Marco Nanini: solidão, traições e o poder da arte
Resumo
Em um episódio gravado ao vivo no Teatro Moise Safra, as apresentadoras do Mamilos, Juliana Wallauer e Cris Bartos, recebem o ator Marco Nanini e o ator Cadu Libonatti para uma conversa profunda sobre a peça “Traidor” e temas existenciais.
A conversa começa explorando as infâncias dos convidados e como a criança interior permanece viva no ofício do ator, que é essencialmente “brincar de faz de conta”. Marco Nanini reflete sobre como o encantamento com rituais, como a missa católica, despertou seu interesse pela performance. A discussão avança para a longevidade das parcerias, tanto profissionais quanto pessoais, com Nanini destacando a importância da empatia, humildade e adaptação para construir relações profundas e duradouras.
Os participantes mergulham em questões contemporâneas, como a epidemia de solidão, a medicalização da vida e a erosão da atenção na era digital. Nanini defende a solidão como um “tempero bem forte” e um “dendê danado” que permite reflexão e afloramento de emoções. A arte é colocada em discussão como um espelho da sociedade, com o teatro sendo capaz de dar conta das angústias humanas quando feito com intenção genuína. A conversa também aborda as complexidades da mentira e da traição, questionando se é pior trair os outros ou a si mesmo, e como a mentira pode ser uma ferramenta social.
Por fim, Marco Nanini, refletindo sobre seu longo aprendizado em envelhecer, compartilha palavras de sabedoria para as apresentadoras, elogiando sua capacidade de reinventar e criar um podcast de sucesso. O episódio se encerra com uma reflexão emocionada sobre o que ainda os comove, desde a pureza de um gesto até a beleza da paisagem, reafirmando a emoção como um dom essencial para a vida e a arte.
Indicações
Pessoas
- Gerald Thomas — Diretor e autor da peça ‘Traidor’. Marco Nanini o descreve como um ‘esquisito muito bom’ com grande sensibilidade estética e preocupação com iluminação e movimento no palco, embora de temperamento ‘estranho do bem’.
- Irene Ravache — Atriz brasileira, avó de Cadu Libonatti. Cadu menciona o privilégio de crescer em um ambiente artístico ao seu lado.
PeçAs
- Traidor — Peça de Gerald Thomas que está em cartaz, com Marco Nanini e Cadu Libonatti no elenco. A peça é composta por fragmentos e discute temas como solidão, traição e o excesso de informação no mundo contemporâneo.
- Pterodátilos — Espetáculo mencionado por Cadu Libonatti como um dos que o marcaram na infância, com Felipe Hirsch, onde o palco se movimentava e os atores trocavam de personagem rapidamente.
- Um Circo de Quinze Filhos — Outra peça de Gerald Thomas mencionada por Marco Nanini, que destaca a sensibilidade do diretor para a estética, iluminação e locomoção dos atores.
Programas
- A Grande Família — Série de TV na qual Marco Nanini interpretou Linneu por 14 anos ao lado de Marieta Severo. É discutida a comparação com Os Simpsons e a construção do personagem Linneu como um agregador familiar ‘politicamente correto sem ser chato’.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Abertura e apresentação dos convidados — Juliana e Cris apresentam o episódio ao vivo do Teatro Moise Safra e chamam ao palco Marco Nanini e Cadu Libonatti. Os convidados são questionados sobre quem são “na fila do pão”, com Nanini dando uma resposta poética sobre solidão e Cadu se apresentando como ator da peça “Traidor”.
- 00:02:03 — A infância como base para a arte — Os apresentadores perguntam sobre a infância dos convidados e como ela serve de ferramenta para a composição de personagens. Cadu fala sobre crescer em um ambiente artístico, sendo neto da atriz Irene Ravache, e como a criança dentro de nós precisa ser preservada para o ‘faz de conta’ do teatro. Nanini relembra como se encantou com os rituais da missa católica, vendo na paramentação do padre uma performance que o fascinou.
- 00:05:25 — Parcerias longevas no trabalho e na vida — Juliana comenta as parcerias longas de Nanini, como com Ney Matogrosso, Marieta Severo e seu casamento de 38 anos. Questionado sobre como manter relações duradouras em um mundo descartável, Nanini atribui ao acaso e à construção de laços através da empatia, humildade e conversa. Ele enfatiza a importância de se adaptar e compreender o outro.
- 00:09:20 — Aprendendo a envelhecer e a naturalidade da vida — Juliana menciona que Nanini disse estar ‘aprendendo a envelhecer’. Ele reflete que sempre esteve envelhecendo, mas só tomou consciência disso recentemente, o que tornou o processo natural. Ele defende a observação do outro e a incorporação de seus sentimentos como forma de convivência, descrevendo-se talvez como um ‘romântico pragmático’.
- 00:11:28 — O que compõe um artista para além da técnica — Cris pergunta o que compõe um artista para além da memória, do texto e do físico. Nanini relativiza, dizendo que ‘artista’ é um rótulo como qualquer profissão. Ele fala sobre o uso do ponto eletrônico como uma libertação da pressão de decorar textos, exemplificando com Marília Gabriela e Fernanda Montenegro. A sabedoria, para ele, está em fazer o necessário para se sentir bem no ofício.
- 00:14:13 — A insegurança como tempero da profissão — Questionado sobre ainda sentir insegurança, Nanini a define como um ‘tempero’ essencial, que ajuda no raciocínio. Ele menciona que a análise (psicoterapia) é boa, mas já ‘encheu o saco’. Cadu complementa dizendo que uma pequena ansiedade antes de entrar em cena é o que mantém o ator vivo e alerta para o que está em jogo.
- 00:16:36 — Relação com a internet e a erosão da atenção — A partir de trechos da peça que citam tutoriais no YouTube, a conversa vira para a relação dos convidados com a internet. Nanini admite não saber mexer em redes sociais e prefere que alguém gerencie por ele. Cadu diz ter um algoritmo bagunçado e admitir um certo vício. Eles discutem a ‘epidemia de erosão da atenção’ e seu impacto no teatro. Nanini vê o silêncio da plateia como uma forma de atenção crucial para o mergulho na fantasia.
- 00:19:07 — Solidão como tempero e desafio contemporâneo — Outro trecho da peça fala da solidão medicada. Os apresentadores trazem a OMS declarando uma epidemia de solidão. Nanini defende a solidão como algo bom quando não é abandono, um ‘tempero bem forte’ que leva à reflexão. Cadu confessa ter dificuldade de ficar verdadeiramente só, sempre recorrendo ao telefone, e reflete sobre a ambiguidade de gostar e não gostar da solidão.
- 00:21:07 — O poder da arte e do teatro como espelho — Diante da frase da peça ‘a humanidade precisa de duas coisas, da arte e de um médico’, questionam o que a arte dá conta. Nanini responde que a arte é um espelho que pode estar em qualquer lugar, desde um desenho até expressões espontâneas. Para ele, o teatro ‘dá conta de tudo’, o problema é a população humana. Cadu acrescenta que a arte cumpre seu papel se chegar a pelo menos uma pessoa.
- 00:24:49 — Perspectivas sobre o Brasil e esperança — Perguntado se o Brasil tem jeito, Nanini responde que sim, citando as novas gerações que podem mudar os ‘podres’ ao olharem para os mais humildes. Cadu, se definindo como um ‘pessimista esperançoso’, concorda que a luta é árdua contra forças poderosas, mas conhece pessoas persistentes que dão esperança para o futuro.
- 00:29:34 — Reflexões sobre mentira, traição e lealdade — As apresentadoras trazem uma discussão recorrente entre elas: o que é pior, mentir para os outros ou para si? Nanini diz que a mentira pode ter vários papéis, bons ou ruins, dependendo do grau e da repercussão. Cadu vê a mentira como uma ferramenta social importante, usada para incentivar e apoiar, e brinca que a melhor parte de ser ator é poder mentir. A traição é vista por Nanini como uma ‘facada’, mas por vezes necessária como tempero.
- 00:34:02 — O que ainda comove os artistas — Questionados sobre o que os comove hoje, Nanini diz que ‘qualquer coisa pura, cristalina’ o emociona, desde um passarinho a uma pintura, definindo a emoção como um dom. Cadu cita vídeos de gente passando no vestibular ou voltando de viagem, e também se emociona com a beleza, como a vista do Rio de Janeiro ao chegar de avião.
- 00:36:47 — Palavras de sabedoria para tempos turbulentos — Juliana, celebrando os 10 anos do Mamilos, pergunta a Nanini, como sênior que passou por muitas transformações, que conselho ele daria para navegar em tempos turbulentos. Ele elogia as apresentadoras por terem inventado e reinventado um podcast de sucesso, criando sua própria situação através da convivência. Cadu, em sua ‘sabedoria’ de 31 anos, aconselha: ‘bebam água para caramba’, ‘viva a classe trabalhadora’ e ‘vão ao teatro’.
Dados do Episódio
- Podcast: Mamilos
- Autor: B9
- Categoria: News
- Publicado: 2025-07-02T12:57:29Z
- Duração: 00:42:35
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/8e5629f0-512e-0132-cf87-5f4c86fd3263/episode/f46d007c-0cd4-404f-9eb5-3fd6970b7de0
- UUID Episódio: f46d007c-0cd4-404f-9eb5-3fd6970b7de0
Dados do Podcast
- Nome: Mamilos
- Tipo: episodic
- Site: http://mamilos.b9.com.br/
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Transcrição
[00:00:00] Porque a solidão faz você pensar, a solidão faz você refletir sobre você mesmo,
[00:00:05] a solidão faz afluir em emoções que você, se tivesse em ação, não teria.
[00:00:10] Então, acho que ela é um tempero bem forte, um dendê danado, eu acho.
[00:00:16] Mamilos.
[00:00:24] Mamileiros e mamiletes, eu sou a Juvalava.
[00:00:26] Eu sou a Cris Bartos. Dá boa noite para o povo ouvir.
[00:00:31] Boa noite!
[00:00:33] O teatro é bom porque tem uma acústica boa, né?
[00:00:36] Esse é o Mamilos ao vivo, gravado direto do Teatro Moise Safra.
[00:00:41] E eu chamo agora ao palco o Marco Nanini e Cadu de Moraes.
[00:00:47] Boa noite.
[00:00:49] Boa noite.
[00:00:51] Marco Nanini, é um prazer recebê-lo, é uma honra, é um nervoso.
[00:00:56] É um pouco de cada coisa, porque é olhar um pouco para a história da arte no Brasil,
[00:01:03] poder conversar nesse momento.
[00:01:06] No nosso programa, há quase 11 anos no ar, a gente sempre abre fazendo uma pergunta.
[00:01:11] E eu vou ter que te fazer.
[00:01:14] Por favor, se apresente para os nossos ouvintes quem é você na fila do pão.
[00:01:21] Eu estou na fila do pão, do pau, da pedra, do fim do caminho.
[00:01:25] É aquele resto de touca, um pouco sozinha, etc.
[00:01:36] Cadu, você veio para acompanhar essa jornada toda,
[00:01:40] mas não só de acompanhante, também de atuante.
[00:01:43] Por favor, se apresente para os nossos ouvintes quem é você na fila do pão.
[00:01:48] Eu sou Cadu Libonatti, eu sou ator, eu faço parte do elenco,
[00:01:53] que tem mais três atores.
[00:01:55] Também da peça Traidor, com o Marco.
[00:01:57] O ofício de vocês é o de viver várias vidas, vidas diferentes e tal.
[00:02:03] Eu aprendi essa semana que a infância é um chão que a gente pisa a vida inteira.
[00:02:09] E como é que foi a infância de vocês e o que isso traz de ferramenta para vocês
[00:02:16] em cada personagem que vocês compõem, de riqueza, de repertório?
[00:02:20] Bom, a minha infância…
[00:02:22] Foi outro dia.
[00:02:25] Só 31 anos.
[00:02:26] Deve lembrar de tudo.
[00:02:28] Lembro de bastante coisa, lembro de bastante coisa, inclusive, ao seu lado, né?
[00:02:32] Porque eu tive o privilégio de crescer sempre perto do Marco,
[00:02:36] também da minha avó, que é atriz, então eu acho que a vida…
[00:02:39] Quem é a sua avó, Cadu?
[00:02:40] Eu sou neto da Irene Ravas.
[00:02:44] Você é um neto baby.
[00:02:45] Neto baby.
[00:02:47] Um neto baby é diferente.
[00:02:49] Mas sim, tive esse, literalmente, privilégio de poder crescer
[00:02:54] num ambiente artístico.
[00:02:56] E claro que, respondendo a sua pergunta, eu acho que a infância, ela é…
[00:03:00] Eu acho que é a criança dentro da gente que a gente tem que lutar
[00:03:04] para não deixar ela morrer, para a gente estar aqui em cima brincando de faz de conta.
[00:03:08] Eu tenho a impressão que a minha infância não acabou ainda.
[00:03:12] Porque eu fazendo teatro, interpretando outras coisas, fingindo que sou isso,
[00:03:17] fingindo que sou aquilo, eu estou dentro de uma fantasia que eu já tinha na minha infância.
[00:03:23] Eu só aprimorei essa fantasia.
[00:03:24] Então, eu acho que a criança que está dentro de nós, de cada um de nós, deve ser respeitada.
[00:03:33] Tem que ver, tem que admitir, tem que ser mesmo criança, porque aí aproveita melhor a vida.
[00:03:38] Mas que hora que essa criança começou a correr atrás de autógrafo?
[00:03:42] Começou a achar interessante a vida de artista?
[00:03:45] Como é que isso aconteceu?
[00:03:46] Eu fui me encantando com figuras, por exemplo.
[00:03:51] Quando eu ia à missa…
[00:03:54] Eu ia à missa católica, minha mãe era católica.
[00:03:57] Eu ia com ela, porque ela me obrigava, claro.
[00:04:00] Porque eu achava tudo muito bonito, mas todo domingo…
[00:04:04] Não, tudo bem, a fé é maior que isso, acredito.
[00:04:08] Deus me perdoe se eu estou mentindo.
[00:04:10] Mas ali, por exemplo, toda a história do padre vestindo aquela roupa que não é dele,
[00:04:17] a gente sabe que não é.
[00:04:18] É toda uma paramentação, é todo um ritual bonito.
[00:04:22] Que o…
[00:04:24] O padre, quando ele não faz assim, mas faz com fé e tal,
[00:04:29] fica muito bonito dentro de uma igreja.
[00:04:32] Tudo isso me encantou.
[00:04:34] E eu acho que foi daí.
[00:04:36] Você, Cadu?
[00:04:37] Eu lembro especificamente de dois espetáculos que eu vi quando eu era mais novo.
[00:04:44] Eu lembro do Pterodátilos que você fez, inclusive, do Felipe Irris,
[00:04:48] que o palco se movimentava.
[00:04:50] E você trocava de roupa, sei lá,
[00:04:54] cada cinco minutos.
[00:04:54] Cada cinco segundos.
[00:04:55] Entrava com uma personagem diferente.
[00:04:56] Eu ficava assustado, porque ao longo da peça eu ficava vendo…
[00:05:00] Caraca, essa pessoa está me fazendo acreditar que agora você é uma noiva indefesa,
[00:05:04] agora você é um cavaleiro.
[00:05:06] Essa brincadeira mesmo desse faz de conta.
[00:05:08] E aí descobri que eu fazia as pessoas rirem às vezes.
[00:05:12] Meu irmão ria muito de mim.
[00:05:13] E eu acho que fui me encantando por esse poderzinho de manipular a risada e outras coisas.
[00:05:20] Manipular as emoções, né?
[00:05:22] Mudar as emoções das pessoas.
[00:05:23] Bem maldoso mesmo.
[00:05:24] Muito bom.
[00:05:25] A gente sabe que você, Nanine, é uma pessoa de parcerias longas, né?
[00:05:30] Então, Irmavap foi 19 anos com Neyla Torraca,
[00:05:34] com Geraldo de Tomas já é a segunda peça que vocês fazem juntos.
[00:05:40] Você dividiu 10 anos da sua vida com a Marieta Severo na Grande Família.
[00:05:45] 14.
[00:05:46] 14 anos.
[00:05:48] É um casamento longo, né?
[00:05:50] Mais longevo que a maioria dos nossos casamentos aqui.
[00:05:52] Sim.
[00:05:53] Na ficção estava 12.
[00:05:54] Estou procurando mais.
[00:05:56] Você é casado há mais de 30 anos?
[00:06:00] 38.
[00:06:01] Olha isso.
[00:06:02] Então, como faz para a gente estar cada vez mais descartando as pessoas, mais impaciente,
[00:06:09] não tenho paciência com gente, não quero DR, gente dá muito trabalho.
[00:06:14] Como faz para ter parcerias tão longas?
[00:06:17] Para viver bem, feliz e aprendendo com outras pessoas?
[00:06:21] O acaso, né?
[00:06:23] Na verdade, é um assorto.
[00:06:24] É igual tropeçar no bom sentido aqui, porque você esbarra numa criatura que vai ser seu parceiro,
[00:06:33] sua parceira de trabalho e tal, tem as suas afinidades uns de uns e os de outros,
[00:06:39] e vai se trocando isso, isso vai e se transporta para o espetáculo que a gente faz ensaiando desde o início.
[00:06:47] Então, isso tudo vai criando laços que vão se aprofundando,
[00:06:54] e que são longevos.
[00:06:56] É entrar num acordo.
[00:06:58] Como faz?
[00:06:58] Como faz?
[00:06:59] Conversando com o outro, com empatia, aprendendo o que o outro sente,
[00:07:04] você se transportando para aquele lugar, ter humildade com o seu amigo, com a criatura que chegou.
[00:07:11] Tudo isso vai transformando esse relacionamento numa coisa mais profunda.
[00:07:17] Eu acredito.
[00:07:19] Agora, Nanine, a própria peça, ela vem trazer essa complexidade do mundo,
[00:07:24] do mundo atual, onde as relações estão líquidas, e elas partem de um princípio muito determinante.
[00:07:33] Você fala que você observa pessoas porque você faz pessoas.
[00:07:38] Só que, hoje em dia, muita gente, a partir de uma frase que uma pessoa falou, acha que conhece aquela pessoa.
[00:07:44] Tem uma questão muito difícil de lidar com a ambivalência do outro, e a gente acaba determinando.
[00:07:51] Como que, nesse cenário, dá para a gente…
[00:07:54] Trabalhar a arte e trabalhar a ambivalência do artista?
[00:07:59] Olha, eu acho que você ser ator ou atriz, interpretar, ou ser um bailarino, ou ser um advogado,
[00:08:08] o que interessa é a vontade que você tem de ser isso.
[00:08:13] Aí você faz muita coisa, faz muito pacto com você mesmo no espelho, com os seus colegas,
[00:08:21] que vão fazer para você críticas, elogios.
[00:08:23] E a vida vai indo.
[00:08:25] Eu acho que é isso que é a fonte.
[00:08:28] O resto, cada um vai decidindo.
[00:08:31] Cadu, está mais difícil para quem está começando agora.
[00:08:34] Mas eu acho que tem um lugar sobre isso tudo.
[00:08:39] Essa coisa do dar certo em uma relação de trabalho ou de amizade, qualquer coisa,
[00:08:44] é mais simples do que parece.
[00:08:46] Mas é que hoje também tem muita informação e muita coisa.
[00:08:50] E a gente vive num mundo doente.
[00:08:52] Expectativas altíssimas.
[00:08:53] É, e expectativas já.
[00:08:56] Porque expectativa, sei lá, para mim sempre pareceu uma coisa que eu crio na minha cabeça.
[00:09:00] Só que hoje em dia eu tenho que lidar com a minha expectativa e com a do planeta.
[00:09:04] Que o mundo hoje em dia espera, ainda mais dos artistas,
[00:09:07] que você tenha as mesmas expectativas que eles.
[00:09:10] Eu tenho que ter os mesmos desejos que todo mundo,
[00:09:12] senão eu sou mais um no mercado que não quer ser mais um no mercado.
[00:09:18] É um pouco isso para mim.
[00:09:19] É verdade.
[00:09:20] Ananine, eu ouvi você falar que você está aprendendo a envelhecer.
[00:09:23] Eu gostei muito disso, porque faz todo sentido.
[00:09:26] Você nunca envelheceu antes.
[00:09:28] Tudo que a gente faz na vida é pela primeira vez.
[00:09:31] E tem essa metáfora, que é no valendo.
[00:09:33] A vida é sempre no valendo.
[00:09:35] Como que você está lidando com esse aprendizado?
[00:09:37] Como é isso?
[00:09:39] Como é que você vai lidar com o inevitável?
[00:09:43] Você tem que se adaptar.
[00:09:46] Na verdade, o que acontece é que eu sempre vim envelhecendo desde que nasci.
[00:09:52] Mas eu só tive consciência disso recentemente,
[00:09:57] que eu sempre estava envelhecendo.
[00:10:00] Aí ficou tudo muito normal, muito…
[00:10:02] Tanto faz, eu não posso fazer nada.
[00:10:04] Posso.
[00:10:05] Pode reclamar, pode ficar rabugento, pode resistir.
[00:10:08] Não, isso não pode.
[00:10:09] Não pode?
[00:10:11] Não, porque fica muito chato ser rabugento.
[00:10:14] Você fala as coisas de um jeito tão encantador que você fala,
[00:10:17] não, é muito natural, é só ser uma pessoa sábia,
[00:10:20] que aceita as coisas que a gente não pode mudar.
[00:10:22] Olha, mas…
[00:10:22] É porque é natural, é só você observar.
[00:10:25] Tudo que a gente faz é com naturalidade.
[00:10:29] Qualquer um de vocês vai observar em vocês mesmos.
[00:10:32] É essa naturalidade, naturalidade.
[00:10:35] Porque é assim que a gente convive, é assim que a gente troca,
[00:10:37] é assim que a gente tem empatia,
[00:10:39] que é observar o outro, compreender o outro,
[00:10:42] incorporar os sentimentos do outro também.
[00:10:46] Eu fico em dúvida se ele é mais pragmático ou mais romântico.
[00:10:49] Eu estou realmente em dúvida.
[00:10:51] É.
[00:10:52] Porque parece ter uma mistura inexata disso que está funcionando.
[00:10:55] Ora, quem sabe é um romântico com uma coisa mais pragmática.
[00:11:02] Talvez é um romântico pragmático.
[00:11:05] Parece bom isso.
[00:11:06] Agora, esse romantismo pragmático parece ser uma coisa meio alma de artista.
[00:11:14] Eu queria entender, para além do palco, para além do texto,
[00:11:19] para além da memória, para além do físico,
[00:11:24] o que compõe um artista?
[00:11:28] Para se intitular artista, para se sentir artista,
[00:11:33] o que compõe?
[00:11:36] Veja, artista é um rótulo.
[00:11:39] Todo artista é rotulado assim porque tem que ser.
[00:11:42] Cada um de nós tem um rótulo.
[00:11:45] Você é apresentador, você é professor, tudo é um rótulo.
[00:11:48] Então, os artistas…
[00:11:49] Os artistas vivem esse mundo da fantasia, é a profissão deles.
[00:11:55] É exatamente isso.
[00:11:56] Não sei se eu acho que me perdi na pergunta, que era exatamente qual.
[00:12:03] A pergunta interessantíssima que eu fiz é da composição do artista,
[00:12:08] para além da memória, para além de saber o texto.
[00:12:12] Olha, ter memória, por exemplo, eu já não tenho mais.
[00:12:16] Eu uso ponto eletrônico, que é uma maravilha.
[00:12:19] Me deixa tranquilo, eu aceito o texto,
[00:12:22] não fico pensando o quê, o que é, será que é isso, será que é aquilo,
[00:12:25] já falo, falo.
[00:12:27] Então, a gente vai aprimorando essas coisas.
[00:12:30] Essa que é a história, você vai adaptando.
[00:12:32] Cada passo que você dá, você vê o que acontece.
[00:12:36] Eu, por exemplo, agora operei o menisco, é uma novidade para mim.
[00:12:40] E me falaram que a recuperação dessa operação dura três anos, no mínimo.
[00:12:46] Aí eu falei, ah, que ótimo.
[00:12:49] Você falou, tenho compromisso pelos próximos três anos.
[00:12:52] Que bom, estou bucado já.
[00:12:54] Pois é, eu me adapto.
[00:12:57] Agora, esse lugar de uso ponto, a memória já não está…
[00:13:02] Tem mais cheiro de liberdade do que de falta.
[00:13:06] A Marília Gabriela usou papel na peça e leu.
[00:13:11] A Fernanda Montenegro faz um monólogo onde ela lê.
[00:13:14] É a sabedoria que dá essa liberdade.
[00:13:17] Fala assim, então, não preciso misturar.
[00:13:19] Não preciso me estressar, de ficar, eu vou fazer o que é necessário
[00:13:23] para eu me sentir melhor fazendo o que eu gosto.
[00:13:26] É exatamente isso que você falou, porque é um misto de sabedoria,
[00:13:30] porque cada passo que você dá para frente, você vai assimilando coisas,
[00:13:35] vai discernindo sobre qualquer emoção ou qualquer acontecimento,
[00:13:40] e você vai indo até se tornar realmente uma pessoa completa nisso tudo,
[00:13:44] entendendo o outro, principalmente entendendo a si mesmo.
[00:13:48] Não se reprimindo.
[00:13:50] Sendo você mesmo, que é um trabalho bem difícil, muito difícil.
[00:13:54] E a gente tem que estar atento para isso, para não fingir que você é não sei o quê.
[00:14:01] Tem que ser você mesmo.
[00:14:03] Claro, você dá uma amenizada aqui, outra ali, desfaça para acolá, mas sempre você mesmo.
[00:14:09] Então, do alto de toda essa sabedoria e de tanta experiência,
[00:14:13] você falou que foi difícil compor esse personagem,
[00:14:17] que foi um processo complicado, complexo para você,
[00:14:21] e que você ficou em algum momento inseguro.
[00:14:23] E para a gente, eu garanto que a galera que está aqui assistindo,
[00:14:27] ninguém consegue te imaginar inseguro, porque acha que agora você já sabe de tudo.
[00:14:31] Você já fez de tudo.
[00:14:33] Como é ainda ser inseguro agora, se isso é bom ou se isso é ruim,
[00:14:38] se você gosta desse frio na barriga ainda,
[00:14:41] e se você lida de um jeito diferente com a insegurança hoje do que antes?
[00:14:45] A insegurança é o tempero.
[00:14:47] Como tem alegria, tem insegurança, tem medo, tudo é um tempero.
[00:14:53] E não faz falta nenhuma.
[00:14:54] É bom porque ajuda a gente a raciocinar a insegurança.
[00:14:58] Eu fiz assim, não fiz assim.
[00:15:00] O analista ajuda muito.
[00:15:03] É bom.
[00:15:03] Quem tiver, é bom.
[00:15:04] Eu já enchi o saco disso, mas é bom.
[00:15:08] Você já formou, você foi graduado.
[00:15:11] É porque atiça.
[00:15:12] Eu já fiz com vários.
[00:15:14] Cada um é de um jeito.
[00:15:16] Aí eu não aguento mais.
[00:15:17] Falar, papapá, papapá.
[00:15:19] Tudo de novo não dá certo.
[00:15:22] Você faz análise?
[00:15:24] Tem que fazer, né?
[00:15:26] Tem que fazer.
[00:15:26] Você fica inseguro de atuar com ele, por exemplo?
[00:15:29] Você fala, o cara sabe tudo, ele é maravilhoso.
[00:15:31] Já pensou se eu entro e faço uma coisa errada?
[00:15:34] Não, eu não tenho insegurança disso, não.
[00:15:35] Acho que todo mundo sempre tem uma insegurança, uma ansiedadezinha,
[00:15:40] aquela biológica da arrepiadinha no corpo e tal.
[00:15:44] A gente já está há um tempo fazendo essa peça, os meninos também.
[00:15:47] Mas toda vez que começa a música, eu fico, meu Deus,
[00:15:52] eu tenho que dar o clique certinho da lanterna para ficar bonito.
[00:15:56] É uma coisa que talvez as pessoas nem notem, pequenas coisinhas.
[00:16:00] Eu acho que é isso que mantém a gente um pouco vivo.
[00:16:02] Eu acho que é um pouco isso que o Marco estava falando,
[00:16:04] que se você perde essa ansiedade também, o que está em jogo?
[00:16:08] Nada.
[00:16:10] A gente trouxe alguns trechinhos da peça, o traidor,
[00:16:12] para a gente conversar sobre ele.
[00:16:15] Ah, meu Deus.
[00:16:17] Eu vou interpretar a Nanine.
[00:16:19] Não, não é?
[00:16:21] Eu não consigo mais fritar um único ovo sem abrir um tutorial no YouTube.
[00:16:24] Eu fico exausto de tanto consultar.
[00:16:27] É uma parte muito legal,
[00:16:29] que vai entrando contemporâneo na alucinação que o personagem está vivendo.
[00:16:35] Eu queria saber de vocês,
[00:16:36] qual é a relação de vocês com a internet, com redes sociais?
[00:16:40] Como é a dieta? O que consome e o que não consome?
[00:16:43] Assiste tutorial de fritar ovo?
[00:16:45] Eu não sei nem quantos seguidores.
[00:16:47] Eu devo te falar a verdade,
[00:16:49] porque eu não sei mexer nesses botões.
[00:16:53] Eu tenho muita dificuldade, porque eu erro muito.
[00:16:55] Então, prefiro que alguém faça.
[00:16:58] Confortável, não é?
[00:17:00] Parece.
[00:17:01] E você, Cadu?
[00:17:02] Aproveitem a dica.
[00:17:03] O meu algoritmo é bagunçado.
[00:17:06] É um pouco de política com bichos, animais, coisas engraçadas.
[00:17:13] Sei lá, eu perco um bom tempo, às vezes,
[00:17:15] vendo uns vídeos muito alegres,
[00:17:17] aleatórios no meu telefone,
[00:17:18] mas eu também me informo bastante.
[00:17:19] Dá para ficar um penado, sei lá,
[00:17:21] acho que eu sou um pouco viciado, assim, no telefone.
[00:17:24] É difícil de escapar, né?
[00:17:26] Outro trecho é
[00:17:28] Me sinto pequeno, esmagado pelo universo de informação.
[00:17:32] A gente está muito esmagado, né?
[00:17:35] E tem um autor que a gente gosta bastante,
[00:17:38] que ele fala que a humanidade está vivendo uma epidemia de erosão da atenção.
[00:17:44] Só que a atenção é um insumo básico da sua vida, né?
[00:17:46] Só que a atenção é um insumo básico da sua vida, né?
[00:17:47] Só que a atenção é um insumo básico da sua vida, né?
[00:17:47] Da sua profissão, da minha profissão, da profissão de professor,
[00:17:49] de um monte de profissão.
[00:17:51] Se não tem esse solo para a gente plantar,
[00:17:54] como que faz?
[00:17:56] Se está todo mundo disperso?
[00:17:58] Queria que você contasse para a gente
[00:17:59] se você sente, perceptivelmente,
[00:18:01] uma mudança na audiência
[00:18:03] de capacidade de atenção, de você segurar, reter a atenção das pessoas.
[00:18:07] E se isso muda alguma coisa no que você faz,
[00:18:10] em como você faz o que você faz.
[00:18:12] A atenção, por exemplo,
[00:18:15] o silêncio é um tipo de atenção.
[00:18:16] O silêncio é um tipo de atenção.
[00:18:18] Você percebe o que é desatenção do que é atenção.
[00:18:24] Porque se o espectador estiver desatento,
[00:18:28] é ruim para ele mesmo,
[00:18:29] porque não vai embarcar nessa fantasia
[00:18:31] que o palco está propondo.
[00:18:33] Então, eu acho que esse é um mergulho importante
[00:18:36] para você poder mergulhar e sair de novo.
[00:18:39] Mergulhar e sair de novo acaba sendo bem gostoso.
[00:18:43] Tem outro trecho que é muito legal,
[00:18:46] e a gente fala bastante no Mamilos,
[00:18:48] já teve vários programas sobre esse tema.
[00:18:50] O trecho fala assim,
[00:18:52] a minha solidão está tão medicada,
[00:18:54] e é isso,
[00:18:56] virou para a Organização Mundial de Saúde,
[00:18:59] virou uma epidemia de solidão no mundo,
[00:19:02] daqui a pouco tem SID para solidão,
[00:19:05] e a gente mede tudo isso e tal.
[00:19:07] A gente conversou no Mamilos já,
[00:19:11] já fez programa sobre medicalização da vida,
[00:19:13] a gente já teve um programa sobre solidão,
[00:19:16] como que você lida com isso?
[00:19:18] Porque a solidão também pode ser um momento criativo.
[00:19:21] Como você lida com a tensão entre solitude,
[00:19:24] que é ter o seu momento sozinho,
[00:19:26] e solidão que vai mais para o abandono?
[00:19:29] Olha, eu acho que a solidão é boa
[00:19:32] quando você está sem abandono,
[00:19:34] quando você está com alguma coisa boa, forte.
[00:19:37] Porque a solidão faz você pensar,
[00:19:39] a solidão faz você refletir sobre você mesmo,
[00:19:41] a solidão faz afluir em emoções
[00:19:44] que você, se tivesse em ação, não teria.
[00:19:47] Então, acho que ela é um tempero bem forte,
[00:19:50] um dendê danado, eu acho.
[00:19:53] A solidão é um dendê danado, é uma boa frase.
[00:19:57] Parece um momento difícil de ficar em solidão,
[00:19:59] você é bombardeado por tanta informação,
[00:20:01] tanta gente te chama o tempo inteiro,
[00:20:03] é tanto conteúdo para assistir,
[00:20:04] é tanta coisa para ler.
[00:20:06] O tempo de ficar você com você mesmo
[00:20:08] e, inclusive, não estar com outro humano
[00:20:10] pode parecer fracasso.
[00:20:12] Cadê todo mundo?
[00:20:14] Como você encara isso?
[00:20:16] Cara, eu particularmente não gosto de ficar sozinho,
[00:20:18] mas eu gosto de ficar sozinho também.
[00:20:21] Parece confuso.
[00:20:23] É confuso mesmo, porque…
[00:20:25] Parece ambíguo.
[00:20:26] Eu não gosto de ficar sozinho mesmo,
[00:20:28] eu gosto de estar perto,
[00:20:29] gosto de estar perto da minha namorada,
[00:20:30] de meus amigos,
[00:20:31] eu gosto de estar com a galera sempre.
[00:20:33] Mas também eu acho que é importante estar só,
[00:20:36] e estar só mesmo, sim.
[00:20:38] A maior dificuldade é que eu não consigo mesmo ficar só.
[00:20:40] Quando eu estou sozinho, eu estou com o telefone,
[00:20:42] aí eu estou vendo a vida dos outros,
[00:20:43] aí eu estou vendo alguma coisa.
[00:20:44] Eu não consigo mais, há muito tempo,
[00:20:46] parar e ter duas horas por dia
[00:20:48] para ficar eu e eu olhando para o teto.
[00:20:51] Então, acho que eu tenho uma dificuldade mesmo
[00:20:53] de ficar sozinho.
[00:20:54] Outro trecho é que a humanidade precisa de duas coisas,
[00:20:58] da arte e de um médico.
[00:21:01] A gente anda recorrendo bem mais aos médicos,
[00:21:03] tem pílula para tudo.
[00:21:05] Do que a arte dá conta?
[00:21:07] Ué, a arte é um espelho, não é?
[00:21:10] E a arte pode estar em qualquer lugar,
[00:21:12] está só no pão, está em todo lugar.
[00:21:14] Você está num desenho,
[00:21:15] você está numa expressão de um pessoal do morro,
[00:21:19] cria uma arte,
[00:21:21] e cria espontaneamente.
[00:21:23] Então, ela pode ser espontânea e pode ser fabricada,
[00:21:26] e pode ser transformada em material,
[00:21:29] como o teatro, o cinema, por exemplo.
[00:21:31] O que o teatro, por exemplo,
[00:21:32] para afunilar um pouco mais a conversa,
[00:21:35] e não só a arte,
[00:21:36] do que o teatro consegue dar conta
[00:21:38] dessas nossas angústias todas que a gente estava falando?
[00:21:40] Ah, o teatro dá conta de tudo,
[00:21:42] o problema nunca foi o teatro,
[00:21:44] o problema somos nós,
[00:21:46] a população humana no geral.
[00:21:48] Mas, sim, eu acho que a arte dá conta de tudo mesmo.
[00:21:51] Quando bem feita,
[00:21:53] feita de verdade,
[00:21:55] porque bem feita é muito relativa,
[00:21:56] pode ser bem feita para um, não para outro,
[00:21:58] mas quando ela é feita com o intuito
[00:21:59] de a gente fazer arte mesmo,
[00:22:01] quero dizer algo para alguém,
[00:22:04] vai chegar para alguém.
[00:22:05] E, para mim, se chega para um,
[00:22:07] para duas milhões de pessoas,
[00:22:08] acho que ela já cumpriu esse intuito
[00:22:10] de dar conta de tudo.
[00:22:11] Eu acho.
[00:22:13] Tem uma parte da peça que é muito boa,
[00:22:15] que é a encenação de um comercial.
[00:22:17] Olha a salsicha!
[00:22:20] E põe roupa, tira roupa,
[00:22:22] vai ter que gravar de novo,
[00:22:23] mudou o briefing,
[00:22:24] que porra de briefing é esse?
[00:22:26] Como que vocês enxergam
[00:22:28] a necessidade do artista precisar se desdobrar
[00:22:30] e, muitas vezes,
[00:22:32] trabalhar nessas outras frentes
[00:22:34] que passam, muitas vezes,
[00:22:36] por vender produto,
[00:22:37] muitas vezes,
[00:22:38] por anunciar produtos
[00:22:40] para que a arte seja viabilizada?
[00:22:43] Isso faz parte
[00:22:45] ou isso é violento?
[00:22:46] Bom, é violento
[00:22:47] do jeito que a gente está vivendo,
[00:22:49] porque, sei lá,
[00:22:51] eu estou trabalhando profissionalmente
[00:22:53] tem uns 11 anos.
[00:22:55] Eu lembro que, quando eu comecei,
[00:22:56] não era tão interessante
[00:22:58] você jogar a sua imagem
[00:22:59] para tudo quanto é marca
[00:23:00] e vender a sua imagem a todo custo.
[00:23:02] Era até quase meio cafona
[00:23:04] falado entre os atores.
[00:23:05] Hoje em dia é muito pelo contrário.
[00:23:07] Quando eu vejo um colega meu fazendo,
[00:23:09] eu fico feliz,
[00:23:10] porque eu falo, caraca,
[00:23:11] está ganhando dinheiro,
[00:23:12] que bom,
[00:23:13] porque é isso.
[00:23:14] Nesse caso,
[00:23:15] a arte não está dando conta
[00:23:16] da parte financeira.
[00:23:18] Dos boletos.
[00:23:19] É, então,
[00:23:20] as marcas, elas estão aí, né,
[00:23:22] ajudando.
[00:23:24] É muito complexo.
[00:23:25] Mas, enfim,
[00:23:26] eu acho que sim,
[00:23:27] eu acho que toda hora
[00:23:28] a gente está tendo que recorrer
[00:23:29] para outros lugares
[00:23:30] que não só a arte,
[00:23:31] não só…
[00:23:32] E não é só teatro, não.
[00:23:34] Não basta nem só ser mais um ator
[00:23:36] que faz televisão.
[00:23:37] Isso já não consegue garantir
[00:23:39] 100% da sua dignidade financeira
[00:23:41] para o resto da vida.
[00:23:43] Mas o teatro já é feito na raça
[00:23:45] desde sempre, né, Nanine?
[00:23:47] É sempre na unha,
[00:23:48] é sempre na base do desejo.
[00:23:50] É assim,
[00:23:51] porque é o desejo que faz, né?
[00:23:52] É o desejo que faz viver,
[00:23:54] que faz se transformar.
[00:23:55] Se você não tiver o desejo,
[00:23:57] fica tudo muito apático,
[00:23:58] fica…
[00:23:59] Não dá certo.
[00:24:01] Então, se você tiver desejo,
[00:24:02] aí tem sangue assim fervendo,
[00:24:04] aí dá bom,
[00:24:05] aí dá certo.
[00:24:06] Ó, falando em ferver,
[00:24:08] vamos ferver outra coisa?
[00:24:10] Tem uma parte que é muito boa,
[00:24:12] que fala assim,
[00:24:13] eu sou viciada em perder.
[00:24:15] Eu sofro de Brasil, minha gente.
[00:24:18] Eu preciso perder.
[00:24:21] É bom demais isso.
[00:24:23] Isso aí foi uma coisa totalmente do gênero.
[00:24:25] De repente, ela apareceu com isso.
[00:24:26] Falei, então, tá bom, vamos fazer.
[00:24:28] Vamos ver o que acontece.
[00:24:29] Porque você não sente assim?
[00:24:30] Porque cada um pensa o que quiser.
[00:24:31] Você acha que a gente tem
[00:24:32] um longo passado pela frente?
[00:24:33] O que você pensa?
[00:24:35] Olha, eu não penso para frente.
[00:24:37] Agora estou perdendo a memória,
[00:24:38] então penso muito pouco para trás.
[00:24:43] Mas eu fico treinando
[00:24:45] para pensar para frente e tal.
[00:24:47] Fico me divertindo com isso.
[00:24:48] O Brasil tem jeito, Nanine?
[00:24:49] Sim.
[00:24:50] O Brasil tem jeito?
[00:24:51] Ah, claro que tem jeito.
[00:24:53] Tem muita gente nascendo, inclusive,
[00:24:55] que vai poder ajudar mais ainda,
[00:24:58] porque vai saber dos podres
[00:25:00] e vai percebendo que tem que mudar,
[00:25:03] e aí vai vir.
[00:25:04] Vão vir políticos novos,
[00:25:06] assim, acredito que…
[00:25:08] Sim, porque tem que olhar
[00:25:10] para o mais humilde,
[00:25:12] para saber como é que é.
[00:25:13] Muita gente sofre.
[00:25:14] Muita gente sofre demais.
[00:25:15] E você tem que ver e saber e sentir
[00:25:18] e ter emoção por isso,
[00:25:20] pelo ser humano.
[00:25:22] Eu falo isso porque a gente representa
[00:25:24] seres humanos.
[00:25:25] Os personagens são seres humanos.
[00:25:28] Então, a gente observa muito
[00:25:29] esse tipo de comportamento.
[00:25:34] Cadu, você é jovem.
[00:25:35] Você tem muito tempo de Brasil pela frente.
[00:25:37] O que você pensa?
[00:25:38] Está dando bom?
[00:25:39] Vai dar bom?
[00:25:40] Não, não está dando bom,
[00:25:42] mas eu concordo com o que o Nanine falou.
[00:25:45] Eu conheço muitos brasileiros,
[00:25:48] desculpe a palavra, podres,
[00:25:50] tanto no campo da política
[00:25:51] quanto no campo da comunicação.
[00:25:53] E, claro, sempre vai ser uma luta muito árdua
[00:25:56] você lutar para a emancipação do trabalhador
[00:25:59] e de todo o resto que a gente tem que olhar.
[00:26:02] Mas existem essas pessoas.
[00:26:03] A parada é que o outro lado da luta
[00:26:05] ainda é muito forte.
[00:26:06] Mas eu acredito que…
[00:26:08] Eu conheci muita gente muito persistente
[00:26:10] e maluca,
[00:26:11] que ainda tem uns 50 anos pela frente
[00:26:13] de vida pública e de luta.
[00:26:16] Então, eu acho que,
[00:26:17] se a gente não tiver a mínima esperança também,
[00:26:19] joga no lixo.
[00:26:21] Então, é isso.
[00:26:22] Eu sou um pessimista esperançoso.
[00:26:25] Tem uma coisa interessante
[00:26:26] que aconteceu no passado,
[00:26:27] das pessoas compararem,
[00:26:29] falarem que a grande família
[00:26:30] era o Simpsons do Brasil.
[00:26:33] Mas, assim,
[00:26:34] o Homer Simpson
[00:26:36] era um chefe de família muito infantil,
[00:26:40] muito sem escrúpulos,
[00:26:42] muito em benefício próprio.
[00:26:44] Já o Linneu…
[00:26:46] Linneuzinho.
[00:26:47] O Linneu, assim,
[00:26:48] com aquela mão fazendo nenê.
[00:26:50] O Linneu salvava a família
[00:26:52] das atrapalhadas do Agostinho.
[00:26:54] O Linneu era um agregador.
[00:26:56] Ele era o politicamente correto
[00:26:58] sem ser chato,
[00:26:59] sem ser pedante.
[00:27:01] Ele queria a ordem
[00:27:03] e o amor juntos.
[00:27:05] A organização da família.
[00:27:07] A comparação fica muito longe
[00:27:09] quando a gente fala disso.
[00:27:11] Mas, hoje em dia,
[00:27:12] um pouco da nossa cultura
[00:27:13] tem migrado muito
[00:27:14] para esse lugar do individual.
[00:27:16] Esse lugar de um ganho muito rápido
[00:27:20] e de um jeito
[00:27:21] que seja o mais simples possível.
[00:27:23] Hoje em dia,
[00:27:24] você enxerga o Brasil
[00:27:25] mais para Homer Simpson
[00:27:27] ou a gente ainda consegue ter o Linneu,
[00:27:31] que é o correto,
[00:27:32] que é o que é o certo.
[00:27:34] E vai fechar, sim,
[00:27:36] porque a Vigilância Sanitária está aqui.
[00:27:38] Eu acho que o Linneu
[00:27:39] é um personagem de época.
[00:27:41] Então, agora mudou tudo.
[00:27:44] Tem outro Linneu
[00:27:45] que eu não sei como é.
[00:27:47] Aí eu tinha que receber o script
[00:27:49] para fazer esse outro Linneu.
[00:27:51] Aí eu não sei o que seria,
[00:27:52] se eu ia…
[00:27:54] Não sei como ia ser.
[00:27:55] Se ia botar uma C.
[00:27:56] Eu não sei.
[00:27:57] Então, esse Linneu,
[00:27:59] ele foi pensado muito
[00:28:00] porque não foi somente
[00:28:02] o Linneu,
[00:28:03] foi todo o programa.
[00:28:04] O elenco se reunia
[00:28:06] sempre com os produtores,
[00:28:09] os diretores,
[00:28:10] os autores.
[00:28:12] Então, o programa resistiu
[00:28:15] porque teve essa união
[00:28:16] de todos os outros artistas
[00:28:18] e trabalhadores,
[00:28:19] somos nós também.
[00:28:20] E isso fez o sucesso do programa,
[00:28:23] principalmente porque ele falava
[00:28:24] da classe média.
[00:28:25] Então, ele falava de um público
[00:28:27] que era muito acessível
[00:28:28] para todo mundo.
[00:28:29] Todo mundo sabe
[00:28:30] o que é classe média
[00:28:31] ou a maioria das pessoas sabe.
[00:28:33] Então, por isso que o Linneu ficou
[00:28:36] essa figura marcante,
[00:28:38] porque ele era o contrário
[00:28:40] do Agostinho, por exemplo.
[00:28:42] Mas quem fazia a comédia
[00:28:44] era o Agostinho.
[00:28:45] A comédia de Linneu
[00:28:46] tinha que ser mais delicada,
[00:28:48] mais suave, entendeu?
[00:28:50] Então, porque o diretor,
[00:28:52] quando ele me pediu,
[00:28:53] ele me falou que eu estava fazendo
[00:28:55] assim, muito sério,
[00:28:57] eu falei, mas olha,
[00:28:58] esse é o humor do Linneu.
[00:29:00] Porque quem faz o humor
[00:29:02] como você quer
[00:29:03] é o Agostinho.
[00:29:04] Então, ou é o Linneu
[00:29:05] ou é o Agostinho.
[00:29:06] Quem é que faz o humor?
[00:29:07] Então, resolvi fazer o Linneu
[00:29:10] mais concentrado,
[00:29:11] porque senão ia ficar tudo meio sujo,
[00:29:14] meio avacalhado,
[00:29:15] porque o chefe de família,
[00:29:17] quem ele é?
[00:29:18] Um idiota?
[00:29:19] Ele tinha que ter uma certa dignidade,
[00:29:21] tinha que ter um certo senso de moral,
[00:29:23] essas coisas.
[00:29:24] E todo personagem da grande família,
[00:29:27] qualquer um,
[00:29:28] tem muita empatia
[00:29:29] com o espectador,
[00:29:30] porque todo mundo ou foi
[00:29:31] ou conhece alguém parecido.
[00:29:33] E, Sra. Peça,
[00:29:34] grande família é muito melhor
[00:29:36] que Simpsons, não é?
[00:29:37] Não tem discussão.
[00:29:39] Tem que ser comparação.
[00:29:41] Bom, o tema da peça
[00:29:43] é uma discussão que
[00:29:45] eu e a Cris já tivemos
[00:29:47] vários rounds dessa discussão,
[00:29:49] vários,
[00:29:50] que é sobre mentira,
[00:29:51] sobre o que é pior,
[00:29:53] se é mentir para os outros
[00:29:54] ou se é mentir para si.
[00:29:56] O que é mais importante,
[00:29:57] você ser leal
[00:29:58] ao país,
[00:29:59] à causa,
[00:30:00] à família
[00:30:01] ou a você mesmo?
[00:30:04] Se você ser fiel a você mesmo,
[00:30:06] você não é volúvel.
[00:30:08] E se você ser fiel
[00:30:09] a essas grandes coisas,
[00:30:11] você não está sendo um hipócrita,
[00:30:13] na verdade,
[00:30:14] quando você não pensa nada disso.
[00:30:16] O que é para você,
[00:30:17] qual o lugar que a mentira
[00:30:18] tem na sua vida?
[00:30:19] A que você é fiel?
[00:30:21] A mentira pode ter vários papéis.
[00:30:23] A mentira pode ser para o bem,
[00:30:24] pode ser para derrotar qualquer pessoa.
[00:30:27] Então,
[00:30:28] depende de quem faz,
[00:30:29] depende do grau da mentira
[00:30:30] e da repercussão que ela vai ter.
[00:30:32] Então,
[00:30:33] aí é um problema
[00:30:34] que cada um tem que…
[00:30:36] Mas como é para você?
[00:30:37] Você é mais rígido?
[00:30:39] Ou você…
[00:30:40] Porque, no final,
[00:30:41] o que eu aprendi com a Cris,
[00:30:42] nessas discussões infinitas,
[00:30:44] porque eu sou uma pessoa rígida,
[00:30:46] não é não,
[00:30:47] sim é sim,
[00:30:48] preto é preto,
[00:30:49] branco é branco.
[00:30:50] Então, mentira não pode.
[00:30:51] Essa complexificação da conversa…
[00:30:53] Você notou que a mentirosa sou eu, né?
[00:30:55] Não.
[00:30:56] Você entendeu, entendeu?
[00:30:58] Mas é essa complexificação de mostrar
[00:31:01] quando você está sendo verdadeira
[00:31:04] para uma causa,
[00:31:05] para uma pessoa,
[00:31:06] e não a você,
[00:31:08] isso é ser íntegra?
[00:31:10] Que integridade é essa,
[00:31:11] se você não está ali?
[00:31:13] Se você está sendo verdadeira
[00:31:17] e sendo cruel com a pessoa,
[00:31:19] que verdade é essa?
[00:31:20] Então, essas perguntas,
[00:31:22] isso que eu realmente não sei.
[00:31:24] O que é pior?
[00:31:25] Trair a causa,
[00:31:27] os outros,
[00:31:28] o trabalho,
[00:31:29] ou trair a você mesmo,
[00:31:30] a sua essência,
[00:31:31] quem você é?
[00:31:33] Bom, aí você pega traição,
[00:31:35] traição não é bom de jeito nenhum,
[00:31:38] porque traição é uma facada,
[00:31:41] não é verdade?
[00:31:42] Traição é uma facada
[00:31:43] de qualquer tipo de traição.
[00:31:44] Eu acredito que a maioria das pessoas
[00:31:46] não quer trair os outros
[00:31:48] ou não vive de ficar traindo os outros,
[00:31:51] ou seja, vive mentindo,
[00:31:52] mentindo aí acumula tudo e etc.
[00:31:54] Mas a traição, ela é necessária,
[00:31:56] é um tempero
[00:31:57] e depende do grau que é essa traição
[00:31:59] e do que significa essa traição para cada um.
[00:32:03] Como é para você, Cadu?
[00:32:05] É que eu acho que,
[00:32:07] não sei se eu levo esse tribunal do tipo
[00:32:10] ou me trair ou mentir para mim ou para os outros,
[00:32:13] é porque eu acho que, às vezes,
[00:32:14] a gente acaba sem querer mentir para a gente
[00:32:16] e, naturalmente, também,
[00:32:18] quando a gente mente para os outros,
[00:32:19] eu sinto que a gente também está mentindo para si.
[00:32:21] Mas tem uma mentirinha de boa, não é?
[00:32:23] Sei lá, você foi ver uma peça ruim de alguém
[00:32:26] e a pessoa fala,
[00:32:27] gostou?
[00:32:28] E você fala,
[00:32:29] amei.
[00:32:30] Eu acho que eu preciso me explicar,
[00:32:32] porque pegou muito mal para mim esse rolê.
[00:32:34] Tem uma parte na peça que a frase é
[00:32:37] não mente porque nada sente.
[00:32:40] E acho que aqui já deixa claro para a gente
[00:32:44] que, para mentir antes,
[00:32:45] você tem que ser leal a alguma coisa.
[00:32:47] Então, a gente não tem falta de lealdade.
[00:32:50] Mas eu acho a mentira uma ferramenta social,
[00:32:52] uma ferramenta social importante.
[00:32:54] E acho que a gente tem que saber usar essa ferramenta,
[00:32:58] inclusive para incentivar as coisas que a gente quer.
[00:33:02] Não precisa falar que é amor a peça.
[00:33:05] Mas se você virar para mim e falar,
[00:33:07] estou muito feliz que você está realizando o seu sonho
[00:33:10] e a peça é legal, vamos aí.
[00:33:13] Só você podia fazer isso.
[00:33:17] A sua cara, essa peça.
[00:33:19] Se não fosse você…
[00:33:20] Você não está nem mentindo, está vendo?
[00:33:22] Então, eu acho que é uma ferramenta social, sim.
[00:33:25] Eu acho que a melhor parte de ser ator
[00:33:27] deve ser poder mentir a maior parte do tempo.
[00:33:29] Viva a mentira!
[00:33:30] Mas deixa a gente ir para outra frase que é muito boa,
[00:33:36] que é repetida muitas vezes na peça.
[00:33:40] E eu acho que essa frase vai ganhando mais contorno
[00:33:43] e mais volume.
[00:33:44] E, quando vai chegando no final,
[00:33:46] você já está muito imbuído dessa frase,
[00:33:48] que é a gente se emociona assim.
[00:33:52] E aí você me convenceu.
[00:33:54] Fiquei emocionada porque você falou muitas vezes.
[00:33:56] Acabei ficando.
[00:33:58] Eu queria entender de vocês dois o que te comove hoje,
[00:34:02] o que te emociona?
[00:34:04] O que mexe com o coração?
[00:34:07] Se eu for contar, vai ser difícil,
[00:34:10] porque ninguém vai aguentar,
[00:34:11] porque vai ficar até amanhã de manhã.
[00:34:13] Então, muita coisa me comove.
[00:34:15] Qualquer coisa pura, cristalina, me comove.
[00:34:18] Seja o que for.
[00:34:19] Um passarinho que passeia.
[00:34:21] O animal que vai e cuida do filhote.
[00:34:24] Tudo isso eu acho que é emocionante.
[00:34:26] Uma pintura.
[00:34:27] Você vai ver uma pintura no museu,
[00:34:29] aquilo te toca e você fica emocionado.
[00:34:32] Porque a emoção é um dom.
[00:34:34] A emoção é um dom que Deus deu,
[00:34:36] o Criador deu para a pessoa,
[00:34:40] porque é como ela vai se divertir.
[00:34:43] Não é isso?
[00:34:44] Então, eu acho que é complicado e não é.
[00:34:48] Então, eu não quis dizer nada.
[00:34:51] Tinha a fila do cinismo.
[00:34:55] O Nani passou do outro lado.
[00:34:57] Ele não chegou nem perto da fila do cinismo.
[00:34:59] Passou todo mundo e ele não foi.
[00:35:01] O que te comove, Cadu?
[00:35:03] Vídeo de gente passando em vestibular.
[00:35:06] Juro por Deus.
[00:35:08] Passou na timeline, eu já fico de manhã.
[00:35:12] Vídeo de gente voltando de viagem também.
[00:35:15] Essas coisas me emocionam.
[00:35:17] Parece bom.
[00:35:19] É.
[00:35:20] Mas também todas essas outras coisas que o Nanino falou.
[00:35:24] Claro, às vezes você está andando na rua…
[00:35:26] Já que o Nanino falou…
[00:35:27] Não, mas às vezes eu estou…
[00:35:29] Sei lá, sempre que estou voltando de avião
[00:35:31] de São Paulo para o Rio, especificamente,
[00:35:34] porque tem um caminho certinho que você chega ali no Rio
[00:35:37] e você começa a ver…
[00:35:38] Eu também me emociono sempre que estou chegando no Rio.
[00:35:40] Eu também. Acho bonito demais.
[00:35:42] Não sei, eu me emociono com a beleza mesmo,
[00:35:44] que eu fico… Não é possível esse negócio aqui, cara.
[00:35:46] É bonito demais.
[00:35:47] E ver as nuvens, sim.
[00:35:48] É.
[00:35:49] Minas Gerais, eu me emocionei também,
[00:35:50] vendo o céu laranja, as montanhas.
[00:35:52] Eu falei, olha que bonito.
[00:35:53] Ah, esse é mais bonito.
[00:35:58] Tem uma frase do Pessoa que você…
[00:36:01] Também é uma das reflexões da peça,
[00:36:03] que é, navegar é preciso, viver não é preciso.
[00:36:07] E não preciso de necessidade, mas preciso de precisão,
[00:36:10] que não tem tantos instrumentos para a gente navegar.
[00:36:13] No mar tem, na vida não tem.
[00:36:16] A gente, esse Ao Vivo, faz parte da comemoração.
[00:36:18] Faz parte da comemoração dos nossos dez anos.
[00:36:20] A gente já passou três rebentações de mudança de algoritmo.
[00:36:24] Tudo mudou e a gente mudou junto.
[00:36:26] E vamos lá.
[00:36:27] E agora a gente vê que tem tempestade se formando de novo
[00:36:30] e a gente se preparando.
[00:36:32] Como você é muito nosso sênior,
[00:36:34] você já passou por muitas transformações,
[00:36:36] sobreviveu, resistiu, se reinventou.
[00:36:38] O que você queria que a gente soubesse?
[00:36:41] Que palavras que você tem para a gente,
[00:36:43] que vai… A gente está entrando no mar e está feia a coisa.
[00:36:47] Está turbulento.
[00:36:48] O que você tem para nos falar?
[00:36:50] Olha, eu acho que vocês são um exemplo atual
[00:36:54] de pessoas que combatem, que convivem,
[00:36:58] que criam o seu próprio programa.
[00:37:00] Inventaram esse programa.
[00:37:02] Fizeram desse programa um podcast famoso
[00:37:05] e que todo mundo gosta.
[00:37:06] Então vocês reinventaram uma situação
[00:37:09] que vocês pensaram lá no fundo,
[00:37:11] mas que com a convivência foi indo e virou
[00:37:14] o que nós estamos aqui, inclusive,
[00:37:16] sendo ao vivo com espectadores,
[00:37:20] porque fica melhor ainda.
[00:37:22] A gente pode sentir a energia dos espectadores também.
[00:37:26] Isso colabora com o programa, eu acho.
[00:37:28] Então, muito obrigado a vocês por estarem aqui.
[00:37:36] Eu queria aposentar depois dessa resposta.
[00:37:39] Não estou querendo continuar mais, não.
[00:37:41] Acho que melhor não vai dar para ficar.
[00:37:43] Cadu, você tem alguma palavra de sabedoria
[00:37:45] para a gente?
[00:37:49] Do álbum dos seus 31 anos?
[00:37:51] Não sei.
[00:37:52] Gente, bebam água para caramba,
[00:37:56] porque está ficando ruim o ar, está poluído.
[00:38:01] Viva a classe trabalhadora.
[00:38:03] Vai, Vasco.
[00:38:05] E vão ao teatro.
[00:38:07] Por favor, assistam ao teatro.
[00:38:09] Vocês que fazem o teatro ficar vivo também.
[00:38:13] Esse é o depoimento.
[00:38:14] O depoimento agora, Cadu, parece com a peça.
[00:38:20] Ela salpica coisas.
[00:38:22] Então, a peça é feita de fragmentos.
[00:38:25] Ela não tem uma história.
[00:38:27] Isso que você falou faz sentido.
[00:38:29] O que você falou, apesar de ser salpicado para aqui e aqui,
[00:38:32] faz um sentido.
[00:38:34] É isso que a peça espera fazer.
[00:38:36] Que essa confusão toda que a gente apresenta
[00:38:40] possa tocar o espectador de alguma maneira.
[00:38:42] Que ele se emocione com alguma frase, com alguma maneira.
[00:38:45] E isso é muito bom para quem está fazendo a ação no palco.
[00:38:50] E ainda mais nesse espetáculo,
[00:38:53] eu tenho a sorte de ter, como o Cadu,
[00:38:56] mais três rapazes que fazem com agilidade,
[00:39:00] que dão o movimento,
[00:39:02] que eu não vejo todos, porque estou estranho para o público.
[00:39:05] Vejo um ou outro.
[00:39:06] Mas eles dão esse movimento,
[00:39:08] que é o borbulhar da cabeça desse homem.
[00:39:12] Então, eles fazem lá um trabalho
[00:39:15] que eles foram criando, criando, criando,
[00:39:17] e que fazem parte do personagem, da cabeça dele.
[00:39:21] O espectador fica meio que perdido
[00:39:24] entre se divertir com aquilo, saber o que é,
[00:39:27] que faz parte também,
[00:39:29] que é uma técnica teatral do Gerald para escrever.
[00:39:33] Que é um esquisito muito bom, não é?
[00:39:36] Concorda?
[00:39:38] O Gerald é um esquisito muito bom.
[00:39:40] Ah, sim.
[00:39:41] Ele é um esquisitérrimo muito bom.
[00:39:44] Eu fiz outra peça com ele,
[00:39:45] chamava-se Um Circo de Quinze Filhos.
[00:39:48] Ele tem uma coisa muito importante,
[00:39:50] que é a sensibilidade para a estética.
[00:39:54] Ele cria o espetáculo muito bem.
[00:39:56] Ele se preocupa muito com a iluminação.
[00:39:58] Ele se preocupa com a locomoção dos atores.
[00:40:01] Isso ele tem de muito bom.
[00:40:03] Fora isso, ele faz o que ele quiser,
[00:40:05] porque o temperamento dele é estranho.
[00:40:08] Mas é estranho do bem.
[00:40:10] Olha aí como ele consegue fazer relações longevas, entendeu?
[00:40:14] Ele faz o que ele quiser,
[00:40:15] porque o temperamento dele é estranho.
[00:40:17] E vão que vão.
[00:40:18] A gente se adapta.
[00:40:19] É aquela velha história,
[00:40:20] tem que viver e deixar viver, não é isso?
[00:40:22] Todo mundo sabe disso.
[00:40:24] Temos um programa, Juliana?
[00:40:26] Temos um programa, gente.
[00:40:28] Antes de encerrar, a gente queria agradecer muito.
[00:40:30] Vocês estão vendo eu e a Cris no palco.
[00:40:32] Mas para a gente estar aqui,
[00:40:34] uma galera ralou, mas ralou muito.
[00:40:37] Então eu agradeço ao Alberto,
[00:40:39] e toda a equipe do teatro,
[00:40:42] que trabalhou muito tempo para essa divulgação.
[00:40:45] A divulgação da Marina, ela aqui trabalhando.
[00:40:47] Exatamente.
[00:40:49] Agradeço também o Edu e todo mundo da produtora Tomada,
[00:40:54] que estão aqui captando,
[00:40:55] para vocês poderem assistir esse episódio no YouTube.
[00:40:58] Agradeço o Alex e todo mundo da Soapbox,
[00:41:01] que eles são o estúdio onde todos os mamilos são gravados.
[00:41:05] Eles estão com a gente.
[00:41:06] Acho que a gente só tem coragem de fazer vídeo,
[00:41:08] porque é com o Alex.
[00:41:10] Então, gente, muito obrigada para todo mundo que se envolveu,
[00:41:12] todo mundo que veio, todos os amigos que vieram
[00:41:14] na véspera de feriado, frio em São Paulo,
[00:41:17] e responderam ao nosso convite e vieram.
[00:41:20] Obrigada, gente.
[00:41:21] Nanine, eu não tenho palavras para agradecer a sua confiança
[00:41:26] de iniciar a sua carreira no rádio com a gente,
[00:41:30] que era o que faltava para você.
[00:41:32] Então, assim, muito obrigada.
[00:41:35] Olha, eu espero que minha carreira, então, com vocês,
[00:41:37] com os seus colegas, seja longeva.
[00:41:40] Vamos pensar.
[00:41:41] Mas eu que agradeço a oportunidade de estar aqui,
[00:41:44] conversar com vocês, conversar com essa plateia,
[00:41:47] principalmente ter o Cadu aqui do meu lado,
[00:41:51] que é uma criatura que praticamente eu vi nascer,
[00:41:54] porque eu sou muito amigo da mãe dele, do tio dele,
[00:41:58] e ele foi crescendo.
[00:42:00] Eu vi ele crescer e agora estou muito comovido
[00:42:03] por vê-lo sentado aqui.
[00:42:05] É um homem, não é?
[00:42:06] Eu vi aquele menino e agora ele está aqui.
[00:42:09] A gente se emociona, sim.
[00:42:12] A gente se emociona, sim.
[00:42:14] Obrigada, Cadu.
[00:42:15] Foi um prazer te conhecer.
[00:42:16] Obrigada por compartilhar com a gente também
[00:42:18] a sua visão da arte e do mundo.
[00:42:20] Obrigado.
[00:42:21] Obrigado a vocês.
[00:42:22] Obrigado, pessoal.
[00:42:23] Fica gostosa a sensação de mais um Mamilos no ar.
[00:42:26] Beijo, gente.