A guerra invisível na África


Resumo

O episódio contextualiza o conflito prolongado no leste da República Democrática do Congo (RDC), na fronteira com Ruanda, combinando raízes históricas do colonialismo e das fronteiras impostas na África com tensões étnicas e interesses econômicos contemporâneos. A conversa relembra o genocídio de Ruanda em 1994, a migração de milícias para o território congolês e a escalada que deu origem às guerras do Congo — consideradas as mais letais do continente desde 1945 — com milhões de mortos, em sua maioria civis.

Direto de Kalemie, Pedro Borges descreve a crise humanitária atual: mortes recentes após a tomada de Goma pelo M23 (apoiado por Ruanda, segundo a ONU e os EUA), deslocamentos em massa, campos de refugiados precários, fome, doenças e inflação. Ele explica como a dimensão étnica é frequentemente instrumentalizada por interesses econômicos ligados à extração de minérios estratégicos (como cobalto e coltão), citando ainda acusações sobre cadeias globais de tecnologia e a disputa geopolítica entre EUA e China na região.

Por fim, o episódio analisa o novo acordo de paz mediado por Estados Unidos e Catar, destacando a desconfiança local por não incluir diretamente o M23 nas negociações e por prever prazos e compromissos considerados frágeis. A entrevista se encerra com um lembrete dos vínculos históricos entre Congo e Brasil, via tráfico de pessoas escravizadas e influências culturais, e do esforço de pesquisadores para reavivar essa memória.


Indicações

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Linha do Tempo

  • [00:00] — Apresentação do conflito RDC–Ruanda e pedido da ONU para proteger civis na fronteira
  • [00:01] — Contexto colonial: Leopoldo II, exploração belga e formação dos dois Congos pós-independência
  • [00:02] — Tráfico transatlântico e ligação histórica com o Brasil; foco no leste congolês
  • [00:02] — Genocídio de Ruanda (1994) e início da escalada regional com milícias e invasão ao Congo
  • [00:03] — “Guerra mundial africana”: número de mortos, civis como principais vítimas e recrutamento de crianças
  • [00:04] — Minérios estratégicos e acusações mútuas: Ruanda/M23 e RDC/FDLR; paz frágil e retomada dos combates
  • [00:05] — Nova tentativa de acordo (Washington), mediação de EUA e Catar e protagonismo diplomático americano
  • [00:06] — Entrevista: por que Pedro Borges foi à RDC e descrição de Kalemie e suas múltiplas crises (doenças/inundações)
  • [00:08] — Tragédia recente: tomada de Goma pelo M23, mortes e deslocamentos; histórico das 1ª e 2ª guerras do Congo
  • [00:11] — Explicação das causas: etnias, legado do genocídio e incentivo econômico via extração e comércio de minérios
  • [00:14] — Cadeia global e tecnologia: acusações sobre compra de minérios e menção a denúncia envolvendo a Apple
  • [00:16] — Composição e narrativa política do M23; capacidade militar e relação com Ruanda
  • [00:18] — Visita a campo de refugiados: fome, falta de trabalho, moradia precária e doenças
  • [00:21] — Pontos críticos do acordo: M23 fora da mesa, retirada do exército ruandês em 90 dias e mediação do Catar
  • [00:22] — Interesses dos EUA e disputa com a China por influência e acesso a minérios; ceticismo sobre a efetividade do pacto
  • [00:25] — Laços Congo–Brasil: porto de Boma, diáspora forçada e memória histórica pouco presente localmente

Dados do Episódio

  • Podcast: O Assunto
  • Autor: G1
  • Categoria: News
  • Publicado: 2025-06-30
  • Duração: 0h28m

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] No coração da África, onde a floresta parece não ter fim, um conflito marginalizado e sangrento

[00:00:08] se arrasta há décadas.

[00:00:10] O secretário-geral da ONU pediu que a República Democrática do Congo e Ruanda protejam os

[00:00:16] civis na fronteira dos dois países.

[00:00:18] De um lado está a República Democrática do Congo, do outro, Ruanda, e no meio um

[00:00:25] tabuleiro de etnias, interesses e feridas abertas pelo colonialismo europeu.

[00:00:30] A independência congolesa foi festejada pela população e pelas autoridades nas ruas da

[00:00:34] capital, Kinshasa, que, aliás, já se chamou Leopoldville, em homenagem ao rei belga

[00:00:40] Leopoldo II.

[00:00:42] Entre 1885 e 1908, o monarca usou mão de obra local para explorar as riquezas

[00:00:48] naturais desta que foi a única colônia africana considerada propriedade particular.

[00:00:54] Mesmo sem nunca ter posto os pés no Congo, Leopoldo II é visto como o responsável pela

[00:00:59] morte de, pelo menos, 10 milhões de congoleses.

[00:01:03] Inicialmente, o nome Congo se devia ao reino que dominava do Atlântico a região de

[00:01:08] mata fechada no coração do continente africano.

[00:01:12] Congo era o nome do principal rio da região.

[00:01:15] Quando os colonizadores chegaram, as águas dali também nomearam as colônias.

[00:01:21] O norte, Congo e Gabão, ficaram com os franceses.

[00:01:25] Após a Primeira Guerra, parte disso foi parar nas mãos dos alemães.

[00:01:29] O sul, hoje norte da Angola, ficou com Portugal.

[00:01:32] E a região central acabou sendo dominada pela coroa da Bélgica.

[00:01:37] E aqui é importante pontuar.

[00:01:39] Com as independências foram criados dois estados diferentes.

[00:01:43] O Congo francês, hoje República do Congo, e o Congo belga, atualmente República

[00:01:48] Democrática do Congo, ou RDC.

[00:01:51] Ainda no século XII, com o Império Congo se estabelecendo, numa região que engloba

[00:01:55] também o que é hoje Angola, e que começa a dar errado, digamos assim, para aquele

[00:01:59] povo de lá.

[00:02:00] Já a partir do século XV, quando chega lá o primeiro navegante português, Diogo

[00:02:04] Cão, já no século XVI, XVII, XVIII, o Congo foi um dos grandes exportadores.

[00:02:10] A revelia, forçado, pressionado pelos ocidentais de africanos para serem escravizados

[00:02:16] no Novo Mundo, nas Américas.

[00:02:18] O Brasil recebeu muita gente dessa região do Congo, africanos escravizados aqui.

[00:02:23] E é justamente ao leste da República Democrática do Congo, uma região rodeada por montanhas,

[00:02:28] lagos e fronteiras instáveis, que a história que vamos contar a partir de agora se

[00:02:32] desenrola.

[00:02:34] Em 1994, o genocídio ruandês, um dos episódios mais traumatizantes do continente.

[00:02:41] Ali, centenas de milhares de pessoas da etnia Tutsi foram mortas pelos Hutus,

[00:02:47] outro grupo étnico da África.

[00:02:49] Entre abril e julho de 1994, 800 mil pessoas foram mortas, a maioria da etnia Tutsi.

[00:02:57] Os Hutus mataram o presidente do país na época e depois deram início a um dos maiores

[00:03:02] massacres da história da humanidade.

[00:03:05] Milícias Hutus, refugiadas na extensa República Democrática do Congo, passaram

[00:03:09] a atacar o vizinho pequeno.

[00:03:11] Em resposta, o exército ruandês avançou sobre o território congolês.

[00:03:16] Nascia a maior guerra do continente africano desde 1945.

[00:03:21] Esse capítulo triste foi retratado no filme Hotel Ruanda.

[00:03:25] Entre 1998 e 2002, nove países e dezenas de grupos armados se envolveram no conflito,

[00:03:32] somando mais de cinco milhões de mortos.

[00:03:35] Um número superior à população do Amazonas, do Mato Grosso ou do Distrito Federal.

[00:03:40] E as vítimas são, em sua maioria, civis.

[00:03:44] Meu nome é José Fah, eu tenho 15 anos, eu vim da República Democrática do Congo.

[00:03:50] O Congo, para quem não sabe, é o terceiro maior país do continente africano.

[00:03:54] Muitas crianças e adolescentes, como eu, são recrutados por grupos armados que dominam

[00:04:02] uma parte do país.

[00:04:04] Aí eles têm que sair da escola.

[00:04:07] Para além das etnias, esta é também uma disputa por riquezas minerais.

[00:04:11] Ali estão alguns dos materiais mais valiosos do mundo tecnológico.

[00:04:16] Cádmio, ouro, cobre, coltão.

[00:04:18] Ruanda é acusada de apoiar o grupo M23, ou Movimento 23 de Março, formado por rebeldes

[00:04:24] tutsis para manter o acesso a esses recursos.

[00:04:27] A RDC, por sua vez, é acusada de proteger milícias Hutus, herdeiras do genocídio.

[00:04:33] Como as Forças Democráticas pela Libertação de Ruanda, a FDLR.

[00:04:38] E no meio de muita miséria e doença, milícias armadas levaram ainda mais miséria a África.

[00:04:44] Desde o início dos anos 2000, tratados de paz tentam ser firmados sem sucesso.

[00:04:49] Em 2013, um grande acordo até planejou a estabilidade da região dos grandes lagos

[00:04:54] da África.

[00:04:55] 11 vizinhos africanos assinaram.

[00:04:57] Mas o fato é que a realidade segurou uma paz frágil, quebrada em 2022, quando

[00:05:02] os combates retornaram.

[00:05:03] Donald Trump agora entrou na jogada.

[00:05:06] Ele que, à sua maneira, tenta se firmar como uma espécie de encerrador de guerras.

[00:05:12] Ruanda e República Democrática do Congo deverão assinar um novo acordo de paz no conflito

[00:05:17] entre as duas nações africanas, que já dura mais de 30 anos, e que desde o começo

[00:05:22] de 2025 passa por uma das fases mais violentas.

[00:05:26] O acordo foi mediado por um grupo que inclui os Estados Unidos e o Catar.

[00:05:31] Na última sexta-feira, 27 de junho, uma nova tentativa de acordo foi assinada em Washington.

[00:05:37] A fotografia ficou assim.

[00:05:39] À esquerda, o representante de Ruanda.

[00:05:41] À direita, o da República Democrática do Congo.

[00:05:44] E ao centro, Marco Rubio, secretário do governo norte-americano, que afirmou

[00:05:49] em algumas semanas, presidentes de ambos os países vão se encontrar para formalizar

[00:05:54] o acerto.

[00:06:01] Da redação do G1, eu sou Natuzaneri, e o assunto hoje é A Grande Guerra Invisível

[00:06:07] na África.

[00:06:08] Quais os desdobramentos do conflito onde nem sempre se sabe quem ataca, quem defende,

[00:06:14] quem lucra, mas onde sempre se sabe quem perde?

[00:06:18] Neste episódio, eu converso com Pedro Borges, editor da Agência de Notícias Alma Preta.

[00:06:23] Ele fala comigo direto de Calemí, muito perto do conflito.

[00:06:27] Segunda-feira, 30 de junho.

[00:06:32] Pedro, você está neste momento na República Democrática do Congo, está aí há mais

[00:06:37] de 40 dias.

[00:06:39] Por que você decidiu ir para este país que vive décadas de uma guerra civil brutal?

[00:06:45] Decidi vir para a República Democrática do Congo como jornalista, acho que com

[00:06:50] o compromisso que a gente tem com a informação, porque a gente tem que ter uma

[00:06:55] E por também compreender que a gente está diante de um mundo cheio de guerras e que

[00:07:02] algumas guerras têm mais atenção do que outras.

[00:07:05] Uma sensação de que algumas vidas parecem valer mais do que outras.

[00:07:10] Então isso me motivou muito a vir para a República Democrática do Congo e também

[00:07:14] por entender que esse é um conflito muito importante para a geopolítica mundial.

[00:07:19] E você está em que cidade neste momento?

[00:07:22] Eu estou na cidade de Calemí, a capital da província de Tanganyika.

[00:07:26] Ela é uma cidade que faz margem a Colágua Tanganyika, é uma cidade que enfrenta uma

[00:07:33] série de dificuldades.

[00:07:35] Ela enfrenta o drama do conflito, ela é uma cidade que enfrenta alguns surtos,

[00:07:41] ela enfrenta um surto de cólera, ela enfrenta um surto de varíola dos macacos,

[00:07:47] ela enfrenta um surto também de sarampo, enfrentou inundações muito recentemente,

[00:07:56] é uma cidade que tem lidado também com a inflação por conta do conflito.

[00:08:00] Então é uma cidade que tem enfrentado um momento bastante difícil, ela fica localizada

[00:08:05] no leste do país, próximo da divisa com a Tanzânia.

[00:08:09] E Pedro, antes da gente avançar, eu queria que você nos desse a dimensão da tragédia

[00:08:17] que você neste momento está cobrindo.

[00:08:19] Existe uma tragédia mais recente e existe uma tragédia um pouco anterior, a mais

[00:08:26] recente a gente pode datar a partir do dia 27 de janeiro com a tomada por parte do

[00:08:33] grupo M23 que é apoiado pelo exército de Ruanda da cidade de Goma, que é a

[00:08:38] cidade mais importante do leste da República Democrática do Congo.

[00:08:42] A tomada de Goma é mais um ganho territorial para a coalizão rebelde AFC, que

[00:08:48] inclui o grupo armado M23, que a ONU e os Estados Unidos consideram uma

[00:08:53] organização terrorista. A coalizão rebelde controla grandes áreas das

[00:08:58] províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul.

[00:09:01] No dia 24 de fevereiro, o Governo da República Democrática do Congo chegou a divulgar a

[00:09:07] informação de que 7 mil pessoas haviam sido mortas praticamente no primeiro

[00:09:13] mês de combate. Não houve nenhuma outra atualização depois por parte do

[00:09:18] governo congolês, então muito provavelmente a dimensão do

[00:09:21] número de pessoas que foram vítimas desse conflito nesse ano é algo que

[00:09:27] a gente só vai ter esse número para o futuro. Agora a gente também tem

[00:09:30] números também muito drásticos de pessoas deslocadas. Aqui na própria

[00:09:35] região onde eu estou, em Kaleimi, existe um campo de refugiados por conta do

[00:09:41] conflito e existem 1627 famílias que foram deslocadas. Então a gente tem uma

[00:09:48] crise humanitária colocada e também uma série de pessoas que foram

[00:09:52] vítimas dessa violência brutal. Essa tomada da cidade de Goma, ela

[00:09:56] precisa ser entendida dentro de um contexto mais ampliado. Em

[00:10:02] 1996 aconteceu a chamada primeira guerra do Congo em que as pessoas

[00:10:08] especialistas vão sinalizar para mais ou menos 200 mil mortes. Depois de 98 a

[00:10:14] 2003 a gente vai lidar com a que foi chamada como a segunda guerra do Congo

[00:10:20] ou a guerra mundial africana. Ela foi uma guerra muito sangrenta. As

[00:10:24] estimativas é de que mais ou menos entre quatro a cinco milhões de

[00:10:28] pessoas morreram. E essa tomada, esse avanço do M23, não é a primeira vez

[00:10:34] que acontece. Mesmo no final de 2012 o M23 chegou a tomar a cidade de

[00:10:41] Goma também com o apoio de Ruanda. Mas naquele momento houve uma pressão

[00:10:46] muito grande da comunidade internacional e o M23 saiu um pouco

[00:10:52] mais de uma semana depois da ocupação da cidade de Goma. Você pode

[00:10:56] explicar pra gente o que que motiva esses conflitos que se arrastam há tanto

[00:11:01] tempo? Eu sei que há uma questão econômica forte. Essa região dos grandes

[00:11:06] lagos inclui a República Democrática do Congo, inclui também Ruanda, inclui

[00:11:11] também Uganda e também tem no meio de tudo isso um histórico de

[00:11:16] conflitos étnicos, principalmente envolvendo os Hutus e os Tutsis.

[00:11:22] Eu quero te ouvir sobre todos esses fatores juntos, pra explicar pra quem

[00:11:26] nos ouve as razões desse conflito. Existe realmente uma diferença

[00:11:33] étnica que acaba sendo um fator importante para esse conflito.

[00:11:37] Agora no continente africano diversos países convivem com uma

[00:11:43] diversidade étnica muito grande e não necessariamente entram em conflito.

[00:11:48] Esse conflito étnico acaba sendo muito incentivado a partir de fatores

[00:11:54] econômicos. Em 1994 a gente vai ter um marco que é sim muito importante pra esse

[00:12:01] conflito, que é o chamado genocídio de Ruanda, quando aproximadamente 800 mil

[00:12:07] pessoas morreram, foram exterminadas a maioria de pessoas da etnia Tutsi.

[00:12:13] O massacre da minoria Tutsi em 1994 foi orquestrado pelo governo de

[00:12:19] maioria Hutus e executado com armas e facões.

[00:12:23] 800 mil pessoas foram assassinadas em 100 dias. Quase 10% da população total

[00:12:30] de Ruanda, uma violência que despedaçou famílias e deixou mais

[00:12:35] de 95 mil crianças órfãs. Naquele contexto as pessoas, muitas pessoas

[00:12:41] da etnia Tutsi e mesmo Hutus que foram os principais algoses dentro

[00:12:47] daquele genocídio, foram pra fonteira da República Democrática do Congo com Ruanda.

[00:12:52] Houve uma grande perção internacional para que a República Democrática do

[00:12:57] Congo abrisse as suas fonteiras e a República Democrática do Congo fez isso.

[00:13:01] A partir daquele momento uma série de pessoas que foram os algoses dos

[00:13:07] Tutsis em Ruanda a passaram a utilizar o leste da República Democrática do

[00:13:14] Congo como um esconderijo para fugir também de julgamentos ou mesmo

[00:13:21] de uma própria perseguição do governo de Ruanda.

[00:13:24] Isso aumentou as animosidades entre Ruanda, a República Democrática do

[00:13:29] Congo e Uganda também, que é um outro país ali fronteiriço. Com o passar dos

[00:13:36] anos essas diferenças étnicas acabaram

[00:13:41] sendo estimuladas para finalidades econômicas. Então hoje aquilo que

[00:13:46] relatórios das Nações Unidas vão apontar é que muitos desses grupos

[00:13:51] armados que atuam na parte leste da República Democrática do Congo atuam

[00:13:56] sob o apoio, principalmente de Ruanda, mas também de Uganda, com a finalidade de

[00:14:02] extrair minérios da República Democrática do Congo para que esses

[00:14:06] minérios possam ser vendidos por esses países para a comunidade internacional.

[00:14:11] O Congo que depois foi colônia belga, que depois foi chamado de Zaire na

[00:14:15] independência, ficou independente somente em 1960 com um presidente ali,

[00:14:20] Patrício Lumumba, que foi assassinado ainda amando de ex-colonizadores belgas

[00:14:25] e também com a participação dos Estados Unidos. Começava ali, era no

[00:14:28] meio da Guerra Fria, a ditadura ainda que viria a ser a de Mobutu

[00:14:33] que na época se chamava Joseph Seco, depois disso foram mais de 30 anos, o Congo passou

[00:14:37] por outra dinastia que era os Kabila e sempre com perseguição a adversários,

[00:14:42] com perseguição de minorias e uma riqueza muito grande, além da riqueza

[00:14:46] cultural, o Congo tem hoje 70% das reservas de cobalto do mundo e não

[00:14:50] consegue ter paz. As grandes empresas de tecnologia também são acusadas de

[00:14:55] inflamar o conflito com a compra de minérios independentemente da

[00:14:59] procedência. 40% de todo o Koutan, de onde se retira o tântalo essencial para

[00:15:05] a eficiência de smartphones e outros eletrônicos, são extraídos das minas

[00:15:10] de goma. Agora eu acho que é importante também sinalizar que Ruanda e

[00:15:13] Uganda também são apenas uma parte só do problema. O próprio

[00:15:21] governo da República Democrática do Congo apresentou uma notícia crime

[00:15:26] contra a Apple, uma das principais empresas de tecnologia do mundo, de de

[00:15:31] alguma maneira se utilizar de minérios que foram extraviados de uma

[00:15:35] maneira ilegal da República Democrática do Congo. A Apple negou as

[00:15:39] acusações e a empresa também suspendeu relações de compra tanto de

[00:15:45] Ruanda quanto da República Democrática do Congo. Mas eu acho que essa

[00:15:49] informação é importante para dar uma contextualizada de como esse não é

[00:15:53] um conflito apenas local, ele é um conflito que tem conexões com toda a

[00:15:58] dinâmica internacional. Espera um pouquinho que eu já volto para

[00:16:02] continuar minha conversa com Pedro Bordes.

[00:16:08] Eu fiquei com uma dúvida Pedro, os rebeldes do M23 que estão numa

[00:16:16] região fronteiriça da República Democrática do Congo com Ruanda, eles

[00:16:21] são originários da República Democrática do Congo ou eles são cidadãos

[00:16:29] infiltrados de Ruanda? Um pouco dos dois, Nathusa. Existem cidadãos

[00:16:35] congoleses, pessoas hoje que são congolesas que fazem parte do M23, assim

[00:16:41] como existem também cidadãos ruandeses que fazem parte do M23. É

[00:16:47] uma questão bastante complexa, o que eu posso te dizer é que o M23 é composto

[00:16:53] por pessoas de uma maioria da etnia Tutsi e que é composto por pessoas que

[00:16:59] vão ter a nacionalidade congolesa e a nacionalidade ruandesa, mas o M23

[00:17:05] ele vai ter reivindicações políticas muito direcionadas ao governo da

[00:17:11] República Democrática do Congo. Então o M23 ele vai dizer que as

[00:17:15] pessoas da etnia Tutsi elas não têm oportunidades na sociedade congolesa e

[00:17:22] também de que por exemplo os soldados e os militares do M23 eles não têm

[00:17:27] possibilidade por exemplo de serem incorporados no exército da República

[00:17:31] Democrática do Congo e o M23 hoje ele não pode ser colocado como um

[00:17:36] grupo rebelde de uma maneira estigmatizada porque ele é um grupo

[00:17:42] que é muito pelo contrário muito bem equipado a própria monusco a missão de

[00:17:47] paz que eu estou aqui sinaliza que muitas vezes o M23 tem equipamentos militares

[00:17:52] melhores e mais avançados do que a própria monusco. E aí como é que se

[00:17:57] definiria? Seria uma milícia então? É uma milícia, é uma milícia que vai

[00:18:03] ter um braço também política então hoje quando as pessoas vão se

[00:18:07] referir ao M23 elas vão se referir como Aliança Flav Congo M23. Então é

[00:18:15] como se o M23 fosse parte fosse uma milícia armada de um guarda-chuva

[00:18:19] político que tem essas reivindicações de uma maioria de etnia Tutsi

[00:18:25] direcionados ao governo da República Democrática do Congo. Agora além das

[00:18:29] milhares de mortes a República Democrática do Congo convive com

[00:18:35] deslocamentos em massa de populações, deslocamentos muito impressionantes.

[00:18:39] Segundo a ONU 7 milhões de pessoas já tiveram que sair das suas casas por

[00:18:44] causa dos conflitos. Você esteve num campo de

[00:18:47] refugiados aí em Calemí onde você está conversando de onde você conversa

[00:18:52] com a gente. O que você viu por lá? Natusa o campo de refugiados foi a

[00:18:57] primeira vez que eu fui e é um espaço muito triste porque é um

[00:19:03] espaço de muito sofrimento. As pessoas percorreram caminhos muito longos para

[00:19:07] chegar no campo de refugiados em Calemí para sair do norte Kivu e para

[00:19:11] sair do Kivu do Sul. Você vê uma presença muito significativa de

[00:19:16] mulheres, de pessoas idosas e de crianças que são basicamente os

[00:19:21] grupos que ficam mais vulneráveis no momento de conflito e são os

[00:19:24] grupos que fogem de um conflito. Você vê que as casas do do campo de

[00:19:31] refugiados elas são feitas de madeira, são feitas de palha, elas têm uma

[00:19:35] infraestrutura muito, muito simples. Tanto que na última semana a

[00:19:41] gente teve que lidar, eu acompanhei inclusive, em incêndio em um

[00:19:45] desses campos de refugiados. As pessoas relatam que não têm acesso à

[00:19:50] comida, que não têm acesso a trabalho. Algumas dessas pessoas para

[00:19:55] conseguir um mínimo de renda, elas vão até a beira do lago Tanganyika,

[00:19:59] que é um lago que é próximo, a cidade de Calemí faz margem ao

[00:20:05] lago Tanganyika. As pessoas vão até a beira do lago, recolhem parte da

[00:20:11] areia do lago para vender para a construção civil. Os relatos são

[00:20:15] de que as pessoas vivem com menos de um dólar, que são muitas

[00:20:20] vezes os parâmetros colocados pelas próprias Nações Unidas. Então é

[00:20:24] uma situação de muita pobreza. Eu conversei com uma família, por

[00:20:27] exemplo, em que uma das crianças estava doente com malária. A mãe

[00:20:33] falou que tanto ela quanto as demais crianças estavam há dois dias

[00:20:37] e meio sem comer. Agora as pessoas também traziam um pouco uma

[00:20:41] situação de uma esperança com o acordo de paz, ao mesmo tempo em

[00:20:45] que também ficam de alguma maneira resabeadas com o acordo de paz.

[00:20:50] Porque esse acordo ele não é o primeiro, e essas discussões de

[00:20:54] paz também não foram as primeiras. E qual é a diferença desse

[00:20:59] se é que há? E aí só para rememorar esse acordo de paz celebrado com a

[00:21:05] mediação do governo dos Estados Unidos, em particular, Marco Rubio.

[00:21:10] Sobre esse acordo de paz, algumas coisas chamam a atenção. Primeiro,

[00:21:15] o M23, que é o grupo rebelde, que é o principal invasor da

[00:21:22] República Democrática do Congo, ele não está na discussão. Existe uma

[00:21:27] discussão para uma desmobilização num período de 90 dias do

[00:21:31] Exército de Ruanda, para que o Exército de Ruanda se retire do

[00:21:35] território da República Democrática do Congo. Existe um

[00:21:39] compromisso de uma parceria entre o Exército da República

[00:21:43] Democrática do Congo e de Ruanda para enfrentar a FDLR, que

[00:21:49] é um grupo opositor ao regime da República de Ruanda e é um grupo

[00:21:55] rebelde acusado com acusações de ter conexões com o genocídio

[00:22:01] de Ruanda de 94. De início, não existe nenhum compromisso por esse

[00:22:07] acordo de paz que foi mediado pelos Estados Unidos, de um

[00:22:11] combate ao M23. O que está colocado é que o Qatar vai fazer uma

[00:22:17] discussão, uma mediação entre o governo da República Democrática

[00:22:21] do Congo e o grupo armado, o M23, e o seu braço político.

[00:22:27] Entre as cláusulas para paz estão o fim das hostilidades, o

[00:22:31] desarmamento das partes, acesso seguro à ajuda humanitária e

[00:22:35] o retorno dos refugiados. Parte da comunidade internacional

[00:22:40] considera o acordo frágil e acusa o presidente Donald Trump de

[00:22:44] estar interessado apenas na exploração das riquezas minerais

[00:22:48] da região, sem levar em conta a complexidade histórica das

[00:22:52] relações entre os dois países. O que tem, acho que de novo, nesse

[00:22:57] acordo, é uma declaração muito explícita do interesse

[00:23:03] econômico dos Estados Unidos aqui na região. E eu acho que

[00:23:08] isso está muito explicado, o interesse econômico dos Estados

[00:23:10] Unidos de ter um acesso, de alguma maneira, privilegiado aos

[00:23:15] minérios importantes da República Democrática do Congo,

[00:23:18] porque os Estados Unidos está muito atrás da China nessa

[00:23:22] região. Todos os voos que eu peguei para a parte leste,

[00:23:25] Natusa, eu peguei os voos com muitos chineses. Os chineses

[00:23:30] têm muitas empresas, muitas mineradoras aqui nessa região.

[00:23:35] A gente vê poucas notícias, poucas informações sobre uma

[00:23:38] presença dos norte-americanos aqui. Então, é como se os

[00:23:42] Estados Unidos estivessem utilizando da sua mediação, da

[00:23:46] sua diplomacia, para conseguir de alguma maneira organizar essa

[00:23:51] região, mas para ter acesso de uma maneira privilegiada a

[00:23:55] esses minérios congoleses, como o coltão, o cobalto,

[00:24:00] principalmente pelo fato de estarem muito atrás da China.

[00:24:03] Agora, o fato de não incluir o M23 nessa discussão,

[00:24:08] o fato de dar um período de 90 dias pro Exército de Ruanda

[00:24:12] se retirar, isso aumenta a desconfiança das pessoas aqui

[00:24:17] na região, sobre a real efetividade desse acordo.

[00:24:22] O conflito entre a República Democrática do Congo e a

[00:24:24] vizinha Ruanda é antigo, sempre por questões étnicas

[00:24:28] e econômicas. O governo congoles acusa a Ruanda de

[00:24:31] financiar o grupo. É importante lembrar de que o

[00:24:34] governo de Ruanda, ele faz um jogo muito, muito difícil de ser

[00:24:40] lido. O governo de Ruanda, ele, por exemplo, sempre nega que

[00:24:45] ele presta apoio ao M23, ao mesmo tempo em que o governo

[00:24:49] de Ruanda participa das negociações de paz. Se o

[00:24:53] governo de Ruanda não tem tropas na República Democrática

[00:24:56] do Congo e não presta apoio ao M23, por que participar de

[00:25:00] uma discussão de paz? Então, ele é realmente um acordo muito

[00:25:05] difícil e que todas essas ausências e essa postergação

[00:25:11] de tempo aumentam a desconfiança das pessoas sobre a sua

[00:25:15] efetividade. Pedro, muito obrigada por ter topado

[00:25:20] conversar com a gente. É importante lembrar e talvez muita

[00:25:24] gente não saiba que o Congo tem uma relação muito

[00:25:27] profunda e histórica com os brasileiros e isso vem de um

[00:25:34] período lá de trás. Se você quiser, pra finalizar, fazer um

[00:25:39] breve relato sobre essa relação, antes da gente se

[00:25:43] despedir, eu te agradeço. Natusa, eu fui pra cidade de

[00:25:46] Boma, que fica na parte oeste do país, que ela fica na

[00:25:51] boca, na proximidade do rio Congo, com o Oceano Atlântico.

[00:25:56] De lá, principalmente no século 19, muitas pessoas na

[00:26:00] condição de escravizados foram levadas ao Rio de Janeiro.

[00:26:04] Os congoleses têm muito da nossa formação, nós temos

[00:26:07] muito em nós do Congo, inclusive, a origem do samba

[00:26:10] tá ligada a esse povo, o povo banto também que vem dessa

[00:26:13] região da África também. E eu acho interessante

[00:26:17] sinalizar de que essa não é uma memória muito presente

[00:26:21] por parte dos congoleses. Se existe uma memória muito

[00:26:25] forte no processo de independência mais recente de

[00:26:28] luta contra os belgas, a questão das conexões inclusive

[00:26:34] com o Brasil e com as Américas e mesmo esse passado

[00:26:39] escravagista que o Congo acabou sendo vítima, ele não é

[00:26:43] algo muito presente na memória. Na conversa com as

[00:26:45] pessoas nessa cidade, por exemplo, muitas delas

[00:26:48] inclusive negaram, falaram não, não era daqui que saíam

[00:26:51] os escravizados que foram pro Brasil, eram de outras

[00:26:53] cidades no entorno. Eu acho que, inclusive, esse é um

[00:26:56] ponto importante que alguns pesquisadores brasileiros e

[00:26:59] congoleses têm trabalhado em conjunto pra reativar essa

[00:27:03] memória e também esses laços entre o Brasil e a

[00:27:05] República Democrática do Congo. Pedro, muito obrigada, bom

[00:27:09] trabalho aí pra você e foi importante, muito importante te

[00:27:14] ouvir, bom trabalho. Obrigado, Natusa, agradeço pelo

[00:27:17] espaço, sou também, como os outros falam, um assunto,

[00:27:20] sempre acompanho e acho muito, acho muito importante ter essa

[00:27:25] possibilidade de discussão sobre um assunto pouco

[00:27:29] debatido e ainda mais por conta da, da, da plataforma e

[00:27:34] do alcance que o assunto tem. Estamos aqui pra isso,

[00:27:37] Pedro, um grande abraço. Um dos áudios que você

[00:27:42] ouviu neste episódio, é da TV Cultura.

[00:27:47] E antes de me despedir, vou te fazer um convite, compartilhar

[00:27:52] o assunto com quem você quiser. Você ouve o assunto no

[00:27:54] Spotify? Então, compartilha por lá, assim o nosso

[00:27:58] conteúdo chega a cada vez mais ouvintes. Este foi o

[00:28:02] assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou

[00:28:05] na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe

[00:28:09] do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato,

[00:28:11] Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazuroski e

[00:28:15] Carlos Catelan. Eu sou Natuza Neri e fico por aqui, até o

[00:28:19] próximo assunto.