Bezos e a luta da falta de classe
Resumo
O episódio parte do casamento ultraluxuoso de Jeff Bezos e Lauren Sánchez em Veneza para discutir por que demonstrações de opulência hoje geram, ao mesmo tempo, revolta, ironia e também adesão. O trio comenta a presença de celebridades (incluindo figuras “progressistas”) e levanta hipóteses sobre por que elas comparecem: capital social, redes de influência e a força econômica e midiática da Amazon no entretenimento. A conversa enxerga no evento um símbolo de “corte” contemporânea, comparando com Maria Antonieta, mas questionando por que a exposição da desigualdade não produz automaticamente mais ódio de classe.
A discussão se aprofunda na ideia de que a identificação com bilionários não acontece apenas por aspiração econômica, mas por alinhamento estético-cultural: uma “democratização” da cafonice e do repertório de ostentação (selfies, iates, harmonização, “carpete de aeroporto”), onde classe vira mais identidade e estilo do que posição material. Alessandra acrescenta a dimensão religiosa/teológica da prosperidade (“riqueza como prova de bênção”), que legitima a ostentação como gratidão e caráter. O episódio também conecta isso à crise de representação política: o horizonte do “mínimo para viver com dignidade” (mencionado por Lula em entrevista ao Mano Brown) já não dialogaria com um imaginário popular orientado por símbolos de luxo, empreendedorismo e consumo.
Por fim, eles debatem por que a raiva pública muitas vezes mira “elites culturais” (artistas, intelectuais, esquerda) mais do que bilionários, discutindo o papel da estética como campo de disputa, a acusação de “inveja” e a operação política que desloca o ressentimento para longe do capital. Entram ainda referências de alternativas sistêmicas e poder transnacional (tecnologia, bancos, “nuvem” do capital), com destaque para Varoufakis e para a sugestão de leitura de David Graeber. O episódio encerra com recomendações culturais: a banda irlandesa Kneecap (pela radicalidade política) e uma pauta sobre a obsessão do audiovisual recente por ricos “fazendo riquezas”.
Anotações
- 00:38:17 — Bandas radicais e cultura Discussão sobre críticas ao Bezos circulando mais nas redes e sinais culturais (música) de uma crítica mais radical à riqueza e a Gaza.
- 00:38:48 — Doc do Adam Curtis / Ayn Rand Recomendação do documentário ‘All Watched Over by Machines of Loving Grace’ e conversa sobre Ayn Rand e o individualismo abraçado pelo Vale do Silício.
- 00:50:21 — Esquerda como ‘elite moral’ Debate sobre a direita se vitimizar do ‘woke’ apesar de deter poder material, e como a esquerda vira alvo por supostamente ocupar o lugar de ‘dona da verdade’ e da estética.
- 01:15:53 — Kneecap e Gaza (banda da Irlanda) Bruno comenta estar obcecado pela banda Kneecap (Irlanda do Norte), sua postura pró‑Palestina/Gaza e a censura/controvérsias, além da ligação com tradição revolucionária irlandesa.
- 01:19:00 — Aesthetic de ricos na TV/streaming Pauta sugerida: a estética de pessoas muito ricas dominando séries e streaming (White Lotus etc.) e o que isso diz sobre cultura e desejo/repulsa à riqueza.
Indicações
Livros
- Dívida: os primeiros 5.000 anos (David Graeber) — Primeiro livro do Clube do Livro do Calma Urgente; citado para aprofundar discussão sobre moeda, bancos e dívida.
- Tecnofeudalismo (Yanis Varoufakis) — Mencionado como referência para entender o poder das big techs e novas formas de dominação econômica.
- Racismo Brasileiro (Inaê Lopes dos Santos) — Citado porque a autora participará como convidada no Clube do Livro.
Filmes / Series
- All Watched Over by Machines of Loving Grace (Adam Curtis) — Documentário citado (disponível no YouTube) sobre ideologias como a de Ayn Rand e seus efeitos.
- Kneecap (filme/documentário ficcionalizado) — Bruno diz que pretende assistir; obra em que a banda se interpreta e que foi bem comentada.
- The White Lotus — Usada como exemplo da tendência de séries sobre ultra-ricos; comentam que a crítica/sátira estaria se diluindo.
- Big Little Lies — Citada como marco de séries centradas em ricos e suas dinâmicas.
- Sirens — Mencionada como série recente da Netflix focada em mulheres ricas.
- Sex and the City (continuação) — Citada como tendo virado “pornografia de riqueza” em Nova York.
- Mountainhead — Citada como exemplo recente dentro dessa onda de produções sobre ricos.
- The Gilded Age — Mencionada como série sobre ricos “fazendo riquezas” em outra época; nova temporada começou.
- Downton Abbey — Citada como referência ao criador ligado a The Gilded Age.
Artigos / Links
- calmaurgente.com (Clube do Livro do Calma Urgente) — Link mencionado para inscrições e financiamento do podcast.
- YouTube (onde está o doc do Adam Curtis) — Indicação de onde encontrar a série documental citada.
Linha do Tempo
- [00:00] — Abertura, calor na Europa e introdução do tema “casamento do Jeff Bezos”
- [00:01] — Reações ao Bezos, custos da festa e lista de celebridades convidadas
- [00:04] — Por que famosos vão: capital social, indústria do entretenimento e redes de poder
- [00:07] — “Lógica de corte” e como elites “progressistas” operam apesar do discurso
- [00:09] — Maria Antonieta, ostentação e a pergunta: por que isso nem sempre vira ódio de classe?
- [00:12] — Debate sobre ódio à classe artística vs bilionários e o papel das redes sociais
- [00:14] — Tese da identificação estética: bilionário “parecido” com a classe média; cafonice como identidade
- [00:17] — Cultura da inveja no Brasil e a ostentação como objetivo social
- [00:19] — Prosperidade como virtude: ostentação “travestida” de gratidão/benção religiosa
- [00:23] — Protestos em Veneza, sátira, e a bifurcação entre adesão estética e revolta
- [00:25] — Old Money vs New Money; por que os ricos não escondem mais a opulência
- [00:32] — Poder transnacional (Amazon) e falta de “Bastilha”; legitimidade meritocrática dos bilionários
- [00:38] — Recomendações e referências: Adam Curtis, Ayn Rand, Varoufakis e “tecnofeudalismo”
- [00:46] — Charlize Theron, acusação de “inveja” e a clivagem estética (cafona vs “bom gosto”)
- [00:54] — Mackenzie Scott, filantropia e a tentativa de reduzir tudo a rivalidade feminina
- [00:58] — Lula no Mano Brown: dignidade mínima vs aspiracional de ostentação (Bezos/BC/Las Vegas)
- [01:04] — “Sistema das três escadas” e a operação de jogar trabalhadores contra “elite cultural”
- [01:16] — Banda Kneecap, Gaza/Irlanda e cultura pop obcecada por ultra-ricos (séries recentes)
Dados do Episódio
- Podcast: Calma Urgente
- Autor: Calma Urgente
- Categoria: News / Politics
- Publicado: 2025-07-01
- Duração: 1h21m
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/calma-urgente/2a566eb0-ddce-013c-5d0d-0acc26574db2/bezos-e-a-luta-da-falta-de-classe/773c5f1d-f63d-4a09-96ef-d2d52d2ba16b
- UUID Episódio: 773c5f1d-f63d-4a09-96ef-d2d52d2ba16b
Dados do Podcast
- Nome: Calma Urgente
- Tipo: episodic
- Site: https://calmaurgente.com
- UUID: 2a566eb0-ddce-013c-5d0d-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Olá, queridos ouvintes e espectadores do Calma Urgente, tá começando mais um episódio
[00:00:08] desse podcast.
[00:00:09] O nosso querido Calma Urgente traz assuntos urgentes para ser tratados com calma e também
[00:00:16] traz assuntos que não estão sendo tratados com a devida urgência, e a gente trata aqui
[00:00:20] com bastante emergência, então vamos falar deles, dos assuntos mais importantes
[00:00:26] da semana, ou talvez dos menos eventualmente misturados uns com os outros, queria chamar
[00:00:31] logo aqui eles meus queridos Alessandra Orofino e Bruno Tortura, e aí como é que vocês
[00:00:37] estão meus queridos amigos, cada um num lugar do mundo hoje, eu estou em Lisboa, onde
[00:00:42] faz 500 graus a sombra, aquecimento global aqui tá castigando, quente pra cacete,
[00:00:50] e ao contrário do nosso Rio de Janeiro, aqui não tem o hábito do ar-condicionado
[00:00:54] eles acham que não precisa, e realmente não precisava, até outro dia, agora talvez
[00:00:59] precise tá, tá quente pra dedéu, não só aqui, parece que a França tá bizarro
[00:01:05] também a Espanha é sinistra, a Europa tá pegando fogo, coisa que a gente no
[00:01:10] Rio de Janeiro sabe bem como é que é, mas eles estão achando que é tão assim,
[00:01:15] meio espantados ainda com esse calor todo, e o bicho vai pegar, esse calor
[00:01:19] vai piorar, mas não é sobre isso que a gente vai falar hoje, a gente vai falar
[00:01:21] sobre outro assunto que tá pegando fogo, o assunto mais importante talvez do
[00:01:25] mundo que é o casamento do Jeff Bezoscho, o casamento da dona baratinha, o casamento da
[00:01:33] dona baratinha, os besos que Jeff deu, por que falar disso, eu vou pedir
[00:01:39] pra que eles expliquem, foi um assunto que eles trouxeram, a Alessandra ficou obcecada
[00:01:44] com esse casamento, eu pra começar, eu tenho uma certa rejeição a isso
[00:01:48] porque é a fuça que mais me dá raiva hoje, talvez seja do Jeff, não, a do Munchk
[00:01:53] mais do que o Munchk? Eu tenho mais raiva do Jeff Bezos, eu tenho mais do Jeff Bezos
[00:01:58] também, o Munchk, eu não vou passar para o não, mas ele é claramente o dodóizinho da
[00:02:02] cabeça, ele fez uma lavagem cerebral, ele é completamente lelé mesmo, e o Jeff Bezos
[00:02:09] acho que ele é só o cara mais egocêntrico, imbecil, auto-centrado, assim, tudo
[00:02:16] que tem de ruim no mundo, extrativista dos outros, sabe, então eu tenho mesmo um ódio
[00:02:22] muito profundo a tal ponto que eu não consigo nem achar graça nele, o Munchk eu acho
[00:02:25] alguma graça, meio que uma graça da cara dele, claro, mas eu me divirto um pouco
[00:02:29] as custas dele, e o Jeff eu não consigo, o Jeff se consiga assistir ódio, ódio,
[00:02:33] ódio, ódio, vontade de socar, dito isso, cara, que loucura isso, hein, o Malu gastou
[00:02:36] 48 milhões, foi isso, no casamento? De dólares, né, 400 milhões de dólares,
[00:02:41] bem lembrado, ou seja, quase 300 milhões de reais, procede, 300 e tantos milhões
[00:02:45] de reais, por aí, num casamento, e aí ele adiou e custou mais 10 milhões, eu acho, alguma coisa
[00:02:51] que ele mudou ali, então tem mais 10 milhões aí que estourou do orçamento, e caralho,
[00:02:57] que tristeza, meu irmão, a foto dele todo cheio de espuma, que tristeza os
[00:03:03] convidados, sabe o que eu achei bizarro? Uns convidados meio progressistas assim,
[00:03:07] meio um Leonardo de Caprio, que fica falando da Amazônia, e fica, tá fazendo o que lá,
[00:03:14] meu irmão, você não entendeu ainda porra nenhuma que esse cara é o grande vilão do planeta? Que
[00:03:19] foda, que não tem Amazônia, assim, que existe uma dicotomia entre Amazon e Amazônia, ele não
[00:03:25] entendeu ainda isso? Ele super entendeu, e tanto é que ele tentou seguir esconder, ele estava tão
[00:03:29] sem graça que ele foi com um boné na cara dele para ninguém ver a cara dele, e na verdade
[00:03:35] ele foi, como muita gente foi, como muita gente famosa e importante foi, dos Estados
[00:03:41] Unidos especificamente, né, a gente não viu chefes de estado, nada assim, mas é a realeza
[00:03:46] de celebridades dos Estados Unidos que estava lá, Oprah Winfrey, as irmãs Kardashian, Sidney
[00:03:53] Swinney, o Tom Brady e tal, e vamos falar, as pessoas não são assim os amigos do Jeff Bezos,
[00:04:00] as pessoas que cresceram com o Jeffrey na faculdade, quando ele estava por baixo,
[00:04:06] porque eles estavam nele e nem é vice-versa. Eu acho que em grande parte as pessoas estão
[00:04:11] indo porque elas fazem parte de uma certa realeza, de uma certa Versailles contemporânea,
[00:04:17] mas eu acho que no caso do Leonardo DiCaprio, que manifestou muito embaraço, pelo menos com
[00:04:22] a sua vestimenta, eu acho que ele está lá por medo, por medo de desagradar um cara que tem,
[00:04:30] inclusive, uma grande infraestrutura do audiovisual e do entretenimento no mundo
[00:04:36] Ele não é simplesmente dono do maior monopólio de varejo e de exploração de pequenos varejistas
[00:04:43] e de pessoas que trabalham nos seus depósitos e tudo mais, ele tem também uma grande parte
[00:04:48] da estrutura do entretenimento americano, com a Amazon Prime, com tudo que ele financia,
[00:04:54] e ninguém quer estar em maus lençóis com ele.
[00:04:58] Eu acho que não é só isso, assim, a Lauren Sanchez, que é a nova Lauren Sanchez Bezos,
[00:05:05] a atual esposa de Jeff, é uma repórter de entretenimento, foi casada muito tempo com um
[00:05:11] grande agente de Hollywood, é uma elite de LA, assim, antes dela casar com Bezos, não é uma
[00:05:16] coisa que ela… Então eu não sei, eu não sei como que eles conhecem o Leonardo DiCaprio,
[00:05:20] a Oprah ou as irmãs Kardashian, mas eu não escuro a possibilidade desse ser, e na verdade,
[00:05:25] círculos dela, de Los Angeles, de pessoas que ela traz da vida dela, e também não
[00:05:30] tem a possibilidade de ter amizades genuínas.
[00:05:32] Não, e dele também.
[00:05:34] É, mas assim, eu só tô dizendo que eu não sei se dá pra dizer que é só medo de desagradar o
[00:05:39] Jeff Bezos, eu acho que tem uma questão que é o Jeff Bezos casou com uma pessoa que é inserida
[00:05:45] num círculo específico que é a indústria do entretenimento e da cultura, né, indústria
[00:05:52] cultural, de Los Angeles, e a Lauren Sanchez vem daí, desse espaço, cobriu esse espaço
[00:05:59] muito tempo, foi casada com uma pessoa muito bem inserida nesse espaço, morou muito tempo,
[00:06:04] então acho que vem daí, na verdade.
[00:06:05] Sim, mas assim, eu discordo, porque eu acho muito improvável que o Leonardo DiCaprio fosse
[00:06:12] entrar num jatinho pra ir pra Veneza, pra ir pro casamento de uma repórter de Hollywood
[00:06:17] que ele conheceu em alguma festa. Eles estão indo porque é o casamento do Bezos, e é o
[00:06:22] casamento de elite do ano, em que o cara enfiou 50 milhões de dólares, entendeu? E eu acho que
[00:06:31] tem um certo capital social que você perde indo, que a gente pode falar dele, ou não perde,
[00:06:38] e um capital social que você perde não indo, se esse convite chegou na sua casa,
[00:06:43] possivelmente o convite mais disputado do capitalismo contemporâneo pela própria dimensão
[00:06:50] da festa que ele fez, porque não é que ele fez um casamento reservado, como o Zuckeberg fez
[00:06:55] quando casou com a mulher dele, entendeu? Ele fez questão de ser a maior pauta de revista de fofoca
[00:07:01] e de celebridade do mundo. Sim, ele comprou a capa da Vogue pra mulher dele ficar posando.
[00:07:06] Isso eu acho que se deve a Lauren, isso eu acho que ela faz questão de ter esse casamento,
[00:07:10] mas eu acho que o Leonardo DiCaprio vai muito mais por dívida ou por medo do Bezos do que
[00:07:15] por amizade da própria noiva dele. Eu não sei avaliar as motivações de Leonardo DiCaprio,
[00:07:19] estamos aqui no fuxico do calmurgente. O fuxico gospel do calmurgente, mas o que eu acho que a gente
[00:07:25] subestima o quanto que essa elite que é tradicionalmente considerada um pouco mais
[00:07:30] progressista em termos de valores, que é a elite californiana no fundo, tanto de L.A.
[00:07:35] quanto da Bay Area ali de São Francisco, etc., Silicon Valley, que são elites diferentes,
[00:07:40] mas que têm essa ligação de ter nos últimos 30 anos um olhar mais progressista,
[00:07:46] pelo menos em relação ao que o Ciro chamaria de pautas de costumes. E o quanto que essa elite,
[00:07:50] na verdade, é antes de tudo elite, mais do que um posicionamento político, acho que o que
[00:07:57] a define é que, como qualquer elite, são círculos pequenos onde as pessoas se encontram,
[00:08:02] onde elas forjam alianças e acho que isso no fundo é muito mais importante do que
[00:08:08] os seus posicionamentos políticos. Entende que, na verdade, são mais circunstanciais muitas
[00:08:11] vezes. Então, na hora que tem um casamento desse tamanho que envolve essa elite,
[00:08:15] essa elite aparece e acha que a consideração de si é uma coisa que faz bem ou mal para o mundo,
[00:08:22] ela é para esse círculo tangencial. E quer dizer que quando membros dessa elite
[00:08:27] começam a expressar uma simpatia ou um apoio absoluto à extrema direita,
[00:08:32] extrema direita trampista, que foi o caso do Elon Musk, isso necessariamente vai carregar
[00:08:37] o centro político dessa elite para aquele lugar também. Porque é assim que funciona,
[00:08:42] é a partir dos contatos, das relações, das relações que você não quer romper,
[00:08:48] o custo desse rompimento muitas vezes é muito alto, e é assim que você vai, na verdade,
[00:08:52] carregando um círculo de influência de dinheiro e de apoio para um outro lugar político.
[00:08:57] Isso a gente viu, é uma lógica de corte. Então, falando em corte, quando eu vejo ele,
[00:09:04] eu só penso em Maria Antonieta. Eu só penso nas ostentações que deram em Guilhotina.
[00:09:09] Curiosamente, o povo não tinha acesso à festa de casamento da Maria Antonieta,
[00:09:14] ninguém foi sabendo quanto custou. Ainda assim, as breves vislumbres da opulência dela fizeram
[00:09:20] com que a população aplaudisse a sua Guilhotina, não só clamasse pela sua Guilhotina,
[00:09:25] como torcesse por ela, como aprovasse a sua decapitação, não só dela, claro,
[00:09:32] mas de toda a casta da nobreza na França. O que aconteceu com a gente que a gente observa
[00:09:38] essas manifestações de opulência, com alguma normalidade e mais, com até alguma água na boca
[00:09:45] por parte de muita gente do tipo, que vê isso como uma pornografia gostosa assim,
[00:09:50] de ah, se eu tivesse esse dinheiro, com algo inspiracional, a abundância, a opulência,
[00:09:56] mais que isso, porque acho que nem abundância a palavra ali, a ostentação, ela não desperta
[00:10:01] mais ódio, mas desperta inspiração, desperta vontade de estar lá em muita gente, eu diria,
[00:10:09] na maior parte da população. E hoje a gente tem um compartilhamento da vida íntima, sem igual,
[00:10:15] então a gente hoje tem acesso à intimidade de pessoas milionárias e bilionárias.
[00:10:21] Curiosamente isso era, na minha cabeça, pra acirrar em muito ódio de classe,
[00:10:26] e eu não sei se é isso que tá acontecendo. Na verdade tá, em alguma medida, e eu inclusive
[00:10:31] culparia um pouco aí nessa, e quero ouvir vocês, mas eu culparia um pouco no ódio que
[00:10:36] existe, e ele existe, e é cada vez maior, o ódio que existe da classe artística, pra mim tá
[00:10:41] um pouco ligado a isso, tá? Tá um pouco ligado a pela primeira vez as pessoas têm acesso ao
[00:10:46] dos artistas, e o artista que ela considerava popular, um, mora numa casa que é do tamanho
[00:10:52] do bairro dela. Antigamente a pessoa, sei lá, que era muito fã do Calbi ou do Nelson Gonçalves,
[00:10:56] ela podia fantasiar como ela quisesse a casa dele, não era, ela não tinha acesso à banheira
[00:11:04] dele, a ele deitado, não, então ela podia sonhar com aquilo, assim, quisesse projetar
[00:11:11] uma casa pequena, uma casa grande, o que ela quisesse, ela não tinha acesso à intimidade,
[00:11:14] a banheira dele. Hoje as pessoas têm acesso à intimidade dos seus ídolos, e não a
[00:11:20] contragosto deles, né, ao contrário do que a gente imaginava, que os paparazzis iam invadir,
[00:11:24] não, acabou o paparazzi, hoje os artistas são seus auto-paparazzis, e eles vendem a sua
[00:11:29] intimidade, eles querem, eles torcem pra que mais pessoas vejam a sua intimidade. Dito isso,
[00:11:35] eu acho que o que aumentou foi sim um ressentimento com a classe artística,
[00:11:40] que eu acho que tem um pouco a ver com isso. Ah, uma classe artística que tá vendendo muita
[00:11:45] coisa pra eles, então você vai ver no Instagram a pessoa tá lá bilionária e querendo que você
[00:11:48] compre um produto que ela não usa, que a pessoa sabe que ela não usa, volta e meia é
[00:11:53] uma pilantragem, como no caso a Virginia, uma base que não funciona alguma porra assim,
[00:11:56] e eu acho que isso desgastou muito a relação do público com o artista, no caso a Virginia,
[00:12:02] mas assim, com essa casta. No entanto, não desgastou em relação aos bilionários,
[00:12:07] não é? Eu acho que essa desconfiança, que eu não sei se vocês concordam que ela existe,
[00:12:11] ela não tornou a relação do público mais hostil em relação aos bilionários,
[00:12:16] eu tenho a impressão. Em alguns casos me pareceu que sim, e outra coisa que me vem à cabeça
[00:12:21] quando eu vejo Bezos também, é o nosso querido, e eu esqueci agora o nome dele,
[00:12:26] o cara que matou o dono lá da United Health, como é o nome dele? O Luiz Mandione. Então,
[00:12:34] eu penso também nele, num cara que vocalizou um sentimento tão grande da juventude que foi e
[00:12:40] continua sendo idolatrado, mas foi uma exceção. Enfim, o que vocês acham disso?
[00:12:44] Faz sentido que eu falei? Vocês acham que o ódio à classe artística tem um pouco a ver
[00:12:48] com o aumento das redes sociais, com a invasão, com o fato que agora as pessoas mostram suas
[00:12:53] vidas? E mais, por que isso não acontece em relação a bilionários?
[00:12:56] Olha, Greg, eu não sei se eu concordo com o primeiro diagnóstico, eu não acho que as
[00:13:00] pessoas estão com ódio à classe artística porque elas abriram as suas vidas. Eu acho
[00:13:05] que o ódio da classe artística é um ódio muito específico de uma parcela da população em
[00:13:10] relação a um tipo de artista. E em geral, ao artista que se coloca politicamente, que
[00:13:16] tenta se engajar em alguma causa, porque eu acho que as pessoas, aí sim, elas relacionam
[00:13:22] riqueza e engajamento político como um tipo de hipocrisia performativa. E eu acho que tem
[00:13:29] várias razões para isso, mas eu não acho que a abertura da intimidade das pessoas ou do tamanho
[00:13:35] da riqueza dos artistas criou algum tipo de raiva de classe. Eu acho que às vezes
[00:13:41] muito pelo contrário. E acho que no caso dos bilionários, que acho que é a nossa pauta
[00:13:46] interessante hoje, eu e a Alessandra ficamos obcecados com esse casamento, não porque a
[00:13:51] gente não sabe o vestido nem os convidados, mas porque eu acho que tem um fenômeno culturalmente
[00:13:56] muito relevante para entender por que o ódio de classe, na minha opinião hoje, ele tá vivendo um
[00:14:05] momento de ruptura. Eu acho que tá aumentando muito em potencial e daqui a pouco a gente pode
[00:14:12] falar disso, apesar de não ter encontrado ainda uma vazão clara de como ele se manifesta
[00:14:16] Mas eu acho que o que mais está acontecendo é uma certa identificação, não de classe,
[00:14:23] no sentido econômico, mas uma identificação de classe no sentido de elegância, de estética,
[00:14:29] de a cultura, que tá juntando numa mesma categoria o Jeff Bezos e um homem de classe média
[00:14:37] baixa de São Paulo, que junta a classe média alta com o bilionário, com um tipo de pobre,
[00:14:43] homem de classe média que não é o aspiracional simplesmente, porque eu não acho que as pessoas
[00:14:48] estão vendo Jeff Bezos e sonhando que elas vão chegar lá, mas se você ver o casamento do
[00:14:54] Jeff Bezos, ele não é o casamento do Gatsby, ele não reproduz aquele abismo estético do
[00:15:03] bilionário e dos seus funcionários. A mulher do Jeff Bezos tem cara de harmonização e
[00:15:11] de energia plástica, não muito diferente de uma mulher com o mesmo referencial na Vila Olímpia de
[00:15:18] São Paulo, que fez no dentista dela, que tá na Tailândia, que tá na Flórida. O Jeff Bezos tem
[00:15:25] a mesma jaquetinha de gomo, o mesmo óculos ridículo e o mesmo corpo bombadinho de um
[00:15:31] cara que eu vejo no pagode da rua Aspicueuta uma da tarde bêbado em São Paulo. E o que eu
[00:15:37] acho que tem é uma junção, não da vida íntima, mas de valores culturais que meio fazem com que a
[00:15:45] diferença de valor econômico desapareça. Então as pessoas se identificam com o Jeff Bezos não
[00:15:52] porque elas um dia vão chegar lá, mas porque elas falam eu estou no mesmo campo estético
[00:15:58] dele, nós fazemos parte da mesma identidade. Então não é o classe média que quer ser um
[00:16:04] modelo de cartola e de monóculo. Em algum lugar teve uma vitória dos próprios bilionários que
[00:16:11] se tornaram admirados, mas tem uma vitória de uma classe média cafona que os bilionários
[00:16:18] estão começando a copiar. Então tem uma escala de valor aí que foi democratizada, que não é
[00:16:25] a economia, é a estética, é a cultura. Nesse sentido, as pessoas estão muito mais igualitárias
[00:16:32] nesse lugar é conformista, extremamente capitalista, que faz com que a luta de classes vire uma coisa
[00:16:39] muito mais complicada de você a conscientizar. Porque a identidade da pessoa não é de oprimido,
[00:16:45] ela está junto com o Jeff Bezos, mesmo que seja no barquinho dela no final de semana,
[00:16:50] ela faz a mesma selfie ridícula que o Jeff Bezos faz no iate de meio bilhão dele.
[00:16:55] Perfeito. Você concorda com essa tese, Alessandro Ourofino, que não tem
[00:16:59] as redes sociais para não ser invejada? E aí as pessoas ficam com raiva. As pessoas têm
[00:17:05] raiva da Alessandra que não tem rede social. Eu acho que esse mistério é o que as pessoas
[00:17:10] têm raiva hoje em dia. Não é transparência. Não sabem como foi o meu casamento. Falando sério,
[00:17:17] você concorda que existe uma coisa? Um breve parêntesis sobre rede social que é o seguinte,
[00:17:20] as pessoas são obcecadas com a cultura da inveja. Vocês já ouviram isso, né? Tudo
[00:17:25] é inveja, inveja, um beijo para as invejosas, esse povo está falando mal de mim porque tem inveja,
[00:17:31] qualidade inveja, sobretudo no Brasil, bom lembrar que é uma palavra que nas outras línguas não
[00:17:35] tem essa força. Envy, não se diz isso em inglês, em francês não tem nem palavra direito para isso
[00:17:40] porque se confunde se um me inveja nas palavras. A gente não tem essa palavra. E no Brasil,
[00:17:45] imagina você viver sem essa palavra inveja, porque ela é central na nossa cultura. Não tanto
[00:17:50] tem medo da inveja dos outros. Então tem o mau olhado, tem o olho gordo que você bota na porta,
[00:17:56] tudo para se proteger da inveja. Mas paradoxalmente, somos também quem mais expõe a intimidade,
[00:18:03] sobretudo na vitória. Então paradoxalmente, somos uma cultura que ostenta qualquer vitóriazinha
[00:18:08] e que se a pessoa pode ser de esquerda, mas ela viaja de executiva, posta foto na executiva.
[00:18:13] É, venci. É isso aí, tá? Tem uma cultura da ostentação, da intimidade vitoriosa e do luxo
[00:18:21] que é paradoxal com esse pavor que as pessoas sentem da inveja alheia, porque mostra-lhe
[00:18:27] claramente que eles não têm pavor, que na verdade o status é fazer com que as pessoas
[00:18:31] tenham inveja de você. Isso que é o sonho, na verdade, né? O objetivo maior da sociedade
[00:18:35] hoje é gerar inveja. Só isso explica o fato de você ficar compartilhando coisas que só
[00:18:43] fazem as pessoas ficarem mal. Ficarem com inveja. Pensar assim, meu Deus, eu nunca vou ter isso.
[00:18:49] Caralho, gente que mostra… Gente, já viram toda a estética de pessoas abrindo a bolsa e falar,
[00:18:54] então essa bolsa aqui custa 20 mil reais, meu pai que me deu… Isso aqui custa estética.
[00:19:00] Pessoas mostrando e não é que elas mostram e fazem o que as pessoas fazem, normalmente,
[00:19:04] quando são menos noção, que é fingir que é a coisa mais barata, não tem muito isso.
[00:19:07] Antigamente era assim, ah, isso aqui foi nada, eu achei no chão essa bolsa, ela é de marca.
[00:19:12] As pessoas fingiam que era assim, né? Antigamente. Hoje é o contrário. Elas fingem que é mais caro.
[00:19:17] Elas fingem que… Tem uma mentira assim que é o oposto do anterior e ao mesmo tempo dizendo que
[00:19:24] ah, porque o problema é que as outras pessoas sentem muita inveja de você. Eu nunca vou
[00:19:27] entender essa relação neurótica que as pessoas têm com a inveja do outro. Que querem que tem
[00:19:32] inveja, mas odeiam quem tem inveja. Morrer sem entender. Mas eu acho que a moralidade da
[00:19:36] inveja tá mudando, viu, Greg? Existe toda uma nova… Eu acho que sim, acho que existe um
[00:19:41] discurso que ganhou força recentemente e que tem raízes até teológicas, religiosas mesmo,
[00:19:49] espirituais, que posiciona a riqueza, inclusive a riqueza excessiva, inclusive a riqueza de
[00:19:56] quem o estenta, de quem claramente tem mais do que precisa, como não só o fruto de trabalho
[00:20:02] duro ou de um merecimento, mas também a prova de que aquela pessoa é fundamentalmente boa ou
[00:20:09] abençoada. Então não é mais a ostentação, é a gratidão. A ostentação travestida de estou apenas
[00:20:18] aqui agradecendo a Deus por todas as bênçãos. E isso tá muito colocado no Brasil hoje. A gente
[00:20:24] falou um pouco disso quando a gente comentou o depoimento da Virgínia no Senado, quando ela
[00:20:28] foi falar sobre o envolvimento dela com as Betis. E tem um momento, agora eu não vou lembrar
[00:20:33] exatamente as palavras que ela usa, mas tem um momento muito significativo em que ela fala
[00:20:36] basicamente isso. Ela fala que ela não teria esse casamento maravilhoso, que aliás desde então
[00:20:41] acabou, mas enfim, um casamento maravilhoso, os filhos maravilhosos, ou acabou, ou ela tá preocupada
[00:20:46] com o resultado desse processo e resolveu separar o patrimônio logo. É blindar o patrimônio logo,
[00:20:51] que é a minha tese. Mas enfim… É o casamento blindado. É, o casamento tá blindado. Mas em todo
[00:20:55] caso ela fala, não teria esse casamento, esses filhos e essa grana e esse sucesso todo,
[00:21:01] não teria construído tudo isso se Deus não tivesse, enfim, deixado. Então acho que tem uma
[00:21:07] outra relação com a ostentação, que não só torna as pessoas menos preocupadas com inveja,
[00:21:13] porque afinal de contas se você acredita que Deus está contigo, a inveja alheia,
[00:21:18] ela deixa de ser relevante, mas mais do que isso, ela torna a ostentação algo necessário
[00:21:23] para você afirmar para o grande público não só um status de vencedor, isso já era o caso,
[00:21:31] mas acho que agora é mais quase que uma formulação de caráter. Olha quanto que eu tenho,
[00:21:37] portanto olha como eu sou bom, como eu sou incrível. E acho que isso muda a relação com inveja. Então
[00:21:44] essa relação que você descreve, do medo do mal olhado, da espada de São Jorge, do tá
[00:21:50] amarrado, acho que ela é uma relação que caiu em desuso, na verdade. Ela é antiga e ela não
[00:21:55] tá mais muito bem mapeada em relação aos comportamentos de hoje. E eu realmente acredito
[00:22:01] que a ostentação é também, mas ela não é só um símbolo do hipercapitalismo, ela também não
[00:22:06] se deve apenas à dinâmica de redes sociais, obviamente que se deve em grande parte, tudo isso
[00:22:10] é parte do jogo, mas eu acho que tem uma justificativa filosófica mesmo, espiritual,
[00:22:15] para a ostentação. Uma crença no que é aquele ter disso sobre quem você é. E isso é
[00:22:20] compartilhado por quem segue. Hoje eu vejo ela muito mais usada como uma acusação para o
[00:22:27] outro, então se você critica um bilionário, se você fala que milionários não deveriam
[00:22:30] fazer isso porque eles são a prova de que uma política pública falhou, aí você é o invejoso,
[00:22:36] você na verdade desejava ter aquilo, quando na verdade Deus me livre, entendeu? Viver desse jeito,
[00:22:41] mas é muito mais uma moeda de ataque do que de fato um medo genuíno, eu acho. Agora,
[00:22:47] voltando para o que o Bruno estava falando dessa unificação estética, eu tenho uma visão
[00:22:52] meio ambígua sobre isso. Eu concordo com a parte do diagnóstico, eu acho que é interessante
[00:22:56] observar essas pontes estéticas entre como esses bilionários se comportam, se vestem,
[00:23:02] se apresentam hoje e como isso na verdade está colocado em outros estratos sociais.
[00:23:06] É você perceber que a gente hoje tem populações cada vez mais lidando com uma realidade de
[00:23:13] pobreza, com aspirações talvez mais de classe média alta, mas com um referencial estético
[00:23:19] mesmo de bilionário, que é uma loucura, e o contrário, né, que acho que o Bruno traz também,
[00:23:24] os bilionários adotando referências culturais que não vieram dos próprios bilionários. Isso
[00:23:29] está colocado e eu concordo que isso existe. Por outro lado, o casamento do Bezo despertou
[00:23:33] assim muito ódio. Teve o protesto em Veneza, teve um monte de gente na rua, teve a memelândia
[00:23:39] toda indo à loucura. Eu vi muito mais uma cobertura satírica, achando tudo aquilo meio
[00:23:45] ridículo, do que uma cobertura genuinamente deslumbrada, com o luxo e a riqueza colocados,
[00:23:53] sabe? Talvez porque foi uma cafonice que passou do ponto, mas acho que teve uma relação muito
[00:24:00] mais tensa com essa grande ostentação e com que ela impôs a própria cidade de Veneza,
[00:24:06] que eu ainda acho que Veneza é talvez o epicentro disso tudo, tá? Por várias razões. Eu tive essa
[00:24:12] sensação quando eu fui pra Veneza recentemente pro festival, quando a gente até falou disso
[00:24:15] aqui no Calma Urgente. Então acho que não é à toa que foi a população de Veneza também
[00:24:20] articulando essa raiva e depois isso transbordou pra internet. Mas eu sinto que tem alguma coisa
[00:24:26] aí que também não é só um alinhamento estético, tem algum tipo de reação,
[00:24:29] senão não tinha gerado esse ódio todo também. Eu fiz um comentário restrito só sobre o que eu
[00:24:35] acho que segura esses caras de não se esconderem, porque eu acho que se a gente
[00:24:39] tivesse numa cultura minimamente racional, com alguma consciência de classe bem distribuída,
[00:24:46] dentro do nosso ambiente cultural de massas, esse casamento teria sido reservado,
[00:24:53] como casamentos aristocratas em geral são. Daqui a pouco a gente pode até falar dessa gíria que
[00:25:00] tá virando coloquial de New Money e Old Money. Mas o pessoal do Old Money vem de um lugar em
[00:25:09] que havia não simplesmente uma consciência de classe, que sempre foi muito complicada de
[00:25:13] ser em grandes massas, mas tinha alguma coisa percebida de que era meio vulgar você expor o
[00:25:21] seu abismo econômico para os trabalhadores, para as pessoas. E eu acho que essa constrição
[00:25:30] que o Old Money tinha, que o dinheiro velho tinha, que ainda se reproduz,
[00:25:34] ela tá em edesuso do mesmo jeito que a cultura da inveja também tá em edesuso.
[00:25:39] Eu acho que isso se deve por alinhamento cultural e estético. Hoje você pode fazer um casamento
[00:25:45] em público que bate recorde, que custa o preço de um casamento da monarquia britânica,
[00:25:51] e as pessoas vão aceitar isso. Agora, eu concordo com a Alessandra, eu falei no começo
[00:25:56] da minha fala, eu acho que a gente tá num momento de bifurcação. Eu tô vendo nas
[00:26:01] últimas semanas, não só pelo casamento do Jeff Bezos, mas pela radicalização do
[00:26:06] voto do Donald Trump, pelo corte de gastos que tem lá, pelo alinhamento dos super ricos
[00:26:11] com a política de Israel, com o fato de que esse genocídio tá despertando nas pessoas uma
[00:26:18] série de revoltas que vão além do próprio genocídio, que esse casamento vai sair caro
[00:26:23] para o Jeff Bezos, sim. Mas as pessoas que estão se revoltando contra esse casamento,
[00:26:28] eu ainda acho que elas são minoritárias e elas representam um tipo de, não digo vanguarda,
[00:26:34] de posição política que esteticamente tá totalmente desalinhada com o resto da sociedade
[00:26:40] da classe média que tá na mesma escala do Jeff Bezos, e eu ouço falar aqui, as pessoas,
[00:26:47] em geral, tem muito mais raiva desse tipo de campo cultural e estético que tem alguma
[00:26:54] consciência de classe do que dos artistas ou dos bilionários. E eu acho que essa adicionança
[00:27:02] valores culturais, eu acho que gera muito mais raiva do que a diferença de valores econômicos
[00:27:08] hoje em dia. E é um problema que a gente tem pra resolver, mas eu concordo com o
[00:27:12] Alessandro, eu acho que tem muita crítica, tem muita raiva, e o de Cáprio, por exemplo,
[00:27:17] eu acho que ele virou um grande ponto pra se enfiar um pé de cabra e as pessoas
[00:27:21] fazerem umas interpretações um pouco mais interessantes, que é o fato de tá envergonhado,
[00:27:25] então ele tem alguma consciência ali, ele se escondeu, ele não quis ser visto,
[00:27:30] mas ele foi, e fazendo a ponte dessa hipocrisia climática, dessas questões todas, que eu acho
[00:27:36] que tá vindo mais à tona. Então tem um antielitismo, sim, que esse casamento ferve,
[00:27:42] mas aí que eu tava trazendo isso, porque eu acho que é um outro lado que a gente conversa
[00:27:44] pouco sobre, que é o fato de que os ricos hoje, eles simplesmente gastam mais, mas pra
[00:27:52] uma escala de valor, que eu concordo com a Alessandra muito, não tá na escala da inveja
[00:27:57] mais, nem da admiração, é um outro lugar, é quase que uma realização pornográfica do que
[00:28:04] você também expressa na sua festa de aniversário ou no seu chá de revelação, entendeu? Mas é a
[00:28:12] cultura da ostentação também, novamente, não como provocar inveja, que eu acho que nem tá
[00:28:17] na conta das pessoas mesmo, mas eu acho que é como processo final do sentido de você tá
[00:28:24] fazendo, do que você faz na sua vida, de como você pensa sobre trabalho, sobre casamento,
[00:28:29] sobre dinheiro, isso inclui no final a expressão pornográfica pública disso. Acho que é parte
[00:28:36] existencial quase, acho que é mais profundo mesmo do que uma mera relação de inveja e
[00:28:40] admiração e ostentação por isso. Sim, eu acho que tem esse dado que a Alessandra trouxe
[00:28:45] de uma coisa religiosa, de um ethos da grana, uma coisa religiosa mesmo, calvinista,
[00:28:51] calvino que bifurcou dentro do protestantismo que é luterano ainda achava que o trabalho era uma
[00:28:58] coisa sofrida e a grana era uma coisa ruim, assim, acumular e tal. E a calvino que eu acho
[00:29:04] que primeiro diz, olha, o acúmulo de dinheiro é sinal de que Deus tá gostando de você,
[00:29:09] que é uma perversão gigante da lógica cristã, não é? Vai nessa que é sinal de que você é um
[00:29:16] você foi escolhido. Isso. Porque se tá dando dinheiro, dinheiro é a maneira que Deus se manifesta
[00:29:23] na terra, então Deus te escolheu, você tem que fazer um triplo mortal carpado. É muito
[00:29:29] conveniente, né? Muito pra dizer isso, cara, né? Tem que ser assim. Cara, como é que a gente
[00:29:34] faz pra adequar essa religião ao capitalismo? Basicamente isso, né gente? Precisa de uma
[00:29:38] religião que faça sentido com esse regime aqui, então é o capital comprando mesmo,
[00:29:45] uma versão, uma narrativa da bíblia completamente deturpada, mas que é a narrativa que venceu.
[00:29:51] Então existe isso mesmo, que a Alessandra falou, mas eu acho, eu me pergunto se existe também,
[00:29:55] o fato de que as Marias Antonietas ou Czar da Rússia, as pessoas que revoltaram a população
[00:30:01] pela ostentação, elas não tinham o controle dos meios de comunicação. E eu acho que essa é
[00:30:08] a diferença. Hoje a Maria Antonieta é dona do monopólio dos jornais da França, porque o
[00:30:16] Marcos Kerberg e o Besos e o Elon Musk são os donos de todos os meios de conexão entre as
[00:30:22] pessoas hoje, direto ou indiretamente. E eu acho que isso tem alguma importância, sim. Eu acho
[00:30:29] que não é toa que o algoritmo não revolta tanto as pessoas, eu acho que ele é desenhado
[00:30:36] Mas, Greg, eu não sei se a grande mudança nesse caso é de controle dos meios de comunicação,
[00:30:44] porque se a gente for olhar para o antigo regime na França, já que a gente está falando de Maria
[00:30:47] Antonieta, você tinha que ter uma licença que era concedida pelo rei para você poder ter algum
[00:30:54] tipo de veículo de comunicação. Claro que existiam veículos clandestinos, os planfletos,
[00:31:01] essas outras maneiras de você burlar essas regras. Mas a Rússia dos Czarys tinha controle dos meios
[00:31:08] de comunicação pelo Czar, né? Então a gente não está falando de espaços de grande liberdade de
[00:31:15] comunicação tampouco. Pelo contrário, talvez eram até espaços mais centralizados com uma
[00:31:20] comunicação mais ritualizada e mais lenta. Eu acho que a gente tem também hoje, apesar do
[00:31:26] controle algoritmico, algumas possibilidades de burlar o sistema, inclusive por dentro,
[00:31:33] e a comédia, o humor, é muito usado para isso. Acho que tem outras formas de fazer. Tudo isso
[00:31:38] para dizer que eu entendo que o espaço de mídia fragmentado, mas ao mesmo tempo monopolizado,
[00:31:43] que é essa ambiguidade no qual a gente vive, não nos favorece em termos de mobilização,
[00:31:48] mas eu não acho que isso é o central aqui. Eu acho que tem outras diferenças com esses
[00:31:53] outros momentos em que você teve concentração muito grande de riqueza. Por que a gente está
[00:31:57] comparando com a Maria Antonieta, ou com o Gilded Age, ou com esses outros momentos históricos
[00:32:03] onde você teve revolta? Porque a gente está falando de momentos, sobretudo, de muita
[00:32:09] desigualdade, de um aprofundamento dessas desigualdades e, portanto, de uma desconexão
[00:32:14] cada vez mais evidente das elites em relação ao povo. E disso ficando, claro, através da
[00:32:20] cultura pop, através dos símbolos e das imagens e do que essas elites falam e do que elas
[00:32:26] jogam para fora. O que eu acho que a gente tem hoje de diferente em relação a outros momentos
[00:32:31] é… São outras coisas, mais do que o ambiente midiático. Eu olho muito para sim a escala
[00:32:36] do poder, né? Quando fala da França, do antigo regime, ou da da Rússia, etc, a gente está
[00:32:42] falando de nações ou impérios, mas você tem um poder que ele é, de alguma forma, ancorado
[00:32:46] num espaço físico. Enquanto que hoje é isso. A Amazon é uma empresa transnacional com redes
[00:32:52] de distribuição e de fornecedores também transnacionais, então você não tem um loco
[00:32:57] de poder evidente para desafiá-la. Ela parece um gigante em alguma medida mais difícil de
[00:33:02] você combater do que um próprio regime imperial. O tipo de legitimidade que essas
[00:33:07] pessoas reclamam ter também é diferente. Elas não estão falando que elas têm um
[00:33:11] direito divino, elas estão falando que elas são merecedoras, elas são vencedoras. Tem aquela
[00:33:15] entrevista famosa do Jeff Bezos falando, não gente, mas eu só tenho 16% da Amazon.
[00:33:20] E a Amazon vale um trilhão de dólares. Portanto, eu gerei 890, sei lá, bilhões
[00:33:28] de riqueza, de valor para outras pessoas. É assim que ele se vê, é assim que ele
[00:33:33] explica, é assim que ele explica o fato dele ser um multibilionário. Eu acho que
[00:33:38] existe também uma outra coisa, que a gente não tem uma bastilha, a gente não
[00:33:42] tem sistemas alternativos articulados claramente, seja o republicanismo, no caso do
[00:33:48] antigo regime, seja o socialismo ou o comunismo, sabe? Ninguém apresentou uma visão
[00:33:53] clara, não sei, alguém apresentou, Bruno? Não, eu acho que ninguém apresentou um
[00:33:59] plano claro de como fazer isso, mas ao mesmo tempo a gente não tá, por exemplo,
[00:34:04] eu acho que os republicanos franceses claramente tinham menos modelo do que a
[00:34:09] gente tem hoje em dia, não tinha nenhuma república antes deles fazerem a revolução.
[00:34:13] Tinha a americana, mas tava começando ali.
[00:34:15] Não, mas tinha uma visão, mas tinha uma visão do que a república deve ser.
[00:34:18] Não, mas assim, cara, se você for olhar, de novo, o candidato agora democrata na
[00:34:23] prefeitura de Nova York, tido como socialista democrático. O cara tá
[00:34:29] causando um pânico na elite de Nova York, que vai investir não sei quanto
[00:34:35] pra ver se ele não ganha essa porra, porque ele quer aumentar, pasmem, 2%, 2%, o imposto de quem
[00:34:46] ganha mais de um milhão de dólares por ano, é isso que ele quer aumentar. Então assim, o que
[00:34:50] a gente tá falando é que eu acho que o que justifica o Jeff Bezos fazer o que ele faz,
[00:34:55] no fim das contas, a grande legitimidade dele, não é teológica ou genética como a das
[00:35:01] pessoas foram, e por isso era mais fácil de matar. Você mata o rei, mata os filhos dele,
[00:35:06] acabou a monarquia. Por isso que os Bolcheviques assassinaram a família inteira. Foi um ato que
[00:35:12] até hoje é visto como um ato monstruoso, de fato, matar criança é sempre monstruoso,
[00:35:17] mas era um ato político, era assim, a gente matar o último neto, não tem linha sucessória,
[00:35:22] não tem quem reclamar esse trono. Hoje não é bem assim, porque acabar com a linha sucessória
[00:35:27] é o próprio capitalismo do que o Jeff Bezos representa, mas o que muita gente tá falando,
[00:35:32] que soa a rádica hoje, é como o candidato de Nova York, a gente tem em modelo, é o capitalismo
[00:35:38] mais ou menos pré neoliberal, que é um regime progressivo de imposto, entendeu? O Eisenhower,
[00:35:45] republicano, ele cobrava 90% de imposto se você ganhasse, de tudo que você ganhasse,
[00:35:53] de uma faixa alta naquela época. Mas Bruno, eu acho o Mandami um ótimo exemplo, o Mandami um ótimo
[00:35:59] exemplo de alguém que tá articulando de fato possibilidades, e o que é interessante é que ele
[00:36:03] tá fazendo isso pensando naquilo que a autoridade municipal, naquele regime político,
[00:36:07] pode fazer. Nem isso, né? Porque ele depende do governo do Estado pra subir esses 2%.
[00:36:12] Mas o que eu quero dizer é o seguinte, ele não tá falando de pautas que escapam
[00:36:16] completamente da autoridade municipal, então ele tá realmente ancorando as propostas dele
[00:36:22] como possível, ele tá dizendo, se eu for prefeito, isso aqui eu consigo fazer, claro,
[00:36:27] né, nada é óbvio, mas como prefeito. Então o Zora Mandami, que é o candidato a quem o Bruno
[00:36:33] tá se referindo, é um bom exemplo. Mas a visão, ela não é totalizante, o que por um lado é bom,
[00:36:41] porque ela não é totalitária também, ela não é autoritária, ela é uma visão muito razoável,
[00:36:46] etc. Por outro lado, ela não dá um horizonte de possibilidade radicalmente diferente do que a gente
[00:36:53] vive hoje. É muito diferente de você tá vivendo num regime de monarquia absoluta e falar vamos
[00:36:58] ser uma república. Esse tipo de ousadia, de mudança de regime, eu não vejo sendo articulado
[00:37:04] com força política no capitalismo tardio. E quem articula, tem muita gente articulando,
[00:37:12] mas são vozes de rede social. São vozes que não são nem ouvidas nem nos veículos tradicionais.
[00:37:18] E aí eu vou discordar um pouco, acho que apesar do Jeff Bezos, do Uso Keberg terem
[00:37:22] essas grandes plataformas, elas são plataformas, elas não são o New York Times. Pra eles
[00:37:28] colocarem um filtro não permeável a essas grandes críticas, eu acho que despertaria
[00:37:34] aí sim uma grande revolta popular real, assim. Então tudo que eu tô vendo do casamento do
[00:37:39] Jeff Bezos e das críticas e da ridicularização, são nas redes do Mark Zuckerberg, gente.
[00:37:43] É, por outro lado. Eu não tô vendo na CNN, eu não tô vendo na Folha de São Paulo,
[00:37:48] eu tô vendo no Instagram, de gente independente produzindo isso. O que eu acho que não tá
[00:37:53] rolando, essa proposta de mudança sistêmica, não tá articulada por atores dentro do sistema
[00:37:59] político real, de como é que a gente faz isso por dentro do sistema político. A gente
[00:38:04] tá vendo isso dentro da cultura, do sistema discursivo, narrativo, musical. Tô super
[00:38:10] interessado em umas bandas que estão aparecendo recentemente, ultra radicais, na maneira como
[00:38:15] eles estão falando sobre riqueza, sobre gás e tudo mais, que eu acho que é um sintoma
[00:38:19] também super interessante do que tá vindo por aí. Mas eu concordo, não tem uma alternativa
[00:38:25] articulada mesmo pra substituir o que a gente tem. Só em direção ao passado mesmo,
[00:38:30] como eu me referia. Bota Weissenhauer no poder.
[00:38:33] Aliás, um doc muito bom é o All Watched Over by Machines of Loving Grace, do Adam
[00:38:42] Curtis. Eu nunca tinha visto, eu só vi outro dia. O Adam Curtis, isso tá no YouTube,
[00:38:47] tá bom, gente. Ele fala sobre Ayn Rand, aquela mulher russa que é uma romancista
[00:38:53] que fez a cabeça de algumas pessoas nos anos 30, mas depois foi muito esquecido
[00:38:58] e depois voltou com tudo abraçada pelo Vale do Silício. Porque a grande filosofia dela,
[00:39:04] que não tem nada de original inclusive, é meio chupinhada de um monte de gente,
[00:39:08] é a ideia de que o ser humano é um indivíduo. O ideal do ser humano é ele ser sozinho,
[00:39:13] ele ser individualista e apostar no próprio bem. Se todo mundo investir no próprio bem,
[00:39:19] a gente vai chegar lá. O bem coletivo se atinge de cada um pensar só em si mesmo.
[00:39:25] É uma ideia tão louca que ela própria ficou deprimidíssima e a prova da falência do
[00:39:32] pensamento dela tá no fato de que ela ficou sozinha deprimida e que as pessoas abandonaram
[00:39:36] ela. Ela ficou em depressão e, porra, pelo amor de Deus, o ideal não era esse,
[00:39:40] não era estar solo. Não, não, e não só isso. Acho que o mais irônico não é que ela
[00:39:45] acabou deprimida, que ela sempre meio foi deprimida, mas ela acabou dentro de uma
[00:39:48] instituição pública dos Estados Unidos. Ela acabou é cuidada pelo serviço social.
[00:39:53] Pelo serviço social. E não pelo seu próprio dinheiro ou pela sua própria, sei lá, família.
[00:39:58] Exatamente. Você vê que, inclusive, ela cagou o coletivo dela toda porque pegou o
[00:40:06] cara da… Ainda tem mil intrigas ali que o negócio conta, mas, enfim, apostar no
[00:40:10] indivíduo nunca deu certo individual nem coletivamente. Por que o filme é interessante?
[00:40:15] Tem a ver com o que você falou, Bruno? Tem a ver com como os Estados Unidos ferrou
[00:40:20] e cotou toda a tentativa de gente que tentou sonhar um pouquinho, não demais. Mas como ele
[00:40:25] foi uma polícia no mundo afora de qualquer tentativa de sair um pouco do modelo. Os
[00:40:34] Estados Unidos, eu digo o FMI, né? Mas dos quais os Estados Unidos talvez tenha
[00:40:36] sido o principal, assim, um bravo. É primeiro um braço dos Estados Unidos, os 92 mil,
[00:40:40] sobretudo. Acho que continua sendo. E de como, por exemplo, o Varoufakis é um cara que
[00:40:45] fala muito bem disso, né? É um cara que sonha. Varoufakis é um cara que sonha com
[00:40:48] o mundo. É um cara que propõe no mundo político outras formas de se organizar
[00:40:52] política economicamente. Por exemplo, quando ele foi ministro da Grécia, ele tentou e a gente
[00:40:57] sabe o que aconteceu. Então, assim, tem gente que, inclusive, consegue chegar lá e mexer
[00:41:03] minimamente nas entranhas e nas estruturas que, amigo, o cara é derrubado, assim,
[00:41:07] tipo Luigi Mandione. Claro, eu tô falando que o Varoufakis é Luigi Mandione. Mas, assim,
[00:41:12] vocês viram que tá rolando com o Luigi Mandione em termos de ser intensa, né?
[00:41:16] Ele matou um cara, tô dizendo que ele tem esse direito constitucional, não. Mas é uma sentença
[00:41:21] que é de terrorismo, porque os caras estão realmente apavorados com a possibilidade que
[00:41:28] isso pode tomar. Então, eu acho que um cara, tipo Varoufakis, acende um pavor. Falando
[00:41:34] do básico do cara, o Varoufakis não é a favor de pegar a arma e degolar o Bezos, não, tá?
[00:41:38] Ele é a favor de uma política de uma economia. Aliás, ele falando é bem interessante.
[00:41:43] Varoufakis, só pra explicar, foi ministro das Finanças da Grécia, não é? E é um economista
[00:41:48] que pensa muito bem sobre economia, também tem um monte de coisa dele no YouTube. Eu tenho um
[00:41:51] livro muito bom, aliás, que saiu pela Editora Crítica, que é o Tecnofeudalismo. E ele que
[00:41:56] cunhou esse termo, tal, do Tecnofeudalismo. Mas ele é um cara que fala muito bem sobre isso,
[00:42:00] e é um cara que desperta o pavor falando coisas muito simples, do tipo, assim, galera,
[00:42:04] e se, e se, vamos supor, né, que a gente desse, que o nosso dinheiro ficasse num banco
[00:42:11] capital ao invés de ficar em bancos que ganham trilhões ganhando dinheiro em cima do Banco Central
[00:42:17] e da gente, né? E se a gente eliminasse esse intermediário, que é o banco que é que é a
[00:42:23] especulação capital especulativo, ele faz lá as contas e você vive num mundo mesmo, acaba com
[00:42:28] todos os problemas no mundo. É tão simples assim? Talvez não, ou talvez sim, mas o fato
[00:42:33] é que ninguém nunca conseguiu tentar hoje, né, no mundo que a gente vive.
[00:42:36] A crítica que ele faz, que eu acho bem interessante, dos bancos, sem entrar em
[00:42:40] uma crise de economia que eu não saberia dizer, mas que eu acho que ele tem um ponto bem legal.
[00:42:45] O que ele fala é o seguinte, basicamente, que banco, como a gente conhece hoje, foi uma
[00:42:49] saída tecnológica para um problema real. Como é que o governo distribui dinheiro para as pessoas?
[00:42:54] Como é que esse dinheiro pode ser reservado de maneira privada? Então você precisa de
[00:42:59] instituições intermediárias entre o Banco Central, entre quem dá o valor para esse
[00:43:04] governo, que é um governo real, e os bancos viraram essas instituições com grande utilidade
[00:43:11] pública. Tinha um papel no próprio capitalismo como uma saída tecnológica que precisava disso.
[00:43:16] O que ele fala é que com toda a distorção e o poder desproporcional que os bancos
[00:43:21] acabaram ganhando nas últimas décadas, ao ponto de submeterem o próprio governo aos seus
[00:43:27] interesses, o que ele fala é o seguinte, a saída técnica a gente já tem. A gente já tem
[00:43:32] energia o suficiente para não precisar de banco privado, é isso que ele fala. Porque com
[00:43:37] a blockchain, criptografia e serviços técnicos e a própria garantia que esse governo dá ao
[00:43:43] dinheiro que você tem numa carteira digital, você já poderia fazer isso. E o louco é que é o
[00:43:47] seguinte, quando a gente fala isso soa super utópico, que você meio que intuitivamente fala
[00:43:53] isso não vai rolar, porque a gente introjetou o fato de que os bancos são o poder, eles
[00:43:58] vão pegar esse osso assim. Mas o louco é que gente como o Jeff Bezos, como Peter Thiel,
[00:44:05] como Zuckerberg, eles estão criando novas formas de arranjos econômicos e sociais,
[00:44:11] às vezes mais radicais do que o que o Varu Fax está falando, e a gente deixou, sem nenhuma
[00:44:17] conversa real política sobre se a gente quer ou não que o varejo do mundo seja inteiro,
[00:44:24] é domesticado por um novo atravessador chamado de Jeff Bezos. E por aí vai, todas as nossas
[00:44:30] conversas, nossa capacidade midiática, nossa capacidade organizativa. E é isso que é louco,
[00:44:34] a gente conceviu não se vê mais poderoso o suficiente para falar não, a gente já tem
[00:44:40] tecnologia então vamos organizar ela pelos nossos interesses. A gente entendeu que eles
[00:44:45] são oligarcas mesmo. Então eu queria que ia aproveitar um parênteses para fazer
[00:44:50] uma conversa do Clube do Livro, porque o primeiro livro que a gente vai ler no segundo
[00:44:54] semestre, você que ainda não se inscreveu no Clube do Livro para o segundo semestre
[00:44:58] desse ano, vai lá no site do Calma Urgente, calmaurgente.com e se inscreve, porque o
[00:45:03] primeiro livro que a gente vai ler é o livro do David Graeber sobre moeda, o nome se chama
[00:45:08] Dívida, os primeiros cinco mil anos, mas ele vai falar de banco, ele vai falar
[00:45:11] de emissão de moeda, ele vai falar de como surgem os bancos, enfim, é muito
[00:45:14] interessante. Então essa conversa a gente pode aprofundar lá. Mas eu queria, na verdade,
[00:45:18] uma outra discussão estética, porque acho que a gente não exauriu ela ainda e acho
[00:45:22] que ela é muito fascinante e importante. Eu queria, na verdade, me contradizer. Eu
[00:45:26] falei que tem revolta e tal, mas tem uma outra leitura possível da revolta gerada
[00:45:30] pelo casamento do Bezos, que é justamente uma leitura de fissura estética e ela não
[00:45:36] acompanha perfeitamente uma lógica de classe e é isso que é interessante nela, né? Então
[00:45:42] eu tava olhando, no meio da minha obsessão, fui olhar a declaração dada, vocês viram
[00:45:47] a declaração dada pela Charlize Theron. Eu tô amando que a gente tá falando disso
[00:45:51] hoje, nunca mais, gente. Charlize! Chachá!
[00:45:54] O que que a Charlize disse? Chachá, chachá, a diplomata Charlize Theron disse.
[00:46:00] Ela tava apresentando um evento em Los Angeles e ela era, tipo, MC do evento e ela tava
[00:46:05] falando com uma galera durante o final de semana do casamento e aí ela fez uma piada,
[00:46:10] aquela coisa bem americana de fazer piadinha quando você é o MC de um evento e ela faz
[00:46:15] uma piadinha pra quebrar o gelo no início, que ela fala, é, nós somos as únicas pessoas
[00:46:17] de Los Angeles que não foram convidadas pro casamento do Bezos e da Lauren Santos,
[00:46:22] por isso que a gente tá aqui. Mas não tem problema, porque we’re cool and they’re
[00:46:26] lame, sabe? Tipo, eles são péssimos e a gente… Não, they suck and we’re cool,
[00:46:29] eles tipo, são uma merda e a gente é muito legal. E aí todo mundo ri, beleza.
[00:46:32] E aí isso foi publicado nas redes, viralizou um pouco e é quando você vai nas redes
[00:46:38] dela pra entender como que as pessoas estão reagindo ao comentário dela nas
[00:46:42] redes dela, aí você tem um outro, uma outra onda, que é uma galera, não é uma ou duas pessoas,
[00:46:48] é muita gente chamando ela de invejosa pra voltar no tema do Gregório.
[00:46:52] Ah, você só tá com inveja que você não foi chamada, você só tá com inveja que…
[00:46:56] Não, e mais, tem muita gente que fala que ela tá com inveja porque she didn’t
[00:46:59] beg Jeff Bezos, não é só que ela não foi chamada, é que ela estaria com inveja
[00:47:03] porque ela não casou com Jeff Bezos. Porque, evidentemente, tudo que a Charlize
[00:47:07] Teron quer é um ex-nerd que resolveu tomar bomba pra ficar aparecendo um cosplay de Van Diesel,
[00:47:16] né? É o que ela precisa, na verdade, dela pra ser feliz.
[00:47:18] É o que falta pra Charlize.
[00:47:20] É o que falta. Charlize tá pobre, Charlize tá na miséria, ela tá passando fome e ela precisa de um
[00:47:25] marido bilionário bem horroroso pra ser feliz. Mas, enfim, mas o ponto aqui é só que quem é essa
[00:47:30] galera que tá criticando Charlize chamando ela de invejosa? E quem é a galera que tá
[00:47:35] criticando o casamento e falando que o casamento é horroroso, mas não só porque ele é ostentatório,
[00:47:40] porque domina a cidade, mas também tem a crítica estética, né? A galera falando que ele é cafona,
[00:47:44] eles botaram um carpete cinza na cerimônia, tipo, é tudo um carpete cinza com cara de
[00:47:50] carpete de aeroporto, eles estão no meio de Veneza ao ar livre, tipo, nada faz sentido
[00:47:55] naquele negócio. Mas por quê? Por que o carpete cinza gera ódio e, ao mesmo tempo,
[00:48:00] o comentário da Charlize também gera ódio? Qual que é a clivagem? E eu sinto que é
[00:48:05] a galera que fica, como eu fico, com alergia ao carpete cinza, não são nem uns bilionários,
[00:48:11] é muito mais o que a gente identificaria, possivelmente, como a galera que se identifica
[00:48:15] como mais talvez, talvez mais intelectualizada ou mais, mas são, são árbitros do bom gosto,
[00:48:21] que é um lugar muito ruim também pra você estar, porque ele é elitista, mas ele é um outro
[00:48:27] tipo de elitismo, porque ao mesmo tempo, elitista é meu casamento, entendeu? Você
[00:48:31] em Veneza gastando meio bilhão. Então, da onde, qual que é a clivagem? Quem é a pessoa
[00:48:36] que se ofende, no entanto, em nome de Lauren Sánchez e Jeff Bezos quando houve a crítica
[00:48:42] ao carpete? É a pessoa que gostaria de casar em Veneza com esse carpete, mas que
[00:48:47] não vai casar em Veneza com esse carpete. Então, existe, de fato, uma união estética
[00:48:53] entre um segmento importante, eu acho, das classes médias e até, né, e os bilionários
[00:48:59] e alguém no meio, que eu acho que a gente pode identificar muito mal, maleporkamente,
[00:49:04] como uma espécie de elite intelectual, etc., que essa, assim, fica com a peste de elitista,
[00:49:09] apesar de não ser efetivamente a grande elite econômica. Isso é muito parecido
[00:49:14] com a construção política que a gente está vivendo, né? É isso, são os maiores
[00:49:18] bilionários do mundo, financiando campanhas políticas, que ficam chamando os artistas
[00:49:22] de elitistas. Muito eficiente, é realmente uma operação brilhante, eu até hoje não
[00:49:27] sei como que eles fizeram, mas é o que aconteceu. Exatamente isso, os vilões do mundo são
[00:49:32] pessoas que estão ganhando, que estão defendendo, que estão trabalhando. O artista
[00:49:36] está fazendo show de terça-domingo para defender o seu trocado e está lá sendo humilhado
[00:49:42] como o Jeff Bezos deveria estar sendo. Houve uma operação muito bem feita.
[00:49:46] O elitismo é cultural. Mas, diga, é porque tem uma coisa que… Exatamente,
[00:49:49] porque tem uma coisa que é isso que o Bruno falou e que você disse que eu acho que faz
[00:49:52] a esquerda ficou com pecha de ser o dono da verdade, de ser o dono da estética,
[00:50:00] de saber o que é bom, o que é ruim e de lembrar da burrice, da futilidade dos outros.
[00:50:06] Então, ficou num lugar de dono da sala, de professor, de monitor, de inspetor,
[00:50:11] de ser uma elite intelectual que diz o que é bom, que parece mais opressor do que a polícia,
[00:50:19] do que os bilionários, do que todos os verdadeiros donos do sistema. Então,
[00:50:24] eles se dizem vitimizados pelo woke, ou pela cultura do cansamento, seja o que for,
[00:50:29] tendo controle de todos os meios de opressão, de conexão, de comunicação,
[00:50:36] os meios financeiros, eles têm tudo, tudo, tudo. A única coisa que eles não têm é a
[00:50:41] consciência limpa. E a esquerda, por ter a consciência limpa, ela é culpada de ter a
[00:50:46] sinalização de virtude, a cultura do cancelamento, que a única coisa que a esquerda tem é olhar pra
[00:50:51] eles e falar assim, vocês são os merdas, isso que estão fazendo é uma merda. Aí os caras
[00:50:56] de repente falam, estou sendo oprimido, mesmo tendo todos os milhões nas contas,
[00:51:00] mesmo tendo todo o exército do lado, mesmo tendo tudo. Quem manda no país, segundo eles,
[00:51:05] é o woke, é a cultura dos sãos trans. Caralho, os caras são donos de tudo,
[00:51:09] eles são donos de tudo, tudo, tudo, tudo. Então é uma operação realmente muito louca,
[00:51:15] mas que deu certo. Eu concordo em parte, porque eu acho que tem uma dimensão aí, Greg,
[00:51:20] que não é simplesmente que a esquerda tem a consciência limpa e os caras ficam ofendidos
[00:51:24] com isso, porque muita parte da esquerda não tem consciência limpa, e peca, e ebrega a sua
[00:51:30] maneira. Mas o que eu acho que tem na frase da Charlize, que eu acho que pega muito fundo
[00:51:35] nesses novos bilionários, especialmente os bilionários tecnológicos, que é um tipo
[00:51:40] muito específico de gente, antes de ser rico, o jeito como eles construíram a sua mentalidade,
[00:51:47] baseada em Ayn Rand, mas principalmente em inadequação social, eles podem ter todo
[00:51:53] o dinheiro do mundo, eles nunca vão ser cool, eles nunca vão casar com a Charlize,
[00:51:57] eles vão casar com a mulher plastificada que acha isso legal. Então tem algo que
[00:52:02] eles nunca, que tipo classe não se compra. Então tem uma luta de classes econômica,
[00:52:09] mas tem uma luta de falta de classe contra a luta da classe, da classe da elegância,
[00:52:14] do bom gosto, que não tem a ver com dinheiro necessariamente, nem com bom gosto elitista,
[00:52:19] mas tem a ver com o fato de ter alguma coisa existencial, tem algum tipo de conforto na
[00:52:25] própria pele, que essas pessoas se ressentem muito. E é nesse lugar que eu acho que a
[00:52:30] ostentação merecia às vezes um outro nome quando ela se realiza dessa maneira do Jeff
[00:52:35] Bezos e do machinho da academia, que a gente vê. Ela é movida a uma outra coisa, que é uma
[00:52:43] tentativa de você se transformar ao ponto do irreconhecível, porque você vai tacando
[00:52:49] em cima de você símbolos de sucesso, de mudança do corpo, de óculos, da mulher. Vamos lembrar
[00:52:54] que a segunda mulher do Jeff Bezos não é a mulher que viu ele crescer na Amazon, que ficou
[00:52:59] com metade da fortuna dele e hoje é uma filantropa, que não aparece, que ninguém sabe
[00:53:04] de ela. Ele casou com a gente de Hollywood. A cara dela dá pra saber, e ela é maravilhosa,
[00:53:09] diga isso de passagem. Mas você vai saber se você tiver no mundo do terceiro setor. Dá pra dar um
[00:53:14] Google nela, mas você não sabe porque ela não tá no fuxico, não tá na home do Wall, nunca vai
[00:53:19] tá. E o ponto é, esses caras estão tentando comprar algo que o dinheiro não compra, mas que
[00:53:24] ele consegue realmente dominar a mídia, com essa exibição da fragilidade mesmo do ego
[00:53:32] e de uma série de outras coisas que eu acho que tá novamente bem distribuída na sociedade,
[00:53:38] porque falta de classe também é bem distribuída. E o louco que você falou que a esquerda tem esse
[00:53:44] lugar. Eu acho que muitas vezes o ódio à esquerda, que muita gente sente, não é pelo
[00:53:49] lugar moral que a esquerda ocupa. Às vezes é pelo lugar moralista, e aí você tem razão,
[00:53:55] mas eu acho que às vezes é pelo lugar estético e cultural mesmo. Eu acho que grande
[00:54:00] parte da raiva que as pessoas têm da esquerda é porque eles enxergam um código de vocabulário,
[00:54:08] de roupa, de música, de jeito de ser, que cria uma sonância e aumenta a consciência da própria
[00:54:15] inadequação dele. E é isso que eu acho que deixa as pessoas, que deixa gente como o Jeff Bezos,
[00:54:19] muito louco. Por isso que o cancelamento pra esses caras é tão importante, porque volta
[00:54:24] no âmago da alma deles aquele cuecão que ele tomava na escola, aquela rejeição social
[00:54:30] que ele sempre sentiu quando ele era simplesmente o nerd na garagem tentando fazer uma livraria, sabe?
[00:54:36] Eu falei que dá pra ver com a cara da Mackenzie Scott. Desculpa, tá? Porque eu realmente fiquei
[00:54:41] obcecada com esse assunto. E a gente vai fazer, a gente vai transformar a fofoca em sumos pra uma reflexão maior.
[00:54:46] Eu concordo com o que o Bruno tá falando, mas eu só queria apontar uma coisa. A ex-mulher do Bezos é
[00:54:50] uma mulher chamada Mackenzie Scott, que ficou casada com ele quase 30 anos, teve quatro filhos,
[00:54:55] e de fato casou com ele muito antes de ele ficar rico. Então ela casou com o nerd,
[00:54:59] casou com o milionário. Ela é a pessoa que se apaixonou por um nerd, cientista da computação,
[00:55:04] maneiro, assim, não sei se maneiro, mas sabe, que devia ser mais interessante do que o homem que
[00:55:09] ele se tornou. O verdadeiro Jeff Bezos. Porque também tem isso, o próprio Bezos esteticamente
[00:55:13] passou por uma transformação, né, que eu mencionei um pouco antes. Ele virou esse,
[00:55:16] como o Zuckerberg também passou, com a correntinha. Como o Elon Musk passou. O Elon Musk
[00:55:22] ele tava ficando calvo no fim dos anos 90, gente. Então assim, acho que a gente não pode
[00:55:26] contar que também tem uma crise de meidade dessa galera, entendeu? Eles também estão passando por sua
[00:55:30] própria loucura, só que com muitos bilhões pra gastar. Então se o americano de classe
[00:55:34] média alta, quando tem uma crise de meidade, ele vai comprar um carro, um esporte, o Jeff Bezos,
[00:55:38] sei lá, entendeu? O que ele quer comprar? O que ele quer comprar? Comprou um iate de meio bilho?
[00:55:40] Marte. Mas a Mackenzie Scott, depois que ela se separou do Bezos, ela abriu uma filantropia
[00:55:46] enorme e falou que ela ia doar todo o dinheiro que ela recebeu no divórcio,
[00:55:49] que são muitos e muitos bilhões. De fato, acho que até a última contagem,
[00:55:52] ela já tinha doado mais de 20 bilhões de dólares. E ela doa rápido, e doa muito,
[00:55:57] e doa de um jeito muito legal, com muita confiança em quem ela doa e tal. Pra organizações muitas
[00:56:02] que trabalham com temas que o Jeff Bezos jamais apoiaria. Então organizações feministas,
[00:56:05] organizações que trabalham com questões de raça, com questões de direitos indígenas.
[00:56:09] É muito bonito, assim. Mas aí no meio dessa confusão de casamento, Mia Farrell fez um
[00:56:14] post elogiando Mackenzie Scott, que viralizou. E o Instagram da Mackenzie Scott só tem uma foto,
[00:56:20] porque ela realmente não é uma pessoa de aparecer. Ela não gosta disso. E aí as pessoas começaram
[00:56:25] aí no Instagram dela, nessa uma foto, comentar, entendeu? Você é maravilhosa, te amamos. Você
[00:56:31] que é gata, a outra hora. Maior que Lauren Sánchez. Mas aí, a história, que é uma
[00:56:36] história muito mais interessante do que isso, no final também, o que a galera quer ver é a
[00:56:40] rivalidade entre essas duas mulheres, que nem existe, até onde a gente sabe. Porque Mackenzie
[00:56:45] Scott está ótima. Ela casou com o ex-professor de física dos filhos dela,
[00:56:49] da escola dos filhos, que parece que é um cara muito maneiro. Ela casou com o nerd que ela achou.
[00:56:54] Ela tem tesão em nerd mesmo. Ela casou com outro nerd. Ela gosta do nerd fofo. E ela foi lá ser feliz,
[00:56:59] entendeu? Mas querem encontrar uma… E quando, na verdade, não existe. Enfim, tudo isso pra dizer
[00:57:04] que eu acho que a clivagem… Eu concordo com o Bruno totalmente. Eu não acho que é moral,
[00:57:08] eu acho que é estética, mas eu acho que ela acaba tendo significados que também têm
[00:57:14] Só que não é uma divisão de classe, uma visão de luta de classes, portanto, clássica marxista.
[00:57:20] E é por isso que ela é desafiadora. É uma visão mais nuançada.
[00:57:24] É de falta de classe. Contra classe. É uma visão que tem mais nuances, assim,
[00:57:28] e tem muito mais a ver com os horizontes estéticos, as aspirações, as expectativas
[00:57:33] das pessoas, do que a realidade material no qual elas se inserem. Eu acho que aí está o
[00:57:38] limite da análise marxista pra entender esse mundo e até a possibilidade de luta de classes
[00:57:43] no mundo. Que é, você pode estar vivendo fodido, entendeu? Em condições materiais muito difíceis,
[00:57:48] muito penosas mesmo, precarizados, sem estabilidade. Mas você se identifica mais com o agro-brasileiro,
[00:57:55] ou com o Jeff Bezos, do que com alguém que talvez, do ponto de vista material,
[00:57:59] tá muito mais próximo de você, mas que tá buscando uma outra estética. Que é menos a
[00:58:03] estética da ostentação, do camarote, do champanhe, da bebida que pisca. Porque o
[00:58:09] do Jeff Bezos, gente, foi um grande bebida que pisca, cheio de bomba, entendeu?
[00:58:14] Balneário de acamboriú, gente. Foi BC, exatamente. Estética balneário. E essa pode ser a estética
[00:58:20] que você aspira, ou você pode estar aspirando uma outra coisa. E aí o que isso me faz lembrar,
[00:58:24] de uma coisa que eu também queria comentar, que é a entrevista recente que Lula deu pro Mano
[00:58:27] Brown. Vocês viram essa entrevista? Lula no Mano Brown? Confesso que não. Greg, viu Lula no Mano
[00:58:32] Brown? Nova não, eu vi aquela. Não, ele deu uma agora. Vale a pena assistir. É uma boa entrevista,
[00:58:38] outro que ele fala coisas que não são a melhor maneira de colocá-las, mas eu não vou me alongar
[00:58:42] sobre isso, que acho que não é o foco aqui. Mas tem um momento em que ele fala a coisa mais
[00:58:46] bonita que o Lula fala, que o Lula fala besteira, ele fala coisas que me deixam irritadíssima,
[00:58:50] tem milhões de coisas assim. A coisa mais bonita é quando ele volta pra missão dele de vida
[00:58:55] um pouco, né? Quando ele reitera aquilo que eu acho que é o coração da mensagem dele,
[00:59:00] desde sempre, e é onde ele tem força também, de simbólica e de missão. Que é quando ele
[00:59:06] fala que o que ele quer fazer é fazer com que as pessoas tenham três refeições por dia, com que
[00:59:10] elas não vivem na pobreza, né? Esse discurso que é um discurso que eu sinto muito sincero nele,
[00:59:14] e que de fato foi onde ele botou boa parte do capital político dele, né? Foi olhando pra isso,
[00:59:19] por mais que se critique ou se traga outras coisas que podem complexificar essa visão.
[00:59:23] Mas na hora que ele explica pro Mano Brown a visão hoje, ele fala, eu não vou saber as
[00:59:29] exatas palavras, mas ele volta pra uma visão que é, eu quero que as pessoas tenham o mínimo
[00:59:33] necessário pra viver com dignidade. E parte da transformação do próprio eleitorado do Lula,
[00:59:39] na minha avaliação, é que essa visão do mínimo necessário pra se viver com dignidade,
[00:59:43] que é linda e fundamental, porque muita gente não tem o mínimo necessário pra se viver
[00:59:49] com dignidade, mas ela não é mais o horizonte nem estético, nem de aspiração política da
[00:59:55] maior parte desse eleitorado. A pessoa não tá mirando no mínimo necessário pra viver
[00:59:59] com dignidade, ela não tá nem mirando numa vida de classe média, que é mais do que o mínimo
[01:00:03] necessário pra viver com dignidade, ela tá mirando no Bezos, ela tá mirando em Balneário
[01:00:08] Camboriú, o sonho é Las Vegas, entendeu? É o cassino, é o camarote, é a festa,
[01:00:14] é outra coisa. E eu acho que essa desconexão de horizonte, ela explica em grande medida a
[01:00:20] crise de popularidade do Lula e a própria dificuldade de se desenhar uma nova base social
[01:00:27] no Brasil, pra esquerda trabalhista no Brasil, em uma nova base eleitoral mesmo.
[01:00:31] Não, acho que totalmente. Tem uma questão aí que é muito irônica, que quanto mais o mundo
[01:00:37] fica materialista do ponto de vista filosófico, menos o materialismo histórico funciona pra gente
[01:00:44] produzir consciência de classe. Tem uma coisa muito foda aí mesmo, que o materialismo histórico
[01:00:49] funciona quando a sociedade tá muito menos materialista, muito mais orientada por algum
[01:00:55] aspecto moral do que por um horizonte meramente dos símbolos materiais de realização individual
[01:01:02] e coletiva. Olha aqui a citação, as aspas do Lula, de fato, ele fala assim, minha obsessão agora,
[01:01:07] pro Mano Brown, minha obsessão agora, além de tentar fazer com que o pobre deixe de ser pobre e
[01:01:12] passe a ser um cidadão de classe média, é que ele tenha direito àquilo que é o mínimo
[01:01:16] necessário para sobreviver, do ponto de vista de alimentação, vestimenta, vestuário,
[01:01:20] escolaridade. O que nós temos que fazer enquanto governo? Nós precisamos saber que temos
[01:01:24] que trabalhar com a sociedade brasileira, levando sempre em conta que queremos governar
[01:01:28] para as pessoas mais necessitadas. E aí ele segue. E é muito bonito, por um lado,
[01:01:32] mas eu não sei o quanto que isso tem eco mais, sabe? Essa visão do mínimo necessário para
[01:01:39] sobreviver do ponto de vista de alimentação, vestimenta, vestuário, escolaridade, quando o
[01:01:43] sonho do outro lado é eu vou ser um empreendedor milionário, eu vou ganhar muito dinheiro com
[01:01:47] bet, coach e esquema de pirâmide. Acho que tem bastante disso, porque eu tenho a sensação
[01:01:52] que a dignidade do mínimo é indigna para muitas pessoas, que o aspiracional é outro,
[01:02:00] ele precisa se realizar. E aí que tá, não quero voltar demais em rede social porque eu
[01:02:06] não acho que explica tudo, mas eu acho que mesmo tem uma questão muito importante que o
[01:02:10] Jeff Bezos e esses caras todos representam, do mesmo jeito que o Varo Fax disse que o que
[01:02:15] o Bezos criou é muito mais perigoso do que o Elon Musk, que ele fala que ele é o Cloud
[01:02:20] capital da própria nuvem, que é isso que ele estava falando antes, não tem bastilha, tá tudo em uma
[01:02:26] nuvem, você não sabe o que derrubar para derrubar a Amazon. Mas eu acho que tem um cloud pessoa
[01:02:32] mesmo, tem um cidadão na cloud, que ele só se realiza com alguma dignidade através de algum
[01:02:40] tipo de ostentação, através da publicização de certos símbolos, de certas marcas, de
[01:02:46] outras coisas. E tem uma coisa cultural muito importante nisso, porque eu acho que quem é da
[01:02:50] cultura, quem se diz da cultura, muitas vezes é muito viciado em entender cultura como o
[01:02:56] conjunto das artes. Você é da cultura porque você é do teatro, você é da literatura,
[01:03:00] você é da fotografia e tudo mais. Mas o que eu acho que o que o Jeff Bezos e muita
[01:03:05] gente tá fazendo sem com que a gente perceba, é uma expressão cultural muito profunda quando
[01:03:11] ele entende que a própria construção do perfil e da ostentação e da sua persona
[01:03:17] midiática é uma construção cultural muito contemporânea. É um trabalho de expressão mesmo
[01:03:22] que as pessoas têm hoje em dia quando elas se constroem para fora, já que não existe muito
[01:03:28] mais contexto para as expressões artísticas que a gente conhecia como cultura antes. Então
[01:03:32] acho que tem uma outra dimensão aí super importante mesmo, que por isso que estética
[01:03:36] tão tão importante nas expressões de ostentação, porque é como as pessoas se vêm representadas
[01:03:42] do mesmo jeito que a gente se via representada por uma banda há 20, 30 anos atrás.
[01:03:47] Claro, e aí quando entra a esquerda e diz que a crise é estética, nossa eu odeio
[01:03:51] essa frase, tem uma esquerda dona da estética falando essa crise é estética, falando
[01:03:55] uma coisa feia de alguém de direita, não. É, você tá chamando a pessoa de
[01:04:00] new money, eu que sei o que é bonito, você nunca vai saber porque você vai
[01:04:04] ser pobre. E tem um uso, só falar de um cara que eu adoro que eu já falei muito tempo
[01:04:09] atrás que não calmo gente, nunca mais trouxe ele, que é o Michael O. Church, que é um cara que
[01:04:13] é um programador, ele não é nem sociólogo, né, um programador desenvolvedor de games e um
[01:04:17] puta programador assim nerd, mas que tem um vídeo, um texto que viralizou na época
[01:04:22] de blogs, antes até do Twitter, mas que até hoje ele volta às vezes que é o
[01:04:27] Three Letter System ou sistema das três escadas. Ele tem uma visão de sociedade
[01:04:32] interessante, ele vê a sociedade entre três escadas, assim né, três maneiras, ou você sobe aqui, ou você sobe aqui, ou você sobe aqui.
[01:04:38] Uma delas é o capital, se você nasce com capital, em geral você vai ter capital, são os
[01:04:42] herdeiros, eles chamam a elite capitalista. Outra é de quem faz o trabalho intelectual da sociedade,
[01:04:48] tipo assim, é uma galera que tá junto, tá os artistas, tá a cultura, tá os professores também, tá todo mundo que
[01:04:53] trabalha com esse trabalho intelectual, assim que eles chamam de eduqueiro, gentry ou a nobreza
[01:04:58] intelectual, ele fala, ele assume, eu pertenço a essa daqui, ele é programador, ainda assim, ele
[01:05:03] pertence ali. E tem um labor, trabalhista, galera do trabalho, cujo valor é o trabalho.
[01:05:08] Se você começa aqui no trabalho, dificilmente você vai migrar pra elite financeira, não vai, você vai trabalhar
[01:05:13] até o fim da vida, pode ficar rico, mas você vai trabalhar, você vai ficar nessa escada, por isso que eles dizem que são
[01:05:18] três escadas diferentes. E o que ele fala é que existe uma guerra entre escadas, sobretudo
[01:05:22] entre a galera da elite e do trabalho intelectual, e existe um trabalho muito bem feito
[01:05:27] nessa escada da elite, nessa turma dos detentores do capital, existe um trabalho consciente muito bem feito
[01:05:33] de fazer o trabalhador acreditar que o inimigo dele é aquele que faz o trabalho intelectual,
[01:05:38] então ele pega o trabalhador braçal e diz assim, o inimigo é esse daqui, eles é que são, e aí incute preconceito
[01:05:44] ou pega preconceitos já existentes, como por exemplo a homofobia, pra dizer, esses caras são os viados
[01:05:49] que querem transar com o teu filho, umas coisas assim, uns maconheiro querem dar droga pra tua filha,
[01:05:55] são os caras que querem comer a sua esposa, porque eles são poligâmicos, sei lá, aí os caras vão usar, ou na Europa
[01:06:01] vão falar de xenofobia, esses caras que estão trazendo os árabes, então tem uma peste aposentona
[01:06:06] francesa, existe preconceito com árabes gigantes, mas também existe um preconceito com uma esquerda
[01:06:11] que eles chamam de islamogostista, de uma esquerda islâmica, só porque diz que tem que calma aí
[01:06:17] também, tem que acolher, tem que entender, tem que pelo amor de deus, os caras não são doentes
[01:06:22] porque a pessoa é muçulmana, que ela é terrorista, quando a esquerda diz coisas básicas, eles vem e chamam-se
[01:06:27] esquerda islâmica, pra que? Pra alienar a esquerda de uma parte do trabalhador braçal e tal, então acho
[01:06:36] interessante essa maneira do Michael Lowe Church de pensar como em três escadas, como existe uma
[01:06:40] operação muito bem sucedida de botar a classe trabalhadora contra os produtores de, pensa-me,
[01:06:46] uma elite cultural, entre aspas, que não é elite o termo, contra os trabalhadores da cultura, né?
[01:06:51] Basicamente isso é uma operação de botar os trabalhadores contra a cultura, sim, e é muito bem
[01:06:57] sucedido, dá certo, e acho que é isso que nos colocou aqui onde a gente tá, sabe? As pessoas, elas
[01:07:03] odeiam as pessoas erradas, porque se tem alguém que não tá oprimindo, hoje é a classe artística, não tá
[01:07:11] até gostaria de oprimir um pouquinho, mas aí que tá, a gente tem que acreditar na voz do oprimido,
[01:07:19] Greg, e quando uma pessoa se sente oprimida, não, mas é verdade, se a gente dá voz, se a gente
[01:07:24] defende os oprimidos, a gente tem que pelo menos ouvir o argumento de quem se sente oprimido
[01:07:28] pela elite cultural, porque tem um lugar de opressão, que eu acho que é nessa opressão do capital
[01:07:36] social pra fora, porque antes a cultura, quando a gente supostamente achava que eram mais admirados,
[01:07:43] tinha um lugar mais respeitado na sociedade, eu não acho que porque tava num lugar do mistério,
[01:07:47] mas eu acho que a expressão pública era uma atividade de pouca gente, o jornalismo, né?
[01:07:53] Eu sempre falo isso quando eu falo sobre minha profissão e o que que mudou nela nos últimos
[01:07:57] 20 anos, é que comunicação social era curto superior, gente, entendeu? Era um tipo de gente
[01:08:05] que conversava com o público, sendo, pode ser escrevendo, editando, falando e tal, mas era uma
[01:08:10] atividade muito restrita, e a cultura também, né? E acho que o que aconteceu nos últimos anos
[01:08:14] é que todo mundo agora é um comunicador social, e talvez mais importante, todo mundo se expressa
[01:08:21] na sua individualidade, que é algo que a gente simplesmente contemplava antes nos artistas,
[01:08:27] a gente admirava a autenticidade de outras pessoas, porque a nossa não tava em cheque,
[01:08:32] mas agora todo mundo é disputa, o mesmo palco, e aí quem faz isso bem, oprime você,
[01:08:38] porque você se sente menos talentoso, mais inadequado, mais feio e por aí vai.
[01:08:43] Isso é interessante mesmo, Bruno.
[01:08:44] Então eu acho que tem muito disso, assim, oprime mesmo.
[01:08:47] E ao mesmo tempo, Bruno, elas não têm acesso à cultura que tá sendo produzida,
[01:08:51] e existe um outro problema que é também esse, por exemplo, Portugal, talvez não odeiem tantos
[01:08:56] artistas de teatro, porque toda toda cidade em Portugal tem um puta teatro legal, sabe,
[01:09:01] no interior do Alentejo, um puta teatro lindo, com teatros a 4 ou 6 euros, pra pessoa ver,
[01:09:07] porque são subvencionados e tal, e a pessoa não vai odiar teatro, porque ela vai ver,
[01:09:12] e porque ela gosta do artista, ela tem uma relação com o artista que ela vai ver e consome,
[01:09:15] tá mais próximo da vida das pessoas, e a maioria das artes no Brasil, a não ser a música,
[01:09:20] que é muito popular, ela não tá perto da população, não existe, e segue não existindo,
[01:09:26] inclusive agora, no governo Lula, uma grande expansão, por exemplo, das salas de espetáculo,
[01:09:31] um projeto mesmo, como houve no Gilberto Gil, os pontos de cultura, sabe, um aumento mesmo da
[01:09:38] penetração dos projetos, dos subvencionados e incentivados, numa maior penetração delas,
[01:09:44] nas classes populares, então teatro, por exemplo, segue sendo uma coisa pra muito
[01:09:48] poucos, a maioria das cidades do Brasil não tem um teatro, isso é uma loucura do Brasil,
[01:09:53] cara, cidades com mais de 100 mil habitantes, não tem um teatro, assim, é uma loucura mesmo,
[01:09:58] um teatro, porque eu não digo só pra fazer teatro, eu digo pra fazer música, eu digo pra fazer um
[01:10:02] encontro com o que for, sabe, que o teatro é também um lugar que a cidade se encontra,
[01:10:06] uma palestra, não há salas, uma palestra, vai alguém, vai receber um, alguém, um vídeo,
[01:10:11] uma coisa, a peça de final de ano, livraria, não há, não há uma livraria, Araguaria,
[01:10:17] uma cidade que eu adoro, tá, vem da Jovana, família da Jovana, incrível, não tem uma
[01:10:22] livraria, tem 150 mil habitantes, não tem uma livraria, tem um teatro que ainda hospedaço,
[01:10:26] não tem nada, não tem, cento e tanto mesmo, e é uma falta de política cultural disso mesmo,
[01:10:31] porque nos países que tem livraria, não é que as pessoas estão comprando livro enlouquecidamente,
[01:10:35] é que são comércio subvencionados pra darem certo, porque são comércio que tem uma função
[01:10:41] social muito importante, e o Brasil parece que não acredita nisso, na função social da
[01:10:47] cultura, e aí eu acho que o paradoxo é esse, por não acreditar, por não tornar a cultura
[01:10:53] uma população, a população culpa a cultura por estar longe dela, e culpa os artistas por serem
[01:10:59] alienados, mas na verdade é justamente porque não há presença deles incentivada pelo governo,
[01:11:03] mas enfim, caramba, fomos longe né, com esse papo.
[01:11:05] Eu ia falar que a fofoca ela é um insumo eterno, a gente pode ficar aqui até amanhã.
[01:11:10] A gente fofocou pouco, fofocou pouco. Como fofocou pouco? A gente não falou nem da lista de convidados,
[01:11:15] a gente não falou que tem um boato de que Tom Brady foi meio visto paquerando a Sydney
[01:11:19] no casamento do Jeff Bezos.
[01:11:21] Bruno, mas essa é uma fofoca que tem relevância, a gente pode extrair algo? O que isso quer dizer?
[01:11:28] No próximo Calma Urgente, a gente vai falar sobre a aderência estética de um modelo de masculinidade
[01:11:34] que foi rompido quando a Gisele Binchen pediu a separação do Tom Brady, como ele reconstró isso
[01:11:40] com a paquera com a Sydney e a Sydney em Veneza, que é a cidade dos grandes mecenas que fizeram
[01:11:46] a transição da Idade Média pro capitalismo. E foi em Veneza, né?
[01:11:50] Foi em Veneza, gente, Veneza.
[01:11:52] E eu me pergunto se no futuro essa estética do Bezos vai ser vista como algo culturalmente
[01:11:59] representativo de uma época e vai ter a sua beleza, porque eu acho que a galera
[01:12:03] medievalista devia achar a Veneza breguíssima por conta da ostentação que foi criada
[01:12:08] pelos grandes capitalistas que ali moravam, né? O tamanho dos palácios. Veneza era ostentação
[01:12:13] Pugna, né?
[01:12:14] O Marshall Salles fala que a Renascença, o Renascimento era um bando de gente barrense,
[01:12:19] fazendo coisa neoclássica. Era uma galera que tava imitando, era o bando de Gustavo
[01:12:22] Lima, os artistas de Renascentista, tá? É claro, eles faziam aquilo com um grande…
[01:12:27] O Marshall Salles fala isso, tá?
[01:12:29] Eu adoro esse texto dele, ele fala sobre a invenção da tradição e ele diz
[01:12:32] que a gente cultua a Renascença, era um bando de gente neoclássica imitando
[01:12:36] o grego e romano e tal. Quando fazem isso no Terceiro Mundo, a gente diz
[01:12:41] que é cafona, mas quando faz na Itália é a Renascença.
[01:12:44] Não sei.
[01:12:45] Achei animado.
[01:12:46] Os próprios Médici lá que fizeram, todos, grandes capitalistas, pelo menos eles tinham
[01:12:50] uma diferença, que eu vou dar crédito pra eles em relação ao Jeff Bezos. Eles
[01:12:55] financiavam os artistas e não os exploravam como faz o Jeff Bezos, o Daniel Ecke, o
[01:13:02] Zuckerberg, né? Eles não ganham como intermediários do artista e o público,
[01:13:09] porque eles pelo menos financiavam o Michelangelo da vida, mas enfim, coisa que nem isso o Jeff Bezos faz.
[01:13:16] Não, e não é só isso, né? Eu não sei se dá pra comparar as duas coisas,
[01:13:19] porque não existe uma estética dessa galera do Jeff Bezos e companhia que se
[01:13:25] realiza de fato no mundo para além da estética deles próprios. É muito
[01:13:29] centrado neles, então não é um projeto, não tem nem assim um projeto estético
[01:13:33] de comunidade, ou de comum, ou de como que a gente… É eles, é o iate deles,
[01:13:39] é o carro deles, é só consumo individual. Então não acho que é comparável, entende?
[01:13:44] Mais ou menos, né? Porque quando eles vão pra coletividade, a coisa fica ainda pior, né?
[01:13:48] Porque quando você vê o projeto coletivo do Elon Musk, do Peter Thiel e tal,
[01:13:53] eu meio dou graças a Deus que o Jeff Bezos não tá tentando novamente construir
[01:13:57] a nova humanidade, porque quando esses caras vão, a coisa fica até mais
[01:14:02] delicada quando eles tentam fazer algo para a humanidade. O cara doa 250 milhões
[01:14:07] pra campanha do Donald Trump, então também não é muito desejável.
[01:14:11] Justo.
[01:14:11] Tristíssimo. Meu Deus do céu. Então é isso, com essa nota melancólica,
[01:14:16] nos despedimos, querem citar algum livro? E aproveitando que estamos
[01:14:20] chegando ao fim da live pra dizer que nosso Clube do Livro do Segundo
[01:14:23] Semestre já está aberto para inscrições, então não deixe de se inscrever lá.
[01:14:27] E você que fez o primeiro semestre adorou, você que não fez o primeiro
[01:14:31] e gostaria de ter feito essa sua chance, se inscreve lá, porque é o Clube do Livro
[01:14:35] que financia esse podcast Calmo Urgente, mas é também um lugar em que a gente se encontra,
[01:14:40] discute, lê junto, vamos ler livros incríveis, já começava pelo David Graber,
[01:14:45] Divida, um livro que explica um monte de coisa, é um catatal que vai ser
[01:14:49] muito gostoso de ler junto, então entre no Clube do Livro do Calmo Urgente,
[01:14:53] toda quarta-feira às 9 horas a gente se encontra lá. Venha agora mesmo,
[01:14:59] hoje amanhã vamos ter uma convidada no Clube do Livro, só pra quem estiver lá,
[01:15:02] que é Inaê Lopes dos Santos, maravilhosa autora do Racismo Brasileiro Livro,
[01:15:07] e é uma pessoa incrível, vocês vão adorar conversar, só pra quem tá no Clube do Livro.
[01:15:12] Então venha você também pro nosso Clube do Livro do Calmo Urgente.
[01:15:16] E vocês têm algum livro pra indicar falando nisso?
[01:15:19] Eu não, eu tô relendo agora a Divida, então tem essa questão do Clube, né?
[01:15:25] A gente fica bem ocupado com as leituras agendadas agora.
[01:15:29] Não, acho que eu não tenho nenhuma dica, não.
[01:15:33] Depois a gente fala.
[01:15:34] Eu queria falar depois, mas aí a gente fala no outro programa,
[01:15:37] sobre uma banda que eu tô meio obcecando aí.
[01:15:39] Ah é? Uma banda? Fala, banda, qual é a sua banda?
[01:15:43] Nicap.
[01:15:44] Nicap.
[01:15:45] Ni?
[01:15:46] Ni, de joelho, cap, que é um… tudo junto.
[01:15:50] Nicap e a referência é bem radical, eles são do norte da Irlanda, são super conscientes.
[01:15:58] Ah, foram os caras que agora falaram sobre Gaza e tal?
[01:16:00] Que vem falando sobre Gaza há muito tempo e que a BBC censurou de transmitir o show deles em Glastonbury.
[01:16:06] E eu, por conta disso, fui entrar mais em contato com a banda,
[01:16:10] tô muito impressionado com o que eles representam, com a radicalidade do próprio discurso deles,
[01:16:17] mas com uma consciência, uma calma quando eles falam, quando dão uma entrevista,
[01:16:21] que você vê bem a qualidade do norte é irlandês, né?
[01:16:25] Tem uma história muito profunda, mas eles são muito ligados na tradição revolucionária do próprio Ira,
[01:16:31] do exército revolucionário irlandês.
[01:16:33] Então, esses dias, acho que hoje ou amanhã eu vou tentar ver o filme,
[01:16:37] que é um documentário ficcionalizado, que eles mesmo se interpretam,
[01:16:42] falando que o filme é muito bom e eu tô afim de ir assistir pra conhecer um pouco mais dessa banda,
[01:16:47] que eu tô muito impressionado e, pra mim, foi um alívio gigantesco,
[01:16:51] que é uma coisa que eu tenho, assim, obcecado, que já fui com música e tal.
[01:16:56] Eu sinto que a nossa geração tava girando em falso, sonhando baixo, focado em pop, em ostentação,
[01:17:03] quer dizer, uma cultura musical super ostentativa, que a gente falou muito pouco sobre isso,
[01:17:07] não falou nada sobre isso, mas acho que é um assunto em si,
[01:17:10] que é um alívio gigantesco ver uma banda indo pro auge do sucesso, shows lotados,
[01:17:16] puta de uma energia com essa qualidade discursiva, essa coragem absurda de poder do Nao Afirida,
[01:17:23] e não tá nem aí pra quem tá cancelando o show, censurando eles,
[01:17:26] os caras assim, revolucionários irlandeses mesmo.
[01:17:30] Que foda! E tem uma pauta de reunificação da Irlanda, né?
[01:17:34] Tem, eles estão botando pra quebrar, estão politizando muita gente jovem em relação a isso,
[01:17:38] eles estão fazendo algo muito precioso, que estão convencendo a juventude inglesa
[01:17:43] de que isso é o justo e o importante a ser feito,
[01:17:46] e estão educando muita gente branca sobre a Palestina,
[01:17:51] porque a Irlanda é especialmente pro Palestina porque ela foi ocupada violentamente
[01:17:57] por uma força colonizadora vizinha.
[01:17:59] Então eles fazem uma relação muito forte entre o exército israelense
[01:18:03] e as forças monarquistas que ocuparam a Irlanda por séculos.
[01:18:07] E as entrevistas são muito boas,
[01:18:09] e eles têm essa coisa que eles recuperam também o idioma irlandês, o gaélico.
[01:18:14] Então eles também fazem rap na língua original deles.
[01:18:19] Então é toda uma afirmação de identidade, é nacionalista, mas sem nacionalismo ufanista.
[01:18:26] Eles são pró-refugiados, eles são realmente de esquerda muito politizados,
[01:18:31] virando uma banda de massa.
[01:18:34] Virando a banda mais importante de Glastonbury, do Coachella.
[01:18:39] Vou assistir o doc, Bruno, porque eu vi que ele foi o indicado da Irlanda
[01:18:44] para o melhor filme estrangeiro ano passado.
[01:18:47] É um filme que foi muito bem falado, muito bem resenhado,
[01:18:50] mas muito mal recebido pelo establishment de Hollywood e tal,
[01:18:54] por conta das críticas evidentes que eles fazem.
[01:18:57] Então é muito legal.
[01:19:01] A música em si, eu não sou particularmente fã, mas a energia e o que eles representam,
[01:19:07] eu estou realmente achando que eles são a banda mais importante do mundo hoje,
[01:19:11] e estou muito a fim de entender mais.
[01:19:14] Legal. Eu não tenho nenhuma recomendação,
[01:19:16] mas eu queria deixar aqui uma recomendação para a gente de pauta.
[01:19:19] Acho que também tem a ver, para o público poder acompanhar,
[01:19:21] precisa assistir essas coisas.
[01:19:23] Tem uma vertente dessa discussão sobre estética de bilionário,
[01:19:26] que é a presença massiva de estética de gente rica no audiovisual,
[01:19:29] sobretudo na televisão, no streaming.
[01:19:31] Parece que agora você não pode assistir mais nenhuma série
[01:19:33] que não seja sobre pessoas muito ricas fazendo riqueces.
[01:19:36] Então é White Lotus, desde Big Little Lies, mas assim, é White Lotus.
[01:19:40] Agora Netflix tem uma chamada Sereia e Sirens,
[01:19:43] que são umas mulheres ricas também, Mima Lucas com a Julianne Moore.
[01:19:46] Aí a própria continuação do Sex and the City virou só uma coisa
[01:19:51] de pornografia de riquez em Nova York.
[01:19:53] Mountain Head.
[01:19:55] E alguns são mais mordazes, tem uma crítica talvez,
[01:19:58] uma coisa mais satírica, outros menos.
[01:20:00] Mas alguma coisa aconteceu com a estética da televisão
[01:20:02] que existe uma obsessão com o mundo dos ultra ricos.
[01:20:05] E até quando existe uma proposta de crítica,
[01:20:07] que é o caso de White Lotus, eu sinto que ela está se perdendo,
[01:20:10] ela está se diluindo.
[01:20:12] Essa terceira temporada de White Lotus já teve um monte de patrocínio de marca
[01:20:16] e já virou uma outra história.
[01:20:18] Então, não sei.
[01:20:20] Acho que a gente pode discutir isso aqui no Calma,
[01:20:22] mas sugiro que a nossa audiência assista algumas dessas coisas
[01:20:24] para a gente poder conversar junto com o público.
[01:20:27] Então, tem Mountain Head, que é recente,
[01:20:29] tem a terceira temporada de White Lotus, que acabou agora recentemente também
[01:20:32] e assim por diante.
[01:20:34] E agora começou a nova temporada de Gilded Age,
[01:20:36] que são os ricos fazendo riquezes em outros tempos.
[01:20:38] Isso não dá para ver.
[01:20:40] É do mesmo criador do…
[01:20:42] Downton Abbey.
[01:20:44] É a cultura pop processando de alguma forma,
[01:20:48] não sei se de uma forma muito protetiva, eu acho que não,
[01:20:51] mas esse tempo de aumento brutal das desigualdades.
[01:20:56] Como fenômeno cultural.
[01:20:57] Caralho.
[01:20:58] Exatamente.
[01:21:00] Falaremos mais disso com certeza.
[01:21:02] A gente pode falar de música e filmes numa hora
[01:21:04] para não ficar falando de casamento.
[01:21:06] Casamento.
[01:21:07] De calvo insegura.
[01:21:08] É isso. Um beijo, gente.
[01:21:10] Um beijo. Até mais.
[01:21:11] Até semana que vem.
[01:21:12] Ou até quarta, se você estiver no Clube do Livro.
[01:21:15] Beijo, turma.
[01:21:16] Até já.
[01:21:20] O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções.
[01:21:24] Na apresentação temos Alessandra Orofino Gregório do Vivier e Bruno Torturra.
[01:21:29] Na coordenação de produção, Carolina Foratini e Greja.
[01:21:33] Na edição, captação e mixagem, Vitor Bernardes.
[01:21:37] Na sonoplastia, Filipe Croco.
[01:21:40] Nas redes sociais, Teodora do Vivier e Bruna Messina.
[01:21:44] E no design, Pedro e Noe.
[01:21:54] Obrigado.