Sérgio Rodrigues: IA nos humilha na escrita, mas não vai acabar com a literatura


Resumo

Neste episódio do Ilustríssima Conversa, Eduardo Sombini entrevista o escritor Sérgio Rodrigues sobre seu livro ‘Escrever é Humano: Como Dar Vida à Sua Escrita em Tempo de Robôs’. A conversa gira em torno da natureza da escrita literária, o processo criativo do autor e o impacto da inteligência artificial generativa na criação textual.

Rodrigues compartilha uma experiência pessoal marcante: a descoberta acidental de uma frase esquecida em uma gaveta em 1994, que se tornou a chave para encontrar sua voz literária e deslanchar sua carreira. A partir dessa anedota, ele explora a dualidade do ato de escrever, dividindo-o entre a ‘escrita de fogo’ (intuição, ritmo, musicalidade) e a ‘escrita de gelo’ (racionalidade, edição, cálculo). Ele argumenta que a ficção de qualidade exige uma combinação dessas duas dimensões, algo que demanda trabalho, tentativa e erro.

O autor debate o papel do talento versus o esforço, afirmando que, embora o talento exista, ele não é suficiente e pode até atrapalhar se levar à acomodação. O trabalho árduo é o elemento fundamental. Rodrigues também discute a importância da precisão das palavras, independentemente do estilo (conciso ou caudaloso), e o ‘contrato’ delicado entre escritor e leitor, que depende da capacidade da narrativa de ser percebida como ‘humanamente verdadeira’, evitando cair no ‘textão’ com moral explícita.

O cerne da discussão se volta para a inteligência artificial generativa. Rodrigues admite que a IA ‘nos humilha’ ao produzir textos com mais correção, ritmo e coesão do que a maioria dos humanos. No entanto, defende que existe uma ‘aldeia gaulesa’ inexpugnável à IA: a província da escrita literária autêntica. Para ele, a IA é formidável na repetição e imitação, mas é incapaz da centelha de originalidade e da justificação intrínseca que um texto literário exige. Ele prevê que a escrita humana literária se tornará um nicho ainda menor, cultivado apenas por quem vê valor no próprio ato laborioso de escrever, enquanto o panorama textual ao redor será dominado por máquinas.


Indicações

Books

  • Escrever é Humano — Livro de Sérgio Rodrigues, discutido ao longo de toda a entrevista. Nele, o autor reflete sobre seu processo criativo, a natureza da escrita literária e defende a tese de que a inteligência artificial não pode invadir o território da escrita literária autêntica.
  • The AI Mirror — Livro da filósofa Shannon Vallor, mencionado por Rodrigues. A obra alerta para o risco de a humanidade perder habilidades básicas de resolução de problemas ao terceirizá-las totalmente para a inteligência artificial.

People

  • Antônio Lobo Antunes — Escritor português citado por Rodrigues. A ideia de que o cansaço fragiliza o ego do escritor e permite o acesso a um ‘espírito coletivo da linguagem’ foi inspirada em uma fala de Lobo Antunes na Flip.
  • Luciano Floridi — Filósofo italiano especializado em ética da inteligência artificial, mencionado por Rodrigues. Floridi observa que a geração atual é a última a chegar à idade adulta em um mundo inteiramente analógico, o que confere uma responsabilidade única.
  • John Gregory Dunne — Escritor americano, marido de Joan Didion, citado por Rodrigues. Dunne definia a escrita como ‘o trabalho braçal da mente’, uma comparação com serviços como instalar encanamento.

Linha do Tempo

  • 00:02:09Introdução e boas-vindas a Sérgio Rodrigues — Eduardo Sombini apresenta o episódio e dá as boas-vindas ao escritor Sérgio Rodrigues, autor do livro ‘Escrever é Humano’. O convidado é apresentado como alguém para quem escrever foi a única coisa que aprendeu a fazer de verdade na vida, e o livro é descrito como um acerto de contas com sua própria história e um mergulho em seu processo criativo.
  • 00:02:43A frase esquecida que definiu uma carreira — Sombini pergunta sobre uma cena marcante do livro: em 1994, Rodrigues encontrou por acaso uma frase que ele mesmo havia escrito anos antes, esquecida em uma gaveta. Essa frase se tornou a chave para encontrar sua voz literária e deslanchar sua carreira. Rodrigues confirma que a história é verdadeira e explica que a frase, embora simples, continha códigos estéticos, tom e temas que ele não havia percebido antes, dando-lhe um rumo.
  • 00:07:13A dualidade da escrita: fogo e gelo — A conversa avança para a discussão sobre os dois lados da criação literária. Rodrigues os define como ‘escrita de fogo’ (intuição, musicalidade, se deixar levar pela linguagem) e ‘escrita de gelo’ (racionalidade, edição, cálculo). Ele argumenta que a ficção exige a combinação de ambos e que uma das grandes dificuldades do escritor iniciante é dosar esses elementos, pois o excesso de um pode apagar o outro.
  • 00:10:45O papel do cansaço e do espírito coletivo da linguagem — Rodrigues explora a ideia, inspirada em Antônio Lobo Antunes, de que o cansaço pode fragilizar o ego do escritor e permitir que ele se torne um ‘cavalo’ para um ‘espírito coletivo da linguagem’. Ele relaciona isso à busca da literatura por falar do que é humano e universal, transcendendo a mera individualidade. O cansaço e a distração, após um trabalho intenso, são apresentados como catalisadores para soluções criativas que a racionalidade pura não alcança.
  • 00:16:10Talentos versus esforço na formação do escritor — Sombini pergunta sobre o debate entre talento nato e esforço construído. Rodrigues afirma que, embora o talento exista para a escrita como para qualquer atividade humana, acreditar que ele é tudo ou suficiente é um erro. O trabalho árduo é o elemento mais importante. Ele alerta que um talento precoce e exuberante pode levar à acomodação, enquanto um esforço persistente pode fazer florescer uma carreira.
  • 00:19:40Precisão das palavras e a busca pelo texto ideal — Discutindo questões técnicas como concisão, adjetivos e ritmo, Rodrigues argumenta que não existem regras universais para a ficção, pois são questões de estilo e proposta estética. No entanto, ele defende a ‘precisão das palavras’ como um valor universal. Independentemente do estilo, as palavras devem ser usadas com exatidão semântica. O trabalho do escritor é afiar a linguagem, devolvendo-lhe um ‘fio ideal’ que se perde no uso cotidiano.
  • 00:24:28O contrato entre escritor e leitor — Rodrigues reflete sobre o delicado contrato que mantém o leitor engajado. O pilar fundamental, especialmente na ficção, é fazer com que o leitor perceba a história como ‘humanamente verdadeira’, mesmo em contextos fantásticos. Ele identifica o ‘textão’ – narrativas com moral explícita ou objetivo de convencimento – como o grande adversário desse contrato, pois coloca uma causa acima da verdade literária do personagem e sua experiência.
  • 00:28:01Repetição, originalidade e os limites da IA — A conversa chega ao tema central do livro: a relação entre repetição e originalidade na linguagem. Rodrigues afirma que a linguagem é baseada em redundância, mas uma obra de arte não pode ser apenas repetição; precisa trazer um ‘sopro de novidade’. É aí que, em sua visão, a inteligência artificial generativa esbarra. Ela é prodigiosa em imitar e repetir padrões linguísticos com maestria, mas é incapaz da centelha de originalidade que justifica um texto literário.
  • 00:31:10A aldeia gaulesa da escrita literária — Rodrigues apresenta sua tese central: a escrita literária autêntica é uma ‘aldeia gaulesa’ inexpugnável à inteligência artificial. Enquanto a paisagem textual ao redor será dominada por máquinas, esse nicho persistirá. Ele prevê que a escrita humana se tornará uma atividade de nicho, cultivada apenas por quem vê valor intrínseco no laborioso ato de escrever, comparando-a a cultivar alimentos orgânicos em um mundo industrializado.
  • 00:35:27O futuro da escrita e da leitura na era digital — Rodrigues amplia a reflexão, lembrando que a revolução da IA é parte de uma transformação digital mais ampla. Ele expressa ceticismo sobre uma colaboração harmoniosa entre humano e máquina na criação literária, temendo a atrofia de habilidades humanas básicas, como a escrita e o julgamento. Relata uma experiência pessoal em que uma IA resumiu seu livro de forma impressionante em minutos, levando-o a questionar por que as pessoas continuariam a ler livros inteiros no futuro. Conclui que a literatura não desaparecerá, mas se tornará um luxo ou hábito dissidente para poucos.

Dados do Episódio

  • Podcast: Ilustríssima Conversa
  • Autor: Folha de S.Paulo
  • Categoria: Arts News Society & Culture
  • Publicado: 2025-07-26T09:00:00Z
  • Duração: 00:46:23

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Uma mensagem que seja pura novidade é uma mensagem que é puro ruído.

[00:00:08] Ela só vai poder ser comunicada se ela tiver uma boa dose de redundância, de repetição.

[00:00:14] Agora, ela não pode ser inteiramente feita de repetição.

[00:00:18] E aí eu acho que é onde a inteligência artificial generativa não consegue entrar.

[00:00:24] Ela imita muito bem a linguagem humana, melhor do que a imensa maioria dos humanos.

[00:00:31] Escreve com mais correção, com mais ritmo, com mais coesão do que a maioria imensa dos humanos mesmo.

[00:00:38] Então, de certa forma, ela nos humilha.

[00:00:41] Mas eu acho que a tese que eu defendo no livro é que existe uma aldeia gaulesa, para citar o Asterix,

[00:00:50] que é justamente essa província da escrita literária.

[00:00:53] Onde uma simples imitação não basta, porque o texto precisa se justificar por si.

[00:01:23] Não uma habilidade imprescindível do dia a dia.

[00:01:25] A literatura, por outro lado, não deve desaparecer com o avanço dessa tecnologia.

[00:01:30] No recém-lançado Escrever é Humano, o Sérgio argumenta que a inteligência artificial generativa é formidável em produzir textos,

[00:01:37] repetindo o que já foi escrito, mas que por ser incapaz de criar obras originais, não pode invadir o terreno da escrita literária.

[00:01:44] Na nossa conversa, ele explica por que considera que a escrita literária vai se tornar um nicho ainda menor do que é hoje,

[00:01:51] como uma aldeia gaulesa de escrita humana.

[00:01:53] Uma aldeia gaulesana cercada por todos os lados por uma paisagem textual dominada por máquinas.

[00:02:00] Eu sou Eduardo Sombini e este é o Ilustríssima Conversa.

[00:02:09] Sérgio, seja muito bem-vindo ao Ilustríssima Conversa. É um prazer ter você aqui.

[00:02:14] Bom, você escreve no prefácio do livro que escrever foi a única coisa que você aprendeu a fazer de verdade na vida,

[00:02:21] né?

[00:02:23] Um novo livro, Escrever Humano, é um acerto de contas com a sua própria história.

[00:02:27] Então, é um livro sobre como escrever ficção, né?

[00:02:30] Mas, sobretudo, como você escreveu e como você escreve ficção, né?

[00:02:35] Pra ficar nesse tom, eu queria começar por uma cena que você apresenta lá pela metade do livro, né?

[00:02:40] Uma cena bem marcante.

[00:02:43] Você conta que em 94 você encontrou por acaso um papel esquecido em uma gaveta, né?

[00:02:49] Com uma frase que você tinha escrito anos antes,

[00:02:52] que foi a partir de…

[00:02:53] Dessa frase que, de alguma maneira, você encontrou a sua voz como escritor e que isso deslanchou a sua carreira literária.

[00:03:00] Que frase é essa, né?

[00:03:02] E como essa cena ajuda a pensar, né?

[00:03:05] De várias formas, a natureza da escrita, né?

[00:03:08] Essa reflexão que você faz no livro.

[00:03:10] Pois é. Bom, em primeiro lugar, obrigado, Eduardo.

[00:03:14] Um prazer estar aqui no Ilustríssima Conversa.

[00:03:16] Rapaz, essa cena é a pura verdade.

[00:03:21] Eu juro que não tem nada de ficção aí.

[00:03:23] Aconteceu mesmo essa…

[00:03:27] Que aparentemente é uma coisa um pouco mágica, né?

[00:03:29] Como é que pode você abrir uma gaveta e ali no meio de papéis velhos você encontrar uma frase que ressoe tão verdadeira pra você

[00:03:38] a ponto de te dar um rumo pra sua carreira de uma vida inteira como escritor.

[00:03:43] Mas foi exatamente isso que aconteceu.

[00:03:45] A frase em si não tem nada de mais, assim.

[00:03:48] Ela…

[00:03:49] Com certeza ela vai decepcionar quem esperar encontrar…

[00:03:52] Na frase, nas palavras em si, alguma fórmula mágica.

[00:03:56] Não se trata disso.

[00:03:58] Mas de alguma forma, eu acho que ali eu encontrei um caminho.

[00:04:03] A frase foi escrita por mim, obviamente, né?

[00:04:05] Anos antes. Eu já tinha esquecido dela.

[00:04:08] Mas quando eu a escrevi, com certeza eu não dei a ela a atenção devida, né?

[00:04:16] E não percebi o quanto ela indicava ali de caminhos estéticos, de tom, de temas, de formas.

[00:04:21] E não percebi o quanto ela indicava ali de caminhos estéticos, de tom, de temas, de formas.

[00:04:22] E não percebi o quanto ela indicava ali de caminhos estéticos, de tom, de temas, de formas.

[00:04:23] De formas de traduzir o que você tem aí de mais íntimo e tal, que eu acho que é o que

[00:04:27] todo escritor tem a obrigação de fazer, na verdade, né?

[00:04:31] Traduzir uma visão de mundo, algo que é um pouco difícil de definir, tem muito a

[00:04:36] ver com intuição, tem muito a ver com uma série de outras coisas.

[00:04:39] Com desejos, com desejos que nem você mesmo sabe que tem, enfim, com dimensões ocultas

[00:04:47] da sua personalidade, da sua conformação psíquica, sei lá o nome que você vai dar

[00:04:51] pra isso.

[00:04:52] E ali tinha uma formulação, tinha um jeito, tinha um pedacinho de linguagem ali, que me

[00:05:00] deu um código, que me deu uma chave pra abrir essa porta, né?

[00:05:04] É a primeira frase do primeiro conto do meu primeiro livro.

[00:05:09] Acabou sendo assim também na edição final, então a vida imitou a arte, digamos assim.

[00:05:15] Eu, a partir dali, eu transformei essa frase num conto quando eu a redescobri, né?

[00:05:22] Com uma certa facilidade até, como se aquilo já estivesse meio que esperando pra ser escrito.

[00:05:27] Em seguida vieram outros contos nessa mesma chave, nesse mesmo diapasão.

[00:05:32] Foi um momento decisivo pra mim, né?

[00:05:35] Pra minha história.

[00:05:36] E eu achei que isso poderia ter interesse pra mais alguém, no sentido de mostrar como

[00:05:43] essas coisas podem funcionar, e eu acho que não tem nada de mágico nisso, não tem nada

[00:05:48] de sobrenatural ou de místico.

[00:05:51] De maneira alguma, eu acho que é puro trabalho e é pura tentativa e erro, e eu acho que

[00:05:58] é uma missão de todo mundo que quer escrever, que tá escrevendo, que gostaria de escrever

[00:06:03] ou que já tá buscando o seu caminho.

[00:06:08] Uma missão de todo mundo é encontrar esse caminho que é único e é irrepetível.

[00:06:13] Isso é que é o mais difícil na hora de escrever um livro sobre escrita, né?

[00:06:17] Porque não tem como ensinar.

[00:06:18] Cada um precisa descobrir o seu caminho mesmo.

[00:06:21] Isso é verdadeiro, não tenho nenhuma dúvida de que é assim.

[00:06:26] É claro que a gente pode conversar sobre como foi pra cada um descobrir o seu caminho.

[00:06:32] E essa é a minha ideia quando eu trago esse tipo de história pessoal no livro, né?

[00:06:37] Não é dizer que a minha história seja emblemática de alguma coisa, é dizer, olha, cada um tem

[00:06:42] que encontrar a sua própria voz, cada um tem que tatear no escuro em busca de soluções

[00:06:50] pras suas histórias.

[00:06:51] Mas dá pra conversar sobre como foi pra cada um.

[00:06:55] E eu vou buscar outros também, depoimentos de outros escritores, de outras épocas, de

[00:07:00] épocas variadas e tal, pra saber também como foi pra eles, né?

[00:07:04] Interessante, né?

[00:07:05] Você disse que não é magia, é puro trabalho, mas que por outro lado tem essa dimensão

[00:07:13] oculta, esse saber fazer, né, que você não aprende lendo um compêndio, que você não

[00:07:20] aprende lendo um manual.

[00:07:21] Que tem muito a ver com a intuição, uma sensibilidade que vai sendo construída no

[00:07:27] inconsciente, etc.

[00:07:29] Eu queria continuar nesse ponto, né?

[00:07:32] Porque você faz um debate muito interessante, né?

[00:07:34] Sobre essa imbricação entre planejamento, racionalidade, técnica, um esforço deliberado

[00:07:41] por um lado, e essa outra dimensão que parece magia, mas não é magia, né?

[00:07:47] Que é o descontrole, a epifania, a inspiração, não é?

[00:07:50] É.

[00:07:51] É.

[00:07:51] Como cada um desses lados desempenha um papel diferente na criação literária, na sua

[00:07:57] experiência e na experiência de outros escritores que você conhece?

[00:08:00] Isso, exatamente.

[00:08:02] Eu acho mesmo que tem esses dois lados que eu chamo, a certa altura eu chamo de escrita

[00:08:07] de fogo e escrita de gelo, né?

[00:08:09] A escrita de fogo é aquela que, enfim, em que a linguagem te carrega, você se deixa

[00:08:15] levar por uma musicalidade, por um ritmo.

[00:08:20] Em busca de algo que você nem sabe direito o que é, né?

[00:08:25] E a escrita de gelo é a racionalidade, quando você para pra pensar e calcular e editar

[00:08:32] o material que você produziu, e aí você tira excessos, você acrescenta coisas, você

[00:08:37] começa a pensar naquilo como um objeto que vai ter existência no mundo lá fora, que

[00:08:42] precisa ser lido por alguém, compreendido por alguém.

[00:08:47] Isso tudo é frio, isso tudo resfria.

[00:08:49] Isso tudo resfria o processo, né?

[00:08:51] Daí o fogo e o gelo.

[00:08:53] E eu acho que uma grande dificuldade que eu tive durante muito tempo, nos anos que eu

[00:08:57] poderia chamar de, assim, os anos de aprendizado, foi justamente dosar o fogo e o gelo, né?

[00:09:02] Às vezes o gelo ficava gelado demais e apagava o fogo e às vezes eu deixava o fogo se alastrar

[00:09:10] de uma maneira que ficava tudo incontrolável e incompreensível depois pra um leitor.

[00:09:14] Eu acho que não tem como abrir mão de nenhuma dessas dimensões na escrita.

[00:09:19] Pelo menos não na escrita de ficção.

[00:09:22] Eu acho que outro gênero, sim, você pode escrever uma reportagem só com gelo, informação

[00:09:28] super bem apurada e tal, um texto racionalmente concebido vai ser suficiente pra você fazer

[00:09:34] uma boa reportagem, se o seu objetivo for, enfim, ficar nesse registro.

[00:09:40] Mas pra ficção é impossível.

[00:09:41] Pra ficção é impossível porque se você tiver fogo puro, eu acho que você pode no

[00:09:48] máximo escrever talvez um micro-conto, um poema de três versos, que venha como pura

[00:09:54] intuição, como puro lampejo, como pura sacada.

[00:10:00] Numa história mais longa, num conto mais longo e num romance, aí você vai precisar

[00:10:04] combinar esses dois lados da escrita.

[00:10:07] E essa combinação, pra mim, foi uma dificuldade grande nos primeiros anos, justamente em que

[00:10:14] ponto, até que ponto você deixa o fogo levar.

[00:10:18] Na sua história, em que ponto o gelo entra e até quando é que o gelo tem que saber

[00:10:23] também a hora de se retirar.

[00:10:26] Eu dou algumas dicas, assim, de formas de combinar isso, né?

[00:10:32] Mas eu acho que, na verdade, essa é uma busca que, como tudo, acaba sendo de cada um mesmo.

[00:10:38] Sérgio, logo depois de contar essa história que a gente falou no começo, você fala sobre

[00:10:45] o papel do cansaço, da distração na criação literária.

[00:10:48] A ideia de que a exaustão fragiliza o ego do escritor e permite que, se ele tiver condições

[00:10:53] pra isso, essa frase é sua, vire uma espécie de cavalo de certo espírito coletivo da linguagem.

[00:11:01] Gostei muito dessa frase, né?

[00:11:04] Eu acho que ela serve de um ótimo gancho pra gente falar um pouco sobre a relação entre

[00:11:11] esse trabalho que é árduo, que é solitário, né, de um escritor, e esse manancial coletivo,

[00:11:18] da linguagem, que ele tá a todo momento dialogando, mobilizando, às vezes lutando contra, etc.,

[00:11:26] mas que, de alguma maneira, é incontornável.

[00:11:29] Então, queria que você falasse um pouco sobre essa relação entre o escritor no seu

[00:11:36] trabalho cotidiano, solitário, versus o escritor que vira esse cavalo de um espírito coletivo

[00:11:44] da linguagem, né?

[00:11:45] Como que você pensa essa relação?

[00:11:47] É duro.

[00:11:48] É bem complicado, né?

[00:11:49] Eu acho que, na verdade, o que a literatura sempre busca é ser esse veículo de um certo

[00:11:56] espírito coletivo da linguagem.

[00:11:58] Mesmo que a sua história seja uma história narrada em primeira pessoa, enfim, contando

[00:12:03] um drama super individual, específico, fictício ou não, mesmo que ela seja uma história

[00:12:09] que trate de uma idiosincrasia muito pessoal e tudo, ela tá buscando falar de, sei lá,

[00:12:17] falar do ser humano.

[00:12:18] É.

[00:12:19] Ela precisa falar de mais do que de si mesmo.

[00:12:21] Do contrário, não haveria leitor praquilo, né?

[00:12:24] No momento em que você bota uma história na rua, que é uma história que tem a ambição

[00:12:28] de ser lida por pelo menos algum certo número de pessoas, você tá buscando falar de algo

[00:12:34] que te transcende, né?

[00:12:35] E o que que te transcende?

[00:12:37] O que que nos une?

[00:12:40] Eu acho que é a linguagem, né?

[00:12:42] É como acessar esse tal espírito, ser esse cavalo, como eu falo, né?

[00:12:47] Eu acho que, aí, é o que nos une, né?

[00:12:47] O que que nos une a linguagem?

[00:12:47] Como a gente descende?

[00:12:47] Como acessar o ser e o amor?

[00:12:48] O que é que atira nessa linguagem, né?

[00:12:48] O que é a linguagem?

[00:12:48] O que é o que nos une?

[00:12:48] E aí é uma luta, cada um tem que encontrar o caminho.

[00:12:51] Essa ideia do cansaço como algo que fragiliza o ego

[00:12:56] e que permite essa intromissão do tal espírito coletivo da linguagem

[00:13:01] é uma ideia que eu roubei do Lobo Antunes,

[00:13:03] que eu vi o Antônio Lobo Antunes, grande escritor português,

[00:13:08] falando na Flip sobre isso.

[00:13:11] Que ele, às vezes, passava o dia escrevendo, a noite escrevendo,

[00:13:14] e quando ele já não aguentava mais de cansaço,

[00:13:17] era justamente aí que ele escrevia as melhores coisas.

[00:13:20] E ele acabava jogando fora toda a produção das horas que ele estava descansado

[00:13:25] e ficando só com a produção do cansaço.

[00:13:28] Eu achei aquilo muito curioso e muito estranho, muito contraintuitivo até,

[00:13:32] porque, em geral, a gente imagina que quando está cansado

[00:13:35] o nosso trabalho fica pior, tanto que a gente para para descansar.

[00:13:39] E comecei a pensar nisso como uma das formas de você se abandonar

[00:13:45] a um certo fluxo.

[00:13:46] Quer dizer, falando do fogo e do gelo mais uma vez,

[00:13:50] uma das formas de permitir que esse fogo se insinue na página

[00:13:54] seria o cansaço.

[00:13:55] Eu acho que há outras também.

[00:13:57] Uma coisa que eu posso garantir, que é a pura verdade,

[00:14:00] é que algumas das maiores dificuldades que eu tive

[00:14:04] em momentos específicos de romances e tudo,

[00:14:09] encruzilhadas, impasses, que me tomaram muito trabalho para resolver,

[00:14:15] foram resolvidos de maneira…

[00:14:16] Quase inconsciente.

[00:14:19] Mas depois de trabalhar muito,

[00:14:21] depois de, sei lá, duas semanas quebrando a cabeça com alguma coisa,

[00:14:26] o que esse personagem faz agora,

[00:14:28] diante dessa encruzilhada que a história apresentou?

[00:14:31] Ele vai para cá ou ele vai para lá?

[00:14:33] Você não consegue chegar a uma conclusão?

[00:14:36] Depois de quebrar a cabeça por muito tempo,

[00:14:39] você meio que, assim, você abandona aquilo,

[00:14:42] você esquece aquele problema

[00:14:44] e se distrai.

[00:14:46] E, às vezes, é exatamente aí que a solução se apresenta pronta para você,

[00:14:50] como se ela viesse de algum lugar inacessível e tal.

[00:14:55] Mais uma vez, aqui tem o risco do discurso parecer meio místico e meio mágico,

[00:14:59] e eu juro que não é nada disso, é trabalho.

[00:15:04] Mas eu acho que tem um certo grau de dificuldade

[00:15:08] nas questões artísticas em geral, eu diria, não só literárias,

[00:15:12] em que a racionalidade não basta para você resolver.

[00:15:16] Você precisa, sim, tentar, de todas as formas,

[00:15:21] com o seu cérebro, dar uma solução para aquilo.

[00:15:25] Essa busca vai fazer parte da solução, no fim das contas,

[00:15:28] é necessária essa busca,

[00:15:30] mas é só quando você abandona a busca

[00:15:33] e se distrai

[00:15:35] que a solução vai se apresentar.

[00:15:38] Bom, eu acho que é uma variação desse mesmo tema, né?

[00:15:41] Mas você, no segundo capítulo, se debruça sobre questões muito concretas

[00:15:45] sobre questões muito concretas

[00:15:46] da vida de quem escreve, né?

[00:15:47] É um capítulo sobre os aspectos mais duros do cotidiano

[00:15:51] e é interessante porque isso funciona como antídoto,

[00:15:53] essa imagem mistificada do artista genial

[00:15:57] que consegue se desprender de todas as circunstâncias materiais

[00:16:01] para escrever como alguém sobrenatural,

[00:16:04] qualquer discurso desse tipo, né?

[00:16:06] Então, eu queria te pedir para falar um pouco sobre

[00:16:10] o papel do talento e o papel do esforço, né?

[00:16:15] Porque esse é sempre um debate para quem está pensando em começar a escrever,

[00:16:21] se a pessoa tem o que precisa para se tornar um escritor,

[00:16:25] se ela pode construir essas habilidades, né?

[00:16:28] Sem ter um talento visto como nato ou algo do tipo, né?

[00:16:33] Que tipo de conselho você costuma dar a quem te pergunta,

[00:16:37] a um aspirante escritor que te pergunta sobre isso, né?

[00:16:41] Como que você enxerga essa formação de escritor?

[00:16:45] Essa é uma questão bastante controversa, né?

[00:16:51] Não tem muita concordância sobre essas coisas no mundo dos escritores, não.

[00:16:56] Eu conheço muita gente que nega categoricamente

[00:17:00] que exista algo parecido com o talento,

[00:17:03] que é tudo esforço, que é tudo puro trabalho,

[00:17:07] qualquer pessoa que se esforçar pode chegar lá se ela se esforçar o suficiente.

[00:17:12] Eu não concordo com isso.

[00:17:15] Não acho que seja assim.

[00:17:16] Me parece, inclusive, um discurso meio contaminado pela autoajuda, assim, pela…

[00:17:22] Sabe, é só você querer muito que as coisas…

[00:17:26] que o universo vai conspirar a seu favor e tal.

[00:17:29] Eu acho que isso é balela.

[00:17:32] Acho que claro que existe talento para escrever.

[00:17:35] Existe talento para tudo, né?

[00:17:37] Todas as atividades humanas, algumas pessoas têm mais facilidade do que outras para desenvolver.

[00:17:42] Eu acho que seria muito esquisito se a…

[00:17:45] a escrita literária fosse exceção, né?

[00:17:48] Se você considerar que tem talento para cozinhar, existe talento para jogar bola,

[00:17:51] para liderar equipes, existe.

[00:17:54] Claro que existe talento para escrever.

[00:17:56] Agora, o que eu acho que é perigoso

[00:17:59] é acreditar que o talento é tudo ou que o talento é suficiente.

[00:18:04] Não é.

[00:18:05] Claro que não é.

[00:18:06] Ele pode até atrapalhar.

[00:18:08] Se ele for muito exuberante e ser manifestado de maneira precoce,

[00:18:12] ele pode deixar o sujeito acomodado.

[00:18:15] Tudo que o cara escreve desde a infância é aplaudido pelos amigos,

[00:18:21] pelos parentes, pelos professores.

[00:18:24] E ele acha que ele está pronto.

[00:18:26] E aquilo ali, enfim, acaba morrendo.

[00:18:29] É uma plantinha que precisava de um cuidado, de uma rega e tal,

[00:18:34] e que não vai ter e vai definhar.

[00:18:37] Enquanto uma outra que era muito mirradinha e tal,

[00:18:39] se ela for bem cuidada, ela pode florescer numa árvore frondosa.

[00:18:44] Enfim, a metáfora da jardinagem aqui é meio fácil,

[00:18:49] mas eu acho que funciona.

[00:18:51] E acho que o mais importante é, sem dúvida nenhuma, o trabalho.

[00:18:56] E acreditar demais em inspiração,

[00:19:00] em coisas que acontecem magicamente, sem trabalho,

[00:19:04] não vai levar ninguém a lugar nenhum.

[00:19:06] Você também se aprofunda em discussões mais específicas sobre o texto.

[00:19:11] Concisão ou escrita mais caudalosa,

[00:19:14] uso de adjetivos, ritmo, parágrafo, pontuação, etc.

[00:19:19] Esses debates costumam ser intermináveis.

[00:19:21] Parece que cada autor, cada editor, tem as suas obsessões.

[00:19:25] Aquela meia dúzia de dogmas que podem levar as pessoas à loucura,

[00:19:29] mesmo que não sejam baseadas em nada científico.

[00:19:33] Acho que todo mundo tem os seus.

[00:19:35] Eu, com certeza, tenho os meus.

[00:19:37] Queria te perguntar como você enxerga isso.

[00:19:40] Existem regras mais ou menos universais?

[00:19:43] Ou o que importa de fato é o texto funcionar na página?

[00:19:47] Como você costuma pensar essa questão

[00:19:50] e aconselhar as pessoas que se preocupam com ela?

[00:19:54] Eu acho que existem algumas…

[00:19:57] Não é dizer que existam regras universais,

[00:20:00] mas existem alguns parâmetros que costumam ser bastante úteis

[00:20:03] na hora de você encontrar o seu texto.

[00:20:05] Encontrar o texto ideal para o que você está querendo contar.

[00:20:08] A concisão, por exemplo,

[00:20:10] eu acho que é um valor inegável,

[00:20:12] em certo tipo de texto,

[00:20:14] em determinado gênero textual.

[00:20:16] Os textos jornalísticos, não tenho a menor dúvida

[00:20:18] de que a concisão é um valor importante.

[00:20:20] Talvez até se possa dizer que no jornalismo ele é universal.

[00:20:24] Mas na ficção não é.

[00:20:26] Dependendo dos seus objetivos,

[00:20:28] dos objetivos que você tem como escritor,

[00:20:30] você pode chegar lá usando poucas palavras

[00:20:36] e carregando todas elas de sentido

[00:20:38] de uma maneira muito estudada.

[00:20:40] Ou você pode chegar lá,

[00:20:42] jorrando uma coisa muito caudalosa de palavras.

[00:20:46] Isso eu não acho que dê para estabelecer regras

[00:20:50] de antemão em relação a essas coisas.

[00:20:53] Acaba sendo uma questão de estilo,

[00:20:56] de proposta estética de cada um.

[00:20:59] Agora, eu acho que tem uma outra dimensão

[00:21:02] que aí sim talvez a gente possa chamar de universal,

[00:21:05] que não é a da concisão

[00:21:08] versus o excesso de palavras,

[00:21:11] mas é a da precisão das palavras.

[00:21:14] Em que as palavras são usadas para dizer

[00:21:18] o que elas de fato querem dizer.

[00:21:20] Isso é um erro bastante comum em escritores iniciantes,

[00:21:26] e às vezes não só os iniciantes,

[00:21:28] é de usar as palavras com uma certa liberdade semântica,

[00:21:34] ou uma certa imprecisão,

[00:21:36] ou uma certa frouxidão semântica.

[00:21:39] E eu acho isso grave.

[00:21:40] Isso vale tanto para o estilo seco e conciso,

[00:21:45] quanto para o estilo barroco e caudaloso.

[00:21:50] As palavras precisam ter um significado muito preciso.

[00:21:55] Aquilo que virou meio que uma lenda,

[00:21:58] meio que uma obsessão e uma certa mistificação

[00:22:01] da palavra justa que o Flaubert,

[00:22:04] o escritor francês Flaubert gostava de falar,

[00:22:08] ele passava horas buscando a palavra justa.

[00:22:11] Tirando os excessos que se prestam à anedota,

[00:22:16] eu acho que é assim,

[00:22:18] a nossa tarefa é buscar a palavra justa.

[00:22:20] Isso não precisa ser justificativa para uma paralisia,

[00:22:25] aí eu não consigo encontrar a palavra justa,

[00:22:27] então eu não vou adiante.

[00:22:29] Mas o trabalho dos escritores eu acho que é,

[00:22:33] entre outras coisas,

[00:22:35] é tornar a linguagem,

[00:22:37] um instrumento o mais afiado possível

[00:22:40] para dar conta do mundo.

[00:22:42] E a linguagem, ela vive perdendo o fio aí fora,

[00:22:46] no dia a dia, na vida real.

[00:22:48] A gente vive falando as coisas de maneira imprecisa,

[00:22:52] com redundância, com rebarbas, com imprecisão,

[00:22:55] porque é assim, é a vida real,

[00:22:58] é a linguagem comum, é a linguagem oral.

[00:23:01] Agora, no momento que a pessoa senta para escrever,

[00:23:03] ela tem que polir aquilo ali,

[00:23:05] ela tem que devolver aquilo ali,

[00:23:07] um certo fio ideal

[00:23:09] que a linguagem deveria ter e não tem, sabe?

[00:23:13] E eu acho que esse trabalho,

[00:23:15] talvez a gente possa chamar de universal, sim,

[00:23:18] para qualquer estilo que a pessoa resolver escrever.

[00:23:21] Se ela quiser fazer um texto,

[00:23:23] por exemplo, que seja todo envolto em brumas e mistério,

[00:23:28] e coisas vagas e sombras,

[00:23:31] ela ainda vai precisar de palavras claras e precisas,

[00:23:34] para fazer isso.

[00:23:36] A própria vagueza fica mais vaga

[00:23:38] se as palavras que a descrevem

[00:23:40] forem palavras precisas.

[00:23:42] Sérgio, no seu livro, em outros livros sobre escrita,

[00:23:45] sempre aparece essa ideia de um contrato muito delicado

[00:23:50] entre quem escreve e quem lê.

[00:23:53] Qualquer momento, a qualquer deslize,

[00:23:56] a qualquer imprecisão,

[00:23:58] a qualquer coisa que não soe bem,

[00:24:00] que não funcione direito,

[00:24:02] o leitor pode abandonar a leitura,

[00:24:04] pode deixar para lá.

[00:24:06] É um mercado muito competitivo de leituras

[00:24:10] e do tempo, de uma forma geral.

[00:24:12] As pessoas têm pouco tempo, cada vez menos tempo,

[00:24:15] e daí a importância de polir as palavras,

[00:24:19] de não ter furos na história, enfim.

[00:24:23] Você tem um texto que pára em pé

[00:24:25] e que mantém esse contrato vivo.

[00:24:28] Eu sei que é difícil exemplificar, racionalizar, falar sobre isso,

[00:24:33] porque justamente isso geralmente está em outro nível,

[00:24:38] em outro registro.

[00:24:39] Você se depara com um texto,

[00:24:41] você sabe se ele funciona ou não.

[00:24:43] Às vezes você sabe que ele não funciona,

[00:24:45] mas você não sabe direito bem o que está faltando.

[00:24:48] Mas, enfim, o que te parece essencial

[00:24:51] para esse contrato ficar vivo até o fim do livro,

[00:24:54] até o fim da história?

[00:24:56] Quais são os elementos, quais são os pilares

[00:24:59] para que o leitor continue lendo

[00:25:02] e esse texto continue vivo, como você escreve no livro?

[00:25:06] Olha, eu acho que os pilares são muitos.

[00:25:09] A gente já falou até aqui de alguns deles.

[00:25:12] Você precisa fazer com que as palavras traduzam

[00:25:15] o que você quer de fato dizer,

[00:25:18] com o mínimo de ruído possível, enfim.

[00:25:21] Agora, eu acho que talvez a gente pudesse dizer

[00:25:25] que o mais importante de tudo nesse contrato

[00:25:28] é fazer com que o leitor,

[00:25:30] no caso a gente está falando de ficção,

[00:25:32] fazer com que a leitora

[00:25:35] entenda aquela história como uma história verdadeira.

[00:25:38] A ficção é curiosa,

[00:25:40] porque ela tem na origem da palavra

[00:25:42] a ideia de fingimento.

[00:25:44] Ficção é fingimento.

[00:25:47] Mas ela tem que ser percebida como verdadeira,

[00:25:50] mesmo que seja uma história passada

[00:25:52] num reino de fantasia,

[00:25:54] não se trata de uma verdade realista.

[00:25:56] Ela precisa ser percebida como humanamente verdadeira.

[00:26:00] Então, se aquele personagem está passando por um dilema tal,

[00:26:06] um conflito tal,

[00:26:08] e ele toma a decisão de agir assim ou assado,

[00:26:11] aquilo precisa ser percebido como um dilema real

[00:26:14] de uma pessoa de verdade.

[00:26:16] Eu acho que o grande adversário,

[00:26:19] talvez até mais nos dias de hoje,

[00:26:22] o grande adversário disso

[00:26:24] é a tendência ao textão.

[00:26:26] É a tendência à história,

[00:26:28] à história que é uma história como moral,

[00:26:31] é uma história que busca ensinar

[00:26:33] ao leitor alguma coisa,

[00:26:35] ou busca um efeito que vá além do literário,

[00:26:39] um convencimento de uma causa,

[00:26:41] da justeza de uma causa, de uma…

[00:26:44] Enfim, tudo isso pode ter muito mérito

[00:26:47] político, sociológico, etc.,

[00:26:49] mas para a literatura não serve.

[00:26:52] Se, em primeiro lugar,

[00:26:54] o leitor, a leitora,

[00:26:55] não tiverem acreditado que aquilo ali

[00:26:57] se passou de fato com uma pessoa.

[00:27:00] Então, eu acho que o…

[00:27:02] Antes de ser uma injustiça

[00:27:04] que se abate sobre uma população inteira e tal,

[00:27:08] aquilo tem que ser uma injustiça

[00:27:09] que se abateu sobre aquele personagem.

[00:27:12] E aí sim, aí quando você consegue

[00:27:16] convencer a pessoa que está lendo disso,

[00:27:18] você tem a atenção dela mais ou menos garantida,

[00:27:21] você vai ter que pisar muito na bola para perder.

[00:27:23] Sérgio, você começa e termina o livro,

[00:27:26] falando sobre o caráter repetitivo da linguagem.

[00:27:30] Então, para ela funcionar,

[00:27:32] quem fala, escreve, repete

[00:27:34] na dimensão da forma e do conteúdo,

[00:27:37] o que já existe.

[00:27:38] Temos que já foram explorados,

[00:27:40] histórias que já foram mais ou menos contadas,

[00:27:42] técnicas que são mais ou menos

[00:27:45] as mesmas há séculos de narração.

[00:27:48] E além, é claro, dos clichês

[00:27:50] que você critica bastante no começo do livro.

[00:27:53] É quase como se o ato de escrever fosse,

[00:27:55] sei lá, 98% repetição,

[00:27:58] fórmula, padrões, etc.

[00:28:01] E 2% originalidade.

[00:28:04] E você usa essa reflexão

[00:28:07] para tratar da inteligência artificial

[00:28:09] generativa de hoje em dia,

[00:28:10] que escreve muito bem repetindo,

[00:28:13] mas que para você é absolutamente incapaz

[00:28:15] de criar algo original.

[00:28:17] Então, para a gente chegar a esse tópico

[00:28:19] que fecha o seu livro,

[00:28:21] por que repetir não é suficiente,

[00:28:23] pensando nesse tipo de escrita

[00:28:26] que você dedica a sua reflexão?

[00:28:28] Eu acho que é uma exigência da arte.

[00:28:31] Se você se limita a repetir uma fórmula,

[00:28:36] você não está fazendo arte de verdade.

[00:28:39] Você está só reproduzindo padrões.

[00:28:41] Eu acho que está para o jornalismo

[00:28:43] de uma maneira interessante.

[00:28:45] Se uma reportagem, uma notícia

[00:28:49] não traz nenhuma informação nova,

[00:28:51] ela não tem valor nenhum no jornalismo.

[00:28:54] A informação é a base do negócio.

[00:28:56] Na literatura é um pouco diferente,

[00:28:58] porque ela tem os dois pés plantados

[00:29:01] na própria linguagem.

[00:29:03] Ela não está ali para passar uma informação prévia.

[00:29:06] Ela está ali para construir

[00:29:08] um objeto de pura linguagem.

[00:29:10] Então, seria absurdo falar

[00:29:12] que você precisaria trazer uma informação nova

[00:29:16] para a literatura fazer sentido.

[00:29:18] Mas se você entender a informação

[00:29:20] como informação estética,

[00:29:22] sim, eu acredito que funcione do mesmo jeito.

[00:29:25] Se você não trouxer alguma novidade,

[00:29:28] algum sopro de novidade,

[00:29:30] se você não conseguir usar a tradição,

[00:29:35] renovar de alguma forma,

[00:29:37] mesmo que minimamente,

[00:29:39] essa tradição da literatura de milhares de anos,

[00:29:42] aquele objeto estético não tem por que existir.

[00:29:45] Eu acredito nisso.

[00:29:47] É uma tensão permanente,

[00:29:49] porque é isso, como você observou,

[00:29:51] a linguagem é baseada em redundância,

[00:29:54] a linguagem é baseada em repetição.

[00:29:56] Uma mensagem que seja pura novidade

[00:30:00] é uma mensagem que é puro ruído.

[00:30:02] Ela só vai poder ser comunicada

[00:30:05] se ela tiver uma boa dose de redundância,

[00:30:09] de repetição.

[00:30:11] Agora, ela não pode ser inteiramente

[00:30:13] feita de repetição.

[00:30:15] E aí eu acho que é onde

[00:30:17] a inteligência artificial generativa,

[00:30:20] que é uma coisa prodigiosa,

[00:30:22] é uma revolução do nosso tempo,

[00:30:24] que já mudou muito o mundo

[00:30:26] e vai mudar muito mais ainda,

[00:30:28] mas é aí que ela não consegue entrar,

[00:30:30] a meu ver.

[00:30:31] Pelo menos não no seu estágio

[00:30:33] de desenvolvimento atual

[00:30:35] e talvez nunca.

[00:30:37] Essa é uma discussão que está aberta ainda.

[00:30:40] Talvez ela precisasse de uma consciência de si,

[00:30:44] que ela ainda não tem,

[00:30:46] e da capacidade de lidar com símbolos

[00:30:49] que ela também ainda não tem.

[00:30:51] Ela imita muito bem a linguagem humana,

[00:30:55] imita melhor do que a imensa maioria dos humanos,

[00:31:00] escreve com mais correção,

[00:31:02] com mais ritmo,

[00:31:03] com mais coesão

[00:31:05] do que a maioria imensa dos humanos mesmo.

[00:31:08] De certa forma, ela nos humilha,

[00:31:10] mas eu acho que a tese que eu defendo no livro

[00:31:14] é que existe uma…

[00:31:15] uma aldeia gaulesa,

[00:31:18] para citar o Asterix,

[00:31:20] que é inexpugnável à inteligência artificial,

[00:31:23] que é justamente essa província da escrita literária,

[00:31:27] onde uma simples imitação não basta,

[00:31:31] porque o texto precisa se justificar por si.

[00:31:35] Então, assim,

[00:31:37] se por um lado a paisagem textual

[00:31:40] à nossa volta está inteiramente dominada

[00:31:42] ou quase inteiramente dominada já

[00:31:44] pela IA,

[00:31:46] e eu acho que não vai ter jeito.

[00:31:48] Por outro,

[00:31:49] eu acho que a gente vai estar lidando com esse núcleo aí,

[00:31:52] essa pequena província,

[00:31:55] que em termos de mercado é muito pequeno mesmo,

[00:31:57] não vai afetar muito a lucratividade

[00:32:00] das empresas de inteligência artificial.

[00:32:03] É um nicho,

[00:32:04] sempre foi um nicho a escrita literária,

[00:32:07] e eu acho que ela tende a ficar um nicho ainda menor,

[00:32:09] com menos gente interessada nisso.

[00:32:12] É um pouco como criar,

[00:32:14] sei lá,

[00:32:16] cultivar alimentos orgânicos

[00:32:18] num mundo de alimentos industrializados, assim.

[00:32:21] Tem um valor

[00:32:22] e talvez vá ter um valor ainda maior no futuro,

[00:32:26] à medida que for se tornando uma coisa mais rara,

[00:32:29] cultuada e valorizada por menos gente,

[00:32:33] mas a maioria absoluta das pessoas

[00:32:35] não vai estar interessada nisso,

[00:32:37] porque escrever é difícil, né?

[00:32:39] Escrever dá trabalho, né?

[00:32:41] Tem uma frase que eu ouço,

[00:32:43] tem uma frase que eu adoro,

[00:32:45] de um escritor americano chamado John Gregory Dune,

[00:32:49] que é mais conhecido como o marido da Joan Didion,

[00:32:53] que a mulher dele ficou mais famosa do que ele,

[00:32:55] mas o cara dizia assim,

[00:32:59] a escrita é o trabalho braçal da mente,

[00:33:03] é um serviço como instalar encanamento.

[00:33:06] E é uma dimensão da escrita

[00:33:08] que é realmente o trabalho braçal da mente, né?

[00:33:11] É um trampo, é você ficar ali quebrando a cabeça,

[00:33:14] costurando, serrando, colando e tal,

[00:33:18] até o negócio ficar em pé, né?

[00:33:20] Até aquele objeto parar em pé minimamente e tal.

[00:33:23] Isso hoje é feito em um segundo.

[00:33:26] Você pode terceirizar isso para uma máquina

[00:33:28] com muita facilidade.

[00:33:30] Então eu acho muito difícil

[00:33:32] que um número considerável de pessoas continue escrevendo

[00:33:36] sem ter essa necessidade de escrever.

[00:33:38] Eu acho que só vai escrever quem

[00:33:40] vir na literatura ou na própria escrita

[00:33:44] um valor em si.

[00:33:46] A busca, a luta com as palavras,

[00:33:51] isso é o valor, isso é a razão pela qual você escreve.

[00:33:55] Se a razão pela qual você escreve

[00:33:57] é apenas se livrar daquele trabalho,

[00:33:59] como é, eu acho, para a maioria absoluta das pessoas,

[00:34:02] você não vai ter mais porquê sentar para escrever.

[00:34:05] Eu acho que a escrita vai deixar de ser uma habilidade,

[00:34:08] já vinha deixando, de certa forma,

[00:34:09] antes de aparecer um substituto,

[00:34:11] porque, enfim, por uma série de razões,

[00:34:16] inclusive uma crise educacional no Brasil,

[00:34:19] já se vinha escrevendo bastante mal.

[00:34:22] E a partir de agora,

[00:34:25] de um momento muito em breve,

[00:34:27] não vai mais ser necessário escrever nada.

[00:34:30] Realmente nada, nada.

[00:34:32] E aí eu acho que a gente entra num mundo,

[00:34:38] e não é que a escrita literária vá desaparecer,

[00:34:41] a escrita humana vai desaparecer,

[00:34:43] mas ela vai se tornar, já está se tornando,

[00:34:47] uma aldeia gaulesa, a última resistência

[00:34:50] com a escrita dos robôs.

[00:34:53] Sérgio, você estava falando agora dessa aldeia gaulesa,

[00:34:57] que parece que os tentáculos da inteligência artificial

[00:35:00] não alcançam.

[00:35:02] Queria te pedir para detalhar

[00:35:04] como você está pensando isso, é mais ou menos isso,

[00:35:06] essa inteligência artificial,

[00:35:08] que a gente conhece hoje,

[00:35:10] não ameaça esse tipo de criação literária?

[00:35:13] Ou as repercussões podem ser de outro tipo,

[00:35:18] podem ser um pouco mais dramáticas?

[00:35:20] Como você está pensando esse tipo de criação

[00:35:23] nessa era maquínica que vai tomando todo o entorno?

[00:35:27] Pois é, Eduardo, essa é a questão.

[00:35:30] Esse é o grande debate, eu acho, hoje.

[00:35:33] Não há minimamente um consenso construído

[00:35:37] em torno dessas questões.

[00:35:39] Você tem desde quem acha que é isso aí mesmo

[00:35:43] e a literatura como nós a conhecíamos está morta

[00:35:47] e a partir de agora vem uma outra coisa,

[00:35:49] uma outra linguagem de um outro tempo

[00:35:52] feita por inteligência artificial.

[00:35:55] Há quem acha que essas coisas vão se combinar,

[00:35:58] que na verdade a inteligência artificial

[00:36:00] é só uma ferramenta que vai abrir novas dimensões

[00:36:04] para a escrita humana.

[00:36:06] Falando da arte em geral,

[00:36:08] essa discussão está rolando na arte em geral.

[00:36:10] Há quem esteja fazendo uma obra de artes plásticas

[00:36:15] feita por robô, vendendo por um milhão de dólares para o museu.

[00:36:19] Então a gente está num momento de enorme confusão.

[00:36:24] Tem um filósofo italiano chamado Luciano Floridi

[00:36:29] que é especializado nesse tipo de reflexão

[00:36:32] sobre a ética da inteligência artificial,

[00:36:34] onde isso vai nos levar e tudo.

[00:36:36] Ele diz uma coisa que eu acho muito interessante.

[00:36:38] Ele é mais ou menos da minha idade, eu tenho 63 anos,

[00:36:41] e ele diz, olha, nós somos a última geração

[00:36:44] que chegou à idade adulta num mundo inteiramente analógico.

[00:36:48] Provavelmente isso nos deixa com um certo viés

[00:36:52] que você poderia chamar de conservador,

[00:36:54] a gente é apegado a uma visão de mundo

[00:36:57] que você pode chamar de contaminada pelo analógico, pré-digital,

[00:37:02] mas isso nos deixa com uma responsabilidade muito grande,

[00:37:08] porque a partir de agora as pessoas não vão mais ter a menor ideia

[00:37:13] de como era o mundo antes da digitalização de tudo.

[00:37:17] E a gente fala da revolução da inteligência artificial

[00:37:21] porque a inteligência artificial generativa realmente chama muito a atenção,

[00:37:27] ela permite fazer coisas prodigiosas, incríveis, quase miraculosas.

[00:37:32] Mas essa revolução começou antes.

[00:37:35] É bom lembrar que essa revolução é uma revolução digital.

[00:37:37] Essa revolução começou antes.

[00:37:39] O modo como a gente lê, como a gente escreve,

[00:37:41] começou a mudar e ter impactos sociais maiores ali pela virada do século.

[00:37:47] E hoje a gente está vivendo um desdobramento muito radical disso,

[00:37:53] que é a IA generativa, mas não é exatamente uma novidade.

[00:37:59] Essas coisas vêm mudando de maneira muito drástica e tal.

[00:38:02] O mundo inteiro passou para dentro do digital.

[00:38:05] Todas as obras, todas as compras e vendas, todas as transações,

[00:38:08] tudo hoje existe, principalmente no mundo digital.

[00:38:12] É quase como se o analógico, o mundo real, fosse um apêndice do digital.

[00:38:17] Enquanto a revolução está rolando, é muito difícil a gente saber onde vai dar.

[00:38:22] Eu acho que trata-se mais de fazer umas apostas.

[00:38:25] E eu, até por uma questão geracional, a minha aposta é na escrita humana.

[00:38:32] E eu acho que mesmo que escritores de hoje e do futuro usem a inteligência artificial,

[00:38:40] tentem domar a IA para os seus propósitos de expressão,

[00:38:45] mesmo que isso seja viável, eu não sei se é,

[00:38:48] você só vai conseguir dominar essa ferramenta

[00:38:51] se você tiver um mínimo de vivência própria da escrita.

[00:38:54] Porque senão ela vai te levar para onde ela quiser.

[00:38:57] E ela te levando para onde ela quiser, você deixa de ter o controle,

[00:39:00] você deixa de ser o artista.

[00:39:02] Não basta dar um prompt e falar

[00:39:04] me escreva um romance assim assado

[00:39:06] e achar que você é o autor daquilo.

[00:39:09] Escrever é botar uma palavra depois da outra.

[00:39:11] Se alguém está fazendo isso por você,

[00:39:14] e está fazendo de uma forma que nem dá para chamar exatamente de escrita,

[00:39:18] porque aquilo é produzido instantaneamente,

[00:39:21] aquilo é copiado e colado do patrimônio de toda a cultura humana, basicamente.

[00:39:28] Se você não tiver a sua própria vivência,

[00:39:30] uma outra filósofa que também lida com essa questão da inteligência artificial

[00:39:36] é uma americana chamada Shannon Vallow.

[00:39:39] A Shannon tem um livro que se chama The AI Mirror,

[00:39:45] o espelho da inteligência artificial, o espelho da IA,

[00:39:48] que não foi traduzido no Brasil ainda, é do ano passado,

[00:39:51] em que ela alerta para o risco que a gente corre

[00:39:56] de perder as habilidades básicas

[00:39:58] que nos levavam a resolver problemas.

[00:40:01] Se a gente terceiriza a solução de todos os problemas

[00:40:05] para a inteligência artificial, o que vai acontecer

[00:40:07] é que em pouco tempo a gente não vai mais dominar

[00:40:10] as ferramentas que nos levavam à solução dos problemas.

[00:40:13] A escrita, o cálculo, a capacidade de julgamento,

[00:40:19] de escolha, de seleção.

[00:40:21] E isso pode ir atrofiando, se atrofiando na espécie humana,

[00:40:26] o que é muito provável mesmo.

[00:40:28] Porque, enfim, o nosso cérebro tem essa questão da neuroplasticidade,

[00:40:33] ele se adapta tanto para o bem quanto para o mal,

[00:40:36] ele se adapta a novas situações e ele esquece certas coisas,

[00:40:40] ele esquece os caminhos que eram feitos para resolver certas coisas.

[00:40:44] Então, eu temo, sim, e agora eu volto àquilo que eu falei,

[00:40:49] por que eu não sei se eu vejo esse futuro tão brilhante assim,

[00:40:54] de homem, ser humano e máquina de mãos dadas,

[00:40:57] escrevendo obras incríveis que não poderiam ser escritas antes.

[00:41:01] Eu acho que a gente está passando por uma revolução

[00:41:04] que é muito mais profunda do que isso.

[00:41:06] Então, assim, passa a ser até meio anacrônico, me parece,

[00:41:10] pensar se uma inteligência artificial será capaz de escrever um bom romance.

[00:41:15] Porque o romance é uma forma que reflete uma outra era da humanidade.

[00:41:20] Nada indica, nada garante que vá fazer sentido escrever romances

[00:41:26] nesse novo tempo.

[00:41:28] Eu não sei se a linguagem da IA é essa.

[00:41:30] Ela pode imitar um romance?

[00:41:32] Talvez ela possa imitar um romance.

[00:41:34] Mas por que ela vai imitar um romance se ela vai poder te dar obras

[00:41:38] que são feitas de imagem e som e palavras tudo ao mesmo tempo,

[00:41:44] uma coisa refletindo a outra?

[00:41:46] Quer dizer, eu acho que denota uma certa falta de imaginação até,

[00:41:51] a gente pensar que a questão toda é se os escritores vão perder o emprego

[00:41:55] para o robô.

[00:41:57] Porque o robô vai cuidar de todas as tarefas textuais de agora em diante.

[00:42:01] No primeiro momento, é possível que essa seja a grande preocupação.

[00:42:05] Mas eu acho que logo, logo, a gente vai estar numa fase

[00:42:08] em que essa preocupação vai estar superada.

[00:42:10] Porque sequer esse gênero textual vai fazer sentido mais.

[00:42:16] Aconteceu uma coisa muito curiosa.

[00:42:19] Quando eu estava revendo as provas desse livro,

[00:42:22] ali pela décima quinta vez que eu entrei no…

[00:42:25] no arquivo, eu reparei que tinha uma…

[00:42:28] que o Adobe estava me fazendo uma pergunta.

[00:42:31] Lá em cima, assim, no cabeçalho.

[00:42:33] Esse é um documento muito longo.

[00:42:35] Você quer que eu resuma para você?

[00:42:39] E aí eu falei, quero, tá bom, quero ver.

[00:42:41] Quero ver o resumo que ele vai fazer do meu livro.

[00:42:45] E rapaz, em um ou dois minutos ele me entregou um resumo

[00:42:49] muito, mas muito bom.

[00:42:51] Muito bom mesmo.

[00:42:52] Que um ser humano levaria pelo menos dois dias.

[00:42:55] Um dia para ler o livro, no outro dia para resumir.

[00:42:59] E não era nem exatamente um fichamento, não.

[00:43:03] Ele elaborava as coisas com suas próprias palavras.

[00:43:06] Suas próprias palavras com todas as aspas que você quiser.

[00:43:09] E eu fiquei pensando, por que que as pessoas vão ler livros?

[00:43:14] Elas vão ter que querer muito ler um livro de agora em diante.

[00:43:18] Porque tudo vai poder ser resumido com muita facilidade.

[00:43:20] E você vai poder navegar entre tópicos principais

[00:43:24] de um conjunto de textos que você não teria nem tempo

[00:43:30] na escala humana para absorver.

[00:43:33] Então eu acho que a gente está entrando numa outra era mesmo.

[00:43:37] E as consequências são bastante difíceis de prever,

[00:43:40] mas não parecem apontar para uma exuberância de formas antigas,

[00:43:48] de formas anteriores a essa era.

[00:43:51] Eu acho que ela vai criar as suas próprias formas.

[00:43:53] Mas é como eu disse, eu não acredito, quando eu falo isso,

[00:43:57] e quando eu falo que as pessoas não vão mais escrever,

[00:43:59] a não ser que queiram muito,

[00:44:01] eu não acredito em momento algum que a escrita literária

[00:44:06] e a leitura literária vão desaparecer por completo.

[00:44:09] Eu não acho que elas vão desaparecer.

[00:44:11] Eu só acho que elas vão se tornar um luxo,

[00:44:13] um hábito cultivado por muito pouca gente.

[00:44:18] Agora, a literatura sempre teve uma vocação muito grande para a dissidência.

[00:44:23] Então é até possível, e nesse cenário que parece meio apocalíptico e tal,

[00:44:29] é até possível que venha algum tipo de florescimento artístico

[00:44:33] que a gente não consegue visualizar hoje.

[00:44:36] E até, talvez, quem sabe com o auxílio de uma ferramenta,

[00:44:41] uma super ferramenta como é a IA.

[00:44:44] Eu confesso que o meu interesse por essa ferramenta é muito pequeno.

[00:44:48] Eu prefiro continuar escrevendo da maneira antiga, artesanal,

[00:44:53] uma palavra depois da outra, lenta.

[00:44:56] Mas eu acho muito difícil que as gerações que vêm depois de mim

[00:45:02] continuem tendo esse tipo de apego.

[00:45:05] Eu acho que a gente vai ver transformações imensas aí

[00:45:08] que hoje em dia mal dá para prever.

[00:45:15] Perfeito. Então, para recapitular, o Sérgio Rodrigues é autor de

[00:45:18] Escrever é Humano, Como Dar Vida à Sua Escrita em Tempo de Robôs,

[00:45:22] publicado pela Companhia das Letras.

[00:45:24] Sérgio, foi um prazer conversar com você.

[00:45:26] Muito obrigado pela sua participação.

[00:45:28] Prazer foi todo meu, Eduardo. Um grande abraço.

[00:45:35] Este foi o Ilustríssima Conversa.

[00:45:37] Eu sou Eduardo Sombini e a edição de som foi feita pelo Rafael Conkli.

[00:45:40] Se você tiver algum comentário, crítica ou sugestão,

[00:45:43] não deixa de me escrever.

[00:45:44] Pode ser pelas redes sociais ou pelo meu e-mail

[00:45:46] eduardo.sombini.com.br

[00:45:50] A gente se vê daqui a duas semanas.

[00:45:51] Até lá.

[00:46:09] Na Faculdade SESI de Educação,

[00:46:11] a escola é sua segunda casa desde o primeiro dia.

[00:46:14] Com a residência educacional, você moda sua carreira na prática.

[00:46:18] Saiba mais em faculdadesesi.edu.br.

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