A política e a segurança pública no Rio


Resumo

O episódio analisa a megaoperação policial realizada no Complexo da Penha, Rio de Janeiro, que resultou em mais de 120 mortes, sendo a mais letal da história do estado. A apresentadora Natuza Nery conversa com Ricardo Balestreri, especialista em segurança pública, e Bernardo Mello Franco, colunista político, para desmontar a narrativa oficial do governo estadual que classificou a ação como um sucesso.

Balestreri critica veementemente a operação, classificando-a como um fiasco e um fracasso. Ele aponta a morte de quatro policiais como um escândalo, argumenta que a metodologia de operações invasivas tem baixíssima eficácia histórica (menos de 2%) e condena a falta de inteligência e planejamento, que priorizam o espetáculo midiático sobre resultados concretos. Ele também contesta a declaração de que “quanto mais inteligência, mais confronto”, defendendo que é exatamente o oposto.

A discussão avança para o campo político, com Bernardo Mello Franco analisando as manobras do governador Cláudio Castro. Franco destaca que, imediatamente após a operação, Castro buscou culpados externos – o governo federal e o STF – em vez de assumir responsabilidade, em um claro movimento eleitoreiro visando as eleições de 2026. Ele contextualiza o discurso de “prender e arrebentar” como politicamente poderoso, mas ineficaz, lembrando que se a matança resolvesse o problema, o Rio já seria o estado mais seguro do Brasil.

O episódio explora a paralisia e a politicagem que impedem soluções efetivas. É criticada a rejeição, por parte de governadores de direita, da PEC da Segurança Pública, que propõe a unificação de informações e uma coordenação nacional no combate ao crime organizado. Da mesma forma, discute-se a lentidão na aprovação do projeto de lei antifacções. A conclusão é de que a população fica espremida entre a disputa política e a retórica eleitoral, enquanto a rotina de dominação pelo crime organizado permanece inalterada, mesmo após tragédias de grande magnitude.


Indicações

Propostas_Legislativas

  • PEC da Segurança Pública — Proposta de Emenda à Constituição que visa estabelecer o governo federal como coordenador político no combate ao crime organizado, com foco na unificação das informações e da inteligência de todo o país. Foi paralisada no Congresso devido à rejeição de governadores, principalmente de direita.
  • Projeto de Lei Antifacções Criminosas — Projeto de lei do governo federal que permissiona a infiltração de agentes e de empresas falsas para rastrear dinheiro, facilita a apreensão de bens com menos burocracia e propõe o agravamento de penas para líderes do crime organizado. É avaliado como um avanço concreto.

Referencias

  • Pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF) — Estudo citado por Ricardo Balestreri que analisou 15 anos de operações policiais no Rio (até 2002), constatando quase 18 mil operações invasivas, das quais quase 600 terminaram em chacinas, com uma taxa de eficácia menor que 2%.
  • ADPF das Favelas — Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental do STF, mencionada pelo governador Cláudio Castro como uma das culpadas pela situação no Rio. A ADPF impôs restrições a operações policiais em comunidades.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Abertura e contexto da megaoperação no Complexo da Penha — O episódio começa com áudios de reportagem descrevendo a cena chocante de corpos expostos na Praça São Lucas, no Complexo da Penha, após a operação policial. É mencionado o aumento do número oficial de mortos de 64 para 121. A apresentadora Natuza Nery introduz o tema: os detalhes da operação e como ela expõe a falta de coordenação entre governos por motivos políticos.
  • 00:03:13Análise técnica da operação com Ricardo Balestreri — Natuza pergunta a Ricardo Balestreri se a operação, classificada como sucesso pelo governador, foi de fato um sucesso. Balestreri responde que foi um fiasco, citando a morte de quatro policiais como um escândalo e a baixíssima eficácia histórica de operações invasivas no Rio. Ele critica o uso de 2.500 policiais sem a preparação adequada apenas para criar um espetáculo midiático.
  • 00:09:37Crítica à estratégia e à declaração sobre inteligência — Balestreri contesta a explicação oficial de que os criminosos foram empurrados para a mata para proteger a comunidade, chamando-a de “história da carochinha”. Em seguida, analisa a declaração do chefe da Polícia Civil de que “quanto mais inteligência, mais confronto”, argumentando que é exatamente o oposto: inteligência reduz confrontos e é a base de polícias eficazes no mundo todo.
  • 00:13:31Propostas legislativas: PEC da Segurança e PL Antifacções — A conversa com Balestreri se volta para as propostas de solução em tramitação. Ele explica que a PEC da Segurança Pública parou por ‘politicagem’, mas é essencial para unificar a inteligência nacional contra o crime organizado. Já o Projeto de Lei Antifacções é avaliado como um avanço, pois facilita a infiltração e a apreensão de bens, além de prever agravamento de penas para líderes.
  • 00:18:43Análise política da atuação do governador Cláudio Castro — Bernardo Mello Franco analisa o pronunciamento do governador Cláudio Castro após a operação. Ele destaca que Castro imediatamente buscou culpados externos (governo federal e STF), em um movimento eleitoreiro típico. Franco contextualiza a trajetória política de Castro e como seu discurso se alinha ao da direita radical, que é poderoso eleitoralmente mas ineficaz na prática.
  • 00:26:47A polarização e a falta de soluções de ambos os lados — Franco discute como a segurança pública está completamente partidarizada. A esquerda é criticada por não saber dar soluções e por declarações desastradas, como a recente de Lula. A direita, que governa o Rio há anos, também não apresenta soluções efetivas, perpetuando um ciclo de megaoperações violentas que não desestruturam o crime organizado nem trazem segurança à população.
  • 00:32:11A resposta do governo federal e a paralisia — Analisando a resposta do governo federal às acusações de Castro, Franco afirma que o timing foi desfavorável (Lula estava em voo) e a reação se limitou a um ‘bate-boca’ defensivo. Ele avalia que presidentes historicamente evitam essa agenda tóxica, e que a PEC da Segurança, embora um passo, ainda não saiu do papel. A cooperação fica difícil na atual polarização.
  • 00:38:29Conclusão: politicagem, cinismo e a população desprotegida — Franco conclui criticando o cinismo e a exploração política do caso, como a articulação de governadores de direita para visitar o Rio em apoio a Castro. Ele descarta soluções radicais como uma intervenção federal, pois nenhum lado quer se associar aos riscos. O resultado é que a população fica espremida na disputa política, desprotegida, enquanto o crime organizado mantém seu poder.

Dados do Episódio

  • Podcast: O Assunto
  • Autor: G1
  • Categoria: News
  • Publicado: 2025-10-30T03:17:05Z
  • Duração: 00:41:37

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Não param de chegar corpos aqui nesse ponto que a gente está, infelizmente, uma imagem

[00:00:06] que choca os moradores e, claro, a todos nós.

[00:00:09] O dia seguinte, a operação mais letal da história do Rio de Janeiro ficou marcado

[00:00:13] por uma cena.

[00:00:15] Corpos expostos na Praça São Lucas, no Complexo da Penha, depois de serem retirados de uma

[00:00:20] mata, a Mata da Vacaria, pela própria comunidade.

[00:00:23] A gente está numa região conhecida como Pedreira, é uma região de mata, um lugar

[00:00:27] de difícil acesso e a gente está aqui acompanhando o trabalho de parentes, elas estão aqui procurando

[00:00:34] por corpos, procurando por essas pessoas, é um trabalho bem desesperador.

[00:00:39] De um lado, moradores reclamando que nenhuma autoridade apareceu para fazer perícia ou

[00:00:44] para recolher os corpos, de outro, autoridades dizendo que a polícia não sabia da existência

[00:00:50] daqueles cadáveres ali, e mais, que eles foram adulterados.

[00:00:55] Ouça o que disse Felipe Cury, secretário da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

[00:00:58] Eles estavam na mata, nós temos imagens deles, todos parlamentados, com roupas camufladas,

[00:01:06] com colete balisco, portando essas armas de guerra aqui.

[00:01:09] Aí apareceram vários deles, só de cueca ou só de short, descalços, sem nada.

[00:01:15] Ou seja, é um milagre que isso operou.

[00:01:17] Parece que eles entraram no portal e trocaram de roupa.

[00:01:21] Os números só ficaram mais claros ao longo da quarta-feira.

[00:01:23] O número oficial de mortos na operação policial de ontem no Rio de Janeiro praticamente

[00:01:28] dobrou na manhã desta quarta-feira.

[00:01:31] De 64, saltou para 121.

[00:01:35] Uma tática inédita ajuda a entender porque foram tantas mortes numa área de mata.

[00:01:40] A polícia diz que de maneira intencional levou o conflito para a região conhecida

[00:01:44] como Vacaria.

[00:01:45] E lá, no alto do morro, quem esperava era a tropa de elite da polícia.

[00:01:50] Assim disse o secretário da Polícia Militar do Estado, Marcelo de Menezes.

[00:02:20] O dia após a operação também foi marcado por reuniões e por novos embates políticos.

[00:02:28] Agora está todo mundo correndo atrás para apresentar e discutir propostas, porque a

[00:02:32] eleição está batendo a porta.

[00:02:34] A sociedade no meio e a sociedade está no meio esperando respostas.

[00:02:40] Da Redação do G1, eu sou Nathuzan Eri e o assunto hoje é a politicagem na segurança

[00:02:46] pública.

[00:02:47] Um episódio para entender os detalhes da mega-operação contra o Comando Vermelho no

[00:02:51] Rio e como essa ação expõe a falta de coordenação entre governos por motivos políticos.

[00:02:58] Eu converso com Ricardo Balestrere, coordenador do Núcleo de Urbanismo Social e Segurança

[00:03:02] Pública do Inspersidades.

[00:03:05] E com o Bernardo Melo Franco, colunista do Jornal Globo e comentarista da rádio CBN.

[00:03:11] Quinta-feira, 30 de outubro.

[00:03:13] Ricardo, o governador Claudio Castro classificou a operação como um sucesso.

[00:03:20] Ela foi de fato um sucesso?

[00:03:22] A operação foi um fiasco, um fracasso.

[00:03:25] Para começar, quando você tem quatro policiais mortos, em nenhum lugar decente civilizado

[00:03:30] do mundo, uma operação dessa seria considerada um sucesso.

[00:03:33] Como é que morreram quatro policiais?

[00:03:34] Isso é um escândalo.

[00:03:35] Uma operação bem feita, bem planejada, não pode morrer nenhum policial.

[00:03:40] Os policiais são fundamentais para a manutenção do estado democrático de direito, a vida

[00:03:44] deles tem que ser preservada.

[00:03:46] Agora, quando você usa 2.500 policiais, onde a maior parte deles não tem know-how para

[00:03:51] entrada em comunidades dominadas pelo crime fortemente armado, isso acaba sendo uma consequência.

[00:03:58] A gente tem que ter mais responsabilidade, inclusive, na preservação da vida dos policiais.

[00:04:03] Eu lamento demais que se use policiais dessa forma.

[00:04:07] No Rio de Janeiro, tem setores da polícia que entram em comunidades conflagradas como

[00:04:12] ninguém, mas tem setores que não têm a preparação para fazer esse tipo de coisa.

[00:04:17] Então para fazer uma operação espetaculosa, de grande efeito midiático, e enganar a plateia,

[00:04:22] parecer que o governo toma atitudes em relação à segurança pública, você reúne 2.500 policiais

[00:04:28] e coloca a gente efetivamente com condições plenas de entrar e gente sem condições de

[00:04:33] entrar.

[00:04:34] Isso vai dar bobagem, vai dar consequências negativas.

[00:04:38] O outro fiasco é que é mais uma operação invasiva.

[00:04:42] A Universidade Federal Fluminense, algum tempo atrás, fez uma pesquisa de 15 anos até 2002

[00:04:50] da quantidade de operações desse tipo no Rio de Janeiro.

[00:04:54] São quase 18 mil operações invasivas e dessas 18 mil operações invasivas, quase

[00:05:05] 600 terminando em chacinas.

[00:05:08] E o que é mais triste, o nível de eficácia disso é menor do que 2%.

[00:05:12] Então como é possível com um Estado que está tão acostumado a fazer bobagem em segurança

[00:05:18] pública e não obter nenhum resultado, como é possível que ele continue insistindo nessa

[00:05:23] metodologia fracassada e depois ainda tendo a coragem de se gabar que foi um sucesso?

[00:05:29] Obviamente não foi, isso é um fanismo ridículo.

[00:05:31] Até para ser um fanista tem que ter conteúdo.

[00:05:34] Se não dá pra contar com o Papoê, a gente foi e fez a nossa operação e foi um sucesso

[00:05:40] ontem tirando a vida dos policiais do resto da operação com sucesso e a gente não fica

[00:05:47] aqui chorando, a gente fica trabalhando.

[00:05:49] Acho que nesse sentido, governador, e eu não tenho nenhum compromisso com nenhum partido

[00:05:53] político, mas como especialista, como técnico da área, como ex-secretário nacional de

[00:05:57] segurança, ex-secretário de segurança pública de Goiás, eu me sinto com autoridade para

[00:06:02] dizer que esse fanismo é ridículo, esse é um fanismo sem conteúdo, essa operação

[00:06:08] a partir de critérios técnicos internacionais não seria bem vista por ninguém, como não

[00:06:13] está sendo bem vista por ninguém no mundo.

[00:06:15] O Rio de Janeiro, que não merece isso, a população do Rio de Janeiro que não merece

[00:06:19] isso, hoje está sendo internacionalmente enxovalhada com o mundo inteiro horrorizado

[00:06:25] com esses números, com contagem de mortes, e que aqui ninguém pense que eu estou passando

[00:06:29] pano para bandido, que estou de alguma maneira acobertando esse horror tirânico que é o

[00:06:36] comando vermelho.

[00:06:38] Bandido tem que estar preso, bandido tem que ser julgado e preso, bandido não pode estar

[00:06:42] dominando o território, bandido não tem direito de andar armado e exercer poder sobre

[00:06:47] a vida de cidadãos honestos e trabalhadores, bandido tem que ser combatido, agora bandido

[00:06:52] tem que ser combatido com inteligência.

[00:06:54] Ricardo, um elemento que surgiu hoje e não estava no meu radar ontem, o procurador-geral

[00:07:03] de justiça do Estado, diz que representa o Ministério Público Estadual, disse que

[00:07:10] essa operação não era uma operação de reconquista de território, ele disse que

[00:07:16] essa operação era vários mandados emitidos, decretados pela justiça, que foram executados.

[00:07:29] Por que que essa informação é importante para a gente entender o que aconteceu?

[00:07:35] Se isso for verdade, pior ainda do que a gente pensa, porque se quer a hipótese que

[00:07:41] se exigiria de um governo democrático, que é não permitir que o território fique na

[00:07:46] mão dos bandidos, podia até ser uma tentativa desastrada, mas pelo menos que fosse uma tentativa,

[00:07:52] quer dizer, se é menos ainda do que isso, a pergunta é, como é que para cumprir mandados

[00:07:57] se realizam uma carnificina desse tamanho?

[00:08:01] Natus, em qualquer lugar do mundo, você tem que prender, não é que em alguma hipótese

[00:08:06] você não entra em confronto com bandidos e até eles percam a vida, isso é admissível

[00:08:11] quando não há outra saída, mas em qualquer lugar decente do mundo, você tem que prender

[00:08:15] os bandidos para obter mais informações com eles, quer dizer, então o que a gente tem

[00:08:20] no Rio é eliminação dos meios de informação, quer dizer, você mata e você perde a informação,

[00:08:26] você perde profundidade no processo e aí para cumprir alguns mandatos se comete uma

[00:08:31] carnificina, mas qual é o sentido disso?

[00:08:34] A Polícia Federal realizou em 2025 178 operações no Rio de Janeiro, 24 delas foram para combate

[00:08:43] ao tráfico e armas, 24 operações que fizeram 210 prisões e aprenderam 190 armas e não

[00:08:54] fizeram isso com pirotecnia, quer dizer, não tem um jeito inteligente de fazer as coisas,

[00:09:00] que não produz a matança em qualquer lugar do Brasil, especialmente no Rio de Janeiro,

[00:09:05] a gente não sabe fazer nada com inteligência sem produzir carnificina, sem criar um drama,

[00:09:11] um trauma na população do Rio de Janeiro.

[00:09:14] Agora, Ricardo, o Comando das Polícias disse que optou por uma estratégia de empurrar os

[00:09:24] criminosos para uma região de mata para que o confronto não se desse na área de

[00:09:31] asfalto, como é que você avalia esse tópico em particular?

[00:09:37] Eu sinceramente acho que isso não é verdade, o que a gente conhece da dinâmica criminal

[00:09:42] é que enquanto o Estado enfrenta a linha de frente, perdão do termo chulo aqui, enquanto

[00:09:49] o Estado enfrenta a linha de frente mais perto de chinelo do crime, os gerentes locais

[00:09:55] do tráfico têm tempo de se esconder, é isso que de fato acontece, não dá para depois

[00:10:00] usar isso e dizer, a gente fez isso pensadamente para que os bandidos se evadissem e a comunidade

[00:10:06] do entorno não fosse prejudicada, a pergunta é o seguinte, olha o prejuízo para a comunidade

[00:10:11] do entorno, que fundamento tem essa explicação, história da carochinha.

[00:10:17] Ricardo, o chefe da Polícia Civil deu a seguinte frase na quarta-feira que é quando a gente

[00:10:24] grava, abre aspas, quanto mais inteligência tivermos, mais confronto vamos ter, fecha aspas.

[00:10:32] Eu queria à luz do seu conhecimento sobre segurança pública que você analisasse para

[00:10:36] a gente essa declaração ou essa máxima.

[00:10:40] Pois é, eu acho que é exatamente o contrário, quanto mais inteligência tivermos, menos

[00:10:46] confrontos temos, aliás isso é a lógica muito típica de livro, de cartilha da segurança

[00:10:54] pública no mundo inteiro, as boas corporações policiais do mundo inteiro, elas produzem

[00:11:01] muito pouco conflito e resolvem largamente os problemas da criminalidade, você tem uma

[00:11:07] polícia federal brasileira que faz grandes operações com resultados muito significativos

[00:11:14] e praticamente não produz conflito, não tem nem troca de tiro, e muitas vezes essas

[00:11:19] operações não são no top econômico da sociedade, muitas vezes são operações realizadas

[00:11:25] em comunidades mais populares, é que eu acho que é um gosto no Brasil pelo espetacular,

[00:11:33] você precisa, quer dizer, eu não me deixo emaranhar por essas explicações, porque

[00:11:37] eu acho que a verdade mesmo é que a gente precisa produzir imagens, som e fúria para

[00:11:44] conquistar a credibilidade pública de uma população que está legitimamente farta

[00:11:50] da insegurança pública, que pede medidas rápidas e imediatas para a solução, que

[00:11:56] não tem contudo conhecimento técnico e que interpreta episódios desse tipo como atitudes

[00:12:06] para resolver o problema da segurança pública, porque inclusive falta memória para lembrar

[00:12:10] que isso já foi feito muitas vezes no passado e não resolveu nada, então eu acho estranhíssimo

[00:12:15] esse argumento, em qualquer lugar onde há inteligência tem menos truculência, menos

[00:12:20] violência, porque o que importa não é castigar o crime, esse conceito também é extremamente

[00:12:26] atécnico, é extremamente anti-científico, o papel da segurança pública não é castigar

[00:12:32] os criminosos, o papel da segurança pública é impedir o crime, mas assim num país que

[00:12:38] é acidente de sangue, que está farto da insegurança, de repente a autoridade pública

[00:12:43] de maneira populista, ela fica trabalhando para dar esse tipo de resposta superficial

[00:12:49] e que agrada a plateia, é aplaudido pela plateia, segurança pública não se resolve com politicagem,

[00:12:56] segurança pública se resolve com boa técnica, em qualquer lugar do mundo, é que as pessoas

[00:13:01] também as vezes confundem inteligência meramente com investigação, o que é importante mas

[00:13:07] é uma redução do conceito de inteligência, inteligência em segurança pública é inteligência

[00:13:11] estratégica e ela depende da polícia, mas ela depende também de gestores e especialistas,

[00:13:17] porque administrar a segurança pública não é igual administrar a polícia, a polícia

[00:13:22] é uma parte da segurança pública muito importante, mas não se faz segurança pública só com

[00:13:27] polícia, segurança pública é um tema de complexidade.

[00:13:31] Sim, sem dúvida, por falar nisso, tem duas propostas legislativas, uma que já foi estar

[00:13:39] no escaninho do Congresso Nacional desde abril, que é a PEC da Segurança Pública e uma

[00:13:45] parte da sociedade dos políticos que representam a sociedade brasileira, a parte da sociedade

[00:13:51] à direita não quer que é a PEC da Segurança Pública e um outro que não saiu ainda do

[00:13:57] governo federal que está demorando já um bocado para chegar ao Congresso que é o

[00:14:03] projeto de lei anti-facção, queria uma avaliação do senhor sobre essas duas iniciativas.

[00:14:12] Olha, Natus, em primeiro lugar, a PEC não caminhou por politicagem também, a reação

[00:14:19] de alguns governadores candidatos foi muito forte, porque a gente que se importa mais

[00:14:24] com a própria candidatura do que com a dor do povo brasileiro, o que é muito comum

[00:14:28] na história brasileira ao longo dos tempos, e essa reação foi muito forte e paranoica

[00:14:34] dando a entender que o governo federal gostaria de assumir o comando monopolístico da segurança

[00:14:41] pública no Brasil, isso é uma obtusidade, um absurdo, qualquer pessoa inteligente minimamente

[00:14:47] técnica sabe que nunca houve de parte do governo federal nenhuma tendência, nenhum desejo

[00:14:52] de tomar conta da segurança pública no Brasil inteiro e com isso invadir o poder dos estados,

[00:14:58] isso é conversa mole pelo dia opinião pública, na verdade a rejeição que se deu, ela se

[00:15:04] deu por um temor de resolver os problemas, quer dizer, o governo federal leva anos para

[00:15:10] assumir o seu papel de coordenador político, nós estamos num estado federado, mas onde

[00:15:16] o governo da União tem um papel de coordenador político, e isso não é nenhum desrespeito

[00:15:20] da Constituição, quer dizer, por que nós temos um governo da União então, se não é para coordenar

[00:15:25] as diversas atividades. E quais os dois ganhos que a PEC da Segurança traz, um ganho da PEC da

[00:15:32] Segurança, melhor dizendo, e um ganho da lei antifacção? Olha, a PEC da Segurança, em primeiro

[00:15:40] lugar, um grande ganho, ela propõe uma unificação das informações, da inteligência de todo o país,

[00:15:47] isso é uma loucura no Brasil, porque nós temos inteligências diversas, muitas delas muito

[00:15:52] competentes, mas que não trocam informações, é um país que age como se fosse em vários países na

[00:16:00] área da segurança, você não tem como enfrentar um crime organizado que é nacionalizado e

[00:16:05] internacionalizado, então a PEC, por exemplo, vem trazer isso, quer dizer, como é que você

[00:16:09] interpreta paranoicamente, dizendo que o governo da União está tentando invadir as competências dos

[00:16:15] governadores. Isso realmente é uma conversa de politicagem para preservar e para de alguma forma

[00:16:22] promover governadores que têm legítimas aspirações políticas, mas que deviam ter mais honestidade

[00:16:29] intelectual, que não estão tendo efetivamente, não estão tendo, a aspiração política é legítima,

[00:16:34] agora ela tem que ser acompanhada por honestidade intelectual e não houve rejeição, por isso é que

[00:16:41] ela parou. A outra medida que é a PL Antifacções, ela é super interessante, é um avanço efetivo,

[00:16:52] ela permissiona infiltração pessoal, ela permissiona infiltração de falsas empresas,

[00:17:00] de pessoas jurídicas montadas para acompanhar o fluxo do dinheiro, ela permissiona uma apreensão

[00:17:07] de vida em menos burocrática de bens, então isso é um avanço proposto pelo PL Antifacções,

[00:17:16] esse PL propõe um agravamento de penas corretamente proposto e está correto,

[00:17:22] se criou no Brasil uma ideia que o que importa não é o tamanho da pena, mas a certeza da punição,

[00:17:27] que é uma frase clássica proferida um dia pelo grande becaria, pelo grande criminalista becaria,

[00:17:35] mas isso não pode virar um dogma, é claro que o tamanho da pena também importa, agora o tamanho

[00:17:42] da pena importa para criminoso e importante, para criminoso que tem realmente liderança no processo,

[00:17:48] senso comum acredita em bravata, é uma beleza quando o sujeito diz que bandido aqui não se cria,

[00:17:55] que bandido bom é bandido morto, quer dizer as pessoas estão há 40 anos ouvindo isso e votando

[00:18:02] por gente incompetente, perversa e de má fé, né, o Brasil tem que aprender a não fazer mais isso,

[00:18:09] a gente tem que aprender a votar melhor também no campo da segurança pública e não estou me referindo

[00:18:13] aqui a nenhum partido, em todos os partidos, em todos os partidos você encontra gente correta,

[00:18:18] moralmente, eticamente bem posicionada e em todos os partidos você encontra pilantra que ilude a

[00:18:25] opinião pública dessa forma. Ricardo, muito obrigada por ter topado conversar com a gente

[00:18:29] e eu espero que o assunto te deseja um bom trabalho. Também muito obrigado.

[00:18:35] Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Bernardo Melo Franco.

[00:18:43] Bernardo, quero avaliar a atuação do governador Claudio Castro, olhando para os primeiros momentos

[00:18:51] do pronunciamento dele diante da mega operação, o que dá para dizer? Olha Natuza, política e

[00:18:57] democracia sempre se misturaram muito aqui no Rio de Janeiro, o debate de segurança pública

[00:19:02] sempre foi central nas eleições do governador, não poderia ser diferente e no caso do Claudio

[00:19:08] Castro vale lembrar como é que esse personagem entra em cena. O Castro era um vereador de primeiro

[00:19:14] mandato, um político pouquíssimo conhecido no Rio, quando se elegeu vice-governador na chapa do

[00:19:20] Wilson Witzel, aquele do tiro na cabecinha. O Witzel foi caçado e o Claudio Castro assumiu,

[00:19:26] então estou fazendo essa memória para a gente situar o campo político dele e qual foi o tipo

[00:19:32] de discurso que levou ele para o poder. Nessa terça-feira, logo depois da operação policial,

[00:19:37] os corpos ainda estavam sendo contados nas favelas quando o Castro subiu no palanque.

[00:19:43] Ele dá uma coletiva com um teor político muito forte e qual que é a primeira coisa que ele faz?

[00:19:49] É arranjar culpados, buscar bodes expiatórios, então ele faz uma crítica ao governo federal,

[00:19:55] tratando do Ministério da Justiça e do Ministério da Defesa. Infelizmente,

[00:20:01] dessa vez, como ao longo desse mandato inteiro, não temos o auxílio nem de blindados, nem de

[00:20:10] nenhum agente das forças federais, nem de segurança, nem de defesa. E depois também

[00:20:17] deu um ataque ao Supremo Tribunal Federal, culpando aquele julgamento da ADPF das favelas

[00:20:22] pela situação de descontrole no Rio. Explicando à população que é fundamental, depois de cinco

[00:20:29] anos de ADPF, muitas barricadas, muita dificuldade para a polícia entrar, ainda são o que nós

[00:20:36] chamamos de filhotes dessa ADPF maldita, que infelizmente um partido político ingressou

[00:20:43] e prejudicou demais o Rio de Janeiro, mas as polícias, com muita coragem, estão trabalhando

[00:20:51] desde cedo. E isso chamou a atenção porque o Castro é um político que está há cinco

[00:20:57] anos como governador do Estado e ele apontou o dedo para todo mundo, menos para o próprio governo.

[00:21:03] Também vale a gente observar que o grupo político dele tem ampla maioria na Assembleia Legislativa

[00:21:09] do Rio. O grupo político dele tem ampla maioria também na representação federal do Rio de Janeiro

[00:21:16] e Brasília. Veja que os três senadores do Rio são filiados ao PL, que é o partido do Cláudio Castro

[00:21:22] e do ex-presidente Bolsonaro. Então ele reclama de falta de ajuda, ele aponta o dedo para outras

[00:21:28] instâncias de governo, mas na prática ele está usando isso também com uma manobra para não

[00:21:33] assumir a própria responsabilidade pela crise da segurança no Rio. Bom, logo depois que ele deu

[00:21:39] a declaração, Cláudio Castro se apressou em telefonar para a ministra Glise Hoffmann para dizer

[00:21:46] olha, não era a minha intenção fustigar o presidente da República em dado momento. Ele conversa com o

[00:21:53] ministro da Casa Civil, Rui Costa. E segundo as apurações que eu fiz, Bernardo, Rui Costa foi

[00:21:59] bastante duro. Disse assim, olha, é mentira o que o senhor está dizendo, governador, é injusto com

[00:22:06] o presidente da República, que já teve três GLOs no Rio de Janeiro nesse terceiro mandato, e segundo

[00:22:16] esses relatos com fontes do governo federal, a gente vai para o Rio de Janeiro. Ele, não, não precisa e

[00:22:23] tal, eu vou a Brasília e tal, não governador, a gente vai ao Rio de Janeiro. O senhor está dizendo

[00:22:28] que o governo federal desapareceu, o que é mentira. Então agora o governo federal vai até o Rio de

[00:22:35] Janeiro. E aí que eles desligaram, depois o Cláudio Castro ligou de volta dizendo assim, não, eu vou

[00:22:40] mesmo, eu tenho que ir para Brasília porque eu tenho que resolver um outro assunto lá, eu acho que em algum

[00:22:44] momento o Cláudio Castro deve ter imaginado que a ida do governo federal até o Rio de Janeiro não

[00:22:51] ficaria bem na fotografia. Eu quero pegar justamente esse ponto, ficar bem na fotografia. A gente está

[00:22:56] falando de um estado colapsado em termos de condições de combater o crime organizado, a gente está

[00:23:04] falando de um país com muitos problemas de se combater o crime organizado, 17 mil quilômetros

[00:23:09] de fronteira e as pessoas ainda estão preocupadas em ficar bem na foto. Onde é que está o problema aí?

[00:23:17] Infelizmente esse debate da segurança pública está partidarizado e tende a ser cada vez mais,

[00:23:23] Natusa, à medida que a gente está se aproximando da eleição de 2026 e todas as pesquisas estão

[00:23:28] mostrando que a segurança pública está no topo ali das preocupações do eleitor brasileiro. Então

[00:23:34] a gente vai ver muita informação e contra informação, a gente vai ver muita politização e

[00:23:39] polarização desse assunto que deveria, obviamente, ter uma abordagem mais técnica, uma abordagem mais

[00:23:44] focada na prevenção dos crimes e na proteção da população civil. Agora, o discurso que o Cláudio

[00:23:51] Castro encampa, que é o discurso da direita mais radical, é sempre do prendo e arrebento, a política

[00:23:58] e a gente sabe que esse discurso dá muito voto no Brasil e no Rio de Janeiro em particular. Eu

[00:24:05] lembrei na outra resposta do Wilson Witzel, que se elegeu prometendo que a polícia ia ter carta

[00:24:09] branca para matar. Então esse é um discurso politicamente poderoso, ainda mais numa situação

[00:24:15] em que a população se vê amedrontada, a população está sentindo as dores da falta de segurança na

[00:24:21] população, está convivendo com a epidemia do roubo de celular. Então é um tema muito polarizante e

[00:24:28] que acaba levando muito voto também. Infelizmente, eu acho que a gente não vai conseguir se livrar

[00:24:33] dessa incumentalização política do debate. O que cabe para a sociedade e também para a imprensa é

[00:24:40] cobrar respostas efetivas para problemas reais que estão aí. E certamente a resposta não passa

[00:24:47] apenas pelas puras e simples matança policial. Muita gente tem lembrado que se a matança resolvesse

[00:24:53] o problema da segurança, o Rio de Janeiro ia ser o estado mais seguro do Brasil e infelizmente não

[00:24:59] é isso que acontece. A gente está falando de uma operação que resultou em mais 120 pessoas mortas,

[00:25:03] dentre os quais quatro policiais assassinados e ontem noticiavam-se pelo menos seis policiais

[00:25:10] baleados. Então a gente está falando de servidores públicos que saíram para trabalhar e não voltaram

[00:25:14] para casa. A gente está falando de uma cidade que ficou, que teve o seu cotidiano completamente

[00:25:18] interrompido, aulas suspensas, posto de saúde que deixa de funcionar, uma população aterrorizada e

[00:25:26] 120 vítimas que nós nem sabemos quem são. Mas qual que é o resultado disso? Isso efetivamente

[00:25:35] interrompeu os negócios ou atacou sensivelmente os negócios do Comando Vermelho? Porque me parece

[00:25:42] que o Comando Vermelho hoje está vendendo droga do mesmo jeito no país inteiro, não só no Rio

[00:25:47] de Janeiro. Então a gente não percebe qual que é a efetividade, assim para além da tragédia humana,

[00:25:53] a efetividade de uma operação como essa em desbaratar uma organização criminosa que tem

[00:25:58] atuação transnacional. A gente vê um estado que é marcado, tem essa história marcada por

[00:26:04] grandes massacres policiais, isso desde os anos 90 com a chacina de Vigar Geral, a chacina da

[00:26:10] Jacaara, mais recentemente a chacina do Jacarezinho, já no governo Claudio Cássio, e agora esse

[00:26:17] episódio é dessa terça-feira que já se torna o mais letal da história do Estado. Não é trivial,

[00:26:24] gente, morreu mais gente no Rio de Janeiro nessa terça-feira do que no massacre do Carangiru em

[00:26:30] São Paulo. Então é um fato histórico que a gente está assistindo, um fato que vai ser lembrado

[00:26:35] por anos, por décadas, por gerações, e é em cima desse fato que alguns políticos estão tentando

[00:26:41] montar o seu palanque para a eleição de 26. Pois é, a gente está falando de um cenário, como você

[00:26:47] mesmo visitou, muito polarizado, muito politizado. A esquerda é muito criticada por não saber dar

[00:26:55] soluções para problemas de insegurança pública. A direita, por outro lado, também não me parece

[00:27:04] o condão de resolver, porque a gente está falando de um Estado que já é governado pelo campo da

[00:27:09] direita há algum tempo, outros Estados também governados pelo campo da direita não dão soluções.

[00:27:16] Então a gente olha para um lado do espectro político, a solução não parece vir. Olha para o outro,

[00:27:23] a solução também não parece vir. Onde é que está o problema aí, então? Olha, se a esquerda já não

[00:27:28] tinha pouco problema nessa agenda, Natuza, ainda ficou pior depois da declaração desastrada do

[00:27:35] presidente Lula nessa viagem na semana passada, quando ele disse que o traficante seria vítima do

[00:27:40] usuário de drogas. Claro, ele depois tentou se consertar, fez ali um pedido meio torto de

[00:27:46] desculpas, mas você pode ter certeza que essa declaração vai ser usada também contra ele na

[00:27:51] disputa eleitoral de 26. E nesse caso, Lula não tem a culpa. A frase mal posta, mal colocada, mal

[00:27:58] colocada foi dele mesmo e reforça o estigma que existe sobre a esquerda de que a esquerda, ao defender

[00:28:05] a bandeira dos direitos humanos, estaria defendendo bandidos. É claro que uma coisa não é igual a

[00:28:11] outra, mas o fato é que essa compreensão se tornou muito popular, ganhou muito a rua no Brasil. E

[00:28:18] claro que o Bolsonaro, com aquele discurso dele muito alinhado a essa ideia das forças de segurança

[00:28:24] e de licença para madar, ele falava o tempo todo na campanha no chamado excludente de ilustitude,

[00:28:30] isso tudo contaminou muito o debate político. De onde que vão vir as respostas? Acho que

[00:28:35] ninguém tem uma solução mágica para esse assunto, se alguém tivesse já teria sido

[00:28:39] implementada, mas certamente não é da instrumentalização das cagédias, das chacinas,

[00:28:45] das mega operações policiais. E no caso do Rio, a gente vê um ciclo que vai se retroalimentando,

[00:28:52] essa política de segurança, baseada na mega operação em que o Estado chega de uma vez só

[00:28:58] de surpresa com helicóptero, com caveirão, sai atirando, causa terror e pânico, mata dezenas

[00:29:05] de pessoas e se ausenta no dia seguinte, essa política nunca deu certo e nunca dará. É preciso

[00:29:13] que tenha um mínimo de planejamento, não só de inteligência, para poupar vidas humanas, para

[00:29:19] morte, ferimento de inocentes, como também principalmente para que o Estado chegue nessas

[00:29:24] comunidades de outra forma. Porque veja, a gente está falando de 119, pelo menos, mortos, segundo

[00:29:30] balanço oficial, hoje a gente está gravando esse programa no dia seguinte, Natusa, e qual é a

[00:29:36] consequência concreta disso tudo que a gente viu para o poderio do Comando Vermelho no Rio? Não

[00:29:41] consegui ver ainda, fora a apreensão ali de cerca de 100 fuzis, ainda não tem uma demonstração clara

[00:29:48] de que essa facção criminosa ficou menos forte, menos poderosa. E tem menos ainda um sinal de que

[00:29:56] vai haver alguma mudança para as pessoas que moram nessas regiões. Veja, o Complexo do Alemão,

[00:30:00] o Complexo da Penha, são áreas enormes da Zona Norte do Rio, e hoje elas amanheceram de luto,

[00:30:06] com muito sofrimento, muita tristeza, muitas famílias velando os mortos, mas sem nenhuma

[00:30:12] operação concreta. Não dá para a gente dizer que essa região, depois da operação de terça-feira,

[00:30:17] ficou livre do comando da tiramia educáfica. E isso que é o mais triste nessa história.

[00:30:22] Quer dizer, é imaginar que tudo isso está sendo causado, tudo isso está sendo vivido pela população,

[00:30:27] e no dia seguinte a rotina de dominação pelo crime organizado permanece igual.

[00:30:32] Bom, quando o Claudio Castro disparou contra o governo, o governo respondeu, negou que tivesse

[00:30:39] recebido qualquer tipo de pedido de ajuda por parte do governador do Rio de Janeiro,

[00:30:45] em compensação, o diretor-geral da Polícia Federal, o Andrei Passos Rodrigues, disse que no nível

[00:30:51] ali da hierarquia entre as polícias, houve uma comunicação na área de inteligência, e que o

[00:30:59] setor de inteligência da PF foi convidado a participar da operação, mas olhando ali o planejamento,

[00:31:06] considerou não ser uma operação razoável. A gente não sabe muito bem o que isso quer dizer.

[00:31:12] Essa é uma operação do estado do Rio de Janeiro, e nós não fomos comunicados que seria deflagrada

[00:31:19] nesse momento. Houve um contato anterior do pessoal da inteligência da Polícia Militar, com a nossa

[00:31:26] unidade do Rio de Janeiro, para ver se haveria alguma possibilidade de atuarmos em algum ponto

[00:31:32] nesse contexto. A partir da análise do planejamento operacional, a nossa equipe entendeu que não era

[00:31:40] uma operação razoável para que a gente participasse. O colega do Rio de Janeiro formou seu

[00:31:45] contato operacional, que a Polícia Federal segue o seu trabalho de investigação de polícia

[00:31:50] judiciária, fazendo o seu trabalho de inteligência, mas que naquela operação que é do estado, tinha

[00:31:55] mais de 100 mandados, salvo engano, para cumprir, do estado do Rio de Janeiro, nós não teríamos

[00:32:00] nenhuma atribuição legal para participar, e portanto não fazia sentido a nossa participação.

[00:32:05] Olhando agora para o governo federal e para as respostas que ele deu nessas últimas 24 horas,

[00:32:11] que conclusões você tira? Maranthosa, primeiro o timing desse episódio foi muito desfavorável

[00:32:18] para o governo, e eu digo isso porque o presidente Núbala estava em voo, voltando de uma viagem para

[00:32:23] Ásia, portanto ele ficou muito tempo fora do ar. Pelas informações que a gente tem, ele foi informado

[00:32:29] durante o voo, ele tinha ali acesso a telecomunicações, mas não pôde fazer reunião, não pôde, enfim,

[00:32:35] portanto coordenar uma resposta efetiva do governo. Essa resposta só começou a vir no dia seguinte.

[00:32:40] E para o público que não está envolvido na luta política, que quer na verdade a solução para o

[00:32:46] problema da segurança, acho que o que ficou nessas primeiras horas foi apenas o bate-boco, quer dizer,

[00:32:51] um governador que se exime de culpa, tenta responsabilizar Brasília pela confusão do Rio,

[00:32:55] e do outro lado o governo federal também tentando de certa forma se defender mais do que propor

[00:33:01] uma coisa de concreto para resolver o problema. O Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou

[00:33:07] em nota que mantém atuação no Rio de Janeiro desde outubro de 2023 com a Força Nacional e que

[00:33:14] tem atendido prontamente a todos os pedidos do governo do Rio de Janeiro para o emprego da Força

[00:33:21] Nacional e afirmou que repassou mais de 470 milhões de reais para o Estado nos últimos anos. Segundo

[00:33:29] o Ministério, o Rio de Janeiro usou menos da metade do dinheiro. No Ceará, o Ministro da Justiça,

[00:33:36] Ricardo Lewandowski, negou que tenha recebido o pedido do governo do Rio para a operação de hoje.

[00:33:42] O combate à criminalidade, seja ela comum, seja ela organizada, se faz com planejamento,

[00:33:47] com inteligência, com coordenação das forças, enfim, não posso julgar porque não estou sentado

[00:33:55] na primeira do Governador. Não recebi nenhum pedido do Governador do Rio de Janeiro enquanto

[00:34:02] Ministro da Justiça e Segurança Pública para esta operação. Nem ontem, nem hoje, absolutamente nada.

[00:34:09] Esse bate-boca ele causa manchete, ele abastece a gente que vive aqui da cobertura política,

[00:34:14] mas causa muito pouco efeito sobre a política pública e na porta ali sobre a luta da população.

[00:34:19] Agora, se a gente olhar para o passado, Lula já está no terceiro governo e o que a gente viu nos

[00:34:25] outros mandatos foi que, de certa forma, ele repetiu um padrão de Presidente da República no Brasil,

[00:34:30] que é de deixar esse assunto meio para lá, para os governadores, Natusa. Esse assunto da Segurança

[00:34:36] Pública é um assunto tóxico, ainda mais no Rio de Janeiro, porque o Governador ele fica marcado

[00:34:42] por tragédias, fica marcado por casos de grande repercussão e o Presidente da República, que não

[00:34:47] é uma das polícias, normalmente não quer se associar a essa agenda negativa. Claro que nesse

[00:34:53] ano teve a proposta da PEC da Segurança Pública, que de certa forma foi o Governo Federal pela

[00:34:58] primeira vez se propondo a assumir um papel mais ativo nesse debate, nessa política pública,

[00:35:04] mas o fato é que isso ainda não saiu do papel. Deputado de oposição me dizendo que vão conversar

[00:35:10] com o Gumota, alguns já conversaram com o Gumota, o deputado Mendonça Filho, eu conversei com ele

[00:35:14] ontem, ele é o relator da PEC da Segurança Pública, ele me disse que vai entregar o relatório em novembro

[00:35:20] e que acredita que pode passar esse relatório em dezembro e eu falei, mas e no Senado? Ele acha que

[00:35:25] você tem uma urgência, porque tem uma urgência na sociedade desse assunto, que o Senado vai aprovar?

[00:35:30] E eu falei, até porque é ano que vem, ano de eleição, sabemos como funciona o Congresso Nacional.

[00:35:36] Agora, pergunto para vocês e vou repetir isso o tempo todo aqui, tá bom, a PEC é o debate, chegou

[00:35:41] nós estamos em novembro, a gente descobriu isso agora, isso não foi tratado na reunião de governadores

[00:35:47] de direita, porque eles são contra a PEC da Segurança Pública, então eles são a favor de quê?

[00:35:51] Então, de concreto mesmo, ou o governo federal manda tropas, decreta uma intervenção federal do Rio,

[00:35:58] que é uma ação radical, no limite, ou na prática ele só fica nesse campo da cooperação, que depende

[00:36:07] da boa vontade do governador. Então, quando você tem um governador de um campo político da direita

[00:36:12] é mais radical, contra um presidente da esquerda, da centro-esquerda, a tendência é que essa cooperação

[00:36:18] fique ainda mais difícil e provavelmente é isso que a gente vai assistir a partir de agora nessa

[00:36:23] discussão no Rio de Janeiro. A gente bota muito na conta da política, né, mas todos os debates

[00:36:28] políticos no país são permeados pela política. Eu acho que o que tem aí nesse debate é cinismo

[00:36:38] mesmo, né, não é política, é cinismo, você pode até dar o nome de de politicagem, porque muitos

[00:36:45] especialistas sérios estão dizendo o seguinte, olha, não existe uma solução milagrosa, não existe

[00:36:51] uma bala de prata, mas existe um conjunto de coisas que faz sentido, então a PEC da Segurança Pública

[00:36:58] faz sentido, o projeto anti-facção criminosa faz sentido e aí o próprio governador Claudio Castro,

[00:37:08] que diz que quer ajuda do governo federal, quando surge uma PEC, uma proposta de emenda à constituição,

[00:37:17] colocando o governo federal como coordenador de ações de combate ao crime organizado, porque tem

[00:37:23] gente que o crime organizado se conversa, né, ao contrário de Claudio Castro e o governo federal,

[00:37:28] o Comando Vermelho e o PCC fazem acordos, inclusive de operação, né, o crime está se falando e a

[00:37:34] política não. Ele diz que não, ele diz que não concorda, então tem muita gente dizendo, vá pelo

[00:37:42] caminho da PEC da Segurança, ainda que ele seja alterado por forças à direita, não tem problema,

[00:37:48] é parte do debate público mesmo, mas aí na hora que alguém aceita o convite para a contradança,

[00:37:56] o governador simplesmente finge que não é com ele e se encontra com outros governadores de direita,

[00:38:02] mostrando que sim, a coisa está completamente contaminada. Porque no momento em que o governo

[00:38:07] federal propôs a PEC, ele disse que não, que não queria interferência na política do Rio,

[00:38:12] na autonomia dos estados, e no momento que acontece uma crise desse tamanho, ele aponta o dedo para

[00:38:18] o governo federal e diz que a culpa é do governo federal que não está ajudando. Então você vê aí

[00:38:22] que o discurso ele vai se moldando conforme os fatos vão acontecendo. Agora, outra frente

[00:38:29] da exploração política desse caso é justamente essa articulação entre os governadores do campo

[00:38:34] da direita que a gente está assistindo a partir dessa quarta-feira. O Claudio Castro parece ter

[00:38:38] articulado uma comitiva de governadores que está planejando vir ao Rio de Janeiro para expressar

[00:38:45] apoio ao governador do estado contra o governo federal. E aí a gente está falando de eleição

[00:38:50] na veia, porque muitos desses governadores que estão de malas prontas para vir ao Rio são

[00:38:55] personagens da sucessão presidencial, alguns como pré-candidatos, outros querendo ser vice, enfim,

[00:39:02] são personagens conhecidos do eleitor e que estão tentando capitalizar também essa disputa em

[00:39:07] proveito próprio. Veja o Ronaldo Caio, governador de Goiás, que chegou ao ponto de oferecer tropas

[00:39:13] econômicas para ajudar a polícia do Rio. Imagina como é que isso é possível, você tirar um

[00:39:18] policial militar lá do interior de Goiás, soltar ele numa favela do Rio e falar, meu amigo, se vira.

[00:39:22] Não é bom nem para o Rio, nem para o policial que vai sair de lá para, enfim, atuar em circunstâncias

[00:39:28] muito adversas num território que ele não conhece. Então o que a gente está vendo aí? É pura e

[00:39:34] simples exploração política, ou como você falou, politicagem e, claro, os dados se mexendo na direção

[00:39:41] da eleição de 2026. Essa história da cooperação dos governadores é algo que aqui no Rio Natusa vai

[00:39:48] produzir aquilo que a gente chama de muita espuma para pouco chopp. Ou seja, pode ser que produza

[00:39:53] manchete, produza foto, produza fato político, mas a chance de chegar a uma solução para o problema

[00:40:00] da segurança é quase nenhuma. Por outro lado, o governo federal também fica premido pelo calendário

[00:40:06] federal. Será que o presidente Lula vai querer decretar uma intervenção federal no Rio de Janeiro

[00:40:11] nesse momento? E aí vai se associar a toda e qualquer crise que acontecer daqui até a eleição

[00:40:17] de 2026? Isso me parece muito improvável. Da mesma forma, o Cláudio Castro tem demonstrado que não

[00:40:24] vai pedir uma GLO, não vai pedir uma entrada das Forças Armadas, porque isso na prática significaria

[00:40:31] admitir a falência da política de segurança do Estado. Então, como sempre, a população fica

[00:40:38] espremida entre a disputa política, entre o discurso eleitoral e fica na prática desprotegida.

[00:40:44] Isso que a gente infelizmente tende a acontecer. Bernardo Melo Franco, muito obrigada por ter topado

[00:40:50] conversar com a gente. Bom trabalho para você. Obrigado pelo convite. Espero que no próximo seja

[00:40:54] um vídeo de um tema mais ameno.

[00:41:24] Eu sou Natuzanera e fico por aqui. Até o próximo assunto.