Dados do Episódio

  • Podcast: Visual+mente
  • Autor: Visual+mente
  • Categoria: Arts Design Arts Education
  • Publicado: 2025-10-07T12:00:00Z
  • Duração: 02:51:29

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Então sejam bem-vindos ao sexto encontro do grupo de estudos

[00:00:17] Políticas, Retóricas e Histórias da Visualidade

[00:00:20] Como vocês sabem, é uma iniciativa do podcast Visualmente

[00:00:24] E o grupo de pesquisas do CNPq Visualidade e Linguagem

[00:00:30] Meu nome é Ricardo Cunha Lima, como vocês já sabem, sou professor do FPE

[00:00:33] E estou aqui com o professor Rafael Efrem

[00:00:37] E o professor Rafael Efrem, que vocês têm acompanhado em vários programas

[00:00:42] Mas hoje é o dia da apresentação dele, então eu farei a apresentação completa

[00:00:47] Porque ele merece

[00:00:48] Ele é professor do curso superior de tecnologia e design gráfico do IFPB

[00:00:54] Campus Cabedelo

[00:00:56] Acertei tudo, não confundi com nada

[00:00:59] Ele é professor do curso superior de tecnologia e design gráfico do IFPB

[00:00:59] É bacharel e mestre em design pela UFPE

[00:01:03] E atualmente é doutorando pela linha de teoria e história do design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

[00:01:11] E design da USP, a FAO

[00:01:15] Na conversa de hoje, Rafael vai discutir a formação da imagem do Nordeste

[00:01:22] Como isso se tornou possível

[00:01:24] A partir de produções visuais

[00:01:26] A construção da própria região

[00:01:28] E centrar o foco na imagem do Nordeste

[00:01:29] O foco nas ideias do movimento regionalista, tradicionalista

[00:01:33] E, a seu modo, modernista do Recife

[00:01:37] Amalgamadas no…

[00:01:40] Desculpa que eu dei um ênfase por causa das amalgamadas

[00:01:43] Então, amalgamadas no mestre de apipucos, o grande Gilberto Freire

[00:01:48] E com suas ideias

[00:01:51] E como suas ideias conformam e são conformadas pela visualidade

[00:01:56] Gente, depois de eu assassinar esse texto do Brasil

[00:01:59] Do Rafael, tá certo?

[00:02:01] Eu vou passar a palavra pra ele

[00:02:05] Professor, muito nos honra a sua presença

[00:02:08] Por favor

[00:02:09] Muito obrigado, Ricardo

[00:02:12] Não assassino nada

[00:02:14] Boa tarde, gente

[00:02:16] Tudo bem

[00:02:17] Eu vou botar aqui pra apresentar

[00:02:20] E eu não vou ver mais vocês

[00:02:22] O que é uma tristeza imensa

[00:02:24] Mas eu vou precisar do feedback de vocês

[00:02:27] Pra saber se a tela tá ainda, certo?

[00:02:29] O negócio é eu achar aqui a apresentação

[00:02:35] Essa daqui mesmo

[00:02:37] Perfeito, tá aparecendo

[00:02:41] Agora é só…

[00:02:42] Compartilha a tela inteira

[00:02:44] Apresentação de slides

[00:02:46] Pronto?

[00:02:47] Perfeito, professor

[00:02:47] Vou tirar o áudio aqui e vou deixar você começar

[00:02:50] Tá jóia, gente

[00:02:52] Muito obrigado mais uma vez

[00:02:54] Gostaria de agradecer novamente a presença de todo mundo

[00:02:58] Prazer enorme

[00:02:59] Falar um pouquinho sobre

[00:03:02] Essa discussão

[00:03:04] Sobre a construção do Nordeste

[00:03:06] E a construção do Nordeste

[00:03:09] A partir das imagens

[00:03:11] Eu queria começar

[00:03:15] A discussão

[00:03:18] Colocando duas imagens

[00:03:21] De dois artistas que normalmente

[00:03:22] Os assistentes gostam muito

[00:03:24] Que são o Eckhout

[00:03:26] E o Franz Post

[00:03:28] Esse…

[00:03:29] Essa imagem que pra mim tá à esquerda

[00:03:32] Do indígena tapuia

[00:03:34] É do Eckhout

[00:03:35] É de 1641

[00:03:37] Por aí

[00:03:38] E a do Franz Post

[00:03:41] Que é sobre o Rio São Francisco

[00:03:43] É também mais ou menos

[00:03:46] Desse período

[00:03:46] Agora me fugiu a data

[00:03:48] Então assim

[00:03:50] Eu quis trazer essas duas imagens

[00:03:53] Pra

[00:03:55] Ver assim, pensar

[00:03:57] O que é que essas imagens

[00:03:58] No primeiro momento

[00:03:59] Elas têm em comum

[00:04:02] E ajudam a gente

[00:04:03] A discutir as imagens do Nordeste

[00:04:05] O que elas têm em comum

[00:04:09] É que elas se passam

[00:04:10] De alguma maneira

[00:04:12] Não de alguma maneira

[00:04:13] Mas que elas se passam

[00:04:15] Em regiões, em locais

[00:04:16] Que hoje

[00:04:18] São do Nordeste

[00:04:20] Mas quando a gente olha essas imagens

[00:04:23] E pra este momento aí do século XVII

[00:04:26] Com a invasão holandesa

[00:04:29] Com a invasão holandesa

[00:04:29] A gente não consegue

[00:04:32] Ainda chamar

[00:04:34] E dizer que essas imagens

[00:04:36] Representam o Nordeste

[00:04:38] E quando a gente olha essas imagens

[00:04:40] O que estava sendo em discussão aí

[00:04:42] É essa nova terra

[00:04:45] Que está sendo colonizada

[00:04:47] Quais são os tipos humanos

[00:04:50] Que estão nessa terra

[00:04:51] Quais são

[00:04:52] Como é que é essa fauna

[00:04:53] Como é essa flora

[00:04:54] Como é essa paisagem

[00:04:56] Desse lugar

[00:04:57] Que foi invadida

[00:04:59] Há pouco tempo

[00:05:01] Então a gente ainda

[00:05:03] Aqui nesse momento do século XVII

[00:05:05] A gente não consegue

[00:05:08] Discutir ainda

[00:05:10] Ou dizer ainda

[00:05:11] Que existe o Nordeste

[00:05:13] Só que se a gente não consegue

[00:05:16] Dizer ainda no século XVII

[00:05:18] Com gente morando

[00:05:19] Aqui

[00:05:20] Colonizando esse espaço

[00:05:23] Quando é que a gente consegue dizer

[00:05:25] Que começa o Nordeste

[00:05:28] O que é que

[00:05:29] Permite que a gente diga

[00:05:31] Que o Nordeste começou

[00:05:33] E aí a gente consegue

[00:05:39] Trazer essa discussão

[00:05:42] A partir do final

[00:05:44] Do século XIX

[00:05:46] E vai ter um fenômeno

[00:05:48] Que é muito importante

[00:05:50] Nessa construção do Nordeste

[00:05:53] E a intenção do Nordeste

[00:05:55] Mesmo enquanto

[00:05:56] Região

[00:05:57] Que são as secas

[00:05:59] E a gente tem que

[00:05:59] Em 1877

[00:06:02] Teve uma grande seca

[00:06:06] E a partir desse momento

[00:06:10] As elites

[00:06:13] Do Norte

[00:06:14] Que não havia Nordeste

[00:06:16] A divisão geográfica do Brasil

[00:06:18] Era entre Norte e Sul

[00:06:19] Certo?

[00:06:22] Para baixo da Bahia

[00:06:24] Era Sul

[00:06:25] Acima da Bahia

[00:06:26] Era Norte

[00:06:27] E a gente tem que

[00:06:29] Então nesse momento aí

[00:06:30] No final do século XIX

[00:06:33] Que tem essa grande seca

[00:06:37] As elites não dão conta

[00:06:40] De resolver

[00:06:43] Esse problema

[00:06:45] E imagens

[00:06:48] Começam a ser produzidas

[00:06:50] E veiculadas

[00:06:52] No Sul

[00:06:54] Vai ter uma difusão

[00:06:57] Uma divulgação

[00:06:58] Que vai ser

[00:06:59] Dessa miséria

[00:07:00] Que vem acontecendo

[00:07:02] Por causa da seca

[00:07:04] No Sul

[00:07:05] E aí sobretudo

[00:07:07] Em São Paulo

[00:07:09] Certo?

[00:07:10] São Paulo, Rio de Janeiro

[00:07:11] Que são

[00:07:12] Duas cidades importantes

[00:07:14] Aí nesse momento

[00:07:15] São Paulo nem era

[00:07:17] Uma cidade tão grande assim

[00:07:19] São Paulo na verdade

[00:07:20] Era um ovinho

[00:07:23] Mas

[00:07:24] Economicamente

[00:07:26] Já estava se despontando

[00:07:29] Como

[00:07:29] Um grande centro

[00:07:34] Ali em São Paulo, Rio

[00:07:35] Nesse eixo que a gente tem até hoje

[00:07:37] E aí

[00:07:41] Os discursos que vão rolando

[00:07:44] Aquilo que é dito

[00:07:46] Não só aquilo que é dito

[00:07:47] Mas aquilo que é produzido visualmente

[00:07:50] Vai começando a formar

[00:07:53] Uma imagem

[00:07:55] Do que seria

[00:07:56] Essa região

[00:07:57] Do que seria

[00:07:59] Essa região

[00:07:59] Do Norte

[00:08:00] E

[00:08:01] O Nordeste

[00:08:03] Vai começando a se configurar

[00:08:06] A partir

[00:08:06] Desse problema

[00:08:08] O Durval Muniz de Albuquerque

[00:08:11] Que é o

[00:08:12] Escritor lá do

[00:08:13] Grande livro

[00:08:14] A Invenção do Nordeste

[00:08:15] Que é

[00:08:15] A principal referência

[00:08:18] Vai dizer o seguinte

[00:08:22] Que é nesse momento

[00:08:24] Que

[00:08:25] As elites do Norte

[00:08:28] Estão

[00:08:29] Elas vão ter que reconhecer

[00:08:32] Que elas não dão conta

[00:08:33] Que elas vão ter

[00:08:33] Que elas precisam

[00:08:35] Pedir ajuda

[00:08:36] Lá pra baixo

[00:08:38] E

[00:08:40] E essa região lá de baixo

[00:08:46] Vai começar a se construir

[00:08:47] Também como uma negação

[00:08:49] Dessa região de cima

[00:08:50] Se São Paulo está ali

[00:08:53] Naquele momento recebendo

[00:08:55] Um bocado de imigrante

[00:08:57] A gente não pode esquecer desse contexto

[00:08:59] Tá passando por esse processo

[00:09:01] De branqueamento

[00:09:02] Tá se construindo

[00:09:04] Como um lugar

[00:09:05] Do progresso

[00:09:07] Então essa região

[00:09:09] Que tem seca

[00:09:10] Que tem fome

[00:09:11] Que tem miséria

[00:09:12] É um lugar

[00:09:14] Que eu não quero

[00:09:16] Me relacionar

[00:09:17] Então vou construir

[00:09:19] Minha identidade

[00:09:20] Negando

[00:09:22] Esse outro espaço

[00:09:23] Que é o Norte

[00:09:25] E aí sobretudo

[00:09:26] Essa região

[00:09:27] Onde vai ter a seca

[00:09:28] Que vai ser

[00:09:29] Que vai se conformando

[00:09:30] O Nordeste

[00:09:32] Aqui a gente tem

[00:09:35] Uma imagem

[00:09:36] Que foi uma fotografia

[00:09:38] Feita por um fotógrafo cearense

[00:09:40] Chamado Corrêa

[00:09:41] J.A. Corrêa

[00:09:42] E como as fotografias

[00:09:45] Que o Corrêa faz

[00:09:47] Vão ser divulgadas

[00:09:50] Na imprensa

[00:09:51] No Sul

[00:09:52] Que essa

[00:09:52] Saiu o jornal

[00:09:54] A revista

[00:09:56] O Bisco

[00:09:56] Que é jornal e revista

[00:09:57] A gente agora não explodiu

[00:09:58] E a gente vai

[00:09:59] Ver como é

[00:10:00] O Bissoro

[00:10:00] E aí de 1878

[00:10:03] Que é uma litografia

[00:10:04] Feita pelo

[00:10:05] Rafael Bordalo

[00:10:06] E aí nessa

[00:10:12] Nessa

[00:10:13] Lógica

[00:10:15] De

[00:10:16] Se construir uma identidade

[00:10:18] A partir da negação

[00:10:19] Do outro

[00:10:20] São Paulo

[00:10:23] Vai cada vez mais

[00:10:24] Se construindo

[00:10:26] Enquanto esse lugar

[00:10:27] De progresso

[00:10:28] Enquanto esse outro

[00:10:29] Espaço

[00:10:29] É

[00:10:30] O lugar da miséria

[00:10:33] No começo do século XX

[00:10:37] Quando a gente tem

[00:10:38] Esse movimento modernista

[00:10:40] Que começa

[00:10:41] A se formar

[00:10:44] Ali em São Paulo

[00:10:45] Que eles começam

[00:10:46] A fazer as pesquisas

[00:10:47] E esse modernismo

[00:10:48] Não se configura

[00:10:50] Como um rompimento

[00:10:52] Ou como uma ruptura

[00:10:53] Como na maneira

[00:10:54] Como foi na Europa

[00:10:56] Mas sim

[00:10:56] Ligado à tradição

[00:10:57] E a tradição

[00:10:59] Eles começam

[00:11:01] A fazer uma pesquisa

[00:11:02] Por esses signos

[00:11:03] Que vão tentar

[00:11:04] Simbolizar a construção

[00:11:06] De uma identidade

[00:11:07] Nacional

[00:11:08] E aí

[00:11:10] Um dos símbolos

[00:11:11] Que vão ser

[00:11:12] Apropriados

[00:11:13] Para a construção

[00:11:14] De uma identidade

[00:11:15] Nacional

[00:11:15] É o cacto

[00:11:16] E aí a gente tem

[00:11:18] Por exemplo

[00:11:19] Essa tela

[00:11:20] De Itacila

[00:11:21] Que eu imagino

[00:11:22] Que todo mundo conhece

[00:11:23] Que é o Abaporu

[00:11:24] De 1928

[00:11:26] E aqui

[00:11:28] Eu estou

[00:11:29] Eu trouxe

[00:11:29] Uma imagem

[00:11:31] Que é da revista

[00:11:32] Do Norte

[00:11:32] Que essa capa

[00:11:35] Da revista

[00:11:36] Ela é

[00:11:37] Não sei se ela é exatamente

[00:11:38] A capa

[00:11:38] Eu acho que é uma

[00:11:39] Já é uma parte

[00:11:40] Dentro da revista

[00:11:41] É de 1931

[00:11:44] 1932

[00:11:45] Feita pelo

[00:11:47] Manuel Bandeira

[00:11:49] Manuel Bandeira

[00:11:50] Que é o ilustrador

[00:11:51] O artista gráfico

[00:11:52] Não o poeta

[00:11:54] E aqui

[00:11:56] Aí na caixa

[00:11:57] Nessa peça

[00:11:58] A gente tem

[00:11:59] Uma planta

[00:12:01] Que seria

[00:12:01] Uma planta

[00:12:02] Do semiárido

[00:12:03] Ou do sertão

[00:12:03] Que é

[00:12:04] Imagino eu

[00:12:05] Que seja

[00:12:06] Um mandacaru

[00:12:06] Ou um xique-xique

[00:12:07] Mas não é exatamente

[00:12:08] Um cacto

[00:12:11] Mas a gente está vendo

[00:12:13] Aí que tem

[00:12:14] Uma apropriação

[00:12:15] Desses elementos

[00:12:16] Naturais

[00:12:17] E aí uma disputa

[00:12:19] Desses elementos

[00:12:20] Naturais

[00:12:21] Para a construção

[00:12:22] De uma identidade

[00:12:22] Só que aqui

[00:12:24] Itacila está ajudando

[00:12:25] A compor

[00:12:26] Um discurso visual

[00:12:27] Colocando

[00:12:28] São Paulo

[00:12:29] Como centro

[00:12:31] Dessa

[00:12:32] Dessa identidade

[00:12:33] Brasileira

[00:12:34] Enquanto que a

[00:12:36] Revista do Norte

[00:12:37] Está aí

[00:12:38] Trazendo

[00:12:38] Outros referenciais

[00:12:40] Que são

[00:12:41] Referenciais

[00:12:42] Mais coloniais

[00:12:44] Mais voltados

[00:12:45] Para

[00:12:46] Para as elites

[00:12:49] Açucareiras

[00:12:50] Que estão perdendo

[00:12:51] Seu prestígio

[00:12:51] Seu dinheiro

[00:12:52] E seu âmbito

[00:12:53] De poder

[00:12:53] Então

[00:12:55] Aqui

[00:12:58] No nessa

[00:12:59] Nessa peça

[00:13:01] A gente tem

[00:13:02] Uma tentativa

[00:13:04] De representação

[00:13:07] Dessa elite

[00:13:07] Da construção

[00:13:08] De uma

[00:13:10] Tradição

[00:13:11] Que se volta

[00:13:11] Para aqueles

[00:13:12] Bens culturais

[00:13:13] E naturais

[00:13:14] Que fariam

[00:13:16] Parte

[00:13:17] Dessa região

[00:13:18] Que aí

[00:13:19] Na década de 30

[00:13:20] A gente já começa

[00:13:21] A entender

[00:13:21] Que está diferente

[00:13:23] Que é o Nordeste

[00:13:24] E não é mais

[00:13:25] Somente o Norte

[00:13:26] Embora o nome

[00:13:26] Da revista

[00:13:27] Seja

[00:13:27] , revista do Norte

[00:13:29] Na década de 30

[00:13:30] Já tem esse movimento

[00:13:33] Mais forte

[00:13:34] De reconhecimento

[00:13:35] De uma

[00:13:36] Região

[00:13:37] Que já é diferente

[00:13:38] Do Norte

[00:13:40] E aí o Norte

[00:13:41] Fica

[00:13:42] Para aquela região

[00:13:43] Que seria a região

[00:13:44] Amazônica

[00:13:44] E o Nordeste

[00:13:45] Seria essa região

[00:13:47] Que a gente

[00:13:48] Enfim

[00:13:49] Conhece

[00:13:49] Conhece hoje

[00:13:50] E aí eu trouxe

[00:13:53] Algo

[00:13:54] Que é mais atual

[00:13:55] Para a gente ver

[00:13:57] Como

[00:13:57] Cacto

[00:13:58] Ou Mandacaru

[00:13:59] Ou esses elementos

[00:14:00] Naturais

[00:14:01] Eles são ainda

[00:14:03] Hoje

[00:14:03] Agenciados

[00:14:05] Para a construção

[00:14:07] E reafirmação

[00:14:08] De uma

[00:14:09] Identidade

[00:14:10] E aí

[00:14:11] De uma identidade

[00:14:12] Nordestina

[00:14:13] O

[00:14:14] Duval Muniz

[00:14:15] Albuquerque

[00:14:16] Ele vai

[00:14:16] Requeixar

[00:14:17] Muito

[00:14:18] Do uso

[00:14:20] Do estereótipo

[00:14:21] Como a gente

[00:14:22] É construído

[00:14:24] Em cima

[00:14:26] Como a nossa

[00:14:27] Identidade

[00:14:27] Ela é

[00:14:28] Construída

[00:14:29] Em cima

[00:14:30] De

[00:14:31] Estereótipo

[00:14:32] E aí o design

[00:14:33] Tem esse papel

[00:14:34] Extremamente

[00:14:35] Importante

[00:14:36] Em agenciar

[00:14:37] Estereótipos

[00:14:38] Eu acho que

[00:14:39] Não

[00:14:39] Não

[00:14:39] Não tem

[00:14:42] Como ter

[00:14:43] Uma prática

[00:14:44] Projetual

[00:14:45] Aí

[00:14:46] Se a gente

[00:14:46] Não souber

[00:14:47] Manusear

[00:14:48] Estereótipos

[00:14:50] A gente vai

[00:14:50] Entrar

[00:14:51] Numa discussão

[00:14:51] De kit

[00:14:52] Enfim

[00:14:54] A gente pode

[00:14:55] Colocar isso

[00:14:55] Mais para frente

[00:14:57] Então assim

[00:15:00] Só para

[00:15:00] A gente

[00:15:01] Trouxe

[00:15:01] Trouxe Juliette

[00:15:03] Porque é algo

[00:15:03] Mais recente

[00:15:04] E que

[00:15:07] Enfim

[00:15:07] Sei lá

[00:15:07] Quase

[00:15:08] 100 anos

[00:15:10] Depois

[00:15:11] Esses símbolos

[00:15:12] Que estão sendo disputados

[00:15:13] Ali no começo

[00:15:14] Do século XX

[00:15:15] Eles

[00:15:16] Têm uma

[00:15:17] Recorrência

[00:15:18] E aí a recorrência

[00:15:21] É um

[00:15:22] Um elemento

[00:15:23] Importante

[00:15:24] Na construção

[00:15:24] De um discurso

[00:15:26] Então

[00:15:27] Uma coisa

[00:15:28] Importante

[00:15:29] Para

[00:15:30] Falar

[00:15:31] Que eu devia ter

[00:15:31] Começado

[00:15:32] Com isso

[00:15:34] É que

[00:15:35] Foucault

[00:15:36] Não é

[00:15:36] Meu referencial

[00:15:38] Teórico

[00:15:38] De partida

[00:15:39] Do mestrado

[00:15:40] Certo?

[00:15:42] Isso aqui não foi

[00:15:42] Foucault

[00:15:43] Não entrou

[00:15:45] Eu fui muito mais

[00:15:46] Por Bourdieu

[00:15:47] Do que

[00:15:48] Foucault

[00:15:48] Foucault

[00:15:49] Nem

[00:15:49] Ele botou

[00:15:50] Um pezinho

[00:15:51] Assim

[00:15:51] Acho que

[00:15:52] Por alguma

[00:15:53] Citação

[00:15:53] Do

[00:15:54] Durval

[00:15:56] Mas

[00:15:56] Ele mesmo

[00:15:57] Ele mesmo

[00:15:57] Por ele

[00:15:58] Ele não entrou não

[00:15:58] Mas sim

[00:16:00] Estou falando aqui

[00:16:01] De discurso

[00:16:01] Muito mais

[00:16:02] Pelas discussões

[00:16:02] Que a gente já teve

[00:16:03] Ao longo

[00:16:04] Dos

[00:16:05] Encontros

[00:16:06] E aí

[00:16:09] Eu trouxe

[00:16:11] Assim

[00:16:11] Essa

[00:16:11] Essa imagem

[00:16:12] De Juliette

[00:16:13] Aqui na

[00:16:14] Na esquerda

[00:16:16] Que tem escrito

[00:16:16] Lida

[00:16:17] A agência

[00:16:18] Duas

[00:16:19] Articula

[00:16:20] Duas referências

[00:16:21] Pelo menos

[00:16:23] Que eu consigo

[00:16:23] Visualizar

[00:16:24] A referência

[00:16:26] Desse cartaz

[00:16:27] Do

[00:16:28] We can do it

[00:16:29] Que é

[00:16:31] Da década de 40

[00:16:32] No contexto

[00:16:32] Da guerra

[00:16:33] Da segunda guerra

[00:16:34] Mundial

[00:16:35] As mulheres

[00:16:36] Ocupando o lugar

[00:16:37] No espaço

[00:16:39] No mercado

[00:16:40] De trabalho

[00:16:40] Nos Estados Unidos

[00:16:42] Para lá

[00:16:42] Essa

[00:16:43] Essa discussão

[00:16:44] E

[00:16:46] Trouxe aqui

[00:16:47] Uma capa

[00:16:48] De disco

[00:16:49] Da Marinês

[00:16:50] Que é

[00:16:51] Uma

[00:16:51] Cantora

[00:16:53] Originalmente

[00:16:54] Pernambucana

[00:16:54] Mas ela

[00:16:55] Cresceu na

[00:16:56] Paraíba

[00:16:56] E que ficou

[00:16:58] Conhecida como

[00:16:58] A rainha

[00:16:59] Do chachado

[00:17:00] E a gente

[00:17:02] Já percebe

[00:17:03] Aqui

[00:17:03] Na própria

[00:17:04] Marinês

[00:17:05] O recurso

[00:17:06] A imagem

[00:17:07] Do cangaço

[00:17:09] E aí

[00:17:10] O cangaço

[00:17:11] Vai ser

[00:17:12] Um elemento

[00:17:13] Importantíssimo

[00:17:15] Também

[00:17:15] Para a construção

[00:17:16] Do nordeste

[00:17:17] Não só

[00:17:18] Da imagem

[00:17:19] Do nordeste

[00:17:20] Mas como

[00:17:20] Do próprio

[00:17:21] Nordeste

[00:17:22] Enquanto região

[00:17:23] E por que

[00:17:24] Eu estou

[00:17:24] Falando isso

[00:17:26] Porque as

[00:17:28] Elites

[00:17:29] Açucareiras

[00:17:31] Enfim

[00:17:31] Do

[00:17:32] Do

[00:17:34] Do que vai

[00:17:35] Conformar

[00:17:35] Como nordeste

[00:17:36] Se articulam

[00:17:39] Politicamente

[00:17:41] Em torno

[00:17:42] De alguns

[00:17:42] Interesses

[00:17:43] Em comum

[00:17:43] E aí

[00:17:45] A seca

[00:17:45] Que eu já

[00:17:46] Tinha falado

[00:17:46] Serve como

[00:17:47] Essa primeira

[00:17:48] Estratégia

[00:17:49] Para conseguir

[00:17:50] Ganhar

[00:17:51] Dinheiro

[00:17:52] E

[00:17:54] Conseguir

[00:17:54] De alguma

[00:17:54] Maneira

[00:17:55] Exercer

[00:17:55] Pressão

[00:17:56] Política

[00:17:57] Para conseguir

[00:17:57] Recurso

[00:17:58] Para os

[00:17:59] Estados

[00:17:59] Do nordeste

[00:18:00] E um outro

[00:18:02] Elemento

[00:18:03] É o cangaço

[00:18:04] E aí

[00:18:05] Eles

[00:18:05] Que eles

[00:18:06] Eram vistos

[00:18:07] Como

[00:18:09] Como

[00:18:11] Criminosos

[00:18:11] Como bandidos

[00:18:13] Aquela coisa

[00:18:13] Do banditismo

[00:18:14] Social

[00:18:14] Então

[00:18:17] As elites

[00:18:19] Se unem

[00:18:20] Para tentar

[00:18:21] Derrotar

[00:18:22] O cangaço

[00:18:24] Para tentar

[00:18:25] Destruir

[00:18:26] O cangaço

[00:18:26] Então

[00:18:27] Por medo

[00:18:29] De que o cangaço

[00:18:30] Enquanto movimentação

[00:18:32] Popular

[00:18:33] Ajudasse

[00:18:35] As classes

[00:18:36] Populares

[00:18:37] A se sublevarem

[00:18:39] A fazerem

[00:18:40] Algum tipo

[00:18:40] De revolução

[00:18:42] Então o cangaço

[00:18:43] Era muito perigoso

[00:18:44] Por isso

[00:18:45] Não só

[00:18:46] Porque roubava

[00:18:48] Dessa galera

[00:18:50] E matava

[00:18:51] E fazia o diabo a quatro

[00:18:52] Mas porque eles

[00:18:53] Também poderiam

[00:18:54] Inspirar

[00:18:54] Então era

[00:18:56] Necessário

[00:18:57] Destruir o cangaço

[00:18:58] Para que o povo

[00:19:00] Não

[00:19:01] Se inspirasse

[00:19:02] Neles

[00:19:02] E não resolvesse

[00:19:03] Fazer

[00:19:04] Uma revolução

[00:19:05] E ainda

[00:19:09] Voltando

[00:19:09] Para o cacto

[00:19:10] Duas

[00:19:12] Duas imagens

[00:19:13] Também

[00:19:14] Na década de 30

[00:19:14] A da

[00:19:17] A da minha esquerda

[00:19:19] Imagino que seja a esquerda

[00:19:20] De vocês

[00:19:21] A da

[00:19:23] Para todos

[00:19:23] Que foi uma ilustração

[00:19:25] De capa

[00:19:25] Feita por

[00:19:26] Pelo Lula Cardoso Ayres

[00:19:28] Que é uma artista pernambucano

[00:19:30] Que nesse momento

[00:19:32] Foi trabalhar no Rio de Janeiro

[00:19:34] E aqui

[00:19:36] A pra você

[00:19:38] Feita pelo Manoel Bandeira

[00:19:40] Para o mesmo Manoel Bandeira

[00:19:42] Daquela capa da Revista do Norte

[00:19:44] Foi feita

[00:19:46] Acho que as duas capas

[00:19:48] São do mesmo ano

[00:19:50] Porque Lula é o fundador

[00:19:52] Da

[00:19:54] Da pra você

[00:19:55] E quando ele vai para o Rio

[00:19:57] Quem assume a revista

[00:19:58] A parte gráfica da revista

[00:20:00] É o Manoel Bandeira

[00:20:02] Só que aqui

[00:20:03] A gente consegue ver

[00:20:04] Como o Manoel Bandeira

[00:20:06] É um

[00:20:09] Artista gráfico

[00:20:10] Mais experiente

[00:20:11] Na verdade ele é mais velho

[00:20:12] Também

[00:20:13] E ele é mais experiente

[00:20:14] E como ele é aqui nesse momento

[00:20:15] Ele já consegue articular

[00:20:16] Uma influência

[00:20:18] Estrangeira

[00:20:19] Né

[00:20:20] São as vanguardas

[00:20:21] O cubismo

[00:20:22] Com uma discussão

[00:20:23] Com temas

[00:20:24] Que ele faz

[00:20:25] Que seriam temas

[00:20:26] Regionais

[00:20:27] E aí

[00:20:28] Por tema

[00:20:29] Eu tô falando aqui

[00:20:30] Da própria fauna

[00:20:31] E da própria flora

[00:20:32] Que tá

[00:20:33] Sendo colocada

[00:20:34] O cacto

[00:20:35] Essa outra coisa

[00:20:36] Aqui do lado

[00:20:37] Que eu não

[00:20:38] Sei o que é

[00:20:39] Mas é alguma

[00:20:40] Alguma planta

[00:20:41] Tem uma da Karu

[00:20:42] Atrás

[00:20:43] Dessa mulher

[00:20:44] Tem os passarinhos aí

[00:20:45] Enfim

[00:20:46] Tá

[00:20:47] Esses símbolos

[00:20:48] Ainda estão

[00:20:49] Em

[00:20:50] Em disputa

[00:20:51] Nesse momento

[00:20:52] No Rio de Janeiro

[00:20:54] É

[00:20:55] Talvez ainda

[00:20:56] Como uma referência

[00:20:57] Referência

[00:20:58] A algo

[00:20:59] Que é exótico

[00:21:00] Mas

[00:21:01] Aqui

[00:21:02] Quando a gente

[00:21:03] Pega pra Recife

[00:21:04] Porque

[00:21:05] Essa revista

[00:21:06] Pra você

[00:21:07] É do Recife

[00:21:08] Talvez

[00:21:09] Já tenha

[00:21:10] Alguma coisa aí

[00:21:11] Que não seja

[00:21:12] Do exótico

[00:21:13] Né

[00:21:14] Seja

[00:21:15] Dizer ó

[00:21:16] Isso daqui

[00:21:17] Que é

[00:21:18] O da gente

[00:21:19] Né

[00:21:20] Inclusive

[00:21:21] Tem o nome ali

[00:21:22] O pra você

[00:21:23] De fato ainda

[00:21:24] Pela chave

[00:21:25] Do exótico

[00:21:26] Mas nesse começo aí

[00:21:27] Nessa década de 30

[00:21:28] Já tem

[00:21:29] É

[00:21:30] Um movimento

[00:21:31] Que é um movimento

[00:21:32] Regionalista

[00:21:33] É

[00:21:34] Tradicionalista

[00:21:35] E a seu modo

[00:21:36] Modernista

[00:21:37] Do Recife

[00:21:38] Que vai

[00:21:39] Pautar a construção

[00:21:40] Desse

[00:21:41] Do nordeste

[00:21:42] Dessas imagens

[00:21:43] Que vão

[00:21:44] Circular

[00:21:45] Eita

[00:21:46] Chato

[00:21:47] Ó

[00:21:48] Minha gente

[00:21:49] Na conversa

[00:21:50] Gente

[00:21:51] Desculpa

[00:21:52] Essa bronca aí

[00:21:53] Da imagem

[00:21:54] Não tava assim

[00:21:55] É porque eu subi

[00:21:56] O powerpoint

[00:21:57] No

[00:21:58] É

[00:21:59] No drive

[00:22:00] Aí

[00:22:01] Na apresentações

[00:22:02] E aí

[00:22:03] Distorceu

[00:22:04] A imagem ficou assim

[00:22:05] Peço desculpa

[00:22:06] Manoel Bandeira

[00:22:07] É

[00:22:08] E aí

[00:22:09] Tem

[00:22:10] A pobre da imagem

[00:22:11] Da revista do norte

[00:22:12] Que tá aí

[00:22:13] Achatada

[00:22:14] Coitada

[00:22:15] É

[00:22:16] Que é

[00:22:17] De 1923

[00:22:18] Se eu não me engano

[00:22:19] Essa capa

[00:22:20] Feita

[00:22:21] É

[00:22:22] É em

[00:22:23] 23

[00:22:24] Também

[00:22:25] Que

[00:22:26] Acho que era

[00:22:27] 23

[00:22:28] Aí 24

[00:22:29] Que Gilberto Freire

[00:22:30] Volta dos

[00:22:31] Estados Unidos

[00:22:32] É

[00:22:33] Mas

[00:22:34] Mesmo nos

[00:22:35] Estados Unidos

[00:22:36] Ele já

[00:22:37] Vinha contribuindo

[00:22:38] Com a imprensa

[00:22:39] Local

[00:22:40] Pra

[00:22:41] Na disputa

[00:22:42] Do nordeste

[00:22:43] É

[00:22:44] E

[00:22:45] Quem tá

[00:22:46] Nessa capa

[00:22:47] É

[00:22:48] O

[00:22:49] Oliveira Lima

[00:22:50] Que vai ser uma figura

[00:22:51] Naquele momento

[00:22:52] E

[00:22:53] O

[00:22:54] Oliveira Lima

[00:22:55] Tem uma

[00:22:56] Uma defesa

[00:22:57] De que

[00:22:58] O Brasil

[00:22:59] Verdadeiro

[00:23:00] O

[00:23:01] Brasil

[00:23:02] Raiz

[00:23:03] O

[00:23:04] Brasil

[00:23:05] Tradicional

[00:23:06] É

[00:23:07] O

[00:23:08] Brasil

[00:23:09] Do norte

[00:23:10] É

[00:23:11] O

[00:23:12] Brasil

[00:23:13] Do nordeste

[00:23:14] Que

[00:23:15] É

[00:23:16] Um

[00:23:17] Brasil

[00:23:18] Que

[00:23:19] Tá

[00:23:20] Atendendo

[00:23:21] São Paulo

[00:23:22] E Rio de Janeiro

[00:23:23] Então

[00:23:24] Esse discurso

[00:23:25] É

[00:23:26] Um discurso

[00:23:27] Que

[00:23:28] Tá

[00:23:29] Ajudando

[00:23:30] Ali

[00:23:31] A

[00:23:32] Configurar

[00:23:33] Essa

[00:23:34] Paisagem

[00:23:35] Intelectual

[00:23:36] E Cultural

[00:23:37] Que

[00:23:38] Vão

[00:23:39] Ajudar

[00:23:40] A

[00:23:41] Construir

[00:23:42] O

[00:23:43] Nordeste

[00:23:44] É

[00:23:45] Aqui

[00:23:46] Do lado

[00:23:47] Tem

[00:23:48] Uma

[00:23:49] Festa

[00:23:50] Pobre

[00:23:51] Achatada

[00:23:52] Que

[00:23:53] Foi

[00:23:54] Ivana

[00:23:55] Alencastro

[00:23:56] Que

[00:23:57] Me

[00:23:58] Cedeu

[00:23:59] É

[00:24:00] O

[00:24:01] Gilberto Freire

[00:24:02] Publica

[00:24:03] O Guia

[00:24:04] Prático

[00:24:05] Histórico

[00:24:06] Sentimental

[00:24:07] Pela

[00:24:08] Revista

[00:24:09] Do Norte

[00:24:10] Então

[00:24:11] Assim

[00:24:12] A

[00:24:13] Revista

[00:24:14] Do Norte

[00:24:15] Ela

[00:24:16] Tem

[00:24:17] Um

[00:24:18] Papel

[00:24:19] Norte

[00:24:20] A

[00:24:21] Partir

[00:24:22] Da

[00:24:23] Revista

[00:24:24] Do Norte

[00:24:25] Que

[00:24:26] O Gilberto Freire

[00:24:27] Conhece

[00:24:28] Manuel

[00:24:29] Bandeira

[00:24:30] E

[00:24:31] O

[00:24:32] Convida

[00:24:33] Para

[00:24:34] Ilustrar

[00:24:35] O

[00:24:36] Chamado

[00:24:37] Livro

[00:24:38] Do

[00:24:39] Nordeste

[00:24:40] Que

[00:24:41] É

[00:24:42] Essa

[00:24:43] É

[00:24:44] A

[00:24:45] Capa

[00:24:46] Do

[00:24:47] Livro

[00:24:48] Que

[00:24:49] Ele

[00:24:50] Faz

[00:24:51] Para

[00:24:52] As

[00:24:53] Ideias

[00:24:54] Do

[00:24:55] Movimento

[00:24:56] Que

[00:24:57] Vão

[00:24:58] Dar

[00:24:59] Forma

[00:25:00] A

[00:25:01] Esse

[00:25:02] A

[00:25:03] Esse

[00:25:04] Movimento

[00:25:05] E

[00:25:06] O

[00:25:07] Diário

[00:25:08] De

[00:25:09] Pernambuco

[00:25:10] Tem

[00:25:11] Uma

[00:25:12] Outra

[00:25:13] Importância

[00:25:14] Que

[00:25:15] É

[00:25:16] É

[00:25:17] Ele

[00:25:18] Coisas

[00:25:19] Publicavam

[00:25:20] Coisas

[00:25:21] Para

[00:25:22] Comércio

[00:25:23] Divulgaram

[00:25:24] Enfim

[00:25:25] É

[00:25:26] No Jornal

[00:25:27] É

[00:25:28] Era

[00:25:29] Um

[00:25:30] Maranhão

[00:25:31] Rio Grande

[00:25:32] Do Norte

[00:25:33] Paraíba

[00:25:34] Pernambuco

[00:25:35] Alagoas

[00:25:36] Então

[00:25:37] Gilberto Freire

[00:25:38] Começa

[00:25:39] A

[00:25:40] Defender

[00:25:41] O

[00:25:42] Nordeste

[00:25:43] Quais

[00:25:44] São

[00:25:45] Os

[00:25:46] Estados

[00:25:47] Que

[00:25:48] São

[00:25:49] Os

[00:25:50] Estados

[00:25:51] Unidos

[00:25:52] É

[00:25:53] Enfim

[00:25:54] Aqui

[00:25:55] Eu

[00:25:56] Trouxe

[00:25:57] Uma

[00:25:58] Citação

[00:25:59] Eu

[00:26:00] Estava

[00:26:01] Tentando

[00:26:02] Evitar

[00:26:03] Ao

[00:26:04] Máximo

[00:26:05] Colocar

[00:26:06] Texto

[00:26:07] Aqui

[00:26:08] Mas

[00:26:09] Tem Algumas

[00:26:10] Citações

[00:26:11] Do Gilberto

[00:26:12] Freire

[00:26:13] Que

[00:26:14] São

[00:26:15] Importantes

[00:26:16] Para

[00:26:17] Esse

[00:26:18] Conjunto

[00:26:19] De

[00:26:20] Afirmações

[00:26:21] De

[00:26:22] Brio

[00:26:23] E

[00:26:24] De

[00:26:25] Energia

[00:26:26] Construtora

[00:26:27] Pode-se

[00:26:28] Dizer

[00:26:29] Que

[00:26:30] Aqui

[00:26:31] Se

[00:26:32] Escreveu

[00:26:33] A

[00:26:34] Sangue

[00:26:35] O

[00:26:36] Sobre

[00:26:37] Escrito

[00:26:38] O

[00:26:39] Endereço

[00:26:40] Da

[00:26:41] Nacionalidade

[00:26:42] Brasileira

[00:26:43] Gente

[00:26:44] O

[00:26:45] Que

[00:26:46] EleITO

[00:26:47] Paraibana

[00:26:48] Alitir

[00:26:48] Rio Grande

[00:26:49] Do Norte

[00:26:50] Rio Grandense

[00:26:51] Maranhense

[00:26:52] Não

[00:26:53] Queria

[00:26:53] Perder

[00:26:54] Espaço

[00:26:54] Não

[00:26:55] Queria

[00:26:55] Perder

[00:26:56] Sua

[00:26:57] Força

[00:26:58] Política

[00:26:58] Então

[00:26:59] Queria

[00:27:01] Disputar

[00:27:02] Perê

[00:27:03] Identidade

[00:27:04] Nacional

[00:27:05] É

[00:27:06] Aqui

[00:27:07] Que

[00:27:07] Começa

[00:27:08] O Brasil

[00:27:09] Certo

[00:27:09] Avivou

[00:27:12] Se

[00:27:12] Aqui

[00:27:13] O Espirito

[00:27:14] Hispânico

[00:27:14] O Sentimento

[00:27:15] Católico

[00:27:16] no embate áspero com os holandeses.

[00:27:19] Aqui, padres, ideólogos e senhores de engenho

[00:27:21] conspiraram pela liberdade do Brasil

[00:27:24] numa revolução cheia de beleza e moral.

[00:27:27] Daqui, desabrocharam pelo Brasil ciências e artes da Renascença,

[00:27:32] sob a proteção liberalmente principesca de Maurício de Nassau.

[00:27:37] Daqui partiram, na voz sedutora de Joaquim Nabuco,

[00:27:41] os mais belos clamores contra a escravidão.

[00:27:44] E é no Nordeste, tão intimamente ligado aos comércios da nacionalidade,

[00:27:50] que se refugia agora, como uma vez notou Oliveira Lima,

[00:27:54] a alma do Brasil, manchada e irritada do crescente desapego

[00:27:59] a que assistem em outras partes do país,

[00:28:03] meio a ação barcadas pelos estrangeiros,

[00:28:05] aquilo que representa o tesouro das nossas reminiscências de pátria,

[00:28:10] seu aglomerado de trabalhos e de glórias.

[00:28:12] Gilberto Freire está dizendo

[00:28:15] que vocês estão aí disputando com a gente,

[00:28:23] falando que vocês são os modernos.

[00:28:27] Mas, minha gente, a gente é moderno desde Nassau.

[00:28:31] Ou seja, desde o século XVII,

[00:28:35] e o Nordeste é moderno.

[00:28:38] Que a gente aceitava religiões diferentes,

[00:28:42] a gente tinha construções aqui,

[00:28:44] pavimentava a rua, não sei o quê,

[00:28:47] tinha projeto urbanístico.

[00:28:50] A gente tinha isso muito tempo antes de vocês.

[00:28:53] Então, ele está na disputa do significado do moderno.

[00:29:01] E aí tem um texto,

[00:29:04] um outro texto do Gilberto Freire,

[00:29:07] no livro do Nordeste,

[00:29:08] que é esse daí, A Pintura do Nordeste.

[00:29:12] Ah, gente, lembrando que o livro do Nordeste é de 1925, certo?

[00:29:19] Gilberto Freire tinha chegado fazia pouquíssimo tempo dos Estados Unidos.

[00:29:24] Em 1924, ele criou o Centro Regionalista.

[00:29:29] E aí, em 1925, ele organiza esse material.

[00:29:35] E eu quis trazer essa imagem da…

[00:29:41] dessa página dupla do texto,

[00:29:44] porque eu sempre li esse texto

[00:29:47] transcrito em outro suporte,

[00:29:50] suporte sem as imagens.

[00:29:53] E aí eu acho que é importante a gente ver

[00:29:55] como esse texto foi ilustrado,

[00:29:58] para ver o que é que ele está

[00:30:01] querendo se referir,

[00:30:04] ou que imagem serve de referência para ele.

[00:30:08] Quase todas as ilustrações são de Manuel Bandeira.

[00:30:11] Essa partezinha da abertura

[00:30:16] é que eu não sei, não sei de quem é,

[00:30:19] mas acho que não é de Bandeira, não.

[00:30:23] Mas as outras são.

[00:30:26] E aqui tem uma citação desse texto que ele diz o seguinte.

[00:30:31] Os que conhecemos o processo de fábrico de açúcar nos banguês

[00:30:36] sabemos como se sucedem em verdadeiro ritmo

[00:30:39] os efeitos plásticos do trabalho de fazer açúcar

[00:30:43] à maneira tradicional da região.

[00:30:47] Não é só a entrega de cana à boca da moenda.

[00:30:50] Há ainda as figuras pretas, pardas ou amarelas,

[00:30:54] biomas que se debruçam sobre os tachos de cobre,

[00:30:57] onde se coze o mel para o agitar com as enormes colheres

[00:31:01] e para o baldear com as gingas.

[00:31:04] E ante as fornalhas, onde arde a lenha para avivar o fogo.

[00:31:08] E esses corpos…

[00:31:09] Meio-nus, em movimento, oleosos de suor se avermelham à luz das fornalhas

[00:31:16] e assumem, na tensão de algumas atitudes,

[00:31:19] relevos de estátuas de carne.

[00:31:22] Parecem de bronze.

[00:31:27] A gente está vendo que, assim, tem uma sensualidade

[00:31:33] que ele quer imprimir nos corpos das pessoas escravizadas

[00:31:39] e ele tem um momento do texto, que é uma citação que eu não trouxe,

[00:31:45] que é uma que ele fala mais ou menos assim.

[00:31:50] O Brasil escravocrata é um luxo de matéria plástica.

[00:31:59] É assim, é porque a gente não vai soltar um palavrão

[00:32:03] neste momento que não cabe.

[00:32:06] Mas, enfim, é aquela coisa que…

[00:32:09] que a gente deve problematizar do racismo de Gilberto Freire

[00:32:18] em todos os momentos.

[00:32:20] E como ele dociliza essas relações.

[00:32:31] E aí tem uma outra citação dele, mas essa eu quis trazer com imagem,

[00:32:35] que é…

[00:32:36] Nossa civilização nordestina, de senhores de engenho,

[00:32:37] Nossa civilização nordestina, de senhores de engenho,

[00:32:38] de produtores de açúcar, de trabalhadores de engenho,

[00:32:39] de produtores de açúcar, de trabalhadores de engenho,

[00:32:41] de trabalhadores de engenho,

[00:32:42] já deveria ter encontrado sua expressão plástica

[00:32:46] e a decoração mural dos edifícios públicos

[00:32:48] deveria ser a primeira a fazer sentir ao estrangeiro

[00:32:52] a plástica da economia da terra.

[00:32:56] E isso daqui é uma foto antiga do museu,

[00:32:58] do museu, do aeroporto internacional de Guararapes,

[00:33:03] do aeroporto de Recife.

[00:33:05] E esse mural está lá, é um…

[00:33:08] esse mural está lá, é um…

[00:33:08] o mural é o mural de Lula Cardoso

[00:33:10] Ares, que eu pesquisei no mestrado

[00:33:12] e aí assim

[00:33:16] Gilberto Feri defendia

[00:33:17] que a pintura se integrasse

[00:33:22] à arquitetura

[00:33:24] porque é no mural

[00:33:26] que a gente conseguiria

[00:33:28] divulgar

[00:33:30] de uma maneira

[00:33:31] mais imponente e mais

[00:33:34] universal

[00:33:35] o que é

[00:33:38] aquilo que é próprio

[00:33:40] que é telúrico

[00:33:41] que é a coisa da terra

[00:33:44] que é o que constitui

[00:33:46] a realidade

[00:33:48] e a identidade do Nordeste

[00:33:50] Esse mural

[00:33:58] não está

[00:33:59] no aeroporto hoje

[00:34:02] ele está na parte antiga

[00:34:04] do aeroporto que estava

[00:34:06] fechada, que estava se destruindo

[00:34:08] mas

[00:34:08] ontem eu vi uma matéria

[00:34:11] de que estão restaurando

[00:34:13] os murais de Lula Cardoso Ares

[00:34:16] no aeroporto

[00:34:17] na parte antiga

[00:34:19] e vão relocá-los

[00:34:20] para uma outra parte

[00:34:22] agora assim, existiam cinco

[00:34:25] murais de Lula Cardoso Ares

[00:34:27] no aeroporto

[00:34:30] e três ou dois

[00:34:32] foram destruídos

[00:34:34] esse daí eu acho que é um

[00:34:37] que é um que

[00:34:38] sobrou

[00:34:39] e existe um outro mural

[00:34:42] que hoje está escondido

[00:34:44] que é

[00:34:46] esse mural de Francisco

[00:34:48] Brenan

[00:34:49] que enfim, retrata também

[00:34:52] essa paisagem mural

[00:34:54] então

[00:34:56] para essa galera, para o movimento

[00:34:58] regionalista, tradicionalista e

[00:35:00] a seu modo modernista do Recife

[00:35:02] o que é

[00:35:05] de identidade

[00:35:07] o que é próprio da

[00:35:08] terra, não é essa a realidade

[00:35:09] é a realidade rural

[00:35:11] é a casa do senhor de engenho

[00:35:14] da casa grande

[00:35:18] dos trabalhadores rurais

[00:35:20] é isso daí

[00:35:21] para eles, o que é

[00:35:24] o Nordeste

[00:35:25] e aí gente, é importante

[00:35:27] frisar, se não ficou claro

[00:35:30] é que

[00:35:32] essa identidade está sendo o tempo todo

[00:35:34] disputada, construída

[00:35:36] e não existe

[00:35:37] uma

[00:35:38] uma tradição

[00:35:39] que não seja inventada

[00:35:41] toda tradição, ela é inventada

[00:35:43] então, o esforço

[00:35:46] aqui para mostrar

[00:35:47] que

[00:35:48] o Nordeste

[00:35:50] não é uma realidade

[00:35:52] dada por si só

[00:35:54] o Nordeste

[00:35:57] não é uma realidade geográfica

[00:35:59] pura e simplesmente

[00:36:01] o Nordeste

[00:36:04] ele foi feito

[00:36:05] tão quanto o Nordeste

[00:36:07] resulta

[00:36:08] as outras regiões também

[00:36:09] só que o Nordeste

[00:36:11] teve essa imensa disputa

[00:36:13] esse imenso esforço

[00:36:16] de como se construir

[00:36:19] e tradições

[00:36:22] que elementos

[00:36:26] são esses que devem ser

[00:36:27] constitutivos

[00:36:29] de uma identidade

[00:36:30] certo?

[00:36:35] e aí nessa

[00:36:36] discussão

[00:36:38] do que é o moderno

[00:36:40] do que é

[00:36:42] o universal

[00:36:43] eu gosto

[00:36:45] muito de trazer

[00:36:47] essas duas imagens

[00:36:50] que é a do biscoito

[00:36:51] só massa

[00:36:51] e a da

[00:36:52] Margarina Bem TV

[00:36:54] porque

[00:36:56] aqui são dois projetos

[00:36:58] de Lula Cardoso

[00:36:58] e Aids

[00:36:59] que aí a gente tem

[00:37:02] dois elementos

[00:37:03] que são

[00:37:05] muito locais

[00:37:07] que é a

[00:37:08] Carranca

[00:37:09] e o Bem TV

[00:37:11] só que

[00:37:14] Lula Cardoso Ares

[00:37:15] vai dar

[00:37:16] para eles

[00:37:18] uma forma

[00:37:19] que não é aquela forma

[00:37:21] que o Manuel Bandeira

[00:37:22] estava dando

[00:37:23] lá na década de 30

[00:37:25] com o Manquim

[00:37:26] é uma maneira

[00:37:28] de representar

[00:37:29] que é moderna

[00:37:30] ou modernista

[00:37:32] se a gente quiser

[00:37:33] nesse ponto

[00:37:35] só que o Gilberto Feira

[00:37:36] entende

[00:37:37] que o moderno

[00:37:38] é justamente

[00:37:41] a união

[00:37:42] daquilo

[00:37:44] que é local

[00:37:45] daquilo que é telúrico

[00:37:48] que ele fala

[00:37:48] que é próprio

[00:37:50] da terra

[00:37:51] com uma linguagem

[00:37:53] formal

[00:37:54] estrangeira

[00:37:56] só que

[00:37:57] essa linguagem

[00:37:58] formal estrangeira

[00:37:59] o que vem de fora

[00:38:01] tem que estar

[00:38:02] subordinado

[00:38:04] ao que é de dentro

[00:38:05] e o moderno

[00:38:07] surge

[00:38:07] da

[00:38:08] a união

[00:38:09] desses dois elementos

[00:38:11] então em alguma

[00:38:14] em alguma das falas

[00:38:15] anteriores

[00:38:16] Ricardo falou assim

[00:38:19] que

[00:38:19] da relação do moderno

[00:38:22] com o tradicional

[00:38:23] acho que foi a fala

[00:38:24] de Solange

[00:38:25] em algum momento

[00:38:26] que

[00:38:26] que falou

[00:38:28] sobre

[00:38:28] esse

[00:38:29] sobre um

[00:38:30] um moderno

[00:38:31] que não é

[00:38:33] não foi Solange

[00:38:34] foi Edna

[00:38:34] não lembro mais

[00:38:35] de um moderno

[00:38:37] que

[00:38:37] que

[00:38:38] , não é esse moderno

[00:38:39] que a gente está acostumado

[00:38:40] a estudar

[00:38:41] pela história do design

[00:38:42] que é um moderno

[00:38:42] que seria um moderno

[00:38:43] completamente inovador

[00:38:46] e disruptivo

[00:38:48] não gosto dessa palavra

[00:38:48] mas enfim

[00:38:49] mas é um moderno

[00:38:51] que está ligado

[00:38:53] a uma coisa

[00:38:54] que é conservadora

[00:38:55] que é

[00:38:57] inclusive conservadora

[00:38:58] no sentido de

[00:38:59] tentar conservar

[00:39:01] os poderes

[00:39:03] daqueles que tinham

[00:39:04] estavam começando

[00:39:05] começando não

[00:39:05] mas que já estavam

[00:39:06] em grande parte

[00:39:07] perdendo

[00:39:08] sua

[00:39:09] sua rede de influência

[00:39:10] seu poder político

[00:39:11] e aí como agenciar isso?

[00:39:16] enfim

[00:39:16] aí o moderno

[00:39:18] para Gilberto Freire

[00:39:19] surge aí

[00:39:20] nessa relação

[00:39:22] e como uma estratégia

[00:39:25] para

[00:39:25] para que

[00:39:26] a elite daqui

[00:39:28] possa se dizer

[00:39:29] moderna

[00:39:30] e dizer que tem condições

[00:39:31] de continuar comandando

[00:39:34] aqui é uma imagem

[00:39:38] de que eu gosto muito

[00:39:39] acho que é talvez

[00:39:40] a obra de

[00:39:42] Lula Cardoso Aires

[00:39:44] que eu gosto demais

[00:39:45] que é desses trabalhadores

[00:39:48] jurados

[00:39:48] mas assim

[00:39:49] eu gosto

[00:39:49] muito porque

[00:39:51] pela forma

[00:39:53] como ele

[00:39:53] que ele trabalha

[00:39:54] pelos bonequinhos

[00:39:55] a influência dos bonequinhos

[00:39:56] de barro

[00:39:58] gosto muito

[00:39:59] pela geometria

[00:40:00] que ele

[00:40:00] que ele

[00:40:01] que ele trabalha

[00:40:03] acho que é

[00:40:03] nesse momento

[00:40:04] na década de 40

[00:40:06] que Lula Cardoso Aires

[00:40:08] aparece como

[00:40:09] um

[00:40:10] um

[00:40:10] um artista

[00:40:13] maduro

[00:40:14] e aí eu

[00:40:18] teve a exposição

[00:40:19] do Lula Cardoso Aires

[00:40:21] lá no

[00:40:21] lá

[00:40:22] na galeria Marco Zero

[00:40:24] lá em Boa Viagem

[00:40:25] e

[00:40:27] acho que essa

[00:40:29] essa não estava

[00:40:29] não estava lá

[00:40:30] mas aí depois eu mandei

[00:40:32] para

[00:40:32] para Ricardo

[00:40:34] e Ricardo

[00:40:35] mandou isso daqui

[00:40:36] né

[00:40:38] como

[00:40:38] como

[00:40:39] eu tinha percebido

[00:40:41] num outro cartaz

[00:40:41] que eu vou mostrar

[00:40:42] que havia

[00:40:43] determinada influência

[00:40:44] do construtivismo

[00:40:45] na

[00:40:46] na

[00:40:46] maneira como

[00:40:48] Lula

[00:40:49] compunha

[00:40:50] alguns de seus trabalhos

[00:40:51] mas aí

[00:40:52] quando o Ricardo

[00:40:53] mandou isso daqui

[00:40:54] eu fiquei muito chocado

[00:40:54] porque é muito normal

[00:40:56] essa

[00:40:56] essa

[00:40:57] essa influência

[00:40:59] esse sentido de unidade

[00:41:00] através da fila

[00:41:01] né

[00:41:01] que

[00:41:02] que os

[00:41:04] soviéticos

[00:41:05] conseguiam dar

[00:41:06] se bem que aqui

[00:41:07] nem é tanto

[00:41:07] mais do construtivismo

[00:41:08] né

[00:41:09] que já é mais do

[00:41:10] do realismo russo

[00:41:11] mas enfim

[00:41:12] tem essa

[00:41:13] essa lógica

[00:41:14] da

[00:41:15] da unidade

[00:41:16] da filinha

[00:41:17] né

[00:41:18] daí precisa

[00:41:18] de seus trabalhadores

[00:41:19] todos organizados

[00:41:20] em fila

[00:41:21] a passar essa ideia

[00:41:22] de

[00:41:23] de potência

[00:41:24] né

[00:41:24] de força

[00:41:25] e

[00:41:27] e aí tem esse cartaz

[00:41:29] né

[00:41:30] que é o

[00:41:30] Congresso de Salvação

[00:41:32] do Nordeste

[00:41:32] de 55

[00:41:33] que aí tem

[00:41:35] um trabalhador

[00:41:36] rural

[00:41:36] que tá com

[00:41:37] um cacto

[00:41:38] mas que tem

[00:41:39] uma indústria

[00:41:40] atrás

[00:41:40] tem

[00:41:41] tem essas

[00:41:42] redes de transmissão

[00:41:43] elétrica

[00:41:44] e

[00:41:45] tá

[00:41:46] nessa

[00:41:48] composição

[00:41:49] assim

[00:41:49] moderna

[00:41:50] e como

[00:41:51] construir isso

[00:41:52] né

[00:41:52] ao mesmo tempo

[00:41:53] tem um

[00:41:54] um lettering

[00:41:56] aí

[00:41:56] que traz

[00:41:57] essa manualidade

[00:41:58] ou seja

[00:41:59] tá

[00:41:59] um dos mundos

[00:42:00] aí

[00:42:00] é

[00:42:02] aí uma coisa

[00:42:03] assim que eu falei

[00:42:04] agora moderno

[00:42:05] não falei

[00:42:05] modernista

[00:42:07] é

[00:42:07] , é porque o Gilberto Freire diz um negócio

[00:42:10] que ele entende

[00:42:12] o modernismo

[00:42:13] aquilo que se cristalizou

[00:42:19] e ele vê o moderno

[00:42:24] como aquilo que tá ali

[00:42:25] sempre experimentando

[00:42:26] e pra ele

[00:42:28] Lula Cardoso

[00:42:29] experimentando

[00:42:33] por isso que eu não chamo

[00:42:35] de Lula de

[00:42:36] de Lula

[00:42:36] de Lula de Lula

[00:42:37] de modernista

[00:42:38] mas

[00:42:39] no âmbito maior

[00:42:40] do contexto maior

[00:42:41] a gente

[00:42:41] claro que a gente pode

[00:42:42] a gente pode chamá-lo

[00:42:44] é

[00:42:45] e pra terminar

[00:42:46] é

[00:42:48] eu queria colocar

[00:42:50] que essa

[00:42:50] realidade

[00:42:52] de

[00:42:54] união

[00:42:55] dos estados

[00:42:58] pra construção

[00:43:00] de um interesse

[00:43:01] em comum

[00:43:01] superando

[00:43:02] um provincialismo

[00:43:04] e entendendo

[00:43:05] os interesses

[00:43:06] comuns

[00:43:07] de um

[00:43:07] uma região não ficou para trás, certo?

[00:43:13] Isso é algo que ainda existe, agora

[00:43:17] agenciando outros interesses e aqui

[00:43:23] num contexto em que a democracia estava

[00:43:27] sob ataque e que a região nordeste estava

[00:43:30] de fato sob ataque, os estados do

[00:43:35] nordeste se organizaram e montaram um

[00:43:40] consórcio. E aí se a gente olhar para

[00:43:44] essa marca, a gente vai olhar a quantidade

[00:43:47] de linhas que existem aí, são exatamente

[00:43:50] nove linhas que é a quantidade de estados

[00:43:54] do nordeste, certo? Mas quando eu vejo

[00:43:58] esse mapa, esse mapa não, essa

[00:44:01] marca, eu só consigo me lembrar

[00:44:05] disso daqui, que é a divisão do mapa do

[00:44:10] Brasil nas capitanias hereditárias, enfim,

[00:44:15] são coisas que vão e que voltam, os

[00:44:19] discursos estão aí rolando, seja

[00:44:21] intencionalmente ou não, as referências

[00:44:24] existem, mas enfim, é nas disputas

[00:44:30] que as coisas, que as realidades são feitas, e que as

[00:44:35] as realidades são feitas, e que as realidades são feitas, e que as

[00:44:35] realidades são feitas, e que as realidades são feitas, e que as

[00:44:35] região existe

[00:44:36] e uma outra

[00:44:39] coisa que eu queria

[00:44:41] falar

[00:44:42] não sei se vocês leram o texto

[00:44:45] mas é como eu concluo o texto

[00:44:47] que Gilberto Freire

[00:44:52] precisava dos artistas

[00:44:56] talvez até na minha dissertação

[00:45:01] eu tenha cometido

[00:45:02] esse equívoco

[00:45:05] de falar que

[00:45:07] a arte era reflexo das ideias

[00:45:11] do Gilberto Freire

[00:45:14] mas elas não eram reflexo

[00:45:17] elas estavam

[00:45:19] ajudando a construir essas ideias

[00:45:21] as ideias de Gilberto Freire eram feitas

[00:45:27] por essas imagens, por essa produção

[00:45:29] e essa produção também era feita

[00:45:31] pelas ideias

[00:45:32] então

[00:45:32] os intelectuais estavam

[00:45:35] se

[00:45:35] fazendo todos ali

[00:45:37] naquele momento

[00:45:38] e continuaram a se fazer

[00:45:40] durante o século XX

[00:45:42] enquanto estiveram vivos

[00:45:44] e continuam

[00:45:46] nos fazendo hoje em dia

[00:45:48] uma das coisas

[00:45:51] importantes da gente

[00:45:52] reter também

[00:45:53] da discussão

[00:45:56] é que para além

[00:45:59] da política e para além

[00:46:01] dos interesses econômicos

[00:46:03] a construção da região

[00:46:05] construção das imagens do Nordeste

[00:46:08] a construção do próprio Nordeste

[00:46:09] se dá

[00:46:10] sobretudo

[00:46:12] na cultura

[00:46:13] sem a cultura não haveria Nordeste

[00:46:17] certo?

[00:46:20] nós somos nordestinos

[00:46:23] e nós nos nordestizamos

[00:46:26] na cultura

[00:46:27] certo?

[00:46:29] e essa cultura também

[00:46:30] ela não está

[00:46:31] ela não é fixa

[00:46:33] essa identidade

[00:46:34] de cultura

[00:46:34] não é fixa,

[00:46:37] ela está o tempo inteiro

[00:46:38] sendo remodelada,

[00:46:41] agenciada,

[00:46:43] articulada, trocada,

[00:46:45] e a gente vai se construindo

[00:46:47] de acordo com o tempo.

[00:46:50] Certo?

[00:46:51] É isso, gente.

[00:46:52] Eu espero que vocês tenham entendido.

[00:46:55] Se não entenderam, a gente discute

[00:46:57] agora.

[00:46:58] Eu vou parar aqui a apresentação.

[00:47:02] Vocês estão aí? Eu não caí, por favor.

[00:47:05] Estamos, sim.

[00:47:07] Eu vou parar.

[00:47:09] O silêncio é

[00:47:11] um negócio muito chato, né, gente?

[00:47:12] É muito chato.

[00:47:13] Esse par sozinho.

[00:47:18] Parabéns,

[00:47:19] professor. Eu adorei

[00:47:21] a sua apresentação.

[00:47:25] Certamente

[00:47:25] estaríamos recebendo

[00:47:27] uma salva de palmas agora, porque

[00:47:29] ele é,

[00:47:31] assim, eu acho muito importante

[00:47:33] a

[00:47:34] porque a gente, na última,

[00:47:37] no nosso último encontro,

[00:47:39] a Rafaela

[00:47:40] falou sobre o conceito

[00:47:42] da visualidade,

[00:47:45] pelo Jonathan Crary.

[00:47:49] E, assim,

[00:47:49] o Jonathan Crary,

[00:47:51] ele tem uma visão,

[00:47:54] embora ele seja,

[00:47:55] eu não sei o nome, ele é inglês

[00:47:57] ou é norte-americano, não me lembro,

[00:47:59] mas é uma visão muito eurocêntrica, assim,

[00:48:01] o que ele está falando sobre

[00:48:03] o que é o fenômeno

[00:48:04] na Europa e, talvez, um pouco

[00:48:07] nos Estados Unidos,

[00:48:09] mas do Norte. E aí você está

[00:48:11] trazendo, sem dúvida, o que eu

[00:48:13] chamaria uma análise

[00:48:14] sobre a questão da visualidade, onde você está, no fundo,

[00:48:17] analisando historicamente,

[00:48:20] fazendo um cruzamento entre o discurso

[00:48:21] e a história, vamos dizer assim, eu acho.

[00:48:23] Que é um pouco que, se eu fosse

[00:48:25] simplificar o que é que é a ideia

[00:48:27] da visualidade, eu acho que tem

[00:48:29] essa, que eles até usaram, essa arqueologia,

[00:48:32] de você voltar,

[00:48:33] e observar a arqueologia

[00:48:35] dos discursos, de certa maneira.

[00:48:38] E eu acho

[00:48:40] que a gente poder fazer isso

[00:48:41] para pensar, porque ficou muito claro

[00:48:43] na tua apresentação, e você falou

[00:48:45] explicitamente, que a gente não está falando

[00:48:47] tanto do Nordeste, assim.

[00:48:50] Na realidade, a gente está falando sobre

[00:48:51] a criação da identidade

[00:48:53] de brasilidade,

[00:48:55] onde o Nordeste

[00:48:57] tem um papel importante.

[00:48:59] Você quer reiterar alguma coisa sobre isso,

[00:49:01] ou eu fico aqui falando?

[00:49:02] Não, tem uma coisa que aí,

[00:49:04] já que você falou

[00:49:05] da fala de Rafa Sarim

[00:49:08] na semana passada,

[00:49:11] na outra semana,

[00:49:12] é que o Nordeste

[00:49:17] só é possível

[00:49:18] a partir de um determinado

[00:49:21] momento. Daquela discussão

[00:49:22] que ela fala, que tem os dois tipos,

[00:49:24] os dois regimes de visualidade.

[00:49:27] O Nordeste

[00:49:29] só é possível

[00:49:30] em um determinado regime de visualidade.

[00:49:32] E é a modernidade.

[00:49:35] Então, o Nordeste,

[00:49:36] enquanto região,

[00:49:38] ele só é uma invenção moderna.

[00:49:42] Porque as coisas que estão sendo,

[00:49:44] os discursos que estão sendo elaborados,

[00:49:46] os discursos, tanto visuais

[00:49:48] quanto verbais,

[00:49:51] eles estão sendo

[00:49:52] articulados e elaborados e

[00:49:54] difundidos e dispersados

[00:49:56] naquele

[00:49:58] determinado momento.

[00:49:59] E vai, eles vão

[00:50:01] sobreviver ainda, de alguma maneira,

[00:50:04] nessa dispersão,

[00:50:06] você pega uma coisinha aqui,

[00:50:07] uma coisinha ali,

[00:50:09] e é essa coisinha aqui, essa coisinha ali,

[00:50:11] que vão ajudando a conformar

[00:50:13] o Brasil.

[00:50:16] Exatamente.

[00:50:17] O Nordeste, mas aí é a disputa

[00:50:19] pra ver quem que é, qual que é

[00:50:21] o Brasil brasileiro.

[00:50:23] Pois é, esse que eu acho o tema interessante,

[00:50:27] eu cresci,

[00:50:28] você pode fazer um pouquinho de coisa minha,

[00:50:30] assim, eu cresci com a minha

[00:50:31] mãe muito preocupado com essa questão,

[00:50:33] a professora Edna Cunha Lima,

[00:50:34] que você até citou rapidamente na tua apresentação.

[00:50:38] E ela sempre estava discutindo

[00:50:39] o que que é a identidade brasileira.

[00:50:43] Eu acho interessante que, na época que ela

[00:50:45] começou a fazer essa pergunta,

[00:50:47] não haviam tantos dados pra gente poder

[00:50:49] responder essa pergunta, e hoje

[00:50:51] o teu trabalho, ele representa

[00:50:53] uma certa maturidade,

[00:50:55] maturação,

[00:50:58] uma maturação, vamos dizer assim,

[00:51:00] uma maturidade,

[00:51:01] uma maturização, de uma certa consciência

[00:51:05] da visualidade brasileira.

[00:51:07] Então, a gente está começando a poder

[00:51:09] discutir melhor o que que é esse conceito

[00:51:11] de brasilidade, e você mostrou muito bem

[00:51:14] que o Nordeste vem nessa contribuição

[00:51:17] pra dizer o seguinte, olha,

[00:51:20] se for o Brasil não pode ser

[00:51:24] o Brasil para o inglês ver.

[00:51:26] É mais ou menos isso.

[00:51:27] Esse é que é o ponto que talvez o Gilberto Freire e outros

[00:51:31] estão tentando trazer.

[00:51:32] Você acha que faz um certo sentido isso?

[00:51:33] Quer dizer, a gente não vai ser pautado

[00:51:35] por que que é Brasil,

[00:51:37] por um cartão postal que eu mandei pra um gringo ver.

[00:51:41] Então, assim, eu acho que o Nordeste pauta isso.

[00:51:44] Várias regiões e vários intelectuais estão pautando

[00:51:49] na modernidade, pela sua apresentação eu senti isso.

[00:51:52] O que que é o Brasil?

[00:51:54] O que que é o Brasil?

[00:51:55] Aí o Nordeste vem assim, olha, não vai ser o que é

[00:52:01] o que é considerado o Brasil pelo estrangeiro.

[00:52:06] E também, se tem alguém que tem, vamos dizer assim,

[00:52:10] credibilidade pra falar sobre isso,

[00:52:13] é a região que preservou muito das tradições brasileiras.

[00:52:19] Isso é verdade, viu?

[00:52:21] Se eu posso dizer pra você, quando eu fui pro Rio de Janeiro,

[00:52:23] eu percebi que o carnaval,

[00:52:25] com muito amor que eu tenho pro Rio de Janeiro, tá?

[00:52:28] Mas se você fazer um contraste com Recife, tá?

[00:52:30] Morei muitos anos no Rio de Janeiro, carioca.

[00:52:32] Tem um lado meu que é carioca.

[00:52:34] É sotaque, quase.

[00:52:36] Tem um pouquinho ainda do sotaque carioca, é verdade, assim.

[00:52:38] Ficou uma mistura de brasilidade aqui.

[00:52:42] Tô me sentindo a música do Chico Buarque.

[00:52:45] E aí, quando você chega no Rio de Janeiro,

[00:52:51] o carnaval define muito da cultura do Rio,

[00:52:55] mas nos últimos anos, nos últimos anos,

[00:52:57] eu diria dos anos 2000 pra cá,

[00:52:59] tem tido um esforço de tentar resgatar, vamos dizer assim,

[00:53:05] conceitos e ideias do que que seja o Rio de Janeiro

[00:53:08] que não estão presos a essa ideia do Rio de Janeiro

[00:53:10] como um lugar turístico.

[00:53:12] Porque o turismo também, ele tem uma maneira de fazer

[00:53:15] e transformar o conceito de identidade cultural do lugar.

[00:53:21] Por exemplo, a Inglaterra é o Sherlock Holmes,

[00:53:23] é o Big Ben, sabe como é que é?

[00:53:25] Londres é isso, tá entendendo?

[00:53:27] Quer dizer, pros londrinos, certamente não.

[00:53:29] Então, assim, e aí o Nordeste, assim, cara,

[00:53:32] mas se você tem que procurar um lugar onde as tradições estão preservadas,

[00:53:35] vem aqui pro Nordeste, que você vai conhecer.

[00:53:37] E muitas pessoas vieram, né?

[00:53:39] Especialmente os artistas modernistas, né?

[00:53:41] Pelo teu negócio.

[00:53:43] Você acha que faz sentido isso?

[00:53:45] Faz.

[00:53:47] Quando você falou do cartão postal, não é que eu possa…

[00:53:51] O Brasil não é aquilo que…

[00:53:54] O Brasil também é isso.

[00:53:56] Não, mas é…

[00:53:58] Se for um cartão postal, que seja daqui.

[00:54:00] Exatamente.

[00:54:02] Mas aí o problema é o seguinte,

[00:54:04] se for daqui, vai ser o cartão postal da identidade turística?

[00:54:09] Ou vai ser…

[00:54:11] É, essa aqui também é uma questão, porque o Rio de Janeiro,

[00:54:13] o que eu tô dizendo, um das questões do Rio de Janeiro

[00:54:15] é que existe uma pauta muito forte

[00:54:18] que é ligada ao turismo, né?

[00:54:22] Não, mas aí a gente volta pra aquela…

[00:54:25] Pra aquela questão do estereótipo, né?

[00:54:29] Assim, a gente…

[00:54:31] O mercado precisa criar estereótipos

[00:54:34] pra conseguir alavancar um produto.

[00:54:36] E nesse momento que a gente tem o turismo como

[00:54:40] um ator importante

[00:54:43] pra conseguir

[00:54:46] gente pra cá,

[00:54:49] ou pros lugares,

[00:54:51] alguma coisa vai ter que ser…

[00:54:53] Vai ter que virar um símbolozinho mais forte

[00:54:57] que é o estereótipo, é a cara daquele lugar.

[00:55:00] Ontem eu fui pra Curitiba

[00:55:03] em 2015, sei lá.

[00:55:08] Foi 2015.

[00:55:10] E eu adorei um negócio

[00:55:12] que eram os chaveirinhos de metal

[00:55:16] com algumas coisas que eram da cidade.

[00:55:21] Aí tinha o pinhão, né?

[00:55:23] Um pinhãozinho.

[00:55:25] E eram coisas muito geométricazinhas.

[00:55:27] Era tudo muito bonitinho, assim.

[00:55:28] Era um chaveirinho de metal

[00:55:30] com esse negocinho todo geométrico, desenhado.

[00:55:32] Que aqui é um piso.

[00:55:34] Então, assim, alguns elementos vão acabar

[00:55:36] se tornando representativos daquele lugar.

[00:55:38] A gente tem Recife que, sei lá, coloca a sobrinha de frevo.

[00:55:42] Tem lá o Eu Amo Recife, lá no Marco Zero.

[00:55:46] O Coração é uma sobrinha de frevo.

[00:55:48] Então a gente tá sempre recorrendo

[00:55:51] a esses estereótipos e a da lógica.

[00:55:54] É, o Eu Amo Recife, eu vou dizer,

[00:55:58] não é um dos alimentos turísticos que eu mais gosto.

[00:56:01] Não, claro que não.

[00:56:03] Eu Amo Recife é quase que assim, olha,

[00:56:05] Recife, não se esqueçam que o Romero Brito

[00:56:08] também é nordestino.

[00:56:11] É isso que o Eu Amo Recife me lembra.

[00:56:13] Porque ele é muito mais aquele tipo de brasilidade

[00:56:16] cheio de cor, que parece o pop art e tal.

[00:56:19] Aham.

[00:56:20] Do que o do Romero Brito, do que necessariamente.

[00:56:22] E o Romero Brito é também um elemento,

[00:56:26] se a gente fosse fazer agora uma análise pós-moderna

[00:56:30] da visualidade brasileira,

[00:56:32] o Romero Brito teria que ser muito considerado.

[00:56:35] Porque ele conseguiu forjar parte do que é a identidade brasileira.

[00:56:40] Se é a identidade que eu gostaria de pendurar na minha parede,

[00:56:43] aí é outra questão.

[00:56:47] Definitivamente não.

[00:56:49] Pois é, mas aí é aquela coisa assim.

[00:56:51] Talvez até para os gringos seja estranho para eles

[00:56:53] a gente não se identificar com o Romero Brito.

[00:56:57] Que talvez para eles seja…

[00:56:58] Ah, mas isso é o Brasil, né?

[00:57:00] Para eles, né?

[00:57:01] Acho interessante essa coisa, né?

[00:57:03] Dessa…

[00:57:05] É uma…

[00:57:06] Teve uma hora que o Daniel Portugal,

[00:57:09] na apresentação dele sobre design, né?

[00:57:12] Que ele fala assim…

[00:57:13] A pessoa perguntou, o que é design?

[00:57:14] Então, você está dizendo que design não é isso, design não é aquilo.

[00:57:16] Então, o que que…

[00:57:17] A gente precisa de definição de design.

[00:57:18] Você falou, não, não tem definição de design.

[00:57:20] Porque existe uma constante disputa

[00:57:22] por conceituação, né?

[00:57:25] Então, o que que você sente sobre isso

[00:57:27] em relação à identidade brasileira,

[00:57:29] ou exatamente nordeste, assim?

[00:57:31] É, nordeste não se define, gente.

[00:57:32] Porque não tem esse elemento.

[00:57:34] Porque é isso.

[00:57:36] E é o que o Duval…

[00:57:40] Gente, o Duval é desse livro aqui, ó.

[00:57:42] Estou falando aqui, ó.

[00:57:43] Parece que eu sou íntimo dele, né?

[00:57:45] Mas é o Duval Muniz de Albuquerque Júnior.

[00:57:46] É o Duval Muniz de Albuquerque Júnior.

[00:57:47] É a invenção do nordeste.

[00:57:50] É…

[00:57:53] O que é que ele está dizendo, gente, ó?

[00:57:55] Não existe uma identidade

[00:58:00] que seja um algo natural, uma essência.

[00:58:03] Não existe essa essência.

[00:58:06] Não tem, né?

[00:58:08] O que a gente está fazendo

[00:58:12] vai se construindo o tempo inteiro

[00:58:15] através de alguns elementos

[00:58:16] que a gente vai considerar,

[00:58:18] que hora vai considerar,

[00:58:19] que hora não vai considerar.

[00:58:20] E aí, que elementos são esses?

[00:58:22] Aí, cada um que coloca os elementos que gosta mais.

[00:58:25] Por A ou B motivo.

[00:58:28] E vamos.

[00:58:30] E a gente vai indo.

[00:58:32] A gente vai se construindo nesse rolê.

[00:58:35] Aí eu estou falando que…

[00:58:42] Não existe essa…

[00:58:44] Uma deitada…

[00:58:45] Não existe uma essência nordestina,

[00:58:48] mas eu vou mostrar a contradição do ser humano,

[00:58:51] que é a camisa que eu estou usando.

[00:58:55] Que aí eu vim de propósito com ela.

[00:58:57] O nordeste maior com o seu preconceito.

[00:58:59] Muito bom.

[00:59:02] É só para quem estiver ouvindo o podcast.

[00:59:05] É uma…

[00:59:08] É um mapa do nordeste e está conformado dentro dele

[00:59:12] esse texto.

[00:59:13] O nordeste é maior do que qualquer preconceito.

[00:59:15] É muito bonito o caminho.

[00:59:16] É, eu acho essa camisa linda, gente.

[00:59:18] Olha, gente, aqui não tem neutralidade não, certo?

[00:59:24] Não, é tudo…

[00:59:27] Eu sou uma pessoa muito suspeita de não poder falar do nordeste.

[00:59:31] E mais suspeita de não poder falar do Gilberto.

[00:59:35] Com certeza.

[00:59:36] E olha que você meteu o pau nele também.

[00:59:38] Não, eu sou super crítico dele, minha gente.

[00:59:41] Mas enfim, eu sou recifense.

[00:59:42] E quem foi o intelectual que jogou o Recife lá para cima?

[00:59:45] Foi o José que saiu do discurso.

[00:59:49] A gente poderia falar de Ariano.

[00:59:51] Mas antes de falar de Ariano, que esse assunto está meio no ar,

[00:59:54] a professora Bárbara falou aqui

[00:59:55] que a tradição carioca forte raiz no carnaval.

[00:59:59] A Carioca é Clóvis, bate bola.

[01:00:03] O turista não vê isso.

[01:00:05] Bárbara, você tem como entrar aí

[01:00:07] para falar um pouco sobre a questão,

[01:00:09] esse ponto que você está falando?

[01:00:11] É que eu achei interessante essas visões do carnaval.

[01:00:14] como que é voltada para o turista,

[01:00:17] o que é, digamos, o consumo interno,

[01:00:19] é que acho que o Rio de Janeiro,

[01:00:21] como a maioria das cidades,

[01:00:24] como o Zona Inventora diz,

[01:00:25] na cidade partida,

[01:00:27] que tem tradições que a zona sul do Rio

[01:00:30] já não conhece, por exemplo.

[01:00:33] Você vai na zona sul do Rio, o carnaval é um.

[01:00:36] Você vai na periferia, é outro.

[01:00:40] Bem diferente.

[01:00:41] E os turistas não vão na periferia.

[01:00:43] No subúrbio do Rio.

[01:00:46] E a tradição, digamos,

[01:00:48] o trauma coletivo do carioca é o bate-bola.

[01:00:52] Todo mundo que é da Zona Norte, Zona Oeste, subúrbio,

[01:00:57] cresceu com medo de bate-bola,

[01:00:59] porque, não sei se vocês conhecem,

[01:01:01] são os caras que se vestem,

[01:01:03] se cobrem totalmente,

[01:01:04] e com uma máscara,

[01:01:07] e ficam com umas bolas batendo.

[01:01:10] E quando sai um grupo de bate-bola,

[01:01:12] de covas,

[01:01:13] é um negócio sensacional,

[01:01:14] com fogos de artifício,

[01:01:15] eles saem tocando terror pelo bairro.

[01:01:18] É uma coisa muito forte no Rio de Janeiro,

[01:01:20] no subúrbio.

[01:01:22] E que, você vê,

[01:01:23] o Ricardo morou aqui um tempo,

[01:01:25] nunca deve ter visto um bate-bola,

[01:01:27] porque morava na Zona Sul.

[01:01:29] Então, acho interessante pensar

[01:01:31] que tem essa identidade

[01:01:33] que é do consumo doméstico

[01:01:37] e, digamos, das elites

[01:01:39] ou dos turistas.

[01:01:42] E que tem coisas,

[01:01:43] da identidade carioca, visual,

[01:01:45] que é, por exemplo,

[01:01:45] calçada de pedra portuguesa,

[01:01:48] que aí, na cidade inteira mesmo,

[01:01:50] é um horror.

[01:01:51] Esses dias está chovendo,

[01:01:52] a gente fica escorregando pela cidade toda,

[01:01:54] porque é uma calçada…

[01:01:56] Ele acumula sujeira no espaço nosso.

[01:02:01] E assim, o cachorro tem que lavar constantemente.

[01:02:04] E aí você gasta água com aquilo.

[01:02:07] E que é uma coisa,

[01:02:08] realmente, como o nome diz,

[01:02:09] é muito português.

[01:02:11] Então, a identidade carioca

[01:02:13] é uma coisa, assim,

[01:02:14] eu fui entender o quanto o Rio de Janeiro é português

[01:02:17] quando eu fui em Lisboa.

[01:02:19] Então, cheguei em Lisboa e falei assim,

[01:02:20] isso aqui é Copacabana,

[01:02:22] isso aqui é o centro,

[01:02:23] isso aqui é São Cristóvão.

[01:02:24] Como muita coisa do Rio é Portugal.

[01:02:29] Então, eu acho que a gente tem essa herança

[01:02:33] de ter sido capital do império,

[01:02:37] de ter recebido muitos portugueses desde então,

[01:02:40] que muito da nossa identidade não é tão nossa,

[01:02:43] assim, de certa forma,

[01:02:44] mas acabou virando nossa e de se misturar.

[01:02:48] Tem uma certa sensação quando a pessoa vai para Lisboa

[01:02:53] de estar visitando um bairro brasileiro,

[01:02:55] assim, desculpe se estiver português presente,

[01:02:58] mas para a gente, a gente sente como se estivesse visitando um bairro brasileiro.

[01:03:01] Ora lembra Olinda para a gente aqui em Recife,

[01:03:04] ora lembra Santa Teresa também no Rio de Janeiro.

[01:03:08] Parece que você está vendo um Recife, um Rio de Janeiro antigo.

[01:03:13] É, mas assim, as espadarias de lá são as espadarias daqui.

[01:03:17] Realmente é muito forte a presença portuguesa.

[01:03:21] Então, digamos que temos os conflitos, assim,

[01:03:25] de o quanto a nossa identidade, na verdade, é imperialista.

[01:03:28] Então, aquela coisa de o nosso dia da independência,

[01:03:31] na verdade, é o 15 de novembro, mais ou menos,

[01:03:34] porque o dia de independência foi passar de um português para o outro.

[01:03:38] Então, eu acho que no Rio de Janeiro a gente ainda tem muito isso,

[01:03:41] entendeu?

[01:03:42] Uma certa luta contra negar o lado português.

[01:03:47] Acho que não tem muito jeito.

[01:03:48] A gente apropriou e acabou sendo a nossa cara mesmo.

[01:03:52] Só fazer um ponto sobre isso, que um amigo muito querido nosso,

[01:03:56] que é o Rafa Castro, meu e da Bárbara,

[01:03:59] que, eu não sei se ele é…

[01:04:01] Ele era mais vizinho seu do que meu, né?

[01:04:04] É, ele mora aqui no estado.

[01:04:06] Ele mora a dois minutos da minha casa.

[01:04:08] Está fazendo uma exposição pequena também, inclusive.

[01:04:10] Maravilhosa.

[01:04:11] Maravilhosa a exposição do Rafa.

[01:04:14] Vou ver se eu consigo colocar o link aqui.

[01:04:16] É muito, muito lindo o trabalho dele.

[01:04:18] De trabalho de pintura e desenho.

[01:04:22] E aí, o Rafa, ele fez uma coleção de roupas,

[01:04:26] de camisetas, chamado Norde.

[01:04:29] Era Norde?

[01:04:30] Eu acho que era.

[01:04:31] E que falava sobre a identidade cultural da Tijuca,

[01:04:35] ou da Zona Norte.

[01:04:38] Exatamente tentando…

[01:04:40] Lidar com esse problema do Rio de Janeiro ser visto

[01:04:44] com esse olhar de um tipo de…

[01:04:47] Uma galera que mora na Zona Sul.

[01:04:49] Quer dizer, Copacabana.

[01:04:51] É uma idealização que não tem nada a ver com

[01:04:54] muitas outras regiões do Rio de Janeiro,

[01:04:56] que é uma cidade muito grande, né?

[01:04:58] E que o turista muitas vezes não vê, né?

[01:05:00] Isso eu acho complicado, ver dessa identidade.

[01:05:03] Até como o Rafa está falando, para o inglês ver,

[01:05:06] o que é daqui para fora, o que é nosso mesmo,

[01:05:09] é muito complicado, né?

[01:05:11] Eu, quando me perguntam, eu digo que o elemento

[01:05:15] mais identitário brasileiro é a Guaraná Jesus.

[01:05:18] Porque para mim é um negócio…

[01:05:20] Não, é um negócio que só faz sentido

[01:05:23] para quem mora no Maranhão, em São Luís, entendeu?

[01:05:27] Porque a bebida para o resto do Brasil é doce demais,

[01:05:30] é enjoativa, mas lá é uma coisa assim,

[01:05:33] que quem é de São Luís ama, entendeu?

[01:05:36] Então é sempre ótimo.

[01:05:37] O que é que é identidade brasileira?

[01:05:38] A identidade brasileira é a Guaraná Jesus,

[01:05:40] porque na realidade não existe identidade brasileira,

[01:05:43] essa é a ironia, né?

[01:05:44] Na realidade é uma coisa que está sempre…

[01:05:47] Cada região vai dizer o que é, entendeu?

[01:05:50] Não sei.

[01:05:51] Até dentro do próprio Rio de Janeiro,

[01:05:53] dentro do Rio de Janeiro você vai perguntar

[01:05:54] diferentes pessoas dentro do Rio de Janeiro,

[01:05:56] não tem identidade diferente.

[01:05:57] É, o que a Júlia está falando aqui

[01:05:58] foi construído pelas novelas da Globo.

[01:06:01] As pessoas, os brasileiros acharem

[01:06:03] que o Rio de Janeiro é a novela do Manuel Carlos, né?

[01:06:05] Que o Rio de Janeiro é o Leblon.

[01:06:07] E os estrangeiros acharem que é a Bossa Nova, né?

[01:06:10] E é uma coisa que é carioca, assim,

[01:06:13] de três bairros, quatro no máximo.

[01:06:17] Fora disso, ninguém nunca nem escuta a Bossa Nova,

[01:06:20] nunca nem ouve falar.

[01:06:22] É samba e funk, samba e funk, samba e funk.

[01:06:25] Então realmente é…

[01:06:27] Entrei, professor, entrei.

[01:06:29] A Ana colocou,

[01:06:30] carreta furacão é a identidade brasileira.

[01:06:33] E o único brasileiro é a carreta furacão, é isso.

[01:06:36] É a única coisa que une brasileiro.

[01:06:40] Que eu acho maravilhoso a carreta furacão.

[01:06:42] Gente, vamos passar a palavra.

[01:06:44] Acho que a Flávia vem primeiro e depois a Júlia.

[01:06:47] Oi.

[01:06:48] Espera aí, deixa eu ligar aqui.

[01:06:49] Obrigada.

[01:06:50] É, olá.

[01:06:51] Parabéns em primeiro lugar.

[01:06:53] Obrigada.

[01:06:54] Obrigado.

[01:06:55] É, o que você foi falando,

[01:06:56] eu fui anotando coisas assim.

[01:06:57] Algumas até você já respondeu.

[01:07:00] Que uma foi essa coisa da ideia de pureza,

[01:07:03] da ideia de origem,

[01:07:04] como é que você estava pensando aí.

[01:07:06] Isso e tal.

[01:07:07] Aí você já meio que acabou falando

[01:07:08] que não é tão puro assim, né?

[01:07:10] Não é uma expectativa de uma pureza.

[01:07:12] Que era uma coisa também que estava me batendo aqui.

[01:07:15] É…

[01:07:16] Não sei nem…

[01:07:17] São cinco pontos.

[01:07:18] Não sei nem por onde ir.

[01:07:19] É…

[01:07:21] Só dar uma contribuição.

[01:07:24] Quando você falou de esquecer para lembrar

[01:07:26] e de construção do passado,

[01:07:28] eu lembrei do Benedict Anderson.

[01:07:30] Não sei se você usa ou se você…

[01:07:32] Não, para a dissertação eu anuli não,

[01:07:35] eu não falo.

[01:07:36] É, mas ele tem um trabalho ótimo nessa coisa de…

[01:07:39] Das comunidades imaginadas, né?

[01:07:40] Exato.

[01:07:41] Exatamente.

[01:07:42] Do que você elege para você construir uma ideia.

[01:07:44] Ele fala dos estados nacionais europeus, né?

[01:07:47] Mas que tipo de coisa você elege

[01:07:49] para você construir uma versão

[01:07:51] que acaba se tornando hegemônica, né?

[01:07:53] Do que significa uma nação.

[01:07:56] Aqui tem uma discussão parecida com essa.

[01:07:59] Quer dizer, num textinho…

[01:08:03] Do Robsbaum, naquele…

[01:08:05] Num livrinho que é organizado, que é sobre história.

[01:08:08] E aí ele fala assim, ó…

[01:08:10] Quem daqui foi do…

[01:08:12] É da…

[01:08:13] Acho que é uma discussão na década de 80,

[01:08:16] um texto na década de 80, 70, sei lá.

[01:08:18] Que é assim, quem daqui é da Europa oriental

[01:08:22] já teve quatro, cinco nacionalidades.

[01:08:26] Porque aquele mapa ali…

[01:08:28] Muda de um para o outro.

[01:08:30] Muda de um para o outro.

[01:08:31] Muda de um para o outro.

[01:08:32] E aí, como é que você se define?

[01:08:33] Como é que você se define?

[01:08:34] Você é o quê?

[01:08:35] O que é que te representa, né?

[01:08:37] É.

[01:08:38] Aí, da mesma forma, você estava falando das bandeirinhas

[01:08:41] e do…

[01:08:44] Coisa do frevo.

[01:08:45] E aí eu lembrei do conceito do Arjun Apadurai,

[01:08:48] que é o essencialismo estratégico.

[01:08:49] Quando você pega o estereótipo a seu favor.

[01:08:52] Você fala, realmente, eu sou…

[01:08:54] Eu sou a bandeirinha do…

[01:08:56] E isso se torna uma bandeira, né?

[01:08:58] Isso se torna…

[01:08:59] Mas, assim…

[01:09:01] Uma subversão do preconceito pelo próprio preconceito.

[01:09:04] Ah, é?

[01:09:05] Então, vamos de frevo.

[01:09:07] Vamos de sombrinha.

[01:09:08] Eu vou deixar o mais periclitante por último aqui.

[01:09:12] Só para estimular que eu falo do Rio de Janeiro também.

[01:09:15] A minha família inteira é de Santa Catarina.

[01:09:17] Então, meu lugar de fato aqui eu tenho que explicitar.

[01:09:21] Mas no aeroporto de Florianópolis tem o mesmo problema

[01:09:24] com o mural do Assis.

[01:09:26] Assis com H.

[01:09:27] Que é um artista local.

[01:09:29] É.

[01:09:30] Mas aí são rendeiras.

[01:09:32] São pessoas jogando tarrafa.

[01:09:34] Mas está acontecendo a mesma coisa.

[01:09:36] Estava no terminal antigo e não se sabe.

[01:09:39] E agora, assim…

[01:09:41] Que peso você dá para Gilberto Freire no seu trabalho?

[01:09:45] Você bota ele embaixo do braço?

[01:09:47] Você abrande, assim, a capa do livro?

[01:09:51] Ou você problematiza as relações políticas dele?

[01:09:54] De como ele…

[01:09:56] Situa ele no moderno brasileiro?

[01:09:59] E quais as relações dele com o Estado Novo brasileiro?

[01:10:04] Com o Estado Novo português?

[01:10:06] Eu fiz uma dissertação sobre literatura colonial.

[01:10:09] Mestrado, né?

[01:10:10] Portuguesa.

[01:10:12] E eu tinha algumas questões quando eu tocava nesse assunto.

[01:10:16] Pelo que o Salazar fez com ele.

[01:10:19] Essa ideia da mestiçagem foi muito útil nesse caso.

[01:10:23] Construir a ideia de um império.

[01:10:28] Português, né?

[01:10:29] Através da mistura e tal.

[01:10:31] E ele foi super útil, vamos dizer assim.

[01:10:34] E ele também foi muito bom em termos de divulgação do trabalho e tal.

[01:10:39] Então, pelo menos na orientação que eu tive,

[01:10:42] eu sempre tinha uma vozinha, literalmente,

[01:10:45] dizendo, olha, figura controversa.

[01:10:47] Tem uma importância enorme na intelectualidade brasileira e tal.

[01:10:51] Porém, nós podemos deixar de esquecer e tal.

[01:10:54] Eu queria saber se você…

[01:10:55] É, Ricardo, é polêmica mesmo.

[01:10:57] Eu deixei por último.

[01:10:59] Mas eu queria saber como você usa ele.

[01:11:02] Se você é um torcedor, assim…

[01:11:04] Não, vamos lá.

[01:11:08] Na minha pesquisa da dissertação,

[01:11:12] acho que muito, talvez, pela minha falta de maturidade da época,

[01:11:18] eu fui meio ufanista pernambucano nesse sentido.

[01:11:24] E Gilberto Freire, para quem não sabe,

[01:11:26] Gilberto Freire, para quem é pernambucano,

[01:11:28] assim, é…

[01:11:30] Isso dá a água para quem está morrendo de sede, né?

[01:11:34] Pois é, por isso que eu falei, olha, eu sou carioca,

[01:11:36] minha família é carioca.

[01:11:37] Eu sou.

[01:11:39] Mas aí, naquele momento, assim,

[01:11:42] eu pontuo algumas coisas,

[01:11:46] mas eu não faço nenhuma crítica mais contundente, não.

[01:11:51] E eu acho que isso é uma falha tremenda, absurda,

[01:11:55] da minha dissertação, certo?

[01:11:59] Porque, assim, eu faço…

[01:12:00] O que é que eu fiz na dissertação?

[01:12:02] O textinho que eu disponibilizei para a gente discutir

[01:12:07] foi o primeiro capítulo.

[01:12:09] Então, eu faço essa historiada

[01:12:14] para localizar Lula Cardoso Aires nessa…

[01:12:19] Na produção…

[01:12:20] Nesse contexto.

[01:12:21] Nesse contexto.

[01:12:23] Então, assim, eu não…

[01:12:24] Eu não fiz as críticas que deveriam ter sido feitas

[01:12:29] a Gilberto Freire na dissertação.

[01:12:34] Isso, mas, enfim, é um erro mesmo.

[01:12:37] Eu deveria ter feito.

[01:12:39] Ou não.

[01:12:40] Desde que você tome para você, tipo, olha, é isso.

[01:12:44] É uma escolha.

[01:12:46] Minha curiosidade é em relação a uma escolha feita.

[01:12:49] Na época, eu fiz uma escolha de não criticar tanto.

[01:12:53] Assim, naquele momento.

[01:12:56] Porque, como eu estava ali…

[01:12:59] Na verdade, o foco era Lula,

[01:13:03] mas uma hipótese minha da dissertação é que eu coloco assim.

[01:13:08] Lula Cardoso Aires é a melhor manifestação visual

[01:13:12] das ideias de Gilberto Freire.

[01:13:15] E, a partir da entrevista com o filho dele,

[01:13:21] o filho dele, que é o Lula Cardoso Aires filho,

[01:13:25] ele inverteu essa relação.

[01:13:27] E ele disse o seguinte.

[01:13:29] Gilberto Freire é a manifestação literária das ideias de papai.

[01:13:34] Interessante.

[01:13:36] E isso, assim, é uma chave importantíssima.

[01:13:41] Para ver como os dois, eles eram…

[01:13:44] Indissociáveis, de qualquer forma.

[01:13:46] É, eles eram indissociáveis.

[01:13:48] E…

[01:13:51] Como eu fui focando depois mais na parte visual,

[01:13:55] pegando…

[01:13:56] São esses elementos aqui que constituem esse arcabouço teórico e visual.

[01:14:02] E aí vamos discutir como é que ele trabalhava isso no design.

[01:14:06] Eu não cheguei a fazer as coisas que eu deveria ter feito.

[01:14:09] Mas tem uma coisa também,

[01:14:11] que é interessante, que eu preciso colocar, que é…

[01:14:15] Mesmo Gilberto Freire e Lula Cardoso Aires sendo indissociáveis,

[01:14:20] existe a individualidade e subjetividade de cada um deles.

[01:14:24] Eles não são iguais, eles não são a mesma pessoa, né?

[01:14:26] Então, assim, eu preciso…

[01:14:28] O Lula falou, o Lula filho falou, que o pai, por exemplo, protegeu o comunista.

[01:14:33] É uma coisa que eu não imagino Gilberto Freire fazendo.

[01:14:39] Então…

[01:14:41] Eles eram indissociáveis, mas eles não são a mesma coisa.

[01:14:46] Mas, enfim, eu não fiz a crítica.

[01:14:48] Mas hoje, se eu fosse refazer a minha dissertação,

[01:14:52] ou como o Gisela falou no começo,

[01:14:54] que ela reescreveu a dissertação dela para poder lançar num livro,

[01:14:58] eu com certeza faria.

[01:15:00] Acho que deveria ser feito.

[01:15:02] É, pode ser.

[01:15:03] Ou uma possibilidade também é você falar,

[01:15:05] olha, estou ciente das questões que existem,

[01:15:09] mas não me interessa entrar nisso, talvez.

[01:15:12] Eu tenho que fazer uma defesa aqui do…

[01:15:16] Do Freire.

[01:15:17] Não do Gilberto Freire, não.

[01:15:19] Mas que eu acho que durante essa apresentação

[01:15:21] você fez uma crítica bastante contundente a ele, né, Rafael?

[01:15:25] Olha, gente, é aquela coisa, né?

[01:15:27] Você usou um termo que eu gostei muito, que você usou,

[01:15:30] foi adocicar, não?

[01:15:32] Docilização.

[01:15:33] Docilização dos corpos.

[01:15:35] Da escravidão.

[01:15:36] Da escravidão.

[01:15:37] Na verdade, aí eu puxei isso de Gisela.

[01:15:40] Pois é.

[01:15:42] Enfim, o que Gilberto Freire faz é essa relação,

[01:15:47] construir uma relação entre os povos

[01:15:51] que constituíram o Brasil na visão dele,

[01:15:54] que os colonizadores, os brancos portugueses,

[01:15:57] os escravizados e os indígenas,

[01:16:00] é como se eles fossem irmãos, amigos

[01:16:03] que vivessem em uma pura harmonia.

[01:16:05] Não, né?

[01:16:06] Mas, por exemplo, é uma coisa da época.

[01:16:08] Você pega uma tela de Di Cavalcanti, por exemplo,

[01:16:10] você também vai achar isso.

[01:16:12] É o momento modernista.

[01:16:15] Aquilo interessava ali, né?

[01:16:16] Nos anos 50.

[01:16:18] É, mas aí hoje em dia…

[01:16:21] Mas é que hoje a gente olha de uma maneira diferente.

[01:16:24] Eu posso trazer um…

[01:16:27] Fala, por favor.

[01:16:28] Não, não é isso.

[01:16:29] Quer dizer que precisa pontuar.

[01:16:31] Não dá para colocar aquela citação, por exemplo,

[01:16:33] de Gilberto Freire, falando da plasticidade…

[01:16:35] Puro e simples.

[01:16:37] E colocar…

[01:16:38] E não dizer…

[01:16:39] Minha gente, olha o racismo que está escancarado aqui.

[01:16:42] E olha que era o cara que…

[01:16:45] Botou para frente a coisa de que a identidade nacional

[01:16:49] parte da mestiçagem.

[01:16:50] Sem dúvida.

[01:16:51] Mas em que local ele fala da mestiçagem, né?

[01:16:56] Ele não é um homem negro falando da mestiçagem.

[01:16:59] É controverso.

[01:17:01] Eu tenho um…

[01:17:03] Eu só trazer aqui para a gente…

[01:17:05] Se você quiser, Rafael, fechar esse ponto,

[01:17:08] que é o livro do Rafael Cardoso,

[01:17:11] A Modernidade em Preto e Branco,

[01:17:13] que ele tenta reler o Modernidade

[01:17:17] muito focada na relação Rio-São Paulo.

[01:17:20] Mas acho que no último capítulo ele fala um pouquinho

[01:17:23] sobre a modernidade e a importância do Nordeste na modernidade.

[01:17:27] Ele fala muito, inclusive, da fotografia

[01:17:30] como uma forma de divulgar para o resto do Brasil

[01:17:33] alguns dos estereótipos que viraram o Nordeste.

[01:17:37] Um deles é o cangaço, que a imagem do Lampião morto

[01:17:41] é uma imagem que correu o mundo inteiro.

[01:17:43] Assim como o Pão de Açúcar,

[01:17:45] os cartões postais do Pão de Açúcar

[01:17:48] viraram um símbolo do Brasil

[01:17:50] através da…

[01:17:52] Os cartões postais, até antes, eles nem eram fotográficos.

[01:17:54] Eles iam ser litográficos e tal.

[01:17:56] Eu estou supondo, gente.

[01:17:58] Não, mas aquela imagem do menino da seca,

[01:18:02] da seca de 1877,

[01:18:05] ela não serviu só para ilustrar uma matéria de jornal.

[01:18:10] Ela rodou.

[01:18:11] Ela circulou impressa por outros meios.

[01:18:14] Então, assim, essa visibilidade,

[01:18:19] para não usar visualidade…

[01:18:21] Visibilidade é um termo que o Durval usa.

[01:18:25] Ela rodou.

[01:18:28] Ela não foi construída apenas pela imprensa oficial.

[01:18:32] Ela teve outros meios.

[01:18:34] As imagens circulam de diversas maneiras.

[01:18:37] E essa circulação de imagens

[01:18:40] para além da imprensa

[01:18:43] ajuda a construir a imagem que se tem do Nordeste,

[01:18:46] que se tem do Brasil até hoje.

[01:18:48] A imagem é a realidade.

[01:18:54] É.

[01:18:56] Eu vou passar aqui para a Júlia,

[01:18:58] para ela poder fazer perguntas.

[01:19:00] Muito obrigado, viu, Flávia, pela contribuição.

[01:19:04] Isso é algo que é muito importante que tem que ser falado.

[01:19:07] De nada. Eu que agradeço.

[01:19:09] E parabéns de novo.

[01:19:11] Obrigado.

[01:19:13] Oi, Júlia.

[01:19:15] Oi, Rafael. Obrigada pela apresentação.

[01:19:19] Eu vi partes, fui meio conturbada aqui,

[01:19:22] com o meu filho pequeno hoje,

[01:19:24] querendo muito colo.

[01:19:26] Mas eu gostei bastante.

[01:19:29] E eu fiquei pensando,

[01:19:31] nesse ponto que eu até agora coloquei no chat,

[01:19:35] dessa relação

[01:19:38] estética-política,

[01:19:40] porque hoje a gente vive uma crise política

[01:19:44] que também é estética,

[01:19:46] e estética também é política.

[01:19:48] Nessa questão,

[01:19:52] até complementando um pouco dessa bibliografia,

[01:19:56] não focada exatamente no Nordeste,

[01:19:59] mas pensando nessa ideia de Brasil,

[01:20:02] tem um livro chamado

[01:20:04] A Formação das Almas,

[01:20:06] do José Morelo de Carvalho,

[01:20:08] historiador,

[01:20:10] foi da Academia Brasileira de Letras,

[01:20:12] que fala dessa formação

[01:20:14] identitária

[01:20:16] brasileira

[01:20:18] por meio de

[01:20:20] símbolos.

[01:20:22] Como que a gente construiu

[01:20:24] essa ideia de tirar dentes

[01:20:26] como figura nacional,

[01:20:28] a própria ideia da bandeira e tudo mais.

[01:20:30] Enfim, olhando numa

[01:20:32] esfera mais geral.

[01:20:34] E em diálogo com

[01:20:36] o que você apresentou,

[01:20:38] eu lembrei

[01:20:40] de um livro que eu li no ano passado,

[01:20:42] que é o Arrabalde,

[01:20:44] do José,

[01:20:46] não, João Moreira Salles,

[01:20:48] falando sobre essa ideia

[01:20:50] da Amazônia.

[01:20:52] Então, de como que a gente precisa

[01:20:54] de alguma forma ressignificar visualmente

[01:20:56] a ideia

[01:20:58] que a gente tem desse lugar,

[01:21:00] para que a gente possa amar,

[01:21:02] porque se a gente não conhece,

[01:21:04] a gente não ama.

[01:21:06] A gente não cuida.

[01:21:08] Então, é um pouco essa lógica dele.

[01:21:10] E eu fiquei muito curiosa

[01:21:12] de pensar

[01:21:14] dessa pesquisa que você fez,

[01:21:16] que é uma pesquisa

[01:21:18] histórica de uma formação

[01:21:22] de imagem,

[01:21:24] de identidade do Nordeste.

[01:21:26] O que hoje

[01:21:28] você identifica?

[01:21:30] Quais são as pistas

[01:21:32] onde procurar, além do Romero Brito

[01:21:34] que vocês brincaram,

[01:21:36] de quais são essas imagens

[01:21:38] no contemporâneo

[01:21:40] que dialogam

[01:21:42] com isso?

[01:21:44] Você não precisa me responder,

[01:21:46] nem espero que você tenha uma resposta

[01:21:48] de bate-pronto.

[01:21:50] Eu sei que você falou sério, Ricardo,

[01:21:52] mas eu fiquei pensando

[01:21:54] nisso, porque

[01:21:56] eu acho que, por exemplo,

[01:21:58] como a Bárbara Emanuel falou

[01:22:00] dessa imagem do Rio de Janeiro

[01:22:02] e eu sou carioca,

[01:22:04] obviamente,

[01:22:06] com esse sotaque,

[01:22:08] não engano ninguém que eu sou de outro lugar,

[01:22:10] mas eu fico pensando

[01:22:12] nessas imagens

[01:22:14] para exportação,

[01:22:16] porque a gente não está falando de um projeto de país.

[01:22:18] Isso é um fato.

[01:22:20] O Brasil não é construído

[01:22:22] e não foi construído

[01:22:24] em cima de um projeto de país,

[01:22:26] um projeto

[01:22:30] interno, de alguma forma,

[01:22:32] e sim um projeto para outros,

[01:22:34] para outros

[01:22:36] usarem,

[01:22:38] consumirem, visitarem,

[01:22:40] enfim.

[01:22:42] Mas eu fico

[01:22:44] pensando,

[01:22:46] hoje, o que seria

[01:22:48] esse Rio de Janeiro para exportação?

[01:22:50] A gente tem claramente

[01:22:52] marcas que falam disso,

[01:22:54] a Farm Granado,

[01:22:56] a novela do Manuel Carlos,

[01:22:58] o filme Cidade de Deus,

[01:23:00] são outras construções,

[01:23:02] embora

[01:23:04] de lugares

[01:23:06] diferentes, em disputas diferentes,

[01:23:08] mas que formam essa

[01:23:10] imagem do Rio de Janeiro,

[01:23:12] Brasil e etc.

[01:23:14] E eu fico pensando

[01:23:16] o que

[01:23:18] se está construindo

[01:23:20] dessas outras

[01:23:22] regiões.

[01:23:24] E aí eu estou colocando o Nordeste como uma coisa única,

[01:23:26] que também não é.

[01:23:28] Você está falando dessa identidade de Nordeste

[01:23:30] e até mesmo

[01:23:32] se a gente for por região,

[01:23:34] de Sudeste também, cada região é uma região.

[01:23:36] Cada estado é um estado.

[01:23:38] Só estou

[01:23:40] trazendo

[01:23:42] algumas questões

[01:23:44] e isso

[01:23:46] são temas que me interessam

[01:23:48] muito. Eu trabalhei por 15 anos

[01:23:50] com branding, então essa ideia

[01:23:52] de construir

[01:23:54] uma

[01:23:56] imagem,

[01:23:58] uma estratégia,

[01:24:00] um posicionamento, não sei o que,

[01:24:02] por meio de imagens que contam

[01:24:04] por meio dessa retórica visual,

[01:24:06] é algo que me interessa bastante.

[01:24:08] Mas, ao mesmo tempo,

[01:24:10] eu sei o quão perigoso que isso

[01:24:12] também é.

[01:24:14] Queria saber

[01:24:16] se essas outras

[01:24:18] questões,

[01:24:20] sei lá, desse recorte olhando para o

[01:24:22] contemporâneo, se isso é algo que você

[01:24:24] olha, enfim,

[01:24:26] ouvir um pouco de você.

[01:24:28] Eu não tenho olhado para o contemporâneo

[01:24:30] não, mas pensando

[01:24:32] no

[01:24:34] envolvimento

[01:24:36] até colocar como movimento,

[01:24:38] movimento cultural,

[01:24:40] pensando no Recife,

[01:24:42] eu acho

[01:24:44] que a galera do passinho

[01:24:46] é uma galera

[01:24:48] que eu não vou saber fazer

[01:24:50] passinho e também não vou saber cantar.

[01:24:54] Se soubesse, eu te esperava

[01:24:56] no TikTok.

[01:25:00] Não vai, não vai.

[01:25:02] Eu acho que é

[01:25:04] o que vem ali do movimento do brega,

[01:25:06] do tecnobrega, sendo que o tecnobrega é mais

[01:25:08] do Pará, né, norte. Mas, enfim, dessa

[01:25:10] apropriação do brega

[01:25:12] que tem

[01:25:14] sido feita nas periferias

[01:25:16] do Recife, eu acho que esse é um elemento

[01:25:18] cultural

[01:25:20] importantíssimo.

[01:25:22] A discussão que até a gente já teve com o Ricardo,

[01:25:24] Luiz e Mari, que está aqui,

[01:25:26] a gente

[01:25:28] já teve.

[01:25:34] O Recife não dá mais para viver de…

[01:25:36] Mangue Beat.

[01:25:38] Mangue Beat é um negócio,

[01:25:40] um movimento fenômeno da década de 90, que até hoje

[01:25:42] não falta muita coisa, mas

[01:25:44] não dá

[01:25:46] para só viver de

[01:25:48] Mangue Beat. Existem outras

[01:25:50] realidades aí, outras galeras

[01:25:52] que estão produzindo,

[01:25:54] mas que eu não estou por dentro.

[01:25:56] Mas, assim, eu acho que o que tem grande impacto

[01:25:58] é o brega.

[01:26:00] Eu acho que o brega

[01:26:02] recifense tem, assim, um

[01:26:04] potencial,

[01:26:06] absurdo, e uma qualidade

[01:26:08] absurda.

[01:26:10] Acho que todo mundo conhece, pronto, aquela

[01:26:12] menina,

[01:26:14] Alice Caymmi, pegou aquela

[01:26:16] Dizem que sou louca, fora de

[01:26:18] contribuição. É um brega recifense, aquilo dali,

[01:26:20] maravilhoso.

[01:26:22] E, enfim,

[01:26:24] o brega recifense tem, deu

[01:26:26] uma

[01:26:28] uma mexida, eu acho que precisa, inclusive,

[01:26:30] ser muito mais valorizado.

[01:26:32] Mas,

[01:26:34] assim, plástica, assim,

[01:26:36] visualmente…

[01:26:38] Eu posso fazer uma coisa? Falar rápido sobre o brega?

[01:26:40] Fala. Perdão.

[01:26:42] É, peraí, só um segundo.

[01:26:46] Se Mari, que é mais conhecedora,

[01:26:48] se ela estiver aí e puder falar…

[01:26:50] A Mari, por exemplo…

[01:26:52] …conhecedora do brega, pode

[01:26:54] abrir o microfone.

[01:26:56] Por exemplo, quando eu cheguei, eu saí

[01:26:58] de…

[01:27:00] Quando eu saí do Rio nos anos 90,

[01:27:02] saí de Recife nos anos 90 e fui para o Rio,

[01:27:04] o movimento bang é

[01:27:06] a primeira identidade cultural contemporânea

[01:27:08] de Recife. Eu volto,

[01:27:10] sei lá quantos milhões de anos depois,

[01:27:12] e aí tem um

[01:27:14] fenômeno que eu estava totalmente alheio,

[01:27:16] que era o brega. E, assim, o brega…

[01:27:18] Quando eu saio, o Chico Saenz

[01:27:20] é o

[01:27:22] criador da identidade brasileira

[01:27:24] pernambucana

[01:27:26] daquela época. Quando eu volto,

[01:27:28] o Reginaldo Rossi,

[01:27:30] que é um cara do passado,

[01:27:32] vira como se fosse

[01:27:34] o Elvis pernambucano,

[01:27:36] certo? Então, assim,

[01:27:38] ele hoje é muito

[01:27:40] mais um símbolo de,

[01:27:42] vamos dizer assim, de raiz pernambucana

[01:27:44] do que o Chico Saenz, que estava tentando

[01:27:46] fazer isso na época. Então, eu achei

[01:27:48] isso foi um fenômeno muito interessante.

[01:27:50] Tanto que eu pedi para a

[01:27:52] Mariana, Mari que está presente aqui,

[01:27:54] para fazer um playlist do brega,

[01:27:56] e ela me deu uma aula sobre o brega,

[01:27:58] para eu poder entender

[01:28:00] o que é isso. Porque se você não entende

[01:28:02] a música brega… Tem uma amiga

[01:28:04] minha também que me explicou isso uma vez,

[01:28:06] que é a

[01:28:08] Rafaela, que

[01:28:10] ela falou, Ricardo,

[01:28:12] um dia eu comecei a ouvir e falei,

[01:28:14] a dança do brega é um negócio

[01:28:16] intenso. Não é um negócio

[01:28:18] que quando você olha, você fala, cara,

[01:28:20] o que está acontecendo aqui? Isso não

[01:28:22] é algo, assim,

[01:28:24] é um negócio

[01:28:26] forte, sabe? Eu não vou descrever

[01:28:28] como é que é, mas é massa.

[01:28:30] E aí, eu falei assim,

[01:28:32] cara, isso eu não estou reconhecendo,

[01:28:34] não é algo

[01:28:36] das minhas referências.

[01:28:38] Ela falou, Ricardo, você não conhece o brega?

[01:28:40] Você precisa conhecer o brega, porque

[01:28:42] senão você não vai sobreviver em Recife.

[01:28:44] Você não vai entender nada.

[01:28:46] Desculpa, eu já falei demais aqui.

[01:28:48] E aí, eu

[01:28:50] só queria trazer um ponto,

[01:28:52] assim, desculpa, Ramon,

[01:28:54] mas só tentando amarrar

[01:28:56] um pouco esse bando de coisas

[01:28:58] que eu vomitei

[01:29:00] perguntando sem perguntar,

[01:29:02] que é um questionamento

[01:29:04] que eu tenho,

[01:29:06] porque, assim, quando a gente fala dessas

[01:29:08] referências,

[01:29:10] vou usar uma palavra

[01:29:12] da qual eu duvido

[01:29:14] muito, tá? Que é referências

[01:29:16] autênticas de Brasil,

[01:29:18] como o brega,

[01:29:20] o funk, a bossa nova,

[01:29:22] e etc.

[01:29:24] Mangue beat,

[01:29:26] samba, né?

[01:29:28] A gente está falando de um registro

[01:29:30] que não é o registro da visualidade

[01:29:32] moderna, né?

[01:29:34] A gente está falando de um registro do corpo,

[01:29:36] para além da visão.

[01:29:38] A gente está falando de um registro

[01:29:40] da audição,

[01:29:42] do ritmo,

[01:29:44] do corpo, e etc.

[01:29:46] Que é muito mais o registro

[01:29:48] das culturas

[01:29:50] que formaram o Brasil

[01:29:52] junto com a cultura portuguesa,

[01:29:54] mas, assim, a cultura

[01:29:56] indígena, a cultura

[01:29:58] Yorubá, Bantóia,

[01:30:00] etc., dos negros que vieram

[01:30:02] escravizados,

[01:30:04] que

[01:30:06] eu, às vezes,

[01:30:08] fico me perguntando se o desafio

[01:30:10] de construir essa identidade

[01:30:12] plasticamente,

[01:30:14] que era o projeto dos

[01:30:16] modernistas de 22,

[01:30:20] enfim,

[01:30:22] sendo eles

[01:30:24] bem ou mal sucedidos ou não,

[01:30:26] e que vai depois para essa

[01:30:28] tentativa,

[01:30:30] a partir das artes visuais,

[01:30:32] de construir a imagem

[01:30:34] do Nordeste,

[01:30:36] e assim por diante,

[01:30:38] se o problema

[01:30:40] não é um problema de registro,

[01:30:42] sabe?

[01:30:48] Não sei.

[01:30:50] Boa pergunta.

[01:30:54] É um problema

[01:30:56] para além da imagem,

[01:30:58] para além da visualidade, entendeu?

[01:31:02] O carro travou?

[01:31:04] Desculpa, eu estava

[01:31:06] calado.

[01:31:08] O que eu queria dizer é que eu não entendi tanto o conceito de

[01:31:10] visualidade. Desculpe, visualidade não.

[01:31:12] De registro.

[01:31:14] É, da gente ter, assim,

[01:31:16] a gente, a Rafa falou bastante

[01:31:18] do

[01:31:20] do

[01:31:22] regime de visualidade,

[01:31:24] que o Query leva

[01:31:26] para essa análise

[01:31:28] de que a gente tem uma

[01:31:30] constituição que vem a partir

[01:31:32] de uma cultura moderna,

[01:31:34] que separa o sujeito do objeto,

[01:31:36] que o sujeito

[01:31:38] vira um olho espectral,

[01:31:40] que fica

[01:31:42] lá, vivendo

[01:31:44] essa viagem

[01:31:46] longe

[01:31:48] desse corpo.

[01:31:50] O corpo, de alguma forma, é um corpo

[01:31:52] dócil, é um corpo

[01:31:54] que, de alguma forma,

[01:31:56] enfim…

[01:31:58] E se o fato da gente estar nem sem

[01:32:00] esse registro é a melhor

[01:32:02] palavra, mas, assim, se a gente está falando

[01:32:04] de

[01:32:06] de uma dificuldade

[01:32:08] de se pensar

[01:32:10] uma identidade

[01:32:12] regional, nacional, o que quer

[01:32:14] que seja, por dois

[01:32:16] problemas. O problema de

[01:32:18] não se ter um projeto

[01:32:20] de Estado-nação

[01:32:22] e um problema

[01:32:24] de

[01:32:30] de que, talvez,

[01:32:32] por a gente não ser

[01:32:34] o moderno eurocêntrico

[01:32:36] e norte-americano,

[01:32:38] a gente está num outro tipo

[01:32:40] de regime, que, óbvio, não estou dizendo

[01:32:42] que a gente está num outro tipo de regime, porque a gente é

[01:32:44] altamente influenciado por tudo isso, tá?

[01:32:46] Mas, assim, nas bases fundamentais

[01:32:48] de constituição do

[01:32:50] país, se

[01:32:52] esse regime de

[01:32:54] visualidade do olho

[01:32:56] acima, o olho para

[01:32:58] além do sujeito, é um problema

[01:33:00] porque a gente é muito mais sonoro,

[01:33:02] originalmente,

[01:33:04] entre muitas

[01:33:06] aspas, eu estou fazendo…

[01:33:08] Você dizer que o Brasil é mais

[01:33:10] uma coisa que outra, será que

[01:33:12] dá pra gente fazer essa pergunta?

[01:33:14] Eu acompanhei todo o raciocínio

[01:33:16] totalmente, mas quando você diz

[01:33:18] que a gente é mais um do que

[01:33:20] outro, aí

[01:33:22] eu tenho, talvez, dificuldades.

[01:33:24] Se o problema é o registro

[01:33:26] visual, ou se o problema é

[01:33:28] verbal, ou se o problema é…

[01:33:30] Eu acho que, assim,

[01:33:32] a gente não tem como

[01:33:34] construir uma

[01:33:36] identidade nacional,

[01:33:40] porque as realidades são muito

[01:33:42] múltiplas.

[01:33:44] São

[01:33:46] cada

[01:33:48] lugar que arranja a sua maneira

[01:33:50] de resolver seus problemas e

[01:33:52] de fazer arte,

[01:33:54] de

[01:33:56] produzir cultura,

[01:33:58] e que não dá, porque quando a gente fala

[01:34:00] de continuar a construir uma identidade

[01:34:02] nacional, a gente está pensando o que é

[01:34:04] único?

[01:34:06] Ou então reduzir

[01:34:08] tudo

[01:34:10] a uma

[01:34:12] coisa só, só que é a briga que

[01:34:14] a galera do movimento

[01:34:16] regional estava fazendo.

[01:34:18] Não dá.

[01:34:20] Não dá pra gente dizer…

[01:34:24] Não dá pra gente

[01:34:26] estabelecer

[01:34:28] uma única coisa

[01:34:30] pro país.

[01:34:32] Porque é muito diferente.

[01:34:34] A maneira como

[01:34:36] sei lá,

[01:34:38] o pessoal

[01:34:40] lá no

[01:34:42] Rio Grande do Sul

[01:34:44] se relaciona

[01:34:46] de alguma

[01:34:48] maneira

[01:34:50] com

[01:34:52] a realidade

[01:34:54] vegetal,

[01:34:56] sei lá,

[01:34:58] com o campo, com o natural,

[01:35:00] com a natureza, pode ser muito diferente,

[01:35:02] do que a galera, da maneira como a galera

[01:35:04] no centro-oeste

[01:35:06] se relaciona, a galera do nordeste se relaciona.

[01:35:08] Eu acho que assim, acho que não tem como

[01:35:10] a gente essencializar

[01:35:12] um Brasil.

[01:35:14] Não, eu também não acho.

[01:35:16] Mas mesmo que haja um

[01:35:18] projeto,

[01:35:20] mesmo que haja um projeto de

[01:35:22] nação,

[01:35:24] a gente não vai ter uma identidade

[01:35:26] de nação

[01:35:28] se não for

[01:35:30] homogeneizar todas as

[01:35:32] cidades.

[01:35:34] Só que aí, o que é que vai ser homogeneizado?

[01:35:36] Quais

[01:35:38] são esses símbolos

[01:35:40] que vão ser escolhidos, decididos

[01:35:42] para representar

[01:35:44] esse projeto de nação?

[01:35:46] Era a briga,

[01:35:48] era a briga dos modernistas.

[01:35:50] Mas eu acho que mesmo quando se tem

[01:35:52] num

[01:35:54] nível regional, como a própria

[01:35:56] Bárbara trouxe, isso

[01:35:58] são sempre símbolos escolhidos,

[01:36:00] né? Eu não estou falando que

[01:36:02] tenha-se que ter.

[01:36:04] Eu só

[01:36:06] estou falando da questão

[01:36:08] do regime de

[01:36:10] visualidade.

[01:36:12] De talvez

[01:36:14] a dificuldade plástica

[01:36:18] passe por isso também.

[01:36:20] Por uma dificuldade

[01:36:24] em traduzir

[01:36:26] visualmente

[01:36:28] em imagens,

[01:36:30] e aí podem ser várias, ou

[01:36:32] em programas

[01:36:34] estéticos ou qualquer

[01:36:36] coisa assim,

[01:36:38] questões

[01:36:40] que são do

[01:36:42] registro

[01:36:44] dos outros sentidos.

[01:36:46] Do registro do corpo, do registro

[01:36:48] do som

[01:36:50] e etc, entendeu?

[01:36:52] Desculpa

[01:36:54] entrar, porque eu acho que essa questão é bem interessante.

[01:37:00] Vamos dizer que o registro do corpo seria a dança,

[01:37:02] para não

[01:37:04] entrar em outras questões, que é, por exemplo,

[01:37:06] a imagem da mulher

[01:37:08] brasileira, tá certo?

[01:37:10] Que aí a imagem é um problema hoje.

[01:37:12] Lembrando que hoje

[01:37:14] a gente considera que é problemático,

[01:37:16] mas por muitos anos…

[01:37:18] Mas até 10 anos atrás tinha uma globeleza dançando

[01:37:20] pelada na…

[01:37:22] Exatamente.

[01:37:24] E há 20, 30 anos

[01:37:26] atrás era considerado algo

[01:37:28] que a gente tinha orgulho.

[01:37:30] Que é o fato da gente…

[01:37:32] O padrão de corpo de mulher

[01:37:34] brasileira é uma mulher

[01:37:36] com XY qualidades

[01:37:38] aqui, etc, que talvez

[01:37:40] americana fosse diferente, uma coisa desse tipo, e ficava

[01:37:42] nessa disputa, tá certo? Que a alemã é

[01:37:44] de um jeito, a austríaca… E a mulher vira

[01:37:46] esse objeto

[01:37:48] de

[01:37:50] disputa

[01:37:52] imagética, vamos dizer assim.

[01:37:54] Mas aí então a gente não pega isso, que também é uma

[01:37:56] questão, só trouxe ela porque é uma

[01:37:58] questão também, então assim, ser

[01:38:00] do corpo não é necessariamente…

[01:38:02] Ser uma imagem mais desejável

[01:38:04] para a gente, tá certo?

[01:38:06] Mas assim, a dança

[01:38:08] sim, a dança é uma

[01:38:10] maneira de a gente estar expressando

[01:38:12] a brasilidade

[01:38:14] que vai muito além

[01:38:16] da imagem, tá certo?

[01:38:18] E a imagem pictórica, vamos dizer assim.

[01:38:20] Só que aí se eu trabalho

[01:38:22] o frevo como a identidade,

[01:38:24] tá certo? O frevo, o samba

[01:38:26] e botam as danças lá,

[01:38:28] e eu estou excluindo o coco

[01:38:30] e outros tipos de dança,

[01:38:32] quer dizer, é sempre uma… E aquela

[01:38:34] coisa que a Bárbara colocou,

[01:38:36] a gente valoriza a elite

[01:38:38] da

[01:38:40] zona sul, a classe média da

[01:38:42] zona sul,

[01:38:44] a elite da

[01:38:46] zona norte, que muitos moram na

[01:38:48] Tijuca, ou a gente vai mostrar

[01:38:50] a realidade da favela,

[01:38:52] a realidade da favela pela criminalidade

[01:38:54] como muitos filmes fazem, ou

[01:38:56] quer dizer,

[01:38:58] aí pode ser

[01:39:00] pelo corpo, pode ser pelo

[01:39:02] canal de comunicação, pode ser

[01:39:04] diferente, mas eu não sei.

[01:39:06] Eu vejo

[01:39:08] sempre uma…

[01:39:10] Eu entendo que a gente

[01:39:12] precisa procurar essa…

[01:39:14] Ao mesmo tempo eu entendo o que você está falando, Júlia,

[01:39:16] como se a gente precisa estar pensando sobre o problema da identidade

[01:39:18] cultural. A gente precisa estar

[01:39:20] debatendo quem nós somos, tá certo?

[01:39:22] Mas ao mesmo tempo é como se fosse um método

[01:39:24] de Sisyphus, sabe? Você está… A gente vai

[01:39:26] trabalhando lá, quando a pedra estiver lá no topo,

[01:39:28] ela corre de novo, tá entendendo?

[01:39:30] É, porque é uma

[01:39:32] questão política, né? Porque senão

[01:39:34] depois também

[01:39:38] pessoas com quem a gente não quer

[01:39:40] se filiar, seja…

[01:39:42] E aí a gente está vendo

[01:39:44] de um domingo que acabou de ter

[01:39:46] eleição, eu ia falando de uma forma bem

[01:39:48] prática,

[01:39:50] usam imagens

[01:39:52] em disputa,

[01:39:54] também disputadas,

[01:39:56] também apropriadas, também

[01:39:58] criadas, sem que a gente

[01:40:00] de alguma forma

[01:40:02] entenda da onde

[01:40:04] que elas vêm, né? E quem elas

[01:40:06] favorecem. Então,

[01:40:08] sei lá, acho que eu tenho…

[01:40:10] Não, acho que você colocou um ponto bem importante,

[01:40:12] que é a questão política, quer dizer, o que

[01:40:14] fizeram com a camisa

[01:40:16] da Seleção Brasileira,

[01:40:18] quer dizer…

[01:40:20] Não, mas eu que estou falando,

[01:40:22] eu que estou falando, mas eu estou falando mesmo, assim, pegaram

[01:40:24] a camisa da

[01:40:26] Seleção Brasileira e transformaram

[01:40:28] aquilo num

[01:40:30] tipo de símbolo político

[01:40:32] brasileiro, quer dizer,

[01:40:34] obviamente que não é a minha

[01:40:36] posição, tá certo, política,

[01:40:38] mas assim, mas é pegar

[01:40:40] um símbolo que é meu.

[01:40:42] O que eles estão fazendo com

[01:40:44] o meu símbolo identitário, quer dizer,

[01:40:46] saíram por aí e agora

[01:40:48] se pegam uma foto minha com essa camisa, eu estou dizendo assim,

[01:40:50] ah, então você tem essa posição

[01:40:52] política e tal?

[01:40:54] Eita, é sério, Bruno?

[01:40:58] O que é

[01:41:00] que o Bruno falou?

[01:41:02] Gente, a Nike lançou

[01:41:04] uma camisa preta com cacto.

[01:41:08] Pra Seleção Brasileira, é isso?

[01:41:12] Nossa, essa é nova.

[01:41:14] Tinha…

[01:41:16] Alô, vocês estão me ouvindo?

[01:41:18] Sim, eu vou ver se eu consigo encontrar o link,

[01:41:20] mas aqui em São Paulo foi bem,

[01:41:22] ela foi

[01:41:24] bem pirateada, bem vendida também,

[01:41:26] ela tinha um cacto assim bem,

[01:41:28] a camisa era preta e o cacto era meio num

[01:41:30] cinto cinza, assim, com estilo de

[01:41:32] gravura de cordel, né? Vou dar uma pesquisada

[01:41:34] e vou ver se eu consigo lançar no

[01:41:36] no chat.

[01:41:38] Gente, isso é culpa

[01:41:40] de Juliette, tudo culpa de Juliette.

[01:41:44] Mas Ramon queria falar também.

[01:41:48] Ramon tinha levantado a mão.

[01:41:50] Isso, isso. Eu não vou poder

[01:41:52] abrir a câmera, mas

[01:41:54] assim, eu queria

[01:41:56] também trazer algumas contribuições,

[01:41:58] algumas coisas que eu fiquei refletindo

[01:42:00] sobre, eu acho que Júlia,

[01:42:02] ela, na última fala dela,

[01:42:04] ela conseguiu, ela deu uma direção

[01:42:06] também muito do que eu ia falar,

[01:42:08] né? Com relação a quais

[01:42:10] são esses outros nordestes possíveis,

[01:42:12] que não o nordeste

[01:42:14] das seitas, que não o nordeste da

[01:42:16] tradição, da cultura popular, que já é uma

[01:42:18] imagem batida, já é uma imagem manjada.

[01:42:20] Então, assim,

[01:42:22] e aí veio

[01:42:24] esse questionamento de quais são

[01:42:26] essas visualidades, e eu penso muito sobre

[01:42:28] o nordeste que a gente

[01:42:30] parece que apagou

[01:42:32] da história, que é o nordeste indígena,

[01:42:34] que é o nordeste

[01:42:36] das matrizes africanas.

[01:42:40] E aí tem o outro movimento,

[01:42:42] um movimento literário chamado

[01:42:44] Sertão Punk, que eu acho que está dentro

[01:42:46] dessa estética do cyberpunk também,

[01:42:48] que, enfim, a galera que está produzindo

[01:42:50] nessa temática do sertão,

[01:42:52] só que de uma outra forma,

[01:42:54] e isso também vai sendo refletido na

[01:42:56] realidade das capas dos livros.

[01:42:58] Então, assim,

[01:43:00] eu acho que, de fato,

[01:43:02] concordando com o Ricardo,

[01:43:04] a gente…

[01:43:06] É praticamente impossível

[01:43:08] a gente

[01:43:10] tentar representar uma região

[01:43:12] e contemplar,

[01:43:14] abarcar toda a pluralidade

[01:43:16] e a diversidade.

[01:43:18] Mas eu acho que também

[01:43:20] reconhecendo

[01:43:22] essas imagens que são

[01:43:24] estereotipadas e tal, a gente consegue

[01:43:26] bancar também essa disputa

[01:43:28] a partir do momento que a gente

[01:43:30] traz para a nossa produção enquanto

[01:43:32] produtores de imagens, enfim,

[01:43:34] a gente consegue pensar também

[01:43:36] bancando essas narrativas que majoritariamente

[01:43:38] estão ocultas, estão fora

[01:43:40] desse status quo,

[01:43:42] desse nordeste indígena,

[01:43:44] do que eu falei,

[01:43:46] do nordeste de matriz africana e tudo mais.

[01:43:48] Então, acho que vai muito nessa

[01:43:50] direção da gente também bancar isso

[01:43:54] e não se dar como

[01:43:56] vencido,

[01:43:58] de tipo, ah, tá,

[01:44:00] a gente vai…

[01:44:02] A gente não vai conseguir contemplar tudo,

[01:44:04] mas a gente tem esse caminho aqui.

[01:44:06] Então, acho que

[01:44:08] a coisa gira em torno dessa disputa também,

[01:44:10] de trazer essas narrativas

[01:44:12] que elas ficam de fora

[01:44:14] desse jogo político.

[01:44:16] E aí eu achei interessante

[01:44:18] a exposição de Rafael,

[01:44:20] acho que ficou muito

[01:44:22] concretizado na minha

[01:44:24] cabeça,

[01:44:26] desse momento em que o nordeste

[01:44:28] é fundado,

[01:44:30] é inventado discursiva

[01:44:32] e mageticamente.

[01:44:36] Porque, assim,

[01:44:38] se a gente consegue puxar ali

[01:44:40] da cronologia de formação da região

[01:44:42] do nordeste, a gente vai

[01:44:44] perceber que a região

[01:44:46] acho que passa

[01:44:48] por esses três grandes

[01:44:50] momentos,

[01:44:52] por assim dizer.

[01:44:54] Também sou uma pessoa que estuda do vale,

[01:44:56] estou aí desenvolvendo

[01:44:58] minha pesquisa, meu PCC

[01:45:00] em design, fazendo análise de capa

[01:45:02] de livros, exatamente sobre essa temática,

[01:45:04] esse recorte sobre o nordeste.

[01:45:06] Então, a gente

[01:45:08] tem esse primeiro momento em que

[01:45:10] o nordeste da seca

[01:45:12] é muito evidente, antes mesmo de ser

[01:45:14] fundado como nordeste. Então,

[01:45:16] essa magética do norte,

[01:45:18] que antes de ser nordeste era

[01:45:20] norte, ela está muito fundamentada

[01:45:22] nessa lógica da seca.

[01:45:24] Muito mais por um

[01:45:26] recurso político,

[01:45:28] dessas estratégias, enfim,

[01:45:30] de angariar recursos federais,

[01:45:32] atenção de fundos

[01:45:34] financeiros, ajudas para resolver

[01:45:36] esse problema da seca.

[01:45:38] E aí, quando o Rafael

[01:45:40] traz essas imagens,

[01:45:42] fica muito perceptível que

[01:45:44] esse discurso da seca vai perdendo

[01:45:46] num primeiro momento ali na

[01:45:48] virada da década

[01:45:50] do século 19

[01:45:52] para o século 20,

[01:45:54] ele vai ficando muito

[01:45:56] restrito a esse lugar da política,

[01:45:58] dessas disputas políticas,

[01:46:00] e quando o movimento

[01:46:02] tradicionalista, modernista

[01:46:04] de Recife, ele

[01:46:06] vem, ele já traz esse nordeste

[01:46:08] da tradição, esse nordeste

[01:46:10] apegado à saudade, ao lirismo,

[01:46:12] enfim, essa visão

[01:46:14] docilizada,

[01:46:16] idílica, esse passado

[01:46:18] dos engenhos, das palmeiras

[01:46:20] que sombreavam os engenhos

[01:46:22] ali da zona da mata.

[01:46:24] Então, um nordeste muito colonial.

[01:46:26] E ali

[01:46:28] na década de 30, a gente vai conseguir

[01:46:30] perceber com maior evidência

[01:46:32] a retomada desse discurso

[01:46:34] do nordeste da seca,

[01:46:36] do sertão. Então, acho que

[01:46:38] a apresentação de Rafael ficou muito

[01:46:40] visual mesmo para mim, que estou

[01:46:42] estudando isso, só que aplicado

[01:46:44] também na visualidade

[01:46:46] das capas dos livros,

[01:46:48] mas estava muito preocupado em entender a história primeiro

[01:46:50] e ficou muito claro, muito evidente

[01:46:52] esse momento em que

[01:46:54] a seca, ela perdeu, ela,

[01:46:56] de certa forma, perde um protagonismo

[01:46:58] ali do final

[01:47:04] do final do século XIX,

[01:47:06] com a entrada desse

[01:47:08] discurso mais tradicionalista

[01:47:10] e aí ela retomada nas

[01:47:12] produções de escritores, enfim,

[01:47:14] de outros artistas, do cinema,

[01:47:16] Glauber Rocha está aí,

[01:47:18] lá com o Cinema Novo, enfim,

[01:47:20] que vai reforçar essas imagens do nordeste da seca.

[01:47:22] E aí

[01:47:24] parece que parou no tempo,

[01:47:26] a imagem do nordeste é uma imagem

[01:47:28] cristalizada que parece que

[01:47:30] congelou no tempo,

[01:47:32] foi ressecada, desgastada,

[01:47:34] mas que os próprios moradores

[01:47:36] da região utilizam-se

[01:47:38] dessa imagética

[01:47:40] para alta afirmação.

[01:47:42] Então, diante do preconceito

[01:47:44] dos estereótipos, eu

[01:47:46] me vejo na necessidade, não,

[01:47:48] de me apropriar dessa visualidade,

[01:47:50] dessa representação,

[01:47:52] para trabalhar, traduzir

[01:47:54] outras narrativas, que

[01:47:56] desloque esse sentido

[01:47:58] do nordeste miserável

[01:48:00] para um nordeste do povo

[01:48:02] do cabra macho, o povo

[01:48:04] arretado, que

[01:48:06] enfrenta diversidades, enfim,

[01:48:08] e desloca

[01:48:10] essa representação para um lugar muito

[01:48:12] positivo. Então, assim,

[01:48:14] eu acho que

[01:48:16] dá muito pano para a manga essas

[01:48:18] discussões, mas

[01:48:20] só para finalizar aqui, que eu acho que

[01:48:22] não estou conseguindo fechar direito

[01:48:24] a ideia, mas enfim,

[01:48:26] e eu percebo,

[01:48:28] pelo menos na minha pesquisa, tenho percebido

[01:48:30] que enquanto produtores de

[01:48:32] imagens, nós, designers, artistas

[01:48:34] gráficos, os artistas

[01:48:36] gráficos das capas dos livros

[01:48:38] que eu estou analisando, eles

[01:48:40] têm um papel importante

[01:48:44] em fazer coro, em reforçar essa visualidade,

[01:48:46] em reforçar esse discurso.

[01:48:48] Justamente quando eu lido

[01:48:50] com a produção da capa do livro,

[01:48:52] eu, enquanto artista gráfico,

[01:48:54] e

[01:48:56] na análise que eu estou fazendo,

[01:48:58] é perceptível que os

[01:49:00] artistas gráficos das capas

[01:49:02] que eu venho analisando

[01:49:04] sempre estavam nesse lugar de reforçar,

[01:49:06] de fazer uma síntese visual,

[01:49:08] uma síntese gráfica do discurso

[01:49:10] do autor, do livro.

[01:49:12] Então, de certa

[01:49:14] forma, é uma extensão desse discurso

[01:49:16] que vai para o visual

[01:49:18] e que reforça,

[01:49:20] que não só reflete, mas

[01:49:22] também que participa da construção

[01:49:24] dessa imagem.

[01:49:26] Então, eu fico pensando assim,

[01:49:28] tá, quais são essas outras formas

[01:49:30] então da gente ver e dizer

[01:49:32] sobre o Nordeste,

[01:49:34] enfim, e eu acho que a discussão

[01:49:36] ela sempre fica nesse

[01:49:38] caminho aí. Qual é o papel

[01:49:40] do design, qual é o papel

[01:49:42] do designer gráfico

[01:49:44] diante dessa urgência

[01:49:46] da gente repensar

[01:49:48] as imagens do Nordeste.

[01:49:50] É isso.

[01:49:52] Muito obrigado, Ramon. Ramon, eu não sei

[01:49:54] na verdade nem o que comentar mais, porque tu já comentou

[01:49:56] tudo.

[01:49:58] Tudo assim, mas

[01:50:00] eu tô pensando que

[01:50:02] a gente

[01:50:04] e aí, enquanto

[01:50:06] canais

[01:50:08] produtores de

[01:50:10] imagens, a gente

[01:50:12] não tem como fugir

[01:50:14] de estereótipos, né,

[01:50:16] porque a gente, como você falou, a gente precisa fazer uma

[01:50:18] síntese visual

[01:50:20] de alguma ideia.

[01:50:22] Então, e também se a gente foge

[01:50:24] muito de um estereótipo,

[01:50:26] e não pensando no estereótipo somente como uma coisa

[01:50:28] negativa, tá gente?

[01:50:30] Se eu tô pensando no estereótipo aqui

[01:50:32] como algo

[01:50:34] que cristaliza

[01:50:36] um sentido.

[01:50:38] E

[01:50:40] se a gente vai muito

[01:50:42] além, aquilo que a gente tá fazendo

[01:50:44] não comunica, né, então a gente

[01:50:46] corre esse risco

[01:50:48] de, ao não recorrer

[01:50:50] pra uma mensagem que é

[01:50:52] familiar, visualmente,

[01:50:54] a gente não comunicar.

[01:50:56] Então, assim, a gente não tem,

[01:50:58] eu acho que assim,

[01:51:00] o estereótipo é um material do nosso

[01:51:02] trabalho.

[01:51:04] Agora,

[01:51:06] como a gente recorre

[01:51:08] a esse estereótipo,

[01:51:10] como você falou,

[01:51:12] como a gente se apropria

[01:51:14] desses símbolos,

[01:51:16] e o que é que a gente faz com esses símbolos,

[01:51:18] aí que é o outro

[01:51:20] rolê, que é

[01:51:22] a virada, eu acho.

[01:51:24] Porque uma crítica

[01:51:26] que pode ser feita a Durval,

[01:51:28] por exemplo,

[01:51:30] é que ele

[01:51:32] meio que

[01:51:34] ele culpabiliza a gente,

[01:51:36] né, pela

[01:51:38] construção da imagem,

[01:51:40] de uma imagem específica do Nordeste.

[01:51:42] Mas é

[01:51:44] estratégico.

[01:51:46] É estratégico, assim, e é um

[01:51:48] é estratégico

[01:51:50] não só no sentido

[01:51:54] econômico,

[01:51:56] mas é estratégico das nossas relações

[01:51:58] e como nós vamos nos relacionar

[01:52:00] com as outras pessoas e com pessoas de outros lugares.

[01:52:02] Então, como a gente agencia

[01:52:04] esses símbolos?

[01:52:06] E não vejo

[01:52:08] como

[01:52:10] somente negativo

[01:52:12] quando ele fala que a gente

[01:52:14] tá muito preso ainda

[01:52:16] a essa lógica desses símbolos pautados

[01:52:18] no século XIX e começo do século XX.

[01:52:20] Mas aí eu concordo com você

[01:52:22] que existem outros Nordestes possíveis.

[01:52:24] E aí esse Nordeste,

[01:52:26] os Nordestes estão

[01:52:28] em disputa.

[01:52:30] Alguém,

[01:52:32] não sei se foi você que colocou

[01:52:34] do cyberpunk,

[01:52:38] do brega, não sei o que, alguma coisa

[01:52:40] aqui, do brega funk, não lembro.

[01:52:44] O Nordeste não precisa

[01:52:46] ser esse Nordeste

[01:52:48] que Gilberto Freire

[01:52:50] defendeu. O Nordeste

[01:52:52] não precisa ser o Nordeste que tá

[01:52:54] cristalizado em novela da Globo.

[01:52:56] Eu até mandei uma imagem

[01:52:58] de uma postagem recente

[01:53:00] no Instagram, porque, por coincidência,

[01:53:02] a gente marcou essa

[01:53:04] discussão sobre o Nordeste na semana

[01:53:06] que tem o Dia do Nordestino,

[01:53:08] que foi ontem ontem,

[01:53:10] dia 8 de outubro.

[01:53:12] E

[01:53:14] aí Ricardo falou,

[01:53:16] não esquece de fazer a apresentação toda em

[01:53:18] tons de sépia, que é como

[01:53:20] a Globo

[01:53:22] representa

[01:53:24] as novelas

[01:53:26] que se passam no Nordeste.

[01:53:28] Tem uma novela das seis agora,

[01:53:30] que é

[01:53:32] alguma coisa do Sertão,

[01:53:34] que eu não

[01:53:36] assisto não, mas eu sei que tá passando.

[01:53:38] Pronto, Mar do Sertão.

[01:53:40] É tudo nesse

[01:53:42] tom. É a mesma coisa quando

[01:53:44] é filme de Hollywood

[01:53:46] e quando vai falar do México.

[01:53:48] O México é amarelo,

[01:53:50] eles botam um filtro

[01:53:52] amarelo e é

[01:53:54] isso aí. Eu queria falar só uma coisa

[01:53:56] rápido, Rafael, que é

[01:53:58] aqui o pessoal,

[01:54:00] isso não é um debate

[01:54:02] acadêmico,

[01:54:04] essa coisa do

[01:54:06] sépia. Isso é uma coisa que você encontra as pessoas

[01:54:08] na rua, irritadas com isso.

[01:54:10] Qualquer um, é uma coisa

[01:54:12] difundida aqui, que é

[01:54:14] insuportável

[01:54:16] a maneira como a Globo

[01:54:18] representa o Nordeste. Isso é quase que

[01:54:20] uma unanimidade, não tem ninguém que gosta.

[01:54:22] Agora, sabe o que é uma unanimidade

[01:54:24] aqui, que me surpreendeu muito?

[01:54:26] É que o Ariano Suassuna representa o

[01:54:28] Nordeste, que as pessoas se identificam através

[01:54:30] do Alta Compadecida, especialmente

[01:54:32] nos filmes, que usam atores

[01:54:34] sudestinos

[01:54:36] pra fazer papel de

[01:54:38] nordestinos. Mas quando é o

[01:54:40] Ariano Suassuna falando, a credibilidade

[01:54:42] dele tem um papel, assim, ele

[01:54:44] tocou profundamente na identidade

[01:54:46] brasileira, assim, pernambucana

[01:54:48] e nordestina. Mas quando

[01:54:50] a Globo faz

[01:54:52] as coisas lá de tons de

[01:54:54] rap e tal, as pessoas não se identificam.

[01:54:56] Acho que isso tem um pouco a ver com essa

[01:54:58] coisa que a Júlia tá falando, a necessidade da gente

[01:55:00] continuar sempre

[01:55:02] a batalha pela identidade. Embora seja impossível

[01:55:04] encontrar a identidade, a gente precisa sempre

[01:55:06] estar batalhando pela identidade.

[01:55:08] É uma situação contraditória,

[01:55:10] mas necessária.

[01:55:12] Aí tem uma coisa que você falou, que talvez

[01:55:14] fosse o ponto de Ramon,

[01:55:16] que é, quando a novela da Globo

[01:55:18] é feita por pessoas que não são

[01:55:20] nordestinas e que aí todo mundo odeia,

[01:55:22] porque, sei lá, coloca a Suzana na Vieira pra poder fazer

[01:55:24] uma versão pernambucana.

[01:55:26] Aquele sotaque podre,

[01:55:28] podre, da Senhora do Destino.

[01:55:30] Que era quando eu ainda ouvia

[01:55:32] alguma coisa de novela.

[01:55:34] Mas aí, quando você coloca

[01:55:36] Ariano,

[01:55:38] uma obra de Ariano,

[01:55:40] talvez pela autoridade

[01:55:42] do autor,

[01:55:44] isso já nos gere uma

[01:55:46] simpatia, uma provável

[01:55:48] simpatia maior, porque

[01:55:50] é Ariano.

[01:55:52] Então, a gente talvez

[01:55:54] vá gostar de qualquer jeito,

[01:55:56] porque é um trabalho de Ariano.

[01:55:58] E não é,

[01:56:00] mesmo sendo feito pela mesma empresa,

[01:56:02] mesmo sendo feita pela Globo,

[01:56:04] é um trabalho de Ariano, não é um trabalho

[01:56:06] de um diretor, uma diretora de novela

[01:56:08] qualquer, que vai fazer

[01:56:10] sei lá,

[01:56:12] é uma Gloria Perez que vai

[01:56:14] fazer alguma coisa,

[01:56:16] que fez Caminho das Índias, fez não sei o que no Japão,

[01:56:18] fez não sei o que,

[01:56:20] trabalhando com esse estereótipo.

[01:56:22] Se eu colocar uma Giovanna Tonelli,

[01:56:24] que é chinesa, japonesa, indígena,

[01:56:26] mulher negra,

[01:56:28] árabe,

[01:56:30] enfim.

[01:56:32] Como é que é quem escreveu as fotos

[01:56:34] da Ana Vieira? Não, ela é nordestina.

[01:56:36] É, enfim.

[01:56:38] É isso mesmo. Então, talvez

[01:56:40] o Ariano

[01:56:42] gere nossa simpatia.

[01:56:44] Mas aí, voltando para Ramon, que você

[01:56:46] falou, Ricardo, está em disputa.

[01:56:48] Está em disputa. Então, assim,

[01:56:50] quem nordeste,

[01:56:52] eu adorei essa pergunta, quais são

[01:56:54] os nordestes possíveis?

[01:56:56] Só que são possíveis aqueles que

[01:56:58] são lutados.

[01:57:00] Estão ali, que são colocados

[01:57:02] e que a gente

[01:57:04] vai a campo para brigar.

[01:57:06] E para dizer,

[01:57:08] isso daqui também é,

[01:57:10] essa produção também é nordestina.

[01:57:12] E uma coisa, a gente está

[01:57:14] de debate. Eu falei o tempo inteiro

[01:57:16] que o nordeste é uma invenção.

[01:57:18] Que aí ficou

[01:57:20] uma disputa e quais foram

[01:57:22] os critérios, os elementos que definiram

[01:57:24] essa disputa.

[01:57:26] Criou-se

[01:57:28] o nordeste. Temos o nordeste.

[01:57:30] Mesmo que a gente, mesmo lendo e

[01:57:32] discutindo aqui, sabendo que o nordeste

[01:57:34] é uma invenção,

[01:57:36] a gente vai defender o nordeste.

[01:57:38] Porque aí

[01:57:40] é nosso. E aí a nossa

[01:57:42] apropriação, agora,

[01:57:44] o que é que a gente faz

[01:57:46] do nordeste? E como

[01:57:48] a gente, como falei no final,

[01:57:50] como a gente se nordestiniza?

[01:57:52] Que nordeste é isso da gente.

[01:57:54] E como a gente se nordestiniza?

[01:57:56] Está na disputa. Não está

[01:57:58] resolvido, está na disputa.

[01:58:00] Eu gostaria de conhecer

[01:58:02] mais produções.

[01:58:04] Aí é uma falha minha, que eu não conheço.

[01:58:06] Inclusive, Ramon, eu queria saber quem é

[01:58:08] essa galera que você está

[01:58:10] analisando para eu ler.

[01:58:12] Eu quero saber

[01:58:14] quem são esses autores.

[01:58:18] Eu queria ouvir

[01:58:20] Hannah.

[01:58:22] A Hannah não falou até agora.

[01:58:24] Eu acho que esse programa

[01:58:26] só pode terminar

[01:58:28] quando a Hannah fala. Se a Hannah não falar hoje,

[01:58:30] aí tem alguma coisa errada.

[01:58:32] Não tenho nada a declarar.

[01:58:38] Já falei demais nas últimas sessões.

[01:58:40] Nada disso.

[01:58:42] Não vai fugir, não.

[01:58:44] Quando Julia

[01:58:46] traz a questão de quem são

[01:58:48] esses produtores visuais

[01:58:50] mais atuais que estão discutindo,

[01:58:52] discutindo

[01:58:54] uma identidade,

[01:58:56] você como uma pessoa

[01:58:58] que está aí no

[01:59:00] mercado produzindo diariamente,

[01:59:02] você deve conhecer muito

[01:59:04] mais gente do que eu.

[01:59:06] Quem é essa galera legal

[01:59:08] de hoje em dia

[01:59:10] que está

[01:59:12] produzindo ou problematizando?

[01:59:14] Hannah, olha só.

[01:59:16] O Rafael não é muito mais velho

[01:59:18] que você, mas ele te chamou de jovem.

[01:59:20] Eu percebi.

[01:59:22] Deve ser a sensação.

[01:59:24] Porque, como eu falei,

[01:59:26] ele foi meu monitor.

[01:59:28] Sempre aquele clima de tutoria.

[01:59:30] Eu estou com quase 40.

[01:59:32] Você ainda não chegou lá, não.

[01:59:34] Eu tenho 34.

[01:59:36] Não é uma grande distância.

[01:59:38] Já estou no mid-terms.

[01:59:40] Então, eu…

[01:59:42] Você está falando

[01:59:44] em relação à criação

[01:59:46] de uma identidade nacional?

[01:59:48] Pensando no Nordeste.

[01:59:50] Produtores, artistas, designers.

[01:59:52] Acho que você, inclusive,

[01:59:54] é uma delas, uma dessas pessoas

[01:59:56] que está

[01:59:58] produzindo visualmente

[02:00:00] coisas interessantes.

[02:00:02] Aí que está.

[02:00:04] Mas eu não tenho essa…

[02:00:06] Como diretora de arte

[02:00:08] da Revista Pernambucana,

[02:00:10] você fez um trabalho nesse sentido

[02:00:12] e disputou muito essa questão da identidade.

[02:00:14] Você falou isso.

[02:00:16] A identidade do Nordeste, sim.

[02:00:18] Mas eu não uso muito isso como…

[02:00:20] Tem gente trabalhando com isso

[02:00:22] que usa isso como venda,

[02:00:24] como argumento.

[02:00:26] Tipo, eu faço um trabalho…

[02:00:28] Eu sou nacional.

[02:00:30] Eu sou um ilustrador brasileiro.

[02:00:32] Tem uma…

[02:00:34] Existe. Isso é um fato.

[02:00:36] Um branding aí.

[02:00:38] Eu sou uma artista brasileira.

[02:00:40] Eu não seguro muito essa onda.

[02:00:42] Eu sei que eu estou fazendo

[02:00:44] por ser nordestina.

[02:00:46] Mas eu não carrego

[02:00:48] isso comigo sempre quando estou criando.

[02:00:50] Eu acho que eu tenho…

[02:00:52] Eu sei que eu tenho influências

[02:00:54] muito enraizadas

[02:00:56] que eu achava que eu não tinha.

[02:00:58] Por exemplo,

[02:01:00] uma coisa que eu odiava era o armorial.

[02:01:02] E hoje eu percebo o quanto o armorial está em mim

[02:01:04] no meu trabalho.

[02:01:06] Eu estou dando um exemplo prático aqui.

[02:01:08] Porque a gente discute muito

[02:01:10] essa coisa do armorial aqui em Recife.

[02:01:12] Que tem a guerra dos

[02:01:14] armorialistas.

[02:01:16] E eu achava…

[02:01:18] Mas eu…

[02:01:20] Hoje eu…

[02:01:22] Inclusive teve uma exposição muito boa que circulou

[02:01:24] o Brasil todo sobre o armorial.

[02:01:26] Que estava até no Museu do Estado.

[02:01:30] E eu vi o trabalho

[02:01:32] de pintura de Ariano Sassona

[02:01:34] e eu fiquei passada.

[02:01:36] Porque eu tinha muito preconceito

[02:01:38] com o trabalho dele como artista visual.

[02:01:42] E o trabalho tipográfico

[02:01:44] e visual dele é maravilhoso.

[02:01:46] Então é muito preconceito que a gente carrega.

[02:01:48] Ao querer ser moderna

[02:01:50] a gente…

[02:01:52] Porque eu era muito anti-armorial.

[02:01:54] Faz uma

[02:01:56] coisa bem podcast, Ana.

[02:01:58] Explica um pouco, pessoal, o que é esse armorial

[02:02:00] e por que a gente tem…

[02:02:02] Nós todos temos uma relação de amor

[02:02:04] e de…

[02:02:06] Sim, eu esqueço o que estamos falando.

[02:02:08] Tem pessoas que…

[02:02:10] Infelizmente, nem todos aqui são nordestinos.

[02:02:12] Sim, claro, claro, claro.

[02:02:14] Claro, claro.

[02:02:16] Não, o movimento armorial

[02:02:18] é um movimento regionalista

[02:02:20] encabeçado por

[02:02:22] Ariano Sassona e outros.

[02:02:24] Mas ele é a principal pessoa.

[02:02:26] Me corrijam também, viu, que eu não estou

[02:02:28] preparada para fazer aula, não.

[02:02:30] Ele foi o que encabeçou,

[02:02:32] o movimento armorial.

[02:02:34] E…

[02:02:36] E ele…

[02:02:38] Tinha como principal referência,

[02:02:40] eu acho, assim…

[02:02:42] É muito clara a influência europeia.

[02:02:44] É como se…

[02:02:46] Uma cultura visual europeia

[02:02:48] com

[02:02:50] a cultura nordestina.

[02:02:52] Então, é uma mistura.

[02:02:54] E isso você vai…

[02:02:56] O movimento armorial não se resume

[02:02:58] à dramaturgia, nem

[02:03:00] às artes visuais, nem…

[02:03:02] É toda uma cultura.

[02:03:04] Então, vai desde dança

[02:03:06] até

[02:03:08] moda, certo?

[02:03:10] Vai para tudo.

[02:03:12] E aí a gente tem uma série de artistas pernambucanos

[02:03:14] e não pernambucanos também,

[02:03:16] aqui da…

[02:03:18] Nordeste, né, em geral,

[02:03:20] que seguem nessa linha.

[02:03:22] Então, a gente vai ter, por exemplo,

[02:03:24] o próprio Alto da Compadecida,

[02:03:26] que carrega visualmente, esteticamente,

[02:03:28] o movimento armorial como preceito.

[02:03:30] É…

[02:03:32] A gente vai ter…

[02:03:34] O…

[02:03:36] O Grial, na dança.

[02:03:38] A gente vai ter…

[02:03:40] Estou pensando aqui. Me ajuda aí, Rafa.

[02:03:42] Na música, na música tem…

[02:03:44] Na música, a gente vai ter…

[02:03:46] O Quinteto Violado, a gente vai ter…

[02:03:48] O que mais?

[02:03:50] Ah…

[02:03:52] Tem todo um resgate

[02:03:54] do Cordel em várias…

[02:03:56] Como o nome daquele que usa uma…

[02:03:58] uma…

[02:04:00] A Rabeca, não.

[02:04:02] Ciba? Não, não.

[02:04:04] Não, Ciba já é outra coisa.

[02:04:06] Que é dançarino.

[02:04:08] Que é dançarino, isso, isso.

[02:04:10] Ele teve até uma escola de artes em São Paulo

[02:04:12] Ele tinha um show chamado Brincante.

[02:04:14] Brincante, exatamente.

[02:04:16] E aí a gente vai.

[02:04:18] Vai estar em todo local, né?

[02:04:20] É muito complexo e é muito rico.

[02:04:22] E aí…

[02:04:24] E também a gente vai ter…

[02:04:26] Ah, sim, e um que não sei

[02:04:28] se ele se considera, mas ele está

[02:04:30] dentro e é o nosso

[02:04:32] maior de todos.

[02:04:34] É…

[02:04:36] Inclusive estava na exposição muita coisa dele.

[02:04:38] É…

[02:04:40] Que trabalha com estilografura. Minha gente, me ajuda.

[02:04:42] Não, Jota Borges não.

[02:04:44] Samico.

[02:04:46] Samico, Samico.

[02:04:48] Não, Jota Borges não é… Samico é…

[02:04:50] Não, Jota Borges não. Samico é.

[02:04:52] Então, Samico vai…

[02:04:54] Ele era muito próximo, mas eu não…

[02:04:56] Eu não consigo afirmar agora, nesse momento.

[02:04:58] Eu teria que pesquisar se ele se

[02:05:00] autotitulava armorial, tá?

[02:05:02] Eu acho que…

[02:05:04] Mas a gente tende a identificar ele como armorial.

[02:05:06] Com certeza, porque esteticamente

[02:05:08] ele é muito armorial.

[02:05:10] O dançarino é…

[02:05:12] músico e multiartista,

[02:05:14] sei lá, é o Antônio Nóbrega.

[02:05:16] Antônio Nóbrega.

[02:05:18] Então, assim…

[02:05:20] Samico é uma figura interessantíssima

[02:05:22] porque ele, na década de 60,

[02:05:24] ele foi pro Rio,

[02:05:26] ele trabalhou com a Luiza Magalhães,

[02:05:28] ele era bem modernista.

[02:05:30] Bem, exatamente.

[02:05:32] Por isso que eu falo que ele está ali

[02:05:34] no meio.

[02:05:36] Ele está ali no meio.

[02:05:38] E Ariano quer puxar, né?

[02:05:40] Ele está puxando.

[02:05:42] Venha ser regionalista comigo.

[02:05:44] E a galera…

[02:05:46] O próprio Brenan tem um trabalho armorial muito forte.

[02:05:48] Apesar dele não se intitular como armorial.

[02:05:50] E assim vai.

[02:05:52] O Francisco Brenan.

[02:05:54] É, Brenan, Gilberto Freire já puxa pra ele.

[02:05:56] E Ariano também.

[02:05:58] É uma guerra, um cabo de guerra.

[02:06:00] Cada um que puxa pra seu lado, entendeu?

[02:06:02] Na exposição tinha vários trabalhos de Brenan,

[02:06:04] inclusive com figurino

[02:06:06] pra cinema, que Brenan fez.

[02:06:08] E aí,

[02:06:10] só você olha…

[02:06:12] Então, as principais características,

[02:06:14] visualmente falando, essa coisa do flat,

[02:06:16] do chapado,

[02:06:18] cores, muito cores primárias,

[02:06:20] porque vem muito da coisa da estilo,

[02:06:22] então são cores

[02:06:24] ou de serigrafia ou de estilo,

[02:06:26] trabalhando essa coisa da camada muito forte,

[02:06:28] do flat.

[02:06:30] O que mais? E cores que são bastante…

[02:06:32] Também do figurino,

[02:06:34] da roupa tradicional também,

[02:06:36] aquela coisa das roupas religiosas,

[02:06:38] tradicionais, as coisas chamadas.

[02:06:40] Túnicas e etc.

[02:06:42] No mundo armorial,

[02:06:44] o nordestino só usa túnica, não usa…

[02:06:46] Exato, a gente anda assim na rua,

[02:06:48] com um sapatinho de couro,

[02:06:50] e o acionário arrastando,

[02:06:52] chutando poeira, né, velho?

[02:06:54] Aí pronto, é isso.

[02:06:56] E aí é isso.

[02:06:58] Então, assim, eu acho que

[02:07:00] o meu preconceito radical

[02:07:02] da juventude, que agora já estou perdendo,

[02:07:04] graças a Deus, na maturidade,

[02:07:06] é que eu não queria ser associada

[02:07:08] a essa coisa da Globo, né?

[02:07:10] Inclusive, as governadoras da Globo todas

[02:07:12] usam armorial como… Quando está falando do nordeste,

[02:07:14] eles usam armorial como estética.

[02:07:16] Seja na abertura,

[02:07:18] seja no figurino,

[02:07:20] seja na forma que fala o texto.

[02:07:22] E aí,

[02:07:24] hoje eu consigo ver muito

[02:07:26] da influência do armorial no meu trabalho,

[02:07:28] porque eu trabalho muito com design gráfico

[02:07:30] flat, né? Mas é um flat

[02:07:32] mais orgânico, não é esse flat

[02:07:34] tecnológico.

[02:07:36] E aí eu…

[02:07:38] Que você vai encontrar em

[02:07:40] Bajado, que a gente vai encontrar em Samico,

[02:07:42] que a gente vai encontrar em diversos artistas,

[02:07:44] armoriais ou não, mas que tem uma

[02:07:46] pegada…

[02:07:48] Que aí o termo

[02:07:50] vernacular eu não curto mais, que também

[02:07:52] tem uma pegada vernacular, e assim vai.

[02:07:54] E…

[02:07:56] Qual o problema do termo vernacular?

[02:07:58] Eu não sei se eu curto mais esse

[02:08:00] termo, mas eu…

[02:08:02] Seria um… Eu não ficaria

[02:08:04] falando disso agora, não. Teria

[02:08:06] que…

[02:08:08] Rafael pode tentar

[02:08:10] explicar para mim, não é, Rafa?

[02:08:14] Estou na fogueira, mulher.

[02:08:16] Você quer que eu…

[02:08:18] Eu não vou entrar nessa polêmica

[02:08:20] agora. Essa polêmica não é uma…

[02:08:22] Quer que eu levante essa polêmica,

[02:08:24] Rafael, e você continua?

[02:08:26] Não, eu não vou entrar nessa polêmica.

[02:08:28] Mas só para responder a pergunta.

[02:08:30] Hoje é o dia do Rafael, a gente não entra nessa polêmica.

[02:08:32] Eu vou responder a pergunta, né?

[02:08:34] De influência de artistas.

[02:08:36] Eu acho que a gente tem

[02:08:38] toda uma leva de ilustradores

[02:08:40] e designers gráficos pernambucanos

[02:08:42] que tem essa…

[02:08:44] Tem essa referência muito

[02:08:46] clara do armorial no trabalho.

[02:08:48] Como a própria

[02:08:50] Bela Andrade Lima, que fez o carnaval

[02:08:52] por um bom tempo. A Joana Lira,

[02:08:54] que fez o trabalho por um bom tempo do carnaval

[02:08:56] recifense também. Todos foram para fora

[02:08:58] e estão trazendo trabalhos…

[02:09:00] Fizeram parceria com Tokstok, fizeram parceria com isso aqui.

[02:09:02] Trabalham há anos com isso

[02:09:04] e…

[02:09:06] Carregam uma…

[02:09:08] O próprio Romero Brito poderia usar

[02:09:10] esse argumento de quem

[02:09:12] tem uma referência

[02:09:14] dessa ordem.

[02:09:16] Então, porque

[02:09:18] essa lógica do contorno preto,

[02:09:20] sobre cores chapadas,

[02:09:22] a simetria

[02:09:24] no trabalho e etc.

[02:09:26] Eu mesmo tenho muita influência da simetria.

[02:09:28] Eu adoro simetria.

[02:09:30] E tudo isso eu só estou começando a perceber

[02:09:32] hoje, como eu estou influente.

[02:09:34] E eu quero falar sobre como a gente é influenciado

[02:09:36] inconscientemente

[02:09:38] com a linguagem

[02:09:40] desde cedo.

[02:09:42] Um exemplo disso rápido, que eu acho interessante,

[02:09:44] que é o caso do Kleber, que é uma pessoa mais próxima da gente,

[02:09:46] o Kleber Mendonça, que é o cineasta.

[02:09:48] Todo mundo, hoje em dia,

[02:09:50] quando lembra dele, lembra do filme Bacurau,

[02:09:52] que é um filme

[02:09:54] quase que intencionalmente regionalista,

[02:09:56] com a visão meio

[02:09:58] pós-moderna regionalista, mas é regionalista e tal.

[02:10:00] Embora, assim,

[02:10:02] para mim, o Bacurau

[02:10:04] é uma cidade que não existe,

[02:10:06] você não vai encontrar nenhum lugar que é parecido

[02:10:08] com o Bacurau, mas ele é como se fosse um

[02:10:10] estereótipo de várias concepções

[02:10:12] do que é o Nordeste e tal.

[02:10:14] Tem até uma certa concepção da machisa

[02:10:16] e de lutar contra a injustiça.

[02:10:18] Tem um monte de coisa ali que está acontecendo no Bacurau,

[02:10:20] no filme. Mas o Kleber fez

[02:10:22] vários filmes que são sobre

[02:10:24] o que o Kleber conhece melhor,

[02:10:26] que é a vida

[02:10:28] cidadina,

[02:10:30] como é morar em Recife.

[02:10:32] E agora os últimos filmes dele estão falando

[02:10:34] mais sobre o que é morar em Recife,

[02:10:36] como é que é a coisa…

[02:10:38] E ele é um cara que faz referência muito

[02:10:40] a cineastas americanos, como o John Carpenter,

[02:10:42] sabe como é que é, que ele adora,

[02:10:44] ele bota a música do John Carpenter no meio do filme dele.

[02:10:46] Ele vai com uma oposição

[02:10:48] a isso que a gente acabou de falar,

[02:10:50] é outra visão.

[02:10:52] Eu acho que, ao mesmo tempo, ele contribui

[02:10:54] com um filme feito Bacurau

[02:10:56] e, de um outro lado,

[02:10:58] ele também não tem nada a ver com isso,

[02:11:00] com essa visão…

[02:11:02] Mas é isso que é interessante do que ele faz,

[02:11:04] a gente vai esperando que vai encontrar

[02:11:06] o João Grilo

[02:11:08] e a gente sai com aquele

[02:11:10] que parece o Curupira, como é o nome dele.

[02:11:12] É o que eu acho

[02:11:14] a coisa que eu mais amo…

[02:11:16] Que é o Severo, né?

[02:11:18] É, que é o Severo que faz…

[02:11:20] Lunga!

[02:11:22] A gente vai achando que vai encontrar o João Grilo

[02:11:24] e sai com Lunga, entendeu?

[02:11:26] É sobre isso.

[02:11:28] Então eu acho que ele é bem…

[02:11:30] Ele quebra com o historiador do Nordeste,

[02:11:32] eu acho isso interessante,

[02:11:34] é o que ele faz, né?

[02:11:36] Então ele é um bom exemplo, sim,

[02:11:38] sobre a imagem do Nordeste.

[02:11:40] O que eu acho é o seguinte,

[02:11:42] essa coisa que a Julia falou,

[02:11:44] você luta e contribui…

[02:11:46] É um negócio muito doido esse processo

[02:11:48] que a gente está falando.

[02:11:50] Rafael, fala um pouco sobre isso,

[02:11:52] o que você acha dessa coisa,

[02:11:54] que a gente está lutando e contribuindo,

[02:11:56] ao mesmo tempo.

[02:11:58] É…

[02:12:00] Como é que eu falo?

[02:12:02] Que é contrário,

[02:12:04] que é jornalista,

[02:12:06] mas que não é jornalista,

[02:12:08] que assim, é o Nordeste…

[02:12:10] Falou de um estereótipo de…

[02:12:12] Foi você que falou do estereótipo de Machesa,

[02:12:14] mas aí ao mesmo tempo reforça

[02:12:16] que é o…

[02:12:18] O Nordeste,

[02:12:20] que tem uma moça que vai

[02:12:22] na médica que está

[02:12:24] ressacada,

[02:12:26] mas também é essa mesma galera

[02:12:28] que vai botar para fora

[02:12:30] e matar coletivamente

[02:12:32] um bocado de invasor estrangeiro.

[02:12:34] E aí…

[02:12:36] É um caráter…

[02:12:38] Nesse ponto eles são um pouco Ariano Suassuna,

[02:12:40] porque era um cara extremamente

[02:12:42] violento, verbalmente,

[02:12:44] contra o Michael Jackson

[02:12:46] e a influência da cultura lá de fora e tal.

[02:12:48] No Bacurau isso vira uma metáfora

[02:12:50] literal, vamos dizer assim,

[02:12:52] eles matam os estrangeiros,

[02:12:54] literalmente.

[02:12:56] Só que naquele

[02:12:58] momento específico

[02:13:00] brasileiro,

[02:13:02] era um momento que o Nordeste

[02:13:04] estava sendo atacado,

[02:13:06] a gente tem o Nordeste resistindo ali.

[02:13:08] Então…

[02:13:10] A importância…

[02:13:12] Não sei se é escapável,

[02:13:14] não sei se dá para escapar dessa

[02:13:16] contradição aí,

[02:13:18] que você pode querer fugir,

[02:13:20] mas ao mesmo tempo você está,

[02:13:22] ao querer fugir,

[02:13:24] você está reconhecendo a importância

[02:13:26] daquilo que você quer fugir.

[02:13:28] Então…

[02:13:30] Não sei se deu para entender.

[02:13:32] Mas ao querer negar,

[02:13:34] você está sendo um outro.

[02:13:36] Mesmo que você não queira ser regionalista,

[02:13:38] ou fugir de um estereótipo de Nordeste,

[02:13:40] você está trabalhando com aquilo dali,

[02:13:42] então você vai reforçar

[02:13:44] aquilo dali.

[02:13:46] Só que enfim, são as coisas que são assim.

[02:13:48] Deixa eu puxar então um ponto que eu achei interessante,

[02:13:50] que talvez o pessoal também possa contribuir

[02:13:52] com você, que é o seguinte,

[02:13:54] quando a gente

[02:13:56] começou a debater sobre esse encontro,

[02:13:58] a gente

[02:14:00] conversou com o Luiz,

[02:14:02] que é um amante de novelas,

[02:14:04] mas de uma maneira

[02:14:06] super intelectual,

[02:14:08] os papos mais intelectuais sobre novela que eu tive

[02:14:10] na minha vida foi com o Luiz,

[02:14:12] que é o Luiz, o historiador,

[02:14:14] que é seu namorado, mas ele também

[02:14:16] é um historiador, aquela coisa,

[02:14:18] ah não, ele é o namorado do Rafael, não,

[02:14:20] ele também é uma pessoa importante.

[02:14:22] E que fala muito mais com os meus amigos do que eu,

[02:14:24] quando a gente se encontra, quem mais conversa é ele.

[02:14:26] Cara, ele é ótimo,

[02:14:28] ele adora conversar, a gente conversa muito,

[02:14:30] mas ele também conversa muito.

[02:14:32] E o Luiz, ele trouxe

[02:14:34] uma questão, porque o

[02:14:36] Durval, que a gente estava falando

[02:14:38] da Invenção do Nordeste, o livro,

[02:14:40] que é um grande autor paraibano

[02:14:42] aqui da região,

[02:14:44] que ele

[02:14:46] é um Foucaultiano,

[02:14:48] e então ele está fazendo essa análise

[02:14:50] histórica de visualidade,

[02:14:52] de um montão de coisa e tal,

[02:14:54] e aí ele faz

[02:14:56] isso que você falou, ele culpabiliza

[02:14:58] a elite

[02:15:00] intelectual, a elite

[02:15:02] todas as elites possíveis, imaginárias

[02:15:04] do Nordeste, por estarem

[02:15:06] criando estereótipos sobre o Nordeste,

[02:15:08] e aí o Luiz fala assim,

[02:15:10] uma questão que eu acho interessante, que ele coloca assim,

[02:15:12] mas não existe imagens

[02:15:14] hegemônicas do Nordeste?

[02:15:16] Ele coloca que, se você

[02:15:18] analisa historicamente, existem sim

[02:15:20] imagens hegemônicas do Nordeste.

[02:15:22] Então, eu acho, o que você acha

[02:15:24] dessa questão da imagem hegemônica,

[02:15:26] quer dizer, assim, não existe

[02:15:28] a imagem pura que vai no Nordeste,

[02:15:30] mas existem imagens hegemônicas ou não existem?

[02:15:32] Claro, as novelas

[02:15:34] da Globo são

[02:15:36] retratos dessas imagens hegemônicas,

[02:15:38] assim, a coisa da seca, essa coisa

[02:15:40] do tom de sépia,

[02:15:42] as obras de

[02:15:44] Lula,

[02:15:46] talvez, possam entrar,

[02:15:48] Ariano entra muito nessa lógica da

[02:15:50] imagem, que é a imagem que representa

[02:15:52] o Nordeste, total,

[02:15:54] total, total. Agora, eu queria

[02:15:56] mudar um pouco…

[02:15:58] Mas aí, elas de fato, que eu acho que ele está

[02:16:00] querendo dizer, elas de fato representam

[02:16:02] para as pessoas o Nordeste.

[02:16:04] Então, dizer que

[02:16:06] a gente está inventando

[02:16:08] o Nordeste que não existe,

[02:16:10] eu acho que talvez ele não tenha ido

[02:16:12] até o final do raciocínio da coisa,

[02:16:14] quer dizer, que a gente está, na realidade,

[02:16:16] a gente está indo um pouquinho adiante, quer dizer,

[02:16:18] não sei…

[02:16:20] Tem um pedacinho aqui do texto

[02:16:22] que eu até marquei, assim,

[02:16:24] que ele para na parte

[02:16:26] que seria a parte mais interessante,

[02:16:28] que é

[02:16:30] justamente

[02:16:32] como as pessoas vão

[02:16:34] se apropriar disso,

[02:16:36] mas aí existe mesmo, gente, assim,

[02:16:38] a realidade é essa,

[02:16:40] a realidade, às vezes, não é tão inventada

[02:16:42] assim, não. E a gente

[02:16:44] se identifica com isso e está tudo

[02:16:46] certo. Deixa eu ver se eu acho aqui,

[02:16:48] não vou achar,

[02:16:50] não vou achar não, mas

[02:16:52] faz sentido, assim,

[02:16:54] aqui, achei.

[02:16:56] Essa série

[02:16:58] de eventos e práticas expressas fazem emergir

[02:17:00] e se institucionam,

[02:17:02] institucionalizar

[02:17:04] a ideia do Nordeste,

[02:17:06] inclusive entre as camadas

[02:17:08] populares. E ele não evolui

[02:17:10] na discussão. Ele

[02:17:12] parou aqui e, sim,

[02:17:14] o que é que as camadas populares

[02:17:16] vão dizer do Nordeste? O que é que elas

[02:17:18] acham que é o Nordeste? E se esse

[02:17:20] Nordeste que está sendo construído pelas elites

[02:17:22] faz sentido para elas

[02:17:24] ou não? E se fizer,

[02:17:26] qual é o problema, se fizer?

[02:17:28] Eu acho que a fala

[02:17:30] de Luiz,

[02:17:32] é nesse sentido que não dá para dizer

[02:17:34] que o Nordeste é apenas

[02:17:36] uma construção

[02:17:38] forçada de cima para baixo

[02:17:40] das elites. Tem uma,

[02:17:42] vou colocar o termo,

[02:17:44] a agência, tem uma agência das camadas populares,

[02:17:46] também, as camadas populares

[02:17:48] também estão na disputa

[02:17:50] desse Nordeste. A realidade

[02:17:52] que essas pessoas vivem também está,

[02:17:54] a realidade está lá,

[02:17:56] nua e crua das pessoas vivendo,

[02:17:58] sofrendo ou não, gozando ou não,

[02:18:00] mas não ali. Então,

[02:18:02] o que é a vida para essas pessoas, né?

[02:18:04] Tem uma certa

[02:18:06] visão elitista de que a gente está

[02:18:08] olhando, não, mas essas pessoas não sabem o que é o

[02:18:10] Nordeste, quer dizer, estão quase numa posição desse tipo.

[02:18:12] Quer dizer, tipo,

[02:18:14] a elite é que vai dizer se

[02:18:16] as classes populares, entre

[02:18:18] aspas, se de fato a versão

[02:18:20] delas é correta, como assim? Elas

[02:18:22] não têm o direito de pensar o que elas quiserem pensar.

[02:18:24] Exato. Agora, eu queria

[02:18:26] contornar, não, eu queria falar de uma

[02:18:28] coisa que, Luiz, me chamou a atenção,

[02:18:30] há algumas semanas, que foi

[02:18:32] cuidado quando for falar do Nordeste, que o

[02:18:34] Nordeste não é Pernambuco.

[02:18:38] E aí eu queria

[02:18:40] saber se tem alguém

[02:18:42] daqui que não seja

[02:18:44] de Pernambuco, que seja de algum

[02:18:46] outro estado do Nordeste

[02:18:48] possa falar.

[02:18:50] É, para quem é carioca,

[02:18:52] viu, gente,

[02:18:54] confundir a Bahia com

[02:18:56] Pernambuco

[02:18:58] ou a Paraíba

[02:19:00] é uma coisa considerada

[02:19:02] assim,

[02:19:04] absurda, assim, absurda. A coisa mais

[02:19:06] absurda que você pode fazer é fazer essa comparação,

[02:19:08] porque não tem,

[02:19:10] não se encontra

[02:19:12] muitos paralelos, assim,

[02:19:14] como o Nordeste.

[02:19:16] E aí, gente, tem alguém?

[02:19:18] Ih, gente, só tem

[02:19:20] só tem de nordestino aqui,

[02:19:22] só tem pernambucano.

[02:19:24] Quem é fieliense? Tassila.

[02:19:26] Pronto, fale

[02:19:28] mais, Tassila, sobre isso.

[02:19:30] Tu pode abrir o microfone?

[02:19:32] Tu pode abrir o microfone?

[02:19:40] Acho que Tassila está sem poder abrir o microfone.

[02:19:46] Que pena, que pena.

[02:19:48] Mas é, eu acho também.

[02:19:50] Assim, eu nunca fui

[02:19:52] para o Piauí

[02:19:54] nem para o Maranhão.

[02:19:56] Infelizmente eu não conheço. O mais ao Norte

[02:19:58] do Nordeste que eu fui,

[02:20:00] foi Natal.

[02:20:02] Depois eu não dei a

[02:20:04] Que é aqui pertinho, né?

[02:20:06] Natal é bem pertinho, né?

[02:20:08] Eu não fui para Fortaleza, eu não fui para Teresina,

[02:20:10] isso eu estou falando porque eu estou sendo das capitais,

[02:20:12] que é um erro também.

[02:20:14] Não fui para São Luís,

[02:20:16] eu não conheço absolutamente nada

[02:20:18] para lá.

[02:20:20] Uma coisa que é interessante

[02:20:22] é

[02:20:24] que eu fui casado com

[02:20:26] uma

[02:20:28] uma pessoa que era

[02:20:30] de São Luís, que era

[02:20:32] do Maranhão, e

[02:20:34] assim, uma coisa que me chamava

[02:20:36] muita atenção, por exemplo, é o jeito que eles falam.

[02:20:38] Eles têm um tipo de

[02:20:40] uma construção

[02:20:42] coloquial

[02:20:44] que parece um português muito mais

[02:20:46] correto do que o resto do Brasil.

[02:20:48] Tem várias, você vai procurando

[02:20:50] em várias regiões, cada uma tem

[02:20:52] uma característica que você não imagina.

[02:20:54] Tem mitos

[02:20:56] locais, por exemplo, tem um mito

[02:20:58] lindíssimo, que você

[02:21:00] pode encontrar isso nas músicas do

[02:21:02] Zé Cabaleiro, que é do

[02:21:04] do Maranhão.

[02:21:06] Zé Cabaleiro é cearense, não?

[02:21:08] Ele é cearense? Eu acho que ele é de…

[02:21:10] Eu vou checar aqui depois.

[02:21:12] Eu acho que ele é do Maranhão.

[02:21:14] Maranhão? Desculpa.

[02:21:16] Que Ceará

[02:21:18] é muito próximo da gente também, assim,

[02:21:20] culturalmente, muitas coisas, mas também não é.

[02:21:22] É…

[02:21:24] E aí o…

[02:21:26] Uma coisa que marca

[02:21:28] muito, não sei se todo mundo sabe, que marca muito o Ceará

[02:21:30] é a comédia, né? E todo mundo consome muito

[02:21:32] comédia cearense aqui em Recife.

[02:21:34] Mas a…

[02:21:36] O Zé Cabaleiro é o mito

[02:21:38] de que a cidade de São Luís,

[02:21:40] que é uma ilha, tem uma cobra

[02:21:42] gigante que tá

[02:21:44] que envolve

[02:21:46] a cidade, e ela tá

[02:21:48] ela tá fazendo o

[02:21:50] aquele símbolo do infinito

[02:21:52] que é a cobra mordendo o próprio

[02:21:54] rabo. Ouroburo.

[02:21:56] Ouroburo, exatamente. E aí ela

[02:21:58] tá… Quando a cobra mordeu

[02:22:00] o próprio rabo, ela vai

[02:22:02] esmagar e

[02:22:04] vai destruir, afundar a cidade de São Luís.

[02:22:06] Quando isso acontecer, em uma

[02:22:08] outra ilha… Espero que eu não esteja

[02:22:10] contando a história errada. Numa outra ilha,

[02:22:12] é…

[02:22:14] São Sebastião continua vivo.

[02:22:16] Olha que doido.

[02:22:18] Eu acho maravilhoso. Acho maravilhoso.

[02:22:20] Amo essa imagem. É…

[02:22:22] Ele continua vivo e ele vai

[02:22:24] reinar de novo sentado

[02:22:26] num touro. Tá certo?

[02:22:28] E ele vai vir, ele vai

[02:22:30] voltar à vida e vai…

[02:22:32] É uma… Cara,

[02:22:34] que história incrível que a gente aqui em Recife

[02:22:36] não conhece nada. Tem um monte de histórias interessantes

[02:22:38] aqui em Recife, mas é uma história que não tem nada

[02:22:40] a ver com a gente culturalmente. E lá

[02:22:42] no lago que tem em volta de…

[02:22:44] Ou no rio, não sei.

[02:22:46] Eles fizeram uma cobrinha, assim,

[02:22:48] que tá dentro do rio, pra fazer referência a

[02:22:50] esse mito.

[02:22:52] Cabedelo também tem uma referência

[02:22:54] a uma cobra, que é uma cobra que

[02:22:56] mora embaixo da…

[02:22:58] do forte de Santa Catarina,

[02:23:00] que é o…

[02:23:02] o forte que

[02:23:04] protegia a cidade

[02:23:06] das invasões.

[02:23:08] Tem referência também.

[02:23:10] Mas eu também não fazia ideia disso daqui.

[02:23:12] E a cobra que é esse mito que se liga

[02:23:14] ao dragão, um mito medieval e tal.

[02:23:16] Cara, é uma…

[02:23:18] É uma…

[02:23:20] É um mundo muito diverso, né?

[02:23:22] Que a gente não conhece. A Mariana tá dizendo que

[02:23:24] contaram essa história quando ela foi lá também.

[02:23:26] Eu acho maravilhosa essa história.

[02:23:28] Fala. Desculpa.

[02:23:30] Desculpa aí, Ricardo.

[02:23:32] Não, é porque eu fiquei…

[02:23:34] Você falou que o Nordeste não é só Pernambuco.

[02:23:36] Fatos.

[02:23:38] É porque eu falei como pernambucana, né?

[02:23:40] Mas assim, eu lembrei agora de um artista,

[02:23:42] porque já que a gente falou indicação de artistas,

[02:23:44] a gente pode falar de artistas

[02:23:46] que seguem uma tendência

[02:23:48] de uma imagem

[02:23:50] vendável do que é Nordeste,

[02:23:52] que foram esses que eu citei.

[02:23:54] Mas também tem artistas que você não tem ideia

[02:23:56] de que são nordestinos e que estão fazendo

[02:23:58] trabalho reconhecido mundialmente, como…

[02:24:00] Acho que todo mundo pode ter…

[02:24:02] Acho que muitas pessoas viram

[02:24:04] que foi o Lésio Lopes, que é um sergipano,

[02:24:06] que fez as aberturas da série White Lotus.

[02:24:10] Não sabia.

[02:24:12] Alguém assistiu White Lotus

[02:24:14] aqui, a série?

[02:24:16] Eu sei que a série existe. Eu assisti.

[02:24:18] Eu me lembro.

[02:24:20] A primeira ou a segunda temporada?

[02:24:22] Aquela abertura é feita por um artista

[02:24:24] sergipano.

[02:24:26] É da segunda temporada que você está falando,

[02:24:28] que ele faz com pintura.

[02:24:30] Não, todas as temporadas. São todas as temporadas.

[02:24:32] Ah, que massa. É lindo, é lindo.

[02:24:34] E ele é formado em design de moda

[02:24:36] pela Universidade Federal de Serra.

[02:24:38] Começou a fazer trabalho com estampas,

[02:24:40] uma coisa meio farm, assim.

[02:24:42] E aí foi desenvolvendo

[02:24:44] essa técnica dele

[02:24:46] em ilustração num nível tal

[02:24:48] que ele

[02:24:50] ficou com uma estética, como a gente chama aqui,

[02:24:52] não é nem a brasileirada,

[02:24:54] é aquele meio termo que se pode aplicar.

[02:24:58] Eu achei isso interessante, porque

[02:25:00] você olha para aquela abertura e você não diz, não,

[02:25:02] isso aqui é uma estética de uma pessoa que vem

[02:25:04] do nordeste brasileiro.

[02:25:06] Mas se você olhar direitinho,

[02:25:08] bem direitinho,

[02:25:10] lembra muito as pinturas,

[02:25:12] muitas pinturas de igrejas e etc.

[02:25:14] do Brasil. Então, assim, eu acho que

[02:25:18] como é interessante isso.

[02:25:20] Era só isso que eu queria falar, porque a curiosidade

[02:25:22] eu acho que hoje eu estou fazendo um ilustrador,

[02:25:24] o top do top do top

[02:25:26] é ele. E ele

[02:25:28] hoje ele mora em Sydney.

[02:25:30] Aí, como é que ele conseguiu?

[02:25:32] Ele está fora do Brasil,

[02:25:34] ele está na Austrália.

[02:25:36] Foi por outro caminho que ele chegou lá,

[02:25:38] mas ele é

[02:25:40] brasileiro, ele é nordestino, ele é sergipano.

[02:25:42] E a gente fala

[02:25:44] design pernambucano, mas ninguém fala do design

[02:25:46] sergipano, eu acho

[02:25:48] bem complicado realmente falar sobre isso,

[02:25:50] porque uma coisa que a gente

[02:25:52] pode falar, ai, quantas pessoas

[02:25:54] falam do Nordeste, é essa

[02:25:56] estética da cultura popular

[02:25:58] e como isso

[02:26:00] é engendrado

[02:26:02] dentro da estética do trabalho.

[02:26:04] Então, assim,

[02:26:06] eu acho que se poderia dizer

[02:26:08] alguma coisa sobre isso, na minha opinião,

[02:26:10] totalmente pessoal,

[02:26:12] é que essa

[02:26:14] estética da

[02:26:16] cultura popular

[02:26:18] mesmo, do artesanato,

[02:26:20] isso é o que carrega

[02:26:22] uma característica

[02:26:24] muito comum entre os estados do Nordeste.

[02:26:26] É como se disseram assim, a cultura do Brasil

[02:26:28] está no Nordeste e no Norte.

[02:26:30] Quando a gente fala de cultura, a gente só pensa

[02:26:32] automaticamente nessa lógica

[02:26:34] estereotipada do carnaval,

[02:26:36] folguedos

[02:26:38] e fitas serpentinas.

[02:26:40] Vocês compreendem o que eu estou falando? É tipo assim,

[02:26:42] infelizmente,

[02:26:44] é isso que a gente pensa quando fala de cultura,

[02:26:46] quando cultura é uma coisa muito mais complexa.

[02:26:48] E aí, eu acho

[02:26:50] bem interessante pensar

[02:26:52] e quando a gente pensa em cultura brasileira, a gente pensa

[02:26:54] em coqueiro.

[02:26:56] E isso é uma coisa que, assim,

[02:26:58] coqueiros, palmas

[02:27:00] e flores,

[02:27:02] tucanos,

[02:27:04] né? Então, é uma coisa assim que

[02:27:06] me deixa curiosa

[02:27:08] sobre como

[02:27:10] a gente deveria fazer um mapeamento

[02:27:12] do que é, de fato, essa visualidade

[02:27:14] em todos os

[02:27:16] estados. Eu acho que seria um trabalho bem legal,

[02:27:18] que eu não sei se já deve existir, mas, assim,

[02:27:20] pensar nas texturas,

[02:27:22] nas formas, além

[02:27:24] do que a gente faz de tipografia, é mais fácil.

[02:27:26] A gente vai procurar as tipografias, mas quando a gente fala de

[02:27:28] visualidade, tem outras coisas que a gente pode pesquisar

[02:27:30] e que fica meio solto, né?

[02:27:32] Não sei se eu estou falando muito bem.

[02:27:34] Bem, era isso. Era só falar sobre

[02:27:36] Sergio López.

[02:27:38] Tá? Tchau.

[02:27:40] Ana,

[02:27:42] você falou coisas ótimas. Se você tivesse falado besteira,

[02:27:44] eu também teria falado coisas ótimas. Você só fala coisas

[02:27:46] ótimas aqui, viu, Ana? Você tem o seu

[02:27:48] fã-clube das coisas que

[02:27:50] vem na tua cabeça aqui, no meio do negócio.

[02:27:52] Achei interessante.

[02:27:54] O meu Divertidamente é bem

[02:27:56] ansioso, né?

[02:27:58] Mas tudo bem.

[02:28:00] Aliás, assistiu Divertidamente 2 agora

[02:28:02] recentemente. A ansiedade,

[02:28:04] né?

[02:28:06] É, eu sou aquele

[02:28:08] ansioso.

[02:28:10] Eu olhei aqui a abertura,

[02:28:12] enquanto o Renan falava, eu fui olhar aqui

[02:28:14] uma das aberturas de

[02:28:16] White Lotus e me lembrou

[02:28:18] muito aqueles

[02:28:20] catálogos, aqueles

[02:28:22] livros que

[02:28:24] eram produzidos com as

[02:28:26] litografias

[02:28:28] da fauna e da flora

[02:28:30] brasileira.

[02:28:32] Exatamente.

[02:28:34] Puxou daquilo

[02:28:36] dali. Aquilo dali foi referência

[02:28:38] pesadíssima e tá linda essa abertura.

[02:28:42] Também consegui ver

[02:28:44] coisas de igreja, assim, bem

[02:28:46] moralistas. Uma coisa que ocorreu, Rafael, aqui com

[02:28:48] a Hanna, e talvez a Hanna

[02:28:50] também possa falar sobre isso,

[02:28:52] é que a gente consegue criar

[02:28:54] uma identidade do Nordeste, ou

[02:28:56] existe identidade do Nordeste, que foge do

[02:28:58] regionalismo? Isso é uma questão que é

[02:29:00] o que o Duval levanta e que eu acho

[02:29:02] que essa é a questão mais interessante.

[02:29:04] Os preconceitos do Duval com

[02:29:06] os preconceitos dessas outras pessoas

[02:29:08] me incomodam um pouco no discurso dele, mas

[02:29:10] essa parte é interessante, eu acho.

[02:29:12] Ele coloca que o…

[02:29:14] Que é a

[02:29:16] Tropicália, né?

[02:29:18] Que é a Tropicália que foge.

[02:29:20] Ele coloca a Tropicália, né? Que é a Tropicália que foge.

[02:29:22] A Tropicália como esse grande

[02:29:24] movimento que consegue

[02:29:26] fugir desse

[02:29:28] regionalismo.

[02:29:30] Tem uma tese

[02:29:32] de um

[02:29:34] rapaz da USP, de antropologia,

[02:29:36] que é Eduardo Dimitrov.

[02:29:38] Ele

[02:29:40] defendeu, acho que foi em 2013,

[02:29:42] eu já tinha definido a dissertação.

[02:29:44] Eu não conhecia o trabalho dele na época.

[02:29:48] Que ele fala

[02:29:50] das

[02:29:52] queixas dos artistas

[02:29:54] à

[02:29:56] coisa do regional.

[02:29:58] Como eles querem fugir,

[02:30:00] mas como eles

[02:30:02] não conseguem fugir.

[02:30:04] Que eles estão muito…

[02:30:06] O Gilberto Freire

[02:30:08] fez uma

[02:30:10] coisa que foi tão potente,

[02:30:12] tão forte ali

[02:30:14] no século XX,

[02:30:16] que os artistas plásticos

[02:30:18] nordestinos, e aí sobretudo

[02:30:20] os pernambucanos,

[02:30:22] quando queriam fazer alguma coisa

[02:30:24] diferente,

[02:30:26] eles não conseguiam. Mesmo aqueles

[02:30:28] que não se colocam

[02:30:30] como

[02:30:32] no grupo dos

[02:30:34] regionalistas tradicionalistas,

[02:30:36] que era o grupo do

[02:30:38] Gilberto Freire,

[02:30:40] eles se queixam

[02:30:42] que eles precisavam ser regionalistas.

[02:30:44] Um

[02:30:46] que eu me lembro que foi a

[02:30:48] discordância que era mais forte

[02:30:50] era o

[02:30:52] Gilberto Freire.

[02:30:54] Que ele fala

[02:30:56] que

[02:30:58] naquele momento

[02:31:00] que o Isaac Cláudio produzia

[02:31:02] produzia mais,

[02:31:04] tipo, pra ele conseguir viver enquanto

[02:31:06] artista,

[02:31:08] ele precisava ser regionalista.

[02:31:12] Enquanto pintou.

[02:31:14] Eu lembro até que o Isaac Cláudio fez uma decoração

[02:31:16] do carnaval,

[02:31:18] acho que foi em 2012,

[02:31:20] por aí.

[02:31:22] Mas aí Duval coloca

[02:31:24] a Tropicália como sendo esse movimento

[02:31:26] nordestino,

[02:31:28] que é o que foge

[02:31:30] do regional.

[02:31:32] E aí a gente volta pra discussão de Ramon,

[02:31:34] que não tá mais aqui, que saiu.

[02:31:36] Que nordestes

[02:31:38] são possíveis

[02:31:40] e como construir

[02:31:42] esses

[02:31:44] outros nordestes fugindo aí

[02:31:46] do

[02:31:48] regional.

[02:31:50] Tem gente que vai fugir, assim. Tem gente que,

[02:31:52] pelo menos no design, que não tá nem aí.

[02:31:54] Que tem uma linguagem

[02:31:56] que

[02:31:58] você olha assim…

[02:32:00] É um movimento mangue em algum

[02:32:02] nível. Pensando aqui

[02:32:04] na…

[02:32:06] A gente fez um podcast

[02:32:08] com o

[02:32:10] Mabuse, que é um grande designer

[02:32:12] que trabalhou com tecnologia

[02:32:14] digital e com música eletrônica

[02:32:16] aqui em Recife.

[02:32:18] E é professor também de design.

[02:32:20] É…

[02:32:22] Filósofo. E agora é filósofo,

[02:32:24] assim, é uma pessoa muito interessante.

[02:32:26] E ele fala sobre esse

[02:32:28] nascimento do movimento mangue

[02:32:30] como um

[02:32:32] processo cultural,

[02:32:34] intelectual, assim, onde as pessoas estão tentando

[02:32:36] pensar um pouco essas questões

[02:32:38] todas. Mas ele dizia que uma das

[02:32:40] vantagens é que eles estavam muito longe

[02:32:42] do centro.

[02:32:44] Então, na realidade, eles estavam vindo

[02:32:46] o cyberpunk e todas essas coisas,

[02:32:48] e eles estavam reinterpretando aquilo

[02:32:50] com o que as pessoas tinham disponível, sabe?

[02:32:52] Então, ele dizia assim,

[02:32:54] até a brincadeira que vários deles fizeram é que

[02:32:56] se a gente tivesse mais acesso à informação,

[02:32:58] talvez a gente tivesse sido menos

[02:33:00] inventivo, quer dizer,

[02:33:02] a inventividade vinha em parte também

[02:33:04] da falta

[02:33:06] de acesso à informação, assim.

[02:33:08] Pra você ter uma ideia, as pessoas não têm ideia, assim,

[02:33:10] nos anos 70, eu nasci nos anos 70,

[02:33:12] mas eu não conheço

[02:33:14] tão bem os anos 70, assim, porque eu era

[02:33:16] criança. Mas nos anos 70,

[02:33:18] o aeroporto de…

[02:33:20] O aeroporto aqui, que tinha uma

[02:33:22] livraria, era um lugar importantíssimo

[02:33:24] pra você conseguir informação, assim.

[02:33:26] Lá nasceu de ler pra comprar as revistas,

[02:33:28] pra comprar os jornais, pra conseguir as coisas, sabe?

[02:33:30] Era um lugar onde você conseguia

[02:33:32] muita coisa, assim.

[02:33:34] As revistas traziam muitas

[02:33:36] informações e tal. Hoje em dia, você vai

[02:33:38] e fala diretamente com a pessoa que você quiser

[02:33:40] pela internet e pega

[02:33:42] informação direto com ele, quer dizer, é uma outra

[02:33:44] realidade que a gente não imagina.

[02:33:46] Então, eu fico vendo um pouco, assim,

[02:33:48] eu sinto

[02:33:50] que a gente ainda está preso a essa

[02:33:52] concepção, mesmo com o Movimento

[02:33:54] Mangue, tentando misturar

[02:33:56] a afro-ciberdelia,

[02:33:58] que era uma mistura de cyber,

[02:34:00] uma certa coisa meio cyberpunk,

[02:34:02] misturado com…

[02:34:04] com…

[02:34:06] João Cabral de Melo Neto,

[02:34:08] misturado com… Ariando Soassoni,

[02:34:10] misturado com tudo, assim.

[02:34:12] Essa coisa toda,

[02:34:14] você tem essa mistura toda, mas ao mesmo

[02:34:16] tempo, eu sinto que quando a gente pensa

[02:34:18] o Nordeste, precisa ser

[02:34:20] regionalista. Como você falou, Zé Cláudio,

[02:34:22] precisava ser

[02:34:24] regionalista, senão as pessoas não sabiam onde

[02:34:26] encaixar ele dentro de uma caixinha, sabe?

[02:34:28] É…

[02:34:30] Eu sinto que a gente ainda está

[02:34:32] preso a essa…

[02:34:34] a esse

[02:34:36] estereótipo, sabe? Ou esses estereótipos,

[02:34:38] assim. E eu acho que o Duval tem uma certa

[02:34:40] razão. E o que o Duval coloca,

[02:34:42] se eu não estou enganado, Rafael, você me

[02:34:44] corrija, é que isso também influencia

[02:34:46] a maneira como a gente industrializa aqui.

[02:34:48] Quando as pessoas falam, ah, vamos botar a indústria aqui no

[02:34:50] Nordeste. Não, mas o Nordeste é um lugar

[02:34:52] de…

[02:34:54] de fazenda, não de indústria, sabe?

[02:34:56] Eu não sei. Então, quando teve

[02:34:58] a importância da

[02:35:00] Sudene nos anos 70, 80,

[02:35:02] foi enorme aqui no Nordeste, porque

[02:35:04] vai mudando um pouco da concepção

[02:35:06] do que é o Nordeste.

[02:35:08] Ser regionalista é massa,

[02:35:10] a gente é

[02:35:12] o Brasil de verdade,

[02:35:14] e tal, todas essas coisas, mas ao mesmo

[02:35:16] tempo, me parece que é uma

[02:35:18] cruz que a gente carrega, né?

[02:35:20] É, e que a gente não precisa

[02:35:22] não precisa estar

[02:35:24] atrolado. Olha, teve um evento que

[02:35:26] eu participei

[02:35:28] em 2007

[02:35:30] no Cefete,

[02:35:32] que foi o E-Design.

[02:35:34] E aí, teve um

[02:35:36] amigo meu da faculdade

[02:35:38] que

[02:35:40] comentou assim,

[02:35:42] é…

[02:35:44] Eu não

[02:35:46] me reconheço

[02:35:48] nesse

[02:35:50] Nordeste,

[02:35:52] que é do sertão, Luiz Gonzaga,

[02:35:54] parará, parará,

[02:35:56] isso é pra mim,

[02:35:58] eu tô atrelado, eu tô vinculado a outras

[02:36:00] coisas. Minha gente, quando ele falou isso,

[02:36:02] eu

[02:36:04] senti uma dor tão

[02:36:06] grande,

[02:36:08] assim, mico eu, tão

[02:36:10] pesado,

[02:36:12] é… regionalista,

[02:36:14] tão regionalista que eu era na época,

[02:36:16] que eu ainda sou de alguma maneira,

[02:36:18] é…

[02:36:20] Mas ele tá certo.

[02:36:22] Não é porque

[02:36:24] ele

[02:36:26] é daqui que ele precisa estar preso

[02:36:28] a esses referenciais,

[02:36:30] né? Ele pode, ele é muito livre

[02:36:32] aí pra poder ver

[02:36:34] os referenciais que ele

[02:36:36] que ele quiser.

[02:36:38] Ele é livre pra trair suas raízes?

[02:36:42] A Ariana do Suassuna

[02:36:44] ficaria revoltadíssimo

[02:36:46] com isso, né? Mas…

[02:36:48] Enfim… O Ariana é uma pessoa

[02:36:50] maravilhosa, assim, incrível.

[02:36:52] Quem teve contato com ele,

[02:36:54] ele era o carisma

[02:36:56] em pessoa, assim, as pessoas saiam

[02:36:58] apaixonadas. Eu me lembro quando ele deu uma

[02:37:00] palestra nos anos 90,

[02:37:02] no End Design,

[02:37:04] primeiro do End Design em Recife,

[02:37:06] e vinha pessoas do Rio Grande do Sul, aquele, sabe,

[02:37:08] aquele pessoal alto, loiro,

[02:37:10] sabe? É…

[02:37:12] Muita gente do Rio Grande do Sul, assim, é…

[02:37:14] Pessoas super legais também, mas estavam todos

[02:37:16] sentados lá no fundo, e eles tinham,

[02:37:18] naquela época, a concepção do que era o Nordeste

[02:37:20] pra eles era cangaceiro, era

[02:37:22] fome, essa coisa toda e tal.

[02:37:24] E aí, quando o Ariana do Suassuna

[02:37:26] mostrou um outro Nordeste pra eles,

[02:37:28] as pessoas vinham chorando pra falar com ele.

[02:37:30] E eu sentia que essa chuva,

[02:37:32] essa choro tinha culpa, sabe?

[02:37:34] De ter

[02:37:36] absorvido uma imagem do Nordeste

[02:37:38] que não valorizava

[02:37:40] a riqueza cultural do Nordeste, que era

[02:37:42] assim, o tema Ariana do Suassuna, né?

[02:37:44] Nós somos…

[02:37:46] É um pouco, como você colocou, Gilberto Freire

[02:37:48] 2.0, de uma certa

[02:37:50] maneira, né? Então, assim, é…

[02:37:52] Coitado, essa coisa aí, gente,

[02:37:54] tá gravado isso,

[02:37:56] por favor, se me citarem, eu

[02:37:58] nego o que falei, tá certo?

[02:38:00] É…

[02:38:02] Se me citarem, tá certo? Saibam

[02:38:04] que eu tô dizendo agora que eu nego que eu falei

[02:38:06] isso, tá? Isso foi uma piada de mau gosto.

[02:38:08] Mas, assim, é…

[02:38:10] Então, assim,

[02:38:12] eu acho que é uma coisa interessante, como

[02:38:14] ele, como a…

[02:38:16] Como essa identidade era forte, né?

[02:38:18] Como ela tem um papel…

[02:38:20] Ó, eu vi uma peça

[02:38:22] que é A Invenção

[02:38:24] do Nordeste. A galera

[02:38:26] pegou o livro

[02:38:28] de Duval

[02:38:30] e reinterpretou.

[02:38:32] Não transformou,

[02:38:34] transformou o livro numa peça.

[02:38:36] E eles

[02:38:38] disseram que foram apresentar, inclusive

[02:38:40] é uma galera que é do Rio Grande do Norte,

[02:38:42] Henrique, o

[02:38:44] diretor. E aí tem

[02:38:46] os dois atores, na época, eram

[02:38:48] Matheus,

[02:38:50] que fez uma dessas novelas agora da Globo,

[02:38:52] que é da Nordeste,

[02:38:54] Rancho Fundo…

[02:38:56] Rancho Fundo, só. Rancho Fundo

[02:38:58] e uma outra.

[02:39:00] E Robson, que tá numa

[02:39:02] série agora do

[02:39:04] Netflix, que era um policial.

[02:39:06] Enfim. E aí

[02:39:08] eles foram pro Sul

[02:39:10] morrendo de medo,

[02:39:12] né, da

[02:39:14] recepção da peça,

[02:39:16] porque a peça faz

[02:39:18] acho que ele

[02:39:20] tira a onda com o pessoal

[02:39:22] do Sudeste, sobretudo de São Paulo.

[02:39:24] É…

[02:39:26] E…

[02:39:28] Só que o pessoal do Sul

[02:39:30] adorou. Eles disseram, agora

[02:39:32] não lembro qual foi o estado do Sul,

[02:39:34] não sei se foi o Rio Grande do Sul, acho que foi o Rio Grande do Sul.

[02:39:36] Que eles apresentaram

[02:39:38] no Rio Grande do Sul e o pessoal adorou

[02:39:40] porque

[02:39:42] eles se sentiram representados

[02:39:44] por aquilo

[02:39:46] que a peça tava mostrando, que é

[02:39:48] do estereótipo

[02:39:50] do nordestino.

[02:39:52] E aí a peça conta a história

[02:39:54] de dois atores que vão

[02:39:56] que tão disputando, vão

[02:39:58] concorrer uma…

[02:40:00] a participar

[02:40:02] de algum filme, acho que era um filme ou

[02:40:04] uma novela em alguma rede, televisão.

[02:40:06] E como

[02:40:08] eles tinham que se adaptar àquilo,

[02:40:10] eles revoltados por eles terem que se adaptar,

[02:40:12] mudar sotaque, falar essas coisas assim

[02:40:14] dos preconceitos que isso, né,

[02:40:16] da violência que isso envolve.

[02:40:18] E…

[02:40:20] o pessoal do Rio Grande do Sul gostou muito

[02:40:22] porque eles se sentem muito estereotipados

[02:40:24] na…

[02:40:26] quando eles aparecem na mídia.

[02:40:28] Então…

[02:40:30] isso tocou muito neles.

[02:40:32] Mas quando foi…

[02:40:34] quando a peça foi pra

[02:40:36] São Paulo, acho que foi ou foi em São Paulo

[02:40:38] ou foi no Rio,

[02:40:40] e aí a galera de fato não gostou,

[02:40:42] né, o povo se sentiu

[02:40:44] doído porque a peça tá

[02:40:46] em onda, mesmo assim,

[02:40:48] do…

[02:40:50] do pessoal, do preconceito

[02:40:52] e das coisas todas que

[02:40:54] acontecem. Mas pronto,

[02:40:56] aí você falou do sul e do pessoal que

[02:40:58] sentem culpa, mas ao mesmo tempo o pessoal do Rio Grande

[02:41:00] do Sul, se for o pessoal

[02:41:02] do Rio Grande do Sul, também sentem

[02:41:04] um estereótipo, também sentem

[02:41:06] de alguma maneira um preconceito com eles,

[02:41:08] preconceito regional aí.

[02:41:10] Talvez seja essa até a culpa

[02:41:12] porque eles também sofrem de muitos preconceitos

[02:41:14] e…

[02:41:16] é engraçado que as pessoas

[02:41:18] imaginam que o Rio Grande do Sul é uma grande colônia

[02:41:20] alemã, quando na realidade tem

[02:41:22] muito mais colônia italiana lá do que alemã,

[02:41:24] quer dizer, e tem muita

[02:41:26] colônia portuguesa também, quer dizer.

[02:41:28] Aí quando eles ficam assim, ah, porque o sul é o lugar

[02:41:30] dos colonos e tal, e aí

[02:41:32] é…

[02:41:34] aí você vai pegar, por exemplo,

[02:41:36] acho que foi

[02:41:38] Curitiba, por exemplo,

[02:41:40] o símbolo da Bahia,

[02:41:42] de certa maneira, que é

[02:41:44] a Sônia Braga, ela é

[02:41:46] curitibana, se não me engano.

[02:41:48] Quer dizer, essas coisas, cara,

[02:41:50] que assim, o mundo é isso, não é

[02:41:52] essas caixinhas perfeitas onde as pessoas encaixam

[02:41:54] dentro dela. É porque, gente, a idealização

[02:41:56] é…

[02:41:58] é um processo muito interessante,

[02:42:00] que é essa coisa da…

[02:42:02] a questão da visualidade que a gente está querendo debater aqui,

[02:42:04] é muito interessante como

[02:42:06] os discursos são montados e tal,

[02:42:08] e a gente fica procurando

[02:42:10] a verdade absoluta. Alguém levantou a mão rapidamente?

[02:42:12] Flávia, a gente falou do Sul,

[02:42:14] e aí Flávia, como representante…

[02:42:16] Não, Flávia, por favor. Não tem lugar

[02:42:18] de fala pra falar isso, não.

[02:42:20] Que eu me sentia à vontade pra

[02:42:22] falar, mas é muito rápido, mas a gente…

[02:42:24] Bom, posso falar a gente,

[02:42:26] também passa por isso, porque do Paraná pra baixo

[02:42:28] parece que é uma coisa só, assim, infinitas

[02:42:30] vezes já me perguntaram

[02:42:32] ah, você vai visitar sua família no

[02:42:34] Sul? Aí normalmente a pessoa acha

[02:42:36] que é Porto Alegre, e não é nem o

[02:42:38] Rio Grande do Sul, tem uma coisa específica com

[02:42:40] Porto Alegre que parece

[02:42:42] resumir os três estados.

[02:42:44] E os sotaques,

[02:42:46] e as coisas, que pra…

[02:42:48] Eu tava quieta aqui porque a discussão

[02:42:50] nordeste tá riquíssima, eu falei

[02:42:52] eu não vou interferir.

[02:42:54] Não, traz, traz, por favor.

[02:42:56] É a mesma coisa, é a mesma coisa.

[02:42:58] Não, mas aí, mas veja,

[02:43:00] o preconceito, ele existe

[02:43:02] tanto que aí na minha fala eu falei

[02:43:04] eu falei o Sul, mas aí depois

[02:43:06] eu fiz, opa, pera aí, eu tenho que

[02:43:08] dizer qual o estado

[02:43:10] do Sul, né, porque são três… Coisas diferentes.

[02:43:12] São coisas diferentes, então assim,

[02:43:14] é da mesma maneira

[02:43:16] que existe, da mesma maneira não,

[02:43:18] mas como existe

[02:43:20] um sotaque, como se referir

[02:43:22] todo mundo pra cima

[02:43:24] como o norte, existe a

[02:43:26] coisa de chamar todo mundo

[02:43:28] pra baixo ou pro sul. Sim.

[02:43:30] E aí, só que não dá, não dá, né,

[02:43:32] pra homogeneizar essa discussão,

[02:43:34] não dá pra homogeneizar, então

[02:43:36] se incorrer no erro, se

[02:43:38] corrija na mesma hora.

[02:43:42] Peraí.

[02:43:44] Ricardo, já…

[02:43:46] Eu acho que estamos na hora,

[02:43:48] acho que chegamos no nosso…

[02:43:50] Já faltam uns cinco minutos pra terminar.

[02:43:52] Eu queria,

[02:43:54] se alguém tiver algum, quiser fazer um comentário

[02:43:56] ou alguma coisa,

[02:43:58] a gente vai ter que encerrar.

[02:44:00] Eu queria agradecer

[02:44:02] imensamente pelo

[02:44:04] Rafael por essa apresentação

[02:44:06] que ele fez, por esse debate

[02:44:08] que ele promoveu aqui.

[02:44:10] Pra mim, esse

[02:44:12] foi…

[02:44:14] Esse foi um assunto que

[02:44:16] eu estou esperando há muitos anos

[02:44:18] ter esse debate assim, aberto, sabe?

[02:44:20] Eu já conversei um pouco com…

[02:44:22] A gente já conversou um pouco sobre essas coisas,

[02:44:24] até conversou com o Luís, mas eu acho que

[02:44:26] quando você pega uma pessoa

[02:44:28] que está estudando isso, ele

[02:44:30] apresenta as ideias e aí convida as pessoas

[02:44:32] pra pensarem, as ideias que as pessoas vão

[02:44:34] trazendo, que o grupo vai trazendo,

[02:44:36] vai estimulando um

[02:44:38] debate muito rico, assim, então

[02:44:40] eu acho que eu nunca

[02:44:42] vi um pensamento desse de uma maneira

[02:44:44] que eu me senti

[02:44:46] mais satisfeito, sabe? Então eu senti muito

[02:44:48] essa… Achei uma…

[02:44:50] Um fechamento satisfeito de um tema

[02:44:52] completamente aberto, que a conclusão que a gente chegou

[02:44:54] é que é o tema mais

[02:44:56] aberto do mundo, é definir o que é o Nordeste,

[02:44:58] né? Então é uma…

[02:45:00] Essa constante

[02:45:04] obra constantemente

[02:45:06] em construção, né? Achei muito interessante

[02:45:08] como foi o debate

[02:45:10] e eu queria agradecer muito, Rafael,

[02:45:12] por você ter promovido esse

[02:45:14] papo aqui, né?

[02:45:16] Eu agradeço visualmente, agradeço a você

[02:45:20] por esse

[02:45:22] espaço…

[02:45:26] É, gente, então assim, vamos

[02:45:28] nós agora, nós dois, vamos sair do

[02:45:30] papel de debate, tá certo? E nós

[02:45:32] dois agora, como

[02:45:34] organizadores do evento, lembrar

[02:45:36] que nós não

[02:45:38] teremos o encontro imediato,

[02:45:40] o nosso encontro vai demorar um pouquinho mais,

[02:45:42] a data tá lá no…

[02:45:44] no…

[02:45:46] no visualmente

[02:45:48] barra grupos… Eu acho que é dia 30.

[02:45:50] Eu acho que o próximo encontro

[02:45:52] é dia 30. É.

[02:45:54] Por aí. É porque depois eu peidei, né?

[02:45:56] Já que a gente tá falando isso, eu vou

[02:45:58] entrar rapidamente aqui e ver

[02:46:00] qual é o dia pra gente não…

[02:46:02] É…

[02:46:04] O dia… Ai, meu Deus. Visualmente

[02:46:06] barra… É, porque

[02:46:08] de

[02:46:10] 6 a

[02:46:12] 28…

[02:46:14] Tem o… Tem o…

[02:46:16] P&D. P&D, exatamente, que é um congresso importante

[02:46:18] que todos devem participar.

[02:46:20] É dia 31.

[02:46:22] Dia 31. É o encerramento.

[02:46:24] Então, assim, o que a gente planejou no encerramento

[02:46:26] é eu, o Rafael

[02:46:28] Efrem, aqui,

[02:46:30] o Rafael Ankara e o Almir Miraboa,

[02:46:32] a gente vai fazer um grande podcastzão

[02:46:34] debatendo coisas

[02:46:36] que a gente vai decidir na hora,

[02:46:38] pra gente debater com você, mas é um tema legal, um momento

[02:46:40] legal pra vocês virem e a gente

[02:46:42] ter um debate bem aberto, assim,

[02:46:44] bem mais livre, é…

[02:46:46] É…

[02:46:48] Mais num esquema podcast, assim, que foi o que a gente

[02:46:50] tinha planejado. Se a gente mudar

[02:46:52] o planejado, a gente manda

[02:46:54] um aviso pra vocês por e-mail, tá? Mas

[02:46:56] a princípio, a ideia é fechar

[02:46:58] com a participação de todo mundo, assim,

[02:47:00] pra gente poder debater livremente

[02:47:02] e pensar um pouco sobre o que que foi isso

[02:47:04] que a gente fez, sabe?

[02:47:06] O que a gente propôs aqui.

[02:47:08] É… Eu acho que na último encontro

[02:47:10] a Rafa começou a falar um pouco

[02:47:12] sobre isso, né? Sobre a gente estar

[02:47:14] reinventando o que que

[02:47:16] seria a teoria do design, quer dizer, que…

[02:47:18] Isso é… Ela foi… Ela foi longe, eu fiquei…

[02:47:20] Eu fiquei me sentindo… A gente ficou… Eu…

[02:47:22] A Rafael Neto ficou se sentindo super importante, assim,

[02:47:24] de tá fazendo essa coisa. Eu não sei se a gente tá

[02:47:26] fazendo isso não, viu? Mas, é…

[02:47:28] Se for, eu tô achando ótimo, assim.

[02:47:30] Eu vou passar e dizer pra todo mundo que é isso.

[02:47:32] Mas é pra gente poder

[02:47:34] refletir um pouco e… E também

[02:47:36] ver pra onde é que a gente tá

[02:47:38] indo, né? A gente tá querendo ver se continua a fazer

[02:47:40] esses encontros ano que vem.

[02:47:42] Então, gente, mais uma vez,

[02:47:44] agradecer… Opa, Hanna, fala. Entra aí, por favor.

[02:47:46] Não, é só pra…

[02:47:48] É só pra falar que o que vocês tão fazendo

[02:47:50] é algo parecido com o que Tereza Bednar

[02:47:52] tá fazendo com o Clube do Livro do Design,

[02:47:54] que seria interessante uma dobradinha

[02:47:56] com essa galera, sabe?

[02:47:58] Ah, sem dúvida, sem dúvida. A gente, inclusive, fez

[02:48:00] um programa com eles já, tanto

[02:48:02] com o pessoal da Revista Recorte, que

[02:48:04] é um subproduto, eu acho, do que

[02:48:06] a Tereza fez. Ah, então, beleza.

[02:48:08] É, e a gente fez com eles,

[02:48:10] é…

[02:48:12] Talvez a gente possa, inclusive, no próximo,

[02:48:14] a gente tá…

[02:48:16] tá se aproximando deles. Eu acho que o trabalho…

[02:48:18] Você, inclusive, citou aqui a Revista Recorte,

[02:48:20] que eu já publiquei nela também.

[02:48:22] Até a editora foi uma aluna

[02:48:24] minha na ESG, que é uma coincidência

[02:48:26] aflora, é uma coincidência maravilhosa.

[02:48:28] Sim, conheço. Pronto,

[02:48:30] eu acho que é uma coisa bem parecida.

[02:48:32] As discussões são bem

[02:48:34] parecidas e é…

[02:48:36] Fala, fala.

[02:48:38] Não, e tá saindo vários produtos disso.

[02:48:40] Vários livros, vários sites,

[02:48:42] textos e…

[02:48:44] Exatamente. Publicações

[02:48:46] e etc. A gente tá

[02:48:48] muito conectado, assim. Uma das pessoas

[02:48:50] que conecta muita gente é o

[02:48:52] Eduardo.

[02:48:54] O Eduardo Souza, que

[02:48:56] também é um dos editores da

[02:48:58] da Recorte.

[02:49:00] E a gente tá tentando estar sempre em contato

[02:49:02] e tudo.

[02:49:04] Eu levei eles pra divulgarem

[02:49:06] os livros lá em Caruaru, então

[02:49:08] conheci a Tereza. Eu acho

[02:49:10] que tá acontecendo um movimento

[02:49:12] que tem

[02:49:14] a ver com a gente estar repensando.

[02:49:16] O que eu queria com esse evento,

[02:49:18] viu, Hanna, que tem muita relação, se você tá correto,

[02:49:20] é que a academia fizesse

[02:49:22] isso, sabe? Que os professores da universidade

[02:49:24] fizessem isso, que a gente trouxesse isso pra

[02:49:26] uma proximidade, um grupo de pesquisa

[02:49:28] do CNPq fazendo isso também.

[02:49:30] Porque senão tudo que acontece tá acontecendo fora

[02:49:32] da universidade, cara. Não tá certo

[02:49:34] isso, né? A gente tem que trazer pras pós-graduações.

[02:49:36] Com certeza, com certeza. Isso.

[02:49:38] E é por isso que…

[02:49:40] É bom que você agora tá fazendo doutorado.

[02:49:42] Voltou e tá fazendo doutorado.

[02:49:44] Mas a minha vida toda foi isso.

[02:49:46] Mercado e academia. E eu não entendo essa

[02:49:48] separação. É minha grande questão.

[02:49:50] Pra mim também não. Mas existe

[02:49:52] essa separação. E a Tereza, ela

[02:49:54] representa o mercado muito mais do que

[02:49:56] a academia. E acho maravilhoso que

[02:49:58] esteja a pessoa do mercado trazendo

[02:50:00] esse debate e trazendo pra academia também.

[02:50:02] Então é…

[02:50:04] Se você não participar

[02:50:06] do próximo evento, Hanna, a gente vai considerar isso uma

[02:50:08] ofensa pessoal.

[02:50:10] Qual o próximo evento?

[02:50:12] O próximo encontro. Não, o próximo evento…

[02:50:14] Não, eu vou. Claro. Oxente.

[02:50:16] Oxente. Oxente.

[02:50:18] Vamos terminar com grande oxente.

[02:50:20] Oxente.

[02:50:22] Pronto.

[02:50:24] Terminamos.

[02:50:26] Pra finalizar com chave de ouro.

[02:50:28] A discussão sobre imagens do Nordeste.

[02:50:30] Perfeito, perfeito. Oxente.

[02:50:32] É claro que eu vou, mas não envolve

[02:50:34] me sei.

[02:50:36] E agora a gente vai botar…

[02:50:38] Eu vou botar no…

[02:50:40] No YouTube um

[02:50:42] tom sépia agora, tá certo?

[02:50:44] Pra gente terminar isso tudo no tom sépia.

[02:50:46] Eu vou ver se eu discuto. É, com certeza.

[02:50:48] Um filtro sépia pra gente terminar.

[02:50:50] Gente, liga as…

[02:50:52] Liga as câmeras em tom sépia, tá?

[02:50:54] Pra gente entrar aqui, por favor.

[02:50:56] O áudio e câmera,

[02:50:58] o pessoal que continua aqui.

[02:51:00] E vamos dar aquele tchauzinho.

[02:51:02] Ah, maravilha, cara.

[02:51:04] Finalmente está todo mundo participando.

[02:51:06] Então, é…

[02:51:08] Tem uma área em Itaciara, Itaciara não pode.

[02:51:10] E Flávia também. Bora, Flávia.

[02:51:12] Ah, ótimo.

[02:51:14] Liga o áudio, liga o áudio, liga o áudio.

[02:51:16] Todo mundo liga o áudio, por favor.

[02:51:18] Então dá o tchau.

[02:51:20] Isso, gente. Então tchau!

[02:51:22] Tchau!