RT Comentado 49 - Adeus, Salazar!
Resumo
Este episódio narra a vida e o governo de António de Oliveira Salazar, o ditador português que comandou o país por 36 anos através do regime autoritário do Estado Novo. O episódio detalha sua ascensão ao poder, a criação da polícia política PIDE, a repressão sistemática, a censura e as guerras colonais travadas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
A narrativa então se concentra no evento que marcou o fim de seu governo efetivo: uma queda de uma cadeira em agosto de 1968, que resultou em um hematoma cerebral e, posteriormente, um AVC devastador. Após ser afastado do poder e substituído por Marcelo Caetano, Salazar nunca foi informado de sua destituição. Seu gabinete manteve uma elaborada farsa por 20 meses, simulando reuniões de governo, forjando entrevistas e produzindo um jornal exclusivo que omitia qualquer menção ao novo governo.
Salazar viveu seus últimos anos completamente iludido, acreditando que ainda governava Portugal, enquanto o país continuava sob o mesmo regime autoritário e imerso na Guerra Colonial. Ele morreu em julho de 1970, ainda convencido de seu poder. O episódio conclui com a Revolução dos Cravos em 25 de abril de 1974, que finalmente derrubou o Estado Novo, libertou presos políticos, acabou com a censura e permitiu a independência das colônias, encerrando mais de quatro décadas de ditadura.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução ao tema: a vida e o fim de Salazar — O episódio começa apresentando António de Oliveira Salazar como um ditador que governou Portugal por 36 anos com mão de ferro, promovendo repressão, tortura e guerras colonais. É destacada a ironia final: seus últimos dois anos de vida foram passados acreditando que ainda governava, quando na verdade havia sido afastado do poder após um acidente doméstico. O narrador convida o ouvinte a entender quem foi este homem e o terror que espalhou.
- 00:02:43 — Origens e formação de António de Oliveira Salazar — É traçada a biografia inicial de Salazar: nascido em 1889 em Santa Comba Dão, filho de uma família rural, entrou no seminário aos 11 anos mas não seguiu a carreira religiosa. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra com altas notas, onde passou a lecionar Economia, Política e Finanças. Antes do poder, era descrito como um professor, intelectual católico conservador de hábitos modestos, sem indicações de que se tornaria um ditador longevo.
- 00:04:44 — Ascensão ao poder e criação do Estado Novo — Após o golpe militar de 28 de maio de 1926, Salazar foi escolhido por Oscar Carmona para ser ministro das Finanças, ganhando a reputação de ‘Mago das Finanças’ ao sanear as finanças públicas. Em julho de 1932, foi nomeado presidente do Conselho de Ministros. Em 1933, criou o Estado Novo através de uma nova constituição aprovada por um plebiscito manipulado, estabelecendo uma ditadura antiliberal, anticomunista e antidemocrática baseada na trilogia ‘Deus, Pátria e Família’.
- 00:06:47 — A repressão do Estado Novo e a criação da PIDE — Para garantir a ordem, Salazar criou uma das polícias políticas mais temidas da Europa: inicialmente PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), depois PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado). Sua função era vigiar a população, expulsar opositores, aplicar censura e controlar fronteiras. Salazar tinha conhecimento e aprovava o uso rotineiro de violência e tortura. A PIDE fez dezenas de milhares de vítimas, usando uma vasta rede de informantes civis, os ‘bufos’.
- 00:09:22 — O Império Colonial e o início da Guerra Colonial — Salazar recusou-se a negociar a descolonização, referindo-se às colônias como ‘províncias ultramarinas’. Quando movimentos de libertação começaram a lutar pela independência, ele respondeu com força. O ano de 1961 foi descrito como ‘o ano horrível de Salazar’, marcado pelo sequestro do navio Santa Maria, ataques do MPLA em Luanda, massacres da UPA em Angola e a invasão e anexação de Goa, Damão e Diu pela União Indiana. Salazar ordenou ‘Para Angola, rapidamente e em força’, dando início a uma guerra que duraria 13 anos.
- 00:11:07 — O custo humano e financeiro da Guerra Colonial — A guerra se espalhou para Guiné-Bissau (1963) e Moçambique (1964). Morreram cerca de 8.831 a 10.500 militares portugueses, e estima-se um mínimo de 100.000 mortos civis do lado africano. As guerras consumiram em média 33% do orçamento do Estado, ultrapassando 40% nos anos 60. Tropas coloniais e a PIDE cometeram atrocidades e crimes hediondos. Portugal ficou isolado diplomaticamente, com as Nações Unidas defendendo a descolonização.
- 00:13:52 — O acidente fatal: a queda da cadeira em agosto de 1968 — Em 3 de agosto de 1968, durante as férias no forte de Santo António do Estoril, Salazar caiu de uma velha cadeira de lona que se partiu, batendo com a cabeça no chão de pedra. Ele pediu segredo sobre o acidente. Seu médico, Eduardo Coelho, examinou-o dias depois e alertou para o risco de um hematoma cerebral. Os sintomas pioraram progressivamente: Salazar não conseguia responder perguntas simples ou se lembrar onde se formou. Mais de um mês depois, foi levado urgentemente para Lisboa.
- 00:16:47 — A doença, a operação e o afastamento do poder — Salazar foi operado com sucesso de um hematoma intracraniano no Hospital da Cruz Vermelha em Lisboa. No entanto, em 16 de setembro, sofreu um profundo AVC do lado direito do crânio (a operação foi do lado esquerdo) e entrou em coma. Os médicos consideraram seu estado irreversível. O presidente Américo Tomás, aconselhado por médicos, reuniu o Conselho de Estado e, em 26 de setembro, nomeou Marcelo Caetano como novo presidente do Conselho de Ministros. Salazar foi afastado do governo no dia seguinte, ainda em coma.
- 00:18:51 — A farsa: mantendo Salazar na ignorância — Após ter alta em fevereiro de 1969, Salazar, debilitado e com perda de memória recente, acreditava que ainda governava Portugal. Seu gabinete decidiu mantê-lo nessa ilusão. Durante 20 meses, até sua morte, encenaram uma farsa diária: ministros o visitavam e fingiam que ele ainda mandava, entrevistas de rádio e TV eram forjadas. O diretor do Diário de Notícias produzia um exemplar único do jornal todas as noites, excluindo menções a Marcelo Caetano e adicionando referências a falsas reuniões de governo de Salazar.
- 00:21:26 — A morte de Salazar e o legado do Estado Novo — António de Oliveira Salazar faleceu em 27 de julho de 1970, aos 81 anos, ainda acreditando ser o presidente do Conselho. A ironia é destacada: o ditador do controle absoluto perdeu completamente o controle e nem soube. O regime que criou, o Estado Novo, sobreviveu mais quatro anos sob Marcelo Caetano, até ser derrubado pela Revolução dos Cravos em 25 de abril de 1974. A revolução pôs fim à ditadura, dissolveu a polícia política, libertou presos políticos, acabou com a censura e permitiu a independência das colônias.
Dados do Episódio
- Podcast: Viracasacas Podcast
- Autor: Viracasacas Podcast
- Categoria: News Politics
- Publicado: 2025-11-07T05:30:08Z
- Duração: 00:25:22
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/viracasacas-podcast/dee3a250-f2f5-0134-ec5e-4114446340cb/rt-comentado-49-adeus-salazar/b7e10f91-2cf1-435d-ac84-21fd2c8a14ae
- UUID Episódio: b7e10f91-2cf1-435d-ac84-21fd2c8a14ae
Dados do Podcast
- Nome: Viracasacas Podcast
- Tipo: episodic
- Site: https://www.spreaker.com/podcast/viracasacas-podcast—6704831
- UUID: dee3a250-f2f5-0134-ec5e-4114446340cb
Transcrição
[00:00:00] Olá pessoas, hoje vamos falar sobre um ditador, mas não qualquer ditador.
[00:00:15] Vamos falar sobre um homem que governou Portugal por 36 anos com mão de ferro, que construiu
[00:00:20] um dos regimes mais longevos da Europa, que mandou milhares para a prisão e para a tortura,
[00:00:25] que travou guerras coloniais sangrentas na África, e que, nos últimos dois anos de
[00:00:31] sua vida, viveu acreditando que ainda governava quando na verdade não governava mais nada.
[00:00:37] Mas antes, aquele lembrete, apoia o Viracazacas, seja recomendando, curtindo e compartilhando
[00:00:43] nossos episódios, ou financeiramente a partir de 5 reais por mês lá no apoia.se barra
[00:00:49] viracazacas, na Aurelo CC, ou por pix recorrente pelo Viracazacas Podcast.
[00:00:55] A gente agradece de coração a todos os apoiadores e apoiadoras.
[00:01:06] Agora, imagine a cena.
[00:01:08] Um homem idoso, deitado numa cama, recebe visitas de ministros.
[00:01:12] Ele dá ordens, assina documentos, opina sobre política internacional.
[00:01:18] Ele lê o jornal todas as manhãs e vê notícias sobre suas reuniões de governo.
[00:01:22] Ele está governando um país.
[00:01:24] Só.
[00:01:25] Só que não.
[00:01:26] O homem Antônio de Oliveira Salazar, em agosto de 1968, acabou de sofrer um acidente
[00:01:32] doméstico, uma queda de cadeira, que provocou um hematoma cerebral e depois um AVC devastador.
[00:01:39] Marcelo Caetano já foi nomeado novo presidente do Conselho de Ministros e Salazar foi afastado
[00:01:44] do poder.
[00:01:45] Mas ninguém contou isso a ele.
[00:01:48] Durante dois anos, até sua morte em julho de 1970, Salazar viveu uma farsa elaborada.
[00:01:55] Era um teatro macabro.
[00:01:57] Um adeus lena em português, décadas antes do filme alemão.
[00:02:01] Pense na ironia.
[00:02:03] Um homem que passou décadas controlando cada detalhe de Portugal, que tinha uma polícia
[00:02:08] política com dezenas de milhares de agentes e informantes vigiando cada movimento da população,
[00:02:13] que censurava jornais, que punia qualquer dissidência.
[00:02:17] Esse homem passou seus últimos dias sendo ele próprio enganado.
[00:02:21] Completamente.
[00:02:23] Mas para entender por que essa fodação, eu vou te contar uma história.
[00:02:25] A farsa aconteceu porque as pessoas ao redor de Salazar tiveram tanto medo de contar
[00:02:30] a verdade a um velho morimbundo, a gente precisa voltar no tempo.
[00:02:34] Precisa entender quem foi este homem.
[00:02:36] E principalmente, precisa entender o terror que ele espalhou.
[00:02:40] Então vamos começar do começo.
[00:02:43] Quem era Antônio de Oliveira Salazar antes de ser Salazar?
[00:02:48] Antônio de Oliveira Salazar nasceu em 28 de abril de 1889 em Vimiero, São Paulo.
[00:02:55] Em Santa Combadão, Portugal.
[00:02:57] Reinava na época Dom Luís I.
[00:03:01] Era filho de uma família rural.
[00:03:03] O pai era feitor numa grande propriedade.
[00:03:06] Salazar tinha quatro irmãs, nunca se casou, nunca teve filhos, era católico praticante.
[00:03:13] Com apenas 11 anos entrou no seminário de Viseu, mas não seguiu a carreira religiosa.
[00:03:18] Foi cursar Direito na Universidade de Coimbra.
[00:03:21] Formou-se em Direito em 1914 com altas notas.
[00:03:25] E obteve o doutoramento na Universidade de Coimbra, onde passou a lecionar Economia, Política e Finanças.
[00:03:32] O poeta Fernando Pessoa escreveria em 1935 que Salazar era o produto de uma fusão de estreitezas.
[00:03:40] A da província, a do seminário e a da universidade.
[00:03:44] Em 1917, Salazar começou a carreira de professor de Economia e Finanças em Coimbra.
[00:03:49] Portugal participava da Primeira Guerra Mundial naquele momento.
[00:03:52] Era um tempo de grande agitação.
[00:03:55] Era uma agitação anticlerical e republicana.
[00:03:58] Entre 1920 e 1923, Salazar participou de palestras e debates e escreveu artigos.
[00:04:05] Leu autores como Charles Mourat e encíclicas de Papa Leão XIII.
[00:04:10] Frequentou o Centro Acadêmico da Democracia Cristã em Coimbra e foi provedor da Santa Casa de Misericórdia de Coimbra.
[00:04:18] Em 1921, foi eleito deputado por Guimarães pelo Centro Católico Português.
[00:04:25] Mas ficou apenas alguns dias no cargo.
[00:04:28] E este era o Salazar antes do poder.
[00:04:30] Um professor.
[00:04:31] Um intelectual católico conservador.
[00:04:34] Um homem com hábitos modestos, como seria descrito depois.
[00:04:38] Nada indicava que ele se tornaria um dos ditadores mais longevos da Europa.
[00:04:44] Mas então veio 28 de maio de 1926.
[00:04:48] Um golpe militar derrubou o regime republicano português.
[00:04:51] Portugal entrou numa ditadura militar.
[00:04:55] E Salazar foi escolhido pelo presidente Oscar Carmona para ocupar o cargo de ministro das Finanças.
[00:05:01] Foi um período curtíssimo, apenas duas semanas, e ele saiu do cargo.
[00:05:05] Mas voltou.
[00:05:06] Em 1928, Salazar retornou ao Ministério das Finanças e desta vez ficou.
[00:05:12] Entre 1928 e 1932, ele procedeu ao saneamento das finanças públicas portuguesas.
[00:05:19] Ganhou a reputação de Mago das Finanças.
[00:05:21] Um homem que salvou a economia portuguesa.
[00:05:23] Essa reputação o levou mais alto.
[00:05:27] Em julho de 1932, Salazar foi nomeado presidente do Conselho de Ministros,
[00:05:32] o equivalente a um primeiro-ministro.
[00:05:34] Ele tinha 43 anos.
[00:05:37] E ficaria nesse cargo pelos próximos 36 anos.
[00:05:42] Em 1933, Salazar criou o Estado Novo.
[00:05:46] Uma nova constituição foi aprovada por plebiscito
[00:05:48] num universo eleitoral de cerca de 1,3 milhão de eleitores,
[00:05:53] as abstenções e os votos em branco contaram como votos a favor.
[00:05:57] O número de nãos ficou em pouco mais de 6 mil votos.
[00:06:02] Com essa constituição, Salazar estabeleceu uma ditadura antiliberal, anticomunista e antidemocrática.
[00:06:09] A trilogia que orientava sua política era Deus, Pátria e Família.
[00:06:14] O Estado Novo era um regime corporativo, autoritário e conservador.
[00:06:18] Inspirado na doutrina social da Igreja Católica, um Estado de partido único.
[00:06:23] Salazar investiu na construção de escolas primárias, hospitais, estradas, barragens.
[00:06:29] Trouxe, segundo seus apoiadores, estabilidade e ordem ao país.
[00:06:33] Reorganizou as finanças.
[00:06:35] Mas essa estabilidade tinha um preço.
[00:06:37] Um preço alto.
[00:06:39] Para garantir essa ordem, Salazar precisava de ferramentas.
[00:06:43] Precisava de olhos em cada canto.
[00:06:45] Precisava de medo.
[00:06:47] Então ele criou uma das polícias políticas mais temidas da Europa.
[00:06:51] Essa polícia chamava-se PVD.
[00:06:53] Polícia de Vigilância e Defesa do Estado.
[00:06:56] Em 1945 foi renomeada como PIDE.
[00:06:59] Polícia Internacional de Defesa do Estado.
[00:07:03] Depois da morte de Salazar, seria chamada de Direção-Geral de Segurança, DGS.
[00:07:08] Seu papel? Vigiar a população.
[00:07:11] Expulsar os opositores do regime na metrópole e nas colônias.
[00:07:15] Aplicar a censura.
[00:07:17] Controlar estrangeiros e fronteiras.
[00:07:19] A PIDE foi o principal guardião de uma das mais longas
[00:07:21] ditaduras pessoais do século XX.
[00:07:25] Ao longo dos seus 41 anos de existência, fez dezenas de milhares de vítimas.
[00:07:30] Os números oficiais são assustadores.
[00:07:33] Segundo José Pedro Castanheira, jornalista que investigou os arquivos da PIDE,
[00:07:38] foram 29.510 presos políticos nominais.
[00:07:42] Mas esse é apenas o número dos presos registrados,
[00:07:46] dos que tiveram nome e ficha.
[00:07:48] Quantos outros passaram pela mão da PIDE,
[00:07:50] sem deixar rastro oficial?
[00:07:53] Não sabemos.
[00:07:55] Os presos políticos eram encarcerados em centros de detenção.
[00:07:59] E lá, a tortura era rotina.
[00:08:02] A polícia política usava informantes civis.
[00:08:05] Na linguagem popular, os bufos.
[00:08:07] Eles se encontravam em praticamente todos os setores da sociedade.
[00:08:11] Você nunca sabia quem estava ouvindo,
[00:08:14] quem estava anotando, quem iria delatar.
[00:08:17] E Salazar? Salazar tinha conhecimento.
[00:08:19] Tinha contatos quase diários com a PIDE.
[00:08:22] Ditava suas decisões finais sobre os assuntos levados a ele.
[00:08:26] Explicitou verbal e por escrito sua anuência ao uso rotineiro de violência.
[00:08:31] Vamos deixar claro.
[00:08:33] Salazar não era um ditador distante que não sabia o que acontecia nas prisões.
[00:08:38] Ele sabia. Ele aprovava.
[00:08:40] Segundo o jornalista italiano Marco Ferrari,
[00:08:43] Salazar praticava um sinistro micromanagement.
[00:08:47] Estudava as fichas de todos os opositores perseguidos,
[00:08:50] encarcerados e torturados pela PIDE.
[00:08:54] A PIDE era um Estado dentro do Estado.
[00:08:57] Um aparelho que acumulava poder e autonomia operacionais.
[00:09:00] Capaz de atuar com violência e impunidade.
[00:09:03] Seu poder era potencialmente ilimitado.
[00:09:07] Com o agravamento da Guerra Colonial na África, e já vamos chegar lá,
[00:09:11] a PIDE passou também a atuar fora das fronteiras portuguesas,
[00:09:15] em países vizinhos de Angola, Moçambique e Guiné.
[00:09:18] Assumiu-se como uma verdadeira polícia internacional.
[00:09:22] Havia o império colonial.
[00:09:24] Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe,
[00:09:29] Goa, Damão e Diu, na Índia.
[00:09:32] Timor, Macau.
[00:09:35] Enquanto outras nações europeias se retiravam de suas colônias africanas
[00:09:39] nas décadas de 1950 e 1960, Portugal não cedeu.
[00:09:44] Salazar recusou qualquer negociação.
[00:09:47] Ele acreditava que as colônias eram parte essencial de Portugal.
[00:09:51] Chamava-as de províncias ultramarinas.
[00:09:54] Então, quando os movimentos de libertação começaram a lutar pela independência,
[00:09:59] Salazar respondeu da única maneira que conhecia.
[00:10:02] Com força, com violência, com guerra.
[00:10:06] E essa guerra duraria 13 anos, custaria milhares de vidas e empurraria Portugal para o abismo.
[00:10:13] 1961 foi o ano horrível de Salazar.
[00:10:17] O ano horrível.
[00:10:19] Em janeiro, houve o sequestro do navio Santa Maria por opositores do regime.
[00:10:24] Em fevereiro, militantes de um movimento popular para a libertação de Angola, o MPLA,
[00:10:30] tentaram tomar de assalto esquadras de polícia em Luanda.
[00:10:33] Em março, a UPA, União das Populações de Angola,
[00:10:37] perpetrou massacres de colonos brancos em Angola.
[00:10:41] Em dezembro,
[00:10:42] a União Indiana invadiu e anexou Goa, Damão e Diu.
[00:10:47] Salazar não conseguiu impedir.
[00:10:51] Mas foi em Angola que começou a guerra que definiria os últimos anos do regime de Salazar.
[00:10:56] Uma guerra que duraria 13 anos, que se estenderia a três territórios,
[00:11:01] que imobilizaria mais de 800 mil portugueses e que custaria dezenas de milhares de vidas.
[00:11:07] Vamos começar pelos massacres.
[00:11:10] Em junho de 1960,
[00:11:11] no Massacre de Moeda,
[00:11:13] as estimativas variam de algumas dezenas a várias centenas de mortos.
[00:11:17] Na Baixa do Cassange, em janeiro de 1961,
[00:11:21] entre algumas centenas e possivelmente milhares, dependendo da fonte.
[00:11:26] Esses massacres denunciam o recurso sistemático a uma violência atroz e indiscriminada
[00:11:31] na gestão e domínio dos territórios colonizados por portugueses.
[00:11:36] E foi a resposta a essa violência que desencadeou a guerra.
[00:11:40] Salazar, numa frase que ficaria famosa, ordenou
[00:11:44] Para Angola, rapidamente e em força.
[00:11:47] Isso foi em 13 de abril de 1961,
[00:11:50] uma semana antes de partir o primeiro contingente de tropas portuguesas.
[00:11:55] Nesse ano, embarcaram 33 mil homens.
[00:11:59] A guerra começou em Angola em 1961,
[00:12:02] alastrou-se a Guiné-Bissau em 1963 e a Moçambique em 1964.
[00:12:08] Os números são devastadores.
[00:12:11] Segundo dados oficiais do Estado-Maior-Geral das Forças Armadas,
[00:12:15] morreram 8.831 militares portugueses de várias causas.
[00:12:20] Pesquisas mais recentes indicam números ainda maiores,
[00:12:24] quase 10.500 militares portugueses nos três territórios.
[00:12:29] Mas esses são apenas os militares portugueses.
[00:12:32] Do lado africano, o número mínimo de mortos civis chegaria aos 100 mil.
[00:12:37] Ninguém os contabilizou oficialmente.
[00:12:40] E o custo financeiro?
[00:12:42] As guerras coloniais consumiram meios financeiros.
[00:12:45] Durante os 13 anos, uma média de 33% do orçamento de Estado
[00:12:50] foram canalizados para a defesa.
[00:12:53] Nos anos 60, foram ultrapassados os 40%.
[00:12:57] Mas a violência não se limitava aos campos de batalha.
[00:13:01] Tropas coloniais portuguesas e a PIDE e DGS cometeram atrocidades,
[00:13:06] crimes hediondos.
[00:13:08] Enquanto isso, Portugal tornava-se mais isolado diplomaticamente.
[00:13:12] As Nações Unidas defendiam a descolonização.
[00:13:16] O mundo pressionava, mas Salazar recusava se aceder.
[00:13:20] Salazar, porém, não veria o fim da guerra.
[00:13:23] Seria apenas por meios diplomáticos e políticos,
[00:13:26] por iniciativa do poder revolucionário instituído em 1974 com a Revolução dos Cravos,
[00:13:32] que o conflito veria seu fim.
[00:13:34] Mas em 1968, a Revolução ainda estava a seis anos de distância.
[00:13:40] E Salazar ainda estava no poder.
[00:13:43] E foi nesse contexto – guerra sem fim, isolamento diplomático, economia sangrando –
[00:13:49] que chegou o verão de 1968.
[00:13:52] E com ele, uma cadeira quebrada numa tarde de agosto.
[00:13:57] Era 3 de agosto de 1968, no forte de Santo Antônio de Estoril.
[00:14:04] Antônio de Oliveira Salazar está de férias como todos os anos.
[00:14:08] Ele está acompanhado pela sua fiel governanta, Maria de Jesus Caetano Freire.
[00:14:13] É cedo.
[00:14:15] O podólogo Augusto Hilário já o aguarda.
[00:14:18] Salazar sofria de dores nos pés e precisava de tratamento regular.
[00:14:23] O presidente do conselho olha a barra do tejo e se deixa cair sobre uma velha cadeira de lona.
[00:14:29] A cadeira se parte em pedaços.
[00:14:31] Salazar bate com a cabeça no chão de pedra.
[00:14:34] Há várias versões sobre como exatamente aconteceu.
[00:14:38] Uma delas diz que Salazar estava distraído, lendo jornal, inclinando-se de forma apressada.
[00:14:44] Franco Nogueira, ministro dos negócios estrangeiros, afirma que Salazar se preparava para tratar dos calos
[00:14:51] e a queda foi testemunhada pelo podólogo e pela governanta.
[00:14:55] Outra versão é que a perna da cadeira não aguentou o peso do corpo.
[00:14:59] E há até quem diga que não havia cadeira nenhuma,
[00:15:02] que Salazar simplesmente caiu desamparado no chão.
[00:15:06] O que todos concordam é
[00:15:08] ele bateu com a cabeça nas lajes do terraço com violência.
[00:15:12] O podólogo o ajuda a levantar-se e a se sentar em outra cadeira.
[00:15:17] Salazar o obriga a jurar que não dirá uma palavra sobre o acidente.
[00:15:21] O ditador pede segredos sobre a queda.
[00:15:24] Não quer que sejam chamados médicos.
[00:15:27] Salazar era visitado pelo seu médico, professor Eduardo Coelho,
[00:15:31] de duas em duas semanas.
[00:15:34] A próxima visita seria em dois dias.
[00:15:37] Só então o chefe do governo, ainda no forte,
[00:15:40] lhe contou que tinha batido com a cabeça no chão.
[00:15:44] Eduardo Coelho fez um exame neurológico rápido
[00:15:47] e não encontrou nenhuma alteração suspeita,
[00:15:50] mas ficou preocupado.
[00:15:52] Fez um aviso sério ao presidente do conselho e à Maria de Jesus.
[00:15:56] Depois de uma queda daquelas,
[00:15:58] poderia se formar um hematoma na cabeça,
[00:16:00] que agiria silenciosamente durante dias, semanas ou meses.
[00:16:05] Se aparecesse algum sintoma estranho,
[00:16:07] deveriam ligar para ele imediatamente.
[00:16:10] E os sintomas apareceram.
[00:16:13] Salazar começou a piorar.
[00:16:15] Apresentava sintomas cada vez mais graves,
[00:16:18] que indicavam a existência de uma lesão cerebral grave.
[00:16:21] Estava cada vez pior.
[00:16:23] Não conseguia responder as perguntas mais simples
[00:16:26] e nem se recordava em que universidade se formou.
[00:16:30] Apenas mais de um mês depois da queda,
[00:16:32] Salazar finalmente cedeu aos médicos.
[00:16:35] No início da noite,
[00:16:37] foi transportado com urgência para Lisboa
[00:16:39] para realizar exames
[00:16:41] e diagnosticar o que estava provocando enormes dores de cabeça
[00:16:45] e distúrbios no comportamento.
[00:16:47] Portugal só soube do acontecimento no dia 7 de setembro,
[00:16:51] quando a emissora nacional informou que o presidente do conselho
[00:16:54] tinha sido operado devido a um hematoma intracraniano
[00:16:58] por causa da queda de uma cadeira.
[00:17:00] Nessa noite, Salazar foi submetido a exames.
[00:17:05] Os médicos decidiram operá-lo imediatamente.
[00:17:08] O sexto piso do Hospital da Cruz Vermelha em Lisboa foi evacuado.
[00:17:13] A operação, conduzida por dois neurocirurgiões,
[00:17:17] terminou com êxito ao nascer do sol.
[00:17:20] Nos dias seguintes,
[00:17:22] o presidente do conselho passeava pelo quarto e conversava.
[00:17:25] Ganhava vida. Havia esperança.
[00:17:28] O médico chegou a declará-lo curado e apto para retomar a agenda do governo.
[00:17:33] Mas então veio o 16 de setembro.
[00:17:36] Salazar sofreu um profundo acidente vascular do lado direito do crânio.
[00:17:41] Tinha sido operado do lado esquerdo.
[00:17:44] Entrou em coma profundo.
[00:17:46] Os médicos perdiam esperança.
[00:17:48] A morte era esperada a todo momento.
[00:17:51] Na sequência desses acontecimentos,
[00:17:54] o presidente da República, Mérico Tomás,
[00:17:56] aconselhou-se com vários médicos portugueses e estrangeiros.
[00:18:00] Foram unânimes.
[00:18:02] O estado de saúde de Salazar era irreversível.
[00:18:05] Ele ficaria incapacitado mesmo em caso de sobrevivência.
[00:18:09] Américo Tomás reuniu o Conselho de Estado para proceder à substituição de Salazar.
[00:18:15] Em 26 de setembro,
[00:18:17] o presidente nomeou Marcelo Caetano como presidente do Conselho de Ministros.
[00:18:22] Salazar foi afastado do governo no dia seguinte.
[00:18:26] Salazar ainda estava no hospital,
[00:18:29] em coma,
[00:18:30] quando isso aconteceu.
[00:18:32] Alguns jornais começaram a preparar as edições especiais da morte de Salazar
[00:18:36] depois de décadas de poder.
[00:18:38] Mas Salazar sobreviveu.
[00:18:41] Teve alta apenas em fevereiro de 69
[00:18:44] e foi transferido de volta para a residência oficial.
[00:18:47] E aqui começa a parte mais surreal desta história.
[00:18:51] Ninguém lhe disse que estava aposentado.
[00:18:54] Ninguém lhe disse
[00:18:55] que já não era o chefe do governo.
[00:18:58] Salazar ficou muito debilitado.
[00:19:01] Foi assolado por paralisia em alguns membros do corpo,
[00:19:04] além de perda de memória recente.
[00:19:06] Quando acordou, acreditava que ainda governava Portugal.
[00:19:11] E o seu gabinete decidiu mantê-lo nessa ilusão.
[00:19:15] Durante os 20 meses seguintes até a sua morte,
[00:19:18] o gabinete de Salazar encenou diariamente
[00:19:21] uma farsa para manter o ditador na ignorância,
[00:19:24] sobre a mais real das quedas,
[00:19:26] a queda do poder.
[00:19:28] Reuniões de conselho e visitas de Estado eram simuladas.
[00:19:32] Antigos ministros o visitavam
[00:19:34] e faziam de conta que ele ainda mandava.
[00:19:37] Entrevistas de rádio e televisão eram forjadas.
[00:19:40] E havia o jornal.
[00:19:42] O diretor do diário de notícias
[00:19:44] reescrevia as notícias todas as noites.
[00:19:47] Produzia um exemplar único do jornal,
[00:19:50] exclusivo para Salazar.
[00:19:52] Nesse exemplar,
[00:19:54] Castro excluía menções a Marcelo Caetano
[00:19:57] e adicionava referências às falsas reuniões
[00:20:00] de Antônio Salazar como presidente do Conselho.
[00:20:03] Segundo Marco Ferrari,
[00:20:05] para dar mais verossimilhança à farsa,
[00:20:07] às vezes os interlocutores falavam mal de Marcelo Caetano
[00:20:11] durante as visitas.
[00:20:13] Em 1969, um jornalista francês entrevistou Salazar em São Bento.
[00:20:18] O ex-ditador seguia atento à política internacional.
[00:20:22] Comentou, por exemplo,
[00:20:24] a saída de De Gaulle do governo da França.
[00:20:27] Mas nada sabia do próprio país.
[00:20:30] Quando perguntado sobre Marcelo Caetano,
[00:20:32] Salazar disse
[00:20:33] É inteligente e tem autoridade,
[00:20:35] mas se equivoca ao não querer trabalhar conosco no governo.
[00:20:39] Porque, como vocês sabem,
[00:20:40] ele não é parte do governo.
[00:20:42] Segue dando aulas de direito na universidade
[00:20:45] e às vezes me escreve dizendo o que pensa das minhas iniciativas.
[00:20:49] Marcelo Caetano era, naquele momento,
[00:20:51] presidente do conselho e governava Portugal há mais de um ano.
[00:20:55] Mas Salazar não sabia.
[00:20:57] Por que fizeram isso?
[00:20:59] Por que mantiveram a farsa?
[00:21:01] Segundo Marco Ferrari, foi medo.
[00:21:04] A figura de Salazar exercia tanto terror
[00:21:07] que seu gabinete jamais teve coragem de contar
[00:21:10] que ele havia sido destituído.
[00:21:12] Num país dividido entre os que apoiavam o regime
[00:21:15] e os que eram aterrorizados pela mão de ferro repressiva,
[00:21:19] a situação semicomatosa de Salazar
[00:21:22] foi mantida em segredo,
[00:21:24] inclusive dele próprio.
[00:21:26] E assim Salazar viveu seus últimos dias.
[00:21:29] Recebendo visitas,
[00:21:31] lendo seu jornal exclusivo,
[00:21:33] dando opiniões sobre política,
[00:21:35] acreditando que ainda governava.
[00:21:38] Esse homem passou seus últimos 20 meses completamente enganado.
[00:21:43] Até que, no dia 27 de julho de 1970,
[00:21:47] Antônio de Oliveira Salazar faleceu.
[00:21:50] Tinha 81 anos.
[00:21:52] Morreu acreditando que era presidente do Conselho de Ministros de Portugal.
[00:21:56] A ironia era completa.
[00:21:58] O ditador do controle absoluto
[00:22:01] havia perdido completamente o controle
[00:22:04] e nem sabia.
[00:22:05] Mas o regime que ele criou não morreu com ele.
[00:22:08] O Estado Novo continuou.
[00:22:10] Marcelo Caetano seguiu governando.
[00:22:12] A guerra colonial continuou.
[00:22:14] A polícia continuou prendendo e torturando.
[00:22:16] A censura continuou funcionando.
[00:22:19] O regime ditatorial de Salazar sobreviveria mais quatro anos
[00:22:23] até o dia 25 de abril de 1974.
[00:22:27] Naquele dia,
[00:22:29] diversas unidades militares comandadas por oficiais das Forças Armadas
[00:22:33] marcharam sobre Lisboa,
[00:22:35] ocupando uma série de pontos estratégicos.
[00:22:38] As guarnições militares que supostamente apoiavam o regime
[00:22:42] renderam-se e juntaram-se aos demais.
[00:22:44] O regime caiu,
[00:22:45] sem ter quase quem o defendesse.
[00:22:48] Os acontecimentos deste dia culminaram com a rendição de Marcelo Caetano.
[00:22:52] Foi uma revolução considerada não sangrenta e pacífica.
[00:22:56] O golpe militar contou com a presença da população
[00:22:59] cansada da repressão,
[00:23:01] da censura,
[00:23:02] da guerra colonial
[00:23:03] e da crise econômica.
[00:23:05] Ficou conhecida como a Revolução dos Cravos.
[00:23:08] Salazar era finalmente enterrado de vez.
[00:23:11] Neste momento não adianta falar de números.
[00:23:14] Números não contam o medo,
[00:23:16] o medo de falar,
[00:23:17] o medo de pensar diferente,
[00:23:19] o medo de ter um vizinho que fosse um bufo,
[00:23:21] o medo de uma batida na porta à noite.
[00:23:24] Não contam as famílias separadas,
[00:23:26] os filhos que partiram para a guerra e nunca voltaram,
[00:23:29] as mães que nunca souberam onde seus filhos foram enterrados na África,
[00:23:33] os horrores cometidos nas colônias.
[00:23:36] Não contam os anos de atraso.
[00:23:38] Portugal sob Salazar investiu em algumas infraestruturas,
[00:23:41] é verdade,
[00:23:42] mas manteve o país economicamente atrasado,
[00:23:45] socialmente conservador,
[00:23:47] educacionalmente defasado em relação ao resto da Europa.
[00:23:51] Nunca saberemos exatamente porque decidiram não contar a ele a verdade,
[00:23:56] se foi medo do que poderia acontecer,
[00:23:59] se foi uma última tentativa de poupá-lo da humilhação,
[00:24:02] se foi simplesmente porque ninguém teve coragem.
[00:24:06] O que sabemos é que o homem que exigiu verdade e controle absoluto sobre Portugal,
[00:24:11] passou seus últimos dias vivendo numa mentira.
[00:24:14] E quatro anos depois de sua morte,
[00:24:16] tudo aquilo que ele construiu desmoronou em um único dia.
[00:24:20] A polícia política foi dissolvida,
[00:24:22] os presos políticos foram libertados,
[00:24:25] as colônias se tornaram independentes,
[00:24:27] a censura acabou.
[00:24:29] Mais de quatro décadas de ditadura terminaram.
[00:24:32] Essa é a história do ditador que morreu duas vezes,
[00:24:35] uma vez quando caiu da cadeira e perdeu o poder,
[00:24:38] e outra quando finalmente parou de respirar.
[00:24:41] Espero que vocês estejam entretidos.
[00:24:44] Até a próxima.
[00:25:11] Legendas www.intervoices.com