T16E04 - Paul Dirac II (T05E15, remasterizado)


Resumo

Este episódio do Fronteiras da Ciência dedica-se a explorar a figura do físico Paul Dirac, focado não apenas em suas monumentais contribuições científicas, mas principalmente em sua personalidade peculiar e no que a tornava tão singular. Os participantes discutem como Dirac, um dos fundadores da mecânica quântica e preditor da antimatéria, era visto como uma das personalidades mais estranhas da ciência, com comportamentos que hoje são frequentemente associados ao espectro autista, como dificuldades de socialização, fala extremamente econômica e um foco intenso e obsessivo em seu trabalho.

A conversa percorre sua biografia, desde a infância marcada por um pai abusivo e severo, que impunha regras rígidas e um isolamento social, até sua carreira acadêmica em Cambridge, onde ocupou a prestigiosa cadeira lucasiana de matemática. São apresentados diversos episódios anedóticos que ilustram seu caráter literalista e sua aversão a conversas superficiais, como seu famoso diálogo com Richard Feynman e suas respostas curtas e precisas a colegas como Niels Bohr e Werner Heisenberg.

Os participantes também analisam o contraste entre a genialidade de Dirac e sua falta de reconhecimento popular quando comparado a figuras como Albert Einstein ou mesmo Feynman. Discute-se como sua aversão total à publicidade, sua comunicação restrita e o fato de suas contribuições serem altamente técnicas e matemáticas o mantiveram fora do imaginário popular, apesar de sua importância fundamental para a física moderna. A questão de por que a beleza matemática era um critério tão central para ele, por vezes até acima da correspondência experimental, também é levantada, gerando uma reflexão sobre a natureza da intuição científica.

Por fim, o episódio aborda aspectos de sua vida pessoal, como seu casamento com a irmã do físico Eugene Wigner, que supostamente “o capturou” e cuidou dele, e as tragédias familiares, como o suicídio de seu irmão. O debate encerra-se ponderando sobre o legado de Dirac, seus prêmios, suas opiniões políticas e religiosas (era ateu convicto e crítico do papel social da religião) e a ironia de que um homem tão avesso a honrarias tenha dado nome a medalhas e prêmios científicos de grande prestígio.


Indicações

Books

  • The Strangest Man (biografia de Paul Dirac por Graham Farmelo) — Biografia de Paul Dirac mencionada como ‘o homem mais estranho de todos’, que detalha sua vida, personalidade e contribuições científicas. É citada como fonte de muitas das histórias e especulações sobre um possível autismo.

People

  • Richard Feynman — Físico contemporâneo de Dirac, descrito como seu oposto em personalidade (extrovertido versus recluso). É mencionado que Feynman tinha Dirac como um grande ídolo e que houve um famoso e curto diálogo entre os dois. Sua visão contrastante sobre a importância da beleza versus experimento nas equações é destacada.
  • Albert Einstein — Físico frequentemente comparado a Dirac em termos de genialidade, mas que alcançou fama popular muito maior. Discute-se as razões para essa diferença, incluindo a capacidade de comunicação de Einstein, o contexto histórico de sua imigração para os EUA e a natureza mais intuitiva de suas teorias para o público leigo.
  • Pyotr Kapitsa — Físico russo e grande amigo de Dirac, que o ensinou alpinismo e com quem Dirac manteve uma longa amizade, visitando frequentemente a União Soviética. É mencionado que Dirac doou seu sobretudo para Kapitsa durante uma visita.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao episódio sobre Paul Dirac — Apresentação do programa, que dará continuidade à discussão sobre o físico Paul Dirac, focando agora em sua personalidade estranha e singular. São apresentados os participantes: Fernanda Stephens, Jorge Kieffeld, Jefferson Arunzão e Marc Hidarte.
  • 00:01:11Biografia inicial e personalidade estranha de Dirac — Jorge Kieffeld inicia a biografia de Dirac, destacando seu nascimento em 1902, a infância com um pai severo e abusivo, e sua entrada em engenharia e depois matemática. É levantada a hipótese de que Dirac poderia estar no espectro autista, com características como foco intenso, isolamento social e fala extremamente econômica. São mencionadas histórias curiosas, como ele trepar em árvores de Cambridge de terno.
  • 00:03:13Contribuições científicas fundamentais de Dirac — Discussão sobre as contribuições científicas de Dirac, incluindo sua formulação da mecânica quântica, a previsão da antimatéria através da equação do elétron relativístico, e suas ideias que pavimentaram o caminho para a eletrodinâmica quântica. É mencionado seu Prêmio Nobel de 1933, seu cargo como Professor Lucasiano de Matemática em Cambridge (a mesma cadeira de Newton e Hawking) e seu trabalho durante a guerra na purificação do urânio.
  • 00:10:44Anecdotas sobre Dirac e comparação com Feynman — Os participantes compartilham histórias que ilustram a personalidade literalista e de poucas palavras de Dirac. Inclui o famoso encontro com Richard Feynman, onde Dirac pergunta se ele também tem uma equação, e o diálogo considerado longo entre os dois. São contadas histórias com Heisenberg sobre mulheres, e com Bohr sobre como escrever frases. É destacado o contraste entre a abordagem de Dirac (a beleza da equação é fundamental) e a de Feynman (a correspondência com o experimento é essencial).
  • 00:16:10Vida pessoal, casamento e família de Dirac — Discussão sobre a vida pessoal de Dirac, incluindo seu casamento com a irmã do físico Eugene Wigner, que foi mais uma iniciativa dela do que dele. É mencionada a trágica história de seu irmão mais velho, que cometeu suicídio, e como esse evento fez Dirac perceber que seus pais se importavam com os filhos. Também se comenta sua relação distante com os filhos, mas ainda assim melhor do que a que teve com seu próprio pai.
  • 00:24:10Por que Dirac é menos famoso que Einstein? — Os participantes debatem as razões pelas quais Paul Dirac, apesar de suas contribuições gigantescas, não atingiu a mesma fama popular que Albert Einstein ou mesmo Richard Feynman. As hipóteses incluem a aversão de Dirac à publicidade, a natureza altamente técnica de seu trabalho, o fato de Einstein ter desafiado Newton (uma figura secular) e ter sido promovido como um ícone durante e após a Segunda Guerra Mundial, e a personalidade carismática e comunicativa de Einstein em contraste com a reclusão de Dirac.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2025-08-04T23:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:10] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:15] Num programa anterior, discutimos as contribuições do físico Paul Dirac, gigante da física,

[00:00:21] participou na construção da mecânica quântica, do formalismo da teoria quântica, como é

[00:00:26] conhecido hoje, suas contribuições extraordinárias e previsão da existência da antimatéria.

[00:00:31] Todo mundo que gosta de ficção científica, desde desenho animal, até filmes mais profundos,

[00:00:36] ouviu falar do Paul Dirac, que concebeu a possibilidade dessa antimatéria.

[00:00:39] No programa anterior, discutimos como se formou essa contribuição científica dele.

[00:00:44] No programa de hoje, vamos conversar mais sobre a figura, sobre o caráter dessa personalidade,

[00:00:49] um dos físicos, um dos cientistas mais estranhos que já apareceu pelo nosso planeta.

[00:00:54] Então, vamos tentar desvendar por que ele era tão estranho e como ele era tão estranho.

[00:00:58] Para isso, um dos convidados é a doutora Fernanda Stephens, que é física, está falando de São Paulo.

[00:01:03] O Jorge Kieffeld e o Jefferson Arunzão, em Porto Alegre, e o Marc Hidarte, aqui em Berlim.

[00:01:09] Vamos começar com o Jorge, que é do São, sobre o Dirac.

[00:01:11] Em 2013, são 111 anos do nascimento de Paul Adrian Maurice Dirac.

[00:01:17] Um dos mais cientistas da história do século 20, mas não reconhecido popularmente como

[00:01:21] um grande ídolo como Einstein e outros, mas ele acabou sendo um sinônimo de personalidade estranho.

[00:01:27] Aliás, esse é o nome da biografia dele, é escrito pelo Graf Parmelo, que é o homem mais estranho de todos.

[00:01:32] Dirac nasceu em 1902, muito jovem, entrou no curso de engenharia na cidade dele de Bristol.

[00:01:37] Ele filho de um pai muito severo e exigente, que fez uma pressão muito grande sobre os filhos.

[00:01:42] Ele era professor de francês, o pai dele era suíço.

[00:01:44] Pressão é um modo de dizer, que hoje se chama de abuso.

[00:01:47] Fazer grandes expressões nos filhos normalmente não gera um gênio, mas sim neurótico.

[00:01:52] Nesse caso, ele chegou a uma combinação dos dois, porque ele acabou sendo uma pessoa que inclusive

[00:01:55] é considerada por alguns e ele é lançado em alguns lugares como um autista.

[00:01:59] Mas eu pessoalmente não li nada muito sofisticado sobre isso, eu não sei se eu defini ele como um autista,

[00:02:04] mas que é uma pessoa agressiva como autista, estranha, reclusa, pouco social,

[00:02:08] de pouca fala, de respondia às conversas longas, basicamente com monossílabos e tal.

[00:02:13] Isso sim, e deu origem a histórias divertidas.

[00:02:15] Essa tese de autismo é uma especulação até do próprio autor da biografia,

[00:02:19] ou ele mesmo diz que não passa de uma especulação.

[00:02:21] O que acontecia é que o Dirac tinha várias das características que hoje se associa com o autismo,

[00:02:27] talvez uma versão do autismo, que tem vários tipos, que é o Asperger’s.

[00:02:31] Por exemplo, ele tinha poucos interesses, ele era muito focado, ele não procrastinava.

[00:02:36] Basicamente, ele trabalhava no que ele se propunha muito tempo seguido.

[00:02:40] De segunda à sábado, todos os dias, e os domingos ele caminhava sozinho e não queria conversa.

[00:02:44] E se alguém fosse junto, ele só o via.

[00:02:46] Tinha essa tendência a isolamento, ele falava pouco?

[00:02:50] Porém, nessas caminhadas, depois de um período eu estive com um amigo capítisca dele,

[00:02:53] que era russo, que ensinou alpinismo para ele.

[00:02:55] Ele resolveu então treinar as técnicas de se segurar em pé,

[00:02:58] e começou a treinar subindo nas árvores de Cambridge, usando a roupa de trabalho,

[00:03:02] ou seja, terno lá, sério e tudo, então era visto, um professor muito sério,

[00:03:05] todo bem visível trepando nas árvores de Cambridge.

[00:03:07] Enfim, isso já soja um pouco da característica do autista.

[00:03:11] Só para terminar então a biografia, ele se formou então engenharia,

[00:03:13] depois em matemática, foi para Cambridge, no St. John College,

[00:03:17] onde ele acabou muito rapidamente fazendo a sua carreira científica

[00:03:21] em cima de uma série de produções de artigos muito impactantes,

[00:03:24] e na verdade foi a primeira formulação formal, ele é antíssima,

[00:03:27] da mecânica quântica, que levou ao Prêmio Nobel, inclusive, em 1933,

[00:03:31] que previu a antimatéria, entre outras coisas,

[00:03:34] além de uma série de outras contribuições que ele foi fazendo nos anos seguintes,

[00:03:37] como por exemplo a proposição da eletrodinâmica quântica,

[00:03:40] e várias outras contribuições, por exemplo,

[00:03:41] durante a guerra ele trabalhou na questão da purificação do urânio,

[00:03:44] na situação do urânio, enfim, acabou formando família anos depois,

[00:03:48] casando com a irmã do Viggo.

[00:03:50] Ele viveu até 1969 em Cambridge, ele ficou 46 anos na mesma cidade,

[00:03:55] 37 anos como professor na cadeira que se chama Professor Lucasiano de Matemática,

[00:04:01] que é a mesma cadeira que foi ocupada por Newton,

[00:04:03] e que realmente é ocupada por Stephen Hawking.

[00:04:06] Em 1970 a filha dele se mudou para a Flórida,

[00:04:08] e ele foi atrás, já aposentado, e viveu os últimos 14 anos ligado à Universidade Estadual da Flórida.

[00:04:14] Essa biografia estándar, a contribuição científica dele,

[00:04:17] passa pela teoria mais geral da mecânica quântica,

[00:04:19] que junta a mecânica quântica de Heisenberg com a relatividade,

[00:04:23] fazendo a equação relativística do elétron, prevendo a antimatéria,

[00:04:27] dando as bases para o que depois, e isso a Fernanda agora deve desenvolver,

[00:04:30] da história da teoria do campo quântico,

[00:04:32] desenvolveu outras ideias como o monopólio magnético,

[00:04:34] tentou fazer as modelos de quantização do campo gravitacional, enfim,

[00:04:38] que está na base das grandes teorias de hoje,

[00:04:40] a contribuição dele é enorme,

[00:04:42] e ele realmente é uma pessoa interessante,

[00:04:44] e é interessante pelos casos curiosos em que ele protagonizou.

[00:04:48] A paixão dele pela matemática,

[00:04:50] de buscar a beleza, o último aluno dele chamava John Polkinghorne,

[00:04:54] ele disse que uma vez perguntaram para ele,

[00:04:56] lê seu credo fundamental, professor,

[00:04:58] e ele sem falar, se levantou, foi no quadro, escreveu no quadro,

[00:05:01] as leis da natureza devem ser expressas em equações belas.

[00:05:05] Ponto, esse é o Oriano Julio Maia, o nóctuo básico que resume a personalidade dele,

[00:05:11] e aí ele gostava tanto disso que protagoniza,

[00:05:13] e a última coisa que falo já passou a vocês,

[00:05:15] mas é interessante que nós fizemos um outro programa com o Feynman,

[00:05:18] que é outra personalidade estranhíssima, interessantíssima,

[00:05:20] e eles se conheceram, obviamente, o Feynman mais jovem,

[00:05:22] todo mundo encontrou pela…

[00:05:24] Era um cara oposto, era um cara extremamente…

[00:05:25] Extrovertido, isso, é o anti-matéria,

[00:05:30] anti-matéria do Godirá.

[00:05:31] A lenda conta que quando ele encontrou pela primeira vez

[00:05:34] o Feynman numa conferência, eles ficavam em silêncio,

[00:05:36] um vendo o outro, e o Dirac se vira pra ele,

[00:05:38] já reconhecendo, ele diz, eu tenho uma equação,

[00:05:40] você também tem uma? Eu achei tão meigo isso.

[00:05:43] Tem uma frase de cada um deles, do Dirac e do Feynman,

[00:05:47] que mostra realmente como eles são opostos,

[00:05:49] a frase do Dirac diz o seguinte,

[00:05:51] o mais importante numa equação é que ela seja bela,

[00:05:53] e não que ela corresponda aos experimentos,

[00:05:56] enquanto que o Feynman teria dito que,

[00:05:58] não importa quão bonita seja a tua teoria,

[00:06:00] não importa quão esperto você seja,

[00:06:03] se a sua equação não corresponder aos experimentos,

[00:06:05] ela está errada.

[00:06:06] E esse é o estándar da ciência moderna.

[00:06:07] Esse é o estándar da ciência moderna.

[00:06:08] Mas aí veio uma coisa mistério, uma pequena observação,

[00:06:11] porque na verdade, ao apostar loucamente

[00:06:13] na perfeição da matemática, na buça da perfeição,

[00:06:15] da forma, ele lembra um pouco Johannes Kepler

[00:06:18] buscando, assim, fazer a realidade se encaixar

[00:06:20] na perfeição da matemática.

[00:06:21] O incrível é que ele conseguiu fazer isso,

[00:06:23] ele conseguiu unir as ferramentas certas

[00:06:25] e fazer sínteses belíssimas e enxugadíssimas,

[00:06:28] extremamente proderosas e predictivas da matemática,

[00:06:31] mas a matemática é um produto do cérebro humano,

[00:06:33] da mente humana.

[00:06:34] Isso é um dos mistérios que a gente poderia,

[00:06:36] em outro momento, desenvolver?

[00:06:38] Há controvérsias, Jorge.

[00:06:39] Não, é que se é da mente, mas o fato é o seguinte,

[00:06:41] é muito curioso que um produto da mente humana

[00:06:44] seja organizado com regras intrínsecas próprias

[00:06:46] que acabem sendo as mesmas do mundo externo

[00:06:49] e um sirva para interpretar o outro.

[00:06:50] Ou seja, aí tem um grande enigma que a filosofia da mente

[00:06:52] e outras disciplinas estão tentando quebrar

[00:06:55] há séculos, de certo modo,

[00:06:56] ou pelo menos há várias décadas de forma mais elaborada,

[00:06:58] que é um dos grandes problemas.

[00:06:59] Como é que pode?

[00:07:00] Porque ele, de fato, apostou na coisa mais louca de todos,

[00:07:02] quase numa negação científica,

[00:07:04] é uma afirmação quase anti-científica.

[00:07:06] Tem que ser belo antes de certo.

[00:07:07] Mas a gente volta um pouco à hipótese do autista,

[00:07:10] porque existem alguns autistas,

[00:07:13] dentro de todo o espectro do autismo,

[00:07:15] que é bastante amplo,

[00:07:16] que têm essa característica, que se chama sinestesia,

[00:07:19] de relacionar algumas imagens abstratas

[00:07:22] com outras imagens abstratas,

[00:07:23] por exemplo, associar números com figuras geométricas.

[00:07:27] Então, existem algumas pessoas que podem enxergar

[00:07:29] uma beleza que só é acessível a elas.

[00:07:32] Não estou dizendo que seja o caso do Gerardo,

[00:07:34] mas eles são acessíveis de forma analógica,

[00:07:36] eles enxergam as associações antes que a gente enxergue os computs.

[00:07:38] Ele dizia, inclusive, que ele entende uma equação

[00:07:40] quando ele consegue imaginar no que ela vai dar

[00:07:43] sem ter resolvido ela.

[00:07:44] Ou seja, ele realmente resolveu as coisas analogicamente.

[00:07:46] Isso também é um pouco o que a gente chama de intuição.

[00:07:48] Tem um caso, já que eu falei isso,

[00:07:49] enquanto ele conversava com um dos colegas dele na casa dele,

[00:07:53] ele observava a esposa tricotar.

[00:07:55] E ele ficou observando, tricotava,

[00:07:57] e ele falava de outros assuntos, tinha nada a ver.

[00:07:58] E ele pegou, despediu, foi embora.

[00:08:00] Ele voltou e disse para ela,

[00:08:02] o jeito que você está fazendo é uma das únicas

[00:08:05] duas possibilidades de fazer esse tipo de tricot.

[00:08:07] Outra forma é assim.

[00:08:08] De fato, a outra forma de fazer tricot é o ponto de meia,

[00:08:11] que se chama, que é o contrário do que ela fazia.

[00:08:13] E só existem as duas possibilidades.

[00:08:15] Mas que já é bem conhecido.

[00:08:16] É bem conhecido, mas é um cara que observava padrões,

[00:08:19] e realmente ele parecia mesmo um secado por padrões.

[00:08:21] Só queria levantar um ponto aqui

[00:08:23] e lembrar que a relatividade que o Jorge estava falando

[00:08:26] é a relatividade restrita.

[00:08:28] A união da mecânica quântica com a relatividade geral

[00:08:31] ainda é um dos grandes problemas da física atualmente.

[00:08:34] Ou seja, talvez um dos maiores de todos,

[00:08:37] já que disso resultaria a unificação total

[00:08:40] de todas as teorias fundamentais da física.

[00:08:43] Sobre a unificação da mecânica quântica com a relatividade geral,

[00:08:47] a teoria hoje aceita, ou melhor,

[00:08:49] a mais aceita para fazer essa unificação

[00:08:51] é a teoria de cordas, ou a teoria das membranas,

[00:08:54] a teoria M, que é uma extensão da teoria de cordas.

[00:08:57] Mas também isso é só uma possibilidade,

[00:08:59] não tem absolutamente nenhuma confirmação experimental

[00:09:03] de que essa unificação entre a teoria de cordas

[00:09:06] e a relatividade geral é conseguida,

[00:09:08] vamos colocar assim, pela teoria de cordas.

[00:09:10] Sobre Feynman e Dirac,

[00:09:11] o Feynman tinha o Dirac como um grande ídolo dele,

[00:09:14] talvez o maior ídolo do Feynman, na verdade.

[00:09:17] Desde que o Feynman começou a estudar a mecânica quântica

[00:09:20] ainda como estudante na década de 30,

[00:09:22] ele descobriu no estúdio dele a equação de Dirac,

[00:09:24] ele ficou totalmente maravilhado,

[00:09:26] ele se aprofundou muito no estúdio da equação de Dirac,

[00:09:28] na verdade, ele virou a equação de Dirac do avesso,

[00:09:31] usou isso muito nos trabalhos posteriores dele,

[00:09:33] principalmente na teoria do Positron.

[00:09:35] Mas de qualquer maneira,

[00:09:36] o Dirac sempre foi um grande ídolo para o Feynman,

[00:09:37] inclusive anos mais tarde, já na década de 60, em 62,

[00:09:41] quando o Feynman teve a oportunidade

[00:09:43] de encontrar o Dirac novamente numa conferência,

[00:09:45] Feynman falou para o Dirac,

[00:09:46] deve ter sido maravilhoso ter descoberto

[00:09:49] a equação que você descobriu.

[00:09:50] E o Dirac falou,

[00:09:52] sim, o que você está trabalhando agora no momento?

[00:09:54] O Feynman falou Mesons,

[00:09:56] Mesons é uma partícula de interações fortes da física.

[00:10:00] Ao que o Feynman falou Mesons,

[00:10:03] mas é muito difícil conseguir uma equação para essas partículas,

[00:10:06] e o Dirac respondeu,

[00:10:07] bom, mas alguém tem que tentar.

[00:10:09] Esse provavelmente foi, tem onde eu sei, na verdade,

[00:10:11] tem onde sabe, foi o diálogo mais longo

[00:10:13] que o Feynman teve com o Dirac,

[00:10:15] e é bem provável que tenha sido um dos mais longos também

[00:10:18] que o Dirac tenha com qualquer pessoa na vida dele,

[00:10:21] com a inscrição da esposa dele, provavelmente,

[00:10:23] já que o Dirac é uma pessoa que, reconhecidamente,

[00:10:27] uma pessoa que não falava,

[00:10:28] que simplesmente não tinha interesse ou a maneira dele

[00:10:31] era de se expressar muito sustentamente.

[00:10:33] Tanto que existe uma unidade de fala,

[00:10:35] uma piada, uma unidade de fala chamada de Dirac,

[00:10:38] um Dirac, uma unidade de uma palavra por hora.

[00:10:41] Jorge fala quantos bilhões de trilhões?

[00:10:44] Até era Dirac.

[00:10:44] É verdade que ele falava pouco

[00:10:46] e ele deu uma ou duas entrevistas na vida dele,

[00:10:48] porém, ele deu uma longa entrevista,

[00:10:50] dividida em cinco sessões,

[00:10:52] para o Thomas Kuhn e Eugênio Wigner, em 1962.

[00:10:56] E isso está transcrito na internet,

[00:10:57] chama Oral History Transcript,

[00:10:59] por Adriano Aldrich Dirac,

[00:11:00] está no arquivo da AIP.org.

[00:11:02] De fato, ainda está toda a biografia dele contada por ele.

[00:11:05] Vocês falaram um monte de coisas estranhas do Dirac,

[00:11:07] eu não ouvi falar em nada muito estranho ainda.

[00:11:09] Tem uma história interessante

[00:11:10] quando o Dirac estava viajando com o Heisenberg

[00:11:14] e conversando porque o Heisenberg,

[00:11:16] ele fazia o tipo completamente oposto

[00:11:18] em termos de caráter do Dirac.

[00:11:20] Então, ele era um cara extrovertido,

[00:11:21] saía com mulheres.

[00:11:23] Mas, Dirac, por que tu não aproveita um pouco mais?

[00:11:25] Tem tantas meninas legais, bacanas aqui

[00:11:28] e o Dirac disse,

[00:11:29] como é que tu sabe de antemão

[00:11:31] que elas são legais e bacanas?

[00:11:33] Esta foi numa viagem de navio para o Japão.

[00:11:35] Tem uma outra história do Dirac,

[00:11:37] que ele estava num castelo,

[00:11:39] nesse castelo eles estavam contando algumas histórias

[00:11:42] e falaram para ele que uma das salas era assombrada

[00:11:44] e que à meia-noite parecia um fantasma

[00:11:47] numa determinada sala.

[00:11:49] Aí o Dirac perguntou,

[00:11:50] mas meia-noite do horário de Grimmish

[00:11:53] ou meia-noite do horário de verão?

[00:11:55] O mais interessante disso é que

[00:11:57] ele não falou essas coisas em tom jocoso de piada.

[00:12:00] Eu acho que ele realmente queria saber

[00:12:02] qual era o horário em que aparecia o fantasma, né?

[00:12:05] Ou seja, ele era uma pessoa literalista.

[00:12:07] Ele não percebia as sutilezas.

[00:12:08] Isso porque eu faria a mesma pergunta,

[00:12:10] porque um fantasma ele não deve seguir

[00:12:13] o protocolo temporal normal, né?

[00:12:15] Ele deve seguir.

[00:12:16] Mas você, Marcos, faria essa pergunta

[00:12:19] da maneira que você falou agora.

[00:12:20] Então de ironia, mas o Dirac não.

[00:12:22] O Dirac faria essa pergunta como o Sheldon,

[00:12:24] do Big Bang Theory, faz.

[00:12:26] Exato. Ele é tão preciso que, por exemplo,

[00:12:28] em várias ocasiões, com diferentes formas,

[00:12:30] ele estava dando uma aula ou explicando algo no quadro

[00:12:33] e alguém não entendia algo.

[00:12:34] Por exemplo, alguém observava. Isso aconteceu.

[00:12:35] Ele disse, professor Dirac, eu não entendo

[00:12:37] como você derivou a fórmula no canto esquerdo do quadro.

[00:12:39] E Dirac se vira e diz,

[00:12:40] isso não é uma questão, é uma afirmação.

[00:12:42] A próxima pergunta, por favor.

[00:12:43] E a outra boa foi ele conversando com o Bohr.

[00:12:45] Bohr chegou para ele, estava num momento tranquilo lá

[00:12:49] e Dirac escrevia com muita clareza, muita simplicidade.

[00:12:51] O Bohr estava escrevendo um paper

[00:12:53] e tinha muitas hesitações,

[00:12:54] muitas versões e rabissos e rascunhos.

[00:12:58] Ele chegou para o Dirac e disse,

[00:12:59] eu não sei como terminar essa frase.

[00:13:01] E Dirac replicou para ele,

[00:13:03] eu aprendi na escola que você nunca deve começar

[00:13:05] uma frase sem saber como ela termina.

[00:13:07] Então, uma das razões pelas quais o Dirac e o Bohr

[00:13:10] nunca jamais escreveram nenhum trabalho junto

[00:13:12] é exatamente por causa disso.

[00:13:13] O Bohr tinha esse estilo de escrever trabalhos

[00:13:16] onde ele se encerrava numa sala com seus colaboradores

[00:13:19] ou seus estudantes

[00:13:20] e ele ficava em voz alta, ditando e tentando as frases

[00:13:23] e voltava atrás e ia para frente e tudo mais.

[00:13:25] Quanto que o Dirac provavelmente seria alguma coisa do tipo,

[00:13:29] praticamente um vampiro seria alho

[00:13:31] e uma cruz mostrando para ele.

[00:13:33] Provavelmente ficava completamente apavorado

[00:13:35] com uma situação desse tipo.

[00:13:36] É quando se fala em conversa.

[00:13:38] Eu tenho uma dúvida sobre a capacidade dele como professor.

[00:13:42] Se menciona se ele era considerado um bom palestrante,

[00:13:46] um bom professor,

[00:13:47] se ele é uma pessoa que tem uma dificuldade de relacionamento

[00:13:49] ou a quietude dele era uma coisa específica à relação social.

[00:13:54] Como você sabe sobre isso?

[00:13:55] Alguns comentários que se fazem

[00:13:57] é sobre a capacidade dele como orientador.

[00:13:59] Ele teve alguns alunos,

[00:14:01] inclusive teve uma mulher que foi,

[00:14:03] talvez acho que foi a segunda doutorada em física no Brasil,

[00:14:06] que foi com ele, que é a Sônia Aschauer.

[00:14:09] É um pouco misteriosa a história,

[00:14:11] não se acha muita informação na rede,

[00:14:13] ela morreu com 25 anos e era da USP.

[00:14:15] Então o que se diz do Dirac como orientador

[00:14:18] é que ele tecnicamente era competente,

[00:14:20] ou seja, ele passava um problema para o seu aluno que era factível,

[00:14:24] que é o que você tem que fazer não mudar um problema impossível,

[00:14:26] mas ele não era bom em termos de dar apoio para o aluno.

[00:14:30] Na verdade, o orientador hoje em dia precisa ser uma coisa mais completa,

[00:14:33] que vai desde psicólogos que atrapalham.

[00:14:36] A pessoa tem uma coisa mais mundana.

[00:14:38] É importante salientar aqui que,

[00:14:41] apesar desses problemas que a gente pode encontrar no Dirac como orientador,

[00:14:45] vamos colocar a fim de não dar todo apoio,

[00:14:47] os livros dele são de uma clareza absurda,

[00:14:50] são muito claros, são muito claros e muito didáticos.

[00:14:54] A escrita dele flui de uma maneira tão natural.

[00:14:57] Se você pegar um livro do tipo Os Fundamentos da Mecânica Quântica,

[00:15:01] começa a ler aquele livro

[00:15:03] e você acha que Mecânica Quântica é muito simples.

[00:15:05] Os artigos também. Inclusive, você pode baixar na internet os artigos.

[00:15:08] Fala da relação dele com a literatura,

[00:15:10] que diz que sendo uma pessoa sem emoções,

[00:15:12] ele não conseguiria apreciar a literatura.

[00:15:14] O Capitza, que é o físico russo, amigo dele,

[00:15:17] deu uma vez uma tradução em inglês do Crime e Castigo do Dostoevsky.

[00:15:21] Ele diz que a lei é muito boa.

[00:15:23] Aí, um tempo depois, ele perguntou,

[00:15:25] e aí, ele leu o livro e o Dirac disse o seguinte,

[00:15:28] é interessante, mas nos capítulos o autor comete um erro,

[00:15:31] ele descreve o sol nascendo duas vezes no mesmo dia.

[00:15:33] Esse foi o único comentário que ele fez sobre o livro em toda a história.

[00:15:36] Ele encontrou um erro no Dostoevsky.

[00:15:37] Tem uma outra que é melhor, na Oppenheimer.

[00:15:39] Um dia ele chegou e, olha só,

[00:15:41] para quem fala pouco, isso aqui parece ser um discurso imenso.

[00:15:44] E disse a Oppenheimer, me disseram que você escreve poesia.

[00:15:47] Eu não vejo como seria possível um homem que trabalha nas fronteiras da física

[00:15:51] escrever poesia ao mesmo tempo.

[00:15:53] Eles estão em completa aquisição.

[00:15:55] Na ciência, você quer dizer alguma coisa que ninguém sabe antes,

[00:15:58] em palavras que todo mundo pode entender.

[00:16:00] Na poesia, você está obrigado a dizer alguma coisa que todo mundo sabe,

[00:16:04] em palavras que ninguém pode entender.

[00:16:06] Enfim, tem várias outras histórias curiosas.

[00:16:09] E ele se casou, então?

[00:16:10] Foi sem querer, mas ele casou.

[00:16:12] Mas a resposta dele é uma pessoa muito especial.

[00:16:14] Mas isso é uma ilação tua, Filipe.

[00:16:16] Não, eu acho que foi por acaso mesmo.

[00:16:17] Ele conheceu a irmã do Wigner numa visita que ele estava fazendo,

[00:16:21] o Dirac estava fazendo no Instituto de Estudos Avançados de Princeton,

[00:16:25] e o Wigner estava lá, e ele acabou encontrando a futura esposa dele,

[00:16:28] Mas eles começaram a se relacionar, seja lá como você define relacionamento,

[00:16:33] caso do Dirac, muito mais por insistência dela do que por atitude dele.

[00:16:38] Ela simplesmente capturou ele e cuidou dele.

[00:16:41] E muitos físicos reconhecem, inclusive quando ele morreu,

[00:16:43] fazer uma homenagem, muita esposa dele,

[00:16:44] que apesar dele ter uma vida relagindo normal com filhos,

[00:16:47] a qual ele tratou certamente muito melhor do que ele sofreu nas mãos dos pais dele,

[00:16:51] porque a família dele era muito complicada.

[00:16:54] Pai, alguns autores, inclusive o próprio Fernando, sugerem que o pai também era um artista.

[00:16:57] Por isso que ele não conseguia se relacionar.

[00:16:59] Inclusive, ele ficava comendo na sala e obrigava apenas o filho,

[00:17:02] o Paul, comer com ele na sala,

[00:17:04] enquanto que a mãe com a filha e o outro irmão tinham comido na cozinha.

[00:17:07] Isso é uma história interessante, porque o Dirac falava em inglês com a mãe

[00:17:11] e só em francês com o pai.

[00:17:13] Obrigado.

[00:17:14] E o pai impedia visitas da casa, então eles não tinham contado com ninguém.

[00:17:18] Então ele cresceu achando que as mulheres falavam em inglês e os homens falavam francês.

[00:17:23] É, só uma das brincadeiras.

[00:17:24] Mas isso teve um lado menos agradável,

[00:17:27] que o irmão dele, que eram dois anos mais velhos, não aguentou o tranco.

[00:17:29] De fato, ele foi para a faculdade antes, para usar a engenharia e trabalhar lá.

[00:17:33] Mas ele não era tão bem sucedido nos estudos.

[00:17:35] E o irmão dele, como ele vendo o irmão dele se dando tão bem,

[00:17:37] e além disso, toda a vida tendo sido o queridinho do pai,

[00:17:40] ele realmente largou o emprego depois de um tempo, morando numa cidade vizinha.

[00:17:43] Quando terminou o recurso de poupança dele, em três meses, ele cometeu suicídio,

[00:17:47] que foi um trauma violento na família,

[00:17:48] que sacudiu muito e levou o próprio Dirac a fazer uma série de reflexões.

[00:17:52] Ele teve um irmão que se suicidou quando ele tinha 25 anos.

[00:17:54] Mas ele comenta, em relação a isso,

[00:17:57] ele observou que os pais sentiam muito o suicídio.

[00:18:02] E ele se deu conta que os pais dele se importavam,

[00:18:05] que ele nunca imaginou que os pais se importassem com os filhos.

[00:18:07] Exato, essa observação é muito interessante, porque ela sugere assim,

[00:18:10] esse cara não é um autista completo, mas ele é notável.

[00:18:14] Mas o Dirac, ele tem uma autobiografia?

[00:18:16] Como é que vocês sabem isso que vocês estão falando?

[00:18:18] Não, isso está no Farnelo.

[00:18:19] No Farnelo está bem detalhado as histórias,

[00:18:21] e também nas entrevistas ele fala bastante.

[00:18:23] Essa biografia é recente?

[00:18:25] É de dois anos atrás.

[00:18:26] Dois anos atrás, o Farnelo é físico?

[00:18:29] Eu fico com essa impressão que ele não é tão estranho assim,

[00:18:32] mesmo vocês tentando me convencer, sei lá.

[00:18:35] Não, mas é assim, Marco.

[00:18:36] Toda vez que a gente descreveu aqui um diálogo,

[00:18:38] a gente está cortando as pausas.

[00:18:41] Porque o típico diálogo com o Dirac era uma palavra,

[00:18:44] depois um silêncio longuíssimo, meia hora de silêncio.

[00:18:47] Só te ouvindo.

[00:18:48] E aí ele respondia a sua pergunta, ou ele dizia sim ou não.

[00:18:52] Se dizia que o vocabulário dele correspondia?

[00:18:54] Sim e não, eram as únicas duas palavras.

[00:18:56] Mas, por exemplo, do ponto de vista de aparência pessoal,

[00:19:01] a gente podia dizer, por exemplo,

[00:19:03] olha, todos nós tivemos em conferências internacionais,

[00:19:07] a gente vê cada coisa.

[00:19:08] Aliás, não eram duas, eram três frases, era cinco?

[00:19:11] Fiz que não toma banho até pessoas que simplesmente não têm modos nenhum.

[00:19:15] Talvez isso seja muito mais normal hoje do que há 70 anos atrás.

[00:19:20] Eram poucos e chamava mais atenção, né?

[00:19:21] É, chamava mais atenção.

[00:19:23] Tem a história do sobretudo dele, que ele tinha um sobretudo,

[00:19:26] mas aí numa visita dele à Rússia, o amigo dele, o Kaptsa,

[00:19:29] ele acabou doando o sobretudo dele para o Kaptsa,

[00:19:32] daí ele voltou para Cambridge, passou o inverno todo,

[00:19:35] em Cambridge sem o sobretudo, passando o frio provavelmente,

[00:19:38] e ele só foi comprar um casaco no inverno seguinte,

[00:19:42] quando ele estava em visita a Nova York com a esposa dele, a irmã do Wigner,

[00:19:47] aí ela acabou levando ele para comprar um novo casaco.

[00:19:50] Finalmente, ele parou de passar frio, passou o resto da vida dele com esse mesmo sobretudo,

[00:19:54] nunca mais comprou outro.

[00:19:55] Aliás, ele ganhou uma coisa interessante, ele ganhou muitos prêmios,

[00:19:57] além do Nobel de 1933 com Schrodinger,

[00:20:00] ele também ganhou a medalha real 39,

[00:20:02] cópula em medo e a medalha Max Planck em 52,

[00:20:05] foi eleito fellow da Sociedade Real Inglesa em 1930,

[00:20:08] da Americana de Física em 48, da Difísica de Londres em 71,

[00:20:12] ganhou a ordem do mérito, teve um reconhecimento até na cidade onde ele nasceu.

[00:20:16] Depois ele foi indicado para ganhar o cargo de cavaleiro,

[00:20:20] e ele recusou, baseado no seguinte, que ele não queria ser chamado pelo primeiro nome,

[00:20:24] porque ele seria Sir Paul e não Sir Dirac.

[00:20:26] Ele queria recusar o Nobel porque ele não queria atrair tanta publicidade para cima dele,

[00:20:30] ele não gostava dessas coisas.

[00:20:32] Aí convenceram ele de que se ele recusasse, ele atrairia mais atenção,

[00:20:35] então que era melhor aceitar.

[00:20:37] Aliás, uma coisa interessante, ele acabou sendo amigo e fez alguma contribuição com o Abdussalam,

[00:20:42] que é o seguinte, o Abdussalam que colaborou com ele,

[00:20:44] inclusive ele levou ele para uma série de conferências,

[00:20:46] no que depois ia ser o Centro Internacional de Física Teórica em Trieste,

[00:20:49] inclusive o ECTP, ele tem uma medalha Dirac do ECTP e o prêmio Dirac,

[00:20:54] são dois prêmios e a medalha Dirac,

[00:20:55] junto com a medalha Dirac da Sociedade Física da Teórica da Inglaterra,

[00:21:00] é os únicos dois prêmios que levam o nome dele.

[00:21:02] Só tem uma coisa melhor dentro desse contexto do que ganhar um desses prêmios importantes,

[00:21:07] é ter um prêmio importante com o teu nome,

[00:21:09] acho que é muito mais importante do que…

[00:21:11] Fica lembrado para sempre, disse que tinha um asteroide para ele,

[00:21:14] o nome dele, 5997, mas tem também duas estradas na terra,

[00:21:17] para ele um em Bristol e outro em Talazarrim, na Flórida, onde ele morou até a morte,

[00:21:21] Paul Dirac Drive.

[00:21:22] Mas vocês veem como é impressionante a contribuição científica dele,

[00:21:26] imagina-se, essa descrição que o Jefferson falou de uma pessoa que demora 5 minutos

[00:21:30] para dar um sim a uma colocação de uma pessoa que está tentando conversar…

[00:21:35] Não é 5 minutos, Marco, os relatos são de 30 minutos.

[00:21:40] Faz o interlocutor achar que o cara, na verdade, tem uma deficiência cognitiva,

[00:21:47] e não que ele seja uma pessoa gifted,

[00:21:49] é incrível que se consiga reconhecer toda essa genialidade dele sem a ajuda dele em fazê-lo.

[00:21:55] É até interessante de contar outras coisas,

[00:21:57] apesar de ser um cara fechado, ele tinha uma certa consistência, algumas ideias políticas,

[00:22:02] ele era muito amigo do Kapitska, o Kapitska era soviético, russo,

[00:22:05] e ele ia muito à Rússia, fazia vários tours por lá,

[00:22:07] e era muito querido, tanto que ele tinha uma espécie de reconhecimento como fellow

[00:22:11] da Academia Russa de Ciências, por ser um amigo da ciência soviética, o Paul Dirac.

[00:22:16] E por isso ele teve problemas, ele teve um visto negado,

[00:22:19] inclusive para entrar nos Estados Unidos em determinado momento.

[00:22:21] O visto foi negado em 1954, no apogeu do macartismo, então dá para compreender por quê.

[00:22:27] E outra coisa curiosa também são algumas ideias religiosas dele,

[00:22:29] e com essa lógica penetrante dele, ele também era, digamos, um ateu convicto,

[00:22:34] Tem uma declaração que ele deu para Eisenberg, Boris Eisenberg, reportaram,

[00:22:38] mas sabe, ter dito isso, né, coisas, e essa frase,

[00:22:41] que se ainda é ensinada a religião, de forma nenhuma, porque suas ideias ainda nos convencem,

[00:22:46] mas simplesmente porque alguns de nós querem manter as classes baixas quietas.

[00:22:50] A gente já fazia uma leitura quase marxista.

[00:22:52] Essa posição talvez seja uma inferência do autor do livro,

[00:22:55] mas a posição de Dirac quanto a respeito a Deus é muito conhecida,

[00:22:59] inclusive por uma anedota de uma reunião que estava em Copenhague,

[00:23:02] e após o Dirac falar abertamente,

[00:23:05] uma das poucas vezes ele falou abertamente sobre a posição dele em relação a Deus e religião,

[00:23:10] o Paulo levantou e falou aquela frase famosa, ele disse assim,

[00:23:17] Significa, né, não existe nenhum Deus e Dirac é o seu profeta.

[00:23:21] O Paulo que era um católico ferrenho.

[00:23:23] Mas essa frase é interessante, se a religião ainda é ensinada,

[00:23:26] não é porque as suas ideias nos convencem, mas porque é usada para manter as classes baixas quietas.

[00:23:30] Um povo quieto é muito mais fácil de governar do que pessoas clamorosas e insatisfeitas.

[00:23:35] Também é muito mais fácil explorar pessoas, religião é um tipo de ópio

[00:23:39] que permite a uma nação se enganar e conduzi-la a sonhos desejosos,

[00:23:44] esquecer a injustiça que são sendo perpetrados contra as pessoas.

[00:23:47] Portanto, existe uma aliança próxima, estreita,

[00:23:50] entre as duas grandes forças políticas da atualidade, o Estado e a Igreja.

[00:23:53] Ele pegava pesar.

[00:23:54] Isso, mas é bom deixar bem claro no nosso programa que isso é opinião do Paulo Dirac,

[00:23:59] não é opinião do Jorge Kirchner.

[00:24:00] Não, a minha é um pouco mais radical, mas foi boa.

[00:24:05] Talvez fosse interessante discutir por que, já que o Dirac era um físico

[00:24:10] que fez contribuições do mesmo nível que o Einstein,

[00:24:12] por que o grande público conhece o Einstein e não conhece o Dirac?

[00:24:16] Ou até o Feynman.

[00:24:17] O Feynman é uma coisa intermediária, ele é pouco menos, mas também é conhecido.

[00:24:21] O Einstein é um ícone hip-hop, mas o Dirac,

[00:24:23] pouquíssimas pessoas que não estão dentro da física ou da química já ouviram falar.

[00:24:28] Eu compartilho contigo minha dúvida porque, por exemplo, a diferença entre o Feynman e o Einstein

[00:24:32] é que o Feynman, a contribuição dele é mais difícil de explicar.

[00:24:37] O Einstein tem toda essa visão da relatividade, do tempo ser dependente de quem observa,

[00:24:42] tem toda uma descrição clássica que é mais intuitiva do que está acontecendo na relatividade.

[00:24:47] O Einstein desafiou o Newton.

[00:24:48] O Dirac tem questão de antimatéria que é muito legal, acho que é uma coisa assim que…

[00:24:52] Eu acho que a explicação é que o Einstein desafiou o Newton,

[00:24:55] que era uma estrutura secular,

[00:25:00] era a ciência que a gente usava há séculos e, de repente, foi colocada…

[00:25:04] É, mas imagina que ele desafiou o Newton porque ele tinha uma correção de x³,

[00:25:10] não sei aonde, não sei aonde, que tinha que pegar desse jeito.

[00:25:13] Entende? Ele seria o desafiador, a pessoa que corrigiu as equações de Newton,

[00:25:17] mas não seria popular.

[00:25:18] Claro que eu nunca li sobre isso.

[00:25:21] Eu acho que o Einstein virou um ícone hip-hop porque ele tem uma foto de língua de fora.

[00:25:25] Então, na mesma maneira que o Che Guevara é um ícone hip-hop por causa das camisetas…

[00:25:29] Não, porque teve uma foto muito boa.

[00:25:30] Não, mas eu tenho um…

[00:25:31] Eu nunca li sobre essas diferenças, mas você pensando aqui, me ocorre o seguinte.

[00:25:35] Bom, na primeira diferença, o Einstein até que fez alguns pequenos incursões na divulgação científica.

[00:25:39] Escreveu as notas autobiográficas, escreveu um livro de divulgação sobre a relatividade, mais ou menos.

[00:25:43] E ele tentou, ele lavou em entrevistas, ele é um cara relativamente bem comunicante.

[00:25:47] E o Dirac não queria saber de explívio.

[00:25:49] Ele tinha ideias bem claras.

[00:25:50] O Dirac, por mais claro…

[00:25:52] Foi proposto que o Einstein fosse presidente do Estado de Israel.

[00:25:55] Exato.

[00:25:56] Mas o Dirac não tinha essa preocupação.

[00:25:57] Ele é um cara que se comunicava só para expert.

[00:25:59] Mas eu desconfio que a principal razão não é nem essa.

[00:26:02] É o fato de que Einstein imigrou para os Estados Unidos durante a, digamos, a perseguição, a intelectualidade na Alemanha.

[00:26:07] E ele foi promovido um pouco como um esforço de guerra.

[00:26:09] Ou seja, vou mostrar que tem os alemães legais como esse aí, que é um gênio, o maior gênio da história.

[00:26:14] E ele foi promovido e acabou, digamos, recebendo muitas luzes.

[00:26:17] E era um cara certo para isso também.

[00:26:18] E o Dirac não viveu exílio, não foi perseguido, não…

[00:26:23] Me apego a essa questão da…

[00:26:24] É isso mesmo, Paul Beattie.

[00:26:25] …quebra na noção de que o tempo é uma coisa absoluta e coisa…

[00:26:28] A minha visão é que o Einstein ficou realmente popular após aquela viagem que ele fez aos Estados Unidos em 1920,

[00:26:35] que foi logo depois da confirmação, vamos colocar assim, da relatividade geral do deslocamento da luz.

[00:26:41] Foi feita em 1919, a partir do eclipse.

[00:26:45] Quando aconteceu isso, o Einstein foi capa de todos os jornais e ele realmente é uma figura pop desde essa época.

[00:26:52] Diferente do Dirac, o Einstein nunca foi avesso a esse tipo de coisa.

[00:26:56] Aliás, o Paul Beattie lembrou isso também é verdade.

[00:26:58] Aliás, foi um artigo escrito por um jornalista num jornal de Bristol contando essa viagem aos Estados Unidos,

[00:27:06] que resumia a teoria de Einstein, que pela primeira vez o Dirac tomou contato com a teoria de Einstein.

[00:27:10] E que mudou a vida dele. Na verdade, talvez tenha sido esse o momento mesmo.

[00:27:14] O Dirac não. O Dirac era uma pessoa avessa a qualquer tipo de publicidade, a qualquer tipo de exposição.

[00:27:20] Uma pessoa realmente da cinturna, tanto com o público quanto até o círculo mais próximo dele, de amizade.

[00:27:27] É bem sabido que quando ele estava em Göttingen, lá no postdoc dele, ele ia trabalhar de manhã cedo e ia para a biblioteca.

[00:27:33] E ele ficava sentado o dia inteiro na biblioteca praticamente na mesma posição,

[00:27:38] uma posição incômoda, que são os relatos que vêm dessa época, e não falava com ninguém.

[00:27:43] O único amigo dele, de fato, era o Oppenheimer, mas era uma amizade do tipo assim,

[00:27:48] eles saíam para caminhar, para longas caminhadas em volta de Göttingen,

[00:27:51] onde o Oppenheimer falava, falava, falava, e o Dirac ouvia, ouvia, ouvia.

[00:27:56] Fez alguns amigos próximos, capítulos.

[00:27:58] Então, as amizades dele eram mais ou menos assim, as pessoas tinham que realmente gostar dele, as pessoas insistiam.

[00:28:04] As pessoas tinham que entender que ele era assim, insistiam nessa amizade e aceitavam ele como ele era.

[00:28:10] E ele acabou fazendo, de fato, grandes amigos como Capsa, que foi um amigo para a vida inteira.

[00:28:14] Isso é verdade. Na verdade, eles aceitavam a presença dele.

[00:28:16] Então, Weiss, não. Weiss era muito mais sociável, envolvido em discussões filosóficas, envolvido com os amigos.

[00:28:23] Na década de 20, depois que ele ficou muito popular, ele marava à noite nos carros das madames lá da alta cidade de Berlim.

[00:28:30] Então, nesse aspecto muito diferente.

[00:28:33] Eu lembrei de uma outra história com a mulher do Dirac, no meio de uma das raras brigas.

[00:28:38] Ela disse, o que tu diria se eu fosse embora?

[00:28:40] Ele disse, acho que eu diria, tchau, querida.

[00:28:43] É melhor não provocar o cara.

[00:28:45] Não com o Dirac, né?

[00:28:47] Então, esse foi o programa Fronteiras da Ciência.

[00:28:49] A gente discutiu um pouco do caráter do físico Paul Dirac.

[00:28:51] Estiveram aqui com a gente, então, em São Paulo, a doutora Fernanda Stephens,

[00:28:56] em Porto Alegre, o Jorge Kielfeld e o Jethro Soranzon, e o barco de arte aqui em Berlim.

[00:29:02] O programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URBIS.

[00:29:08] Direção Técnica de Francisco Guazelli.