#291 - Dan Stulbach


Resumo

Neste episódio do Provoca, Marcelo Tassi recebe o ator Dan Stulbach para uma conversa abrangente sobre sua carreira e vida pessoal. O diálogo começa com um mergulho na atual montagem de ‘O Mercador de Veneza’, onde Dan interpreta Shylock. Ele discute a atualidade da peça de Shakespeare, escrita em 1596, que trata de temas como discriminação, indiferença e a dificuldade de aceitar o diferente. Dan compartilha seu processo de preparação para o papel, as referências que estudou (incluindo a versão de Al Pacino) e ajustes sutis na interpretação para evitar reforçar estereótipos.

A conversa então se volta para a experiência de Dan no programa CQC, onde assumiu a apresentação após Marcelo Tassi. Ele fala sobre o desafio de entrar num ambiente tão diferente da Globo, a intensidade da produção e o aprendizado que adquiriu em síntese e comunicação. Dan reflete sobre o papel do humor como provocação aos poderosos e analisa por que um formato como o CQC seria difícil de replicar na TV atual, que ele considera mais medrosa e refém das opiniões do público nas redes sociais.

Dan também aborda sua pausa no teatro, motivada por um período de depressão após a morte do pai e os cuidados com a saúde da mãe durante a pandemia. Ele fala sobre a importância de se reinventar e de encontrar seu lugar no palco, especialmente com uma peça que o renova a cada dia. A entrevista ainda explora seu trabalho como professor de teatro por 11 anos, uma necessidade financeira que se tornou uma paixão pela transformação das pessoas através da arte.

Na parte final, Dan compartilha histórias profundas sobre sua família. Seus pais, judeus poloneses que sobreviveram à Segunda Guerra, tinham receio de que ele se tornasse ator por medo de perseguição e por representar uma quebra com as expectativas de segurança. Ele narra episódios marcantes, como quando seu pai, inicialmente contra sua carreira, o viu no palco pela primeira vez e disse que foi como se ele tivesse ‘nascido de novo’. Dan também conta a odisseia de sua família durante a guerra, incluindo como seu pai, ainda bebê, foi escondido por anos num sótão e depois resgatado.

A conversa termina com Dan falando sobre sua paixão pelo Corinthians e como o futebol, especialmente a figura de Sócrates e o movimento pelas Diretas Já, foi sua primeira porta de entrada para a política e a compreensão da democracia. Ele encerra refletindo que a vida ‘é o que a gente faz com ela’, sintetizando sua trajetória de coragem, reinvenção e busca por significado através da arte.


Indicações

Pessoas

  • Al Pacino — Atores que Dan Stulbach estudou para preparar o papel de Shylock. Ele conta dois encontros pessoais com Pacino em Nova York, onde o ator perguntou se ele fazia Shakespeare no Brasil.
  • Sócrates (futebolista) — Jogador do Corinthians que Dan cita como uma grande influência em sua compreensão de política e democracia, através do movimento ‘Democracia Corintiana’ e da luta pelas Diretas Já.
  • Roberto Laje — Diretor de teatro que foi fundamental no início da carreira de Dan Stulbach, insistindo para que ele ficasse no elenco de sua primeira peça profissional e indo conversar com seus pais.

PeçAs De Teatro

  • O Mercador de Veneza — Peça de William Shakespeare em cartaz com Dan Stulbach no papel de Shylock. A montagem atual se passa nos anos 90 e discute temas como discriminação, indiferença e a dificuldade de aceitar o diferente.
  • Ricardo III — Outra peça de Shakespeare que Dan Stulbach menciona como uma de suas favoritas e que sempre teve vontade de fazer.
  • A Morte Acidental de um Anarquista — Peça de Dario Fo que Dan Stulbach atuou antes de sua pausa no teatro, em 2019. Ele a contrasta com ‘O Mercador de Veneza’ por ter muito improviso.

Linha do Tempo

  • 00:02:15Início da conversa sobre O Mercador de Veneza — Marcelo Tassi introduz o tema principal do episódio: a peça ‘O Mercador de Veneza’, na qual Dan Stulbach interpreta Shylock. Dan comenta sobre a barba que usa para o personagem e a decisão da diretora de ambientar a peça nos anos 90, conectando-a com o auge da Bolsa de Valores. Ele reflete sobre a atualidade triste e maravilhosa da obra de Shakespeare, escrita em 1596, que fala sobre indiferença e a dificuldade de aceitar o diferente.
  • 00:06:26Processo de preparação para Shylock e referências — Dan Stulbach fala sobre seu primeiro contato profissional com Shakespeare e como se preparou para o papel de Shylock. Ele menciona ter assistido à versão de Al Pacino e estudado diversas interpretações de atores ingleses no YouTube. Dan descreve seu método como ‘detetive de serial killer’, com post-its na parede ligando referências. Ele também conta um ajuste específico na encenação: eliminou um sorriso para a plateia que inadvertidamente reforçava o estereótipo de que ‘o judeu sempre escolhe o dinheiro’.
  • 00:09:37Encontros com Al Pacino em Nova York — Dan Stulbach narra dois encontros marcantes com o ator Al Pacino em Nova York. O primeiro foi quando, ainda jovem e aspirante a ator, ele assistiu a ‘Júlio César’ e, após a peça, foi até o estacionamento para falar com Pacino, que estava em seu carro. O segundo encontro ocorreu após uma apresentação de ‘O Mercador de Veneza’ no Central Park, onde Dan acabou em um espaço reservado e conversou novamente com Pacino. Em ambas as ocasiões, Pacino perguntou se ele fazia Shakespeare no Brasil.
  • 00:15:10Pausa no teatro e período de depressão — Dan Stulbach explica por que ficou afastado dos palcos desde 2019, após ‘A Morte Acidental de um Anarquista’. Ele relata um período de depressão relacionado à doença e morte de seu pai durante a pandemia de Covid-19, seguida por problemas de saúde de sua mãe. Dan também menciona a chegada dos 50 anos e o desejo de passar mais tempo com seus filhos, então pequenos. Ele fala sobre a importância de se permitir parar e refletir sobre o lugar onde realmente queria estar, que acabou sendo de volta ao teatro.
  • 00:19:01Experiência como apresentador do CQC — A conversa se volta para a época em que Dan Stulbach assumiu a apresentação do programa CQC. Ele nega que tenha tentado imitar Marcelo Tassi e explica que aceitou o convite porque era ‘o lugar mais arriscado a se estar’, onde poderia aprender mais e provocar. Dan descreve a atmosfera intensa e caótica da produção, muito diferente da Globo, e a diversão genuína que tinha ao vivo com a equipe. Ele reflete sobre o papel do humor em provocar os poderosos, não os fracos.
  • 00:23:07Reflexão sobre a TV atual e o espaço para provocação — Dan Stulbach discute se um programa como o CQC teria espaço na TV atual. Ele acredita que não, porque as pessoas e a televisão estão muito medrosas. Dan critica a inversão em que o público se torna o guia máximo, tornando os criadores escravos do que as pessoas escrevem nas redes sociais. Ele argumenta que a TV aberta no Brasil vai continuar, mas de outra maneira, devido à nossa história única de dramaturgia e à desigualdade que faz da TV um acesso crucial à cultura.
  • 00:28:45Carreira como professor de teatro — Dan Stulbach fala sobre seus 11 anos como professor de teatro, uma atividade que começou por necessidade financeira para se sustentar longe da casa dos pais. Ele descreve como montou uma ‘tabelinha’ para controlar suas finanças e como as aulas se tornaram um salário fixo numa profissão instável. Dan conta que adorava ver as pessoas se transformarem através da arte, mesmo aquelas que não seriam atores profissionais. Ele decidiu parar quando percebeu que estava direcionando alunos para cenas que ele próprio queria fazer.
  • 00:33:23Ser judeu no contexto atual e esperança no Oriente Médio — Marcelo Tassi pergunta a Dan Stulbach sobre ser judeu no momento atual de conflito em Gaza. Dan responde que tem esperança por um ‘entendimento maior’, mesmo que por ‘vias tortas’, citando o improvável envolvimento de figuras como Donald Trump. Ele expressa o desejo de que se escreva ‘uma nova história no Oriente Médio, para a Palestina, para Israel e para o mundo todo, de compreensão e entendimento’. Dan afirma que, no dia de hoje, não há como não ter esperança.
  • 00:35:37História familiar e educação judaica — Dan Stulbach faz um ‘disclaimer’ sobre sua formação, explicando que nunca teve uma educação judaica formal. Seus pais associaram ser judeu a ser perseguido – seu avô estudou de pé porque judeus não podiam sentar, e oito dos nove irmãos de seu avô morreram. Ele fez o bar mitzvah por insistência do avô, contra a vontade do pai. Em casa, se falava polonês, e a família tinha um círculo de amigos estrangeiros. Dan conecta esse sentimento de ‘estrangeiro’ com o personagem Shylock.
  • 00:38:13Narrativa da sobrevivência da família na Polônia — Dan Stulbach narra em detalhes a odisseia de sua família durante a Segunda Guerra Mundial na Polônia. Seu pai, ainda bebê, foi entregue a uma família católica para ser cuidado enquanto seus avós se escondiam num sótão sem janelas de uma fábrica de carvão por três anos. Um zelador católico alertou que a criança estava morrendo de fome, e após uma votação no esconderijo (não unânime), trouxeram o bebê num saco de estopa. Seu pai teve sequelas físicas por toda a vida devido ao confinamento e à necessidade de silêncio.
  • 00:44:56A descoberta da vocação para ator e a reação do pai — Dan Stulbach conta a história de como decidiu ser ator, contra a vontade dos pais. Após um ano frustrante na Escola de Arte Dramática, foi chamado para um teste por Roberto Laje, que insistiu para que ele ficasse uma semana em ensaio. Dan ficou e pegou o papel principal. Seus pais foram viajar, e ao voltarem, seu pai viu a foto de Dan no jornal. Ele foi à estreia e, após a peça, deu um tapa carinhoso no rosto de Dan e disse: ‘Foi como se você tivesse nascido de novo’. Dan soube depois que seu pai carregou aquele recorte de jornal na carteira por décadas.
  • 00:49:17Paixão pelo Corinthians e influência de Sócrates — Dan Stulbach fala sobre como se tornou corintiano, indo ao Pacaembu porque era perto de casa. O momento decisivo foi ver Sócrates e a Democracia Corintiana em ação. Ele explica que o futebol foi sua porta de entrada para a política, através do lema ‘Se tiver diretas eu fico’. Dan diz que acessou o conceito de democracia por causa de Sócrates e que essa experiência influenciou sua vontade de usar a fama para algo maior, um princípio que também guiou sua passagem pelo CQC.

Dados do Episódio

  • Podcast: Provocast
  • Autor: TV Cultura
  • Categoria: News
  • Publicado: 2025-11-13T17:00:01Z
  • Duração: 00:53:05

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Alô, alô, aqui Marcelo Tassi com o ProvoCast, o podcast do Provoca.

[00:00:08] Você também pode ver este programa nos perfis da TV Cultura, nas redes e no app Cultura Play.

[00:00:14] Quando eu topei apresentar este programa, eu sabia do peso do legado do mestre Antônio Abujamra.

[00:00:21] Eu encarei, no começo eu sofri com críticas injustas, comparações desfavoráveis,

[00:00:27] mas não estou reclamando não.

[00:00:29] Essa fase passou e cá estamos, e cá está também o meu convidado,

[00:00:34] que passou por uma experiência parecida quando aceitou apresentar um tal de CQC.

[00:00:40] A conversa está super Provoca.

[00:00:44] Escute aí, custe o que custar.

[00:00:50] Escrita há quatro séculos, a peça O Mercador de Veneza, como todo Shakespeare, segue muito atual.

[00:00:56] Hoje as minorias ao redor do mundo sejam palestinos,

[00:00:59] vingados ou imigrantes na América de Trump,

[00:01:01] poderiam dizer algo semelhante ao que diz o personagem principal, o agiota Shylock,

[00:01:07] quando questiona a discriminação que sofre como judeu.

[00:01:11] Se nos ferem, não são gramos?

[00:01:13] Se nos fazem cócegas, não rimos?

[00:01:16] Se nos envenenam, não morremos?

[00:01:19] E se nos ofendem, não haveremos de vingar-nos?

[00:01:23] Que cara de pau a minha recitar Shakespeare diante do meu convidado,

[00:01:29] um ator colossal, um corintiano praticante que está vivendo brilhantemente Shylock nos palcos

[00:01:36] e ainda por cima, um homem lindo.

[00:01:40] Seja bem-vindo ao Provoca, Dan Stulbach.

[00:01:43] Ô cara, muito obrigado.

[00:01:45] Finalmente.

[00:01:46] Essa coisa do homem lindo estava escrita na sua cabeça?

[00:01:48] É do meu coração.

[00:01:50] Olha só, olha só.

[00:01:50] É do meu coração.

[00:01:51] Te digo mesmo, eu gosto muito de você e estou muito feliz de estar aqui, obrigado.

[00:01:59] Esse é o Provoca, no ar para todo o Brasil, pela TV Cultura e emissoras afiliadas

[00:02:07] e também nas telas das plataformas digitais, no app Cultura Play

[00:02:11] ou em versão podcast no seu tocador preferido.

[00:02:15] Ô Dan, eu aposto que tem gente doida para a gente falar do CQC,

[00:02:19] mas nós vamos fazer como naquela época, deixar para o próximo bloco.

[00:02:24] Agora é Mercador de Veneza.

[00:02:27] Sim.

[00:02:27] Agora é Mercador de Veneza.

[00:02:28] Semana.

[00:02:29] Mercador de Veneza.

[00:02:30] Essa barba aí tem a ver com o Shiloh?

[00:02:33] Tem, estava até maior, cara.

[00:02:34] Eu tinha deixado bem grande.

[00:02:36] Quando a gente fez a temporada no Rio, eu estava com ela grandona mesmo.

[00:02:40] Mas daí eu acho que vilanizava ele demais e aí eu resolvi diminuir um pouco.

[00:02:46] Eu tenho a intenção de fazer um judeu mais ortodoxo, né?

[00:02:50] Então a barba tinha sentido.

[00:02:52] Mas essa aqui também tem, eu uso aqui para bem aqui, funciona também.

[00:02:57] Para a vida é melhor uma barba menor.

[00:02:58] Não sei se você já teve essa experiência de barbão muito grande.

[00:03:01] Eu já tentei, mas eu não consigo.

[00:03:03] Essa é a que eu pude deixar para você aqui hoje.

[00:03:06] Fica rústico, assim.

[00:03:08] Mas o Mercador…

[00:03:11] O visual é tudo para isso.

[00:03:13] A vida é tudo para isso.

[00:03:14] E vocês estão trazendo para os anos 90 isso?

[00:03:17] Por quê?

[00:03:18] Ideia da Dani, da diretora.

[00:03:20] Eu até hoje não entendi por quê, mas ela fez assim e eu obedeci.

[00:03:24] Não, a ideia da Dani é trazer para um tempo possível,

[00:03:28] próximo, de compreensão próxima, de proximidade, mas não tão próximo.

[00:03:33] Porque mais próximo do que isso já teria que ter celular,

[00:03:35] já teria outras questões da peça, já ficariam esquisitas.

[00:03:39] Então 90 e também pelo auge da Bolsa de Valores, num certo sentido.

[00:03:43] O Sérgio Krasch tem a ver com o dinheiro, a peça, claro.

[00:03:45] Ele é o agiota, né?

[00:03:46] O fato da peça estar atual é uma coisa impressionante

[00:03:51] ou é para deixar a gente meio tristinho?

[00:03:53] As duas coisas.

[00:03:54] As duas coisas.

[00:03:55] O fato da atualidade da peça é maravilhoso,

[00:03:58] porque você pega um cara que escreveu uma peça,

[00:03:58] escreveu uma peça em 1596 e ela está atual.

[00:04:02] Ensenada pela primeira vez em 1602 e ela está atual, genial.

[00:04:06] E ela é tristemente atual porque ela fala da indiferença,

[00:04:09] da crítica e da dificuldade que as pessoas têm de aceitar o diferente.

[00:04:14] O outro, o judeu, o negro, a mulher que precisa se vestir de homem

[00:04:18] para ser aceita no tribunal, enfim, a peça fala disso.

[00:04:22] Shakespeare não conhecia nenhum judeu quando escreveu,

[00:04:25] porque os judeus eram proibidos de estar na Inglaterra,

[00:04:27] então ele queria falar sobre o estrangeiro.

[00:04:28] Não somos judeus, somos estrangeiros.

[00:04:31] Então ele precisava de alguém que parecesse estrangeiro,

[00:04:33] falasse como estrangeiro, e daí ele acha essa figura do judeu,

[00:04:36] porque ele se vestia de modo diferente, falava de modo diferente,

[00:04:39] normalmente tinha sotaque, né?

[00:04:40] E aí você vê isso tudo tão atual, é absolutamente triste.

[00:04:45] Incrível.

[00:04:46] Ele me ofende, me xinga, humilha,

[00:04:50] desde minhas ganhos ele desdenha,

[00:04:53] minhas perdas ele ri, estraga tudo, atrapalha meus negócios,

[00:04:58] humilha meu povo, tudo isso, por quê?

[00:05:05] Mas conseguir contar essa história é uma vitória já em si, né?

[00:05:10] É.

[00:05:10] Depois de 400 anos, termos o que aprender ainda com…

[00:05:16] É uma vitória em todos os sentidos,

[00:05:17] é uma vitória fazer Shakespeare,

[00:05:18] é uma vitória fazer Shakespeare com 12 atores, bateria, telão e tudo mais,

[00:05:22] é uma vitória ter o público que a gente está tendo.

[00:05:27] Aliás…

[00:05:28] Estava preciso para ficar até dezembro, já prorrogou,

[00:05:32] até abril do ano que vem, em São Paulo, no Tuca Arena.

[00:05:37] A gente nunca fez uma apresentação que não tivesse lotado até hoje.

[00:05:40] No Tuca, a gente já renovou e a gente lotou há quase três semanas da estreia.

[00:05:45] Isso é uma vitória, isso é uma vitória.

[00:05:47] O desejo que as pessoas têm de ir ao teatro e, de alguma maneira,

[00:05:50] aí sim, não abrir mão do seu viés de confirmação.

[00:05:53] Sim.

[00:05:53] Ou, se for com o seu viés de confirmação, ser surpreendido.

[00:05:56] Essa é uma provocação que eu tenho.

[00:05:58] Quem não vê assim parece homem humilde.

[00:06:01] Sim, não é.

[00:06:03] Ele não deixa que tenha negócios.

[00:06:06] Por quê?

[00:06:07] Porque sou judeu.

[00:06:08] Eu não posso ter negócios, não posso ter terras, muito menos navios,

[00:06:12] porque sou judeu.

[00:06:14] Não permite.

[00:06:16] E ainda empresta dinheiro de graça, baixando juros em toda a Veneza.

[00:06:21] Eu o odeio!

[00:06:24] O seu primeiro Shakespeare profissional…

[00:06:26] Fiz no colégio.

[00:06:27] No colégio. Você fez…

[00:06:28] Por que demorou tanto?

[00:06:30] No colégio Rio Branco, onde eu comecei a fazer teatro.

[00:06:33] Eu estava vendo isso. As coisas foram muito rápido.

[00:06:36] As pessoas foram chamando para trabalhos, aí eu queria fazer Ricardo III,

[00:06:39] que é, especialmente, uma peça de Shakespeare que eu adoro.

[00:06:41] Mas aí, chamaram para o trabalho, aí eu fui indo…

[00:06:44] Fui indo, cara.

[00:06:45] Isso aqui não é uma ideia minha.

[00:06:46] É uma ideia do Marcelo Uman e do César Bachan,

[00:06:48] que são os produtores e atores do espetáculo.

[00:06:50] Ainda bem que eles vieram para mim.

[00:06:52] Minha primeira imagem, quando eles me chamaram, eu fui ver o Al Pacino.

[00:06:54] Eu vi o Al Pacino fazendo lá no Central Park.

[00:06:56] Depois ele fez na Broadway e fez…

[00:06:58] Filme.

[00:07:00] Mas depois eu entendi a complexidade toda.

[00:07:02] Como?

[00:07:03] O prazer da palavra, a dificuldade da palavra.

[00:07:05] Cara, eu nunca li tanto para uma peça,

[00:07:07] porque eu nunca encontrei tanto material para um espetáculo sobre o autor desse espetáculo.

[00:07:13] Vídeos…

[00:07:14] Eu entro no YouTube, ou onde quer que seja,

[00:07:16] e eu encontro atores ingleses de qualquer nacionalidade.

[00:07:19] Principalmente os ingleses, porque eu acho que são os que dominam mais esse universo.

[00:07:22] Falando de cenas que eu faço, recitando textos que eu recito.

[00:07:26] E isso é um barato, você se conectar com essa gente.

[00:07:28] Entendeu?

[00:07:54] O que você forçou do Al Pacino?

[00:07:56] Como que ele se preparou?

[00:07:58] O Al Pacino tem várias entrevistas dele maravilhosas falando disso.

[00:08:02] Ele não é um judeu.

[00:08:03] Ele se aproxima pelo desafio artístico.

[00:08:05] E é conhecido para muita gente que o Shiloh é um desses personagens mais difíceis que tem para fazer.

[00:08:10] Porque ele tem amplas possibilidades.

[00:08:13] E tudo é um detalhe.

[00:08:14] Tudo pode ser alguma coisa.

[00:08:17] Ou podem ser várias.

[00:08:18] Ele se aproxima de uma…

[00:08:20] Ele se aproxima diferente de mim.

[00:08:22] Ele faz o filme diferente do que ele faz a peça.

[00:08:24] Eu conheci ele.

[00:08:25] Isso é um outro capítulo.

[00:08:26] Depois dessa peça, inclusive, a gente se falou há muito tempo.

[00:08:29] Eu nem sabia o que ia fazer.

[00:08:30] Mas ele parte de um lugar diferente do meu.

[00:08:33] Que é…

[00:08:34] Shiloh já começa a peça como já raivoso.

[00:08:38] Já oprimido.

[00:08:39] Se você pega a primeira cena do filme dele, você vai ver.

[00:08:41] Ele já é um oprimido.

[00:08:42] Ele já tem raiva de todo mundo.

[00:08:44] Ele já se comporta como uma pessoa que já sofre.

[00:08:46] E sabe que qualquer um que se aproxima dele, se aproxima tendo um preconceito qualquer.

[00:09:26] Se você nos posiciona, não vamos morrer?

[00:09:29] E se você nos assombrir, não vamos nos revingar?

[00:09:33] Agora, você falou rapidamente aí.

[00:09:35] Eu conheci o Al Pacino duas vezes.

[00:09:37] Como que foi isso?

[00:09:40] Uma vez eu vi o Júlio César.

[00:09:41] Eu era bem moleque.

[00:09:42] E queria loucamente ser ator.

[00:09:44] Mas tinha muito medo.

[00:09:45] Eu estava em Nova York.

[00:09:46] E lá fiquei.

[00:09:47] Lá assisti o Júlio César.

[00:09:48] O Al Pacino fazia.

[00:09:49] Eu não tinha ingresso.

[00:09:50] Fiquei esperando.

[00:09:51] A história é longa isso.

[00:09:52] Mas eu entrei.

[00:09:53] Porque um cara saiu e não queria ver.

[00:09:54] Eu entrei e assisti a peça.

[00:09:55] Tinha muita gente.

[00:09:56] Tinha o Charlie Sheen.

[00:09:57] Na plateia.

[00:09:58] Martin Sheen, que é o pai.

[00:09:59] Na peça.

[00:10:00] Na peça.

[00:10:01] Fazia o Júlio César.

[00:10:02] E ele fazia o Marco Antônio.

[00:10:04] Romanos.

[00:10:05] Compatriotas.

[00:10:06] Amigos.

[00:10:07] E aí, quando acabou a peça, eu falei, onde é o Al Pacino?

[00:10:12] Onde ele está?

[00:10:13] Ele falou, ele sai por ali.

[00:10:14] Ele saiu por lá.

[00:10:15] Eu abri uma porta assim.

[00:10:16] Era um estacionamento.

[00:10:18] Eu olhei um carro lá no fundo.

[00:10:19] Fui andando até o carro.

[00:10:20] Aí abri o vidro assim.

[00:10:21] What do you want?

[00:10:24] Eu falei, uau!

[00:10:25] Meu Deus!

[00:10:26] No estacionamento.

[00:10:27] No estacionamento.

[00:10:28] Esperando para sair.

[00:10:29] Que cena, cara.

[00:10:30] E eu lembro dessa conversa dele falar.

[00:10:32] Eu falei, eu sou ator.

[00:10:33] Eu quero ser ator.

[00:10:34] Ele falou, você faz Shakespeare no Brasil?

[00:10:35] Eu falei, nós fazemos.

[00:10:36] Eu fiz Sonho do Mano de Verão no colégio.

[00:10:38] Então, siga por aí.

[00:10:39] Aí eu lembro que eu falei para ele, em Brasil, soap operas, que são novelas, são muito

[00:10:44] fortes.

[00:10:45] Ele falou, forget that, man.

[00:10:46] Qual a maneira mais elegante de chamar um garçom até a mesa?

[00:10:50] Faça o seguinte, estenda o dedo assim, discretamente.

[00:10:55] Se ele não olhar, diga, garçom, vem aqui tu.

[00:11:02] O outro, rapidinho, foi depois do Mercador de Veneza no Central Park.

[00:11:07] Central Park.

[00:11:08] Acabou, eu fiquei olhando as luzes, né?

[00:11:09] Sempre gostei disso.

[00:11:10] Eu operei luz durante um tempo, a estrutura.

[00:11:12] Meu sonho sempre foi fazer um teatro ao ar livre, tipo no Ibirapuera, qualquer praça

[00:11:16] desse Brasil, e fazer um grande festival.

[00:11:18] E eu fiquei olhando aquilo lá, e aí me botaram, por favor, sai, sai, sai.

[00:11:23] Aí eu fui saindo.

[00:11:24] Quando eu olhei, me botaram num lugar, mas não saía pra rua, tipo num lugarzinho assim.

[00:11:30] Aí eu olhei pro lado e tinha um ator, que era o Jeff Goldblum, um grandão assim.

[00:11:34] Falei, nossa, esse cara aqui.

[00:11:36] Aí eu, opa, o que tá acontecendo?

[00:11:37] Eu tô aqui dentro.

[00:11:38] É, tipo, entramos.

[00:11:39] Alô, QAP, estamos dentro.

[00:11:42] Aí saiu o cara.

[00:11:44] Aí saiu ele, baixinho, aí ficaram falando os dois.

[00:11:47] Aí ele virou pra mim, tipo, ok.

[00:11:49] E você aqui?

[00:11:50] E você há quanto tempo?

[00:11:51] Que você?

[00:11:52] O que veio fazer?

[00:11:53] Eu, não.

[00:11:54] Eu vim aqui e tal, sou ator, bababá.

[00:11:56] Aquele mesmo papo.

[00:11:57] Aí ele perguntou, vocês fazem Shakespeare no Brasil?

[00:12:00] Aí eu falei, pô, eu vim há 20 anos atrás ver Júlio César e você me fez a mesma pergunta.

[00:12:05] Aí ele falou uma coisa ótima.

[00:12:06] Ele falou, tá vendo, eu não sou tão criativo assim.

[00:12:09] Atores precisam de texto.

[00:12:10] E sendo assim, eu quero 500 mil na minha conta.

[00:12:15] Que?

[00:12:16] 500.

[00:12:17] Você é mercenário, né?

[00:12:19] Como que você se prepara, Dan?

[00:12:21] Uma ideia pra quem te vê pronto lá na TV ou no palco, como que é isso?

[00:12:27] Bom, é meio detetive de serial killer, né?

[00:12:31] Um monte de post-it na parede, assim, com várias referências, sabe?

[00:12:34] Então tem essas, daí eu vejo a entrevista do cara e eu tiro duas, três coisas e boto lá na parede.

[00:12:40] Mas vai escrevendo mesmo?

[00:12:41] Vai escrevendo.

[00:12:42] E postando lá?

[00:12:43] É, postando ou juntando num caderno.

[00:12:45] Acho que é só essa imagem que eu acho que é boa pras pessoas.

[00:12:47] É ligando pontos, né?

[00:12:48] Ligando pontos.

[00:12:49] Então, do que os outros fizeram.

[00:12:50] Aí tem o Patrick Stewart, que fez a Inglaterra, que eu acho que é um ator bem bacana também.

[00:12:53] Aí eu assisti umas cenas dele, aí ele fez um livro, aí eu li o livro inteiro.

[00:12:56] Tem um certo período, que é esse dos ensaios e um pouquinho depois que a peça estreia, que tudo eu levo pro espetáculo.

[00:13:03] Aí eu percebo erros, por exemplo, da minha parte.

[00:13:05] A peça estreou só porque eu acho que toca num ponto que é interessante.

[00:13:09] Por exemplo, eu não sei se tem a ver isso aqui, mas eu tenho um momento que o Bassani, com a presença do Marcelo, me entrega uma mala de dinheiro.

[00:13:17] Ele fala assim, abre mão.

[00:13:19] Você abre mão da carne, da libra de carne do outro, se eu te pagar a dívida dele?

[00:13:26] E aí eu fico olhando e ele me traz uma mala de dinheiro.

[00:13:29] E eu boto, exemplificando pras pessoas.

[00:13:32] E aí eu olho aquela mala de dinheiro, olho pra ele e eu olho pra plateia.

[00:13:38] E antigamente eu olhava pra plateia e dava um pequeno sorriso.

[00:13:42] A plateia inteira ria, porque falava assim, ele vai pegar, né?

[00:13:45] É.

[00:13:46] E eu falo, não.

[00:13:47] Eu não falo nada.

[00:13:48] Eu falo, se essas seis mil coroas fossem multiplicadas por seis, mesmo assim eu não quero.

[00:13:52] Quero minha multa.

[00:13:53] Essa é a minha fala.

[00:13:54] Mas daí eu entendi que aquela risada da plateia era uma burrice minha.

[00:13:58] Aquela risada tava confirmando um preconceito de que o judeu vai sempre escolher o dinheiro.

[00:14:02] Sim.

[00:14:03] Aí eu falei, cara, tô errando aí.

[00:14:05] Eu tô.

[00:14:06] Tem um ajuste.

[00:14:07] Essa minha olhada tem que ser mais curta.

[00:14:08] Tá.

[00:14:09] Eu tenho que arrumar.

[00:14:10] E assim foi.

[00:14:11] É uma coisa milimétrica.

[00:14:12] Milimétrica.

[00:14:13] É um olhar a menos, um olhar mais rápido.

[00:14:14] E aí você ajusta pra onde você quer.

[00:14:16] É.

[00:14:17] Aqui estamos nós.

[00:14:18] Uma cena aqui.

[00:14:19] Eu tenho que dormir.

[00:14:20] Olha só.

[00:14:21] Aqui desse lado tá o Théo.

[00:14:22] Théo, por favor, você poderia me ensinar a dormir bem, sempre?

[00:14:23] Eu vou dormir e você me dá umas dicas.

[00:14:24] Pode ser?

[00:14:25] Cara, é muito importante que você entre em uma personagem ali.

[00:14:26] Porque às vezes você fecha o olho e fica aquela galera que parece que tá fisticando

[00:14:27] aqui dentro.

[00:14:28] Você tem que entrar no personagem.

[00:14:29] É um trabalho muito difícil.

[00:14:30] Vou tentar.

[00:14:31] Você é uma analisada.

[00:14:32] Tá bom.

[00:14:33] Eu também sei dar dicas.

[00:14:34] E aí?

[00:14:35] Cara, você deixou um sorrisinho na cara.

[00:14:36] Uma leve olhada.

[00:14:37] E aí?

[00:14:38] E aí?

[00:14:39] E aí?

[00:14:40] E aí?

[00:14:41] E aí?

[00:14:42] E aí?

[00:14:43] E aí?

[00:14:44] E aí?

[00:14:45] Cara, você deixou um sorrisinho na cara.

[00:14:46] Uma leve, uma micro…

[00:14:47] É verdade.

[00:14:48] Quais são as dicas?

[00:14:49] As minhas dicas?

[00:14:50] É…

[00:14:51] Pô, você parou o vídeo pra falar que tem dicas e não tem?

[00:14:54] Eu tenho.

[00:14:55] Só fazer assim, ó.

[00:14:56] Só fazer assim, ó.

[00:14:57] E é o seu retorno para os palcos desde a morte acidental de um anarquista, né?

[00:15:10] 2019.

[00:15:11] Isso.

[00:15:12] Que era aí o contrário, né?

[00:15:13] Muito improviso.

[00:15:14] E de um autor genial também, Dario Foch.

[00:15:16] É.

[00:15:17] Por que essa longa pausa no teatro?

[00:15:20] Porque eu tinha uma depressão, porque meu pai faleceu, ele ficou doente, ele já estava

[00:15:27] doente, daí teve o final da Covid e ele foi tendo um período de despedida muito difícil.

[00:15:33] E a Covid tinha aquelas coisas que você não podia ver, vai, vê um pouco, volta.

[00:15:37] Ele também foi perdendo a ligação, né?

[00:15:41] Ele falava comigo sobre mim.

[00:15:43] Sobre mim.

[00:15:44] Sem que eu fosse eu.

[00:15:45] Ele perdeu alguma coisa.

[00:15:46] Falava com você como se fosse uma outra pessoa.

[00:15:47] Você do filho dele.

[00:15:48] É.

[00:15:49] E esse exercício…

[00:15:50] E minha mãe ficou doente depois.

[00:15:51] Então, por exemplo, no enterro dele, não era para levá-la porque ela estava com Covid.

[00:15:52] E eu a levei.

[00:15:53] Então, são questões que hoje parecem absolutamente antigas, mas que naquele momento foram muito

[00:15:54] presentes e muito fortes.

[00:15:55] Então, isso é uma coisa, enfim, para não entrar muito nessa história, mas foi isso,

[00:15:56] isso me entristeceu.

[00:15:57] E eu acho que isso é muito importante.

[00:15:58] Eu acho que isso é muito importante.

[00:15:59] Eu acho que isso é muito importante.

[00:16:00] Eu acho que isso é muito importante.

[00:16:01] Eu acho que isso é muito importante.

[00:16:02] Eu acho que isso é muito importante.

[00:16:03] Que eu me entreguei.

[00:16:04] Então, são questões que hoje parecem absolutamente antigas, mas que naquele momento foram muito

[00:16:08] presentes e muito fortes.

[00:16:09] Então, isso é uma coisa…

[00:16:10] Enfim, para não entrar muito nessa história, mas foi isso, isso me entristeceu, me levou

[00:16:14] para um lugar complicado.

[00:16:16] E acho que um desânimo com a situação toda que a gente vivia no país e eu também

[00:16:23] fiz 50 anos.

[00:16:24] Não sei como foi pra você nesse mesmo tempo.

[00:16:26] O momento que você também avalia e falou que tenho pela frente já é menos do que

[00:16:29] terei, o que tive.

[00:16:31] Qual é a lista das coisas que você ainda quer fazer.

[00:16:33] Não, não.

[00:16:33] Não no modo direto e objetivo, mas de coração, que sejam importantes ainda para mim.

[00:16:38] Meus filhos eram pequenos, eu queria passar mais tempo com eles.

[00:16:42] Hoje, meus filhos têm 13 e 15.

[00:16:45] Então, tudo isso.

[00:16:47] É, tudo junto.

[00:16:49] E é uma encruzilhada.

[00:16:50] E se permitir também, como você está vendo aí no seu papel, eu não parei de trabalhar.

[00:16:53] Eu fiz muita coisa, muita coisa.

[00:16:55] E teve uma hora que era legal ficar no sítio cuidando das plantas, parar um pouco e entender

[00:16:59] que lugar que eu realmente quero estar.

[00:17:01] E poder estar aqui falando-se uma coisa que eu acredito.

[00:17:04] Você descobriu que lugar que você quer estar?

[00:17:06] Esse.

[00:17:07] Esse.

[00:17:08] Esse do teatro.

[00:17:09] Esse de fazer uma peça que eu acho incrível, que me renova a cada dia de verdade, com gente bacana.

[00:17:15] Três mil coroas!

[00:17:25] Caramba!

[00:17:27] Muito bem!

[00:17:28] Sim, senhor, por três meses.

[00:17:30] Três meses?

[00:17:31] Três meses?

[00:17:33] Muito bem!

[00:17:35] Das quais Antônio será o alfiador?

[00:17:38] Antônio!

[00:17:39] Antônio como alfiador!

[00:17:44] Antônio como alfiador!

[00:17:47] O meu convidado aqui é essa alma elevada, com o espírito do teatro, mas é um cara

[00:17:53] que já fez de tudo, não é isso?

[00:17:57] Acho que sim.

[00:17:57] E é pra lá que nós vamos.

[00:18:01] No próximo bloco.

[00:18:02] O cara que faz de tudo.

[00:18:04] Até mais.

[00:18:14] O mundo atual, dizem, requer de cada um de nós curiosidade e coragem pra novas experiências.

[00:18:21] O meu convidado pratica tudo isso e vai além.

[00:18:25] Ele já cursou engenharia, comunicação social, teatro, já foi pipoqueiro em Los Angeles,

[00:18:31] comentarista de futebol na ESPN e do programa Saia Justa no GNT.

[00:18:37] Como se não bastasse, há quase 20 anos, todo serelepe é âncora de um programa de

[00:18:42] rádio ao vivo em rede nacional, o fim do expediente.

[00:18:46] O cara gosta de testar limites, ator reconhecido na Globo, se aventurou a apresentar um programinha

[00:18:53] polêmico que misturava humor e jornalismo na band.

[00:18:57] Agora, finalmente, eu vou saber do próximo.

[00:19:01] O próprio Dan Stuback, como foi ocupar a cadeira central do CQC e ter que ser com o Pará?

[00:19:12] A coisa mais chata era dizer, as pessoas falavam que eu queria te imitar, isso nunca aconteceu.

[00:19:16] Isso é uma injustiça.

[00:19:18] De verdade, no fundo do meu coração isso nunca aconteceu, não tem nada a ver.

[00:19:21] Mas foi muito bom, eu vinha de uma trajetória bem legal na Globo, tinha feito uma novela,

[00:19:27] muito sucesso, muito boa.

[00:19:29] E nesse meio tempo rolou esse convite pra band.

[00:19:31] E eu fui, porque era o lugar mais arriscado a se estar.

[00:19:33] Mais arriscado.

[00:19:35] Esse foi o critério.

[00:19:37] E nisso você escolheu bem.

[00:19:38] Mais arriscado, onde eu podia aprender mais e onde eu podia dizer coisas e provocar

[00:19:44] e dar opinião e isso era uma coisa que eu queria muito.

[00:19:59] Eu sei.

[00:20:01] E é engraçado que inventaram rixas entre nós, sendo que a gente nunca teve esse tipo

[00:20:12] de coisa.

[00:20:13] A gente resolve as nossas rixas na arquibancada, nós somos alvinegros, praiano e corintiano

[00:20:22] e é assim que a gente vive, né Dan?

[00:20:24] Eu saio que eu lembro até hoje, quando eu estava no camarim antes de entrar, não sei

[00:20:26] se você vai lembrar disso, mas antes de entrar no primeiro CQC, eles tinham um

[00:20:31] feito a opção de fazer o programa no começo do estúdio, eu queria que fosse ao vivo,

[00:20:34] como depois acabou se tornando, acho que os dois primeiros, e eu lembro antes de fazer

[00:20:37] o primeiro, aí já não sei se foi o primeiro ao vivo ou o primeiro gravado, eu mandei uma

[00:20:41] mensagem pra você.

[00:20:43] Claro.

[00:20:43] E não assim, né, dizendo sigo daqui, tamo junto.

[00:20:49] Estamos aqui.

[00:20:50] E é uma, porra, pra mim é uma honra poder ter você, como eu falei pra eles, o Dan

[00:20:57] só tem um problema, ele não é tão bonito quanto eu.

[00:21:00] É.

[00:21:00] E aí é mentira.

[00:21:01] É mentira, claro, né.

[00:21:02] E daí eu saí do GNT, quer dizer, foi na hora que eu estava no GNT, e daí o programa

[00:21:05] ia mudar pra segunda, e aí você foi.

[00:21:07] E aí eu fui pro GNT.

[00:21:09] Você lembra, assim, qual foi a sua primeira impressão de aterrissar naquela, no hospício

[00:21:14] do CQC?

[00:21:16] Muito diferente de tudo que eu tinha vivido antes, né, na produção, a molecada, as

[00:21:21] pessoas, a intensidade.

[00:21:25] O que que era?

[00:21:26] Conta aí.

[00:21:26] Era muito diferente, cara, porque na Globo a gente se reunia, decidia o que ia fazer,

[00:21:30] e daí todo mundo saía pra fazer um programa, e saía, cada um…

[00:21:33] E voltava e conversava.

[00:21:35] Lá não, não era muito assim.

[00:21:39] Você conversava, mas voltavam com outras coisas, e depois você via outro, e acontecia

[00:21:44] outra ainda.

[00:21:44] E daí no dia já vinha um outro e falava assim, ó, não vai ser nada disso daquilo

[00:21:48] que a gente falou, liga a câmera aí, não tem TP, e fala.

[00:21:52] O Marco Luque tinha um negócio muito recorrente, quando a gente estava ao vivo no estúdio,

[00:21:56] né.

[00:21:56] A gente se divertia muito mesmo, de verdade.

[00:22:00] A gente ria muito.

[00:22:01] Aí ia pro intervalo, ele olhava pra minha cara e do Rafinha, e falava assim, eles estão

[00:22:07] pagando pra gente fazer isso.

[00:22:11] Era o começo da internet também, eu lembro que comecei a ter Twitter ali, comecei a entender

[00:22:15] todo esse mundo.

[00:22:16] Comigo foi tudo o começo junto.

[00:22:18] Então foi muito bom, mas tinha uma vontade legítima ali, e daí era muito diferente das

[00:22:23] outras coisas que eu tinha vivido, de provocar o país.

[00:22:26] Sim.

[00:22:26] Quem está pagando por isso, meu caro prefeito?

[00:22:30] Somos nós.

[00:22:32] Nós não estamos pagando por isso, nós estamos pagando pela esperança que isso acabe.

[00:22:36] Sim, você sabe que é isso.

[00:22:36] Que isso mude, que isso melhore, porque é esse o país que a gente acredita, um país

[00:22:41] melhor do que o senhor está construindo aí.

[00:22:44] O verdadeiro humor é aquele que provoca os poderosos, não é o que tira sarro dos

[00:22:48] fracos.

[00:22:48] É.

[00:22:49] E ali foi um lugar, quer dizer, você brincava com tudo, mas que a intenção maior era essa

[00:22:53] provocação.

[00:22:54] É.

[00:22:54] E as pessoas, não sei se te paro e pergunto sempre isso, ah, você que fala isso, você

[00:22:58] que sei, ia ser ótimo hoje.

[00:22:59] Cara, hoje a gente…

[00:23:00] A gente tem que andar com segurança na rua.

[00:23:01] É.

[00:23:01] A gente ia ter ameaça de morte, ia ter uma coisa raivosa.

[00:23:05] Você toparia fazer de novo?

[00:23:07] Eu não toparia.

[00:23:08] Então, eu acho que eu adoraria fazer um programa como esse, mas o CQC em si, acho

[00:23:11] que já foi.

[00:23:12] E tem espaço isso hoje?

[00:23:13] Na TV?

[00:23:14] É.

[00:23:15] Não, porque eu acho que as pessoas estão muito medrosas.

[00:23:19] Há uma inversão, né?

[00:23:20] É.

[00:23:20] E isso nunca funcionou em nenhum momento, que é quando o público se torna seu guia,

[00:23:26] quando o público se torna sua referência máxima.

[00:23:30] E eu vou fazer o que eles querem ouvir e eu vou entender o que eles querem ouvir a partir

[00:23:33] do que eles escrevem no Twitter ou no Instagram.

[00:23:36] Você se torna escravo, fica assim, com essa história de agradar sempre e você não chega

[00:23:40] a lugar nenhum.

[00:23:41] Não é esse o nosso lugar.

[00:23:42] Exato.

[00:23:43] Se entregar o que a pessoa espera, né?

[00:23:45] Exato.

[00:23:45] É o contrário, né?

[00:23:46] É o contrário.

[00:23:47] Ele está esperando.

[00:23:48] E depois ela vai te agradecer por isso.

[00:23:49] De ser surpreendido, né?

[00:24:00] Por que a televisão está medrosa?

[00:24:03] Porque a televisão está procurando um novo lugar, né?

[00:24:05] De competição, de existência, de possibilidade, de anunciante.

[00:24:10] A televisão luta para existir da maneira que existiu anteriormente, depois já abriu mão

[00:24:14] desse lugar, mas agora luta para existir dignamente.

[00:24:17] Para estar viva.

[00:24:19] Para estar viva, com alguma relevância.

[00:24:21] Vai continuar?

[00:24:22] Vai.

[00:24:23] No Brasil, vai.

[00:24:24] A TV aberta, vai.

[00:24:26] De outra maneira, que eu não sei qual é, mas vai sim.

[00:24:30] Porque há gente que não abre mão da TV aberta e porque a nossa história de TV

[00:24:34] aberta, nosso Brasil, é completamente diferente de qualquer outro lugar no mundo.

[00:24:37] Totalmente.

[00:24:39] Até por conta do Brasil ser um país muito desigual, né?

[00:24:42] As pessoas não têm acesso a…

[00:24:43] E o único acesso à cultura eram as novelas, por exemplo.

[00:24:46] Mas daí você tem uma questão que foi um achado, uma sorte, que a televisão foi

[00:24:52] feita por pessoas muito inteligentes e na dramaturgia em especial por pessoas que tinham

[00:24:56] a intenção de fazer um folhetim, que ia ser descartado naquele dia, bem feito.

[00:25:00] Era bem escrito por grandes escritores, bem dirigido, bem atuado.

[00:25:03] Então, a nossa formação criou um público que sabe distinguir interpretação, sabe o

[00:25:08] que é um ator, sabe o ator que é bom e o ator que está lá e, enfim, é famoso só

[00:25:11] porque está lá.

[00:25:12] Sabe.

[00:25:13] As pessoas sabem.

[00:25:14] Em nenhum outro país é assim.

[00:25:15] Vamos ouvir os nossos telespectadores, então.

[00:25:19] Tommy Albarello.

[00:25:21] Duas perguntas.

[00:25:22] Dan, ainda te chamam de Tom Hanks, né?

[00:25:25] Essa também é antiga, né?

[00:25:26] Falando sério agora.

[00:25:27] Assumir o comando do CQC foi uma decisão fácil?

[00:25:30] Rolou aquele frio na barriga de dar continuidade após vários anos do comando do Marcelo?

[00:25:35] Rolou um frio na barriga.

[00:25:36] Era um lugar completamente diferente para mim.

[00:25:39] Mas foi bom, cara.

[00:25:39] Foi ótimo, na verdade.

[00:25:41] Foi um grande aprendizado.

[00:25:42] O que ficou para você dessa experiência?

[00:25:43] A capacidade de ter mais síntese, falar com a câmera de um modo mais resolvido.

[00:25:49] Eu entrevisto melhor quando eu assumo esse lugar, né?

[00:25:52] Eventualmente, de entrevistador, de apresentador, acho que eu sou melhor do que eu era antes

[00:25:56] daquela experiência.

[00:25:58] Não, e abrir, né?

[00:25:59] Eu acho que…

[00:25:59] Para outras pessoas, outras influências, outras…

[00:26:04] Eu nunca tinha trabalhado em outro lugar que não fosse a Globo antes de ir para lá.

[00:26:07] Sim.

[00:26:08] Eu gosto de ver isso como um ato de coragem, é onde eu coloco isso para mim, né?

[00:26:11] Pô, bota coragem nisso, cara.

[00:26:15] Eu acho que você foi um cara muito…

[00:26:19] Que soube se…

[00:26:20] É o tal da reinvenção que eu falei no começo desse bloco.

[00:26:23] Tem muita gente que fala isso da boca para fora.

[00:26:25] Você pratica isso como está praticando agora no teatro.

[00:26:27] Mas, presidente, nessa pergunta tem uma brincadeira.

[00:26:29] Ele não tem esse peso, mas só para…

[00:26:31] As pessoas…

[00:26:32] Eu estava falando do Tom Hanks, por exemplo.

[00:26:33] Era uma brincadeira do caceta que ficou e foi super legal.

[00:26:36] As pessoas no Brasil, não por causa de um apelido ou de uma brincadeira,

[00:26:39] elas tendem a nos rotular de alguma coisa.

[00:26:41] Sim.

[00:26:41] E nos simplificar.

[00:26:42] Então, quando você toma uma atitude dessas, é uma briga com isso, né?

[00:26:47] Como que você lida?

[00:26:48] Eu falei do Paulo Outropos, eu falava,

[00:26:50] Paulo, eu quero fazer um programa de rádio.

[00:26:52] Ele falava, não faça isso, as pessoas não podem te conhecer.

[00:26:55] Sei.

[00:26:55] Porque as pessoas não podem saber quem a gente é.

[00:26:57] Quando você for interpretar um personagem, ninguém vai acreditar.

[00:26:59] Aí eu falo, Paulo, o tempo mudou.

[00:27:02] As pessoas vão não saber de quem nós somos, de qualquer…

[00:27:03] Eu não imaginava que era tudo isso.

[00:27:05] Sim.

[00:27:05] Que hoje em dia já tudo inverteu e a pessoa, o ator, às vezes tem medo, inclusive,

[00:27:08] de fazer algo diferente, porque ele quer ser aquele cara do Instagram que está lá para sempre.

[00:27:12] Sei, sei.

[00:27:13] E não mexer com seus contratos de, sei lá, das 10 coisas que estão ali.

[00:27:17] Claro.

[00:27:17] Mas o que você faz é diferente.

[00:27:19] O seu programa tem quase 20 anos no rádio e é você que está ali.

[00:27:23] E sou eu.

[00:27:23] Né?

[00:27:24] É.

[00:27:24] Numa época que não tinha nem vídeo, era ótimo, era só conteúdo.

[00:27:27] É.

[00:27:27] A ideia era só ter conteúdo, só…

[00:27:29] Só…

[00:27:30] Só imaginação e conteúdo.

[00:27:31] É.

[00:27:31] Que é o lugar do teatro e da literatura.

[00:27:34] Estamos de volta, hein?

[00:27:37] Não sabemos o que é isso, mas somos nós.

[00:27:44] Acorda, pessoal!

[00:27:48] Vai entrar alguma coisa, vai acontecer algum estouro aí.

[00:27:51] Não, não vai acontecer nada, vai ser assim mesmo.

[00:27:53] É isso aí mesmo, Zé?

[00:27:55] É isso mesmo.

[00:27:57] Gisele Santos.

[00:27:58] Fala, Gisele.

[00:27:58] O que vocês dois sentem mais falta do CQC?

[00:28:03] Diga.

[00:28:04] Da TV ao vivo.

[00:28:06] Eu gosto…

[00:28:06] Do frisson.

[00:28:07] Eu gosto de TV ao vivo.

[00:28:08] Isso eu sinto falta.

[00:28:09] E você?

[00:28:10] E você viveu um momento, eu vivi isso também, parte da minha experiência, de saber que

[00:28:14] as pessoas estariam lá naquela hora para nos ver.

[00:28:18] Isso.

[00:28:19] Para saber o que a gente ia dizer.

[00:28:20] Porque em nenhum lugar se dizia algo assim.

[00:28:23] E aquelas matérias iam entrar e iam abordar aquele assunto de um outro jeito.

[00:28:27] E causar, né?

[00:28:28] Causar.

[00:28:29] Causar uma conversa.

[00:28:30] Esse lugar do provocador é muito bom.

[00:28:32] É boa essa.

[00:28:34] Legal, Gisele.

[00:28:35] Está vendo, Gisele?

[00:28:36] Estamos aqui.

[00:28:37] Estamos aqui ainda, Gisele.

[00:28:38] Ainda estamos aqui.

[00:28:41] Você tem uma longa experiência como professor também.

[00:28:45] 11 anos, é.

[00:28:46] Como que foi isso e como é isso?

[00:28:49] Cara, meus pais eram contra eu fazer teatro, né?

[00:28:52] Eram contra eu ir para a profissão artística.

[00:28:54] Então, eu tinha que sair de casa, o que eu fiz logo.

[00:28:56] E eu precisava montar um esquema.

[00:28:57] Um esquema para mim de viver, de sobreviver.

[00:29:00] E eu montei esse esquema através das aulas.

[00:29:03] Eu tinha uma tabelinha na parede de casa

[00:29:04] de quanto eu precisava guardar para pagar o aluguel,

[00:29:07] de como que eu ia fazer.

[00:29:09] E a saída eram as aulas.

[00:29:10] Aulas de?

[00:29:11] De teatro.

[00:29:12] Eu só dei aula de teatro.

[00:29:14] Escola, faculdade.

[00:29:16] Eu acabei dando aula.

[00:29:17] E depois eu dei aula em lugares também muito legais.

[00:29:18] Eu dei aula na Globo, né?

[00:29:20] Para atores iniciantes.

[00:29:21] Depois comecei a achar que era uma péssima ideia

[00:29:23] porque eu já estava dirigindo pessoas para cenas que eu queria fazer.

[00:29:26] Sei.

[00:29:27] Então, falei, olha.

[00:29:27] Entregando.

[00:29:28] Então, preciso parar.

[00:29:28] Isso foi o momento já que eu estava desistindo da aula,

[00:29:31] parando de dar aula.

[00:29:32] Que também foi uma opção já no meu universo corajosa.

[00:29:35] Porque estava tudo muito estabelecido,

[00:29:36] eu ganhava muito bem, as coisas giravam muito bem.

[00:29:39] Dei aula na escola de arte dramática,

[00:29:40] que foi onde eu estudei.

[00:29:41] Estudei um ano só, mas estudei lá.

[00:29:44] E o universo da aula,

[00:29:47] além da coisa da grana e da estabilidade,

[00:29:49] e isso eu aprendi ali também,

[00:29:50] eu precisava criar salários fixos para mim

[00:29:53] numa profissão tão absurdamente irregular, instável.

[00:29:58] Então, a solução era essa,

[00:30:00] mas de encontrar nas aulas pessoas que não eram atores,

[00:30:04] não iam ser nunca,

[00:30:05] mas que tinham uma paixão enorme pela arte.

[00:30:07] E que se deixavam transformar por aquilo.

[00:30:09] E daí era muito bonito.

[00:30:11] E era muito legal.

[00:30:23] Que tipo de professor que você era?

[00:30:26] Muito carinhoso, eu acho.

[00:30:27] E muito atento também.

[00:30:29] Atento.

[00:30:29] Sim, atento ao outro.

[00:30:31] Rigoroso com algumas coisas que eu acho que o teatro e a arte têm.

[00:30:35] Horário, a tua verdade, o que nós combinamos,

[00:30:39] vai para casa e volta com alguma coisa nova para mim.

[00:30:44] Eu torço pelo seu melhor, né?

[00:30:46] Então, eu estou aqui para isso.

[00:30:49] E você precisa ser cúmplice dessa ideia.

[00:30:51] Você precisa me ajudar a te ajudar.

[00:30:53] Então, ver as pessoas se transformando e evoluindo

[00:30:56] num processo…

[00:30:57] num processo de aula ou de experiência artística,

[00:31:01] qualquer uma, né?

[00:31:01] Eu tive a do teatro.

[00:31:02] É lindo.

[00:31:03] É lindo de ver.

[00:31:05] E é muito bom de fazer parte.

[00:31:07] Então, foi difícil para mim parar de dar aula por causa disso.

[00:31:09] Porque eu adorava aquelas pessoas e os lugares onde…

[00:31:12] E até hoje, né?

[00:31:13] Então, é um monte de ator por aí.

[00:31:14] Vários atores que continuaram depois dessa experiência

[00:31:16] se tornaram atores por causa dessas experiências.

[00:31:19] Ou pessoas melhores, eu acho.

[00:31:21] A palavra é o centro da cena sempre, né?

[00:31:24] É.

[00:31:24] E isso é muito revelador.

[00:31:26] Agora, eu acho que…

[00:31:27] Eu acho que…

[00:31:27] Eu acho que…

[00:31:27] Eu acho que…

[00:31:27] Agora, na hora que a gente está na encruzilhada,

[00:31:31] é muito diferente de contar aqui.

[00:31:34] Agora é romântico.

[00:31:35] Ai, que história linda!

[00:31:37] É uma fã difícil.

[00:31:38] Agora, então, fala para quem está na encruzilhada

[00:31:41] como conviver com essa…

[00:31:44] Com essa…

[00:31:45] Como que você descreve?

[00:31:46] É um medo mesmo que eu acho que chama isso, né?

[00:31:50] Pô, falar…

[00:31:50] É difícil falar para o outro.

[00:31:53] Porque cada um de nós tem uma realidade no Brasil.

[00:31:55] Ainda mais as realidades são muito diferentes.

[00:31:57] Às vezes, muito cruéis.

[00:31:58] Mas o que eu diria é que, hoje, o mundo está aberto à sua diferença.

[00:32:02] Mais do que antes.

[00:32:03] Mais do que antes?

[00:32:04] Mais do que antes.

[00:32:04] Mesmo com tanta barulheira e treta e polarização.

[00:32:09] Eu acho que sim, porque, pelo lado bom, você tem uma…

[00:32:12] Caso você tenha um celular ou uma possibilidade,

[00:32:15] você tem um caminho para dizer alguma coisa.

[00:32:18] Um veículo para poder se expressar e falar de você

[00:32:20] ou do mundo que você quer ou do mundo que você vê.

[00:32:24] E eu acho que exercer a sua diferença é a grande…

[00:32:27] sacada.

[00:32:28] Eu acho que a armadilha é ser igual ao que você vê.

[00:32:32] A referência de sucesso ou daquilo que te encanta e você, de alguma maneira, se mimetiza

[00:32:37] e imita aquilo, né?

[00:32:39] Eu acho que essa é a armadilha.

[00:32:41] O lugar é exercer a sua diferença.

[00:32:53] Deixe-me dar uma olhada.

[00:32:54] Alhamdulillah.

[00:32:55] Nós não vamos seguir a guerra.

[00:32:57] A armadilha vai voltar.

[00:32:58] Veja, ontem…

[00:32:59] Volte à guerra e termine, tá bom?

[00:33:02] Mas, se Deus quiser, nós vamos construir a armadilha.

[00:33:08] Nós queremos construir ela, como vocês estão vendo.

[00:33:12] Nós vamos construir ela, mas por quê?

[00:33:13] Para o dinheiro.

[00:33:14] Em nossas mãos.

[00:33:17] E, no seu caso, a diferença de ser judeu nesse momento que nós estamos vivendo

[00:33:23] é…

[00:33:24] com todas as cenas de…

[00:33:25] violência, de Gaza, dos reféns, dessa história toda que está nesse desenlace,

[00:33:33] que a gente sabe o quanto que é frágil.

[00:33:35] Que esperança que você tem?

[00:33:37] Eu tenho esperança de um entendimento maior.

[00:33:40] Por vias tortas, né?

[00:33:42] Olha como aconteceu as coisas aí.

[00:33:43] Com quem?

[00:33:44] Com Donald Trump, né?

[00:33:45] Exato.

[00:33:46] Quando poderíamos imaginar?

[00:33:48] Mas que, enfim, que seja para o bem.

[00:33:52] É…

[00:33:53] E que a gente consiga…

[00:33:54] escrever uma nova história no Oriente Médio,

[00:33:57] para a Palestina, para Israel e para o mundo todo,

[00:34:01] de compreensão e entendimento.

[00:34:03] É…

[00:34:04] Acho que não há, nesse momento, no dia de hoje,

[00:34:07] não ter esperança.

[00:34:09] Como não ter esperança?

[00:34:10] É…

[00:34:11] Já que o improvável está aí.

[00:34:14] É…

[00:34:15] Bota improvável nisso, né, Dan?

[00:34:17] É…

[00:34:18] Mas é para isso que você está aqui, Dan.

[00:34:19] É…

[00:34:20] Porque você é o homem do teatro.

[00:34:21] Sim, sim.

[00:34:22] E, no próximo bloco…

[00:34:23] No próximo bloco, nós vamos até a Polônia,

[00:34:27] terra de partida dos Stulbach para o Brasil,

[00:34:33] onde o meu convidado encontrou a sua verdadeira religião,

[00:34:36] o Esporte Clube Corinthians Paulista.

[00:34:39] Até loguinho.

[00:34:50] Estamos de volta com Dan Stulbach no Provoca.

[00:34:52] Eu abri o programa com o Mercador de Veneza.

[00:34:54] Nessa última parte da conversa,

[00:34:56] eu lembro um outro trecho da peça,

[00:34:58] onde o personagem em título, o Antônio,

[00:35:01] o tal do Mercador de Veneza,

[00:35:03] dá a sua visão de mundo.

[00:35:05] Segundo ele, é assim.

[00:35:08] Um palco em que cada um deve representar um papel.

[00:35:12] E o meu papel é um papel triste.

[00:35:16] E aí, Dan, você concorda com o Antônio?

[00:35:20] Para ele está ótimo.

[00:35:21] Para mim, não.

[00:35:23] Mas para ele é tudo tão poético, né?

[00:35:25] Que sabedoria do Shakespeare.

[00:35:26] É tudo tão bonito.

[00:35:28] Só deixa eu dizer um negócio,

[00:35:29] e não sei se você vai botar ou não,

[00:35:30] mas é um disclaimer que eu acho interessante, útil, sei lá.

[00:35:34] Eu nunca tive uma educação judaica.

[00:35:37] Um.

[00:35:38] Só para…

[00:35:39] Meu pai e minha mãe,

[00:35:40] eles não queriam que a gente tivesse uma educação judaica.

[00:35:44] Ser judeu era sinônimo de ser perseguido.

[00:35:47] Sim.

[00:35:48] Meu pai, o pai dele, meu avô,

[00:35:50] estudou de pé porque os judeus não podiam sentar.

[00:35:53] Meu avô tinha nove irmãos, morreram oito.

[00:35:56] E minha mãe nasceu embaixo de uma árvore fugida

[00:35:59] e teve o pai fuzilado.

[00:36:01] Essas eram as referências.

[00:36:02] Ele teve depois um padrasto que a tratou muito bem

[00:36:04] e foi transferir para o Brasil.

[00:36:05] Só estou dizendo rapidamente

[00:36:06] que eu fui pelas mãos do meu avô fazer bar mitzvah.

[00:36:09] E era ele que me contava.

[00:36:11] Só aí?

[00:36:12] Só aí.

[00:36:13] E ele falava, ah, você é judeu.

[00:36:14] Ah?

[00:36:15] É, você é judeu, você tem que fazer.

[00:36:16] Ah, é?

[00:36:17] E meu pai era contra.

[00:36:18] Minha mãe não dava bola.

[00:36:19] Era uma situação particular.

[00:36:20] Só estou dizendo isso.

[00:36:21] Dentro de casa, só para entender,

[00:36:22] dentro de casa os seus pais não falavam?

[00:36:25] Não, nunca.

[00:36:26] Disso?

[00:36:27] Nunca.

[00:36:28] Não tinha mezuzah na porta da minha casa.

[00:36:30] Estou dizendo isso porque eu acho honesto eu falar isso.

[00:36:35] E aí lá eu fui fazer bar mitzvah,

[00:36:37] encontrei um monte de gente.

[00:36:38] Teve uma peça nesse lugar que a gente foi fazer.

[00:36:40] Foi o José Soma Technicolor.

[00:36:42] Eu fiz muitos amigos para a vida toda.

[00:36:44] Alguns me odeiam hoje ou me mandam mensagens mal educadas

[00:36:46] porque acham que eu não sou radical como eu deveria ser.

[00:36:49] Outros me odeiam e me acusam porque acham que eu sou radical demais

[00:36:51] e eu deveria ser menos.

[00:36:52] Outros simplesmente me dão um abraço.

[00:36:54] Outros me esqueceram ou eu os esqueci.

[00:36:56] Mas é assim, só para dizer.

[00:36:58] Sim, mas isso é você.

[00:37:00] Isso.

[00:37:15] Em casa se falava outra língua, que era o polonês.

[00:37:17] Sim.

[00:37:18] E eu tive.

[00:37:20] E os amigos dos meus pais eram poloneses ou estrangeiros sempre, a vida toda.

[00:37:24] Então, é isso.

[00:37:27] Esse lugar de estrangeiro, do cara que não pertence,

[00:37:29] aí acho que isso me ajudou a ser ator ou ter esse lugar.

[00:37:32] Claro, total.

[00:37:33] Que, aliás, tem tudo a ver com o Shylock.

[00:37:35] Exato.

[00:37:36] De novo, né?

[00:37:37] Que é o estrangeiro.

[00:37:38] Que é o estrangeiro.

[00:37:39] Visto como estrangeiro.

[00:37:40] Ele quer ser incluído.

[00:37:41] Ele quer ser respeitado.

[00:37:43] Ele quer que chamem ele pelo nome.

[00:37:45] As pessoas o chamam de judeu.

[00:37:47] Ele fala, não, meu nome não é judeu, meu nome é Shylock.

[00:37:50] Sim.

[00:37:52] Eu prometi, por tudo que há de mais sagrado, que teria recolhido a minha multa, como a lei manda.

[00:37:58] Como está descrito em contrato, que lei e justiça reconhecem como legal.

[00:38:04] Portanto, se isto me for negado neste tribunal, que justiça de Veneza caia em desgraça em todos os continentes.

[00:38:13] Os seus pais, né?

[00:38:14] Joseph e Evan.

[00:38:15] Isso.

[00:38:16] Eles…

[00:38:17] A perseguição que eles sofreram não é trivial, né?

[00:38:21] O seu pai, o seu avô…

[00:38:23] O seu pai ficou escondido.

[00:38:26] Meu pai nasceu na guerra, né?

[00:38:28] E daí ele foi entregue para uma outra família para ser cuidado.

[00:38:30] Uma outra família católica, enquanto os pais dele foram para um sótão de uma fábrica de carvão.

[00:38:35] Esse sótão não tinha janela, tinha uma clarabóia.

[00:38:38] Aí o meu avô até depois fez suas memórias, ele queria que o livro dele…

[00:38:42] Ele não sobreviveu…

[00:38:43] Não viveu para ver o livro pronto.

[00:38:45] Mas era clarabóia sem luar, né?

[00:38:48] Porque eles ficaram nesse sótão durante a guerra.

[00:38:51] De um metro e meio de altura.

[00:38:53] Algum tempo, então?

[00:38:54] Três anos.

[00:38:55] Três anos?

[00:38:56] É.

[00:38:57] E meu pai é criado por essa família católica, até que o zelador dessa fábrica de carvão, que era o amigo do meu avô e católico polonês,

[00:39:04] o que mostra bem claramente que as pessoas não são iguais.

[00:39:09] Claro, uma diversidade.

[00:39:11] E esse cara…

[00:39:12] E escondia isso, inclusive, da esposa.

[00:39:14] E revela isso depois da guerra.

[00:39:16] O livro é em homenagem a esse senhor.

[00:39:18] Bom, ele diz para a minha avó, para o meu avô, que a criança está morrendo de inanição,

[00:39:23] porque naquela família não se estava dando comida para ele, já na escassez da comida ali na prioridade.

[00:39:29] E aí tem uma votação nesse sótão para ver se traz meu pai ou não.

[00:39:32] Acaba vencendo ou não por unanimidade.

[00:39:35] Eu sempre tenho que falar que não por unanimidade, porque era assim que meu avô contava.

[00:39:38] Então, sempre que você contar essa história, diga que não foi unânime.

[00:39:42] Que eu lembro das pessoas que votaram contra trazer meu filho.

[00:39:46] E trazem ele num saco de estopa e ele era fraquinho.

[00:39:51] Meu pai teve problema de calcificação a vida toda por ter ficado esse tempo num sótão.

[00:39:58] E tinha problemas, espasmos na cabeça, pequenas ausências por causa do sufocamento que ele sofreu para não chorar.

[00:40:07] Para não chorar lá dentro, para não fazer barulho, basicamente.

[00:40:12] Música

[00:40:31] E depois meu avô fica na Polônia, o que é algo também difícil, é diferente,

[00:40:35] porque todo mundo foi embora, os judeus e muitos poloneses também,

[00:40:39] que não queriam reconstruir o país, queriam uma outra vida em outro país.

[00:40:41] Mas eles ficam porque ele cria um lugar para os órfãos de guerra.

[00:40:45] Minha mãe contou isso outro dia para mim também.

[00:40:48] Tinha uma parede em alguns cafés, só tinha um, ela falava, sobrou um café.

[00:40:51] Ela é de Varsóvia, né? Só sobrou um café em Varsóvia.

[00:40:54] E naquele café tinha uma parede onde tinham bilhetes.

[00:40:57] Eu sobrevivi, procuro minha filha.

[00:41:00] Eu sobrevivi, procuro meu pai.

[00:41:03] E aquele era o lugar de encontro onde as pessoas se procuravam depois da guerra.

[00:41:07] Em Cracóvia, onde estava meu avô, ele fez uma entidade de…

[00:41:10] de órfãos de guerra.

[00:41:12] Sim.

[00:41:13] Que foi onde meu pai acabou estudando.

[00:41:15] E depois ele ficou lá na Polônia e veio para cá, porque aí outros problemas começaram.

[00:41:19] Sim.

[00:41:20] Que isso, hein? Isso é uma odisseia, né?

[00:41:23] E daí tem uma outra coisa que eu nem deveria dizer, mas é uma odisseia, é lindo.

[00:41:26] É lindo e forte, né?

[00:41:27] Mas tem uma outra coisa que é interessante e talvez um outro…

[00:41:32] Talvez eu não devesse falar, porque pode ter um outro entendimento no Brasil.

[00:41:36] Mas eles tiveram o comunismo depois, né?

[00:41:38] É.

[00:41:39] Do nazismo.

[00:41:40] Eu fui com meu pai para a Polônia, a gente foi, a família toda, e nós entramos num restaurante.

[00:41:46] E ele falou assim…

[00:41:48] Ele ficou meio atônito.

[00:41:49] Eu falei, pai, o que você está olhando aí?

[00:41:51] Ele falou, não, é a primeira vez que eu venho aqui que os talheres estão soltos.

[00:41:55] Eu falei, como assim?

[00:41:57] Ele falou, não, é porque a faca era presa com uma corrente aqui.

[00:42:01] Ele falou, seu avô gostava daqui.

[00:42:03] Eu vim aqui e eu brincava com isso quando criança.

[00:42:05] Sim.

[00:42:06] Eu falei, por quê?

[00:42:07] Porque vinham os oficiais russos aqui.

[00:42:09] Soviéticos.

[00:42:11] Então, a gente não podia…

[00:42:13] Para que ninguém fizesse nada contra eles.

[00:42:15] Cara…

[00:42:17] Então, tipo, acabou ali, né?

[00:42:20] Então, a liberdade era o ocidente, né?

[00:42:26] Não era o comunismo.

[00:42:28] Sim.

[00:42:29] A liberdade…

[00:42:30] E daí ele vem para o Brasil e depois…

[00:42:32] Aí tem uma outra realidade, enfim.

[00:42:34] A liberdade muda de lado, às vezes.

[00:42:36] Essa é para você, Tchudeu.

[00:42:39] Eu começou a querer me juntar,

[00:42:43] mas a liberdade se perdeu e não Forçou a me distinguir.

[00:42:46] Mas ainda não se deu ao chineses.

[00:42:47] E a liberdade é o libertador.

[00:42:48] Então, eu perguntei para ele,

[00:42:49] por que você não é da República?

[00:42:50] Ele disse,

[00:42:51] Ei, eu perguntei para o Brasil,

[00:42:52] E ele disse que ele não amava a liberdade.

[00:42:54] Ele disse que eu não amava.

[00:42:55] Ele disse que eu não amava.

[00:42:56] Mas, cara, enquanto o Brasil e o Brasil,

[00:42:58] a liberdade,

[00:42:59] ela não era a liberdade.

[00:43:00] Então, eu perguntei para ele,

[00:43:01] E eu perguntei para ele,

[00:43:02] e ele disse,

[00:43:03] Você merece mesmo a liberdade.

[00:43:04] E eu perguntei para a irmã,

[00:43:05] E ela disse,

[00:43:06] Mas, depois,

[00:43:07] Você fundou um grupo de teatro na SPM, que está vivo ainda, o Tangerina.

[00:43:14] É, está lá.

[00:43:15] E é na época você fazia comunicação social.

[00:43:18] Fazia.

[00:43:19] Mas eu não fui um grande aluno, porque daí eu comecei a fazer teatro já,

[00:43:22] e daí as coisas já se bagunçaram.

[00:43:23] E por que os seus pais foram contra?

[00:43:26] Cara, porque nós somos uma família muito pequena.

[00:43:29] Acaba em uma Kombi.

[00:43:30] Então, eu era o neto mais velho, melhor aluno, tinha muitas esperanças a meu respeito.

[00:43:37] Esse cara tem que garantir alguma coisa.

[00:43:40] É, e meu pai vem para cá, ele já vem mais velho, vem aos 16 anos, da Polônia,

[00:43:48] e sofrido um monte de coisas que ele sofreu, e minha mãe também.

[00:43:52] Eu era o recomeço, eu era o começo do Brasil.

[00:43:55] Você é o primeiro que nasceu no Brasil.

[00:43:57] Eu sou o primeiro que nasceu no Brasil.

[00:43:59] E essa ideia de, bom, a partir de agora, novo país, novo mundo.

[00:44:03] E aí, quando eu falo para você, ator, tem duas coisas aí.

[00:44:05] Eu acho que também tem uma coisa judaica.

[00:44:07] Uma coisa de, meu pai tinha sofrido na Polônia, minha mãe também.

[00:44:10] Uma coisa de também ter um incômodo com o fato de você aparecer.

[00:44:15] Tá.

[00:44:16] Porque há uma ideia que o antissemitismo…

[00:44:17] De ficar visível.

[00:44:18] De ficar visível.

[00:44:19] Que tem uma ideia que o antissemitismo, ou você chamar muita atenção pode ser ruim.

[00:44:25] Isso é uma ideia.

[00:44:26] E a outra, da insegurança do país e do trabalho em si.

[00:44:29] E a outra, terceira, que eu acho que eles não me conheciam.

[00:44:37] E a terceira, que eu acho que eles não me conheciam.

[00:44:45] Quando que há uma chance da gente conhecer os nossos pais?

[00:44:51] Ah, eu tenho uma história bonita sobre isso, mas que é muito longa, tornando ela mais curta.

[00:44:56] A minha primeira peça foi Perguente, do Roberto Laje.

[00:44:58] Com o Roberto Laje dirigindo.

[00:45:00] Que é um diretor maravilhoso.

[00:45:01] Eu tinha feito Escórdia Dramática um ano, não tinha dado certo.

[00:45:05] Eu não entendia aquelas pessoas.

[00:45:07] Eram um mundo muito diferente do meu.

[00:45:09] E eu me sentia, que aliás é uma coisa muito forte em mim, desencaixado em todo lugar, um pouco.

[00:45:13] E daí eu falei, acho que eu tenho que parar de fazer teatro e fazer o que eles estão falando pra mim, pra eu fazer.

[00:45:18] Foi nesse momento, uma menina chamada Thaís Fantauzzi, tem Escórdia de Teatro hoje, até onde eu sei, me chamou pra fazer um teste.

[00:45:24] Eu fiz esse teste na Globo.

[00:45:26] A Globo me chamou, eu não quis, falei pra eles, não, eu não quero ser ator.

[00:45:30] E daí ela me chamou pra fazer um outro teste, que era pra uma peça que era essa.

[00:45:33] Eu fiz, é que eu não quero falar toda a história, que é muito longa.

[00:45:35] Mas daí eu fiz o teste.

[00:45:36] Aí o Ladi falou, você quer fazer teatro, cara?

[00:45:38] Você quer fazer a peça?

[00:45:39] Eu falei, não, eu não sou ator, amigo.

[00:45:41] Aí ele deixou o texto em casa, me passou lá no teste, ele falou, você tem que fazer, eu li, fiquei encantado.

[00:45:45] Daí eu fiz, ele falou assim, ó, eu fui lá devolver o texto pra ele, falar obrigado.

[00:45:50] E aí ele falou assim, porque você não fica aqui faz uma semana de teste.

[00:45:53] Se você pegar o papel principal, você fica.

[00:45:55] Se você não, você vai embora.

[00:45:57] Eu fiquei e passei.

[00:45:58] Claro.

[00:45:58] Claro, o papel era feito pra mim.

[00:46:00] E daí os meus pais, a gente teve um momento que eu falei pro meu pai e pra minha mãe que eu ia.

[00:46:05] Minha mãe que era doente.

[00:46:06] Meu pai falou que a partir dali eu que cuidava da minha vida.

[00:46:11] E eles foram viajar.

[00:46:13] Quando ele voltou, meu pai, ele voltou um dia antes da estreia.

[00:46:17] Aí tinha a Marília que trabalhava em casa e ela deixou todos os jornais.

[00:46:20] Eu tinha um monte de jornal que saia minha cara, né, pela primeira vez.

[00:46:23] Aí ele ligou em casa, né, e falou, Dan, você saiu no jornal?

[00:46:27] Falei, eu saí, pai.

[00:46:29] Ah, tá bom.

[00:46:30] Quando é a peça?

[00:46:31] Ah, é hoje, pai.

[00:46:32] Ah, tá.

[00:46:33] Bom, ele foi.

[00:46:35] Quando acabou a peça, tava uma fome.

[00:46:36] Tinha uma fila no teatro todo, assim.

[00:46:38] Eu tava do lado do Sérgio Mamberti, porque o filho dele, o Carlinhos, fazia a peça.

[00:46:41] Eu falei, Mamberti, chama aquele cara que tá lá na…

[00:46:45] Mas onde?

[00:46:46] Aquele que tá lá no fundo da plateia, assim.

[00:46:48] Tem, tipo, sei lá quantas pessoas na fila.

[00:46:50] E aí veio meu pai.

[00:46:51] Ele veio até mim, me deu um tapa na cara, que eu gostava dele.

[00:46:55] Sabe?

[00:46:56] E falou, foi como se você tivesse nascido de novo.

[00:47:00] E aí que ele fala, eu não sabia.

[00:47:03] Só queria saber que outros crimes cometi contra vós.

[00:47:06] Do crime de nascer.

[00:47:08] Não nasceram motras também?

[00:47:10] Pois se outros nasceram, que privilégios tiveram que eu jamais gozei?

[00:47:16] Nasce uma ave, embelezada por seus ricos enfeites, não passa de flor de plumas.

[00:47:23] Romalete alado, quando vê luz, cortando salões aéreos, recusa piedade a um ninho que abandona em paz.

[00:47:32] E eu, tendo mais instinto, tenho menos liberdade.

[00:47:36] Liberdade!

[00:47:38] Então, essa é uma história sobre isso, como tem várias.

[00:47:41] E eu acho que é isso.

[00:47:42] Que sinceridade dele, né? Bacana, né?

[00:47:45] Mas não mudou nada.

[00:47:48] Eu fui embora de casa.

[00:47:50] E ele, a partir dali, eu soube depois.

[00:47:52] Primeiro que o diretor, que é o Laje, foi na minha casa, na casa deles, falar com ele.

[00:47:56] E falou, ó, seu filho vai ser ator, queira você ou não.

[00:47:59] Isso é uma história.

[00:48:00] E a outra, de que ele andou com o recorte desse jornal.

[00:48:06] Sim.

[00:48:06] Durante décadas, na carteira dele.

[00:48:10] Tava no hospital, no fim da vida, quando ele falava sobre mim, comigo, sem saber que eu era eu.

[00:48:16] Sem saber que era com você, caraca.

[00:48:19] E aí ele falava do filho que ele, com o qual ele não conversou sobre tantas coisas que podiam ter sido faladas.

[00:48:36] Você, como criança, você era tímido?

[00:48:47] Era, era.

[00:48:49] Falava pouco.

[00:48:50] Falava pouco e tinha um mundo do imaginário, né?

[00:48:52] Eu brincava e jogava botão.

[00:48:54] Ah, lá vai…

[00:48:55] Ah, só que eu posso…

[00:48:55] Ah, basta!

[00:48:57] Não sei o que lá era, velho.

[00:48:58] Eu era esse cara.

[00:48:59] Eu tinha um mundo próprio.

[00:49:00] Com aquele de relógio?

[00:49:03] Isso, vários.

[00:49:04] Eu tinha time, eu fazia tabela, eu narrava.

[00:49:06] Eu era o dirigente, o repórter, era tudo.

[00:49:09] Futebol era o lance.

[00:49:09] Você falou do Corinthians, né?

[00:49:10] Na virada do bloco.

[00:49:11] Era o lance, era o Corinthians.

[00:49:13] E era o Sócrates.

[00:49:14] Então conta, quando que você encontrou essa religião?

[00:49:17] Seu pai foi favorável?

[00:49:18] Não, meu pai não tava nem aí porque ele não gostava tanto de futebol.

[00:49:20] Cara, eu fui pro estádio porque o Paquembu era perto de casa.

[00:49:23] Eu brinco que podia ter ido pro Parque Antártico porque era a mesma distância.

[00:49:26] Ainda bem que eu fui pro Paquembu.

[00:49:27] E foi o máximo por dois, três motos.

[00:49:32] Com quem você foi?

[00:49:34] Com meu pai.

[00:49:35] Porque também não aguentava mais que eu enchia.

[00:49:36] Esse saco dele, tanto que eu queria ir.

[00:49:38] Eu acho que eles me levaram num jogo do Pelé,

[00:49:40] alguma das despedidas primeiro, mas eu não lembro.

[00:49:42] Eu lembro do Sócrates e do time, e de ser gol e todo mundo se abraçar.

[00:49:49] Um monte de gente que não me conhecia e eu não conhecia ninguém.

[00:49:52] E a gente, todo mundo se abraçar e cantar junto e chorar junto.

[00:49:56] E daí aquele cara que conforme eu fui ficando mais velho,

[00:49:59] eu fui falando coisas que eu já entendia ou queria entender,

[00:50:02] que era a democracia, que eram eleições diretas.

[00:50:04] Se tiver diretas eu fico.

[00:50:06] Na capa da placar, aí eu falava,

[00:50:08] pô, esse cara tá falando do quê, eleições diretas, o que que é isso?

[00:50:11] Eu falava em casa do meu pai, que talvez a contra gosto tivesse que me explicar

[00:50:14] ou falar sobre esse assunto, num Brasil que não falava,

[00:50:17] numa escola que não falava sobre isso.

[00:50:20] Eu só fui acessar a democracia por causa do Sócrates.

[00:50:22] O Raí sabe disso e sempre fala disso.

[00:50:25] E eu falei isso pro doutor quando eu o conheci.

[00:50:27] Se você tiver dúvida, em algum momento, que valeu a pena, me liga.

[00:50:32] Porque mudou o meu modo de ver o país e de entender

[00:50:35] a política por causa dele.

[00:50:38] E acho que faz parte da minha vontade de ser ator

[00:50:41] e fez parte do meu entendimento, e daí junto um pouco com a outra pergunta que você fez,

[00:50:45] e o CQC, o CQC tem a ver com isso,

[00:50:48] de usar a fama, o nome que a gente tem, em nome de algo maior.

[00:50:52] Sim, se posicionar, né, politicamente.

[00:50:55] Exato, de algo maior e que possa ser mais útil.

[00:50:59] Sim.

[00:51:05] Olha o nome do príncipe do leste europeu, pessoal.

[00:51:20] Dan Philip Stuback.

[00:51:22] E daí quando eu tava na novela, o cara chegou pra mim da Globo e falou assim,

[00:51:25] tira o Stuback e deixa o Philip.

[00:51:28] Verdade.

[00:51:28] Aí eu tava na primeira novela.

[00:51:31] Aí, Dan Philip é lindo, é ótimo e tal.

[00:51:33] Tá bom, vamos mudar.

[00:51:35] Aí eu falei, não, não, não.

[00:51:37] Aí eu lembrei do meu avô.

[00:51:38] Falei, não, não, então tira o Philip e deixa o Stuback.

[00:51:40] Mas vai ficar muito complicado.

[00:51:42] Falei, tudo bem.

[00:51:44] É isso.

[00:51:45] Eu sou assim.

[00:51:46] Eu sou assim, essa é a minha história.

[00:51:48] Então me diga, o que é a vida?

[00:51:51] Ah, é, tem essa.

[00:51:53] Stuback.

[00:51:55] A vida é o que a gente faz com ela.

[00:52:01] Sério, é essa?

[00:52:05] Como é que faz cara de Dan?

[00:52:09] Tem uma cara de Dan.

[00:52:11] É, eu postei outro dia, quando a gente fazia a peça, os caras sempre faziam a minha cara,

[00:52:15] que era essa cara meio assim, né?

[00:52:16] Quando começa a tirar foto, aí você faz essa cara, é, você não tem isso também?

[00:52:21] Você achou um, um persona?

[00:52:23] Você faz isso pra caramba, mais que eu.

[00:52:25] Eu não, Deus me livre.

[00:52:30] Pessoal tem que ver esse cara ao vivo, porque ele é muito bonito, muito cheiroso.

[00:52:35] Entendeu?

[00:52:36] Meu Tia Rafa.

[00:52:37] Você tá filmando isso tudo?

[00:52:38] Obrigado pela visita.

[00:52:39] Ah, ele tá também.

[00:52:40] Obrigado pela…

[00:52:41] Aqui na TV, o pessoal tem essa mania de ficar filmando a gente.

[00:52:43] Te filmaram o tempo todo.

[00:53:05] Igual, o meu.

[00:53:15] Nossa.

[00:53:16] Gente, a gente vai fazer o attentivo agora.

[00:53:21] Porque a gente já se lembrou.

[00:53:23] A gente já se lembrou.

[00:53:24] A gente já se lembrou.

[00:53:25] Mas, a gente já se lembrou, com certeza.

[00:53:27] Então, bora lá.

[00:53:28] É.

[00:53:29] Vamo lá.

[00:53:30] Então, bora lá.

[00:53:31] É, vamo lá.

[00:53:32] E, uh…

[00:53:33] Deixa eu ver.