RT Comentado 47 – O pequeno grande revolucionário


Resumo

Este episódio conta a história de Benjamin Lay, um quaker radical do século XVIII que se destacou como um pioneiro do movimento abolicionista muito antes de ele se tornar uma causa ampla. Nascido em 1682 na Inglaterra, Lay combinou as tradições radicais do quakerismo inicial com experiências cosmopolitas como marinheiro e testemunhas diretas da brutalidade da escravidão em Barbados para formar uma visão de mundo profundamente igualitária e anticapitalista.

Lay é descrito como uma figura de estatura pequena, mas de grande coragem e convicção. Seus métodos incluíam teatro de rua radical, como o episódio em que, em 1738, espetou um livro cheio de suco vermelho (simulando sangue) sobre proprietários de escravos durante uma reunião quaker, profetizando que a escravidão destruiria sua fé. Ele também escreveu um livro condenando veementemente a escravidão e foi repetidamente marginalizado e expulso por sua própria comunidade religiosa.

Sua filosofia era alimentada por múltiplas fontes: o radicalismo igualitário dos primeiros quakers como James Naylor; a solidariedade multiétnica aprendida em mais de uma década como marinheiro; o horror testemunhado frente à violência escravista em Barbados; e um compromisso com um estilo de vida simples, vivendo em uma caverna, sendo vegetariano e boicotando produtos feitos por escravos. Ele via uma conexão direta entre a exploração humana e animal.

Apesar de sua importância como um dos primeiros a exigir o fim imediato e incondicional da escravidão em escala global, Lay foi amplamente apagado da história. O episódio argumenta que isso se deve ao seu radicalismo extremo, sua origem humilde e métodos confrontativos, que não se encaixavam na narrativa posterior de um abolicionismo liderado por figuras iluminadas da classe média. Ele é apresentado como um revolucionário à frente de seu tempo, cujas ideias sobre consumo ético, igualdade radical e ação direta permanecem relevantes.


Indicações

Books

  • Todos os Proprietários de Escravos que Mantêm os Inocentes em Cativeiro, Apóstatas — O único livro escrito por Benjamin Lay, no qual ele detalha sua luta contra os proprietários de escravos quakers e exige o fim imediato e incondicional da escravidão em todo o mundo.
  • O livro de Marcus Rediker sobre Benjamin Lay (baseado no artigo ‘The Forgotten Prophet’) — O episódio foi baseado no artigo de Marcus Rediker, que também escreveu um livro sobre Lay. O apresentador recomenda o livro, descrevendo-o como ‘muito, muito, muito interessante’.
  • Obras de Thomas Tryon — Lay era um grande admirador do argumento de Thomas Tryon a favor do vegetarianismo. Tryon acreditava que a guerra e a violência humana decorriam da forma como tratamos os animais, uma ideia com a qual Lay concordava plenamente.

People

  • Diógenes — O fundador da filosofia cínica, vegetariano, que escolheu viver em conformidade com a natureza (em um grande jarro). Lay se inspirou nele, especialmente na ideia de ‘parresia’ (dizer a verdade ao poder) e em viver a filosofia como ação pública.
  • James Naylor — Um quaker radical e teólogo do século XVII, conhecido por seu elaborado teatro de rua e ação direta. Foi brutalmente punido por blasfêmia. Lay deu continuidade à sua tradição de protesto teatral radical.

Linha do Tempo

  • 00:01:11A dramática ação de protesto de Benjamin Lay em 1738 — O episódio abre descrevendo o famoso protesto teatral de Benjamin Lay em uma reunião anual de quakers. Vestindo um uniforme militar, ele espetou um livro com uma bexiga cheia de suco vermelho, simulando sangue, sobre os proprietários de escravos presentes, profetizando que a escravidão destruiria a fé quaker. Este ato de ação direta simboliza seu método militante e confrontativo.
  • 00:03:57As origens do radicalismo de Lay no caldeirão da Revolução Inglesa — A narrativa retrocede para explorar as origens do pensamento de Lay. Ele nasceu em um contexto pós-Guerra Civil Inglesa, onde grupos radicais como os Levellers e os primeiros quakers (como James Naylor e George Fox) pregavam igualdade e faziam as primeiras críticas à escravidão. Lay é apresentado como um ‘retrocesso’ a esta fase inicial e radical do quakerismo, canalizando seu espírito militante.
  • 00:10:17A educação cosmopolita e a solidariedade aprendida no mar — A segunda fonte do radicalismo de Lay foi sua experiência como marinheiro por 12 anos. No mar, ele aprendeu solidariedade com uma tripulação multiétnica, onde a vida de todos dependia uns dos outros. Ouvindo histórias de companheiros que foram escravos ou trabalharam em navios negreiros, especialmente sobre a violência contra mulheres africanas, Lay desenvolveu uma visão antirracista e uma identidade como ‘cidadão do mundo’.
  • 00:14:40O horror testemunhado na sociedade escravista de Barbados — Após se casar, Lay e sua esposa Sarah se mudaram para Barbados, o epicentro da escravidão no século XVIII. Lá, testemunharam em primeira mão torturas, execuções, mortes por exaustão e suicídios de pessoas escravizadas. Eles respondiam alimentando os famintos e hospedando reuniões anti-escravistas em sua casa, o que levou a elite local a pressioná-los a deixar a ilha. Esta experiência foi fundamental para seu ativismo.
  • 00:20:17O estilo de vida anticapitalista e a filosofia de consumo ético — Na Filadélfia, após a morte de sua esposa, Lay adotou um estilo de vida radicalmente simples. Ele viveu em uma caverna, produziu sua própria comida e roupas, e tornou-se vegetariano. Ele articulou uma das primeiras políticas de consumo ético, boicotando produtos como o açúcar, que considerava ‘feito com sangue’. Ele via a exploração animal e humana como interligadas.
  • 00:21:51Influências filosóficas: do vegetarianismo de Tryon ao cinismo de Diógenes — Lay baseou suas ideias em leituras de filósofos. Foi influenciado por Thomas Tryon, um defensor do vegetarianismo que ligava a violência contra animais à violência entre humanos. Também se inspirou no filósofo cínico Diógenes, que vivia de acordo com a natureza e praticava a ‘parresia’ (dizer a verdade ao poder). Lay via a filosofia como algo a ser vivido e praticado publicamente.
  • 00:23:57O apagamento de Benjamin Lay da história e seu legado — O episódio conclui questionando por que Lay é uma figura tão desconhecida. Ele foi sistematicamente marginalizado pelos quakers ricos de sua época, que o expulsaram e difamaram. Posteriormente, historiadores o ignoraram ou o descreveram como ‘mentalmente perturbado’ por não se encaixar na narrativa polida do abolicionismo liderado pela elite. O episódio defende que ele merece um lugar central como um revolucionário pioneiro que defendeu ideais elevados contra todas as probabilidades.

Dados do Episódio

  • Podcast: Viracasacas Podcast
  • Autor: Viracasacas Podcast
  • Categoria: News Politics
  • Publicado: 2025-09-26T04:50:07Z
  • Duração: 00:27:38

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Olá pessoas, nesta semana vamos falar de uma figura pouco conhecida, Benjamin Lay,

[00:00:15] um pequeno grande revolucionário para a sua época.

[00:00:19] Depois de vários episódios falando de pessoas terríveis, é bom refletir sobre a vida de

[00:00:24] uma pessoa que lutou pelo que é certo.

[00:00:26] O episódio foi feito com base no artigo The Forgotten Prophet, de Marcus Riediker,

[00:00:32] que escreveu um livro sobre Lay.

[00:00:34] Antes de começar, claro, aquele lembrete.

[00:00:37] Apoie o Viracazacas.

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[00:01:03] Cinco pilas por mês já nos ajuda bastante.

[00:01:07] Agora sim, bora pro episódio.

[00:01:11] Em setembro de 1738, Benjamin Lay, um quaker radical com pouco mais de um metro de altura,

[00:01:20] encheu uma bexiga de animal com suco vermelho vivo e aguardou,

[00:01:24] no compartimento secreto de um livro.

[00:01:27] Vestiu um uniforme militar e uma espada, cobriu-se com um sobretudo,

[00:01:33] escondeu o livro e partiu de sua casa em Abington, Pensilvânia,

[00:01:38] para Burlington, Nova Jersey, onde estava sendo realizado o Encontro Anual dos Quakers da Filadélfia,

[00:01:46] um encontro dos quakers mais poderosos da colônia.

[00:01:51] Lay tinha uma mensagem para eles.

[00:01:54] Os quakers não têm ministros formais, então os congregantes falam conforme o espírito os move.

[00:02:02] Lay era um homem de espírito grande e indisciplinado.

[00:02:06] Com uma voz estrondosa que desmentia sua estatura,

[00:02:10] ele anunciou que a posse de escravos era o maior pecado do mundo.

[00:02:15] Ele tirou o sobretudo para revelar seu uniforme militar.

[00:02:19] A multidão ficou boca aberta.

[00:02:22] Ele ergueu o livro acima da cabeça,

[00:02:24] desembainhou a espada e declarou

[00:02:26] Deus se vingará daqueles que oprimem seus semelhantes.

[00:02:31] Ele passou a espada pelo livro.

[00:02:34] A bexiga explodiu em um jorro de sangue,

[00:02:36] respingando nos donos de escravos sentados nas proximidades.

[00:02:41] Um grupo de homens quakers agarrou Lay e o jogou para fora da casa de reuniões, na rua.

[00:02:48] O soldado de Deus havia proferido uma profecia arrepiante.

[00:02:52] A posse de escravos,

[00:02:54] destruiria a fé quaker.

[00:02:57] Um extrato da ata da reunião anual dos quakers da Filadélfia diz

[00:03:02] John Kinsey recebeu a ordem de redigir um anúncio

[00:03:05] a ser impresso nos jornais da Filadélfia

[00:03:08] a fim de informar a todos a quem possa interessar

[00:03:11] que o livro publicado recentemente por Benjamin Lay, intitulado etc.

[00:03:16] não foi publicado com aprovação da Sociedade dos Amigos,

[00:03:20] que ele não está em unidade conosco

[00:03:23] e que seu livro,

[00:03:24] contém falsas acusações,

[00:03:27] tanto contra pessoas específicas de nossa sociedade,

[00:03:31] quanto contra amigos em geral.

[00:03:35] Três semanas antes,

[00:03:36] Lay havia publicado seu primeiro e único livro,

[00:03:39] Todos os Proprietários de Escravos que Mantêm os Inocentes em Cativeiro, Apóstatas.

[00:03:46] Nele,

[00:03:47] ele detalhou sua luta contra os ricos e poderosos proprietários de escravos quakers

[00:03:53] para abolir o que ele considerava

[00:03:54] uma instituição maligna.

[00:03:57] Muito antes de um movimento anti-escravista

[00:04:00] emergir nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha na década de 1780,

[00:04:05] ele exigiu o fim imediato, intransigente e incondicional da escravidão em todo o mundo,

[00:04:12] unindo seu protesto à resistência de centenas de milhares de africanos escravizados no Novo Mundo,

[00:04:19] que sempre foram os primeiros abolicionistas.

[00:04:23] Lay,

[00:04:24] imaginou não apenas o fim da escravidão,

[00:04:27] mas uma forma de viver fora do mercado capitalista,

[00:04:31] sem violência contra qualquer ser vivo.

[00:04:34] Ele vivia em uma caverna,

[00:04:36] produzia sua própria comida e roupas

[00:04:38] e praticava o vegetarianismo.

[00:04:41] Como esse homem de posses e origem humilde

[00:04:44] chegou à conclusão

[00:04:46] de que a escravidão deveria ser abolida em uma época em que tão poucos o fizeram?

[00:04:51] Como ele alcançou essa posição tão incomum para a sociedade?

[00:04:53] Como ele se tornou um revolucionário?

[00:04:59] Lay nasceu em 1682, em Copford, uma vila perto de Colchester, na Inglaterra.

[00:05:07] Ele era um quaker de terceira geração.

[00:05:10] Seu avô e sua avó se juntaram aos quakers durante seus anos de formação, em 1655,

[00:05:17] e seus pais seguiram a fé.

[00:05:20] Seu pai, William, era especialmente ativo.

[00:05:23] Como muitas crianças nascidas em famílias rurais humildes nesta região de criação

[00:05:29] de ovelhas e têxteis, ele trabalhou como pastor.

[00:05:34] Ele amava as colinas suaves da Pastoral Essex e os animais dos quais cuidava.

[00:05:39] Era, como ele observou mais tarde, o melhor trabalho que um ser humano poderia fazer.

[00:05:47] Embora Lay tenha nascido mais de duas décadas após o fim da Guerra Civil inglesa, aquela

[00:05:53] convulsão mudou sua vida de maneiras profundas.

[00:05:57] À medida que as forças parlamentares lideradas por Oliver Cromwell entravam em conflito com

[00:06:03] os seguidores monarquistas do rei Carlos I, a censura ruiu e grupos protestantes radicais

[00:06:10] como os Levellers, Diggers, Ranters, Seekers e Quakers apressaram-se a publicar textos

[00:06:17] propondo suas próprias soluções para os problemas da época.

[00:06:21] 3.

[00:06:22] Os Levellers pregavam mensagens radicais de igualdade e milenarismo, às vezes insistindo

[00:06:28] que o próprio mundo fosse virado de cabeça para baixo.

[00:06:33] Eles articularam princípios democráticos, defendendo sua ampla adoção em toda a

[00:06:38] sociedade inglesa.

[00:06:40] Foram deles as primeiras críticas reais à escravidão, que na época ainda não era

[00:06:44] totalmente racializada.

[00:06:47] Esses radicais atacaram o recrutamento forçado, a perda dos bens comunais com o ser humano,

[00:06:52] os concercamentos, o trabalho forçado, a servidão por contrato e a escravidão africana.

[00:07:00] Este foi o caldeirão borbulhante do pensamento revolucionário do qual nasceu o quakerismo

[00:07:05] de lei, a primeira vertente de seu radicalismo.

[00:07:10] Os primeiros quakers formaram uma comunidade religiosa intensa e igualitária, baseada

[00:07:15] na noção de uma luz interior compartilhada, a centelha da divindade que reside em cada

[00:07:21] pessoa.

[00:07:22] Liderados por James Naylor e George Fox, este último hoje lembrado como o pai fundador

[00:07:29] do quakerismo, eles desafiaram a ordem de classes de sua época, insistindo na igualdade

[00:07:36] espiritual e recusando-se, subversivamente, a tirar o chapéu para seus supostos superiores

[00:07:43] sociais.

[00:07:44] O mais radical, Naylor, era o principal teólogo do movimento, mais sofisticado que Fox e mais

[00:07:52] dado à ação direta e ao elaborado teatro de rua que se tornou um marco entre os quakers.

[00:07:59] Em 1656, Naylor reencenou o retorno de Jesus Cristo a Jerusalém enquanto mulheres cantavam

[00:08:07] rosanas e depositavam flores em seu caminho.

[00:08:11] O parlamento viu isso como uma oportunidade de se livrar de um pregador perigosamente

[00:08:17] carismático que incitava resistência religiosa e política vinda de boas-vindas.

[00:08:21] O parlamento viu isso como uma oportunidade de se livrar de um pregador perigosamente carismático que incitava resistência religiosa e política vinda de boas-vindas.

[00:08:22] de baixo. Decidiram que seu teatro constituía blasfêmia e ordenaram que sua testa fosse

[00:08:29] marcada com a letra B, sua língua perfurada com uma barra de metal em brasa e a carne

[00:08:35] de suas costas arrancada por repetidas chicotadas em Bristol e Londres.

[00:08:42] Naylor nunca se recuperou dessas punições cruéis e morreu como um homem destruído

[00:08:48] em 1660.

[00:08:49] Anos mais tarde, Lay deu continuidade a sua tradição de teatro de rua radical. Ele também

[00:08:57] se inspirou na prática de John Perrot, que aconselhava seus companheiros quakers a não

[00:09:03] tirarem o chapéu mesmo ao rezar a Deus, que, afinal, estava dentro deles. Ele era

[00:09:09] simplesmente igual a eles.

[00:09:13] Em 1660, Carlos II ascendeu ao poder e a Inglaterra tornou-se novamente uma monarquia.

[00:09:19] O pêndulo oscilou para o outro lado. A censura retornou e muitos quakers foram perseguidos

[00:09:27] e banidos.

[00:09:28] Fox respondeu implementando uma série de reformas na comunidade durante as décadas

[00:09:33] de 1660 e 1670 que erradicariam os radicais, aumentariam a coesão do grupo e transformariam

[00:09:42] um pequeno grupo revolucionário em uma seita cristã robusta e longeva.

[00:09:48] Embora Lay tenha nascido em uma cidade de São Paulo, em 1660, ele foi um dos maiores

[00:09:49] cães do mundo.

[00:09:49] Quando Lay foi nascido, 22 anos depois, ele representou um retrocesso àquela fase inicial

[00:09:55] e radical da história quaker. De certa forma, ele foi o último radical da Revolução

[00:10:01] Inglesa, pois canalizou as ideias e práticas militantes de Naylor e Perrot ao longo de

[00:10:07] sua vida revolucionária.

[00:10:10] A segunda vertente do radicalismo de Lay tomou forma em 1703, quando o jovem de 21 anos

[00:10:17] herdou a fazenda do pai em Cobford.

[00:10:19] O rebelde de sempre, ele deu as costas à fazenda e aos animais que amava e partiu

[00:10:25] para Londres, e de lá para o alto mar, onde se tornou marinheiro.

[00:10:31] Sua estatura diminuta o tornava um membro valioso da tripulação de um navio.

[00:10:37] Sendo menor e mais ágil, ele podia fazer muitas coisas que um marinheiro de tamanho

[00:10:42] médio não conseguiria, como correr pela parte superior do navio ou entrar em cantos

[00:10:48] de outra forma inacessível.

[00:10:49] Lay viveu em navios em meio a uma tripulação heterogênea por 12 anos e é provável que

[00:10:58] tenha obtido sua educação dessa forma, já que marinheiros alfabetizados frequentemente

[00:11:04] ensinavam seus irmãos analfabetos a ler.

[00:11:08] Ele navegou ao redor do mundo e adquiriu uma rica experiência cosmopolita e uma iniciação

[00:11:14] em uma longa tradição de radicalismo multiétnico no mar.

[00:11:19] Ele compreendeu a verdade fundamental da navegação.

[00:11:23] Todos os dias, sua vida está nas mãos de seus companheiros marinheiros.

[00:11:29] A ocupação exige solidariedade estrita, independentemente de quem seja seu colega

[00:11:34] de trabalho, moreno, negro ou branco, protestante inglês ou católico irlandês.

[00:11:40] Uma frase comum entre os marinheiros da época era

[00:11:43] Um e todos, somos um e todos juntos.

[00:11:48] Lay tornou-se um cidadão.

[00:11:49] Lay tornou-se um cidadão do mundo e aprendeu a transferir sua solidariedade marítima para

[00:11:54] povos oprimidos ao redor do globo.

[00:11:57] Ele aprendeu muito sobre a escravidão por meio das histórias de seus companheiros marinheiros.

[00:12:03] A história dos marinheiros era um importante meio de comunicação internacional.

[00:12:08] Os marinheiros sentavam-se em círculo no convés principal, colhendo estopa e chiando,

[00:12:14] tricotando-se como um grupo coeso enquanto contavam as histórias de suas vidas.

[00:12:19] Que, para muitos, incluíam os horrores da escravidão.

[00:12:24] Alguns dos companheiros de Lay haviam sido escravos na Turquia ou no norte da África.

[00:12:30] Isso não era incomum para marinheiros europeus que desbravavam as águas do Mediterrâneo.

[00:12:36] Outros marinheiros haviam navegado em navios negreiros, transportando carga humana da África para as Américas.

[00:12:44] O que Lay lembrava mais vividamente dessas histórias

[00:12:48] era a extrema violência cometida contra mulheres africanas na travessia do Atlântico.

[00:12:55] Ele relatou suas experiências marítimas em seu livro,

[00:13:00] mas de forma reveladora nunca falou sobre raça,

[00:13:03] embora essa ideia e as práticas associadas a ela estivessem rapidamente dividindo a humanidade

[00:13:10] no exato momento em que ele escreveu.

[00:13:12] Por todas as Américas, proprietários de escravos legislaram códigos escravísticos

[00:13:18] para criminalizar a cooperação entre trabalhadores negros e brancos.

[00:13:24] Percebendo a divisão inerente ao termo,

[00:13:27] Lay usou palavras mais neutras para expressar a diferença humana.

[00:13:32] Cor, nação e povo.

[00:13:35] Ele recusou o clichê padrão da época de se referir aos africanos como selvagens ou bárbaros.

[00:13:41] Ao contrário, reservou essas descrições para traficantes de escravos

[00:13:47] e proprietários de acidentes.

[00:13:48] Ainda mais importante aos seus olhos,

[00:13:53] ele usou passagens bíblicas para resistir à divisão racial do mundo,

[00:13:58] enfatizando Atos 17 e 26.

[00:14:05] Em outras palavras, ele diz que não somos pessoas diferentes.

[00:14:13] Somos todos o mesmo povo,

[00:14:16] profundo e divinamente conectados,

[00:14:18] Essa retórica antirracista refletia sua experiência no mar,

[00:14:24] onde trabalhou com uma variedade de pessoas que eram todas do mesmo sangue.

[00:14:29] A solidariedade marítima era o segundo fio condutor de sua corda.

[00:14:36] Lay encerrou seus dias de navegação em 1718,

[00:14:40] quando decidiu se casar com Sarah Smith,

[00:14:43] uma quacra de Deptford, no rio Tâmisa.

[00:14:46] Ela também era uma pessoa humilde.

[00:14:49] Lay havia começado a brigar com seus companheiros quacras de Londres,

[00:14:53] que agora estavam sob o domínio das reformas de Fox.

[00:14:58] Com a esposa, Lay partiu para Bridgeton,

[00:15:01] uma movimentada cidade portuária,

[00:15:04] naquela que era então a principal sociedade escravista do mundo,

[00:15:09] Barbados.

[00:15:11] Lá, abriram uma pequena loja de mercadorias a beira-mar.

[00:15:16] Lay agora veria o funcionamento da loja,

[00:15:18] e o funcionamento da loja,

[00:15:18] e o funcionamento da escravidão com seus próprios olhos.

[00:15:21] Seu contato com a brutalidade do sistema escravista

[00:15:25] e as lutas do povo afro-barbadiano

[00:15:28] produziu o terceiro fio em sua corda de radicalismo.

[00:15:33] Lay assistiu horrorizado,

[00:15:35] enquanto escravos cambaleavam para dentro de sua loja e desabavam no chão.

[00:15:41] Alguns realmente morriam de excesso de trabalho e fome.

[00:15:45] Ele viu pessoas sendo torturadas,

[00:15:47] uma visão comum em Bridgeton.

[00:15:50] Ele viu execuções horríveis de escravos rebeldes.

[00:15:54] Ele testemunhou trabalhadores perderem membros

[00:15:57] para as máquinas das fábricas de açúcar.

[00:16:01] Ele conheceu um tanoeiro escravizado

[00:16:03] que cometeu suicídio em uma noite de domingo

[00:16:06] em vez de suportar as chicotadas que seu mestre aplicava

[00:16:10] todas as manhãs de segunda-feira.

[00:16:14] A compassiva Sarah também foi afetada

[00:16:17] pela atmosfera de violência generalizada.

[00:16:20] A caminho de visitar alguns quakers

[00:16:22] a 16 quilômetros ao norte de Bridgeton,

[00:16:26] ela se deparou com um homem africano pendurado por uma corrente,

[00:16:30] tremendo enquanto suspenso sobre uma poça de sangue.

[00:16:34] Ela ficou muda diante do terror da cena.

[00:16:37] Assim que se recuperou,

[00:16:39] ela foi até a casa dos quakers,

[00:16:41] onde os donos de escravos explicaram

[00:16:43] que o homem havia fugido da plantação

[00:16:45] e agora precisava…

[00:16:47] receber uma lição para todos os escravizados verem.

[00:16:51] Os leis ficaram profundamente abalados

[00:16:54] com a crueldade que viam ao redor deles.

[00:16:59] Eles responderam a situação alimentando os famintos.

[00:17:02] Convidavam escravizados para sua casa

[00:17:05] aos domingos, o dia de descanso,

[00:17:07] para refeições e confraternização.

[00:17:10] A notícia dessa gentileza se espalhou

[00:17:13] e a casa dos leis tornou-se uma espécie de casa de reuniões

[00:17:16] para centenas de escravizados,

[00:17:19] que não apenas compartilhavam da comida,

[00:17:22] mas também ouviam o casal denunciar o sistema escravista,

[00:17:26] que era a fonte de sua miséria.

[00:17:29] A rica classe escravista de Barbados soube das reuniões

[00:17:33] e imediatamente pressionou os leis

[00:17:36] para que deixassem a sua ilha.

[00:17:39] Suas ideias anti-escravistas e até mesmo

[00:17:42] a sua bondade humana básica

[00:17:44] os tornaram inimigos do país.

[00:17:47] À medida que a elite se mobilizava para bani-los de Barbados,

[00:17:51] os leis decidiram por conta própria partir.

[00:17:55] Nenhum deles tinha estômago

[00:17:57] para viver em meio à tamanha depravação violenta

[00:18:01] como todos os outros brancos da ilha.

[00:18:05] O casal retornou a Colchester por alguns anos

[00:18:08] e, em seguida, deixou a Inglaterra pela última vez.

[00:18:12] Embarcaram para a Filadélfia em 1732.

[00:18:16] Quando o lei descobriu que a ilha era uma ilha,

[00:18:16] a ilha era uma ilha,

[00:18:16] a ilha era uma ilha,

[00:18:16] a ilha era uma ilha,

[00:18:16] a ilha era uma ilha,

[00:18:17] descobriu a escravidão na cidade quacra de Filadélfia,

[00:18:19] onde, na época, cerca de um em cada onze habitantes

[00:18:23] era escravizado,

[00:18:25] e quando percebeu que muitos desses escravos

[00:18:28] pertenciam a quacres ricos,

[00:18:30] ele ficou furioso.

[00:18:32] Redobrou seu compromisso anti-escravista

[00:18:35] e confrontou os proprietários de escravos quacres

[00:18:38] em reunião após reunião,

[00:18:40] acabando por ser renegado da comunidade

[00:18:43] pelo ardor e pela ação direta de seus protestos.

[00:18:46] Envolvendo, como vimos anteriormente,

[00:18:50] o simbólico derramamento de sangue

[00:18:52] nas cabeças e corpos dos proprietários de escravos em 1738.

[00:18:58] Em seu livro, ele falou diretamente com mercadores quacres

[00:19:02] envolvidos no tráfico de escravos,

[00:19:05] acusando-os da morte de muitos africanos inocentes.

[00:19:10] Entusiasmado com a luta, acrescentou que,

[00:19:13] pelo que sabia, os mercadores poderiam ter matado

[00:19:16] muitas centenas de milhares.

[00:19:18] O Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos da época

[00:19:24] mostra que, em 1738,

[00:19:26] o mesmo ano em que Lay escreveu estas palavras,

[00:19:29] mais de 500 mil africanos já haviam morrido

[00:19:33] em consequência da escravidão transoceânica.

[00:19:36] Lay recorreu à sua experiência marítima

[00:19:39] para denunciar os traficantes de escravos como assassinos.

[00:19:43] Ele foi provavelmente o primeiro

[00:19:46] a fazer uma alegação assustadora

[00:19:48] que mais tarde se tornaria lugar comum entre os abolicionistas.

[00:19:54] Na Filadélfia, e especialmente na cidade de Abington,

[00:19:59] para onde o casal se mudou em 1734,

[00:20:02] tendo Sarah falecido apenas um ano depois,

[00:20:06] Lay não apenas realizou suas ações militantes

[00:20:09] contra os proprietários de escravos,

[00:20:11] como também acrescentou um último e distinto fio condutor

[00:20:14] à sua corrente de radicalismo.

[00:20:17] Retirou-se da economia capitalista,

[00:20:20] adotou um estilo de vida radical

[00:20:23] e viveu da terra como um plebeu.

[00:20:26] Em certo sentido, Lay retornou às suas raízes rurais em Cobford

[00:20:30] e, em outro, não apenas abraçou,

[00:20:33] mas expandiu o compromisso quaker

[00:20:35] com uma vida simples e despretensiosa.

[00:20:38] O estilo simples, como era chamado.

[00:20:41] Ele vivia em uma caverna,

[00:20:43] cultivava sua própria comida

[00:20:45] e confeccionava suas próprias roupas.

[00:20:48] Seu objetivo era ser um exemplo vivo de igualdade

[00:20:51] com todos os seres vivos,

[00:20:54] subsistindo dos frutos inocentes da terra,

[00:20:57] isso é, sem explorar nenhum ser humano ou animal.

[00:21:01] Ele se recusava a ser cúmplice de qualquer forma de opressão.

[00:21:06] Lay foi, portanto, o primeiro a articular

[00:21:10] uma política moderna de consumo.

[00:21:12] Ele boicotou todas as mercadorias produzidas por pessoas escravizadas,

[00:21:17] que sempre disfarçavam as condições horríveis em que eram produzidas.

[00:21:22] Qualquer um que jogasse um cubo de açúcar em uma xícara de chá

[00:21:27] era, portanto, cúmplice dos plantadores de açúcar de Barbados

[00:21:32] e dos donos de plantações de chá no leste asiático,

[00:21:35] com seus meios violentos de criar riqueza.

[00:21:39] Recusar açúcar, por sua vez,

[00:21:41] era expressar solidariedade aos trabalhadores escravizados e oprimidos do Caribe

[00:21:46] e reconhecer que o açúcar era feito com o sangue deles.

[00:21:51] Leitor ávido, Lay acompanhou dois escritores em sua jornada rumo ao radicalismo popular.

[00:21:58] Ele amava tanto o argumento inicial de Thomas Tryon a favor do vegetarianismo

[00:22:04] que carregava o pesado livro consigo em suas viagens.

[00:22:08] Tryon acreditava que a guerra e a violência

[00:22:11] decorriam da maneira como os seres humanos tratavam os animais.

[00:22:14] Lay concordava.

[00:22:16] Ele via a luz interior quáquer em todas as criaturas vivas

[00:22:21] e, portanto, considerava pecaminoso matá-las e comê-las.

[00:22:26] Lay também encontrou antecedentes e inspirações

[00:22:29] para seu radicalismo popular na filosofia antiga,

[00:22:32] que lia ávidamente.

[00:22:34] Chamado de filósofo pitagórico cristão cínico por Benjamin Franklin,

[00:22:40] Lay tinha um interesse especial por Diógenes,

[00:22:43] o fundador da filosofia cínica e vegetariano

[00:22:47] que escolheu viver a vida em conformidade com a natureza.

[00:22:51] Diógenes viveu por um tempo em um pitos,

[00:22:55] um grande jarro usado para armazenamento,

[00:22:58] não muito diferente da pequena caverna onde Lay morava.

[00:23:02] Ambos concebiam a filosofia como ação pública.

[00:23:06] As ideias deveriam ser colocadas em prática

[00:23:09] de forma visível e confrontativa.

[00:23:12] Os princípios devem ser vividos e expressos em tudo o que se faz.

[00:23:17] Lay também abraçou a ideia mais fundamental do cinismo,

[00:23:21] a parresia, ou dizer a verdade ao poder.

[00:23:26] Ele repetiu o ditado cínico

[00:23:29] o amor ao dinheiro é a raiz de todo o mal,

[00:23:32] que provavelmente havia sido disseminado

[00:23:35] entre os primeiros cristãos por filósofos cínicos.

[00:23:39] Lay usou Diógenes e outros pensadores de antiguidade

[00:23:43] para retorcer o último fio de sua corda de radicalismo,

[00:23:47] incorporando uma filosofia militante e franca

[00:23:51] baseada no respeito pela natureza.

[00:23:54] No fim, devemos nos perguntar,

[00:23:57] por que Lay nos é desconhecido?

[00:23:59] A maioria do público em geral nunca ouviu falar dele.

[00:24:03] Os historiadores não são muito melhores.

[00:24:06] Mesmo os especialistas em abolição

[00:24:09] raramente leram seu livro.

[00:24:11] Como isso aconteceu com um homem

[00:24:14] que deve ser considerado um pioneiro do abolicionismo,

[00:24:17] o primeiro grande movimento social do mundo?

[00:24:21] Os quakers do século XVIII, liderados por sua abastada elite escravista,

[00:24:26] são os primeiros a serem responsabilizados

[00:24:29] por seus ataques implacáveis à lei.

[00:24:32] Eles o denunciaram, o difamaram e riram dele.

[00:24:36] Pior ainda, o expulsaram

[00:24:39] quatro vezes.

[00:24:41] Ele foi provavelmente o quaker mais renegado do século XVIII.

[00:24:46] Sua marginalização começou ainda em vida.

[00:24:50] Historiadores, incluindo eminentes historiadores da abolição,

[00:24:54] também desempenharam um papel importante

[00:24:57] no apagamento de Lay de nossa memória histórica.

[00:25:00] Ele nunca se encaixou realmente na história

[00:25:03] que contavam sobre o movimento abolicionista.

[00:25:07] Homens iluminados das classes média e alta

[00:25:10] chegaram à conclusão racional de que a escravidão era errada

[00:25:14] e, portanto, a aboliram.

[00:25:17] Lay pertencia à classe errada.

[00:25:20] Ele não foi devidamente educado

[00:25:22] e, portanto, não podia ser considerado esclarecido.

[00:25:26] Suas ideias eram muito radicais

[00:25:29] e seus métodos muito extremos.

[00:25:32] Ele só podia estar louco.

[00:25:35] Além do problema da escravidão na cultura ocidental de 1966,

[00:25:40] o renomado historiador David Bryan Davis

[00:25:43] chamou Lay de pequeno corcunda, mentalmente perturbado,

[00:25:48] o que chama atenção para seu nanismo e deficiência.

[00:25:52] Essas também foram causas de rejeição quando, na verdade,

[00:25:57] deveriam ter sido vistas como uma fonte de empatia por outros

[00:26:01] que constituíam os miseráveis da Terra.

[00:26:04] No fim das contas, o quakerismo radical,

[00:26:08] a solidariedade da cultura marítima,

[00:26:11] o conhecimento em primeira mão das lutas dos povos escravizados,

[00:26:15] um compromisso panteísta com os animais e a natureza,

[00:26:19] tudo moldado por sua compreensão da filosofia grega subversiva,

[00:26:24] fizeram de Lay um revolucionário muito à frente de seu tempo.

[00:26:29] Ele merece um lugar central em nossa história.

[00:26:32] Enquanto os estadunidenses debatem

[00:26:34] quem é um herói de verdade,

[00:26:36] Lay deve ser lembrado como alguém que, contra todas as probabilidades,

[00:26:41] defendeu os ideais mais elevados e humanos.

[00:26:45] Bem, pessoal, chegamos ao fim do nosso episódio.

[00:26:49] Mais uma vez, lembro que o conteúdo veio do artigo de Marcus Radiker

[00:26:53] que é bom demais e o livro dele é muito, muito, muito interessante.

[00:26:57] Espero que vocês estejam inspirados.

[00:27:01] Até a próxima!

[00:27:04] Legendas www.intervoices.com

[00:27:34] Legendas www.intervoices.com