#216 Unificação da Alemanha: os meandros da construção de uma nação
Resumo
O episódio discute como a Alemanha, apesar de ser habitada há milênios, só se constituiu como Estado nacional no século XIX. A conversa começa pelo fim do Sacro Império Romano-Germânico (962–1806), uma confederação extremamente heterogênea de reinos, ducados e cidades livres, dissolvida no contexto das Guerras Napoleônicas. A derrota humilhante de 1806 (Jena-Auerstadt) e as reorganizações territoriais feitas por Napoleão funcionam como gatilhos para transformações políticas, militares e administrativas que, ao longo das décadas seguintes, ajudariam a “imaginar” uma unidade germânica.
Em seguida, o professor Júlio Bentivoglio explica que o nacionalismo alemão não nasce pronto: ele vai sendo construído lentamente por fatores como a circulação de uma língua escrita comum, a atuação de universidades e jornais, festivais políticos (Wartburg em 1817 e Hambach em 1832), além de mudanças econômicas (industrialização na Renânia e Saxônia), infraestrutura (ferrovias, navegação a vapor, telégrafo) e militarização. Nesse processo, surge o “dualismo austro-prussiano”: Áustria e Prússia competem pela hegemonia sobre os estados germânicos, em um cenário de repressão pós-Congresso de Viena e de tensões sociais que culminam nas Revoluções de 1848 e no Parlamento de Frankfurt, cuja tentativa de unificação liberal fracassa.
Por fim, a unificação efetiva é apresentada como um projeto conservador, conduzido pela Prússia via Realpolitik e guerras externas sob liderança de Otto von Bismarck. O episódio detalha o papel do Zollverein, a vitória sobre a Áustria em 1866 (Königgrätz) e a Guerra Franco-Prussiana (1870–1871), catalisada pelo “telegrama de Ems” e encerrada com a proclamação do Império Alemão em Versalhes (18 de janeiro de 1871) e a capitulação francesa (28 de janeiro). O pós-unificação aparece como ambíguo: persistem regionalismos, conflitos religiosos (Kulturkampf), fortalecimento do movimento operário e um Estado altamente militarizado, além de consequências geopolíticas como a anexação da Alsácia-Lorena e o impulso a rivalidades que ajudariam a pavimentar o caminho para a Primeira Guerra Mundial.
Anotações
- 00:16:02 — O tripé do nacionalismo e o caso alemão: Júlio explica que alguns teóricos do século XIX, como Ernest Renan e Fichte, descrevem um “tripé” para entender o nacionalismo: pertencer ao mesmo território, falar a mesma língua e professar a mesma religião. Ele usa isso para mostrar por que é complicado pensar uma Alemanha unificada nesse período: apesar de se poder dizer que os germânicos falavam alemão, existiam dezenas de dialetos e, em alguns casos, um alemão do norte teria dificuldade de se comunicar com um do sul; ainda assim, a língua escrita mais formal funcionava como elemento unificador. No plano religioso, havia uma divisão marcante entre o norte, majoritariamente protestante/luterano, e o sul, católico, o que gerava divisões e rivalidades. E, quanto ao território, ele ressalta que era uma “colcha de retalhos”, reforçando que, até 1871, havia várias identidades regionais (bávaro, prussiano, saxão etc.) mais do que uma identidade alemã única.
Indicações
Livros
- O Dia D, Como a História Se Tornou Mito — livro do apresentador sorteado no encontro presencial anunciado no início
- Os Alemães (Norbert Elias) — indicado para entender sociedade e cultura germânicas nos séculos XIX e XX
- História Alemã (Thomas Nipperdey) — obra em inglês sobre o período 1866–1918 (publicada em 1992)
- A Unificação Alemã (Alan Farmer e Andrina Stiles) — livro em inglês (2007), paradidático, com mapas e gráficos
Filmes / Series
- A Própria Carne — filme nacional cuja estreia foi citada como ocasião do encontro presencial de ouvintes
Linha do Tempo
- [00:00] — Anúncio de encontro presencial de ouvintes e recados iniciais
- [00:00] — Introdução do tema: unificação da Alemanha e apresentação do convidado
- [00:01] — Detalhes do encontro no Floripa Shopping e sorteio de livro; apoio via Apoia-se/Pix
- [00:03] — Ponto de partida histórico: Sacro Império Romano-Germânico e sua estrutura confederativa
- [00:08] — Dissolução do Sacro Império nas Guerras Napoleônicas e impacto de 1806 (Jena-Auerstadt)
- [00:12] — Nacionalismo como construção gradual: língua, religião, identidades regionais e influência francesa
- [00:18] — Congresso de Viena, Metternich e a Confederação Germânica; repressão e polarização norte/sul
- [00:20] — Industrialização, novas classes, militarismo e fatores de integração (Zollverein, ferrovias)
- [00:23] — Festivais de Wartburg (1817) e Hambach (1832) e o debate “Grande vs. Pequena Alemanha”
- [00:24] — Guerras de coalizão contra Napoleão e a Batalha de Leipzig (1813) como marco europeu
- [00:29] — Dualismo austro-prussiano: interesses das potências, Zollverein, ferrovias e tratados militares
- [00:40] — Vormärz e Revoluções de 1848: Parlamento de Frankfurt, fracasso do projeto liberal e humilhação em Erfurt (1850)
- [00:45] — Militarismo prussiano e a unificação “por guerras”: Dinamarca (1864), Áustria (1866), França (1870–71)
- [00:49] — Bismarck, Realpolitik e o discurso “sangue e ferro” (1862); pragmatismo e alianças
- [00:55] — Guerra Austro-Prussiana: Schleswig-Holstein, logística ferroviária e Königgrätz (1866)
- [00:59] — Guerra Franco-Prussiana: estopim espanhol, telegrama de Ems, Sedan, cerco de Paris e criação do Império (1871)
- [01:08] — Pós-unificação: regionalismos, Alsácia-Lorena, Kulturkampf, militarização e debate sobre Sonderweg
- [01:13] — Recomendações de leitura e encerramento
Dados do Episódio
- Podcast: História FM
- Autor: Leitura ObrigaHISTÓRIA
- Categoria: History
- Publicado: 2025-10-20
- Duração: 1h15m
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/hist%C3%B3ria-fm/f7321ef0-4f2e-0137-f266-1d245fc5f9cf/216-unifica%C3%A7%C3%A3o-da-alemanha-os-meandros-da-constru%C3%A7%C3%A3o-de-uma-na%C3%A7%C3%A3o/172850ec-43a6-4216-b764-cdc72e10d3e8
- UUID Episódio: 172850ec-43a6-4216-b764-cdc72e10d3e8
Dados do Podcast
- Nome: História FM
- Tipo: episodic
- Site: https://apoia.se/obrigahistoria
- UUID: f7321ef0-4f2e-0137-f266-1d245fc5f9cf
Transcrição
[00:00:00] Pessoal, eu quero encontrar vocês pessoalmente e a gente já tem dia, hora e local para esse encontro.
[00:00:05] Mais detalhes depois da introdução do programa. Não pula, tá?
[00:00:23] Você está ouvindo o História FM.
[00:00:30] Unificação da Alemanha. Esse é o tema de hoje do História FM.
[00:00:36] Eu sou o Iclis Rodrigues. Para falar sobre esse assunto, eu convidei aqui mais uma vez conosco o professor Júlio Bentivoglio, a quem eu passo a palavra para se apresentar para vocês.
[00:00:44] Então, Júlio, seja muito bem-vindo. Fique à vontade para se apresentar para o pessoal.
[00:00:47] Ei, Iclis. Como é que está, meu caro? Tudo bem?
[00:00:49] Eu sou professor aqui do Departamento de História da Universidade Federal do Espírito Santo, também o atual coordenador do Programa de Pós-Graduação em História
[00:00:57] e atuo na área de Teoria e Metodologia da História.
[00:01:00] Então é isso, gente. Vamos conhecer um pouco mais sobre essa outra unificação, que não é a reunificação pós-Muro de Berlim, depois que eu der um recado para vocês.
[00:01:12] Gente, eu quero encontrar vocês pessoalmente e esse será o primeiro encontro presencial de ouvintes do História FM.
[00:01:19] É um encontro, inclusive, com sorteio de livro e nós já temos dia, hora e local para isso.
[00:01:24] Será nesse dia 30 de outubro de 2025, no Floripa Shopping, em Florianópolis.
[00:01:29] Mais precisamente, na estreia do filme A Própria Carne, que é uma produção nacional para a qual eu prestei consultoria e estreia nessa quinta, dia 30, com uma sessão às 9h30 da noite.
[00:01:39] A ideia é a gente se encontrar, ver o filme e depois que terminar, a gente trocar uma ideia.
[00:01:43] Eu conto para vocês como é que foi visitar o set de filmagens, falar um pouco de história e cinema e tal.
[00:01:48] E, o melhor de tudo, eu vou sortear dois exemplares do meu livro, O Dia D, Como a História Se Tornou Mito, ambos autografados para quem for.
[00:01:55] E mais ainda, tá? O pessoal da produção me prometeu que vai mandar brindes para distribuir.
[00:01:59] Para vocês.
[00:02:00] Então, além de prestigiar um filme nacional e participar desse encontro da galera que ouve o História FM, você ainda tem a chance de ir para casa com um brinde e concorre a dois livros.
[00:02:10] Mas eu não sei quantos brindes vão ter, então tenta chegar mais cedo para garantir, tá?
[00:02:13] Então, dia 30 de outubro de 2025, no Floripa Shopping, às 9h30 da noite, a gente vai assistir A Própria Carne e depois do filme bater um papo e conversar sobre o que der na telha.
[00:02:24] Em especial, sobre história e cinema, que é o que eu tenho estudado um pouco nos últimos tempos, tá?
[00:02:28] E eu espero que vocês possam ir, porque eu queria encontrar vocês, né?
[00:02:31] Eu nunca marquei encontro presencial, vai ser uma chance legal.
[00:02:34] Eu vou chegar um pouco antes, eu acho que eu vou chegar umas 9h, no shopping, mas o filme começa às 9h30.
[00:02:38] E depois do filme a gente bate um papo, eu faço sorteios, distribuo os brindes e tudo mais.
[00:02:42] E se vocês me permitem tomar mais um minutinho da atenção de vocês, eu quero falar da nossa campanha no Apoia-se, porque é ela que financia esse podcast.
[00:02:49] Você pode apoiar o História FM em apoia.se barra obriga a história.
[00:02:53] E os nossos novos apoiadores e apoiadoras são…
[00:02:58] Muito obrigado, gente. É graças a vocês que esse podcast existe.
[00:03:15] Se você quiser considerar apoiar a gente, o link tá na descrição desse episódio.
[00:03:19] Mas se você quiser fazer algum apoio pontual ou num valor diferente,
[00:03:22] você pode fazer isso pela chave Pix leituraobrigahistoria.gmail.com
[00:03:28] Excavações na atual Alemanha que encontraram os mais antigos instrumentos de caça utilizados por um ancestral do ser humano.
[00:03:40] E também o mais antigo objeto de arte que retrata sem dúvidas uma pessoa.
[00:03:46] Só que embora seres humanos habitem aquela região por milênios, o que chamamos de germânicos é bem mais recente.
[00:03:52] E o país Alemanha, então, é bem mais novo. Mais novo, inclusive, do que o Brasil.
[00:03:58] Para a gente falar sobre a unificação da Alemanha, a gente precisa voltar umas boas décadas no tempo
[00:04:11] para falar sobre o fim do Sacro Império Romano-Germânico.
[00:04:14] Mas antes, você poderia explicar para a gente o que era o Sacro Império?
[00:04:19] Como é que isso funcionava? Se eram estados independentes, se eram reinos? Enfim, como é que funcionava?
[00:04:24] Essa é uma ótima pergunta. O Sacro Império Romano-Germânico do Ocidente,
[00:04:28] ele tem raízes ainda na Idade Média. Na verdade, Iclis, ele se forma ali naquela divisão feita das terras do Carlos Magno,
[00:04:38] das possessões do Carlos Magno na Europa, quando foram divididas no Tratado de Verdun, em 843, em três reinos.
[00:04:47] Então, a gente tinha lá a França do Oeste, a França do Leste, ou França Oriental, e a França Central.
[00:04:54] Então, esses três reinos que foram divididos para cada um dos filhos,
[00:04:58] os filhos do Carlos Magno, é que deram origem ao que viria a ser, posteriormente, esse Sacro Império Romano-Germânico.
[00:05:05] Ele corresponde, portanto, ao que era a França do Leste, ou Oriental.
[00:05:10] Então, de 843 até 962, pouca coisa mudou ali, porque a gente está falando de estados feudais,
[00:05:19] que não são estados no sentido moderno.
[00:05:22] Em 800, perdão, em 962, o Otto I da Saxônia,
[00:05:28] que, em vez de derrotar os húngaros e italianos ali, no sério norte da Itália, na atual Itália,
[00:05:35] ele acabou sendo sagrado, em reconhecimento a esse feito militar, como imperador dos romanos pelo Papa João XXII.
[00:05:43] Então, foi o Papa que, ao reconhecer o mérito do Otto I vencendo inimigos, digamos assim, da Santa Sé,
[00:05:53] que faz com que ele consiga esse título para aquele antigo império,
[00:05:58] de Sacro, que até então era o Império Romano-Germânico, derivado dessa França Oriental.
[00:06:04] Então, é interessante, porque é algo bem antigo, portanto,
[00:06:10] e que reúne, formalmente, um conjunto de reinos, cidades episcopais, cidades livres, ducados.
[00:06:18] Então, é uma aliança, ainda, naqueles moldes de alianças político-militares medievais,
[00:06:25] cujos reinos, ou esses estados, têm, até hoje, uma grande importância.
[00:06:28] Então, é uma aliança, ainda, naqueles moldes de alianças político-militares medievais, cujos reinos, ou esses estados, têm, até hoje, uma grande importância.
[00:06:28] Sobre o império romano-germánico, tem informações, ali, sobre informações dinásticas,
[00:06:30] sobre lições de vassalagem.
[00:06:32] E é interessante, Icles, que, na verdade, esse Império Romano Germânico
[00:06:36] é um dos mais longevos da história.
[00:06:38] Porque ele durou, praticamente, 900 anos.
[00:06:40] Então, entre 962 e 1806,
[00:06:43] a gente tem essa instituição,
[00:06:46] Essa confederação,
[00:06:48] de reinos, de cidades livres, com as suas feições medievais,
[00:06:51] funcionando.
[00:06:53] Então, por que ele desaparece?
[00:06:55] Por que ele dura tanto, e por que desaparece?
[00:06:57] porque, na verdade, ele despede,
[00:06:57] porque, na verdade, ele despede,
[00:06:58] A rigor, desde meados do século XVIII, ela é meramente uma aliança mais informal do que efetivamente algo perene.
[00:07:08] Porque são muitas as mutações que ocorrem no desenvolvimento dos estados modernos.
[00:07:13] E como era um conjunto muito heterogêneo e muito variado, que abarcava mais de 348 unidades políticas,
[00:07:24] então, na verdade, essas alianças eram muito também tênues, voláteis.
[00:07:30] Formalmente, eles elegiam o imperador desse sacro império romano, germânico,
[00:07:35] e cada um desses estados, ou cidades livres, ou episcopados, tinham direito a um voto.
[00:07:40] Então, por exemplo, a Prússia, que vai ter um papel fundamental na unificação alemã,
[00:07:45] ela é um derivado do antigo reino de Brandemburgo, que era o eleitorado de Brandemburgo,
[00:07:51] que tinha direito a um desses votos, desses 348 eleitorados.
[00:07:54] Eleitores que escolhiam o imperador.
[00:07:57] E como é que foi a dissolução dele e por que isso aconteceu?
[00:08:01] E o que ficou depois dessa dissolução em termos de divisão territorial?
[00:08:04] Então, a dissolução dele é por conta das guerras napoleônicas.
[00:08:09] Ela está diretamente relacionada, Iclis, com as guerras napoleônicas.
[00:08:13] Portanto, ela se deriva, é um derivado da Revolução Francesa.
[00:08:18] Porque desde que os jacobinos derrubaram a monarquia francesa,
[00:08:23] havia uma aliança de alguns estados europeus e que, uma vez ameaçada uma coroa europeia,
[00:08:31] que eles se uniriam para enfrentar esse inimigo comum.
[00:08:34] Então, foi formada uma aliança militar e aí tivemos algumas guerras dessas coalizões
[00:08:41] contra o Estado francês, na verdade contra Napoleão Bonaparte, as tropas de Napoleão Bonaparte,
[00:08:47] para tentar sufocar a Revolução Francesa e restaurar a coroa.
[00:08:52] Então, é interessante observar que a dissolução do Sacro Império Romano Germânico do Ocidente ocorre
[00:09:00] depois de uma dessas guerras de coalizão, na verdade a terceira guerra de coalizão,
[00:09:05] que a gente teve a grande batalha de Austerlitz.
[00:09:08] E aí o imperador do Sacro Império, que era inclusive o rei da Áustria, o Francisco II,
[00:09:15] ele foi derrotado, ele teve que renunciar ao título de imperador do Sacro Império Romano Germânico
[00:09:21] e passou a ser simplesmente o imperador da Áustria e das possessões que a Áustria tinha na Europa,
[00:09:28] mas não mais de todos esses estados germânicos.
[00:09:32] E nesse mesmo processo de dissolução do Sacro Império, também a Francisco II e o que vai vir a ser a Áustria
[00:09:41] acabaram perdendo alguns territórios importantes, como por exemplo o Tirol, como por exemplo a Dalmácia.
[00:09:48] E aí, nessa mesma terceira guerra de coalizão,
[00:09:51] tem uma grande batalha, que é a batalha de Jena-Auerstadt, que acontece em 1806.
[00:09:57] Então, essa batalha de 1806, ela é talvez o marco inicial para a gente entender o processo de unificação alemã.
[00:10:06] Por que que ela é o marco inicial para a gente entender o processo de unificação alemã?
[00:10:10] Porque as tropas napoleônicas, à medida em que elas avançam nesses estados germânicos,
[00:10:15] nesses territórios germânicos, que tinham essa liga medieval ainda valendo, mas que era pouco efetiva,
[00:10:21] as tropas, os exércitos desses estados, muito desorganizados, muito atrasados,
[00:10:26] não conseguiram fazer frente, não conseguiram resistir e foram facilmente derrotados pelo exército
[00:10:32] e pelas tropas napoleônicas, muito mais organizadas, melhor equipadas, disciplinadas,
[00:10:37] com uma dotada de maior estratégia militar.
[00:10:40] Então, isso representa para esses estados e, sobretudo, para Prússia, uma enorme humilhação,
[00:10:45] uma flagorosa derrota.
[00:10:48] E aí, a paz de Westfalia, que foi estabelecida,
[00:10:52] por exemplo, entre os franceses e a Prússia, acabou retirando territórios prussianos
[00:10:58] e criando outros estados.
[00:11:01] Por exemplo, criou o Ducado de Varsóvia, a Pomerânia, por exemplo,
[00:11:05] isso que a gente chama de Pomerânia, e a gente tem pomeranos no Brasil,
[00:11:07] acho que em Santa Catarina e aqui no Espírito Santo,
[00:11:09] os pomeranos, por exemplo, essa terra pomerânia, uma grande parte dela
[00:11:13] pertencia à Prússia e passou a pertencer a esse Ducado de Varsóvia,
[00:11:17] que hoje, na verdade, uma parte disso é a Polônia atual.
[00:11:21] Mas também…
[00:11:21] Os franceses acabaram modificando a estrutura e os limites geográficos
[00:11:28] de alguns desses antigos territórios ou estados ou reinos educados
[00:11:32] e criando novos, como foi o caso, por exemplo, no sul,
[00:11:35] ali do que viria a ser depois a Alemanha,
[00:11:38] os estados da Baviera, de Württemberg, de Baden e da Saxônia,
[00:11:43] que são criados ali exatamente para reequilibrar e criar algum tipo de influência francesa
[00:11:51] no interior desses antigos territórios que eram germânicos.
[00:11:56] Apesar da dissolução ter acontecido em 1816,
[00:12:00] Napoleão continuou ditando os rumos de muito do que acontecia na Europa por mais alguns anos.
[00:12:04] E aqui entra uma questão que eu considero importante, que é a seguinte.
[00:12:07] Quando a gente fala sobre as nações e século XIX, em especial na Europa,
[00:12:11] é difícil não parar para pensar na ascensão dos nacionalismos mesmo, né?
[00:12:15] Como é que esse conceito entra em jogo quando a gente fala desses territórios
[00:12:18] que depois se tornariam a Alemanha, ainda mais,
[00:12:21] sob a influência de um invasor estrangeiro como Napoleão?
[00:12:24] Existia algum sentimento nacional conjunto entre eles?
[00:12:27] Ou essas lealdades nacionalistas eram locais de cada território independente?
[00:12:31] Você sabe me dizer?
[00:12:32] É uma excelente pergunta, porque, na verdade, o nacionalismo vai ser construído ao longo do tempo.
[00:12:40] Ele não é uma reação imediata à derrota para as tropas napoleônicas, para o exército francês,
[00:12:47] mas ele vai ser lenta e gradualmente construído,
[00:12:51] por meio de vários processos, e não exatamente direcionados com a questão exclusiva desse revanchismo
[00:13:00] ou de uma suposta xenofobia que pudesse haver entre esses germânicos e os franceses.
[00:13:08] A gente sempre tem que frisar que não havia ali uma Alemanha.
[00:13:11] A gente tinha um conjunto muito pulverizado,
[00:13:14] que anteriormente eram mais de 300 estados e territórios independentes,
[00:13:18] que depois da passagem das tropas napoleônicas,
[00:13:21] foram reduzidos a 39,
[00:13:23] e aí os franceses criam a confederação desses estados germânicos,
[00:13:28] e dividindo, digamos assim, uma autoridade para o norte,
[00:13:33] acenando talvez para a Prússia,
[00:13:35] mas mais diretamente os franceses temiam era a Áustria.
[00:13:40] Então, portanto, o inimigo maior talvez estivesse no sul,
[00:13:43] porque a Prússia era vista como um reino muito atrasado, etc.
[00:13:46] Mas, imaginando aqui que a gente tem essa heterogeneidade,
[00:13:49] essa diversidade de território,
[00:13:51] eu acredito que inicialmente não é possível dizer que tudo tivesse a ver com o nacionalismo,
[00:13:56] até porque o nacionalismo começa a ser construído na Europa,
[00:13:59] como também aqui nas Américas, a gente poderia dizer,
[00:14:01] exatamente ao longo desse século XIX, não é?
[00:14:04] Mas, talvez, somente essa humilhação da derrota na batalha de Jena-Auerstadt,
[00:14:10] ela não responda pelo nacionalismo como um todo,
[00:14:14] mas ela é um primeiro passo, talvez ela seja uma semente, não é?
[00:14:18] E ela é uma semente, porque…
[00:14:20] Iclis, olha como isso é curioso.
[00:14:22] Muitos alemães, muitos germânicos, comemoraram a chegada dos franceses
[00:14:27] e a derrota das suas autoridades para os franceses.
[00:14:30] A princípio, figuras como Hegel, por exemplo Goethe,
[00:14:35] de uma forma meio emblemática, mas inicialmente não se opõe a isso,
[00:14:39] o próprio grande compositor Beethoven, não é?
[00:14:43] Ele oferece a terceira sinfonia dele para Napoleão.
[00:14:48] Então, assim, não há um sentimento de patriotismo de pertencer a uma Alemanha,
[00:14:53] porque a Alemanha sequer existe.
[00:14:55] Então, o que a gente tem lá é um mosaico, talvez, de sentimentos pátrios,
[00:15:00] muito mais de uma ligação e de um vínculo à terra onde se nasceu,
[00:15:04] e aí essa terra é o reino, é o ducado, é a cidade livre,
[00:15:08] mas ela não é exatamente a Alemanha,
[00:15:11] porque a gente tem esse sentimento difuso, não é?
[00:15:14] Que o revanchismo contra os franceses,
[00:15:16] porque boa parte dos alemães, inclusive os que comemoraram a derrota para Bonaparte,
[00:15:21] se viram traídos e frustrados, por quê?
[00:15:24] Porque as fronteiras foram alteradas, as leis foram alteradas,
[00:15:27] mas a condição social de boa parte deles não mudou,
[00:15:30] sem contar que os franceses exigiram indenizações de guerra,
[00:15:33] compensações com os gastos militares que eles tiveram, não é?
[00:15:37] Então, a gente tem ali o início de um nacionalismo,
[00:15:39] porque eles se veem traídos e eles começam a enxergar que o inimigo é a França,
[00:15:45] mas vamos imaginar que o tripé, e aí esse é um ponto importante,
[00:15:49] porque muitos teóricos do século XIX,
[00:15:51] dentre eles Ernest Renan na França ou o próprio Fichte, o alemão,
[00:15:56] vão dizer que o que é o tripé para o nacionalismo,
[00:15:59] para a gente entender o que é uma nação?
[00:16:01] Eles vão dizer que é pertencer ao mesmo território,
[00:16:04] nascer no mesmo território, falar a mesma língua,
[00:16:07] professar a mesma religião.
[00:16:09] Então, aí a gente tem um complicador para a gente imaginar a Alemanha,
[00:16:12] porque embora a gente possa imaginar
[00:16:14] que esses germânicos falam alemão,
[00:16:16] há muitos dialetos ali.
[00:16:18] Há dezenas e dezenas de dialetos
[00:16:20] e, às vezes, o alemão do norte, com o sotaque, com o dialeto dele,
[00:16:24] nem conseguiria se comunicar direito com o alemão do sul.
[00:16:27] Então, há uma certa variedade na língua, embora ela seja entendida.
[00:16:30] Agora, a língua escrita mais formal,
[00:16:33] ela acaba sendo um elemento unificador.
[00:16:35] Do ponto de vista religioso, você tem ali duas grandes religiões.
[00:16:39] Ao norte, os protestantes e luteranos,
[00:16:41] e ao sul você tem os católicos.
[00:16:43] E isso cria, claro, divisões entre eles,
[00:16:46] inclusive rivalidades muito claras entre eles.
[00:16:49] E em relação ao território, mais ainda,
[00:16:51] porque é uma grande colcha de retalhos existentes.
[00:16:54] Então, do ponto de vista formal, até 1871,
[00:16:58] a gente poderia dizer que existiam diversas nacionalidades.
[00:17:01] Havia o bávaro, havia o prussiano,
[00:17:04] havia lá o saxão, da Saxônia,
[00:17:07] mas não havia exatamente o alemão,
[00:17:09] porque o sentimento paterno era de pertencer a esses reinos
[00:17:11] ou a esses ducados independentemente.
[00:17:13] Então, havia uma divisão, havia uma cisão.
[00:17:16] Então, na verdade, nós temos múltiplas identidades,
[00:17:19] a gente tem um mosaico de identidades políticas regionais,
[00:17:23] mas não exatamente uma ideia de nação,
[00:17:26] um conceito de nação.
[00:17:28] Que, de fato, esse protonacionalismo
[00:17:30] vai se convertendo lentamente em nacionalismo
[00:17:33] quando eles se convencem de que eles têm
[00:17:36] muitas características em comum.
[00:17:38] Então, que eles têm algumas semelhanças.
[00:17:40] Mas isso vai ser construído também de uma forma,
[00:17:43] devagar.
[00:17:44] Me permita ser um pouquinho longo aqui na resposta,
[00:17:47] porque ela realmente é complexa.
[00:17:49] Logo depois que Napoleão Bonaparte é derrotado,
[00:17:51] vem o Congresso de Viena e restaura as monarquias.
[00:17:55] De novo, faz uma configuração dos limites geográficos
[00:17:59] das diferentes nações.
[00:18:01] Mas a gente tem uma figura, que é o Metternich,
[00:18:03] que é o primeiro ministro da Áustria,
[00:18:05] que acaba se sobressaindo depois do Congresso de Viena.
[00:18:09] E ele se torna também uma figura preeminente,
[00:18:13] junto a esses estados germânicos,
[00:18:15] que se vinculam através de uma confederação germânica.
[00:18:19] A confederação germânica dos estados do norte
[00:18:22] e as dos estados do sul.
[00:18:24] As dos estados do sul estão mais próximas da Áustria,
[00:18:27] são católicos como boa parte dos austríacos,
[00:18:30] que também o eram.
[00:18:31] Então, acabam ficando sobre essa zona de influência austríaca.
[00:18:34] E embora não se sentindo austríacos, né?
[00:18:37] Enquanto que os do norte têm uma vinculação maior
[00:18:41] com o protestantismo.
[00:18:42] E acabam se orbitando inicialmente em torno da Prússia.
[00:18:47] Mas a Prússia também era vista como um reino muito pobre,
[00:18:50] muito atrasado,
[00:18:52] sem grande projeção intelectual,
[00:18:56] acadêmica, enfim, cultural.
[00:18:59] Então, por quê?
[00:19:00] Porque a Prússia é dominada pelos Junkers, não é?
[00:19:02] Ela tem lá esses grandes latifundiários,
[00:19:05] controlando o poder e o estado.
[00:19:07] Mas os Junkers também, esses grandes latifundiários,
[00:19:10] são uma liderança,
[00:19:11] são essa elite política de vários desses territórios
[00:19:14] dos estados germânicos, não é?
[00:19:16] Então, a língua escrita,
[00:19:19] ela é um instrumento importante para esse nacionalismo.
[00:19:22] Portanto, os intelectuais, os estudantes,
[00:19:25] portanto, as universidades germânicas,
[00:19:28] que a gente não tem a Alemanha aí ainda, não é?
[00:19:30] Então, a Universidade de Berlim,
[00:19:32] a Universidade de Jena,
[00:19:33] a Universidade de Leipzig,
[00:19:35] a Universidade de Kiel, lá no norte.
[00:19:37] Então, o fato de usarem o alemão,
[00:19:39] o fato dos jornais também usarem o alemão,
[00:19:42] fazem com que essa intelectualidade,
[00:19:44] esses jornalistas, essa elite letrada,
[00:19:47] crie ali alguma vinculação, um diálogo entre si.
[00:19:51] Então, isso é muito importante.
[00:19:53] Isso acaba sendo um elemento muito importante, não é?
[00:19:56] Agora, o poder estava nas mãos dessa elite agrária, não é?
[00:20:01] Que há uma alteração nesse quadro,
[00:20:03] Icles, a partir de 1840, 1850,
[00:20:06] quando há uma expansão industrial maior
[00:20:08] em algumas regiões da Alemanha,
[00:20:10] como na Renânia, não é?
[00:20:11] Como também na Saxônia.
[00:20:13] E aí, as minas de carvão,
[00:20:15] também a produção de ferro,
[00:20:17] tudo isso vai expandir uma indústria.
[00:20:20] Então, novas classes surgem,
[00:20:23] que são os trabalhadores e uma burguesia.
[00:20:26] E essa burguesia, esses trabalhadores,
[00:20:28] também desejando maior espaço político,
[00:20:30] maior representação política,
[00:20:32] porque a gente tem que entender que com a restauração
[00:20:35] que veio depois do Congresso de Viena,
[00:20:37] todos esses estados vivem regimes autoritários.
[00:20:41] Muitos desses estados não têm uma constituição,
[00:20:43] não têm um parlamento livre,
[00:20:45] não têm a representação política
[00:20:47] para todas essas classes sociais importantes.
[00:20:51] Então, essa nobreza da terra,
[00:20:53] essa nobreza agrária, ela era muito influente,
[00:20:55] ela é muito importante.
[00:20:57] Há um outro ponto muito importante, Icles,
[00:20:59] e aí só para também agregar um elemento importante
[00:21:01] para a nossa conversa, que é o militarismo.
[00:21:04] Porque essas guerras constantes que aconteceram,
[00:21:06] essas revoltas que aconteceram na Europa,
[00:21:09] e o Hobsbawm fala muito disso na Era das Revoluções,
[00:21:12] o século XIX foi um século, para a Europa,
[00:21:15] de constantes convulsionamentos políticos e sociais.
[00:21:18] Então, isso fazia com que a movimentação de tropas,
[00:21:22] o recrutamento de soldados fosse constante.
[00:21:26] E, às vezes, o recrutamento era forçado,
[00:21:28] não era espontâneo.
[00:21:30] E, lentamente, começa a surgir
[00:21:32] um recrutamento militar obrigatório,
[00:21:34] um alistamento obrigatório.
[00:21:36] Então, esses exércitos, essas disputas militares,
[00:21:39] vão ser um ingrediente também poderoso para o nacionalismo,
[00:21:42] porque a gente precisa entender
[00:21:44] que, inicialmente, esses exércitos não são profissionais.
[00:21:47] Muitos reis e duques contratam milícias,
[00:21:50] contratam, muitas vezes, pessoas a um soldo
[00:21:56] para lutar determinadas campanhas e batalhas,
[00:21:58] mas essa pessoa não tenha nenhuma vinculação
[00:22:00] nem política com aquele reino,
[00:22:02] tampouco ainda com aquela gente,
[00:22:03] com aquela terra.
[00:22:04] Então, o fato de a gente ter muitos soldados
[00:22:07] que eram mercenários lutando nessas guerras
[00:22:10] e que, lentamente, eles vão sendo substituídos
[00:22:13] por exércitos gerados,
[00:22:15] constituídos por habitantes de uma mesma região,
[00:22:18] de um mesmo estado,
[00:22:19] isso cria também uma vinculação entre eles.
[00:22:22] Há um outro instrumento, Icles,
[00:22:24] que nos ajuda a entender esse nacionalismo
[00:22:27] e essa aproximação das pessoas,
[00:22:29] que é o Zollverein,
[00:22:30] que é uma liga aduaneira que a Prússia cria
[00:22:32] em 1834, que vai ser importante.
[00:22:35] Mas para eu não avançar muito nisso,
[00:22:37] porque eu acho que a gente tem que falar também
[00:22:39] das ferrovias, tem que falar das estradas,
[00:22:41] a gente pode falar disso depois,
[00:22:42] eu acho que a gente tem duas celebrações importantes,
[00:22:45] dois festivais importantes,
[00:22:47] para entendermos também esse comportamento
[00:22:50] dos nacionalistas alemães.
[00:22:52] Então, um primeiro momento que a gente teve lá atrás
[00:22:55] é o Choque da Derrota, em 1806, em Iêna, não é?
[00:22:59] Mas a gente tem dois festivais,
[00:23:00] um deles é o Festival de Wagner,
[00:23:02] em Wartburg, de 1817,
[00:23:04] que foi realizado naquele castelo onde Lutero,
[00:23:07] 300 anos atrás, tinha ficado,
[00:23:09] com bandeirinhas tricolores,
[00:23:11] com canções mais do folclore,
[00:23:14] da terra, das raízes alemãs,
[00:23:16] que foi organizado pelos estudantes.
[00:23:18] Ele foi duramente combatido e perseguido
[00:23:20] pelo Metternich.
[00:23:21] Então, ali, a gente tem uma reunião de pessoas,
[00:23:24] não defendendo a criação de uma Alemanha unificada,
[00:23:27] mas lutando pela liberdade,
[00:23:29] pela possibilidade do diálogo,
[00:23:31] do encontro, então…
[00:23:33] E, claro, para combater a repressão.
[00:23:35] A gente tem um segundo festival,
[00:23:37] e esse, agora, o tom nacionalista
[00:23:40] ganha um ponto a mais, não é?
[00:23:42] Que é o Festival de Rambach, de 1832,
[00:23:45] que figuras como Herda,
[00:23:47] o poeta Rhein,
[00:23:49] Fichte, Hegel,
[00:23:50] todos eles eram figuras que, a partir de então,
[00:23:53] defendiam uma posição germânica unificada.
[00:23:57] E aí, a gente tem uma proto…
[00:23:59] um sentimento de proto-Alemanha,
[00:24:01] nascendo como uma identida…
[00:24:03] um território multifacetado,
[00:24:05] com uma única identidade,
[00:24:07] que começa a surgir,
[00:24:09] que começa a aglutinar pessoas.
[00:24:11] Então, mais de 30 mil pessoas foram para este festival de Rambach,
[00:24:14] e ali começa a surgir uma ideia de Alemanha.
[00:24:17] Só que havia ainda um problema, Eklis,
[00:24:19] que é, que Alemanha queremos?
[00:24:21] Uma grande Alemanha incluindo a Áustria,
[00:24:24] ou uma pequena Alemanha excluindo a Áustria?
[00:24:27] Em 1813, ocorre o que alguns chamam de Guerra de Libertação,
[00:24:31] que foi a guerra entre a Sexta Coalizão e Napoleão,
[00:24:34] que foi derrotado e exilado na Ilha de Elba.
[00:24:36] Dois anos depois, ocorre a luta da Sétima Coalizão contra Napoleão,
[00:24:39] que foi derrotada em definitivo na Batalha de Waterloo.
[00:24:42] Você poderia falar desses casos, em particular,
[00:24:44] do ponto de vista desses estados, entre aspas, alemães?
[00:24:47] Pois é, isso tem a ver com o que eu falei do recrutamento,
[00:24:51] da contratação de mercenários, de milícias,
[00:24:55] mas também do alistamento que algumas dessas nações começam a fazer.
[00:25:00] Mas esse recrutamento forçado, Íclus, é um dado interessantíssimo.
[00:25:04] Por quê?
[00:25:05] Porque, por exemplo, Napoleão Bonaparte convoca e recruta germânicos,
[00:25:10] ou seja, cidadãos alemães,
[00:25:12] por exemplo, para lutar nas campanhas contra a Rússia, lá no extremo leste.
[00:25:16] E mais, também alguns soldados alemães se juntaram aos exércitos napoleônicos
[00:25:22] e lutaram contra os seus próprios vizinhos germânicos,
[00:25:26] contra os seus próprios vizinhos alemães.
[00:25:28] Nesse contexto, entre 1816 e 1817,
[00:25:30] que é a derrota, onde acontece a derrota do Napoleão Bonaparte.
[00:25:36] Então, essas tropas mercenárias lutando ao lado de soldados profissionalizados
[00:25:41] ou de tropas profissionais é algo que também é um fenômeno curioso nesse processo.
[00:25:48] Agora, eu acho que é importante, tal como você menciona,
[00:25:51] a gente frisar que essa sexta guerra de coalizão entre 1813 e 1814 é que é decisiva.
[00:25:58] E ela é decisiva porque,
[00:26:00] foi aí, foi na sexta guerra de coalizão,
[00:26:02] que Napoleão é derrotado de verdade, digamos assim, não é?
[00:26:06] Porque a sétima guerra de coalizão, em que ele vai ser derrotado lá em Waterloo e vai pra Elba,
[00:26:10] na verdade, ali a gente já não tinha mais aquele poderio total que a França tinha,
[00:26:15] não é? Aquela hegemonia absoluta que eles tinham.
[00:26:17] Porque na sexta guerra de coalizão, e aí eu tô falando sobretudo da Batalha de Leipzig,
[00:26:22] que é conhecida como Batalha das Nações, não é?
[00:26:24] Ela acontece em três dias, do dia 16 ao dia 19 de novembro.
[00:26:29] Então, essa batalha, 16 a 19 de novembro de 1813,
[00:26:33] mais de meio milhão de soldados se degladiaram ali, né?
[00:26:38] Em Leipzig, a maior batalha da Europa, talvez uma das mais sangrentas do século XIX.
[00:26:43] E ali, ela é conhecida como a Batalha das Nações porque foram várias nações que se uniram pra derrotar a França.
[00:26:49] E conseguiram, até pra você ter uma ideia, a gente tinha tropas que saíram da Rússia,
[00:26:53] mas também da Suécia, mas também da Dinamarca,
[00:26:57] lutando contra os franceses, não é?
[00:27:00] Do ponto de vista germânico, aí vamos falar um pouco sobre essa questão do ponto de vista germânico, não é?
[00:27:05] Acho que a questão é muito simples, não é?
[00:27:07] Aqueles estados que Napoleão ajudou a criar em 1806 e 1807, não é?
[00:27:14] Como a Baviera, como Württemberg, como Baden, a própria Saxônia que foi elevada a reino,
[00:27:20] todos eles acabaram, Icles, meio que orbitando em torno da França.
[00:27:25] E digamos assim, como eles eram estados autônomos e podiam fazer as suas alianças livremente,
[00:27:31] eu acho que eles preferiram se aliar ao que naquele momento era talvez a potência,
[00:27:38] um dos estados mais poderosos, enfim, o império que oferecia a eles realmente garantias de sobrevivência,
[00:27:45] de proteção e acharam melhor se aliar aos franceses, não é?
[00:27:49] Então esses estados do sul orbitaram um pouco e, digamos assim, tergiversaram, não é?
[00:27:54] Demoraram a perceber que a França não era tão amiga assim, não é?
[00:27:59] Esse é um ponto, porque ao passo que a gente tem esses estados germânicos do norte,
[00:28:04] esse não estreitamento de relações com a França e aí as hostilidades, a animosidade continuou sendo maior.
[00:28:11] Isso também não significa que dentro da Bavaria, de Württemberg, Baden, enfim, esses estados do sul,
[00:28:17] não houvesse um contingente enorme de pessoas simpáticas à causa alemã
[00:28:22] e que eram, claro, hostis aos franceses.
[00:28:24] Mas as elites desses estados, os seus monarcas, se alinharam à França.
[00:28:30] Então esse é um ponto interessante, não é?
[00:28:32] Que a gente também precisa considerar, porque não há Alemanha,
[00:28:35] portanto esses vários estados têm posicionamentos políticos diferenciados.
[00:28:44] Já que a gente está falando em unificação e nos últimos tempos a gente tem tido mais motivos de discórdia do que de consenso,
[00:28:50] tem uma coisa que une praticamente todo mundo.
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[00:29:47] Aqui eu queria dar um passo para trás
[00:29:49] e te perguntar sobre algo que começa no século XVIII e de maneira não tão estável assim
[00:29:54] se estende até a segunda metade do XIX, que foi o que é chamado de dualismo alemão ou dualismo austro-prussiano
[00:30:01] e o que ficou conhecido como confederação germânica.
[00:30:03] O que seria esse dualismo e o que seria essa confederação, para o pessoal que está ouvindo entender melhor?
[00:30:08] Uma ótima pergunta.
[00:30:10] Na verdade, as grandes potências europeias vinham com bons olhos essa fragmentação
[00:30:16] e essa divisão desses territórios germânicos.
[00:30:19] Porque veja, eles realmente tinham algumas afinidades, usavam a mesma língua escrita, falada,
[00:30:25] eles se compreendiam, mas às vezes não tão bem assim.
[00:30:28] Então havia alguma unidade, havia alguma identidade cultural,
[00:30:33] mas ao mesmo tempo havia algumas divisões que foram incentivadas por essas nações.
[00:30:38] E isso ficou claro depois do Congresso de Viena, quando ocorreu a restauração das antigas monarquias,
[00:30:44] porque eles preferiram manter essa divisão dos estados germânicos.
[00:30:49] Aí foram reduzidos de 39, se não me engano, para 37 nacionalidades, ou 37 estados independentes.
[00:30:57] Então era interessante para as outras potências europeias manter essa divisão,
[00:31:01] porque manteria esses estados enfraquecidos.
[00:31:03] Mas evidentemente que dentre eles, alguns polos se destacam.
[00:31:07] O primeiro polo é, naturalmente, a Áustria, é Viena,
[00:31:10] o coração nervoso do antigo Sacro Império Romano-Germânico do Ocidente,
[00:31:14] que era uma grande potência europeia, uma grande extensão territorial.
[00:31:18] Tinha muitos exércitos e era majoritariamente católica.
[00:31:23] Então ela acaba tendo essa preeminência, como eu já havia mencionado,
[00:31:27] com esses estados germânicos do sul que se aproximam dela,
[00:31:30] por afinidades políticas, por às vezes afinidades religiosas, sobretudo por conta do catolicismo,
[00:31:36] por algumas questões de ordem militar, de proteção militar,
[00:31:40] também por relações comerciais mais intensas naquela região central ali da Europa.
[00:31:46] Então a gente tem de um lado isso, um polo, para a gente entender o dualismo,
[00:31:52] que é capitaneado pelos austríacos.
[00:31:54] Por outro lado, a gente tem a Prússia, que inicialmente é um estado atrasado, arcaico,
[00:31:59] que a rigor surge em 1701, quando Brandemburgo e Prússia se unem por conta da morte do monarca de Brandemburgo.
[00:32:09] Havia um casamento entre a filha de um rei da Prússia com um brandemburguense,
[00:32:14] e aí há uma união.
[00:32:15] E surge o reino da Prússia, 1701.
[00:32:17] E lentamente esses territórios prussianos passam por um processo de depuração,
[00:32:22] acabam perdendo a Pomerânia para a Polônia,
[00:32:25] e era uma região rica em carvão,
[00:32:28] e que lentamente ela começa a se industrializar com manufaturas, incipiente isso.
[00:32:34] Mas ao mesmo tempo há um outro processo da Prússia que é de intensa militarização.
[00:32:39] E a gente pode inclusive entender essa militarização como inclusive uma forma
[00:32:43] de você abrigar pessoas durante dois, três, quatro, às vezes mais tempo nos exércitos,
[00:32:50] para que essas pessoas se alimentarem, para elas poderem viver.
[00:32:53] Então o militarismo dentro da Prússia é algo que é cultivado já a meados de 1830, 1840,
[00:33:01] sobretudo por esse estado permanente de convulsão social e política que tem a Europa no 19.
[00:33:06] Então a Prússia lentamente acaba se tornando uma nação preeminente ali no norte,
[00:33:11] porque era também em extensão territorial o maior reino na confederação germânica do norte,
[00:33:17] ao passo que a Áustria também era a maior extensão territorial do sul.
[00:33:20] Então eles eram os mais poderosos, tinham os maiores militares,
[00:33:23] e eles começam a disputar.
[00:33:25] Há uma rivalidade entre eles para ver quem é que vai ter hegemonia sobre os estados germânicos.
[00:33:30] Então inicialmente a Prússia, até meados de 1750, não consegue fazer frente ao poderio austríaco,
[00:33:37] mas esse dualismo vai se intensificar na medida em que
[00:33:40] e aí são três processos, não é?
[00:33:43] O primeiro processo é a construção do Zollverein,
[00:33:46] que é uma liga aduaneira de comércio livre entre esses estados germânicos
[00:33:50] que é capitaneado pela Prússia,
[00:33:52] e lentamente vários desses outros estados vão aderindo a essa liga,
[00:33:56] e a Prússia exclui a Áustria dessa liga.
[00:33:59] Com isso ela enfraquece, se fortalece economicamente, enfraquece.
[00:34:02] O outro processo é a construção das ferrovias.
[00:34:05] Então há um processo intenso de financiar e de construir rapidamente
[00:34:09] linhas férreas ligando as principais cidades alemãs.
[00:34:12] E isso cria uma aproximação entre elas maior, facilita o comércio.
[00:34:16] E também há esse terceiro elemento, que é uma militarização,
[00:34:20] e o fato de haver essa aliança, uma confederação desses estados germânicos,
[00:34:24] eles lentamente começam a também assinar tratados militares secretos entre si.
[00:34:29] Esse é um ponto interessante, porque até então as potências europeias
[00:34:33] também faziam tratados com essas nações germânicas de forma pontual,
[00:34:37] como a Áustria fazia.
[00:34:39] A França tinha aliança militar com a Bavária, tinha com a Saxônia,
[00:34:43] tinha com o Württemberg, por exemplo.
[00:34:45] Os austríacos também tinham.
[00:34:47] Então lentamente os prussianos também começam a ter esse tipo de tratado militar
[00:34:53] com os estados, e isso se amplia, e essa militarização garante uma proteção,
[00:34:58] no caso de uma agressão externa.
[00:35:00] Mas há um elemento, e aí é um fator externo a esse dualismo também,
[00:35:04] que nos ajudará a entender a preeminência prussiana,
[00:35:07] para começar a partir de 1850,
[00:35:09] que é a Guerra da Crimeia e a unificação italiana.
[00:35:12] A Guerra da Crimeia entre 1853 e 1856,
[00:35:16] que envolve de um lado a Áustria e de outro lado a Rússia,
[00:35:19] cria uma rusga entre russos e austríacos,
[00:35:23] e isso faz com que os russos se aproximem dos prussianos.
[00:35:26] E a unificação italiana também meio que afasta a Áustria de França,
[00:35:31] porque a França detinha territórios naquela região,
[00:35:34] e eles acabam se envolvendo na guerra,
[00:35:35] e as tropas austríacas e francesas entram em choque,
[00:35:39] e acabam perdendo várias guerras e territórios
[00:35:42] para o que viria a ser o Reino da Itália unificado.
[00:35:46] Então o dualismo começa a se intensificar a partir de 1815,
[00:35:50] e se intensifica radicalmente até a Guerra Austro-Prussiana de 1866.
[00:35:57] E no decorrer do século XIX,
[00:36:00] como é que foi o desenvolvimento desses territórios da futura Alemanha?
[00:36:03] A gente tem essa visão,
[00:36:05] visão da Alemanha como uma grande potência e tal,
[00:36:07] só que esse tipo de status oscila quando a gente está falando de locais com muitos séculos de história e tal.
[00:36:12] E eu estou perguntando sobre o desenvolvimento,
[00:36:14] porque eu li que quando as estradas começaram a melhorar,
[00:36:17] e as viagens começaram a ficar mais rápidas e baratas,
[00:36:19] com o advento do trem, das estradas de ferro e tal,
[00:36:22] teria começado um processo de percepção de unidade entre os alemães de territórios diferentes,
[00:36:27] aquela coisa que você viaja para esses outros territórios,
[00:36:30] aí você vê que as pessoas parecem com você,
[00:36:32] tem uma cultura muito parecida, fala o mesmo idioma,
[00:36:34] mesmo quando tem uma diferença de sotaque, algumas palavras,
[00:36:37] e que isso foi reforçando essa ideia de união.
[00:36:39] Então, você poderia falar sobre o desenvolvimento desses territórios no século XIX?
[00:36:43] Acho que esse é um processo fantástico,
[00:36:45] que tem tudo a ver com a sedimentação,
[00:36:48] com o aprimoramento desse nacionalismo
[00:36:51] que ocorre exatamente por conta dessa aproximação
[00:36:54] facilitada pelo aperfeiçoamento das vias, dos modais, digamos assim.
[00:36:59] Até então, os transportes basicamente eram feitos no longo,
[00:37:03] das tropas, de cavalos, ou pelas vias fluviais, pelos rios.
[00:37:09] Mas eu talvez não conseguisse, na verdade não teria como falar aqui de todos esses 37 estados germânicos,
[00:37:15] mas eu posso falar da Prússia, que vai ser a grande nação que liderará o processo de unificação.
[00:37:20] Então, as reformas que aconteceram dentro do estado prussiano,
[00:37:24] e que mais ou menos também vão se reproduzir e vão ocorrer em outros estados no mesmo contexto,
[00:37:28] elas são um fator muito importante para a gente compreender isso,
[00:37:32] essa transformação.
[00:37:34] Então, Frederico IV, na Prússia, quando assume o poder em 1840,
[00:37:39] ele é um reformista, ele é conservador, tem uma visão autoritária,
[00:37:44] recusa e retarda a aprovação de uma constituição na Prússia,
[00:37:48] mas ele é um reformista, e ele coloca o Menteufel como seu primeiro-ministro,
[00:37:54] e Menteufel é um sujeito que vai se dedicar a reformular as estradas,
[00:38:00] vai se dedicar a incentivar a construção de novas linhas férreas,
[00:38:05] ligando Berlim e cidades prussianas importantes com outras cidades importantes alemãs.
[00:38:11] O Düsseldorfer Rhein, que é a liga doaneira de 1834,
[00:38:14] que é anterior a Frederico IV, que continua existindo,
[00:38:17] fez com que a Prússia tivesse grandes ganhos comerciais,
[00:38:21] e esses capitais são reinvestidos na infraestrutura.
[00:38:24] A navegação a vapor, é outro ingrediente interessante,
[00:38:28] porque ao lado do trem de ferro, da locomotiva,
[00:38:33] esses navios a vapor tornam essas viagens mais rápidas,
[00:38:37] tornam esses encontros mais frequentes, tornam a comunicação mais ágil,
[00:38:42] o telegrama também vai surgir rapidamente, facilitando essas comunicações.
[00:38:46] Então esse estreitamento, esse encontro mais frequente,
[00:38:51] de fato faz com que a percepção das semelhanças, das identidades, das afinidades,
[00:38:57] que tudo isso propicie o entendimento de que nós temos muita coisa em comum,
[00:39:02] e isso vai evidentemente ser também um elemento importante para esse nacionalismo alemão.
[00:39:07] Mas uma coisa a gente tem que dizer, embora entre 1840 e 1850 a gente tenha esse processo de renovação,
[00:39:16] a barra na Europa era pesada.
[00:39:18] Muita repressão política, muita censura, a espionagem, intelectuais eram perseguidos,
[00:39:26] eram combatidos, então todas as oposições políticas,
[00:39:30] e aí vamos entender, os liberais radicais, os socialistas e os comunistas,
[00:39:35] dentro desse momento reformista e tal, de mudanças,
[00:39:39] nos alertam de que nem tudo era tão simples assim, nem tudo era tão fácil.
[00:39:43] Um outro elemento importante, porque apesar da gente falar aqui em desenvolvimento
[00:39:46] e dar uma ideia talvez de uma prosperidade sem limites,
[00:39:50] a maior parte dos alemães, dos germânicos estão saindo da Alemanha, estão saindo da Europa,
[00:39:55] inclusive da Europa.
[00:39:56] E muitos deles vieram para a América e vieram para o Brasil,
[00:39:59] porque havia uma convulsão nos campos com as guerras,
[00:40:02] com esses recrutamentos forçados para não morrer,
[00:40:05] com a pobreza, com a concentração de terras nas mãos dos iunques.
[00:40:09] Tudo isso faz com que muita gente fuja, passa fome.
[00:40:12] Ou eles vão para os grandes centros urbanos que incham,
[00:40:16] e aí a gente tem vários problemas sociais e políticos por causa disso,
[00:40:19] ou eles acabam vindo para a América.
[00:40:21] O próprio Engels e o Karl Marx têm um retrato,
[00:40:25] em vários textos, muito fascinante dessas contradições
[00:40:29] e desses problemas havidos ali em territórios germânicos.
[00:40:33] Aqui eu queria te perguntar sobre o Wormertz
[00:40:36] e as disputas entre liberais e conservadores na época,
[00:40:41] no caso da política local e tal.
[00:40:43] Como isso teria influenciado o avanço das ideias de unificação?
[00:40:46] E como as revoluções de 1848 influenciaram o processo de unificação que rolou décadas depois?
[00:40:51] Tudo a ver.
[00:40:52] O Wormertz é exatamente isso.
[00:40:54] É uma pré-primavera.
[00:40:56] É o pré-março ali.
[00:40:58] É uma pré-primavera dos povos.
[00:41:00] 1848 ficou conhecido como a primavera dos povos.
[00:41:04] E é o março de 1848.
[00:41:06] Então os alemães chamam de pré-março
[00:41:08] exatamente esse período que antecede a revolução alemã.
[00:41:14] E essa revolução alemã estourou em várias cidades.
[00:41:17] Nas principais cidades alemãs a gente vai ter barricada,
[00:41:19] a gente vai ter o mesmo que teve em várias outras cidades da Europa.
[00:41:22] E a gente tem isso em 1830.
[00:41:23] As levas de 1830.
[00:41:25] E a gente vai ter em 1848 como um ano emblemático.
[00:41:28] Por exemplo, Frankfurt e Berlim.
[00:41:30] Os combates entre tropas leais ao reino e soldados.
[00:41:35] E esses revolucionários, esses contestadores.
[00:41:39] Os combates vão ser acirrados.
[00:41:41] Centenas de pessoas morreram.
[00:41:42] E volto a dizer, isso tem a ver com essa crise econômica,
[00:41:46] com essa desestabilização no campo.
[00:41:48] Essa massa urbana de trabalhadores mal remunerados,
[00:41:52] sem direitos, sem garantias.
[00:41:54] Então, muita pobreza.
[00:41:56] As reformas eram necessárias, mas elas foram lentamente sendo feitas.
[00:42:00] Portanto, não foi um momento muito fácil.
[00:42:04] Então, em 1848, a gente tem a reivindicação,
[00:42:08] junto a Frederico IV, para se constituir uma assembleia,
[00:42:12] para votar uma constituição para o reino da Prússia.
[00:42:15] E ele permite.
[00:42:16] Essa assembleia é constituída lá em Frankfurt, em 1847, 1848.
[00:42:21] Vários delegados são eleitos em vários estados germânicos para ir para lá.
[00:42:25] E ali começa, de fato, a se discutir um projeto de unificação.
[00:42:30] Então, é uma constituição que vai definir leis,
[00:42:33] a princípio, para a Prússia,
[00:42:35] mas que poderiam ser para esses outros estados da confederação,
[00:42:38] que aderem a esse projeto.
[00:42:39] Então, é interessante ver que há uma adesão a esse projeto.
[00:42:41] Eles mandam delegados.
[00:42:42] Boa parte deles eram professores universitários, eram letrados.
[00:42:46] Tinham poucos Junkers ali.
[00:42:48] A gente tinha uma assembleia muito interessante.
[00:42:50] E, nela, começam a discutir o projeto de uma Klein-Deutsch,
[00:42:54] se seria uma Alemanha sem a Áustria,
[00:42:56] ou a Großdeutsch, uma Alemanha com a Áustria.
[00:42:59] E vence a ideia de que vai ser uma Alemanha pequena.
[00:43:02] O problema, e aí isso ajuda a gente a entender 1848,
[00:43:06] o problema é que eles convidam, a assembleia decide
[00:43:09] que Frederico II vai ser escolhido como o imperador desse Reich alemão,
[00:43:14] do segundo Reich alemão,
[00:43:16] e que essa constituição vai valer para todos os estados da confederação.
[00:43:20] E ele habilidosamente recusa, diz que não pode,
[00:43:23] porque quem poderia fazer essa escolha seriam os próprios titulares
[00:43:28] dos estados germânicos, dos estados da confederação,
[00:43:31] e não deputados constituintes.
[00:43:33] Então, isso cria um problema entre a assembleia e eles,
[00:43:37] sem contar que a assembleia também não tinha lá representantes populares,
[00:43:40] ela não era muito progressista.
[00:43:42] Boa parte desses deputados eram liberais conservadores,
[00:43:45] que defendiam o voto censitário, uma não igualdade plena de direitos,
[00:43:50] e coisas nessa direção.
[00:43:51] Então, tudo isso faz com que a oposição dentro e fora da assembleia cresça,
[00:43:56] e entre o próprio estado prussiano e os outros estados,
[00:43:59] com os deputados constituintes.
[00:44:01] Então, ela é dissolvida, uma boa parte desses deputados fogem,
[00:44:06] vão sair dali porque correram o risco de serem presos,
[00:44:10] e isso tudo coloca mais combustível nesse sonho de unificar a Alemanha,
[00:44:15] que ali foi postergado.
[00:44:17] Então, houve ali um interregno.
[00:44:19] Agora, é engraçado que o Frederico IV pega essa ideia
[00:44:23] e convoca para a cidade de Erfurt uma união também,
[00:44:28] desses reis e desses titulares desses estados germânicos de 1850,
[00:44:33] para pensar em um projeto de unificação.
[00:44:36] Mas a Áustria intervém, e eu não me lembro qual é o nome do primeiro ministro austríaco,
[00:44:41] já não era mais o Metternich, é um outro primeiro ministro,
[00:44:44] ele intervém e diz, olha, vocês não têm autonomia aqui
[00:44:48] para discutir algo que envolve tantos estados, tantos territórios, enfim.
[00:44:53] E ele acaba convencendo o Frederico II e outros representantes dessa união de Erfurt
[00:45:01] a desistirem do projeto de unificação.
[00:45:03] Então, isso foi visto como uma humilhação para Prússia.
[00:45:07] É como se a Áustria tivesse humilhado a Prússia,
[00:45:10] mais uma vez, nessa ideia de um dualismo do poder germânico em 1850.
[00:45:15] Um outro fator colocado na equação,
[00:45:17] quando se fala da unificação, é o poderio militar crescente da Prússia.
[00:45:21] Qual a influência do militarismo prussiano para essa unificação?
[00:45:25] É total. É total porque Mentoifeu, primeiro,
[00:45:29] depois o Albrecht von Ruhm, e em seguida o Otto von Bismarck.
[00:45:34] Então, esses primeiros ministros, todos eles vão entender
[00:45:39] para que o estado prussiano consiga se proteger e se expandir,
[00:45:44] ele precisa se tornar militarmente forte.
[00:45:47] Então, a ideia de armar o estado para se defender de possíveis agressões externas
[00:45:53] ganha uma adesão maciça dessa sociedade e a Prússia se militariza intensamente.
[00:45:58] E investe de forma pesada recursos também para construção e invenção
[00:46:03] de novos tipos de armas.
[00:46:05] Isso estimula as fábricas a produzirem armas, munições.
[00:46:10] Então, militarizar ali também, além desse papel de proteção econômica,
[00:46:17] no imaginário social, a leitura que as pessoas faziam na época,
[00:46:21] cria também um sentimento pátrio de amor ao país, de amor a essa sociedade,
[00:46:27] algo meio paternal de uma defesa.
[00:46:30] E também era um ganho de vida para muitos jovens que a militarização,
[00:46:34] mas com profissionalização das tropas e dos exércitos,
[00:46:37] garantia a eles sustento, sobrevivência, possibilidade de crescer na hierarquia militar.
[00:46:42] De início, há uma certa resistência dos Junkers.
[00:46:46] Não vou dizer que não tenha havido, ela existiu, não é?
[00:46:49] Então, dentro do parlamento, Frederico IV e Guilherme I,
[00:46:53] a princípio não conseguiam aprovar um orçamento maior para a defesa
[00:46:57] e para o exército prussiano.
[00:46:59] E aí, o que o Guilherme IV faz?
[00:47:02] Ele acaba criando impostos específicos para que esses impostos
[00:47:06] financiassem essa expansão militar da Prússia.
[00:47:10] Então, produzir mais armas, comprar mais armas e ampliar o exército
[00:47:14] para que a gente tenha uma nação francesa.
[00:47:16] E o Bismarck, inclusive, é engraçado ter uma fala no parlamento
[00:47:19] que um deputado vira para ele e diz que a sociedade prussiana
[00:47:23] não vai ver com bons olhos criar novos impostos para financiar o exército.
[00:47:27] Ele fala, ah, não tem problema nenhum, a gente tem 200 mil soldados prontos
[00:47:31] para convencê-la, do contrário.
[00:47:33] Essa dá uma imagem clara de quem é essa figura à frente ali
[00:47:39] do estado prussiano no momento crucial da unificação.
[00:47:42] Agora, essa militarização, Iclis, como eu disse,
[00:47:45] como existem essas constantes revoltas e batalhas,
[00:47:49] enfim, convulsões sociais pululando na Europa como um todo
[00:47:52] ao longo do século XIX, elas também precisam nos trazer
[00:47:55] uma informação importante, que a unificação alemã,
[00:47:58] ela é feita através de guerras externas.
[00:48:01] Então, a grande habilidade, sobretudo do Bismarck,
[00:48:03] junto com o Guilherme I, foi unir os alemães contra inimigos externos.
[00:48:08] Então, houve uma habilidade diplomática que a gente pode falar disso depois.
[00:48:11] Mas são três guerras. A primeira guerra foi a Schleswig-Holstein,
[00:48:14] que é uma guerra contra a Dinamarca, em 1864.
[00:48:18] Uma segunda guerra contra a Áustria, em 1866.
[00:48:21] E aí, finalmente, a guerra franco-germânica, ou da França,
[00:48:25] com essa confederação germânica, de 1870 e 1871.
[00:48:28] Então, assim, não dá para entender a unificação alemã
[00:48:31] sem o militarismo e, por conseguinte, sem guerra.
[00:48:37] Desde o início da Idade Média, os povos germânicos foram parte importante
[00:48:41] de reinos poderosos e da formação dos sacros.
[00:48:44] O sacro império romano medieval.
[00:48:46] A criação do sacro império está na partilha do império do germânico Carlos Magno
[00:48:51] entre seus netos em Verdun.
[00:48:53] Ainda assim, não existiu alguma entidade que incluísse todos os povos germânicos.
[00:48:58] Na verdade, até o início do século XIX, não existia sequer uma identidade nacional alemã.
[00:49:04] 3. A Reis
[00:49:11] Aqui a gente poderia falar do conceito de realpolitik
[00:49:15] e do papel do Otto von Bismarck nesse processo de unificação.
[00:49:19] E claro, sobre o discurso sangue e aço que ele proferiu e ficou famoso.
[00:49:23] Você pode explicar isso pra gente?
[00:49:24] Sim, ah, fascinante a pergunta!
[00:49:26] Porque esse é um discurso que ele profere no parlamento prussiano em 30 de…
[00:49:31] Melhor, no parlamento germânico em 30 de setembro de 1870.
[00:49:33] de setembro de 1862.
[00:49:35] Sangue e ferro, na verdade.
[00:49:37] É engraçado porque
[00:49:39] eu acho que essa é uma fala
[00:49:41] um tanto quanto complexa, talvez
[00:49:43] mal compreendida, mas que também permite
[00:49:45] leituras variadas.
[00:49:47] Então, provavelmente, nesse discurso
[00:49:49] referente ao parlamento, eu acho que ele
[00:49:51] se referia mais à necessidade
[00:49:53] da Prússia se tornar forte.
[00:49:55] Então, guerra e sacrifício,
[00:49:57] ou seja, sangue seria necessário
[00:49:59] para ela se preparar para a guerra,
[00:50:01] ou seja, para ela se defender
[00:50:03] e estar apta a
[00:50:05] resistir a ataques externos.
[00:50:07] E o discurso como um todo
[00:50:09] é interessante porque ele fala
[00:50:11] assim que não seriam
[00:50:13] discursos, convencimento
[00:50:16] ou tentativa de obter
[00:50:17] o consenso parlamentar
[00:50:19] ou uma maioria no parlamento
[00:50:21] que vai resolver as grandes questões
[00:50:23] da Prússia e da Alemanha, dessa
[00:50:25] confederação. Entendendo aqui que ele não está
[00:50:27] falando ainda de uma Alemanha unificada. Ele está dizendo, olha,
[00:50:29] não vai ser através de discurso, de conversa,
[00:50:31] de costurar um consenso que a gente
[00:50:34] vai resolver o problema da Alemanha.
[00:50:36] A Alemanha tem inimigos externos
[00:50:37] e ela está ameaçada.
[00:50:40] Então, nós precisamos resolver
[00:50:41] a questão alemã
[00:50:43] com energia, com força,
[00:50:45] não com conversa. Então, eu não sei.
[00:50:48] Pode ser que
[00:50:49] múltiplas acepções
[00:50:51] traduzam um pouco o sentimento dele
[00:50:53] naquele momento. Mas é óbvio, é
[00:50:55] inegável, é óbvio, é inegável que
[00:50:57] se a Prússia quisesse liderar
[00:50:59] os outros estados germanos, ela
[00:51:01] tinha que ser forte. E se, eventualmente,
[00:51:04] eles se opusessem,
[00:51:05] eu não tenho dúvida que sangue
[00:51:07] e ferro iriam ser
[00:51:09] necessários.
[00:51:11] Agora, tem um ponto. Para
[00:51:12] compreender também essa frase, a gente precisa
[00:51:16] compreender o Bismarck.
[00:51:18] Quem é essa figura?
[00:51:19] O Otto von Bismarck é um Junker,
[00:51:21] o pai dele era um latifundiário, muito
[00:51:23] rico, dos arredores de Berlim.
[00:51:25] A mãe dele era filha de um funcionário
[00:51:27] público. Ele fez direito.
[00:51:29] A gente tende a imaginar o Otto von Bismarck
[00:51:31] como um sujeito brigão,
[00:51:33] inculto, não é? Ele até dava
[00:51:35] a entender que fosse um pouco assim,
[00:51:37] mas, na verdade, ele era extremamente
[00:51:39] culto e refinado. Ele falava, além do
[00:51:41] alemão, que é sua língua pátria, ele falava
[00:51:43] francês, ele falava inglês, ele falava russo.
[00:51:45] Ele foi para a diplomacia, ele foi
[00:51:47] diplomata em Viena, ele foi diplomata
[00:51:49] em Paris. Ele esteve
[00:51:51] como embaixador na Rússia, eu acho
[00:51:53] que em São Petersburgo, não em Moscou.
[00:51:55] Então, assim, Bismarck era um sujeito
[00:51:57] cosmopolita que viajou. Ele fez
[00:51:59] faculdade de direito. Era
[00:52:01] claro, nos tempos de faculdade, tem
[00:52:03] histórias fascinantes sobre ele.
[00:52:05] Bebia muito, né? Se
[00:52:07] endividou, ficou devendo um monte de gente.
[00:52:09] Era um brigão, mas era um hábil esgremista.
[00:52:12] Também era muito comum no século XIX
[00:52:13] a ideia, a coisa do duelo, né?
[00:52:15] Quando a sua honra era desafiada, você
[00:52:17] tinha que duelar com a pessoa
[00:52:19] que atentou contra a sua honra.
[00:52:21] Então, ele venceu, Iclis,
[00:52:23] 25 duelos. Então, assim,
[00:52:25] o Bismarck não era qualquer um. E ele é muito
[00:52:27] mais complexo do que, talvez, uma imagem
[00:52:29] caricata que a gente possa
[00:52:30] fazer. Era um sujeito enorme,
[00:52:33] corpulento, né? Ele pesava…
[00:52:34] Tem uma entrevista dele de
[00:52:36] 1883 que ele fala que pesava
[00:52:39] 115 quilos. Fumava
[00:52:40] 14 charutos por dia.
[00:52:43] Não era cigarro, gente. Eles se chamam de cigarros,
[00:52:45] mas eram aqueles cigarrões parecidos com
[00:52:47] um charuto, não é? Era antiliberal
[00:52:49] até a raiz. Eram sujeitos
[00:52:50] ultraconservador e prussiano.
[00:52:53] Em primeiro lugar pra ele, a Prússia. Em segundo
[00:52:55] lugar pra ele, a Prússia. E depois
[00:52:57] ele vai pensar na Confederação
[00:52:59] Germânica. Então, é muito curioso
[00:53:01] ver isso, não é? Porque ele acaba
[00:53:03] se tornando o arauto, não é?
[00:53:05] O chanceler de ferro da
[00:53:07] unificação alemã. Mas ele não tava pensando
[00:53:09] exatamente na Alemanha. Ele tava pensando em si.
[00:53:11] Tanto é que quando ele ganha,
[00:53:12] os alemães ganham a guerra contra
[00:53:15] a Áustria, ele recebe uma
[00:53:17] fortuna como presente, como
[00:53:18] prêmio por ter ajudado
[00:53:21] a Alemanha a vencer
[00:53:23] ali, né? Aquela primeira
[00:53:25] batalha. Uma outra coisa interessante
[00:53:27] é, Iclis, é a gente pensar,
[00:53:29] em como Bismarck
[00:53:31] conduz a política, não é? Que acho que é
[00:53:33] a Realpolitik, né? Então,
[00:53:35] essa Realpolitik alemã tem que
[00:53:37] ser entendida aqui, nesse contexto,
[00:53:39] como uma política pragmática.
[00:53:41] Diplomaticamente habilidosa,
[00:53:43] não é? Porque é uma diplomacia
[00:53:45] que vê resultados e que quer resultados
[00:53:47] rápidos. E é interessante porque
[00:53:49] é colocar Maquiavel em prática,
[00:53:51] onde os fins justificam os
[00:53:53] meios, através de estratagemas,
[00:53:55] de coisas ardilosas.
[00:53:57] Mas, gente, a diplomacia francesa,
[00:53:59] era assim, a austríaca era assim,
[00:54:01] a portuguesa era assim, a inglesa
[00:54:03] era assim. Então, a
[00:54:04] diplomacia de Bismarck é
[00:54:06] ardilosa, é sofisticada, e ele
[00:54:09] é esse sujeito que vai costurar tratados
[00:54:11] secretos e outros
[00:54:13] não tão secretos, pra ir
[00:54:15] devagar costurando
[00:54:17] essa aliança maior
[00:54:19] e essa aproximação
[00:54:21] dos outros estados germânicos da Prússia.
[00:54:23] Qual é a
[00:54:25] prerrogativa fundamental dessa Realpolitik?
[00:54:27] Os nossos inimigos,
[00:54:29] são externos, não são
[00:54:31] germânicos, não são alemães.
[00:54:33] Então, é fazer com que
[00:54:35] essas nações possam
[00:54:37] lutar juntas na guerra,
[00:54:39] mas nunca contra si, contra si mesmas.
[00:54:41] E como a guerra entre Áustria
[00:54:43] e Prússia, em 1866,
[00:54:45] influenciou a unificação?
[00:54:47] Ela é a segunda
[00:54:49] grande batalha que mostra
[00:54:50] que, agora, quem é
[00:54:54] o grande
[00:54:54] centro hegemônico, o centro
[00:54:57] do poder dentro dessa confederação,
[00:54:59] é a Prússia. Então, a derrota
[00:55:01] da Áustria derrota o dualismo
[00:55:03] germânico, que era essa disputa
[00:55:05] de poder entre Prússia e Áustria.
[00:55:07] E, a partir daí, a Áustria se
[00:55:09] convence de que é melhor tomar conta
[00:55:11] lá do leste europeu, ficar
[00:55:12] atenta das suas fronteiras mais ao
[00:55:15] sul, sobretudo com a Itália,
[00:55:17] e deixar
[00:55:19] de lado a Europa Central
[00:55:20] e os territórios mais próximos
[00:55:23] e orbitando agora em torno
[00:55:24] da Prússia. É curioso também
[00:55:27] a gente lembrar aqui que é
[00:55:28] essa guerra austro-prussiana
[00:55:31] uma guerra que durou sete
[00:55:32] semanas. Não é uma guerra longa,
[00:55:35] foi uma guerra curta. E por que foi
[00:55:36] uma guerra curta? Na verdade,
[00:55:38] os austríacos tiveram problemas, porque eles tiveram
[00:55:41] que, ao mesmo tempo, lutar contra os italianos
[00:55:43] e a unificação italiana
[00:55:44] foram derrotados, e tem
[00:55:47] turbulências nas fronteiras ali
[00:55:48] do leste, e os prussianos se aproveitam
[00:55:51] disso. A guerra começa
[00:55:53] por conta de uma outra guerra
[00:55:54] que aconteceu antes dessa
[00:55:57] em 1864,
[00:55:58] em Schleswig-Holstein, que é quando
[00:56:01] morre um herdeiro,
[00:56:03] eu acho que de Schleswig,
[00:56:04] e aí o duque da Dinamarca
[00:56:06] tenta se tornar senhor das terras de
[00:56:08] Schleswig-Holstein e as que pertenciam
[00:56:10] já ao reino da Dinamarca, ao ducado
[00:56:12] da Dinamarca, para constituir um reino
[00:56:14] maior, mas boa parte dos moradores
[00:56:16] tanto de Schleswig quanto de
[00:56:18] Holstein eram germânicos,
[00:56:20] tinham laços com famílias alemãs.
[00:56:23] Então a Prússia intervém,
[00:56:24] há uma guerra rápida,
[00:56:26] e os austríacos, inclusive, colaboram nessa
[00:56:28] guerra, os ingleses a princípio
[00:56:30] ficam do lado da Dinamarca, mas depois
[00:56:32] deixam a Dinamarca na mão, e aí
[00:56:34] habilidosamente, o que os
[00:56:36] prussianos fazem? Eles dividem
[00:56:39] esses dois territórios, Schleswig-Holstein,
[00:56:41] eles deixam
[00:56:42] o estado intermediário, que
[00:56:44] estava cheio de alemães,
[00:56:46] que era de Holstein, sob o controle
[00:56:48] austríaco, e ficam com o Schleswig,
[00:56:51] se não me engano, que é mais ao norte,
[00:56:53] que tinha uma população mais
[00:56:54] heterogênea, não é? Só que o fato
[00:56:56] de haver alemães,
[00:56:58] nos dois territórios,
[00:57:00] e estarem ali
[00:57:02] muito próximos da Prússia,
[00:57:04] isso faz com que os prussianos reivindiquem
[00:57:07] aqueles territórios,
[00:57:08] e há uma animosidade com os austríacos
[00:57:10] em relação a isso. A guerra
[00:57:12] de Schleswig-Holstein, que
[00:57:14] depois desemboca numa rivalidade
[00:57:16] austro-prussiana, conduzirá
[00:57:18] a guerra austro-prussiana
[00:57:20] em 1866, em que os
[00:57:22] austro-prussianos são derrotados
[00:57:24] de uma forma também flagorosa,
[00:57:27] rápida. Os prussianos,
[00:57:28] tinham seis linhas
[00:57:30] férreas, se não me engano,
[00:57:32] cinco ou seis linhas férreas que conduziam
[00:57:34] ali para a fronteira
[00:57:36] com a Áustria, não é? E eles
[00:57:38] rapidamente deslocam
[00:57:41] tropas
[00:57:42] nos trens, de uma forma
[00:57:44] super rápida, para o
[00:57:46] fronte de batalha. Então, enquanto a
[00:57:48] Áustria demora para levar, conduzir
[00:57:50] soldados ali para o fronte,
[00:57:53] os prussianos e alemães,
[00:57:54] germânicos, enfim, que tem outros soldados
[00:57:56] lutando ao lado dos prussianos,
[00:57:58] eles chegam ali muito rápido. Então, a gente
[00:58:00] tem uma única grande batalha, que é
[00:58:02] a de Königgrätz, em
[00:58:04] 3 de julho de 1866,
[00:58:06] que é pouco menos de 500 mil soldados
[00:58:08] ali, também entram em conflito.
[00:58:11] Mas assim, em um
[00:58:12] dia, em um grande, em um dia
[00:58:14] só, Icles, quase 50 mil
[00:58:16] soldados austríacos morrem.
[00:58:18] E aí, a Áustria percebendo que ia
[00:58:20] ser difícil trazer mais tropas
[00:58:22] para ali para o fronte, resolveram capitular.
[00:58:24] Então, é curioso
[00:58:26] porque eles acabam,
[00:58:28] acabam sendo derrotados
[00:58:30] de uma forma muito humilhante, muito rápida
[00:58:32] e habilidosamente, Bismarck
[00:58:35] e o Guilherme I
[00:58:36] não cobram
[00:58:38] indenizações de guerra, não cobram
[00:58:40] tributos, nem pedem territórios
[00:58:42] da Áustria. Isso para manter a Áustria
[00:58:44] como um
[00:58:46] estado que não mais
[00:58:48] talvez ofereça ameaças
[00:58:50] aos prussianos e a essa
[00:58:52] tentativa de unificar a Alemanha.
[00:58:54] Então, é muito interessante ver que esse
[00:58:56] movimento aí, acaba
[00:58:58] por criar uma certa
[00:59:00] tranquilidade da Prússia
[00:59:03] e desses estados germânicos em relação
[00:59:04] à Áustria, que a partir de então
[00:59:07] deixa de ser um inimigo. E aqui, eu queria
[00:59:08] falar de um dos capítulos
[00:59:10] decisivos para a unificação alemã e para
[00:59:12] a criação do Império Alemão, que foi a vitória
[00:59:14] contra os franceses na Guerra Franco-Prussiana
[00:59:17] em 1871. Tema
[00:59:18] esse que eu ainda não gravei até hoje, porque eu não achei
[00:59:20] ninguém quem gravar, mas um dia sai. E aí, eu queria
[00:59:22] pedir para você falar sobre essa guerra e como ela
[00:59:24] ajudou a sedimentar essa união
[00:59:26] da Alemanha, né? É, é, é
[00:59:28] o episódio culminante que vai
[00:59:31] referendar a unificação, né?
[00:59:32] Então, a criação do Império Alemão,
[00:59:34] ela ocorre depois da
[00:59:36] capitulação dos franceses em 1871,
[00:59:39] no dia 28 de janeiro de
[00:59:40] 1871, quando, né, aí
[00:59:42] formalmente você tem ali o Império Alemão
[00:59:45] criado.
[00:59:46] É um episódio, inclusive, curioso,
[00:59:49] eu vou voltar a ele, porque na verdade, os
[00:59:50] alemães decretam a criação
[00:59:52] do Império dez dias antes,
[00:59:54] lá no Palácio de Versalhes.
[00:59:56] Eu volto a isso. Mas, o que
[00:59:58] foi essa guerra? De novo, a gente tem
[01:00:00] aqui, essa união
[01:00:02] dos estados germânicos
[01:00:04] capitaneados pela Prússia e pelas
[01:00:06] tropas prussianas, pelo exército prussiano,
[01:00:09] fez com que o exército prussiano,
[01:00:10] que tinha aproximadamente
[01:00:11] 350, 380 mil
[01:00:14] soldados, que esse efetivo
[01:00:16] saltasse, isso em 1870,
[01:00:19] para mais de um milhão de
[01:00:20] soldados disponíveis e aptos para o combate.
[01:00:23] Enquanto que o exército
[01:00:24] francês tinha mais ou menos 800 mil
[01:00:27] soldados. Então,
[01:00:28] basicamente, eles tinham uma proporção
[01:00:30] equivalente. A questão é que o fronte
[01:00:32] de batalha, mais uma vez,
[01:00:35] do ponto de vista logístico, favoreceu
[01:00:37] aos alemães, que eles tinham mais
[01:00:39] ferrovias, trens rápidos,
[01:00:41] tropas bem preparadas, que se
[01:00:42] deslocaram rapidamente para o fronte de
[01:00:44] batalha. Então, os alemães
[01:00:47] tinham uma estratégia mais rápida
[01:00:49] de deslocamento e faziam com que as tropas
[01:00:51] chegassem descansadas,
[01:00:53] chegassem tranquilas no fronte,
[01:00:55] prontas para lutar. Contrariamente
[01:00:57] aos franceses, que tinham
[01:00:58] uma ou duas linhas férreas, para onde
[01:01:00] inicialmente se
[01:01:01] concentraram os combates, que foram
[01:01:04] ali na cidade de Metz. Então,
[01:01:07] a primeira,
[01:01:09] o primeiro grande enfrentamento
[01:01:11] acontece ali, não é? Evidentemente
[01:01:13] que antes da gente falar da deflagração
[01:01:15] da guerra, a gente precisa entender por que
[01:01:16] que França e Prússia
[01:01:20] e Confederação Germânica
[01:01:21] entraram em conflito.
[01:01:23] Elas entram em conflito porque os franceses
[01:01:24] estavam de olho no expansionismo prussiano
[01:01:27] e na ameaça,
[01:01:28] de uma unificação já há algum tempo,
[01:01:30] desde os conflitos lá no norte, em
[01:01:32] Schleswig-Holstein, que inclusive fez
[01:01:34] com que os franceses pensassem,
[01:01:36] cogitassem em anexar Luxemburgo,
[01:01:38] a Bélgica e até
[01:01:40] a Holanda como parte dos seus territórios.
[01:01:42] Mas, de novo,
[01:01:44] alemães, os prussianos,
[01:01:47] tinham castelos, tinham possessões
[01:01:48] territoriais encrustadas
[01:01:50] ali nesses territórios, em Luxemburgo,
[01:01:52] tinham também na Holanda.
[01:01:55] Então, começa a surgir
[01:01:56] uma rivalidade diplomática,
[01:01:58] em questões,
[01:02:00] o tempo todo colocando em alerta
[01:02:02] os franceses e os alemães
[01:02:04] para um iminente conflito.
[01:02:06] Então, eles sabiam que havia um conflito
[01:02:08] iminente ali.
[01:02:09] Agora, é engraçado porque já haviam
[01:02:11] essas possibilidades de um enfrentamento
[01:02:14] que, em tese, poderiam se dar
[01:02:16] ali no extremo norte, mas elas
[01:02:18] não da Europa, né?
[01:02:19] E não exatamente vão acontecer ali.
[01:02:22] Mas, exatamente porque
[01:02:23] os franceses sabiam que
[01:02:26] seria importante guardar posições estratégicas
[01:02:28] ao norte, porque no sul, talvez,
[01:02:30] eles pudessem contar ali com
[01:02:32] essa colaboração de
[01:02:34] Bavária e de
[01:02:36] Württemberg, que não
[01:02:38] aconteceu. Então, esses estados
[01:02:40] não mantiveram neutralidade e
[01:02:42] vão passar todos a apoiar
[01:02:44] os prussianos.
[01:02:46] E por que isso acontece, né? Então, o
[01:02:48] estopim para a guerra, o motivo
[01:02:50] para a guerra foi que, quando
[01:02:52] morreu uma
[01:02:54] rainha da Espanha, acho que
[01:02:56] a Isabel III, é isso, a
[01:02:58] Isabel III morre na Espanha, e aí
[01:03:00] na sucessão, a gente tem ali
[01:03:02] um vácuo no poder. Na verdade, ela
[01:03:04] não morre, há uma deposição dela, acho que ela
[01:03:06] foi deposta, é isso, acho que a Isabel III
[01:03:08] foi deposta por uma revolução, e aí
[01:03:10] há uma vacância ali no
[01:03:12] trono, e um príncipe germânico,
[01:03:14] que é Leopoldo de Hohenzollern,
[01:03:16] ele resolve se candidatar
[01:03:18] ao trono espanhol. Isso
[01:03:20] causou uma revolta dos
[01:03:22] franceses, que acharam aquilo
[01:03:24] uma tentativa imperialista,
[01:03:26] absurda,
[01:03:28] um assinte da
[01:03:30] diplomacia germânica prussiana,
[01:03:32] de se assenhorar de um território
[01:03:34] católico, que historicamente não tinha
[01:03:36] muito a ver com os germânicos,
[01:03:38] embora isso não fosse exatamente verdade,
[01:03:40] porque o Carlos II era
[01:03:42] também ligado aos Habsburgo,
[01:03:44] da Espanha, mas que seja. Então,
[01:03:46] ao fim e ao cabo, essa
[01:03:48] vacância no trono e essa
[01:03:50] candidatura de um príncipe germânico
[01:03:52] gera uma reação imediata
[01:03:54] da França, que manda um
[01:03:56] embaixador conversar com Guilherme I,
[01:03:58] e Guilherme I estava de férias
[01:04:00] em Badens, que é uma
[01:04:02] região de águas,
[01:04:04] de banhos e tal, e
[01:04:06] Guilherme I diz
[01:04:08] não, o Leopoldo vai renunciar
[01:04:10] a esse pedido, e ele de fato renuncia,
[01:04:12] só que aí a França vai longe demais,
[01:04:14] ela pede que
[01:04:16] Guilherme I produza um manifesto,
[01:04:18] um documento, dizendo que jamais
[01:04:20] os germânicos, que jamais
[01:04:22] os Hohenzollern, vão reivindicar
[01:04:24] a coroa espanhola. E aí
[01:04:26] o Guilherme I manda um telegrama para o Bismarck
[01:04:28] e ele pega esse telegrama
[01:04:30] de Ems, altera e divulga
[01:04:32] para a imprensa, com os
[01:04:34] termos que eram mais favoráveis ali,
[01:04:36] digamos, à causa germânica, e mostra
[01:04:38] os franceses estão tentando nos humilhar,
[01:04:40] dizendo que a gente não faz jus
[01:04:42] a reivindicar a coroa espanhola,
[01:04:44] estão aqui atentando
[01:04:46] contra a nossa honra, tentando humilhar
[01:04:48] o nosso grande
[01:04:50] regente da confederação germânica, que é o
[01:04:52] Guilherme, e aí a imprensa,
[01:04:54] a opinião pública
[01:04:56] alemã, se unifica
[01:04:58] contra a França. E os franceses
[01:05:00] ao verem essa reação, imediato,
[01:05:02] e esse talvez tenha sido o grande erro da França
[01:05:04] e do Napoleão III, o Napoleão III
[01:05:06] declara guerra
[01:05:08] à Prússia. Mas aí há uma
[01:05:10] confederação germânica e todos os
[01:05:12] estados alemães se unem e lutam
[01:05:14] contra os franceses. E como eu
[01:05:16] disse, assim, para além das ferrovias
[01:05:18] que fazem com que as tropas e
[01:05:20] os armamentos cheguem mais rápido, também
[01:05:22] o armamento alemão era superior
[01:05:24] ao francês. Então os franceses tinham um rifle
[01:05:26] chassepot, que era bom, tinha lá metralhadoras
[01:05:28] que eram boas, mas os alemães tinham um
[01:05:30] rifle extraordinário de carregamento
[01:05:32] deitado, ao invés de carregar de
[01:05:34] pé, como naquela época eles carregavam
[01:05:36] os rifles em pé, os
[01:05:38] soldados, os soldados alemães recarregavam
[01:05:40] deitados. E isso permitia
[01:05:42] que eles ficassem menos expostos
[01:05:44] e morressem menos. Para além disso
[01:05:46] a gente tem o canhão, os canhões Krupp
[01:05:48] de pequeno, médio e
[01:05:50] longo alcance que são desenvolvidos
[01:05:52] e eram armas sofisticadíssimas que foram
[01:05:54] transportadas pelas ferrovias.
[01:05:56] E foram rapidamente também
[01:05:58] para o fronte de batalha. Então
[01:06:00] os alemães estavam infinitamente melhor
[01:06:02] armados do que os franceses, chegaram mais
[01:06:04] rápido. E ali foi um abraço
[01:06:06] no dia 14 de agosto de
[01:06:08] 1870 derrotaram
[01:06:10] 180 mil franceses que recuam
[01:06:12] e afastam na grande
[01:06:14] batalha de Metz. E aí
[01:06:16] é engraçado né, porque a gente vê nos
[01:06:18] livros didáticos, Icles,
[01:06:20] que a guerra franco-prussiana durou de 1870
[01:06:22] a 1871. Mas na verdade
[01:06:24] ela durou, parece que foram dois anos, mas
[01:06:26] na verdade ela durou menos de seis
[01:06:28] meses. Por quê? Porque a gente
[01:06:30] tem uma segunda grande batalha, que é a batalha
[01:06:32] de Sedan, que foi a maior humilhação
[01:06:34] para os franceses.
[01:06:36] Ela ocorreu no dia 1º e
[01:06:38] dia 2 de setembro de
[01:06:40] 1870. Os franceses
[01:06:42] foram derrotados.
[01:06:44] 84 mil soldados foram
[01:06:46] prisioneiros. Desses, 2.700
[01:06:48] eram oficiais do
[01:06:50] exército francês e o próprio
[01:06:52] imperador
[01:06:54] Napoleão III foi feito
[01:06:56] prisioneiro no campo de batalha.
[01:06:58] E aí é óbvio, os franceses não se renderam,
[01:07:00] mas o próprio imperador
[01:07:02] era prisioneiro. Então os
[01:07:04] franceses resistem, não capitulam
[01:07:06] e o que os alemães fazem?
[01:07:08] Deslocam mais
[01:07:10] uma parte enorme dos seus efetivos
[01:07:12] e fazem um cerco na cidade de Paris.
[01:07:14] Esse cerco começa em
[01:07:16] dezembro e aí vem o inverno.
[01:07:18] A cidade sofre com falta de
[01:07:20] abastecimento. Há lenda,
[01:07:22] uma lenda que diz que os franceses
[01:07:24] começaram a se alimentar de
[01:07:26] carne de cavalo, de cachorro, de gato,
[01:07:28] porque a fome
[01:07:30] foi uma coisa absurda em Paris.
[01:07:32] E aí os
[01:07:34] franceses resistem da forma
[01:07:36] como conseguem, até que
[01:07:38] os alemães usam canhões
[01:07:40] de grande alcance e bombardeiam
[01:07:42] a capital Paris. E aí
[01:07:44] os franceses percebem que não
[01:07:46] iriam conseguir resistir aos alemães
[01:07:48] e se rendem. Mas antes
[01:07:50] deles se renderem, que isso foi no dia
[01:07:52] 28 de janeiro de 1871,
[01:07:54] no dia 18 de janeiro
[01:07:56] 10 dias antes, os alemães
[01:07:58] entraram no palácio de Versalhes
[01:08:00] junto com o Guilherme I,
[01:08:02] que é sagrado Kaiser,
[01:08:04] imperador da Alemanha.
[01:08:06] Então 10 dias antes mesmo da França
[01:08:08] aceitar a derrota, eles já
[01:08:10] criaram o império e já sabiam
[01:08:12] que a guerra tinha sido ganha.
[01:08:14] Minha última pergunta não é uma pergunta
[01:08:16] muito específica, na verdade, porque a gente
[01:08:18] termina aqui o episódio com a unificação,
[01:08:20] só que eu queria deixar em aberto
[01:08:22] para você comentar um pouco sobre essa
[01:08:24] história da Alemanha unida. Tem muita coisa
[01:08:26] para ser falada, vai da economia, idioma,
[01:08:28] cultura, esforços de escrita
[01:08:30] de uma história nacional
[01:08:32] e tudo mais. Então eu não queria
[01:08:34] direcionar, eu queria deixar aberto para você comentar
[01:08:36] o assunto de uma maneira mais livre
[01:08:38] para que você possa focar nos pontos que você acha
[01:08:40] que são mais importantes. Maravilha, eu acho
[01:08:42] que aí daria de uma outra live,
[01:08:44] eu acho que daria um outro programa inteiro,
[01:08:46] sabe, o pós, e depois
[01:08:48] o que acontece? Porque o depois
[01:08:50] acontece em muitas coisas. A gente
[01:08:52] tem a partilha da África, em que
[01:08:54] esse novo império alemão tem lá
[01:08:56] três possessões que ele ganha
[01:08:58] na Namíbia, não é? Ele ganha
[01:09:00] três possessões na África
[01:09:02] e vai explorar minas na África
[01:09:04] que serão os protetorados
[01:09:06] do império alemão ali. Então esse é um primeiro
[01:09:08] ponto, mas a gente tem internamente
[01:09:10] na própria Alemanha uma série de questões,
[01:09:12] eu acho que a primeira delas é que
[01:09:14] não é uma unificação plena,
[01:09:16] do dia para a noite não surgiu uma Alemanha,
[01:09:18] todos se sentiram alemães, então
[01:09:20] continuaram havendo os bairrismos,
[01:09:22] os regionalismos, não é? Então
[01:09:24] há um sentimento ali
[01:09:26] de, digamos, de alguns
[01:09:28] alemães que se sentem mais
[01:09:30] alemães do que outros que são vistos
[01:09:32] como menos alemães, não é? Então, por exemplo,
[01:09:34] esse é o caso dos pomeranos, que no Brasil os pomeranos
[01:09:36] se sentem alemães, mas lá
[01:09:38] nessa Alemanha que surge
[01:09:40] eles são poloneses, não é? São vistos
[01:09:42] como atrasados, como
[01:09:44] incultos, de uma região pobre,
[01:09:46] miserável. Então
[01:09:48] a gente tem, por exemplo,
[01:09:50] na Renânia, uma Alemanha muito
[01:09:52] industrializada, muito sofisticada,
[01:09:54] que é diferente até da própria Prússia
[01:09:56] que tem bolsões de modernidade.
[01:09:58] Então, assim, a unificação não cria
[01:10:00] do dia para a noite um
[01:10:02] estado próspero, um império próspero,
[01:10:04] mas é um estado poderosíssimo,
[01:10:06] que depois da Guerra Franco-Prussiana pega
[01:10:08] dois territórios da França,
[01:10:10] Alsácia e Lorena, riquíssimas em
[01:10:12] carvão, minério de carvão. Isso é
[01:10:14] ótimo para a indústria germânica,
[01:10:16] mas é um desastre do ponto de vista
[01:10:18] geopolítico, porque vai gerar
[01:10:20] é um dos fatores
[01:10:22] que gera a Primeira Guerra Mundial,
[01:10:24] mas eu acho que para além
[01:10:26] disso, a gente tem ali o problema
[01:10:28] social que continua, tanto é que
[01:10:30] o socialismo e o comunismo e o movimento
[01:10:32] operário é
[01:10:34] fortíssimo, haja vista Karl Marx e Engels
[01:10:36] capitaneando essa
[01:10:38] luta em prol do proletariado,
[01:10:40] que também
[01:10:42] eles criam um universalismo muito
[01:10:44] maior do que… Marx e Engels
[01:10:46] não querem uma Alemanha unida, eles querem
[01:10:48] trabalhadores do mundo unidos,
[01:10:50] eles querem universalismo, eles não querem
[01:10:52] esse projeto político que vence,
[01:10:54] que é conservador,
[01:10:56] mas a gente tem, acho que um outro ponto
[01:10:58] interessante aí, a Kulturkampf,
[01:11:00] você tem protestantes e você
[01:11:02] tem católicos, e aí surge lá o
[01:11:04] Pio IX com o ultramontanismo,
[01:11:06] a igreja católica reagindo a algumas
[01:11:08] mudanças,
[01:11:10] por exemplo, a criação de escola laica,
[01:11:14] e isso na imprensa gera,
[01:11:16] claro, debates, disputas entre
[01:11:18] católicos e protestantes,
[01:11:20] surge o partido católico
[01:11:22] na Alemanha, e aí você tem uma
[01:11:24] disputa política virulenta que
[01:11:26] mantém aí divisionismos
[01:11:28] de norte e sul. Tem uma
[01:11:30] outra particularidade interessante que é
[01:11:32] é um estado que gasta muito,
[01:11:34] ele gasta quase 80%
[01:11:36] das suas receitas com
[01:11:38] gasto militar,
[01:11:40] exército, tropa, com marinha
[01:11:42] de guerra, com navios de guerra,
[01:11:44] com canhão, então com
[01:11:46] soldados, pagando soldo, então
[01:11:48] assim, isso também é um problema,
[01:11:50] isso é um grande problema para esse estado,
[01:11:52] que ele gasta muito e ele precisa
[01:11:54] manter, digamos assim,
[01:11:56] fortemente armado com medo
[01:11:58] de retaliações, não é? E que é exatamente
[01:12:00] o que vai acontecer logo depois, como a gente vê,
[01:12:02] historicamente
[01:12:04] surgir na virada para o século XX.
[01:12:06] Mas eu acho que tem um ponto, Icles,
[01:12:08] e aí para fechar, que é uma
[01:12:10] tese durante muito tempo defendida
[01:12:12] pela historiografia alemã da
[01:12:14] excepcionalidade da construção do estado
[01:12:16] alemão, que é o famoso Sonderwerk,
[01:12:18] então o Sonderwerk
[01:12:20] seria essa unificação alemã
[01:12:22] na qual a nação
[01:12:24] nasceu antes do estado. Então, primeiro
[01:12:26] houve uma unificação de um
[01:12:28] sentimento nacional e uma identidade
[01:12:30] da sociedade, que por isso se
[01:12:32] uniu contra inimigos externos
[01:12:34] e aí surge o estado depois disso.
[01:12:36] Como a gente viu, eu acho que nessa
[01:12:38] nossa conversa não foi bem assim.
[01:12:42] Em 1848, a onda de revoluções
[01:12:44] liberais que toma a Europa também
[01:12:46] influencia os estados alemães e os
[01:12:48] revolucionários, a revelia dos monarcas,
[01:12:50] criam o Parlamento de
[01:12:52] Frankfurt, que oferece a coroa
[01:12:54] dos alemães para o rei da Prússia,
[01:12:56] Frederico Guilherme IV,
[01:12:58] que agradece o presente dizendo que não queria
[01:13:00] aquela coroa da sarjeta, dizendo
[01:13:02] que aquilo violava o direito divino
[01:13:04] dos outros monarcas e era fruto da plebe.
[01:13:14] Recomendações de leitura para quem ouviu até
[01:13:16] o final, se interessou e quer saber mais sobre o assunto,
[01:13:18] se você tivesse que recomendar até três
[01:13:20] livros, o que você recomendaria?
[01:13:22] Poxa, nesse quesito, em português a gente
[01:13:24] não vai ter, Icles,
[01:13:26] praticamente nada. A gente tem…
[01:13:28] Eu produzi um livro
[01:13:30] com três colegas, né?
[01:13:32] Eu, perdão, eu mais dois colegas,
[01:13:34] nós em três colegas fizemos um livro sobre
[01:13:36] a unificação. Não teve grande
[01:13:38] circulação, mas que foi um esforço
[01:13:40] nesse sentido. Eu acho que… O que eu poderia
[01:13:42] citar? Eu poderia citar aqui o trabalho
[01:13:44] do Norberto Elias, Os Alemães,
[01:13:46] que a gente consegue naquele livro entender
[01:13:48] um pouco bem o que é essa sociedade,
[01:13:50] essa cultura germânicas
[01:13:52] no século 19 e 20.
[01:13:54] E aí a gente tem outros dois livros
[01:13:56] que eu acho que são muito bons, mas eles são
[01:13:58] em inglês, não é? O primeiro é o do
[01:14:00] Thomas Nipperdie, que é História Alemã,
[01:14:02] que pega o período entre 1866
[01:14:04] e 1918,
[01:14:06] que é um livro que foi publicado em 1992.
[01:14:08] O livro do Norberto Elias,
[01:14:10] né, foi publicado aqui no Brasil, acho que
[01:14:12] a primeira edição em 97. E a gente tem
[01:14:14] um terceiro livro muito bom, que é o do
[01:14:16] Alan Farmer e da Andrina Stiles,
[01:14:18] que é a Unificação Alemã, de 2007,
[01:14:20] também em inglês. E esse é um livro
[01:14:22] paradidático muito bom, com muito
[01:14:24] muitos mapas, muitos gráficos.
[01:14:26] Eu acho que assim, pra quem
[01:14:28] quiser entender
[01:14:30] bem esse processo, é uma ótima leitura.
[01:14:38] Então é isso, gente. Julio, fez alguma
[01:14:40] consideração final? Só te agradecer, Iclis,
[01:14:42] pela oportunidade. Eu espero ter ajudado aí
[01:14:44] um pouco os nossos ouvintes
[01:14:46] a entender um pouco dessa…
[01:14:48] do que foi a Unificação Alemã. Então é isso, gente.
[01:14:50] Muito obrigado por terem ouvido até o final.
[01:14:52] Não se esqueçam de apoiar o nosso trabalho em apoio
[01:14:54] ao www.seba.obrigaistoria.
[01:14:56] Vocês podem me seguir lá no Instagram também,
[01:14:58] é arrobaiclisrodrigues. E, claro,
[01:15:00] continuem acompanhando o História FM.
[01:15:02] Então é isso. Muito obrigado e
[01:15:04] até a próxima.
[01:15:14] O História FM é uma produção do canal
[01:15:16] Leitura Obriga História. Apresentação
[01:15:18] Iclis Rodrigues. Edição Samuel Gambini.
[01:15:20] Roteiro Iclis Rodrigues.
[01:15:22] O financiamento deste programa é realizado
[01:15:24] pelos nossos colaboradores em apoia.se
[01:15:26] barra Obriga História.
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