A incrível história do português brasileiro


Resumo

O episódio investiga as origens do português brasileiro a partir de uma ideia central: embora a resposta curta seja “vem do latim”, trata-se de um latim popular e diverso (não o latim clássico), resultado de séculos de mudanças e contatos. Caetano Galindo explica também a etapa anterior, relacionando o latim às línguas indo-europeias, e descreve como o português já chegou “colorido” ao Brasil após influências na Península Ibérica, como invasões germânicas e a longa presença muçulmana (árabes e berberes).

Na formação do português brasileiro, o programa destaca o caráter raro do monolinguismo no Brasil: um país continental em que a maioria absoluta da população usa o português ao longo da vida inteira. Ao tratar das influências, Galindo diferencia tipos de contato: o árabe deixou sobretudo marcas no vocabulário, enquanto povos germânicos (como os suevos) teriam influenciado aspectos fonológicos. Já no Brasil, o contato com populações africanas escravizadas — em especial falantes de línguas bantas — é apontado como decisivo para padrões de pronúncia e prosódia que afastaram o português brasileiro do europeu.

Por fim, o debate “português vs. brasileiro” é colocado mais como questão política e identitária do que linguística: não há critérios objetivos universais para declarar quando variedades viram “línguas” distintas, e o nome por si só não muda a realidade. Sobre o futuro, o entrevistado sugere tendências atuais, como certa convergência de sotaques em grandes centros do Centro-Oeste/Sudeste/Sul (espalhamento do R retroflexo e mudanças em vogais), ao mesmo tempo em que a maior exposição à diversidade pode reforçar marcas regionais.


Indicações

Livros

  • Latim em pó — Livro de Caetano Galindo que inspira a conversa e traça um “passeio” histórico pela formação do português brasileiro

Linha do Tempo

  • [00:00] — Introdução: a pergunta “de onde vem o português brasileiro?” e apresentação do episódio
  • [00:02] — Português vindo do latim: diferença entre latim clássico e latim vulgar/popular
  • [00:03] — Indo-europeu e o “passado profundo” das línguas: limites do que se pode reconstruir
  • [00:04] — Caminho histórico do português: invasões germânicas, presença árabe/berbere e chegada ao Brasil
  • [00:05] — Brasil e o monolinguismo em um país continental: o exemplo da “Luzia” e inteligibilidade nacional
  • [00:07] — Influências na Europa vs. no Brasil: o que separa línguas românicas e o que separa PB de PE
  • [00:10] — Papel demográfico no Brasil: português “absorvido” e devolvido transformado; influência africana (banto)
  • [00:11] — Exemplos de palavras de origem árabe no português e tipos de empréstimo
  • [00:12] — Influência sueva na fonologia: queda de consoantes intervocálicas e mudanças estruturais
  • [00:13] — Debate sobre “brasileiro” como língua: nome, critérios linguísticos e identidade
  • [00:16] — Lusofonia, acordo ortográfico e peso político-cultural na cena internacional
  • [00:17] — Para onde vai o português brasileiro: tendências de convergência e possível reforço regional
  • [00:19] — Encerramento e créditos do programa

Dados do Episódio

  • Podcast: DW Revista
  • Autor: DW
  • Categoria: Society & Culture / Documentary / News / News Commentary
  • Publicado: 2025-07-04
  • Duração: 0h19m

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] De onde vem o português brasileiro? Se tivéssemos que resumir em duas palavras,

[00:00:09] diríamos simplesmente do latim. E o latim é mesmo o primeiro passo para a formação do

[00:00:16] português brasileiro. Mas, na verdade, desse primeiro passo começou uma caminhada que trilhou

[00:00:22] diversos lugares e culturas. E foi parar no Brasil, culminando em uma língua única.

[00:00:27] Português é verdade, mas falado apenas no Brasil e, portanto, diferente daquele que se fala em

[00:00:33] Portugal e em outros países lusófonos, como Angola e Moçambique. Nesta edição do DW Revista,

[00:00:40] eu converso com Caetano Galindo, autor do livro Latim em pó, que traça uma viagem

[00:00:45] histórica pela formação do português brasileiro.

[00:00:48] E está no ar o DW Revista, podcast produzido pela redação brasileira da DW, publicado todas

[00:01:04] as sextas-feiras no YouTube e em plataformas de áudio, como Spotify, Deezer, iTunes, Google Home

[00:01:09] e Alexa. Eu sou o Guilherme Becker, diretamente de Bonn, na Alemanha, e nesta edição vamos

[00:01:15] tentar desbravar um pouco das origens do português brasileiro com o escritor,

[00:01:20] linguista, professor e tradutor Caetano Galindo.

[00:01:23] Então a gente não está falando de um povo que chega e influencia uma língua existente,

[00:01:28] a gente está falando de uma língua que é absorvida por uma população estrangeira e que

[00:01:32] é devolvida para essa população completamente alterada.

[00:01:36] Afinal, que língua é essa que saiu de Portugal, atravessou o oceano e, ainda que carregue o mesmo

[00:01:50] nome, se transformou em algo diferente daquela falada na Europa? O português brasileiro tem

[00:01:56] mesmo várias diferenças em relação ao português de Portugal e também de outros países lusófonos.

[00:02:02] E para tentar explicar isso, tarefa quase impossível, em apenas um episódio de podcast eu

[00:02:08] converso com o Caetano Galindo, autor do livro Latim em pó.

[00:02:11] Caetano, obrigado por participar do DW Revista e, em primeiro lugar, o livro é uma viagem

[00:02:17] histórica que investiga as origens do nosso português, que tem sua base no latim ou em algum

[00:02:23] tipo de latim, mas também tem várias outras influências. E por isso eu gostaria de começar

[00:02:29] contando justamente o seguinte, de onde vem o nosso português?

[00:02:32] A gente tem uma resposta muito simples para de onde vem a língua portuguesa, ela vem da

[00:02:36] língua latina, assim como vários outros idiomas, francês, espanhol, catalão, romano, italiano,

[00:02:41] são línguas que derivam do que um dia foi a língua do Império Romano nas suas várias formas,

[00:02:46] mas aí a coisa já começa a se complicar, né, porque eu acabei de dizer nas suas várias formas.

[00:02:50] O português não deriva diretamente daquele latim que a gente, por exemplo,

[00:02:53] pode ter estudado na universidade ou no seminário ou quando tomou contato com a

[00:02:57] língua clássica latina. A língua que de fato forma o português e as várias outras

[00:03:02] línguas ditas românicas é uma versão popular, é a versão dos analfabetos,

[00:03:06] é a versão das classes baixas andrajosas do Império Romano, que eram quem de fato

[00:03:11] se deslocava para essas regiões afastadas do centro, quem colonizava essas províncias

[00:03:15] e portanto quem levava a sua forma de latim. O latim, primeiro de tudo,

[00:03:19] é uma língua que existiu durante séculos, aí portanto mudou durante esse período,

[00:03:22] e segundo, é uma língua também nisso como todas as outras, caracterizada pela

[00:03:27] Você tem um latim formal, um latim informal, um latim erudito, um latim vulgar,

[00:03:31] como aliás era o termo que se usava para se descrever essa forma, então já começa por aí,

[00:03:35] vem do latim, mas não é aquele latim que você imagina. E se você tem, a partir do,

[00:03:38] sei lá, nove anos idade, você começa a ficar mais curioso com essas séries de porquês,

[00:03:42] alguém te diz o português vem do latim, a tua pergunta imediata é o latim vem de onde?

[00:03:46] E nesse livro eu me dou um pouco esse trabalho de ir mais longe, mostrar de onde vem a

[00:03:51] língua latina, a gente, de certa forma, vem do surgimento da linguagem na humanidade,

[00:03:54] mas muito especialmente de onde vem esse grande conjunto de línguas europeias que hoje dominam

[00:04:00] o mundo, depois do colonialismo do século 16, são as línguas mais difundidas pelo mundo,

[00:04:04] que são as ditas línguas indo-europeias, todas elas derivadas de uma língua ou um conjunto

[00:04:10] de dialetos, a gente não sabe muito bem, que teria sido falado ali onde hoje fica a

[00:04:13] Ucrânia há sete mil anos atrás, então a partir dali é que a gente vai traçar um pouco

[00:04:18] essa história para mostrar como é que se chega o latim e como é que do latim se chega

[00:04:22] o português, porque também para dizer, o português vem do latim também é muito simples,

[00:04:26] o francês também vem do latim, como é que eles conseguiram ficar tão diferentes,

[00:04:29] o que aconteceu nesses trajetos, quais foram os afluentes, por assim dizer,

[00:04:33] que determinaram essa mudança na cor das águas do português, do italiano, do francês e do

[00:04:38] romano, por exemplo, são línguas hoje muito diferentes para o nosso ouvido, para a nossa

[00:04:42] leitura, e a história toda do português, mesmo antes dele chegar no novo mundo, já é

[00:04:46] bastante colorida, bastante alterada, houve invasões de povos germânicos, invasões de

[00:04:51] povos árabes, de povos berberes do norte da África, depois o português vem para cá,

[00:04:55] encontra as nossas línguas originárias, depois eles trazem para cá um exército de

[00:05:00] africanos escravizados, que também vão colorir essa língua de várias maneiras diferentes,

[00:05:05] então explicar esse trajeto, mais do que a resposta simples de onde vem o português,

[00:05:09] é refazer esse percurso todo. Ah, você falar agora pouco é uma viagem histórica,

[00:05:13] eu sou mais modesto, por isso que eu chamei na capa de um passeio, é um passeio,

[00:05:18] de dizer, olha, vamos lá desde o comecinho, até onde a gente consegue ver esse comecinho,

[00:05:22] inclusive tentando explicar para os leitores por que a gente só consegue enxergar até uma

[00:05:25] certa distância no passado das línguas, e vir do mais longe que a gente pode, até o mais

[00:05:30] próximo que a gente pode do nosso dia de hoje. Caetano, logo no início do livro tem o exemplo

[00:05:34] da Luzia, uma menina que nasceu em algum lugar do Brasil e que vai poder percorrer o país

[00:05:38] de norte a sul, sendo compreendida durante toda a sua vida. Por que esse fato é

[00:05:43] muito importante em comparação a outros países e continentes? No caso do Brasil,

[00:05:48] que é o fato de nós vivermos nesse país monstruosamente grande, muito populoso,

[00:05:53] e caracterizado por uma coisa que por mais que possa ser matizada, que ali o Brasil

[00:05:58] oficialmente fala cerca de 200 línguas, entre línguas originárias, línguas europeias de

[00:06:02] herança, línguas de imigração, o português acima de tudo, e Libras por exemplo, mas a

[00:06:07] gente não pode contornar o fato de que nós somos pouco mais de 200 milhões de habitantes,

[00:06:11] e que quase a integralidade desses 200 milhões de indivíduos são usuários da língua portuguesa.

[00:06:16] E mais do que isso, quase a integralidade desses indivíduos só precisam da língua portuguesa ao

[00:06:21] longo de toda a sua vida. Dizer que a língua portuguesa é a língua de todos os brasileiros

[00:06:24] poderia querer dizer que existem outras em uso corrente aqui e ali, mas não. O brasileiro

[00:06:29] típico, se você botar um liquidificador e tirar o brasileiro médio, é uma pessoa

[00:06:33] que só fala português, desde o seu primeiro dia de vida até o seu último dia de vida

[00:06:36] durante todos os dias, durante toda a sua vida. Isso é extremamente raro. Na história da

[00:06:40] humanidade e na humanidade hoje, como ela está no mundo. Não é a realidade da Europa,

[00:06:45] não é a realidade da Ásia, está muito longe de ser a realidade da África, não é a realidade da

[00:06:50] maior parte dos países da América Latina inclusive, onde você tem situações de

[00:06:53] bilinguismo, você tem situações mais divididas. Um país do nosso tamanho, tanto em termos de

[00:06:58] território, quanto em termos de população, com esse grau de monolinguismo é uma coisa muito

[00:07:02] estranha e muito maravilhosa. Como eu até menciono, a Lusia vai poder pegar um ônibus

[00:07:06] no sul do Rio Grande do Sul e descer no norte do Amapá depois de dias de viagem e continuar

[00:07:12] falando a mesma língua em todos os pontos do caminho. E vai ter sotaque, vai ter diferença,

[00:07:16] vai ter gíria, vai mudar um monte de coisa, mas ela vai falar a mesma língua.

[00:07:19] Isso é absolutamente estranho e absolutamente encantador.

[00:07:23] Bom, o português vem mesmo do latim, mas sofreu diversas mutações no meio do caminho

[00:07:27] por influência, por exemplo, de imigrantes. Mas, no fim das contas, é possível dizer

[00:07:32] que árabes ou mouros que invadiram e fincaram raízes na Península Ibérica,

[00:07:37] e também os africanos que foram trazidos escravizados para o Brasil,

[00:07:40] são dois dos povos que mais influenciaram o nosso português?

[00:07:44] É possível, mas primeiro a gente tem que separar duas coisas. As línguas românicas

[00:07:48] que se desenvolveram na Europa divergiram umas das outras pelas influências a que elas

[00:07:54] foram expostas. É por isso que o francês é francês, o italiano é italiano, o português

[00:07:58] é português. Esse é um primeiro momento. O segundo momento é o que aconteceu nessa

[00:08:02] formação do português, que é o português do Brasil, português brasileiro. Lá em solo europeu,

[00:08:06] houve duas grandes influências que determinaram a separação do português, por exemplo,

[00:08:11] veja, a presença árabe ou mouriska, a presença muçulmana, para falar de um modo mais amplo,

[00:08:16] serve muito bem para separar a Península Ibérica do restante da Europa, mas não serve

[00:08:21] para separar o espanhol do português, porque ela existe nas duas línguas. As duas línguas

[00:08:25] sofreram essa mesma influência, o vocabulário de presença de língua árabe é mais ou menos

[00:08:30] conhecido nesses dois idiomas. Então, essa longa presença dos califados muçulmanos na

[00:08:36] Península Ibérica serve para separar essas duas línguas ou três, se a gente for pensar no galego

[00:08:41] ou mais, se a gente for pensar nas outras ainda, como o catalão, o mirandês, etc.,

[00:08:45] mas especialmente o espanhol e o português das outras línguas da Europa. O grande elemento

[00:08:48] que separa o português, ou para ficar ainda mais sério, o galego e o português das outras

[00:08:54] línguas da Península Ibérica são os, provavelmente são os povos germânicos que

[00:08:58] se desgastaram, se alteraram de uma maneira diferente do que aconteceu na Espanha.

[00:09:02] Então, naquele momento europeu, os dois ingredientes que transformaram o português no que ele é,

[00:09:07] foram os povos germânicos, especialmente os suevos, um povo germânico que chega logo

[00:09:13] junto da queda do Império Romano e que, por tudo que a gente tenha podido reconstituir

[00:09:17] até hoje, foi o responsável por boa parte das marcas que singularizam o galego e o

[00:09:22] português, marcas fonológicas, como as nossas palavras se desgastaram, se alteraram

[00:09:27] e os povos árabes e norte-africanos, porque os berberes que chegaram em grande número

[00:09:32] junto com a invasão muçulmana, não eram árabes, nem etnicamente, nem linguisticamente

[00:09:36] e trouxeram ainda outros tipos de influência. E essas influências foram de formas diferentes.

[00:09:41] A língua árabe, por exemplo, deixou muito pouca marca estrutural no português.

[00:09:45] O que a gente tem é vocabulário. Já no caso de germânicos, a gente tem alguma

[00:09:48] influência estrutural. O som das palavras mudou, os padrões de sílaba do português

[00:09:53] mudaram por causa daquela influência e a gente tem menos influência de vocabulário.

[00:09:56] Então, por aí já dá para ver que os tipos de contatos foram diferentes. Quando o português

[00:10:01] sai da Europa e vem para o Brasil, aí a mesma coisa acontece, a gente pode dizer,

[00:10:05] tanto no contato com as línguas gerais que eram faladas aqui, que passam a ser faladas

[00:10:09] aqui mais a partir da colonização, quanto no contato com os povos africanos. Mas essa

[00:10:13] mesma coisa não é bem a mesma, porque agora as coisas se deram em proporções demográficas

[00:10:18] diferentes. O Brasil, por exemplo, durante quase toda a sua história, teve mais africanos

[00:10:24] do que europeus e descendentes de europeus na sua demografia. Então, a gente não está falando de

[00:10:28] um povo que chega e influencia uma língua existente. A gente está falando de uma língua que é

[00:10:34] absorvida por uma população estrangeira, que é apreendida às pressas, na marra, quase literalmente,

[00:10:39] sem qualquer facilidade e que é devolvida para essa população, completamente alterada.

[00:10:45] Eu usei aquela metáfora do rio e do afluente. Lá atrás a gente estava pensando que rio era

[00:10:49] a formação do português e esses afluentes vinham entrando no processo. O processo que

[00:10:53] foi feito no Brasil não é da mesma ordem. Esse rio foi inteiro bebido por uma população e depois

[00:10:58] devolvido com uma outra característica. Não é mais uma questão de uma pequena influenciazinha.

[00:11:04] E aí sim, a grande influência sobre os padrões, especialmente de pronúncia, de prosódia,

[00:11:09] de estrutura silábica, de sons do português brasileiro, que veio a separar os padrões

[00:11:13] do português brasileiro dos padrões do português europeu, é a dos povos africanos

[00:11:17] escravizados, especialmente os falantes das línguas do grupo banto.

[00:11:20] Caetano, quais palavras então vieram dos árabes e estão no português, por exemplo?

[00:11:24] Eu até falo no livro, não existem aquelas palavras ditas árabes que estão em todas as línguas

[00:11:28] europeias. Por exemplo, álcool é uma palavra que está em tudo quanto à língua europeia porque

[00:11:31] ela veio com a ciência árabe, que foi muito influente naquele momento. Uma palavra como

[00:11:35] algarismo ou algoritmo também está em tudo quanto à língua e não precisa nem ter havido

[00:11:39] presença árabe ali. O que houve foi o peso da cultura árabe. No caso das línguas da

[00:11:42] península hebérica, a gente tem algumas coisas mais entranhadas. Por exemplo, a palavra

[00:11:47] é uma palavra árabe. E é uma palavra que não tem nada que ver especificamente com o contexto

[00:11:51] cultural, filosófico, religioso, científico. É uma palavra de dia a dia. A palavra

[00:11:56] papagaio é uma palavra árabe. A palavra cenoura é uma palavra árabe. Além de todas

[00:12:01] aquelas que a gente sabe que começam com A, azeitona, armazém e assim por diante,

[00:12:05] eu gosto desses casos em que os empréstimos não têm mais cara de empréstimo. Se eu te

[00:12:09] disser que alcorão é uma palavra árabe, que mesquita é uma palavra árabe, que muçulmano

[00:12:14] é uma palavra árabe, isso não tem nenhuma graça. Lógico que é uma palavra árabe.

[00:12:18] São coisas árabes. São coisas ligadas ao mundo árabe. Mas quando eu te digo que encha

[00:12:22] a queca é uma palavra árabe, as coisas começam a mostrar que realmente o contato

[00:12:26] entre essas duas culturas foi mais profundo, foi mais intenso a ponto de o vocabulário

[00:12:30] não ligado especificamente a uma cultura ou outra ter sido influenciado. E na questão

[00:12:34] estrutural que sofreu a influência dos suevos, quais exemplos nós teríamos?

[00:12:39] Tem vários. O que se fala mais dessa influência desse povo específico se

[00:12:43] refere a uma coisa que é super desinteressante em termos de como dizer o enunciado, que é a

[00:12:48] fragilização das consoantes intervocálicas. Basicamente esses caras seriam a razão para

[00:12:53] nós sermos a estranha língua românica que quando pegou a palavra latina luna,

[00:12:58] não fez lune, não fez luna, não fez lune, mas fez lua e o ene foi embora. Especialmente

[00:13:05] os enes e os eles que ficavam entre duas vogais desapareceram em massa na formação

[00:13:11] do português e isso alterou completamente o nosso vocabulário. É muito mais difícil

[00:13:15] perceber, por mais que nesse caso não seja tão complicado assim, perceber a ligação entre lua

[00:13:19] e as outras palavras que são todas iguais, luna, lune, lune, só muda a vogalzinha do final.

[00:13:24] A gente tem uma influência gigantesca nesse vocabulário, todas as nossas palavras que

[00:13:28] terminam em an, por exemplo, só existem porque o enezinho que estava entre o a e o o caiu,

[00:13:33] deveria ser ano ou deveria ser one e a gente foi eliminando esses enes e foi gerando an,

[00:13:38] que aliás é uma coisa que só a gente tem. Então, houve uma influência ali sobre a estrutura

[00:13:43] fonética da língua, sobre os sons da língua mesmo. Caetano, há um debate se o português

[00:13:48] brasileiro deveria se tornar uma língua própria, independente do português de

[00:13:52] outros países lusófonos. Qual é a tua opinião sobre isso? Primeiro, tem uma questão de

[00:13:57] nomenclatura. As pessoas se perguntam, será que não está na hora de nós pararmos de dizer

[00:14:01] que falamos português e dizer que nós falamos brasileiro? Cara, essa é uma questão

[00:14:05] de tanto faz. É de chamar isso aqui que eu estou usando de blusa, de pullover ou de suéter.

[00:14:09] Não vai alterar a realidade. Lá quando o Brasil declara sua independência de Portugal,

[00:14:14] se transforma na república, essa questão foi fremente, foi pulsante e ali talvez pudesse

[00:14:19] ter sido tomada uma decisão que não aconteceu e eu acho que hoje isso vai mudar muito pouca

[00:14:24] coisa. Como eu costumo dizer para os meus alunos e para os meus colegas, o que vocês

[00:14:27] acham que os Estados Unidos sentem de inferioridade pelo fato da sua língua se chamar

[00:14:30] e não americanês ou estadunidez, isso não muda absolutamente nada. Eu acho que a questão do

[00:14:36] nome não é relevante. Se um dia a gente decidir chamar nossa língua de brasileiro,

[00:14:39] vamos chamar a nossa língua de brasileiro. Isso vai ser decorrência,

[00:14:42] não vai ser o gatilho de qualquer mudança. Então tem uma questão de nome,

[00:14:45] essa é uma questão complicada. Tem uma outra questão que é estrutural,

[00:14:49] que é a gente olhar para essas duas formas da língua, mas vamos fazer de conta

[00:14:52] que existe uma média do português do Brasil e uma média do português de Portugal,

[00:14:57] que também tem muita variação. Vamos olhar para essas duas línguas e vamos determinar se é

[00:15:01] necessário ou adequado a gente dizer vamos parar com essa zona, isso não é mais a mesma língua,

[00:15:07] são dois idiomas diferentes. E a questão que deixa as pessoas muito frustradas é que a

[00:15:10] linguística não tem critérios para fazer isso. Ninguém tem, não existem critérios

[00:15:14] objetivos que me permitam olhar para duas coisas suficientemente próximas e dizer se elas

[00:15:19] são variedades de uma mesma língua ou dois idiomas diferentes. Quem decide é o coletivo

[00:15:24] quem decide são complicadas noções de pertencimento, de fraternidade, de filiação.

[00:15:30] No caso do Brasil é essa nossa tensa relação com essa nossa herança colonial com o fato de a

[00:15:35] gente reconhecer que recebeu, eu não posso deixar de reconhecer, recebemos um presente,

[00:15:39] uma dádiva, essa maravilha que é falar esse idioma que nos define e que nos une a todos

[00:15:44] como brasileiros e ao mesmo tempo saber que esse idioma nos foi imposto, esse idioma veio

[00:15:49] de fora e é legado de um passado com que a gente também tem uma relação muito polêmica.

[00:15:53] Então questão um, nome, sei se é tão importante assim.

[00:15:55] Questão dois, diferença estrutural, difícil de estabelecer.

[00:15:58] Questão três é a política internacional e aí tem uma outra questão complicada porque

[00:16:02] durante algum tempo nas últimas décadas houve um esforço de criar uma noção de ilusofonia,

[00:16:08] integrar os países falantes da ilusofonia, gerar um bloco político, um bloco de ação

[00:16:14] internacional e todos os esforços até aqui foram meio baldados, às vezes por inércia

[00:16:19] brasileira, pela demora brasileira de tomar a posição de liderança que era nossa pura

[00:16:24] obrigação de fato, uma mera questão numérica, às vezes por uma inércia forçada portuguesa que é

[00:16:29] de não reconhecer essa posição e de insistir em demarcar certas posições recalcitrantes,

[00:16:35] os portugueses se negam até hoje ao usar o acordo ortográfico que eles assinaram.

[00:16:38] Houve uma inversão nessa relação de poderes, as colônias são hoje muito mais pesadas,

[00:16:42] muito mais importantes do que a metrópole e essa é uma outra questão porque o Brasil hoje

[00:16:46] provavelmente está diante de uma situação de ter que se preocupar só com a sua própria casa,

[00:16:51] o barco da ilusofonia nunca navegou direito, então se o Brasil quer lidar ou lutar pelos

[00:16:57] seus direitos linguísticos internacionais, como língua de comunidades e de grupos políticos,

[00:17:02] abriga sua nossa e aí nós seremos os brasileiros e aí é uma coisa que

[00:17:05] independe do nome, independe da diferença estrutural, depende de peso político,

[00:17:09] cultural e econômico. Caetano, para finalizar, já consciente de que o exercício de

[00:17:14] é complicado, mas eu queria te perguntar justamente para onde está indo o nosso português,

[00:17:19] tem alguma mudança significativa prevista para as próximas décadas?

[00:17:23] Eu acho que tem cara, e é aquilo, como você falou né, a gente não consegue,

[00:17:27] eu não consigo te dizer, olha, eu já sei que daqui a uma, duas gerações,

[00:17:30] tal coisa, será mais forte ou mais fraca. O que a gente consegue ver são linhas

[00:17:34] de força atuais e elas podem se reverter, elas podem se alterar. A gente vê hoje certas

[00:17:40] coisas acontecendo no português brasileiro como um todo, e elas provêm às vezes de questões

[00:17:46] estruturais da língua, de questões culturais, mas às vezes provém de questões políticas.

[00:17:49] O brasileiro tem a oportunidade de ter mais consciência do que é realmente brasileiro,

[00:17:54] de ter menos preconceito quanto a isso e de naturalizar melhor os elementos da diversidade

[00:17:59] brasileira. Para onde que isso pode nos levar? Parece haver nesse momento, ao menos numa grande

[00:18:05] região que eu diria que é Centro-Oeste, Sudeste, e já Sul do Brasil, a tendência de, nas grandes

[00:18:12] cidades, haver essa ligeira aproximação. Um curitibano de hoje fala mais parecido com um

[00:18:19] campo grandense de hoje do que a voz deles falariam entre si. Está havendo uma ligeira

[00:18:25] aproximação que envolve o esprayamento desse dito R caipira, do R retroflexo, que envolve a

[00:18:30] perda do não alçamento. A gente aqui fazia o que se chama de não alçamento de vogais

[00:18:34] a gente dizia dente, a gente dizia forte, isso está se perdendo, a gente está dizendo,

[00:18:38] não só dizendo forte, mas está dizendo forte, às vezes. E essas coisas estão começando a ficar

[00:18:42] mais comuns numa mancha bem grande do Brasil, o que pode gerar a sensação de que estaria surgindo

[00:18:48] um padrão espontâneo, mais ou menos neutro, maior em termos de abrangência do que já existiu

[00:18:54] antes. Justamente por estar vendo mais sotaques e por estar sendo exposto a mais sotaques,

[00:18:58] a gente pode começar a ver o recrudescimento de certas marcas regionais.

[00:19:04] A edição desta semana do DW Revista, uma produção da DW em Bonn, na Alemanha,

[00:19:14] fica por aqui. Fica aqui também meu muito obrigado ao Caetano Galindo pelas informações

[00:19:18] e percepções compartilhadas neste episódio. Mais conteúdos você encontra no nosso site

[00:19:24] dw.com barra Brasil e também no canal da DW Brasil no YouTube. A produção,

[00:19:30] edição e edição técnicas são minhas, Guilherme Becker. A revisão final e a

[00:19:34] coordenação são do Rafael Plazan. O DW Revista volta na sexta-feira que vem.

[00:19:38] Obrigado por acompanhar a gente e um bom final de semana.