Naruhodo #446 - O que é transfuga de classe?


Resumo

O episódio investiga o conceito de ‘transfuga de classe’, um termo que descreve a experiência de indivíduos que, nascidos em contextos familiares mais pobres, ascendem socialmente através da educação, especialmente sendo os primeiros de sua família a ingressar no ensino superior. A discussão é motivada por perguntas de ouvintes sobre desigualdade e os impactos da pobreza na saúde mental, servindo como ponto de partida para uma análise mais profunda.

Altair de Souza explica que a transfuga de classe gera uma ‘desadaptação crônica’, onde a pessoa não se sente mais pertencente ao seu local de origem, mas também não é plenamente aceita no novo ambiente social ao qual ascendeu. Ele traça a origem do termo, popularizado pela escritora francesa Annie Ernaux, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura, e discute trabalhos acadêmicos que abordam o tema, como os de Bernard Lahire e Pierre Bourdieu.

A conversa explora como essa experiência se manifesta, criando um conflito interno que pode levar a três caminhos: tentar forçar a adaptação ao novo grupo social, polarizar e rejeitar esse novo grupo, ou aceitar e lidar com a ambiguidade da situação. Altair argumenta que o terceiro caminho, embora difícil, é o menos pior, pois envolve reconhecer e carregar o conflito, transformando o sofrimento em movimento e diálogo.

O episódio também conecta o conceito a fenômenos sociais mais amplos, como o aumento do acesso ao ensino superior no Brasil a partir dos anos 2000, as políticas de inclusão social e seus efeitos não intencionais. Discute-se como a ascensão de classe sem uma ‘consciência de classe’ trabalhada pode levar à reprodução de privilégios e a uma polarização política, contribuindo para o surgimento de uma geração escolarizada, mas infeliz e desadaptada. A necessidade de integrar perspectivas das ciências exatas, humanas e biológicas para entender completamente esses fenômenos sociais complexos é um ponto central da discussão.


Indicações

Episodios

  • Naruhodo #170 — Episódio mencionado que trata da ideia de que ‘para conseguir algo, basta acreditar ou querer muito’, onde se discute processos estocásticos. É citado para conectar a discussão sobre aleatoriedade e determinação em diferentes escalas.
  • Naruhodo #373 — Episódio sobre ‘como funciona a carreira de cientista’, que Altair menciona como um exemplo concreto do conflito do transfuga de classe, onde há capital cultural (doutorado) sem o capital econômico correspondente.

Livros

  • Os Armários Vazios — Primeiro livro da escritora Annie Ernaux, publicado em 1974. Altair o descreve como um livro meio autobiográfico que ‘bateu doído’ nele, por retratar os conflitos de classe e a experiência de uma personagem que entra na universidade vinda de um contexto diferente.
  • Les Années (Os Anos) — Outro livro de Annie Ernaux, dos anos 80/90, recomendado por Altair como ‘fantástico’. Faz parte da obra da autora que transforma memórias pessoais em constrangimentos coletivos, abordando a experiência do tempo e da memória social.

Pessoas

  • Annie Ernaux — Escritora francesa ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2022. Altair acredita que ela popularizou o termo ‘transfuga de classe’ e recomenda fortemente sua obra, que explora de forma literária e profunda as questões de classe e mobilidade social.
  • Pierre Bourdieu — Sociólogo francês citado extensivamente. Seus conceitos de ‘hábitus’, ‘capital’ (econômico, cultural, social) e ‘violência simbólica’ são fundamentais para a análise apresentada no episódio sobre a experiência do transfuga de classe.
  • Marielle Malman — Palestrante do TEDx Blumenau que, segundo Altair, foi quem lhe apresentou o termo ‘transfuga de classe’ durante sua apresentação, causando um momento de ‘gestalt’ e encaixe perfeito em suas reflexões prévias.
  • Bernard Lahire — Sociólogo francês autor de um texto de 2005 citado por Altair: ‘Patrimônios Individuais de Disposições para uma Sociologia na Escala Individual’, que aborda trajetórias de indivíduos em mobilidade social.

Linha do Tempo

  • 00:03:46Introdução às perguntas dos ouvintes sobre desigualdade — Altair e Ken apresentam as perguntas que motivam o episódio. Gustavo pergunta sobre o consenso científico em relação ao aumento ou diminuição da pobreza global. Eduardo, estudante de serviço social, pergunta sobre a validade de uma pesquisa que associa pobreza na infância a transtornos mentais. Altair menciona que essas questões amadureceram ao longo do tempo e que o conceito de ‘transfuga de classe’ foi a peça que faltava para conectá-las.
  • 00:09:05Resposta inicial e ligação com o conceito de transfuga de classe — Altair começa respondendo à pergunta do Eduardo, validando a pesquisa citada sobre pobreza infantil e saúde mental, mas situando-a no campo da epidemiologia. Ele então introduz a ideia central: mesmo quando a pobreza material é superada e a pessoa ascende socialmente via escolarização, novos problemas surgem. Este é o ponto de partida para explorar a ‘desadaptação crônica’ vivida pelo ‘transfuga de classe’.
  • 00:15:20Origem e definição do termo ‘transfuga de classe’ — Altair conta como conheceu o termo através da palestrante Marielle Malman em um TEDx. Explica que ‘transfuga de classe’ (do francês) pode ser traduzido como ‘desertor de classe’ e descreve a pessoa que, ao ascender socialmente pela educação, sente-se deslocada tanto de sua origem quanto de seu novo ambiente. Ele compartilha que este conceito ressoou profundamente com sua própria experiência e de sua geração.
  • 00:18:00A literatura de Annie Ernaux e a popularização do conceito — Altair recomenda a obra da escritora francesa Annie Ernaux, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura, que popularizou o termo ‘transfuga de classe’ em seus livros de tom autobiográfico. Ele destaca especialmente o livro ‘Os Armários Vazios’ (1974), que descreve conflitos de classe e ascensão social, mostrando paralelos entre a experiência francesa dos anos 70 e a brasileira dos anos 2000.
  • 00:20:07Fundamentos teóricos: Disposições, agentes e o hábitus de Bourdieu — Altair aprofunda a base teórica, explicando conceitos sociológicos como ‘disposições’ (em contraste com ‘mecanismos’ determinísticos) e a ideia de ‘agente’ (em vez de ‘sujeito’). Ele introduz o conceito de ‘hábitus’ de Pierre Bourdieu, definido como um conjunto de disposições adquiridas pela socialização que guiam a percepção, o pensamento e a ação de forma não totalmente consciente, mas também não totalmente determinada.
  • 00:30:04As três saídas possíveis para o transfuga de classe — São apresentadas as três formas de lidar com a desadaptação da transfuga de classe: 1) Tentar se adaptar forçadamente ao novo grupo social (reproduzindo práticas de privilégio); 2) Polarizar e rejeitar o novo grupo; 3) Aceitar a ambiguidade e carregar o conflito consigo. Altair defende que a terceira opção, embora cause sofrimento no dia a dia, é a mais produtiva a longo prazo, pois gera movimento e não nega a complexidade da situação.
  • 00:41:32Violência simbólica e a naturalização da ordem social — A discussão avança para o conceito bourdieusiano de ‘violência simbólica’, uma forma de coerção exercida através de dispositivos sociais (e não mecanismos físicos) que leva as pessoas a aceitarem como naturais e legítimas as estruturas sociais arbitrárias. Altair argumenta que o transfuga de classe, por não naturalizar facilmente essas estruturas, tem uma visão privilegiada para identificar e questionar essa violência.
  • 00:49:39Consequências sociais: Geração desadaptada e polarização política — O episódio explora as consequências sociais em larga escala da criação de uma geração de transfugas de classe. Altair argumenta que as políticas de inclusão e expansão do ensino superior dos anos 2000, embora positivas, geraram uma massa de pessoas escolarizadas, mas desadaptadas e infelizes, que podem não ter mobilidade econômica correspondente. Essa frustração, se não trabalhada, pode levar ao conservadorismo e à polarização política, naufragando as lutas por igualdade econômica.
  • 00:52:03Transfuga de classe nas relações afetivas e familiares — Altair menciona um aspecto pouco estudado: os conflitos em relacionamentos e casamentos entre pessoas com e sem a experiência de transfuga de classe. Diferenças profundas na naturalização de práticas (como ter empregados domésticos) podem gerar grandes atritos. Isso pode levar à formação de casamentos entre transfugas, o que, por um lado, cria compreensão mútua, mas, por outro, pode polarizar ainda mais as diferenças sociais.
  • 00:54:29Os três tipos de capital e a necessidade de renda mínima — Retomando Bourdieu, Altair discute os três tipos de capital: econômico, cultural e social. A transfuga de classe muitas vezes adquire capital cultural (escolarização) sem o capital econômico correspondente, e seu capital social é ambíguo. A conclusão é que políticas como a renda mínima universal são indispensáveis para permitir que as pessoas convertam capital cultural em bem-estar, criando gerações futuras com capitais sociais mais diversos e saudáveis.

Dados do Episódio

  • Podcast: Naruhodo
  • Autor: B9, Naruhodo, Ken Fujioka, Altay de Souza
  • Categoria: Science Social Sciences Science Life Sciences Education Self-Improvement
  • Publicado: 2025-07-14T03:00:00Z
  • Duração: 00:58:11

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] O que é Transfuga de Classe?

[00:00:08] Bem-vindo ao Naruhodô, o podcast para quem tem fome de aprender.

[00:00:14] Eu sou Ken Fujioka.

[00:00:16] Eu sou Altair de Souza.

[00:00:17] E hoje é dia de quê?

[00:00:18] Ciência e senso comum.

[00:00:30] Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte do Naruhodô, o Altair e eu temos duas mensagens

[00:00:37] para você.

[00:00:38] A primeira é muito, muito obrigado pela sua audiência.

[00:00:42] Sem ela, o Naruhodô sequer teria sentido de existir.

[00:00:46] Você nos ajuda demais, não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para

[00:00:50] familiares, amigos e, por que não, inimigos.

[00:00:54] A segunda mensagem é, existe uma outra forma de apoiar o Naruhodô, a ciência e o pensamento.

[00:01:00] O pensamento científico, que é apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast

[00:01:04] semanal e independente, que só descansa no recesso do fim do ano.

[00:01:09] Manter o Naruhodô tem custos e despesas, servidores, domínio, pesquisa, produção,

[00:01:14] edição, atendimento, tempo, enfim, muitas coisas para cobrir.

[00:01:19] E algumas delas em dólar.

[00:01:21] A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente.

[00:01:24] E tá tudo bem.

[00:01:25] Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar.

[00:01:30] A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente.

[00:01:33] E tá tudo bem também.

[00:01:35] Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser.

[00:01:39] O apoio mínimo é de 15 reais e pode ser feito pela plataforma Orelo ou pela plataforma

[00:01:44] Apoia-se.

[00:01:45] Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma Patreon.

[00:01:49] É isso, gente.

[00:01:50] Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo

[00:01:55] e manter a chama da ciência acesa.

[00:01:57] Então fica aqui o nosso convite.

[00:02:00] Apoie o NARO RODÔ como puder.

[00:02:11] Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte do NARO RODÔ,

[00:02:14] chegamos mais uma vez no Momento Insider.

[00:02:17] E hoje eu quero compartilhar com você uma experiência pessoal.

[00:02:21] Eu sou relativamente minimalista em meu guarda-roupas.

[00:02:24] 70% das minhas peças são pretas.

[00:02:27] E 90% delas são lisas.

[00:02:30] E meu estilo é bem formal.

[00:02:32] A roupa que eu uso no dia a dia não é assim tão diferente da roupa que eu uso para sair.

[00:02:38] Por isso a Insider combinou tanto comigo.

[00:02:41] Ela me proporciona informalidade com sofisticação.

[00:02:44] O tecido é encorpado, tem cortes modernos que fazem um caimento perfeito.

[00:02:50] Peças que eu não preciso passar, que não marcam, que não ficam com mau cheiro e, principalmente,

[00:02:55] peças que duram.

[00:02:57] Estilo despojado, sim.

[00:02:58] Mas sempre com cara de…

[00:03:00] De novo.

[00:03:00] Minha vida fica mais prática e eu fico mais bem vestido.

[00:03:04] Então fica aqui meu convite.

[00:03:07] Experimente Insider você também e aproveite o desconto de 15% para ouvintes do NARO RODÔ.

[00:03:12] Para isso, o jeito mais fácil é usar o endereço

[00:03:15] Ou clicar no link da descrição deste episódio.

[00:03:24] O cupom NARO RODÔ será aplicado automaticamente no carrinho.

[00:03:28] Insider.

[00:03:29] Inteligência em cada escolha.

[00:03:46] Altair, temos pergunta de ouvintes, Altair.

[00:03:50] Já vou dizer desde já que é uma pergunta fantástica.

[00:03:52] Desculpa, tá?

[00:03:53] Não interessa se você não acha, mas é uma pergunta formidável.

[00:03:57] São perguntas formidáveis.

[00:03:58] Eu confesso.

[00:03:58] Eu confesso que esse episódio é um pouquinho autobiográfico.

[00:04:02] É porque, assim, muita gente pergunta do processo de fazer os episódios, né?

[00:04:06] Bom, quem sabe também, o Reginaldo, que é um processo complexo.

[00:04:09] Que as questões vão amadurecendo devagarzinho, assim, né?

[00:04:13] Então eu vou pensando em várias questões ao mesmo tempo.

[00:04:14] Eu vou estudando e uma hora amadurece e aí chega a hora do episódio.

[00:04:18] Mas esse episódio, ele amadureceu de uma hora pra outra.

[00:04:20] Isso é uma coisa muito engraçada, assim.

[00:04:22] Tipo, tem as perguntas das pessoas.

[00:04:24] Aí eu tenho que traduzir a pergunta num termo acadêmico.

[00:04:27] Que aí você acha coisas na literatura.

[00:04:29] Isso.

[00:04:29] E aí você vai caçando as coisas e tal.

[00:04:31] Esse foi o primeiro episódio que aconteceu o contrário.

[00:04:34] Eu tava estudando várias coisas separadas.

[00:04:35] E, de repente, uma pessoa de fora me falou um termo.

[00:04:38] E aí encaixou a gestalt.

[00:04:39] Falei, nossa, é isso que eu precisava.

[00:04:41] E aí esse episódio pulou, assim, do nada.

[00:04:44] Então, inclusive, vamos falar da pessoa que me trouxe esse termo.

[00:04:49] Inclusive, é o título do episódio, Transfuga de Classe.

[00:04:52] E vamos falar sobre isso.

[00:04:53] E eu acredito que vai ter uma geração de pessoas, como o Ken também,

[00:04:56] que vai se sentir identificada.

[00:04:58] Tá certo, então.

[00:05:01] A pergunta veio do Gustavo Moura,

[00:05:04] que se identificou como graduado em administração pela USP de Ribeirão Preto.

[00:05:10] Ele disse o seguinte.

[00:05:12] Primeiramente, parabéns pelo trabalho,

[00:05:14] trazendo conhecimento de forma leve e divertida.

[00:05:16] Conheci o Naro Rodô ouvindo o Braincast 238, Fato vs Histórias.

[00:05:22] E de lá pra cá estou ouvindo um atrás do outro.

[00:05:24] Ok, hoje em dia o Braincast tá com, sei lá, 400 e pouco, né?

[00:05:28] É verdade.

[00:05:28] Mais até, mais até, é.

[00:05:31] Então, esse e-mail é de 2017, tá?

[00:05:34] Só pra você ter ideia quanto tempo tá a pergunta guardada.

[00:05:37] Olha só, 2017, é, olha só.

[00:05:42] Ouvindo o Naro Rodô 61, olha só, Naro Rodô 61, faz tempo.

[00:05:47] Pessoas ricas prestam menos atenção à pobreza,

[00:05:50] entendi que a desigualdade vem crescendo nos últimos anos.

[00:05:54] Como estou em um meio extremamente politizado, com núcleos de esquerda e direita,

[00:05:58] de um lado ouço que a quantidade de pessoas na miséria e na pobreza

[00:06:02] caiu tanto em termos brutos quanto relativos nos últimos séculos,

[00:06:06] enquanto do outro lado ouço exatamente o contrário,

[00:06:09] que o capitalismo e a globalização apenas aumentaram essas questões.

[00:06:13] Afinal, existe algum consenso sobre isso?

[00:06:16] O que dizem os artigos científicos sobre o tema?

[00:06:20] E temos também a pergunta do Eduardo, que é de Recife,

[00:06:25] e começou a cursar serviço social,

[00:06:28] numa faculdade particular, que ele diz que tem bons professores,

[00:06:32] mas uma porcaria administrativamente, mas isso é uma outra conversa.

[00:06:38] E aí ele continua, acompanho há pouco tempo o podcast,

[00:06:41] mas já ouvi todos os episódios, e sou muito fã, principalmente,

[00:06:45] da maneira que vocês passam o conhecimento.

[00:06:47] Vocês dois formam uma dupla perfeita.

[00:06:49] Muito obrigado, Eduardo.

[00:06:51] Adoro as intervenções muito sagazes do Ken,

[00:06:54] e adoro também quando o Altair fica pistola.

[00:06:57] Mais um ponto alto.

[00:06:58] O ponto alto mesmo de um episódio é quando o Reginaldo toca a gravação de

[00:07:02] Ah, Reginaldo, você é tão bom pra mim.

[00:07:05] Concordo totalmente.

[00:07:06] E já denuncia a idade dele, porque ele lembra que isso é da TV Pirata.

[00:07:09] Ah, Reginaldo, você é tão bom pra mim.

[00:07:14] É verdade.

[00:07:15] Ele diz, não tem uma vez que eu não dei muita risada.

[00:07:18] Rasgação de seda devida, encontrei no Facebook uma postagem patrocinada

[00:07:23] que linko aqui e fala sobre a pobreza na infância

[00:07:26] e o aumento da possibilidade de transtorno,

[00:07:28] transtornos mentais, pesquisa feita no Brasil e que durou sete anos.

[00:07:33] Gostaria de saber, se possível, a consistência dessa pesquisa,

[00:07:36] já que ainda não sei avaliar isso, porque serve de mais um dado que, acredito,

[00:07:41] pode me ajudar tanto na minha graduação quanto no futuro que pretendo ter no serviço social,

[00:07:45] que é o de pesquisador.

[00:07:47] Essa minha decisão de tentar enveredar por essa parte de meu curso

[00:07:50] é devido à crônica falta de pesquisa de maneira geral no Brasil,

[00:07:54] principalmente quando comparado com vários outros países.

[00:07:57] E claro que o Naro Rodô me ajudou a decidir sobre isso.

[00:08:01] No primeiro semestre tivemos uma cadeira de psicologia

[00:08:04] e falei várias vezes desse podcast nas aulas.

[00:08:07] O mesmo aconteceu nas aulas de estatística no segundo semestre.

[00:08:12] E sempre recomendei o Naro Rodô nas aulas.

[00:08:14] Por fim, espero que não demore três anos para que vocês consigam responder a esse pedido.

[00:08:19] Ô Eduardo, spoiler, demorou três anos.

[00:08:21] Isso, chegamos ao limite superior.

[00:08:23] Essa pergunta é de 2022.

[00:08:25] Por que aí?

[00:08:26] E a minha graduação acaba ainda.

[00:08:28] Espero que tenha acabado.

[00:08:29] Espero que vocês tenham se formado e estejam muito bem.

[00:08:33] Fora de brincadeira, sei que dependendo do assunto demora muito mesmo.

[00:08:37] Obrigado por vocês existirem e desejo muito sucesso a todos vocês que têm uma longa vida.

[00:08:43] Eduardo, muito obrigado.

[00:08:44] Eu prefiro ter uma vida boa do que longa.

[00:08:49] Mas, de fato, demorou.

[00:08:53] Não é, Altair?

[00:08:53] Mas saiu.

[00:08:53] Demorou, mas saiu.

[00:08:55] Pois é.

[00:08:56] O que é que a ciência, então, tem a dizer sobre esses dilemas e essas angústias relatadas pelo Gustavo e pelo Eduardo, Altair?

[00:09:05] Então, começando com o artigo que o Eduardo indicou, ele indicou um link de uma divulgação, mas aí tem um artigo, está na descrição, é o primeiro link.

[00:09:14] É um artigo muito bem feito, de um grupo aqui do Brasil, que mostra, estatisticamente, por um estudo de moderação e mediação,

[00:09:20] que, de fato, é importante mostrar dados para conferir as nossas intuições.

[00:09:26] De fato, a pobreza, durante um período crítico do desenvolvimento infantil, aumenta a probabilidade de questões ligadas à saúde mental.

[00:09:37] Só que esse artigo é de uma área de epidemiologia, que é uma área mais médica, então, estuda as associações entre diagnósticos de doença mental feitos majoritariamente por questionários

[00:09:49] e traços econômicos da infância.

[00:09:52] São estudos muito importantes.

[00:09:54] A gente trata no Naruhodo muito da questão da…

[00:09:56] As quatro causas e tal, né?

[00:09:58] Então, esse trabalho de epidemiologia é importante para o serviço social, que não trata, assim, trata por meio do indivíduo questões de matiz social.

[00:10:08] E aí envolve as questões epidemiológicas, claro.

[00:10:11] Então, a primeira coisa desse episódio, e a gente faz isso em todos os episódios, é acabar com essa diferença de exatas humanas e biológicas.

[00:10:18] Então, vocês vão ver, durante esse episódio, que eu vou parecer um mundrungo de papete falando no sarau, sabe?

[00:10:25] Eu vou pegar bem os estereótipos.

[00:10:26] Em algumas partes do episódio, eu vou parecer um nerdola mesmo de exatas, tá?

[00:10:30] Porque a ideia é juntar.

[00:10:31] Os discursos têm paralelismo.

[00:10:34] Então, da mesma forma que existe um paralelo entre as exatas, os humanos e as biológicas, tem paralelos entre os discursos.

[00:10:42] O problema é que as pessoas são mal formadas e têm muito viés em um discurso só.

[00:10:46] Então, por exemplo, eu vou falar muito de um grande autor, eu gosto dele, do Pierre Boudier.

[00:10:52] Eu acho ele fantástico, ele tem coisas muito importantes.

[00:10:55] O problema são os…

[00:10:56] O budeziano, sei lá, boudiano, sei lá, o nome que você der pra isso aí, pro time do Boudier.

[00:11:01] Os fãs, é isso?

[00:11:02] Isso, os fãs.

[00:11:03] Eu lembro muito de uma fala do Piaget, assim, o Piaget era vivo, e ele tinha brigas entre o Piaget e o Vygotsky.

[00:11:11] Mas a briga nunca foi entre o Piaget e o Vygotsky, porque o Vygotsky morreu muito cedo, e o Piaget viveu muito.

[00:11:16] Então, eu lembro de uma professora minha, que foi aluna do Piaget, ela contava que tinha um congresso,

[00:11:21] e aí o Piaget tava lá, sentadinho, velhinho, e tendo umas tretas homéricas.

[00:11:26] E o povo do Piaget, do Vygotsky, eles brigando lá.

[00:11:30] E aí chegaram pro Piaget e perguntaram, o Piaget, o que você acha disso?

[00:11:33] Aí ele olhou, falou, o problema não é o Piaget, são os piagetianos.

[00:11:36] É isso, sabe?

[00:11:37] Então, vocês não sabem do que vocês estão falando.

[00:11:39] Tipo, eu nunca briguei, muito pelo contrário, é complementar, só que a gente tinha interesses de pesquisa diferentes.

[00:11:44] Certo.

[00:11:44] E a questão é que vocês ficaram viesados no método, né?

[00:11:47] Então, esse é um problema.

[00:11:49] Esse artigo, ele é muito importante pra mostrar que, de fato, num certo nível de explicação, né?

[00:11:54] Você…

[00:11:55] A desigualdade e a pobreza…

[00:11:56] A desigualdade e a pobreza, de fato, por uma questão material, você pode pensar por meio da nutrição.

[00:12:02] Por exemplo, se você tem uma baixa qualidade nutricional, óbvio que, de causa material, vai afetar o seu desenvolvimento biológico

[00:12:09] e vai afetar a sua capacidade de interação com o mundo e desenvolver as suas potencialidades.

[00:12:15] Isso é meio óbvio, né?

[00:12:16] Temos muitos dados que mostram isso.

[00:12:19] Mas, por outro lado, mesmo que você tenha uma infância não tão favorecida,

[00:12:25] mas você tenha acesso a uma nutrição minimamente de boa qualidade, né?

[00:12:30] E você se desenvolva no limite das suas potencialidades.

[00:12:34] E você ascenda socialmente, isso também é um problema.

[00:12:38] Gera problemas.

[00:12:39] Esse é um negócio engraçado.

[00:12:41] Porque a gente tem uma crença, e é uma crença que vem desde o pós-guerra,

[00:12:46] mas nos anos 2000, aqui no Brasil especificamente, ganhou força.

[00:12:50] Principalmente por conta do início das políticas afirmativas,

[00:12:55] e de aumento, de expansão da escolaridade.

[00:12:58] Então, a partir dos anos 2000, e é uma efeméride, isso nunca aconteceu antes na história,

[00:13:03] a gente teve um grande aumento da inserção das pessoas no ensino superior.

[00:13:09] Eu sou exatamente dessa geração.

[00:13:11] Então, você tem a geração, por exemplo, do FHC,

[00:13:14] que foi uma decisão estratégica, que eu acredito acertada,

[00:13:18] que foi o investimento na educação básica.

[00:13:22] Certo.

[00:13:22] Básica, né?

[00:13:23] Então, apareceu…

[00:13:25] Muitos mecanismos, muitos dispositivos sociais e institucionais

[00:13:30] para a melhoria da qualidade do ensino básico.

[00:13:34] Quando chegou nos anos 2000, teve esse investimento grande no ensino superior.

[00:13:38] E eu sou fruto disso.

[00:13:40] E foi muito legal, por um lado.

[00:13:42] Mas, ao mesmo tempo, trouxe problemas para toda uma geração.

[00:13:45] E aí, uma das consequências desse problema que não foi trabalhado adequadamente,

[00:13:51] ou, na verdade, foi…

[00:13:53] Tipo, assumiu-se o risco dele, porque ele foi pensado,

[00:13:57] é o conservadorismo que a gente tem em uma fração da classe mais nova, mais jovem, hoje.

[00:14:02] As pessoas que nasceram em…

[00:14:04] Porque, assim, eu fiz faculdade em 2000.

[00:14:06] Eu entrei exatamente em 2000 na universidade.

[00:14:09] Mas tem a geração que nasceu em 2000.

[00:14:11] Então, esse sofreu, está sofrendo um caminho contrário à minha geração que entrou em 2000.

[00:14:17] E esse é um mecanismo muito interessante, assim.

[00:14:19] Então, quando você pensa a ideia da desigualdade,

[00:14:22] você tem a questão matemática.

[00:14:23] Você tem a questão material da desigualdade,

[00:14:25] que é falta comida ou falta dinheiro, que é a questão mais básica.

[00:14:29] Mas, a partir do momento que você resolve isso um pouco,

[00:14:31] você vai ter a desigualdade social.

[00:14:33] E essa desigualdade social, ela aparece de diferentes meios.

[00:14:38] E aí, é uma coisa que eu estava construindo já há alguns anos, pensando sobre isso.

[00:14:41] E aí, eu lia diferentes coisas.

[00:14:43] E aí, aconteceu uma efeméride também, uma coisa, assim, aleatória, mas importante,

[00:14:48] que eu fui convidado, e, aliás, agradeço muito, não só você, Ken,

[00:14:51] mas agradeço ao Cris Dias.

[00:14:53] E a Humberto e todo o pessoal da organização do TEDx.

[00:14:58] TEDx Blumenau é, segundo o Cris Dias, o melhor TEDx do mundo.

[00:15:03] E eu concordo, eu concordo.

[00:15:04] A organização é impecável.

[00:15:06] Foi o meu segundo TEDx, o primeiro eu fiz em 2018.

[00:15:09] Mas o de Blumenau, de fato, é o melhor, é muito bem organizado.

[00:15:12] E a curadoria foi muito boa, das pessoas que participaram.

[00:15:16] Recomendo, quando sair os vídeos, que assistam todos.

[00:15:19] Foi muito legal mesmo.

[00:15:20] E nesse TEDx, eu conheci…

[00:15:22] As pessoas, né?

[00:15:24] A gente faz um ensaio, então eu tive a oportunidade de ouvir todas as apresentações antes.

[00:15:29] E foi muito legal, porque conversar com as pessoas e tal.

[00:15:32] Eu nem vou citar todos, porque todos são muito legais.

[00:15:34] Assim, vale a pena acompanhar.

[00:15:36] Mas uma pessoa em particular, eu conheci a Marielle Malman, né?

[00:15:40] Que ela fez uma palestra muito boa.

[00:15:42] Assim, me emocionou até, porque eu estava ouvindo a palestra e falei

[00:15:44] Nossa, era isso que eu precisava?

[00:15:46] Encaixou uma gestalt na minha cabeça.

[00:15:48] Que ela trouxe um conceito chamado

[00:15:52] Que é o título do episódio, né?

[00:15:54] Você já tinha ouvido falar desse conceito, ok?

[00:15:57] Transfuga de classe?

[00:15:58] Não.

[00:15:58] Nunca ouviu?

[00:15:58] Não tinha ouvido falar.

[00:16:00] Que é a ideia de uma pessoa que nasceu num contexto familiar mais pobre, mais desfavorecido.

[00:16:06] E aí a pessoa ascende socialmente por meio da escolarização.

[00:16:09] Então, vai trabalhando, consegue uma escolarização maior.

[00:16:13] Acaba sendo uma das primeiras pessoas, ou da primeira geração, que entra na universidade.

[00:16:18] E isso gera…

[00:16:19] Isso é legal, por um lado, né?

[00:16:21] Te dá acesso a várias coisas.

[00:16:23] Mas isso gera uma desadaptação crônica, né?

[00:16:26] E o nome Transfuga de Classe é o nome disso.

[00:16:29] É um conceito disso.

[00:16:31] Que é uma sensação que eu carrego até hoje.

[00:16:32] Que é fantástica.

[00:16:34] Assim, não a sensação, mas a entendê-la, finalmente.

[00:16:37] Transfuga de Classe vem do francês.

[00:16:40] É só ler isso em francês, assim, que é o mesmo termo.

[00:16:44] Mas uma tradução seria desertor de classe.

[00:16:47] Alguém que deserda da sua classe.

[00:16:49] Ou um desertor social.

[00:16:50] Então, o primeiro uso desse termo é um termo meio pejorativo.

[00:16:55] Ele não tem a ver só com a mobilidade social.

[00:16:59] Ele tem um juízo de valor.

[00:17:01] Tem, tem.

[00:17:01] Então, assim, o primeiro uso dele…

[00:17:03] Depois se perdeu esse termo desertor.

[00:17:06] Porque, por exemplo, você entende isso muito bem.

[00:17:08] A gente tem o naruhodo, porque japonês é tudo igual.

[00:17:11] Você…

[00:17:12] E aí eu vou estereotipar de verdade, porque eu quero trazer…

[00:17:14] Que é exatamente a mesma coisa.

[00:17:16] Quando você era mais jovem e estava na escola,

[00:17:17] você não tinha os seus colegas japoneses que negavam a raça?

[00:17:20] Sabe, entre aspas?

[00:17:22] Isso é a ideia do desertor.

[00:17:24] Nesse sentido.

[00:17:24] Eu acho que em alguns momentos até eu fiz isso.

[00:17:26] Isso, exatamente.

[00:17:27] Então, é um movimento interno.

[00:17:29] Não é uma coisa que você tem ou não.

[00:17:31] Você joga com isso.

[00:17:33] Porque você tem uma certa identidade social colocada em outro lugar.

[00:17:36] E aí você tem opções.

[00:17:38] Quando eu falo opções, não é consciente.

[00:17:40] Mas de aderir ao lugar onde você está,

[00:17:43] aderir ao lugar de onde você saiu,

[00:17:45] ou ficar no meio do caminho.

[00:17:47] Ou lidar com ambiguidade.

[00:17:48] Não são duas opções.

[00:17:50] São três.

[00:17:50] Então, o Transfuga de Classe,

[00:17:53] na verdade, ela foi popularizado, o termo,

[00:17:56] não foi criado por ela,

[00:17:57] mas foi popularizado por uma autora,

[00:17:59] que eu já li muitos livros dela.

[00:18:00] Comecei a ler obsessivamente.

[00:18:02] A Annie Ernaux,

[00:18:04] que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2022,

[00:18:07] recomendo muito o primeiro livro dela.

[00:18:09] O primeiro livro dela, de 74, bateu doído em mim.

[00:18:12] A tradução seria Os Armários Vazios.

[00:18:15] Lea no Avid.

[00:18:16] É um livro meio autobiográfico

[00:18:18] que descreve uma personagem,

[00:18:20] que é a Denise Lessour.

[00:18:22] Durante a adolescência, ela passa por um aborto ilegal

[00:18:25] e ela entra na universidade.

[00:18:27] Logo depois.

[00:18:27] E aí tem vários conflitos com a relação do trabalho,

[00:18:30] as aspirações pessoais dela.

[00:18:32] E é um livro de 74.

[00:18:34] Então, o que aconteceu no Brasil nos anos 2000,

[00:18:38] na França foi nos anos 70.

[00:18:40] Então, é fantástico.

[00:18:42] E aí, a Annie Ernaux,

[00:18:44] ela escreveu vários livros com um tom autobiográfico,

[00:18:47] mas que ela descreve muito

[00:18:49] os constrangimentos coletivos da memória pessoal dela.

[00:18:53] Então, são memórias pessoais

[00:18:54] que ela transforma em constrangimentos coletivos.

[00:18:56] De uma forma muito bonita.

[00:18:58] Tem um livro, que aí já é mais dos anos 80, 90,

[00:19:01] que é Lesani, Lesani, Os Anos.

[00:19:04] Fantásticos os livros.

[00:19:05] Fantásticos mesmo.

[00:19:07] E aí, tanto é que ela ganhou o Prêmio Nobel em 2022.

[00:19:10] Pelo conjunto da obra.

[00:19:11] Foda.

[00:19:12] Como é que eu não achei essa mulher antes?

[00:19:14] Poxa, aí ligou com toda a literatura que eu tinha lido.

[00:19:17] Faltava, tipo,

[00:19:19] além da teoria mesmo,

[00:19:20] mas faltava a literatura para dar o arremate.

[00:19:23] E eu agradeço muito a Marielle

[00:19:25] por ter me encontrado esse termo.

[00:19:27] Fantástico.

[00:19:28] E aí, eu fui atrás do termo mesmo.

[00:19:29] Onde que surgiu?

[00:19:31] A Annie Ernaux, ela popularizou o termo.

[00:19:34] O Transfuga de Classe.

[00:19:35] Mas não surgiu com ela.

[00:19:37] Aí, tem gente que atribui a um texto de 2014,

[00:19:41] de um autor, a Chantal Jaquet,

[00:19:43] também francesa.

[00:19:44] E aí, eu olhei o texto,

[00:19:47] aí eu achei uma outra referência.

[00:19:49] A referência mais antiga que eu achei

[00:19:51] é de 2005,

[00:19:52] que é um texto formidável também do Bernard Larrier.

[00:19:56] Também francês.

[00:19:57] A tradução em português é

[00:19:58] Patrimônios Individuais de Disposições

[00:20:01] para uma Sociologia na Escala Individual.

[00:20:04] Um texto formidável também.

[00:20:06] E aí,

[00:20:07] agora veio a parte cirandeira.

[00:20:09] Assim, a parte de mundrungo mesmo.

[00:20:12] Então, imagina de papete,

[00:20:13] eu não tenho cabelo, mas imagina com cabelo, sabe?

[00:20:15] Aí tem que ser assim.

[00:20:16] Cabelão, barbão, papete.

[00:20:18] No sarau.

[00:20:18] É, tem que ser assim.

[00:20:20] Bolsa de giracola de couro.

[00:20:21] É, exatamente.

[00:20:22] Sociais total.

[00:20:23] Então,

[00:20:24] vale a pena explicar,

[00:20:26] do ponto de vista das ciências sociais,

[00:20:27] o que é uma disposição.

[00:20:30] Disposição não é sinônimo,

[00:20:32] mas é a ideia de mecanismo.

[00:20:35] Então, por exemplo, na biologia,

[00:20:36] a gente pensa em mecanismos.

[00:20:38] Mecanismos moleculares,

[00:20:39] mecanismos genéticos, fisiológicos e tal.

[00:20:41] O correlato disso nas sociais é dispositivo.

[00:20:45] Porque o que é…

[00:20:46] E parece discurso meio chilelê,

[00:20:48] mas não é.

[00:20:49] Porque quando você,

[00:20:49] pensa um mecanismo social,

[00:20:51] dá a sensação de um certo determinismo.

[00:20:54] Certo.

[00:20:54] Porque, por exemplo,

[00:20:55] a ação da insulina no seu corpo,

[00:20:57] ela é determinística.

[00:20:58] Assim, ela tem uma probabilidade,

[00:21:00] mas você tem diabetes,

[00:21:01] tem que tomar insulina,

[00:21:01] porque tem uma coisa que não está funcionando.

[00:21:03] É como um carro que está falhando uma parte.

[00:21:06] Certo.

[00:21:07] Então, as ciências sociais,

[00:21:08] para fugir dessa coisa meio determinística,

[00:21:11] você tem um jogo probabilístico também.

[00:21:13] Então, eles não deixam de…

[00:21:15] Eles fogem do termomecanismo

[00:21:18] e falam de dispositivos

[00:21:19] social.

[00:21:20] Dispositivo social é como se fosse uma redoma

[00:21:23] que não é fixa,

[00:21:25] mas você está ali dentro

[00:21:26] e você joga dentro daquilo.

[00:21:28] Então, quando você pensa…

[00:21:29] Você pensa em disposições individuais de ação.

[00:21:32] Então, quando você pensa, por exemplo,

[00:21:34] o ser oriental,

[00:21:35] isso é um dispositivo.

[00:21:36] O ser mulher, o ser homem,

[00:21:38] não é um mecanismo,

[00:21:39] sabe, que causa consequência.

[00:21:42] Tem um jogo.

[00:21:43] Então, é um nome muito próprio

[00:21:45] você pensar em dispositivos.

[00:21:46] Porque também, na literatura sociológica mais antiga,

[00:21:49] a gente pensava na noção de sujeito.

[00:21:52] Então, você é quem nasceu

[00:21:53] como um aglomerado de células,

[00:21:55] igual a sua filha.

[00:21:56] Nasceu como um aglomerado de células sem nome.

[00:21:59] Aí, te dão um nome e te dão um lugar social.

[00:22:02] Ela é a filha do quem?

[00:22:04] E a filha, enfim,

[00:22:05] neta de sei lá quem,

[00:22:07] que nasceu em tal lugar.

[00:22:08] E aí, atribuem isso a ela.

[00:22:09] Isso não é dela.

[00:22:10] É atribuído a ela.

[00:22:12] Perfeito.

[00:22:12] Então, quando você é muito pequeno,

[00:22:14] você nasce com fala,

[00:22:16] que é a capacidade de dizer gugu dadá.

[00:22:18] Produzir sons.

[00:22:20] Isso é biológico.

[00:22:20] Isso tem mecanismos.

[00:22:21] A fala tem mecanismos.

[00:22:23] Só que, conforme o organismo age no ambiente,

[00:22:26] cria-se uma certa imprevisibilidade.

[00:22:29] Não é uma coisa indeterminística.

[00:22:33] Tem uma determinação,

[00:22:34] mas é mais fluida.

[00:22:36] Então, eu produzir sons

[00:22:37] é uma coisa determinística.

[00:22:39] Tem mecanismos de produzir sons.

[00:22:41] Certo.

[00:22:41] Mas o efeito do som no ambiente,

[00:22:44] como eu não sou onipotente,

[00:22:45] o efeito do som no ambiente gera um movimento.

[00:22:48] Gera uma imponderabilidade.

[00:22:50] E isso a gente…

[00:22:51] Agora eu vou virar nerdola.

[00:22:52] Porque isso junta com a parte de matemática.

[00:22:55] Na teoria clássica de processos estocásticos,

[00:22:58] dizem o seguinte.

[00:22:59] Isso é a definição de passeio aleatório.

[00:23:03] Quando você tem dois eventos,

[00:23:04] você tem dois eventos determinísticos.

[00:23:06] Tipo, quem está agora no quarto,

[00:23:09] e ele vai ao banheiro.

[00:23:10] Então, você tem dois eventos determinísticos,

[00:23:12] que é estar na sala e ir ao banheiro.

[00:23:14] Entre dois eventos determinísticos,

[00:23:17] pode acontecer qualquer coisa.

[00:23:18] Certo.

[00:23:20] Então, a aleatoriedade existe

[00:23:21] entre dois eventos determinísticos.

[00:23:24] Então, por exemplo, tem…

[00:23:25] A sua filha nasceu.

[00:23:26] Isso é um evento determinístico.

[00:23:27] A sua filha entrou na escola.

[00:23:29] É outro evento determinístico.

[00:23:30] O que pode acontecer entre esses dois

[00:23:32] é qualquer coisa.

[00:23:33] Isso é o passeio aleatório.

[00:23:35] Você sabe que você vai de A para B.

[00:23:37] Ah.

[00:23:37] E isso é determinado.

[00:23:38] Mas como?

[00:23:40] É onde o jogo joga.

[00:23:41] É onde as sociais entram.

[00:23:43] Aham.

[00:23:44] Então, isso você vê que você tem

[00:23:46] indeterminado.

[00:23:47] Ações, mecanismos maiores,

[00:23:50] sistemas maiores,

[00:23:51] dentro de dispositivos menores.

[00:23:54] É assim que você liga as áreas.

[00:23:56] Então, você tem…

[00:23:57] Porque você é um corpo biológico.

[00:23:59] Não tem jeito.

[00:24:00] Tá?

[00:24:00] Você pode ser a pessoa mais esclarecida do mundo.

[00:24:03] Se um dia você tiver um problema renal,

[00:24:05] isso vai limitar sua vida.

[00:24:07] Tá?

[00:24:07] Então, você tem grandes mecanismos,

[00:24:09] sistemas sociais complexos.

[00:24:11] E aí você pensa em teoria dos jogos,

[00:24:12] que não tem a ver com você,

[00:24:13] mas com o que vai acontecer.

[00:24:15] Aham.

[00:24:16] E entre esses sistemas,

[00:24:17] os sistemas maiores determinísticos,

[00:24:20] você tem uma gama de variabilidade

[00:24:22] que é onde moram os dispositivos.

[00:24:25] Então, vai ter um naruhodo depois

[00:24:27] sobre livre-arbítrio,

[00:24:27] mas isso ajuda a organizar um pouco.

[00:24:29] Que a pergunta se existe livre-arbítrio é ruim.

[00:24:32] Porque você tem que pensar no nível de análise.

[00:24:34] Existe livre-arbítrio em geral?

[00:24:36] Não interessa.

[00:24:37] A pergunta é ruim.

[00:24:38] Sabe?

[00:24:39] É a mesma coisa que você definiu que é vida.

[00:24:41] Porque dependendo do nível de análise,

[00:24:42] existe ou não.

[00:24:43] Depende da definição, do contexto.

[00:24:45] Tá?

[00:24:45] Então, existem mecanismos,

[00:24:47] que controlam,

[00:24:48] que geram princípios determinísticos.

[00:24:50] E existem dispositivos que geram variabilidade.

[00:24:54] Então, essas duas coisas coexistem

[00:24:55] em níveis de análise diferentes.

[00:24:57] Então, tem que pensar no 3D.

[00:24:58] Tá?

[00:24:58] Então, quando a sua filha tem fala,

[00:25:02] e isso interage no ambiente,

[00:25:03] isso gera uma imprevisibilidade.

[00:25:05] E aí, nessa imprevisibilidade,

[00:25:08] a fala vira língua,

[00:25:10] e o indivíduo vira sujeito.

[00:25:13] Né?

[00:25:13] Então, a sua filha não vai ser mais

[00:25:15] um aglomerado de células,

[00:25:16] ela vai ter um nome,

[00:25:17] vai ter um RG,

[00:25:18] um CPF,

[00:25:19] uma nacionalidade,

[00:25:20] o que quer que seja.

[00:25:21] Tá?

[00:25:21] E aí, o indivíduo vira sujeito,

[00:25:23] e a fala vira língua.

[00:25:25] Né?

[00:25:26] E aí, mesmo quando você pensa

[00:25:28] na ideia de sujeito,

[00:25:29] ainda tem um certo caráter fixo.

[00:25:32] Porque parece,

[00:25:33] ah, se sua filha virou um sujeito,

[00:25:34] ela é brasileira, por exemplo.

[00:25:36] Então, ser brasileiro é isso.

[00:25:39] É o que é.

[00:25:40] E, na verdade,

[00:25:41] hoje em dia,

[00:25:41] na nossa sociedade complexa,

[00:25:42] não é só isso.

[00:25:44] E aí, veio o papel muito importante

[00:25:45] do Pierre Boudier.

[00:25:47] Né?

[00:25:47] O Pierre Boudier,

[00:25:48] ele coloca muito que a ideia é você,

[00:25:50] o sujeito,

[00:25:52] e ele critica muito Durkheim

[00:25:53] por causa disso,

[00:25:54] o sujeito não é um mero,

[00:25:56] uma mera vítima dos meios sociais.

[00:25:59] Ele tem um mecanismo

[00:26:00] de contra-força interno.

[00:26:02] Então, você tem que mudar

[00:26:03] o termo sujeito.

[00:26:04] Você tem que chamar de agente.

[00:26:05] E aí, liga com a teoria de jogos.

[00:26:07] Tá vendo que eu tô indo

[00:26:08] do cirandeiro pro, né,

[00:26:10] pro Nerdola.

[00:26:11] Exato.

[00:26:12] Tem que ir pros dois.

[00:26:13] Né? Por quê?

[00:26:14] Porque a teoria de jogos

[00:26:15] trabalha com agentes.

[00:26:16] Porque os agentes

[00:26:17] tão fazendo coisinhas.

[00:26:18] Eles são um vetor de probabilidades.

[00:26:20] Eles não são números fixos.

[00:26:21] Né?

[00:26:22] Tem total paridade.

[00:26:23] Então, a ideia de você pensar

[00:26:25] a transfuga de classe

[00:26:26] é você não pensar em sujeitos.

[00:26:29] Ah, você nasceu

[00:26:29] numa infância pobre,

[00:26:31] e aí você entrou na universidade,

[00:26:32] teve acesso à escolarização,

[00:26:34] se tornou alguém iluminado

[00:26:35] e construiu algo pro mundo.

[00:26:37] Não parece que o meio social

[00:26:38] moldou você como sujeito?

[00:26:40] Não é assim.

[00:26:41] Você é um agente.

[00:26:43] Claro que você entrar

[00:26:44] na universidade pública

[00:26:45] muda suas probabilidades,

[00:26:46] de alguma coisa.

[00:26:47] E aí, a Ani, a Erno,

[00:26:49] brilha com os textos dela,

[00:26:51] porque ela mostra assim,

[00:26:52] poxa, eu consegui coisas legais.

[00:26:54] O mesmo, a fala da Marielle, né?

[00:26:56] Eu consegui coisas legais.

[00:26:57] A escolarização me ajudou.

[00:26:59] Mas, ao mesmo tempo,

[00:27:00] me aprisiona.

[00:27:01] Me aprisiona por quê?

[00:27:02] Porque quando eu me escolarizo

[00:27:05] e eu volto pra comunidade

[00:27:07] de onde eu vim,

[00:27:08] eu não sou mais bem recebido.

[00:27:10] Quando eu digo bem recebido,

[00:27:12] eu avaliando a mim mesmo.

[00:27:13] É o meu julgamento interno.

[00:27:15] Eu não me sinto,

[00:27:15] eu não me sinto mais pertencente

[00:27:16] àquele lugar.

[00:27:17] Porque as pessoas compartilham

[00:27:18] de outros dispositivos.

[00:27:20] E eu tive acesso

[00:27:21] a um outro dispositivo.

[00:27:22] Isso me tornou alguém diferente.

[00:27:25] E eu também não tenho acesso

[00:27:26] ao lugar onde eu estou,

[00:27:27] que é a universidade.

[00:27:28] Né?

[00:27:29] Sim.

[00:27:29] Hoje, de 2010 pra cá,

[00:27:31] quando você vem as cotas,

[00:27:33] na minha época não tinha.

[00:27:34] Então, na época que eu fiz graduação,

[00:27:36] só tinha eu e mais duas,

[00:27:38] uma ou duas pessoas

[00:27:39] que tinham escola pública.

[00:27:40] Eu fui o único da escola pública

[00:27:41] do meu ano,

[00:27:42] da minha escola,

[00:27:42] que passou na USP.

[00:27:43] E eu tava entre os dez

[00:27:45] que fizeram faculdade.

[00:27:46] A maior parte das pessoas

[00:27:47] terminava o ensino médio

[00:27:48] e ia ser feliz.

[00:27:49] Ia casar,

[00:27:50] ia fazer outras coisas.

[00:27:51] Então, é muito diferente.

[00:27:53] E eu nem imaginava.

[00:27:54] Foi uma quebra enorme.

[00:27:55] Então, eu sou um transfuga de classe.

[00:27:57] Clássico.

[00:27:58] Assim como muitos

[00:27:59] da minha geração mesmo.

[00:28:00] E isso gera

[00:28:00] uma desadaptação enorme.

[00:28:02] Posteriormente.

[00:28:03] Que aí você pode lidar

[00:28:05] com esse discurso

[00:28:06] de formas diferentes.

[00:28:07] Com essa desadaptação.

[00:28:08] Né?

[00:28:09] De formas diferentes.

[00:28:10] Então, por exemplo…

[00:28:10] Eu senti a mesma coisa.

[00:28:12] É isso.

[00:28:12] Por isso que eu estou falando.

[00:28:13] Guardadas as devidas proporções,

[00:28:15] eu senti a mesma coisa.

[00:28:17] Quando eu volto

[00:28:19] pra origem,

[00:28:23] existe esse estranhamento.

[00:28:27] Uma espécie de não pertencimento

[00:28:29] de algo com a qual eu nasci.

[00:28:35] E quando eu prosperei

[00:28:37] e acendi economicamente,

[00:28:39] tive acesso a lugares e pessoas

[00:28:42] que eu não me sinto

[00:28:44] pertencendo também.

[00:28:45] Exatamente.

[00:28:46] Exatamente.

[00:28:47] E aí, o texto do Bernard Larrier

[00:28:50] é fantástico.

[00:28:51] Porque ele mostra, assim,

[00:28:52] são as trajetórias de indivíduos

[00:28:54] que passaram por uma transformação

[00:28:56] em seu ambiente social

[00:28:57] através da mobilidade.

[00:28:58] Mas isso não é bom pra eles

[00:28:59] do ponto de vista individual.

[00:29:01] Vai ser bom pra próxima geração,

[00:29:02] mas não pra eles.

[00:29:03] Sim.

[00:29:03] Então, lembra muito

[00:29:05] uma guerra.

[00:29:07] Porque quando você tem

[00:29:08] uma guerra muito grande,

[00:29:09] a guerra marca a vida

[00:29:11] daquela geração.

[00:29:12] Só que a guerra marca

[00:29:13] do ponto de vista concreto.

[00:29:15] As pessoas não sabem

[00:29:15] que as pessoas perdem patrimônio,

[00:29:16] perdem vidas,

[00:29:17] perdem parentes e tal.

[00:29:18] Isso gera uma marca

[00:29:19] pra próxima geração.

[00:29:20] Óbvio.

[00:29:20] Tem o trauma e tal.

[00:29:22] Mas a mobilidade social,

[00:29:23] e aí é onde o Pierre Baudier brilha,

[00:29:25] a mobilidade social

[00:29:26] gera essa marca também.

[00:29:27] De desadaptação.

[00:29:28] E gera vários problemas.

[00:29:29] Não no sujeito,

[00:29:30] mas no agente.

[00:29:32] Muda as probabilidades do agente.

[00:29:34] Isso é formidável.

[00:29:35] Porque aí, o que acontece?

[00:29:37] Quando você é transfuga de classe,

[00:29:39] isso é um discurso

[00:29:41] que habita você.

[00:29:43] É um dispositivo que habita você.

[00:29:44] Você não pertence mais

[00:29:46] ao lugar onde você está.

[00:29:47] Você não pertence mais

[00:29:50] de onde você veio.

[00:29:51] Não pertence aonde você está.

[00:29:52] Então, você fica no meio do caminho.

[00:29:54] Aí vem aquela coisa.

[00:29:55] O que você faz com isso?

[00:29:57] Porque isso é dado.

[00:29:59] E, de novo, você não escolheu.

[00:30:00] Isso é dado pra você.

[00:30:01] Você não escolheu isso.

[00:30:02] Tem basicamente três saídas.

[00:30:04] Ou você tenta se adaptar

[00:30:06] pra onde você vai,

[00:30:07] quer ir,

[00:30:08] e você sabe que você nunca

[00:30:09] vai conseguir se adaptar

[00:30:11] a esse lugar.

[00:30:14] Eu não gosto muito

[00:30:14] de falar classe social mais alta,

[00:30:16] mas classe diferente,

[00:30:17] porque todas têm problemas também.

[00:30:19] E aí, eu assisti um documentário

[00:30:21] sobre o Príncipe Charles,

[00:30:23] um tempo atrás,

[00:30:23] uns anos atrás,

[00:30:24] e me ocorreu depois,

[00:30:25] lendo essas coisas,

[00:30:26] que eles entrevistavam

[00:30:28] um mordomo do Príncipe Charles.

[00:30:31] E aí, é o Príncipe Charles.

[00:30:34] Ele nasceu sendo servido.

[00:30:36] Então, ele naturalizou isso.

[00:30:39] Ele não consegue fazer coisa alguma.

[00:30:41] Até a pasta de dente é colocada

[00:30:42] com exatamente uma polegada

[00:30:44] em cima da cabeça.

[00:30:44] Em cima da escova dele

[00:30:47] e colocada ali na frente dele.

[00:30:49] E aí, o mordomo contou um negócio

[00:30:51] que eu achei sublime

[00:30:52] pra mostrar isso.

[00:30:55] O que a falta de transfuga de classe

[00:30:58] faz com alguém?

[00:30:59] Que certa vez,

[00:31:01] o Príncipe Charles

[00:31:02] estava sentado numa cadeira,

[00:31:03] ele ligou,

[00:31:04] porque a casa é gigante,

[00:31:05] tem um telefone, né?

[00:31:06] Ele ligou pro mordomo,

[00:31:07] falou, esqueci,

[00:31:09] sei lá,

[00:31:09] João,

[00:31:11] uma carta que a rainha me mandou

[00:31:13] caiu na minha lixeira,

[00:31:14] aqui do lado.

[00:31:16] Você poderia pegar pra mim?

[00:31:17] A lixeira tava na porra do lado dele.

[00:31:20] Aí o cara foi,

[00:31:21] pegou, entrou lá na sala,

[00:31:23] Vossa Alteza,

[00:31:25] e pegou a carta,

[00:31:27] colocou na mesa,

[00:31:28] é só isso que o senhor prefere?

[00:31:29] Ah, sim, sim, muito obrigado, João.

[00:31:31] Porra!

[00:31:32] Entende?

[00:31:33] Tipo, como você naturaliza o bagulho?

[00:31:35] É fantástico.

[00:31:37] E aí, a fala desse mordomo

[00:31:39] mostra a transfuga de classe dele.

[00:31:41] E mostra que é impossível

[00:31:43] ele estar no lugar

[00:31:43] do Príncipe Charles.

[00:31:44] E, ao mesmo tempo,

[00:31:46] mostra a impossibilidade

[00:31:48] que o Príncipe Charles tem

[00:31:49] de mudar a situação dele.

[00:31:51] Ele é aprisionado

[00:31:52] dentro da realeza.

[00:31:54] É uma prisão.

[00:31:55] Então, quem sofre com a transfuga…

[00:31:57] Mesmo sendo endinheirado, né?

[00:31:59] Não, é pior ainda.

[00:32:01] Cai na mesma condição do desvalido.

[00:32:03] Você também é aprisionado.

[00:32:05] Só que um porque você…

[00:32:06] E ambos não podem escolher.

[00:32:08] É um negócio formidável, assim.

[00:32:11] Só que, assim, o cara desvalido,

[00:32:13] quando você dá políticas

[00:32:14] de inclusão, ele ascende socialmente,

[00:32:16] ele carrega esse histórico,

[00:32:19] óbvio, né?

[00:32:20] Só que ele não se sente

[00:32:20] pertencente a nada.

[00:32:22] Você resolve a guerra

[00:32:23] do ponto de vista material,

[00:32:25] mas você carrega

[00:32:25] esse dispositivo

[00:32:27] de desadaptação

[00:32:29] e a pessoa tem que lidar com isso.

[00:32:31] Faltam mecanismos

[00:32:32] de lidar com isso mesmo.

[00:32:33] Porque a ideia

[00:32:34] não é pegar você, Ken,

[00:32:36] por exemplo,

[00:32:36] e adaptar você ao novo lugar.

[00:32:38] E essa é uma crítica

[00:32:40] que o Boudier faz

[00:32:40] à classe intelectual,

[00:32:41] que eu concordo 100%,

[00:32:43] que é a classe intelectual

[00:32:44] de e-sharp e óculos

[00:32:46] em lançamento de livro

[00:32:49] na Vila Madalena, sabe?

[00:32:50] Que não quer dizer nada.

[00:32:52] Isso também reforça

[00:32:53] estruturas de classe.

[00:32:54] Porque você ascende

[00:32:55] a pessoa socialmente,

[00:32:57] economicamente,

[00:32:58] melhora a qualidade de vida dela,

[00:32:59] agora ela pode comer um pouco,

[00:33:01] ela tem um teto,

[00:33:02] mas preserva

[00:33:03] o privilégio social da realeza

[00:33:04] querendo falar

[00:33:06] um monte de palavras

[00:33:07] em sei lá o quê, sabe?

[00:33:08] Tendo empregados, sabe?

[00:33:11] Aqui no Brasil, né?

[00:33:12] Então a pessoa ascende socialmente,

[00:33:14] qual que é?

[00:33:14] Como que ela se sente

[00:33:16] dentro dessa nova classe?

[00:33:18] Tendo empregados.

[00:33:19] Agora eu tenho diaristas, né?

[00:33:21] Eu tenho mordomos,

[00:33:22] eu tenho serviços.

[00:33:24] Reproduz a prática

[00:33:25] e não sabe mais

[00:33:26] limpar o próprio banheiro.

[00:33:27] Verdade.

[00:33:28] Percebe que negócio louco?

[00:33:29] Total.

[00:33:30] Eu acho formidável

[00:33:31] esse elitismo, sabe?

[00:33:32] Então você tem…

[00:33:34] Um dos mecanismos

[00:33:35] da transfuga de classe

[00:33:36] é você tentar forçar

[00:33:37] pertencer a essa nova classe

[00:33:40] onde você teoricamente está.

[00:33:41] Então você vai adquirir

[00:33:42] os signos sociais,

[00:33:43] os dispositivos.

[00:33:45] Você vai ter empregado,

[00:33:46] você vai ter o carro,

[00:33:46] você vai ter…

[00:33:47] Ler as certas coisas,

[00:33:48] vestir as tais roupas, né?

[00:33:51] Tomar os certos vinhos, né?

[00:33:53] Esse tipo de coisa.

[00:33:55] Outra coisa,

[00:33:55] você vai polarizar,

[00:33:56] você pode reagir, né?

[00:33:58] Falar, não,

[00:33:58] eu não pertenço a isso.

[00:34:00] E aí você tenta negar.

[00:34:01] Mas você não consegue negar

[00:34:02] porque você não nega direito.

[00:34:03] Porque você vai negar

[00:34:04] de um jeito elitizado.

[00:34:06] Fazendo críticas sociais,

[00:34:07] publicando nas revistas, né?

[00:34:10] Contra.

[00:34:10] E aí você não vai ser aceito.

[00:34:12] Nem de onde você veio,

[00:34:12] nem para onde você vai.

[00:34:14] Eu acredito que o caminho menos pior

[00:34:16] é o terceiro,

[00:34:17] que é você admitir a ambiguidade.

[00:34:19] Que eu acho que é o que você tomou também.

[00:34:22] Por isso que a gente está há nove anos

[00:34:23] no Arrudo também, né?

[00:34:24] Que é exatamente isso.

[00:34:26] Que você aceita estar no podcast

[00:34:27] com alguém que fala mal

[00:34:28] da publicidade todo dia.

[00:34:30] Total.

[00:34:31] E apoio ainda.

[00:34:34] Mas isso é admitir a ambiguidade.

[00:34:36] Porque você continua reproduzindo

[00:34:37] práticas publicitárias

[00:34:38] que não tem jeito

[00:34:39] e está tudo bem.

[00:34:41] Mas ao mesmo tempo

[00:34:42] tem essa crítica interna.

[00:34:43] Então você carrega,

[00:34:43] você carrega o conflito com você.

[00:34:45] Você carrega o conflito com você.

[00:34:47] Que é um conflito que eu sei

[00:34:48] que sua filha não vai ter.

[00:34:49] E seus pais não tiveram.

[00:34:51] Mas você tem.

[00:34:52] Sim.

[00:34:52] E é isso que mobiliza.

[00:34:54] Entende?

[00:34:54] E é isso que o Boudier

[00:34:56] comenta que eu acho fantástico.

[00:34:58] Que é a ideia do hábitus.

[00:35:00] Com o hábitus.

[00:35:02] Que é um dos conceitos clássicos dele.

[00:35:04] O hábitus, ele fala

[00:35:05] que é um conjunto de disposições

[00:35:07] de certas variáveis

[00:35:09] adquiridas através da socialização.

[00:35:12] Então você tem dispositivos

[00:35:13] sociais que você transforma

[00:35:15] em disposições

[00:35:16] adquiridas através da socialização.

[00:35:20] Então a socialização dos seus pais

[00:35:21] te ensinou algumas coisas.

[00:35:23] Te deu dispositivos.

[00:35:25] Quando você entrou na universidade

[00:35:26] e no mundo do trabalho

[00:35:27] apareceram outros dispositivos

[00:35:30] que geram conflitos.

[00:35:32] E aí você…

[00:35:33] Normalmente o hábitus

[00:35:34] é você se adaptar a essas estruturas.

[00:35:38] E aí você gera disposições.

[00:35:39] Então são esquemas adquiridos

[00:35:41] de percepção, pensamento e acerto.

[00:35:43] A ideia de hábitos

[00:35:45] vem muito da ideia de Lexis,

[00:35:47] do Aristóteles,

[00:35:48] que o Marcel Moss na antropologia usa.

[00:35:51] O que seria disposição?

[00:35:52] Por exemplo,

[00:35:53] quando você está em uma reunião

[00:35:54] do grupo de planejamento,

[00:35:56] dos planners,

[00:35:57] você não fica pensando muito,

[00:35:58] mas você desenvolve uma disposição.

[00:36:00] Você tem um senso do jogo.

[00:36:02] Os publicitários…

[00:36:04] Você tem amigos que vêm

[00:36:06] de famílias de publicitários.

[00:36:07] Todo mundo é publicitário.

[00:36:09] Tem o pedigree.

[00:36:10] E tem gente que está lá por acaso.

[00:36:12] Que fez…

[00:36:13] Fez publicidade porque, sei lá…

[00:36:15] Achou a administração chato.

[00:36:17] Sei lá.

[00:36:18] Então, você lá no meio,

[00:36:20] você tem o senso do jogo.

[00:36:21] Você tem a disposição de como dialogar.

[00:36:24] Como desenvolver uma ontologia

[00:36:25] de pessoas que têm o pedigree de publicitário

[00:36:27] e pessoas que não gostam da publicidade.

[00:36:29] Está ali só para…

[00:36:30] Isso é a disposição.

[00:36:33] Quando você é capaz de se adaptar a esse jogo,

[00:36:35] de conversar com diferentes agentes,

[00:36:37] você tem o hábitos.

[00:36:39] Esse hábitos é esse jogo

[00:36:40] que você sabe o que é ser publicitário,

[00:36:42] como se portar.

[00:36:43] Nas diferentes situações e tudo bem.

[00:36:46] Só que esse hábitos pode ser bom ou ruim.

[00:36:49] Porque o hábitos é uma coisa relativamente autônoma.

[00:36:52] Lembra que eu falei da disposição?

[00:36:54] Ele não é um mecanismo.

[00:36:55] Ele não é fixo.

[00:36:56] Ele é relativamente autônomo.

[00:36:58] E ele se encontra entre o inconsciente condicionado

[00:37:02] e o intencional calculado.

[00:37:04] Então, você está refletindo.

[00:37:07] Por que eu estou falando com esse cara

[00:37:09] que vem de famílias de publicitários?

[00:37:11] Você está calculando alguma coisa.

[00:37:13] Ao mesmo tempo que você mostra coisas inconscientes.

[00:37:16] Você admira e, ao mesmo tempo, rejeita.

[00:37:18] Ao mesmo tempo.

[00:37:19] É ambíguo.

[00:37:20] E está tudo bem.

[00:37:20] E é assim mesmo.

[00:37:22] E aí, é importante que o hábitos não é destino.

[00:37:24] É uma coisa que você sempre pode mudar.

[00:37:27] O hábitos.

[00:37:28] Você pode usar esse dispositivo, esse hábitos,

[00:37:31] para tentar pertencer ao grupo

[00:37:32] e aí você força você mesmo.

[00:37:34] Então, você se sacrifica individualmente.

[00:37:37] Ou você pode tentar polarizar e brigar contra.

[00:37:40] E aí você também sofre individualmente.

[00:37:41] Ou você pode transformar…

[00:37:43] Transformar o sofrimento em movimento.

[00:37:45] E aí estabelecer um diálogo.

[00:37:47] Entendeu?

[00:37:47] Então, esse é o jogo.

[00:37:49] O que normalmente as pessoas, elas vão para um lado ou para o outro.

[00:37:52] A ideia é você tancar a responsabilidade para você mesmo.

[00:37:54] Porque quando eu falo que a…

[00:37:56] Quando eu quero me adaptar ao mundo dos publicitários,

[00:37:59] eu olho quem não é publicitário e falo, a culpa é sua.

[00:38:01] Quando eu quero brigar, polarizar com os publicitários,

[00:38:04] eu falo para os publicitários, a culpa é sua.

[00:38:07] Quando eu quero, tipo, de fato ter um diálogo,

[00:38:09] eu falo, a culpa é minha.

[00:38:10] E aí eu tanco esse movimento.

[00:38:12] Uhum.

[00:38:13] Eu passo ele para frente.

[00:38:14] O que acontece com o nosso dia a dia?

[00:38:16] É uma merda.

[00:38:17] É uma merda.

[00:38:18] No longo prazo você ganha?

[00:38:19] Ganha.

[00:38:20] Mas o dia a dia é uma merda.

[00:38:22] Então, quando você olha para trás, por exemplo,

[00:38:24] na sua carreira aqui,

[00:38:25] eu tenho certeza, quando você olha para trás,

[00:38:27] você fala, ah, eu fiz várias coisas legais.

[00:38:29] Mas que custo essa merda me deu?

[00:38:31] Que droga.

[00:38:32] O dia a dia é uma bosta.

[00:38:34] Mas o resultado vem, com probabilidade 1.

[00:38:37] E aí volta no modelo determinístico.

[00:38:39] A gente tem eventos determinísticos.

[00:38:41] Entre cada evento determinístico, eu passeio.

[00:38:43] Olha.

[00:38:43] É um relatório, né?

[00:38:44] Não é fantástica a discussão de humanos?

[00:38:46] Muito bom, muito bom.

[00:38:47] Eu acho formidável, né?

[00:38:49] E aí a ideia do hábitos,

[00:38:52] ele pode contribuir para a reprodução social.

[00:38:55] Então, por exemplo,

[00:38:55] se eu tenho um hábitos muito fixo,

[00:38:58] isso contribui para eu reproduzir certas práticas.

[00:39:00] De sexismo, machismo, misoginio, o que quer que seja.

[00:39:05] Se o meu hábitos é muito rígido,

[00:39:07] e eu quero pertencer ao grupo para onde eu acendi,

[00:39:10] aí eu vou ter que comprar a regra do jogo.

[00:39:11] Vou ter que jogar o jogo, né?

[00:39:13] Faça como os romanos.

[00:39:14] E aí isso vai gerar um certo sofrimento,

[00:39:17] e eu vou reproduzir práticas.

[00:39:19] Aí é a ideia do elitismo,

[00:39:21] e sobretudo do intelectualismo.

[00:39:23] O intelectualismo é esse movimento, né?

[00:39:25] De que, ah, eu sou escolarizado, eu sei o que é bom para você.

[00:39:28] Sim.

[00:39:29] Eu sei o que é bom para você,

[00:39:30] então você trata todo mundo como criança.

[00:39:31] Mas as pessoas também são crianças.

[00:39:34] Esse é o negócio.

[00:39:34] Você não pode cair no contrário.

[00:39:36] Ah, não.

[00:39:36] Você dizer para os outros que eles não devem fazer tal coisa,

[00:39:40] também é errado.

[00:39:40] Isso é bobagem, porque tem limite.

[00:39:42] Você não vai…

[00:39:43] Você não vai dar liberdade para o cara ser antivacina.

[00:39:45] Entendeu?

[00:39:46] E isso são bem poucas ideias mesmo.

[00:39:47] Tem coisas que, durante a sua vida inteira,

[00:39:50] você tem que ter regras.

[00:39:51] Porque essas regras te dão limite para ser criativo.

[00:39:54] Então, assim, você ser Vila Madalena,

[00:39:56] você ser Namastê Gratidão,

[00:39:58] ser Gratiluz e ser antivacina,

[00:39:59] você é um arrombado.

[00:40:01] Ponto.

[00:40:01] Tem que escrotizar essa pessoa.

[00:40:04] Então, assim, antivacina…

[00:40:06] Eu estou cansado de ver criança morrer por causa de gente arrombada.

[00:40:09] Sabe?

[00:40:09] E tem graus de arrombados.

[00:40:10] Tem alguns que eu aceito, outros não.

[00:40:12] Antivacina eu não aceito.

[00:40:14] Principalmente se você é escolarizado.

[00:40:15] Você é um imbecil.

[00:40:17] Então, assim, e tem que ser escrotizado em certo nível.

[00:40:20] Ah, mas isso é elitismo.

[00:40:21] Elitismo é o meu pau de óculos.

[00:40:23] É uma questão biológica ligada à causa material.

[00:40:25] Você tem inúmeras evidências,

[00:40:27] só que você quer ser onipotente.

[00:40:29] Não, sabe?

[00:40:30] Tem regras naturais que controlam.

[00:40:32] Você não vai passar desse limite.

[00:40:33] Seja criativo com isso.

[00:40:35] Faça o ensino médio de novo e vacine seus filhos.

[00:40:37] Tá bom?

[00:40:38] É simples assim.

[00:40:40] Mas, ao mesmo tempo, tem coisas que não.

[00:40:42] Tipo…

[00:40:42] Você não pode impor de cima pra baixo a regra.

[00:40:44] Você tem que dar um jogo pras pessoas jogarem.

[00:40:47] E aí, o que que acontece?

[00:40:48] Tem um conceito muito importante do Baudier

[00:40:49] que chama violência simbólica.

[00:40:52] Então, como que você desenvolve os hábitos?

[00:40:55] Você desenvolve no ambiente familiar.

[00:40:57] Você desenvolve na escola.

[00:40:59] A escola é uma forma muito útil

[00:41:01] de estruturar os hábitos das pessoas, os valores.

[00:41:04] Então, a escola onde você estudou,

[00:41:06] você ter feito o ensino federal,

[00:41:07] marcou você.

[00:41:09] Quer você goste ou não ter feito o federal.

[00:41:10] E a faculdade que você fez também,

[00:41:12] marca.

[00:41:13] Você pode ter gostado ou não.

[00:41:14] E aí, tem a ver com o nosso ouvinte Eduardo,

[00:41:17] que tá fazendo lá,

[00:41:18] tá reclamando da parte administrativa da faculdade,

[00:41:21] mas, querendo ou não,

[00:41:23] a faculdade marca o que você estuda.

[00:41:26] E aí, isso pode ser muito produtivo,

[00:41:29] mas pode gerar o que ele chama de violência simbólica.

[00:41:32] A violência simbólica,

[00:41:33] que é diferente da violência da guerra física,

[00:41:35] é um outro nível.

[00:41:37] Que é gerado por dispositivos.

[00:41:38] Não é gerado por mecanismos.

[00:41:40] Então, a guerra,

[00:41:42] ela é gerada por mecanismos,

[00:41:44] que são armas, bombas,

[00:41:46] estratégia militar, esse tipo de coisa.

[00:41:49] A violência simbólica é gerada por dispositivos.

[00:41:52] São coisas mais…

[00:41:53] E o interessante,

[00:41:55] é que a violência simbólica

[00:41:56] é uma capacidade auto-interessada.

[00:41:59] É ambíguo.

[00:42:00] A violência simbólica sempre tem um interesse meu e seu.

[00:42:03] Quando você sofre a violência simbólica,

[00:42:06] tem uma parte sua que tem um interesse nisso.

[00:42:09] Sabe?

[00:42:09] Que tem um interesse assim,

[00:42:10] ah, se eu recebo essa violência,

[00:42:12] e eu aceito,

[00:42:13] eu vou manter meu status de privilégio.

[00:42:16] Então, tipo,

[00:42:16] eu aceito o assédio dentro da empresa

[00:42:18] porque eu quero ser promovido.

[00:42:20] Certo.

[00:42:20] Isso é uma violência simbólica.

[00:42:22] Então, é uma capacidade auto-interessada,

[00:42:24] é ambíguo,

[00:42:25] de garantir que a arbitrariedade da ordem social

[00:42:29] é ou ignorada,

[00:42:31] ou os argumentos dessa ordem social

[00:42:34] são interpretados como naturais.

[00:42:37] Então, ah, é normal todo VP de publicidade ser assediador.

[00:42:40] Sempre foi assim.

[00:42:41] Sim.

[00:42:42] Né?

[00:42:42] Então, isso é a violência simbólica.

[00:42:44] Você atribuir naturalidade

[00:42:46] a certos fatores de ordem social

[00:42:48] e como os fatores de ordem social

[00:42:50] são gerados por dispositivos

[00:42:52] e não mecanismos,

[00:42:54] você não pode naturalizar.

[00:42:55] Os mecanismos você até pode.

[00:42:57] Tipo, se você é diabético,

[00:42:59] você precisa de insulina.

[00:43:00] É mecanismo, né?

[00:43:01] Um pra um.

[00:43:02] Agora, coisas de ordem social, não.

[00:43:04] Porque são gerados por dispositivos

[00:43:06] que são gerados por agentes e não sujeitos

[00:43:08] que interagem no meio ambiente

[00:43:10] por um meio ambiente,

[00:43:12] um meio probabilístico

[00:43:12] e ele não é onipotente.

[00:43:14] Olha como fecha tudo.

[00:43:16] Que fantástico.

[00:43:17] Não é fantástico?

[00:43:18] Dá um senso de…

[00:43:18] Eu me ouvindo falando isso,

[00:43:20] puxa, que ideia bacana.

[00:43:22] E a ideia não é minha.

[00:43:23] A ideia é dos bagulhos que eu leio.

[00:43:24] Foda.

[00:43:25] Nossa.

[00:43:26] É legal demais.

[00:43:27] Poxa.

[00:43:28] Você ganha o dia pensando nessas coisas.

[00:43:29] Pra que isso serve?

[00:43:30] Pra nada.

[00:43:31] Mas é muito legal.

[00:43:33] Poxa.

[00:43:34] E aí, o que acontece?

[00:43:35] Quando você naturaliza fatores de ordem social,

[00:43:39] você legitima

[00:43:39] e, na verdade,

[00:43:41] conserva estruturas sociais.

[00:43:43] Que é meio ruim, né?

[00:43:44] Bem ruim.

[00:43:45] É, então.

[00:43:46] E aí, essa é a ideia da violência simbólica.

[00:43:49] Que é uma briga social,

[00:43:52] política, epistemológica, científica,

[00:43:54] contra a teoria da escolha racional.

[00:43:57] A teoria da escolha racional

[00:43:58] vem da economia, principalmente,

[00:44:00] aquela ideia do homo economicus.

[00:44:02] Que é uma bobagem.

[00:44:03] O homo economicus é o agente que age

[00:44:05] em função dos seus próprios interesses.

[00:44:07] Dá a sensação que o cara é onipotente,

[00:44:08] ele conhece os interesses dele.

[00:44:10] Nem você sabe os seus interesses.

[00:44:11] Nem eu.

[00:44:12] Sabe?

[00:44:12] Não.

[00:44:13] E, obviamente, na psicologia,

[00:44:15] isso foi destruído pelas teorias modernas.

[00:44:17] Modernas não, né?

[00:44:18] Porque vem dos anos 80.

[00:44:19] As teorias corretas, assim,

[00:44:20] de economia comportamental,

[00:44:22] que os economistas não conhecem.

[00:44:23] Porque não estudam psicologia

[00:44:24] e sabem pouco a conta.

[00:44:26] Acham que é só ajustar a regra por regressão linear.

[00:44:29] Aí não dá certo.

[00:44:30] Então, e do mesmo jeito, assim,

[00:44:32] o povo que estuda o Boudier,

[00:44:33] em geral, é muito legal.

[00:44:34] O Boudier é foda.

[00:44:35] Só que o que acontece?

[00:44:37] Os boudesianos, o que quer que seja,

[00:44:38] boudianos, sei lá o nome que você dá,

[00:44:40] eles não estudam,

[00:44:41] eles não dão conta.

[00:44:42] E aí fica uma coisa.

[00:44:43] Não, nada é natural.

[00:44:44] Bobagem.

[00:44:45] Você tem mecanismos sociais amplos

[00:44:47] que te controlam de muito longe.

[00:44:49] E como ele te controla de muito longe,

[00:44:51] você tem um jogo pra jogar.

[00:44:53] Exatamente porque você desconhece

[00:44:55] o agente gerador dos fenômenos

[00:44:57] que te controla, tá?

[00:44:59] Mas te controla.

[00:45:00] Mas de muito longe.

[00:45:01] E aí tem o Naruhodo 170,

[00:45:03] que é para conseguir algo,

[00:45:05] basta acreditar ou querer muito,

[00:45:06] que a gente fala da ideia de processo estocástico.

[00:45:09] Até o professor Milione,

[00:45:11] que ajuda nisso,

[00:45:12] que é um professor do ITA,

[00:45:13] de processos estocásticos.

[00:45:15] Que a gente mostra que

[00:45:16] os processos estocásticos

[00:45:17] são fenômenos, eventos,

[00:45:19] que são determinados numa escala temporal.

[00:45:21] E tem graus disso.

[00:45:23] Quando é próximo de você,

[00:45:24] como você ignora o processo estocástico

[00:45:26] que te controla,

[00:45:27] você ganha um certo senso de agência,

[00:45:30] mesmo, individual.

[00:45:31] Mas do ponto de vista distante,

[00:45:33] você é controlado pela sua biologia,

[00:45:34] pelo clima.

[00:45:36] Então, por exemplo,

[00:45:37] uma coisa do…

[00:45:38] E aí a crítica é o intelectualismo,

[00:45:40] sobretudo o intelectualismo.

[00:45:41] O intelectualismo de humanas.

[00:45:43] Você é esse…

[00:45:44] Ah, temos que defender os direitos,

[00:45:45] e blá, blá, blá,

[00:45:46] as minorias e tudo mais.

[00:45:48] E você não entende o mínimo de matemática

[00:45:50] para entender o efeito do clima sobre a gente?

[00:45:53] Entender o que é o ciclo da água,

[00:45:55] da biologia, sabe?

[00:45:56] Você vai fazer uma crítica errada.

[00:45:58] Porque, ah, temos que dar…

[00:46:00] Temos que diminuir a desigualdade.

[00:46:02] Beleza, concordo totalmente.

[00:46:04] Como?

[00:46:05] Você vai dar iPhone para todo mundo?

[00:46:06] Não tem material para isso.

[00:46:08] Diminuir a desigualdade,

[00:46:09] o que seria igual para todo mundo?

[00:46:11] E aí existe a diferença

[00:46:13] entre igualdade e equidade.

[00:46:15] Você tem que dar porções diferentes

[00:46:17] para pessoas diferentes.

[00:46:19] Mas se você dá porções diferentes

[00:46:20] para pessoas diferentes e soma tudo,

[00:46:22] será que essa soma é compatível com a Terra?

[00:46:25] Para boa parte dos discursos

[00:46:26] não tem conta para isso.

[00:46:28] Com certeza.

[00:46:28] E o povo não pensa.

[00:46:29] E essa é a merda, entendeu?

[00:46:31] E é por isso que vira lá o intelectualóide

[00:46:33] com 37 empregados,

[00:46:35] e eu sou de esquerda,

[00:46:37] blá, blá, blá, e tal,

[00:46:38] e o autor e tal.

[00:46:40] E no entanto,

[00:46:41] entende a realidade social do bagulho,

[00:46:43] que ele tem que abrir mão das coisas também, sabe?

[00:46:45] Então, tem uma notícia recente,

[00:46:48] muito interessante também,

[00:46:49] que a gente vai conseguir mais de um trilhão,

[00:46:51] trilhão de reais,

[00:46:53] taxando grandes fortunas, né?

[00:46:55] Por ano.

[00:46:56] Conseguiríamos, né?

[00:46:57] Pela modelagem.

[00:46:58] Aí eu fui atrás da conta,

[00:46:59] falei, nossa, tudo isso?

[00:47:00] Aí fui atrás da conta,

[00:47:00] parece que é isso mesmo,

[00:47:01] a conta está perto, né?

[00:47:04] Só que aí,

[00:47:04] quantas pessoas você vai taxar?

[00:47:06] 50?

[00:47:06] Porra, 50?

[00:47:07] Dá para pôr em uma van?

[00:47:08] Dá para pôr em um ônibusinho?

[00:47:10] Exatamente.

[00:47:11] Exatamente.

[00:47:12] Tudo bem.

[00:47:13] Então, vamos imaginar

[00:47:14] que a gente taxou essas pessoas,

[00:47:15] e tem esse montante.

[00:47:16] Como que a gente distribuiria isso

[00:47:18] de uma forma mais equitativa possível?

[00:47:20] Esse é o desafio.

[00:47:21] Precisamos das exatas.

[00:47:22] Precisa do processo tocástico,

[00:47:24] precisa de pesquisa operacional,

[00:47:25] modelagem mesmo,

[00:47:26] matemática e financeira para isso, né?

[00:47:28] Só que o povo da humanidade

[00:47:29] não estuda o bagulho, entendeu?

[00:47:31] Então, a diferença entre

[00:47:32] mecanismo e disposição,

[00:47:33] que os dois existem,

[00:47:34] os dois cooperam, sabe?

[00:47:36] Falta essa integração das áreas, né?

[00:47:37] E foi muito legal a minha experiência

[00:47:40] como transfuga,

[00:47:41] de classe,

[00:47:41] que é uma coisa que vai me afetar

[00:47:42] a vida inteira,

[00:47:43] que uma das coisas

[00:47:44] que eu relutei mesmo

[00:47:45] é quebrar as exatas humanas biológicas.

[00:47:47] Mesmo.

[00:47:48] Tem que juntar tudo mesmo.

[00:47:49] E aí você percebe

[00:47:50] que todas as áreas conversam

[00:47:51] ou de um jeito nerdola

[00:47:53] ou um cirandeiro,

[00:47:54] mas dizem a mesma coisa,

[00:47:55] porque o fenômeno é o mesmo.

[00:47:56] Não é formidável, Ken?

[00:47:58] Sensacional.

[00:47:58] Eu acho fantástico.

[00:47:59] É sensacional.

[00:48:00] Só que do ponto de vista coletivo

[00:48:02] é mó legal,

[00:48:02] porque já era, por exemplo,

[00:48:03] produtos culturais como o naruhodo,

[00:48:05] que é muito legal, né?

[00:48:06] Só que ao mesmo tempo,

[00:48:07] do ponto de vista individual,

[00:48:08] de novo, é uma merda.

[00:48:09] Porque você poderia estar mais adaptado, sabe?

[00:48:13] Então, por exemplo,

[00:48:13] eu tenho certeza que a sua filha

[00:48:15] vai ser muito mais adaptada que você.

[00:48:17] Espero que sim, até.

[00:48:18] Então, mas de novo,

[00:48:20] isso é também ambíguo,

[00:48:21] porque várias coisas que ela vai ter

[00:48:24] de forma adaptada,

[00:48:25] ela vai naturalizar.

[00:48:27] E aí o desafio é você não criar

[00:48:28] o intelectualismo nela,

[00:48:30] porque aí ela vai reproduzir

[00:48:31] prática de privilégio sem perceber.

[00:48:33] Esse é o negócio.

[00:48:34] A ideia é você estar

[00:48:35] na eterna desadaptação.

[00:48:37] E eu concordo totalmente com o Freud

[00:48:38] no mal estar,

[00:48:39] na sensacionalidade,

[00:48:39] na sensacionalidade,

[00:48:39] na sensacionalidade da civilização.

[00:48:40] Que é para garantir

[00:48:41] a felicidade coletiva,

[00:48:42] a gente tem que tancar

[00:48:43] o sacrifício individual mesmo.

[00:48:45] É a neurose.

[00:48:46] Você vai ter que tancar a neurose.

[00:48:48] Eu não gosto da definição

[00:48:49] do Freud inconsciente.

[00:48:50] Acho que não precisaria

[00:48:50] de nada disso.

[00:48:51] Ela é muito eurocêntrica.

[00:48:52] Mas as análises que eles fazem

[00:48:54] são muito boas.

[00:48:55] Muito boas mesmo.

[00:48:56] Muito boas mesmo.

[00:48:57] Então, eu não sei.

[00:48:59] Eu acho esse episódio fantástico.

[00:49:01] Eu gostei muito do meu processo.

[00:49:03] Agradeço muito a Marielle,

[00:49:04] porque eu lembro de mim mesmo

[00:49:05] vendo a palestra dela lá no TED.

[00:49:08] Eu olhei, caralho, era isso.

[00:49:10] E encaixou na minha cabeça.

[00:49:12] Tufe!

[00:49:12] Sabe aquele meme do cara?

[00:49:14] Nossa, era isso.

[00:49:15] Aí eu li 370 mil coisas

[00:49:16] sobre transfuga de classe.

[00:49:18] Recomendo fortemente

[00:49:19] ler os livros da Eni Ernaux também.

[00:49:22] E eu tenho certeza

[00:49:23] que esse discurso,

[00:49:24] e aí a parte final do episódio,

[00:49:26] esse discurso,

[00:49:27] sobretudo para quem fez faculdade

[00:49:29] nos anos 2000 para frente,

[00:49:30] vai afetar muita gente.

[00:49:32] E aí tem uma parte final

[00:49:33] que tem pouca literatura.

[00:49:35] Eu achei um artigo bom.

[00:49:37] Mas ainda tem pouca literatura.

[00:49:38] Tem pouca literatura.

[00:49:39] Que é assim,

[00:49:39] como você tem uma geração de pessoas

[00:49:42] que entraram no ensino público,

[00:49:44] aqui eu vou falar só Brasil, tá?

[00:49:46] Porque foi em períodos diferentes

[00:49:48] em lugares diferentes.

[00:49:49] Na França foi nos anos 70,

[00:49:50] mas aqui nos anos 2000.

[00:49:52] Como você tem um grande acesso

[00:49:53] de pessoas ao ensino público

[00:49:55] e, de certa forma,

[00:49:57] a disposições sociais diferentes,

[00:50:01] a mobilidade social,

[00:50:03] que não necessariamente

[00:50:03] é mobilidade financeira

[00:50:05] e econômica.

[00:50:06] Então,

[00:50:07] a gente tem muita…

[00:50:08] E eu conheço, tá?

[00:50:09] Eu conheço, assim,

[00:50:10] tem dados também.

[00:50:12] E a gente tem o Naruhodo 373,

[00:50:15] como funciona a carreira de cientista,

[00:50:16] que eu continuo falando

[00:50:17] que é uma péssima carreira.

[00:50:19] E ela gera exatamente

[00:50:20] esse conflito do transfuga de classe.

[00:50:23] Então, por exemplo,

[00:50:24] você tem doutorado, vai.

[00:50:26] Você tem doutorado.

[00:50:27] Não é esperado que você passe fome.

[00:50:29] Mas tem pessoas em segurança alimentar.

[00:50:31] Tem pessoas com 45 anos

[00:50:32] que moram em república até hoje.

[00:50:34] Porque sempre viveu de bolsa.

[00:50:35] Não vai ter aposentadoria.

[00:50:37] Esse é o transfuga de classe social

[00:50:39] que não acompanha o econômico.

[00:50:41] E as pessoas naturalizam.

[00:50:43] Se você é muito escolarizado,

[00:50:44] você vai ter uma boa condição de vida.

[00:50:46] Isso é uma falácia.

[00:50:48] Esse foi o lado negativo

[00:50:49] das políticas de inclusão social

[00:50:51] e econômica dos anos 2000.

[00:50:53] Não foi tratado isso.

[00:50:55] Você só botou as pessoas,

[00:50:56] felicidade, bom natal,

[00:50:57] aí na sua casa nova.

[00:50:58] E acabou.

[00:51:00] Então, tem que ter uma reflexão individual.

[00:51:02] Como se isso fosse garantia

[00:51:04] de todo o restante.

[00:51:04] Exato.

[00:51:05] De novo, é dialético.

[00:51:06] Ajudou muito?

[00:51:07] Ajudou.

[00:51:08] Por exemplo,

[00:51:09] Ciência Sem Fronteira.

[00:51:10] Ajudou muito?

[00:51:10] Ajudou.

[00:51:11] Mas gerou uma geração

[00:51:12] de pessoas desadaptadas.

[00:51:14] Isso é importante.

[00:51:15] De novo,

[00:51:15] não é para ver a desadaptação

[00:51:17] como um problema.

[00:51:17] Ela é uma skill.

[00:51:19] É uma habilidade.

[00:51:20] Você vê mais do que os outros.

[00:51:21] Porque você está o tempo inteiro

[00:51:22] pensando em lados

[00:51:23] que as pessoas naturalizam.

[00:51:25] Você incorpora em você

[00:51:27] violências simbólicas

[00:51:28] que você pode usar

[00:51:29] para te movimentar.

[00:51:30] Então, você pode usar

[00:51:31] esses hábitos

[00:51:32] para te paralisar,

[00:51:34] mas você pode usar

[00:51:34] esses hábitos

[00:51:35] para te movimentar.

[00:51:36] E aí, é tancar

[00:51:37] a responsabilidade individual

[00:51:39] de uma coisa

[00:51:40] que você não escolheu.

[00:51:41] Mas é isso aí.

[00:51:42] E aí, vem a parte final,

[00:51:43] que é como

[00:51:44] uma classe de pessoas

[00:51:46] acendeu,

[00:51:47] as pessoas começaram

[00:51:48] a se relacionar.

[00:51:48] Então, você entra na universidade,

[00:51:50] você convive com pessoas

[00:51:51] que não têm transfuga de classe

[00:51:52] e está na universidade

[00:51:54] porque o pai tem,

[00:51:54] o avô tem,

[00:51:55] todo mundo esteve.

[00:51:57] E ainda mais

[00:51:57] cursos mais disputados.

[00:51:59] Medicina, direito,

[00:52:00] engenharia,

[00:52:00] coisas do tipo.

[00:52:01] E, eventualmente,

[00:52:02] pessoas se relacionam.

[00:52:03] Eu achei um trabalho só,

[00:52:05] mas é uma coisa

[00:52:06] que vai crescer

[00:52:06] no futuro,

[00:52:08] que é a questão,

[00:52:09] do mesmo jeito

[00:52:10] que a gente tem pesquisas,

[00:52:11] por exemplo,

[00:52:11] de casamentos interraciais,

[00:52:13] a questão de casamentos

[00:52:14] e relacionamentos

[00:52:15] entre pessoas

[00:52:16] transfuga de classe,

[00:52:17] não.

[00:52:18] Dá muito problema aqui.

[00:52:19] Porque um dos cônjuges

[00:52:21] tem um lugar,

[00:52:23] ele tem um lugar

[00:52:24] e ele quer manter

[00:52:25] esse lugar

[00:52:25] de privilégio

[00:52:27] e o outro não.

[00:52:28] O outro vive

[00:52:28] se movimentando.

[00:52:30] Então, pode gerar

[00:52:31] problemas de desadaptação

[00:52:32] muito graves.

[00:52:33] E o artigo de 2005

[00:52:35] do La Rier

[00:52:35] mostra que

[00:52:36] mostra isso.

[00:52:37] Dá alguns exemplos disso.

[00:52:39] Que é, por exemplo,

[00:52:39] imagina que a gente é casado

[00:52:40] e a sua família

[00:52:41] é mais tradicional.

[00:52:42] Ela não é rica,

[00:52:43] mas ela é mais tradicional.

[00:52:44] Todo mundo fez faculdade e tal.

[00:52:46] Você vai ter valores

[00:52:47] mais estanques.

[00:52:48] Você, por exemplo,

[00:52:49] vai naturalizar

[00:52:50] ter empregado.

[00:52:51] Porque todo mundo tem.

[00:52:52] O avô, o bisavô,

[00:52:53] todo mundo teve.

[00:52:53] Você vai naturalizar.

[00:52:54] Ah, eu não vivo

[00:52:55] ser um empregado.

[00:52:56] Eu que tenho

[00:52:57] transfuga de classe, não.

[00:52:59] Talvez parentes meus

[00:53:00] foram empregados.

[00:53:02] Então, eu entendo

[00:53:02] o outro lado.

[00:53:03] Não, eu mesmo limpo.

[00:53:04] A gente constrói

[00:53:06] e contrata um serviço

[00:53:06] que é mais caro,

[00:53:07] mas a pessoa é contratada

[00:53:08] só por aquela hora.

[00:53:09] Não precisa dormir,

[00:53:10] não precisa fazer coisas a mais.

[00:53:11] Sabe?

[00:53:12] Não precisa ser da família.

[00:53:13] Sabe?

[00:53:14] Nesse termo pejorativo.

[00:53:15] Isso, é.

[00:53:16] Entende?

[00:53:16] Que nada mais é, na verdade,

[00:53:18] de uma herança

[00:53:18] da escravidão.

[00:53:20] Exatamente.

[00:53:20] Então, você vê

[00:53:22] o intelectualismo

[00:53:23] reproduzindo práticas coloniais.

[00:53:25] Porque as pessoas

[00:53:26] não refletem.

[00:53:27] Então, imagina

[00:53:28] um casamento assim.

[00:53:29] Você não acha

[00:53:29] que vai dar ruim?

[00:53:30] Vai dar ruim.

[00:53:31] Então, na família

[00:53:32] de, sei lá quem,

[00:53:33] você pode ser julgado.

[00:53:34] Aí, você quer se adaptar,

[00:53:35] sofre,

[00:53:35] mas ainda introjeta

[00:53:37] a neurose,

[00:53:38] o sofrimento, né?

[00:53:39] E aí,

[00:53:40] o que acaba gerando

[00:53:41] ou casamentos

[00:53:42] entre transfugas de classe,

[00:53:44] porque aí você divide

[00:53:45] os problemas,

[00:53:46] mas, ao mesmo tempo,

[00:53:47] esses casamentos

[00:53:48] vão perpetuar

[00:53:49] e polarizar as diferenças.

[00:53:50] Você vai aumentar

[00:53:51] a herança neoliberal.

[00:53:53] E é por isso

[00:53:53] que o modelo neoliberal

[00:53:54] é muito comum

[00:53:55] em pessoas mais jovens hoje.

[00:53:57] Porque os pais deles

[00:53:58] foram transfugas de classe

[00:53:59] sem trabalhar isso direito.

[00:54:01] Olha que desgraça, Ken!

[00:54:02] Não é discussão…

[00:54:03] É discussão formidável.

[00:54:04] E o que a gente faz com isso?

[00:54:05] Tem que trocar ideia.

[00:54:07] Tem que trocar ideia.

[00:54:08] Porque é isso, né?

[00:54:09] Ascensão de classe

[00:54:10] sem consciência de classe…

[00:54:12] Muito bem!

[00:54:13] …gera exatamente esse…

[00:54:16] Gera o caminho contrário.

[00:54:16] Esse…

[00:54:17] Então, a fala,

[00:54:19] pai rico, filho nobre,

[00:54:20] neto pobre.

[00:54:21] Exatamente isso.

[00:54:22] E pobre não de dinheiro,

[00:54:23] pode ser pobre socialmente.

[00:54:24] Guerra, né?

[00:54:26] E aí, o Budia coloca

[00:54:26] na questão do hábitos

[00:54:27] os três tipos de capital, né?

[00:54:29] A gente tem o capital econômico,

[00:54:31] o capital cultural

[00:54:31] e o capital social.

[00:54:33] Então, você coloca…

[00:54:34] Quando você dá escolarização,

[00:54:34] você dá capital cultural

[00:54:36] para as pessoas,

[00:54:38] mas sem capital econômico, né?

[00:54:40] Então, eu sou uma pessoa de doutorado

[00:54:42] que passo aperto.

[00:54:43] Eu não tenho capital econômico

[00:54:44] porque está mais concentrado

[00:54:45] na herança neoliberal,

[00:54:47] porque eu trabalho para alguém

[00:54:48] que detém os meios de produção,

[00:54:49] mas eu tenho capital social

[00:54:50] porque eu entendo como o rico pensa,

[00:54:52] mas eu nunca vou ser como ele, né?

[00:54:54] E eu não quero ser como ele.

[00:54:55] Às vezes, eu quero, né?

[00:54:57] Mas, se eu estiver naquele lugar,

[00:54:58] eu sempre vou ser infeliz.

[00:54:59] Eu quero ter as coisas que ele tem, né?

[00:55:02] Isso!

[00:55:03] Mas sem ser quem ele é.

[00:55:04] Sem ser quem ele é.

[00:55:05] Isso!

[00:55:06] Mas será que você precisa do que ele tem?

[00:55:08] Será que você usaria da mesma forma?

[00:55:09] Provavelmente não.

[00:55:10] Provavelmente não.

[00:55:11] E aí vem a ideia do capital social,

[00:55:13] que é o uso que você faz do capital cultural

[00:55:16] a partir do capital econômico.

[00:55:18] Sim.

[00:55:18] Esse capital social.

[00:55:20] Então, a ideia é você ter essa distribuição.

[00:55:23] Então, assim, a literatura,

[00:55:25] sobretudo na França,

[00:55:26] mostra que não tem nada…

[00:55:28] Assim, tudo bem,

[00:55:29] a gente teve uma mobilidade social

[00:55:31] por meio da educação.

[00:55:33] Isso gerou esse fenômeno

[00:55:34] da transfuga de classe,

[00:55:35] que ainda vai ter muito trabalho.

[00:55:36] Muitos trabalhos, pesquisas e tal.

[00:55:38] Mas, ao mesmo tempo,

[00:55:40] polarizou a política

[00:55:42] e naufragou as nossas diferenças econômicas.

[00:55:46] E aí, você vai gerar pessoas

[00:55:47] cada vez mais infelizes, né?

[00:55:50] São pessoas muito escolarizadas,

[00:55:51] mas eminentemente infelizes

[00:55:53] e sem perspectiva de futuro.

[00:55:55] Então, você tem capital cultural,

[00:55:56] mas sem econômico e social.

[00:55:58] E é por isso que todo mundo está na internet

[00:55:59] sendo influencer,

[00:56:01] querendo gerar entretenimento.

[00:56:03] Uhum.

[00:56:04] O presidente de banco

[00:56:04] tem perfil na rede social.

[00:56:06] Deve ter 10 pessoas,

[00:56:08] sendo sobrinhos e um gato e um cachorro

[00:56:10] de alguém que faz o perfil do gato.

[00:56:11] Só.

[00:56:12] Sabe?

[00:56:12] Não tem mais que 50 seguidores,

[00:56:14] porque não precisa.

[00:56:15] Uhum.

[00:56:15] Porque ele já tem o capital econômico,

[00:56:17] que é o que manda hoje.

[00:56:18] Então, assim, renda mínima,

[00:56:19] renda mínima,

[00:56:20] para que as pessoas consigam

[00:56:21] transitar melhor o capital cultural

[00:56:24] por meio do capital econômico,

[00:56:25] gerando gerações

[00:56:27] com capitais sociais diferentes.

[00:56:29] Não é foda?

[00:56:30] Certo.

[00:56:31] Aliás, renda mínima

[00:56:32] é outro programa.

[00:56:34] Sim, vai ter outro programa sobre isso.

[00:56:35] Estamos estudando para isso também.

[00:56:37] Mas, assim, é indispensável.

[00:56:39] A gente já coloca como conclusão.

[00:56:40] É indispensável.

[00:56:40] Sim, sim.

[00:56:41] Seja o modelo capitalista

[00:56:42] ou o que quer que seja,

[00:56:43] renda mínima é indispensável

[00:56:45] para a sobrevivência

[00:56:46] da nossa comunidade mesmo

[00:56:47] enquanto Estado de Direitos.

[00:56:49] Claro.

[00:56:50] Gostou da discussão aqui?

[00:56:51] Ah, adorei.

[00:56:53] Então, agradeço muito a Marielle

[00:56:54] pelo insight.

[00:56:55] Obrigado por participar do programa.

[00:56:57] Obrigado também a todas as pessoas.

[00:56:58] Eu fiz perguntas para outras pessoas

[00:56:59] porque eu achava…

[00:57:00] Só para garantir que não era só comigo,

[00:57:01] apesar da literatura,

[00:57:02] agradeço muito a Heloísa,

[00:57:04] o Rony Boy,

[00:57:05] que são amigos meus, né?

[00:57:06] Que eu perguntei,

[00:57:06] como é que foi a sua entrada na universidade?

[00:57:08] Me conta um pouco, sabe?

[00:57:09] Para ter mais ideias.

[00:57:10] Ajudaram muito aqui

[00:57:11] na elaboração deste episódio também.

[00:57:13] E a você também com essa experiência,

[00:57:14] claro, que eu sou a paciente.

[00:57:15] Imagina.

[00:57:15] E a do Reginaldo.

[00:57:16] Tá certo, então.

[00:57:17] E terminando,

[00:57:18] Reginaldo, você é tão bom para mim.

[00:57:19] Ah, Reginaldo,

[00:57:20] você é tão bom para mim.

[00:57:23] E Naruhodô, ilustríssimo ouvinte.

[00:57:28] E você já sabe,

[00:57:29] aqui no Naruhodô,

[00:57:30] quem faz a pauta é você.

[00:57:31] Você tem alguma pergunta para a gente

[00:57:33] ou quer comentar algum episódio?

[00:57:35] Escreva para nós.

[00:57:36] podcast.naruhodô.com.br

[00:57:39] Repetindo.

[00:57:40] podcast.naruhodô.com.br

[00:57:43] E lembre-se,

[00:57:44] mande nome completo,

[00:57:46] idade, profissão

[00:57:47] e a cidade de onde você está falando.

[00:57:49] É isso aí.

[00:57:54] Naruhodô.

[00:57:58] Este podcast é apresentado

[00:58:00] por

[00:58:01] o

[00:58:02] p9

[00:58:02] ponto com

[00:58:03] ponto BR.