Leopold Nosek: Empreendedorismo leva pessoas a competir com o próprio relógio


Resumo

Nesta conversa, o psicanalista Leopold Nosek apresenta seu livro “O Método Marlowe”, uma coletânea de ensaios que aborda a transformação da clínica psicanalítica e a relação entre subjetividade e o espírito do tempo atual. Ele explica que o método, inspirado no narrador de “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, busca capturar o sentido de forma nuançada e poética, em oposição a uma abordagem positivista do conhecimento.

Nosek descreve as mudanças que observa em seu consultório: uma transição de patologias com construções narrativas complexas para quadros marcados por uma “pobreza de construção onírica”, como pânico e anorexia. Ele atribui essa transformação ao zeitgeist contemporâneo, moldado pelo neoliberalismo, que transforma tudo em mercadoria e exige que os indivíduos sejam empreendedores de si mesmos, competindo até contra seu próprio relógio.

O psicanalista analisa como ideologias como empreendedorismo e meritocracia criam sujeitos que se veem como patrões de si mesmos, vivendo em um mundo de medo e incerteza, onde as crenças são pouco sofisticadas e as identidades políticas se fragmentam. Ele também comenta sobre a atualidade da psicanálise, que, em vez de apenas interpretar sonhos, deve ajudar os pacientes a construí-los, funcionando como uma “diagnóstia” que monta equações para compreender as variáveis da vida psíquica.

Nosek reflete sobre a conjuntura política, expressando preocupação com o futuro e destacando como o mundo precarizado e atomizado serve de fermento para ideias radicais. Ele finaliza com uma visão da psicanálise como uma prática que se renova para lidar com os desafios do presente, longe de ser anacrônica.


Anotações

  • 00:00:00A pobreza de construção narrativa nas patologias contemporâneas Nosek inicia a conversa traçando um paralelo entre o que Freud observou no pós-guerra e o que Walter Benjamin descreveu: pessoas que voltam sem histórias para contar. Ele argumenta que as patologias atuais são marcadas por uma ausência de construção narrativa ou onírica, uma ‘pobreza de construção onírica’, que representa uma transformação fundamental na clínica psicanalítica.

Indicações

Books

  • O Método Marlowe — Livro de Leopold Nosek, que dá título ao episódio. É uma coletânea de ensaios que aborda a psicanálise, a cultura e o espírito do tempo atual, inspirada no narrador de ‘Coração das Trevas’.
  • A Disposição para o Assombro — Livro anterior de Leopold Nosek, mencionado como precedente e inspiração para a nova coletânea. Explora a ideia de que o assombro é o início do pensamento filosófico e estético.
  • Coração das Trevas — Romance de Joseph Conrad citado como inspiração central para o ‘Método Marlowe’. O narrador Marlowe representa uma forma não-positivista de contar histórias, onde o sentido se revela em nuances.

Concepts

  • Método Marlowe — Abordagem psicanalítica proposta por Nosek, inspirada no narrador de Conrad. Rejeita a captura positivista do conhecimento, buscando o sentido nas nuances e na eloquência estética das narrativas.
  • Pobreza de construção onírica — Conceito usado por Nosek para descrever patologias contemporâneas (como pânico e anorexia) onde há uma falta de elaboração narrativa e simbólica, em contraste com sintomas mais complexos do passado.

People

  • Freud — Fundador da psicanálise, frequentemente referido por Nosek para contrastar a clínica do passado (tornar o inconsciente consciente) com os desafios atuais (construção onírica).
  • Walter Benjamin — Filósofo citado por Nosek em relação às pessoas que voltam da guerra ‘sem histórias para contar’, ilustrando a pobreza de construção narrativa nas patologias contemporâneas.
  • Levinas — Filósofo mencionado por Nosek para discutir a ética do rosto do outro, que traz um sentimento de infinito e desafia a captura conceitual, alinhando-se com a abordagem do Método Marlowe.
  • Machado de Assis — Escritor brasileiro citado por Nosek devido ao conto ‘A Metafísica do Estilo’ (1885), que antecipa discussões sobre sexualidade e a relação entre palavras, mostrando a sofisticação intelectual brasileira pré-Freud.

Linha do Tempo

  • 00:02:43Apresentação do livro e motivação para a coletânea — Eduardo Sombini dá as boas-vindas a Leopold Nosek e pergunta sobre a motivação para reunir os ensaios no livro “O Método Marlowe”. Nosek explica que o livro é uma continuação de “A Disposição para o Assombro” e está dividido em três seções: artigos do início de sua carreira, textos recentes que avançam em seus pontos de vista, e artigos encomendados sobre interseções com a cultura, incluindo discussões sobre arte e literatura.
  • 00:07:24Explicação do Método Marlowe e sua diferença na psicanálise — Sombini pede que Nosek explique o “Método Marlowe”, título do livro inspirado no narrador de “Coração das Trevas”. Nosek contrasta a abordagem positivista do conhecimento (onde o sentido está contido como uma noz na casca) com a proposta de Marlowe, onde o sentido se revela como um halo de luz através da neblina. Ele argumenta que a psicanálise não deve buscar capturar o conhecimento do paciente, mas sim acenar para nuances, usando a eloquência estética de narrativas para reverberar.
  • 00:13:52Transformações no consultório e o espírito da época (Zeitgeist) — Sombini cita um trecho do livro sobre como a morfologia psíquica é influenciada pelo zeitgeist e pergunta sobre as transformações vistas no consultório. Nosek traça uma evolução: da psicanálise que buscava tornar o inconsciente consciente para uma clínica atual que enfrenta uma “pobreza de construção onírica”. Ele relaciona isso às mudanças socioeconômicas pós-Guerra Fria, onde o capital tem rédeas soltas, e à aceleração tecnológica que impede a construção reflexiva do espírito, levando a patologias como pânico e anorexia.
  • 00:20:43Empreendedorismo, meritocracia e a competição com o próprio relógio — Sombini retoma a discussão do livro sobre empreendedorismo e meritocracia. Nosek desenvolve como o neoliberalismo transforma tudo em mercadoria, inclusive o tempo de descanso, que deve ser produtivo. Ele critica a ideia de que o indivíduo é patrão de si mesmo, o que gera uma competição incessante, muitas vezes contra si próprio. Nosek exemplifica com a cultura da performance física extrema e a pressão para ser “campeão”, destacando o sofrimento psíquico gerado por esse ideal em um mundo de incerteza.
  • 00:26:41Fragmentação política e dilemas das identidades — O entrevistador levanta a questão das políticas identitárias e da fragmentação das bandeiras políticas, citando o livro. Nosek expressa cautela, vendo essa fragmentação como reflexo de um mundo hiperglobalizado onde cada indivíduo é um empreendedor e os círculos de solidariedade se rompem. Ele observa a dificuldade de criar movimentos de união diante de poderes enormes e vê como paradoxal a recente unificação em torno de pautas que ele considera regressivas, como o “perdão para crimes futuros”.
  • 00:29:29Preocupações com o futuro político e o bem-estar na civilização — Sombini pergunta sobre a conjuntura política brasileira e se há preocupação com o crescimento da extrema-direita. Nosek afirma estar preocupado, principalmente para as gerações futuras. Ele relembra um texto seu sobre “bem-estar na civilização”, escrito após a derrota do golpe, contrastando com a tradição freudiana do “mal-estar”. Nosek reflete sobre a oscilação humana entre construção e destruição, amor e violência, usando uma analogia humorística sobre o amor puro e não ambivalente pelos cachorros.
  • 00:36:07A atualidade e transformação da psicanálise — Sombini pergunta sobre as transformações da psicanálise nas últimas décadas e por que Nosek acredita que ela não se tornou anacrônica. Nosek afirma que a psicanálise se radicalizou ao perceber que os sonhos não são apenas relatos do passado, mas construções presentes. A tarefa, portanto, não é mais apenas interpretar sonhos, mas ajudar o paciente a construí-los. Ele descreve a análise como um processo de “diagnóstia”, que monta equações com variáveis e incógnitas da vida psíquica, em vez de oferecer soluções diretas.

Dados do Episódio

  • Podcast: Ilustríssima Conversa
  • Autor: Folha de S.Paulo
  • Categoria: Arts News Society & Culture
  • Publicado: 2025-10-04T09:00:00Z
  • Duração: 00:41:52

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] A gente começa a perceber no consultório uma coisa que o Freud percebeu no pós-guerra

[00:00:10] e que o Walter Benjamin falava assim, essas pessoas que voltam da guerra sem histórias

[00:00:16] para contar, quer dizer, ele não construiu uma narrativa.

[00:00:21] E as patologias contemporâneas, elas começaram a ter essa ausência de construção de narrativa

[00:00:29] ou de construção onírica, que é um tipo de construção que ocorre de noite,

[00:00:35] mas também enquanto eu estou falando aqui, quem está me ouvindo está fazendo trajetos imaginativos oníricos.

[00:00:45] Então tem uma vida onírica de vigília.

[00:00:49] Então o que a gente vê são pobrezas de construção onírica.

[00:00:54] Então tem toda uma transformação da clínica.

[00:00:59] Mas é só da clínica.

[00:01:03] A ficção talvez seja a melhor forma de retratar a realidade,

[00:01:07] diz o psicanalista Leopoldo Nozeck, convidado dessa semana do Ilustríssima Conversa.

[00:01:11] Criar narrativas para dar sentido ao mundo é inevitável, ele diz,

[00:01:15] e essa é a base do que ele chama de Metro Marlow, título do seu livro recém-publicado,

[00:01:19] inspirado no narrador do romance Coração das Trevas.

[00:01:23] A coletânea reúne ensaios recentes que abordam temas como os tipos de sofrimento psíquico relacionado

[00:01:29] ao espírito do tempo atual, e textos que documentam a sua trajetória intelectual e clínica de muitas décadas.

[00:01:35] Na nossa conversa, o Nozeck disse que vê cada vez mais em seu consultório discursos que pouco avançam

[00:01:41] em elaborações mais abstratas, que refletem patologias de pobreza imaginativa.

[00:01:47] Algo muito semelhante à avaliação que ele faz das ideologias do presente,

[00:01:51] que considera muito pouco sofisticadas.

[00:01:54] Para ele, a subjetividade moldada por ideais como o empreendedorismo e a meritocracia,

[00:01:59] faz com que os sujeitos, que se consideram patrões deles mesmos,

[00:02:03] passem a competir contra o próprio relógio.

[00:02:06] Todo mundo tem que ser campeão, ele diz, e ao mesmo tempo,

[00:02:09] a gente vive um mundo cada vez mais marcado pelo medo e pela incerteza.

[00:02:14] O Nozeck falou também sobre a atualidade da psicanálise.

[00:02:17] Para ele, não se trata de um campo anacrônico ou ultrapassado,

[00:02:21] mas de uma prática que, em vez de interpretar sonhos pura e simplesmente,

[00:02:25] pode ajudar os pacientes a construir seus próprios sonhos,

[00:02:29] em um mundo sombrio.

[00:02:33] Eu sou Eduardo Sombini, e este é o Ilustríssima Conversa.

[00:02:43] Nozeck, seja muito bem-vindo ao Ilustríssima Conversa.

[00:02:46] É um prazer ter você aqui.

[00:02:48] Bom, o livro é uma coletânea de ensaios, né?

[00:02:51] Alguns recentes, da época da pandemia, dos últimos anos.

[00:02:57] Alguns mais antigos, né?

[00:02:59] Tem textos lá desde os anos 80.

[00:03:02] Então, para a gente começar, eu queria te perguntar

[00:03:04] o que te levou a reunir esses textos, né?

[00:03:07] Para publicar nesse livro.

[00:03:09] E como vocês estruturaram o livro para esses ensaios, né?

[00:03:14] Terem coesão e fazerem sentido nessa coletânea.

[00:03:18] É, veja, eu havia publicado, sempre pela perspectiva,

[00:03:24] uma coleção que eu respeito muito,

[00:03:28] uma coleção de debates.

[00:03:30] Eu tinha publicado, há alguns anos,

[00:03:33] A Disposição para o Assombro,

[00:03:35] que eram artigos que eu tinha publicado no espaço de sete anos,

[00:03:41] em que eu tinha muita atividade internacional

[00:03:43] e plenárias em vários países.

[00:03:48] E foi um título feliz.

[00:03:51] Eu chamo de Disposição ao Assombro,

[00:03:54] que achei que valia a pena continuar,

[00:03:58] a ideia que está aí, muito bem definida no título,

[00:04:04] Disposição para o Assombro.

[00:04:06] O assombro, segundo Aristóteles, é o começo de toda filosofia.

[00:04:12] Você começa a pensar pelo assombro.

[00:04:15] Para Kant, também, a noção de belo tem tudo a ver

[00:04:19] com o princípio de um sentimento de assombro.

[00:04:25] E quando você consegue, por força,

[00:04:27] uma forma no assombro,

[00:04:29] aí, ao êxito, você tem um instrumental para o pensamento.

[00:04:33] Então, Disposição para o Assombro foi um título feliz.

[00:04:37] E eu pensei, basicamente, de pegar alguns dos artigos.

[00:04:42] Alguma das conferências, eu escrevo, a maior parte, não.

[00:04:45] Então, eu peguei alguns artigos mais recentes,

[00:04:49] que eu tinha avançado alguns pontos.

[00:04:51] Para dar uma dimensão de um trajeto pessoal,

[00:04:55] eu escrevi alguns artigos mais recentes, que eu tinha avançado alguns pontos.

[00:04:55] Para dar uma dimensão de um trajeto pessoal,

[00:04:56] eu escrevi alguns artigos mais recentes, que eu tinha avançado alguns pontos.

[00:04:57] Então, eu publiquei também, o que nunca tinha publicado em livro,

[00:05:00] os artigos do meu começo.

[00:05:03] Porque também achei interessante como começa a análise.

[00:05:07] E a segunda, entre as duas, eu coloquei os artigos

[00:05:12] que me são encomendados fora do âmbito, propriamente, da psicanálise.

[00:05:17] E que são intersecções com a cultura.

[00:05:22] Então, tem um artigo sobre o Leônidas e o Arturo Bispo do Rosário,

[00:05:26] tem um artigo sobre um conto surpreendente do Machado,

[00:05:33] que, em 1885, ele escreveu um conto,

[00:05:39] A Metafísica do Estilo.

[00:05:41] E que tem um abade que está lutando com as palavras

[00:05:46] para escrever o sermão.

[00:05:49] E os adjetivos não estão combinando com o substantivo,

[00:05:54] e aí o autor conversa com uma leitora, que vai ficar surpreso,

[00:05:59] porque o abade, num determinado momento, descobre que as palavras têm sexo.

[00:06:06] Então, elas combinam, namoram, algumas casam, se repudiam.

[00:06:12] E o que é muito interessante, o artigo do Freud sobre sexualidade,

[00:06:18] é de 1905.

[00:06:21] O conto do Machado é de 1885.

[00:06:26] O que torna tudo muito interessante, como uma pessoa incósmica e velha

[00:06:31] estava tão a par da discussão que se fazia na Europa,

[00:06:36] ele, possivelmente, não teve acesso à síntese freudiana,

[00:06:42] mas muitos intelectuais brasileiros tiveram.

[00:06:45] Nosso poeta maior, Drummond, ainda em Minas Gerais,

[00:06:50] imagine você, ele publicou numa revista

[00:06:53] os cinco ensaios sobre a sexualidade de 1905,

[00:06:58] escrito por Freud.

[00:07:00] Então, numa palestra, eu peguei o Machado

[00:07:05] e a gente caminhou por esses trajetos bastante surpreendentes.

[00:07:12] Então, são três seções que tem no livro,

[00:07:14] eles são uma sequência do livro anterior, A Dispersão para o Assombro.

[00:07:20] Para falar mais um pouco, eu usei o método Marlowe.

[00:07:24] É isso que eu ia perguntar agora, te pedir para falar sobre isso,

[00:07:28] porque é o título do livro, uma referência ao Coração das Trevas,

[00:07:31] que, de alguma maneira, guiou sua produção intelectual

[00:07:34] nas últimas décadas, a sua prática clínica.

[00:07:37] Eu queria te pedir para explicar o que é o método Marlowe

[00:07:41] e como ele difere de outras formas de conceber a psicanálise,

[00:07:46] de praticar a psicanálise.

[00:07:48] Imagina você que, como qualquer ramo do conhecimento,

[00:07:53] requer uma teorização sobre o conhecimento.

[00:07:56] Então, eu podia fazer uma coisa complicada,

[00:07:59] discutir a fenomenologia, que é o modo de chegar,

[00:08:03] pegar Heidegger ou discutir a dialética negativa.

[00:08:09] Cada vez que você tem um conhecimento, você tem a negação

[00:08:14] que não vai chegar numa síntese.

[00:08:18] Cada conhecimento tem uma sombra.

[00:08:20] Ou pegar um ramo ético, que conhecer não é obturar lacunas.

[00:08:27] Conhecer é ganhar altura.

[00:08:29] Então, quando você ganha altura com o conhecimento,

[00:08:34] você abarca muito mais amplamente o seu desconhecimento.

[00:08:40] E é uma coisa que está nas religiões.

[00:08:45] Por exemplo, é proibido…

[00:08:47] Nomear a Deus.

[00:08:49] Por que é proibido?

[00:08:51] Porque Deus não cabe na palavra.

[00:08:53] Um vértice ético que eu abordo aí

[00:08:57] é que, para um filósofo levinas,

[00:09:01] o rosto do outro me traz o sentimento de infinito.

[00:09:07] É diferente de Descartes, que infinito prova que Deus existe.

[00:09:12] O homem pensar em infinito provaria que

[00:09:15] só pode vir de uma emanação divina.

[00:09:18] Para o levinas, não.

[00:09:20] Vem do rosto do outro.

[00:09:22] E ele faz um movimento muito interessante, que é…

[00:09:27] Ele era aluno do Heidegger,

[00:09:30] mas ele se contrapõe à discussão do que é o ser.

[00:09:35] Ele vai dizer que mais importante do que isso

[00:09:39] é dar lugar para o outro.

[00:09:41] E o outro é infinito.

[00:09:43] E olha que raciocínio interessante.

[00:09:46] Se o outro é infinito, infinito não cabe num conceito.

[00:09:51] Se houver um conceito, já não é mais infinito.

[00:09:55] Então, o que ele faz?

[00:09:57] O rosto do outro me traumatiza.

[00:10:00] Ele é além da minha possibilidade de conceber.

[00:10:04] O que acontece?

[00:10:06] Desse modo, se cria essa impossibilidade do impositivismo.

[00:10:12] Quer dizer que o conceito contém o objeto do seu conceito.

[00:10:19] E o Marlow é um contador de histórias,

[00:10:24] personagem do Conrad.

[00:10:26] E ele diz que, como todos os marinheiros,

[00:10:30] Marlow gostava de contar histórias.

[00:10:33] Mas, diferente dos outros marinheiros,

[00:10:35] ele não acha que o sentido do relato

[00:10:39] está dentro do relato,

[00:10:41] como uma noz na casca.

[00:10:43] Positivismo.

[00:10:45] Ele fala de um jeito poético que

[00:10:49] o sentido se revela como um halo de luz

[00:10:53] se faz presente ao atravessar a neblina.

[00:10:58] Você tem nuances e o conceito não é capturável.

[00:11:03] Ele é nuançado e acenado.

[00:11:08] Muita gente fala isso.

[00:11:10] Para você descrever uma situação,

[00:11:13] não vale a estatística ou o conhecimento objetivo.

[00:11:17] Você é muito mais influenciado por um relato romântico.

[00:11:22] Por um romance.

[00:11:24] Então, você pode falar seis milhões no Holocausto

[00:11:28] ou o diário de Anne Frank.

[00:11:30] Ou um episódio.

[00:11:32] Ou 60 mil palestinos e uma menina correndo.

[00:11:37] Como na Guerra do Vietnã.

[00:11:39] Uma criança no colo.

[00:11:41] E aí dá essa diferença da eloquência estética.

[00:11:47] Que aí reverbera na pessoa.

[00:11:51] Por isso o método Marlow.

[00:11:53] Que eu não busco capturar o conhecimento

[00:11:57] do outro, do paciente, do analisando.

[00:12:01] Ou da conjuntura.

[00:12:03] Tem um conceito em psicanálise,

[00:12:06] desde os primórdios freudianos.

[00:12:08] Que é a dependência prolongada do ser humano

[00:12:12] ao outro ser humano.

[00:12:14] Que vai requerer

[00:12:16] que uma subjetividade mais madura

[00:12:20] se volte despojadamente para ele.

[00:12:24] Isso é uma maternidade.

[00:12:26] Como o bebê não consegue chegar nos níveis do adulto,

[00:12:31] o adulto tem que descer para o bebê.

[00:12:34] E aprender a capturar tudo isso.

[00:12:38] Isso é chamado, por um autor,

[00:12:41] o continente do contido.

[00:12:43] A pessoa contém aquela criatura.

[00:12:46] E eu comecei a pensar explicitamente

[00:12:51] que o continente precisa do continente.

[00:12:54] Quem é o continente de quem se despoja e mergulha?

[00:12:58] Pode pensar o pai.

[00:13:00] Mas quem é o continente do pai, da mãe, da criança?

[00:13:03] É a cultura.

[00:13:05] É a sociedade.

[00:13:06] E aí eu vou enveredar por assuntos

[00:13:09] da cultura e das ideologias.

[00:13:12] E eu não posso mais pensar,

[00:13:15] aliás, nunca pensei,

[00:13:17] o analista isolado da circunstância que vive.

[00:13:20] Do mundo que vive,

[00:13:22] das ideologias que professa,

[00:13:24] da política que olha.

[00:13:27] Mas a gente está vivendo

[00:13:30] um mundo muito esquisito.

[00:13:33] Eu fiquei pensando justamente nos textos

[00:13:35] da primeira parte do livro.

[00:13:37] Porque lá você está refletindo sobre

[00:13:40] a conjuntura econômica, política, social.

[00:13:44] E aparecem temas como a precarização do trabalho,

[00:13:47] a globalização,

[00:13:49] o neoliberalismo e as ideologias do nosso tempo.

[00:13:52] Uma coisa que me chamou a atenção que você escreve,

[00:13:55] vou citar aqui,

[00:13:57] que a morfologia e a organização psíquica

[00:13:59] serão influenciadas pelo zeitgeist,

[00:14:02] o espírito da época.

[00:14:04] É possível ser diferente.

[00:14:06] Eu queria que você falasse sobre isso.

[00:14:08] As transformações que você viu no seu consultório

[00:14:11] ao longo das últimas décadas.

[00:14:13] Como as mudanças no espírito do tempo

[00:14:16] estão relacionadas à transformação das questões

[00:14:19] que os seus pacientes trazem para o consultório.

[00:14:23] Olha, já tem um tempo

[00:14:26] que no começo,

[00:14:29] e era até popular,

[00:14:32] o que fazia a psicanálise?

[00:14:34] Ela tornava o inconsciente consciente.

[00:14:37] É um problema.

[00:14:38] E para o Freud em 1923,

[00:14:41] como é que você faz isso?

[00:14:43] O consciente mergulha na profundidade do inconsciente?

[00:14:48] Não.

[00:14:49] O inconsciente aflora,

[00:14:51] aparece como para o Heidegger na clareira

[00:14:54] de sentido de uma experiência estética?

[00:14:57] Também não.

[00:14:59] Então como é que a gente sabe do inconsciente?

[00:15:02] Por estruturas de correspondência.

[00:15:04] Você fala de alguma coisa,

[00:15:06] de uma narrativa,

[00:15:07] de uma alegoria,

[00:15:09] de uma metáfora

[00:15:10] que vai fazer uma correspondência

[00:15:13] com conteúdos inconscientes.

[00:15:16] O que faz que a psicanálise

[00:15:18] também não é uma volta ao passado.

[00:15:22] Porque a gente tem todas as idades

[00:15:25] e a gente trafega por tempos anacrônicos,

[00:15:28] diacrônicos, sincrônicos.

[00:15:31] É uma múltipla…

[00:15:32] Nós somos uma multiplicidade.

[00:15:33] De maturidades, de tempos, de tudo.

[00:15:38] E mergulhada numa circunstância.

[00:15:42] Então, qual é a circunstância?

[00:15:45] Como sempre imprevisto.

[00:15:47] Não tem mais os países socialistas

[00:15:51] que se acabaram, os soviéticos,

[00:15:55] sem um tiro.

[00:15:56] E aí as ideologias sociais sofrem

[00:16:02] o contraponto liberal não é mais necessário

[00:16:06] e os intermediários social-democracia

[00:16:11] também se tornam desnecessários

[00:16:14] nessa história da Guerra Fria.

[00:16:16] Ou seja, o capital tem as rédeas soltas

[00:16:21] e passa a ter uma acumulação enorme.

[00:16:24] É uma mudança.

[00:16:26] E uma mudança tecnológica

[00:16:29] porque isso requer grandes aportes tecnológicos.

[00:16:32] Esse capital, tudo isso.

[00:16:34] Então, a gente começa a perceber no consultório

[00:16:39] uma coisa que o Freud percebeu no pós-guerra

[00:16:42] e que o Walter Benjamin falava assim

[00:16:44] essas pessoas que voltam da guerra

[00:16:47] sem histórias para contar.

[00:16:49] Quer dizer, ele não construiu uma narrativa.

[00:16:53] E as patologias contemporâneas

[00:16:56] elas começaram a ter essa ausência

[00:16:59] de construção de narrativa.

[00:17:01] Ou de construção onírica.

[00:17:04] Que é um tipo de construção que ocorre de noite

[00:17:07] mas também enquanto eu estou falando aqui

[00:17:10] quem está me ouvindo

[00:17:12] está fazendo trajetos imaginativos oníricos.

[00:17:17] Então tem uma vida onírica de vigília.

[00:17:21] Então a gente pode dizer que

[00:17:23] na patologia contemporânea

[00:17:25] onde antes da Primeira Guerra

[00:17:28] se tratava de tornar o inconsciente

[00:17:30] consciente consciente

[00:17:32] agora se trata de id, ego e superego.

[00:17:35] Mudou a nomenclatura para o Freud.

[00:17:38] E id é o que carece de narrativa

[00:17:41] de construção, de simbolização.

[00:17:44] O que a gente já simbolizou

[00:17:46] vira aquele inconsciente de 1900.

[00:17:50] O inconsciente esquecido, recalcado.

[00:17:53] Mas tem todo um inconsciente por construir

[00:17:57] que implica na construção

[00:17:59] de uma função narradora.

[00:18:02] Uma função onírica.

[00:18:04] Então o que a gente vê são

[00:18:06] pobrezas de construção onírica.

[00:18:09] Que patologia.

[00:18:10] De repente a pessoa tem pânico.

[00:18:12] Vai morrer.

[00:18:13] Mas não tem o que o Freud falava

[00:18:15] as maravilhosas construções

[00:18:18] que são os sintomas.

[00:18:20] Não, é o pânico.

[00:18:22] Acabou o mundo.

[00:18:23] A pessoa não é capaz de pensar

[00:18:25] aquilo vai para onde socorro

[00:18:27] como quem está morrendo.

[00:18:28] Sequer separa corpo de alma.

[00:18:32] Porque no pânico dá um tilt no espírito.

[00:18:37] Quer dizer, desorganiza tudo

[00:18:40] e a pessoa tem a sensação que vai morrer.

[00:18:43] Anorexia.

[00:18:45] A pessoa não come.

[00:18:47] Não tem mais discurso do que isso.

[00:18:49] Eu vou engordar.

[00:18:51] E não come nenhuma endívia.

[00:18:53] E isso traz desafios novos para a psicanálise.

[00:18:57] Porque quando eu falo

[00:18:59] a pessoa não engorda em uma endívia interpretativa.

[00:19:03] Não é só que não come comida.

[00:19:05] Não recebe.

[00:19:07] Então tem tudo uma transformação da clínica.

[00:19:11] Mas é só da clínica.

[00:19:13] Eu ia ver Corinthians de Palmeiras

[00:19:18] no centro do Pacaembu com meu amigo palmeirense

[00:19:22] e eu, como é óbvio

[00:19:25] que sou mais sensato corintiano.

[00:19:28] E a gente assistiu o jogo.

[00:19:31] E ia embora.

[00:19:33] Se eu for ver o jogo do Palmeiras no Allianz Parque

[00:19:36] eu vou ficar num cercadinho

[00:19:38] sob proteção policial porque eu sou corintiano.

[00:19:42] Então, da onde veio essa radicalidade de crenças?

[00:19:48] Quer dizer, eu sou dessa cor política daquelas.

[00:19:54] Sem a menor reflexão.

[00:19:57] Se fala que são os algoritmos.

[00:20:00] O algoritmo é a parte final disso.

[00:20:03] Mas com essa grande mudança

[00:20:06] uma transformação atrás da outra

[00:20:09] não dá tempo de eu fazer uma construção de espírito.

[00:20:14] Então, imagina.

[00:20:16] O chão que eu vivo

[00:20:18] fica como uma areia movediça.

[00:20:21] Ou como um oceano de água.

[00:20:24] Qual é a reação imediata universal?

[00:20:27] Se passar uma tábua eu me acarro.

[00:20:30] E a tábua vira o centro do meu universo.

[00:20:33] Então, é um mundo muito diverso.

[00:20:37] E muito inquietante porque você não sabe os próximos passos.

[00:20:41] Nunca soube.

[00:20:43] No livro você fala muito de empreendedorismo, meritocracia.

[00:20:49] Você diz que o neoliberalismo transforma tudo em mercadoria

[00:20:53] em produção.

[00:20:55] E até no nosso tempo de descanso

[00:20:57] a gente precisa ser competitivo.

[00:20:59] Precisa ser produtivo.

[00:21:01] Aquele exemplo que você dá algumas vezes.

[00:21:04] Não basta correr para ficar saudável.

[00:21:07] Você precisa correr uma maratona.

[00:21:09] Você precisa fazer uma prova de triatlo.

[00:21:11] Você precisa documentar sua evolução.

[00:21:14] Você precisa ter um relógio que vai contar os passos que você dá.

[00:21:20] E coisas do tipo.

[00:21:21] Queria avançar um pouco.

[00:21:22] Pedir para você falar um pouco sobre como esses ideais

[00:21:26] moldam a nossa subjetividade.

[00:21:28] Que tipo de sofrimento eles criam.

[00:21:31] Como você enxerga esse problema.

[00:21:33] Eu vou dar um exemplo engraçado.

[00:21:36] Você já viu alguém de esquerda sarado?

[00:21:41] Poucos.

[00:21:43] Alguns bem poucos, eu acho.

[00:21:45] Sabe, o próprio corpo.

[00:21:49] Tinha um tempo que você lavava

[00:21:52] o dinheiro e lavava o nome.

[00:21:55] Como? Ah, eu tenho uma coleção.

[00:21:58] Eu não sou só um acumulador.

[00:22:01] Eu também tenho uma alma sensível.

[00:22:04] Você não vê mais isso.

[00:22:07] Ninguém é obrigado a desfilar cultura e sensibilidade.

[00:22:11] Mas é obrigado a fazer 120 quilômetros de bicicleta.

[00:22:15] A correr.

[00:22:17] Tem que ser campeão.

[00:22:20] E compete com o próprio relógio.

[00:22:24] Não é que compete com mais alguém.

[00:22:26] E é um movimento tão amplo.

[00:22:29] A pessoa não tem mais o patrão.

[00:22:31] Ele é o patrão dele mesmo.

[00:22:33] E acredita que ele está livre.

[00:22:38] Acredita que ele é empresário dele mesmo.

[00:22:42] Quer dizer, cada movimento social de organização.

[00:22:47] Ele cria envolvimento.

[00:22:49] Cria em volta um caldo de cultura ideológico.

[00:22:54] Que a pessoa sobrevive nessa crença.

[00:22:58] O que é muito característico dos tempos

[00:23:01] é que as crenças são de pouca sofisticação.

[00:23:06] Como são os a dois seres no costal de uma nave.

[00:23:10] Não tem muita sofisticação

[00:23:13] porque são certezas imediatas.

[00:23:17] E o mundo ficou difícil.

[00:23:20] Você tem desemprego de MBA.

[00:23:22] Quando eu me formei nos anos 70.

[00:23:25] Aliás, só de fazer o vestibular.

[00:23:27] E entrar na faculdade de medicina da USP.

[00:23:31] Eu era um bom partido.

[00:23:33] Todo pai das meninas gostava que eu namorasse.

[00:23:38] Agora, o médico é um bagrinho.

[00:23:41] A saúde virou um ativo econômico.

[00:23:45] E dos mais poderosos.

[00:23:47] Laboratórios, médicos, também.

[00:23:50] A educação também tem uma grande privatização disso.

[00:23:55] Alguém acredita que vai ter segurança social na aposentadoria?

[00:24:03] E, ao mesmo tempo, paradoxalmente,

[00:24:07] toda essa parafernália permite que eu possa…

[00:24:11] Meus filhos possam viver 110, 120 anos.

[00:24:15] A possibilidade de viver ampliou-se muito.

[00:24:19] E com fordos de toda ordem.

[00:24:22] Mas, o que não tem efeito colateral?

[00:24:26] Qual é o conhecimento que não tem uma sombra?

[00:24:29] Qual é o movimento que não faz uma sombra?

[00:24:33] Então, vai viver 110 anos.

[00:24:36] E eu fico inquieto. Vai viver como?

[00:24:39] Vai trabalhar como?

[00:24:42] Vai comer como?

[00:24:43] Essa disputa de império que a gente está começando a assistir.

[00:24:48] Como vai caminhar isso?

[00:24:50] Então, é um tempo de medo e incerteza.

[00:24:57] E da apologia das tábuas que passam boiando na frente do oceano que eu estou.

[00:25:04] E eu me agarro a uma tábua.

[00:25:07] Se eu não desenvolver uma qualidade reflexiva.

[00:25:12] Vamos te dar um exemplo de um pensamento assim.

[00:25:16] Ontem, falando de outra situação.

[00:25:19] Eu dei um exemplo.

[00:25:22] Uma tradição mítica, os berberes.

[00:25:25] Quando voltam da expedição.

[00:25:28] E antes de entrar na cidade.

[00:25:31] Eles fazem uma roda e ficam parados.

[00:25:35] O que eles estão fazendo lá parados?

[00:25:38] Eles têm a ideia que o corpo chega primeiro.

[00:25:41] E eles têm que esperar o espírito chegar.

[00:25:44] Olha que ideia boa.

[00:25:46] É o que acontece com a gente nos tempos que correm.

[00:25:50] Eu estou chegando no mundo, mas meu espírito tem que correr atrás.

[00:25:57] Ele não chega antes e transforma o mundo.

[00:26:00] O mundo se transforma.

[00:26:02] E eu tenho que criar narrativas, concepções, ideias.

[00:26:06] Pelo método Marlowe.

[00:26:08] Que deem um pouco conta disso.

[00:26:10] Então, voltou a moda a gente começar a ler.

[00:26:16] Discutir Mussolini, fascismo.

[00:26:19] Não porque é igual.

[00:26:22] Mas porque é um tema que puxa.

[00:26:25] E precisa ir adiante disso.

[00:26:27] Senão você faz uma analogia pobre.

[00:26:30] Porque é muito diferente.

[00:26:32] Mas é com potencial destrutivo enorme.

[00:26:38] Com certeza.

[00:26:39] Eu queria voltar a isso depois.

[00:26:41] Mas antes, queria que a gente falasse um pouco dessa questão das identidades.

[00:26:46] Porque tem uma passagem do livro que você escreve.

[00:26:51] Vou citar aqui.

[00:26:52] A busca de identidade própria se destaca.

[00:26:55] E as bandeiras políticas se fragmentam em uma miríade de identidades.

[00:27:00] Eu queria saber como você se posiciona nessa discussão sobre política identitária.

[00:27:05] Essa ideia de que lutas fragmentadas.

[00:27:07] Talvez possam enfraquecer um movimento coletivo mais amplo.

[00:27:15] Como que você enxerga isso?

[00:27:18] Como que você está olhando para a política contemporânea a partir dessa questão?

[00:27:22] Eu tenho um pé para trás com essas políticas identitárias.

[00:27:28] Essa fragmentação, ela é interessante.

[00:27:32] Porque ela é a repercussão do mundo.

[00:27:36] O mundo hiperglobalizado e a fragmentação.

[00:27:39] Cada indivíduo é o empreendedor.

[00:27:42] Não tem mais círculos de solidariedade.

[00:27:46] E acontece uma coisa.

[00:27:49] A mesma nos círculos mais antiglobalização.

[00:27:53] Então, cada um tem que ter a voz própria.

[00:27:57] O outro não pode falar em nome da voz.

[00:27:59] Quer dizer, se eu não sou entregador, eu não posso falar com o entregador.

[00:28:04] Se eu não sou negro, eu não posso falar com ele.

[00:28:06] E inúmeras bandeiras.

[00:28:09] Inúmeras.

[00:28:11] Você vê, recentemente a gente teve uma unificação de bandeira.

[00:28:16] Fomos para a Paulista.

[00:28:18] Unidos pelo quê?

[00:28:20] Por um tiro no pé.

[00:28:22] Já viu coisa mais idiota que votar o perdão para os meus crimes futuros?

[00:28:29] É assintosamente delinquencial.

[00:28:34] Mas é muito difícil você, hoje, fazer um movimento de união

[00:28:41] ante o que está acontecendo.

[00:28:44] Até pelos enormes poderes envolvidos.

[00:28:49] Enormes poderes.

[00:28:52] É um dilema.

[00:28:54] Ainda bem que é para as próximas gerações.

[00:28:56] Porque para mim falta pouco.

[00:28:58] Então não vai dar tempo mesmo.

[00:29:00] Mas como vai ser?

[00:29:03] Que mundo vai ser?

[00:29:05] Que meus netos?

[00:29:07] Eu eduquei meus filhos para o mundo que eu vivia.

[00:29:11] É uma impossibilidade ter sobre educação.

[00:29:15] Como é que eu vou educar alguém para daqui 20 anos?

[00:29:19] Eu só posso fazer bobagem.

[00:29:21] Vou educar para agora.

[00:29:23] Quando agora vai ser a última coisa que ele vai encontrar.

[00:29:27] Com certeza.

[00:29:29] E eu queria voltar então agora

[00:29:31] à questão do fascismo da extrema-direita.

[00:29:35] Porque você começa o livro falando do seu otimismo

[00:29:39] com a vitória do Lula sobre o Bolsonaro.

[00:29:42] Mas lembra que esse mundo precarizado, atomizado,

[00:29:47] muito competitivo, de isolamento social.

[00:29:50] Ele é um fermento para as ideias mais radicais.

[00:29:54] Historicamente um fermento para o fascismo.

[00:29:57] Então queria te pedir para falar sobre

[00:30:01] a conjuntura política do Brasil hoje.

[00:30:04] E como que você enxerga os rumos da política brasileira

[00:30:08] nos próximos anos.

[00:30:09] Você está preocupado?

[00:30:11] Ou?

[00:30:13] Ou?

[00:30:15] Ah, veja.

[00:30:17] Estou preocupado comigo.

[00:30:19] Mas mais estou preocupado com meus filhos.

[00:30:21] Estou preocupado com os meus netos.

[00:30:23] Esse texto que eu chamei de

[00:30:27] o bem-estar na civilização.

[00:30:29] Porque cada dois, três anos

[00:30:31] a gente junta no mundo analítico

[00:30:33] para discutir mal-estar na civilização.

[00:30:36] E eu ia falar na Colômbia

[00:30:38] mais uma vez sobre um encontro sobre mal-estar na civilização.

[00:30:42] Era o dia seguinte da derrota fascista.

[00:30:46] Do golpe.

[00:30:48] Falei, turma, não vai dar para falar de mal-estar hoje.

[00:30:51] Hoje eu estou com um bem-estar

[00:30:53] que não tem condição de falar de mal-estar.

[00:30:58] E por que a gente nunca fala de bem-estar?

[00:31:00] Eu vou ver a Maria Bethânia.

[00:31:03] Eu vou ver o Schubert.

[00:31:05] Mas me dá um bem-estar.

[00:31:07] E o que é quando a gente fica com mal-estar?

[00:31:12] É na transição.

[00:31:14] Na pandemia eu fiquei quatro meses na praia.

[00:31:17] Não podia mais ver a praia.

[00:31:19] E levou um tempo para voltar.

[00:31:21] Porque fica tudo igual.

[00:31:23] Vai dando o tédio.

[00:31:25] Então o tempo.

[00:31:28] A música.

[00:31:29] A vida.

[00:31:31] Ela é sentida como bem-estar e mal-estar na pulsação.

[00:31:36] Então eu oscilo.

[00:31:40] Agora, o que vai acontecer

[00:31:43] uma vez o Einstein escrever para o Freud

[00:31:46] como é que faz para ajudar a não ter guerra nos anos 20?

[00:31:51] Aí o Freud falou assim, considerando quem é o ser humano

[00:31:55] ele não tratou isso no geral.

[00:31:57] É…

[00:31:58] tem a destruição

[00:32:00] e tem a construção

[00:32:02] então

[00:32:04] tem a guerra e tem a paz

[00:32:07] também numa alternância

[00:32:08] porque o ser humano

[00:32:10] é um bicho violento

[00:32:12] e amoroso

[00:32:13] e pra fazer uma blague

[00:32:16] uma vez fazer uma palestra no lugar

[00:32:19] sobre

[00:32:20] começo da construção do espírito

[00:32:23] e ia pegar os trabalhos

[00:32:25] da Meira Schendel

[00:32:26] que ainda não são simbólicos

[00:32:28] são um traço, um risco

[00:32:30] uma letra

[00:32:32] mas aí eu vi que as pessoas

[00:32:34] não conheciam o trabalho da Meira Schendel

[00:32:37] então eu falei, vou falar de cachorro

[00:32:39] o que que acontece

[00:32:42] que

[00:32:42] essa epidemia de cachorro

[00:32:45] e os cachorros

[00:32:48] são assim

[00:32:48] as pessoas andam atrás

[00:32:50] e recordem os dejetos

[00:32:53] e mimam

[00:32:54] tem delivery

[00:32:56] de comida pro cachorro

[00:32:57] com escondidinho disso, daquilo

[00:32:59] mas o que que aconteceu

[00:33:02] a ideia era falar

[00:33:04] de pobreza do sentimento

[00:33:06] e aí eu brinquei

[00:33:08] olha, o Freud já respondeu

[00:33:10] essa questão

[00:33:11] ele escrevendo uma carta pra um amigo

[00:33:14] aí perguntado pro Freud

[00:33:16] mas por que que tem o amor pros cachorros

[00:33:18] de tão especial

[00:33:19] ele falou, é simples

[00:33:21] é o único amor que não tem ambivalência

[00:33:25] não tem

[00:33:26] oscilação, amor, ódio

[00:33:27] portanto

[00:33:29] são amores fáceis

[00:33:31] filho dá muito mais trabalho

[00:33:33] parceiro dá muito mais trabalho

[00:33:35] a pessoa que eu mais briguei

[00:33:38] na minha vida foi minha mulher

[00:33:40] e de segundo lugar

[00:33:42] meus filhos

[00:33:43] e eu fui fazer

[00:33:45] inclusive a experiência

[00:33:46] vou brigar com meu cachorro

[00:33:48] impossível

[00:33:50] é puro amor

[00:33:52] moleza

[00:33:53] pra quem quer moleza

[00:33:56] tem o pet

[00:33:57] bom, em algumas passagens do livro

[00:34:00] você aponta as implicações psíquicas

[00:34:02] desse mundo cada vez mais digital

[00:34:05] a gente já falou um pouco

[00:34:07] sobre isso

[00:34:08] mas parece que esse tema

[00:34:10] vem ganhando uma nova escala com a inteligência artificial

[00:34:12] porque muita gente conversa

[00:34:14] e se relaciona com a Yá

[00:34:16] como se ela fosse a sua namorada

[00:34:19] ou a sua terapeuta

[00:34:20] coisas do tipo

[00:34:21] eu queria te ouvir sobre isso

[00:34:24] você tem pensado sobre essa questão?

[00:34:26] olha, quando eu era jovem

[00:34:28] meus pais falavam

[00:34:30] pra não assistir muita televisão

[00:34:31] que ia ficar débil

[00:34:32] os egípcios falaram que a escrita

[00:34:36] ia acabar com a memória

[00:34:37] que separa a palavra

[00:34:39] que você está autorizado

[00:34:42] a ver o que o padre está falando

[00:34:44] é muito recente

[00:34:46] a missa não era pra ser entendida

[00:34:49] então

[00:34:50] a inteligência artificial

[00:34:53] é mais um recurso

[00:34:55] técnico

[00:34:57] eu estou conversando

[00:34:58] eu posso fazer uma blague

[00:35:00] uma coisa de humor

[00:35:01] eu não acredito

[00:35:04] por exemplo, quando eu citei o método Marlow

[00:35:06] eu citei em português

[00:35:09] depois citei em inglês

[00:35:11] e falei, mas por que eu estou citando em inglês?

[00:35:14] pra mostrar como

[00:35:16] um polonês pode falar inglês

[00:35:18] muito bem

[00:35:19] eu sou polonês

[00:35:20] e acrescentei embaixo

[00:35:23] escrevi isso

[00:35:25] pra ficar bem claro

[00:35:26] que esse texto não foi escrito

[00:35:27] pela inteligência artificial

[00:35:29] que não ia fazer uma abobrinha dessa

[00:35:31] então eu adoro

[00:35:33] no meio de coisa séria

[00:35:35] por abobrinha

[00:35:36] sei lá

[00:35:38] posso pôr um algoritmo

[00:35:40] que faz isso

[00:35:41] mas tem pessoas que vão fazer

[00:35:45] terapia

[00:35:45] tem pessoas que vão

[00:35:48] frequentar sites pornográficos

[00:35:51] mas como é que funciona isso?

[00:35:55] tem de tudo

[00:35:57] e tudo acha par

[00:35:59] inclusive namorar máquina

[00:36:02] tudo acha par

[00:36:04] bom, olhar pra sua trajetória

[00:36:07] implica também olhar

[00:36:07] pras transformações da psicanálise

[00:36:11] você mesmo se pergunta

[00:36:13] se a psicanálise

[00:36:14] ficou ultrapassada

[00:36:15] com a nova era

[00:36:18] dos medicamentos

[00:36:19] aponta que ela passou a ser cobrada

[00:36:22] a provar sua eficiência

[00:36:23] terapêutica

[00:36:24] se justificar economicamente

[00:36:26] mas você conclui

[00:36:28] você defende

[00:36:29] que a psicanálise

[00:36:30] não se tornou anacrônica

[00:36:31] queria pra gente terminar

[00:36:34] te pedir pra falar um pouco

[00:36:36] sobre o que te chama mais atenção

[00:36:38] na transformação da psicanálise

[00:36:40] nas últimas décadas

[00:36:41] e porque você considera

[00:36:43] que ela vem se atualizando

[00:36:44] e tem ferramentas

[00:36:46] pra lidar com o nosso presente

[00:36:47] tem dois problemas

[00:36:50] quando eu comecei

[00:36:52] psicanálise era uma profissão

[00:36:54] muito elegante

[00:36:55] então tinha reuniões

[00:36:58] eu ia num clube exclusivo

[00:37:00] inglês

[00:37:00] então era muito sofisticado

[00:37:04] ficou mais sofisticado

[00:37:06] mas

[00:37:08] saiu dessa esfera

[00:37:10] do especial

[00:37:11] de uma aristocracia do conhecimento

[00:37:14] trabalhador

[00:37:17] mas

[00:37:18] ela, eu acho que

[00:37:20] ela se radicalizou

[00:37:22] na percepção que o som

[00:37:24] não são relatos do passado

[00:37:28] os sonhos são construções presentes

[00:37:31] pra dar forma

[00:37:33] é um tipo de autorretrato

[00:37:35] então

[00:37:37] a tarefa psicanalítica

[00:37:40] isso eu falo desde muito cedo

[00:37:42] ela não é mais

[00:37:44] interpretar sonhos

[00:37:45] é junto com o paciente

[00:37:48] ajudar a construir sonhos

[00:37:51] e o sonho serve pro dia

[00:37:53] e o sonho serve pro dia

[00:37:54] e o sonho serve pro dia

[00:37:54] no outro dia você tem outro sonho

[00:37:56] se o sonho se repete

[00:37:59] é porque está numa área traumática

[00:38:01] de alguma coisa

[00:38:03] que não caminha na sua alma

[00:38:04] então é uma mudança

[00:38:07] tremenda

[00:38:08] interpretar sonhos

[00:38:10] e construir sonhos

[00:38:11] que me faz pensar

[00:38:13] que eu encontro com alguém

[00:38:15] numa sala da análise

[00:38:17] que é como se fosse um santuário

[00:38:21] e que acontece em romances

[00:38:23] então é como se fosse

[00:38:24] uma alcova

[00:38:25] e é uma instalação

[00:38:27] que tem performances

[00:38:29] e a gente tira fotos

[00:38:32] das performances

[00:38:33] uma imagem que eu posso fazer

[00:38:35] da análise

[00:38:36] é que você tem a instalação

[00:38:39] na análise e você tem um desenho

[00:38:42] e você tem como no gibi

[00:38:44] uma bolinha

[00:38:45] o que as pessoas falam

[00:38:46] então

[00:38:48] não me interessa tanto

[00:38:50] o que as pessoas falam

[00:38:53] me interessa fazer o desenho

[00:38:54] o desenho de baixo

[00:38:55] vou dar um exemplo

[00:38:57] um clássico de desenho animado

[00:38:59] muito divertido

[00:39:00] a pessoa está andando numa planície

[00:39:03] e acaba a planície

[00:39:05] e ele continua andando no ar

[00:39:07] ele cai quando ele percebe

[00:39:09] que não tem o chão

[00:39:10] não quando não tem o chão

[00:39:12] mas quando ele percebe

[00:39:14] isso é uma joia do cartoon

[00:39:16] então eu vejo muito mais análise

[00:39:19] assim é como se fosse um gibi

[00:39:21] que fala, fala, fala

[00:39:23] mas

[00:39:23] que desenho a gente faz de baixo

[00:39:26] das falas

[00:39:28] o que está acontecendo na sala

[00:39:30] é uma forma de ver a análise

[00:39:33] não é universal

[00:39:34] mas tem bastante gente que vê desse jeito

[00:39:37] então

[00:39:38] a psicanálise

[00:39:40] ela não trata de soluções

[00:39:42] ela trata

[00:39:45] da montagem de uma equação

[00:39:47] porque a pessoa

[00:39:49] não sabe as variáveis

[00:39:50] e as constantes

[00:39:52] e não sabe

[00:39:53] também das incógnitas

[00:39:55] então quando você monta melhor

[00:39:58] uma equação

[00:39:59] a solução se esparrama

[00:40:01] ah, estou com um problema

[00:40:03] com a minha mãe, meu pai, meu marido

[00:40:06] quais são

[00:40:07] as incógnitas

[00:40:09] variáveis constantes

[00:40:11] que estão presentes

[00:40:12] então

[00:40:14] a gente não faz terapia

[00:40:17] a gente faz diagnostia

[00:40:19] é assim que eu vejo

[00:40:22] a contemporaneidade

[00:40:23] da psicanálise

[00:40:24] perfeito, então

[00:40:26] para recapitular

[00:40:27] o Leopoldo Nozec

[00:40:28] autor de O Método Marlow

[00:40:30] estudos indisciplinares em psicanálise

[00:40:32] que acaba de sair pela Perspectiva

[00:40:34] Nozec, foi um prazer conversar com você

[00:40:36] muito obrigado pela sua participação

[00:40:38] cara, fala pra caramba

[00:40:40] Oi, eu sou Laura Matos

[00:40:49] e quero te convidar para acompanhar

[00:40:51] o novo podcast da Folha

[00:40:53] é o Folha na Escola

[00:40:54] um programa voltado a estudantes

[00:40:56] pais, professores

[00:40:58] e a todos que se interessam

[00:41:00] por educação

[00:41:01] nessa temporada a gente discute

[00:41:03] um uso mais equilibrado

[00:41:04] da tecnologia nas escolas

[00:41:06] na vida das crianças e dos adolescentes

[00:41:09] tem episódio novo toda quarta-feira

[00:41:11] nas principais plataformas

[00:41:13] te espero lá

[00:41:23] Este foi o Ilustríssima Conversa

[00:41:24] eu sou Eduardo Sombini

[00:41:25] a edição de som foi feita pelo Rafael Conkli

[00:41:27] se você tiver algum comentário, crítica ou sugestão

[00:41:30] não deixa de me escrever

[00:41:31] pode ser pelas redes sociais

[00:41:33] ou pelo meu e-mail

[00:41:34] eduardo.sombini

[00:41:35] arroba grupo folha ponto com ponto br

[00:41:38] a gente se vê daqui a duas semanas

[00:41:39] até lá