Razão instrumental
Resumo
O episódio apresenta uma análise detalhada do conceito de razão instrumental, central para a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. A discussão parte da obra “Eclipse da Razão” de Max Horkheimer, publicada em 1947, que diagnostica a degradação da razão a um mero instrumento para alcançar fins sem questionar sua racionalidade.
A razão instrumental caracteriza-se por duas características essenciais: a busca por meios eficientes para fins determinados e a perda da capacidade de refletir sobre a racionalidade dos próprios fins. Essa transformação histórica ocorre com o advento da modernidade burguesa, onde a razão objetiva (presente de Platão ao idealismo alemão) é substituída pela razão subjetiva, tornando-se uma ferramenta a serviço de interesses, principalmente da dominação sobre seres humanos e natureza.
O conceito está intimamente ligado à reificação desenvolvida por Georg Lukács em “História e Consciência de Classe” (1923). A reificação é o processo pelo qual relações humanas são percebidas como relações entre coisas, um fenômeno que atinge todos sob o capitalismo devido à primazia da troca de mercadorias. Esse processo cria um “mundo completamente administrado” onde tudo é quantificado e instrumentalizado.
As consequências da razão instrumental são profundas: conceitos como justiça, verdade, liberdade e igualdade perdem suas raízes intelectuais e se tornam meros dispositivos; a linguagem é reduzida a ferramenta de produção; discussões políticas limitam-se a meios sem considerar fins; e sistemas econômicos ou políticos não podem mais ser julgados como melhores ou piores. Horkheimer critica tanto o neotomismo quanto o positivismo como falsas soluções que apenas aprofundam a crise.
O episódio conclui relacionando o diagnóstico de Horkheimer com o niilismo de Nietzsche, que já previra a “desvalorização dos valores supremos” e a falta de resposta ao “porquê” como características dos séculos seguintes. A filosofia se apresenta como antídoto fundamental, sendo a única atividade que persistentemente questiona a racionalidade dos fins em uma era dominada pelo cálculo instrumental.
Indicações
Books
- Eclipse da Razão — Obra de Max Horkheimer (1947) que apresenta o conceito de razão instrumental em sua forma mais desenvolvida, analisando a degradação técnico-científica da razão a mero instrumento.
- Dialética do Esclarecimento — Livro escrito por Max Horkheimer em parceria com Theodor Adorno, onde também se localiza o surgimento da razão instrumental na modernidade burguesa e se analisa sua transformação em ferramenta de cálculo.
- História e Consciência de Classe — Obra de Georg Lukács (1923) que desenvolve o conceito de reificação, fundamental para a Escola de Frankfurt e para a compreensão da razão instrumental como apresentada por Horkheimer.
- Filosofia para a Vida – Quando Pensar é o Melhor Remédio — Novo livro do apresentador, publicado pela editora Vozes, disponível em livrarias de todo o Brasil e online, com lançamentos presenciais em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.
Courses
- Cursos de filosofia do apresentador — Cursos oferecidos pelo apresentador para introdução geral à filosofia ou aprofundamento em temas específicos, com links e cupons de desconto disponíveis na descrição do episódio.
Podcasts
- Episódio sobre Dialética do Esclarecimento — Episódio específico do podcast Filosofia Vermelha dedicado à obra “Dialética do Esclarecimento” de Horkheimer e Adorno, mencionado como disponível no catálogo.
- Episódio sobre reificação — Episódio antigo do podcast que aborda o conceito de reificação, tema que foi objeto da dissertação de mestrado em filosofia do apresentador.
- Episódio sobre pós-modernismo — Episódio mencionado que trata de questões semelhantes às abordadas sobre razão instrumental, disponível no catálogo do podcast.
Linha do Tempo
- 00:03:14 — Introdução ao conceito de razão instrumental e sua obra fundadora — O episódio apresenta “Eclipse da Razão” de Max Horkheimer (1947) como obra fundamental para compreender a razão instrumental. Horkheimer diagnostica a degradação da razão a mero instrumento, caracterizada pela busca de meios eficientes e pela perda da capacidade de refletir sobre a racionalidade dos fins. Essa transformação interrompe processos de humanização e autoefetivação, que seriam o objetivo final da razão.
- 00:05:32 — Transição histórica da razão objetiva para a razão subjetiva — Explica-se a mudança histórica: na antiguidade até o idealismo alemão, vigorava a razão objetiva como força determinante da natureza e do mundo. Com a modernidade burguesa, surge a razão subjetiva, que transforma a razão em mera capacidade de alcançar fins da maneira mais eficiente possível. Essa razão instrumental serve a interesses e tem como objetivos principais a dominação dos seres humanos e da natureza.
- 00:06:51 — Críticas ao positivismo e neotomismo como falsas soluções — Horkheimer analisa duas tentativas de resolver a crise cultural causada pela razão instrumental: o neotomismo e o positivismo. O neotomismo tenta restituir a razão objetiva, mas acaba tornando o próprio absoluto um meio. O positivismo (ou filosofia pragmática) promete uma saída através da universalização da razão técnico-científica, mas carece de autorreflexão e se torna uma “tecnocracia filosófica” que defende a adaptação ao status quo.
- 00:09:08 — A razão instrumental como busca cega por meios — Define-se a razão instrumental como aquela que perdeu a capacidade de estabelecer fins e ocupa-se cegamente com meios. Desde o início da modernidade, seu único objetivo é a autopreservação do indivíduo. Consequentemente, tudo se transforma em mundo de meios: arte, verdade e outros valores são subsumidos pela indústria cultural. Os meios técnicos e econômicos tornam-se independentes dos fins, processo que remete à reificação de Lukács.
- 00:11:33 — Consequências na linguagem, conceitos e vida prática — A razão instrumental transforma até mesmo o tratamento dos conceitos: de orientadores da vida prática e teórica, eles se tornam meros sumários de características comuns ou dispositivos para facilitar o trabalho. A linguagem é reduzida a ferramenta no aparato de produção. Conceitos fundamentais como justiça, igualdade e felicidade perdem suas raízes intelectuais, não havendo mais base racional para associá-los a uma realidade objetiva.
- 00:13:15 — A razão instrumental na Dialética do Esclarecimento — O conceito é fundamental também em “Dialética do Esclarecimento” de Horkheimer e Adorno. Nessa obra, localiza-se o surgimento da razão instrumental na modernidade burguesa. Ela aparece como instrumento para alcançar fins através de cálculos, abandonando a reflexão sobre os próprios fins - o que historicamente serviu apenas a interesses de grupos minoritários. A razão torna-se irracional ao tentar expelir todo elemento não-racional, tornando-se incapaz de compreender justamente o que torna a racionalidade possível.
- 00:15:38 — Georg Lukács e o conceito de reificação — Apresenta-se a forte influência de Georg Lukács, cuja obra “História e Consciência de Classe” (1923) foi fundamental para o desenvolvimento da Escola de Frankfurt. A reificação é definida como processo cognitivo através do qual algo que não possui propriedades de coisa passa a ser visto como coisa. Esse processo atinge todos sob o capitalismo e tem como causa social a ampliação da troca de mercadorias como forma dominante de intercâmbio humano.
- 00:17:52 — Consequências sociais da reificação no capitalismo — Explicam-se as consequências da reificação: no capitalismo plenamente desenvolvido, a produção é voltada inteiramente ao mercado (não mais para satisfação familiar/comunitária), o que produz reflexos na consciência dos indivíduos. A reificação possibilita compreender relações humanas no capitalismo tardio, incluindo o individualismo, a burocratização extensa, a atitude contemplativa e a submissão de criações humanas (leis, cultura, ética) aos procedimentos quantitativos das ciências naturais.
- 00:20:56 — Nietzsche e o niilismo como diagnóstico paralelo — Relaciona-se o diagnóstico de Horkheimer com o niilismo de Nietzsche. Em fragmentos de 1887, Nietzsche define o niilismo como ausência de fim e resposta ao “porquê”, onde valores supremos se desvalorizam. Nietzsche profetizou que esta seria a história dos dois séculos seguintes. O fato de o ser humano contemporâneo perguntar-se tanto pelo sentido da vida é sintomático da era da razão instrumental, que é justamente o esquecimento dos fins.
- 00:23:44 — Exemplos contemporâneos e conclusões sobre a razão instrumental — Apresenta-se exemplos concretos: discussões políticas limitam-se a meios de gestão sem considerar fins; noticiários econômicos tratam o “mercado” como entidade com ações e reações (exemplo de reificação); a razão instrumental pode sustentar tanto ideologias reacionárias quanto progressistas, pois sem fundamentos filosóficos não há objeção racional a nenhum fim. Todos os fins em todas as esferas da vida foram afetados pela dissociação entre aspirações humanas e verdade objetiva.
Dados do Episódio
- Podcast: Filosofia Vermelha
- Autor: Glauber Ataide
- Categoria: Society & Culture Philosophy
- Publicado: 2025-09-29T16:49:44Z
- Duração: 00:27:17
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/dd38e8c0-673a-0138-a0de-0acc26574db2/episode/33babc9f-b5ce-4aba-843f-9c1175993e5b/
- UUID Episódio: 33babc9f-b5ce-4aba-843f-9c1175993e5b
Dados do Podcast
- Nome: Filosofia Vermelha
- Tipo: episodic
- Site: https://www.filosofiaepsicanalise.org/
- UUID: dd38e8c0-673a-0138-a0de-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Olá, amigos e amigas do Saber.
[00:00:03] No episódio de hoje, vamos falar sobre um dos principais problemas intelectuais de nossa época,
[00:00:09] a razão instrumental.
[00:00:12] Este é um dos conceitos mais interessantes da Escola de Frankfurt
[00:00:16] para nos ajudar a compreender a forma como pensamos hoje nas sociedades capitalistas.
[00:00:22] Você já percebeu que, ao discutir questões políticas, por exemplo,
[00:00:26] a maioria das pessoas se limita às questões parlamentares ou da gestão do Estado
[00:00:33] sem nunca se perguntar por que a política existe em primeiro lugar e qual seria, então, o seu objetivo.
[00:00:41] Muitas discussões políticas do cotidiano não chegam a lugar algum, pois não há acordo sobre os fins.
[00:00:48] A falta de instrução filosófica impede que os indivíduos tomem distância
[00:00:54] da forma de pensar em sua própria época.
[00:00:56] Levando apenas poucos a se perguntarem pela racionalidade dos fins a serem alcançados.
[00:01:05] Explicaremos neste episódio o que exatamente caracteriza a razão instrumental,
[00:01:10] como ela surgiu e algumas das principais consequências nefastas de seu domínio.
[00:01:16] Falaremos também brevemente sobre o conceito de reificação
[00:01:20] desenvolvido pelo filósofo húngaro Georg Lukács,
[00:01:23] mostrando como ele está na base,
[00:01:26] do conceito de razão instrumental.
[00:01:29] E, ao final do episódio, traremos também uma breve reflexão de Nietzsche
[00:01:34] relacionada à atmosfera geral de nossa época.
[00:01:38] Então, vamos lá! Acompanhe!
[00:01:52] Música
[00:01:52] Antes de iniciar, um breve recado.
[00:01:55] Se você deseja uma introdução,
[00:01:56] geral à filosofia,
[00:01:58] ou gostaria de se aprofundar em temas específicos,
[00:02:01] estude filosofia comigo.
[00:02:03] Os links para os meus cursos estão na descrição deste episódio.
[00:02:07] E lembrando que esses links já possuem cupons de desconto,
[00:02:11] mas eles duram apenas alguns dias.
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[00:02:17] E o nosso segundo recado é que
[00:02:18] já está disponível meu novo livro intitulado
[00:02:22] Filosofia para a Vida – Quando Pensar é o Melhor Remédio.
[00:02:26] A obra foi publicada pela editora Vozes
[00:02:29] e já pode ser adquirida nas livrarias de todo o Brasil
[00:02:32] e também online, inclusive na Amazon.
[00:02:36] E, como informado nos episódios anteriores,
[00:02:38] eu estarei no Brasil para lançar este novo livro
[00:02:43] presencialmente em três cidades
[00:02:45] Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.
[00:02:49] Se você mora nessas cidades ou região,
[00:02:52] fique ligado nos endereços compartilhados na descrição deste episódio.
[00:02:56] Em Belo Horizonte, estaremos na Livraria Leitura, do BH Shopping.
[00:03:01] No Rio de Janeiro, estaremos em uma filial da Livraria Travessa.
[00:03:05] E em São Paulo, estaremos na Livraria Drummond, na Avenida Paulista.
[00:03:10] Voltemos então ao nosso tema, Razão Instrumental.
[00:03:14] Vejam só.
[00:03:15] Para falar sobre razão instrumental,
[00:03:18] nós devemos recorrer à obra que nos apresenta o conceito
[00:03:22] em sua forma mais desenvolvida.
[00:03:24] A obra é Eclipse da Razão,
[00:03:26] de Max Horkheimer.
[00:03:28] O livro se originou de preleções ministradas por Horkheimer
[00:03:33] em 1944 na Universidade de Colômbia, nos Estados Unidos,
[00:03:39] tendo sido publicada três anos depois, em 1947.
[00:03:44] De maneira geral, a obra é um diagnóstico histórico-filosófico
[00:03:49] em que Horkheimer analisa e critica
[00:03:52] a degradação técnico-científica da razão
[00:03:55] a mero instante.
[00:03:56] A razão instrumental tem duas características essenciais.
[00:04:07] A busca de meios eficientes para determinados fins
[00:04:12] e a perda da capacidade de refletir sobre a racionalidade dos próprios fins,
[00:04:20] de modo que essa hiperracionalidade dos meios
[00:04:23] produz a irracionalidade dos meios.
[00:04:26] A mais drástica consequência desse tipo de razão parcial e degradada
[00:04:32] é a interrupção histórica dos processos de humanização
[00:04:37] e autoefetivação do ser humano,
[00:04:40] considerados o objetivo final da própria razão.
[00:04:43] Horkheimer nos fala em sua obra sobre o conceito de razão objetiva.
[00:04:48] No primeiro capítulo, intitulado Meios e Fins,
[00:04:52] Horkheimer mostra que este conceito se fez presente
[00:04:55] por quase todos os anos.
[00:04:56] Toda a história da filosofia ocidental,
[00:04:59] de Platão até o idealismo alemão.
[00:05:02] Por todo este período,
[00:05:03] a razão foi uma força determinante da natureza e do mundo.
[00:05:08] Tanto o pensamento quanto a vida dos seres humanos
[00:05:12] se voltavam para ela,
[00:05:14] o que fica muito claro, por exemplo, na filosofia dos estoicos.
[00:05:18] Tudo estava imbuído de logos para os estoicos,
[00:05:21] de modo que a razão era a essência do homem
[00:05:25] e permeava tudo.
[00:05:26] Toda a realidade.
[00:05:28] Agora, a partir do início da modernidade burguesa,
[00:05:32] ocorre uma mudança significativa.
[00:05:36] Este conceito de razão objetiva é destruído
[00:05:39] e substituído por outro de razão subjetiva,
[00:05:43] tornando a razão uma mera capacidade
[00:05:47] de alcançar determinados fins
[00:05:49] da maneira mais eficiente possível.
[00:05:52] Para esse tipo de razão,
[00:05:54] não faz mais sentido discutir a prioridade
[00:05:56] dos fins em relação aos meios.
[00:06:00] Ela se torna, por isso, apenas uma ferramenta
[00:06:02] a serviço de interesses,
[00:06:05] de modo que seu valor operativo
[00:06:08] consiste no papel que desempenha
[00:06:10] na dominação dos seres humanos e da natureza.
[00:06:14] E esses dois últimos são, na verdade,
[00:06:16] os seus únicos objetivos,
[00:06:18] mas suas repercussões vão além.
[00:06:21] A instrumentalização da razão
[00:06:23] visando o domínio da natureza exterior,
[00:06:26] também implica o domínio do indivíduo sobre si mesmo.
[00:06:31] Veremos mais à frente, ao falarmos sobre Georg Lukács,
[00:06:34] que essas transformações históricas
[00:06:37] são responsáveis também pelo início da reificação.
[00:06:41] A crise cultural e o mal-estar causados
[00:06:43] por esse tipo de racionalidade
[00:06:45] buscam, obviamente, por soluções.
[00:06:48] E duas delas, discutidas por Horkheimer
[00:06:51] no segundo capítulo de sua obra,
[00:06:52] são o positivismo e o neotomismo.
[00:06:55] São tentativas de panaceias
[00:06:58] que apenas aprofundam essa crise.
[00:07:01] O neotomismo, por exemplo,
[00:07:03] sugere uma restituição da razão objetiva,
[00:07:06] buscando, assim, salvar a humanidade deste caos.
[00:07:10] Agora, nessa empreitada,
[00:07:12] o neotomismo acaba tornando
[00:07:14] o próprio absoluto um meio,
[00:07:17] de modo que a razão objetiva
[00:07:19] se torna um projeto para meios subjetivos,
[00:07:22] por mais gerais que esses meios
[00:07:25] possam parecer.
[00:07:26] Agora, o positivismo,
[00:07:28] também chamado de filosofia pragmática,
[00:07:31] vai prometer, por sua vez,
[00:07:33] uma saída da crise através de uma
[00:07:35] universalização da razão técnico-científica.
[00:07:40] Segundo Horkheimer,
[00:07:41] essa tendência a hipostasiar
[00:07:44] a ciência carece de autorreflexão,
[00:07:47] sendo incapaz de perceber
[00:07:49] que o conceito de fatos,
[00:07:51] um conceito muito caro ao positivismo,
[00:07:54] esse conceito de fato,
[00:07:55] fatos, já é um produto da alienação social.
[00:07:59] No positivismo, a filosofia se torna serva do status quo e defende uma mera adaptação
[00:08:07] aos poderes existentes.
[00:08:09] Nas palavras de Horkheimer, o positivismo é uma tecnocracia filosófica.
[00:08:15] Mais uma vez, essa definição de Horkheimer.
[00:08:18] O positivismo é uma tecnocracia filosófica.
[00:08:23] O cerne da crítica de Horkheimer pode ser estendido também a outras formas de pensamento
[00:08:29] que buscam colocar a filosofia apenas como sua serva, algo comum também até mesmo em
[00:08:35] movimentos políticos, por melhores que sejam suas intenções.
[00:08:39] Aqueles que dizem que a filosofia deve ser engajada politicamente e servir aos interesses
[00:08:46] de uma classe, mesmo que essa classe seja o proletariado, também sucumbem diante
[00:08:53] da tentação autoritária de tornar a filosofia uma mera ferramenta a serviço de interesses
[00:09:00] externos a si própria.
[00:09:01] A racionalidade orientada a fins significava, originalmente, tanto o estabelecimento de
[00:09:08] objetivos quanto a escolha dos meios para concretizá-los.
[00:09:13] Agora, a razão instrumental é aquela que perdeu a capacidade de estabelecer os fins
[00:09:19] e agora ocupa-se de maneira cega.
[00:09:23] Considerando a questão de maneira histórica, nós podemos dizer que a razão desde o início
[00:09:34] da modernidade tem apenas um único objetivo, a autopreservação do indivíduo, não deixando
[00:09:41] espaço para nenhuma outra escolha.
[00:09:44] Agora, sendo este o seu único objetivo, sua atividade se resume então a buscar meios
[00:09:51] para essa autopreservação.
[00:09:53] Uma das consequências desse processo é que todos os objetos e ações se tornam um
[00:10:03] mundo de meios.
[00:10:05] O que antes era fim em si mesmo, tal como a arte e a própria ideia de verdade, é subsumido
[00:10:12] agora, sob a indústria cultural, a simples meios para alcançar o fim da autopreservação.
[00:10:19] Os meios técnicos e econômicos se tornam independentes.
[00:10:23] Os meios técnicos e econômicos se tornam independentes em relação aos fins e tomam
[00:10:25] o caráter de entidades autônomas, processo que nos remete ao conceito de reificação
[00:10:31] de Georg Lukács.
[00:10:33] Ao final do episódio, nós daremos um exemplo de como isso acontece no campo da economia.
[00:10:39] Para Horkheimer, a razão instrumental carrega em si dois elementos contrários.
[00:10:45] Por um lado, o ego abstrato esvaziado de toda substância, exceto de sua tentativa
[00:10:52] de transformar o mundo em um mundo de meios, é o que nos permite se transformar em um
[00:10:53] mundo de meios para sua preservação.
[00:10:56] E, por outro lado, a razão instrumental também apresenta uma natureza vazia, degradada a
[00:11:03] mero material, simples conteúdo a ser dominado sem propósito algum, além de sua própria
[00:11:10] dominação.
[00:11:12] Um dos objetivos dessa obra de Horkheimer, Eclipse da Razão, é mostrar como a razão
[00:11:18] colapsou no irracionalismo devido a sua ênfase em prejuízo.
[00:11:23] Veja, a razão instrumental transformou até mesmo a forma como lidamos com conceitos.
[00:11:33] Se na antiguidade conceitos como justiça, verdade, liberdade e igualdade orientavam
[00:11:40] tanto a vida prática quanto a teoria, conceitos hoje são apenas sumários de características
[00:11:47] que várias espécies possuem em comum.
[00:11:50] Conceitos hoje se tornaram dispositivos.
[00:11:53] Dispositivos para facilitar o trabalho, como se o próprio pensamento tivesse sido
[00:11:58] rebaixado ao nível de um processo industrial e sob pressão de um curto prazo de entrega.
[00:12:04] Horkheimer também observa que, quanto mais as ideias se tornam automáticas e instrumentalizadas,
[00:12:12] menos as pessoas percebem os pensamentos com algum significado em si mesmos.
[00:12:18] Os pensamentos passam a ser considerados como coisas ou máquinas, de modo que,
[00:12:23] até mesmo a linguagem foi reduzida a simples ferramenta no gigantesco aparato de produção da sociedade moderna.
[00:12:32] E isso traz consequências nefastas na vida prática, política e social.
[00:12:37] Porque, vejam bem, se a mecanização, que é fundamental para a indústria,
[00:12:42] se torna também a principal característica de nossas mentes,
[00:12:46] então conceitos como justiça, igualdade, felicidade e tolerância, por exemplo,
[00:12:53] perdem suas raízes intelectuais.
[00:12:56] Esses conceitos podem até mesmo permanecer como objetivos e fins,
[00:13:01] mas não há base ou autoridade racional para associá-los a uma realidade objetiva.
[00:13:08] O conceito de razão instrumental foi importante para a escola de Frankfurt de maneira geral.
[00:13:15] Mencionamos até agora, neste episódio, o desenvolvimento do conceito na obra
[00:13:19] Eclipse da Razão, de Max Horkheimer.
[00:13:22] Mas, o conceito de razão foi importante para a escola de Frankfurt de maneira geral.
[00:13:23] O conceito é fundamental também no livro Dialética do Esclarecimento,
[00:13:27] escrito por Horkheimer em parceria com Teodoro Adorno.
[00:13:32] Nessa obra, os autores também localizam o surgimento da razão instrumental na modernidade burguesa.
[00:13:39] Também aqui, ela aparece como um tipo de instrumento que visa alcançar determinados fins,
[00:13:46] concebendo para isso os meios mais adequados e realizando cálculos.
[00:13:51] Note que,
[00:13:53] este abandono da reflexão sobre os próprios fins serviu, historicamente,
[00:13:58] apenas aos interesses de alguns grupos, sem se preocupar com a felicidade da maioria.
[00:14:05] A Dialética do Esclarecimento é composta de diversos textos complementares sobre diferentes tópicos,
[00:14:11] mas, em sua unidade, encontramos o argumento de que
[00:14:15] a razão se tornou historicamente irracional devido à sua tentativa de expelir de si mesma
[00:14:23] todo o momento não racional.
[00:14:25] Isso torna a razão incapaz de compreender justamente aquele elemento não racional
[00:14:31] da qual ela depende e que torna a própria racionalidade possível.
[00:14:38] A consequência é um tipo de racionalidade que se torna um tipo de ferramenta
[00:14:42] incapaz tanto de refletir sobre os fins para os quais é aplicada,
[00:14:47] quanto de reconhecer as qualidades particulares dos objetos sobre os quais é utilizado.
[00:14:53] Esta racionalidade refletida é, mais uma vez, a razão instrumental.
[00:14:59] Um dos objetivos da teoria crítica, de forma geral, é justamente colocar um fim
[00:15:04] à primazia da razão instrumental.
[00:15:07] Inclusive, nós temos aqui no podcast um episódio específico sobre esta obra,
[00:15:12] a Dialética do Esclarecimento.
[00:15:15] Vamos falar agora, na sequência, sobre Lukács e a reificação,
[00:15:19] mas já voltamos. Aguarde só alguns segundos.
[00:15:23] O CONCEITO DE RAZÃO INSTRUMENTAL
[00:15:28] Voltemos, então, ao nosso tema, razão instrumental.
[00:15:34] Vamos falar agora sobre Lukács e a reificação.
[00:15:38] Vejam só.
[00:15:39] O conceito de razão instrumental que estamos apresentando neste episódio de hoje
[00:15:44] tem forte influência do pensamento de Georg Lukács.
[00:15:48] Nós podemos dizer que, sem a obra História e Consciência de Classe,
[00:15:53] publicada pelo filósofo húngaro em 1923,
[00:15:57] a Escola de Frankfurt teria um desenvolvimento bem diferente do que conhecemos hoje.
[00:16:03] Foi através da originalidade do marxismo hegeliano de Lukács
[00:16:08] e de suas reflexões sobre a reificação
[00:16:11] que Horkheimer desenvolveu o conceito de razão instrumental.
[00:16:16] Vejam, a reificação pode ser definida como um processo cognitivo
[00:16:21] através do qual,
[00:16:23] algo que em si não possui propriedades de coisa,
[00:16:26] passa a ser visto como uma coisa.
[00:16:30] Este processo atinge todos os seres humanos sob o capitalismo
[00:16:34] e tem como causa social
[00:16:36] a ampliação da troca de mercadorias
[00:16:39] estabelecida como forma dominante de intercâmbio entre os homens.
[00:16:44] Vejam só. Note as duas afirmações dessa última frase.
[00:16:48] Quando dizemos que a reificação atinge
[00:16:51] todos os seres humanos sob o capitalismo,
[00:16:53] isso significa que também você é afetado pela reificação,
[00:16:59] embora talvez não saiba os efeitos que isso tem
[00:17:02] sobre sua forma de ver o mundo.
[00:17:04] E quando mencionamos que este processo teve sua origem
[00:17:07] a partir do momento em que a troca de mercadorias
[00:17:11] se tornou a principal forma de intercâmbio entre os seres humanos,
[00:17:15] nós queremos dizer que,
[00:17:17] nas sociedades anteriores à capitalista,
[00:17:20] a produção era voltada primariamente
[00:17:23] para a satisfação das famílias e da comunidade do produtor,
[00:17:27] de tal maneira que apenas o excedente
[00:17:30] era levado às margens das sociedades
[00:17:33] para o intercâmbio além de suas fronteiras.
[00:17:37] Agora, no capitalismo já plenamente desenvolvido,
[00:17:41] a produção é voltada pela primeira vez na história
[00:17:44] inteiramente ao mercado
[00:17:47] e isso produz diversos reflexos na consciência dos indivíduos.
[00:17:52] Então, eu acho que a gente está em um situatione de capitalismo.
[00:17:52] O conceito de capitalismo é uma forma deشakshaman построar um todo.
[00:17:52] Se antes não tínhamos throne como um importante ambiente para a nossa área,
[00:17:53] de reificação nos possibilita compreender melhor não apenas as relações humanas no
[00:17:58] capitalismo tardio, mas também as próprias práticas ou movimentos de contestação ao
[00:18:04] mundo reificado. Veja, questões sociais candentes como o entendimento individualista da liberdade
[00:18:11] e a consequente busca por saídas pessoais, ou então a extensa máquina burocrática tomando
[00:18:18] conta de todas as esferas da vida, ou então a atitude contemplativa diante do mundo e a submissão
[00:18:26] de todas as criações humanas, tais como leis, cultura, ética ou política, subsumir tudo isso
[00:18:32] aos procedimentos quantitativos das ciências naturais, tudo isso que eu acabei de mencionar
[00:18:38] são características de uma sociedade completamente tomada pela reificação. O questionamento pela
[00:18:46] cientificidade da psicanálise é um dos principais problemas que a sociedade tem.
[00:18:48] A psicanálise, por exemplo, surge de uma concepção reificada do mundo e do próprio ser humano.
[00:18:54] Porque, para a consciência reificada, tudo o que não pode ser medido, mensurado e classificado
[00:19:00] pelos sistemas fechados parciais de certo tipo de ciência tem que ser suprimido.
[00:19:07] As consequências da reificação se estendem a todos os domínios da vida. Em um mundo
[00:19:13] capitalista no qual o que mais importa é calcular, medir e abstrair,
[00:19:18] todo o aspecto qualitativo, os seres humanos são compelidos a travar uma relação reificante
[00:19:25] também com todo o seu entorno, criando um mundo completamente administrado.
[00:19:31] E essa generalização se agudiza a ponto de gerar uma segunda natureza humana.
[00:19:38] Nós temos um episódio antigo aqui no podcast no qual abordamos o conceito de reificação,
[00:19:44] o qual foi, inclusive, o conceito de reificação foi o tema de minha dissertação de mestrado em filosofia.
[00:19:51] Vamos avançando então para as nossas considerações finais.
[00:19:55] Nós vimos neste episódio que a razão instrumental se caracteriza, segundo Horkheimer,
[00:20:00] por uma busca pelos meios sem se perguntar pelos fins.
[00:20:06] Esse tipo de racionalidade se preocupa apenas em fazer cálculos e determinar os meios mais adequados
[00:20:13] para um determinado objetivo.
[00:20:14] Mas não questiona, examina ou reflete sobre o fim em si mesmo.
[00:20:21] A maior parte das discussões políticas ou econômicas em nosso cotidiano segue exatamente este princípio.
[00:20:28] Basta assistir aos noticiários dos principais veículos de comunicação para perceber que apenas os meios interessam,
[00:20:36] mas os fins nunca são colocados ou discutidos.
[00:20:40] Agora, a filosofia, por outro lado, caminha em sentido…
[00:20:44] Em sentido contrário e sempre se coloca a questão da racionalidade dos fins.
[00:20:50] Agora, o diagnóstico de Horkheimer sobre o destino da razão em nosso período histórico
[00:20:56] já havia sido pronunciado por Nietzsche.
[00:21:00] Vamos falar agora um pouquinho sobre isso.
[00:21:02] No início do episódio, prometemos que falaríamos sobre Nietzsche no final e agora chegou o momento.
[00:21:09] Vejam só.
[00:21:10] Parte do mal-estar de nossa civilização se deve, sobretudo,
[00:21:14] ao que Nietzsche chamava de nilismo.
[00:21:18] Em um fragmento de 1887, Nietzsche oferece uma classificação ou uma definição de nilismo
[00:21:25] que se aproxima da reflexão de Horkheimer.
[00:21:29] Nietzsche afirma que no nilismo falta o fim, falta a resposta ao porquê.
[00:21:37] O nilismo para Nietzsche é onde os valores supremos se desvalorizam
[00:21:42] e onde não há verdade.
[00:21:44] Em um de seus fragmentos póstumos, Nietzsche afirma o seguinte, abre aspas,
[00:21:53] O homem moderno crê experimentalmente ora neste, ora naquele valor, para depois abandoná-lo.
[00:22:00] O círculo de valores superados e abandonados está sempre se ampliando.
[00:22:06] Cada vez mais é possível perceber o vazio e a pobreza de valores.
[00:22:11] O movimento é irrefreável.
[00:22:14] A história que estou relatando é a dos dois próximos séculos.
[00:22:19] Fecha aspas.
[00:22:20] Vejam só que Nietzsche se apresenta aqui como um profeta.
[00:22:23] Ele faz esse diagnóstico e diz,
[00:22:26] A história que estou relatando é a dos dois próximos séculos.
[00:22:31] Veja, em nenhum outro período histórico, o ser humano se perguntou tanto pelo sentido da vida.
[00:22:38] Isso é sintomático de nossos tempos porque a razão instrumental é justamente o esquecimento
[00:22:44] dos fins, a amputação de uma parte fundamental de nossa racionalidade.
[00:22:50] Por isso, a filosofia se mostra ainda mais fundamental e relevante em nossos dias,
[00:22:56] tendo em vista que nenhum outro empreendimento da razão se pergunta pelos fins
[00:23:01] e os investiga como a filosofia o faz.
[00:23:04] Mencionamos no decorrer deste episódio que grande parte das discussões políticas
[00:23:09] em que nos vemos envolvidos gira em torno apenas dos meios mais apropriados,
[00:23:14] de gestão do Estado e de organização social,
[00:23:19] mas sem nunca colocar o objetivo final da própria atividade política.
[00:23:24] Os noticiários de economia dos grandes veículos de comunicação também vão neste sentido.
[00:23:30] Eles nos dizem, por exemplo, que o mercado reagiu bem a determinada medida do governo,
[00:23:36] como se o tal mercado fosse uma pessoa que pode ter ações, reações, planos ou sentimentos,
[00:23:44] a reificação faz com que o indivíduo em sociedades capitalistas
[00:23:49] enxergue relações humanas como coisas, não percebendo que esse tal mercado
[00:23:55] é apenas um grupo de indivíduos agindo de acordo com a razão instrumental
[00:24:00] a fim de garantir seus próprios interesses.
[00:24:04] Horkheimer afirma que a razão subjetiva se conforma a qualquer coisa.
[00:24:10] Quando tornada um mero instrumento,
[00:24:12] a razão pode ser vista como uma faca.
[00:24:16] Eu posso utilizar uma faca para passar manteiga no pão,
[00:24:20] mas ela pode também perfurar e matar uma pessoa.
[00:24:23] A razão instrumental, segundo Horkheimer,
[00:24:26] pode sustentar tanto uma ideologia que defende lucros e reacionarismo
[00:24:32] quanto o pensamento de progresso e revolução.
[00:24:36] Se um determinado grupo econômico considera mais útil instaurar uma ditadura
[00:24:40] e abolir a democracia,
[00:24:42] não há objeção racional para seu ato.
[00:24:46] Uma vez que o fundamento filosófico da democracia colapsa,
[00:24:50] a afirmação de que uma ditadura é ruim faz sentido apenas para aqueles
[00:24:55] que não são beneficiados por essa ditadura.
[00:24:58] Então, para Horkheimer, não apenas os conceitos mais fundamentais
[00:25:02] da moral e da política,
[00:25:04] tais como os conceitos de liberdade, igualdade ou justiça,
[00:25:07] mas, para Horkheimer, todos os fins e objetivos,
[00:25:12] em todas as cidades.
[00:25:12] Em todas as esferas da vida,
[00:25:14] foram afetados por essa dissociação entre as aspirações e potencialidades humanas
[00:25:20] e a ideia de verdade objetiva.
[00:25:24] Por isso, hoje, é difícil argumentar, por exemplo,
[00:25:27] que o chamado de um artista é mais nobre que o de outras profissões,
[00:25:32] assim como também é considerado sem sentido afirmar que
[00:25:36] uma forma de vida, religião ou filosofia
[00:25:39] é melhor, mais elevada ou mais verdadeira que outra.
[00:25:42] Tendo em vista que os fins não são mais determinados à luz da razão,
[00:25:49] é também possível, afirma Horkheimer,
[00:25:51] dizer que um sistema econômico ou político é melhor ou pior que outro.
[00:25:56] Nós tratamos de questões semelhantes em nosso episódio sobre pós-modernismo.
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[00:27:00] Um grande abraço e até o próximo!
[00:27:12] Legenda por Sônia Ruberti