O estilo de Lacan | Falando nIsso 496
Resumo
Este episódio é uma apresentação do livro ‘O Estilo de Lacan’, publicado pela Editora Zahar. O autor, que também é o locutor, explica que a obra surge para enfrentar a questão mais persistente para quem se aproxima da obra de Jacques Lacan: a sua dificuldade estilística, frequentemente vista como tortuosa e impenetrável.
O livro se estrutura em torno de quatro definições de estilo extraídas e corrigidas pelo próprio Lacan. A primeira, uma correção do dito ‘o estilo é o homem’ (Buffon) para ‘o estilo é o homem a quem eu me dirijo’, enfatizando que o estilo vem do Outro. A segunda define ‘o estilo é o objeto’, referindo-se ao objeto A lacaniano, causa do desejo. A terceira propõe que ‘o estilo é o corte’, a maneira como se perde, que revela mais sobre alguém do que seus sucessos. A quarta, derivada da anterior, entende o estilo como a maneira de lidar com a perda.
A partir dessas definições, o autor propõe quatro traços constitutivos do estilo lacaniano. O primeiro é a oralidade: Lacan falava, e seus escritos são majoritariamente transcrições ou resumos de seminários e conferências, o que contribui para sua complexidade. O segundo traço é a negatividade, um gosto pelo negativo que remete a Hegel, à tradição apofática e a místicos como São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila.
O terceiro traço é o barroco, um estilo que Lacan assume e que dialoga com a contrarreforma, a colonização e uma ciência que joga com o não-saber. O barroco, com seu contraste entre claro e escuro, enfatiza que a forma de dizer é decisiva para o que é dito. O quarto e último traço é o surrealismo, movimento do qual Lacan foi próximo (amigo de Dalí, Breton, etc.) e que entendia a arte como uma revolução na vida e na relação com a linguagem, influenciando a estética do choque e a interpretação lacaniana.
O autor conclui convidando o leitor a refletir sobre como esses traços de estilo ecoam no Brasil, através de nossa oralidade, barroco, modernismo e místicas, e enfatiza que a dificuldade do texto lacaniano tem uma função formativa, preparando o leitor para a complexidade da fala do paciente e para uma crise permanente de sentido que é parte do estudo psicanalítico.
Indicações
Books
- O Estilo de Lacan — Livro do autor, publicado pela Editora Zahar, que apresenta o pensamento de Lacan a partir da análise de seu estilo difícil, explorando quatro definições e quatro traços constitutivos (oralidade, negatividade, barroco e surrealismo).
- Escritos (de Jacques Lacan) — Obra fundamental de Lacan, mencionada como um conjunto de textos que, pelo título, designa escritos feitos por alguém cujo veículo principal não é a escrita, no caso de Lacan, a fala.
Movements
- Surrealismo — Movimento artístico e literário do qual Lacan era próximo. É descrito não apenas como uma estética, mas como uma forma de vida e uma revolução na relação com a linguagem, influenciando a ideia de choque, surpresa e interpretação em Lacan.
- Barroco — Período artístico, filosófico e religioso contemporâneo da contrarreforma e colonização. Lacan dialoga com esta linguagem, que joga com o não saber e os contrastes, propondo até uma ‘ciência barroca’.
People
- Jacques Lacan — Psicanalista francês cujo estilo complexo e difícil é o objeto central de análise do livro apresentado. Sua obra e ensino são caracterizados pela oralidade, negatividade, influência barroca e surrealista.
- Buffon — Naturalista citado como autor da frase ‘o estilo é o homem’, que Lacan corrige para ‘o estilo é o homem a quem eu me dirijo’.
- Georg Wilhelm Friedrich Hegel — Filósofo mencionado como referência para entender a negatividade e a invenção de uma nova língua (um ‘neo-alemão’) que desafia o conceito representacional, influenciando o estilo de Lacan.
- Salvador Dalí — Artista surrealista, amigo de Lacan, cujas obras com objetos sexuais anamórficos são mencionadas como uma influência estética.
- André Breton — Líder do movimento surrealista e amigo de Lacan, mencionado no contexto da influência surrealista na obra lacaniana.
Linha do Tempo
- 00:00:17 — Apresentação do livro ‘O Estilo de Lacan’ — O locutor apresenta seu novo livro, ‘O Estilo de Lacan’, publicado pela Editora Zahar. Ele explica que o trabalho surgiu para enfrentar a questão da dificuldade estilística na obra de Lacan, uma das mais persistentes para seus estudiosos. O livro busca apresentar o pensamento e a clínica lacaniana a partir dessa dificuldade.
- 00:02:07 — As quatro definições lacanianas de estilo — São apresentadas quatro definições de estilo trabalhadas por Lacan. A primeira corrige o dito ‘o estilo é o homem’ para ‘o estilo é o homem a quem eu me dirijo’, destacando a origem no Outro. A segunda é ‘o estilo é o objeto’, referindo-se ao objeto A. A terceira é ‘o estilo é o corte’, a maneira como se lida com a perda. A quarta, derivada, entende o estilo como a maneira de perder.
- 00:04:51 — Primeiro traço de estilo: A Oralidade — O primeiro traço do estilo de Lacan é a oralidade. A maior parte de sua obra são transcrições de seminários ou resumos de falas. Isso contrasta com a modernidade, que valoriza o escrito, e se conecta com a valorização que Lacan dá à fala como meio do tratamento psicanalítico, contribuindo para a percepção de dificuldade.
- 00:07:13 — Segundo traço de estilo: A Negatividade — O segundo traço é a negatividade, o gosto pelo negativo na escrita de Lacan. Para entender isso, é necessário um percurso por Hegel, que inventou um ‘neo-alemão’ que desafia o conceito representacional, e pela tradição da negatividade em místicos como Santo Agostinho, Kierkegaard, São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila.
- 00:08:33 — Terceiro traço de estilo: O Barroco — O terceiro traço é o barroco, um estilo que Lacan assume. O barroco é uma linguagem da contrarreforma e da colonização que joga com o não saber e com contrastes (claro/escuro). Isso ajuda a entender a complexa relação de Lacan com a ciência, propondo uma ‘ciência barroco’, e sua conexão com pintores como Velázquez e Holbein.
- 00:11:40 — Quarto traço de estilo: O Surrealismo — O quarto traço é o surrealismo. Lacan era amigo de figuras como Dalí e Breton, e o movimento influenciou sua obra. Mais que um movimento estético, o surrealismo era uma forma de vida e uma revolução na relação com a linguagem, o que se reflete na interpretação lacaniana, na ideia de surpresa, choque e no uso provocativo da linguagem.
- 00:13:53 — Conclusão e convite à leitura — O autor conclui que os quatro traços de estilo são o início de uma conversa, que poderia continuar pensando o ‘estilo de Lacan no Brasil’. Ele convida os ouvintes a lerem o livro, agradece à Editora Zahar e ao editor Ricardo Tepperman, e reitera que a complexidade do texto lacaniano tem uma função formativa para o psicanalista.
Dados do Episódio
- Podcast: Falando nIsso
- Autor: Christian Dunker
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2025-07-04T14:45:00Z
- Duração: 00:16:51
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/d19dac70-4f6c-0139-3399-0acc26574db2/episode/d554e255-23ab-46a5-9b1e-ef82544a9281
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Dados do Podcast
- Nome: Falando nIsso
- Tipo: episodic
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Transcrição
[00:00:00] Bem-vindos a nós falando nisso de hoje, nesse canal YouTube, com um convite, um convite, uma apresentação.
[00:00:17] Trata-se do meu novo livro chamado O Estilo de Lacan, que já está aí disponível pela editora Zahar.
[00:00:25] É uma honra, então, antes de tudo, participar no projeto editorial dessa editora que edita os escritos,
[00:00:35] os seminários do Lacan, que tem uma tradição muito grande nos estudos lacanianos.
[00:00:40] Isso é um trabalho que me demandou bastante pesquisa e que tenta enfrentar essa questão, assim,
[00:00:47] que é a questão mais comum, mais persistente entre aqueles que se aproximam dos estudos,
[00:00:55] dos escritos, da obra, do ensino de Lacan, que é a sua dificuldade estilística.
[00:01:02] Daí O Estilo de Lacan.
[00:01:04] É um livro que tenta apresentar o pensamento, a clínica, a obra de Lacan,
[00:01:11] a partir desta dificuldade que é, assim, como, para que serve, de onde vem,
[00:01:19] esse estilo tido como tão difícil, tortuoso, impenetrável.
[00:01:25] O próprio Lacan dizia, né, na quarta capa dos escritos, que, bom, isso aqui é para ler,
[00:01:32] mas não é para entender, não é para compreender.
[00:01:34] Muitos vão ver nisso, assim, uma peça de francesismo, uma peça de obscuridade, assim,
[00:01:41] para criar uma relação de mistificação, de excesso retórico, para esconder ou para passar, assim,
[00:01:52] um conhecimento mais elevado do que, de fato, ele teria.
[00:01:55] Mas, me parece que a gente já tem mais aqui, nesse ponto, que diz respeito até ao conceito,
[00:02:05] à noção, na verdade, de estilo.
[00:02:07] Uma noção que o Lacan introduz a partir desse dito do Buffon, um naturalista, que dizia
[00:02:16] que o estilo é o homem.
[00:02:19] Le style est l’homme, il m’aime, ou seja, ele mesmo, o homem mesmo.
[00:02:25] E que o Lacan corrige.
[00:02:29] O Lacan, já mostrando como funciona o seu estilo, ele parasita um dito clássico, transformando
[00:02:37] esse dito em o estilo é o homem a quem eu me dirijo.
[00:02:43] O estilo vem do outro.
[00:02:45] O estilo tem que ver com a resposta, o retorno da minha própria mensagem invertida desde
[00:02:52] o grande outro.
[00:02:53] Uma das definições.
[00:02:55] No que é o inconsciente, uma das definições do que é a estrutura da fala.
[00:03:00] Então, essa segunda definição de estilo, ela é suplementada por uma terceira, que vai
[00:03:09] dizer o estilo é o objeto.
[00:03:12] Então, o que é objeto em psicanálise, o que é objeto A, quando o Lacan diz isso,
[00:03:18] o que a gente deve entender por essa ideia de que o estilo é o objeto, e o objeto que
[00:03:23] cai, o objeto impossível.
[00:03:25] O objeto que causa de desejo, mais de gozar, essas expressões aí que definem o objeto
[00:03:33] A lacaniano.
[00:03:35] E a quarta versão do estilo é entender que o estilo é o corte.
[00:03:40] O estilo aí é mais decisivamente a maneira como a gente perde.
[00:03:44] Como é que, pra entender quem é alguém, ao invés de perguntar pelos atributos, pela
[00:03:48] sua personalidade, pela sua essência, pelos seus traços, assim que seriam componentes,
[00:03:54] pergunte.
[00:03:55] Pergunte por como essa pessoa perde.
[00:03:57] Como ela perde no jogo, como ela perde na vida, como ela faz luto, como ela reconhece
[00:04:04] suas perdas, ou nega, ou se enfurece.
[00:04:08] A maneira como nós perdemos fala mais o nosso estilo do que a maneira como nós ganhamos.
[00:04:14] Então, essa definição quádrupla do estilo me serviu pra apresentar que uma hipótese
[00:04:22] de leitura queria muito…
[00:04:24] Que vocês lessem pra, assim, a gente já poder discutir e ver se, de fato, ela é pertinente,
[00:04:32] né?
[00:04:34] De que a gente tem quatro traços de estilo no Lacan, né?
[00:04:38] São quatro definições, quatro traços que mais ou menos se ligam com essas definições.
[00:04:43] O primeiro traço é que, olhando pra o que o Lacan fez, pela trajetória dele, pela forma
[00:04:51] como ele transmitia, a gente, eu acho que acaba se esquecendo.
[00:04:54] Se esquecendo de um fato óbvio, né?
[00:04:57] De um fato que me parece, assim, constitutivo do seu estilo, que é o fato de que Lacan falava.
[00:05:06] Ele até, quando coloca no seu livro fundamental o título de Escritos, é porque esse título
[00:05:13] tem, na tradição francesa, uma designação específica para aqueles que estão escrevendo
[00:05:22] e que não têm a escrita.
[00:05:24] Como seu veículo fundamental.
[00:05:27] Então, quando um pintor, quando um fotógrafo, quando um dançarino escreve, eles reúnem,
[00:05:34] então, aquilo que seriam seus escritos, né?
[00:05:36] Não os seus fotografados, não os seus instrumentos tocados, né?
[00:05:45] Mas aquilo que o senhor faz meio fora da sua área, né?
[00:05:49] Assim, ou até falando da sua área, mas nesse formato diferente, né?
[00:05:54] Numa outra…
[00:05:54] Numa outra linguagem.
[00:05:55] Então, entender que o estilo de Lacan, o estilo oral, seus seminários eram orais,
[00:06:01] a maior parte dos textos que a gente encontra são os textos, os seminários, né?
[00:06:06] Transcritos, ou os textos, os escritos, que foram uma espécie de resumo, depois de falados,
[00:06:13] ou até mesmo compilações de coisas que ele falou em congressos.
[00:06:20] Entender que esse estilo difícil…
[00:06:24] Em parte, se deve ao fato de que nós estamos diante de uma experiência meio única, né?
[00:06:32] Quando a gente pensa em modernidade, como um processo, assim, de aumento de racionalidade,
[00:06:36] é aumento do que dá da forma escrita, do arquivo, da história, né?
[00:06:40] De que a gente desconfia da fala, né?
[00:06:43] Porque a fala é evanescente, as palavras voam, a fala que é o nosso meio no tratamento psicanalítico,
[00:06:51] não é escrita, não são cartas.
[00:06:53] É a fala, né?
[00:06:55] Isso tá lá no Lacan.
[00:06:56] Então, toda valorização que ele faz da linguagem, da fala, é compatível com isso, com o seu estilo.
[00:07:03] O segundo traço, que acho que vai dar um tanto de discussão, é assim, de onde vem tanta negatividade, né?
[00:07:13] De tantos jogos de linguagem, não sei, não existe,
[00:07:20] o não, o não, o não do…
[00:07:23] O pai, de onde vem tanto gosto pelo negativo no Lacan, e que complica ali na escrita.
[00:07:29] Então, aí a gente vai fazer um percurso que passa pelo Hegel, pela invenção hegeliana de uma nova língua,
[00:07:37] de um neo-alemão, vamos chamar assim, entre o poético formal, uma forma de expressão que desafia o conceito, né?
[00:07:47] Que tem um outro conceito de conceito por trás de si, diferente aí do conceito representacional,
[00:07:53] kantiano, e que é muito importante a gente aprender isso pra entender o Lacan, né?
[00:07:58] O que que é um conceito pro Lacan.
[00:08:01] Isso vai remeter a gente à tradição da negatividade, da religiosidade apofática, das místicas do século XIII,
[00:08:08] do Santo Agostinho, do Kierkegaard, de tantos autores que formam uma espécie de São Juan de la Cruz,
[00:08:17] Tereza d’Ávila, de arcabouço, principalmente do jovem Lacan.
[00:08:23] Depois a gente vai ver…
[00:08:23] A gente vai ver um conjunto de referências que até ele mesmo assumia como, assim,
[00:08:30] o estilo que ele aceita ser vestido, né?
[00:08:32] Que é o barroco.
[00:08:33] É um barroco nas suas diferentes implantações, é um gênero, é uma escola, vamos dizer assim,
[00:08:44] contemporânea da colonização, contemporânea da contrarreforma,
[00:08:51] e, portanto, uma linguagem que…
[00:08:53] Se pretende universal, né?
[00:08:56] Mas, ao mesmo tempo, que joga com o não saber, né?
[00:09:00] Com um certo entendimento de ciência, que vai…
[00:09:06] Enfim, é um traço de estilo que ajuda a gente a entender toda a complexidade da relação que o Lacan traz
[00:09:12] pra relação de psicanálise e ciência, né?
[00:09:14] Uma ciência barroca.
[00:09:15] Então, aí, os poetas barrocos, o Dono, o Cungura, e que repercute muito com a estilística lacanista.
[00:09:23] Lacaniana.
[00:09:25] De dizer as coisas, né?
[00:09:28] Guardando um certo lugar pro contraste entre o claro e o escuro,
[00:09:32] pra grande imagem do trovão,
[00:09:35] pra ideia de que a forma como a gente diz é decisiva para aquilo que a gente diz.
[00:09:43] E a forma como a gente diz nos coloca naquilo que a gente diz.
[00:09:48] E que existem técnicas e linguagem que vão…
[00:09:53] Aparecer aí entre os grandes pintores barrocos, que o Lacan comenta quase que um a um, né?
[00:09:59] Os Vizaran, o Holbein, o Velázquez, enfim.
[00:10:05] Por que que, se o Freud dialogava com os renascentistas, tinha essa noção da grande arte, da arte perspectiva,
[00:10:13] por que que o Lacan vai apelar e dialogar e pensar a noção de objeto no quadro do barroco?
[00:10:22] Do barroco como linguagem?
[00:10:23] Como filosofia, como religião, como arte.
[00:10:25] E o quarto estilo, o traço de estilo que eu pretendia discutir aí pra ajudar as pessoas a entenderem e se beneficiarem.
[00:10:36] A sacarem que isso não é um adereço que você tira, elucida, vamos aos conceitos, qual que é a ideia,
[00:10:42] porque ele não diz o verdadeiro sobre o verdadeiro de uma vez, não, não.
[00:10:45] Esse trabalho de decifração tem uma função formativa, né?
[00:10:50] Ou seja, a gente aprende a escutar…
[00:10:53] A lidar com a complexidade de sentido, a ter uma experiência mais próxima do que é a fala de nossos pacientes, né?
[00:11:02] Que pula um capítulo, fragmenta aqui, faz uma digressão lá, torce o sentido, faz contradição após contradição.
[00:11:10] Ou seja, eles não falam como manuais, né?
[00:11:12] A gente não se coloca na vida, bom, seguindo assim uma estratégia mais linear, né?
[00:11:20] Disposição, a gente…
[00:11:22] Oral, né?
[00:11:23] Vai pelo tudo menos isso, pelo negativo, e a nossa fala tá próxima, né?
[00:11:30] Conceitualmente aí do programa barroco.
[00:11:33] Mas o último traço de estilo vem aí da convivência do Lacan com esse movimento estético, artístico,
[00:11:40] mas que ele pretendia mais do que isso, ele pretendia ser uma revolução na vida, né?
[00:11:45] Que é o surrealismo.
[00:11:46] Então o Lacan, amigo de Dalí, amigo de Paul Loire, Breton…
[00:11:53] Enfim, Tristan Tzavara, o Dadaísta, né?
[00:11:59] Michel Leiry…
[00:12:00] E depois as variantes, né?
[00:12:02] As reações aos surrealistas que fazem de Lacan alguém que participou, de certa forma, do movimento,
[00:12:11] teve sua tese comentada pelo Paulizan, também pelo Dalí,
[00:12:16] e que isso vai se infiltrando na obra, vai se infiltrando no que a gente poderia chamar de uma estética do choque,
[00:12:23] que é uma das definições possíveis para o surrealismo.
[00:12:27] Os usos e o retorno, por exemplo, do Lacan ao Joyce.
[00:12:31] O Joyce é um grande patrono inspirador para os surrealistas,
[00:12:38] assim como o próprio Beckett, as referências do Lacan, principalmente na poesia,
[00:12:48] são muito grandes aos surrealistas.
[00:12:52] Há o seu…
[00:12:53] O que é encontrado, né?
[00:12:54] O Getúlio vem, os seus efeitos anamórficos, os objetos sexuais anamórficos do Dalí,
[00:13:02] as invenções surrealistas da escrita automática, que parafrasia, que deriva-se da associação livre.
[00:13:13] O surrealismo, menos do que o movimento estético, era uma forma de vida,
[00:13:19] era uma comunidade, era uma maneira de interagir,
[00:13:23] era uma forma de entender revolucionariamente nossa relação com a linguagem.
[00:13:26] Olha quantas coisas disso a gente pode trazer também para a psicanálise, né?
[00:13:31] Para o estilo de interpretação lacaniano, para a ideia da surpresa, da iluminação, do desconcerto,
[00:13:39] do uso, vamos dizer assim, irônico, irreverente, provocativo da linguagem que a gente vai ver no Lacan.
[00:13:46] Então esses quatro traços de estilo, eles são o começo de uma conversa,
[00:13:53] parando aí aquilo que talvez seja a continuação desse trabalho, que é o estilo de Lacan no Brasil, né?
[00:14:00] Ou seja, esse estilo é o outro a quem eu me dirijo, e esse estilo do Lacan aqui prosperou,
[00:14:06] isso fala do Brasil e isso fala do Lacan, né?
[00:14:09] Então vamos pensar aí que a oralidade está na nossa cultura, o barroco, também o nosso modernismo,
[00:14:17] como é que ele conversa com o surrealismo, e também, né, como a gente tem essa…
[00:14:23] essa mística da negatividade, né, nas nossas formas religiosas e culturais.
[00:14:30] Então convido todos vocês a viajarem comigo nesse estilo de Lacan, lançado aí pela Editora Azaá,
[00:14:38] a quem agradeço muito, na figura do Ricardo Tepperman, que apostou nesse projeto,
[00:14:44] e que passamos por várias revisões, remontagens, e tá aí pra vocês agora darem opinião.
[00:14:53] E…
[00:14:53] E…
[00:14:53] E…
[00:14:53] E…
[00:14:53] E…
[00:14:54] E…
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[00:14:55] E…
[00:14:55] E…
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[00:14:56] E…
[00:14:56] E…
[00:14:56] E…
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[00:14:56] E…
[00:14:56] E…
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[00:14:56] E…
[00:14:56] E…
[00:14:56] E…
[00:14:56] E…
[00:14:56] Simples, né?
[00:14:58] Que tá por trás de toda a complexidade, o barroco, a estilística lacaniana.
[00:15:04] De que é um texto repleto de indecidibilidades, repleto de ambiguidades calculadas,
[00:15:10] repleto de figuras de sentido que você não consegue…
[00:15:14] Não consegue saber exatamente o que é que o cara tava querendo falar.
[00:15:17] É, por que que é feito assim?
[00:15:19] Pra você se colocar.
[00:15:20] Pra você desafiar, né?
[00:15:23] A usar os seus recursos de manejo de texto, de gramática, de leitura,
[00:15:29] e além disso, descobrir que o sentido, ele depende desse algo a mais,
[00:15:34] que é o que a gente coloca naquilo que a gente lê.
[00:15:37] Por isso, né, esse formato, porque faz parte da formação do psicanalista,
[00:15:43] do entendimento do que que é essa formar.
[00:15:46] Claro, tem a sua análise pessoal, sua supervisão, e o seu estudo teórico.
[00:15:51] É, mas o seu estudo teórico não é…
[00:15:53] Bem, é o mesmo estudo que a gente tem na universidade, né?
[00:15:56] O estudo de esclarecimento e comentário, né?
[00:15:59] Exige esse processo, vamos dizer assim, de crise permanente,
[00:16:04] quanto a…
[00:16:05] O que que efetivamente está dado aqui nessa passagem, nesse livro, nesse artigo.
[00:16:09] Então, feito o convite, pra mais detalhes, procura o Acheronta Movebo.
[00:16:14] Acheronta e suas reentrâncias, e suas ondas, e suas ambiguidades,
[00:16:19] as suas nuvens e seus raios de luminosidade.
[00:16:23] É isso aí. O Estilo de Lacan, editor Azar.
[00:16:26] Tá na praça, tá no mundo.