Abin, Palantir e a espionagem cotidiana


Resumo

Gravado no Porto, na véspera de São João, o episódio começa com Gregório Duivier e seus convidados, Alessandra Orofino e Bruno Torturra, comentando o relatório da Polícia Federal sobre a chamada “ABIN paralela” no governo Bolsonaro. Eles relatam o absurdo de ativistas, jornalistas e autoridades terem sido monitorados com dinheiro público — e, no caso da Alessandra, com um grau cômico de incompetência: vigiaram por anos uma casa onde ela já não morava e a classificaram falsamente como “chefe do Sleeping Giants”, alimentados por desinformação que circulava tanto na direita quanto, depois, na esquerda.

A conversa avança para a dimensão realmente perigosa do caso: a existência e a disponibilidade de ferramentas modernas de espionagem. Bruno explica a diferença entre softwares como o FirstMile (focado em geolocalização via torres de celular) e o Pegasus, capaz de invadir celulares sem cliques e acessar mensagens, microfone, câmera e localização. Eles conectam essa infraestrutura à privatização do aparato de vigilância (empresas vendendo “capacidade estatal” para governos) e ao crescimento de plataformas como a Palantir, descrita como tecnologia de cruzamento massivo de dados que pode transformar “espionagem em massa” em inteligência acionável, com impactos sobre guerra, política interna e repressão a dissidências.

Por fim, o episódio amarra hipervigilância, geopolítica e cultura: discutem como tecnologias de monitoramento e IA têm papel central em conflitos contemporâneos (Israel/Gaza e a guerra de informação contra o Irã), ao mesmo tempo em que produzem um “panóptico” social que inibe organização política. Entram também em crítica à apropriação oportunista da pauta de “liberdade de expressão” pela extrema direita, reflexões sobre a naturalização de câmeras e exposição cotidiana, menções ao WikiLeaks/Assange e uma leitura de O Show de Truman como metáfora da fabricação de desejos e traumas. O episódio termina em tom de digressão bem-humorada sobre o São João no Porto e a tradição do alho-poró.


Anotações

  • 01:13:09 — Do cidadão ao súdito: a república como interface A distinção entre sujeito e súdito não é um detalhe moral, é a arquitetura inteira do regime que está sendo desenhado. Sujeito é quem participa das regras que o governam — ainda que de modo imperfeito — e pode contestá-las, reescrevê-las, criar instituições. Súdito é quem “tem subjetividade”, mas apenas como superfície de captação: desejos, medos, rotinas e escolhas viram variáveis dentro de uma ordem que ele não criou, não compreende e, sobretudo, não pode auditar. A ideologia da elite tecnológica reencena uma eugenia do QI e do “mérito” (o sucesso como prova de superioridade) para naturalizar essa desigualdade política: alguns poucos seriam operadores legítimos do “sistema operacional” do mundo; o restante, usuários gerenciados. Isso se parece com tecnofeudalism (Varoufakis) não por metáfora medievalizante, mas por estrutura material de dependência: a propriedade decisiva não é só fábrica, terra ou capital produtivo, e sim infraestrutura de coordenação — dados, plataformas, identidade, nuvens, modelos, redes de pagamento, integração com defesa e inteligência. Quem controla esses “feudos” define as condições de acesso ao trabalho, à circulação e ao próprio reconhecimento social, extraindo renda (e poder) do pedágio permanente. A fusão entre corporação e Estado aparece então como continuação histórica do mesmo gesto: capturar o público pelo privado enquanto se preserva o braço coercitivo estatal para garantir a ordem. A diferença é que agora o “público” não é apenas negligenciado; ele é rebaixado a um subproduto, porque a legitimidade não vem mais da deliberação comum, e sim da performance tecnocrática prometida pelos “iluminados”. O “funil civilizatório” dá o motivo estratégico: aquecimento global, colapsos de recursos, instabilidade política previsível. Se a elite acredita que a escassez e a desorganização social são inevitáveis, ela passa a tratar o futuro como um problema de administração de populações — e não como um projeto de recomposição democrática. Desenha-se um mundo exclusivo, com enclaves de segurança, mobilidade e abundância relativa, no qual a maior parte da humanidade entra como dado e risco: fluxo a ser triado, custo a ser minimizado, ameaça a ser predita. Nessa gramática, “participação” vira uma palavra perigosa; o objetivo é governabilidade sem cidadania, um pacto entre proprietários de infraestrutura e aparelhos estatais para atravessar a crise preservando privilégios. O que torna isso qualitativamente diferente agora é a automação cognitiva e o rastreamento total do valor: o panóptico deixa de ser apenas ver e punir e passa a ser prever e induzir. Quando dinheiro, identidade e circulação se tornam programáveis e rastreáveis, o controle migra do território para a conduta, do evento para a probabilidade. Não é só vigilância; é engenharia de comportamento em escala, acelerada pela velocidade de implementação digital e pela opacidade técnica que impede contestação. A passagem de sujeito a súdito, então, não é uma regressão acidental: é um design político, legitimado por uma aristocracia de “competência” e operacionalizado por plataformas que privatizam as condições do comum.

Indicações

Livros

  • O Humor Judaico (Deborah Baum) — Gregório cita como estudo sobre a tradição do humor judaico, sua transformação no contexto israelense e a relação entre humor, poder e segurança.
  • A República Tecnológica (The Technological Republic: Hard Power, Soft Belief, and the Future of the West) (Alex Karp) — Alessandra menciona como leitura relevante para entender a tese pró-segurança nacional e o papel da tecnologia na “disputa civilizatória” do Ocidente.

Filmes / Series

  • O Show de Truman — Gregório comenta a atualidade do filme para pensar hipervigilância, publicidade infiltrada na vida e a fabricação de desejos/traumas.

Linha do Tempo

  • [00:00] — Abertura no Porto e contexto da véspera de São João
  • [00:01] — Relatório da PF e revelações sobre a “ABIN paralela” monitorando opositores
  • [00:04] — Alessandra relata o monitoramento errado e o fake news de ser “chefe” do Sleeping Giants
  • [00:09] — Bruno avalia o perigo: tecnologia quase de ponta usada por gente incompetente
  • [00:15] — FirstMile (geolocalização) vs. Pegasus (invasão total do celular) e brechas legais
  • [00:20] — Palantir, cruzamento de dados, IA e “sistema operacional do governo”
  • [00:25] — Pegasus consegue ver apps criptografados; processo do WhatsApp contra a NSO
  • [00:27] — Hipervigilância na guerra: Mossad, rastreamento por celular e assimetria tecnológica
  • [00:33] — Vigilância e repressão política: ativistas pró-Palestina e efeito paralisante do medo
  • [00:38] — Debate sobre humor, propaganda e violência; crítica ao “humor” desumanizante
  • [00:40] — “Liberdade de expressão” como bandeira capturada pela extrema direita
  • [00:53] — Digressão do peixe-lua e reflexão sobre vício em ser observado/vigiado
  • [00:57] — Câmeras em condomínio e como a sociedade naturaliza a perda de privacidade
  • [01:00] — WikiLeaks/Assange: ideal de transparência do Estado vs. privacidade do indivíduo
  • [01:04]O Show de Truman e a fabricação de desejos/traumas pela vigilância e algoritmos
  • [01:15] — Ideologia das big techs: elitismo cognitivo, anti-democracia e misoginia (Peter Thiel)
  • [01:24] — Encerramento com piadas sobre QI e São João (alho-poró “na cabeça”)

Dados do Episódio

  • Podcast: Calma Urgente
  • Autor: Calma Urgente
  • Categoria: News / Politics
  • Publicado: 2025-06-24
  • Duração: 1h27m

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Olá, bom dia, boa tarde ou boa noite para você, querido ouvinte e espectador do nosso

[00:00:08] Calma Urgente.

[00:00:10] Hoje é segunda-feira, dia 23 de junho de 2025, eu sou Gregório Duivier, no momento

[00:00:17] eu estou na cidade do Porto, numa turnê conhecida no Portugal como digressão.

[00:00:24] Então eu estou falando aqui, fazendo digressões com você, num meio de uma digressão.

[00:00:29] Sim, e estou no Porto, na véspera de São João, para quem não sabe, véspera de São

[00:00:33] João no Porto é uma grande festa, é o carnaval deles.

[00:00:36] Meio carnaval, meio São João, meio porque tem balões subindo no ar, e também meio

[00:00:41] ano novo, porque tem contagem à meia-noite com fogos, é um grande mix de festas e

[00:00:47] estarei aqui pela primeira vez para assisti-la, nunca estive, então foi difícil achar

[00:00:50] um lugar silencioso, estou num cantinho no fundo, aqui de um café para conversar

[00:00:54] com vocês.

[00:00:55] Eu vou chamar logo eles, meus amigos, meus colegas, meus parceiros, meus interlocutores

[00:01:00] maravilhosos, Alessandro Orofino e Bruno Tortura.

[00:01:03] Olá pessoal!

[00:01:04] E aí, como é que vocês estão?

[00:01:05] Oi Ale, Greg, oi Turma.

[00:01:06] Estamos bem, animados.

[00:01:07] Tô roco.

[00:01:08] Como é que estão os meus espionados, como é que estão os meus espionados

[00:01:12] da ABIN?

[00:01:13] É monitorado, tô me sentindo super monitorado.

[00:01:16] Aliás, falando nisso, tem um cara ali com óculos escuros e um bigode de mentira

[00:01:22] olhando para mim desde de manhã cedo.

[00:01:24] Ele tá com uma camisa escrito, não sou o da ABIN.

[00:01:28] É polícia secreta, ele tá escrito.

[00:01:32] Então para quem não sabe, semana passada vazou não, foi publicado, foi tornado público

[00:01:37] um relatório da APF que revelava que a ABIN paralela, eu boto muitas aspas aí

[00:01:44] porque esse termo eu acho ridículo, a ABIN paralela do Bolsonaro, ou seja, agência

[00:01:49] de inteligência, o FBI brasileiro do Bolsonaro, estava monitorando uma série de pessoas entre

[00:01:59] elas eu, que estou aqui à sua frente, e Alessandra Orofino.

[00:02:04] E o mais curioso da Alessandra Orofino é que ela estava sendo monitorada da melhor

[00:02:08] maneira possível.

[00:02:09] O que é?

[00:02:10] Estava monitorando uma casa que ela não mora há 20 anos.

[00:02:11] Não, para ele, não mora há quatro, não foi um erro tão crasso.

[00:02:17] Quatro anos, tá?

[00:02:18] E por que que estava monitorando ela?

[00:02:21] Porque ela era a chefe do Sleeping Giants, coisa que ela não é.

[00:02:26] Então assim, eles estavam monitorando a casa errada da dona errada do Sleeping Giants,

[00:02:33] que tampouco tinha que ser monitorada, porque não tem nenhuma atividade lista

[00:02:37] no Sleeping Giants, que é uma coisa de boicote a empresas, não tem nenhuma relação

[00:02:41] com o governo.

[00:02:42] Então assim, é um combo de erros.

[00:02:45] E essa é a nossa agência de inteligência.

[00:02:48] Ela é a agência de inteligência paralela.

[00:02:51] Paralela.

[00:02:52] Paralela.

[00:02:53] A gente até explicitou isso num Greg News, que era assim, tem o Brasil paralelo,

[00:02:57] e paralelo, nesse caso, é no sentido de falsificado.

[00:03:02] Porque vocês lembram que você vai comprar uma coisa no mercado e tem o fone de verdade

[00:03:07] e tem o fone paralelo.

[00:03:08] Tem o fone paralelo.

[00:03:09] É assim que eles usam.

[00:03:10] Whisky paralelo.

[00:03:11] Whisky paralelo.

[00:03:13] Você quer o carregador original ou paralelo?

[00:03:17] Nesse caso a bem paralela é falsificada, e que é doido porque original não é muito

[00:03:21] melhor não.

[00:03:22] Mas enfim, de todos os escândalos que envolvem isso aí, primeiro tem o uso de

[00:03:25] dinheiro público, porque todos estavam recebendo dinheiro público, isso para monitorar

[00:03:29] pessoas erradas, pessoas que não tinham nenhuma relação, não ofereceram nenhum

[00:03:32] perigo.

[00:03:33] Vou nem falar de mim.

[00:03:34] Eu achei muito curioso estar me monitorando e eu fiquei meio com medo.

[00:03:37] Aí eu falei com uma amiga, eu falei, cara, o que eles sabem?

[00:03:40] Você acha que eles têm todas as minhas mensagens?

[00:03:42] Digo eu com medo, meu WhatsApp, Greg, eles são tão ruins, são tão ruins, que você

[00:03:48] provável monitoramento era te seguir nas redes.

[00:03:52] Esse que era a espionagem deles era apertar num follow e ficar vendo suas publicações,

[00:03:57] vendo seus vídeos.

[00:03:58] Então é tipo um milhão de pessoas que estão te monitorando, é basicamente isso.

[00:04:03] Exatamente, o que eles faziam, é um fã remunerado.

[00:04:07] Exatamente.

[00:04:08] A bem paralela, né?

[00:04:10] A gente queria saber da Alessandra primeiro melhor essa história, como é que se sentiu,

[00:04:13] e depois também quero saber do Bruno, como é que ele se sentiu não sendo monitorado.

[00:04:17] É, eu acho que o Bruno tá muito excluído, tá errado isso.

[00:04:22] Como é que foi monitorar em sua casa errada?

[00:04:25] Gente, não, olha, tem um lado que realmente é risível o nível de incompetência,

[00:04:29] né?

[00:04:30] É isso, não só eles monitoraram uma casa na qual eu não vivia já há alguns

[00:04:33] anos, eu tinha me mudado só há dois, três anos antes, acho que o monitoramento

[00:04:37] aconteceu em 2021, e eu tinha me mudado alguns anos antes disso, 2018 eu acho, e eles ficaram

[00:04:43] lá há quase dois anos, né, monitorando supostamente os meus movimentos, mas a única

[00:04:50] documentação que existe no relatório da Polícia Federal é realmente fotos da minha

[00:04:55] casa, da minha ex casa, né, janelas, fachada, tinha um objetivo que ficava monitorando

[00:05:00] de fato a minha varanda, assim, e tentando ver dentro da casa.

[00:05:04] De um lado é isso, é muita incompetência, não só tão no lugar errado, como eles acreditam

[00:05:09] nas suas próprias notícias falsas, né, essa história de que eu sou a chefe

[00:05:12] suprema do Sleeping Giants, e de um monte de outras organizações, vem de uma matéria

[00:05:18] do Rodrigo Constantino na Gazeta do Povo de alguns anos atrás, quando ele me acusou

[00:05:22] disso, porque o Sleeping Giants tinha feito uma campanha muito bem sucedida de dicas

[00:05:26] de passagem, pressionando o PagSeguro a desmonetizar algumas plataformas de curso

[00:05:31] do Olavo de Carvalho, que eram cursos cheios de desinformação.

[00:05:37] O PagSeguro acho que reagiu a isso, eu não me lembro exatamente qual foi a resposta

[00:05:40] pública da empresa na época, mas o fato é que isso gerou uma grita no bolsonarismo

[00:05:45] mais olavista, e eles começaram a tentar descobrir quem eram esses perigosíssimos

[00:05:50] ativistas do Sleeping Giants, que de fato eu conheço, que são pessoas ótimas,

[00:05:53] e a gente tinha no Nossas, que era uma organização que eu dirigia, ajudado

[00:05:57] eles a criar um site uma época, eles não tinham site, então eles usaram uma tecnologia

[00:06:01] nossa, não só de site normal, mas assim, de mobilização e tal, então a gente tinha

[00:06:06] um vínculo muito superficial, mas tinha, e aí é isso, encontraram meu nome no meio

[00:06:11] e decidiram que eu era a chefe, coisa que de fato eu nunca fui, foi muito engraçado

[00:06:15] na época.

[00:06:16] Eu entendo eles, Alessandra, eu entendo eles acharem que você é a chefe, na

[00:06:19] dúvida a chefe é a Alessandra, é uma percepção comum, é uma percepção

[00:06:24] Isso acabou virando um fake news, não só de direita, mas depois ele virou um fake news

[00:06:29] de esquerda também, na época que a gente fez a campanha do Greg News, pra que o Lula

[00:06:35] escolhesse um juiz do Supremo, ou uma juíza do Supremo, negro ou negra, e também teve

[00:06:41] uma reação grande da base mais à esquerda lulista mesmo, petista, contra a campanha,

[00:06:47] dizendo que não era legítimo pressionar a Lula dessa maneira, entre outros argumentos,

[00:06:51] outra coisa que voltou a circular foi essa ideia de que eu seria a controladora não

[00:06:55] só do Sleeping Giants, como de um monte de outras iniciativas, veículos de esquerda,

[00:06:59] então falaram que eu era a controladora do Medo Delírio em Brasília, que eles

[00:07:04] trabalhavam pra mim, os meninos do Medo Delírio que são também maravilhosos me

[00:07:07] mandavam mensagem falando, Ale, cadê o Pix, já que você é a nossa chefa, cadê

[00:07:11] o salário que não chegou, e eu não sou, mas eu tenho contribuições de muitos

[00:07:17] anos ao terceiro setor no Brasil, a vida associativa, das quais eu me orgulho muito,

[00:07:22] mas isso não significa que eu seja a chefe dos dependentes.

[00:07:26] Enfim, o fato é que eles monitoraram, tem um lado que é ridículo, tem outro lado

[00:07:30] que é óbvio que é invasivo, né, ainda que eles estivessem na casa errada, eu fiquei

[00:07:34] olhando praquelas fotos, é a minha casa, é a minha varanda, meu vaso de planta,

[00:07:38] entendeu, as coisas onde eu passava todo dia, onde eu tomava meu café sentada,

[00:07:42] e você se sente muito invadido sabendo que houve uma tentativa, ainda que mal sucedida,

[00:07:47] de ir de uma invasão de privacidade nesse nível, sem falar na pobre da pessoa que tava

[00:07:51] morando lá, que não era eu, que foi fotografada durante um ano inteiro, desnecessariamente.

[00:07:57] Então assim, a minha preocupação é o que acontece se eles ganharem um pouco

[00:08:00] mais em competência, sabe?

[00:08:02] Porque no momento a incompetência é absoluta, mas o que aconteceria se eles tivessem

[00:08:07] o mínimo de capacidade cognitiva mesmo, que eu acho que falta ao Carluxo e outros

[00:08:11] comandantes dessa operação sofisticadíssima.

[00:08:14] Mas se não fosse o Carluxo no comando, se fosse alguém com, sei lá, sinapses funcionais

[00:08:19] entre seus neurônios, o que teria acontecido?

[00:08:22] Eu não sei.

[00:08:23] E é chato pensar nisso, realmente, ainda mais agora que eu tenho filhas e uma vida,

[00:08:27] outras pessoas que são mais vulneráveis e que estão comigo.

[00:08:31] Então eu fico chateada de saber que isso aconteceu, que isso foi tolerado durante

[00:08:34] tanto tempo, que só agora a gente tá sabendo.

[00:08:37] Foi tolerado não, foi encomendado, né?

[00:08:39] É, encomendado pelo governo.

[00:08:41] Assustadora mesmo.

[00:08:42] Você tem um governo parceiro disso, dessa organização criminosa, que era essa bem paralela

[00:08:49] aí.

[00:08:50] Bruno, o que você sente disso?

[00:08:52] E você é um cara que entende de espionagem.

[00:08:54] No sentido que você é um dos caras que eu conheço.

[00:08:57] Não, verdade, eu tô falando brincando, mas o Bruno é um cara muito ligado em

[00:09:01] hipervigilância, né?

[00:09:02] E é um dos caras que sempre me fez ficar meio paranoico com isso, assim.

[00:09:05] O que você achou enquanto uma pessoa que sempre foi consciente da espionagem

[00:09:10] do Estado assim, o que você achou desse aparato tecnológico brasileiro?

[00:09:15] Então o aparato tecnológico brasileiro, eu acho que essa é a grande ironia e a grande

[00:09:19] sorte que a gente deu nos anos, porque o aparato técnico deles era quase de ponta.

[00:09:26] Faz parte de uma nova geração de softwares, de espionagem e de técnicas, que se eles

[00:09:31] soubessem o que eles estavam fazendo, se eles não fossem uns tiozão que mal

[00:09:35] sabem usar o Zap, porque eles são o tipo de pessoa que acredita no Rodrigo

[00:09:40] ou a Constantino, que vê vídeo de inteligência artificial e acha que é verdade.

[00:09:45] A gente não pode esquecer de que o bolsonarismo no poder é igual o eleitor dele.

[00:09:50] Eles não são muito diferentes, eles acreditam nas mesmas fontes, têm as mesmas

[00:09:55] paranoias e são vítimas da mesma poderidão de cérebro que a maioria das pessoas

[00:10:00] que estão nesse mundo digital cheio de notícia falsa e tudo mais.

[00:10:05] Mas muitos dos softwares a que eles tiveram acesso são tecnologias novas,

[00:10:11] perigosíssimas e que passam ao largo de qualquer uma das nossas expectativas

[00:10:19] morais e legais até do que a gente supõe que a privacidade é.

[00:10:26] São softwares, a maioria deles, desenvolvidos e vendidos por Israel,

[00:10:31] não à toa, que são softwares que são capazes de invadir celulares

[00:10:36] sem o consentimento, sem que você precise clicar em algum vírus.

[00:10:40] É simplesmente um tipo de iagrampo que na época da espionagem analogica

[00:10:48] você precisaria ir na casa da pessoa, botar um microfone dentro

[00:10:52] da sala dela, precisaria ter gente monitorando isso 24 horas e tal.

[00:10:57] E hoje eles teriam essa tecnologia.

[00:11:00] Eu acho que um dos escândalos indiciáveis, que estão sendo indiciados,

[00:11:05] é exatamente esse.

[00:11:06] Tinha um funcionamento paralelo, um funcionamento extraoficial

[00:11:10] da agência de inteligência com gente da própria Bin e gente de fora

[00:11:16] para fazer monitoramento de oposição política, o que em si é ilegal.

[00:11:20] Então não são coisas de interesse de segurança de Estado,

[00:11:23] que é o que a Bin poderia fazer, que já é muito questionável,

[00:11:26] mas todas fazem, né, como o, entre aspas, escândalo

[00:11:30] que saiu na semana passada de que a Bin estava monitorando o Paraguai.

[00:11:35] Mas é isso que a agência de inteligência faz.

[00:11:37] É meio constrangedor, é meio chato, mas é isso que faz.

[00:11:41] E, gente, inimigos internos também.

[00:11:42] Possivelmente.

[00:11:44] Podem me chamar, talvez eu seja cancelado por isso,

[00:11:47] mas eu acho importante mesmo ter, porque existem ameaças

[00:11:51] à segurança nacional, como os próprios eram para estar.

[00:11:54] Exatamente.

[00:11:56] Exatamente.

[00:11:57] Investigando a galera que ia lá fazer o 8 de janeiro.

[00:12:00] Era isso que a agência está fazendo.

[00:12:02] Eu acho razoável.

[00:12:03] Só para explicar.

[00:12:04] Eu acho razoável.

[00:12:05] Se tem gente tentando invadir a Praça dos Três Poderes e quebrar tudo,

[00:12:09] era para a Bin estar sabendo disso e não patrocinando ou ajudando

[00:12:13] ou presente nisso ou fazendo vista grossa e observando

[00:12:17] a nova moradora da casa de uma mulher que não é dona dos Sleeping Giants.

[00:12:22] E vamos lembrar, estava você monitorado, o Alessandra é monitorada,

[00:12:26] mas tinha ministro do Supremo, tinha senador, tinha deputado, tinha

[00:12:31] muito jornalista de Veículo Grande, a Vera Magalhães estava monitorada,

[00:12:35] a Monica Bergamo estava monitorada, que é uma quebra absurda de sigilo

[00:12:39] de fonte de uma série de outras coisas que deveria ser criminalizado,

[00:12:43] como de fato possivelmente eles vão ter que responder por isso.

[00:12:46] Está sendo criminalizado porque é crime.

[00:12:49] Mas a outra dimensão que acho que a gente ainda não conseguiu legislar sobre,

[00:12:52] nem conversar a sério disso, são softwares.

[00:12:55] São softwares que esse governo adquiriu legalmente.

[00:13:00] Usaram com as pessoas erradas.

[00:13:03] Mas é uma tecnologia que hoje está totalmente disponível

[00:13:07] para todas as agências de inteligência e possivelmente

[00:13:10] para alguns setores privados também.

[00:13:13] Bruno, mas só a gente pode então, eles tinham acesso,

[00:13:16] então você acha mensagens de fato privadas?

[00:13:19] Então depende da pessoa que eles estavam monitorando,

[00:13:22] porque esse relatório que a gente tem acesso,

[00:13:25] ele é uma parte do que está sendo investigado,

[00:13:28] porque foram as informações que eles conseguiram obter

[00:13:31] com essas pessoas que estavam fazendo isso por baixo dos epanos.

[00:13:34] Mas por que é paralela?

[00:13:36] Porque esses registros não estão na própria ABIN.

[00:13:39] Então possivelmente eles monitoraram mais pessoas

[00:13:42] ou com mais acesso e não obteram provas disso.

[00:13:48] Não obtiveram provas disso.

[00:13:50] A gente não sabe exatamente o escopo disso.

[00:13:53] Mas o fato é que mesmo a tecnologia que eles tiveram acesso,

[00:13:56] eu acho que eles não sabiam usar bem.

[00:13:59] Eu acho que muito provavelmente eles adquiriram o Pegasus,

[00:14:04] que daqui a pouco a gente pode explicar mais o que é isso,

[00:14:07] e tiveram que ir no YouTube ver um tutorial, sabe?

[00:14:10] Porque eu acho que os caras não souberam usar a tecnologia que eles tinham acesso

[00:14:14] e eles não compravam e isso é importante falar.

[00:14:16] Esse software você compra não o uso livre dele,

[00:14:21] você compra o número de pessoas que você quer espionar.

[00:14:25] Então nem todo mundo que está nessa lista

[00:14:27] foram pessoas que foram espionadas com o máximo de tecnologia possível.

[00:14:32] Então talvez você e a Alessandra

[00:14:36] eles não pagaram por uma licença Pegasus

[00:14:39] para ter acesso a tudo que você faz, não sei.

[00:14:42] É triste mesmo pensar que eu não mereci um Pegasus.

[00:14:45] Você não mereceu um Pegasus, né, Greg?

[00:14:47] Poxa, a gente não chegou nesse nível ainda, amigo.

[00:14:49] Que alívio, porque meu WhatsApp, sei lá, não é só.

[00:14:52] Eu levaria um monte de gente juntos, eu levaria muita gente.

[00:14:55] Eu ia cair com muita gente, arrastando muita gente.

[00:14:58] Ia cair atirando.

[00:14:59] Mas falando sério, ia cair atirando.

[00:15:01] Não, mas falando sério mesmo, é muito assustador isso.

[00:15:04] O WhatsApp, por exemplo, você acha que a Pegasus, por exemplo,

[00:15:08] essa coisa de WhatsApp é criptografado e você acha que isso é K.O.?

[00:15:11] Pegasus, por exemplo, consegue ler o WhatsApp?

[00:15:14] O que a gente sabe é que nessa operação da Bem Paralela

[00:15:19] foi usado um software chamado First Smile.

[00:15:21] Esse foi usado com certeza.

[00:15:23] O First Smile é muito menos poderoso, digamos, do que o Pegasus.

[00:15:28] Então só para a gente…

[00:15:29] O First Smile é de localização.

[00:15:31] É, exatamente.

[00:15:32] Só para a gente anumeralar, qual é o arsenal de espionagem

[00:15:35] que está sendo usado hoje em dia de maneira mais…

[00:15:39] Não exatamente corriqueira, mas mais comum

[00:15:42] pelas agências de espionagem do mundo

[00:15:44] e inclusive com casos documentados de uso contra a oposição política.

[00:15:49] A gente tem esse que é o First Smile, que é o mais chinfrim deles.

[00:15:52] Mas basicamente o que o First Smile faz é que ele usa dados de torre de celular

[00:15:58] e ele cruza esses dados de torre para poder entender

[00:16:00] qual é a localização de uma pessoa.

[00:16:02] Então poder fazer um monitoramento de movimento, de localização.

[00:16:06] A vantagem do First Smile é que como você não tem uma invasão

[00:16:09] do aparelho de celular específico da pessoa,

[00:16:12] você consegue fazer isso, dependendo da legislação local,

[00:16:16] você consegue fazer isso sem mandato judicial,

[00:16:18] sem que isso seja necessariamente considerado crime,

[00:16:21] porque você está usando dados que não são os dados pessoais

[00:16:23] da pessoa específica, você não está entrando no aparelho dela.

[00:16:26] Isso é debatido, mas ele tem essa…

[00:16:29] Ele entra numa certa brecha de legislação, o First Smile.

[00:16:33] Ele não é especialmente útil para entender o teor de uma comunicação.

[00:16:39] Ele é útil para tentar encontrar uma pessoa que você não está encontrando.

[00:16:42] O que no meu caso, no seu caso, Greg, é meio irrelevante,

[00:16:45] porque a nossa localização não é tão misteriosa assim.

[00:16:49] A gente não está se escondendo.

[00:16:50] Enfim, mas isso foi usado.

[00:16:52] Aí você tem o Pegasus.

[00:16:53] O Pegasus, a gente não sabe se foi usado.

[00:16:55] O que a gente sabe, porque houve uma série de reportagens da UOL em 2021,

[00:17:01] é que o Carlos Bolsonaro tentou interferir

[00:17:04] no processo de licitação do Ministério da Justiça

[00:17:06] para comprar o Pegasus.

[00:17:08] Então, o Ministério da Justiça do Bolsonaro estava tentando

[00:17:11] comprar o Pegasus e teve uma interferência do Carlos Bolsonaro

[00:17:15] para que essa licitação, que valia…

[00:17:17] Era uma licitação de uns 26 milhões de reais,

[00:17:19] então, uma licitação relativamente cara,

[00:17:22] para que ela excluísse órgãos oficiais de investigação.

[00:17:25] Então, o Carlos não queria que o GSI e que a ABIN,

[00:17:28] que o Gabinete de Segurança Institucional e que a ABIN,

[00:17:31] tivessem acesso ao Pegasus, o que levanta a dúvida.

[00:17:34] Então, para que a gente queria o Pegasus?

[00:17:36] E provavelmente era para esse tipo de investigação paralela, tá?

[00:17:40] E é exatamente isso que as fontes lá da UOL alegaram na época,

[00:17:44] que o Carlos estava querendo expandir essa ABIN paralela

[00:17:48] e ao mesmo tempo reduzir o poder dos militares na área de inteligência.

[00:17:51] Então, isso levanta uma dúvida sobre

[00:17:53] Por que uma ABIN paralela, no final das contas?

[00:17:55] Por que que o bolsonarismo, que é um movimento que chegou no poder

[00:17:58] com o apoio maciço dos militares, que povoou o governo de militares,

[00:18:02] tinha mais militares trabalhando para o Bolsonaro

[00:18:04] dentro do governo, dentro do Executivo do que durante a ditadura,

[00:18:07] por que que ainda assim havia uma necessidade de se criar um órgão paralelo

[00:18:12] que não tivesse na alçada desses militares?

[00:18:14] Quais são as brigas internas?

[00:18:15] Acho que isso é interessante da gente entender.

[00:18:17] Mas o fato é que eles tentaram licitar o Pegasus

[00:18:19] restringindo o uso justamente pela ABIN oficial e pelo GSI,

[00:18:23] que é curioso.

[00:18:24] E aí teve uma resistência grande dentro do governo

[00:18:27] e teria sido inclusive por isso que o general Carlos de Santos Cruz,

[00:18:31] que era o ministro da Secretaria de Governo, foi exonerado.

[00:18:34] Vamos embora.

[00:18:35] É.

[00:18:35] Então, isso foi meio que o resultado na época dessa tentativa de se adquirir o Pegasus.

[00:18:40] O Pegasus é um software muito mais capaz e muito mais completo

[00:18:45] do que o First Mile.

[00:18:48] O Pegasus sim, você consegue entrar no celular de qualquer um

[00:18:51] sem que a pessoa precise clicar em nada.

[00:18:54] E você consegue acessar as mensagens, as câmeras,

[00:18:57] os microfones, a localização, tudo.

[00:18:59] Eu não sei especificamente sobre o WhatsApp.

[00:19:01] Eu não sei se o WhatsApp já se pronunciou sobre o uso do Pegasus.

[00:19:04] É uma boa coisa para a gente apurar, a gente pode dar uma olhada.

[00:19:07] Mas o fato é que é um software muito, muito poderoso

[00:19:11] e já foi usado contra uma série de figuras.

[00:19:14] Inclusive, chefes de estado, Macron foi espionado com o uso do Pegasus.

[00:19:18] Até o presidente do México, o Amlo, foi espionado com o uso do Pegasus.

[00:19:23] Até o uso do próprio governo contra, no caso do México,

[00:19:28] o governo também usou contra jornalistas.

[00:19:30] Então, e foi o Pegasus que foi usado pela Família Real Saudita

[00:19:34] no caso do assassinato daquele jornalista.

[00:19:37] Do Koshog.

[00:19:37] Do Koshog, exatamente.

[00:19:38] Do Jamal Koshog.

[00:19:39] E a israelense, o Pegasus?

[00:19:41] Jamal Koshog.

[00:19:43] O Pegasus é israelense.

[00:19:45] O First Mile não é.

[00:19:46] O Pegasus é israelense e o Palantir,

[00:19:48] que eu acho que o Bruno vai saber falar melhor do que eu a respeito,

[00:19:50] também não é israelense, mas é uma empresa que tem conexões fortes com Israel.

[00:19:55] É muito ligada com o exército de Israel.

[00:19:58] Eu tenho ouvido falar muito do Palantir.

[00:20:00] Não sei se vocês ouviram também falar disso na mídia.

[00:20:03] Queria que o Bruno explicasse qual é a do Palantir.

[00:20:07] Então, o que a gente está passando agora

[00:20:09] é uma situação muito, historicamente, muito séria

[00:20:12] do ponto de vista de hipervigilância

[00:20:14] e um poder que o Estado já tem

[00:20:19] e que está consolidando de maneira extremamente perigosa,

[00:20:23] que é o cruzamento de dados de grande volume

[00:20:27] que o Estado é capaz de produzir

[00:20:29] e as pessoas são capazes de produzir.

[00:20:31] Só dando um pequeno prefácio,

[00:20:33] é a primeira vez que a gente começou a ficar alerta

[00:20:37] para esse termo de hipervigilância

[00:20:39] e a privacidade começou a ser uma grande coisa no mundo digital.

[00:20:43] Foram nos anos Bush, depois do 11 de setembro,

[00:20:47] quando algumas matérias e vários escândalos

[00:20:50] eles mostravam espionagem em larga escala

[00:20:54] na telefonia celular e na internet,

[00:20:58] supostamente em busca de atividade e a terrorista.

[00:21:01] O que o Snowden revelou, muitas matérias que o próprio Glenn Greenwald fez,

[00:21:07] matérias enormes que saíram na Wired falavam sobre como a NSA,

[00:21:13] que é a agência de segurança nacional dos caras,

[00:21:16] estavam construindo uma grande infraestrutura de espionagem.

[00:21:20] Qual que era a defesa do próprio governo e muitos jornalistas

[00:21:25] falavam que ninguém tinha que se preocupar muito com isso.

[00:21:28] Eles falavam assim, eles estão coletando tanto dado

[00:21:32] que é impossível deles analisarem isso.

[00:21:34] Então, mais ou menos assim,

[00:21:35] não se preocupa que o seu telefone está sendo gravado,

[00:21:38] porque não tem ninguém ouvindo.

[00:21:40] É meio que você não é tão interessante assim.

[00:21:43] Eles só vão acessar esses volumes colossais de dados

[00:21:47] quando tiver algo muito perigoso de fato

[00:21:50] para dedicar horas humanas a fazer isso.

[00:21:53] O que o Palantir desde então começou a almejar a ser

[00:21:57] e vamos lembrar o Palantir um dos sócios deles

[00:22:01] é o Peter Chill, que é o magnata do Vale do Silício,

[00:22:05] que está por trás de muita coisa sinistra e tem essa ideologia

[00:22:09] que acha que a democracia faliu.

[00:22:13] E o outro é o Alex Karp,

[00:22:14] que é o CEO e o cara mais importante desse software.

[00:22:18] É a ideia de que eles conseguiriam construir um software

[00:22:21] em parte com inteligência artificial

[00:22:24] que é capaz de fazer esse cruzamento de dados em larga escala.

[00:22:30] Não precisa mais da agência humana para ouvir,

[00:22:34] para ser o Mário Fofoca lá com o headphone e escutando.

[00:22:38] Os agentes de inteligência artificial

[00:22:41] vão fazer com que essa espionagem em massa

[00:22:44] seja inteligência utilizável em curto prazo

[00:22:49] pelos próprios governantes.

[00:22:52] E aí eles estão sendo uma das maiores empresas

[00:22:57] que o Trump está contratando hoje

[00:23:00] para ser o que o Palantir mesmo fala

[00:23:03] para ser o sistema operacional do governo,

[00:23:07] que é você unificar toda a base de dados dele de saúde, crime,

[00:23:12] segurança social, localização, telefone, endereços e tudo mais

[00:23:18] e ser acessável pelas pessoas.

[00:23:21] E um dos principais clientes do Palantir,

[00:23:23] e aí é que começa a ficar sinistro mesmo,

[00:23:26] tem sido o Exército de Israel.

[00:23:30] O CEO é um declarado sionista, é um cara que defende

[00:23:35] é projeto mesmo, tem uma visão de guerra de civilizações.

[00:23:40] Ele compra essa ideia de que é as forças do ocidente

[00:23:45] que estão entrando em uma nova fase de uma guerra com o barbarismo.

[00:23:49] E o Palantir tem sido usado

[00:23:52] para cruzar dados e definir alvos em Gaza e no Irã.

[00:23:58] E pode soar, é normal isso, mas vamos falar, é uma empresa privada.

[00:24:03] Isso não é uma agência de inteligência,

[00:24:06] é uma empresa na Califórnia, nos Estados Unidos,

[00:24:09] e eu já não sei se é na Califórnia, eu posso estar errado,

[00:24:12] mas é uma empresa americana que presta serviços desse tipo

[00:24:17] para vários clientes.

[00:24:18] Então tem vários vídeos que você vê o cara falando sobre guerra,

[00:24:21] ele dá opinião geopolítica.

[00:24:23] O Alex Carpe não está fazendo isso só por dinheiro.

[00:24:27] Ele fala como um secretário de Estado.

[00:24:29] Ele não fala como um CEO tecnológico, ele não parece o Zuckeberg quando fala.

[00:24:34] Ele parece o Henry Kissinger falando.

[00:24:37] E é essa empresa que hoje está ganhando muito destaque

[00:24:41] e acho que muita gente está prestando atenção nela,

[00:24:43] mas não sabe muito o que fazer para frear esse processo

[00:24:46] de cruzamento de inteligência artificial com hiper vigilância.

[00:24:50] A Alessandra tem um dado sobre o WhatsApp,

[00:24:52] enquanto a gente está falando aqui, ela conseguiu apurar algo.

[00:24:56] A nossa equipe, na verdade, a nossa equipe é que é do Camorjente,

[00:24:59] porque nós temos equipe, gente, me mandou a informação do Pegasus

[00:25:03] e o WhatsApp, sim, o Pegasus pode não só ler o WhatsApp, mas signo

[00:25:07] todos os apps que têm criptografia, porque na verdade a maneira

[00:25:10] como ele funciona é vendo o que o usuário vê na tela do celular.

[00:25:14] Então tudo que você vê, ele vê

[00:25:16] e o WhatsApp chegou inclusive a processar a empresa que produz o Pegasus

[00:25:22] acusando o Pegasus de violar as leis de combate

[00:25:25] a hackers dos Estados Unidos e da Califórnia,

[00:25:28] além dos termos de serviço do próprio WhatsApp.

[00:25:30] O caso foi a julgamento, foi um processo de 2019 e o WhatsApp venceu.

[00:25:35] Então o NSO, que é a empresa, o grupo NSO, a fabricante do Pegasus,

[00:25:40] teve que pagar uma multa para o WhatsApp

[00:25:43] por ter espionado 1.400 usuários, aproximadamente.

[00:25:46] O WhatsApp. Então houve esse caso já.

[00:25:51] Mas vamos falar, pagaram uma multa.

[00:25:55] Essa empresa continua funcionando.

[00:25:57] O Pegasus continua sendo vendido

[00:26:00] e a gente não sabe, porque vamos falar, muitas dessas coisas

[00:26:04] a gente só sabe porque foram furos jornalísticos,

[00:26:08] foram vazamentos de agências de inteligência.

[00:26:11] Nós não sabemos hoje a que nível essa tecnologia está

[00:26:16] com um avanço muito rápido dos últimos anos de inteligência artificial

[00:26:21] e de modelos muito grandes de aprendizado de máquina.

[00:26:26] Então a gente não sabe também quais são as novas capacidades

[00:26:29] que esse software tem.

[00:26:31] Mas uma das coisas é que quase a ponta de lança disso é israelense.

[00:26:37] E acho que faz parte desse pensamento.

[00:26:40] Desculpa, eu ia falar que é americana, mais do que tudo.

[00:26:43] O Pegasus especificamente é israelense, mas o Palantir,

[00:26:46] você estava falando onde é que ele está localizado, Bruno,

[00:26:48] era na Califórnia e eles foram para o Colorado

[00:26:51] porque eles eram aquele monte de bilionários,

[00:26:55] o próprio Musk falou que é um sair da Califórnia

[00:26:57] porque a Califórnia estava progressista demais.

[00:27:02] Eles foram nesse êxodo.

[00:27:04] Eles foram nesse êxodo.

[00:27:05] Não, mas eu não estou colocando o Palantir nessa conta de espionagem,

[00:27:08] porque eu não acho que o Palantir seja um software de espionagem.

[00:27:12] O software de espionagem em si, que é entrar em celular,

[00:27:16] monitorar a pessoa, ser capaz de romper todas as criptografias

[00:27:21] de aparelhos e de softwares que a gente achava inviolável,

[00:27:24] como a própria Apple sempre se orgulhou de ter um hardware

[00:27:29] muito difícil de ser hackeado.

[00:27:31] Isso tudo já foi por água abaixo e faz parte de uma ideologia

[00:27:36] de Estado mesmo que está lá de paranoia e de pre-vigilância.

[00:27:42] E o importante falar é que de um jeito muito direto,

[00:27:46] mas a gente não fala muito disso,

[00:27:48] essas tecnologias são centrais na guerra com o Irã que está acontecendo hoje.

[00:27:54] Porque o que está acontecendo em Gaza tem muito uso de inteligência

[00:27:58] é artificial, mas é muito mais uma guerra de genocídio,

[00:28:02] de massacre e de erros de alvos intencionais.

[00:28:06] Então você joga bomba na cidade inteira,

[00:28:09] depois fala que foi alvos precisos e que o Hamas estava em tudo.

[00:28:14] Mas o Irã não é tanto uma operação do exército quanto é da Mossad,

[00:28:23] quanto é da Mossad, que é a agência de inteligência israelense,

[00:28:28] uma agência de inteligência famosa

[00:28:30] pela sua capacidade, pela sua tecnologia e pela sua crueldade,

[00:28:34] muitos e muitos casos, pela sua falta de princípios legais.

[00:28:40] E é a Mossad que está usando esses softwares

[00:28:43] e está comprometendo absolutamente a capacidade de resposta do próprio Irã.

[00:28:47] Por quê? Porque os caras hoje não podem usar celular.

[00:28:51] Se você vê a entrevista que a Christiane Amampour fez

[00:28:55] com o ministro das Relações Internacionais

[00:28:59] e outros jornalistas estão falando que a principal dificuldade

[00:29:03] tem sido conseguir uma linha de telefone

[00:29:07] para fazer uma entrevista com essas pessoas,

[00:29:10] porque Israel quando o cara liga o telefone sabe onde ele está

[00:29:14] e joga o míssil em cima.

[00:29:15] Então é muito mais uma guerra de hiper vigilância

[00:29:21] em que o míssil vai como ação final do que uma guerra convencional.

[00:29:27] É claro que inteligência e informação

[00:29:29] sempre foi uma arma de guerra necessária para uma vitória.

[00:29:34] E a paranoia sempre é uma condição básica de qualquer exército em combate.

[00:29:40] Mas o que eu acho que a gente está vendo hoje é uma desproporção

[00:29:42] muito grande por um avanço técnico muito desproporcional

[00:29:46] em relação ao próprio avanço militar.

[00:29:49] Nós não estamos vendo uma guerra de raio laser,

[00:29:52] de coisas antigravitacionais que é o que se imaginava

[00:29:55] que uma guerra seria no século 21.

[00:29:57] Mas é uma guerra que você não vê, que é de quebra de criptografia

[00:30:03] e de espionagem em larga escala, sem agência humana,

[00:30:06] sem precisar de um agente para te avisar onde o general está.

[00:30:10] É o celular dele, é o zap dele, é o celular do filho dele,

[00:30:15] é o microfone do celular do vizinho.

[00:30:20] Então é muito complicado você combater uma guerra assim.

[00:30:23] Você está alvo disso.

[00:30:25] Eu imagino que o Irã não tem acesso a esse tipo de tecnologia.

[00:30:28] Acho que está aí uma licença que Israel não ia vender

[00:30:32] para a Guarda Revolucionária iraniana.

[00:30:34] Não, mas é isso.

[00:30:35] Mas, por exemplo, a gente sabe que parte um processo que foi parado

[00:30:41] depois dos atentados do 7 de outubro

[00:30:43] e da reação de Israel ao atentado também e tudo que tem acontecido.

[00:30:47] Foi o processo de aproximação entre a Arábia Saudita e Israel.

[00:30:50] E esse processo de aproximação também passou por essa troca amistosa

[00:30:56] de software de supervisão e de espionagem.

[00:30:59] É isso, a família real saudita usou o Pegasus

[00:31:02] para monitorar o jornalista que eles assassinaram.

[00:31:04] E não só ele, mas outros inimigos do regime.

[00:31:08] Então eu não sei, não é impossível que de alguma forma

[00:31:11] essas tecnologias acabem chegando na mão de outras lideranças

[00:31:14] que não necessariamente seriam lideranças que Israel gostaria

[00:31:17] que tivesse acesso a essas tecnologias,

[00:31:18] porque é uma empresa privada, no final das contas, né?

[00:31:21] E é um uso mais indiscriminado do que seria se fosse um software

[00:31:26] criado dentro do Ministério da Defesa para o uso exclusivo de um exército.

[00:31:30] O que também é uma novidade que todo esse parado de espionagem

[00:31:33] ele esteja sendo desenvolvido por empresas privadas,

[00:31:35] porque o que acontece quando essas empresas privadas

[00:31:38] começam a agir não em função dos interesses estratégicos dos países

[00:31:42] que tornaram esse modelo de negócios possível

[00:31:45] e que foram instrumentais para que elas pudessem ganhar

[00:31:48] o espaço de mercado que elas têm hoje,

[00:31:50] mas a partir dos seus próprios interesses, a gente também não sabe.

[00:31:53] Não que no caso do Pegasus faça uma diferença tão brutal assim,

[00:31:57] mas é isso.

[00:31:59] Mas e por exemplo, essa aproximação do governo Bolsonaro com Israel,

[00:32:03] além de ir com a ala mais radical dentro da extrema direita israelense,

[00:32:08] claro que existe afinidade ideológica,

[00:32:10] existe o fator evangélico, o fato da base evangélica

[00:32:13] mais fundamentalista do governo Bolsonaro

[00:32:16] ter uma visão de Israel como esse espaço que precisa ser reconquistado

[00:32:20] para que se compre a profecia do apocalipse, uma loucura específica.

[00:32:25] Mas tem também claramente uma vontade de usar esse tipo de software

[00:32:29] de espionagem. Isso me preocupa, porque o que me preocupa

[00:32:32] não é o que a Bin Paralela foi capaz de fazer,

[00:32:34] o que me preocupa é o que um órgão como esse poderia fazer

[00:32:38] caso Bolsonaro voltasse ao poder daqui a um ano e meio,

[00:32:41] tendo aprendido algumas lições.

[00:32:43] E com os seus laços, com esse tipo de governo e com esse tipo de empresa,

[00:32:48] palantir nos Estados Unidos, pegar os NSO em Israel, etc.

[00:32:53] Ainda mais estreitos agora,

[00:32:55] porque esse é um eixo de extrema direita que está se tornando

[00:32:59] mais próximo, não menos próximo um do outro.

[00:33:02] Isso a gente está falando, isso a gente ainda está falando sobre guerra,

[00:33:06] sobre estados inimigos, estamos falando disso.

[00:33:08] Mas assim, vamos lembrar que o que está em jogo imediatamente

[00:33:13] não é a Guardia Revolucionária Iraniana,

[00:33:17] não é o Hamas, são os ativistas

[00:33:21] que estão se organizando, que precisam se organizar

[00:33:24] e possivelmente vão virar uma força política mais intensa.

[00:33:28] Exatamente é contra a ascensão desse novo fascismo.

[00:33:33] E essa é a grande, não tem preocupação, é a grande certeza.

[00:33:37] É para esse lado que vai.

[00:33:39] A gente já está vendo como tecnologias de hiper vigilância

[00:33:43] é inclusive de agências de inteligência infiltradas dentro dos Estados Unidos

[00:33:49] já estão delatando os ativistas estudantis pro Palestina.

[00:33:54] Já está virando monitoramento e espionagem em cima dessas pessoas

[00:33:58] com consequências gravíssimas de sendo deportados,

[00:34:02] enviados para várias prisões e sendo desaparecidos

[00:34:05] dentro de prisões estaduais.

[00:34:07] No curto prazo,

[00:34:09] uma parte significativa disso tem sido revertida

[00:34:13] por algumas decisões de alguns juízes nos Estados Unidos.

[00:34:17] Então a maioria das pessoas que foram presas injustamente

[00:34:20] em coisas loucas que aconteceram nos últimos meses,

[00:34:23] na última semana elas meio que reapareceram.

[00:34:26] Mas o que acontece não é simplesmente você monitorar

[00:34:30] quem está se organizando, é você cria uma paranoia

[00:34:34] em quem vai deixar de se organizar por causa disso.

[00:34:37] Você cria a sociedade do panótico mesmo,

[00:34:41] que você sabe que pode ter uma câmera,

[00:34:45] que o seu celular pode ser o seu próprio espião.

[00:34:48] Então isso é um fator de compreensão ativista gigantesca.

[00:34:52] Completamente.

[00:34:53] E no mundo árabe a Tuma já sabe disso.

[00:34:56] Vamos lembrar que o outro exemplo que é bom falar

[00:34:58] como isso tem a ver com as tecnologias de hiper vigilância.

[00:35:02] Aquele atentado que Israel fez contra o Hezbollah.

[00:35:07] Que explodiu pagers, que explodiram pagers no bolso, na casa de pessoas.

[00:35:14] Foi uma operação de inteligência israelense que se infiltrou

[00:35:19] como vendedor desses pagers, forneceu esses pagers com bombas dentro.

[00:35:24] Mas por que que os

[00:35:26] os libaneses estavam usando pagers?

[00:35:31] Porque eles já não podiam usar celular, porque eles já sabiam

[00:35:35] que a tecnologia de celular estava completamente hackeada

[00:35:38] por softwares como Pegasus e Frostmile.

[00:35:40] Então eles retornaram para uma tecnologia muito mais velha,

[00:35:43] muito mais precária, que esses softwares não conseguiriam hackear.

[00:35:48] Porque você não tem um software que vai hackear um pager.

[00:35:51] Porque ele é rádio, basicamente.

[00:35:54] Ele não é um GPS.

[00:35:56] E aí os caras enfiaram uma bomba dentro.

[00:35:58] Só explicando também que parece e foi vendida como uma operação brilhante.

[00:36:02] De fato, tem algum brilhantismo aí.

[00:36:04] Inclusive pelo fato que os israelenses ganharam dinheiro

[00:36:07] vendendo os pagers, né? Ainda tem esse detalhe.

[00:36:09] Venderam.

[00:36:11] Detalhe que ainda caiu um cascalho na conta deles.

[00:36:13] Mas para além disso, é bom só a gente lembrar.

[00:36:15] Apesar da aparente inteligência, teve muitas mortes.

[00:36:20] É uma coisa que parece uma coisa muito pontual.

[00:36:23] Tem um vídeo do senhorzinho explodindo num supermercado, obviamente.

[00:36:28] Criança morreu.

[00:36:29] Criança morreu.

[00:36:30] Uma criança não estava com aquele pager na mão.

[00:36:33] Matou criança.

[00:36:34] Então foi noticiado como algo mais preciso do que foi, na verdade.

[00:36:38] Assim como foi noticiado como preciso a morte dos comandantes militares.

[00:36:42] Agora em Eterã, que pouca gente fala que eles morreram com as suas famílias em casa.

[00:36:47] Mas vamos ler. Uma coisa de mau gosto,

[00:36:49] especificamente muito cruel que pelos relatos até o Trump ficou incomodado,

[00:36:55] é que quando o Netanyahu foi encontrar com o Dono Trump,

[00:36:58] e é depois da eleição nova dele,

[00:37:01] ele levou de presente para o Trump um pager de ouro.

[00:37:06] Ele deu de presente um pager de ouro como um orgulho.

[00:37:11] O pager, né? Estamos juntos.

[00:37:13] E diz que o Trump achou meio creepy.

[00:37:16] Ele ficou incomodado, ele não gostou do presente.

[00:37:20] Claro, até porque olha que ato falho.

[00:37:23] O pager, no caso, é o que matou a pessoa que tinha o pager com ele.

[00:37:26] Logo, a metáfora do pager como presente de parceria entre os dois

[00:37:31] é muito ruim, porque o pager foi usado para assassinar a pessoa.

[00:37:34] Então, que presente imbecil, que grosseria você dar esse presente.

[00:37:38] Até para um assassino.

[00:37:39] É uma grosseria, mas eu acho que mostra um pouco a falta de noção

[00:37:44] e a psicopatia do Netanyahu e do gabinete dele,

[00:37:48] porque o Trump é um puta do narcisista,

[00:37:52] mas até ele parece que tem alguns limites de mal gosto em relação à violência.

[00:37:58] Eu acho que é verdade.

[00:38:00] Eu acho que ele fala assim… Sabe, tipo, não.

[00:38:02] E são os caras que estão orgulhosos de fazerem o que estão fazendo.

[00:38:07] Eles matam com mais tesão mesmo.

[00:38:10] E se orgulham, tiram sarro disso, riem disso.

[00:38:12] A gente tem visto.

[00:38:13] Tem um humor, tem um suposto humor dessa galera que me dá muito nojo.

[00:38:19] Muito, muito.

[00:38:20] Aliás, falando em humor…

[00:38:21] É um livro muito bom, um breve paralelo,

[00:38:23] que é O Humor Judaico, da Deborah Baum.

[00:38:26] Uma teórica do humor…

[00:38:28] Quer dizer, não faz só isso.

[00:38:29] Eu não sou uma filósofa de modo geral,

[00:38:30] mas que tem uma história do humor judaico.

[00:38:33] E eu sou apaixonado por humor judaico.

[00:38:34] Claro, acho que os caras…

[00:38:37] De alguma maneira, a cultura judaica inventou um tipo de humor autodepreciativo.

[00:38:42] Tem uma cultura de um humor auto-irônico que eu amo,

[00:38:46] que é, para mim, o humor mais legal.

[00:38:48] Só que o que ela diz é muito interessante

[00:38:50] é que esse humor, quando ela vai para o contemporâneo,

[00:38:53] ela defende, não sei o que estou dizendo, se perdeu em Israel.

[00:38:56] Ela diz que o humor israelense não é humor judaico.

[00:39:00] Se você for ver o que está acontecendo nas redes sociais e tal,

[00:39:03] tem muito mais a ver com o humor que ri do outro,

[00:39:05] ou seja, dos árabes, dos palestinos ou das minorias.

[00:39:09] Ou seja, o humor judaico perdeu

[00:39:11] essa característica autodepreciativa em Israel.

[00:39:14] E ela diz que quem faz o melhor humor judaico em Israel

[00:39:17] são os palestinos.

[00:39:18] E ela conta de um comediante palestino,

[00:39:21] que é o melhor stand-up de Israel,

[00:39:23] e que não está mais lá.

[00:39:24] Inclusive, saiu, obrigatoriamente se sentiu,

[00:39:27] não dava mais.

[00:39:28] Ela falou até para o humor de combate,

[00:39:30] até para o humor autodepreciativo,

[00:39:32] ou humor judaico, você precisa de alguma segurança para fazê-lo.

[00:39:35] Então, vale esse livro, Débora Baum,

[00:39:37] sobre o humor judaico e sobre o estado atual

[00:39:39] das coisas do humor judaico, que mudou.

[00:39:42] E isso é interessante, eu acho um puta estudo dela,

[00:39:44] para a gente entender.

[00:39:45] Porque o que ela diz que é interessante é,

[00:39:47] o humor judaico é o humor de um povo sem armas,

[00:39:50] tradicionalmente.

[00:39:51] Por que o humor judaico tinha essa tradição?

[00:39:54] Porque justamente era um povo sem exército.

[00:39:56] E o humor é a arma de um povo sem exército.

[00:39:59] É a arma dos vencidos, é a arma dos derrotados.

[00:40:02] A partir do momento que Israel ganha esse estado

[00:40:07] talvez mais bélico do mundo,

[00:40:09] mais vigilante, mais poderoso,

[00:40:12] ele é o oposto do humor judaico.

[00:40:14] É armado até os dentes e tal.

[00:40:16] Então, ela fala sobre essa contradição muito bem.

[00:40:20] Desculpa puxar aqui para o humor nesse breve interlúdio,

[00:40:23] mas vou aproveitar para falar de algo que é,

[00:40:26] cara, não sei se enquanto o Bruno falava,

[00:40:29] eu pensava na liberdade de expressão,

[00:40:31] que é uma pauta hoje da extrema direita, basicamente.

[00:40:34] Não só, claro, todo mundo se preocupa

[00:40:36] por liberdade de expressão,

[00:40:37] mas quem mais fala esse termo é hoje a extrema direita.

[00:40:40] Quando uma pessoa é criticada na internet

[00:40:44] ou quando um humorista é condenado por piadas racistas,

[00:40:48] supremacistas ou nazistas mesmo,

[00:40:51] aí acende-se uma grande bandeira da liberdade de expressão

[00:40:56] e todos viram grandes advogados da liberdade de expressão.

[00:40:58] Quando há hiper-vigilância com vazamento de dados,

[00:41:01] quando há o que acontece nos Estados Unidos hoje

[00:41:04] dos jovens não poderem protestar pela Palestina

[00:41:07] sem perderem seus direitos,

[00:41:09] sem serem expulsos da faculdade

[00:41:11] ou serem espancados mesmo,

[00:41:13] estarem protestando contra o governo,

[00:41:15] não é nem do próprio país,

[00:41:16] é de outro país,

[00:41:17] contra o governo de Israel,

[00:41:19] apanharem tal.

[00:41:20] Isso não é visto como um atentado à liberdade de expressão,

[00:41:24] porque existem,

[00:41:25] existem atentados cotidianos à liberdade de expressão.

[00:41:28] O Palantir comete diariamente,

[00:41:31] Pégasus nem se fala,

[00:41:32] mas a milícia no Estado do Rio também

[00:41:35] e o Trump nos Estados Unidos o tempo todo, enfim,

[00:41:38] você tem uma extrema-direita que odeia,

[00:41:41] odeia, odeia a liberdade de expressão

[00:41:44] e que conseguiu ao mesmo tempo monopolizar essa pauta.

[00:41:49] Então, só queria trazer isso,

[00:41:51] porque enquanto o Bruno falava lá,

[00:41:53] cara, é muito louco que essas pessoas,

[00:41:55] se você for ouvir o Peter Thiel,

[00:41:57] se você for ouvir o Elon Musk,

[00:41:59] se for ouvir esses gurus da tecnologia,

[00:42:02] a principal bandeira deles é essa, tá?

[00:42:04] A liberdade de expressão contra o woke,

[00:42:07] afinal de contas, já não se pode dizer nada.

[00:42:10] Esses caras que estão ouvindo, censurando,

[00:42:13] estão divulgando e vendendo seus dados mais privados,

[00:42:17] entrando na sua intimidade,

[00:42:18] esses caras são a favor de que se mate generais

[00:42:21] com suas famílias dentro da casa deles,

[00:42:23] estão defendendo a liberdade, enfim,

[00:42:26] de serem nazistas,

[00:42:27] porque no fundo acho que tem muito mais a ver

[00:42:29] com a liberdade de ser supremacista,

[00:42:32] de odiar outras etnias e outras culturas

[00:42:35] do que de fato uma liberdade de expressão, né?

[00:42:38] É. É sobre poder isso daí, né?

[00:42:40] Eu acho que hoje eles já nem falam mais

[00:42:42] de liberdade de expressão, né?

[00:42:44] É muito conveniente quando você está fora do…

[00:42:47] quando você não tem o comando

[00:42:49] das agências de inteligência.

[00:42:51] E aí quando você assume, a causa é outra.

[00:42:54] Ela vira também de maneira hipócrita,

[00:42:56] também de maneira muito pervertida.

[00:42:59] Agora é sobre a civilização

[00:43:01] ou é sobre anti-semitismo, né?

[00:43:03] Então a luta é contra o anti-semitismo agora.

[00:43:06] Então não é sobre expressão.

[00:43:09] Então essas pessoas, elas são terroristas,

[00:43:11] elas são pessoas nazistas,

[00:43:13] elas estão tentando vitimizar uma sociedade.

[00:43:16] E é por aí o caminho de desqualificação,

[00:43:19] de linchamento e tal,

[00:43:20] que é o que era feito antes.

[00:43:22] Era quando chamava de marxista

[00:43:24] ou chamava de comunista,

[00:43:25] chamava de qualquer outra coisa que funcione melhor.

[00:43:28] Mas é sobre poder isso daqui, né?

[00:43:30] E é sobre a falta de princípios mesmo,

[00:43:32] que eu acho que é uma coisa

[00:43:33] que foi abandonada gradativamente,

[00:43:36] mas que a gente viu se acelerar muito nos últimos anos

[00:43:39] e no Donald Trump com Israel,

[00:43:41] agora isso é potencialmente atômico mesmo, né?

[00:43:44] Que não existe mais coerência e princípios,

[00:43:50] leis que valem para todos,

[00:43:52] não valem os acordos internacionais,

[00:43:54] não tem mais Nações Unidas aqui, né?

[00:43:57] Então qualquer argumento vale

[00:44:00] para a manutenção de um projeto de poder

[00:44:02] e de consolidação mesmo,

[00:44:04] que é o que está acontecendo.

[00:44:06] Por isso que eu falo que é super importante ver

[00:44:08] como o Alex Karp fala sobre a empresa dele.

[00:44:12] Ele não fala que está criando serviços

[00:44:14] ou que temos expectativa de crescimento,

[00:44:16] que a nossa tecnologia faz isso e faz aquilo.

[00:44:18] Ele fala como um agente geopolítico,

[00:44:21] um cara que não foi eleito,

[00:44:23] um cara que não é permeável

[00:44:26] ao processo democrático,

[00:44:28] de nenhuma forma.

[00:44:29] E eles têm uma ideologia muito consolidada hoje,

[00:44:32] que é do Estado, Network States,

[00:44:35] que é o pós-democracia.

[00:44:37] É isso que está em curso hoje

[00:44:39] e essas tecnologias são centrais para que isso possa acontecer.

[00:44:42] Eu acho que a análise dessa ideologia,

[00:44:45] e eu concordo com você, Bruno,

[00:44:46] eu acho que a liberdade de expressão é muito mais…

[00:44:50] Quer dizer, eu não sei exatamente o que você está dizendo,

[00:44:52] eu falei que eu concordo com você

[00:44:53] sem saber se é isso que você está dizendo.

[00:44:56] Mas pode concordar,

[00:44:58] amar que você concorda com algo que eu não disse,

[00:45:00] mas é só me dar o crédito.

[00:45:03] Mas eu sinto que é isso, né?

[00:45:04] A liberdade de expressão anda muito…

[00:45:06] A suposta defesa da liberdade de expressão

[00:45:08] anda muito mais um dispositivo

[00:45:10] para se conectar com uma base política social

[00:45:13] de possíveis eleitores, etc.,

[00:45:15] e ativistas e organizadores na base,

[00:45:17] que se sentem tolidos

[00:45:20] no seu direito de falar o que quiserem,

[00:45:22] que em geral são homens brancos, etc.,

[00:45:26] que se sentem muito pouco livres

[00:45:31] para se expressar da maneira que eles gostariam

[00:45:33] num mundo em que existe menos tolerância,

[00:45:35] sobretudo entre elites,

[00:45:37] para racismo explícito,

[00:45:39] para mesogenia explícita, etc.

[00:45:41] Então eu acho que eles usam essa defesa

[00:45:43] da liberdade de expressão

[00:45:44] convenientemente para trazer essa base

[00:45:46] politicamente, para que ela seja politicamente alinhada,

[00:45:49] mas a ideologia dominante

[00:45:51] não tem tanto a ver com liberdade de expressão.

[00:45:53] A ideologia dominante, é claro que

[00:45:55] existem variantes dessa ideologia,

[00:45:57] mas ela tem muito mais a ver

[00:45:59] com uma visão de guerra de civilizações

[00:46:01] e aí todos, qualquer tipo de conflito,

[00:46:03] inclusive agora a guerra com o Irã,

[00:46:05] eles correm para tentar

[00:46:07] de alguma forma posicioná-lo

[00:46:09] a partir dessa visão

[00:46:11] de guerra de civilizações

[00:46:13] e de um oeste, de um ocidente

[00:46:15] que estaria ameaçado

[00:46:17] por uma série de ameaças

[00:46:19] reais ou imaginárias.

[00:46:21] Então tem isso e tem uma outra coisa

[00:46:23] que é essa ideia mais transhumanista

[00:46:25] do papel fundamental que a tecnologia teria

[00:46:27] para que se vença essa guerra de civilizações.

[00:46:29] E aí dentro desses dois pilares,

[00:46:31] mantendo-se esses dois pilares,

[00:46:33] você tem um espectro político

[00:46:35] na verdade relativamente amplo,

[00:46:37] só que confinado é essa visão.

[00:46:39] Então você vai ter pessoas que

[00:46:41] se dizem mais progressistas,

[00:46:43] pessoas que se dizem mais conservadoras,

[00:46:45] mas todas estão alinhadas

[00:46:47] em cima desses dois pilares.

[00:46:49] O CARPE, eu não sei se você falou isso já,

[00:46:51] mas o CARPE é uma figura muito curiosa mesmo.

[00:46:53] Eu fiquei meio obcecada com ele,

[00:46:55] porque eu acho que ele é muito diferente

[00:46:57] de outros CEOs de Big Techs nos Estados Unidos.

[00:46:59] E eu discordo de você numa coisa, Bruno.

[00:47:01] Eu acho que o Palantir deveria sim

[00:47:03] ser entendido como um software de espionagem.

[00:47:05] Só que ele é sobretudo um software

[00:47:07] de espionagem dos próprios cidadãos.

[00:47:09] O uso do Palantir pelo Exército de Israel

[00:47:11] para espionar

[00:47:13] e para atingir o poder de espionagem.

[00:47:15] O Palantir,

[00:47:17] por exemplo,

[00:47:19] espionar

[00:47:21] e doer ao Palantir

[00:47:23] para de fato matar alvos em Gaza.

[00:47:25] Ele teve muita atenção,

[00:47:27] mas não é o fundamental

[00:47:29] do modelo de negócio da empresa.

[00:47:31] Não é ali que está o dinheiro,

[00:47:33] não é ali que está a visão.

[00:47:35] A visão está em uma criação

[00:47:37] de um sistema isso,

[00:47:39] completamente totalitário,

[00:47:41] no sentido mesmo da palavra,

[00:47:43] de monitoramento da própria cidadania,

[00:47:45] dos cidadãos do país.

[00:47:48] Desculpa, só para corrigir,

[00:47:50] eu não acho que ele é de espionagem,

[00:47:52] porque ele não invade o seu celular,

[00:47:54] ele não grava suas coisas,

[00:47:56] mas ele é de ultra-vigilância.

[00:47:58] É de ultra-vigilância.

[00:48:00] Eu diria que ele é de espionagem,

[00:48:02] porque mesmo que ele não invade o seu celular,

[00:48:04] ele vai usar outros dados que deveriam ser privados.

[00:48:06] Só a diferença é que ele usa com a…

[00:48:08] A anuência do Estado.

[00:48:10] A anuência do Estado, exatamente.

[00:48:12] Mas o Carpe é uma figura curiosíssima.

[00:48:14] Ele é novaiorquinho,

[00:48:16] cresceu lá,

[00:48:18] sempre se disse progressista,

[00:48:20] fez faculdade, depois ele foi fazer

[00:48:22] um mestrado em Stanford,

[00:48:24] acho que foi fazer Law School em Stanford,

[00:48:26] foi aí que ele conheceu Peter Thiel,

[00:48:28] que depois se tornou o fundador da Palantir,

[00:48:30] e um dos principais sócios.

[00:48:32] Mas Peter Thiel sempre teve uma visão mais

[00:48:34] libertária, mais direita clássica,

[00:48:36] mesmo dentro.

[00:48:38] O Carpe, depois de fazer um PhD na Alemanha,

[00:48:40] é focado na Escola de Frankfurt.

[00:48:42] A tese dele é em teoria neo-marxista.

[00:48:44] E ele se dizia socialista.

[00:48:46] Até hoje ele fala

[00:48:48] que a visão de um mundo dele é muito mais alinhada

[00:48:50] com os socialistas democratas da Europa

[00:48:52] do que com o próprio Vale do Silício.

[00:48:54] Então é curiosa a figura dele, sabe?

[00:48:56] Não é uma figura que é um óbvio.

[00:48:58] Pode falar o que quiser, né?

[00:49:00] Óbvio, eu discordo da visão que ele tem dele mesmo.

[00:49:02] Mas o que as pessoas

[00:49:04] dizem sobre elas mesmas importa, né?

[00:49:06] A partir de qual discurso

[00:49:08] que elas fazem sentido do que elas fazem no mundo.

[00:49:10] E ele lançou um livro que eu ainda não li,

[00:49:12] mas que eu quero ler,

[00:49:14] pra poder indicar que eu não quero uma urgente ou não,

[00:49:16] mas acho que é relevante ler.

[00:49:18] Lançou esse ano chamado

[00:49:20] A República Tecnológica.

[00:49:22] Eu entendi porque li as críticas e tal,

[00:49:24] que a tese do livro

[00:49:26] é que o Vale do Silício

[00:49:28] se afastou demais

[00:49:30] de uma visão de segurança nacional, justamente.

[00:49:32] Passou a desenvolver software

[00:49:34] pra uso de consumidores,

[00:49:36] pra ficar disputando atenção,

[00:49:38] videozinho, lá, lá, lá, fotos, like,

[00:49:40] e as fofocas.

[00:49:42] Quando, na verdade, a grande vocação

[00:49:44] do desenvolvimento tecnológico deveria ser

[00:49:46] auxiliar

[00:49:48] a reconfiguração do Estado

[00:49:50] e, sobretudo, ser uma arma

[00:49:52] nessa disputa civilizatória

[00:49:56] que eles entendem que tá acontecendo.

[00:49:58] O nome todo do livro é The Technological Republic.

[00:50:00] Hard power, soft belief,

[00:50:02] and the future of the West, o futuro do Ocidente.

[00:50:04] É, é isso que eu tô falando.

[00:50:06] Ele só fala sobre isso.

[00:50:08] Acha que eles são os novos cruzados, entendeu?

[00:50:10] Essa são as novas cruzadas.

[00:50:12] Isso daí pra mim é o que mais diz sobre eles.

[00:50:14] Eles são obcecados

[00:50:16] com o West, né?

[00:50:18] O Ocidente, que é uma…

[00:50:20] O Ocidente, e o Greber fala disso muito bem,

[00:50:22] se você troca por o homem branco,

[00:50:24] fica um pouco mais claro o que eles estão querendo dizer.

[00:50:26] Porque o que eles estão querendo falar é do branco.

[00:50:28] Só que se você falar assim,

[00:50:30] ah, os valores do Ocidente, fica um pouco mais bonito

[00:50:32] do que dizerem os valores.

[00:50:34] Mas é precisamente o que eles estão falando.

[00:50:36] Então, liberdade hoje em falar isso,

[00:50:38] que eu acho um absurdo.

[00:50:40] É um supremacismo mesmo declarado.

[00:50:42] Os valores do Ocidente.

[00:50:44] Que delírio é esse?

[00:50:46] Que Ocidente é isso que você tá falando em nome dele.

[00:50:48] É um absurdo.

[00:50:50] É uma coisa que é muito, muito supremacista mesmo.

[00:50:52] É uma advogando em prol

[00:50:54] de serem a proa do mundo.

[00:50:56] E os famosos leaders of the free world,

[00:50:58] que os americanos sempre usaram,

[00:51:00] eles são essa proa do mundo,

[00:51:02] dos valores do Ocidente, do Oeste.

[00:51:04] E é um negócio racista,

[00:51:06] quando não veladamente racista,

[00:51:08] abertamente racista.

[00:51:10] Para dar um exemplo aqui de Portugal, onde eu tô,

[00:51:12] essa semana o primeiro ministro

[00:51:14] Luís Montenegro, que é um cara

[00:51:16] teoricamente apenas de direita,

[00:51:18] ou seja, não é nem o cara da extrema direita.

[00:51:20] Não é o André Ventura do chega.

[00:51:22] É o cara que ganhou, até um pouco

[00:51:24] por causa do medo do André Ventura

[00:51:26] de extrema direita.

[00:51:28] Ainda teve gente que votou pra dizer assim,

[00:51:30] é melhor do que o outro.

[00:51:32] É uma espécie de Dory,

[00:51:34] aquele empresário

[00:51:36] disfarçado de político.

[00:51:38] E esse cara falou, essa semana,

[00:51:40] quando Portugal ganhou alguma corrida,

[00:51:42] sei lá, uma Fórmula 1 da vida,

[00:51:44] ele falou assim,

[00:51:46] uma linda vitória da raça lusitana.

[00:51:48] Da raça lusitana.

[00:51:50] O cara ganhou uma corrida de carro.

[00:51:52] Da raça lusitana.

[00:51:54] É uma frase que pra mim, tipo,

[00:51:56] perdeu a vergonha mesmo

[00:51:58] de ser nazista. O nome disso

[00:52:00] é racismo. É um nazismo mesmo.

[00:52:02] É um hiper-nacionalismo

[00:52:04] com uma identificação

[00:52:06] entre raça e país.

[00:52:08] É algo que não tem outro nome mesmo.

[00:52:10] E aqui, claro, as pessoas ficaram

[00:52:12] um pouco desconfortáveis,

[00:52:14] eu diria. Mas não ficaram, talvez,

[00:52:16] horrorizadas, como deveriam ficar.

[00:52:18] Porque uma pessoa que diz isso,

[00:52:20] a história já puniu

[00:52:22] pendurando pelos pés.

[00:52:24] Então era isso que ele tinha que ter medo

[00:52:26] ao falar isso. Eu não quero ficar

[00:52:28] nessa pra baixo, numa praça pública.

[00:52:30] Ou pelo menos vou calar a porra da minha boca.

[00:52:32] E o cara fala isso meio normal.

[00:52:34] Que raça lusitana, meu. Para além

[00:52:36] de ser uma construção completamente

[00:52:38] delirante a ideia de uma raça lusitana,

[00:52:40] é um negócio que, obviamente,

[00:52:42] exclui uma quantidade enorme de pessoas

[00:52:44] que vivem no seu país. Enfim.

[00:52:46] Só um breve parêntesis, porque eu estou aqui

[00:52:48] e isso aí saiu notícia na semana passada.

[00:52:50] Mas uma outra notícia que eu vi

[00:52:52] que tem um pouco a ver com vocês,

[00:52:54] é mais uma digressão, tem mais um pouco a ver

[00:52:56] é um peixe-lua,

[00:52:58] não sei se vocês viram isso.

[00:53:00] Essa notícia pra mim diz muito,

[00:53:02] sobre o ser humano, embora seja um peixe-lua.

[00:53:04] Sabe o peixe-lua qual é? Sim.

[00:53:06] É aquele que é um hit nos aquários do mundo,

[00:53:08] porque ele é 2D. Não sei.

[00:53:10] Então ele tá andando assim, ele vira.

[00:53:12] Ele é um disco. Ele é um disco. Ele vira, ele é fininho, ele vira.

[00:53:14] Então peixe-lua ou sunfish, né?

[00:53:16] Ele também chama sunfish.

[00:53:18] Tá, não conhecia.

[00:53:20] Num aquário gigante desse, em algum lugar do mundo,

[00:53:22] o aquário fechou e ficou em obras.

[00:53:24] Ele tem depressão, no sentido que ele parou de comer.

[00:53:26] Ficou num cantinho,

[00:53:28] chamava ele, o peixe-lua não ia.

[00:53:30] Ele disse, cara, ele vai morrer, o que tá acontecendo?

[00:53:32] Um dos funcionários do aquário

[00:53:34] aventou a hipótese dele tá triste, porque não tinha ninguém lá.

[00:53:36] Aí todos riram dele,

[00:53:38] falaram, calma, vamos fazer uma coisa?

[00:53:40] E o cara recortou em cartão,

[00:53:42] muito engraçado a imagem, várias pessoas

[00:53:44] com displays mesmo

[00:53:46] de cartas de papelão

[00:53:48] e botou displays no aquário.

[00:53:50] E o peixe-lua tá todo felizinho,

[00:53:53] dando volta.

[00:53:55] E pra mim, cara, eu achei tão louco isso.

[00:53:57] Até o peixe-lua é dependente

[00:53:59] de uma atenção em algum lugar

[00:54:01] humana.

[00:54:03] Isso aí pra mim me fez ficar tão deprimido

[00:54:05] como as pessoas meio que viraram peixe-luas.

[00:54:07] E eu não tô dizendo que elas querem ser vigiladas,

[00:54:09] mas que sim elas topam, eu tô falando de mim.

[00:54:11] A gente topa mesmo

[00:54:13] ser vigiado

[00:54:15] e ser olhado, porque a gente,

[00:54:17] o corpo, existe quase,

[00:54:19] e o peixe-lua eu fiquei pensando nisso,

[00:54:21] uma dependência química de você ser

[00:54:23] vigiado e de você ser

[00:54:25] monitorado, sabe?

[00:54:27] Notado.

[00:54:29] Cara, tão me observando, a ideia de que não tem ninguém te observando,

[00:54:31] você fica igual o peixe-lua lá deprimido os dias,

[00:54:33] porque você é adicto,

[00:54:35] você tá completamente viciado nisso,

[00:54:37] as pessoas tão, tô falando sério, elas

[00:54:39] trabalham, tem gente que trabalha

[00:54:41] com a câmera do zoom aberta,

[00:54:43] pras outras pessoas ficarem vendo ela,

[00:54:45] trabalharem, senão ela não trabalha.

[00:54:47] A gente tá viciado mesmo no olhar do outro

[00:54:49] pra fazer com que a gente exista.

[00:54:51] Então, é claro que essas espionagens

[00:54:53] todas são criminosas, eu não tô passando pano

[00:54:55] dizendo que é normal não, mas é tão bizarro

[00:54:57] o fato de que criou-se uma subjetividade

[00:54:59] do espionado também,

[00:55:01] que passou a gostar disso,

[00:55:03] a contratar isso.

[00:55:05] Isso não é nada novo,

[00:55:07] porque eu também acho,

[00:55:09] soar é forçado, mas eu realmente

[00:55:11] acho isso, que em grande parte

[00:55:13] a sociedade secular,

[00:55:15] técnica,

[00:55:17] ateista de princípio assim,

[00:55:19] tá construindo

[00:55:21] o velho deus.

[00:55:23] O que o deus do velho testamento era?

[00:55:25] A gente falou um pouco disso sobre

[00:55:27] algoritmo, mas no caso

[00:55:29] da hiper vigilância,

[00:55:31] ele é mais bem acabado ainda.

[00:55:33] O deus do velho testamento é o Pegasus

[00:55:35] e o Palantir.

[00:55:37] Ele te monitora em todos os lugares,

[00:55:39] ele sabe tudo sobre você.

[00:55:41] Ele te monitora e ele tem o poder

[00:55:43] militar, de hard power,

[00:55:45] o poder de te matar também.

[00:55:47] Mas o que ele tá fazendo em última

[00:55:49] análise? Cuidando de você.

[00:55:51] Você terceiriza

[00:55:53] grande parte da sua responsabilidade

[00:55:55] como indivíduo, porque você fala

[00:55:57] tem alguém cuidando, tem alguém mais

[00:55:59] inteligente do que, ou superior

[00:56:01] a mim, que já

[00:56:03] demonstrou todos os seus méritos

[00:56:05] pela fortuna que conseguiu acumular,

[00:56:07] pela articulação

[00:56:09] em palavras, pelas palestras

[00:56:11] no TED,

[00:56:13] que é capaz de

[00:56:15] me pastorear nesse lugar

[00:56:17] complexo e difícil.

[00:56:19] E é por isso que a ideia

[00:56:21] de segurança é tão central pra essas

[00:56:23] pessoas. Por isso que a linguagem

[00:56:25] do terrorismo é fundamental,

[00:56:27] porque a gente tem uma amígdala muito

[00:56:29] mais poderosa do que o nosso

[00:56:31] modo racional.

[00:56:33] Se você tá governado por uma linguagem

[00:56:35] e uma emoção

[00:56:37] do medo,

[00:56:39] a coisa mais fácil que tem é você ceder

[00:56:41] sua privacidade, porque você nunca vai

[00:56:43] imaginar que você é o

[00:56:45] perigoso aqui.

[00:56:47] E raramente é perigoso mesmo.

[00:56:49] Raramente é o perigoso.

[00:56:51] A gente troca o tempo todo a privacidade por segurança.

[00:56:53] Isso é uma troca que a gente faz

[00:56:55] de olhos fechados. Privacidade ou segurança

[00:56:57] toma a minha privacidade agora, faz o que

[00:56:59] você quiser com ela. É uma troca

[00:57:01] que todo ser humano faz.

[00:57:03] Eu tive, pessoalmente, uma experiência que eu achei

[00:57:05] curiosa em relação a isso.

[00:57:07] Eu tive uma questão com um vizinho, enfim,

[00:57:09] que vale entrar em detalhes mesmo, vocês dois sabem bem,

[00:57:11] que se tornou síndico de um prédio onde

[00:57:13] eu morava. Não o prédio monitorado,

[00:57:15] curiosamente, pela Polícia Federal,

[00:57:17] outro. O prédio que ele

[00:57:19] monitora. E aí

[00:57:21] ele instalou câmeras e tal no prédio,

[00:57:23] eu já tinha câmeras, mas ele começou a fazer um uso

[00:57:25] mais rotineiro dessas câmeras.

[00:57:27] E aí, em dado momento, eu tive um

[00:57:29] pega pra capar com ele pra uma questão de

[00:57:31] vaga de coisa, de não deixar a entrada,

[00:57:33] não conseguir entrar com carrinho, enfim,

[00:57:35] loucuras que não vale detalhar.

[00:57:37] Mas ele ficava mandando no grupo

[00:57:39] de WhatsApp, onde tinha todos os vizinhos,

[00:57:41] as imagens da câmera da

[00:57:43] portaria, tentando provar

[00:57:45] que eu não tinha esperado tanto assim.

[00:57:47] Basicamente, ele bloqueava a entrada

[00:57:49] de acessibilidade do prédio, então eu não conseguia entrar com o carrinho,

[00:57:51] eu tinha que interfonar pra ele tirar o carro,

[00:57:53] pra eu poder entrar.

[00:57:55] E, obviamente, eu falava, você não pode fazer isso,

[00:57:57] e aí ele queria provar que eu não tinha esperado

[00:57:59] muito, que a minha…

[00:58:01] Eu tava exagerando na minha indignação

[00:58:03] com isso. Então ele mandava

[00:58:05] todas as imagens, e era eu com uma neném,

[00:58:07] com a minha outra filha, entrando.

[00:58:09] E aí eu falava assim,

[00:58:11] a gente fala uma coisa, essas imagens

[00:58:13] não são suas, não é porque você é

[00:58:15] síndico, que elas passam a ser a sua

[00:58:17] propriedade, você pode ficar mandando num grupo

[00:58:19] de WhatsApp com outras pessoas, tem criança.

[00:58:21] Enfim, eu falei, olha, você tá violando

[00:58:23] o meu direito de imagem, tá violando o direito das minhas filhas,

[00:58:25] elas são menores de idades, LGBT,

[00:58:27] botei lá um textão,

[00:58:29] porque, obviamente, ele tava brigando comigo, então

[00:58:31] ele tinha que se preparar pra textão.

[00:58:33] E, no final das contas, ele foi

[00:58:35] apagando. Mas o que eu achei curioso, eu tô

[00:58:37] contando essa história pra vocês, é que ninguém,

[00:58:39] nem ele próprio, que claramente

[00:58:41] é um cara litigioso, tinha vários processos

[00:58:43] e tal, já com o nome dele,

[00:58:45] ele não achou, eu acho, que isso poderia dar

[00:58:47] processo ou dar problema, e nenhum

[00:58:49] outro vizinho achou, até eu falar

[00:58:51] muito indignada sobre isso.

[00:58:53] Porque a ideia, eu acho, vigente,

[00:58:55] é que essas imagens de câmeras de segurança

[00:58:57] de condomínio, tá pra jogo,

[00:58:59] entendeu? Que isso é absolutamente o normal

[00:59:01] que você seja vigiado quando você entra e sai

[00:59:03] da sua casa. Quando, na verdade, não é, né?

[00:59:05] A gente deveria pensar muito antes

[00:59:07] de colocar a câmera de segurança em condomínio.

[00:59:09] Pra que que ela serve de fato? Ela é realmente

[00:59:11] um bom mecanismo de defesa

[00:59:13] contra assaltos, roubos, invasões

[00:59:15] do condomínio? Ou ela serve muito mais

[00:59:17] pra vigiar os próprios moradores, né?

[00:59:19] Na mão de quem que ela vai parar essa imagem?

[00:59:21] Então, são trocas de privacidade

[00:59:23] por segurança, né, ilustrando o que

[00:59:25] você tá falando, Greg, que a gente faz,

[00:59:27] não é nem que a gente faz, a gente nem faz mais.

[00:59:30] A gente nem se pergunta se a troca

[00:59:32] vale a pena. A nossa privacidade

[00:59:34] tem varido tão pouco que a gente

[00:59:36] dá de barato que não vale a pena tentar

[00:59:38] preservá-la e nem se indagar

[00:59:40] sobre o que que a gente tá de fato

[00:59:42] trocando, porque é isso, alguém tem acesso

[00:59:44] a essas imagens. Em geral, são sistemas de segurança

[00:59:46] super amadores

[00:59:48] em que tem um vizinho que tá ali,

[00:59:50] um síndico que fica ali,

[00:59:52] que tem acesso a tudo aquilo, né?

[00:59:54] Eu lembro de uma, é uma grande pena,

[00:59:56] né, assim, o que acontece, acho que é uma

[00:59:58] coisa que a nossa geração analisa muito pouco,

[01:00:00] que foi a derrota do WikiLeaks

[01:00:02] e do Assange, como

[01:00:04] um processo de politização e de

[01:00:06] potencial revolução política, né?

[01:00:08] Eu lembro que quando o Assange

[01:00:10] tava no auge dele, ainda não tava preso,

[01:00:12] e era o cara que tava falando sobre essas

[01:00:14] questões, o que que ele falava

[01:00:16] que era a missão dele?

[01:00:18] Qual que era a ideologia dele?

[01:00:20] Ele falava assim, o mundo

[01:00:22] digital deveria significar

[01:00:24] mais privacidade pro indivíduo

[01:00:26] e total transparência pros governos.

[01:00:28] Então a ideia dele era

[01:00:30] uma hiper vigilância estatal, era tipo assim,

[01:00:32] a gente vai vigiar

[01:00:34] vocês, intensamente,

[01:00:36] a gente vai grampiar,

[01:00:38] vai hackear, a gente quer saber tudo

[01:00:40] que vocês fazem em tempo real, a gente

[01:00:42] quer uma live de vocês aqui,

[01:00:44] porque nessa construção, você faz

[01:00:46] isso é desnecessário, inclusive as agências

[01:00:48] de inteligência, o segredo

[01:00:50] de estado, quando tudo

[01:00:52] tá mais aberto mesmo. E

[01:00:54] o indivíduo tem que ser protegido através

[01:00:56] de uma política de criptografia.

[01:00:58] E com a prisão dele,

[01:01:00] a não compreensão pública disso

[01:01:02] a tempo real, e a instalação

[01:01:04] de grandes plataformas que nos

[01:01:06] seduziram pro mundo digital,

[01:01:08] invertido, que os estados

[01:01:10] hoje estão cada vez mais

[01:01:12] criptografados, vamos lembrar que

[01:01:14] tem um escândalo besta nos Estados Unidos,

[01:01:16] mas que ele evidencia isso.

[01:01:18] O

[01:01:20] Pete Hegseth, o secretário

[01:01:22] de defesa dos Estados Unidos e o vice, estavam falando

[01:01:24] pelo signo, sobre o

[01:01:26] ataque que eles iam fazer no

[01:01:28] Iêmen, contra os

[01:01:30] rutes. Porque eles são muito

[01:01:32] burros, porque eles são meio abim paralela,

[01:01:34] eles meteram um jornalista

[01:01:36] nesse grupo sem perceber,

[01:01:38] da Atlantic, e aí o cara

[01:01:40] vazou.

[01:01:42] Agora, se não tivesse vazado,

[01:01:44] o que isso significa?

[01:01:46] Que o estado americano tá fazendo

[01:01:48] planos de guerra, fora

[01:01:50] dos registros públicos.

[01:01:52] Isso não vai ser acessível mais pela

[01:01:54] lei de acesso à informação,

[01:01:56] isso não tá sendo gravado como as reuniões

[01:01:58] da Casa Branca deveriam ser gravadas,

[01:02:00] que depois de tantos anos você tem

[01:02:02] acesso como historiador e é possível

[01:02:04] de vazamento. Era um app

[01:02:06] criptografado que simplesmente você

[01:02:08] apaga. E por aí vai, a gente tem

[01:02:10] estados hoje muito mais impermeáveis,

[01:02:12] todos muito criptografados,

[01:02:14] e o indivíduo violado

[01:02:16] no seu banheiro. E a gente

[01:02:18] criou esse lugar, que é uma

[01:02:20] transparência total para os indivíduos e

[01:02:22] segredo total para os estados,

[01:02:24] é o mundo menos ideal possível.

[01:02:26] É, e é isso, lembrar

[01:02:28] que o Pegasus, ele não é,

[01:02:30] é uma licitaçãozinha ali do Carlos

[01:02:32] Bolsonaro pra poder espionar meia dúzia

[01:02:34] de pessoas no Brasil, são 25 milhões de reais.

[01:02:36] Então não é acessível,

[01:02:38] o que não que deveria, todo mundo deveria

[01:02:40] ter acesso a essa tecnologia.

[01:02:42] Mas são softwares criados

[01:02:44] para um cliente que é

[01:02:46] o Estado, que é para o Estado poder espionar.

[01:02:48] Eu diria que prioritaramente os seus

[01:02:50] cidadãos. De novo, o uso

[01:02:52] de todas essas tecnologias

[01:02:54] pra, em situações de guerra,

[01:02:56] ele também é complexo,

[01:02:58] ele também é eticamente contestável,

[01:03:00] mas você já está em situações em que você

[01:03:02] tem problemas éticos de várias naturezas, né?

[01:03:04] O uso desses

[01:03:06] mesmos softwares contra a dissedência

[01:03:08] política interna é infinitamente mais

[01:03:10] problemático e vai ser infinitamente mais

[01:03:12] comum. Porque na verdade,

[01:03:14] todas essas figuras ultra bélicas

[01:03:16] que a gente está vendo hoje iniciando guerras,

[01:03:18] inclusive Netanyahu, inclusive Trump,

[01:03:20] são figuras que no fundo estão fazendo tudo isso

[01:03:22] muito mais já a partir

[01:03:24] de considerações de política interna.

[01:03:26] Eles querem ficar no poder, entendeu? O problema deles é esse,

[01:03:28] é não ser presos, é ficar no poder,

[01:03:30] é continuar, é se manter

[01:03:32] numa posição interna. Então o verdadeiro

[01:03:34] inimigo, o inimigo mais

[01:03:36] perigoso pra essa galera

[01:03:38] é o inimigo razoável.

[01:03:40] Ele não é o inimigo

[01:03:42] clássico, ele não é o que quer a sua extinção,

[01:03:44] ele não é o que quer matar todo mundo,

[01:03:46] o terrorista, não é isso.

[01:03:48] O inimigo razoável, o inimigo

[01:03:50] que você não tem como demonizar,

[01:03:52] a não ser com muito esforço público,

[01:03:54] esse é o verdadeiro inimigo. Porque esse

[01:03:56] você pode perder

[01:03:58] poder pra ele. É muito mais difícil

[01:04:00] de perder poder pra alguém que representa

[01:04:02] uma ameaça existencial a um povo, sabe?

[01:04:04] Então é útil, inclusive,

[01:04:06] a figura dessa ameaça existencial, porque

[01:04:08] é o que justifica essa hiper vigilância,

[01:04:10] que é a vida dos seus próprios cidadãos.

[01:04:12] Acho que é pra isso que a gente tá indo, é isso.

[01:04:14] Vamos lembrar, gente, que

[01:04:16] todas as bravatas

[01:04:18] de Bolsonaro e seus aliados

[01:04:20] e toda essa base mesmo,

[01:04:22] esse campo político em relação ao crime

[01:04:24] no Brasil, ao crime organizado,

[01:04:26] a como o Brasil está entregue

[01:04:28] para os criminosos,

[01:04:30] hábem em paralelo, eu não tava investigando

[01:04:32] os chefes do PCC, ou comando

[01:04:34] vermelho, eles estavam monitorando a minha

[01:04:36] varanda, entendeu?

[01:04:38] A minha varanda errada!

[01:04:40] Graças a Deus. A varanda errada, perfeito.

[01:04:42] É isso!

[01:04:44] Meu Deus do céu. Cara, eu revi

[01:04:46] o show de Truman, vindo agora

[01:04:48] pra cá, porque eu adoro ver filme

[01:04:50] que eu já vi no avião pra não gastar um filme

[01:04:52] bom com uma telinha. Eu também.

[01:04:54] E aí, a show de Truman, sabe como é que envelheceu?

[01:04:56] Eu amei quando eu vi e nunca revi.

[01:04:58] Faz vinte e tantos anos, né, que a gente

[01:05:00] estreou, sei lá, se trinta anos talvez.

[01:05:02] Muito tempo, o show de Truman é nos anos 90.

[01:05:04] Enfim, e fui rever com medo dele

[01:05:06] de envelhecido mal. E cara, ainda é

[01:05:08] maravilhoso. O medo de envelhecer mal

[01:05:10] é porque a gente falou muito desse tema

[01:05:12] depois do filme. Eu achei que o filme pudesse

[01:05:14] ter caducado, porque a gente

[01:05:16] falou da sociedade vigilância depois

[01:05:18] de outras maneiras, mas não. Ele continua

[01:05:20] maravilhoso. Para além da graça

[01:05:22] tem um drama

[01:05:24] ainda maior hoje em dia,

[01:05:26] pelo fato de que aquilo, obviamente, é o que a gente

[01:05:28] se tornou. Pessoas hipervigiladas

[01:05:30] e tal. E tem uma coisa, todo

[01:05:32] mundo lembra do show de Truman, daquela coisa dele

[01:05:35] tendo uma vida bem fake e tal, e filmada.

[01:05:37] Ele lembra, claro, daquela piada clássica

[01:05:39] da mulher fazendo merchandising,

[01:05:41] que é outra coisa também muito atual, né?

[01:05:43] A inserção das marcas na vida,

[01:05:45] graças públicas e stories. A mulher fica

[01:05:47] fazendo públicas. Olha, amor,

[01:05:49] esse serial é melhor. Então a mulher dele, que é uma atriz,

[01:05:51] é contratada para fazer publicidade

[01:05:53] na vida pessoal dele,

[01:05:55] e ele acha meio estranho e tal.

[01:05:57] Mas o que eu acho mais interessante, que é uma coisa que passou

[01:05:59] batido na época, para mim pelo menos,

[01:06:01] eu não lembrava, é

[01:06:03] a construção da subjetividade

[01:06:05] dele. Para além da hipervigilância,

[01:06:07] tem

[01:06:09] uma construção, uma fabricação

[01:06:11] dos desejos dele

[01:06:13] pela vigilância. Então, por exemplo,

[01:06:15] tem mil cartazes pela cidade toda, assim,

[01:06:17] sobre aviões caindo,

[01:06:19] para ele nunca ter vontade de pegar um avião e sair.

[01:06:21] Então ele está falando que normal, e tem assim,

[01:06:23] planes crash, e uma foto

[01:06:25] de um avião enorme.

[01:06:27] Tem, claro, eles criam

[01:06:29] um trauma nele, de mar.

[01:06:31] Ele sai e morre no mar quando ele é criança, só para ele

[01:06:33] nunca ter coragem de mergulhar

[01:06:35] e de sair pelo mar. Tanto é que no final

[01:06:37] acaba com aquela cena clássica dele

[01:06:39] indo em direção ao oceano numa

[01:06:41] tempestade. Mas,

[01:06:43] o filme é também para mim a história de uma

[01:06:45] construção, de uma tentativa de construção

[01:06:47] de uma subjetividade pelo estado.

[01:06:49] Porque para além da hipervigilância,

[01:06:51] o que existe também hoje no algoritmo, é a fabricação

[01:06:53] dos seus desejos. Então,

[01:06:55] não é só que nossos desejos mais íntimos,

[01:06:57] ou nossas intimidades, elas são

[01:06:59] vigiadas. É também que tem uma construção

[01:07:01] deliberada de intimidade

[01:07:03] e de desejos, e de

[01:07:05] subjetividade mesmo, que acho que

[01:07:07] você já não sabe mais. E é curioso você falar

[01:07:09] dos traumas. Tem também uma construção

[01:07:11] dos traumas. O que a gente vai entender

[01:07:13] como trauma coletivo? O que a gente

[01:07:15] não vai entender como trauma coletivo?

[01:07:17] Porque, quais são os nossos medos?

[01:07:19] O que a gente teme?

[01:07:21] E é muito útil ter uma população que tem

[01:07:23] alguns medos

[01:07:25] que se prestam bem

[01:07:27] a uma resposta pública que passa

[01:07:29] pela supervisão do estado, pela

[01:07:31] vigilância do estado. Agora, Bruno,

[01:07:33] voltando no que a gente falou, e você agora

[01:07:35] também, Greg, achou de trauma genial, então achei bom

[01:07:37] só trazer esse exemplo. O que é curioso,

[01:07:39] no entanto, é que hoje

[01:07:41] essa é uma construção não só

[01:07:43] do estado, mas toda a ideologia,

[01:07:45] a ideologia do Alex Karp, tudo que está

[01:07:47] se desenhando, é essa

[01:07:49] ideia de que os agentes

[01:07:51] dessa nova república

[01:07:53] tecnológica, hipervigiada,

[01:07:55] devem ser o estado

[01:07:57] e empresas privadas.

[01:07:59] Não é uma captura das mentes mais brilhantes do nosso

[01:08:01] tempo pelo departamento de defesa diretamente,

[01:08:03] como foi, por exemplo, na época do desenvolvimento

[01:08:05] da bomba atômica. Não é

[01:08:07] nem o próprio programa nuclear iraniano, né,

[01:08:09] que é isso, que é um monte de cientistas

[01:08:11] filiados ao programa nuclear

[01:08:13] do estado, que é a forma clássica

[01:08:15] do estado, no fundo, trazer

[01:08:17] a capacidade de invenção,

[01:08:19] de criação da academia,

[01:08:21] das ciências para dentro do estado,

[01:08:23] para se desenvolver aquilo que o estado considera

[01:08:25] relevante em termos de armamento,

[01:08:27] de sistema de vigilância, etc.

[01:08:29] Não, o Palantir,

[01:08:31] o primeiro investidor do Palantir,

[01:08:33] além do Peter Thiel, além dos fundadores,

[01:08:35] foi um setor

[01:08:37] de investimentos privados da CIA,

[01:08:39] que eu não sabia nem que existia.

[01:08:41] Existe muito. A CIA tem um fundo

[01:08:43] para investir em empresa privada.

[01:08:45] Isso, é empresas que depois vão ter ação na bolsa, eventualmente.

[01:08:47] Mas elas tem

[01:08:49] investimento inicial da CIA.

[01:08:51] E é precisamente esse tipo de casamento

[01:08:53] entre um estado

[01:08:55] com capacidade bélica

[01:08:57] e empresas privadas especializadas

[01:08:59] no desenvolvimento de tecnologia de espionagem

[01:09:01] e de segurança, e de vigilância,

[01:09:03] sobretudo, que o CARP vai

[01:09:05] defender publicamente,

[01:09:07] mas que talvez a própria

[01:09:09] eleição do Trump e essa chapa

[01:09:11] Trump-Jerry Vance, representa

[01:09:13] melhor, né?

[01:09:15] Não é só a chegada do Vale do Ciriço

[01:09:17] no poder, é um segmento muito

[01:09:19] específico, que nem está mais tanto

[01:09:21] no Vale do Ciriço, porque é uma galera que, na verdade,

[01:09:23] despreza um pouco o próprio Vale do Ciriço,

[01:09:25] porque acha que ele não é alinhado

[01:09:27] o suficiente com o interesse nacional.

[01:09:29] Tem algo que eu entendo do CARP, que é o seguinte,

[01:09:31] esse tipo de tecnologia,

[01:09:33] realmente, não deveria estar a serviço

[01:09:35] apenas do capital. Eu não acho que ele seja menos capitalista

[01:09:37] que os outros, não, mas eu acho, de fato,

[01:09:39] que esse tipo de tecnologia

[01:09:41] e de invasão, ela deveria, sim, ser

[01:09:43] estatal, porque é mais fácil

[01:09:45] você controlar, justamente algo

[01:09:47] que tem instituições, entende?

[01:09:49] Tem, pra usar uma palavra deles

[01:09:51] mesmo, os checks and balances,

[01:09:53] tudo aquilo que uma instituição precisa.

[01:09:55] Mas não tem. Mas não tem, eu sei.

[01:09:57] Mas tem algo no que ele diz que faz algum

[01:09:59] sentido? Faria algum sentido?

[01:10:01] Se ele não tivesse falando, se por

[01:10:03] estado ele não tivesse falando

[01:10:05] o ocidente, o homem branco, o supremacismo,

[01:10:07] mas se ele usasse, em vez

[01:10:09] desse tema, a favor do estado,

[01:10:11] a favor da democracia, a favor do povo,

[01:10:13] eu estaria com ele completamente.

[01:10:15] O ponto é exatamente esse.

[01:10:17] O ponto é que eu acho, quando você fala

[01:10:19] de supremacia e tal,

[01:10:21] eu acho impreciso quando a gente

[01:10:23] compara com os nazistas, por exemplo,

[01:10:25] quando a gente fala sobre o que esses caras são.

[01:10:27] Porque o tipo de eugenia deles,

[01:10:29] que a do Trump é bem racista,

[01:10:31] clássica mesmo, de vários caras

[01:10:33] deles são, mas esse pensamento

[01:10:35] tecnológico que esses caras têm,

[01:10:37] é muito mais uma eugenia

[01:10:39] do EQI,

[01:10:41] de um tipo de inteligência

[01:10:43] que eles consideram o tipo de gente superior,

[01:10:45] que aí eu acho que eles

[01:10:47] não são racistas exatamente,

[01:10:49] mas eles são extremamente elitistas

[01:10:51] intelectualmente falando,

[01:10:53] que eles não estão trabalhando

[01:10:55] nem pro consumidor, que eles acham

[01:10:57] meio vulgar, o que o Facebook

[01:10:59] faz é meio vulgar,

[01:11:01] o que o Instagram é totalmente vulgar,

[01:11:03] mas eles também não estão fazendo isso

[01:11:05] pra o cidadão.

[01:11:07] Eu acho que é muito mais uma lógica

[01:11:09] antiga do começo

[01:11:12] do ocidente do que do fim do ocidente,

[01:11:14] que é uma ideia de que

[01:11:16] o indivíduo comum

[01:11:18] ele é um subject,

[01:11:20] ele é um sujeito,

[01:11:22] e ele está sujeito a algo,

[01:11:24] ele não é só um sujeito pra que ele

[01:11:26] tenha uma subjetividade, mas é pra que ele está

[01:11:28] submetido a uma ideia maior

[01:11:30] que ele não tem capacidade de criar

[01:11:32] nem de operar.

[01:11:34] Então é muito mais ideia de súdito

[01:11:36] do que a ideia de

[01:11:38] inferiores raciais.

[01:11:40] Então a eugenia desses caras

[01:11:42] é muito mais QI,

[01:11:44] muito mais essa ideia

[01:11:46] autodeclarada de que eles são os visionários,

[01:11:48] os mais inteligentes,

[01:11:50] e que o sucesso deles prova isso,

[01:11:52] que eu acho que eles estão tentando construir

[01:11:54] essa fusão entre corporação

[01:11:56] e a Estado,

[01:11:58] que só é nova, porque são com

[01:12:00] tecnologias novas.

[01:12:02] Mas se você for olhar o nascimento

[01:12:04] capitalista europeu,

[01:12:06] do Estado-nação europeu e depois

[01:12:08] dos Estados independentes aqui

[01:12:10] no nosso continente,

[01:12:12] eles eram muito mais integrados

[01:12:14] o privado e o estatal.

[01:12:16] Mas é a ideia de que

[01:12:18] o privado e o estatal

[01:12:20] nunca tocam o que é público.

[01:12:22] É o fim do público.

[01:12:24] É só o poder

[01:12:26] estatal bélico

[01:12:28] de recurso,

[01:12:30] arrecadação de imposto,

[01:12:32] autoridade legitimada

[01:12:34] pela própria Constituição,

[01:12:36] por violência e de tudo mais.

[01:12:38] Mas os operadores do sistema

[01:12:40] que o Palantir fala,

[01:12:42] o sistema operacional

[01:12:44] é operado por esses iluminados,

[01:12:48] que se consideram filhos do iluminismo.

[01:12:50] De um jeito, na minha opinião, bastante distorcido.

[01:12:54] Mas eu acho que é muito mais isso, sabe?

[01:12:56] Muito mais o que parecia,

[01:12:58] muito mais uma companhia das Índias Ocidentais

[01:13:00] do que…

[01:13:02] Mas o próprio nascimento do…

[01:13:04] São os Estados Unidos, os Founding Fathers,

[01:13:06] que criaram algo,

[01:13:08] a imagem e a semelhança deles,

[01:13:10] e com a ideia deliberada

[01:13:12] de que continuasse na mão de pessoas apenas como eles.

[01:13:16] The wise and the best,

[01:13:18] dizia aqui o Washington,

[01:13:20] dizia que tinham que ser os presidentes americanos.

[01:13:22] Então tem uma ideia também de supremacismo,

[01:13:24] é o nascimento da República deles.

[01:13:26] Só no próprio nascimento,

[01:13:28] toda a reinvenção

[01:13:30] do sistema econômico

[01:13:32] e político dos Estados Unidos,

[01:13:34] em geral, passa por uma privatização

[01:13:36] gigante de infraestrutura

[01:13:38] cívica,

[01:13:40] de várias formas.

[01:13:42] O que as fazendas

[01:13:44] e as fazendas escravocratas

[01:13:46] foram no começo da própria República

[01:13:48] deles, no século XX,

[01:13:50] foi o sistema bancário, várias

[01:13:52] corporações que estavam

[01:13:54] integradas no próprio governo,

[01:13:56] dentro do Ecomplexo Militar

[01:13:58] Industrial, a própria Rand,

[01:14:00] uma situação super esquisita,

[01:14:02] difícil de se definir,

[01:14:04] que trabalha necessariamente em parceria

[01:14:06] com o governo dos Estados Unidos pra desenvolver

[01:14:08] a tecnologia de interesse estratégico.

[01:14:10] Não é nenhuma novidade.

[01:14:12] A novidade que eu acho que tem

[01:14:14] é a questão tecnológica

[01:14:16] muito avançada,

[01:14:18] que acelera uma série de processos

[01:14:20] que antes eram mais demorados pela própria

[01:14:22] physicalidade deles.

[01:14:24] Então a gente tá falando agora de automação

[01:14:26] cognitiva. A gente tá falando

[01:14:28] de coisas que vão entrar

[01:14:30] numa esfera

[01:14:32] privada, numa esfera

[01:14:34] do próprio cidadão,

[01:14:36] muito difícil de se operar

[01:14:38] com meios convencionais

[01:14:40] analógicos. E acho que é isso

[01:14:42] que é, por exemplo, o próprio dinheiro.

[01:14:44] Não é à toa que esses caras também

[01:14:46] estão criando todo tipo de

[01:14:48] estrutura filosófica

[01:14:50] pra que se privatize

[01:14:52] o próprio dinheiro

[01:14:54] e que ele seja 100%

[01:14:56] rastreável, que é a fronteira

[01:14:58] final de localização das

[01:15:00] pessoas. Não é só

[01:15:02] o celular dela, é

[01:15:04] a trilha

[01:15:06] de gastos dela. Isso tá sendo

[01:15:08] totalmente previsto, teorizado

[01:15:10] e planejado mesmo

[01:15:12] pra esse futuro que tá chegando

[01:15:14] aí. E que novamente, são pessoas que

[01:15:16] acreditam no aquecimento global.

[01:15:18] São pessoas que sabem

[01:15:20] que a gente vai passar por um funil

[01:15:22] civilizatório no curto-medio prazo.

[01:15:24] Então eles estão desenhando esse

[01:15:26] lugar futuro mesmo.

[01:15:28] E que a gente não é convidado, a gente não é bem-vindo

[01:15:30] nele, como participante.

[01:15:32] Só como sujeito, súdito.

[01:15:34] Tudo aí faz sentido pra mim,

[01:15:36] Bruno. E aí só pra adicionar algumas coisas,

[01:15:38] eu acho que essa questão do QI,

[01:15:40] tudo que a gente sabe dessa galera

[01:15:42] é que é realmente muito central.

[01:15:44] Então eles têm uma visão

[01:15:46] que eles chamam de elitismo

[01:15:48] cognitivo. E eles chamam disso?

[01:15:50] Chamam. Eles chamam disso. Olha lá,

[01:15:52] que eu tava falando. E que é defendido

[01:15:54] explicitamente. O Peter Thiel, por exemplo,

[01:15:56] de novo, o fundador do Palantir,

[01:15:58] ele tem um post,

[01:16:00] um ensaio que ele publicou no blog

[01:16:02] chamado Cato Unbound, que é muito

[01:16:04] usado por essa galera mais maluca do Vale do Silício.

[01:16:06] E é um texto

[01:16:08] de 2009, 2010 lá, já tem bastante

[01:16:10] tempo, mas que ele nunca se retratou,

[01:16:12] causou muito furor na época e é um desses

[01:16:14] textos meio seminais pra quem

[01:16:16] quer entender a psicologia e a ideologia do Vale do Silício.

[01:16:18] E nesse texto

[01:16:20] ele argumenta, basicamente,

[01:16:22] que a democracia e a liberdade

[01:16:24] não são mais compatíveis. Ele entende

[01:16:26] liberdade como liberdade de mercado.

[01:16:28] Basicamente democracia e capitalismo

[01:16:30] não são mais compatíveis.

[01:16:32] E ele diz que não são mais compatíveis

[01:16:34] por duas razões principais.

[01:16:36] Porque houve uma expansão do estado

[01:16:38] de bem-estar e que, portanto, você tem

[01:16:40] muitos beneficiários desse estado de bem-estar

[01:16:42] que vão ter incentivos pra votar

[01:16:44] de uma certa forma, que é um argumento

[01:16:46] parecido com a galera que diz que o beneficiário

[01:16:48] da família, enfim, é bem, é coisa assim.

[01:16:50] E houve a extensão

[01:16:52] do direito ao voto pras mulheres.

[01:16:54] É. Eles são misóginos.

[01:16:56] Isso é um elemento, aliás, que não apareceu tanto aqui, né,

[01:16:58] mas são…

[01:17:00] A misoginia, ela é um pilar

[01:17:02] também da visão de mundo dessa galera.

[01:17:04] Não tem mulher nessa lista

[01:17:06] que a gente fala, não aparece

[01:17:08] uma mulher falando.

[01:17:10] São só esses homens mesmo.

[01:17:12] E aí… O Peter Tio, curiosamente,

[01:17:14] é gay, eu digo curiosamente porque

[01:17:17] ele combina também com esse, com o resto

[01:17:19] da turma que, além de masculinista,

[01:17:21] é homofóbica e tal.

[01:17:23] O Peter Tio é um caso um pouco a parte de um

[01:17:25] gay masculinista

[01:17:27] misógino, né.

[01:17:29] É uma tradição meio grega, né, segundo

[01:17:31] ele próprio, assim. E acha que ele

[01:17:33] justifica a misoginia dele

[01:17:35] de várias maneiras e

[01:17:37] a explicita, inclusive, quando ele fala

[01:17:39] da sexualidade dele, né, mas tem essa visão

[01:17:41] um pouco clássica, grega

[01:17:43] de que se relacionar com o homem

[01:17:45] é a única… Só o homem é um igual.

[01:17:47] Então você não vai ter

[01:17:49] você se relacionar com mulheres

[01:17:51] para se reproduzir, mas a

[01:17:53] relação que vai te trazer

[01:17:55] é prazer, satisfação

[01:17:57] com o seu igual, que é outro homem.

[01:17:59] Obviamente isso não é como

[01:18:01] a maior parte dos homossexuais

[01:18:03] falam sobre sua sexualidade, mas é do caso

[01:18:05] específico do Peter Tio, tem a ver com isso.

[01:18:07] Mas o Peter Tio, gente,

[01:18:09] é realmente uma figura meio central

[01:18:11] para entender tudo isso. Então ele fala muito

[01:18:13] de QI, ele é obcecado com QI,

[01:18:15] e ele já financiou

[01:18:17] alguns tank tanks,

[01:18:19] organizações que promovem uma

[01:18:21] outra ideologia que também é muito

[01:18:23] comum no Vale do Silício hoje,

[01:18:25] que é o que eles chamam da biodiversidade

[01:18:27] humana, que é basicamente

[01:18:29] um nome bonitinho e adaptado para

[01:18:31] esse momento mais cientificizante

[01:18:33] do racismo científico clássico do final

[01:18:35] do século 19 e início do século 20,

[01:18:37] que é essa ideia de que

[01:18:39] as diferentes raças humanas,

[01:18:41] as raças com muitas aspas,

[01:18:43] teriam predisposições

[01:18:45] de temperamento, de capacidade cognitiva.

[01:18:47] Fenótipos diferentes

[01:18:49] para usar o termo deles.

[01:18:51] Para além dos fenótipos, né?

[01:18:53] E que é isso, e que, portanto,

[01:18:55] a gente tem que se considerar esse aumento

[01:18:57] da biodiversidade humana nos países

[01:18:59] ocidentais como parte do

[01:19:01] declínio desses países.

[01:19:03] Então toda aquela disputa, aquela

[01:19:05] ideia de disputa civilizacional do ocidente,

[01:19:07] etc., ela também

[01:19:09] tem um lado, como você falou antes,

[01:19:11] mas explicitamente racista e explicitamente

[01:19:13] misógino. E isso não é uma coisa escondida.

[01:19:15] O Peter Thiel escreveu isso nesse blog

[01:19:17] para todo mundo ler. Tá lá, bota

[01:19:19] Peter Thiel, Cato Unbound.

[01:19:21] E vai ler o texto dele de 2009

[01:19:23] que está escrito, não é?

[01:19:25] Uma coisa que a gente precisa cavar muito para achar.

[01:19:27] Nem precisa dar bem paralela para a gente achar isso.

[01:19:29] Eles falam sobre isso.

[01:19:31] E é algo que é vendido,

[01:19:33] vulgarizado pelo Steve Bannon

[01:19:35] de outro jeito, que não gosta

[01:19:37] do Peter Thiel, tá? Mas eles todos

[01:19:39] se unem nisso, nesse sentimento

[01:19:41] de potência que você é capaz

[01:19:43] de oferecer para uma população que se

[01:19:45] sentia impotente

[01:19:47] de várias formas. E tem uma coisa que

[01:19:49] me dá especialmente raiva

[01:19:51] em eugenista

[01:19:53] de todos os tipos.

[01:19:55] Que eu nunca vi um eugenista

[01:19:57] falando que a raça superior

[01:19:59] não é a raça dele.

[01:20:01] Eu acho que eles teriam muito mais

[01:20:03] um argumento, entendeu?

[01:20:05] Como se um branco falasse assim,

[01:20:07] eu sou eugenista, eu realmente acho que existe

[01:20:09] uma superioridade, eu acho que

[01:20:11] é uma pena falar isso, mas são

[01:20:13] os tailandeses.

[01:20:15] Não tem o que dizer.

[01:20:17] Eu vi aqui os testes todos,

[01:20:19] eu cheguei a conclusão. É sempre

[01:20:21] a própria raça, em geral,

[01:20:23] do território onde ele nasceu mesmo.

[01:20:25] São os alemães da Bavária.

[01:20:27] São descendentes de viking

[01:20:29] como o meu bisavô.

[01:20:31] Então você vê que é muito chauvinismo

[01:20:33] e acho que também tem assim um componente

[01:20:35] que também é muito longo

[01:20:37] pra gente falar disso hoje, mas que é

[01:20:39] inadequação sexual mesmo.

[01:20:41] Tem um componente sexual gigantesco

[01:20:43] nessa história toda de criar

[01:20:45] novas métricas pra ele

[01:20:47] se sentir melhor,

[01:20:49] desejável, de alguma maneira.

[01:20:51] E que, em geral, nesses caras

[01:20:53] é muito, muito

[01:20:55] um dado biográfico neles.

[01:20:57] Da inadequação sexual,

[01:20:59] do fato de que eles não se sentiam

[01:21:01] recompensados ou desejados

[01:21:03] de muitas outras formas.

[01:21:05] E foi se criando dentro desse universo

[01:21:07] auto-referenciado e

[01:21:09] auto-enriquecido, né?

[01:21:11] Onde o dinheiro vira

[01:21:13] a prova cabal de que eles estão certos, né?

[01:21:15] Não, eu ia falar, Bruno,

[01:21:17] que sim, e a vulgarização

[01:21:19] dessas ideologias de

[01:21:21] elitismo cognitivo, supremacia

[01:21:23] do QI, etc., ela se deu

[01:21:25] muito a partir dessas comunidades online

[01:21:27] de incéls, então nessa

[01:21:29] exceção com a frustração sexual,

[01:21:31] mas hoje, se você, olha,

[01:21:33] Twitter, etc., é

[01:21:35] quase uma gíria, assim,

[01:21:37] é muito comum,

[01:21:39] um insulto comum a chamar você de

[01:21:41] QI baixo, é, low IQ,

[01:21:43] e isso é

[01:21:45] tá na boca do povo, em algum lugar.

[01:21:47] Então, houve uma

[01:21:49] vulgarização dessa ideia.

[01:21:51] E o passo natural

[01:21:53] quando você acredita nisso,

[01:21:55] é você defender exatamente o que você falou,

[01:21:57] a perspectiva de democracia, que não,

[01:21:59] eles continuam se dizendo democratas,

[01:22:01] pelo menos o Karp se diz democrata,

[01:22:03] o Karp é muito

[01:22:05] curioso, porque ele também se diz anti-elitista,

[01:22:07] então é uma outra visão

[01:22:09] que talvez seja a

[01:22:11] síntese perfeita entre o Bannon e o Tio,

[01:22:13] ele seja a ponte entre os dois,

[01:22:15] mas eles vão,

[01:22:17] mas uma visão deles de democracia

[01:22:19] é essa visão de uma democracia

[01:22:21] que

[01:22:23] de alguma forma cria dispositivos

[01:22:25] para limitar o poder

[01:22:27] dos indesejáveis.

[01:22:29] O poder distribuído, é.

[01:22:31] E para dar para o estado um poder absoluto

[01:22:33] de vigilância, inclusive porque

[01:22:35] isso é necessário para que

[01:22:37] apenas os high IQ,

[01:22:39] as pessoas de QI alto,

[01:22:41] possam de fato tomar decisões consequentes.

[01:22:43] É a cultura de si e eu mesmo.

[01:22:45] É a reprodução

[01:22:47] da corporação no próprio estado.

[01:22:49] Quando o Kantz e Arvind

[01:22:51] falam que ele é monarquista,

[01:22:54] ele se espelha no Louis XV,

[01:22:56] ele se espelha nos CEOs.

[01:22:58] Eles falam que as organizações

[01:23:00] mais eficientes, que produzem melhor,

[01:23:02] que dão mais resultados,

[01:23:04] que são mais eficientes,

[01:23:06] elas têm um CEO em cima delas,

[01:23:08] que é o

[01:23:10] high IQ de todos.

[01:23:12] A pessoa que tem o drive,

[01:23:14] que tem a inteligência, que tem a competência,

[01:23:16] essa pessoa não tem por que sair do posto dela

[01:23:18] se ela estiver fazendo um bom trabalho.

[01:23:20] Então é uma ideia monárquica de sociedade

[01:23:22] baseada em simplesmente uma cultura

[01:23:24] da positividade radical,

[01:23:26] da eficiência radical.

[01:23:28] Acho que é muito doido que a própria

[01:23:30] ideia de inteligência artificial

[01:23:32] que é criada por essas pessoas

[01:23:34] é exatamente

[01:23:36] a própria redução

[01:23:38] de inteligência

[01:23:40] a um processo produtivo

[01:23:42] de processamento de dados e decisão.

[01:23:44] Não tem nenhuma outra dimensão

[01:23:46] humana, nenhuma dimensão emocional.

[01:23:48] Não tem nenhum outro índice

[01:23:50] que é em porte

[01:23:52] na hora de produzir as próprias decisões,

[01:23:54] a cognição e tudo mais.

[01:23:56] Então o modelo de inteligência

[01:23:58] que eles estão reproduzindo digitalmente,

[01:24:00] que talvez vá nos governar,

[01:24:02] é o espelho de uma visão

[01:24:04] extremamente burra e limitada

[01:24:06] do que a própria inteligência é.

[01:24:08] E é isso que me dá raiva,

[01:24:10] o quanto que esses caras, no fim das contas,

[01:24:12] são burros.

[01:24:14] São um bando de espião da ABIN mesmo.

[01:24:16] Paralela.

[01:24:18] Não dá nem para respeitar.

[01:24:20] Não dá nem para dar crédito.

[01:24:22] Cara, é surreal esse papo de QI, sempre me deixa muito deprimido.

[01:24:24] E é bom lembrar, se alguém que está ouvindo

[01:24:26] acredita em QI,

[01:24:28] lembra que o Roger do

[01:24:30] Traje à Rigor tem 150 de QI.

[01:24:32] O compositor

[01:24:34] de Eu Tinha Uma Galinha

[01:24:36] Chamada Marilu

[01:24:38] que soltava ovo pela cloca.

[01:24:40] E esse é o QI mais alto, talvez

[01:24:42] do Brasil.

[01:24:44] Lembre-se disso, antes de acreditar

[01:24:46] em QI.

[01:24:48] E fica então um abraço

[01:24:50] para todo mundo de QI alto

[01:24:52] e, claro, para a raça tailandesa

[01:24:54] que é, na minha opinião, a raça

[01:24:56] superiora

[01:24:58] do mundo hoje. Então abraço

[01:25:00] a todos os tailandeses, filipinos

[01:25:02] não, só os segundos ou terceiros.

[01:25:04] Mas um abraço, falar com vocês e

[01:25:06] viva São João, viva São João, viva

[01:25:08] o milho verde, como diz a canção.

[01:25:10] Aqui sabe qual é a tradição

[01:25:12] de São João, gente? É bater na cabeça

[01:25:14] da pessoa com um alho porro,

[01:25:16] que é um alho poró.

[01:25:18] As pessoas ficam andando com um alho poró

[01:25:20] ou com um martelinho e dão na cabeça

[01:25:22] da pessoa. Ou um martelinho.

[01:25:24] Então eu desejo a todos vocês

[01:25:26] uma alho porrada,

[01:25:28] uma alho porrada na cara de vocês.

[01:25:30] Eu não sei o que isso faz com o QI das pessoas,

[01:25:32] ficar batendo com um martelo na cabeça.

[01:25:34] Eu acho que é a melhor coisa, tempero.

[01:25:36] É daí que vem porrada, do alho

[01:25:38] poró? Caralho, Bruno,

[01:25:40] gente!

[01:25:42] É porque o Bruno tem um QI altíssimo,

[01:25:44] ele faz esse tipo de assorciação.

[01:25:46] Vem de porro mesmo, infelizmente vem de porro.

[01:25:48] Porro é um porro na cabeça

[01:25:50] da pessoa. Porro.

[01:25:52] Ou será que o alho é porro?

[01:25:54] Vem do porro que é pra bater na cabeça das pessoas.

[01:25:56] Ah, também pode ser.

[01:25:58] Uma coisa pode ser a outra.

[01:26:00] Sabe onde vem porro na verdade?

[01:26:02] É o poarrô do francês mal falado.

[01:26:04] É alho poarrô, alho porró.

[01:26:06] Poarrô. Vem daí.

[01:26:08] Eu acho que já chega de digressão.

[01:26:12] Um beijo em todos.

[01:26:14] Um beijo, amigo.

[01:26:16] A gente tem livros pra indicar, Alessandra?

[01:26:18] Hoje a gente vai sair. A gente indica semana que vem.

[01:26:20] Até mais, gente. Um beijo.

[01:26:22] Pra não ficar exibindo muito QI por aí, entendeu?

[01:26:24] Isso aí.

[01:26:26] Tchau, tchau, gente.

[01:26:28] Tchau, gente.

[01:26:30] Beijo, tudo.

[01:26:38] Produções.

[01:26:40] Na apresentação temos Alessandra Orofino Gregório do Vivier

[01:26:42] e Bruno Torturra.

[01:26:44] Na coordenação de produção

[01:26:46] Carolina Foratini Igreja.

[01:26:48] Na edição, captação

[01:26:50] e mixagem, Vitor Bernardes.

[01:26:52] Na sonoplastia,

[01:26:54] Filipe Croco.

[01:26:56] Nas redes sociais, Teodora do Vivier

[01:26:58] e Bruna Messina.

[01:27:00] E no design, Pedro e Noe.

[01:27:08] Obrigado.