O estoicismo de Musônio Rufo
Resumo
Este episódio apresenta o pensamento prático de Musônio Rufo, um filósofo estoico romano do século I d.C. que foi professor de Epicteto. Embora menos conhecido que Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, Musônio era altamente respeitado em sua época, sendo comparado a Sócrates por Orígenes. Seu estoicismo se caracteriza por uma abordagem extremamente prática, focada na aplicação cotidiana dos princípios filosóficos.
O episódio explora diversas facetas do pensamento de Musônio, começando por sua defesa surpreendentemente progressista da educação feminina. Ele argumentava que mulheres e homens possuem a mesma capacidade racional e portanto deveriam receber a mesma educação filosófica, embora mantivesse visões tradicionais sobre os papéis sociais das mulheres como administradoras do lar. Outro tema central é sua reflexão sobre o exílio, experiência que viveu duas vezes, onde argumenta que a virtude pode ser cultivada em qualquer lugar e que o exílio pode até ser benéfico para o desenvolvimento filosófico.
Musônio também discute a profissão apropriada para um filósofo, defendendo que trabalhos manuais como agricultura e pastoreio são ideais por proporcionarem tempo para reflexão e contato com a natureza. Suas visões sobre sexualidade e casamento são conservadoras para padrões modernos, limitando o sexo ao casamento com propósito procriativo, mas progressistas ao exigir dos homens o mesmo padrão moral exigido das mulheres. Na alimentação, defendia o vegetarianismo e a simplicidade, considerando a carne prejudicial ao intelecto.
Finalmente, o episódio aborda suas posições sobre vestuário e aparência, recomendando roupas funcionais e moderadas, e cabelos cortados de forma prática. A apresentação enfatiza que as visões de Musônio representam apenas uma vertente do estoicismo e têm valor principalmente histórico, oferecendo uma janela vívida para a vida cotidiana dos filósofos romanos.
Anotações
- 00:14:45 — Mulheres devem filosofar, mas o lar vem primeiro Musônio afirma que mulheres têm a mesma razão que os homens e portanto devem estudar filosofia para alcançar temperança e coragem. Contudo, ao restringir o benefício ao papel de administradora do lar, expõe os limites do seu feminismo dentro do contexto romano.
- 00:19:16 — O exílio não rouba o essencial da vida Musônio questiona o que realmente perdemos no exílio: não a natureza, não os amigos verdadeiros, não a virtude. Citando Sócrates, afirma que o universo é a pátria de todos. Mesmo em exílio podemos encontrar nossos verdadeiros amigos — aqueles que nunca nos abandonam nem nos traem; paradoxalmente, esses podem estar mais presentes longe de casa do que certos conhecidos que vivem na mesma cidade mas não merecem o nome de amigo.
- 00:23:15 — Agricultura como sustento digno do filósofo Musônio defende que o filósofo deve sustentar-se pelo trabalho na terra, não apenas como professor. A terra recompensa com justiça sem violar a dignidade de ninguém — só quem está já desonrado diria que esse trabalho é impróprio.
- 00:32:34 — Casamento é natural e compatível com a filosofia Musônio defende que destruir o casamento é destruir a família e a raça humana. O amor entre homem e mulher é a forma mais elevada de amor, superior até ao amor pelos filhos. Casamento e filosofia são plenamente compatíveis — Pitágoras e Sócrates foram casados.
- 00:33:55 — Carne obscurece a alma e atrasa o intelecto Musônio posiciona-se vegetariano: a carne é alimento para animais selvagens, suas exalações obscurecem a alma e tornam o intelecto mais lento. Condena também os livros de culinária que buscam ampliar o prazer do comer em detrimento da saúde.
- 00:36:07 — Comer para viver, não para obter prazer A alimentação é o campo de batalha mais frequente da virtude — comemos várias vezes ao dia. Para Musônio, garganta e estômago são instrumentos de nutrição, não de prazer: a comida deve ser remédio para a vida. O mesmo princípio de funcionalidade se aplica ao vestuário: modesto e protetor.
- 00:40:00 — Cabelo e o legado oral de Musônio Musônio defendia cortar o cabelo para que não se torne um fardo, citando Zenão: crescer ou cortar são igualmente naturais. Apesar de não ter deixado escritos, seus discursos foram registrados pelo aluno Lúcio e sua influência no estoicismo romano foi enorme.
- 00:41:39 — Filosofia tem que perturbar, nunca entreter Musônio proibia aplausos: se a plateia aplaude, o orador era músico, não filósofo. As palavras filosóficas verdadeiras devem provocar tremor, vergonha e reconhecimento das partes doentes da alma. O episódio conclui que as posições de Musônio são pessoais, não representativas de todo o estoicismo.
Indicações
Autores
- Marta Nussbaum — Autora contemporânea mencionada que se refere à posição de Musônio sobre mulheres como ‘feminismo incompleto’.
FilóSofos
- Epicteto — Discípulo mais famoso de Musônio Rufo, cujas obras preservam alguns ensinamentos do mestre.
- Sêneca — Contemporâneo de Musônio, também estoico romano, mas com visões diferentes em alguns aspectos como a riqueza.
- Diógenes de Sinope — Filósofo cínico citado como exemplo de como o exílio pode ser benéfico para o desenvolvimento filosófico.
- Zenão de Cítio — Fundador do estoicismo, citado por Musônio em relação à moderação no corte de cabelo.
Livros
- Filosofia para a Vida — Livro do apresentador mencionado no episódio, que busca resgatar a filosofia como terapia para a alma, abordando temas como amizades, medo da morte e sentido da vida.
Lugares
- Ilha de Giara — Local do primeiro exílio de Musônio, descrito como ilha isolada, deserta e praticamente sem água potável, também usada no século XX para exilar militantes de esquerda na Grécia.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução ao estoicismo prático de Musônio Rufo — O episódio apresenta Musônio Rufo como uma figura importante do estoicismo romano, menos conhecida que Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, mas com um enfoque ainda mais prático. Será explorado como ele abordava questões cotidianas como educação feminina, exílio, profissão, alimentação e aparência, oferecendo uma visão concreta da vida estoica.
- 00:05:51 — Biografia e contexto histórico de Musônio Rufo — Musônio Rufo nasceu por volta de 30 d.C. na Itália, foi contemporâneo de Jesus e Sêneca, e professor de Epicteto. Era um cavaleiro romano (segunda classe social mais alta) e foi exilado duas vezes por suas posições políticas - primeiro por Nero para a ilha desolada de Giara, e depois por Vespasiano. Sua fama era tamanha que Orígenes o colocou ao lado de Sócrates e Odisseu como exemplo de vida virtuosa.
- 00:09:24 — Fontes e características do pensamento de Musônio — Como Sócrates, Musônio não escreveu obras - seu pensamento chegou até nós através de registros de seu discípulo Lúcios e citações em outros autores, incluindo Epicteto. Seu método era socrático, respondendo perguntas dos alunos. Seu estoicismo enfatizava fortemente a aplicação prática da teoria filosófica, considerando que apenas aprender doutrinas era inútil sem interiorizá-las na vida cotidiana.
- 00:13:11 — Educação feminina e igualdade entre homens e mulheres — Musônio defendia que mulheres deveriam estudar filosofia tanto quanto homens, pois ambos possuem a mesma capacidade racional. Argumentava que a filosofia ajudaria as mulheres a se tornarem temperantes, corajosas e destemidas. Porém, seu feminismo tinha limites: via a filosofia como útil para que as mulheres fossem melhores administradoras do lar, não questionando seus papéis sociais tradicionais. Defendia educação idêntica para filhos e filhas, comparando com o treinamento igual de cães e cavalos machos e fêmeas.
- 00:19:00 — Reflexões sobre o exílio e a pátria universal — Baseado em suas duas experiências de exílio, Musônio reflete sobre o que realmente se perde quando se é exilado. Argumenta que não perdemos elementos essenciais como ar, água, sol ou a companhia de verdadeiros amigos. Citando Sócrates, afirma que o universo é a pátria universal de todos, portanto ninguém pode ser verdadeiramente desterrado. O exílio pode até ser benéfico, proporcionando tempo para filosofia e vida simples, como no caso de Diógenes de Sinope que se tornou filósofo através do exílio.
- 00:22:39 — A profissão adequada para um filósofo: agricultura e pastoreio — Musônio defendia que a profissão ideal para um filósofo era a agricultura ou pastoreio, não o ensino formal. Trabalhos manuais ao ar livre proporcionam tempo para reflexão e contato com a natureza, sendo mais saudáveis que a vida urbana ociosa. Ele argumentava que ver um filósofo trabalhando no campo, enfrentando dificuldades com seu próprio corpo, era uma lição mais valiosa do que ouvir palestras em salões. Referia-se a Exíodo (pastor) como exemplo de profissão honrosa.
- 00:28:55 — Sexo, casamento e família na visão estoica — Musônio tinha visões conservadoras sobre sexualidade: considerava legítimo apenas o sexo dentro do casamento com objetivo procriativo. Condenava o adultério e relações com escravas, comum na época romana, argumentando que se era inaceitável para mulheres, também deveria ser para homens. Defendia o casamento como natural e apropriado para filósofos, citando exemplos como Pitágoras e Sócrates. Considerava o amor conjugal a forma mais elevada de amor, superior até ao amor pelos filhos.
- 00:33:06 — Alimentação, autocontrole e vegetarianismo — Para Musônio, o autocontrole alimentar era fundamental para a temperança. Recomendava comidas simples e naturais como grãos, frutas, vegetais, leite, queijo e mel, preferindo alimentos que não requerem cozimento. Era vegetariano, considerando a carne comida de animais selvagens e prejudicial ao intelecto (‘as exalações derivadas da carne obscurecem a alma’). Criticava a busca excessiva de prazer na comida, antecipando críticas à ‘pornografia culinária’ moderna. Defendia comer para nutrir, não para obter prazer.
- 00:37:49 — Vestuário, aparência e moderação estética — Musônio recomendava roupas moderadas, funcionais como armaduras para proteger do frio e calor, sem luxo ou ostentação. Sugeria acostumar-se a andar descalço quando possível para maior liberdade. Sobre cabelos, defendia a moderação - nem muito longos nem muito curtos, citando Zenão que considerava cortar o cabelo tão natural quanto deixá-lo crescer. Criticava filósofos que usavam aparência distintiva (cabelos longos, roupas gastas) para serem reconhecidos publicamente.
- 00:40:37 — Conclusão: legado e método de Musônio Rufo — Musônio proibia aplausos em suas palestras, considerando que a plateia deveria reagir com tremor, vergonha, arrependimento ou admiração - não com prazer estético. Seu impacto foi grande apesar de não ter escrito obras. O episódio enfatiza que suas posições não representam todo o estoicismo (havia divergências, como Sêneca defendendo a riqueza para o sábio). O objetivo foi mais histórico que filosófico, ilustrando como um estoico romano vivia no cotidiano através de questões práticas ainda relevantes hoje.
Dados do Episódio
- Podcast: Filosofia Vermelha
- Autor: Glauber Ataide
- Categoria: Society & Culture Philosophy
- Publicado: 2025-11-10T09:00:00Z
- Duração: 00:44:44
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/filosofia-vermelha/dd38e8c0-673a-0138-a0de-0acc26574db2/o-estoicismo-de-mus%C3%B4nio-rufo/a761ad6e-a8e4-4b86-b039-51b1d218baaa
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Dados do Podcast
- Nome: Filosofia Vermelha
- Tipo: episodic
- Site: https://www.filosofiaepsicanalise.org/
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Transcrição
[00:00:00] Olá, amigos e amigas do Saber! Neste episódio de hoje, vamos apresentar o estoicismo prático
[00:00:08] de uma das principais figuras do período romano. Estamos falando de Caio Mussonio Rufo.
[00:00:16] Sempre que falamos sobre o estoicismo do período imperial, os três nomes geralmente abordados
[00:00:22] são Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio. Agora, eles não foram os únicos filósofos em atividade
[00:00:29] nesses séculos. É verdade que pouquíssimos textos dessa época chegaram até nós, mas
[00:00:36] há também filósofos menos conhecidos hoje que, naquele tempo, causaram grande impressão
[00:00:42] em seus contemporâneos. Veremos que Mussonio Rufo, tema do episódio de hoje, é um desses
[00:00:49] filósofos. Ele foi professor de ninguém menos que Epicteto, e seu estoicismo é ainda
[00:00:56] mais prático que os dos outros romanos. Veremos que Mussonio nos ensina sobre educar
[00:01:02] as mulheres, viver no exílio, escolher a profissão mais adequada para um filósofo,
[00:01:08] como se vestir, comer de forma adequada ou até mesmo cortar o cabelo. São questões
[00:01:15] interessantes que nos permitirão visualizar como era de fato um estoico romano em seu
[00:01:21] cotidiano. Então vamos lá, acompanhe. Antes de iniciar um breve recado, se você
[00:01:39] deseja uma introdução geral à filosofia ou gostaria de se aprofundar em temas específicos,
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[00:02:08] quando pensar é o melhor remédio, tem por objetivo resgatar uma forma de fazer filosofia
[00:02:14] essencial aos filósofos da antiguidade greco-romana, a filosofia como terapia para alma.
[00:02:21] Através da filosofia, podemos lidar com diversos dilemas e dificuldades da vida que nada possuem
[00:02:28] de patológico, sendo apenas parte do que significa ser humano. Por isso, abordamos na obra questões
[00:02:35] como as amizades, o medo da morte, o sentido da vida, a sensação de não pertencer a este mundo
[00:02:41] e diversas outras reflexões que podem abrir perspectivas na forma como encaramos a realidade
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[00:02:55] cidade ou através de inúmeros sites, inclusive na Amazon. Verifique o link na descrição deste
[00:03:01] episódio. Voltemos então ao nosso tema, o estoicismo prático de Mussonio Rufo.
[00:03:08] Você provavelmente nunca ouviu falar sobre Mussonio Rufo. Até onde eu saiba, não há edições de seus
[00:03:17] textos no Brasil, exceto traduções de pequenos trechos em revistas acadêmicas. O material que
[00:03:25] vamos abordar hoje é de grande valor não apenas devido aos méritos do próprio conteúdo em si,
[00:03:32] mas também pela raridade do tema. Veja, o estoicismo de Mussonio Rufo é essencialmente
[00:03:41] prático. Esta é uma característica geral dos pensadores do período romano, tais como Sêneca,
[00:03:47] Epicteto e Marcorelio. Mas essa característica aparece de forma ainda mais nítida nos ensinamentos
[00:03:55] de Mussonio. Nós devemos advertir antes de tudo que as lições apresentadas neste episódio
[00:04:03] devem ser compreendidas unicamente como a perspectiva de Mussonio e não do estoicismo de
[00:04:10] forma geral. Veramos que ele é polêmico em algumas questões, mas ele não representa a
[00:04:17] totalidade do estoicismo. Nós precisamos também ter em mente que o estoicismo,
[00:04:23] enquanto escola filosófica grega, é muito mais profundo e sofisticado do que as lições práticas
[00:04:31] e moralizantes de Mussonio, as quais se assemelham mais a uma sabedoria de vida do que propriamente a
[00:04:38] uma filosofia. Havia divergências dentro da escola estoica, de modo que nem todos os
[00:04:45] filósofos compartilhavam das mesmas posições, algo que devemos sempre terem vista a fim de
[00:04:51] visitar, generalizar determinada posição de Mussonio como se fosse representante dessa
[00:04:58] escola filosófica que durou cerca de cinco séculos e influenciou duas grandes civilizações da
[00:05:04] antiguidade, a grega e a romana. As lições de Mussonio que vamos apresentar possuem, para nós,
[00:05:11] um interesse mais histórico do que propriamente filosófico. Afinal, neste episódio, nós não
[00:05:19] vamos discutir conceitos e argumentar como é característico de um filósofo, mas nós
[00:05:26] vamos apenas apresentar as posições de Mussonio a fim de ter uma imagem mais clara e nítida de
[00:05:32] como realmente eram os filósofos estoicos romanos em suas vidas cotidianas, como eles se vestiam,
[00:05:39] se alimentavam, se possuíam família, com que tipo de trabalho ganhavam a vida, entre outras coisas.
[00:05:46] Vamos apresentar, então, inicialmente, uma breve biografia de Mussonio Rufo.
[00:05:51] Caio Mussonio Rufo foi um dos filósofos mais influentes de seu tempo. Uma de suas principais
[00:05:58] características consistia em subverter valores e crenças comuns de sua época, como veremos,
[00:06:05] por exemplo, em sua apreciação sobre as mulheres. Mussonio nasceu por volta do ano 30 d.C. na atual
[00:06:14] cidade de Volcinius, na Itália. Isso significa que ele foi contemporâneo do próprio Jesus Cristo e
[00:06:22] também de Sêneca. Além de ter sido professor do famoso filósofo histórico Epicteto, sua fama na
[00:06:29] antiguidade é atestada até mesmo por Orígenes, filósofo neoplatônico e um dos pais da igreja.
[00:06:36] Em sua obra Contra Celso, Orígenes elenca alguns nomes considerados por ele, Orígenes,
[00:06:44] como exemplos da melhor forma de viver a vida, e ele inclui Odisseu, Sócrates e Mussonio Rufo.
[00:06:52] Vejam só, gente, na antiguidade, ser colocado dessa maneira ao lado de Sócrates era uma das
[00:07:00] maiores honras que alguém poderia receber, o que nos revela a fama e a alta estima com que
[00:07:07] Mussonio ainda era considerado na década de 240 d.C., período em que a obra Contra Celso,
[00:07:15] de Orígenes, foi redigida. Mussonio era um cavaleiro romano. Agora, isso não deve ser
[00:07:22] compreendido no sentido medieval de cavaleiro, mas quer dizer apenas que ele pertencia à segunda
[00:07:30] democracia social mais alta de Roma. Engajado politicamente, Mussonio combatia ativamente o
[00:07:38] que ele considerava vícios na política, o que acabou lhe custando o exílio por duas oportunidades.
[00:07:45] Mussonio floresceu ou alcançou seu ápice enquanto filósofo no período de Nero. Ele
[00:07:55] recentemente se envolveu com personalidades consideradas inimigas pelo Imperador Romano e
[00:08:02] isso acabou lhe causando o primeiro de seus exílios no ano 65 d.C., exílio para a ilha de Giara na
[00:08:11] Grécia. Mas vejam, este era um dos piores lugares para ser exilado, e isso na opinião de Sêneca,
[00:08:19] também conhecia o local. Era uma ilha isolada, deserta, pedregosa e praticamente sem água
[00:08:28] potável. E essa ilha, inclusive, foi caracterizada na Antiguidade pelo geógrafo grego Estrabão como
[00:08:35] imprestável. Hoje em dia, esta ilha é inabitada. Mas ainda no século 20, ela foi utilizada pelo
[00:08:45] grego para exilar militantes de esquerda que lutavam contra a ditadura entre 1948 e 1974.
[00:08:55] Agora, na Roma antiga, depois da morte de Nero, Mussonio então retornou para Roma. Mas depois de
[00:09:03] pouco tempo, no entanto, o Imperador Vespasiano baniu todos os filósofos de Roma e isso causou
[00:09:10] o segundo exílio de Mussonio. Ele veio a falecer por volta do ano 100 d.C.
[00:09:17] Vamos falar agora sobre o pensamento de Mussonio Rufo de forma geral, antes de entrar em temas
[00:09:24] mais específicos. Vejam, o pensamento de Mussonio foi transmitido através de seus discípulos. Assim
[00:09:33] como Sócrates, ele aparentemente não escreveu obra alguma, de modo que temos acesso hoje ao
[00:09:39] pensamento através de dois tipos de fontes. Por um lado, uma série de aulas ou palestras
[00:09:46] registradas em grego por um discípulo chamado Lúcios. E por outro, fragmentos preservados nas
[00:09:54] obras de outros autores, entre os quais alguns trechos atribuídos a Epicteto, talvez o maior
[00:10:01] de seus discípulos. Através das palestras registradas por Lúcios, temos a impressão de
[00:10:08] que Mussonio conduzia suas aulas ao estilo Sócrático, respondendo às perguntas de seus
[00:10:14] alunos, porque o Lúcios sempre inicia seus textos dizendo que o seu mestre respondeu assim assado
[00:10:22] ao ser questionado sobre determinado tópico. Agora, o que mais interessa a Mussonio é a
[00:10:29] aplicação da teoria à prática. Nós já mencionamos que essa é uma característica comum a todos os
[00:10:36] alunos romanos, mas isso aparece de maneira ainda mais acentuada em Mussonio. Apenas aprender
[00:10:44] doutrinas filosóficas e ouvir palestras é de pouca utilidade até que possamos interiorizar
[00:10:51] estes ensinamentos e aplicá-los em nossa vida cotidiana. Mussonio afirma que a filosofia não
[00:10:58] é nada mais que a busca racional do que é certo e apropriado, buscando aplicá-lo através de atos
[00:11:07] na prática. Esta ênfase no aspecto ético do estoicismo pode ser identificada até mesmo nas
[00:11:16] estruturas das aulas de Mussonio, as quais parecem seguir o esquema das chamadas quatro virtudes
[00:11:24] a saber racionalidade, justiça, coragem e temperança. Os textos escritos pelo discípulo Lúcios,
[00:11:33] que é a nossa principal fonte de informação sobre Mussonio, deixam transparecer uma filosofia muito
[00:11:41] simples, mas nós devemos sempre ter em mente que estes registros não são do próprio Mussonio.
[00:11:49] Porque, vejam só, de maneira análoga, imagine se tudo que soubéssemos sobre Sócrates viesse apenas
[00:11:57] dos escritos de Xenofonte, outro de seus discípulos. Bom, nós teríamos hoje uma imagem completamente
[00:12:04] distorcida e desfavorável do filósofo grego, muito diferente daquela alegada por Platão. Então,
[00:12:13] quando discípulos escrevem sobre seus mestres, nós devemos então levar em conta que as limitações
[00:12:20] que encontramos nas obras se devem provavelmente mais aos discípulos do que aos próprios mestres.
[00:12:27] Agora, a lógica, uma das principais disciplinas estoicas, ainda mantém seu interesse para Mussonio.
[00:12:34] Nossa razão deve ser treinada para distinguir entre o bem aparente e o verdadeiro bem, de um lado,
[00:12:42] e o mal aparente e o verdadeiro mal, por outro. Ao desenvolver então nossas habilidades lógicas e
[00:12:49] racionais, nós conseguimos também distinguir entre as coisas e os pensamentos que temos sobre
[00:12:57] essas coisas, o que nos leva a nos ocupar apenas daquilo que está de fato em nosso poder mudar.
[00:13:04] Vamos começar a abordar agora alguns dos temas específicos que encontramos no pensamento de
[00:13:11] Mussonio Ruffo. Vamos iniciar falando sobre as mulheres e o estudo da filosofia. Porque vejam,
[00:13:18] Mussonio Ruffo defendia uma espécie de feminismo surpreendente para sua época. Algumas de suas
[00:13:28] afirmações sobre as mulheres e seus direitos podem parecer óbvias para nós hoje, tendo em vista,
[00:13:35] segundo os grandes avanços do movimento feminista nos últimos séculos. Autoras como Marta Nussbaum
[00:13:42] se referem à posição de Mussonio como um feminismo incompleto, mas veremos que defender
[00:13:50] tais ideias naquela época era algo que hoje chamamos de muito progressista. Mussonio vai
[00:13:58] desenvolver as implicações práticas da igualdade universal de todos os seres humanos,
[00:14:04] que era defendida já pelos estoicos. Em um texto intitulado que também as mulheres devem estudar
[00:14:12] filosofia, ele afirma que as mulheres, assim como os homens, também receberam dos deuses o dom da
[00:14:20] razão, a qual usamos em nossas relações uns com os outros e pela qual julgamos se uma coisa é boa
[00:14:26] ou está certa ou errada. Então, se as mulheres são iguais aos homens em tudo, por que seria
[00:14:35] apropriado a eles estudarem os meios de alcançar uma boa vida, ou seja, estudar filosofia? Mas não
[00:14:42] seria apropriado às mulheres. Se a filosofia é o uso da razão para alcançar a boa vida através de
[00:14:50] algo virtuosa, também as mulheres devem se ocupar de filosofia a fim de se tornarem temperantes,
[00:14:58] corajosas e destemidas diante da morte, por exemplo. Agora, Mussonio afirma, no entanto,
[00:15:12] que a filosofia pode ajudar a mulher a se tornar uma melhor administradora da casa.
[00:15:19] Este é um dos pontos em que, de nossa perspectiva hoje, seu feminismo encontra limites, porque
[00:15:25] atualmente consideramos que as mulheres podem e devem ocupar absolutamente qualquer posição
[00:15:32] ocupada por homens, seja na política, no exército ou em qualquer outra área. Mussonio não questiona o
[00:15:41] papel da mulher na sociedade romana, argumentando de uma maneira um tanto utilitária sobre os
[00:15:47] benefícios da filosofia no exercício de suas funções de gerente da casa e de seus escravos.
[00:15:54] Agora, a igualdade entre homens e mulheres deve começar desde cedo. Em um texto intitulado
[00:16:02] Devem as filhas receber a mesma educação que os filhos? Mussonio recorre à natureza e nos lembra
[00:16:11] Treinadores de cavalos e cães não fazem distinção alguma entre macho e fêmea. Cadelas são
[00:16:19] ensinadas a caçar da mesma forma que os cães machos e ninguém percebe diferença alguma na
[00:16:25] forma com que éguas e cavalos são treinados. Agora, no caso dos seres humanos, existe a opinião de
[00:16:33] que seria necessário educar mulheres e homens de forma distinta, como se não fosse essencial que
[00:16:40] homens possuíssem as mesmas virtudes. Mussonio afirma que não há, não existe um conjunto de
[00:16:49] virtudes específicos para homens e outro distinto apenas para mulheres. Não, Mussonio é da posição
[00:16:57] de que tanto homens quanto mulheres precisam desenvolver o mesmo grau de razão, viver de
[00:17:05] possuir autocontrole e também coragem. Mussonio conclui então que se homens e mulheres nascem com
[00:17:14] as mesmas virtudes, ambos devem receber o mesmo tipo de educação. Agora, claro que há diferenças
[00:17:22] físicas entre homens e mulheres. Mussonio leva em consideração o fato de que homens geralmente
[00:17:29] têm mais força física que mulheres e que, por isso, algumas tarefas devem ser atribuídas
[00:17:35] respeitando a natureza de cada um. Então, vejam, atividades mais pesadas devem ser dadas aos mais
[00:17:43] fortes e as mais leves aos mais fracos, de modo que costurar, por exemplo, seria mais apropriado
[00:17:50] a mulheres na sociedade romana. Agora, vejam só que interessante, Mussonio pensa que isso não impede,
[00:17:58] tanto que, ocasionalmente, a questão possa se inverter e que as mulheres possam desenvolver
[00:18:05] trabalhos mais pesados geralmente atribuídos aos homens. Segundo Mussonio, todas as tarefas
[00:18:12] humanas são uma obrigação comum a homens e mulheres, não sendo exclusividade de nenhum
[00:18:20] dos gêneros. Percebe então que a divisão de tarefas diz respeito mais a questões práticas
[00:18:26] de uma adequação do tipo de tarefa à natureza de cada um do que a uma defesa sexista baseada em
[00:18:36] uma suposta diferença natural entre ambos. Então, a mulher, assim como o homem, tem que estar
[00:18:43] preparada para enfrentar situações de dificuldade na vida e não temer a morte. Então, homens e
[00:18:51] mulheres, filhas e filhos devem receber a mesma educação. Vamos abordar agora outro tema tratado
[00:19:00] por Mussonio Rufo, que é o exílio. Vejam, nós mencionamos anteriormente que Mussonio foi exilado
[00:19:07] por duas vezes. Essas ocasiões lideram a oportunidade de refletir sobre a questão do exílio, a qual serve
[00:19:15] apenas para o tipo de exílio político enfrentado pelo filósofo, mas também a qualquer situação em
[00:19:23] que nos vemos privados de nossa cidade ou país. Então, se você mora hoje em uma cidade ou país
[00:19:30] diferente daquele em que nasceu ou construiu a maior parte de sua vida, esta reflexão também é para
[00:19:38] Mussonio se pergunta, em primeiro lugar, do que estamos privados quando em exílio? Ele se pergunta,
[00:19:46] olha, por acaso nós estamos sem água, terra, ar, o sol, os outros planetas, ou então estamos privados
[00:19:55] da companhia de outros seres humanos? Então, vejam, o que há de tão terrível em estarmos separados de
[00:20:03] certa parte do planeta e da companhia de certas pessoas? Qual o problema se, quando estávamos em
[00:20:12] casa, nós também não tínhamos contato com a Terra inteira e nem com todos os seres humanos?
[00:20:18] Mussonio afirma que, mesmo em exílio, nós podemos nos associar aos nossos amigos. Se consideramos que
[00:20:27] nós somos aqueles que nunca nos abandonam ou nos traem, nós podemos encontrá-los mesmo longe de
[00:20:33] casa, ao contrário de alguns que existem mesmo em nossa cidade. Mussonio cita Sócrates quando este
[00:20:41] afirma que o universo é a pátria universal de todos os seres humanos, de modo que ninguém pode
[00:20:49] ser espatriado apenas por estar exilado de determinada cidade. Ele explicita este ponto fazendo a seguinte
[00:20:59] analogia. Assim como seria Tolo, um homem que chorasse e se lamentasse apenas por morar em uma casa diferente
[00:21:07] daquela em que nasceu, mesmo sendo essa casa no próprio país, da mesma forma também é estúpido
[00:21:14] qualquer um que se considera um desgraçado apenas por estar morando em uma cidade diferente daquela
[00:21:21] em que veio a luz. Agora, ainda mais importante é o fato de o exílio não nos impedir de sermos virtuosos.
[00:21:30] Viver em uma cidade ou país diferente não é empecilho algum para o desenvolvimento da única coisa
[00:21:38] que normalmente nos pertence, isso é, nossa virtude. Na verdade, é até mesmo o contrário. O exílio
[00:21:46] contribui para tal objetivo porque ele nos fornece tempo livre e uma oportunidade ainda maior para
[00:21:54] aprender o bem e o praticar. Em alguns casos, o exílio foi até mesmo uma bênção, como no caso do
[00:22:02] filosófico cínico Diógenes de Sinope, porque foi através do exílio que Diógenes deixou de ser um
[00:22:10] cidadão comum e se tornou um filósofo. O exílio pode também nos forçar a viver de maneira mais
[00:22:16] simples, tornando-nos até mesmo mais saudáveis. O exílio não priva ninguém dos verdadeiros bens,
[00:22:24] mas apenas dos bens aparentes. Por isso, a filosofia estoica insiste no uso da razão para
[00:22:32] diferenciar os bens aparentes do verdadeiro bem. Outra questão prática bem interessante discutida
[00:22:39] por Mussonio diz respeito à profissão do filósofo. Porque vejam só, hoje em dia a profissão de
[00:22:49] ser a única possível alguém formado em filosofia. Se o indivíduo escolhe fazer graduação em
[00:22:56] filosofia para depois trabalhar na área, pensamos que seu único destino é ganhar a vida enquanto
[00:23:03] funcionário de uma escola, seja ela pública ou privada. Se quiser dar aulas em faculdades e
[00:23:10] universidades, o graduado em filosofia continua seus estudos a nível de mestrado e doutorado para
[00:23:16] um teste de cargo e um salário melhor, mas ainda assim como professor. Agora, Mussonio pensava que
[00:23:23] o filósofo deveria se sustentar de outra maneira. No texto intitulado Quais meios de vida são
[00:23:30] apropriados para um filósofo, ele afirma que o filósofo deve trabalhar na agricultura, seja ele
[00:23:38] dono da terra ou não. Ele observa que em sua época muitos eram capazes de sustentar a si
[00:23:46] mesmo e também sua família através do trabalho na terra, fosse ela de propriedade do estado ou de
[00:23:53] indivíduos privados. Alguns alcançavam até mesmo um alto grau de prosperidade trabalhando com suas
[00:24:00] próprias mãos porque, ele dizia, a terra recompensa bem e de forma justa aqueles que
[00:24:07] lhe cultivam sem violar a dignidade ou o auto respeito de ninguém. Ele diz também, olha,
[00:24:14] apenas um indivíduo já desmoralizado diria que o trabalho de um agricultor é degradante ou impróprio
[00:24:21] para um homem bom, porque vejam como não poderia ser honrado o ato de plantar árvores. Então recorrendo
[00:24:31] a história, Mussonio nos lembra que Exíodo era pastor de ovelhas e que isso não o desonrou e nem
[00:24:39] pediu de ser poeta e amado pelos deuses. Agora a pergunta é a seguinte, o que tornaria essas
[00:24:46] profissões adequadas a um filósofo? Por que ser pastor de ovelhas ou agricultor seria apropriado
[00:24:55] àqueles que se dedicam à filosofia? Uma das razões apresentadas por Mussonio é que tais
[00:25:01] atividades nos proporcionam mais tempo livre para refletir e investigar as coisas relacionadas ao
[00:25:09] nosso próprio desenvolvimento. Aquelas ocupações que esgotam nosso corpo forçam também a mente a
[00:25:17] se concentrar sobre elas, ou pelo menos sobre o próprio corpo cansado. Agora por outro lado,
[00:25:24] ocupações mais leves para o corpo oferecem maior liberdade para refletir sobre as coisas mais altas
[00:25:32] e também aumentar sua própria sabedoria. Então, sendo este o objetivo de todo filósofo,
[00:25:38] Mussonio recomenda então que o filósofo seja pastor, mas também arar a terra e tirar dela
[00:25:46] o seu sustento significa viver de acordo com a natureza. Para Mussonio, ter um trabalho ao ar
[00:25:52] livre é muito mais apropriado ao ser humano do que se sentar indolentemente pelas cidades,
[00:25:59] tal como faziam os sofistas. Afinal, quem negaria que é mais saudável viver ao ar livre do que
[00:26:07] evitando o calor do sol? Mas alguém poderia objetar que o filósofo estaria assim desperdiçando o seu
[00:26:15] conhecimento. Se ele tem formação suficiente para influenciar os jovens no caminho da virtude,
[00:26:21] por que então se dedicar a um trabalho manual como qualquer outro camponês?
[00:26:26] Mussonio concorda parcialmente com tal objeção e afirma que, de fato, seria realmente lamentável
[00:26:33] se esse tipo de trabalho de fato atrapalhasse o filósofo em sua atividade filosófica ou então o
[00:26:40] previnisse de ajudar os outros neste objetivo. Agora, se isso não acontece, os alunos serão
[00:26:48] mais beneficiados ao ver seu mestre filósofo trabalhando e aplicando os princípios da
[00:26:55] filosofia na prática em vez de apenas ouvi-lo na cidade e em palestras formais. O aluno veria
[00:27:02] então o filósofo trabalhando no campo, enfrentando a dureza da vida e as dores do trabalho com seu
[00:27:08] próprio corpo e não dependendo de outras pessoas para o seu sustento. Isso seria uma lição
[00:27:15] filosófica muito mais valiosa do que o mero ouvir aulas em um salão. O estudante é perfeitamente
[00:27:23] capaz de trabalhar e ao mesmo tempo escutar seu mestre falando sobre autocontrole, justiça e
[00:27:31] resistência. Então, para Mussonio, ganhar a vida através da agricultura, do contato direto com a
[00:27:38] terra, é a forma mais apropriada para um filósofo. Observe que tal conselho nos revela também como a
[00:27:47] filosofia era vista naquele contexto. Porque o exercício da filosofia não requeria livros,
[00:27:54] discussões ou público, mas apenas um mestre, um pupilo e uso adequado da razão. A filosofia
[00:28:02] então não era compreendida apenas no sentido profissional, mas designava às vezes apenas um
[00:28:09] certo conjunto de crenças para orientar a vida, fosse na política ou em uma vida retirada.
[00:28:15] Mas e hoje, cerca de dois mil anos depois, como nos apropriar desta reflexão de Mussonio? Qual
[00:28:24] deveria ser o trabalho daqueles que se dedicam à filosofia? Se pensarmos nos princípios que
[00:28:30] motivaram sua escolha da agricultura ou do pastorio como mais adequado ao filósofo,
[00:28:35] que profissões seriam mais apropriadas aos filósofos hoje em dia em um contexto urbano?
[00:28:42] Alguém que se forma em filosofia deve ser necessariamente professor em uma escola?
[00:28:49] Vamos avançando então para outro tópico discutido por Mussonio Rulfo, a saber, sexo,
[00:28:55] casamento e família.
[00:29:05] Veja, nós mencionamos anteriormente que Mussonio era admirado por Orígenes,
[00:29:10] dos pais da igreja. Isso parece fazer todo sentido diante de algumas posições do
[00:29:16] filósofo romano sobre sexo, casamento e família. Embora suas posições soem conservadoras e
[00:29:24] religiosas aos nossos ouvidos hoje, nós devemos lembrar antes de tudo que elas vieram de um
[00:29:31] contexto romano, pagão e filosófico. Vejamos o caso do sexo, por exemplo.
[00:29:38] Mussonio se coloca contra toda forma de excessos sexuais e aluxúria, afirmando que os homens
[00:29:46] devem considerar legítimo o ato sexual apenas quando ele ocorre dentro do casamento e com o
[00:29:54] objetivo de gerar filhos, algo que poucos conservadores religiosos ainda defendem
[00:30:00] hoje em dia. Agora, ainda pior para Mussonio é o adultério, o qual deriva da falta de autocontrole.
[00:30:07] Nós devemos lembrar que o autocontrole é um dos principais objetivos de um estoico,
[00:30:14] de modo que qualquer ação motivada por falta dessa virtude aponta para um problema ainda mais
[00:30:21] fundamental no indivíduo. Mussonio afirma que o indivíduo que possui autocontrole jamais pensaria
[00:30:30] ter relações sexuais com uma cortesã ou uma mulher livre fora de um casamento, nem mesmo com
[00:30:36] uma empregada de sua casa. É que na época de Mussonio, ter relações com suas escravas era algo
[00:30:43] aceito e até mesmo considerado normal por muitos. O filósofo estoico menciona tal fato e se posiciona
[00:30:51] contra. Ele pergunta seus adversários o que eles pensariam se uma mulher romana fizesse sexo com
[00:30:59] seus escravos. Se eles consideravam intolerável uma mulher casada, tendo relações sexuais com
[00:31:07] os escravos de sua casa, o mesmo se aplicaria aos homens, porque ninguém espera que os homens
[00:31:14] sejam menos morais que as mulheres ou menos capazes de dominar seus desejos. Então ele diz, olha,
[00:31:21] se os homens querem de fato ser melhores que as mulheres, eles deveriam começar exercendo um
[00:31:28] autocontrole. Mais uma vez vejam só como Mussonio se mostra um feminista em sua época.
[00:31:35] Mussonio se pergunta também se o filósofo deve se casar. Porque veja, desde Sócrates os filósofos
[00:31:43] mostram grande resistência ao casamento, tendo em vista a péssima experiência do mestre de Platão.
[00:31:51] Então o fantasma do casamento assombrou os filósofos por muitos séculos, ganhando ainda
[00:31:57] mais força no período medieval, quando os filósofos geralmente eram também teólogos,
[00:32:03] monges e padres. Então também nessa questão, Mussonio Rufo surpreende, afirmando que o
[00:32:11] casamento é de acordo com a natureza e não constitui empecilho algum para a filosofia.
[00:32:18] E para sustentar seu argumento, ele recorre aos exemplos de Pitágoras, Sócrates e diversos outros
[00:32:25] filósofos que foram casados. Mas estranhamente, Mussonio não vai mencionar os motivos que levaram
[00:32:31] diversos outros pensadores a considerarem o casamento inapropriado a quem busca a sabedoria.
[00:32:38] Mussonio chega a afirmar que quem destrói o casamento destrói a casa, a família e a raça
[00:32:45] humana inteira. O amor de um homem e uma mulher para Mussonio é a forma mais alta de amor,
[00:32:52] superando até mesmo o amor pelos filhos. Sua conclusão então é que casar e ter filhos é
[00:33:00] sim apropriado aos filósofos. Outro tema muito interessante tratado por Mussonio,
[00:33:06] e ainda muito atual obviamente, é sobre comer e beber. Porque veja, quanto a comida e bebida,
[00:33:15] o autocontrole desempenha mais uma vez papel fundamental. Mussonio acreditava que o início
[00:33:22] e a base da temperança se encontravam no autocontrole em relação ao comer e beber.
[00:33:29] Ele dizia que o filósofo deve preferir comidas simples e naturais oriundas da terra, tais como
[00:33:37] os grãos, assim como aquelas oriundas de animais domesticados, exceto carne. Então, dentre essas,
[00:33:47] devemos preferir as comidas que podem ser consumidas imediatamente sem o uso do fogo,
[00:33:54] tais como os frutos da estação, vegetais, leite, queijo e mel. Mas as comidas que precisam de fogo
[00:34:02] também são apropriadas e naturais ao ser humano. É melhor sem fogo, mas se tiver que passar a comida
[00:34:09] de fogo, também está tudo certo. Agora, Mussonio se posiciona contra o consumo de carne,
[00:34:16] revelando-se vegetariano. Ele afirma que a carne é um tipo menos civilizado de comida, sendo mais
[00:34:25] apropriada para animais selvagens. Há também um motivo prático para o filósofo evitar carne,
[00:34:31] porque a carne seria uma comida pesada e um obstáculo ao pensar. Ele diz que as exalações
[00:34:39] derivadas da carne obscurecem a alma. Mussonio de fato acreditava que indivíduos que comem muita
[00:34:46] carne possuem um intelecto mais lento. Agora, Mussonio também condena a busca do prazer no
[00:34:55] ato de comer. Ele afirma que em sua época, assim como havia livros sobre medicina e música,
[00:35:01] estavam surgindo livros também sobre culinária, os quais tinham o objetivo de aumentar o prazer
[00:35:09] no ato de comer, mesmo que isso trouxesse prejuízos à saúde. Então, trazendo a reflexão para a nossa
[00:35:16] época, o que não diríamos Mussonio ao perceber como estas questões se manifestam de forma ainda
[00:35:23] mais acentuada hoje? Atualmente, existem milhares, talvez milhões de perfis de food porn ou pornografia
[00:35:32] culinária, os quais buscam seduzir os usuários de redes sociais através de imagens e gerar
[00:35:39] desejos exagerados sobre uma necessidade natural básica, que é o comer. Mussonio também observava
[00:35:47] que aqueles luxuriosos intemperantes na alimentação possuem uma saúde muito pior do que aqueles que
[00:35:56] exercem autocontrole. O indivíduo virtuoso não deve ser mais delicado que um escravo. Mussonio
[00:36:04] sabe que o prazer no comer é um dos mais difíceis de ser combatido, requerendo muita atenção e
[00:36:12] prática. Nos deparamos com outros prazeres na vida de forma muito menos frequente, mas nós
[00:36:18] precisamos nos alimentar várias vezes por dia, de modo que o prazer mais recorrente com que nos
[00:36:25] deparamos encontra-se no comer e beber. Este é o nosso principal campo de batalha pela virtude
[00:36:33] do autocontrole, o qual eu pessoalmente tenho utilizado para tentar melhorar a mim mesmo através
[00:36:40] da filosofia estoica. Eu tenho buscado cada vez mais a simplicidade na alimentação, de modo que
[00:36:46] meu café da tarde é, muitas vezes, apenas pão seco, sem manteiga ou qualquer outro tipo de
[00:36:53] complemento e uma xícara de café. Para Mussonio, a comida deve ser escolhida para nutrir, não para
[00:37:01] fazer prazer. Ele afirma que nossa garganta foi projetada para ser uma passagem para comida,
[00:37:08] não para ser um órgão de prazer, e que nosso estômago foi feito com o mesmo propósito que as
[00:37:14] raízes das plantas. Assim como a raiz nutre a planta retirando comida do mundo externo,
[00:37:20] também o estômago nutre os seres vivos com a comida que é levada até ele. E de forma semelhante,
[00:37:27] assim como as plantas recebem nutrientes para que sobrevivam, também para nós a comida deve ser
[00:37:34] um remédio para a vida. Mussonio conclui então que devemos comer para viver, não para obter
[00:37:42] prazer. E por último, vamos abordar a posição de Mussonio sobre vestuário e corte de cabelo.
[00:37:49] Para o filósofo romano, nossas roupas devem ser moderadas, nem caras, nem supérfluos,
[00:37:57] com o único objetivo de servir como uma armadura e proteger o corpo. Assim como as melhores armas
[00:38:05] são aquelas que melhor protegem seu portador, também a melhor roupa é aquela que se mostra mais
[00:38:12] distinto para o corpo e para os pés, em vez de atrair olhares curiosos e invejosos para si.
[00:38:19] Agora, as roupas devem nos proteger do frio e do calor, mas não tanto. Mussonio afirma ser
[00:38:27] necessário experimentar o frio do inverno e o calor do verão até certo ponto, buscando se abrigar
[00:38:35] na sombra o mínimo possível. Nós também devemos nos acostumar a andar descalços sempre que possível,
[00:38:42] isso nos proporciona maior liberdade. Eu tenho um vizinho, por exemplo, que tem por prática andar
[00:38:49] descalço na grama todos os dias no mesmo horário. Todos os dias de verão, quando é possível andar
[00:38:56] descalço lá fora, eu vejo este vizinho dando inúmeras voltas pela grama descalço por vários
[00:39:04] minutos ouvindo um rádio de pilhas. Dizem que este contato direto de nossa pele com a natureza
[00:39:11] ajuda até mesmo a aliviar o estresse. Agora, no que diz respeito ao corte de cabelo, Mussonio
[00:39:19] recomenda a moderação. Vejam só que interessante, naquela época era comum aos filósofos usar roupas
[00:39:27] gastas e ter cabelos longos, de modo que era possível reconhecê-los nas ruas pela forma como
[00:39:34] se vestiam e pelo tamanho de seus cabelos. Neste sentido, eu também me aproximo destes filósofos
[00:39:40] porque desde os 20 anos de idade eu tenho cabelos longos. Antigamente meus cabelos eram volumosos e
[00:39:48] batiam quase em minha cintura, mas hoje, tendo mais que o dobro daquela idade, meus cabelos se
[00:39:55] tornaram bem menos volumosos e mais curtos, mas ainda longos, como um filósofo da antiguidade ou
[00:40:02] talvez um pouco mais longo que o cabelo deles. Agora, para Mussonio, no entanto, o cabelo deveria
[00:40:09] ser cortado de tal forma que não se torne um fardo para o indivíduo, e nisso ele cita o filósofo
[00:40:16] grego Zenão, para quem cortar o cabelo era tão natural quanto deixá-lo crescer. Então vejam só,
[00:40:23] o filósofo Zenão era dessa posição, cortar o cabelo é tão natural quanto deixá-lo crescer.
[00:40:30] Vamos encaminhando então para a conclusão deste longo episódio de hoje e o que podemos dizer à
[00:40:37] conclusão. Mussonio Rufo teve grande influência em sua época. Ele foi um dos grandes mestres do
[00:40:45] estoicismo romano e, embora muito provavelmente não tenha escrito nada, seus discursos foram
[00:40:51] impactantes o suficiente para serem registrados por seu aluno Lúcio e citados em obras de diversos
[00:40:58] outros escritores da antiguidade. Sua habilidade oratória deve ter sido imensa, mas ele proibia
[00:41:06] os aplausos em suas palestras. Ele dizia o seguinte, olha, que se um filósofo estivesse
[00:41:13] exortando, persuadindo alguém ou discutindo algum tópico filosófico e a platéia fosse seduzida
[00:41:21] pelo charme de suas palavras ou pelo ritmo de suas frases, tanto o orador quanto o público estavam
[00:41:28] perdendo seu tempo. Isso seria sinal de que eles estavam ouvindo não um filósofo falando,
[00:41:34] mas um músico tocando flauta. A mente de um indivíduo não tem prazer ou tempo para elogios ao ouvir
[00:41:43] um filósofo dizendo coisas úteis e fornecendo remédios para suas faltas e erros. Ao ouvir as
[00:41:50] palavras do filósofo, o ouvinte tem que tremer e se sentir envergonhado e arrependido em seu íntimo,
[00:41:58] assim como também sentir alegria e admiração quando o filósofo tocar seu reconhecimento da
[00:42:05] parte de sua alma que está sã e aquela que está doente. Agora, as posições de Mussonio não
[00:42:13] representam todo o estoicismo. É importante ressaltar mais uma vez que os filósofos estoicos não
[00:42:22] acordam todos uns com os outros, de modo que, se alguns condenam a riqueza, por exemplo, nós temos
[00:42:29] um cênica que era muito rico e defendia o direito do sábio a possuir uma fortuna, desde que a situação
[00:42:36] não fosse o contrário e as riquezas possuíssem o filósofo. Então, como afirmamos no início deste
[00:42:43] episódio, nosso objetivo ao apresentar algumas ideias de Mussonio Rufo foi mais histórico do que
[00:42:51] filosófico, fornecendo uma ilustração viva e rara de como um verdadeiro filósofo estoico romano
[00:42:58] conduzia sua vida cotidiana em atividades tão comuns também a nós hoje, tais como comer, beber,
[00:43:05] trabalhar, fazer sexo, morar em outra cidade, vestir ou cortar o cabelo. E lembrando mais uma
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