correto.
[00:14:47] A gente foi educado a aceitar o que é esse nosso autêntico como erro,
[00:14:52] a marcar como erro. E esse nosso autêntico é tremendamente racializado.
[00:14:56] E aí você coloca um sistema educacional tremendamente exclusivista
[00:15:01] e excludente ao longo da nossa história, que foi transformando
[00:15:04] o domínio desse português recomendado, artificial em grande medida,
[00:15:09] trazido da Europa por gente que ia estudar na Europa.
[00:15:14] Esse domínio fica sendo privilégio de muito poucos.
[00:15:17] E você tem uma chave perfeita para, como você disse,
[00:15:22] ter um mecanismo de preconceito que parece discreto, que parece limpo.
[00:15:28] Não, eu não estou sendo preconceituoso contra a raça, nem contra a classe,
[00:15:31] nem contra a educação, é só contra a pureza do idioma.
[00:15:34] Só que isso tudo, na verdade, esconde todas essas questões.
[00:15:37] Todo o nosso histórico de racismo, todo o nosso histórico de exclusão social,
[00:15:41] educacional, está tudo embutido nessa marca que, aparentemente, é menos perversa.
[00:15:48] E falando dessas coisas que, aparentemente, são menos perigosas,
[00:15:51] tem uma influenciadora, que eu não vou citar o nome,
[00:15:54] mas é uma influenciadora que, supostamente,
[00:15:56] dá dicas de como falar um português correto.
[00:16:00] E é uma influenciadora de extrema direita.
[00:16:01] Eu queria comentar com você esse uso que a extrema direita faz dessa linguagem pura,
[00:16:06] não só como uma ferramenta de preconceito,
[00:16:08] mas até nesse caso da rede social, até como um certo cavalo de troia,
[00:16:13] porque, às vezes, uma pessoa mais desavisada pode ir até a página dela
[00:16:18] para ver alguma dica de norma padrão,
[00:16:20] e aí, depois, acaba também se deparando com o conteúdo sobre antifeminismo.
[00:16:25] Então, esse uso que a extrema direita faz dessa língua pura.
[00:16:30] Olha, a gente sabe, né?
[00:16:33] Toda retórica de pureza esteve sempre, tradicionalmente,
[00:16:37] associada a algum tipo de proto-fascismo, no mínimo.
[00:16:41] A algum tipo de raciocínio, como você disse, de extrema direita.
[00:16:45] Há uma dificuldade muito grande nessas esferas de aceitar
[00:16:49] que mistura, que multiplicidade, que diversidade, que variedade.
[00:16:54] Aceitação do diverso são coisas positivas.
[00:16:57] E isso se coloca na língua de uma maneira muito clara.
[00:17:01] A gente, infelizmente, devo dizer, a gente na linguística lida com isso há muito tempo.
[00:17:05] A gente lida com esse tipo de procedimento há muito tempo.
[00:17:09] Com as pessoas, como eu dizia, advogando algo que parece ser
[00:17:14] desprovido de conteúdo ideológico.
[00:17:16] Não, eu estou simplesmente propondo as regras do português correto.
[00:17:20] Quem não quer falar português correto?
[00:17:21] Quando, na verdade, o que elas estão fazendo é
[00:17:24] defender uma estrutura de exclusão, defender uma estrutura de preconceito de vários tipos.
[00:17:30] E o fato disso continuar acontecendo, o fato disso continuar ganhando força
[00:17:35] e continuar sendo capaz de passar a perna nas pessoas é que é muito doloroso.
[00:17:40] Porque eu acho extremamente necessário que a gente lembre
[00:17:43] e que eu lembre aos meus alunos e que os meus alunos lembrem aos alunos deles.
[00:17:47] Que a norma culta do português, esse dito português correto,
[00:17:52] é uma coisa extremamente útil, extremamente interessante.
[00:17:56] É um instrumento poderosíssimo, é algo que te dá possibilidade de ser aceito,
[00:18:02] é algo que te dá a possibilidade de ser levado a sério,
[00:18:05] é algo que tira a atenção da superfície que você está dizendo
[00:18:09] e permite que você seja lido pelo conteúdo que você está dizendo.
[00:18:12] É um meio de acesso.
[00:18:13] Você é jornalista, você sabe disso.
[00:18:15] Não adianta eu querer vir aqui defender uma bandeira de que os cara está tudo bom.
[00:18:20] É uma frase linda e eu acho uma frase linda.
[00:18:22] Sendo que o veículo para que eu trabalho, a estrutura da sociedade,
[00:18:26] o nível da sociedade para que eu trabalho exige um outro código.
[00:18:29] E é exatamente assim que funciona.
[00:18:31] Eu, antes de vir dessa entrevista, fui tirar a minha roupa,
[00:18:33] se é bom verificar em casa e pôr uma roupa um pouquinho mais decente.
[00:18:35] Porque mudou o meu conteúdo? Não mudou.
[00:18:38] Mas eu pretendo não ser julgado por aquilo,
[00:18:40] eu pretendo tirar aquilo do caminho.
[00:18:42] Se a gente chegar para as pessoas e disser isso nesses termos,
[00:18:45] deixa eu te instrumentar para jogar esse jogo nessas regras,
[00:18:49] eu não vejo problema nenhum.
[00:18:50] O problema é que normalmente o que existe,
[00:18:52] como em todas as retóricas de pureza,
[00:18:54] é um discurso de que apenas aquele discurso puro é válido.
[00:18:58] E os outros são inferiores, são ruins,
[00:19:01] denotam pobreza mental, intelectual, conceitual.
[00:19:04] E aí é que a gente começa a ver o mecanismo real
[00:19:08] de crueldade social em operação.
[00:19:11] Sim, e até dar um depoimento pessoal aqui,
[00:19:13] que eu fui professora voluntária de um cursinho popular,
[00:19:17] parte de redação.
[00:19:19] E o que mais pega os alunos
[00:19:20] e que deixa os textos realmente difíceis de entender,
[00:19:23] difíceis deles passarem a opinião, os argumentos deles,
[00:19:27] não são problemas de ortografia, nem de conjugação verbal,
[00:19:32] são problemas de pontuação.
[00:19:34] E que isso acaba passando batido por esses professores
[00:19:38] da língua correta, porque não é um meio para você…
[00:19:44] Não dá para destilar tanto preconceito com a pontuação.
[00:19:48] É exatamente o termo que você usou.
[00:19:50] Essas coisas sempre se dão via cavalo de Troia.
[00:19:54] O acento indicativo de crase, a ortografia da palavra exceção,
[00:19:59] a pronúncia da palavra problema.
[00:20:01] Você sempre vai pegar uma coisa que é fácil de distinguir,
[00:20:05] que é fácil de apontar e de meter o dedo,
[00:20:07] e você vai colocar ali todo o peso aparente
[00:20:10] do teu discurso de exclusão.
[00:20:12] Quando, na verdade, essa exclusão se dá
[00:20:14] em lugares muito mais complexos, muito mais difíceis de se determinar
[00:20:17] e que normalmente não são plenamente dominados
[00:20:19] pelas pessoas que querem se colocar nessa posição.
[00:20:22] É uma coisa horrorosa de se fazer, mas via de regra.
[00:20:25] Se você quiser atacar essas pessoas que propõem esse discurso
[00:20:28] nas regras do jogo delas,
[00:20:29] eu sei mais a regra do jogo delas do que elas.
[00:20:32] E, no entanto, sou eu que estou aqui defendendo a diversidade.
[00:20:34] Se a gente for atrás dos textos delas
[00:20:36] e procurar os problemas de pontuação,
[00:20:37] procurar os problemas de coerência,
[00:20:39] procurar os problemas de sintaxe, eles estão lá.
[00:20:41] No entanto, a pessoa vai pegar esse aparente fiozinho
[00:20:44] que está ali fora, esse pequeno probleminha,
[00:20:46] e vai colocar ali toda a sua fúria.
[00:20:50] Só para terminar esse bloco do preconceito linguístico,
[00:20:52] teve, acho que, um dos vídeos mais recentes dessa influenciadora
[00:20:55] que não vamos nomear,
[00:20:56] que ela fala que o ideal seria que todo mundo tivesse um sotaque neutro,
[00:21:00] que é uma coisa que nem existe, né?
[00:21:03] É.
[00:21:04] A gente está fazendo alguns vídeos sobre isso lá para o museu,
[00:21:07] porque isso faz parte da nossa exposição lá,
[00:21:09] do trabalho que a gente está fazendo lá no Museu da Língua Portuguesa,
[00:21:12] eu e Daniela Thomas,
[00:21:14] que é um desses mitos mais maravilhosos,
[00:21:16] mais maravilhosos e mais absurdos.
[00:21:17] A ideia de que existe um sotaque neutro,
[00:21:20] a ideia de que esse sotaque neutro é melhor do que os outros,
[00:21:23] é mais, de novo, puro do que os outros,
[00:21:25] e via de regra a ideia de que a pessoa que está propondo isso
[00:21:29] é a representante desse sotaque neutro.
[00:21:30] E você encontra isso nos lugares mais dispares e disparatados,
[00:21:33] do Nordeste ao Sul do Brasil tem alguém dizendo
[00:21:36] não, aqui é que se fala o português mais neutro.
[00:21:38] É óbvio que isso não existe,
[00:21:40] é óbvio que são tudo, são todas relações,
[00:21:42] todas essas formas estão sempre,
[00:21:44] como vocês disseram na abertura, sempre mudando e sempre lutando,
[00:21:47] é sempre uma disputa por espaço.
[00:21:49] E é óbvio também que durante muito tempo
[00:21:52] houve uma pressão pela existência desse português neutro.
[00:21:55] Durante boa parte do século XX as pessoas correram atrás,
[00:21:57] houve congressos feitos para determinar
[00:22:00] qual era o português recomendável para o teatro,
[00:22:02] para o canto lírico, para o rádio, por exemplo.
[00:22:06] Durante muito tempo se tentou encontrar esse lugar,
[00:22:08] se chegar nesse lugar William Bonner,
[00:22:10] de um português que não tem marca de onde vem.
[00:22:13] E o próprio William Bonner,
[00:22:14] eu já vi entrevista dele recentemente,
[00:22:16] dizendo que hoje ele fica muito feliz
[00:22:17] de saber que isso já não é mais cobrado.
[00:22:19] Que quem está entrando hoje na profissão
[00:22:21] não precisa passar por esse processo de moedor de carne.
[00:22:25] Porque veja, não era um processo de selecionar o português neutro,
[00:22:29] era de criar uma coisa fake,
[00:22:31] era de criar um português que não está em lugar nenhum
[00:22:34] e colocá-lo como único português aceitável.
[00:22:36] É o mesmo mecanismo do ar e trás,
[00:22:38] é criar uma norma culta que ninguém fala
[00:22:40] e dizer que só ela pode ser aceita, só pode ser aceita.
[00:22:43] É criar uma pronúncia que ninguém usa
[00:22:45] e dizer que só ela pode ser veiculada.
[00:22:47] Os meios de comunicação, durante bastante tempo,
[00:22:49] foram cúmplices desse tipo de roubada.
[00:22:53] Hoje eu acho que a coisa está bastante alterada.
[00:22:55] Sim, não só cúmplices,
[00:22:57] criaram inclusive isso,
[00:22:58] que também é mais um mecanismo de exclusão.
[00:23:01] Bom, mas agora a gente vai mudar um pouquinho de assunto,
[00:23:03] vamos falar de tradução,
[00:23:04] que é um tema que o Caetano Galindo domina bastante.
[00:23:14] Caetano Galindo é um dos tradutores
[00:23:16] em atividades mais importantes do Brasil.
[00:23:19] Alguns livros extensos, como Ulisses de Joyce
[00:23:22] e Graça Infinita de Foster Wallace,
[00:23:24] demoraram anos para serem vertidos ao português.
[00:23:27] Um trabalho que vai muito além de simplesmente
[00:23:30] passar palavras de um idioma para o outro.
[00:23:32] Em entrevista ao programa A Trilha de Letras da TV Brasil,
[00:23:36] ele falou um pouco sobre o ofício.
[00:23:38] Traduzir é um processo fascinante
[00:23:41] e, sim, tem muito a ver com escrever um livro.
[00:23:44] Eu costumo dizer que você está escrevendo o livro,
[00:23:47] mas você não está concebendo o livro.
[00:23:49] A pessoa já te deu a tramos, personagens, a estrutura,
[00:23:52] mas você precisa desvestir aquilo tudo da sua prosa original
[00:23:56] e revestir com uma prosa nova.
[00:23:58] Então, aquela parte que normalmente as pessoas associam a escrita,
[00:24:01] você tem que fazer toda.
[00:24:03] Você tem que escrever o livro inteiro,
[00:24:05] digitar o livro todo, inclusive.
[00:24:07] Bom, para começar esse papo de tradução,
[00:24:09] eu quero começar bem no início mesmo.
[00:24:11] Caetano, como que você foi para esse caminho da tradução?
[00:24:16] É uma daquelas histórias que são fáceis de contar de trás para frente, né?
[00:24:20] Sabe quando a pessoa virou médico?
[00:24:22] Ah, quando pequeno, ele gostava de fazer…
[00:24:23] Se tivesse virado 10 outras coisas, teria uma história para contar também.
[00:24:26] Quando pequeno, gostava de fazer um monte de coisa.
[00:24:29] Eu brinquei de tradução durante a minha graduação,
[00:24:32] em letras, de várias maneiras.
[00:24:35] Eu traduzi uma peça de teatro durante a minha graduação,
[00:24:37] eu traduzi poesia durante a minha graduação,
[00:24:39] tudo isso sem obrigação.
[00:24:41] Eu traduzi porque eu quis fazer.
[00:24:44] Mas o fato realmente irrelevante aconteceu por duas razões.
[00:24:47] Uma é que eu tive a imensa sorte de ser colega de graduação
[00:24:51] do professor Maurício Cardoso,
[00:24:54] que entrou como professor na universidade também ao mesmo tempo que eu,
[00:24:57] nós estamos lá até hoje já há quase 30 anos como professores.
[00:25:00] E o Maurício foi a pessoa que levou para Curitiba
[00:25:03] a disciplina dos estudos de tradução,
[00:25:04] que era uma coisa ainda em construção no Brasil nesse momento,
[00:25:08] de fins dos anos 90, começo dos anos 2000.
[00:25:11] E desde o início eu comecei a me interessar por essa área de pesquisa,
[00:25:15] comecei a conversar com ele, mas eu não tinha trabalho na área.
[00:25:18] E quando eu fui fazer o meu doutorado é que eu decidi,
[00:25:22] e de novo, em numeras razões complicadas,
[00:25:24] eu decidi propor uma tradução do Ulysses como parte do meu doutorado
[00:25:27] e a partir dali eu dei um passo do qual eu não pude mais voltar.
[00:25:31] A partir dali eu me transformei numa pessoa da tradução.
[00:25:34] E eu tive para onde voltar,
[00:25:36] porque na hora que eu terminei o meu doutorado,
[00:25:38] eu passei imediatamente a trabalhar nas disciplinas de tradução com o Maurício
[00:25:41] e estou fazendo isso até hoje.
[00:25:43] E você traduziu, de fato, o Ulysses também e o Graça Infinita,
[00:25:47] e eu queria perguntar especificamente desses dois livros
[00:25:50] sobre o processo, que foram muitos anos de tradução,
[00:25:53] como que foi esse processo?
[00:25:55] Por exemplo, quando a gente está escrevendo um livro,
[00:25:57] se é um livro longo, o seu modo de escrita vai mudando
[00:26:01] ao longo da escrita do livro. Na tradução isso acontece também?
[00:26:05] Acontece, eu nunca tinha pensado nisso nesses termos.
[00:26:08] Acontece, mas acontece mais com o autor.
[00:26:12] E você como tradutor tem que ir respondendo ao que o autor está fazendo.
[00:26:16] Então você vai entrando meio que de passageiro nessa odisseia de mudança e de alteração.
[00:26:21] O Ulysses, por exemplo, é um livro que muda completamente de capítulo em capítulo,
[00:26:25] ou de episódio em episódio, como se costuma dizer.
[00:26:28] Cada um deles é completamente diferente do outro em termos de estilo,
[00:26:31] então ele te coloca obrigatoriamente nessa posição.
[00:26:34] Mas foram dois processos muito diferentes.
[00:26:37] O Ulysses eu traduzi, revisei, retraduzi e refiz ao longo de dez anos,
[00:26:44] entre o momento que eu comecei a traduzir e a primeira publicação na tradução, em 2012.
[00:26:50] E ainda tive a oportunidade de revisar a tradução em 2022.
[00:26:53] Então eu fiquei 20 anos mexendo na tradução do Ulysses.
[00:26:56] Enquanto que Graça Infinita foi um livro feito,
[00:26:59] apesar de ser um projeto de dimensão comparável,
[00:27:03] foi um livro feito muito mais dentro da lógica cotidiana das empreitadas e tradução.
[00:27:08] Uma editora que diz, faz aí e te dá um prazo e você faz.
[00:27:12] E o livro foi traduzido em 13 meses, então não tem a menor comparação.
[00:27:16] Nossa, eu imaginei que tivesse durado vários anos também a tradução do Graça Infinita.
[00:27:22] E aí eu queria fazer uma pergunta aqui da minha cota pessoal, que eu gosto muito desse livro.
[00:27:28] Eu amo esse livro.
[00:27:30] E eu queria saber como ficou a sua cabeça depois de traduzir,
[00:27:34] porque ler esse livro já é uma paulada, né?
[00:27:37] A tradução…
[00:27:39] Tá, depois você pega meu WhatsApp que a gente vai continuar essa conversa então.
[00:27:42] Por favor.
[00:27:44] Veja, eu falei, eu ia começar a dizer, não foi tão breve assim,
[00:27:48] porque o que aconteceu com Graça Infinita foi que foi um livro que caiu na minha vida
[00:27:52] enquanto eu estava traduzindo o Ulysses e lidando com o Ulysses,
[00:27:55] passando por uma crise literária.
[00:27:57] Eu estava achando que o Ulysses era o ponto máximo da literatura
[00:28:00] e que de lá para frente só se tinha produzido coisas inferiores.
[00:28:03] E no meio do caminho eu falei, vou ler esse livro que todo mundo fala que é bom.
[00:28:07] Li o livro, ele me curou da minha demência temporária.
[00:28:11] E isso eu li já em 2005, eu acho que eu li Graça Infinita pela primeira vez.
[00:28:17] Entre 2005 e 2013, quando eu recebo o job de traduzir o livro,
[00:28:23] eu li toda a obra do Wallace, reli muita coisa e traduzi dezenas de coisas.
[00:28:29] Eu tenho pastas e pastas e pastas de tradução de Wallace que eu fiz para o que eu quis,
[00:28:33] que eu fiz para mostrar para os alunos, que eu fiz para usar em sala de aula.
[00:28:35] Eu tenho, realmente, livros inteiros traduzidos do Wallace.
[00:28:39] Então quando eu sentei para traduzir Graça Infinita, eu não estava começando do zero.
[00:28:43] Eu estava começando de um processo que já vinha se acumulando.
[00:28:46] Eu já tinha tomado as decisões.
[00:28:48] Eu já tinha entendido como que eu queria abordar a maior parte dos problemas.
[00:28:51] Por isso que o livro pode se fazer em tradução de um modo um pouco mais rápido.
[00:28:55] Mas a tua pergunta é uma pergunta de uma leitora de verdade do livro,
[00:28:59] porque quando eu me pergunto às vezes o que foi o mais difícil de traduzir Graça Infinita,
[00:29:04] as pessoas sempre esperam uma resposta sobre, sei lá, trocadilhos ou linguagem.
[00:29:09] Eu sempre digo, cara, o mais difícil é você passar dez páginas dentro da cabeça
[00:29:13] de uma deprimida crônica numa aula de suicídio,
[00:29:17] pensando se ela pode não ter cadarço na sapato para se enforcar na porta.
[00:29:21] O livro te coloca nesses lugares.
[00:29:23] O livro te coloca em lugares engraçadíssimos, dementes e pesadíssimos também.
[00:29:29] E traduzir, você tem toda a razão de supor, traduzir te faz entrar mais fundo nisso.
[00:29:35] Porque não é só você ler aquelas coisas e se deixar abalar por elas.
[00:29:39] Você tem que reproduzir aquele discurso de uma maneira
[00:29:42] a garantir que você, leitora, vá se abalar por eles.
[00:29:45] Então é quase a posição do ator no palco.
[00:29:49] Você tem que viver aquilo para conseguir transmitir aquilo com alguma autenticidade.
[00:29:53] Exatamente como escrever aquilo deve ter sido muito doloroso para o Wallace,
[00:29:57] escrever a tradução também foi, em vários momentos, indizivelmente doloroso.
[00:30:02] E para piorar tudo, minha mãe morreu durante o processo de tradução.
[00:30:05] Então é um ano que ficou bem marcado na minha vida.
[00:30:10] E tem uns vídeos, tem o vídeo seu falando sobre o Graça Infinita,
[00:30:14] falando sobre o livro de contos do Selinger, que são vídeos muito legais.
[00:30:19] Então essa parte do tradutor e do professor caminham sempre juntas.
[00:30:24] Para mim, sim, desde esse primeiro momento, que o Maurício trouxe esse campo para cá.
[00:30:29] Nós sempre pensamos na tradução, eu, ele e todos os outros colegas que depois se juntaram a nós.
[00:30:34] Guilherme Gontijo, a minha mulher Sandra Estorparo, Rodrigo Gonçalves,
[00:30:38] uma galera, o Bacharelado de Tradução da Federal do Paraná, hoje é uma força literária.
[00:30:43] A gente sempre pensou nessas coisas juntas.
[00:30:45] A gente traduz literatura porque a gente dá aula de tradução.
[00:30:47] E a gente pode dar aula de tradução porque a gente está traduzindo literatura.
[00:30:50] Então essas coisas sempre caminharam muito juntas.
[00:30:53] E eu acho, agradeço você falar desses vídeos, porque eu não produzi vídeos para internet.
[00:30:58] Eu não produzi conteúdo para internet.
[00:31:00] O que aconteceu, basicamente, foi a pandemia.
[00:31:02] E a gente tem que passar rapidamente para algum modo de dar aula online.
[00:31:06] E o primeiro modo que a gente encontrou foram as variantes que usavam o YouTube,
[00:31:09] o Stream Yard, o YouTube, etc.
[00:31:11] E a gente passou por uma conversa, vários de nós, professores universitários,
[00:31:14] sobre vamos deixar esse conteúdo aberto ou não.
[00:31:17] Vamos fechar só para os alunos e etc.
[00:31:19] E eu, desde o começo, fui um dos que advogaram por deixar aberto.
[00:31:24] Eu achava que a gente tinha que dar mostras do que a universidade estava fazendo.
[00:31:27] A gente tinha que mostrar que a gente estava ali, estava vivo, estava trabalhando,
[00:31:30] estava produzindo coisas interessantes.
[00:31:32] E eu sempre deixei esses vídeos tão abertos desde então.
[00:31:35] E nunca me arrependi.
[00:31:37] Até hoje eu recebo comentários aleatórios de gente que me diz que assistiu
[00:31:41] o meu curso inteiro de Challenger nas férias, agora.
[00:31:45] Cinco anos depois que ele foi ao ar.
[00:31:47] Eu acho o lado bonito dessa parte toda da internet, de redes sociais.
[00:31:51] Essas coisas estão lá.
[00:31:52] E de vez em quando alguém encontra e aquilo faz sentido para essa pessoa.
[00:31:56] Às vezes o algoritmo é bom com a gente, né?
[00:31:58] Só às vezes… Eu vi o do Oblivion quase inteiro.
[00:32:02] Falta algumas aulinhas lá.
[00:32:04] E tem alguma perspectiva de Oblivion ser traduzido para o português?
[00:32:10] Oblivion é um livro do David Foster Wallace.
[00:32:12] Vamos dar o serviço, né?
[00:32:14] Oblivion é o último livro que o Wallace publicou em vida.
[00:32:17] É um livro de contos.
[00:32:19] Por ser um livro de contos, sempre atrai menos interesse.
[00:32:22] De editoras, de leitores, de mercado, em geral.
[00:32:25] Mas eu tenho para mim, eu e não pouca gente, que é o grande livro dele.
[00:32:28] A grande obra dele é esse livro de contos.
[00:32:30] Alguns contos ali são obras de um grau de perfeição de construção
[00:32:35] que eu não consigo comparar com mais nada.
[00:32:37] O conto Oblivion, que foi o tema desse curso que está lá online.
[00:32:41] Se você está vendo o curso, eu não vou nem falar demais.
[00:32:43] Mas é um negócio doente.
[00:32:46] E aquela disciplina foi uma disciplina que eu nunca vou esquecer.
[00:32:49] Porque era um grupo pequeno de alunos.
[00:32:51] E a gente foi descobrindo coisas juntos.
[00:32:53] E a gente não parava de desenbrulhar aquele conto e dizer
[00:32:55] meu Deus, tem mais, é mais complicado, tem mais doença aqui dentro.
[00:32:58] Tem mais esquisitice aqui dentro.
[00:33:00] O conto sempre foi uma obsessão para mim.
[00:33:04] Mas depois daquele semestre, ele virou uma coisa gigantesca.
[00:33:07] Existe, sim, a probabilidade.
[00:33:09] A gente ainda não tem data, a gente ainda não tem nada fechado.
[00:33:12] Mas digamos apenas que ele será o próximo título do aula se aparecer no Brasil.
[00:33:17] Opa, boa notícia.
[00:33:19] Agora a gente vai mudar de assunto mais uma vez.
[00:33:21] Como a gente falou lá no comecinho do programa,
[00:33:23] o Caetano Galindo também escreve ficção.
[00:33:25] Então vamos conhecer um pouco desse lado.
[00:33:29] Lia é o primeiro romance de Caetano Galindo.
[00:33:32] Lançado em 2024, o livro reúne mais de 90 fragmentos
[00:33:37] que narram episódios da vida da protagonista.
[00:33:40] É como um álbum de retratos, que pode ser lido em qualquer ordem.
[00:33:44] O projeto nasceu anos antes no site Plural.
[00:33:47] Um novo capítulo era publicado toda semana.
[00:33:50] E a ideia era que cada fragmento fosse independente.
[00:33:54] Antes de Lia, Caetano Galindo já tinha publicado dois livros de contos,
[00:33:58] ensaios sobre o entendimento humano e sobre os canibais.
[00:34:02] A pedido da atriz Beth Coelho, Caetano Galindo também se aventurou pelo teatro.
[00:34:07] Ele é o autor da peça Analívia,
[00:34:10] em que duas personagens tentam dizer coisas importantes uma à outra.
[00:34:24] Eu também tenho voz!
[00:34:27] Outra área que o Caetano Galindo é bem versátil, né?
[00:34:31] E já começo fazendo uma pergunta que eu sei que a resposta não vai ser simples.
[00:34:35] Quem é o Caetano Galindo, o ficcionista?
[00:34:37] Quais são suas influências, seus temas, sua estética?
[00:34:44] É porque dá um ar todo alto e importante falar essas coisas, né?
[00:34:47] Eu não sei, os autores que eu traduzi, as autoras que eu traduzi
[00:34:51] acabam fazendo muito parte desse caldeirãozinho de coisas que ficam pela minha cabeça.
[00:34:57] Uma autora como Alice Smith, por exemplo, tem uma presença muito grande no que eu escrevo,
[00:35:02] no que eu tento escrever.
[00:35:04] O próprio Wallace, o Joyce, mais recentemente o Salinger.
[00:35:08] Alice Munro foi uma presença muito grande,
[00:35:14] depois que eu traduzi pela primeira vez também.
[00:35:16] Muita gente, muita coisa, muitas coisas muito diferentes.
[00:35:19] No caso do teatro, acho muito difícil escapar da sombra do Beckett.
[00:35:23] Eu luto para escapar da sombra do Beckett,
[00:35:25] mas nem sei se eu luto com tanta convicção assim porque eu gosto do lugarzinho à sombra dele.
[00:35:30] Eu e todo mundo, então nenhuma grande originalidade nisso também.
[00:35:34] Mas no caso de ficção, de prosa literária,
[00:35:38] curiosamente eu tenho ficado mais à sombra das mulheres.
[00:35:41] Tenho encontrado cada vez mais mulheres que…
[00:35:45] Na verdade, eu tenho ficado cada vez mais sem vontade de ler homens,
[00:35:49] os textos novos que saem e tal.
[00:35:51] Eu tenho a impressão que tudo o que é mais interessante
[00:35:55] e que está sendo produzido, que me diz respeito, que me fala mais claramente,
[00:35:58] tem sido escrito por mulheres.
[00:36:00] Sei lá, e daí o fato de eu gostar também de escrever mulheres.
[00:36:04] Lia é sobre uma mulher.
[00:36:06] A imensa maioria dos contos dos meus livros é sobre mulheres.
[00:36:09] Ana Livia é sobre duas mulheres,
[00:36:10] tanto que o Livinho que saiu agora chama Ana Livia e outras mulheres.
[00:36:13] Eu tenho muito mais interesse por esse lado do mundo.
[00:36:20] Eu tenho uma filha, isso ajuda também.
[00:36:22] Eu ia te perguntar justamente isso, né?
[00:36:24] De onde que vem essa vontade de escrever protagonistas mulheres?
[00:36:30] Um pouco a vontade, um pouco eu acho que é quase…
[00:36:35] Eu não vou dizer condenação porque eu gosto,
[00:36:37] mas é quase uma não escolha, é o que eu acho que me sai.
[00:36:42] Eu tive muitas tias, muitas tias.
[00:36:46] Nós fomos criados…
[00:36:47] Nós éramos curiosamente uma geração de netos, quase todos homens,
[00:36:50] mas criados juntos por tias que eram quase todas mulheres.
[00:36:53] As irmãs da minha mãe eram todas mulheres.
[00:36:56] Óbvio, as irmãs seriam mulheres,
[00:36:58] mas eu quero dizer que é muito mais mulheres do que homens.
[00:37:02] Elas sempre foram muito presentes na nossa vida.
[00:37:04] Elas sempre foram uma entidade meio folclórica, as tias,
[00:37:07] ou mais especificamente as meninas, como a gente dizia.
[00:37:11] E isso eu acho que nunca saiu da minha cabeça.
[00:37:13] Essa coisa de que são as mulheres que contam a história,
[00:37:15] são as mulheres que falam, são as mulheres que lidavam com a gente.
[00:37:19] A gente viveu num mundo supervisionado por esse grupo de mulheres completamente doidas
[00:37:24] e muito diferentes umas das outras,
[00:37:26] e fascinantes do seu jeito, lá a sua maneira.
[00:37:32] E eu não sei de onde.
[00:37:34] O fato de eu ter tido uma filha certamente foi importante nisso.
[00:37:38] Você ser homem, que é essa versão um pouco mais tosca de um ser humano,
[00:37:46] e você ver uma menina crescer, você ver uma mulher se formar,
[00:37:50] e você entender isso acontecendo na tua frente,
[00:37:52] é uma coisa de um potencial de enriquecimento desmedido.
[00:37:57] Eu tenho a sorte de ser casado há muito tempo com uma mulher mais inteligente que eu,
[00:38:01] muito mais fascinante do que eu, e isso também aumenta esse…
[00:38:06] Esse fascínio, eu diria.
[00:38:09] Ainda agora, semana passada eu estava traduzindo,
[00:38:11] não vou dizer qual texto aqui para depois não dizerem que está ruim,
[00:38:13] mas eu estava traduzindo aqui um livro,
[00:38:16] e eu estava reclamando com a Sandra, minha mulher,
[00:38:18] que eu não estava conseguindo engrenar no livro,
[00:38:19] que eu não estava sentindo que estava indo bem,
[00:38:20] que eu estava achando que ia dar muito trabalho para revisar a tradução.
[00:38:23] Aí de repente começou a correr, começou a correr, começou a correr.
[00:38:26] Ela falou, nossa, está digitando mais rápido agora.
[00:38:28] Eu falei, aí parei para ver o que estava acontecendo,
[00:38:31] era a primeira vez que um personagem feminino abria a boca longamente no livro.
[00:38:34] Tipo, na hora que foi para dar voz a uma mulher,
[00:38:36] eu falei, tá, agora vai, agora entendi, agora foi.
[00:38:38] Com os caras, falando de coisas de caras,
[00:38:41] eu não estava conseguindo me encontrar tão facilmente.
[00:38:45] Quando eu fui dar um exemplo do Graça Infinita para você,
[00:38:47] foi exemplo da Kate, foi exemplo da menina deprimida.
[00:38:50] Eu tendo a achar mais natural escrever pela voz de mulheres.
[00:38:58] E eu queria entrar um pouquinho mais no Lia,
[00:39:00] na criação dessa figura ali,
[00:39:03] primeiro queria perguntar se teve alguma inspiração
[00:39:06] em alguma personagem real, em algum evento, alguma coisa.
[00:39:09] E como que foi esse processo de construção?
[00:39:11] Porque o Lia, ele traz alguns fragmentos,
[00:39:14] até meio aleatórios da vida dessa mulher.
[00:39:18] Então, por exemplo, a gente sabe que ela foi casada,
[00:39:20] mas, pelo que eu me lembro, não tem nenhum fragmento que fale sobre o casamento dela.
[00:39:24] Mas, em compensação, tem um fragmento sobre um flerte,
[00:39:27] um estranho que ela teve ali quando era criança.
[00:39:30] Eu queria saber, você chegou a sentar,
[00:39:32] escrevi a biografia completa dessa mulher,
[00:39:34] para depois escolher alguns trechos,
[00:39:36] como que foi esse processo?
[00:39:40] Eu escrevi o esqueleto da biografia dela,
[00:39:43] ano por ano, tudo que ia acontecer.
[00:39:45] Escrevi antes de começar a escrever os primeiros fragmentos.
[00:39:48] Nunca olhei para isso depois,
[00:39:50] e inclusive apaguei do computador pouco tempo depois.
[00:39:53] Eu comecei com essa ideia,
[00:39:56] vou fazer os recortes a partir de uma vida que eu conheço,
[00:39:59] mas me desinteressei por ela na primeira semana.
[00:40:02] E o que foi acontecendo foi um pouco esse fascínio
[00:40:05] de tentar entender se era possível criar em mim
[00:40:11] e em quem fosse ler essa relação de afeto
[00:40:15] que não era apesar do fato de não se conhecer bem
[00:40:19] completamente aquela pessoa,
[00:40:21] era por causa de não se conhecer completamente aquela pessoa.
[00:40:24] O afeto meio encanto, fascínio, quase obsessão
[00:40:27] que você pode ter por alguém que você conheceu só através
[00:40:30] de pequenos pedacinhos desconjuntados e disparatados.
[00:40:34] O que em muitos sentidos é como a gente conhece as pessoas da nossa vida.
[00:40:37] A gente vê fatias, a gente vê pedaços,
[00:40:39] a gente vê pelo buraco da fechadura,
[00:40:41] a gente vê a pessoa no trabalho não sabe como é que ela é em casa,
[00:40:43] não sabe como é que foi a infância,
[00:40:44] ela conta uma história da infância,
[00:40:46] você soma aquilo ao que você tinha imaginado a respeito dela.
[00:40:50] Eu queria apresentar uma pessoa,
[00:40:53] é bizarro, mas é um movimento que para mim é muito vindo do Joyce,
[00:40:56] é um tipo de constatação muito do Joyce.
[00:40:58] Eu queria ser estritamente realista
[00:41:00] e para ser estritamente realista não dá para usar o realismo tradicional,
[00:41:04] não dá para contar organizadamente a vida,
[00:41:06] isso é falso, isso é fake, isso não existe,
[00:41:08] ninguém se conhece desse jeito,
[00:41:10] ninguém nos é apresentado desse jeito.
[00:41:12] Eu acho que o método da Lia não é definitivo,
[00:41:16] mas é um método que é uma tentativa mais objetiva
[00:41:20] de falar de uma pessoa de verdade.
[00:41:23] Essa pessoa no entanto não existe,
[00:41:25] a Lia não tem um modelo,
[00:41:27] o nome dela vem de um trocadilho com o verbo ler,
[00:41:32] ela tem um sobrenome que é o sobrenome da Doris Day,
[00:41:35] porque eu adoro a Doris Day,
[00:41:36] e ela morreu enquanto eu escrevia Lia,
[00:41:38] eu acrescentei o sobrenome dela como parte da Lia,
[00:41:40] e ela tem um segundo nome,
[00:41:42] eu não vou ficar dizendo aqui,
[00:41:43] mas que é o segundo nome do personagem principal do Ulysses,
[00:41:46] então ela é um mosaico de invenção, pessoas reais,
[00:41:49] personagens literários
[00:41:51] e nem eu sei exatamente que cara ela tem,
[00:41:53] como que ela é, que idade ela tem em cada fragmento,
[00:41:56] eu tenho ideias muito vagas,
[00:41:58] e eu acho muito bonito que seja assim,
[00:41:59] eu sou completamente apaixonado pela Lia.
[00:42:01] E falando dessa coisa do realismo,
[00:42:04] eu percebo que nos textos mais contemporâneos,
[00:42:07] pensando na literatura em geral,
[00:42:09] pode ser que esteja errado,
[00:42:10] mas parece que cada vez é menos usada aquela figura do narrador,
[00:42:14] onisciente, onipresente,
[00:42:15] que sabe tudo o que está passando na cabeça de todo mundo,
[00:42:18] acho que a literatura está indo mais por esse caminho
[00:42:20] de apresentar personagens mais fragmentadas,
[00:42:24] que a gente conhece por frestas.
[00:42:27] Eu acho que sim,
[00:42:28] é uma linguagem que ficou marcada,
[00:42:30] por exemplo, recentemente eu estava traduzindo um livro
[00:42:33] chamado Ratos e Homens do John Steinbeck,
[00:42:35] que é um grande clássico do ápice do realismão norte-americano,
[00:42:40] e hoje a gente consegue ler aquilo como o grande livro que é,
[00:42:44] e ao mesmo tempo pensando,
[00:42:45] mas hoje não dá mais para escrever isso,
[00:42:47] não dá mais para fazer isso tão esquemático,
[00:42:49] tão bem montado, tão perfeito, tão redondo,
[00:42:52] a gente precisa de algo mais torto,
[00:42:54] a gente precisa de algo mais enviesado, mais defeituoso.
[00:42:58] Por outro lado, a gente está vivendo uma invasão literária
[00:43:02] de textos que são construídos a partir de narradores muito fortes,
[00:43:07] muito estáveis,
[00:43:08] em primeira pessoa frequentemente biográfica,
[00:43:11] ou seja, o eu do autor que se coloca na página.
[00:43:14] Então se de um lado a gente pode dizer que esse narrador onisciente,
[00:43:17] onisciente externo,
[00:43:19] todo poderoso,
[00:43:21] foi abandonado em nome do fragmentário, do incompreensível,
[00:43:24] e talvez isso seja parte da verdade,
[00:43:26] de outro lado ele também está sendo abandonado em favor da autoficção,
[00:43:31] da biografização,
[00:43:33] da mistura do ensaio com a ficção, por exemplo,
[00:43:36] que está gerando outros tipos de livros ainda.
[00:43:39] Caetano, para a gente encerrar a nossa conversa,
[00:43:42] traz para a gente alguns exemplos de coisas que você leu recentemente
[00:43:46] que você queira compartilhar, alguma coisa que te marcou,
[00:43:49] que você achou interessante?
[00:43:51] Cara, muita coisa.
[00:43:53] Eu leio muito rápido, então eu leio bastante.
[00:43:56] Como eu falei, eu tenho lido muitas mulheres,
[00:43:58] eu estive lendo bastante Rosa Monteiro agora,
[00:44:01] gostei demais de ler Rosa Monteiro,
[00:44:03] gostei muito de ler a Sigrid Nunes,
[00:44:06] especialmente o último livro dela que se chama Os Vulneráveis,
[00:44:09] eu achei uma coisa preciosa,
[00:44:11] de novo nesse lugar da biografia, ensaio, ficção,
[00:44:15] extremamente interessante,
[00:44:17] e eu acabei de ler agora, antes de entrar na entrevista,
[00:44:20] um livro de uma autora japonesa,
[00:44:22] chamada Sao Ichikawa,
[00:44:26] um livro chamado Corcunda, Hunchback,
[00:44:28] que não saiu ainda traduzido no Brasil
[00:44:30] e que é uma pancada, uma maravilha,
[00:44:33] de um livro muito diferente, muito estranho, mas incrível.
[00:44:39] Bacana, dicas anotadas por aqui.
[00:44:41] Obrigada, Caetano, foi ótima a nossa conversa.
[00:44:43] Até uma próxima.
[00:44:45] Obrigado, Raquel.
[00:44:47] E o BDF Entrevista fica por aqui.
[00:44:49] Obrigada pela sua companhia e pela sua audiência.
[00:44:51] Até a próxima.
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