#21 - A cultura do exagero sem fim


Resumo

O episódio inicia com uma provocação sobre a “inflação das palavras” na comunicação contemporânea, onde tudo precisa ser descrito como “potente”, “épico”, “transformador” ou “imperdível”. Os participantes discutem como essa necessidade desesperada de criar urgência e importância, especialmente nas redes sociais e no marketing, acaba esvaziando o significado real das palavras e dificultando nossa capacidade de distinguir o que é genuinamente relevante.

A conversa se aprofunda com a contribuição da linguista Jana Biscardi, que analisa como palavras como “empoderamento” foram banalizadas e como a língua se transforma na velocidade das redes. O debate se expande para o impacto das inteligências artificiais generativas, como o ChatGPT, na comunicação. Jana explica o conceito de “papagaio estocástico” e alerta para os perigos da desinformação, do “alucinamento” das IAs e de como essas ferramentas, ao serem empurradas como soluções para “ganhar tempo”, podem corroer práticas fundamentais como a leitura e a escrita crítica, além de reforçar visões de mundo hegemônicas.

Os participantes também exploram como a lógica do clickbait e a disputa por atenção moldam o jornalismo digital, com manchetes sensacionalistas e a atomização da informação. Discutem a relação utilitarista com o conhecimento, onde a educação e a leitura são frequentemente vistas apenas como meios para um fim (nota, diploma, emprego), em detrimento do prazer e da expansão da imaginação. A conversa aborda ainda a linguagem não-binária como uma arena de disputa política e social, enfatizando a importância do respeito ao outro na comunicação.

O episódio conclui com uma reflexão sobre a necessidade de encontrar “pequenas rebeldias” e espaços de troca coletiva – como grupos de leitura, cursos e atividades comunitárias – que nos permitam recuperar a humanidade, a imaginação e o contato significativo em meio ao “moedor de carne” digital e consumista que caracteriza os tempos atuais. A mensagem final é de esperança na capacidade humana de se conectar e criar sentidos para além do exagero e da superficialidade.


Indicações

Articles

  • Eu Existo (texto na Piauí) — Texto mencionado por Jana sobre uma jornalista que escreveu uma notícia sobre Caetano Veloso no Leblon. É usado como exemplo para discutir as pressões e a rotina no jornalismo, especialmente a necessidade de produzir muitos textos por dia.

Books

  • Escrever Sem Medo — Livro de Jana Biscardi, mencionado como um guia ou manual para a escrita de diferentes tipos de texto, oferecendo uma base para refletir sobre a prática de escrever.
  • Como Nos Comunicamos Importa — Livro mais recente de Jana Biscardi, lançado pela Editora Planeta. Analisa como os jornais reportam notícias sobre temas como racismo, segurança pública e violência contra a mulher, discutindo a importância das escolhas linguísticas.
  • Escrever é Humano — Livro de Sérgio Rodrigues mencionado por Jana. No final, há um capítulo sobre escrita com robôs e inteligências artificiais, discutindo como elas escrevem de maneira rápida e aparentemente pronta.

People

  • Emily Bender — Linguista citada por Jana Biscardi, conhecida por criticar o termo “inteligência artificial” e preferir chamar sistemas como o ChatGPT de “papagaio estocástico”.
  • Vera Iaconelli — Autora de um livro de análise mencionado por Jana. Foi citada em um exemplo de como o Gemini (IA do Google) forneceu informações falsas sobre sua vida pessoal.
  • Sérgio Rodrigues — Autor do livro “Escrever é Humano”, que inclui uma discussão sobre escrita e inteligências artificiais.
  • Elvio Cotrim — Mencionado brevemente em relação a um episódio ou discussão sobre leitura e o hábito de frequentar bibliotecas e livrarias.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Abertura sobre a inflação das palavras e a cultura do exagero — Gaia introduz o tema do episódio: a necessidade desesperada de criar urgência e importância em tudo, usando superlativos como “potente”, “épico” e “transformador”. Ela questiona o que acontece com nossa capacidade de discernir o que é realmente importante quando o exagero vira norma. A abertura é propositalmente exagerada para ilustrar o ponto discutido.
  • 00:02:00Discussão sobre o uso excessivo de adjetivos e palavras banalizadas — Os participantes começam a conversa comentando sobre palavras como “potente” e “provocativo”. Jana Biscardi menciona seu incômodo com a banalização da palavra “empoderamento”, enquanto Cris Dias compartilha sua experiência com a palavra “potente” se tornando ubíqua em um ambiente corporativo. Eles discutem como a língua viva se transforma, mas também como os superlativos se tornaram uma norma para chamar atenção.
  • 00:10:20Análise das inteligências artificiais generativas e seu impacto na linguagem — Jana Biscardi analisa a forma como IAs como o ChatGPT se expressam, explicando o conceito de “papagaio estocástico”. Ela critica como essas ferramentas são empurradas para nós inquestionavelmente, podendo levar à erosão da leitura e da escrita crítica. São citados exemplos de desinformação gerada por IAs, como notícias falsas e listas de livros ou eventos que nunca existiram.
  • 00:27:00A relação utilitarista com o conhecimento e a educação — A conversa se volta para a educação, discutindo como alunos e profissionais usam IAs para “ganhar tempo” e cumprir tarefas (como TCCs e relatórios) sem necessariamente se engajar com o conteúdo. Reflete-se sobre um sistema educacional e de trabalho que prioriza resultados (notas, diplomas, entregas) em detrimento do processo de aprendizado e do pensamento crítico, agravado por contextos de desigualdade social.
  • 00:35:40Apresentação do livro “Como Nos Comunicamos Importa” e análise do jornalismo — Jana Biscardi apresenta seu novo livro, que deriva de sua série “Notícias Incríveis”. Ela explica que o livro analisa como os jornais comunicam temas como racismo, segurança pública e violência contra a mulher. A discussão aborda a pressão por cliques, a produção de manchetes sensacionalistas (clickbait) e a atomização da informação nas redes sociais, que descontextualiza o trabalho jornalístico.
  • 00:50:00A disputa por atenção, algoritmos e a perda da imaginação — Os participantes discutem como a otimização para algoritmos e testes A/B de títulos transformam a escrita em um exercício para máquinas, não para humanos. A conversa reflete sobre o que se perde quando se deixa de ler: a capacidade de imaginação, a construção de múltiplos olhares sobre o mundo e a experiência de não entender tudo imediatamente, que é parte do aprendizado humano.
  • 01:05:40Debate sobre linguagem não-binária e respeito na comunicação — Jana Biscardi discute a linguagem não-binária (ou neutra), rebatendo argumentos preconceituosos e simplificadores. Ela enfatiza que se trata de uma questão de respeito ao outro, de enxergar e acolher identidades que fogem do binário homem/mulher. A discussão conecta essa disputa na língua com relações de poder e com o reforço de estereótipos por parte das IAs, que aprendem com textos majoritariamente em masculino genérico.
  • 01:21:00Conclusão: pequenas rebeldias e a esperança em espaços coletivos — Encerrando, os participantes refletem sobre a importância de encontrar “pequenas rebeldias” contra a lógica consumista e esmagadora das redes. Eles destacam a valorização de espaços coletivos de troca, como grupos de leitura, cursos, bibliotecas e atividades comunitárias, que permitem recuperar a humanidade, a imaginação e o contato significativo. A mensagem é de esperança na capacidade de se conectar e criar sentidos para além do exagero.

Dados do Episódio

  • Podcast: É sobre isso
  • Autor: Ampère/Beet
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2025-11-18T19:00:00Z
  • Duração: 01:28:36

Referências


Dados do Podcast

  • Nome: É sobre isso
  • Tipo: episodic
  • Site: https://ampere.audio/
  • UUID: ef647b60-bcb9-013d-c741-0affcf0896e5

Transcrição

[00:00:00] Gente, hoje eu quero começar dizendo que o episódio tá diferente.

[00:00:03] Hoje é um episódio cheio de atravessamentos, um episódio provocador,

[00:00:08] um episódio potente, relevante, icônico.

[00:00:14] Acho que já deu pra entender? Não? Então vamos lá.

[00:00:16] Esse é um episódio surpreendente, transformador, o maior do ano.

[00:00:21] Se parece meio descolado da realidade, é porque é mesmo.

[00:00:25] Hoje a gente vai falar sobre a inflação das palavras,

[00:00:28] uma necessidade desesperada de criar urgência,

[00:00:31] fabricando importâncias pra que a gente clique, compre ou preste atenção em tudo, o tempo todo.

[00:00:36] É como se tudo fosse único e imperdível,

[00:00:39] como se acontecimentos transformadores estivessem acontecendo o tempo inteiro.

[00:00:43] Pelo menos nas telas, a gente sabe que não tá mais vivendo assim na realidade.

[00:00:47] A gente tá preso num ciclo de hype eterno.

[00:00:50] Tudo precisa ser muito importante assim, com caixa alta.

[00:00:53] Se o seu trabalho não é potente, ele é irrelevante.

[00:00:56] Se a sua viagem não é épica, então ela não vale a foto.

[00:00:58] Mas acontece que se tudo é único, nada é especial de verdade.

[00:01:02] Se tudo é potente, o que de fato ainda tem o poder de nos mover?

[00:01:06] Porque é esse o significado da palavra.

[00:01:08] E é isso que a gente tá perdendo quando tudo tem que parecer maior do que é significado.

[00:01:14] No episódio de hoje, a gente vai conversar sobre essa tensão.

[00:01:16] Por que as nossas palavras são tão infladas?

[00:01:19] E o que acontece com a nossa capacidade de distinguir o que é importante quando o exagero vira norma?

[00:01:24] Pra nos ajudar nessa missão de desmistificar essa tensão,

[00:01:27] Pra nos ajudar nessa missão de desmistificar essa tensão,

[00:01:28] Pra nos ajudar nessa missão da língua e nos guiar nessa conversa,

[00:01:30] eu e o Cris Dias vamos receber hoje a linguista e escritora Jana Biscardi,

[00:01:34] autora de Escrever Sem Medo e que também tá lançando Como Nos Comunicamos em Porta.

[00:01:43] Esse é o É Sobre Isso, um podcast sobre a comunicação dos nossos tempos.

[00:01:46] Uma produção da Ampere e da Beat, quinzenalmente no Spotify, no YouTube

[00:01:50] e em todos os lugares onde você acompanha os seus podcasts.

[00:01:53] Vem com a gente e lembra que ninguém aqui tá prometendo mudar o mundo.

[00:01:56] Mas talvez a gente consiga mudar?

[00:01:58] Uma ideia ou outra por aí.

[00:02:00] E isso já é muita coisa.

[00:02:01] Antes da gente começar a gravar aqui, a gente tava falando sobre palavras…

[00:02:06] Essas palavras aí, do tipo potência, potente, provocador, provocativo.

[00:02:13] Provocativo é uma que o ChatGPT tem sugerido muito pra mim.

[00:02:17] Que eu não sei nem se é uma palavra que existe.

[00:02:19] Se é entrar no… Provocativo tem.

[00:02:21] Tem? Mas é feio.

[00:02:24] Talvez a grande batalha, a grande discussão aqui

[00:02:27] seja sobre a existência do adjetivo…

[00:02:29] Óbvio, já entrei em cabeção.

[00:02:31] O adjetivo precisa adjetivar tudo.

[00:02:34] A coisa que eu mais falo pro ChatGPT é…

[00:02:36] Não adjetive.

[00:02:37] É tipo assim, então Gaia falou uma coisa muito simples.

[00:02:42] Não, então Gaia disse, dois pontos.

[00:02:44] Pra água mole, sabe?

[00:02:46] Quando eu peço pra ele resumir texto, é muito assim.

[00:02:49] Então Gaia falou de um negócio potente.

[00:02:52] Mas às vezes não precisa nem ser essas palavras que estão sendo…

[00:02:56] É tipo…

[00:02:56] Tudo precisa ter um qualificador.

[00:02:58] Tudo precisa dizer que é potente, é épico.

[00:03:01] Ou é arrombado.

[00:03:03] Ou é, sabe assim, pro negativo também.

[00:03:06] É tudo…

[00:03:07] Deixa a gente pensar.

[00:03:09] Tem um exercício muito comum de oficina de escrita criativa

[00:03:13] que é escrever um texto sem adjetivos.

[00:03:15] E é bem mais difícil do que parece, assim.

[00:03:18] Mas é um tremendo exercício.

[00:03:19] Porque daí você encaixa o adjetivo quando o adjetivo, de fato,

[00:03:23] significa, precisa estar lá, né?

[00:03:26] É.

[00:03:26] Ele sente que ele tem que estar ali, sei lá.

[00:03:28] Mas quais são as palavras que você mais odeia quando você vê?

[00:03:31] Você, Jana, enquanto pessoa que tá sempre prestando atenção na linguagem.

[00:03:36] Quais são as palavras do agora que você tá detestando?

[00:03:40] Detestando?

[00:03:41] Chega.

[00:03:41] Detestando talvez seja forte, mas que você acha tão banalizadas.

[00:03:44] Eu acho que a coisa da palavra empoderamento, né?

[00:03:47] Que, de repente, todo mundo é empoderado e é usado pras coisas mais doidonas.

[00:03:54] Acho que, entre aspas, na origem.

[00:03:56] Veja, como linguista, eu reconheço, em primeiro lugar,

[00:04:00] que as palavras vão se transformando, os seus sentidos, a maneira como são utilizadas.

[00:04:05] Então, isso é assim mesmo.

[00:04:06] A gente pode viver esse desconforto, mas as coisas se transformam mesmo.

[00:04:10] Então, eu tô reclamando de uma coisa pessoal,

[00:04:12] mas entendendo que, no campo da linguagem, é assim mesmo.

[00:04:15] Sim, a língua viva.

[00:04:16] As coisas se transformam.

[00:04:18] Mas a coisa do empoderada, que foi ganhando,

[00:04:21] essa coisa de…

[00:04:22] A pessoa passou um batom, pronto, empoderada.

[00:04:24] Então, gente…

[00:04:26] Será? Será que é isso?

[00:04:29] Então, esses sentidos que as pessoas vão dizer que vão se esvaziando, digamos assim.

[00:04:33] Mas o que a palavra empoderamento, empoderada, empoderado,

[00:04:37] significa, na raiz, assim?

[00:04:39] Qual que é o significado original dela?

[00:04:41] Aí a gente tem que ir pro dicionário.

[00:04:43] Beleza.

[00:04:44] Porque eu penso que o começo da palavra…

[00:04:46] O começo, não, né?

[00:04:47] Porque, enfim, o começo é muito antigo.

[00:04:48] Mas, quando a gente pensa na palavra empoderamento, por exemplo,

[00:04:54] vem…

[00:04:55] Desse ganho…

[00:04:56] De confiança, de autoestima, ou de segurança das mulheres

[00:05:02] frente a diferentes condições do mundo que as desprivilegiam.

[00:05:06] Aí, por isso, a brincadeira com a coisa do batom.

[00:05:08] Veja, a pessoa pode se sentir mais bonita com o batom,

[00:05:10] mas não é porque ela passou o batom que, de repente, ela tá empoderada.

[00:05:13] Sabe assim, que o mundo mudou.

[00:05:15] Então, eu acho que tem muito a ver…

[00:05:16] Derrubou muros, quebrou tetos.

[00:05:17] Exato.

[00:05:18] Tetos caíram.

[00:05:20] Mas não adianta com os usos, por exemplo, em rede social.

[00:05:24] Isso escala.

[00:05:26] Escala muito rápido.

[00:05:27] As palavras vão sendo usadas.

[00:05:28] A pessoa pega ali, a pessoa pega aqui.

[00:05:31] E é isso.

[00:05:31] Não tem um dono da palavra.

[00:05:33] E por isso que ela vai se transformando, né?

[00:05:35] Senão, a gente vira, assim…

[00:05:37] Os caquéticos, né?

[00:05:38] Os caquéticos é péssima essa palavra.

[00:05:39] Mas a gente vai virando aquela pessoa que diz

[00:05:42] não pode mudar a língua.

[00:05:44] Claro, mas é uma coisa que nos mobiliza mesmo.

[00:05:48] Ver o quanto as palavras vão sendo usadas muito, muito, muito, muito, muito.

[00:05:51] Pega aqui, pega ali, pega ali.

[00:05:52] E aí você fala, nossa, não sei se era bem isso.

[00:05:55] Mas até aí, de novo…

[00:05:56] É a língua se transformando também na velocidade…

[00:05:59] Se transformando, entre aspas, né?

[00:06:00] Na velocidade das redes, assim.

[00:06:02] Significados que vão se alterando.

[00:06:04] Nuances que vão surgindo aqui e ali.

[00:06:06] E que depois também vão cair em desuso.

[00:06:08] Muito provavelmente.

[00:06:09] As pessoas vão usar isso durante um período e depois…

[00:06:12] Fica a nossa torcida.

[00:06:13] Outras vão…

[00:06:13] Eu amo.

[00:06:16] E depois isso passa batido e vira uma outra coisa.

[00:06:20] A Gaia sabe, porque ela trabalhava comigo na época.

[00:06:22] A palavra que eu implico muito até hoje…

[00:06:26] É potente.

[00:06:27] Mas tem também um componente que era…

[00:06:30] No nosso trabalho, na bolha que a gente convivia,

[00:06:34] potente era uma palavra que não era usada.

[00:06:36] E aí acontece uma mudança corporativa e tal.

[00:06:39] A gente vai trabalhar, né?

[00:06:40] A nossa empresa é comprada por outra.

[00:06:42] E nesse lugar, potente é que nem bom dia.

[00:06:46] Assim, tudo é potente.

[00:06:47] Então, pra mim, se revelou…

[00:06:49] De repente começou a aparecer em absolutamente todas as reuniões.

[00:06:52] Então, é menos a palavra potente, o uso potente,

[00:06:56] que se tá aí…

[00:06:57] E semana passada, eu entrevistei um cara que estava sentado nessa cadeira aqui.

[00:07:00] Ele usou potente muitas vezes.

[00:07:04] E eu falei assim…

[00:07:04] Nossa, ele vai ficar o programa inteiro falando potente.

[00:07:06] E ele parou de usar no meio do programa.

[00:07:08] Mas assim…

[00:07:09] Mas foi esse choque…

[00:07:10] Vocês vão ficar me vigiando, né?

[00:07:11] Eu quero saber se tem uma vigia aqui…

[00:07:13] Se por trás daquele vidro, as pessoas estão fazendo uma contagem.

[00:07:18] Mas teve esse choque de que, de repente, literalmente do dia…

[00:07:22] Aliás, literalmente é uma boa palavra também que estão usando muito.

[00:07:24] Excelente.

[00:07:24] Do dia pra noite…

[00:07:26] Do dia pra noite, eu percebi como potente era uma palavra importante e tal.

[00:07:33] Mas eu acho que, quando você tava falando da língua viva e tal,

[00:07:36] muito do meu incômodo, e eu acho que tá muito na abertura da Gaia,

[00:07:42] não precisa estar numa palavra como potente, como empoderada, como isso aqui,

[00:07:47] mas é como tudo precisa ser superlativo.

[00:07:51] Então, nós voltando, quando trabalhamos junto,

[00:07:53] nosso amigo Robson Bravo fez um pão de queijo,

[00:07:56] um pão de queijo caseiro, mandou lá.

[00:07:58] De repente, foi começar a vender.

[00:07:59] E eu vou chamar de o pão de queijo mais ok do mundo.

[00:08:02] Porque também é tudo isso, né?

[00:08:03] O bolo, o melhor bolo do universo.

[00:08:06] Eu só lembrei desse.

[00:08:08] Foi a primeira coisa que eu lembrei, que já faz muitos anos,

[00:08:10] e eu tenho a sensação de que, naquilo que eu percebo,

[00:08:15] ele foi o primeiro exemplo pra mim, não que tenha sido o primeiro,

[00:08:18] mas de algo que tenha sido o mais alguma coisa.

[00:08:21] Esse filme é o melhor…

[00:08:23] Não, cara, é só um filme.

[00:08:24] Esse novo dia…

[00:08:26] O disco da Taylor Swift, sabe, tudo precisa ser o grande novo,

[00:08:32] o maior, o melhor, nunca vimos isso.

[00:08:34] Mas a Taylor Swift é um excelente exemplo de…

[00:08:35] Desculpa, Swifters.

[00:08:38] Nada contra, gosto muito dela, etc.

[00:08:41] Não tô gongando lá, mas gongando o que…

[00:08:44] Essa narrativa que fica sendo arrastada, sabe?

[00:08:47] Ela é muito boa porque ela é a artista mais vendida na história,

[00:08:52] a artista que fez a maior…

[00:08:53] Tipo, tá, ser o maior…

[00:08:56] Em questões comerciais, nunca quis dizer ser o melhor em outros aspectos.

[00:09:02] Exato.

[00:09:03] Na música, em especial, isso muitas vezes é o contrário.

[00:09:07] Sim.

[00:09:08] Eu acho que aqui tem uma questão, conforme vocês estavam falando,

[00:09:10] eu fiquei pensando, que tem a ver com o discurso do marketing

[00:09:13] e o discurso do marketing nas redes sociais,

[00:09:15] em que você tem muita gente querendo mostrar que é importante,

[00:09:21] que é o mais relevante, chamar a atenção das pessoas,

[00:09:23] e aí esses superlativos vão ficando…

[00:09:26] Ficando cada vez mais…

[00:09:27] Ou a pessoa é a primeira, a primeira…

[00:09:31] Sabe, assim, tipo, é como se eu chegasse lá e falasse

[00:09:33] a primeira linguista no YouTube.

[00:09:36] Sabe, gente, não, assim, não dá pra dizer isso,

[00:09:39] porque eu não acho que eu sou a primeira linguista no YouTube.

[00:09:41] Também, qual a relevância disso?

[00:09:43] Mas tem essa coisa de você precisar de dizer que você é a primeira.

[00:09:47] As pessoas valorizam isso, eu acho engraçado.

[00:09:48] Exato, e foi ficando cada vez mais forte,

[00:09:51] eu, agora é só um achismo mesmo,

[00:09:54] nessa presença em redes sociais.

[00:09:56] A gente pensa num chat de EPT da FIDA,

[00:09:58] se ele tá coletando textos,

[00:10:00] que são textos que estão disponíveis ali,

[00:10:04] esses superlativos também vão ser pegos,

[00:10:06] assim como as mentiras, assim como as informações erradas,

[00:10:10] tudo isso vai ser pego e vai ser combinado ali nesses textos também.

[00:10:13] Então a gente vai ver aparecer muito adjetivo,

[00:10:16] essas coisas todas vão estar ali, né?

[00:10:18] Jana, aproveitando que você já puxou o tema,

[00:10:21] e você, como linguista, como você analisa a forma

[00:10:25] como…

[00:10:26] Como o chat de EPT, ou as outras inteligências artificiais se expressam,

[00:10:31] montam o seu texto, a escolha de palavras deles,

[00:10:34] você acha que é um…

[00:10:35] Dá pra falar que é um espelho da forma como a gente se comunica,

[00:10:39] ou é mais que isso?

[00:10:40] Acho que não é um espelho,

[00:10:42] tem uma linguista que se chama Emily Bender,

[00:10:44] e ela é uma das linguistas que muito fala sobre a questão do chat de EPT,

[00:10:50] por exemplo, das inteligências artificiais,

[00:10:52] que ela sequer vai chamar de inteligência artificial,

[00:10:54] ela gosta de chamar de papagaio estocástico.

[00:10:56] Por quê?

[00:10:58] Porque o chat de EPT, por exemplo,

[00:11:00] o que ele faz é analisar as probabilidades de uma palavra estar junto da outra,

[00:11:06] digamos assim,

[00:11:07] estou falando aqui em termos chulos,

[00:11:09] perdoe você que está nos ouvindo,

[00:11:11] mas então ele faz essa análise e vai combinando então as palavras.

[00:11:16] Eu acho que o problema, dentre muitos os problemas dessas inteligências artificiais,

[00:11:21] um dos problemas é o fato de que ela é modelada,

[00:11:26] programada para responder para você como se fosse um humano,

[00:11:30] e isso nos impressiona,

[00:11:33] porque pode ter humor, pode ter ironia,

[00:11:37] mas isso tudo não é porque tem uma mente pensante ali,

[00:11:40] é porque você tem um algoritmo que é treinado com muitos textos,

[00:11:44] é um volume de dados imenso,

[00:11:48] e ele vai sendo aprimorado,

[00:11:50] que permite que ele faça construções que são muito parecidas com aquilo que a gente faz,

[00:11:55] parecidas com aquilo que a gente produz.

[00:11:58] Mas ao mesmo tempo tem essa questão de pensar,

[00:12:01] de onde estão vindo esses textos e que produção textual é essa?

[00:12:05] Eu sempre, hoje em dia eu me pergunto muito nos usos,

[00:12:08] porque além de tudo, essas chamadas inteligências,

[00:12:12] que eu não gosto muito também do nome,

[00:12:14] mas elas são empurradas para a gente,

[00:12:17] hoje se você vai fazer uma busca no Google,

[00:12:19] a primeira coisa que te aparece é o Gemini,

[00:12:22] que é esse papagaio do Google.

[00:12:25] Se você está dentro do Google, agora tem a opção assim,

[00:12:29] quer que eu resuma esse e-mail para você?

[00:12:31] E o contrário, me ajude a escrever um e-mail que a outra pessoa vai pedir para eu resumir.

[00:12:35] Exatamente.

[00:12:37] Eu vi uma propaganda de uma operadora de telefonia

[00:12:42] que dava quatro meses gratuitos do chat IPT.

[00:12:46] Então essas inteligências vão sendo empurradas para a gente,

[00:12:49] como se não fosse possível viver sem elas.

[00:12:51] E esse é o grande gosto do Sam Altman,

[00:12:53] que é o cara lá do chat IPT,

[00:12:55] porque é o que ele quer,

[00:12:57] ele quer que isso esteja em todo lugar.

[00:12:59] E aí você pode me perguntar, mas qual é o problema?

[00:13:02] Pensa assim, você entrou na faculdade hoje,

[00:13:06] vou botar assim, jornalismo,

[00:13:08] você entrou hoje na faculdade

[00:13:10] e você passa a não ler nenhum texto que te é passado.

[00:13:14] Você taca esse texto lá no chat IPT,

[00:13:17] esse texto não é seu, ele tem direitos autorais,

[00:13:20] você não está nem aí, você joga ele lá, primeira questão.

[00:13:22] Esse texto pronto, ele já foi engolido pelo chat IPT.

[00:13:25] Faz parte aí desse núcleo de textos usados para treinar a máquina.

[00:13:29] E aí você para de ler.

[00:13:31] Você lê um resumo que você nem sabe se é um bom resumo

[00:13:34] porque você não leu o texto.

[00:13:36] E como o chat IPT ele emula muito bem

[00:13:39] o que é a produção de um texto humano,

[00:13:41] justamente por conta dessa questão estatística toda aí,

[00:13:43] probabilidade dessas palavras se combinarem na verdade,

[00:13:46] você vai achar que aquele texto está bom.

[00:13:48] E nisso, esses textos,

[00:13:51] eles contêm inúmeras incongruências,

[00:13:54] mas eles parecem muito bons.

[00:13:57] Então, veja,

[00:13:59] eu fico pensando que mundo é esse

[00:14:02] em que as pessoas não leem mais.

[00:14:04] No Brasil a gente já lê pouco.

[00:14:06] A pessoa está fazendo uma faculdade

[00:14:08] e ela decide que ela não vai ler

[00:14:10] porque ela não tem tempo.

[00:14:12] Porque essas, esses papagaios todos,

[00:14:14] eles estão postos para a gente dizendo isso.

[00:14:16] Eu vou te poupar tempo.

[00:14:18] Mas vai te poupar tempo para quê?

[00:14:21] A gente tem que se perguntar isso.

[00:14:22] Vai poupar tempo para quê?

[00:14:23] Que humanos são esses que não leem, não escrevem?

[00:14:26] E veja, eu não estou dizendo isso

[00:14:28] porque eu sei que muita gente usa o chat IPT.

[00:14:30] E eu não estou dizendo isso para dizer

[00:14:31] que você não pode usar para nada.

[00:14:33] Mas eu acho que essas ferramentas

[00:14:35] vêm sendo empurradas para a gente

[00:14:37] de maneira absolutamente inquestionada.

[00:14:40] Inclusive pelos jornais, assim.

[00:14:42] Se fala muito pouco dos problemas disso.

[00:14:45] Ou de uma reflexão sobre o que é esse futuro

[00:14:47] em que ninguém lê.

[00:14:49] Em que as pessoas acreditam

[00:14:50] numa ferramenta como o chat IPT

[00:14:52] que alucina.

[00:14:54] Que é um termo empregado para falar

[00:14:56] daquilo que ele comete como erros.

[00:14:58] Você já tem casos aí de matérias

[00:15:00] que foram escritas como listas.

[00:15:02] Que é uma outra coisa também muito comum, né?

[00:15:04] Nas redes sociais.

[00:15:05] Não só, né?

[00:15:06] Mas ela impulsionou essa coisa da lista.

[00:15:08] Sei lá, 10 livros para você ler.

[00:15:10] E sei lá, nenhum livro existia.

[00:15:12] Representando o nosso amigo

[00:15:14] que apresenta, Zogui Pinheiro.

[00:15:16] Ele mandou, era uma notícia que o cara falou assim

[00:15:18] Outras vezes onde, não vou lembrar agora,

[00:15:20] um time de futebol virou o jogo

[00:15:22] faltando 10 minutos.

[00:15:24] Era uma lista de jogos que nunca aconteceram.

[00:15:26] E era um jornalista, sei lá,

[00:15:28] de grande veículo de televisão.

[00:15:30] Isso é uma loucura completa.

[00:15:32] Mas tem alguns casos com impacto

[00:15:34] na vida real das pessoas também.

[00:15:36] Tipo, um caso que rolou há não tanto tempo atrás.

[00:15:38] O Google Map.

[00:15:40] Não sei o que era que estava mandando as pessoas

[00:15:42] para um lugar onde não dava para passar.

[00:15:44] Uma ponte que não estava terminada

[00:15:46] e pessoas caíram num penhasco.

[00:15:48] E tem também as pessoas,

[00:15:50] aí você vê que o ser humano…

[00:15:52] As pessoas que estão usando

[00:15:54] para fazer os seus próprios roteiros de viagem.

[00:15:56] Inclusive trilha

[00:15:58] na floresta.

[00:16:00] Aí chega lá no chat nos Alpes

[00:16:02] e as pessoas estão ficando perdidas.

[00:16:04] Isso é uma coisa que está acontecendo.

[00:16:06] Mas aí também vai da pessoa não entender

[00:16:08] para que a ferramenta serve.

[00:16:10] Mas de novo, se ela vai sendo empurrada

[00:16:12] para a gente como uma grande solução.

[00:16:14] As pessoas usam.

[00:16:16] Claro, o ideal é que não se questione mesmo.

[00:16:18] É muito natural.

[00:16:20] A gente teve isso lá em casa.

[00:16:22] Ah, quero…

[00:16:24] Ah, a gente quer comprar geladeira.

[00:16:26] A geladeira queimou no Natal.

[00:16:28] Ah, vamos no Magazine Luiza.

[00:16:30] Joguei aqui e disse que tem um Magazine Luiza ali

[00:16:32] na Marginal Tietê.

[00:16:34] Cara, não tem Magazine Luiza na Marginal Tietê.

[00:16:36] Não tem.

[00:16:38] Nem lembro, acho que o Gemini,

[00:16:40] o Chat EPT me falou.

[00:16:42] Não, tem uma ferramenta chamada Google Maps.

[00:16:44] Você digita só Magazine Luiza.

[00:16:46] Mas é isso.

[00:16:48] O aplicativo está ali.

[00:16:50] E você falou também da massa de dados.

[00:16:52] Uma das expressões

[00:16:54] que eu mais odeio

[00:16:56] se está sendo usada

[00:16:58] é essa aqui, a qual eu escolhi ser o nome

[00:17:00] do podcast. É sobre isso.

[00:17:02] Que é um anglicismo

[00:17:04] brutal.

[00:17:06] E a construção não é sobre

[00:17:08] chocolate. É sobre a conexão

[00:17:10] das pessoas.

[00:17:12] Essa construção é muito, muito, muito

[00:17:14] em inglês, estadunidense e tal.

[00:17:16] E isso acabou entrando

[00:17:18] também no vocabulário

[00:17:20] sei lá, do mundo,

[00:17:22] até do marketing, da comunicação que a gente convive.

[00:17:24] Antes da inteligência artificial

[00:17:26] até, porque as pessoas, sei lá, devem ler muitos

[00:17:28] textos em inglês e acabam trazendo.

[00:17:30] E é uma regra que tem

[00:17:32] nos meus prontos do Chat EPT.

[00:17:34] Não use, não é sobre não sei o que,

[00:17:36] é sobre não sei o que lá. E ele diz respeito direto.

[00:17:38] Porque você falou

[00:17:40] da massa de dados. É uma massa de dados

[00:17:42] que tem muitos textos em inglês

[00:17:44] então ele está só traduzindo

[00:17:46] quase que com um dicionário

[00:17:48] na mão e fazendo. Então também

[00:17:50] carrega esse viés. E mesmo

[00:17:52] no português, porque de novo, se ele está

[00:17:54] coletando, a gente nem sabe direito o que ele está coletando

[00:17:56] porque o Sennault mandou uma

[00:17:58] entrevista, acho que foi ano passado, já não lembro,

[00:18:00] choramingando o empresário.

[00:18:02] Choramingando porque

[00:18:04] tendo que pagar direitos autorais

[00:18:06] isso meio que inviabilizaria

[00:18:08] o Chat EPT. Poxa!

[00:18:10] O que eu tenho a ver com isso, sabe?

[00:18:12] Não foi uma entrevista, foi um, como chamam?

[00:18:14] Proibimento no Congresso,

[00:18:16] no Parlamento Inglês, que o Parlamento Inglês

[00:18:18] queria proibir isso. Mas aí

[00:18:20] você me quebra, meu patrão. Sim!

[00:18:22] É você que tem que encontrar

[00:18:24] a solução para isso, não sou eu. Na sociedade.

[00:18:26] Eu lembrei de uma outra coisa

[00:18:28] que as pessoas passaram a usar

[00:18:30] que combina com isso que você falou, a usar o Chat EPT

[00:18:32] que vocês estavam falando,

[00:18:34] como busca. Porque as pessoas

[00:18:36] não entenderam ainda que o Chat EPT não é

[00:18:38] uma busca de informações.

[00:18:40] Ele não é um substituto do Google.

[00:18:42] E o Google está piorando cada vez mais

[00:18:44] porque a primeira coisa que ele faz agora

[00:18:46] é te trazer o Gemini. Posso contar um relato?

[00:18:48] Por favor, por favor. Exemplos práticos

[00:18:50] são sempre bons. Eu vou citar

[00:18:52] aqui uma autora, por conta de um livro

[00:18:54] que eu estava lendo. Eu estava lendo um livro

[00:18:56] da Vera Iaconelli, o livro Análise

[00:18:58] dela. E como ela traz um

[00:19:00] aspecto mais pessoal para dentro do livro,

[00:19:02] eu fiquei curiosa, como muitas pessoas devem

[00:19:04] ter ficado curiosas. Desculpa, Vera.

[00:19:08] É um maravilhoso livro, aliás. Exato.

[00:19:10] Aí eu fui lá e editei Vera Iaconelli,

[00:19:12] família, sei lá, alguma coisa assim.

[00:19:14] O que veio primeiro? De novo, a gente volta

[00:19:16] para esse lugar daquilo que é empurrado para a gente.

[00:19:18] O que veio primeiro foi um resumo do Gemini,

[00:19:20] de quem era a Vera Iaconelli. Eu não estava

[00:19:22] interessada naquele resumo, mas você não consegue escapar

[00:19:24] dele. E aí, por curiosidade, eu fui ler.

[00:19:26] E o Gemini afirmou

[00:19:28] que a Vera Iaconelli era casada

[00:19:30] com uma pessoa com quem ela não

[00:19:32] é casada. E eu sabia que ela

[00:19:34] não era casada com essa pessoa, porque essa pessoa

[00:19:36] que estava ali referida, eu sei que ela era

[00:19:38] casada com uma outra pessoa

[00:19:40] por conta de uma treta. É o meu marido.

[00:19:42] Não, por conta de uma treta

[00:19:44] literária que rolou. E aí eu sabia

[00:19:46] que essa pessoa não era casada com a Vera Iaconelli.

[00:19:48] E ele afirmava

[00:19:50] isso. Provavelmente por causa da treta

[00:19:52] literária, tipo, se misturaram

[00:19:54] informações. Exatamente. Ele fez um grande bololô

[00:19:56] e alucinou ali. Só que observe, isso é uma informação

[00:19:58] falsa. Só que

[00:20:00] são tantas informações falsas compartilhadas.

[00:20:02] E se você não tem o contexto que você tem

[00:20:04] da vida real, passa.

[00:20:06] Só que, se veja,

[00:20:08] se você como jornalista, você não pode publicar

[00:20:10] uma mentira,

[00:20:12] essas redes agora que tem todas

[00:20:14] esses papagaios,

[00:20:16] fazem o que quiser com isso, porque de novo

[00:20:18] isso segue sendo empurrado pra gente.

[00:20:20] Aí você pode me dizer, ah Jana, mas você está

[00:20:22] contra, eu uso muito o chat GPT no meu trabalho.

[00:20:24] Não tem problema nenhum. Eu tenho

[00:20:26] citado muito um livro, que foi um livro que eu li

[00:20:28] recente, que é do Sérgio Rodrigues, que chama

[00:20:30] Escrever é Humano. E ele no final faz

[00:20:32] um capítulo sobre as

[00:20:34] inteligências artificiais, essa escrita com robôs.

[00:20:36] E ele vai falar que esses robôs

[00:20:38] eles escrevem, entre aspas,

[00:20:40] melhor do que a gente. Melhor no sentido que eles

[00:20:42] escrevem muito rápido e aquele texto parece

[00:20:44] muito pronto. E pra alguns contextos,

[00:20:46] por exemplo, você bota lá, por favor

[00:20:48] responda um e-mail de maneira educada

[00:20:50] e não sei o que.

[00:20:52] Estou num banco sem saída, não sei como responder.

[00:20:54] Ele vai te trazer lá uma coisa que você pode

[00:20:56] depois pincelar pra trazer mais a sua

[00:20:58] linguagem e ele até pode te ajudar a resolver essa questão.

[00:21:00] Mas o problema é quando as pessoas querem escrever

[00:21:02] livros, trabalhos,

[00:21:04] quando elas não querem mais verificar aquelas

[00:21:06] informações, porque o que está ali, gente, precisa

[00:21:08] ser verificado. Quando elas não querem mais pensar.

[00:21:10] E aí, o que que nos faz humanos?

[00:21:12] Sabe? Aí eu me pergunto

[00:21:14] muito, eu sei, muito doidona, muito

[00:21:16] fatalista, mas é

[00:21:18] o que nos faz humanos, né?

[00:21:20] Também nesse livro do Sérgio Rodrigues ele vai

[00:21:22] falar sobre, escreve quem

[00:21:24] vai morrer. Porque

[00:21:26] você é uma pessoa que tem desejos,

[00:21:28] sentimentos, impulsos.

[00:21:30] Se você escreve, claro,

[00:21:32] as pessoas escrevem por muitas razões,

[00:21:34] né? Você escreve um relatório pro trabalho que você

[00:21:36] de repente não queria fazer, mas aí

[00:21:38] você vai botar as informações num chat

[00:21:40] aberto, que são informações da empresa

[00:21:42] que não deveriam estar lá, tanto que

[00:21:44] as empresas hoje elas treinam robôs

[00:21:46] específicos pra serem usados pelos funcionários,

[00:21:48] por exemplo. E aí, bom, fazendo isso

[00:21:50] é a empresa que resolva a questão

[00:21:52] lá com os dados que estão sendo usados, enfim,

[00:21:54] se ela acredita naqueles termos que ela assinou,

[00:21:56] tá tudo certo. Mas você individualmente

[00:21:58] colocar os seus textos,

[00:22:00] colocar as suas informações pessoais,

[00:22:02] colocar as suas fotos,

[00:22:04] colocar fotos dos seus filhos

[00:22:06] pra fazer uma imagem bonitinha, pra fazer

[00:22:08] uma gracinha. A gente não sabe o uso

[00:22:10] que está sendo feito dessas informações. E hoje,

[00:22:12] numa lógica em que

[00:22:14] se usa muitos dados pessoais

[00:22:16] pra construir

[00:22:18] coisas falsas, esses vídeos ultra-realistas,

[00:22:20] ultra-realistas…

[00:22:22] Ou simplesmente mensagens de marketing,

[00:22:24] nem precisa ir no… É isso.

[00:22:26] A gente é um

[00:22:28] capotamento continuado, assim, então

[00:22:30] há usos que podem, claro, contribuir,

[00:22:32] mas eu sempre pergunto, você está ganhando

[00:22:34] tempo pra quê? Na verdade, ao invés de produzir

[00:22:36] um relatório, você vai produzir dez, porque você não está ganhando

[00:22:38] tempo pra você fechar o computador e ir embora pra casa.

[00:22:40] Então é pra te encher

[00:22:42] de mais trabalho e você se sentir

[00:22:44] asoberbada o tempo inteiro, se já

[00:22:46] não se sente, vai se sentir cada vez mais,

[00:22:48] e com informações que você

[00:22:50] não tem como conferir, porque

[00:22:52] tudo que está ali dentro pode ser uma informação

[00:22:54] equivocada, mas

[00:22:56] o texto parece tão verossímil

[00:22:58] que ele parece muito concreto.

[00:23:00] É a mesma história do gêmeo

[00:23:02] me dizer que a Vera e a Conélia é casada com fulano

[00:23:04] de maneira categórica.

[00:23:06] Ele faz isso, essas inteligências,

[00:23:08] esses papagaios, eles afirmam

[00:23:10] de maneira categórica uma coisa.

[00:23:12] E se você está sem tempo, que é um mundo em que

[00:23:14] a gente vive, você precisa disparar logo

[00:23:16] essa informação.

[00:23:18] Só passa pra frente.

[00:23:20] Outra coisa,

[00:23:22] tarefa que eu uso muito no chat

[00:23:24] EPT e afins é, vai acabar a gravação

[00:23:26] aqui, uma máquina vai transcrever

[00:23:28] e aí

[00:23:30] eu vou,

[00:23:32] uma hora de papo aqui, eu vou jogar o PDF

[00:23:34] dessa conversa no chat EPT e vou

[00:23:36] falar assim, acha pra mim

[00:23:38] aquela hora que a Jana falou

[00:23:40] tal coisa, que eu vou fazer um carrossel

[00:23:42] no Instagram, eu quero pegar aquela

[00:23:44] frase dela.

[00:23:46] Pois não, aqui ela disse, papapá

[00:23:48] aí eu leio e falo assim,

[00:23:50] tá perfeito demais, tá respondendo

[00:23:52] demais, aquela hora que ela fala

[00:23:54] sobre os dicionários, sei lá.

[00:23:56] Aí eu falo, não, aí eu abro

[00:23:58] o PDF, dou um CTRL F, procuro.

[00:24:00] Então assim, é o documento,

[00:24:02] não é o mundo, a literatura,

[00:24:04] não, assim, literalmente

[00:24:06] um PDF que eu dei

[00:24:08] e eu falo, cara, não tá aqui.

[00:24:10] É uma coisa que você viveu, então você sabe

[00:24:12] que não está ali. Isso, e assim,

[00:24:14] você não precisou consultar as fontes do mundo,

[00:24:16] eu te dei um documento de 20 páginas,

[00:24:18] você só precisava ler, aí ele

[00:24:20] dá a frase que mais me tirou do sério,

[00:24:22] que é, você tem toda razão.

[00:24:24] De novo.

[00:24:26] Você tá certo.

[00:24:28] Nem pede uma desculpinha. Porque tem essa coisa

[00:24:30] dessa interação, que precisa ser muito

[00:24:32] humano, precisa parecer humano.

[00:24:34] Então ele conversa com você como

[00:24:36] se fosse um humano, e sempre

[00:24:38] te dá razão, o que também é um problema.

[00:24:40] Quando a gente pensa nessa lógica, por exemplo, de

[00:24:42] as pessoas fazendo psicoterapia,

[00:24:44] enfim,

[00:24:46] tem muitos usos que são bem loucões.

[00:24:48] Essa questão, ainda ficando dentro do,

[00:24:50] a gente acabou pegando essa tangente aí

[00:24:52] da inteligência artificial, mas

[00:24:54] tem uma outra questão,

[00:24:56] ela tá sempre confirmando

[00:24:58] as nossas

[00:25:00] visões, que é o quanto

[00:25:02] as inteligências artificiais

[00:25:04] também ajudam a manter

[00:25:06] sedimentadas visões de mundo

[00:25:08] que são essencialmente brancas,

[00:25:10] héteras,

[00:25:12] que é a massa de dados.

[00:25:14] Ele, de certa forma, interrompe

[00:25:16] um movimento de

[00:25:18] diversidade de vozes que a gente vinha

[00:25:20] tendo na comunicação nos últimos anos,

[00:25:22] porque ela não tá interessada nisso.

[00:25:24] É, e porque também muitas vezes não vai aparecer ali.

[00:25:26] O que que vai, vamos usar

[00:25:28] um termo em inglês, o que que tá flodando,

[00:25:30] sabe, esses espaços digitais?

[00:25:32] O que é que tem de muita

[00:25:34] informação? Quem é que tem muito dinheiro

[00:25:36] pra chuchar coisa

[00:25:38] nesses espaços digitais?

[00:25:40] Claro, o mundo é imenso, mas você entende?

[00:25:42] Quando eu penso na maneira como

[00:25:44] uma notícia falsa circula,

[00:25:46] como sites

[00:25:48] sensacionalistas, e que muitas vezes compartilham

[00:25:50] mentiras, também circulam,

[00:25:52] tá pegando isso também, e muito

[00:25:54] disso, pra produzir essa informação

[00:25:56] pra você de novo. Claro, porque nunca foi tão fácil

[00:25:58] produzir essas coisas. Aí saiu um estudo,

[00:26:00] acho que ontem, enfim.

[00:26:02] Nossa, informações muito frescas.

[00:26:04] Olha a Cris aqui atualizando a gente.

[00:26:06] De pautas que eu vou chamar

[00:26:08] de recentes, novas,

[00:26:10] mas num sentido assim, não tem uma baixa literatura.

[00:26:12] E o exemplo literal era

[00:26:14] guerra na Ucrânia, que tem já, sei lá,

[00:26:16] três anos, mas enfim.

[00:26:18] Não tem livros escritos.

[00:26:20] E aí, a máquina de propaganda russa

[00:26:22] lota a internet

[00:26:24] de informações pró-Rússia,

[00:26:26] que as máquinas pegam,

[00:26:28] e quando você pergunta, sei lá,

[00:26:30] eu literalmente não li nenhum exemplo,

[00:26:32] sei lá, quem começou a guerra?

[00:26:34] Vai dizer, não,

[00:26:36] foram os ucranianos que atacaram

[00:26:38] o regime soberano da Rússia.

[00:26:40] Porque é isso, você aproveita até

[00:26:42] a história da mecânica, né,

[00:26:44] de como se extrai os dados e fala,

[00:26:46] cara, eu vou publicar um monte

[00:26:48] de post aqui contando a história

[00:26:50] que eu quero, pela média,

[00:26:52] na hora de calcular a média,

[00:26:54] eu vou chegar nesse texto.

[00:26:56] Mas essa coisa que você falou de usar no trabalho,

[00:26:58] isso aqui, relatórios e pra ganhar tempo,

[00:27:00] eu tenho acompanhado

[00:27:02] muito também a discussão

[00:27:04] no mundo acadêmico, tipo

[00:27:06] aluno-professor, né, a relação aluno-professor.

[00:27:08] Ah, os alunos estão usando

[00:27:10] pra fazer, sei lá, o TCC e tal.

[00:27:12] E pra mim, no fundo,

[00:27:14] a discussão é,

[00:27:16] e é o que eu vejo

[00:27:18] as pessoas comentando,

[00:27:20] é que a gente, desde a escola,

[00:27:22] a gente treinou os alunos de que

[00:27:24] a gente vai pra escola pra tirar nota

[00:27:26] e passar de ano, e passar

[00:27:28] no vestibular, e pegar um diploma

[00:27:30] pra arrumar um emprego. Então, você falou, ah, pensar,

[00:27:32] né, como é que você vai

[00:27:34] pensar, quem tá ali escrevendo

[00:27:36] cheio de trabalho, precisando,

[00:27:38] não vou ler 500 páginas de sei lá o que,

[00:27:40] vou pedir um resumo,

[00:27:42] vai escrever, porque eu não tô aqui pra aprender,

[00:27:44] eu tô aqui pra pegar o meu diploma, pra ir trabalhar

[00:27:46] não sei onde, e ganhar

[00:27:48] dinheiro. O equivalente disso de

[00:27:50] hoje é que você quer entregar o relatório.

[00:27:52] Isso. Ou fazer mais

[00:27:54] 10, e tudo bem, e ir pra casa.

[00:27:56] Então, a gente tá

[00:27:58] indo, ou talvez sempre

[00:28:00] foi assim na sociedade, agora temos as ferramentas,

[00:28:02] a gente quer chegar sempre

[00:28:04] no resultado,

[00:28:06] no ovo, como é que é, não quero saber se o pato

[00:28:08] é macho ou quer ovo, eu quero

[00:28:10] entregar o TCC e pegar o meu diploma

[00:28:12] porque eu preciso, pra ser promovido

[00:28:14] lá na minha empresa, eu preciso,

[00:28:16] sabe, então, essa jornada

[00:28:18] do conhecimento, vamos chamar assim,

[00:28:20] talvez nunca tenha sido importante,

[00:28:22] agora a gente tem um jeito de

[00:28:24] burlar, do mesmo jeito que antes,

[00:28:26] sei lá, você pagava o coleguinha pra ele fazer

[00:28:28] o trabalho pra você, sei lá.

[00:28:30] Ou então você produzia um texto que era todo plágio.

[00:28:32] Todo plágio, isso, Wikipedia. Então é isso, né,

[00:28:34] acontece há muito tempo, e eu fico pensando

[00:28:36] no papel das desigualdades nisso, né.

[00:28:38] Quando você tem uma

[00:28:40] ampliação da entrada das pessoas na universidade,

[00:28:42] o que é excelente, mas você

[00:28:44] tem uma universidade que está acostumada

[00:28:46] a um outro modelo,

[00:28:48] a pessoa vai passar o dia inteiro ali,

[00:28:50] pensando na Universidade República, por exemplo,

[00:28:52] e uma universidade que tem sim

[00:28:54] cursos noturnos, mas que

[00:28:56] em muitos casos não privilegia esses

[00:28:58] cursos, entende?

[00:29:00] E que de repente você tem pessoas,

[00:29:02] muitas pessoas, já tinha,

[00:29:04] tá, mas você tem cada vez mais pessoas

[00:29:06] que elas não podem estar ali

[00:29:08] o dia todo, elas precisam

[00:29:10] de suporte, então

[00:29:12] é preciso verba pra que essas pessoas

[00:29:14] tenham alojamento decente,

[00:29:16] pra que elas tenham uma bolsa de estudos

[00:29:18] pra que elas possam estar ali, uma bolsa

[00:29:20] de estudos decente, que não pague

[00:29:22] pouquíssimo, que impeça a pessoa de estar ali.

[00:29:24] Muitas vezes não é isso que acontece, porque a universidade

[00:29:26] não tem dinheiro transbordando,

[00:29:28] então você tem um movimento

[00:29:30] de entrada de muito mais pessoas na universidade,

[00:29:32] que de novo, repito, é excelente,

[00:29:34] mas uma universidade que não consegue se adaptar

[00:29:36] a essa lógica,

[00:29:38] que muda os seus modelos

[00:29:40] muito lentamente. Eu me lembro

[00:29:42] agora, no caso de uma universidade particular,

[00:29:44] de dar aula em universidade particular,

[00:29:46] em que os alunos tinham exatamente essa questão.

[00:29:48] A minha aula era das

[00:29:50] oito a quase onze horas,

[00:29:52] mas o ônibus que os levava de volta

[00:29:54] pra casa pro interior era às dez.

[00:29:56] Então eles não iam ficar ali

[00:29:58] das oito e cinquenta

[00:30:00] até às onze. E eu lembro que eu era muito jovem

[00:30:02] e eu falava, gente, mas vocês vão perder

[00:30:04] mais de uma hora de aula, então eu vou ter que parar

[00:30:06] assim, eu vou parar

[00:30:08] assim, e eu ganhava mal

[00:30:10] e esses alunos tinham

[00:30:12] pressa e eles queriam se formar.

[00:30:14] Primeiro você tem uma dificuldade

[00:30:16] de acolhimento dos alunos

[00:30:18] em geral, numa nova universidade

[00:30:20] que acolhe mais gente,

[00:30:22] ainda bem, mas que, como é

[00:30:24] que a universidade tá no meio disso?

[00:30:26] Muitos professores hoje têm voltado a fazer coisas

[00:30:28] em sala de aula, do tipo assim,

[00:30:30] ah, uma prova, vai ser em sala

[00:30:32] pra pessoa não usar essas ferramentas.

[00:30:34] E por outro lado,

[00:30:36] você, como é

[00:30:38] que o conhecimento é visto?

[00:30:40] Pra que que é? Como a gente tem

[00:30:42] um olhar muito utilitarista, e eu acho que o

[00:30:44] exemplo que você deu é excelente, esse final de semana

[00:30:46] eu participei de um evento

[00:30:48] de literatura em Santos, da Rafa Literária

[00:30:50] e a gente tava falando justamente sobre isso.

[00:30:52] Porque alguém disse assim, ah, você não acha que

[00:30:54] a disciplina de análise de discurso faria

[00:30:56] muita diferença pra que

[00:30:58] as pessoas lessem melhor e tal?

[00:31:00] Eu falo, cara, você

[00:31:02] não vai matar um

[00:31:04] sabe, sei lá,

[00:31:06] uma coisa muito grande com

[00:31:08] uma formiguinha. Pode ser muito

[00:31:10] legal, mas a gente tem que pensar

[00:31:12] como é que o conhecimento,

[00:31:14] e nesse caso especificamente conhecimento em língua portuguesa,

[00:31:16] chega pras pessoas.

[00:31:18] Se você entra na escola

[00:31:20] e muitas das vezes o que te é

[00:31:22] dito por esse conhecimento é que não, isso que você tá

[00:31:24] falando é errado, você

[00:31:26] automaticamente tira essa pessoa da sala

[00:31:28] de aula, porque ela está na sala de aula,

[00:31:30] mas ela não faz parte daquilo,

[00:31:32] porque aquilo que ela conhece

[00:31:34] é colocado como

[00:31:36] ah, descarta isso, joga no lixo.

[00:31:38] É todo mundo que faz isso? Não, mas esse é um conhecimento

[00:31:40] muito comum no campo da língua portuguesa, né?

[00:31:42] Então essa pessoa já se sente deslocada ali.

[00:31:44] E aí ela

[00:31:46] precisa produzir pra nota.

[00:31:48] Então, que modelo de escola

[00:31:50] a gente tem, e aí

[00:31:52] escola, universidade, enfim.

[00:31:54] E que transformações a gente pode promover

[00:31:56] pra que o conhecimento

[00:31:58] não seja estritamente utilitarista.

[00:32:00] Numa sociedade desigual

[00:32:02] é muito

[00:32:04] difícil pensar sobre isso, porque as pessoas

[00:32:06] sim, faziam

[00:32:08] faculdade pra ter um diploma, pra tentar uma vida

[00:32:10] melhor. Eu mesmo sou essa pessoa,

[00:32:12] porque em casa

[00:32:14] a gente sempre foi uma classe média comum,

[00:32:16] mas meus pais não puderam estudar. Então eles

[00:32:18] queriam que eu pudesse mais.

[00:32:20] Então eles queriam muito que eu estudasse.

[00:32:22] E foi assim que eu fiz, eu fiz graduação,

[00:32:24] mestrado, doutorado, porque

[00:32:26] eles me deram todo esse suporte, porque a universidade

[00:32:28] que eu estudei também me deu esse suporte.

[00:32:30] Eu tinha bolsa de alimentação e transporte,

[00:32:32] sabe? Eu tinha caminhos ali

[00:32:34] pra me manter naquele espaço, quando as

[00:32:36] coisas não iam bem.

[00:32:38] Mas quanto é que as universidades

[00:32:40] têm isso, e quanto é que

[00:32:42] se investe em educação, e quanto é que

[00:32:44] se fala sobre conhecimento

[00:32:46] pra você expandir

[00:32:48] o seu olhar sobre o mundo, e não simplesmente

[00:32:50] pra você ter um diploma. E também, você falou

[00:32:52] de nota e tal, da

[00:32:54] língua portuguesa que ajeta as pessoas,

[00:32:56] e várias áreas do conhecimento, que quando

[00:32:58] você estuda, sei lá, literatura

[00:33:00] brasileira, deveríamos

[00:33:02] estar pensando em

[00:33:04] ah, sei lá, tive um problema

[00:33:06] na família, quem eu deveria ler

[00:33:08] para, sei lá, crise, paz e

[00:33:10] filhos, sei lá. Só que é

[00:33:12] difícil eu dar uma nota, né? Ah, eu li

[00:33:14] Machado de Assis, eu entendi

[00:33:16] confiança, sei lá.

[00:33:18] Não, é parnasianismo ou

[00:33:20] arcadismo. Então, tudo precisa

[00:33:22] ter um certo e errado, porque eu preciso

[00:33:24] dar uma nota, até porque

[00:33:26] o famoso mercado de trabalho,

[00:33:28] aí eu vou chegar lá, o meu chefe

[00:33:30] não tá preocupado se enquanto eu produzir

[00:33:32] aquele relatório, eu

[00:33:34] refletir sobre, cara, as vendas

[00:33:36] aumentaram ou as vendas caíram. Então,

[00:33:38] é o utilitarismo que você falou, que tá

[00:33:40] desde a escola de

[00:33:42] cara, eu preciso te dar uma

[00:33:44] nota, porque vai ter o ENEM,

[00:33:46] a minha escola pode até ser linda,

[00:33:48] te ler, não sei o que, mas existe

[00:33:50] uma avaliação federal, existe

[00:33:52] uma, se eu vou ganhar a verba do MEC,

[00:33:54] ou se eu não vou e tal. Então, a gente tá sempre

[00:33:56] botando réguas nas coisas,

[00:33:58] até na educação,

[00:34:00] e sei lá, hoje em dia tem relacionamentos,

[00:34:02] tava vendo a história da galera que usa

[00:34:04] e é pra otimizar o Tinder, ter mais

[00:34:06] encontros no Tinder e tal, tudo vira

[00:34:08] um número, tudo vira uma régua. É, o Tinder também funciona

[00:34:10] como algoritmo. Eu acho que

[00:34:12] depois do advento da internet,

[00:34:14] nos últimos 30 anos,

[00:34:16] eu acho que essa relação também

[00:34:18] mudou muito, porque

[00:34:20] a gente vem de uma promessa

[00:34:22] da internet

[00:34:24] de fato democratizar

[00:34:26] o acesso ao conteúdo, a gente

[00:34:28] vem daquela ideia muito

[00:34:30] inocente, é,

[00:34:32] tudo mais simples, mas de que

[00:34:34] putz, que legal que agora a gente vai ter esse ambiente

[00:34:36] digital onde todo mundo

[00:34:38] é igual e todo mundo pode

[00:34:40] participar, todo mundo pode se expressar

[00:34:42] e todo mundo pode aprender.

[00:34:44] E eu acho que isso tirou um pouco

[00:34:46] o peso de que

[00:34:48] não, você precisa ser formado

[00:34:50] numa universidade, porque não sei o que lá.

[00:34:52] Não, às vezes eu posso tá me aproveitando

[00:34:54] de tudo isso aqui, de todo esse conhecimento

[00:34:56] humano disponível,

[00:34:58] pra eu aprender

[00:35:00] e me expressar e progredir

[00:35:02] de outras formas. No entanto,

[00:35:04] a internet também mudou, né? A internet que a gente

[00:35:06] tem hoje, ela tá te colocando

[00:35:08] nesse moedor de carne, fazendo com que

[00:35:10] você se expresse da forma

[00:35:12] mais banal possível. Daí eu ia

[00:35:14] perguntar como que o seu estudo

[00:35:16] como linguista enxerga essas

[00:35:18] questões. Qual que é a

[00:35:20] importância da gente saber se comunicar

[00:35:22] hoje, pra além desse moedor

[00:35:24] de carne do digital que todos estamos,

[00:35:26] de todos estamos presos. Eita

[00:35:28] gente. Muito melhor a pergunta dela.

[00:35:30] Vocês fazem muita pergunta

[00:35:32] difícil. Tem toda uma volta

[00:35:34] aqui, mas era essas coisas que eu tava

[00:35:36] pensando enquanto você estava falando.

[00:35:38] Tudo isso pra dizer, o

[00:35:40] livro mais recente é o

[00:35:42] Comunicar Importa. Como Nos Comunicamos Importa.

[00:35:44] Como Nos Comunicamos Importa. Conta um pouco sobre ele.

[00:35:46] Engraçado, a gente tá falando de internet, né?

[00:35:48] Esse meu livro, ele vem

[00:35:50] no final das contas, ele deriva

[00:35:52] de um programa

[00:35:54] que eu fazia no YouTube, que hoje eu trago

[00:35:56] pro Instagram,

[00:35:58] que chama Notícias Incríveis.

[00:36:00] Claro que esse Incríveis

[00:36:02] é uma ironia, eu sempre

[00:36:04] há muitos anos eu analiso, eu comecei

[00:36:06] no YouTube esse ano completo há 10 anos, inclusive

[00:36:08] eu tô no YouTube, né? Esse ano, 2025.

[00:36:10] Isso, em 2025. Parabéns.

[00:36:12] Obrigada. Dia 5 de dezembro.

[00:36:14] Faz 10 anos que eu tô no YouTube

[00:36:16] e num dado momento eu comecei

[00:36:18] a olhar pras notícias e comentar

[00:36:20] essas notícias com

[00:36:22] um olhar de quem

[00:36:24] se interessa por questões de linguagem,

[00:36:26] né? E faz

[00:36:28] muitos anos que eu faço isso e

[00:36:30] a editora Planeta me convidou

[00:36:32] pra escrever esse livro e me sugeriu e falei

[00:36:34] ah, e o Notícias Incríveis?

[00:36:36] Se a gente transformasse isso

[00:36:38] num livro. E esse é um…

[00:36:40] é a série do meu canal

[00:36:42] que é mais conhecida, assim,

[00:36:44] as pessoas gostam de me ver falando sobre a questão das notícias

[00:36:46] e eu falei ah, pode ser uma boa ideia.

[00:36:48] Então eu escolhi quatro temas específicos

[00:36:50] pra discutir,

[00:36:52] né? Então, racismo, segurança

[00:36:54] pública,

[00:36:56] ascensão da extrema direita e os jornais

[00:36:58] e violência contra a mulher.

[00:37:00] E aí o que eu vou fazer é olhar

[00:37:02] pra como os jornais,

[00:37:04] alguns jornais,

[00:37:06] faço alguns recortes ali pra poder olhar pra essas questões,

[00:37:08] como é que eles estão

[00:37:10] falando sobre os episódios, né?

[00:37:12] Algumas das questões

[00:37:14] são já conhecidas de uma parte

[00:37:16] do público, assim,

[00:37:18] tem a ver, por exemplo, com pensar

[00:37:20] como é que se fala

[00:37:22] sobre o assassinato de uma mulher, né?

[00:37:24] Quem aparece? Mulheres são mortas

[00:37:26] por seus companheiros

[00:37:28] todos os dias, né? E aqui mesmo eu usei a voz passiva,

[00:37:30] né? As mulheres são mortas por seus companheiros.

[00:37:32] Então, os companheiros matam as mulheres,

[00:37:34] né? Como é que se fala isso?

[00:37:36] Então, como nos

[00:37:38] comunicamos importa, segue

[00:37:40] essa linha de olhar pra isso.

[00:37:42] Não com o objetivo de demonizar o jornalismo,

[00:37:44] de novo, sempre importante

[00:37:46] lembrar, mas de pensar na importância

[00:37:48] que o jornalismo tem e como

[00:37:50] transformações podem ser feitas

[00:37:52] e há diferentes maneiras de falar sobre uma mesma coisa,

[00:37:54] é sempre bom lembrar também. Eu não tenho o objetivo

[00:37:56] de dizer, você tem que falar do jeito que eu quero que você fale,

[00:37:58] pelo amor de Deus, quem sou eu na fila do pão?

[00:38:00] Mas de mostrar, falar, olha como tem diferentes maneiras

[00:38:02] da gente olhar pra esses

[00:38:04] títulos, pra essas manchetes, como há outras

[00:38:06] possibilidades, né? Porque no final

[00:38:08] das contas, eu venho

[00:38:10] falando isso já há algum tempo, e claro

[00:38:12] também não sou a única, o jornalismo

[00:38:14] é um espaço de produção de conhecimento sobre o mundo,

[00:38:16] um dos espaços, e um espaço

[00:38:18] muito influente de produção de conhecimento sobre

[00:38:20] o mundo, porque você tem ali

[00:38:22] editores, e falo no masculino

[00:38:24] de propósito, inclusive, né?

[00:38:26] Porque é uma maioria de homens,

[00:38:28] se não me escapa aí

[00:38:30] o entendimento, que decidem

[00:38:32] o que vai ser a pauta do dia, o que vão ser

[00:38:34] as pautas do dia, né?

[00:38:36] Quando a gente tinha um jornal impresso, estava

[00:38:38] muito claro ali, e agora no digital

[00:38:40] a gente tem esse outro movimento

[00:38:42] que é dos jornais

[00:38:44] buscando a atenção da audiência

[00:38:46] e disputando com

[00:38:48] o gatinho feliz,

[00:38:50] com o cachorro tomando banho,

[00:38:52] com a dica de maquiagem…

[00:38:54] Com a pessoa dando notícia fazendo maquiagem.

[00:38:56] Exato, com a pessoa dando notícia fazendo maquiagem,

[00:38:58] comigo

[00:39:00] que tô lá

[00:39:02] falando de notícias, então

[00:39:04] o jornal, ele pede esse lugar

[00:39:06] nesses últimos anos, o advento da internet,

[00:39:08] ele pede esse espaço de

[00:39:10] não o único, mas o grande

[00:39:12] produtor de conhecimento sobre o mundo,

[00:39:14] então ele disputa com muitas outras

[00:39:16] forças, inclusive com as próprias redes sociais,

[00:39:18] onde também estão,

[00:39:20] pra que sejam relevantes.

[00:39:22] E aí acho que o problema, um dos problemas

[00:39:24] tá inclusive aí, sobre essa questão da comunicação,

[00:39:26] falando especificamente dos jornais,

[00:39:28] é que nessa disputa de atenção

[00:39:30] a gente volta pra esse lugar que a gente

[00:39:32] tava falando antes. Como

[00:39:34] é que os títulos e as manchetes são

[00:39:36] produzidos pra fazer que as pessoas cliquem?

[00:39:38] Sim. E o problema é que muitas vezes

[00:39:40] as pessoas não clicam, porque elas também não querem

[00:39:42] pagar pela informação, e aí elas vão ler

[00:39:44] só o título ou a manchete.

[00:39:46] Que é uma coisa absolutamente

[00:39:48] sensacionalista, muitas vezes,

[00:39:50] e que não necessariamente corrobora com o que

[00:39:52] tá escrito no texto.

[00:39:54] Inclusive é muito comum você ver pessoas

[00:39:56] em artigos

[00:39:58] ou entrevistas falando assim

[00:40:00] esse título não fui eu que

[00:40:02] escolhi, então sabe,

[00:40:04] é o famoso tirado de

[00:40:06] contexto, mas assim, sei lá, eu tô te

[00:40:08] entrevistando aqui e eu vou botar uma

[00:40:10] chamada, assim, a língua morreu!

[00:40:12] Isso, exato! Assim, não, em nenhum momento

[00:40:14] eu falei isso, mas precisou de um título

[00:40:16] pra chamar atenção, pra gerar o clique

[00:40:18] e tal, o play e tal. E eu acho que pra quem é

[00:40:20] colunista, por exemplo, de jornal, isso é muito importante,

[00:40:22] porque não é ele quem escolhe o título.

[00:40:24] Quem escolhe, muitas

[00:40:26] vezes… Não é ele quem escolhe o que vai pra chamada na

[00:40:28] home, o que vai pra chamada nas redes sociais…

[00:40:30] Exato! E pra qualquer jornalista

[00:40:32] é isso, não só pra quem é colunista. Muitas vezes

[00:40:34] não é o jornalista que produziu aquele

[00:40:36] texto que vai dar aquela manchete, aquele

[00:40:38] título. Até porque a especialização

[00:40:40] do jornalista não é escrever,

[00:40:42] né, ou não deveria ser escrever

[00:40:44] a manchete mais

[00:40:46] chamativa possível. A especialização do

[00:40:48] jornalista é falar com as pessoas com quem ele tem

[00:40:50] que falar, apurar, escrever

[00:40:52] o texto com a maior correção e clareza

[00:40:54] possível. A partir dali

[00:40:56] a coisa vai embora. Mas o que eu ia perguntar é

[00:40:58] nesse seu… nessa sua

[00:41:00] observação, estudo

[00:41:02] tão próximo, nos últimos anos

[00:41:04] se você percebeu alguma mudança

[00:41:06] na forma como os

[00:41:08] jornais estão se expressando, em especial

[00:41:10] de dois, três anos pra cá?

[00:41:12] Porque tivemos o advento da internet,

[00:41:14] mas também estamos tendo o advento

[00:41:16] das…

[00:41:18] e as generativas. Se você

[00:41:20] acha que isso já tá impactando

[00:41:22] na forma como os jornais

[00:41:24] e revistas digitais se

[00:41:26] expressam, criam as suas manchetes.

[00:41:28] Isso não é uma coisa que eu olhei

[00:41:30] em detalhe hoje em dia,

[00:41:32] nesses últimos anos,

[00:41:34] o que eu posso dizer que eu

[00:41:36] sinto que mudou

[00:41:38] é que

[00:41:40] se tem um título muito sensacionalista

[00:41:42] ou que não combina com aquilo

[00:41:44] que tá posto num texto,

[00:41:46] por conta das redes sociais as pessoas reclamam.

[00:41:48] E também por conta desse espaço

[00:41:50] que é digital e que ele é mais fluido,

[00:41:52] digamos assim, essas

[00:41:54] chamadas elas são alteradas.

[00:41:56] Então isso é uma coisa interessante de

[00:41:58] você ver. É um movimento responsivo?

[00:42:00] É. Mas você vê

[00:42:02] numa certa pedida,

[00:42:04] algumas pessoas lá reclamando

[00:42:06] pô, não foi isso que aconteceu, que chamada horrorosa

[00:42:08] e aí você tem uma troca

[00:42:10] do que são essas chamadas.

[00:42:12] Certamente o uso das IAs

[00:42:14] tá aí impactando, como exemplo

[00:42:16] essa coisa da pessoa criar lá uma matéria inteira

[00:42:18] como se fosse

[00:42:20] dez livros pra se ler e nenhum livro existe,

[00:42:22] isso já acontece

[00:42:24] em algumas circunstâncias

[00:42:26] e eu acho que a tendência é piorar

[00:42:28] por quê? Porque a profissão

[00:42:30] do jornalista vem sendo também cada vez mais

[00:42:32] precarizada. Eu tava até

[00:42:34] eu ofereço um curso

[00:42:36] e ofereci uma edição especial do curso

[00:42:38] por conta do meu livro

[00:42:40] acabou agora recente

[00:42:42] em outubro e

[00:42:44] eu mandei pras pessoas um

[00:42:46] texto que eu li

[00:42:48] recente, é um texto antigo, mas que eu li

[00:42:50] recente, falando sobre a história do Caetano

[00:42:52] no Leblon.

[00:42:54] Que é um texto que tá na Piauí, chama

[00:42:56] Eu Existo, que é sobre a

[00:42:58] jornalista que escreveu isso.

[00:43:00] E esse texto, eu acho

[00:43:02] muito interessante pra gente pensar o funcionamento

[00:43:04] do jornalismo. De novo,

[00:43:06] se a gente tava falando lá atrás que

[00:43:08] existe uma transformação importante da nossa

[00:43:10] sociedade, que não necessariamente

[00:43:12] de novo, não é pra condenar

[00:43:14] as universidades, mas que a universidade não

[00:43:16] necessariamente acompanha no mesmo ritmo

[00:43:18] porque é uma instituição que, é isso,

[00:43:20] as mudanças acontecem mais lentamente

[00:43:22] igualmente pro jornalismo, você tem

[00:43:24] práticas de jornalismo que estão aí estabelecidas

[00:43:26] há muito tempo e que mesmo que

[00:43:28] haja discussão, pra que haja troca daquela

[00:43:30] prática, isso não se altera assim.

[00:43:32] E aí conhecer

[00:43:34] o que é o por trás

[00:43:36] da pessoa que escreveu é muito interessante.

[00:43:38] No caso desse texto do Eu Existo

[00:43:40] eu acho que ela se chama Elisângela

[00:43:42] a jornalista

[00:43:44] eu me esqueci, desculpa o nome dela

[00:43:46] ela vai falar sobre

[00:43:48] o que ela tinha que fazer todos os dias

[00:43:50] porque ela tinha que todos os dias entregar

[00:43:52] dez textos

[00:43:54] novidades e aí

[00:43:56] as pessoas ficam recebendo essas fotos

[00:43:58] de paparazzi e tal

[00:44:00] e naquele dia que só tinha ela na redação

[00:44:02] saco cheio total, era um pós carnaval

[00:44:04] não tinha notícia, uma pressão pra escrever

[00:44:06] dez novidades, ela

[00:44:08] recebeu as fotos desse paparazzi

[00:44:10] falando do Caetano

[00:44:12] e aí que ela decidiu

[00:44:14] seguir toda a premissa de jornalismo

[00:44:16] quem, o que

[00:44:18] quando e porque

[00:44:20] pra fazer

[00:44:22] essa coisa que virou uma lenda

[00:44:24] e aí um meme total e ela vai escrever

[00:44:26] esse texto e ela vai falar sobre

[00:44:28] ela manda uma carta pro Caetano

[00:44:30] contando tudo isso e eu acho

[00:44:32] interessantíssimo esse texto por isso

[00:44:34] pra mostrar um pouco também

[00:44:36] o que vive o jornalista

[00:44:38] médio, digamos assim, o médio nesse sentido

[00:44:40] é o cara que tá todo dia ali

[00:44:42] num chão de fábrica

[00:44:44] não é o repórter investigativo

[00:44:46] que hoje é muito consagrado e que também

[00:44:48] deve ter os seus problemas cada vez mais

[00:44:50] e que provavelmente passou por isso

[00:44:52] de uma outra forma num outro momento

[00:44:54] exato, e o quanto isso na verdade

[00:44:56] tá no jornalismo há muito tempo

[00:44:58] a gente tava falando sobre essa lógica

[00:45:00] do chamativo, do sensacionalista

[00:45:02] se hoje essa disputa é nas redes sociais

[00:45:04] uma delas, pela atenção

[00:45:06] antes era na banca de jornal

[00:45:08] que você tinha as capas

[00:45:10] de revista, são antes de tudo

[00:45:12] um trabalho de marketing

[00:45:14] não é só informativo

[00:45:16] não é só pela informação, porque um jornal se vende

[00:45:18] uma revista se vende

[00:45:20] ela não se mantém de outro jeito

[00:45:22] não é um serviço

[00:45:24] organizado pelo governo, entende?

[00:45:26] que você tem uma veba ali fixa todo mês

[00:45:28] não é BBC

[00:45:30] não é uma TV Brasil da vida

[00:45:32] que tem certamente os seus problemas

[00:45:34] mas que você tem ali uma estrutura

[00:45:36] que enfim, cada governo pode se alterar

[00:45:38] mas você entende o que eu quero dizer?

[00:45:40] e os jornais vem perdendo a arrecadação

[00:45:42] então

[00:45:44] como é que esse marketing do jornalismo

[00:45:46] não só vem perdendo a arrecadação

[00:45:48] eles vem perdendo o tamanho físico

[00:45:50] eu voltei a assinar jornal

[00:45:52] físico depois de anos

[00:45:54] o jornal de domingo gente

[00:45:56] parece uma revistinha, um negócio magrinho

[00:45:58] uma pena que tinha o caderno de cultura

[00:46:00] é então, eu tenho saudades disso

[00:46:02] porque eu cresci

[00:46:04] bom, quando eu era adolescente não existia

[00:46:06] computador, internet, celular, nada disso

[00:46:08] do que que eu dependia?

[00:46:10] eu dependia do jornal impresso que chegava na minha casa todos os dias

[00:46:12] dependia da rádio

[00:46:14] dependia da TV

[00:46:16] aí começou a Intivida e foi super legal

[00:46:18] nossa, sou jovem e tem uma coisa pra mim na TV

[00:46:20] mas

[00:46:22] quando começou a digitalização

[00:46:24] de tudo

[00:46:26] a promessa era essa, é legal

[00:46:28] agora você pode ter muito mais

[00:46:30] é muito melhor pra você

[00:46:32] agora você pode ter uma comunidade

[00:46:34] você pode ter acesso a informações

[00:46:36] não filtradas por esses jornais

[00:46:38] no entanto o que a gente está precisando hoje em dia de volta

[00:46:40] é algum tipo de filtro

[00:46:42] mas

[00:46:44] o empacotamento da informação

[00:46:46] também impactou muito

[00:46:48] já nos citou

[00:46:50] capa de revista

[00:46:52] é interessante porque a Veja

[00:46:54] ela

[00:46:56] levava, era uma opção

[00:46:58] a agência de publicidade da Veja

[00:47:00] funcionários darem ideias de

[00:47:02] capa e tal, não era 100%

[00:47:04] as capas, mas assim

[00:47:06] uma visão total de marketing

[00:47:08] como é que a gente bota isso na capa

[00:47:10] mas ainda assim, você compra Veja, Folho

[00:47:12] notícias populares que seja

[00:47:14] você compra o pacote por causa da manchete

[00:47:16] talvez, mas você leva aquele pacote

[00:47:18] agora

[00:47:20] a informação é atomizada

[00:47:22] eu vejo um post em alguma rede social

[00:47:24] eu vou ler aquela notícia

[00:47:26] eu não necessariamente vou

[00:47:28] perceber que está no veículo A, B ou C

[00:47:30] eu simplesmente vou

[00:47:32] consumir aquela notícia

[00:47:34] e depois, fim

[00:47:36] vocês falaram dos problemas dos jornalistas

[00:47:38] investigativos e tal, um dos problemas é esse

[00:47:40] eu preciso ficar um ano investigando isso aqui

[00:47:42] e no fim vai gerar

[00:47:44] uma unidade de post

[00:47:46] que é igual ao Caetano

[00:47:48] estacionando o carro no Leblon

[00:47:50] vai ser consumido atomicamente

[00:47:52] e não dentro

[00:47:54] de um pacote onde a conta se fecha

[00:47:56] e conectando

[00:47:58] com a história de manchete

[00:48:00] e tal

[00:48:02] Jana contou a história de que

[00:48:04] a manchete muda

[00:48:06] muitas vezes a manchete muda

[00:48:08] porque começa com uma manchete bem sensacionalista

[00:48:10] clickbait

[00:48:12] para cair no gosto do algoritmo

[00:48:14] e depois bota um mais suave

[00:48:16] mas tem outra coisa que eu acho

[00:48:18] muito mais perigosa, mas que é prática do marketing

[00:48:20] que é o famoso teste AB

[00:48:22] eu vou subir 10 títulos diferentes

[00:48:24] e eu vou deixar a máquina decidir

[00:48:26] o mais clicável

[00:48:28] então o trabalho de otimização de palavras

[00:48:30] para aparecer na busca

[00:48:32] do que está morrendo

[00:48:34] e é um programa que a gente

[00:48:36] acho que já até fez aqui

[00:48:38] eu deixo de escrever para seres humanos

[00:48:40] e começo a escrever para máquinas

[00:48:42] porque eu preciso que a máquina entenda

[00:48:44] o nosso episódio sobre algoritmo

[00:48:46] então eu preciso ter aquela frase

[00:48:48] o exemplo que eu sempre dou

[00:48:50] entrar no Google

[00:48:52] quando cai a Páscoa em 2026

[00:48:54] o primeiro resultado do artigo é assim

[00:48:56] a Páscoa é uma festa

[00:48:58] de origem cristã, judaica

[00:49:00] e a data só vai ter lá no final

[00:49:02] porque eu preciso alimentar a máquina

[00:49:04] com palavras suficientes

[00:49:06] para cair

[00:49:08] em primeiro lugar

[00:49:10] na busca

[00:49:12] então deixa de ser

[00:49:14] a verdade, a informação

[00:49:16] o que quer que seja

[00:49:18] e ser esse jogo de escolha

[00:49:20] de palavras que vão despertar

[00:49:22] gente, a gente trabalhou no Buzzfeed

[00:49:24] e era isso

[00:49:26] o que essa menina

[00:49:28] disse fez a cidade inteira chorar

[00:49:30] o número 5 vai emocionar

[00:49:32] exatamente

[00:49:34] a gente fez parte disso

[00:49:36] temos sangue debaixo das unhas

[00:49:38] eu fui e eu estava

[00:49:40] mas essa

[00:49:42] influência da tecnologia

[00:49:44] e agora que eu consigo botar

[00:49:46] inteligência artificial para gerar 200

[00:49:48] títulos e ver qual performa melhor

[00:49:50] não é causado

[00:49:52] pela IA

[00:49:54] você falou que estava no YouTube

[00:49:56] qualquer youtuber vai te dizer

[00:49:58] isso é uma coisa mais importante

[00:50:00] tem youtuber gigante que fala assim

[00:50:02] eu começo, ah tive uma ideia

[00:50:04] vou fazer um vídeo sobre a língua

[00:50:06] qual é o título e qual a thumb

[00:50:08] se eu não conseguir pensar num título

[00:50:10] e numa thumb legal

[00:50:12] eu nem começo a escrever

[00:50:14] então a língua está passando

[00:50:16] por esses desafios

[00:50:18] mas eu quero

[00:50:20] causar aqui

[00:50:22] o quanto também a gente

[00:50:24] não está

[00:50:26] fetichizando

[00:50:28] a cultura

[00:50:30] eu leio

[00:50:32] muita gente que escreve em inglês

[00:50:34] e os Estados Unidos é um país

[00:50:36] que se criou em cima dessa cultura

[00:50:38] literária, jornais, panfletos

[00:50:40] e o Brasil meio que

[00:50:42] pulou isso

[00:50:44] somos o áudio do WhatsApp

[00:50:46] somos o país do áudio do WhatsApp

[00:50:48] o quanto ler

[00:50:50] tem realmente essa importância

[00:50:52] ou isso que a gente está fazendo aqui

[00:50:54] conversando ou vendo um vídeo no Instagram

[00:50:56] que seja ou no TikTok

[00:50:58] quem não cumpre um papel de informar

[00:51:00] de formar, de ajudar a gente a pensar

[00:51:02] o quanto a gente não está

[00:51:04] defendendo o nosso ofício aqui

[00:51:06] que é escrever e elitizando a coisa

[00:51:08] eu acho que uma coisa não exclui a outra

[00:51:10] eu acho que o meu problema

[00:51:12] é quando a leitura

[00:51:14] não existe mais

[00:51:16] já existe pouco e vai deixando de existir

[00:51:18] porque as pessoas vão confiar em alguém

[00:51:20] que elas veem no TikTok e tal

[00:51:22] então eu estou no YouTube, eu estou no Instagram

[00:51:24] eu gosto de estar nesses espaços

[00:51:26] por exemplo, então não tenho como

[00:51:28] simplesmente só dizer tudo horroroso

[00:51:30] não é isso, eu acho interessante

[00:51:32] estar nesses espaços

[00:51:34] eu acho interessante acompanhar pessoas

[00:51:36] que falam sobre coisas que eu não conheço

[00:51:38] mas

[00:51:40] isso, excluir a leitura

[00:51:42] que eu acho uma pena

[00:51:44] o problema é como a leitura não chega para as pessoas

[00:51:46] como é que as escolas

[00:51:48] como é que são as bibliotecas das escolas

[00:51:50] como é que são os projetos de leitura nas escolas

[00:51:52] como é que é a leitura dentro de casa

[00:51:54] de novo, volta para o seu lugar

[00:51:56] igual, e como é que as pessoas

[00:51:58] têm acesso à leitura

[00:52:00] que tempo elas têm para a leitura

[00:52:02] se ela fica três horas no ônibus para ir e voltar

[00:52:04] lotado, que ela não consegue ficar nem de pé direito

[00:52:06] a depender do lugar onde se vive

[00:52:08] como é que

[00:52:10] ela segura um livro e lê, entendeu?

[00:52:12] eu acho que tem um monte de coisa

[00:52:14] aí no meio, nada disso exclui a possibilidade

[00:52:16] de você acessar conhecimentos

[00:52:18] em outras esferas e de outro jeito

[00:52:20] eu acho que é tudo

[00:52:22] seria bacana se tudo

[00:52:24] fosse estimulado, sabe assim?

[00:52:26] mas para aproveitar isso que você está falando

[00:52:28] como que a gente explica

[00:52:30] o que a gente perde

[00:52:32] quando a gente não está lendo

[00:52:34] isso é difícil

[00:52:36] de fazer, porque

[00:52:38] se a gente está falando dessa lógica meio

[00:52:40] não sei nem se a palavra é essa, utilitarista e tal

[00:52:42] então você colocar a leitura

[00:52:44] também nesse lugar, aí fica uma coisa meio doidona

[00:52:46] porque acho que a gente vive um mundo

[00:52:48] em que tudo precisa ter a tal da utilidade

[00:52:50] então quando você vai produzir

[00:52:52] a notícia, você precisa ter muito clique

[00:52:54] porque é um mundo capitalista, você precisa ganhar o dinheiro

[00:52:56] para pegar aquela audiência

[00:52:58] quando você está fazendo a faculdade é porque você precisa

[00:53:00] é isso, é a realidade que a gente tem mesmo, tá ok

[00:53:02] mas quando é só isso

[00:53:04] aí veja, se não

[00:53:06] atende a uma função específica

[00:53:08] pronto, acabou

[00:53:10] eu acho que a leitura

[00:53:12] é um lugar de

[00:53:14] de muitas coisas

[00:53:16] de um ensimesmamento, sabe?

[00:53:18] de você estar com você ali

[00:53:20] mas você não está só com você, você está com aquelas personagens

[00:53:22] você está com aquela autora que escreveu

[00:53:24] algo que você porventura tem interesse em ler

[00:53:26] você está em contato

[00:53:28] com aquela história

[00:53:30] sei lá, teve uma época

[00:53:32] ainda faço isso, que eu só queria ler

[00:53:34] mulheres e mulheres

[00:53:36] de países

[00:53:38] que eu nunca fui e não conheço

[00:53:40] não significa que essas mulheres estariam

[00:53:42] escrevendo ipsis literis o que acontece

[00:53:44] naquela cultura, mas eu queria entender

[00:53:46] eu queria ler coisas que

[00:53:48] me levassem para aquela

[00:53:50] imaginação daquelas mulheres

[00:53:52] e de novo, não é para colocar a mulher num potinho

[00:53:54] e estereotipar aquelas mulheres

[00:53:56] mas de falar como é que esses textos estão sendo

[00:53:58] produzidos nesses outros lugares

[00:54:00] porque eu tenho acesso a isso lendo um livro traduzido

[00:54:02] por exemplo, e aí palmas para quem traduz

[00:54:04] e traz isso para a gente

[00:54:06] mas como é

[00:54:08] que a minha

[00:54:10] imaginação é

[00:54:12] balançada

[00:54:14] quando eu leio

[00:54:16] um livro em que uma

[00:54:18] personagem passa pela situação xyz

[00:54:20] sabe?

[00:54:22] só aproveitando isso que você falou

[00:54:24] porque eu acho que toca no ponto principal

[00:54:26] que é a capacidade de imaginação

[00:54:28] e é por isso

[00:54:30] que uma IA generativa

[00:54:32] ou o que quer que seja

[00:54:34] a gente não fala que ela imagina, a gente fala que ela delira

[00:54:36] que ela alucina

[00:54:38] e talvez o que a gente perca de mais

[00:54:40] importante quando a gente para de ler

[00:54:42] é essa

[00:54:44] criatividade imaginativa que a gente tem

[00:54:46] que é o que nos torna humanos

[00:54:48] e pensar um pouco

[00:54:50] por exemplo, se você está lendo um livro de não ficção

[00:54:52] você vai poder

[00:54:54] entender a visão daquela pessoa que está escrevendo

[00:54:56] e do conjunto de pessoas que ela trouxe para dentro

[00:54:58] daquele livro, porque um livro é um livro com muita gente

[00:55:00] ali dentro, né?

[00:55:02] como é que essas pessoas estão pensando

[00:55:04] e isso pode te ajudar a pensar de um outro jeito sobre uma situação

[00:55:06] ou pode te ajudar a discordar daquilo

[00:55:08] a construção de um olhar

[00:55:10] mesmo, ou de múltiplos olhares

[00:55:12] sobre o mundo

[00:55:14] é muito difícil falar sobre isso, porque no mundo em que

[00:55:16] precisa ter tudo uma função

[00:55:18] isso serve para que?

[00:55:20] sabe? por exemplo, eu vendo cursos

[00:55:22] online, essa é uma pergunta constante

[00:55:24] serve para que?

[00:55:26] e eu sempre tive muita dificuldade de responder isso

[00:55:28] porque, ah sei lá

[00:55:30] você tem que encontrar um jeito

[00:55:32] de encaixar naquilo que a pessoa vive

[00:55:34] ah não, serve para você que está no trabalho

[00:55:36] e isso e aquilo, e de novo aqui

[00:55:38] não é, nunca é uma crítica às pessoas

[00:55:40] é sempre uma crítica

[00:55:42] lógica em que todos nós vivemos

[00:55:44] e que estamos aqui dentro dela

[00:55:46] então é uma crítica à estrutura jornalística

[00:55:48] é uma crítica a esse modus operandi

[00:55:50] do mundo, sabe?

[00:55:52] é uma crítica a como

[00:55:54] a gente vai virando uma espécie de

[00:55:56] robozinho também, porque

[00:55:58] eu estava vendo

[00:56:00] ainda não consegui ouvir

[00:56:02] mas era um episódio em que o

[00:56:04] Elvio Cotrim vai falar sobre leitura

[00:56:06] e dessa coisa de que a pessoa

[00:56:08] não vai mais numa biblioteca

[00:56:10] ou numa livraria, e simplesmente anda por ali

[00:56:12] e pega um livro, que agora você tem a lista

[00:56:14] dos 10 mais que você tem que ler

[00:56:16] então é como se você precisasse ler

[00:56:18] para você saber o que as outras pessoas estão sabendo

[00:56:20] sabe? ou sei lá, por qualquer outra razão

[00:56:22] não, é coisa utilitarista também

[00:56:24] de eu não vou

[00:56:26] ligar a televisão, vou ver uma novela turca

[00:56:28] vou ver um documentário sobre

[00:56:30] as baleias, sabe assim

[00:56:32] porque eu vou usar o meu tempo

[00:56:34] não tem um lazer, você não pode ter um entretenimento

[00:56:36] porque se você quiser ler os 10

[00:56:38] livros porque você achou legal, está tudo bem de novo

[00:56:40] não tem nenhum problema com a lista

[00:56:42] mas tem a ver com parece que a gente vai

[00:56:44] só pode fazer isso, então a gente vai

[00:56:46] parece que tem tanta opção

[00:56:48] de tudo, que então

[00:56:50] só se eu tiver uma sugestão

[00:56:52] porque senão eu não…

[00:56:54] vai que esse livro não é bom, essa coisa de hoje em dia

[00:56:56] que por exemplo, você entra num catálogo

[00:56:58] de um desses streamings, e você tem

[00:57:00] um milhão de coisas para ver, e que no final

[00:57:02] você não sabe o que ver

[00:57:04] porque é tanta coisa que você não sabe nem para onde você vai

[00:57:06] não, e elas são todas meio iguais, e na verdade

[00:57:08] no final não faz muita diferença

[00:57:12] é tudo meio parecido

[00:57:14] e a chance é que você também não está prestando atenção

[00:57:16] é isso, porque aí você está com o celular na mão

[00:57:18] aí você acha que já precisa falar sobre aquilo com alguém

[00:57:20] no exato instante que está acontecendo

[00:57:22] então, como é que se captura a atenção das pessoas

[00:57:24] hoje em dia, então essa coisa da nossa atenção

[00:57:26] que a gente não consegue mais ficar numa coisa

[00:57:28] de novo, eu estou com a sensação de que nós somos assim

[00:57:30] pessoas do século 15

[00:57:32] falando sobre a realidade do século 21

[00:57:36] não quero que pareça assim, sabe

[00:57:38] ai, tacanhas, não se atualizam

[00:57:40] e ninguém está aqui tentando ser ludita

[00:57:42] também, ninguém está querendo

[00:57:44] derrubar as tecnologias, não é isso

[00:57:46] não é isso, mas de pensar assim

[00:57:48] ah, o que que eu gosto

[00:57:50] frente a tudo que me é apresentado

[00:57:52] que eu deveria gostar

[00:57:54] ou que eu deveria acompanhar

[00:57:56] que eu deveria fazer, sabe

[00:57:58] de repente todo mundo só se veste de creme

[00:58:00] e marrom, porque supostamente

[00:58:02] só pode se vestir assim

[00:58:04] ou então a gente, sabe

[00:58:06] tipo essas tendências que vão vindo

[00:58:08] e que vão nos massacrando nas redes sociais

[00:58:10] isso atinge todo mundo? Não, de novo

[00:58:12] um país desigual, muita gente nem internet tem

[00:58:14] a televisão ainda cumpre um papel importante

[00:58:16] o rádio também, nada disso pode ser esquecido

[00:58:18] mas o quanto

[00:58:20] as redes sociais podem ser de alguma maneira

[00:58:22] um rolo compressor

[00:58:24] dos nossos desejos

[00:58:26] porque parece que você tem que fazer desse outro jeito

[00:58:28] de uma outra maneira

[00:58:30] pra atingir mais

[00:58:32] mais, pra ganhar mais, de novo

[00:58:34] é como se a gente tivesse que ser muito eficiente

[00:58:36] em tudo, então nenhum lazer

[00:58:38] pode ser só um lazer, sabe

[00:58:40] você não pode ver uma coisa qualquer

[00:58:42] você precisa ver uma coisa

[00:58:44] mesmo um livro de entretenimento

[00:58:46] um romance de entretenimento

[00:58:48] não, tem que ser

[00:58:50] o do autor X

[00:58:52] porque é o único que as pessoas disseram

[00:58:54] então é como se você não pudesse ler uma coisa ruim

[00:58:56] é como se você não pudesse ver um programa ruim

[00:58:58] é como se a gente não pudesse comer

[00:59:00] num lugar ruim, sabe

[00:59:02] mas eu acho que tem, não é ludismo

[00:59:04] século 15 e tal

[00:59:06] eu costumo dizer que muito

[00:59:08] do nosso trabalho é dar lente pras pessoas

[00:59:10] um, é dar lente

[00:59:12] falar assim, olha, você talvez não

[00:59:14] saiba, não viu que, sei lá

[00:59:16] manchetes, são 10 manchetes

[00:59:18] e o algoritmo, sei lá

[00:59:20] o que eu brinco que é o meu

[00:59:22] lema não oficial do meu trabalho

[00:59:24] que é você não tá maluco sozinho, que a pessoa vira e fala assim

[00:59:26] nossa, só eu achava

[00:59:28] tô de saco cheio

[00:59:30] só quero ver

[00:59:32] abrir

[00:59:34] e ver a minha novelinha vertical

[00:59:36] aqui, tá tudo bem

[00:59:38] então assim, é meio que tá tudo bem

[00:59:40] galera, eu acho que assim

[00:59:42] a gente, sei lá

[00:59:44] acho que a gente cumpriu muito aqui de prestar atenção

[00:59:46] e de novo no teu livro

[00:59:48] olha, aliás

[00:59:50] eu quero fazer um elogio técnico ao seu livro

[00:59:52] que as suas notas de rodapé ficam na mesma página

[00:59:54] que elas são citadas

[00:59:56] é, né, em vez de ficar

[00:59:58] no final

[01:00:00] não dá, abaixo a nota

[01:00:02] que vem no final do livro, toda vez que você tem que ir lá pro final

[01:00:04] abaixo, abaixo

[01:00:06] e quando é newsletter?

[01:00:08] eu uso muito roda de rodapé no Substack

[01:00:10] e elas todas vem lá embaixo, você acha isso ruim?

[01:00:12] é, mas ali não tem como, né

[01:00:14] se não vai interromper o texto

[01:00:16] mas você clica e volta

[01:00:18] porra, rodapé, você clica e consegue voltar

[01:00:20] lá pra cima, aí tá tudo certo

[01:00:22] ou então nesse caso da newsletter

[01:00:24] claro, tem textos longos em newsletter também

[01:00:26] mas pelo menos você sabe aquele fim

[01:00:28] você mantém um pouco aquela informação na cabeça

[01:00:30] você consegue depois olhar tudo no final

[01:00:32] mas num livro

[01:00:34] 300 páginas, no final tem 90 notas

[01:00:36] você fala, eu já nem sei mais

[01:00:38] que nota é essa, perdi completamente

[01:00:40] sou contra

[01:00:42] eu chamei você aqui pra fazer esse elogio

[01:00:44] pode dar um brincadeira

[01:00:46] eu só acho que não respondi uma coisa assim

[01:00:48] a questão da comunicação, né

[01:00:50] como é que a gente se comunica nesses tempos

[01:00:52] não sei

[01:00:54] essa é uma boa resposta

[01:00:56] achei muito franca

[01:00:58] as pessoas agora no lançamento do livro

[01:01:00] mas mais do que isso, eu acho que ninguém sabe

[01:01:02] ninguém sabe

[01:01:04] e tem sempre alguém querendo te dar uma solução mágica

[01:01:06] não existe

[01:01:08] eu sempre digo isso

[01:01:10] o texto não é um espelho do mundo

[01:01:12] o texto falado ou escrito

[01:01:14] portanto, você não vai conseguir expressar tudo

[01:01:16] exatamente da maneira como você acha

[01:01:18] porque você não está sozinho

[01:01:20] você vai mandar, você está falando com alguém

[01:01:22] você está escrevendo pra alguém

[01:01:24] essa pessoa tem as próprias experiências

[01:01:26] os seus conhecimentos de mundo

[01:01:28] e isso reflete na interpretação também

[01:01:30] não significa que essa interpretação seja tão ampla

[01:01:32] a ponto de você interpretar qualquer coisa

[01:01:34] não é isso

[01:01:36] hoje em dia pode ser, mas tem uma nuance ali de sentido

[01:01:38] que não adianta, que te escapa e que está ótimo

[01:01:40] na verdade

[01:01:42] porque quando você ouve uma música

[01:01:44] e você pensa num cenário daquela música

[01:01:46] você fala isso pra uma outra pessoa e está tudo bem

[01:01:48] o problema é quando num texto jornalístico

[01:01:50] você distorce tanto

[01:01:52] que vira toda uma outra coisa

[01:01:54] mas ali também há uma

[01:01:56] eu não gosto de usar a palavra fiesse

[01:01:58] mas você entende, ali tem um recorte

[01:02:00] essa palavra é melhor

[01:02:02] isso não pode ser ignorado

[01:02:04] as pessoas me perguntam muito sobre a questão da clareza

[01:02:06] e a clareza é uma sanha

[01:02:08] tem sempre algum coach de comunicação falando

[01:02:10] você precisa ser claro

[01:02:12] no mundo corporativo

[01:02:14] só se fala disso e eu acho que eu nunca serei contratada pra falar no universo corporativo

[01:02:16] porque eu sempre digo

[01:02:18] é uma falácia, essa clareza completa

[01:02:20] não existe

[01:02:22] tem as pessoas batalhando aí pela questão da linguagem simples

[01:02:24] que é uma outra coisa

[01:02:26] é dizer assim, um texto por exemplo

[01:02:28] jurídico

[01:02:30] ele está falando pra ninguém

[01:02:32] então como é que eu posso atualizar esse texto

[01:02:34] que é de milênios atrás

[01:02:36] isso não significa que ele vai ser menos

[01:02:38] formal, menos adequado

[01:02:40] não é disso que se trata

[01:02:42] não significa que ele não vai estar

[01:02:44] passando a linguagem

[01:02:46] a informação jurídica

[01:02:48] super específica que ele precisa passar

[01:02:50] ele só vai estar passando

[01:02:52] com maior

[01:02:54] amplitude

[01:02:56] isso, exato

[01:02:58] e aí quando me falam dessa coisa da clareza eu falo

[01:03:00] cara, você tem que fazer uma leitura

[01:03:02] de cenário por exemplo

[01:03:04] como é que a gente se comunica hoje

[01:03:06] faz uma leitura de cenário

[01:03:08] talvez seja o claro pra quem

[01:03:10] exatamente, pra quem você está falando

[01:03:12] o que é que você está falando

[01:03:14] e de que jeito

[01:03:16] você acha que pode ficar claro

[01:03:18] será que vai ficar 100% claro? talvez não

[01:03:20] talvez não e tudo bem

[01:03:22] porque como o texto não é pra todo mundo

[01:03:24] às vezes ele cai em alguém que não acha que aquilo está bom ou claro

[01:03:26] e está tudo certo

[01:03:28] isso é o texto também

[01:03:30] ele não precisa ficar claro pra ninguém

[01:03:32] obviamente, mas vai ter ali uma nuance

[01:03:34] de sentido inevitavelmente

[01:03:36] eu acho que isso é um

[01:03:38] acho que a gente entender isso é um ganho pra gente

[01:03:40] de você fazer uma boa leitura de cenário

[01:03:42] pra quem que eu estou escrevendo

[01:03:44] o texto do ENEM, pra quem você está escrevendo

[01:03:46] o que é que ele tem, tem ali

[01:03:48] muito determinado quais são aqueles

[01:03:50] parâmetros que você precisa seguir

[01:03:52] ainda assim tem margem pra um escape seu

[01:03:54] pras coisas que você quer trazer

[01:03:56] mas você sabe bem o que é aquilo

[01:03:58] está dizendo que é um texto em prosa, você não vai escrever uma poesia

[01:04:00] você vai ser cortado, não dá

[01:04:02] se você está escrevendo um relatório de trabalho

[01:04:04] você precisa mandar um e-mail pro seu chefe

[01:04:06] tem um jeito que você vai fazer

[01:04:08] mas esse jeito é muito diferente quando você está batendo um papo com seus amigos num bar

[01:04:10] e não só de registro

[01:04:12] mas o tipo de informação que você vai fazer

[01:04:14] é muito atrás

[01:04:16] é muito louca essa coisa da internet

[01:04:18] porque eu comecei a perceber

[01:04:20] que como eu puxo muitos ganchos

[01:04:22] quando eu estou produzindo uma coisa pra internet

[01:04:24] como se eu precisasse sempre explicar

[01:04:26] e aqui eu fiz isso várias vezes

[01:04:28] não, mas olha, não é isso

[01:04:30] a gente não pode esquecer disso, disso, disso

[01:04:32] porque não necessariamente as pessoas me conhecem

[01:04:34] ou sabem o que eu faço

[01:04:36] então eu preciso sempre apoiar o meu discurso

[01:04:38] nessas questões que são importantes pra mim

[01:04:40] eu me vi fazendo isso com amigos íntimos

[01:04:42] que começaram a me dizer

[01:04:44] o que eu faço pra ficar, a gente conhece

[01:04:46] então sabe quando você está falando uma coisa

[01:04:48] e parece que você vai puxando esses ganchos

[01:04:50] então é muito louco

[01:04:52] o quanto esse discurso atomizado das redes

[01:04:54] em que a pessoa pega esse episódio

[01:04:56] depois ela nunca mais vai ver a gente

[01:04:58] ou então ela vê um vídeo meu que viralizou

[01:05:00] e aí a pessoa vai dizer coisas absurdas

[01:05:02] porque ela não conhece meu trabalho

[01:05:04] ela não é obrigada a conhecer

[01:05:06] mas as redes sociais fizeram isso

[01:05:08] esse texto quando ele é compartilhado

[01:05:10] ele já ganha outros sentidos muito distintos

[01:05:12] então é difícil mesmo

[01:05:14] por isso que eu falei, não sei

[01:05:16] porque depende muito do que você está fazendo

[01:05:18] por onde você vai com isso

[01:05:20] quais os objetivos desse texto

[01:05:22] a gente já está indo pro final

[01:05:24] mas antes da gente encerrar

[01:05:26] tem um outro ponto

[01:05:28] que tem a ver com tudo isso que a gente está falando

[01:05:30] e você falou da questão

[01:05:32] do debate sobre linguagem simples

[01:05:34] e o debate sobre linguagem neutra

[01:05:36] nesse lugar

[01:05:38] onde habitamos hoje

[01:05:40] você como linguista

[01:05:42] você enxerga como?

[01:05:44] olha eu já falei muitas vezes

[01:05:46] sobre linguagem neutra que pode ser também chamada de linguagem não binária

[01:05:48] e esse é um assunto que por anos eu decidi trazer

[01:05:50] porque eu vi uma lógica de muito preconceito

[01:05:52] circulando

[01:05:54] e até hoje a gente vê muito isso

[01:05:56] em especial

[01:05:58] de pessoas mais conservadoras

[01:06:00] mas não só, mesmo em campo progressista

[01:06:02] você vê as pessoas dizendo que isso é uma bobagem

[01:06:04] e eu não acho que é uma bobagem

[01:06:06] porque é algo que existe no mundo

[01:06:08] isso não significa que todo mundo deva usar a linguagem não binária

[01:06:10] mas a partir do momento

[01:06:12] em que você conhece essas formas

[01:06:14] que são muitas inclusive, não existe uma só

[01:06:16] são muitos sistemas diferentes

[01:06:18] acho importante deixar claro aqui

[01:06:20] que linguagem não binária não significa

[01:06:22] começar a escrever as coisas com x no final

[01:06:24] é uma simplificação radical

[01:06:26] que não é a realidade

[01:06:28] ou com e

[01:06:30] foi algo que se começou a fazer

[01:06:32] usar esse x no final

[01:06:34] para não determinar o gênero

[01:06:36] para explicar para as pessoas o que isso significa

[01:06:38] na escrita tentaram não especificar gênero

[01:06:40] muitas vezes usando um x

[01:06:42] ao invés de querida ou querido

[01:06:44] e aí uma

[01:06:46] uma das discussões que surgiu

[01:06:48] é que esse x não é lido pelos ledores

[01:06:50] e isso então prejudica pessoas cegas

[01:06:52] isso também eu diria

[01:06:54] que é um argumento

[01:06:56] confuso, porque na verdade

[01:06:58] esses ledores são produzidos por humanos

[01:07:00] e pode haver aí uma regra

[01:07:02] para que o ledor no lugar que você tiver

[01:07:04] uma consoante seguida de um x

[01:07:06] na mesma sílaba

[01:07:08] que aquela consoante precisa ser lida de alguma maneira

[01:07:10] e não vai ser como x

[01:07:12] então qual regra você dá para esses ledores

[01:07:14] e como você treina eles

[01:07:16] para que eles não leiam esse x ali

[01:07:18] e aí muito desse argumento

[01:07:20] vem para falar só do x

[01:07:22] por exemplo, mas ninguém fala do

[01:07:24] tds, que é todos ou todas

[01:07:26] que a gente usa, dessas abreviações que a gente usa

[01:07:28] aos montes, muito que é mto

[01:07:30] nunca se fala disso

[01:07:32] nunca se lembra disso

[01:07:34] sempre se lembra da linguagem não binária

[01:07:36] o que nos mostra que o problema não é

[01:07:38] o ledor, o problema é a maneira como as pessoas estão olhando

[01:07:40] para a linguagem não binária, porque as pessoas não estão lá

[01:07:42] loucamente reclamando

[01:07:44] pode ser que as pessoas de baixa visão ou cegas

[01:07:46] reclamem disso, claro, mas

[01:07:48] entende, o público fica muito alvoroçado

[01:07:50] com a questão da linguagem não binária

[01:07:52] e aí traz esse tipo de argumento

[01:07:54] que esse mesmo público não vai discutir falando

[01:07:56] não está lá berrando, porque você está usando uma abreviação

[01:07:58] isso é um absurdo, entendeu

[01:08:00] nunca vi ninguém gritando na internet

[01:08:02] por conta de abreviações

[01:08:04] tem a ver também com, nenhum de nós aqui

[01:08:06] usa ledor de tela, mas

[01:08:08] eu estou preocupado com

[01:08:10] cara, tá bom, vamos lá perguntar

[01:08:12] exatamente, então vamos olhar

[01:08:14] para isso, vamos falar com quem desenvolve

[01:08:16] eu já falei isso algumas vezes inclusive no meu canal

[01:08:18] quem é que desenvolve, quais são as possibilidades

[01:08:20] desses sistemas

[01:08:22] porque tem alguém que desenvolveu aquilo ali

[01:08:24] pensando numa língua, e que língua é essa

[01:08:26] que está pensada naquele, então tem muita coisa para pensar aí

[01:08:28] só para dar esse exemplo

[01:08:30] mas a linguagem não binária, ela é

[01:08:32] um uso feito com pessoas

[01:08:34] que não se entendem dentro do espectro

[01:08:36] ou mulher ou homem

[01:08:38] masculino, mas não necessariamente

[01:08:40] essas pessoas podem preferir um ou outro

[01:08:42] ou qualquer um, feminino, masculino

[01:08:44] ou neutro, esses usos então não são

[01:08:46] feitos o tempo inteiro por todas as pessoas

[01:08:48] e existem

[01:08:50] outros caminhos inclusive, aqui eu acabei de fazer isso

[01:08:52] por todas as pessoas

[01:08:54] ao invés de todos os homens e todas as mulheres

[01:08:56] porque a gente tem um espectro aí

[01:08:58] da identidade de gênero que ultrapassa

[01:09:00] esse mulher e homem

[01:09:02] essa é uma discussão que já acontece

[01:09:04] há muito tempo, mas que não necessariamente

[01:09:06] chega para todo mundo

[01:09:08] e tudo bem, mas certamente

[01:09:10] uma pessoa

[01:09:12] trans, aí sempre me dizem

[01:09:14] mas o Brasil profundo, uma birra enorme

[01:09:16] com isso assim, você acha

[01:09:18] que numa cidade pequena, no interior de não sei

[01:09:20] aonde, eu sou de uma cidade pequena

[01:09:22] não existe uma pessoa trans

[01:09:24] que é confrontada com o fato de ser chamada

[01:09:26] pelo gênero que ela não quer

[01:09:28] e que é com isso, e isso a gente tem

[01:09:30] uma violência simbólica aí, então eu acho que a questão da linguagem

[01:09:32] não binária, é mais de você

[01:09:34] enxergar o outro

[01:09:36] e entender que esse outro

[01:09:38] pode demandar de você uma escolha

[01:09:40] que você não conhecia, e aí você pode

[01:09:42] aprender e pronto, não precisa se sentir

[01:09:44] constrangido, é uma questão de aprender

[01:09:46] por exemplo, e não precisa se sentir atingido

[01:09:48] a forma como ele

[01:09:50] está se expressando, não entra na internet

[01:09:52] é para ser atingido, é isso

[01:09:54] o tempo todo, porque é tudo sobre mim na internet

[01:09:56] tudo sobre mim, o que conversa muito

[01:09:58] com o episódio de treta que a gente gravou

[01:10:00] é isso da outra semana

[01:10:02] porque muitas das coisas que me incomodam

[01:10:04] é justamente esse desrespeito ao outro

[01:10:06] é como se o mundo girasse ao redor do seu umbigo

[01:10:08] são vários sistemas de linguagem não binária

[01:10:10] que estão aí circulando

[01:10:12] em diferentes espaços, você não precisa saber

[01:10:14] todos eles, mas você precisa ter uma atenção

[01:10:16] se você tiver, por exemplo

[01:10:18] só para a gente entrar na lógica

[01:10:20] do uso, dessa função

[01:10:22] se você estiver em um ambiente corporativo

[01:10:24] em que você está trabalhando junto com uma pessoa

[01:10:26] trans, se é uma mulher

[01:10:28] trans, você não pode usar o nome morto

[01:10:30] para falar com essa pessoa

[01:10:32] e isso é um retrocesso que vem acontecendo em países

[01:10:34] por exemplo, como a Inglaterra

[01:10:36] e a gente não pode deixar isso acontecer

[01:10:38] as pessoas têm o direito

[01:10:40] ah, então quer dizer, se eu quiser me chamar

[01:10:42] tomada, os conservadores fazem essa piada

[01:10:44] horrorosa, ridícula

[01:10:46] meu amor, você se chama do que quiser, mas não é essa a questão

[01:10:48] porque de novo, não está no seu umbigo

[01:10:50] e você não quer essa chamada de tomada

[01:10:52] essa é a questão, eu por exemplo já gravei

[01:10:54] com várias pessoas trans no meu canal

[01:10:56] e eu lembro de vir mulheres

[01:10:58] de um espectro bastante específico

[01:11:00] do feminismo

[01:11:02] chamar essa pessoa que era uma mulher

[01:11:04] uma mulher trans

[01:11:06] do nome morto, porque essas pessoas sabiam

[01:11:08] essa é uma violência, essa pessoa está escolhendo fazer isso

[01:11:10] então você não precisa se constranger

[01:11:12] se você não sabe os usos

[01:11:14] mas você pode perguntar

[01:11:16] e você pode ter atenção no seu entorno

[01:11:18] na circunstância em que isso te acontece, entende?

[01:11:20] acho que a questão é muito o respeito ao outro

[01:11:22] eu fiz uma vez

[01:11:24] tive o privilégio de

[01:11:26] preparar a Juvi Chagas para um TED Talk

[01:11:28] e o TED Talk ela meio que

[01:11:30] fala assim, você encontra um cachorrinho na rua

[01:11:32] você fala assim, ai que bonitinho, é menino ou menina

[01:11:34] então não tem problema, ninguém se sente

[01:11:36] ai, estou me…

[01:11:38] a gente naturalmente pergunta

[01:11:40] mas quando chega a ser uma, pergunta o gênio

[01:11:42] ai não, como assim

[01:11:44] cara, você

[01:11:46] a gente está acostumado a fazer isso

[01:11:48] mas vira isso que a Gaia falou

[01:11:50] não, ai você está ofendendo

[01:11:52] a minha isso aqui, não sei o que

[01:11:54] ninguém está nem ai para você

[01:11:56] isso de nome morto também

[01:11:58] é muito de, é óbvio que é de poder

[01:12:00] e eu lembro por exemplo

[01:12:02] o Muhammad Ali mudou de nome

[01:12:04] e os jornalistas continuavam

[01:12:06] chamando de Cassius Clay

[01:12:08] não, você entendeu

[01:12:10] é isso, eu vou

[01:12:12] você não tem o direito de escolher, você mudou de religião

[01:12:14] agora sua religião tem como prática

[01:12:16] te dar um novo nome

[01:12:18] por uma série de motivos, alguns políticos

[01:12:20] não, eu vou continuar te chamando

[01:12:22] então essa relação de poder

[01:12:24] mas eu tenho isso de

[01:12:26] procurar neutralidade

[01:12:28] de gênero quando eu escrevo

[01:12:30] por um motivo que é 200%

[01:12:32] não é a minha, mas que é assim

[01:12:34] eu não sei

[01:12:36] quem está lendo, ou no meu caso escutando meu podcast

[01:12:38] é homem ou mulher

[01:12:40] e na minha cabeça se eu usar

[01:12:42] uma palavra no masculino e for uma mulher ouvindo

[01:12:44] eu estou quebrando

[01:12:46] a ilusão de que eu escrevi aquilo

[01:12:48] nossa o Chris está falando

[01:12:50] comigo na minha orelha

[01:12:52] e ai eu falo ah

[01:12:54] você anda muito cansado

[01:12:56] eu não ando cansado, eu ando cansada

[01:12:58] então eu fico

[01:13:00] buscando construções que não é

[01:13:02] botar x, não é cansades

[01:13:04] porque eu acho que chama mais atenção ainda

[01:13:06] mas de novo, provavelmente ninguém

[01:13:08] presta atenção nisso

[01:13:10] mas é um exercício

[01:13:12] interessantíssimo de mudar

[01:13:14] a construção de frases

[01:13:16] eu faço muito isso

[01:13:18] teve um tempo que eu usava linguagem não binária

[01:13:20] no meu canal, sejam todos muito bem vindes

[01:13:22] e ai

[01:13:24] era um horror

[01:13:26] vários vídeos meus foram usados

[01:13:28] são usados em universidades

[01:13:30] e eu tenho uma sequência

[01:13:32] de vídeos que é usado em uma universidade

[01:13:34] pública e

[01:13:36] digital e que

[01:13:38] eu sei quando esse vídeo está sendo usado

[01:13:40] porque vem uma avalanche

[01:13:42] dizendo o que essa mulher está falando

[01:13:44] que absurdo, como é que me dão

[01:13:46] um texto como esse para ler

[01:13:48] a pessoa não está interessada em ouvir

[01:13:50] e veja eu não pedi para colocarem meu texto ali

[01:13:52] colocaram e eu nem sabia

[01:13:54] e depois eu comecei a perceber que tinha alguma coisa acontecendo

[01:13:56] porque de início de semestre

[01:13:58] vinha uma avalanche assim

[01:14:00] e hoje

[01:14:02] eu uso muitas vezes o feminino genérico

[01:14:04] porque o meu público é majoritariamente

[01:14:06] feminino, então sei lá

[01:14:08] 30% mulheres e 20% homens

[01:14:10] então muitas vezes eu uso o feminino

[01:14:12] sabe o que acontece? é muito interessante

[01:14:14] porque vários homens vem e falam assim

[01:14:16] ah mas eu não posso fazer

[01:14:18] porque é só para mulher

[01:14:20] eu acho legal no seu primeiro livro você fala

[01:14:22] o masculino é o genérico

[01:14:24] porque o genérico é masculino

[01:14:26] isso, a gente tem o masculino genérico

[01:14:28] essa é a regra da língua portuguesa

[01:14:30] mas não só da língua portuguesa

[01:14:32] e tem vários estudos para diferentes línguas

[01:14:34] que vão falar que esse masculino genérico

[01:14:36] são pessoas que estão pensando

[01:14:38] e regulando língua

[01:14:40] então você tem lá gramáticos

[01:14:42] por exemplo da língua inglesa

[01:14:44] que o genérico acontece de um outro jeito em inglês

[01:14:46] porque não é na terminação das palavras

[01:14:48] dos adjetivos por exemplo

[01:14:50] mas é no uso dos pronomes

[01:14:52] e também se usa o masculino

[01:14:54] e aí tem uma pesquisadora que foi ver que

[01:14:56] lá atrás as gramáticas falavam

[01:14:58] eu uso o masculino primeiro

[01:15:00] por conta do meu rei

[01:15:02] que é mais importante do que a rainha

[01:15:04] então veja totalmente pautado no que é o mundo

[01:15:06] como se fosse a regra da língua

[01:15:08] como se a regra da língua tivesse

[01:15:10] brotado de uma raiz de árvore

[01:15:12] ou como se tivesse vindo mandado por Deus

[01:15:14] exatamente

[01:15:16] e as pessoas mais conservadoras elas usam isso muito

[01:15:18] essa lógica do certo e do errado

[01:15:20] essa coisa de uma regra

[01:15:22] pra te dizer o que é chique

[01:15:24] ai chiquíssimo é não sei o que

[01:15:26] gente pelo amor de deus chique

[01:15:28] chique pra quem que contexto

[01:15:30] a língua é muito mais do que uma coisa chique

[01:15:32] pelo amor de deus

[01:15:34] e aí no caso do masculino genérico é interessante

[01:15:36] eu tenho vários exemplos

[01:15:38] inclusive de uma escritora linguista

[01:15:40] que produziu um livro

[01:15:42] usando o feminino genérico

[01:15:44] e o editor um homem disse ai desculpa não vai dar

[01:15:46] porque se não as pessoas não vão entender

[01:15:48] e aí você subestima a capacidade das pessoas

[01:15:50] isso também acontece pra linguagem não binária

[01:15:52] sempre se instrumentaliza um pobre

[01:15:54] genérico metafórico

[01:15:56] isso isso

[01:15:58] o brasil profundo

[01:16:00] o habitante do brasil profundo

[01:16:02] é horrível

[01:16:04] subestimando a inteligência das pessoas

[01:16:06] você tá dizendo que tem um grupo de pessoas

[01:16:08] que não entendem algo que veja

[01:16:10] você não tá transformando a palavra e usando ela

[01:16:12] de um outro jeito se você falar

[01:16:14] ah eu sou muito honrade de estar aqui

[01:16:16] pode ser que isso chame atenção mas a pessoa vai entender

[01:16:18] que a palavra honrado é honrada porque existe

[01:16:20] esse sistema em português você alterou

[01:16:22] esse final a pessoa não vai morrer por conta disso

[01:16:24] ela não vai ter um infarto ela pode ter uma curiosidade

[01:16:26] pode perguntar mas veja não é porque

[01:16:28] a pessoa mora do interior

[01:16:30] que ela não vai saber então você

[01:16:32] instrumentaliza você cria esse

[01:16:34] que depois virou piada até no twitter né esse pobre

[01:16:36] metafórico essa pessoa que

[01:16:38] supostamente não sabe

[01:16:40] ai você usa essa pessoa pra aprovar

[01:16:42] o seu argumento só que essa pessoa ela não existe

[01:16:44] porque as pessoas se elas não entenderam

[01:16:46] elas perguntam elas

[01:16:48] elas ficam curiosas isso não faz com que elas não saibam

[01:16:50] mais nada sabe a sensação que eu tenho é que é isso

[01:16:52] essa pessoa eu não entendo esse livro

[01:16:54] meu deus eu não estou conseguindo entender

[01:16:56] e ai no caso desse editor

[01:16:58] era uma coisa tão simples uma nota de rodapé

[01:17:00] primeiro uso do feminino

[01:17:02] genérico neste livro

[01:17:04] não podemos usar o feminino

[01:17:06] mas saibam que são todas as pessoas acolhidas

[01:17:08] pronto acabou bicho

[01:17:10] acabou resolvido

[01:17:12] tem essa ferramenta inclusive no livro

[01:17:14] que você pode fazer isso a nota de rodapé

[01:17:16] na mesma página

[01:17:18] na mesma página exatamente

[01:17:20] mas conectando com o início do papo de

[01:17:22] inteligência artificial

[01:17:24] você reforça então se eu escrevo um texto

[01:17:26] totalmente corporativo

[01:17:28] o papel do gestor e não sei o que

[01:17:30] o gestor não sei o que lá

[01:17:32] a inteligência artificial vai entender

[01:17:34] que gestores são sempre homens

[01:17:36] inclusive quando eu for na outra inteligência artificial

[01:17:38] de imagem um gestor

[01:17:40] em uma reunião vai sair a foto de um homem

[01:17:42] porque é isso eu estou reforçando

[01:17:44] através da linguagem aquilo ali

[01:17:46] mas tem essa

[01:17:48] que nem você falou no seu vídeo essas pessoas que

[01:17:50] você fala bom dia todes a pessoa

[01:17:52] para o vídeo você pode

[01:17:54] passar o resto do vídeo inteiro concordando com ela

[01:17:56] ela não quem que essa

[01:17:58] mulher falou todes

[01:18:00] está me ofendendo aqui minha

[01:18:02] identidade minha identidade

[01:18:04] e eu já fui execrada inclusive

[01:18:06] por pessoas progressistas execrada

[01:18:08] exagero né gente agora me coloquei no lugar de importância

[01:18:10] nossa ela

[01:18:12] a rainha da linguística

[01:18:14] já teve vídeo meu

[01:18:16] que muitas pessoas

[01:18:18] consideradas entendidas como

[01:18:20] progressistas de uma linha

[01:18:22] específica sei lá do marxismo

[01:18:24] dizendo que não que era um absurdo estar falando de questões

[01:18:26] de gênero porque o problema mesmo é classe

[01:18:28] e é um absurdo querer mudar a questão da

[01:18:30] língua porque o problema é outro

[01:18:32] a gente precisa entender que a língua é um espaço

[01:18:34] de disputa mesmo eu escrevi um texto há alguns anos

[01:18:36] para Marie Claire eu acho

[01:18:38] em que eu falo justamente isso

[01:18:40] a língua é uma arena de disputa

[01:18:42] então questões que estão na sociedade

[01:18:44] também aparecerão na língua

[01:18:46] porque as pessoas querem buscar o seu espaço também

[01:18:48] na língua e não tem ninguém reclamando

[01:18:50] hoje do Adoniran Barbosa

[01:18:52] que faz

[01:18:54] e ainda bem né gente pelo amor de deus não é para começar a reclamar

[01:18:56] é isso que eu estou falando

[01:18:58] gente pelo amor de deus é incrível

[01:19:00] o que ele produz e é isso

[01:19:02] aquele registro tem que estar lá

[01:19:04] porque faz parte daquela produção sabe

[01:19:06] e aí os registros

[01:19:08] eles vão incomodando as pessoas

[01:19:10] ninguém está reclamando do idioma usado

[01:19:12] em grande sertão vereda

[01:19:14] ah eu estou eu estou mas tudo bem

[01:19:16] deixa ele

[01:19:18] deixa ele reclamar

[01:19:20] eu pedi para o chatipete socorro

[01:19:22] essa página aqui

[01:19:24] eu não entendi nada me ajuda

[01:19:26] esse burrinho ainda estamos falando do burrinho aqui

[01:19:28] ou já mudou o bicho eu não entendi nada

[01:19:30] eu pedi

[01:19:32] eu sei que a gente tem que acabar mas

[01:19:34] eu acho muito bom quando a gente não entende

[01:19:36] veja o que eu quero dizer com isso

[01:19:38] que a gente não precisa entender tudo

[01:19:40] tem textos

[01:19:42] tem coisas que eu li ou assisti

[01:19:44] quando eu tinha 20 anos

[01:19:46] e que eu não entendi

[01:19:48] e que talvez eu reassista agora e eu entenda

[01:19:50] e se eu não assistir

[01:19:52] eu espero que eu tenha mais uns 40 anos de vida

[01:19:54] para eu tentar de novo outra vez

[01:19:56] nós somos seres em construção nesse sentido

[01:19:58] a gente segue aprendendo

[01:20:00] eu acho que

[01:20:02] nós somos seres humanos

[01:20:04] seguir aprendendo

[01:20:06] então quando você cria esse indivíduo metafórico

[01:20:08] que não entende que não sabe

[01:20:10] você está subestimando o mundo

[01:20:12] e o humano

[01:20:14] as pessoas elas aprendem todos os dias

[01:20:16] elas tem sentimentos sensações opiniões sobre as coisas

[01:20:18] essa pessoa pode se munir de mais

[01:20:20] arcabouços ai para fundamentar melhor

[01:20:22] essas opiniões pode claro

[01:20:24] claro claro

[01:20:26] isso é um caminho excelente de você construir um pensamento mais crítico

[01:20:28] e tal

[01:20:30] não é todo mundo que vai dar conta de fazer isso

[01:20:32] não é por isso que essa pessoa deve ser ignorada

[01:20:34] que não deve existir no mundo

[01:20:36] como se fazia e ainda se faz

[01:20:38] dizer que uma pessoa analfabeta não deveria ter direito a votar

[01:20:40] que que é isso meu amor

[01:20:42] essa pessoa vive na cidade vive no campo

[01:20:44] ela tem problemas ela sabe as coisas que ela enfrenta

[01:20:46] isso é um conhecimento

[01:20:48] que não pode ser ignorado

[01:20:50] sabe então de novo não está só na leitura

[01:20:52] como a gente falou antes

[01:20:54] então está nas experiências de mundo que a gente vive

[01:20:56] está em muitas coisas

[01:20:58] são todas essas coisas que nos fazem

[01:21:00] continuar aprendendo

[01:21:02] e eu acho que é isso que nos faz continuar imaginando

[01:21:04] mundos possíveis

[01:21:06] é isso que faz com que a gente tenha criatividade

[01:21:08] tudo isso junto é muito bom

[01:21:10] e como o sistema em que a gente vive

[01:21:12] vai matando tudo isso

[01:21:14] porque você não tem tempo para nada

[01:21:16] porque você vai você trabalha feito condenado

[01:21:18] e aquele dinheiro não supre direito que você precisa para o seu mês

[01:21:20] isso te faz ficar preocupadíssimo com isso

[01:21:22] então como é que você imagina

[01:21:24] como é que você vive um lazer

[01:21:26] se você está vendendo almoço para comprar janta

[01:21:28] sabe então

[01:21:30] e é o problema

[01:21:32] e como essas ferramentas podem estimular ainda mais isso

[01:21:34] porque essa falsa ideia de que agora você vai ter tempo

[01:21:36] mas aí os empregos vão ser roubados

[01:21:38] de um jeito tosco

[01:21:40] muita coisa acontece no meio do caminho

[01:21:42] dei uma viajada aqui mas

[01:21:44] é para falar que o texto falado escrito está no meio de tudo isso

[01:21:46] e se você

[01:21:48] as pessoas elas leem

[01:21:50] muito fora das condições ideais

[01:21:52] isso é maravilhoso

[01:21:54] mas que beleza seria um mundo em que a gente tivesse

[01:21:56] bibliotecas para todo lado

[01:21:58] que você pudesse lá alugar um dvd

[01:22:00] um cd

[01:22:02] que você pudesse lá escolher vários livros

[01:22:04] e que essa biblioteca tivesse atualizada

[01:22:06] com muitas coisas interessantes

[01:22:08] e que promovesse eventos

[01:22:10] que não fosse só a biblioteca Mario de Andrade

[01:22:12] que aparecesse o tempo inteiro falando de eventos super legais

[01:22:14] você falou de lista

[01:22:16] vou fazer um jabá aqui

[01:22:18] a Gaiana Newsletter tem uma lista

[01:22:20] fiz uma lista de 11 bibliotecas públicas em São Paulo

[01:22:22] mas eu parti do seguinte

[01:22:24] de uma informação que São Paulo tem 150 e tantas bibliotecas públicas

[01:22:26] mas o que também apareceu interessante na pesquisa

[01:22:28] é como elas são

[01:22:30] porque daí a gente tem ali

[01:22:32] 10, uma dúzia

[01:22:34] de bibliotecas que são muito legais

[01:22:36] como a biblioteca Mario de Andrade

[01:22:38] e a gente tem mais uma centena

[01:22:40] de bibliotecas que são mais ou menos

[01:22:42] exato

[01:22:44] qual é o estímulo que você dá para as pessoas verem

[01:22:46] para elas viverem o universo da escrita

[01:22:48] se a pessoa não pode comprar o livro ela não precisa comprar o livro

[01:22:50] ela deveria ter acesso a leitura nesses espaços

[01:22:52] isso deveria ser cada vez mais estimulado

[01:22:54] na verdade

[01:22:56] e para que a gente fosse encontrando

[01:22:58] brechinhas na nossa vida

[01:23:00] que a gente fizesse parte junto com o TikTok da vida

[01:23:02] o Instagram

[01:23:04] e que a gente não fosse devorada por essas redes só

[01:23:06] que a gente fica, fica, fica, fica

[01:23:08] a gente não consegue sair, quando a gente vê a gente ficou duas horas ali

[01:23:10] a gente tem fio

[01:23:12] e as vezes a gente pensa, é nesse sentido que eu falo sobre essas coisas

[01:23:14] porque muitas vezes a pessoa ficou duas horas ali

[01:23:16] e depois ela pensa, ai que pena, podia ter feito outra coisa

[01:23:18] porque a gente vai sendo devorado

[01:23:20] por aquilo, porque a gente está muito cansado

[01:23:22] porque a gente tem pouco tempo

[01:23:24] porque aí a gente quer só se divertir

[01:23:26] e aí a diversão nem é mais um filme

[01:23:28] aguinha com açúcar, é você ficar vendo

[01:23:30] consequência de coisas que não descansam a gente

[01:23:32] que deixam a gente cada vez mais estimulado

[01:23:34] ali, na catástrofe

[01:23:36] na tragédia, no sensacionalismo

[01:23:38] e que é um gatinho fofinho

[01:23:40] aí uma cena de guerra

[01:23:42] e depois uma receita de bolo

[01:23:44] e aí uma coisa para você comprar

[01:23:46] tudo para você comprar

[01:23:48] e uma vida que você não vai ter

[01:23:50] a gente fica olhando para essa vida dessas pessoas

[01:23:52] e a gente fica achando a nossa vida uma merda

[01:23:54] porque tem, sei lá, 50 blogueiras que são milionárias

[01:23:56] e que ficam postando esse mundo cor-de-rosa

[01:23:58] e daí

[01:24:00] tentando te empurrar o curso

[01:24:02] para você ser assim

[01:24:04] e aí você não vai conseguir ter

[01:24:06] a casa dela, mas a bolsa você vai ter

[01:24:08] o batom você vai ter

[01:24:10] então a gente vive uma lógica muito consumista

[01:24:12] que vai devorando mesmo a gente, que nos consome

[01:24:14] não é só a gente que consome um produto

[01:24:16] é essa lógica que nos consome mesmo

[01:24:18] e vai

[01:24:20] nos devora

[01:24:22] então quais são os pequenos caminhos, as pequenas brechas

[01:24:24] eu falo muito isso nos meus cursos

[01:24:26] quais são esses caminhos coletivos

[01:24:28] para você se reunir com amigos

[01:24:30] para bater um papo num bar

[01:24:32] é você se reunir com pessoas para ler alguma coisa

[01:24:34] ou para ver um filme, sabe

[01:24:36] depois falar desse filme

[01:24:38] e que tempo que se tem para isso

[01:24:40] e como a gente viabiliza esses espaços na nossa vida

[01:24:42] que são espaços de

[01:24:44] recuperação desse contato com o outro

[01:24:46] com a imaginação

[01:24:48] são pequenas rebeldias, tudo que te tira

[01:24:50] mesmo que momentaneamente

[01:24:52] desse grande moedor de carne

[01:24:54] onde a gente está no dia a dia

[01:24:56] são pequenas rebeldias válidas

[01:24:58] é muito crítico, sabe

[01:25:00] o movimento de mulheres que se reúnem

[01:25:02] mães, porque os seus filhos

[01:25:04] são assassinados pela polícia

[01:25:06] é um movimento que é muito duro

[01:25:08] mas é uma união

[01:25:10] de pessoas que tem alguma esperança

[01:25:12] de que unidas elas vão fazer aquelas coisas

[01:25:14] de um outro jeito, sabe

[01:25:16] é um grupo de leitura

[01:25:18] são tantas as possibilidades

[01:25:20] quando você decide fazer um curso

[01:25:22] quando você decide assistir uma aula

[01:25:24] quando você decide

[01:25:26] participar de uma atividade numa biblioteca

[01:25:28] ou alguma atividade numa biblioteca

[01:25:30] isso acontece em todos os lugares

[01:25:32] em bairros periféricos

[01:25:34] e em bairros mais centrais das cidades

[01:25:36] essas iniciativas elas estão em todos os lugares

[01:25:38] muitas vezes invisibilizadas

[01:25:40] por esse mar de coisas que a gente vê

[01:25:42] mas as pessoas elas estão aí se mobilizando

[01:25:44] para seguirem humanas mesmo

[01:25:46] então

[01:25:48] que espaços são esses que a gente encontra

[01:25:50] para seguir se sentindo humano

[01:25:52] acolhido, recebido em espaços

[01:25:54] de troca em que você vai ter também

[01:25:56] a diversidade de pensamentos

[01:25:58] sabe, eu não sei se vocês estão me achando

[01:26:00] muito tilelê nesse final

[01:26:02] mas é porque eu tenho esperança na vida

[01:26:04] no mundo

[01:26:06] exatamente, uma aluna minha falou isso ontem

[01:26:08] falou Jana, foi muito legal participar desse curso

[01:26:10] porque eu me senti, eu entendi que eu não sou maluca sozinha

[01:26:12] isso dá todo um nome

[01:26:14] para a podcast também, não estou maluca sozinha

[01:26:16] mas aproveitando o que você falou agora

[01:26:18] eu queria te pedir para encerrar

[01:26:20] dizendo para a câmera ali

[01:26:22] onde as pessoas que te conheceram aqui

[01:26:24] conseguem continuar te acompanhando

[01:26:26] em vários lugares, hoje elas podem

[01:26:28] conhecer algumas das coisas que eu penso

[01:26:30] nos meus livros, então o primeiro é o

[01:26:32] Escrever Sem Medo, um guia para

[01:26:34] todo tipo de texto, um manual para todo tipo de texto

[01:26:36] uma coisa assim, que é um

[01:26:38] material introdutório no sentido

[01:26:40] assim, é uma base para você pensar

[01:26:42] a escrita mesmo

[01:26:44] e no meu livro que acabou de sair também

[01:26:46] Pela Planeta, que é o Como Nos Comunicamos Importa

[01:26:48] eu até trouxe para dar de presente para você

[01:26:50] eu podia estar aqui

[01:26:52] na sua telinha, fazer aquela coisa

[01:26:54] chique de…

[01:26:56] mas é este livro que saiu agora

[01:26:58] e aí eu vou falar

[01:27:00] especificamente sobre essa questão das notícias

[01:27:02] como elas estão sendo reportadas

[01:27:04] como isso pode nos ajudar a ler

[01:27:06] as coisas, você pode me acompanhar

[01:27:08] nas minhas redes sociais, aqui hoje eu estou

[01:27:10] mais ativa é o Instagram

[01:27:12] é arroba Janaísa com S no final

[01:27:14] porque esse é o meu nome gente, Janaísa

[01:27:16] minha irmã chama Janaína

[01:27:18] uma dupla

[01:27:20] certaneja de sucesso teríamos sido

[01:27:22] mas não fomos

[01:27:26] então você pode me encontrar lá no Instagram

[01:27:28] mas eu também estou no Youtube

[01:27:30] Jana Viscardi, você pode fazer meus cursos

[01:27:32] eu estou agora no mês de outubro

[01:27:34] é a fase de outubro, novembro e dezembro

[01:27:36] de lançamento do meu livro

[01:27:38] então eu estou em várias cidades

[01:27:40] no dia 30 de outubro eu estou em

[01:27:42] Belo Horizonte

[01:27:44] depois eu vou estar em São Paulo de novo

[01:27:46] em dezembro eu vou para Campinas

[01:27:48] e aí nas minhas redes você consegue acompanhar

[01:27:50] por quais lugares eu vou passar

[01:27:52] e é isso, nos espaços das outras pessoas

[01:27:54] como é sobre isso

[01:27:56] obrigada querida

[01:27:58] pelo papo, pela tua presença aqui

[01:28:00] foi muito bom e obrigada por ter trazido o livro também

[01:28:02] obrigada

[01:28:04] e para você que nos acompanhou até aqui

[01:28:06] o meu muito obrigada

[01:28:08] eu vou pedir para o Cris deixar a palavra

[01:28:10] do episódio

[01:28:12] nossa agora você

[01:28:14] fala a palavra do episódio

[01:28:16] quem ouviu até aqui

[01:28:18] comenta

[01:28:20] comunicar

[01:28:22] comenta comunicar

[01:28:24] comenta comunicar

[01:28:26] comenta nos comentários

[01:28:28] é quase um trava língua

[01:28:30] e indica esse episódio

[01:28:32] para alguém que também vai gostar

[01:28:34] e esteja de novo conosco daqui a 15 dias

[01:28:36] obrigada