A Infância Como Ela Não É


Resumo

O episódio discute a tentativa da bancada religiosa e da extrema-direita de derrubar uma resolução do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) de 2024. Essa resolução visava facilitar o acesso ao aborto legal para crianças e adolescentes grávidas em decorrência de estupro, um direito já garantido por lei desde 1940, mas de difícil exercício na prática devido a burocracias e obstáculos.

Os participantes analisam como a direita monopoliza o discurso sobre pedofilia e proteção da infância, enquanto suas ações concretas – como dificultar o acesso ao aborto legal para vítimas de estupro – acabam por proteger os estupradores. Eles destacam a hipocrisia de um discurso que sexualiza a infância e se preocupa com uma ‘infância metafísica’, mas negligencia políticas públicas reais que garantam uma infância digna, como creches, educação sexual e apoio familiar.

A conversa se expande para criticar a postura da esquerda, que muitas vezes evita o tema do aborto por medo de armadilhas políticas, resultando em uma imagem de desonestidade. Eles contrastam isso com a aparente ‘sinceridade’ de políticos de direita e com a estratégia de candidatos como Eric Adams (Mandani) em Nova York, que não abandonam suas posições consideradas polêmicas, mas as colocam em segundo plano em relação a pautas econômicas universalistas.

O debate também aborda a conexão entre desamparo familiar, entrada de jovens no crime e a falta de políticas públicas de base, como licença-paternidade adequada e vagas em creches. Por fim, os participantes tangenciam a crise de natalidade no Brasil e a necessidade de repensar modelos econômicos predatórios diante da crise climática, encerrando com recomendações de livros sobre parentalidade e filosofia do amor.


Indicações

Books

  • Coleção ‘Entendendo o Seu Filho’ (Ubu Editora) — Recomendada por Alessandra, é uma coleção de quatro volumes (para crianças de 1, 2, 3 e 4-5 anos) feita pela clínica Tavistock, oferecendo orientação didática e direta para pais lidarem com a primeira infância.
  • Elogio do Amor, de Alain Badiou — Recomendado por Bruno, o livro discute diferentes concepções de amor (securitária, romântica, cética) e propõe o amor como um evento que rompe o curso da vida, com implicações políticas e como resistência à lógica mercantil.

People

  • Giovanna Nader / Canal Tempo Virou — Recomendada por Gregório para acompanhar a cobertura da COP (Conferência do Clima), onde ela está entrevistando pessoas e trazendo notícias climáticas.

Linha do Tempo

  • 00:03:23Introdução ao tema espinhoso da semana: pedofilia — Os hosts admitem que estão enrolando para entrar no tema principal, que consideram um dos mais difíceis e deprimentes. Eles afirmam que a discussão sobre pedofilia foi monopolizada pela direita, que paradoxalmente facilita a vida dos pedófilos ao defender, por exemplo, o direito de estupradores de crianças serem pais.
  • 00:04:25Explicação sobre a resolução do Conanda e o PDL — Explicam que o Conanda emitiu uma resolução em 2024 para tentar ampliar o acesso ao aborto legal para crianças e adolescentes estupradas que engravidam, um direito já previsto em lei mas de exercício quase impossível na prática. Um Projeto de Decreto Legislativo (PDL) foi introduzido para derrubar essa resolução, criando mais obstáculos como exigência de consentimento parental e limite de semanas de gestação.
  • 00:11:00As consequências de impedir o aborto legal: risco de vida e aborto clandestino — Discutem como dificultar o acesso ao aborto legal força crianças estupradas a parirem, o que é muito mais perigoso do que um aborto seguro. Além disso, empurra essas vítimas para o aborto clandestino, mais perigoso e que as afasta do sistema de saúde e justiça, protegendo assim os estupradores.
  • 00:15:02A hipocrisia da direita e o medo da esquerda — Analisam que a pauta não é popular apenas na extrema-direita, mas tem apoio de um grande centrão. Criticam a esquerda por ter pavor do tema do aborto, fugindo do debate e parecendo desonesta. Argumentam que, neste caso específico (crianças estupradas), a defesa deveria ser mais fácil, pois é sobre proteção de vítimas.
  • 00:18:50A estratégia da direita: criar uma bandeira onde não há — Explicam que, como o aborto já é crime no Brasil na maioria dos casos, a direita não tem uma bandeira unificadora como nos EUA. Por isso, tentam criar controvérsias nos detalhes das exceções já existentes (como estupro), inventando problemas (ex: aborto de feto de 40 semanas) para mobilizar sua base eleitoral.
  • 00:24:44A lição de Mandani: sinceridade e pautas universalistas — Usam o exemplo do prefeito eleito de Nova York, Eric Adams (Mandani), que não moderou suas posições consideradas polêmicas (como sobre a Palestina), mas as colocou em segundo plano, priorizando pautas econômicas universalistas. Isso é contrastado com a esquerda brasileira, que muitas vezes parece desonesta por não se posicionar claramente.
  • 00:33:24Os limites do discurso da esquerda sobre aborto — Debatem como a esquerda, ao evitar nuances e complexidades morais na discussão do aborto (como a dificuldade em idades gestacionais avançadas) e ao usar apenas frases feitas, perde a capacidade de engajar no debate real com a sociedade. Alessandra compartilha sua posição pessoal complexa, defendendo o direito ao aborto mas reconhecendo um valor no feto.
  • 00:43:15A infância real versus a infância metafísica — Criticam a obsessão da direita com a sexualização e proteção metafísica da infância, que ignora completamente a infância real e suas necessidades concretas. Apontam que a melhor forma de prevenir abortos e proteger crianças seria educação sexual, distribuição de contraceptivos e investigação séria de abusos, políticas que a direita rejeita.
  • 00:47:11Desamparo familiar, tráfico de drogas e a falha do Estado — Conectam a entrada de jovens no tráfico de drogas não primariamente a motivações financeiras, mas ao desamparo familiar e à falta de políticas públicas como creches. Citam dados sobre vítimas de chacina que não tinham o pai registrado e criticam a gestão do prefeito Eduardo Paes por preferir pagar multa a oferecer vagas em creches.
  • 00:53:24Crise de natalidade, licença-paternidade e o futuro do país — Discutem a baixa taxa de fecundidade no Brasil (1,55) e os problemas de envelhecimento da população antes do enriquecimento do país. Defendem a ampliação da licença-paternidade como política crucial para segurança pública e igualdade de gênero, criticando a conta fiscal que ignora o custo transferido para as mulheres. Também abordam a exclusão dos trabalhadores de aplicativos desse direito.
  • 01:04:29Crise climática, decrescimento e os limites do capitalismo — Encerram ligando a discussão sobre infância e natalidade à crise climática (COP). Bruno questiona a necessidade imperativa de crescimento populacional dentro da lógica capitalista, sugerindo a necessidade de discutir premissas mais radicais. Alessandra argumenta que, dentro do regime atual, o Brasil precisa discutir como garantir dignidade para idosos e jovens, já que ficará velho antes de ficar rico.

Dados do Episódio

  • Podcast: Calma Urgente
  • Autor: Calma Urgente
  • Categoria: News Politics
  • Publicado: 2025-11-11T15:00:01Z
  • Duração: 01:18:32

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Bom dia, boa tarde, ou boa noite pra você, querido ouvinte ou espectador do Calma Urgente.

[00:00:10] É um prazer estar falando com você hoje nessa segunda-feira, dia 10 de novembro, que

[00:00:14] é Gregório do Viver.

[00:00:15] Queria chamar pra conversa eles, Alessandra Orofino e Bruno Tortura.

[00:00:21] Tudo bem com vocês?

[00:00:22] Como é que vocês estão?

[00:00:22] Olá, queridos.

[00:00:23] Oi, Greg.

[00:00:23] Oi, Alê.

[00:00:24] Como estamos?

[00:00:24] Eu tô gripada, mas estou aqui pela causa.

[00:00:28] Mais com a sua voz.

[00:00:29] Você cancelou tudo, né?

[00:00:31] Era pra você estar em Nova Iorque, era pra você estar…

[00:00:34] Era pra eu estar em Nova Iorque, entendeu?

[00:00:35] Apertando a mão do Mandani, celebrando a vitória de Mandani essa semana.

[00:00:39] Que homem, não é?

[00:00:40] Que homem.

[00:00:41] Que homem, que mulher também.

[00:00:43] Fiquei com todo respeito a ele, fiquei apaixonado também.

[00:00:46] Eu acho que meu marido parece um pouco com ele.

[00:00:48] Fisicamente.

[00:00:50] Você acha?

[00:00:51] Acho.

[00:00:51] Não, não, não.

[00:00:52] Muito católico ele pra ser…

[00:00:55] Muito, pelo amor de Deus.

[00:00:58] Desculpa.

[00:00:58] O nome de uma mulher apaixonada vem o que ela quer, entendeu?

[00:01:01] Ah, tá.

[00:01:02] Não vou dizer, não.

[00:01:04] Miguel é um cara interessantíssimo, mas assim…

[00:01:06] Interessantíssimo.

[00:01:08] Calcasiano, católico.

[00:01:09] Interessantíssimo, não.

[00:01:10] Gente, gato.

[00:01:11] Vocês, por favor, interessantíssimo.

[00:01:13] Entendeu?

[00:01:16] Gato.

[00:01:16] É muito subjetivo.

[00:01:18] Eu acho ele gato, claro.

[00:01:19] Mas assim, o Mandani também.

[00:01:21] O Mandani tá todo mundo falando que homem lindo, só porque ele é interessantíssimo

[00:01:24] também.

[00:01:24] Tudo que ele é feio.

[00:01:25] Mas assim, tem isso, né?

[00:01:26] As pessoas ficam mais…

[00:01:27] É tudo muito subjetivo.

[00:01:29] Ele tem um sorriso, né?

[00:01:29] Eu tô achando ele gato.

[00:01:30] Ele tem um sorriso.

[00:01:31] Ele, a maravilhosa esposa dele, que agora eu vou ter que falar o nome pra não chamar

[00:01:36] ela de esposa, né?

[00:01:36] Rama, né?

[00:01:37] Rama do Raj.

[00:01:38] Sabiam que ela que fez, junto com outras pessoas, o logo dele?

[00:01:41] Que uma das poucas coisas, talvez não tão ditas, foi como é maravilhosa a programação

[00:01:47] visual, né?

[00:01:48] Da campanha dele.

[00:01:48] Coisa espetacular.

[00:01:49] Maravilhosa.

[00:01:50] Luminosa.

[00:01:52] Nostálgica.

[00:01:52] Ao mesmo tempo, nova, assim.

[00:01:54] Você bate o olho e já sabe que é ele, né?

[00:01:56] Não, é muito nota 10 aquele projeto.

[00:01:58] É, é o amarelo do cartão de metrô, todas as cores têm simbologia, a tipografia aparece

[00:02:06] quando…

[00:02:06] Enfim, a gente não precisa…

[00:02:07] Rama, Rama do Vaj.

[00:02:10] Mas eu deveria estar lá com o Rama e Mamdani e, na verdade, estou aqui gripada.

[00:02:14] É isso que eu tenho pra dizer pra vocês.

[00:02:16] Mas eu não falto calma urgente mesmo assim, quer dizer.

[00:02:19] É muito compromisso com os nossos calmers.

[00:02:21] Muito compromisso, um prazer estar aqui.

[00:02:23] E, Bruno Torturra, tá tudo bem com você?

[00:02:25] Você tá bem de saúde?

[00:02:27] Tô bem de saúde.

[00:02:28] Acho que eu tô bem de saúde.

[00:02:28] Tinha uns carrapatos hoje, mas tá tudo bem.

[00:02:29] Isso é muito raro.

[00:02:30] O Bruno nunca tá bem de saúde.

[00:02:32] Que mentira!

[00:02:33] Não, eu tive um mês de magia.

[00:02:34] Agora que ele se mudou pra serra, ele fica melhor de saúde, Gregório.

[00:02:38] Você tá com carrapato?

[00:02:39] Que carrapato?

[00:02:40] Carrapato estrela?

[00:02:41] Miguim?

[00:02:41] Não, não.

[00:02:42] Estrela, não.

[00:02:42] Um carrapato…

[00:02:44] Você é tipo sommelier de carrapato, Gregório?

[00:02:46] Eu sou.

[00:02:47] Eu já tive muito, Alessandra.

[00:02:49] Por quê?

[00:02:50] Porque eu ia muito ao sítio quando eu era criança e tal, a gente tinha…

[00:02:53] E aí voltava com o carrapato.

[00:02:55] Eu também ia muito pra roça pequena e andava a cavalo.

[00:02:58] Eu não pegava tanto carrapato porque eu era uma pessoa prevenida.

[00:03:01] Prevenida?

[00:03:02] Carrapato estrela, ele fica grande se você não é arranca.

[00:03:05] Calça comprida e bota de canoaço.

[00:03:07] Você tá culpando a vítima?

[00:03:10] Você tá dizendo que eu pedi pra ser mordido?

[00:03:13] Ela basicamente tá culpando o roupa curta.

[00:03:14] Eu quero saber o que você tava vestindo.

[00:03:16] Exatamente.

[00:03:18] Minhas pernas não são um convite, carrapato.

[00:03:20] Dito isso, a gente vai falar de um tema muito espinhoso essa semana.

[00:03:23] Por isso que a gente não tá querendo entrar nele.

[00:03:25] Por isso que a gente tá enrolando.

[00:03:26] Tá adiando.

[00:03:28] Nesse momento.

[00:03:29] Porque, bom, semana passada já foi duríssimo, né?

[00:03:31] Talvez tenha sido o episódio mais duro, sei lá, que a gente já fez.

[00:03:35] Difícil pra cacete.

[00:03:37] Pesado.

[00:03:37] E essa semana tá pau a pau.

[00:03:40] Porque é sobre nada mais ou menos do que pedofilia.

[00:03:43] Ah, que animado!

[00:03:44] Pois é.

[00:03:45] O tema talvez mais deprimente, mais difícil de se lidar e de se abordar do mundo.

[00:03:48] E que, infelizmente, é um tema monopolizado pela direita.

[00:03:54] Não sei se vocês concordam com isso.

[00:03:55] Mas eu acho que é uma palavra e é um campo diferente.

[00:03:58] O campo de batalha é que a direita tomou.

[00:04:00] Tomou de assalto.

[00:04:02] Só quem fala disso, quase, é a direita.

[00:04:05] E, curiosamente, é a direita e a extrema direita que mais facilitam a vida dos pedófilos nesse país.

[00:04:12] Sim, pra mim, pelo menos, é muito claro.

[00:04:13] São eles que estão defendendo o direito, por exemplo, do estuprador de criança ter filho.

[00:04:21] Ser pai, com muitas almas.

[00:04:22] É verdade.

[00:04:23] É isso que eles fazem.

[00:04:24] Então, vamos começar falando disso?

[00:04:25] O que aconteceu?

[00:04:26] O Conanda, pra vocês saberem, o Conanda…

[00:04:28] O Conselho do ECA, do Estatuto da Criança e do Adolescente, fez um estatuto…

[00:04:34] A Alessandra vai explicar melhor.

[00:04:35] Mas eu sei que derrubaram um estatuto que garantia o cumprimento da lei.

[00:04:38] Porque hoje é lei.

[00:04:40] Uma criança que tem menos de 14 anos, ela tem o direito ao aborto por um motivo.

[00:04:44] Se tem menos de 14 anos, é estupro.

[00:04:47] É estupro.

[00:04:47] Então, você tem o direito ao aborto.

[00:04:50] Isso é um direito legal, garantido por lei.

[00:04:52] E, infelizmente, esse direito não pode ser exercido por essas crianças.

[00:04:57] Por quê?

[00:04:58] Porque, por mil complicações impostas pelo Estado.

[00:05:01] Então, sobretudo, se for uma criança pobre, num município pequeno e tal,

[00:05:04] ela não vai conseguir, hoje, o cumprimento da lei.

[00:05:07] Se for uma criança com mais meios, em uma cidade mais moderna e tal, ela vai conseguir.

[00:05:11] Então, vai depender do lugar que você mora.

[00:05:12] O que é um absurdo.

[00:05:13] Então, o Conanda, se eu não me engano, ele fez um estatuto.

[00:05:15] O que ele fez exatamente, Conanda?

[00:05:16] Explica, Alessandra.

[00:05:17] Na verdade, o Conanda tinha baixado uma resolução, em dezembro de 2024,

[00:05:22] que tinha por objetivo tentar ampliar um pouco o acesso,

[00:05:28] ao aborto legal, para essas crianças vítimas de estupro que ficam, que engravidam.

[00:05:33] Mas é garantir o acesso mesmo, né?

[00:05:35] Porque o acesso já estava em lei, mas não estava regulamentado.

[00:05:39] Quando eu digo ampliar, é isso.

[00:05:40] Ele já existe, mas ele está disponível, de fato.

[00:05:44] O acesso é muito limitado a poucas crianças.

[00:05:46] Então, a lei que criminaliza o aborto no Brasil é de 1940.

[00:05:49] E, desde aquela época, a gente tem algumas exceções para essa criminalização do aborto.

[00:05:55] Mais recentemente, foi criada uma terceira exceção.

[00:05:58] E as exceções que existem, desde 1940, são em caso de estupro e em caso de risco para a vida da mulher.

[00:06:04] Só que a lei, lá de 1940, ela não especifica muito como que você, por exemplo, vai lidar com esses casos de estupro.

[00:06:13] Então, como é que você determina que houve um estupro, não determina, como que você depois dá esse acesso.

[00:06:19] Então, ela diz que a mulher tem direito a realizar o aborto nesses casos,

[00:06:23] mas ela não vai especificar como que esse direito vai ser exercido.

[00:06:27] É num hospital público? É em qualquer hospital público?

[00:06:30] Todo médico tem que fazer? Não tem que fazer?

[00:06:32] Tem direito a fazer uma objeção de consciência, por exemplo?

[00:06:35] Então, assim, como é que isso vai se dar na prática, né?

[00:06:37] Precisa de boletim de ocorrência, que é uma coisa muito importante.

[00:06:40] Não precisa de boletim?

[00:06:41] Se a mulher for menor de idade, precisa de autorização dos pais?

[00:06:44] Não precisa de autorização dos pais?

[00:06:46] Então, você tem uma série aí de especificidades de como esse direito,

[00:06:50] que é um direito garantido por lei, está lá, isso não está em discussão,

[00:06:54] como que esse direito vai ser exercido.

[00:06:55] Só que, evidentemente, não pode ser exercido.

[00:06:56] Só que, evidentemente, não pode ser exercido.

[00:06:56] Só que, evidentemente, não pode ser exercido.

[00:06:57] Em um país com enormes desigualdades como o nosso,

[00:06:59] o exercício desse direito vai depender desses detalhes.

[00:07:03] Então, um exemplo muito prático e ilustrativo é

[00:07:06] a enorme maioria dos estupros no Brasil se dá no seio da família,

[00:07:10] dentro de casa, sobretudo estupros de crianças e adolescentes,

[00:07:14] que são as maiores vítimas de estupro no Brasil.

[00:07:17] Então, muitas vezes, são os próprios pais ou um padrasto.

[00:07:20] Muitas vezes, a mãe, às vezes, sabe, faz vista grossa,

[00:07:23] ou tem medo desse pai, porque muitas vezes é um cara violento já,

[00:07:26] inclusive com a própria mãe.

[00:07:27] Então, você tem situações dificílimas dentro de casa que levam…

[00:07:30] Um parente que frequenta a casa.

[00:07:32] Que frequenta a casa e assim por diante.

[00:07:34] Então, uma das coisas que depois, né, a lei está lá e diz, tem direito,

[00:07:39] mas depois a prática de como que esse direito vai ser exercido,

[00:07:42] uma das coisas que essa prática precisa garantir

[00:07:45] para que efetivamente a criança consiga fazer um aborto

[00:07:48] é que ela não precise de consentimento dos pais.

[00:07:51] Porque se os pais são, muitas vezes, os estupradores,

[00:07:55] dificilmente essa criança…

[00:07:56] Você vai conseguir pedir para esse estuprador qualquer coisa

[00:07:59] que dirá consentimento para fazer um aborto.

[00:08:01] Então, você tem esse tipo de situação, né,

[00:08:04] em que na hora em que você vai exercer o direito,

[00:08:07] você precisa ter uma provisão de serviço

[00:08:10] que siga certas regras que facilitem esse acesso.

[00:08:13] E aí, em 2024, o Conanda emitiu uma resolução

[00:08:17] que é basicamente uma orientação para os serviços de saúde,

[00:08:20] de justiça, de todo mundo, dizendo, olha,

[00:08:21] a gente vai fazer aqui algumas alterações na nossa orientação,

[00:08:26] sobre como esse direito é exercido,

[00:08:28] porque a gente está percebendo que pouquíssimas crianças,

[00:08:30] na verdade, conseguem fazer um aborto,

[00:08:33] mesmo quando elas são estupradas.

[00:08:35] Por definição, se são crianças que estão grávidas,

[00:08:37] foram estupradas.

[00:08:38] E esse acesso está sendo impedido na prática.

[00:08:41] Então, ele cria essa resolução para tentar ampliar um pouquinho o acesso.

[00:08:44] Nem consegue muito.

[00:08:46] A resolução sai em 2024,

[00:08:48] e não é que tem uma diferença imediata, enorme,

[00:08:51] de acesso no Brasil, né?

[00:08:52] A gente continua tendo poucas crianças estupradas e grávidas,

[00:08:56] que conseguem, efetivamente, abortar.

[00:08:58] A enorme maioria não consegue abortar,

[00:09:00] porque não tem serviço de aborto na sua cidade, é longe.

[00:09:04] Às vezes, a criança não sabe que está grávida.

[00:09:06] Muitas dessas crianças não têm ainda a menstruação regular.

[00:09:09] Então, não sabe, perdeu a menstruação, mas não percebe.

[00:09:12] Só vai perceber muito, muito no final da gravidez.

[00:09:14] Aí tem mais dificuldade de ter esse acesso.

[00:09:17] Enfim, tem milhões de problemas, evidentemente,

[00:09:20] ligados ao estado de extrema vulnerabilidade dessas crianças.

[00:09:23] Mas o Conanda está ali numa…

[00:09:25] Numa tentativa de ampliar o acesso.

[00:09:28] E aí, esse PDL, que é um projeto de decreto legislativo,

[00:09:32] ele foi introduzido semana passada,

[00:09:35] basicamente, para cair com essa resolução do Conanda de 2024

[00:09:38] e, efetivamente, criar mais obstáculos,

[00:09:41] como se já não houvesse poucos,

[00:09:43] criar mais obstáculos para que crianças e adolescentes

[00:09:46] possam exercer seu direito ao aborto legal.

[00:09:48] Então, isso virou uma queda de braço

[00:09:50] entre a bancada religiosa, que diz proteger a vida do feto,

[00:09:53] e parlamentares, sobretudo,

[00:09:55] de esquerda,

[00:09:57] que estavam ali tentando defender o Conanda

[00:09:59] e o trabalho do Conanda

[00:10:00] em defesa das crianças e adolescentes estupradas,

[00:10:03] grávidas do Brasil.

[00:10:05] Que é uma situação, realmente, de chorar.

[00:10:07] Que isso seja debate, entendeu?

[00:10:09] Que isso esteja na pauta.

[00:10:11] A gente está aqui discutindo se uma criança grávida

[00:10:14] pode ou não pode abortar

[00:10:16] sem ter consentimento do pai,

[00:10:18] que muitas vezes é o estuprador.

[00:10:19] Ou se a gente tem que colocar um limite de semanas,

[00:10:21] que é uma coisa que não está prevista em lei,

[00:10:23] para essa criança,

[00:10:24] sabendo que, justamente, é a criança grávida

[00:10:27] que tem mais dificuldade de reconhecer que está grávida,

[00:10:30] de encontrar o serviço, de falar com alguém,

[00:10:32] de pedir ajuda, de ser levada para um lugar.

[00:10:34] Então, qualquer limite torna ela mais vulnerável.

[00:10:37] Até porque averiguar o ponto da gestação

[00:10:43] em que aquela criança se encontra

[00:10:44] é, em si, também, mais uma burocracia

[00:10:46] pela qual ela tem que passar.

[00:10:47] Então, você está criando uma série de empecilhos,

[00:10:50] efetivamente, para impedir que essas crianças façam aborto.

[00:10:53] Ou seja, para obrigar,

[00:10:54] crianças estupradas

[00:10:56] a parirem os filhos de seus estupradores.

[00:10:59] Olha que delícia, Brasil.

[00:11:00] Correndo risco de vida.

[00:11:02] Correndo risco de vida, porque

[00:11:04] vale lembrar que o parto

[00:11:06] é muito mais perigoso

[00:11:08] do que o aborto para a vida da mulher.

[00:11:10] Sobretudo na cidade. O parto de 10 a 14 anos

[00:11:13] é perigosíssimo.

[00:11:14] Se eu não me engano, ele é 65 vezes

[00:11:16] mais letal do que o aborto.

[00:11:19] 65 vezes?

[00:11:20] Na verdade, o parto…

[00:11:22] Esse dado dos 65 vezes

[00:11:24] é qualquer parto, na verdade.

[00:11:26] Tem 65 vezes mais complicações

[00:11:28] decorrentes de parto

[00:11:29] do que decorrentes de aborto.

[00:11:32] Aborto legal e bem feito, não é?

[00:11:34] Não é um aborto clandestino?

[00:11:36] Isso. Aborto quando ele é feito

[00:11:38] dentro das condições mínimas.

[00:11:39] Um aborto seguro é muito mais seguro

[00:11:42] do que um parto, mesmo um parto seguro.

[00:11:44] A gente esquece, mas parir é perigoso.

[00:11:47] Parir é perigoso.

[00:11:49] E se o seu corpo…

[00:11:50] É perigoso.

[00:11:51] Não está preparado para isso.

[00:11:52] Não está preparado para isso.

[00:11:52] Não está preparado para isso.

[00:11:52] Não está preparado para isso.

[00:11:52] Isso é muito perigoso, obviamente.

[00:11:54] E é bom a gente considerar

[00:11:56] um outro dado, que eu acho que

[00:11:58] esse dado talvez não esteja facilmente disponível,

[00:12:01] porque ele deve ser muito difícil de se obter,

[00:12:03] mas

[00:12:04] uma que essa tentativa

[00:12:06] de derrubar

[00:12:08] essa resolução

[00:12:10] meio que obriga essas

[00:12:12] crianças a terem os filhos

[00:12:14] dos seus estupradores,

[00:12:16] mas tem uma outra dimensão que

[00:12:17] empurra elas para o aborto

[00:12:20] clandestino, que muitas vezes

[00:12:22] é muito mais fácil de fazer

[00:12:24] do que procurar os meios ilegais

[00:12:25] cheios de burocracias,

[00:12:27] de boletim de ocorrência, de envolver a mãe,

[00:12:30] o pai. Então, mesmo uma menina

[00:12:32] que perceba isso, que tem uma pessoa

[00:12:33] de confiança que possa falar,

[00:12:36] ou por ignorância, ou por muita dificuldade,

[00:12:38] vai procurar um modo

[00:12:39] ilegal, e aí sim,

[00:12:43] perigoso, é traumático,

[00:12:45] cheio de outras consequências.

[00:12:46] Porque muitos parentes

[00:12:48] estupradores,

[00:12:50] pais, tios,

[00:12:51] e padrastos,

[00:12:53] possivelmente não querem levar

[00:12:55] a termo a gravidez.

[00:12:56] Mas por ter sido crime,

[00:12:59] estupro, eles provavelmente

[00:13:01] não vão no hospital fazer isso.

[00:13:03] Não vão reivindicar o direito dela

[00:13:05] e reclamar a sua paternidade.

[00:13:07] Então é proteção dupla,

[00:13:08] porque muitas vezes você empurra ela

[00:13:11] para uma rede clandestina, criminal,

[00:13:14] também de aborto.

[00:13:16] E uma rede clandestina

[00:13:17] onde não vai haver um profissional de saúde,

[00:13:19] um assistente social, uma pessoa

[00:13:21] capaz de conversar com essa criança,

[00:13:23] inclusive sobre o estupro que ela sofreu,

[00:13:25] e possivelmente levar a criminalização

[00:13:27] do único criminoso nesse caso,

[00:13:29] que certamente não é a criança, é o estuprador.

[00:13:31] Então é realmente um projeto…

[00:13:33] Ao dificultar o acesso ao aborto

[00:13:35] ilegal no Brasil, para crianças

[00:13:37] vítimas de estupro, a gente

[00:13:39] efetivamente protege os estupradores

[00:13:41] do Brasil. De várias formas.

[00:13:43] Isso é sem dúvida.

[00:13:44] E é isso que a extrema-direita está fazendo.

[00:13:47] Então não é uma ficção, não é o que a gente está falando.

[00:13:49] Existem pessoas,

[00:13:50] e vou citá-las,

[00:13:51] Carolina Detone, Marcel Van Hatten,

[00:13:55] Sotins Cavalcante,

[00:13:56] que estão lutando…

[00:13:59] Nicolás Ferreira.

[00:14:00] Lutando diariamente

[00:14:02] pelos direitos dos estupradores.

[00:14:04] Essa é a verdade. É isso que eles estão fazendo.

[00:14:05] O relator do PDL foi o deputado Luiz Gastão,

[00:14:08] já que estamos nomeando nomes.

[00:14:10] Isso.

[00:14:11] Eles estão lutando para que

[00:14:13] crianças estupradas

[00:14:16] sejam punidas

[00:14:18] de novo e eternamente.

[00:14:20] Mas é isso que eles estão fazendo.

[00:14:21] Mas é importante falar uma outra coisa.

[00:14:23] Esses caras são os portas-vozes, são as pessoas

[00:14:25] que inflamam a discussão,

[00:14:27] mas a votação foi meio

[00:14:30] acachapante. Teve só

[00:14:31] 111 votos contra

[00:14:33] essa decisão.

[00:14:36] Então não dá nem simplesmente

[00:14:37] para reduzir essa questão

[00:14:39] a margem da extrema-direita brasileira,

[00:14:41] que são representados por essas pessoas que se colocaram.

[00:14:44] Tem um centrão gigantesco

[00:14:46] aí no meio.

[00:14:47] E é isso que eu me pergunto

[00:14:49] mesmo.

[00:14:50] Vocês acham que essa pauta tem essa

[00:14:52] popularidade toda para

[00:14:54] políticos

[00:14:56] entenderem que ela é absolutamente tóxica

[00:14:59] se eles se posicionarem

[00:15:00] pró-crianças no caso?

[00:15:02] Pois é. Eu acho que tudo depende da moldura.

[00:15:04] Eu acho que tudo depende da moldura

[00:15:06] para não usar o anglicismo frame.

[00:15:09] Merda, acabei usando.

[00:15:10] Mas é se você…

[00:15:12] Eu acho que de verdade, se for emoldurado

[00:15:14] como eu acho que tem que ser, como eu acho que é,

[00:15:16] que é um PL do estuprador,

[00:15:17] um PL que permite aos estupradores

[00:15:20] terem filhos

[00:15:21] com suas vítimas.

[00:15:24] É, ou afasta as suas

[00:15:26] vítimas dos serviços legais, do serviço

[00:15:28] público, porque também é isso. Não necessariamente eles vão

[00:15:30] de fato virar pais. Eles primeiro podem

[00:15:32] ter abandono parental.

[00:15:34] Eles vão embora. Ou

[00:15:35] eles podem também acabar levando essa

[00:15:37] criança para um serviço de aborto clandestino.

[00:15:40] O fato é que onde essa criança não

[00:15:42] vai parar é num espaço

[00:15:44] de serviço público onde ela pode

[00:15:46] falar sobre o que ela quer.

[00:15:47] O lugar mais seguro possível para ela.

[00:15:50] Nem é horrível, mas é o mais seguro possível.

[00:15:51] A esquerda tem pavor desse tema.

[00:15:54] Pavor. Todos, todos, todos.

[00:15:55] Todos não, perdão. O PSOL não.

[00:15:58] Os deputados do PSOL são os únicos que são

[00:15:59] vocais mesmo. Mas o PT, de modo geral,

[00:16:02] o PSB, o PDT, aquela centro

[00:16:04] esquerda assim,

[00:16:05] o aborto é um tema

[00:16:07] proibidíssimo. Eu lembro do Ciro,

[00:16:10] desculpa citá-lo, mas quando

[00:16:11] perguntaram sobre o aborto, ele falou, não, não, eu sou o guru

[00:16:13] de costumes.

[00:16:15] Não sou o guru de costumes.

[00:16:17] Ele coloca o aborto na questão de costumes.

[00:16:18] O que ele quer dizer com isso? Eu falei, mas o que

[00:16:20] ele quer dizer com isso? Ele, assim, é,

[00:16:21] do Estado, assim, eu acho que é crime,

[00:16:24] mas eu não vou falar nada sobre isso, eu prefiro

[00:16:26] não falar sobre isso, porque eu não sou

[00:16:28] eu que tenho que dizer. Ele foge pra

[00:16:29] tandente, gagueja, e deixa

[00:16:32] muito claro que ele não quer

[00:16:34] falar disso. Ele acha que é uma armadilha

[00:16:36] o assunto do aborto. Claro, um homem

[00:16:38] que nunca vai passar por isso, nunca vai

[00:16:39] passar por isso, então, pra eles é um

[00:16:42] tema… Mas ele é um pouco armadilha mesmo.

[00:16:44] Eu não tô falando que ele tá certo

[00:16:46] de fazer isso. A gente precisa de gente que é

[00:16:48] clara e que tenha coragem,

[00:16:50] que empurra… Bruno, mas todo tema

[00:16:52] pode ser uma armadilha. Todo tema

[00:16:54] pode ser uma armadilha. Segurança pública é a puta armadilha.

[00:16:55] Mas aborto é polarizante. Difícil mesmo, né,

[00:16:58] cara? É uma conversa difícil, e acho que

[00:17:00] a esquerda tem medo

[00:17:02] de falar, mas nesse caso

[00:17:03] é a parte fácil de falar

[00:17:06] do assunto, porque não é a legalização do

[00:17:08] aborto que a gente tá falando de mulheres

[00:17:10] adultas e maduras que sabem o que estão fazendo.

[00:17:12] A gente tá falando de proteção de

[00:17:14] criança, que é exatamente onde fica incoerente

[00:17:16] a tal defesa da…

[00:17:18] Que é o frame que eles sempre usam,

[00:17:21] que é o de pedofilia, né?

[00:17:22] Que tudo pra eles é pedofilia, a esquerda é pedófila,

[00:17:25] a sexualização, a internet

[00:17:27] e é tudo mais. E é nesse

[00:17:29] caso, eles estão realmente

[00:17:31] abandonando as vítimas de

[00:17:33] violência sexual

[00:17:34] à sua própria sorte, né?

[00:17:37] Mas nesse caso, seria mais fácil

[00:17:38] pra esquerda fazer uma defesa, e acho que até tem

[00:17:41] feito, porque é a proteção de meninas

[00:17:43] violentadas. Não é a

[00:17:45] proteção do…

[00:17:47] É direito à liberdade…

[00:17:48] A liberdade do corpo que a mulher tem, a sua autonomia

[00:17:51] corporal. Eu tenho uma outra leitura sobre isso,

[00:17:53] tá? Eu acho que a questão aí é o seguinte,

[00:17:55] o aborto no Brasil já é criminalizado,

[00:17:57] né? Em quase todos os casos, as exceções

[00:17:59] são as exceções mais consensuais

[00:18:00] possíveis, que é… Depois foi…

[00:18:03] A gente adicionou o feto anencefalo

[00:18:05] também, então é estupro, é risco

[00:18:07] pra vida da mulher e feto anencefalo.

[00:18:09] Né? São exceções

[00:18:11] muito minúsculas e muito

[00:18:13] consensuais. O que isso faz

[00:18:15] é com que a direita não tenha

[00:18:17] essa bandeira. Ela perde uma…

[00:18:18] Uma bandeira unificadora, que foi muito efetiva,

[00:18:20] sobretudo nos Estados Unidos. E a nossa

[00:18:22] direita brasileira, ela

[00:18:24] copia muito o playbook,

[00:18:27] pra usar o anglicismo também, Greg,

[00:18:29] dos americanos.

[00:18:30] Então, eles copiam muito essa experiência

[00:18:32] americana, né? E pra maioria moral

[00:18:34] ali nos Estados Unidos, essa maioria

[00:18:36] que foi sendo moldada a partir

[00:18:39] dessas pautas com algum tipo de

[00:18:41] base religiosa, moral,

[00:18:43] punitivista, essa grande amálgama

[00:18:45] de puritanismo com

[00:18:47] punitivismo nessa loucura,

[00:18:48] o aborto foi

[00:18:50] uma pauta central.

[00:18:52] Foi a pauta que conseguiu unir

[00:18:54] essa base eleitoral

[00:18:56] e, a partir dela, eleger um monte

[00:18:59] de políticos que, na verdade, não teriam

[00:19:00] necessariamente base popular na ausência

[00:19:03] dessas bandeiras. Então, são políticos que

[00:19:04] na sua pauta econômica, nas outras

[00:19:07] pautas, representam os interesses

[00:19:09] de uma microelite, mas que conseguiram

[00:19:11] ganhar base popular a partir dessas bandeiras.

[00:19:13] Isso funcionou nos Estados Unidos. E é aí que,

[00:19:14] no Brasil, eu acho que eles acham quase ruim

[00:19:16] que o aborto já é crime, sabe?

[00:19:18] Não tem nada pra fazer. Então, o que

[00:19:20] eles vão olhar? Eles vão olhar os casos

[00:19:23] em que o aborto não é crime. E vão

[00:19:25] tentar encontrar aí alguma

[00:19:26] maneira de criar algum tipo

[00:19:29] de controvérsia ou de questão

[00:19:30] pra que isso se torne

[00:19:33] uma pauta agregadora de

[00:19:35] voto e de eleitor. E aí,

[00:19:37] como no caso específico de estupro

[00:19:39] e de risco

[00:19:40] pra vida da mulher não existe, na lei

[00:19:42] brasileira, um limite

[00:19:44] de idade gestacional, não existe

[00:19:46] porque, justamente, a gente tá falando de casos

[00:19:48] muito extremos, em que

[00:19:50] a gente não colocou esse limite. Mas, na

[00:19:52] prática, é raríssimo um aborto

[00:19:55] com idade gestacional super

[00:19:56] avançada, sabe? Isso, agora, ali,

[00:19:59] a idade gestacional entre 20

[00:20:01] e 30 semanas é uma idade

[00:20:03] gestacional onde tudo pode acontecer

[00:20:04] ainda, nesses casos. Então, eles

[00:20:06] ficam tentando inventar uma questão.

[00:20:09] Ah, não, a gente tá fazendo aqui, colocando

[00:20:11] um limite de idade gestacional.

[00:20:13] A gente quer que seja até 22 semanas.

[00:20:15] A gente quer que tenha consentimento dos pais.

[00:20:17] A gente quer isso. A gente quer aquilo.

[00:20:18] Querendo criar uma série

[00:20:20] de condicionantes pro exercício

[00:20:23] desse direito, porque eles acham

[00:20:25] que isso vai ser algo que vai unir

[00:20:27] a população. Porque, na hora que eles vão comunicar

[00:20:28] isso, como que eles comunicam? Eles

[00:20:30] comunicam dizendo, não, a gente tá impedindo

[00:20:32] que fetos de 40 semanas

[00:20:35] sejam abortados. Mas ninguém tá abortando

[00:20:36] fetos de 40 semanas, entendeu? Nenhuma

[00:20:38] criança… Não, isso não tá acontecendo.

[00:20:40] É uma não-questão. Mas eles

[00:20:42] são especialistas de

[00:20:45] unir suas bases em torno

[00:20:46] de questões que não fazem sentido.

[00:20:48] É um detrimento, de fato,

[00:20:51] de quem é vítima

[00:20:52] nessa situação, que são crianças estupradas.

[00:20:55] Porque você vai criando um monte de burocracia,

[00:20:57] um monte de regulações.

[00:20:59] Por que a gente não pede, por exemplo, boletim de ocorrência?

[00:21:01] A gente não pede boletim de ocorrência

[00:21:03] porque, se a criança estiver aqui

[00:21:05] na delegacia, prestar depoimento,

[00:21:07] fazer um boletim de ocorrência,

[00:21:08] você vai ter menos crianças atendo

[00:21:10] a seu serviço. As crianças estão, muitas vezes,

[00:21:13] amedrontadas, né?

[00:21:14] E sem esquecer de uma coisa.

[00:21:17] Tipo, é mandar o pai,

[00:21:18] pra cadeia. Mandar o pradastro

[00:21:20] pra cadeia. E aí é uma coisa

[00:21:22] que, tipo… Que pode ser trágica

[00:21:24] em várias dimensões.

[00:21:26] Você pode acabar morta se você tentar

[00:21:28] colocar um estuprador na cadeia.

[00:21:30] É, e tem uma complexidade

[00:21:33] nisso muito difícil.

[00:21:34] Que, às vezes, é o mesmo cara

[00:21:36] que é o único provedor econômico da família.

[00:21:38] Tem um monte de complexidade. Ou é um trauma

[00:21:40] que se provoca na família e você resolve isso de uma outra maneira.

[00:21:42] E esse é o ponto. Você vai pra uma clínica

[00:21:44] e ela é clandestina. Se você quiser

[00:21:46] encerrar essa gravidez. O caminho… Eu vou primeiro num hospital,

[00:21:48] e depois, eventualmente, eu vou parar

[00:21:50] numa delegacia pra fazer um boletim de ocorrência.

[00:21:52] Ele é muito mais plausível do que o caminho

[00:21:54] contrário. Exato. Porque num hospital

[00:21:56] eu tenho assistente social, eu tenho uma

[00:21:58] enfermeira, eu tenho uma médica.

[00:22:01] Eu vou estar acolhida de uma forma que as

[00:22:02] nossas delegacias… Alguém pra te acompanhar até na delegacia.

[00:22:05] É. Não estão…

[00:22:06] Não são capazes de acolher. Então,

[00:22:09] tudo isso pra dizer que

[00:22:10] o que eu sinto que tá acontecendo aqui não é, de fato,

[00:22:13] uma preocupação com a agenda, entendeu?

[00:22:14] É como a gente já tem uma lei duríssima

[00:22:17] em relação ao aborto. Absolutamente.

[00:22:18] É retrógrada. É uma lei que não faz sentido.

[00:22:20] Uma lei lá que é uma herança de 1940

[00:22:22] que a gente nunca conseguiu revisar

[00:22:25] porque ninguém tem coragem de tocar nesse tema.

[00:22:27] A direita não tem bandeira,

[00:22:29] entendeu? Vai fazer o quê? Vai endurecer mais?

[00:22:30] Aí fica tentando endurecer mais.

[00:22:33] Não na lei, porque a lei já é dura.

[00:22:34] Porque também se você chegar e falar, não, a gente quer

[00:22:36] proibir o aborto, inclusive, pra vítimas de estupro.

[00:22:39] Isso não tem aderência

[00:22:40] da população. A população

[00:22:43] é a favor do direito ao aborto

[00:22:45] pra vítimas de estupro. O que você vai fazer

[00:22:47] é que você vai nos detalhes.

[00:22:48] Você vai tentando dificultar

[00:22:51] o acesso. E você

[00:22:52] traveste isso de, não, eu só estou

[00:22:54] preocupado com os fetos

[00:22:57] de 39 semanas.

[00:22:58] Mentira, entendeu? Mentira.

[00:23:00] E vem cá, como é que tá o andamento disso

[00:23:02] no STF? Porque o Supremo tava

[00:23:04] caminhando com uma lei, se eu não me engano, foi

[00:23:06] a Rosa Weber já votou a favor, não é?

[00:23:09] O Barroso enrolou, como sempre.

[00:23:11] Mas eu lembro que tinha uma lei

[00:23:12] caminhando que podia descriminalizar

[00:23:15] o aborto no Brasil até 12 semanas.

[00:23:17] É, não é uma lei, né?

[00:23:18] Seria um julgamento

[00:23:21] mesmo, nesse caso.

[00:23:22] Um julgamento, mas que abriria uma jurisprudência

[00:23:25] pro seu Supremo.

[00:23:26] É, ele reconhece como constitucional

[00:23:28] que é o que o Supremo pode fazer.

[00:23:30] O Supremo retomou o julgamento de uma ação

[00:23:32] que foi apresentada pelo PSOL em 2017

[00:23:35] e que pedia a descriminalização

[00:23:37] do aborto até a 12ª

[00:23:38] semana de gestação. E aí

[00:23:40] tem toda uma argumentação lá do PSOL que tem a ver

[00:23:42] com discriminação, né? Basicamente entre

[00:23:44] homens e mulheres, direito ao corpo,

[00:23:46] direitos reprodutivos e por aí.

[00:23:48] O Supremo retomou

[00:23:50] esse julgamento. E aí a Rosa Weber

[00:23:52] foi a única que votou.

[00:23:54] Ela deu o primeiro voto favorável

[00:23:56] e ela se aposentou. Ela fez questão de fazer

[00:23:58] isso como seu último voto. Foi uma coisa

[00:24:00] bem marcante. E aí o Barroso

[00:24:03] logo antes de pedir a aposentadoria

[00:24:05] dele agora, ele também

[00:24:06] apresentou o voto dele que também foi favorável.

[00:24:09] Então a gente já tem dois votos

[00:24:10] favoráveis no Supremo pra descriminalização.

[00:24:13] O Barroso não jogou pro plenário?

[00:24:15] Ele pediu pra que o caso fosse levado

[00:24:16] pro plenário, que acabou interrompendo o

[00:24:18] mandamento. E depois ele apresentou

[00:24:20] o voto dele. Então agora a gente

[00:24:22] vai precisar

[00:24:24] esperar. E aí o Gilmar Mendes pediu suspensão

[00:24:26] do julgamento. Eu sinto que o Supremo

[00:24:28] também não quer tocar nesse assunto. Porque o Supremo

[00:24:30] tá lidando com uma crise de popularidade

[00:24:32] e tem medo. Tem medo de tocar nesse assunto

[00:24:34] e é muito doido que a gente tenha medo de

[00:24:36] enfrentar essas pautas, sabe?

[00:24:38] Mas não é o Supremo, né?

[00:24:40] Exatamente o lugar que não era pra eu estar pensando

[00:24:42] nisso. A gente abriu falando

[00:24:44] do Mandani e uma das

[00:24:46] coisas que eu achei mais inspiradoras da campanha do

[00:24:48] Mandani, tudo bem que são outras dimensões, é uma

[00:24:50] cidade, Nova York,

[00:24:52] guardadas as devidas proporções, tá?

[00:24:54] Mas quando o Mandani apareceu

[00:24:56] na cena política, muita gente dizia

[00:24:58] que ele teria que moderar

[00:25:00] significativamente a posição dele em relação

[00:25:02] à Palestina. E que ele teria que fazer

[00:25:04] isso porque ele tava tentando ser eleito

[00:25:07] na cidade

[00:25:08] com a maior

[00:25:10] população de judeus do

[00:25:12] mundo, que é Nova York, que não é

[00:25:14] nenhuma cidade israelense. É Nova York,

[00:25:16] diga-se. Verdade. A maior

[00:25:18] comunidade judaica do mundo.

[00:25:21] E aí falaram, não, imagina, ele jamais

[00:25:22] vai ser eleito prefeito

[00:25:24] com essa posição, que é uma posição

[00:25:26] bastante razoável, na verdade,

[00:25:29] mas bastante

[00:25:30] pró-Palestina e bastante

[00:25:32] crítica ao Estado de Israel.

[00:25:34] E eu achei muito digno que ele não fez isso.

[00:25:37] Sabe? Ele falou, não, essa é a minha

[00:25:38] posição, eu acredito nisso e se eu for

[00:25:40] eleito, eu vou ser eleito desse jeito mesmo.

[00:25:42] E ele não fez isso em relação a várias

[00:25:44] pautas. E eu acho que essa é a lição principal

[00:25:47] que tem aqui, assim, né?

[00:25:48] Ele não abandonou ninguém

[00:25:50] na estrada. Ele não

[00:25:52] abandonou a comunidade trans,

[00:25:55] ele não abandonou

[00:25:56] o uso de maconha que ele faz,

[00:25:59] ele não abandonou

[00:26:00] as declarações que ele deu

[00:26:02] sobre a Palestina, não abandonou um monte de coisa.

[00:26:04] Mas o que ele fez, acho que mais do que

[00:26:06] não soar

[00:26:08] como um político que tá fazendo cálculo,

[00:26:10] que é um problema particularmente

[00:26:12] grande dentro do Partido Democrata,

[00:26:14] mas ele fez uma coisa mais importante.

[00:26:16] Ele afirmou

[00:26:18] essas coisas e pôs elas em

[00:26:20] segundo plano. E ele universalizou

[00:26:22] a pauta dele.

[00:26:24] Então ele não nega quem ele é,

[00:26:26] mas ele fala, mas o assunto é esse daqui,

[00:26:28] ó. Eu não estou fazendo

[00:26:30] a luta cultural.

[00:26:32] Eu tô totalmente do lado

[00:26:34] woke, o máximo possível,

[00:26:36] mas a minha pauta é econômica, universalista

[00:26:38] e socialista. E aí você

[00:26:40] prova que se você põe outra coisa

[00:26:42] na frente, mesmo os

[00:26:44] os é transfóbicos, os

[00:26:46] é sionistas liberais e moderados,

[00:26:48] as outras pessoas,

[00:26:50] põe também em segundo plano.

[00:26:53] E acho que essa é uma lição

[00:26:54] pra além de Nova York, que certamente

[00:26:56] é uma cidade muito peculiar,

[00:26:58] que até as pessoas

[00:27:00] duras têm uma renda mais alta do que

[00:27:02] a enorme maioria das pessoas

[00:27:04] e tudo mais, pela natureza do próprio

[00:27:06] espaço, mas é uma

[00:27:08] lição, acho que pra a esquerda

[00:27:10] e centro-esquerda no mundo todo,

[00:27:12] que é essa ideia de, tipo,

[00:27:14] abandona o centro como um lugar

[00:27:16] de moderação e põe

[00:27:18] as pautas que podem ser polêmicas

[00:27:20] atrás das pautas

[00:27:22] universais mesmo. E isso eu acho que ele fez

[00:27:24] de maneira muito incrível, porque se ele fosse

[00:27:26] o candidato da Palestina mesmo,

[00:27:28] possivelmente ele tinha se ferrado nessas eleições.

[00:27:30] Mas ele simplesmente sai como o cara que tem

[00:27:32] em princípios, assim, falando, não tô mentindo

[00:27:34] pra você. É isso que eu

[00:27:36] acredito. E eu também não tô mentindo

[00:27:38] que eu vou baixar o seu aluguel.

[00:27:40] Eu também não tô mentindo que eu vou fazer um ônibus

[00:27:42] grátis, porque eu não escondo

[00:27:44] as coisas que eu penso.

[00:27:45] Bruno, sabe que a gente chegou a falar isso na época de

[00:27:48] Bolsonaro, e é algo que eu tenho certeza

[00:27:50] de que foi muito eficiente, eu não sei se pensadamente

[00:27:52] ou não, que é o fato de o Bolsonaro

[00:27:54] falar absurdos, que na opinião

[00:27:56] são crimes, inclusive, de homofobia,

[00:27:59] de racismo, de

[00:28:00] transfobia, de modo geral, que o

[00:28:02] filho gay tem que apanhar, falo mesmo,

[00:28:05] de que eu prefiro ter um filho ladrão

[00:28:06] ou filho gay, coisas que ele falou,

[00:28:08] literalmente. O fato de ele falar essas coisas,

[00:28:10] eu diria absurdas, mas que isso,

[00:28:12] criminosas, fizeram com que parte

[00:28:14] da população pensasse que

[00:28:16] por dizer a verdade,

[00:28:18] com muitas aspas, não é nem a verdade, mas

[00:28:20] por dizer o que ele pensa, ele é honesto.

[00:28:22] Até porque existe… Por ser sincero, ele é honesto.

[00:28:24] Exatamente, por ser sincero, ele é honesto.

[00:28:26] Até porque tem uma correlação, inclusive,

[00:28:28] vocabular na língua portuguesa,

[00:28:30] entre honestidade

[00:28:31] financeira e honestidade verbal.

[00:28:34] Então, alguém que diz o que

[00:28:36] pensa é honesto, alguém que não rouba é

[00:28:38] honesto. Ou seja, alguém que diz o que

[00:28:40] pensa, não rouba. Exato.

[00:28:42] A esquerda, por não

[00:28:44] dizer o que pensa,

[00:28:46] ela também,

[00:28:48] ela fica parecendo desonesta.

[00:28:50] Porque todo mundo sabe que

[00:28:52] a pessoa de esquerda… Que você não pensa isso que você está falando.

[00:28:54] É isso. E, sabe,

[00:28:56] quando a gente vê candidatos progressistas, porque estão

[00:28:57] se candidatando ao governo do Estado,

[00:29:00] de um governo do Estado… Ah, não, mas eu não falo sobre aborto,

[00:29:02] isso é uma questão de saúde pública.

[00:29:04] Fala o que você acha, meu filho. Fala o que você acha.

[00:29:06] Manda real. Manda real. E depois muda de assunto

[00:29:08] se você não quer falar disso, mas responde a

[00:29:10] pergunta, cacete. Assim como, gente, o teatro

[00:29:12] do catolicismo

[00:29:14] ou do evangelicismo,

[00:29:16] o teatro… Ah, é péssimo. Alguns meses…

[00:29:18] Alguns meses antes da eleição, faz com que a pessoa

[00:29:20] pense que o político é desonesto financeiramente.

[00:29:22] E eu entendo a pessoa pensar isso, porque, assim,

[00:29:24] pô, se o cara está me enganando em relação à religião dele,

[00:29:26] aparecendo na igreja um mês antes da eleição,

[00:29:29] por que ele não estaria me enganando em relação

[00:29:30] à conta bancária dele? Por que ele não estaria me enganando?

[00:29:32] Entendeu? Porque tem algo

[00:29:34] da mentira

[00:29:37] verbal. Essa coisa

[00:29:38] da esquerda não querer cair

[00:29:40] em armadilhas, ou seja,

[00:29:42] não vamos falar de aborto, não vamos

[00:29:44] falar de segurança pública, não vamos

[00:29:46] falar de sexualidade,

[00:29:48] não vamos falar de educação sexual nas escolas,

[00:29:50] não vamos falar de planejamento familiar,

[00:29:51] só podemos falar de economia.

[00:29:54] E aí fica covarde,

[00:29:56] fica mentiroso,

[00:29:59] fica assim… É igual

[00:30:00] a gente, puxando uma história

[00:30:02] pessoal, a gente no Porta de Fundo,

[00:30:04] antes de criar o Porta, a gente era da Globo, todo mundo.

[00:30:06] Eu, o Fábio, o João Vicente,

[00:30:08] o Kibbe, o… Todo mundo.

[00:30:10] Todos. O Ian. Todos escrevíamos

[00:30:12] e uns escreviam, outros dirigiam, outros escreviam,

[00:30:14] outros atuavam, eu escrevia e atuava.

[00:30:16] Cada um fazia uma coisa. E,

[00:30:18] eu nunca vou esquecer da lista de proibições

[00:30:20] que se tinha. Hoje em dia tem um pouco menos.

[00:30:22] Mas não a gente podia falar.

[00:30:24] Tinha o índice. Não, é que não era literal,

[00:30:26] mas a gente sabia que não ia passar.

[00:30:28] Uma piada religiosa,

[00:30:30] uma piada de sexo, uma piada

[00:30:32] de política, nem pensar. Não podia citar

[00:30:34] marca, não podia falar qualquer marca,

[00:30:36] podia ser Google, Facebook, não pode.

[00:30:38] Falar rede social. Tinha um monte de séries que faziam

[00:30:40] humor, era muito difícil. Não só na Globo,

[00:30:42] na TV aberta, de modo geral, por causa do nível

[00:30:44] de proibições, de medo,

[00:30:46] de coisas assim. E não, isso aqui, o brasileiro vai,

[00:30:48] vai perder a audiência, vai perder. A gente foi

[00:30:50] pro Porto e fez uma coisa muito popular,

[00:30:52] muito mais popular do que a gente fazia na TV aberta.

[00:30:55] Por quê? Porque não tinha

[00:30:56] aquelas proibições.

[00:30:58] Humor, eu acho que ele não existe

[00:31:00] sufocado por um milhão de dons.

[00:31:02] E a política hoje, que tá muito

[00:31:04] próxima do humor, isso é

[00:31:06] inegável, o próprio Mandami, tem a radicalidade

[00:31:08] que é um ponto forte dele, mas tem também o humor

[00:31:10] e se fala pouco disso. Mas ele é um cara

[00:31:12] engraçado, um cara bom de mídia,

[00:31:14] um cara bom. Foi a todos os

[00:31:16] TikToks da vida do Fernando Campanha,

[00:31:18] muito focada também em

[00:31:20] entregar produtos audiovisuais

[00:31:21] gostosos, engraçados e tal.

[00:31:25] Acho que os dois,

[00:31:26] tanto o humor quanto a política, hoje, estão muito

[00:31:28] baseados numa sinceridade, numa

[00:31:30] transparência. Nem que seja

[00:31:32] midiática, audiovisual, porque eu não acho que

[00:31:34] o Bolsonaro seja transparente de verdade,

[00:31:36] mas ele imprime transparência.

[00:31:38] Se tem uma coisa que a pessoa que gosta

[00:31:40] dele diz, é ele pelo menos fala a verdade.

[00:31:42] A gente sabe que isso aí, obviamente, é construído.

[00:31:44] Mas ainda assim, ele imprime isso.

[00:31:46] E a esquerda é muito difícil encontrar um

[00:31:48] ente de esquerda que fale a verdade.

[00:31:50] E tem a ver com, inclusive, pra mim, tá ligado

[00:31:52] a falta de humor da esquerda, de modo geral.

[00:31:54] Porque a gente tem uma esquerda que é bem cisuda

[00:31:55] e bem pouco engraçada, de modo geral.

[00:31:58] E que mesmo quando fala

[00:32:00] as coisas corajosamente

[00:32:02] certas, fala

[00:32:04] meio dentro de um certo discurso

[00:32:06] pronto, é incapaz de criticar

[00:32:08] o próprio campo. Então tem,

[00:32:10] eu acho que possivelmente

[00:32:12] mesmo a esquerda que pega as pautas

[00:32:14] difíceis e fala frontalmente,

[00:32:17] ela soa um pouco,

[00:32:18] ela soa um pouco artificial, ela soa um pouco

[00:32:19] um discurso pronto.

[00:32:22] Ele meio não vem

[00:32:22] como uma verdade de um indivíduo

[00:32:26] ou de um sujeito, mas ele vem dentro

[00:32:28] de um certo léxico

[00:32:30] bastante previsível.

[00:32:32] E que é isso que eu acho que tem uma dissonância

[00:32:34] muito forte com a própria direita.

[00:32:36] Os slogans que a esquerda

[00:32:38] usa pra rebater a extrema

[00:32:40] direita, em

[00:32:42] a geral, é muito perfeito

[00:32:44] pra extrema direita

[00:32:46] absorver eles. Porque ele fala

[00:32:48] olha o que eles acham de verdade,

[00:32:50] olha só isso, sabe?

[00:32:52] E a gente não lida com a maneira

[00:32:54] como a direita pensa.

[00:32:56] Meio que a gente rejeita

[00:32:58] o vocabulário,

[00:33:00] a lógica e, mais importante,

[00:33:02] a própria premissa da qual a

[00:33:04] direita parte. E acho que

[00:33:06] esse é um problema muito sério e é onde

[00:33:08] o Emondani e alguns

[00:33:10] políticos estão indo muito bem

[00:33:11] porque eles aceitam a

[00:33:14] premissa do

[00:33:16] seu adversário e a partir

[00:33:17] dela você desmonta

[00:33:19] o que o cara tá falando.

[00:33:22] A discussão sobre aborto, acho que ela é

[00:33:24] especialmente ilustradora desses limites

[00:33:26] todos de discurso que a esquerda foi

[00:33:27] se impondo ao longo do tempo, sabe?

[00:33:29] Porque os limites aparecem em todos os lados.

[00:33:32] Ou você tem políticos que

[00:33:34] estão ambicionando

[00:33:36] cargos majoritários que simplesmente

[00:33:37] se recusam a, de fato, se posicionar sobre

[00:33:39] o assunto e ficam com essa cara de

[00:33:41] desonestos porque eles não falam

[00:33:44] o que eles pensam. E meio que todo mundo

[00:33:46] sabe o que eles pensam e aí fica

[00:33:47] uma situação ainda mais estranha. Ou pelo menos

[00:33:50] intui o que eles pensam.

[00:33:52] Ou você tem também dentro

[00:33:53] das discussões dentro do campo

[00:33:55] uma interdição de se reconhecer

[00:33:58] qualquer tipo de complexidade na discussão.

[00:34:00] O que eu também acho ruim.

[00:34:01] É difícil. Ah, você não pode

[00:34:03] reconhecer que existe qualquer

[00:34:05] tipo de complexidade moral

[00:34:07] ou de dificuldade moral a ser

[00:34:09] travada na discussão, por exemplo,

[00:34:11] sobre aborto em idade gestacional

[00:34:13] avançada. Quando é óbvio que

[00:34:15] existe uma dificuldade moral. É óbvio.

[00:34:17] Que ninguém desejaria

[00:34:19] que nenhuma criança estuprada,

[00:34:22] por exemplo, meio que nenhuma criança fosse

[00:34:23] estuprada, mas uma vez que isso aconteceu

[00:34:25] e que essa criança engravidou, que ela tivesse

[00:34:27] que encarar um aborto em idade gestacional

[00:34:29] avançada. Porque você não deseja para essa criança

[00:34:31] nem que ela chegue numa idade gestacional avançada.

[00:34:34] Que já é uma coisa muito horrível para o corpo

[00:34:35] dela, que já é muito difícil. Mas também

[00:34:38] porque efetivamente a idade gestacional

[00:34:40] avançada, ela complexifica

[00:34:42] a discussão em relação a esse

[00:34:44] efeito. Pode ser que para algumas pessoas

[00:34:45] não, mas é muito natural que para muitas

[00:34:47] gente isso se complique.

[00:34:50] E existe um tabu de se falar

[00:34:51] sobre isso. Como se admitir

[00:34:53] qualquer tipo de complexidade, qualquer tipo

[00:34:55] de nuance, qualquer tipo de sim é mais

[00:34:57] difícil falar sobre isso quando a gente está falando de um feto

[00:34:59] de 25 semanas do que é um feto

[00:35:01] de 5, fosse ceder

[00:35:03] terreno para o inimigo. Mas eu

[00:35:05] realmente acho que ceder terreno para os adversários

[00:35:08] no caso da discussão do aborto é

[00:35:09] não travar essa discussão de uma forma

[00:35:11] que as pessoas consigam entender. É se recusar

[00:35:14] a engajar no debate.

[00:35:15] Seja simplesmente por se retirar

[00:35:17] dele e falar, não, não falo disso, eu não sou guru de

[00:35:19] costumes, alaciro. Seja por só

[00:35:21] entrar nesse debate com um posicionamento

[00:35:23] que ele é de tão rígido

[00:35:26] ele não está de fato

[00:35:27] engajando com o outro lado.

[00:35:29] Ele recusa qualquer tipo de nuance.

[00:35:32] E ele é muito feito de frases feitas, né?

[00:35:34] Muito, cheio de chavões. É muito feito de frases

[00:35:35] feitas e é uma coisa importante da gente

[00:35:37] reconhecer que a pessoa do outro lado

[00:35:39] não está falando dos políticos que estão

[00:35:41] agindo de muita má fé. Não estou falando

[00:35:43] de discutir isso com o Nicolas, não é esse debate.

[00:35:46] Mas assim,

[00:35:47] mesmo um argumento que eu acho que é

[00:35:49] sólido e muito

[00:35:51] consistente, que é tipo, é sobre

[00:35:53] o controle do corpo feminino,

[00:35:55] entendeu? Essa é uma frase

[00:35:57] que você não pode jogar na cara da

[00:36:00] da pessoa

[00:36:02] como uma verdade que a pessoa

[00:36:03] precisa absorver só através dessa

[00:36:05] frase. Porque isso é

[00:36:07] verdade, uma parte enorme

[00:36:10] da sociedade,

[00:36:11] inclusive mulheres que são contra

[00:36:13] a legalização,

[00:36:15] elas vão falar assim, não,

[00:36:16] eu não acho isso.

[00:36:18] Eu realmente acho que é sobre o neném.

[00:36:20] Eu não penso assim. E você

[00:36:22] não está respondendo o que eu estou

[00:36:24] pensando, que é, você

[00:36:26] está matando o bebê.

[00:36:28] Me explica então que eu não estou fazendo

[00:36:30] isso. E é muito difícil

[00:36:33] porque a esquerda prefere

[00:36:34] não entrar nisso pra se pegar

[00:36:36] nas suas conclusões e não nas suas

[00:36:39] premissas. Então muitas

[00:36:40] vezes a gente trata a nossa conclusão como um ponto

[00:36:42] de ir à partida. Isso é muito

[00:36:45] complicado pra ter conversa em público.

[00:36:46] Muito. E também tem uma cultura do

[00:36:48] já brigamos demais sobre isso.

[00:36:51] Não quero ter que explicar pra vocês

[00:36:53] porque o feto não é uma vida.

[00:36:56] Achei que já tínhamos

[00:36:57] ganhado essa discussão. E a verdade é que não ganhou

[00:36:59] nenhuma discussão, gente.

[00:37:00] E é isso, Greg. Eu não sei. E também a gente

[00:37:03] tem que separar as convicções morais

[00:37:05] do que a lei

[00:37:07] penal entende que

[00:37:09] pode ou não pode ser feito do que é crime ou não é crime.

[00:37:11] Eu, Alessandra, pessoalmente,

[00:37:13] e eu sou militante do movimento feminista,

[00:37:15] eu milito pelo direito ao aborto.

[00:37:16] Eu realmente acho que é um direito importante pra autonomia

[00:37:19] da mulher. E espero

[00:37:21] que o STF julgue

[00:37:23] positivamente o aborto até

[00:37:24] 12 semanas. Pessoalmente,

[00:37:27] eu não faria um aborto.

[00:37:28] A gente já falou sobre isso, acho que no nosso programa é sobre eugenia.

[00:37:31] Não faria por milhões de questões.

[00:37:33] Não faria também porque eu posso não fazer.

[00:37:35] Eu tenho uma situação financeira e familiar

[00:37:37] e de vida em que eu não faria.

[00:37:40] Então tenho essas

[00:37:41] condições. Mas também tenho uma convicção moral

[00:37:43] mesmo. Eu

[00:37:44] sinto que existe uma coisa,

[00:37:46] de preciosa, num feto.

[00:37:49] Por menor que ele seja.

[00:37:51] Tanto que a enorme maioria das

[00:37:53] minhas amigas que perderam, por exemplo,

[00:37:54] gestações, mesmo quando foram perdas de início

[00:37:57] de gestação, sofreram

[00:37:59] com aquilo, sofreram um luto.

[00:38:01] Não todas, mas muitas.

[00:38:03] E esse luto também fica

[00:38:04] esquecido se a gente não pode se permitir.

[00:38:06] Porque aí não, se você também tem um luto,

[00:38:09] você está, de alguma maneira, cedendo

[00:38:11] espaço para um entendimento de que havia

[00:38:12] algo especial ali. Essas duas coisas podem

[00:38:14] conviver, entende? E até

[00:38:16] assim a discussão sobre se é vida ou não é vida.

[00:38:19] Eu acho que ela se complica muito quando você está

[00:38:20] falando de fim de gestação. Acho mesmo.

[00:38:23] Agora, se você

[00:38:25] está falando de uma criança estuprada,

[00:38:27] o direito dessa criança de

[00:38:28] não passar por um parto,

[00:38:31] de não ter que, literalmente,

[00:38:33] parir um neném,

[00:38:34] porque passar por um parto não é

[00:38:36] ir na esquina, não é comprar

[00:38:38] um pãozinho na padaria. É um

[00:38:41] evento traumático,

[00:38:42] sobretudo se você não está querendo passar por aquilo.

[00:38:45] O direito dessa criança,

[00:38:46] eu entendo que ele é maior, mais importante,

[00:38:49] ele passa na frente do direito

[00:38:51] desse feto, mesmo que você entenda que esse feto

[00:38:53] já é um sujeito de direitos, o que em si é uma

[00:38:55] discussão. Mas dá para ter

[00:38:57] a discussão sobre se esse feto é ou não

[00:38:58] sujeito de direitos e ainda assim falar

[00:39:00] mas a criança, desculpa, mas é mais importante.

[00:39:03] É mais importante. E esse é o ponto.

[00:39:04] E a gente precisa poder ter essa complexidade,

[00:39:06] essa nuance na discussão, senão a gente perde muita

[00:39:08] gente, sabe? Eu acho, realmente.

[00:39:11] Não, e esse é o ponto e o que

[00:39:12] me dá desespero, e aí sim, aí eu aponto

[00:39:15] para a hipocrisia,

[00:39:16] e aí de todos, não estou falando

[00:39:18] só dos agentes de, é má fé,

[00:39:21] mas da própria sociedade que

[00:39:22] pensa isso, que fala, não, é um

[00:39:24] bebê, desde a concepção, é um

[00:39:26] assassinato, é a morte de um feto, que tem

[00:39:28] um argumento possível de ser

[00:39:30] feito, filosófico, moral

[00:39:32] e genético, espiritual,

[00:39:34] para que isso seja verdade. Mas

[00:39:36] raramente isso vem com

[00:39:38] a sua conclusão

[00:39:40] lógica, óbvia. Então a melhor

[00:39:42] maneira para a gente evitar que essa tragédia

[00:39:44] espiritual vá acontecer,

[00:39:46] é, educação é sexual

[00:39:48] real, em todos

[00:39:50] os lugares, é realmente

[00:39:52] a distribuição de métodos

[00:39:54] contraceptivos,

[00:39:57] é a investigação séria

[00:39:59] sobre abuso, é a escola

[00:40:00] muito empoderada,

[00:40:02] monitorando isso.

[00:40:04] É a família não poder tirar a criança da escola

[00:40:07] e fazer homeschooling, que é como

[00:40:09] você tira uma criança, né,

[00:40:10] de um ambiente onde estupro pode

[00:40:13] ser descoberto. E, finalmente,

[00:40:15] aonde eu acho que é onde o problema,

[00:40:16] acontece mesmo, e que pra mim

[00:40:18] vê como a extrema-direita e parte

[00:40:20] da hipocrisia média também é muito

[00:40:22] perversa. Que essa

[00:40:25] ideia de que a criança só tem

[00:40:26] que ser protegida como um objeto sexual

[00:40:29] ou como um feto, que

[00:40:30] não é uma criança ainda, não existe.

[00:40:33] Mas a criança

[00:40:34] na sociedade, ela

[00:40:36] só é vítima de abuso sexual.

[00:40:39] Então tem os pedófilos, tem as pessoas que querem

[00:40:40] pegar, tem a pureza

[00:40:42] espiritual de uma criança,

[00:40:44] que é sempre uma ideia metafísica de uma infância.

[00:40:46] Mas quase nunca vem com a

[00:40:48] ideia de que a infância

[00:40:50] em si, não a criança como

[00:40:52] objeto sexual, mas a criança

[00:40:54] que de fato existe, que é um

[00:40:56] ser vivo, um ser de direitos, um ser

[00:40:58] humano, não é cuidada de nenhuma

[00:41:00] forma. Não tem realmente

[00:41:02] uma prioridade que vai falar, então,

[00:41:04] de segurança familiar pra

[00:41:06] essa mãe, pro pai,

[00:41:08] acompanhamento, serviço social,

[00:41:11] escola de alta qualidade, monitoramento,

[00:41:13] estrutura urbana

[00:41:14] pra nossa infância.

[00:41:16] Então tem uma obsessão

[00:41:18] sexual mesmo nisso.

[00:41:21] Que mesmo as pessoas que consideram que um feto

[00:41:22] é um bebê,

[00:41:25] no fim das contas, quando você vai

[00:41:26] ver o argumento real que a pessoa

[00:41:28] tá muito articulando,

[00:41:30] quase sempre tem a ver com o ato sexual.

[00:41:33] Porque mesmo, porque eu acho

[00:41:34] que um dos problemas que a direita

[00:41:36] brasileira tem com essa

[00:41:38] questão, que eu já vi eles

[00:41:40] insinuando isso de muitas maneiras,

[00:41:42] não é só com a regulamentação.

[00:41:45] É com esse

[00:41:46] dispositivo simples da nossa

[00:41:49] lei, de que se fez

[00:41:51] sexo com

[00:41:52] 14 anos ou é menos,

[00:41:55] automaticamente é estupro.

[00:41:57] E eles não aceitam essa ideia.

[00:41:59] Eles não aceitam

[00:42:01] a ideia de que uma menina de

[00:42:02] 14 anos, necessariamente

[00:42:05] é inocente

[00:42:06] na sua vida sexual.

[00:42:08] E eu acho que eles juntam isso com

[00:42:10] essa ideia de pureza, muito

[00:42:12] perversa que eles têm na maneira como eles leem

[00:42:15] a nossa sociedade.

[00:42:16] Então essa menina, pra ter o direito,

[00:42:20] a gente precisa checar

[00:42:21] muitas vezes pra ver se foi

[00:42:23] um estupro, mesmo se…

[00:42:25] Ela é vista primeiro como

[00:42:27] uma mulher que pode querer enganar alguém

[00:42:29] fingindo que foi…

[00:42:30] Precisa checar essa história direitinho.

[00:42:33] Porque na verdade, eles são…

[00:42:35] Da idade do…

[00:42:37] É consentimento. Eles não aceitam

[00:42:39] a idade de consentimento. E eles são os maiores

[00:42:40] sexualizadores da infância, sabe?

[00:42:43] Só pensam nisso. Essa é a verdade.

[00:42:45] Só pensam nisso.

[00:42:46] Eles veem uma menina grávida,

[00:42:49] uma menina grávida, 12 anos, e pensam

[00:42:50] Ah, mas essa juventude aí, essa daí

[00:42:53] tava louca pra… Eles pensam no que

[00:42:55] que ela fez pra transar. E não

[00:42:57] na gravidez em si. É muito louco.

[00:42:59] Eu diria… Depois a gente que é o

[00:43:01] perverso, né? Depois a gente que só pensa em sexo.

[00:43:03] Em… Na escolinha do

[00:43:05] professor Raimundo, eles só pensam

[00:43:06] naquilo. Só pensam naquilo.

[00:43:09] A dona Bela. Eles só pensam naquilo.

[00:43:11] Dona Bela, exatamente. Cara,

[00:43:13] ouvindo o episódio do assunto,

[00:43:15] muito bom, aliás, sobre…

[00:43:16] a chacina, e correlacionando

[00:43:18] esse episódio com o da semana

[00:43:20] passada, sobre a chacina,

[00:43:22] um episódio muito bom

[00:43:24] que o assunto fez, com uma pergunta que eu acho que é essencial

[00:43:26] de se fazer, e que eu acho que a gente se faz pouco, que é

[00:43:28] por que que os jovens entram pro tráfico?

[00:43:31] É uma pergunta que a gente tinha que se fazer mais.

[00:43:32] Porque, assim, tá bom, mataram lá 130.

[00:43:35] No dia seguinte tem outros

[00:43:36] 130. Tem mais 130.

[00:43:38] A força de trabalho é infinita. Assumindo

[00:43:40] que todos fossem traficantes.

[00:43:42] Mas, né, o tráfico de drogas no Brasil não

[00:43:44] está com problema de RH. Não tá.

[00:43:46] Não tá com problema de recrutamento.

[00:43:49] Mataram os 130, exatamente.

[00:43:51] Rapidinho, já tem outros ali.

[00:43:53] Porque tem muita gente querendo entrar.

[00:43:55] E por que que entram? A primeira coisa

[00:43:56] que se pensa é a grana. Pô, porque lá você vai ganhar

[00:43:58] bem e tal. E uma juíza,

[00:44:00] que, aliás, é uma pessoa interessantíssima, Vanessa Cavalieri,

[00:44:03] juíza da vara da infância, que a

[00:44:05] Natuzaneri

[00:44:06] chamou, explica que, bom,

[00:44:08] o argumento financeiro não fica de pé.

[00:44:10] Porque ele ganhou muito mal. Ganhou 200 reais por semana

[00:44:13] no primeiro, no segundo, nos primeiros anos.

[00:44:14] Ou seja, 1.200 reais.

[00:44:16] Por mês, é o que paga um subemprego.

[00:44:19] Também com muito menos risco

[00:44:20] de vida e com muito menos horas de trabalho.

[00:44:22] Porque eles trabalham 12 horas por dia, tá?

[00:44:25] Nos primeiros anos do tráfico.

[00:44:26] De 8 às 8 da manhã ou 8 às 8 da noite.

[00:44:29] São dois turnos. Então, é um trabalho

[00:44:30] de 70 horas, 80 horas semanais.

[00:44:33] Muito mais hora e cargo horário

[00:44:35] do que o subemprego e que paga pior

[00:44:36] ou igual. Então, não fica

[00:44:38] de pé com o meu encontro econômico.

[00:44:40] O que se vê, e ela tem uma ampla experiência

[00:44:43] com jovens que vão para lá, já que ela é

[00:44:45] juíza da vara da infância, é que ela tem uma ampla experiência com jovens que vão para lá, já que ela é juíza da vara da infância,

[00:44:46] é que o maior ponto em comum

[00:44:48] não é tanto financeiro, um desespero

[00:44:50] financeiro para as contas,

[00:44:52] quanto um desamparo

[00:44:54] familiar. Acho que o maior ponto

[00:44:56] em comum, a única coisa que une todos aqueles

[00:44:58] jovens, aqueles adolescentes, é um

[00:45:00] desamparo familiar. É uma falta de estrutura

[00:45:02] familiar mesmo. São em sua imensa maioria

[00:45:04] famílias monoparentais,

[00:45:06] femininas, uma mãe solo

[00:45:08] que cuida sozinha, explorada

[00:45:10] muitas vezes com um subemprego.

[00:45:12] A mãe, ou seja, não participou da infância

[00:45:14] daquele filho, que muitas vezes foi

[00:45:15] deixado ou sozinha em casa, muitos relatos

[00:45:17] de crianças que passaram a infância trancadas em casa, porque não tinha

[00:45:20] ninguém para olhar. Então a mãe ia trabalhar

[00:45:21] às seis, sete da manhã, tranca

[00:45:23] a porta de casa, o menino fica lá sem nenhum

[00:45:26] vínculo com ninguém até às oito horas

[00:45:28] da noite, quando a mãe volta, porque não só tem

[00:45:29] o trabalho, dez horas, onze horas

[00:45:31] por dia, como tem o transporte,

[00:45:33] desumano, mais duas horas.

[00:45:37] Volta

[00:45:38] para casa, não tem creche. Aliás, um breve

[00:45:40] parêntese aqui, muita gente fala que segurança pública

[00:45:42] é coisa do Estado, né?

[00:45:43] Mas realmente, a polícia do Estado,

[00:45:45] mas todo o resto não é. A creche

[00:45:47] é do município, e não tem.

[00:45:50] Então a criança sem creche, que vai mais tarde

[00:45:52] porque não teve vínculo, porque não teve educação, vai

[00:45:54] parar no crime, é por causa do município.

[00:45:56] Mas as medidas socioeducativas

[00:45:57] são do município, tá?

[00:45:59] Em meio aberto, quem tem que cuidar

[00:46:02] disso é o município, que não cuida,

[00:46:04] porque não tem. Teve, até ela dá um

[00:46:06] bom exemplo de, teve um programa chamado

[00:46:07] Passo a Passo, que jovens, 95%

[00:46:09] dos jovens do Passo a Passo, não

[00:46:11] reincidiram, que é uma coisa recorde.

[00:46:14] Um programa super barato, custava cinco milhões

[00:46:15] por ano pra prefeitura.

[00:46:18] Acabou, por causa do Crivella, e não voltou

[00:46:20] depois. Mas era um negócio espetacular.

[00:46:22] E vale lembrar,

[00:46:24] nesse ponto, Greg,

[00:46:26] já que a gente tá falando de Rio de Janeiro, que o Eduardo

[00:46:27] Paz, a administração do Eduardo Paz, foi

[00:46:29] multada em dois bilhões de reais

[00:46:31] por não estar oferecendo

[00:46:34] vaga em creche, na maneira

[00:46:36] como é prevista em lei. Olha isso.

[00:46:37] Então eles foram multados, e mesmo assim, depois

[00:46:39] cortaram o orçamento das nossas

[00:46:42] creches. A gente, o Eduardo Paz,

[00:46:44] que fica aí, né? Ah, eu amo,

[00:46:45] amo ser prefeito do Rio, melhor cidade do

[00:46:47] mundo, melhor trabalho do mundo.

[00:46:49] Teve uma gestão longuíssima, já foi prefeito

[00:46:51] há vários mandatos, foi, voltou, saiu,

[00:46:54] lá, lá, lá. Já vai fazer um sucessor,

[00:46:55] provavelmente. É um cara que tem uma votação

[00:46:57] muito expressiva, e não

[00:46:59] conseguiu atacar esse

[00:47:01] um problema, que está absolutamente

[00:47:03] na alçada da prefeitura, que é a vaga em creche.

[00:47:05] Então, isso fica registrado. Preferiram pagar

[00:47:07] multa, do que oferecer creche

[00:47:09] pra população do Rio de Janeiro. É.

[00:47:11] É uma vergonha absoluta. E falando

[00:47:13] em desamparo, Greg, só vou colocar,

[00:47:15] só pra te complementar.

[00:47:18] No caso do massacre da semana

[00:47:19] passada, esse foi um dado que a gente viu

[00:47:21] pós-podcast, a gente descobriu

[00:47:23] no mesmo dia. Um terço

[00:47:25] de todas as vítimas,

[00:47:27] todos os mortos, não tinham

[00:47:29] registro de pai na certidão de nascimento.

[00:47:32] Não tô falando que não

[00:47:33] teve pai em casa, na sua criação,

[00:47:35] que provavelmente é um número muito mais alto do que esse,

[00:47:37] mas não era nem registrado

[00:47:40] por uma figura masculina no seu primeiro

[00:47:41] documento. Então, a gente vai

[00:47:43] vendo.

[00:47:43] Não tinha nenhum pai ali chorando,

[00:47:45] morte daqueles 130. A gente vê como a sociedade

[00:47:47] se preocupa muito pouco

[00:47:49] fora do aborto e da sexualização

[00:47:52] de crianças. Exatamente. Tem uma coisa

[00:47:53] muito metafísica nisso. Não é uma criança

[00:47:55] real que eles se preocupam. Não é.

[00:47:57] Isso é um paradoxo, porque

[00:48:00] não são a favor do direito

[00:48:02] ao aborto, então

[00:48:03] a adolescente tem que ter o filho,

[00:48:06] mas a partir do momento que esse filho vira

[00:48:07] adolescente, mata ele.

[00:48:10] Quer que cresça

[00:48:12] pra matar. Porque tem um dado

[00:48:14] muito triste da

[00:48:15] Unicef, que a Vanessa Cavalieri cita

[00:48:18] no assunto, que é uma das coisas mais

[00:48:20] tristes que existe, que é uma gravidez

[00:48:21] na adolescência te dá

[00:48:23] muito mais chances do

[00:48:25] seu filho, do filho de uma

[00:48:28] menina, de uma adolescente,

[00:48:30] morrer

[00:48:31] na adolescência por crime violento.

[00:48:34] Morte violenta

[00:48:35] na adolescência. Então,

[00:48:37] é um ciclo de violência, porque

[00:48:40] a pessoa não vai ter

[00:48:42] certamente condições de criar

[00:48:43] aquele filho. O Estado vai cagar,

[00:48:45] obviamente, não vai ter creche, não vai ter nada,

[00:48:47] vai ter amparo, e essa criança vai

[00:48:49] recair no crime. É algo muito

[00:48:51] afetivo, porque é muito perigoso

[00:48:53] falar isso, porque pode parecer que você está caindo

[00:48:55] no determinismo. Então, pobre não pode

[00:48:57] ter filho? Não é, pelo amor de Deus. Não é isso.

[00:48:59] É o contrário. A gente tem que garantir

[00:49:01] uma infância digna

[00:49:03] pra todo mundo. E não é isso que está acontecendo.

[00:49:05] E uma infância digna envolve uma infância

[00:49:07] sem gravidez. Então, eu ia dizer que é

[00:49:09] o paradoxo. O mínimo que se envolve na infância

[00:49:11] é uma infância sem gravidez.

[00:49:13] É uma parte bem importante disso. Sem assédio.

[00:49:16] Então, só porque sempre falam,

[00:49:17] tem um clichê já de dizer assim, a esquerda não tem

[00:49:19] proposta pra segurança pública.

[00:49:21] Sempre ouviu essa frase, não é?

[00:49:23] Tem propostas eficientes

[00:49:25] pra cacete, com dados, que provam

[00:49:27] que dá certo.

[00:49:29] Medidas sócio-educativas, planejamento

[00:49:31] familiar, coisa mais eficiente pra segurança

[00:49:33] pública a longo prazo. Mas é.

[00:49:35] Isso, educação sexual nas escolas,

[00:49:37] tudo isso daí a longo prazo. Só que não é pra agora.

[00:49:40] A gente está falando de 15, 20 anos. Então,

[00:49:41] as propostas da esquerda, que funcionam

[00:49:43] ou não pra segurança pública,

[00:49:45] são a longo prazo. E são embasadas

[00:49:47] por dados. Elas funcionam. Já funcionaram

[00:49:49] o mundo inteiro. Só que elas não são pra agora.

[00:49:51] Aliás, não envolvem,

[00:49:53] não são midiáticas, não envolvem entrar numa

[00:49:55] favela atirando, fazendo um circo.

[00:49:57] Mas existem propostas. E a direita

[00:49:59] não quer saber delas. Eu acho que isso não exime

[00:50:01] a esquerda, tá? De ter propostas mais

[00:50:03] cortoprazistas. Porque a crise de segurança, ela é

[00:50:05] de curto prazo também, né? Ela afeta

[00:50:07] as pessoas no seu dia a dia hoje.

[00:50:09] Mas as duas coisas podem

[00:50:11] conviver. O meu ponto, na semana

[00:50:13] passada, sobre a chacina no Rio, é que até

[00:50:15] no curto prazo, no curtíssimo

[00:50:17] prazo, aquilo não é

[00:50:19] uma política de segurança pública. Foi o que você falou, né,

[00:50:21] Greg? No dia seguinte, você chegou lá e já tinha

[00:50:23] barricada o tráfico funcionando como

[00:50:25] sempre funcionou. Então, aquilo

[00:50:27] não é uma proposta de segurança pública em prazo

[00:50:29] nenhum. Aquilo é só uma proposta

[00:50:31] de intervenção midiática.

[00:50:33] Mas eu concordo com você. Eu acho que tem muito mais

[00:50:35] nessa discussão de segurança pública do que

[00:50:38] a gente costuma

[00:50:39] posicionar como

[00:50:41] sendo sobre segurança pública.

[00:50:43] Aí tem duas coisas que eu queria trazer, que

[00:50:45] vieram na minha cabeça com você falando,

[00:50:47] Greg. Uma, quando você fala

[00:50:49] de garantir esse direito à infância,

[00:50:52] isso não é só

[00:50:53] porque é bom pra segurança, porque é bom

[00:50:55] pra produtividade dessa criança quando ela se tornar

[00:50:57] um adulto, é bom pro país.

[00:50:59] Mas é também porque

[00:51:00] não ter esse direito à infância segurado

[00:51:03] é o que hoje desencoraja

[00:51:05] as mulheres adultas

[00:51:07] que são capazes de consentir

[00:51:09] de ter filhos.

[00:51:11] E isso é um problema hoje,

[00:51:13] no Brasil. Enquanto a gente tá aqui discutindo

[00:51:15] se uma menina estuprada

[00:51:17] deveria poder ou não

[00:51:18] abortar, que é uma discussão sinceramente

[00:51:21] terrível, assim, que eu fico

[00:51:23] emocionada, eu fico

[00:51:24] brava, na verdade,

[00:51:27] que essa discussão seja pautada, que ela exista.

[00:51:29] Mas enquanto isso tá acontecendo,

[00:51:31] a gente tem no país um monte

[00:51:33] de mulheres afim de ter filho, um monte

[00:51:35] de mulheres e homens, um monte de famílias

[00:51:37] afim de criar filhos

[00:51:39] e não conseguindo fazer isso porque

[00:51:41] tá caro, porque tá difícil.

[00:51:42] Decidem não…

[00:51:43] Porque é difícil pra caramba, porque o Estado

[00:51:46] não ajuda em nada, e porque qualquer

[00:51:48] passo em falso, qualquer escolha

[00:51:51] minimamente errada, qualquer coisa que…

[00:51:53] Qualquer insegurança,

[00:51:54] qualquer situação temporária

[00:51:57] que seja de vulnerabilidade, uma doença

[00:51:58] debilitante, uma demissão

[00:52:01] não prevista, né? Perdi meu emprego,

[00:52:03] fiquei mal, minha mãe precisa de cuidados…

[00:52:05] Uma crise econômica.

[00:52:06] Você cai, não tem

[00:52:09] estrutura, não tem rede de proteção social

[00:52:11] capaz de segurar. Então hoje o Brasil

[00:52:13] tá com uma taxa de fecundidade

[00:52:15] de 1,55 por mulher. Então a gente tá

[00:52:17] falando de uma taxa que tá bem menor

[00:52:19] do que a taxa de reposição de 2,1.

[00:52:21] O que isso quer dizer, como o Brasil também não tem quase

[00:52:23] nada de imigração, né? Não tem imigrante

[00:52:25] vindo pro Brasil, é que o Brasil já

[00:52:27] está em declínio populacional.

[00:52:29] E isso é um mega não problema, porque o Brasil

[00:52:31] tá ficando velho antes de ficar rico.

[00:52:34] A gente não ficou rico,

[00:52:35] tá começando a ficar velho, entendeu?

[00:52:37] E é muito ruim ficar velho antes de ficar

[00:52:39] rico. É ruim em todos os sentidos,

[00:52:41] mas pra um país é trágico.

[00:52:43] Porque você vai ter

[00:52:45] basicamente uma população de pessoas

[00:52:47] mais velhas que vão precisar se aposentar,

[00:52:49] que vão começar a dar mais despesa de saúde,

[00:52:51] de cuidado, que é o que acontece no fim da vida.

[00:52:54] E essa população vai ter que ser

[00:52:55] sustentada por uma população jovem

[00:52:57] cada vez menor, muito menor

[00:52:59] proporcionalmente do que essa população de velhos.

[00:53:01] E essa população jovem ainda

[00:53:03] por cima recebeu uma das piores

[00:53:05] políticas educacionais do mundo, é pouquíssimo

[00:53:07] produtiva, então ela não vai ser nem

[00:53:09] capaz. Porque se ela fosse altamente

[00:53:11] produtiva, talvez ela conseguisse dar conta

[00:53:13] desse recado. É a geração Z,

[00:53:14] tá todo mundo com TDAH, com burnout.

[00:53:17] Tá todo mundo fodido.

[00:53:19] E vai tá mais fodido daqui a 30

[00:53:21] anos tendo que sustentar os velhos

[00:53:23] desse país, entendeu?

[00:53:24] Muito bem lembrado ali. E só um instante,

[00:53:27] um breve parênteses antes de passar pra você, Bruno.

[00:53:29] Se tem algo que toca diretamente

[00:53:31] esse problema é a licença

[00:53:33] paternidade.

[00:53:34] Que é uma lei que

[00:53:36] é um absurdo. Que é a política de segurança pública.

[00:53:38] É a política de segurança pública. É a política de segurança pública, é claro.

[00:53:41] É claro que é. Porra,

[00:53:43] no Brasil ela é de 5 dias. Quando é? Porque ela é nem

[00:53:45] regulamentada. No geral as pessoas dão 5 dias no máximo.

[00:53:47] 5 dias

[00:53:48] é uma loucura, é um delírio. Porque 5

[00:53:51] dias, a gente tem filho, sabe.

[00:53:53] Quem não tem filho pode achar que

[00:53:54] a parte mais difícil são os 5 primeiros dias, né?

[00:53:57] Pelo menos tá ali no… Não. Os 5 primeiros dias

[00:53:59] é folga, é tranquilo. Bebê dorme.

[00:54:01] Pelo menos as minhas dormiam 20 horas por dia.

[00:54:03] Não é a parte mais difícil. O bicho pega

[00:54:05] mesmo no primeiro mês ali, depois da primeira

[00:54:07] semana. O leite nem desceu ainda nos

[00:54:09] 5 primeiros dias, né? Ainda é ali o colo

[00:54:11] e tal. Claro que é cansativo, mas

[00:54:13] eu lembro que eu e o Giovana não ficávamos vivendo sério, porque

[00:54:15] era um tempo de dormir. É a hora

[00:54:17] mais fácil que tem. É a hora mais fácil.

[00:54:19] Então o pai fica ali na parte gostosa dos

[00:54:21] 5 dias, depois

[00:54:22] é tudo com a mãe sozinha a partir do sexto

[00:54:25] dia. É um negócio absurdo. E tá

[00:54:27] mais que comprovado que é nesses primeiros dias,

[00:54:29] é nesse primeiro mês que você cria

[00:54:30] vínculo entre o pai e a criança

[00:54:33] que é um vínculo que vai durar pra vida toda

[00:54:35] ou não vai durar. Porque se o pai

[00:54:37] no sexto dia já voltou a trabalhar, ele não vai

[00:54:39] saber quem é aquela criança, não vai saber trocar

[00:54:40] uma fralda direito, não vai criar um vínculo,

[00:54:43] um vínculo cuidante, que isso daí vai durar

[00:54:44] pra vida toda. Cara, é uma

[00:54:46] tragédia brasileira

[00:54:48] a ausência de figura

[00:54:51] paterna. É uma tragédia.

[00:54:52] E é uma tragédia, só vou lembrar, porque se põe muito

[00:54:54] na culpa dos homens. Agora eu vou falar assim,

[00:54:56] mas nem todo homem. Vou passar um pano pro homem. Não é isso não.

[00:54:59] É porque é bom lembrar que o pai ausente,

[00:55:00] muitas vezes ele foi ausentificado, gente. É verdade.

[00:55:03] Com certeza. Por uma carga horária de trabalho

[00:55:04] infinita, por uma

[00:55:06] falta de licença paternidade, por uma

[00:55:09] exaustão, por uma falta de saúde mental,

[00:55:11] porque a sociedade o impede.

[00:55:13] Falta de contexto pra isso.

[00:55:15] Cara, é um privilégio ser

[00:55:17] um pai presente. É um privilégio social mesmo,

[00:55:19] sabe? É claro que tem gente que ainda

[00:55:21] rica é ausente, né?

[00:55:23] Ainda tem um monte de jogador de futebol

[00:55:25] que eu não vou citar o nome. Esses são imperdoáveis.

[00:55:27] Esses aí são imperdoáveis. É imperdoável.

[00:55:29] O que tem pra caralho, tá? Tem

[00:55:31] muito. Mas também tem muita gente

[00:55:33] que adoraria ser um pai presente, mas não

[00:55:35] deixa. Pô, o cara às vezes é Uber,

[00:55:37] tem que trabalhar 20 horas por dia pra pagar

[00:55:39] o aluguel do Uber dele, senão ele vai ser

[00:55:40] para sustentar o filho que ele mal conhece.

[00:55:42] Pra sustentar o filho que ele mal conhece.

[00:55:44] Exatamente. Desculpa, Bruno.

[00:55:46] Só uma coisa que eu acho, assim,

[00:55:47] sobre isso a gente teve uma notícia boa na semana

[00:55:50] passada, que foi enquanto

[00:55:52] o E-Congresso tava fazendo esse absurdo,

[00:55:54] eles também passaram uma lei que

[00:55:56] aumenta pra 20 dias a licença

[00:55:58] paternidade no país. Ainda vai passar no

[00:56:00] Senado, mas tudo indica que vai passar.

[00:56:02] E foi só um ponto sobre isso,

[00:56:04] Bruno. Foi vitória, que bom,

[00:56:06] é melhor do que tínhamos antes e foi graças ao esforço

[00:56:08] de muita gente, mas

[00:56:10] o projeto original,

[00:56:12] havia 60 dias. Eu ia falar disso.

[00:56:14] Eu ia falar que é uma notícia boa,

[00:56:16] relativa, assim, é

[00:56:17] quatro vezes mais do que a gente

[00:56:20] tinha, é uma sinalização num

[00:56:22] bom caminho, que eles não botaram assim, não dá pra

[00:56:24] fazer isso porque economia não é, permite,

[00:56:26] mas eles ainda fizeram esse argumento de não ser

[00:56:28] 60 dias e nem chegar

[00:56:30] na solução que o movimento achava

[00:56:32] meio que o mínimo que é um mês.

[00:56:34] Que me parece pra lá

[00:56:36] de mínimo, né? Assim que exatamente como

[00:56:38] o Greg colocou, que é quando

[00:56:40] começa a ficar difícil. Tem uma

[00:56:42] questão na licençal e a paternidade

[00:56:44] que é óbvia, que é assim,

[00:56:47] quando mais precisa de

[00:56:48] ajuda, a mãe precisa disso,

[00:56:50] é muito difícil, tem a conexão

[00:56:52] com o pai, que é um momento precioso, que as pessoas

[00:56:54] merecem isso, e tem uma questão

[00:56:56] que é de justiça econômica, que

[00:56:58] deveria ser igualitário pra que

[00:57:00] as mulheres não tenham desvantagens

[00:57:02] profissionais na hora de ter

[00:57:04] filho. Então também tem um argumento

[00:57:06] profundamente feminista nisso

[00:57:08] de igualdade

[00:57:10] que não tem a ver simplesmente com

[00:57:12] o fato de ser mãe e precisar de mais

[00:57:14] ajuda, mas tem a ver com o fato

[00:57:16] de que uma licença maior pra

[00:57:18] as mulheres fazem com que patrões

[00:57:20] e empresas pensem duas vezes antes

[00:57:22] de colocar a mulher

[00:57:24] em idade fértil, que planeja

[00:57:26] ter filhos, em posições que ela vai

[00:57:28] se ausentar por mais

[00:57:30] tempo. Você vê países mais

[00:57:32] bem mais avançados nisso,

[00:57:34] os países nórdicos

[00:57:36] e tudo mais, eles fazem coisas incríveis

[00:57:38] que eles dão tipo um ano

[00:57:40] e os pais se podem

[00:57:42] se dividir, eles

[00:57:44] decidem como essa

[00:57:46] licença vai ser aplicada.

[00:57:48] Tem países que põem licença, é

[00:57:50] obrigatória, por algum

[00:57:52] período, pra que o pai não possa

[00:57:54] ser pressionado a

[00:57:56] assumir ou ganhar uma compensação e tudo mais.

[00:57:58] Então tem uma série de outros

[00:58:00] mecanismos que a gente devia

[00:58:01] estar discutindo, mas que a gente não

[00:58:04] discute porque é isso, nós estamos no ponto

[00:58:06] de falar, ainda é polêmico

[00:58:08] ou polêmico não, tem uma

[00:58:09] minoria no nosso

[00:58:12] processo que acha que

[00:58:13] meninas estupradas

[00:58:16] deveriam ter seus, deveriam

[00:58:18] ter um acesso facilitado

[00:58:20] ao seu direito. E eu acho que

[00:58:22] algo que se falou pouco, Bruno, é

[00:58:24] sobre uma conta

[00:58:25] que as pessoas fazem, que é uma conta

[00:58:28] muito errada e toda

[00:58:29] imprensa quando vai cobrir esse assunto

[00:58:31] dá uma conta de um impacto fiscal

[00:58:34] da licença-paternidade bilionário.

[00:58:37] Ou seja, seria, parece

[00:58:38] que vai ser 4 bilhões de reais por

[00:58:39] cofres públicos por ano pra uma licença de 20

[00:58:42] dias. Se for de 30, vira

[00:58:44] 6 bilhões de

[00:58:46] impacto público,

[00:58:48] ou seja, vai ser uma grana pro Estado, porque é o Estado

[00:58:50] que vai ter que bancar esses dias que o pai

[00:58:52] não trabalha. Tá, mas se o Estado não bancar,

[00:58:55] quem que tá bancando

[00:58:56] hoje? É de graça?

[00:58:58] A gente transfere isso pras mulheres

[00:58:59] e isso não entra nas contas.

[00:59:01] Muito obrigada por

[00:59:04] falar isso, porque é isso, a gente tem uma direita

[00:59:06] apaixonada pelo tema família,

[00:59:08] que só fala de família, não para

[00:59:10] de falar da defesa das crianças e das famílias

[00:59:12] brasileiras, mas que não reconhece

[00:59:14] que hoje existe efetivamente

[00:59:15] uma transferência de

[00:59:17] obrigações, inclusive

[00:59:19] financeiras, do Estado

[00:59:21] pras famílias, e dentro das famílias

[00:59:24] pras pessoas mais vulneráveis

[00:59:26] dentro dessas famílias, que tendem

[00:59:28] a ser as mulheres que são as que têm hoje menos

[00:59:30] direitos dentro das famílias brasileiras,

[00:59:32] como nesse caso. Então é isso.

[00:59:33] Não, essa conta de 6 bil e a INSS não

[00:59:36] pode bancar, mas as mulheres brasileiras

[00:59:38] podem. E digo mais,

[00:59:40] a ampliação da licença-paternidade,

[00:59:42] de novo, uma super vitória, mas

[00:59:44] ainda restrita a

[00:59:46] trabalhadores em CLT, porque

[00:59:48] quando o governo, o governo

[00:59:50] fez lá aquela lei

[00:59:52] dos entregadores, usando

[00:59:54] as palavras do Lula, pariu uma nova

[00:59:56] criança no ambiente do trabalho,

[00:59:58] no mundo do trabalho,

[01:00:00] a gente não incluiu

[01:00:01] na cobertura do INSS

[01:00:03] pra contribuintes individuais, que é o que os

[01:00:06] entregadores costumam, quando tem algum tipo

[01:00:08] de proteção social, ela se dá via contribuição

[01:00:10] individual pro INSS, que se você for

[01:00:12] autônomo, diarista,

[01:00:13] entregador, Uber, você pode ser

[01:00:16] um contribuinte individual. Se você for

[01:00:18] mulher e for contribuinte individual,

[01:00:20] você tem direito à licença-paternidade

[01:00:22] coberta pelo INSS.

[01:00:23] É claro que, efetivamente,

[01:00:26] o exercício desse direito na prática

[01:00:28] ele é muito diferente daquele

[01:00:30] que se dá dentro de um vínculo trabalhista mais

[01:00:31] estável, porque você pode ainda assim trabalhar

[01:00:34] e você tem muita pressão econômica

[01:00:36] pra que isso aconteça. Então, muitas mulheres

[01:00:38] autônomas não tiram

[01:00:40] a sua licença-paternidade com a

[01:00:42] coletamente e voltam ao trabalho muito antes,

[01:00:44] o que já é péssimo.

[01:00:46] Mas a gente não conseguiu até agora

[01:00:48] incluir licença-paternidade,

[01:00:50] nem aquela mínima, que dirá

[01:00:52] essa de 20 dias, nos direitos

[01:00:54] dos homens que são contribuintes individuais.

[01:00:57] E a enorme maioria

[01:00:58] dessa força de trabalho

[01:01:00] precarizada nos serviços de entrega,

[01:01:02] aplicativos e tal, é masculina.

[01:01:04] Diarista, faxina, não.

[01:01:05] É uma força de trabalho muito feminina.

[01:01:07] Mas esse trabalho

[01:01:09] plataformizado no Brasil, ele tem uma

[01:01:11] força de trabalho particularmente masculina.

[01:01:14] Que não vai ter direito a licença-paternidade.

[01:01:17] Exatamente.

[01:01:17] Se a gente aumentasse o imposto dessas plataformas

[01:01:19] em meio por cento, a gente já bancava

[01:01:22] tudo isso e mais, entendeu? É uma dificuldade

[01:01:24] de se falar sobre arrecadação

[01:01:26] pra pagar pelas coisas que a gente precisa pagar.

[01:01:28] E aí, vem o meu outro ponto de um assunto

[01:01:29] que eu queria retomar rapidamente,

[01:01:32] que foi o que a Alessandra colocou, né?

[01:01:34] Que é, estamos abaixo

[01:01:36] da taxa de reposição

[01:01:38] de natalidade. Cara,

[01:01:40] esse assunto pra mim é mais…

[01:01:41] Países ricos também não estão repondo.

[01:01:44] Sim, mas eles são ricos. Esse é o ponto.

[01:01:47] Não, não. Mas o meu ponto é outro.

[01:01:49] O Japão tá fazendo isso,

[01:01:50] a Finlândia tá fazendo isso e tudo mais.

[01:01:52] E tem essa grita

[01:01:53] que eu acho assustadora

[01:01:56] mesmo, assim, dessa crise

[01:01:58] de natalidade. Precisamos botar mais

[01:02:00] bebês no mundo e tudo mais. Cara,

[01:02:02] eu acho que esse argumento de que

[01:02:04] putz, mas quem vai sustentar? De onde vem o dinheiro

[01:02:06] pros velhos? Precisamos trabalhar pra pagar a apostadoria?

[01:02:08] Então tem que sempre ter muito mais jovem

[01:02:10] do que aposentado?

[01:02:11] Dentro do arcabouço fiscal

[01:02:13] político e

[01:02:16] capitalista, que foi criado

[01:02:17] exatamente na hora de maior explosão

[01:02:20] populacional da história da humanidade.

[01:02:22] A gente criou esse arranjo

[01:02:24] previdenciário

[01:02:25] e essa estrutura de crescimento

[01:02:27] capitalista exatamente na hora

[01:02:30] em que a nossa população

[01:02:30] passou de menos de dois

[01:02:33] pra mais de oito e menos de cem anos.

[01:02:36] É uma explosão populacional.

[01:02:38] E aí me dá muita angústia

[01:02:40] a gente não juntar,

[01:02:41] minimamente um pouco,

[01:02:43] o fato de que a gente precisa admitir

[01:02:46] um decrescimento

[01:02:47] populacional não apocalíptico,

[01:02:50] não genocida e não

[01:02:52] gerido politicamente

[01:02:53] pra lidar com a crise

[01:02:56] ambiental e a crise de recurso

[01:02:58] e o que vem pela nossa frente.

[01:03:00] O que me dá angústia, não é que a gente vai estar falando assim

[01:03:02] então precisamos criar condições

[01:03:04] pra que a gente tenha mais filhos, pra que

[01:03:06] pague os aposentados. Eu acho que, cara,

[01:03:07] o dinheiro, a gente sabe onde tá.

[01:03:10] Tudo bate, na minha opinião,

[01:03:11] hoje em dia, no fato de que tudo isso

[01:03:13] que a gente tá falando, inclusive de ter mais filhos

[01:03:16] é pra não pegar

[01:03:17] o dinheiro dos bilionários

[01:03:19] e pra não rever o tipo de modelo

[01:03:21] econômico e político

[01:03:23] de crescimento infinito

[01:03:25] que pede uma

[01:03:27] população de crescimento infinito.

[01:03:30] A gente tá falando de infância

[01:03:31] no meio da COP. A COP começou hoje

[01:03:33] oficialmente. Não existe

[01:03:35] proteção infantil

[01:03:37] mais importante

[01:03:39] universalmente,

[01:03:41] e é

[01:03:41] colocada, não tô falando só de vulnerabilidade

[01:03:43] econômica, mas de vulnerabilidade

[01:03:45] física, do que

[01:03:47] lidar com a crise ambiental, assim,

[01:03:50] emergente.

[01:03:51] Quem tá nascendo hoje, os nossos filhinhos,

[01:03:54] a minha filhinha, que tem um mês,

[01:03:55] vai pegar uma situação

[01:03:58] impensável

[01:03:59] em termos de recursos e tudo mais.

[01:04:02] E aí passa por uma revisão

[01:04:04] que a gente não tem coragem, que é o que você colocou.

[01:04:06] A gente não consegue falar de

[01:04:07] taxação de meio por cento pra resolver

[01:04:09] a licença-paternidade do cara do Uber,

[01:04:11] mas o que a gente vai ter que falar daqui a muito pouco

[01:04:13] tempo é de uma mudança muito

[01:04:15] radical de realocação

[01:04:17] de recurso mesmo, uma população

[01:04:19] que vai envelhecer e que

[01:04:21] novamente não tem como se reproduzir

[01:04:23] em taxas de crescimento, gente.

[01:04:25] Não cabe mais.

[01:04:27] Mas vamos lá, vamos por partes. Primeiro, eu rejeito

[01:04:29] o argumento de que a solução pra crise

[01:04:31] climática é a implosão populacional.

[01:04:34] Eu também, eu também

[01:04:35] rejeito. Não, meu ponto aqui só é

[01:04:37] que eu não acho que a gente precisa ter uma população

[01:04:39] em declínio. É claro que o boom populacional

[01:04:41] que a gente viveu no último século, em algum momento

[01:04:43] ele se torna insustentável, mas a gente

[01:04:46] não precisa ter uma população em rápido declínio

[01:04:48] pra consumir menos

[01:04:50] recurso e energia

[01:04:51] nesse planeta. A gente precisa de menos

[01:04:54] consumo, de um consumo menos

[01:04:55] predatório. A gente precisa de uma transição

[01:04:57] energética, a gente precisa de um monte de coisas.

[01:04:59] Eu concordo com tudo isso. Declínio populacional não

[01:05:01] necessariamente é uma dessas coisas. Então,

[01:05:03] esse é o primeiro ponto. Segundo,

[01:05:05] porque senão a gente entra num argumento que também

[01:05:07] é um argumento muito perigoso

[01:05:09] de que, é isso, as pessoas que têm

[01:05:11] filhos, a grande coisa que você pode

[01:05:13] fazer pela crise climática

[01:05:16] para tentar solucioná-la é não se reproduzir

[01:05:18] e não ter filhos. Eu também não acho isso.

[01:05:19] Enquanto isso, a extrema-direita puritana

[01:05:21] ultra-religiosa está tendo 10 mil

[01:05:23] filhos e esses filhos todos aí vão

[01:05:25] votar no Donald Trump daqui a 50 anos.

[01:05:27] Também não acho isso. Daqui a 18.

[01:05:29] Mas, enfim. Então, isso é a primeira coisa.

[01:05:32] Segunda coisa é que é muito diferente,

[01:05:34] Bruno, declínio populacional num país

[01:05:35] rico e declínio populacional num país pobre.

[01:05:38] Inclusive em relação às fontes de

[01:05:39] recurso que você vai precisar ter para pagar

[01:05:41] pela previdência desses velhos.

[01:05:43] Eu estou falando desses velhos.

[01:05:45] Não é pejorativo. Eu estou pensando

[01:05:47] em mim, velha.

[01:05:50] Porque a gente hoje,

[01:05:52] no Brasil, por exemplo, a gente não tem

[01:05:54] aqui

[01:05:56] as empresas que hoje

[01:05:57] estão operando a grande

[01:05:59] que viraram

[01:06:01] grandes aspiradores de pó de

[01:06:03] valor econômico do mundo inteiro, não são sediadas

[01:06:05] aqui. A gente tem um país pouco

[01:06:07] industrializado e ainda menos

[01:06:09] adaptado a uma economia

[01:06:11] pós-industrial da cognição,

[01:06:14] da automação, da inteligência artificial.

[01:06:16] Nada está aqui.

[01:06:17] Eu não tenho dúvida de que nos Estados Unidos

[01:06:19] e na Europa e no Japão, se eles

[01:06:21] quiserem solucionar a crise previdenciária

[01:06:23] simplesmente repartindo

[01:06:26] melhor o valor que é

[01:06:27] extraído por essas empresas,

[01:06:30] não só do mundo todo, mas

[01:06:31] de tudo que a humanidade já produziu no mundo,

[01:06:33] que é o caso da inteligência artificial,

[01:06:35] esse valor ali acumulado no topo,

[01:06:38] um pouquinho de redistribuição,

[01:06:39] não resolve um problema previdenciário que eles vão ter.

[01:06:42] Evidentemente vão ter,

[01:06:43] porque eles estão em declínio populacional rápido.

[01:06:46] No Brasil, a gente não tem essa opção.

[01:06:48] Então, o Brasil não ter

[01:06:49] aproveitado o seu boom demográfico, de novo,

[01:06:51] o Brasil ficar velho antes de ficar

[01:06:53] rico, minimamente rico, minimamente

[01:06:55] próspero, é um problema.

[01:06:57] Ah, mas tem muito rico no Brasil. Sim,

[01:06:59] mas o Brasil é menos rico, tem menos…

[01:07:01] Mesmo com uma distribuição economy

[01:07:03] perfeita, a gente tem menos riqueza para distribuir

[01:07:05] do que Estados Unidos, do que Europa, etc.

[01:07:07] Então, provavelmente o que vai acontecer,

[01:07:10] é o que já aconteceu desde

[01:07:11] das colônias, é que

[01:07:13] esses países ricos, eles vão

[01:07:15] garantir algum tipo de estado de bem-estar

[01:07:17] social para as suas populações,

[01:07:19] às custas das colônias.

[01:07:21] É colonizando o terceiro mundo,

[01:07:23] é vindo para cá extrair

[01:07:25] as nossas riquezas, a nossa força de trabalho,

[01:07:27] a nossa capacidade, e levando

[01:07:29] para… extraindo esse valor para

[01:07:31] sustentar um mínimo de bem-estar

[01:07:33] social nesses espaços,

[01:07:34] para fazer algum tipo de controle

[01:07:36] de…

[01:07:37] das…

[01:07:38] de…

[01:07:38] de…

[01:07:39] de…

[01:07:39] das insurgências, do mal-estar político

[01:07:41] que surge quando o estado de bem-estar social

[01:07:43] se desfaz completamente.

[01:07:46] E aí vão ter que fazer um controle de fronteiras,

[01:07:47] é o que já está acontecendo. Então, é um enderecimento

[01:07:49] das leis de imigração e

[01:07:51] mais extração pós-colonial.

[01:07:54] Mas na mesma lógica,

[01:07:55] colonizadora de sempre, entende?

[01:07:57] Então, assim, a gente vai precisar resolver o nosso problema previdenciário?

[01:08:00] Sim, porque ele vai ser só nosso.

[01:08:02] A gente não vai extrair de nenhum

[01:08:03] outro lugar.

[01:08:04] Eu não discordo de nada do que você disse,

[01:08:06] como é princípio. Eu também não dei o

[01:08:09] decrescimento populacional voluntário

[01:08:11] como solução pra nada.

[01:08:13] Mas parte da conta

[01:08:14] complexa da mudança climática

[01:08:16] e da crise de recursos que a gente já está

[01:08:19] passando, parte dela.

[01:08:20] É um argumento malthusiano.

[01:08:22] Não é o cara que, tipo assim, resolve

[01:08:24] tudo, mas não dá pra jogar tudo o que está

[01:08:26] sendo dito fora, porque existe sim

[01:08:28] uma pressão

[01:08:30] ecológica que, mesmo com

[01:08:32] transição energética mais

[01:08:35] rápida, mesmo com uma redução

[01:08:36] do padrão de consumo pra

[01:08:38] modelos racionais,

[01:08:40] nós estamos em um momento

[01:08:42] muito mais de restauro do que de

[01:08:44] contenção de danos.

[01:08:47] Mas o que eu estou fazendo é uma crítica mais

[01:08:49] radical mesmo, que é

[01:08:50] tudo isso que você colocou

[01:08:52] é assumindo que o capitalismo vai

[01:08:54] seguir de pé. E a minha sensação

[01:08:56] que dá quando a gente fala de natalidade,

[01:08:58] inclusive, é que ela só se torna um tipo

[01:09:01] de necessidade imperativa

[01:09:02] dentro de países menos ricos

[01:09:04] e até dentro dos países ricos, mas como

[01:09:06] o nosso, porque

[01:09:08] a gente ainda está assumindo que a solução

[01:09:10] que vai acontecer

[01:09:11] é de um capitalismo imperial

[01:09:13] mais parecido com o século

[01:09:15] do começo do século XX do que do final

[01:09:18] dele, entendeu? Mas assim,

[01:09:20] a sensação que me dá é que a gente está culminando

[01:09:22] em um momento, e eu não acho que a crise

[01:09:24] de natalidade está vindo

[01:09:25] à toa nisso tudo. Não é uma conta econômica

[01:09:28] que a direita está fazendo.

[01:09:31] Eu acho que tem uma conta

[01:09:31] instintiva até, que a gente

[01:09:34] está entrando no modo sobrevivência mesmo.

[01:09:36] Não é à toa que a crise de natalidade,

[01:09:37] ela está sendo lida por muitas pessoas

[01:09:40] como uma crise de afirmação

[01:09:42] racial, e não de sobrevivência

[01:09:44] da nossa espécie, mas

[01:09:46] de raças. Então,

[01:09:48] eu acho que na hora que a conversa de

[01:09:50] natalidade toma

[01:09:51] o centro, e talvez tenha que assumir

[01:09:54] parte disso, não só de natalidade,

[01:09:56] mas de sobrevivência mesmo,

[01:09:58] eu acho mais importante ainda a gente discutir

[01:10:00] não previdência, mas as premissas

[01:10:02] do capitalismo mesmo, do

[01:10:04] Estado-nação, de outras coisas,

[01:10:06] entendeu? Talvez a gente perca essa

[01:10:07] guerra. Mas são coisas que a esquerda

[01:10:10] não está com capacidade de

[01:10:11] articular de maneira clara.

[01:10:14] A gente ainda está tentando administrar

[01:10:16] um capitalismo humano que parece

[01:10:18] que não está cabendo mais na nossa planilha.

[01:10:20] É a sensação que eu tenho. Mas eu não discordo nada

[01:10:22] do que você colocou. Eu só discordo

[01:10:24] que a gente devia estar nesse regime.

[01:10:26] Que a gente precisa fazer esse tipo de conta

[01:10:27] previdenciária, entendeu? Nesse nível.

[01:10:29] Eu concordo que no mundo ideal a gente deveria estar em outro

[01:10:32] regime. Mas esse é

[01:10:34] o regime em que estamos, e acho que a gente

[01:10:36] não pode, como país, não ter uma discussão

[01:10:38] sobre como é que a gente vai garantir dignidade

[01:10:40] para os nossos idosos

[01:10:42] e para os nossos jovens dentro do regime

[01:10:44] que temos. Você está preocupada em você mesmo, né,

[01:10:46] Alê? Você está preocupada com você.

[01:10:48] Com a minha aposentadoria.

[01:10:50] Porque a gente está quase lá. Somos

[01:10:51] millennials e futuramente seremos

[01:10:54] a escória. Vocês são millennials.

[01:10:56] É verdade. Você é a geração X?

[01:10:58] X. É isso? Ai, que péssimo. A geração

[01:11:00] X é tão ruim, Bruno, essa geração X.

[01:11:02] Puts, pegou pesado

[01:11:04] agora. Eu acho pior millennial.

[01:11:06] Puts.

[01:11:07] Vamos discutir sobre isso.

[01:11:09] Não é pessoal.

[01:11:12] Vocês são millennials maravilhosos.

[01:11:13] Por acaso, a gente está fazendo uma ponte perfeita com o

[01:11:16] episódio da semana que vem, na qual falaremos

[01:11:18] da COP. A COP que está

[01:11:19] discutindo o futuro do planeta

[01:11:21] que está começando oficialmente hoje.

[01:11:24] E, bom, melhores

[01:11:25] aí. Eu estou na maior torcida, mandando um abraço

[01:11:27] para todo mundo que está lá. Inclusive, Giovanna.

[01:11:29] Por isso que eu estou nesse escritório aqui. Aqui é o escritório da Giovanna.

[01:11:32] Estou ocultando ele porque ele é mais

[01:11:34] silencioso, enquanto Giovanna está na COP.

[01:11:36] Eu vou ocupar ele para sempre.

[01:11:38] Ele é ótimo, o som daqui. Maravilhoso.

[01:11:41] Então, inclusive, um beijo para a Giovanna

[01:11:42] que está lá e para todos os que estão. Aliás, quem

[01:11:44] quiser saber notícias da COP,

[01:11:46] sigam lá a Giovanna, Giovanna Nader

[01:11:48] ou o Tempo Virou, que é um

[01:11:50] canal da Giovanna só para notícias climáticas

[01:11:52] e entrevistas climáticas.

[01:11:54] Vai entrevistar um monte de gente lá na COP essa semana

[01:11:56] e ela está cobrindo a COP

[01:11:58] e está também falando em algumas mesas lá.

[01:12:00] Então, sigam a Giovanna Nader,

[01:12:01] Tempo Virou. Jordano Nader está lá também,

[01:12:04] irmão dela, trabalhando na COP.

[01:12:06] Ligia Stock também está arrasando

[01:12:08] na COP, assim como André Corrêa

[01:12:10] do Lago, também espetacular. Muita gente

[01:12:12] querida fazendo um puta trabalho lá. Então,

[01:12:14] parabéns, porque para a minha visão

[01:12:16] já é um sucesso, só porque está levando todo mundo

[01:12:18] para Belém. Estou na torcida para que tenha

[01:12:20] números vultosos aí

[01:12:22] para a gente. E, claro, eu sei

[01:12:24] de todos os problemas que a gente vai discutir melhor

[01:12:25] na semana que vem, quando já estiver

[01:12:27] encerrada essa primeira semana de COP.

[01:12:30] Então, minha dica da semana é essa.

[01:12:32] Acompanhem a COP, torçam

[01:12:33] e cobrem também.

[01:12:36] Muito importante cobrar e fazer pressão.

[01:12:38] Mas sigam Giovanna Nader e o Tempo

[01:12:40] Virou, que ela vai fazer uma cobertura linda

[01:12:42] de lá. É um momento meio cabotino

[01:12:43] de fazer propaganda familiar aqui.

[01:12:46] E vocês, querem indicar alguma coisa?

[01:12:47] A minha dica tem a ver exatamente

[01:12:50] com o tema de hoje, um livro que de fato eu estou

[01:12:52] lendo, que acabou de sair,

[01:12:54] que é uma coleção, que é

[01:12:56] Ubu,

[01:12:57] uma editora que a gente gosta

[01:13:00] muito, muito parceira do

[01:13:01] É Calma, É Urgente. Acabou de lançar

[01:13:04] e eles me enviaram carinhosamente, que é

[01:13:06] o Entendendo o Seu Filho.

[01:13:08] Uma coleção de quatro volumes

[01:13:09] feita pela clínica Etat Stock,

[01:13:12] que é uma referência e

[01:13:14] acompanha

[01:13:15] a primeira infância há muitas décadas

[01:13:18] com pais, filhos,

[01:13:20] mães e tal. E que são quatro volumes

[01:13:22] que é Entendendo o Seu

[01:13:24] Filho de… É um ano.

[01:13:26] Entendendo o Seu Filho de dois

[01:13:28] anos, de três e de quatro

[01:13:30] a cinco anos. Então, desde que ele

[01:13:32] nasce até os cinco anos,

[01:13:33] tem um volume para cada um.

[01:13:36] E é muito didático, muito simples,

[01:13:37] muito direto, cheio de exemplos

[01:13:39] familiares. E acho um

[01:13:41] presente maravilhoso para quem

[01:13:43] vai ter filho, para quem acabou de

[01:13:45] ter filho, ou para quem está

[01:13:47] lidando com as nossas enormes

[01:13:50] incertezas, inseguranças, dúvidas

[01:13:52] e tal. Um jeito de ter

[01:13:53] especialistas que falam de maneira muito direta,

[01:13:55] muito simples, muito reta, assim,

[01:13:57] sem grandes complexidades,

[01:13:59] mas você se sente muito menos sozinho.

[01:14:01] Acho que, lendo essa coleção,

[01:14:03] acho um baita presente de…

[01:14:06] É bebê ou uma cartilha

[01:14:08] para quem está com o bebezinho no colo e

[01:14:09] meio angustiado.

[01:14:11] Essa é a minha dica de hoje. E também, copy, né?

[01:14:14] A gente fala na próxima semana.

[01:14:16] Também estou bem ligado nisso.

[01:14:17] A minha dica de hoje também tem a ver com o tema família,

[01:14:20] mas a partir de uma outra perspectiva

[01:14:21] que tem menos a ver com a questão de direitos

[01:14:23] ou com as questões econômicas e de

[01:14:25] cuidado, etc. Mas que é um livro

[01:14:27] fácil de ler,

[01:14:30] rápido de ler,

[01:14:31] do Alain Badiou, que é um filósofo

[01:14:33] incrível.

[01:14:36] E que se chama

[01:14:37] Elogio do Amor.

[01:14:40] Elogio do Amor é a tradução em português.

[01:14:41] Elogio do Amor. E que eu li recentemente

[01:14:44] e achei muito legal. Recomendo para vocês,

[01:14:46] inclusive dois, vocês dois. Acho que a gente pode

[01:14:48] discutir esse livro. Talvez seja um livro até para a gente

[01:14:50] incluir no nosso clube do ano que vem.

[01:14:52] Achei bem interessante mesmo.

[01:14:54] E ele vai falar

[01:14:55] de tipos, de concepções diferentes

[01:14:58] do amor. Então, ele fala…

[01:15:00] Ele contrapõe algumas visões do amor.

[01:15:02] A visão securitária,

[01:15:03] a visão romântica e a visão cética.

[01:15:06] A visão securitária é um pouco

[01:15:08] essa visão promovida por sites de relacionamento,

[01:15:10] sabe? Por Tinder, etc.

[01:15:11] Que busca eliminar o risco, sabe?

[01:15:13] É quase o amor como uma espécie de consumo

[01:15:15] controlado.

[01:15:17] Uma coisa que você pode amar e

[01:15:19] controlar todas as possibilidades de risco,

[01:15:22] tudo que existe de imprevisível.

[01:15:23] Encomendar uma pessoa que se enquadra

[01:15:25] exatamente naquilo que você está buscando.

[01:15:27] O processo de seleção, né?

[01:15:29] E aí tem o amor romântico que foca

[01:15:31] muito mais no êxtase do encontro,

[01:15:33] desse encontro de almas, de como isso vai se dar.

[01:15:36] E o amor cético,

[01:15:38] que acaba reduzindo o amor

[01:15:39] à ilusão, ou uma espécie

[01:15:42] de disfarça do desejo sexual.

[01:15:43] Essa ideia de que o amor é ilusório

[01:15:46] porque ele tem mais a ver com paixão do que outra coisa.

[01:15:48] Ele fala dessas concepções

[01:15:50] para depois propor

[01:15:51] uma concepção muito mais

[01:15:53] dele, né? Do encontro

[01:15:56] amoroso como um evento.

[01:15:58] Como algo que é inesperado

[01:16:00] e que rompe o curso da vida, sabe?

[01:16:02] É uma coisa que tira a vida do curso

[01:16:04] que ela estaria sem o advento

[01:16:05] daquele evento.

[01:16:07] E pra mim foi uma experiência muito parecida com

[01:16:09] de me apaixonar e de construir meu amor

[01:16:12] romântico, mas também

[01:16:13] o amor pelos filhos. Não sei como foi

[01:16:15] pra vocês, mas pra mim foi

[01:16:17] muito essa sensação, sabe? De um evento

[01:16:20] que muda o curso da vida de uma forma

[01:16:22] que você não tem mais controle

[01:16:23] de pra onde é que a vida vai depois disso.

[01:16:25] E aí ele vai depois falar sobre as implicações

[01:16:27] políticas do amor e os processos

[01:16:30] de invenção coletiva e como o amor

[01:16:31] também ajuda a gente a lidar com o novo, com a diferença.

[01:16:34] Como o amor é uma espécie de

[01:16:35] lógica que resiste à lógica mercantil.

[01:16:38] E aí, enfim, é lindo.

[01:16:39] Fala do amor da família, do Estado.

[01:16:42] Ele afirma muito que o filho

[01:16:43] não é o destino do amor.

[01:16:45] Que essa dualidade do amor

[01:16:47] dos dois, ela não vai se resolver no um.

[01:16:50] Então, você tem que pensar

[01:16:51] no filho de uma outra maneira.

[01:16:53] Então, assim, é muito legal pra quem tá formando família

[01:16:55] pensando em ter filho, querendo se apaixonar, se apaixonando

[01:16:58] já se apaixonou, tá com dor de cotovelo.

[01:17:00] Ou tá pensando no amor por outras

[01:17:02] pessoas. O amor que a gente sente pelos amigos,

[01:17:03] pela família. Eu acho que é uma boa meditação.

[01:17:05] Sobre o amor, deixo essa dica.

[01:17:07] Excelente. Boa. Bom, foi um prazer

[01:17:09] falar com vocês. Terminando mais um

[01:17:11] calmo urgente. Semana que vem a gente tá aqui nesse mesmo

[01:17:14] horário, viu? Então,

[01:17:16] até breve. Uma boa semana

[01:17:17] pra vocês. Devia ter um melhoras,

[01:17:19] Alessandra. Obrigada. Semana que

[01:17:21] vem eu espero não entrar desgrenhada e suando

[01:17:23] da dipirona. Você tá ótima, Alessandra. Você tá ótima.

[01:17:26] Parabéns pela sua gripe. Você tá

[01:17:27] maravilhosa.

[01:17:30] Fica meio brilhante

[01:17:31] do suor, né? Dá um glow.

[01:17:33] É o famoso glow da dipirona.

[01:17:35] Você está brilhando, Alessandra,

[01:17:37] hoje. Brilhante, como

[01:17:39] sempre. Tchau, tchau.

[01:17:41] Até mais, querida.

[01:17:45] O Calma Urgente é uma produção

[01:17:48] da Peri Produções. Na apresentação

[01:17:50] temos eu, Alessandra Orofino,

[01:17:52] o Gregório Dovivier e o Bruno Torturra.

[01:17:54] Na coordenação de produção,

[01:17:55] Carolina Foratini Igreja. Na pesquisa,

[01:17:58] roteiro e apuração, Luísa

[01:17:59] Miguez. Na captação, edição

[01:18:01] e mixagem, Vitor Bernardes.

[01:18:04] Na ilustração, Ana

[01:18:05] Brandão. Na sonoplastia,

[01:18:07] Filipe Croco. Nas redes sociais,

[01:18:09] Teodora Dovivier e Bruna Messina.

[01:18:12] Na gestão da nossa comunidade,

[01:18:14] Marcela Brandes. A nossa

[01:18:15] identidade visual foi feita por Pedro

[01:18:17] Inouye. E a nossa consultoria de

[01:18:19] comunicação é da Luna Costa.

[01:18:21] Race Skat,

[01:18:24] ultrais,

[01:18:25] ловancolomia.com.br

[01:18:26] .

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