T16E05 - O que (não) é quântica
Resumo
O episódio celebra os 100 anos da mecânica quântica, declarados pela UNESCO como o Ano Internacional das Ciências e Tecnologias Quânticas em 2025. Inicia destacando a importância histórica de 1925, quando Heisenberg, Schrödinger e outros estabeleceram os fundamentos matemáticos da teoria, que se tornou uma das mais bem-sucedidas da física, com impactos enormes em áreas como materiais, eletrônica, química e medicina.
Discute a dificuldade de compreensão intuitiva da quântica, ilustrada pela famosa fala do professor Ramamurti Shankar, e como essa complexidade abriu espaço para o uso indevido do termo em pseudociências. Produtos como terapia quântica, sal quântico e coach quântico se aproveitam da aura misteriosa e do formalismo matemático avançado para dar um ar científico a alegações não comprovadas. Especialistas como o professor Marcelo Knobel oferecem um ‘kit de detecção de bobagem’, enfatizando a importância do ceticismo e da verificação em fontes confiáveis.
Explica o que é a física quântica de fato: uma teoria que descreve fenômenos em escala microscópica, baseada na dualidade onda-partícula. A professora Nara Rubiano da Silva detalha como objetos quânticos podem se comportar como ondas ou partículas dependendo da observação, e o pesquisador Rafael Chaves enumera aplicações reais, como lasers, fibras ópticas, placas solares, exames de imagem e tecnologias emergentes como computação e criptografia quânticas.
Por fim, aborda a segunda revolução quântica, impulsionada por essas aplicações tecnológicas, e a esperança de que, com o tempo e maior acesso à informação, o público possa compreender melhor os conceitos quânticos, distinguindo a ciência genuína do charlatanismo.
Indicações
Books
- Incerteza Quântica — Livro escrito por Rafael Chaves que aborda os principais aspectos da Segunda Revolução Quântica em linguagem acessível para não especialistas, conforme mencionado no episódio.
Events
- Ano Internacional das Ciências e Tecnologias Quânticas (2025) — Declarado pela UNESCO, celebra os 100 anos do desenvolvimento das equações fundamentais da mecânica quântica. O episódio menciona eventos comemorativos, incluindo um em Porto Alegre organizado pelo Instituto de Física da UFRGS.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução e importância histórica da mecânica quântica — Apresenta o ano de 1925 como marco fundamental para a física, com o desenvolvimento da mecânica quântica por Heisenberg, Schrödinger e outros. Destaca o sucesso da teoria e seu impacto econômico e conceitual em diversas áreas, como materiais, eletrônica e medicina, além de mencionar a proclamação de 2025 como Ano Internacional das Ciências e Tecnologias Quânticas.
- 00:02:33 — A dificuldade de entender a quântica e o discurso do professor Shankar — Relata a famosa fala do físico Ramamurti Shankar para seus alunos de Yale, onde ele afirma que ninguém entende mecânica quântica, nem mesmo Richard Feynman. Esse trecho ilustra a complexidade contraintuitiva da teoria, que a torna um alvo fácil para apropriações pseudocientíficas.
- 00:04:04 — Uso indevido do termo ‘quântico’ em produtos e terapias — Lista exemplos de charlatanismo que usam a palavra ‘quântico’ para dar aparência científica, como terapia quântica, sal quântico e emagrecimento quântico. Questiona como distinguir o que é ciência quântica real da pseudociência, introduzindo a missão do episódio.
- 00:06:03 — Entrevista com Marcelo Knobel sobre o imaginário popular da quântica — O professor Marcelo Knobel analisa por que o termo ‘quântico’ é tão atraente para charlatões: a teoria é percebida como complexa, misteriosa e de difícil compreensão até para especialistas. Ele ressalta o formalismo matemático avançado e a estranheza dos fenômenos quânticos, que fogem à intuição cotidiana.
- 00:08:50 — Definição de física quântica com a professora Nara Rubiano — A professora Nara Rubiano da Silva define a física quântica como o estudo de fenômenos em escala microscópica. Ela contrasta com a física clássica, adequada para o mundo macroscópico, e menciona sua experiência com microscopia eletrônica de transmissão, que depende do entendimento quântico dos elétrons.
- 00:10:25 — Dicas para detectar pseudociência (kit de detecção de bobagem) — Marcelo Knobel oferece conselhos para identificar informações falsas: desconfiar de discursos com muita convicção e palavreado complexo, verificar se há consenso científico e pesquisar em fontes confiáveis. Enfatiza a responsabilidade de não repassar informações sem certeza, especialmente na era da inteligência artificial e deepfakes.
- 00:12:07 — Origens da associação entre quântica e misticismo — Rafael Chaves explica que a ligação entre quântica e ideias místicas (como telepatia, memória da água) existe há tempos, mas se popularizou nas últimas décadas com as redes sociais. A percepção de que ambas são ‘esquisitas’ e difíceis de entender leva as pessoas a erroneamente conectá-las.
- 00:14:22 — Aplicações reais da física quântica no cotidiano — Rafael Chaves enumera onde a quântica está presente: explica propriedades de partículas elementares, materiais, astrofísica, cosmologia. Exemplos concretos incluem fibras ópticas com lasers, exames de imagem como ressonância magnética, e placas solares, que dependem do entendimento dos fótons.
- 00:15:56 — História do surgimento da física quântica e dualidade onda-partícula — Descreve o surgimento da física quântica na virada do século XIX-XX, com contribuições de Heisenberg, Schrödinger e Louis de Broglie. Explica a dualidade onda-partícula: objetos quânticos podem se comportar como ondas (espalhadas) ou partículas (localizadas), dependendo da observação, o que gera fenômenos não intuitivos.
- 00:20:55 — As quatro categorias de tecnologias quânticas emergentes — Rafael Chaves detalha as principais áreas: computação quântica (algoritmos mais rápidos), comunicação e criptografia quântica (segurança), sensoriamento quântico (sensores mais acurados) e simulação quântica (para modelar sistemas complexos). Menciona o Prêmio Nobel de Física de 2025 relacionado a essas bases.
- 00:24:49 — Desafios da divulgação científica em quântica e perspectivas futuras — Rafael Chaves comenta a dificuldade de explicar quântica em pouco tempo, dada sua complexidade. A esperança é que, com maior exposição às tecnologias, as pessoas gradualmente se acostumem com os conceitos. A professora Nara reflete que entender quântica é um processo contínuo de aceitar teorias que funcionam, mesmo que pareçam estranhas.
Dados do Episódio
- Podcast: Fronteiras da Ciência
- Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
- Categoria: Science
- Publicado: 2025-11-01T23:00:00Z
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/fronteiras-da-ci%C3%AAncia/fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c/t16e05-o-que-n%C3%A3o-%C3%A9-qu%C3%A2ntica/bd47c5fa-51f8-4c14-8ba3-aa301d8803f7
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Dados do Podcast
- Nome: Fronteiras da Ciência
- Site: http://frontdaciencia.ufrgs.br
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Transcrição
[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, onde discutiremos os limites entre o que é ciência e o que é mito.
[00:00:10] O ano de 1925 é de extrema importância para a física mundial, porque mudou drasticamente a maneira pela qual a gente entende os fenômenos físicos numa escala muito pequena, a escala atômica.
[00:00:22] Foi nesse ano que o Heisenberg muda o foco dos fenômenos quânticos para as quantidades físicas que são observáveis e introduziu sua mecânica material.
[00:00:32] Logo depois, o Schrodinger apresentou uma alternativa que é a mecânica ondulatória e muitos outros, Jordan, Born, Bohr, etc.
[00:00:42] A mecânica quântica, provavelmente a mais bem sucedida das teorias físicas, surgiu como uma ciência básica, motivada pela curiosidade dos cientistas, mas rapidamente ela fundamentou e permitiu inúmeros avanços em muitas áreas, além da física.
[00:00:58] Só para citar algumas áreas em ciências dos materiais, eletrônica, química, medicina e isso com tecnologias como lasers, transistores, diversos tipos de magiamento, relógios atômicos, etc.
[00:01:13] Então o impacto da mecânica quântica, tanto conceitual quanto econômico, é enorme.
[00:01:18] E agora com a introdução de novas tecnologias quânticas, se espera uma repercussão econômica comparável e o projetado vai de alguns bilhões até um trilhão de dólares para os próximos dez anos.
[00:01:33] Um exemplo é a computação quântica, que pode alterar tudo que a gente tem em termos de criptografia, envolvendo segurança de todo o sistema financeiro e militar.
[00:01:42] Por isso então, uns cem anos depois, 2025, foi declarado o Ano Internacional das Ciências e Tecnologias Quânticas e inúmeros eventos comemorativos ocorreram e estão ocorrendo ao redor do mundo.
[00:01:54] Inclusive um aqui em Porto Alegre, com um super criativo nome de 100 anos da mecânica quântica, que foi organizado pelo Instituto de Física da Works.
[00:02:03] E foi durante esse evento que algumas das entrevistas que vocês vão ouvir agora foram gravadas.
[00:02:08] O episódio de hoje também comemora os dez anos do podcast Oxigênio do Labjord lá da Unicamp e por causa disso esse episódio foi planejado em conjunto com o Labjord, embora o mérito seja praticamente todo das gurias lá do Oxigênio.
[00:02:23] Os créditos completos desse episódio vocês vão encontrar lá no finalzinho do episódio. Então, vira longa ao Oxigênio e, claro, a mecânica quântica.
[00:02:33] Imagina a seguinte cena, um professor entra na sala de aula no primeiro dia do curso e diz
[00:02:47] Hoje é um dia muito emocionante para mim porque vamos começar a estudar a mecânica quântica e faremos isso até o fim do semestre.
[00:02:53] Agora eu tenho mais notícias e boas notícias. A má notícia é que é um assunto um pouco difícil de acompanhar de forma intuitiva e a boa notícia é que ninguém consegue acompanhar de forma intuitiva.
[00:03:04] O Richard Feynman, uma das grandes figuras da física, costumava dizer que ninguém entende mecânica quântica.
[00:03:10] Então, de certa forma, a pressão foi tirada de vocês, porque eu não entendo, vocês não entendem e Feynman não entendia.
[00:03:19] O ponto é que o meu objetivo é o seguinte, nesse momento eu sou o único que não entende mecânica quântica nessa sala, mas daqui a sete dias todos vocês serão incapazes de entender mecânica quântica também.
[00:03:33] E aí vão poder espalhar a ignorância de vocês por vários lugares. E esse é o único legado que um professor pode desejar.
[00:03:41] Isso realmente aconteceu. O físico indiano Ramamurti Shankar, professor da Universidade de Yale nos Estados Unidos, ficou famoso por esse discurso de boas-vindas, um tanto quanto sincero aos seus alunos.
[00:03:54] Se a quântica é esse negócio tão complicado de entender até para especialistas da área, imagina pra gente que nem lembra mais das equações que decorou pro vestibular.
[00:04:04] Não é à toa que muita gente usa o termo quântico pra dar um ar científico a produtos que não tem nada de científico e muito menos de quântico.
[00:04:13] A lista é bastante longa. Tem terapia quântica, coach quântico, sal quântico, emagrecimento quântico. Eu tenho certeza que você já se deparou com algum desses por aí.
[00:04:24] Mas afinal, como saber o que não é e principalmente o que realmente é a ciência quântica?
[00:04:31] É isso que eu, Eduarda Moreira e o Guilherme Zon vamos te contar no episódio de hoje, que é uma parceria entre o Oxigênio e o Fronteiras da Ciência, podcast de divulgação científica do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
[00:04:47] Esse episódio é mais um da série comemorativa dos 10 anos do Oxigênio.
[00:05:01] Então, recentemente eu recebi, inclusive, de um aluno que era uma mesa quântica estelar para resolver processos judiciais, pra dar um exemplo extremo do que pode acontecer.
[00:05:18] Mas tem aí cursos de pedagogia quântica, brincadeira quântica para criança, tem pulseiras quânticas e assim vai, é infinita a imaginação humana.
[00:05:34] Eu sou professor de física da Unicamp, sou professor há mais de 35 anos, fui reitor da Unicamp.
[00:05:43] Atualmente estou em Trieste, na Itália, como diretor executivo da Academia Mundial de Ciências para Países em Desenvolvimento.
[00:05:52] E tenho trabalhado com divulgação científica, com gestão universitária, gestão da ciência e é um prazer estar aqui com vocês.
[00:06:03] O Marcelo tem um gosto pessoal por investigar pseudociências, especialmente as quânticas, o que faz sentido já que ele também é físico.
[00:06:10] Então a gente conversou com ele justamente para tentar entender porque as pessoas gostam tanto de usar o termo quântico nos mais diferentes contextos.
[00:06:20] Eu acho que a quântica ela ganhou ali um imaginário popular como algo complexo, algo realmente que está ali no mundo subatômico,
[00:06:32] que todos sabem que tem a ver com física, uma física complexa, difícil de entender, não é trivial nem para quem faz física, mestrado em física, doutorado, quem trabalha na área,
[00:06:45] é algo realmente muito, muito complexo de entender porque tem fenômenos muito esquisitos que acabam acontecendo.
[00:06:54] A percepção de que a física quântica é uma área do conhecimento muito específica é difícil
[00:06:59] e o fato que nem os maiores estudiosos da área entendem completamente, como o professor Xancar falou para os alunos no primeiro dia de aula, acabaram tornando esse termo um prato cheio para os charlatões.
[00:07:11] Primeiro que ela exige e tem um formalismo matemático bastante avançado e complexo.
[00:07:19] Então é realmente uma, você precisa conhecer um pouco mais de matemática avançada para poder, digamos assim, realizar as fórmulas e tal.
[00:07:32] Se fosse só a matemática, a coisa ainda seria um pouco mais simples.
[00:07:37] Ok, eu não sei matemática avançada e talvez você também não saiba, mas eu consigo ver os efeitos de contas complexas que garantem que um prédio, por exemplo, vai se sustentar.
[00:07:48] Afinal, eu estou vendo o prédio ali em pé.
[00:07:51] O problema com a quântica é um pouco mais complicado do que isso.
[00:07:54] Tem umas coisas que são inacreditáveis do ponto de vista da nossa realidade, da nossa vida.
[00:08:03] Tem aí uma miríade de fenômenos que são completamente estranhos à nossa realidade do dia a dia.
[00:08:14] Então acabou tendo essa aura de algo misterioso.
[00:08:20] O que o Marcelo está dizendo é que é muito mais difícil a gente conseguir observar os fenômenos quânticos no nosso dia a dia, por mais que eles estejam ali.
[00:08:28] Física quântica é uma área da física em que a gente estuda fenômenos das coisas muito pequenas, das coisas do mundo microscópico.
[00:08:39] As coisas do mundo macroscópico a gente não precisa de física quântica para entender.
[00:08:44] A gente precisa de física clássica e já está bom.
[00:08:46] Essa que você ouviu agora é a professora Nara.
[00:08:50] Meu nome é Nara Rubiano da Silva.
[00:08:52] Eu sou professora na UFSC de Florianópolis.
[00:08:56] Faz três anos e meio que eu estou na carreira docente, mas antes disso eu já fiz pós-doc em ótica quântica.
[00:09:03] Hoje em dia eu trabalho com ótica quântica, com ótica clássica.
[00:09:07] E já trabalhei bastante também com microscópio eletrônico de transmissão.
[00:09:12] A Nara acabou migrando para a quântica depois que começou a se aprofundar mais nessa área para tentar entender melhor como funcionam os equipamentos com os quais ela trabalhava.
[00:09:21] E para entender o microscópio eletrônico de transmissão a gente parte muito do entendimento quântico dos elétrons.
[00:09:28] Assim como outras partículas quânticas, outros objetos quânticos, ele tem algumas propriedades interessantes que a gente explora para fazer microscopia.
[00:09:38] Microscópios de transmissão são equipamentos superpotentes, capazes até de gerar imagens de moléculas que estão dentro de uma célula.
[00:09:45] Essas estruturas são tão, mas tão pequenas que as lentes de aumento que usam luz dos microscópios tradicionais não dão conta de distinguir.
[00:09:58] Mas calma, antes da gente entrar nesse novo mundo para tentar entender o que é a física quântica de fato,
[00:10:04] uma etapa muito importante desse aprendizado é saber identificar o que não é.
[00:10:09] No meio de tanto charlatanismo, às vezes fica difícil diferenciar o que é informação confiável e o que é propaganda enganosa de produtos que se dizem científicos e eficazes, mas são pura mentira.
[00:10:21] O professor Marcelo tem algumas dicas interessantes nesse sentido.
[00:10:25] Tenho que chamar aqui kit de detecção de bobagem que você sempre pode usar.
[00:10:30] Em primeiro lugar é o que a gente chamaria em português é o simancol.
[00:10:35] Sempre dá colocar dúvida, pensar que nem sempre o que tem ao palavreado muito complexo e científico é ciência.
[00:10:45] Tudo aquilo que alguém fala muito, com muita convicção, muita certeza, já acende uma luz amarela
[00:10:53] que realmente pode não ser científico se o cientista em geral não tem tanta certeza assim das coisas.
[00:11:02] Hoje em dia, com a inteligência artificial criando vídeos e áudios falsos, fica cada vez mais difícil saber diferenciar esses conteúdos do que é informação real e de boa qualidade.
[00:11:13] Então, quando você vir uma coisa muito incrível, o melhor a se fazer é se esforçar um pouquinho e pesquisar.
[00:11:21] Mas, em geral, você consegue, com um pouco de paciência, procurar alguma informação, ver se aquilo é de fato consenso ou não é, se existe trabalho científico sobre o assunto.
[00:11:37] Então, às vezes, exige um pouquinho mais de atenção e cuidado, mas, de uma maneira geral, hoje a gente tem a sorte de ter internet que permite um pouco esse cuidado.
[00:11:50] O importante é não repassar essas informações sem ter certeza.
[00:12:07] A verdade é que essa associação entre quântica e universo místico existe há bastante tempo.
[00:12:12] Então, para dizer que, na verdade, essa ideia meio alternativa, meio mística em torno da quântica já vem desde muito tempo.
[00:12:19] E o que aconteceu, talvez, ao longo das últimas duas décadas, é que isso se popularizou.
[00:12:28] Anteriormente, essas ideias estavam restritas a livros, talvez algum documentário.
[00:12:36] E hoje em dia, com as redes sociais, com uma forma muito mais eficiente de se transmitir informação, seja ela verdadeira ou falsa, fez com que a coisa tomasse uma proporção muito maior.
[00:12:54] Esse que você acabou de ouvir é Rafael Chaves.
[00:12:57] Ele é professor, pesquisador e divulgador científico na área de quântica, além de ser vice-diretor do Instituto Internacional de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal.
[00:13:09] A física quântica é meio contraintuitiva, meio esquisita, aparentemente ninguém entende muito bem.
[00:13:15] Então, tem essa outra coisa aqui que também parece muito esquisita, que ninguém entende muito bem.
[00:13:19] Tipo telepatia, memória da água, astrologia.
[00:13:22] Então, assim, bom, tem duas coisas que ninguém entende muito bem, então elas devem estar relacionadas.
[00:13:27] O que o Rafael está dizendo é que a quântica aparece como uma forma de tentar explicar coisas que ninguém consegue explicar de outras maneiras.
[00:13:35] Muitas vezes porque essas coisas não são científicas mesmo.
[00:13:39] Só que para dar esse ar de comprovação e aumentar o hype, a galera finge que esse fenômeno é explicado pela ciência quântica.
[00:13:46] E isso meio que funciona na cabeça de muitas pessoas, porque como a gente não entende muito bem o que é quântica,
[00:13:52] fica fácil de acreditar que ela pode explicar coisas incompreensíveis que, na verdade, ela não explica.
[00:13:58] Agora, tendo em mente que a quântica é realmente complexa, mas não está associada a fenômenos mágicos ou alinhamentos energéticos,
[00:14:06] vamos tentar explicar o que ela realmente é e onde a gente tem contato com ela de verdade no nosso dia a dia.
[00:14:22] Então a gente usa a teoria quântica aí para explicar as propriedades das partículas elementares,
[00:14:29] então as propriedades de materiais, semicondutores, isolantes, condutores,
[00:14:38] para explicar, por exemplo, a supercondutividade.
[00:14:42] Em astrofísica a gente precisa de quântica para entender a evolução das estrelas,
[00:14:48] em cosmologia a gente precisa de quântica para entender a evolução do universo, inflação e assim vai.
[00:14:56] Então, quer dizer, é uma teoria que permeia todos os fenômenos físicos.
[00:15:02] Isso tudo pode parecer super tecnológico e recente, mas a história da quântica começou já tem bastante tempo.
[00:15:09] Esse foi, inclusive, um dos motivos que fez a gente querer falar sobre isso por aqui.
[00:15:14] O ano de 2025 foi declarado pela Unesco como o Ano Internacional da Ciência e Tecnologias Quânticas,
[00:15:21] celebrando os 100 anos do desenvolvimento das equações fundamentais que estruturaram matematicamente a mecânica quântica.
[00:15:29] Eu conversei com o Rafael e com a Nara em um evento de comemoração dos 100 anos da quântica
[00:15:35] que o Instituto de Física da URGS organizou lá em Porto Alegre.
[00:15:39] O pessoal do Fronteiras me convidou para participar do evento e mediar uma mesa redonda sobre divulgação científica.
[00:15:46] Foi incrível, mas agora voltamos com o Rafael.
[00:15:51] Física Quântica
[00:15:56] A física quântica surgiu na virada do século XIX para o século XX,
[00:16:02] quando cientistas começaram a explorar os recônditos mais microscópicos da matéria,
[00:16:10] então esse plano de interação entre luz e matéria, moléculas, átomos.
[00:16:17] O que se percebeu é que na verdade essa teoria, esse conjunto de regras que nasceram aí para descrever esses fenômenos microscópicos,
[00:16:25] na verdade tem aplicação em uma gama muito maior de fenômenos.
[00:16:30] Os cientistas que propuseram essa teoria foram os físicos Werner Heisenberg, um alemão, e Erwin Schrödinger, um austríaco,
[00:16:39] que se basearam na tese de doutorado do francês Louis de Broglie publicada em 1925,
[00:16:46] que apresentava a ideia revolucionária de que a matéria possui uma natureza ondulatória.
[00:16:52] Na física clássica, que é o nosso dia a dia, a gente tem dois tipos de objetos físicos muito distintos
[00:16:58] e que apresentam propriedades muito diferentes que são partículas grandes classes, partículas e ondas.
[00:17:04] Só que depois dessa primeira revolução quântica, a gente passou a entender que um mesmo objeto quântico
[00:17:10] pode se comportar tanto como onda quanto como partícula,
[00:17:14] e que suas propriedades apresentam uma dualidade.
[00:17:17] Todos os fenômenos não intuitivos dos sistemas quânticos vêm justamente dessa propriedade.
[00:17:22] Aqui, a Nara Rubiano vai ajudar a gente a entender o que é essa dualidade onda-partícula.
[00:17:28] As partículas são objetos localizados centralizados de uma regiãozinha do espaço.
[00:17:33] Ou seja, são pontos que a gente consegue estabelecer onde estão num determinado momento.
[00:17:39] Já os objetos físicos chamados ondas não estão bem localizados, não são bolinhas,
[00:17:44] eles são como uma onda no mar. Ela está espalhada ao longo de toda a crista da onda, por exemplo,
[00:17:50] e ela caminha, mas ela caminha como um todo, ela não caminha como um pequeno ponto que está se movendo.
[00:17:57] Pensa na diferença entre tentar acompanhar o movimento de uma onda e o movimento de um surfista em cima dessa onda,
[00:18:04] que aqui, nesse exemplo, representa o comportamento de uma partícula.
[00:18:08] Então, essa diferença básica entre essas duas categorias leva a várias implicações.
[00:18:13] Se você deixar uma partícula interagir com alguma coisa ou uma onda interagir com alguma coisa,
[00:18:18] a onda vai ter a propriedade, a capacidade de contornar a pedra,
[00:18:24] enquanto que uma embarcação, uma pessoa ali, ela não vai contornar, ela vai colidir.
[00:18:30] Tá, até que deu pra entender mais ou menos o que diferencia uma onda de uma partícula na física clássica.
[00:18:36] Agora, vamos entender como elas funcionam na física quântica.
[00:18:39] Um objeto quântico contém já essa dualidade de onda e partícula.
[00:18:44] Então, ele é as duas coisas ao mesmo tempo, mas dependendo de como a gente observa esse objeto quântico,
[00:18:52] ele vai ter uma característica mais relevante do que a outra.
[00:18:55] Então, dependendo do tipo de observação que a gente faz,
[00:18:59] ou do tipo de interação desse objeto quântico com alguma outra coisa do universo,
[00:19:05] ele vai reagir como uma onda ou ele vai reagir como uma partícula.
[00:19:10] O que pode variar também é o que o observador, ou seja, o cientista que tá ali fazendo um experimento com objetos quânticos quer avaliar.
[00:19:18] Se o objetivo é estudar as propriedades da partícula, o experimento é feito de uma forma.
[00:19:23] Mas se o que o pesquisador quer é entender as propriedades ondulatórias de determinada matéria,
[00:19:28] o experimento é desenhado de maneira diferente.
[00:19:31] Eu sei, pra mim isso tudo também parece ficção científica,
[00:19:35] mas eu juro que a quântica já tá no nosso dia a dia há bastante tempo.
[00:19:40] Eu sou capaz de apostar que você usou alguma coisa que depende dela hoje mesmo.
[00:19:45] O Rafael tinha uma gama gigante de exemplos na manga.
[00:19:49] Por exemplo, provavelmente a gente, o que eu tô falando aqui tá chegando até vocês via fibras ópticas, né?
[00:19:57] Nessas fibras ópticas a gente usa luz laser.
[00:20:00] Luz laser pra explicar as propriedades dela, pra fazer engenharia de uma fibra óptica,
[00:20:05] entender as propriedades como a gente usa ela pra enviar informação, tem que ter pista quântica.
[00:20:14] Isso também vale pra vários exames de imagem que vez ou outra a gente tem que fazer,
[00:20:19] tipo uma tomografia ou ressonância magnética.
[00:20:22] Mas esses exemplos foram só o começo.
[00:20:25] A luz já tem muito mais quântica no nosso dia a dia.
[00:20:28] As placas solares também só puderam existir a partir da compreensão do funcionamento dos fótons, as partículas da luz.
[00:20:35] Então a luz bate, ela excita um elétron, gera um elétron ali com energia que,
[00:20:41] nas condições apropriadas, vai gerar uma corrente elétrica que a gente usa pra gerar energia elétrica.
[00:20:46] Então pra entender esse fenômeno a gente precisa de novo de física quântica.
[00:20:50] Não é de se surpreender que é na área da tecnologia que a quântica brilha mesmo.
[00:20:55] São tantas possibilidades que normalmente suas aplicações são divididas em quatro categorias.
[00:21:00] Uma é a computação quântica, que é a ideia de ter um computador que use esses novos ingredientes,
[00:21:07] esses novos recursos pra algoritmos mais eficientes, mais rápidos, mais acurados.
[00:21:15] A segunda é a comunicação e criptografia, que usa os efeitos quânticos pra tornar a troca de informações online mais segura.
[00:21:22] Você já deve ter visto um recado no aplicativo de mensagem verdinho dizendo que sua conversa tá protegida por criptografia quântica, né?
[00:21:30] O Prêmio Nobel de Física de 2025, anunciado há pouquinho tempo, tá diretamente relacionado com essas duas categorias.
[00:21:38] O britânico John Clark, o francês Michel Devoret e o americano John Martinez,
[00:21:44] dividiram o prêmio pela descoberta de que fenômenos quânticos podem acontecer mesmo em sistemas macroscópicos, como um circuito elétrico.
[00:21:53] E esse conceito da transposição da física clássica pra física quântica,
[00:21:57] é justamente a base pro desenvolvimento de tecnologias como a computação e a criptografia quânticas.
[00:22:04] A terceira grande área, que é o sensoriamento quântico, ou a metrologia quântica,
[00:22:10] que é a ideia de que sistemas quânticos eles são extremamente sensíveis.
[00:22:14] Significa que a gente pode desenvolver sensores muito mais acurados, né?
[00:22:18] Então, por exemplo, pra medir um campo magnético, pra medir um campo gravitacional, enfim.
[00:22:26] E a quarta é a simulação quântica, que serve justamente pra ajudar a descrever, olha só, outros fenômenos quânticos.
[00:22:33] Isso porque, pra descrição de alguns cenários, é necessária uma quantidade absurda de combinações possíveis.
[00:22:40] Então, assim, só pra ter uma ideia, né, por exemplo, se eu quiser fazer 4 átomos de chumbo,
[00:22:45] eu precisaria pra fazer uma descrição fina de todos os graus de liberdade que eu tenho ali, de 2 elevado a 300 bits.
[00:22:55] 2 elevado a 300 bits é o número de átomos estimados em todo o universo.
[00:23:00] Então, o que eu tô dizendo é que pra descrever um sistema de 4 átomos de chumbo,
[00:23:05] eu precisaria pra descrever as propriedades quânticas desse cara,
[00:23:09] eu precisaria de todo o universo só pra guardar essa informação.
[00:23:13] Esses são cálculos impossíveis pra um computador padrão, desses que a gente tem em casa.
[00:23:18] Pra isso, são necessários os tais computadores quânticos.
[00:23:21] Mas, segundo Rafael, talvez logo logo a gente tenha acesso a um pouquinho mais dessa tecnologia.
[00:23:30] Pode ser que daqui a pouco tempo, a inteligência artificial que você usa aí no seu dispositivo
[00:23:34] acesse um computador quântico central pra fazer parte dos cálculos, enfim.
[00:23:39] Essas aplicações da Quântica em tecnologias do cotidiano, principalmente em princípios de comunicação,
[00:23:45] deram corpo pra segunda revolução do universo quântico.
[00:23:49] Então, o que a gente tem que fazer pra fazer isso?
[00:23:52] Essas aplicações da Quântica em tecnologias do cotidiano, principalmente em princípios de comunicação,
[00:23:58] deram corpo pra segunda revolução quântica.
[00:24:01] A primeira foi a elaboração da teoria quântica em si, lá em 1925.
[00:24:07] O que vai ser a terceira eu não faço ideia.
[00:24:10] O Rafael, a gente já te falou, também é divulgador científico.
[00:24:13] Ele escreveu até um livro sobre o tema, o Incerteza Quântica,
[00:24:16] em que ele aborda os principais aspectos da Segunda Revolução Quântica
[00:24:20] em linguagem acessível pra não especialistas.
[00:24:23] Como a nossa ideia com esse episódio era tentar explicar o melhor que a gente pudesse,
[00:24:29] como funciona a Quântica, como funciona a Quântica.
[00:24:34] Como a nossa ideia com esse episódio era tentar explicar o melhor que a gente pudesse,
[00:24:39] como funciona a Quântica, a gente pediu algumas dicas pro autor
[00:24:43] e perguntou qual era a maior dificuldade pra falar sobre esse assunto pro público geral.
[00:24:49] E a dificuldade, eu diria, é justamente encontrar quem tenha 10 horas à disposição, não?
[00:24:56] É, acho que um podcast de 10 horas talvez não funcionasse muito bem.
[00:25:00] Mas eu entendo o ponto dele.
[00:25:02] É que falar de temas complexos e pouco presentes no dia a dia leva tempo.
[00:25:06] É preciso calma pra explicar as coisas do melhor jeito possível.
[00:25:09] E nesse mundo louco de redes sociais e pouca paciência pra ler ou estudar,
[00:25:14] tirar um tempão pra entender Quântica pode não ser tão fácil mesmo.
[00:25:18] Nos resta acreditar que com o tempo e com o acesso das pessoas a cada vez mais tecnologias,
[00:25:23] aos pouquinhos a ideia da Quântica vai enraizando na gente.
[00:25:27] A gente não tá acostumado a pensar dessa forma.
[00:25:30] E isso acontece naturalmente com várias teorias científicas ao longo da história.
[00:25:45] Pelo menos com a Nara foi mais ou menos assim também.
[00:25:48] Acho que vai demorar muito pra aprender bastante, mas eu vejo que aos poucos eu vou…
[00:25:53] Cada vez que eu revisito esses conceitos mais fundamentais,
[00:25:57] eu vou entendendo um pouquinho melhor e vou aceitando também que algumas coisas a gente tem que aceitar,
[00:26:04] porque funcionam, que é o que a gente faz em ciência.
[00:26:07] A gente precisa achar teorias que funcionam.
[00:26:10] Por mais que elas pareçam estranhas ou contraintuitivas no começo, elas funcionam.
[00:26:17] E no fim, talvez isso seja o mais importante.
[00:26:20] Esse episódio foi uma produção do Oxigênio em parceria com Fronteiras da Ciência.
[00:26:25] O roteiro foi escrito pelo Duarda Moreira e pela Maíra Trinca,
[00:26:29] com revisão da Lívia Mendes, da Carolina Brito e do Jefferson Arezón.
[00:26:33] A locução que você ouviu no início do episódio, reproduzindo a fala do professor Shankar,
[00:26:38] foi feita pelo Pedro Belo.
[00:26:40] Os trabalhos técnicos são da Caroline Cabral,
[00:26:43] a trilha sonora é do Blue Dot,
[00:26:47] e a vinheta do Oxigênio foi produzida pelo Elias Mendes.
[00:26:50] O Oxigênio conta com o apoio da Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp.
[00:26:55] Esperamos que você tenha gostado e entendido um pouco o que seja o que é a Quântica.
[00:27:01] Você pode deixar um comentário na sua plataforma favorita,
[00:27:04] contando o que achou que a gente vai adorar saber.
[00:27:07] Nos encontramos no próximo episódio. Até lá!
[00:27:16] Você ouviu Oxigênio,
[00:27:19] um programa de jornalismo científico cultural
[00:27:22] produzido pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo,
[00:27:26] o LabJOR da Unicamp.
[00:27:37] O Programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGAS.
[00:27:46] O Programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGAS.