Brasileira conta por que desistiu da Alemanha
Resumo
O episódio aborda o paradoxo enfrentado pela Alemanha, que, ao mesmo tempo que precisa atrair trabalhadores qualificados, vê muitos imigrantes altamente capacitados considerando deixar o país. Uma pesquisa citada indica que uma em cada quatro pessoas pensou em sair em 2024, sendo 3% com planos concretos de emigração.
A entrevistada, a ilustradora e designer brasileira Ana Anjos, relata sua experiência de quase uma década morando em Hamburgo. Ela explica que sua decisão inicial de emigrar para a Alemanha veio após uma experiência difícil na Hungria, motivada pela fascinação pela cultura e língua alemãs. No entanto, após a pandemia de Covid-19, ela iniciou um processo de autoanálise que a levou a perceber que não estava mais feliz.
Ana lista vários fatores que contribuíram para sua decisão de retornar ao Brasil: o cansaço com o longo inverno (quase sete meses por ano), o humor considerado mais fechado e inflexível dos alemães, o impacto emocional da guerra entre Rússia e Ucrânia e, principalmente, a ascensão da extrema-direita no cenário político alemão. Ela também menciona a dificuldade inicial com a língua e episódios de discriminação que sofreu quando ainda não falava alemão fluentemente.
Apesar das dificuldades, Ana destaca aspectos positivos de sua experiência, como o amor pelos doces alemães, o idioma, os amigos brasileiros que fez e o crescimento pessoal que a vivência proporcionou. Ela reflete que a experiência de morar fora foi essencial para valorizar mais a cultura brasileira, citando uma frase de Saramago: “é preciso sair da ilha para ver a ilha”. A conversa ilustra as complexidades da experiência migratória e os motivos que levam profissionais qualificados a reconsiderar sua vida na Alemanha.
Anotações
- 00:03:12 — Discriminação e desacolhimento de imigrantes na Alemanha Pesquisa revela que um terço dos imigrantes na Alemanha relata discriminação no trabalho, no mercado imobiliário e em espaços públicos. Um terço também não se sente totalmente bem-vindo, e metade dos insatisfeitos deseja retornar ao país de origem.
- 00:11:02 — Saramago e a perspectiva real do imigrante Ana cita Saramago para distinguir a experiência do turista da do imigrante de verdade: emigrar exige coragem e abrir mão de conforto físico e emocional. Com o tempo, o apaixonamento inicial pelo país dá lugar à realidade do cotidiano.
Indicações
People
- José Saramago — Ana cita uma frase do escritor português José Saramago: “é preciso sair da ilha para ver a ilha”, usando-a para ilustrar como a experiência de morar fora lhe deu uma nova perspectiva e maior valorização do Brasil.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução ao paradoxo da imigração na Alemanha — O episódio começa apresentando o paradoxo alemão: o país precisa de trabalhadores qualificados, mas enfrenta uma potencial debandada desses mesmos imigrantes. É citada uma pesquisa indicando que uma em cada quatro pessoas pensou em deixar a Alemanha em 2024, o que representaria mais de 2,5 milhões de pessoas. Desse total, 3% (cerca de 300 mil) têm planos concretos de emigração.
- 00:01:45 — Apresentação da entrevistada Ana Anjos — O apresentador Guilherme Becker se apresenta e introduz a entrevistada, a ilustradora e designer brasileira Ana Anjos, que depois de quase uma década morando em Hamburgo decidiu retornar ao Brasil. Ele inicia a conversa perguntando sobre os motivos que a levaram a emigrar para a Alemanha inicialmente.
- 00:04:18 — Motivação inicial para emigrar para a Alemanha — Ana conta que estava morando em Budapeste, Hungria, mas não se adaptou devido ao clima e à xenofobia. Decidiu então ir para a Alemanha, país pelo qual sempre se interessou, especialmente pela língua. Ela chegou sem saber falar alemão, mas aprendeu e hoje é fluente, encarando o desafio inicial como uma descoberta.
- 00:05:27 — A virada e os motivos para querer deixar a Alemanha — Ana relata que se mudou para Hamburgo em 2018 e inicialmente adorava explorar a cidade. No entanto, após a pandemia de Covid-19, percebeu uma mudança no comportamento das pessoas, que ficaram mais inflexíveis e fechadas. Isso a levou a uma autoanálise e à conclusão de que não estava mais feliz. Ela começa a listar os fatores que contribuíram para essa decisão.
- 00:06:27 — Lista de razões para a insatisfação — Ana detalha as principais razões para sua insatisfação: o cansaço com o clima frio (quase sete meses de inverno), o humor dos alemães ou a falta dele, a inflexibilidade cognitiva da sociedade, o impacto emocional da guerra entre Rússia e Ucrânia e a ascensão da extrema-direita no cenário político alemão.
- 00:07:26 — A dificuldade da Alemanha em receber imigrantes — Ana opina que a Alemanha, apesar de ser um país feito de imigrantes e precisar de mão de obra estrangeira, tem dificuldade em se flexibilizar e aceitar novas ideias. Ela critica a rigidez em exigir o alemão no ambiente de trabalho desde o início, sem considerar que recém-chegados não são fluentes. Ela defende que um país que precisa de imigrantes deve ser mais flexível.
- 00:08:44 — Experiências com discriminação na Alemanha — Questionada sobre discriminação, Ana relata que sofreu sim, principalmente no início, quando não falava alemão. Em situações burocráticas, as pessoas nem tentavam falar inglês e muitas vezes desligavam o telefone em sua cara. Ela, no entanto, usou essas experiências negativas como motivação para aprender a língua, tornando-se eventualmente fluente a ponto de alguns alemães não notarem seu sotaque.
- 00:10:08 — Vantagens e desvantagens de morar na Alemanha — Ana lista as desvantagens (inverno longo e guerra) e as vantagens de sua experiência: amor pelos doces alemães, pelo idioma, os amigos brasileiros que fez e o crescimento pessoal. Ela se tornou mais prática, objetiva e clara na comunicação, e passou a valorizar mais o sol e a cultura brasileira. Toda experiência, mesmo difícil, é válida e formativa.
- 00:11:08 — Reflexão sobre a experiência migratória e valorização do Brasil — Ana cita uma frase de Saramago, “é preciso sair da ilha para ver a ilha”, para explicar sua jornada. Ela afirma que precisou sair do Brasil para compreender a importância da cultura brasileira em sua vida e em seu trabalho. Apesar dos problemas do país, existem qualidades únicas que só são percebidas com o contraste de se viver no exterior, o que a levou a decidir voltar.
Dados do Episódio
- Podcast: DW Revista
- Autor: DW
- Categoria: Society & Culture Documentary News News Commentary
- Publicado: 2025-07-25T10:25:00Z
- Duração: 00:14:40
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/dw-revista/91cbdd40-c2a6-0138-e71c-0acc26574db2/brasileira-conta-por-que-desistiu-da-alemanha/0c890919-60f8-4014-bb94-d18f1c9cd9e0
- UUID Episódio: 0c890919-60f8-4014-bb94-d18f1c9cd9e0
Dados do Podcast
- Nome: DW Revista
- Site: https://www.dw.com/pt-br/dw-revista/program-53680742?maca=bra-podcast_bra_noticias-32059-xml-mrss
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Transcrição
[00:00:00] A Alemanha vive um paradoxo. Ao mesmo tempo em que precisa de trabalhadores qualificados,
[00:00:11] pode enfrentar uma debandada de imigrantes, principalmente dos profissionais mais capacitados,
[00:00:17] que são os que o país mais necessita. Um levantamento do Instituto de Pesquisa do
[00:00:22] Mercado de Trabalho e Profissões da Agência Federal do Trabalho apontou que uma em cada
[00:00:27] quatro pessoas pensou em deixar a Alemanha em 2024. Esse número representaria mais de
[00:00:34] 2 milhões e meio de pessoas e foi baseado em uma consulta representativa feita entre
[00:00:40] dezembro de 2024 e abril de 2025, com mais de 50 mil imigrantes de 18 a 65 anos de idade
[00:00:49] que moram no país. E notem que, reforçando, eu falei que uma em cada quatro pessoas pensou
[00:00:56] em deixar a Alemanha.
[00:00:57] Ou seja, cogitam essa ideia. E eu digo isso porque essa mesma pesquisa apontou que ao menos
[00:01:03] 3% dos imigrantes entrevistados, o equivalente a 300 mil pessoas, têm planos concretos de ir embora.
[00:01:27] E está no ar o DW Revista, podcast produzido pela redação brasileira da DW e publicado
[00:01:33] todas as sextas-feiras no YouTube e em plataformas de áudio como Spotify, Deezer, iTunes, Google Home
[00:01:39] e Alexa. Eu sou o Guilherme Becker, diretamente de Bonn, na Alemanha, e nesta edição eu converso
[00:01:45] com a ilustradora e designer Ana Anjos, que depois de quase uma década morando em Hamburgo,
[00:01:51] decidiu retornar ao Brasil.
[00:01:52] Todo imigrante merece muito respeito, porque precisa de muita coragem,
[00:01:57] para você emigrar. Abrir mão de tantas coisas, sabe? Tanto conforto, tanto físico,
[00:02:04] às vezes, quanto emocional, principalmente.
[00:02:17] Enquanto busca cerca de 400 mil novos imigrantes por ano, principalmente trabalhadores qualificados
[00:02:24] que fiquem permanentemente no país, a Alemanha vê…
[00:02:27] E há uma série de motivos para isso, sendo o principal deles a situação política,
[00:02:37] exemplificada principalmente pelo avanço da ultradireita. Mas a alta carga tributária,
[00:02:43] a situação econômica e as dificuldades no mercado imobiliário, motivos profissionais,
[00:02:47] ter poucos amigos ou conhecidos e os desafios para se comunicar em um idioma nem sempre
[00:02:52] fácil de aprender também estão na lista.
[00:02:55] Grande parte dos que pretendem deixar o país, não são os imigrantes, mas os imigrantes.
[00:02:56] Grande parte dos que pretendem deixar o país, não são os imigrantes, mas os imigrantes.
[00:02:57] Os que pretendem deixar a Alemanha são imigrantes com mestrado ou doutorado e também os mais
[00:03:02] bem assalariados de setores como tecnologia da informação, finanças e negócios. Mas profissionais
[00:03:08] de áreas como saúde, manufatura e logística também registram tendências emigratórias.
[00:03:14] E todas essas são exatamente as pessoas que a Alemanha precisa para garantir o futuro
[00:03:19] de sua mão de obra especializada. Além disso, tem o problema da discriminação.
[00:03:23] Segundo Katia Galegos Torres, que trabalhou nessa pesquisa,
[00:03:27] um terço dos imigrantes relatam discriminação percebida, por exemplo, no trabalho, no mercado
[00:03:32] imobiliário, em espaços públicos ou no contato com a polícia. E um terço também não se sente
[00:03:38] totalmente bem-vindo no país. Cerca de metade dos imigrantes que não querem permanecer gostaria
[00:03:44] de retornar ao país de origem, especialmente poloneses e romenos. Outra metade quer simplesmente
[00:03:50] mudar de país, a maioria para Suíça, Estados Unidos ou Espanha. A ilustradora e designer brasileira
[00:03:57] faz parte desse grupo de imigrantes qualificados que tem decidido deixar a Alemanha para trás.
[00:04:02] Ela morou por quase uma década em Hamburgo, no norte do país, e decidiu retornar ao Brasil.
[00:04:07] Ana, obrigado por participar do DW Revista. E, primeiramente, eu queria te perguntar por que
[00:04:13] a decisão de emigrar para a Alemanha? O que te levou a vir para cá, para a Alemanha?
[00:04:18] Eu estava morando anteriormente em Budapeste, na Hungria, mas eu não me adaptei muito. Eu amo o
[00:04:23] Budapeste, amo a língua húngara, mas a questão climática e…
[00:04:27] também a xenofobia lá contaram como pontos muito negativos nessa minha experiência. Aí eu pensei
[00:04:34] assim, o que que eu vou fazer, né? Eu volto para o Brasil, não volto? Eu falei, não, não vou voltar
[00:04:38] agora não, que ainda quero vivenciar outras experiências, descobrir novas culturas, assim,
[00:04:43] eu amo aprender e descobrir coisas novas. E aí eu analisei muito, pensei bastante, eu falei, não,
[00:04:49] eu vou para a Alemanha. Decidi, vou para a Alemanha. Eu também sempre gostei, me identifiquei com a
[00:04:53] cultura alemã desde que eu era adolescente, né? Principalmente com o idioma, porque eu acho um
[00:04:57] negócio. Eu sempre fui fascinada por coisas complexas. Tanto é que eu estudei húngaro também,
[00:05:02] né? Então assim, eu gosto de estudar idiomas. E eu cheguei na Alemanha sem falar, sem saber falar
[00:05:08] um ralô. E claro, lá também aprendi a falar, né? Hoje eu falo fluente alemão, mas o início foi
[00:05:14] muito… Foi exatamente assim, eu fui como uma descobridora de tudo mesmo, assim, inclusive do
[00:05:22] idioma, da língua, da sociedade, de tudo. E como foi essa virada na vida na Alemanha?
[00:05:27] Eu me mudei para Hamburgo em setembro de 2018, né? No início eu gostava muito de conhecer a cidade,
[00:05:32] sabe? Descobrir a história através da arquitetura, dos pontos turísticos. Eu amava isso. Tanto que no
[00:05:37] final de 2018 eu pensei em criar um projeto de fomentar a cultura alemã de Hamburgo para
[00:05:41] brasileiros que estivessem em turismo, né? Na cidade. Mas aí, 2019 veio com a Covid e tudo
[00:05:48] mudou, né? No mundo inteiro. E inclusive assim, eu sinto que depois da pandemia as pessoas mudaram
[00:05:57] e isso me fez repensar diversas questões, assim, sobre a minha vivência na cidade. E aí foi quando
[00:06:03] eu comecei um processo de autoanálise muito forte e eu percebi que eu não estava mais feliz. O
[00:06:07] isolamento social pós-Covid tornou as pessoas mais inflexíveis, sabe? Fechadas, mal-humoradas.
[00:06:15] E eu não sei se elas já eram assim, o ambiente potencializou isso, ou se a situação da pandemia
[00:06:21] influenciou essas características. Então, são várias razões, né? Primeiro, o cansaço do clima frio.
[00:06:27] São quase sete meses de inverno todo ano. Fora isso, tem o humor dos alemães, ou a falta dele,
[00:06:33] né? A inflexibilidade cognitiva da sociedade. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que isso
[00:06:39] também afetou muito, me afetou muito emocionalmente. Isso realmente, assim, foi um abalo e também a
[00:06:47] ascensão da extrema-direita. O clima político, então, era algo que te preocupava? Com toda
[00:06:52] certeza. Principalmente agora que a AFD começou a ganhar força na mídia, nesses últimos tempos,
[00:06:56] e agora, em segundo lugar, nas cadeiras do parlamento, essa ascensão ao poder e toda essa
[00:07:05] força de criar leis, né? E essas ideias, enfim, da extrema-direita, fascistas, neonazistas, e esse
[00:07:14] poder de criar leis anti-migratórias e todo esse processo. Quer dizer, é uma ratificação da
[00:07:20] inflexibilidade da sociedade, né? Infelizmente. E como você vê a Alemanha para receber e
[00:07:26] estrangeiros aqui? Quais seriam os principais problemas, por exemplo? Olha, a Alemanha é um
[00:07:31] país feito de imigrantes, né? A gente sabe disso. Ela precisa mais do que nunca da mão de obra
[00:07:35] estrangeira, mas ela tem uma dificuldade grande de ceder, né? Tem uma certa inflexibilidade
[00:07:41] cognitiva mesmo, de se abrir para o novo, de aceitar novas ideias, novas formas de pensar,
[00:07:47] né? A questão de não flexibilizar e permitir que se fale inglês no trabalho, por exemplo. Eu até
[00:07:52] entendo, eu acho que é importante aprender alemão, porque quando a gente aprende o idioma do
[00:07:56] país que a gente tá, a gente acaba entendendo e absorvendo também a forma como aquela sociedade
[00:08:01] pensa o mundo, né? Esse é também um dos papéis do idioma na cultura, né? Na sociedade. Mas não
[00:08:08] necessariamente quem acabou de imigrar para a Alemanha sabe falar alemão fluente, né? Eu
[00:08:12] mesma sou a prova disso. Eu não sabia falar absolutamente nada quando eu cheguei. Então,
[00:08:16] assim, se você é um país que precisa de imigrantes, você também precisa flexibilizar. Eu, assim que
[00:08:21] cheguei na Alemanha, em Hamburgo, eu comecei a trabalhar como diretora de arte numa startup e eu
[00:08:26] sou 100% inglês naquela época. Só que eu ouvia diariamente alemão e isso treinou muito o meu
[00:08:33] ouvido, né? Pra pronúncia e depois mais pra frente pra compreensão. E claro que depois eu fui estudar
[00:08:39] alemão, hoje eu falo fluente, mas o treino da audição é que me possibilitou isso. E quanto
[00:08:44] à discriminação, Ana, que é um dos motivos que mais levam imigrantes a saírem daqui, você sofreu
[00:08:50] algum tipo de discriminação na Alemanha? Eu gostaria de te dar uma resposta negativa nesse
[00:08:54] assunto, mas infelizmente não foi o que aconteceu. Sim, eu sofri discriminação algumas vezes, sim,
[00:08:59] logo após eu ter emigrado. Como eu falei, naquela época eu não sabia falar alemão, né? E muitas
[00:09:06] vezes que eu precisei resolver questões burocráticas, as pessoas nem tentavam falar inglês comigo. E
[00:09:12] quando, assim, eu tentava arranhar, né, um pouquinho de alemão, com muita dificuldade e, claro,
[00:09:17] eu tive erros, né? Muitas vezes desligaram na minha cara. Eu perdi as contas de quantas vezes,
[00:09:23] inclusive. Só que assim, toda vez que isso acontecia, eu pensava, eu vou conseguir manter
[00:09:27] uma conversa em alemão algum dia na minha vida. Eu vou estudar e eu vou aprender. Eu tomei aquilo
[00:09:33] como um desafio pessoal, sabe? E assim, hoje, assim, engraçado porque alguns alemães já me
[00:09:38] disseram que achavam que eu era alemã porque eu não tinha sotaque. Mas eu, sinceramente,
[00:09:42] não vejo sotaque como algo negativo. Eu acho, inclusive, muito legal, porque isso é a tua raiz,
[00:09:47] né? Mas eu também fico muito feliz de não ter sido consumida psicologicamente achando que eu
[00:09:54] fosse incapaz de aprender essa língua. Muitos amigos que eu tenho, conhecidos, também se
[00:09:59] sentiram muito mal já com situações assim, sabe? Eles abalados mesmo emocionalmente com a
[00:10:04] rispidez de alguns alemães, porque eles não conseguem se comunicar em alemão.
[00:10:08] Bom, também é preciso deixar claro aqui que a Alemanha não tem só coisas ruins, né? Ou ao
[00:10:12] menos tem muitas vantagens e também desvantagens. E por isso eu te pergunto, Ana, quais são,
[00:10:17] na tua visão, essas vantagens e desvantagens de morar na Alemanha? Ou da tua experiência na
[00:10:23] Alemanha, né? Como desvantagem, eu diria, dentre todos os pontos que eu comentei, o inverno,
[00:10:28] que dura quase sete meses no ano. E também a guerra entre Rússia e Ucrânia. Mas também tem
[00:10:33] muitas vantagens. Eu amo os doces alemães, eu amo o idioma, eu amo os amigos brasileiros que
[00:10:38] eu conquistei morando em Hamburgo, a grande experiência como um todo, sabe? Que eu
[00:10:43] adquiri morando na Alemanha. É uma coisa que eu sempre falo, toda experiência é válida,
[00:10:47] são as nossas vivências que nos tornam o que a gente é hoje. Eu me considero uma pessoa muito
[00:10:52] mais prática, objetiva e clara na minha comunicação e eu também valorizo hoje muito mais o sol e a
[00:10:57] cultura brasileira. Então também há lições e aprendizados que se tira de uma experiência que
[00:11:03] agora parece ter chegado ao fim de um ciclo. Tem uma frase do Saramago que eu gosto muito e que eu
[00:11:08] acho que ilustra bem essa questão dessa visão que a gente acaba adquirindo, diferente da visão do
[00:11:16] turista, né? Porque o turista ele vai numa certa relação de apaixonamento com aquele lugar e logo
[00:11:22] ele volta para a zona de conforto dele. Mas quando a gente decide emigrar, e eu acho que de verdade,
[00:11:28] assim, todo imigrante merece muito respeito, porque precisa muita coragem para você emigrar,
[00:11:34] abrir mão de tantas coisas, sabe? Tanto conforto, tanto físico às vezes,
[00:11:40] né? Quanto emocional principalmente. Então quando a gente sai dessa zona de conforto e a gente emigra,
[00:11:46] vai realmente morar num país, a gente acaba tendo uma relação em que esse apaixonamento por
[00:11:53] vezes se esvai, né? Porque a gente acaba vendo, vivenciando no dia a dia situações que é claro,
[00:11:59] nada na vida é perfeito. Nada, em nenhum lugar do mundo. Mas eu sempre… eu nunca tive uma
[00:12:04] relação de amor e ódio com o Brasil, não. Eu sempre amei o Brasil, assim, muito. Mas eu amo
[00:12:08] também muito descobrir coisas, descobrir culturas, estudar. Então foi essa razão pela qual eu decidi,
[00:12:16] né? Emigrar e viajar e descobrir e conhecer países e tal. É essa paixão que eu tenho por aprender
[00:12:23] coisas novas. Eu amo isso, sabe? E eu acho que inclusive isso é uma coisa muito importante para
[00:12:29] o artista. Ele precisa sair da zona de conforto e vivenciar coisas diferentes. Por vezes até coisas
[00:12:35] que machucam, que doam, porque é isso que vai fazer, na verdade, todo mundo, né? Faz a gente
[00:12:39] conhecer, né? Evoluir. E o Saramago, então, falando do Saramago, ele falava o seguinte que
[00:12:44] é preciso sair da ilha para ver a ilha. E foi exatamente isso que aconteceu comigo. Eu precisei
[00:12:49] sair do Brasil para conseguir ter uma compreensão maior de como ele é muito importante na minha vida.
[00:12:56] Pessoal também, né? Porque no meu trabalho ele é, de fato, assim. Mas eu não tinha a dimensão do quão
[00:13:04] potente é a cultura brasileira dentro da minha veia, sabe? E foi, foi por isso que eu comecei a
[00:13:09] viver. Foi por essa razão que eu decidi voltar. Porque com todos os problemas que o Brasil tem,
[00:13:14] a gente sabe que são muitos, mas ainda assim tem coisas aqui que a gente não acha em quase nenhum
[00:13:20] lugar do mundo. Pode ser meio clichê isso, mas isso é muito verdade. E só sabe disso quem já foi morar
[00:13:27] em outro país. Principalmente quando o contraste é muito grande entre o Brasil e, por exemplo, um
[00:13:32] país, sei lá, um país eslavo, um país, enfim. A gente acaba tendo, ou um país, algum outro país da
[00:13:37] Europa, a gente tem uma uma noção maior, assim, da cultura brasileira dentro da nossa vida. Então,
[00:13:39] foi essa a razão. É preciso sair da ilha para ver a ilha.
[00:13:44] A edição desta semana do DW Revista, uma produção da DW em Bonn, na Alemanha, fica por aqui. Fica aqui
[00:14:05] também meu muito obrigado a Ana Anjos pelas informações, percepções e experiências.
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[00:14:12] você encontra no nosso site dw.com.br e também no canal da DW Brasil no YouTube. A produção,
[00:14:20] apresentação e edição técnica são minhas, Guilherme Becker. A revisão final e a coordenação são do
[00:14:25] Rafael Plezan. O DW Revista volta na sexta-feira que vem. Obrigado por acompanhar a gente e um bom
[00:14:31] final de semana.
[00:14:39] Guilherme Becker.