#283 - Autismo e Vida Financeira


Resumo

O episódio #283 do Introvertendo explora a relação entre autismo e vida financeira, com os participantes compartilhando suas histórias pessoais sobre ganhar e gerenciar dinheiro. Eles discutem como suas primeiras experiências com trabalho e salário moldaram sua relação com finanças, desde trabalhos precários em call centers até bolsas de estudo e estágios.

A conversa aborda os desafios específicos enfrentados por autistas adultos, incluindo dificuldades com funções executivas, impulsividade na gestão financeira e o impacto do diagnóstico nos custos de vida. Os participantes destacam como terapias e medicamentos para autismo representam despesas significativas, muitas vezes não cobertas adequadamente por planos de saúde ou pelo SUS.

Eles também discutem a tensão entre viver o presente e planejar para o futuro, compartilhando estratégias pessoais para lidar com orçamento, dívidas e investimentos. A descalculia é mencionada como um fator que complica a gestão financeira para alguns autistas, enquanto outros falam sobre a importância de encontrar equilíbrio entre recompensas imediatas e segurança financeira a longo prazo.

O episódio critica a indústria de coaching financeiro que ignora as realidades econômicas da maioria dos brasileiros, especialmente aqueles com condições como o autismo que aumentam os custos de vida. Os participantes refletem sobre como melhorar sua situação financeira através de educação, terapia e apoio mútuo, reconhecendo que estabilidade financeira é uma conquista significativa em um contexto desafiador.


Indicações

Conceitos

  • Educação financeira realista — Discutida como algo que só faz sentido quando as necessidades básicas são supridas, criticando coaches financeiros que ignoram a realidade de quem ganha salário mínimo.

Instituicoes

  • Naya Autismo — Instituição mencionada que oferece terapia gratuita para pessoas autistas, sobrevivendo de doações e enfrentando dificuldades para atender toda a demanda.

Linha do Tempo

  • 00:02:15Primeiras experiências com dinheiro próprio — Os participantes compartilham como começaram sua vida financeira. Marcos começou aos 19 anos em call center para ajudar a família. Gustavo teve bolsa de iniciação científica na faculdade e usou o dinheiro para tentar adotar um gato. João Victor teve uma experiência traumática trabalhando em uma loja onde vendia produtos pela metade do preço por dificuldades de memória.
  • 00:06:27Empréstimos para familiares e amigos — Isabela compartilha uma experiência de emprestar dinheiro para um tio em 2014 que nunca foi devolvido. Os participantes discutem a dinâmica problemática de emprestar dinheiro para familiares, com Gustavo comentando que sempre tomou calote de familiares, mas que amigos geralmente pagam. Eles concordam que dinheiro emprestado para parentes deve ser considerado como uma doação.
  • 00:13:02Desafios financeiros com filhos autistas — Marcos discute como ter um filho autista impacta suas finanças, mencionando os altos custos de terapias e medicamentos. Ele calcula quanto gasta com plano de saúde apenas para as terapias do filho Fernando. Os participantes refletem sobre como o autismo é um transtorno caro, especialmente para famílias que não têm acesso a terapias gratuitas ou pelo SUS.
  • 00:20:16Custos médicos e acesso ao SUS — Isabela compartilha sua experiência com custos de saúde como diabética tipo 1 e autista, destacando o alto preço dos medicamentos para TDAH. Ela defende o SUS como sistema essencial, mas reconhece suas limitações na prática. João Victor menciona como seu diagnóstico e terapia o permitiram finalmente conseguir e manter um emprego estável.
  • 00:27:47Dificuldades com números e descalculia — Isabela revela que foi diagnosticada com descalculia, o que explica sua dificuldade extrema com números e gestão financeira. Ela descreve sua jornada tentando aprender sobre investimentos, desde poupança até CDBs, mas expressa ceticismo sobre conselhos financeiros da internet. Gustavo compartilha que também descobriu ter descalculia durante sua avaliação neuropsicológica.
  • 00:33:10Equilíbrio entre presente e futuro financeiro — Os participantes discutem a tensão entre viver o presente e planejar para o futuro financeiro. Gustavo descreve como sua esposa busca recompensas imediatas enquanto ele prefere acumular para o futuro. João Victor admite cometer “besteiras” financeiras por se sentir merecedor de recompensas após dias difíceis de trabalho, reconhecendo que precisa de mais moderação.
  • 00:37:41Gatilhos para gastos impulsivos — Isabela compartilha duas situações em que quebra suas regras financeiras: após dias muito ruins, quando usa comida como consolo, e quando o TDAH a leva a comprar kits completos para novos hobbies que nunca pratica. Ela também menciona como a rigidez do autismo a impede de gastar dinheiro mesmo quando poderia, preferindo guardá-lo sem objetivo específico.

Dados do Episódio

  • Podcast: Introvertendo - Autismo por Autistas
  • Autor: NAIA Autismo
  • Categoria: Health & Fitness Mental Health Society & Culture Relationships Society & Culture Personal Journals
  • Publicado: 2025-11-21T03:00:00Z
  • Duração: 00:39:46

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:01] E aí, meus queridos, tudo bem com vocês?

[00:00:04] Eu sou o Marcos Osório, farmacêutico, esse é o podcast Introvertendo, um podcast feito

[00:00:08] por autistas, e o tema de hoje é autismo e vida financeira.

[00:00:12] Oi, meu nome é Isabela, eu tenho 30 anos e eu ainda preciso fazer no dedo contas como

[00:00:17] 5 mais 3.

[00:00:18] Eu sou o Gustavo Borges e eu sou milionário, basta converter pra Guaranis.

[00:00:22] Olá a todos, sou o João Victor Ramos, como falei, sou poeta, não fala de exatas comigo

[00:00:27] não.

[00:00:27] O que você vai fazer aqui então, amigo?

[00:00:30] Dá um exemplo negativo?

[00:00:32] Se você ainda não conhece o Introvertendo, seja muito bem-vindo.

[00:00:37] O Introvertendo, ele tem a versão em áudio e vídeo, no canal do Nai Autismo no YouTube

[00:00:45] a gente tem as versões em vídeo e temos também as versões somente em áudio nas

[00:00:50] plataformas digitais de streaming.

[00:00:53] O Introvertendo é um podcast que conta atualmente com um financiamento coletivo, a gente tem

[00:00:59] as plataformas digitais Catarse, Patreon e mais informações você pode encontrar no

[00:01:07] nosso site, www.introvertendo.com.br.

[00:01:12] O Introvertendo é um podcast feito por autistas, gravado nos estúdios da Faculdade Realiza

[00:01:19] com produção do Naya Autismo.

[00:01:24] Introvertendo, um podcast onde autistas conversam.

[00:01:29] Bom, e quando a gente fala a respeito de vida financeira, esse tema, ele é um dos assuntos

[00:01:37] mais importantes da vida do ser humano pós-moderno e na vida do autista adulto não seria diferente.

[00:01:45] Talvez dinheiro seja a principal causa de felicidade e de infelicidade do ser humano

[00:01:51] porque ele representa aquilo que a gente tem de poder de compra, digamos, né, e infelizmente

[00:01:57] ou felizmente a gente precisa dele.

[00:01:59] Eu gostaria…

[00:01:59] Eu gostaria de começar lançando aquela pergunta elementar e que talvez possa soar meio constrangedora

[00:02:07] para alguns, mas não para outros.

[00:02:09] Como foi a primeira experiência de cada um de vós com ganhar o próprio dinheiro, ter

[00:02:15] o próprio salário?

[00:02:16] Como…

[00:02:17] Quando começou a vida financeira de fato?

[00:02:19] Porque a vida financeira começa quando a gente tem a oportunidade de gerir o nosso

[00:02:25] próprio dinheiro e ter o nosso próprio salário.

[00:02:28] Eu comecei a minha vida financeira…

[00:02:29] Eu comecei a minha vida financeira aos 19 anos, com o meu primeiro trabalho e em comum

[00:02:34] acordo com meus pais eu decidi ajudar a minha família, basicamente isso.

[00:02:38] Eu simplesmente entreguei para minha mãe e falei, mãe, se liga, me ajuda aí, porque

[00:02:43] eu sou inexperiente na coisa e vou precisar de um apoio.

[00:02:47] Era realmente para ajudar a botar comida na mesa, cara, porque cada um com seus corres.

[00:02:51] Você começou a trabalhar formal com 19 anos?

[00:02:55] Sim, call center.

[00:02:56] Coragem, eu sei.

[00:02:58] Trabalho pesado.

[00:02:59] Pesadíssimo, para ter o mínimo, barbaridade.

[00:03:02] O antro da saúde mental, conforme já ouvi falar de diferentes fontes.

[00:03:06] Eu acho que eu posso falar que eu tive sorte, eu fui sustentado durante a faculdade, só

[00:03:14] que com limites, vamos dizer assim.

[00:03:17] Então não me faltava o que comer, não me faltava o teto, mas eu fazia estágio e eu

[00:03:25] tinha uma bolsa para poder ser técnico de laboratório da UFG.

[00:03:29] É isso aí, gente, dá para poder fazer a faculdade e receber por isso.

[00:03:32] Era pouquinho?

[00:03:33] Era pouquinho, mas foi a hora que eu falei, tá, esse dinheiro aqui eu posso usar.

[00:03:38] E eu posso usar sem parcimônia, porque eu venho de um contexto onde dinheiro é meio

[00:03:45] problemático, algumas pessoas têm, outras não, e fui meio nesse limbo.

[00:03:51] Então eu sempre fui criado para poder fazer durar.

[00:03:54] Então compra do mês sempre, vou comprar o básico.

[00:03:59] Vou pegar leve nas coisas, não vamos desperdiçar, mas esse dinheiro que eu tinha do estágio

[00:04:03] eu podia gastar, então eu juntei uns, é, eu acho que eu juntei uns quatro meses ali

[00:04:09] e comprei um Nintendo 3DS.

[00:04:11] Ótimo investimento, tá aí funcionando até hoje.

[00:04:14] Então, eu tive sorte também, talvez privilégio, eu não vou entrar nesse mérito, porque isso

[00:04:20] já deu briga aqui no episódio sobre habilidades sociais, mas o fato é que eu não precisei

[00:04:26] trabalhar.

[00:04:28] É…

[00:04:28] Tem muita gente que começa cedo, né, em jovem aprendiz, essas coisas, mas não foi

[00:04:33] o meu caso, meus pais me sustentaram na faculdade.

[00:04:37] Aí o primeiro dinheirinho que eu recebi, assim, eu tava na faculdade de direito ainda,

[00:04:41] foi uma bolsa de iniciação científica, chamava Jovens Talentos para Ciência, e assim, nessa

[00:04:47] altura do campeonato eu já tava querendo sair da faculdade de direito, mas aí como

[00:04:52] foi a primeira vez na vida que era um dinheiro que eu tava conquistando, eu falei, não,

[00:04:56] eu vou ficar aqui até a duração da bolsa.

[00:04:58] Que era mais um ano.

[00:04:59] Mas aí com esse dinheirinho, aí eu fui juntando, porque eu sempre sonhei em ter um gato.

[00:05:04] Meus pais sempre falaram, não, você não vai ter um gato.

[00:05:06] Mas na época, a minha lógica inquestionável, eu falo isso que parece que eu tinha 10 anos,

[00:05:11] né, mas não era o caso também.

[00:05:13] Na minha lógica inquestionável, eu ia juntar o dinheiro, aí eu ia ser responsável financeiramente

[00:05:18] pelo gato, e ele ia ficar dentro do meu quarto apenas, ele não ia transitar pela casa, ele

[00:05:24] ia ficar só no meu quarto.

[00:05:25] Nossa, seu quarto deve ser muito grande, então, né, pro gato.

[00:05:28] Não, não é.

[00:05:29] Aí, só que eu juntei o que eu considerava ser uma quantidade suficiente, né, pra convencer

[00:05:33] meus pais a poder adotar o gato.

[00:05:37] Aí, na hora que eu, né, apareci lá com um plano concreto, falei, ó, esse é o gato,

[00:05:41] eu queria chamar ele de Finnick, porque eu tava com hiperfoco em jogos vorazes.

[00:05:46] Falei, ó, tenho dinheiro pra, né, começar a minha vida de mãe de pet.

[00:05:50] Aí ela falou, bom, se você quiser ter um gato, você vai ter que morar em outro lugar.

[00:05:54] Aí, né, o sonho do gato morreu.

[00:05:57] Mas eu tinha esse dinheirinho igualzinho.

[00:05:58] Eu tinha um guardado.

[00:05:59] Aí eu já fiquei, ah, o que eu farei com esse dinheirinho guardado?

[00:06:02] Infelizmente, eu não sei dizer não.

[00:06:04] Aí, meu tio, eu tava precisando de um dinheiro emprestado.

[00:06:08] Complicado.

[00:06:09] E, além de não saber dizer não, eu ainda tenho essa síndrome de eu não posso ver

[00:06:14] uma pessoa precisando.

[00:06:16] Eu já quero, tipo, meu Deus, eu preciso ajudar essa pessoa, eu preciso fazer alguma

[00:06:18] coisa.

[00:06:19] Aí, meu tio veio pedir dinheiro emprestado pros meus pais, e eles não tinham.

[00:06:24] Aí, eu tinha esse dinheiro guardado.

[00:06:25] Eu falei, ah, vou emprestar pro meu tio.

[00:06:27] Isso foi em 2014.

[00:06:28] Perguntou.

[00:06:28] Pergunta se eu vi o dinheiro.

[00:06:29] Eu ia perguntar isso pra você.

[00:06:31] Eu não ia perguntar, porque a resposta é óbvia, né?

[00:06:36] Todas as vezes que eu emprestei dinheiro pra família, eu tomei um calote.

[00:06:39] Não emprestem o dinheiro pros seus familiares.

[00:06:41] Eu tenho esperança na humanidade, por isso que eu perguntei.

[00:06:44] Não, não empreste.

[00:06:45] Não.

[00:06:45] Vitor, eles não vão te devolver.

[00:06:46] Dinheiro que se é emprestado pra parente, pra pai, pra mãe, pra filho, pro Espírito

[00:06:50] Santo também, é dinheiro que você dá, na verdade, né?

[00:06:54] Isso não é emprestado.

[00:06:56] Ah, eu era jovem.

[00:06:57] Ah, um simbolismo.

[00:06:58] Se emprestar, mas no fundo, você sabe que você não vai ver esse dinheiro nunca mais.

[00:07:02] E se emprestar pros amigos, não vai ver nem o dinheiro nem os amigos.

[00:07:05] Pior que os meus amigos pagam, você acredita?

[00:07:07] Eu já emprestei dinheiro pra amigo, todos eles pagaram bonitinho.

[00:07:10] Meus familiares, que eu tomei calote de vários deles e foi, tipo, sei lá, um cinco.

[00:07:15] Eu não aprendo.

[00:07:16] Acho que agora eu tô aprendendo.

[00:07:18] É porque o amigo quer manter a relação.

[00:07:19] Claro que eu tenho amigos que já me pagaram de volta, tudo correto.

[00:07:23] Mas é porque teve gente que realmente foi saindo pela tangente da minha vida,

[00:07:28] cortando o contato, assim, e eu acho que uma das coisas era pra poder não pagar mesmo.

[00:07:32] Eu já fui uma dessas pessoas, não que pediu dinheiro pra Isabela,

[00:07:34] mas eu já pedi dinheiro pra amigo e eu devolvi antes do prazo.

[00:07:38] Inclusive, isso foi semana passada.

[00:07:40] E era 400 pila, tá?

[00:07:42] Tô quebrado até os ossos, mas promessa é promessa e tive que devolver, filho.

[00:07:47] Eu também recebi ajuda financeira dos meus pais durante a faculdade.

[00:07:51] Quando eu vim pra Goiânia estudar em 2015, eu morei uma época na casa de um primo meu.

[00:07:58] E depois, a minha irmã veio pra cá pra estudar também.

[00:08:02] A gente dividiu um barracão durante quatro anos e os meus pais me ajudaram.

[00:08:08] A minha primeira experiência de trabalho que eu tive na vida foi quando eu tinha, acho que 17 anos, uma coisa assim.

[00:08:17] Nessa época eu era da igreja e tinha uma irmãzinha lá da igreja que tava precisando de alguém pra trabalhar na lojinha de burujanga,

[00:08:24] que ela tinha lá no mercado municipal.

[00:08:27] Umas coisas, anzol.

[00:08:28] Linha de pesca, esses negócios.

[00:08:32] Vendia chumbinho lá na ilegalidade, né?

[00:08:34] Mas, enfim, essa história é muito boa, inclusive.

[00:08:37] E o funcionário dela tava de férias e aí ela queria contratar um rapaz lá que era colega nosso.

[00:08:44] Mas ele já tava em outro emprego e aí ele não aceitou e eu vi ela falando.

[00:08:49] E eu falei, ah, eu tô desempregado, por que não, né?

[00:08:52] E aí eu me ofereci.

[00:08:54] Mas, assim, ela meio que aceitou, meio desconfiada, assim.

[00:08:58] Meio que já sacando que poderia dar muito ruim, porque eu não era uma pessoa lá muito…

[00:09:06] Que transmitia muita segurança do que fazia, né?

[00:09:09] Não tinha experiência com nada na época.

[00:09:12] E aí eu fui trabalhar lá.

[00:09:14] Era pra eu ficar um mês cobrindo as férias do rapaz.

[00:09:17] Com 18 dias ela mandou o rapaz voltar e me mandou embora.

[00:09:23] Porque eu estava vendendo coisa por metade do preço que era.

[00:09:27] Porque eu não memorizava os preços das coisas.

[00:09:30] Tipo, tinha um estilingue lá que custava 15 reais, eu vendia por 3,50.

[00:09:34] Porque eu achava que era 3,50, porque eu não lembrava.

[00:09:37] Não tinha um lugar com registro, folhinha pra notar?

[00:09:40] Não tinha, não tinha etiqueta de preço.

[00:09:42] Lá é aquele mercado bem raiz mesmo, sabe?

[00:09:44] Não, mas tipo, um livrinho, uns preços pra você mesmo olhar e consultar?

[00:09:48] Ela simplesmente ia falando e eu tinha que ficar memorizando.

[00:09:51] E a minha memória é horrorosa.

[00:09:52] Pedir pra dar errado.

[00:09:53] Exatamente.

[00:09:54] Nossa.

[00:09:55] Aí, fora o fato de que…

[00:09:57] Pegava gente lá querendo pichinchar.

[00:10:01] E eu respondia mal, às vezes, a pessoa, porque eu não tinha paciência nenhuma.

[00:10:05] Falei, não, moço, o preço é esse.

[00:10:06] Ah, mas lá no Flamengo…

[00:10:07] Então vai lá.

[00:10:08] E aí os clientes iam embora, puta.

[00:10:11] E fora o fato também de que ela vendia chumbinho.

[00:10:14] E chumbinho é proibido, né?

[00:10:16] Esse chumbinho de espingar de pressão.

[00:10:18] E um dia eu peguei a…

[00:10:20] Veio uma pessoa querendo…

[00:10:21] Eu peguei a caixa, um saco de chumbinho, botei em cima do balcão, assim, ó.

[00:10:24] E tinha um buraco.

[00:10:26] No saco, eu não sabia.

[00:10:28] E o trem começou a derramar.

[00:10:30] E pá, pá, pá, pá, começou a cair chumbinho pra todo lado, pra todo lado.

[00:10:33] E quando pensa que não…

[00:10:36] Vai ela catando chumbinho de um lado, eu do outro.

[00:10:38] Final da história.

[00:10:39] Eu lembro que na época eu recebi, por esses 18 dias, ela me pagou uns 250 reais.

[00:10:45] Uma coisa assim.

[00:10:46] Em que ano que foi mesmo, pra gente ter uma noção melhor?

[00:10:49] 2014, 2013, 2014.

[00:10:51] Tá pouco.

[00:10:52] Tá pouco até pra época.

[00:10:53] Não.

[00:10:53] É, tipo assim.

[00:10:56] Era um salário cheio, mas ela foi descontando.

[00:11:00] Mas assim, pra mim, que eu era moleque, eu nunca tinha pegado um dinheiro desse na vida.

[00:11:05] Eu achei um dinheirão e fiquei felizão com isso.

[00:11:09] Só que a experiência de ter sido demitido do jeito que eu fui.

[00:11:14] E ela inventou uma história lá de que é porque ia antecipar as férias, não sei o quê.

[00:11:19] E também a dificuldade do autista de entender.

[00:11:23] Quando a pessoa tá falando uma coisa, mas quer dizer outra, né?

[00:11:25] E eu fiquei, mas como assim?

[00:11:26] Isso não faz sentido.

[00:11:27] Aí eu fiquei com isso na cabeça.

[00:11:29] Depois disso, eu meio que não consegui trabalhar mais em lugar nenhum.

[00:11:36] E fui focar só nos estudos, né?

[00:11:39] Nessa época eu tava, eu acho que eu tava final do ensino médio.

[00:11:44] Depois eu entrei na graduação.

[00:11:47] E isso aí é uma longa história.

[00:11:49] Mas assim, dessa época até mais ou menos, começo desse ano, eu fiquei me dedicando a estudar.

[00:11:56] E fazer pós-graduação, doutorado.

[00:12:00] Isso me causou um prejuízo muito grande no desenvolvimento social e no ganho de experiência profissional.

[00:12:08] O fato de que eu não tive experiência no mercado de trabalho de verdade mesmo, né?

[00:12:12] Essa experiência que eu tive, ela foi bem…

[00:12:15] Bem…

[00:12:16] Fora dos registros.

[00:12:17] Simplória, né? Em relação à experiência de fato.

[00:12:19] Por conta disso também, eu acho que a minha relação com o dinheiro,

[00:12:23] ela foi uma relação que…

[00:12:26] Não se construiu de uma maneira convencional, né?

[00:12:29] Comecei a ter o meu próprio dinheiro no final da graduação,

[00:12:32] quando eu comecei a fazer estágio remunerado lá na própria faculdade mesmo.

[00:12:38] E depois, quando eu fui pro doutorado, a bolsa de doutorado,

[00:12:40] que é meio que o salário que a gente recebe pra se dedicar integralmente a uma pesquisa,

[00:12:45] a trabalhar, a estudar, pra ciência, né?

[00:12:48] Quando eu passei no concurso agora, começo do ano,

[00:12:50] que eu realmente tive, de fato, um salário de verdade,

[00:12:56] que eu tive a sensação.

[00:12:57] E eu descobri que eu não sou tão ruim, assim, pra lidar com finanças quanto eu achava.

[00:13:02] Apesar de que eu tenho demandas que vão além da minha própria vida pessoal, né?

[00:13:08] Eu tenho um filho pequeno, eu tenho uma esposa que também trabalha,

[00:13:13] que também tem o dinheiro dela.

[00:13:14] Uma vida financeira de casal, como o Gustavo aí deve saber muito bem também,

[00:13:21] existe o seu dinheiro, o meu dinheiro e o nosso dinheiro, né?

[00:13:24] E aí eu queria que você falasse um pouquinho sobre isso.

[00:13:26] Aproveitando o gancho.

[00:13:27] Eu discordo.

[00:13:29] Existe o dinheiro do casal, o dinheiro dela e acabou.

[00:13:34] Nada a declarar. Nada a declarar.

[00:13:36] Na minha casa não é assim não, mas cada um é cada um.

[00:13:39] Não, é acordos o que a gente faz, mas porque ela paga contas da casa,

[00:13:45] colabora com tudo, jamais tô negando isso.

[00:13:49] Mas fica uma questão que o que eu tenho eu tô colocando ali,

[00:13:52] eu tô pagando, eu tô indo.

[00:13:53] Ela ainda…

[00:13:56] Reserva parte do dinheiro para sonhos futuros, viagens, shows, esse tipo de coisa

[00:14:01] e eu tô sempre pagando tudo que tem ali.

[00:14:03] Minha experiência financeira também foi muito diferente porque,

[00:14:06] para além do primeiro salário, ou eu gastava com mais vestimentas

[00:14:10] porque eu realmente tava precisando muito de roupa ou…

[00:14:12] Notas pela camiseta fabulosa que você tá hoje?

[00:14:15] Inclusive, não ironicamente, eu acho que eu comprei essa camisa nesse período.

[00:14:18] Obrigado por me lembrar, Gustavo.

[00:14:20] E, cara, atualmente onde eu trabalho, o dinheiro é meu.

[00:14:23] E por ironia do destino, minha gestão vem…

[00:14:26] Sendo…

[00:14:27] Não muito boa, digamos assim.

[00:14:30] Porque foi a primeira vez, a partir de junho de 24,

[00:14:34] que eu senti, que eu constatei que eu realmente poderia fazer

[00:14:37] o usufruto daquilo da forma que eu desejasse.

[00:14:39] Porque nos dois anos que eu fiquei no call center, era dedicado à família.

[00:14:42] E eu não me arrependo, sinceramente.

[00:14:44] Eu era muito criancinha ainda, apesar da idade dizer o contrário.

[00:14:48] Então, eu só ia fazer besteira.

[00:14:50] Se bem que eu fiz mesmo assim, com 24 anos.

[00:14:54] Tragédia.

[00:14:54] Tá tudo bem.

[00:14:56] Ajudou seus pais.

[00:14:57] Não tem nada de errado com isso.

[00:14:58] Não, não tô achando que é errado.

[00:14:59] Até porque a casa que você morava…

[00:15:00] Eu não me arrependo, cara.

[00:15:01] Pois é, então…

[00:15:01] Onde eu moro até hoje, diga-se de passagem, tá?

[00:15:03] Não precisa se arrepender.

[00:15:05] Essa é a questão.

[00:15:05] Tá de boa.

[00:15:06] Mas eu não falei que tô arrependido, Gustavo.

[00:15:07] Oxi.

[00:15:08] Desculpa.

[00:15:09] Nunca seria indelicado.

[00:15:10] Dadas essas considerações, eu fiquei vislumbrado.

[00:15:14] Tipo, cara, meu primeiro dinheiro de fato que eu posso fazer o usufruto da maneira que eu quiser.

[00:15:20] E eu gastei com jogos online.

[00:15:22] Uma boa porção.

[00:15:23] Ainda por cima no cartão de crédito.

[00:15:24] Inclusive, eu tenho uma história engraçadíssima.

[00:15:27] Bem estranha, pra dizer o mínimo.

[00:15:31] Porque eu tinha meu cartão, né?

[00:15:35] Que eu acho que era de débito, né?

[00:15:37] Beleza.

[00:15:38] Isso em 2022, no meu segundo emprego de carteira assinada.

[00:15:41] O qual eu fiquei uns três meses, então nem considero muito.

[00:15:44] Aí, eu fui solicitar um cartão de crédito pela conta do banco.

[00:15:51] O qual eu já tinha esse cartão de débito.

[00:15:53] E eu não achei…

[00:15:54] Eu não achava o ícone, o meio de pesquisa pra solicitar esse cartão.

[00:16:01] Até eu descobrir que o cartão físico que eu tinha em casa possuía ambas as funções.

[00:16:06] Débito e crédito.

[00:16:08] Eu só fui descobrir isso depois que eu virei o cartão.

[00:16:10] Eu nunca tinha virado o cartão naquele tempo todo, entre 2022 a 2024, pra ver que tinha as duas funções.

[00:16:16] Que bom pra sua própria segurança financeira.

[00:16:19] Que bom nada.

[00:16:20] Bom seria se eu não soubesse disso até hoje, filhão.

[00:16:23] Então, isso sim seria maravilhoso.

[00:16:24] Maravilhoso.

[00:16:25] Porque foi cada besteira que eu fiz, Jesus Cristo.

[00:16:29] Eu fico me perguntando agora.

[00:16:30] Alguns aqui já buscaram ter noções de educação financeira por contexto de vida, né?

[00:16:36] Existe muita confusão, assim, que as pessoas fazem em relação à educação financeira

[00:16:41] versus coaching de finanças, né?

[00:16:44] Que é uma praga aí que tá na moda.

[00:16:47] E, assim, na minha visão, uma educação financeira, ela só faz sentido

[00:16:52] de ser praticada.

[00:16:54] Se for possível que todas as demandas básicas de sobrevivência

[00:17:00] e de uma vida de qualidade forem supridas na vida da pessoa.

[00:17:04] Porque você falar de educação financeira pra pessoa que ganha salário mínimo,

[00:17:08] é de uma canalice.

[00:17:10] Porque, assim, não banca nem as contas direito.

[00:17:14] Sobretudo na vida de famílias que possuem integrantes autistas.

[00:17:19] Então.

[00:17:21] Pois é.

[00:17:21] Pense só.

[00:17:22] Mas que tipo de educação financeira?

[00:17:24] Que você acha que é uma canalice, assim, só pra…

[00:17:27] Alguém falar, por exemplo, que essa pessoa não consegue juntar dinheiro

[00:17:30] porque ela não tem disciplina financeira.

[00:17:32] E aí você vai ver um pobre, lascado, que mal consegue se manter.

[00:17:36] E aí ficar colocando na coisa da pessoa que ela não consegue melhorar financeiramente

[00:17:41] porque ela é estragada, porque ela fica gastando dinheiro com coisa que não é básica.

[00:17:45] Porque, assim, essa ideia de que o pobre só tem que trabalhar, pagar a conta

[00:17:52] e comprar o…

[00:17:54] a feira do mês.

[00:17:55] E ele não tem direito de fazer absolutamente mais nada.

[00:17:58] Não tem direito a um lazer, não tem direito de comer uma coisa diferente,

[00:18:00] sair pra um lugar diferente, às vezes.

[00:18:02] É um discurso elitista.

[00:18:04] E que, infelizmente, tem se multiplicado na internet.

[00:18:08] E tem gente ganhando dinheiro na internet, vendendo curso, falando esse tipo de coisa.

[00:18:12] Num país onde a maioria das pessoas vive exatamente essa realidade que eu falei agora.

[00:18:18] Então, a educação financeira, pra fazer sentido, ela tem que ser de acordo com a realidade da pessoa.

[00:18:22] Sim.

[00:18:23] Eu não discordo de você, não.

[00:18:24] Só pra falar.

[00:18:24] Eu não discordo de você fazer esse adendo.

[00:18:25] É só que eu fiquei curiosa mesmo.

[00:18:27] A minha mãe teve que entrar com ação no Ministério Público, alguma coisa assim,

[00:18:32] pra conseguir um remédio específico que era o olho da cara.

[00:18:37] Ainda é.

[00:18:37] Mas, na época, era o equivalente a um salário mínimo.

[00:18:40] E eu tava desempregado.

[00:18:42] Não tinha como eu suprir em nada.

[00:18:45] E pra ter uma qualidade de vida no Brasil, ganhando um salário mínimo,

[00:18:49] ou um pouquinho mais, já é terrível.

[00:18:51] Imagina tendo algum familiar autista.

[00:18:53] Eu me pergunto.

[00:18:54] Eu me pergunto, assim, com sinceridade.

[00:18:55] Porque isso é só o meu caso, que é nível de suporte 1, com um remedinho só.

[00:19:01] Quem dirá para outros remédios?

[00:19:04] E autismo é um transtorno caro, né?

[00:19:06] As terapias são caras.

[00:19:08] O próprio diagnóstico, a avaliação neuropsicológica é um absurdo.

[00:19:13] Então, já começa por aí, já.

[00:19:16] Terapia ocupacional, psicomotricidade, psicoterapia.

[00:19:19] Existe essa questão que o João Vitor comentou sobre o custo de vida aumentar,

[00:19:24] por conta de medicamento, por conta de terapias.

[00:19:27] Eu tava sentado essa semana pra calcular o tanto que eu tô gastando com plano de saúde

[00:19:32] por causa das terapias do Fernando, por exemplo.

[00:19:35] Eu fico pensando, tem muitos lugares do Brasil que não tem as terapias sem ser particular, né?

[00:19:42] Um tanto que deve ser caro.

[00:19:43] E muitas vezes, pra família que não tem condição e às vezes no SUS não consegue,

[00:19:49] a criança não vai ter acesso.

[00:19:51] E aí ela vai crescer.

[00:19:53] Com atraso no desenvolvimento e muitas vezes ela não vai conseguir estudar.

[00:19:57] E aí tem uma série de questões que envolvem isso.

[00:20:00] Mas, na sua percepção, o que mudou na sua vida do ponto de vista financeiro

[00:20:05] a partir do momento que você passou por um processo de diagnóstico?

[00:20:09] Olha, minha realidade de gastos com saúde já não era boa, porque eu sou diabética tipo 1.

[00:20:16] Então, eu já gasto muita coisa por conta da diabetes.

[00:20:19] Eu já tomava remédios psiquiátricos antes do diagnóstico.

[00:20:23] Porque, né, eu não tinha diagnóstico, eu não sabia o que eu tinha e era remédio, remédio, remédio.

[00:20:28] E depois do diagnóstico, aumentaram os custos, porque aí eram remédios mais específicos.

[00:20:34] Tem o remédio do TDAH, que é muito caro.

[00:20:38] E tem farmácia de alto custo no estado, tem terapias pelo SUS.

[00:20:44] Eu sou a primeira a entrar na fila da paulada de quem fala que o SUS é desnecessário,

[00:20:48] que o SUS não serve pra nada.

[00:20:49] O SUS é incrível.

[00:20:51] Entretanto, a gente sabe que a realidade é que,

[00:20:52] não dá pra todo mundo, fica faltando atendimento, acesso a direitos a terapias,

[00:21:01] que a gente tem direito por lei.

[00:21:04] Só que a realidade é outra, né?

[00:21:06] É muito bonito lá na lei, mas no dia a dia não é assim.

[00:21:10] Por isso que é importante a existência de instituições como o NAIO, por exemplo,

[00:21:15] que oferece terapia gratuita pra pessoas autistas, crianças, adolescentes, adultos também.

[00:21:21] Mas é complicado, porque até pra eles fica pesado,

[00:21:25] porque é uma instituição que não é privada, né?

[00:21:30] É uma coisa que sobrevive de doações e não consegue atender todo mundo.

[00:21:35] Então, acaba que, é que nem o Marcos falou,

[00:21:37] muita gente acaba sem o suporte necessário pra crianças, adolescentes.

[00:21:43] Isso é especialmente ruim, porque é importante ter esse apoio na hora do desenvolvimento.

[00:21:48] E eu acho que é muito difícil pra todo mundo.

[00:21:51] Ser autista não é barato.

[00:21:53] Terapias são caras, independentemente de quanto você faça.

[00:21:57] Eu acho que também você não pode sair sendo atendido por, aspas, né, qualquer psicólogo.

[00:22:04] Eu prefiro ir atrás de pessoas mais especializadas.

[00:22:07] Então, até quem tem plano de saúde é difícil.

[00:22:10] E psiquiatra também é muito difícil encontrar.

[00:22:13] A consulta, quando é por plano de saúde, dura 10 minutos.

[00:22:17] Você entra lá, fala alguma coisinha, o médico, ah, não, então tá bom.

[00:22:21] Toma aqui essa receita de um antidepressivo e é isso, tchau.

[00:22:25] E eu já conversei com uma amiga minha que é médica.

[00:22:27] Ela comentou comigo que, geralmente, isso é consulta de plano,

[00:22:31] porque é muito mais barata.

[00:22:33] A qualidade cai consideravelmente.

[00:22:36] Então, até quem tem plano de saúde tem que ir atrás, né?

[00:22:39] Eu não tenho filho autista, mas eu não moro embaixo de uma pedra.

[00:22:43] Eu tenho crianças autistas na família.

[00:22:46] Tem muita gente que tem plano de saúde, que o plano deveria cobrir,

[00:22:50] aí vai lá o pessoal do plano.

[00:22:51] O plano obriga as pessoas a entrarem na justiça.

[00:22:53] Também pode acontecer de o diagnóstico e as terapias serem bem feitas

[00:23:01] e o desenvolvimento acontecer e da pessoa melhorar financeiramente também,

[00:23:06] que foi o meu caso, né?

[00:23:08] Boa, garoto.

[00:23:08] Eu só consigo trabalhar hoje, estar num emprego fixo,

[00:23:13] estar num emprego concursado e ganhando um salário minimamente decente

[00:23:18] porque eu tive o diagnóstico e fiz…

[00:23:21] um ano e meio de psicoterapia e de outras terapias

[00:23:26] pra eu conseguir finalmente trabalhar.

[00:23:30] Porque durante muitos anos eu ficava me sentindo muito mal

[00:23:34] por não ter conseguido passar pela experiência profissional

[00:23:37] igual você passou, por exemplo, de jovem aprendiz e tal, bonitinho.

[00:23:40] Mas hoje eu entendo que é porque eu não tinha condições

[00:23:43] emocionais, psicológicas, não tinha condições.

[00:23:47] E esse é o tipo de suporte que durante muito tempo

[00:23:51] eu aprendi.

[00:23:51] Eu não precisei.

[00:23:53] Financeiramente, o autista que é bem cuidado, que é bem tratado,

[00:23:59] ele tende a melhorar, não só pelo fato de conseguir trabalhar em lugares melhores,

[00:24:04] mas também de permanecer nesses empregos, é importante,

[00:24:07] porque o gasto com medicamento psiquiátrico às vezes pode reduzir.

[00:24:12] Porque menos problemas pessoais gera menos adoecimento psicológico.

[00:24:16] Isso é um fato.

[00:24:16] Mas pensando na questão da dificuldade de gerir o próprio dinheiro,

[00:24:21] porque a gente começou a falar sobre isso

[00:24:24] e o João Vitor trouxe uma experiência de dificuldade de gerir

[00:24:27] as próprias finanças, de muitas vezes acabar

[00:24:30] assim, endividando. Quem nunca ficou devendo

[00:24:33] um empréstimo no banco que atira a primeira pedra,

[00:24:36] queria que vocês falassem um pouquinho sobre experiências assim. Você já ficou devendo?

[00:24:40] Já ficou no vermelho? Eu já fiquei várias vezes.

[00:24:43] Principalmente depois que eu terminei a graduação.

[00:24:45] Eu fiquei no vermelho, de fato vermelho, não no zero.

[00:24:48] No vermelho, uma única

[00:24:51] vez que eu passei

[00:24:54] um período desempregado,

[00:24:58] arrumei outro emprego, não durou muito

[00:25:01] e assim, se esvaiu

[00:25:04] o dinheiro rápido, foram os passos…

[00:25:05] Eu tive o acerto, foi durando, mas eu tive

[00:25:09] uma demora bem considerável pra eu poder me recolocar

[00:25:12] no mercado de trabalho. E aí quando tava

[00:25:15] assim, bem, bem ruim, eu tive

[00:25:18] que aceitar,

[00:25:21] borrar bem entre as pernas, pedir dinheiro pra parente,

[00:25:24] uma coisa que eu não queria ter feito pro meu padrasto e minha mãe.

[00:25:29] E me ajudaram um pouco na época

[00:25:31] e pra minha sorte gigantesca, porque tava assim,

[00:25:34] eles estavam prontinhos pra poder falar

[00:25:37] você não deu conta de ver a vida,

[00:25:40] vem voltar pro interior morar com a gente que a gente te banca aqui.

[00:25:43] Tavam prontinhos. Eu consegui um outro emprego.

[00:25:46] Não tava pagando muito, mas com certeza eu queria

[00:25:49] aquele emprego, com certeza eu fui.

[00:25:51] E depois disso fui me desenrolando de

[00:25:55] passar poucos períodos desempregados, fazer uma coisa, fazer outra.

[00:25:59] Eu sou publicitário por

[00:26:01] formação, por gosto e tudo, mas até

[00:26:04] trabalhar no Censo Agro do IBGE eu já trabalhei

[00:26:07] pra poder não ficar desempregado. E eu

[00:26:10] passei muito tempo com dinheiro contado

[00:26:13] porque eu tava

[00:26:15] recém-formado, tava trabalhando, minha esposa tava

[00:26:19] recém-formada, tava trabalhando. A gente falou,

[00:26:21] ah, vamos morar junto agora e vai ser lindo.

[00:26:25] Ela foi mandada embora um mês depois.

[00:26:27] Ela teve vários outros problemas de tentar

[00:26:31] distribuir currículo nessa cidade inteira.

[00:26:34] A profissionalidade não deu muito certo. Quando ela finalmente achou que seria

[00:26:37] um emprego, era uma cilada. Ela trabalhou

[00:26:40] lá pouco mais de um mês sem receber nada e

[00:26:43] assinar a carteira dela. Teve que entrar na justiça e foi

[00:26:46] um treco tão grande que a gente falou, tá, vamos viver com pouco,

[00:26:49] vamos apertar o cinto aqui pro urvão.

[00:26:51] Vários e vários anos e você vai

[00:26:54] fazer outra faculdade, vai buscar outro rumo

[00:26:56] que foi onde ela realmente se encontrou na

[00:26:59] economia. Eu falo, se eu tivesse uma máquina do tempo eu voltaria

[00:27:02] pra poder falar pra ela fazer esse curso logo de cara, onde ela é

[00:27:05] mais feliz, mais realizada e melhor empregada do que tava na

[00:27:08] biomedicina. Depois de muito tempo nesse aperto aí veio

[00:27:11] ah, formou, legal, um emprego, outro

[00:27:14] emprego e aí agora a gente tá um pouquinho mais

[00:27:17] estabilizado. Vermelho nunca mais.

[00:27:19] Por favor, sem

[00:27:21] política, só conta bancária.

[00:27:23] Ok, ok. Isso de

[00:27:25] gestão financeira, do controle

[00:27:27] do próprio dinheiro é uma

[00:27:29] coisa que eu tenho muita dificuldade

[00:27:30] porque assim que entram números

[00:27:33] no raciocínio, meu cérebro para

[00:27:35] de funcionar automaticamente.

[00:27:37] É mais forte do que eu. Antes eu

[00:27:39] achava que era lezeira minha, depois

[00:27:41] eu fui diagnosticada com descalculia,

[00:27:43] então não é apenas lezeira minha.

[00:27:45] Então, eu tenho muita

[00:27:47] dificuldade disso, de separar

[00:27:49] é, despesas,

[00:27:51] despesas pra cada coisa, né, pra

[00:27:53] isso é pra gastos essenciais, isso é pra

[00:27:55] não sei o que, aquilo é pra tal.

[00:27:57] Aí eu ainda tentei dar uma

[00:27:59] estudada nessas coisas

[00:28:01] desse assunto, né,

[00:28:03] pra conseguir ver se eu me interava

[00:28:05] melhor de como funcionava. Eu ainda

[00:28:07] era aquela pessoa que, ai, quando sobra

[00:28:09] um dinheirinho, eu tacava na poupança.

[00:28:12] Aí eu já vi um pessoal falando

[00:28:13] na internet, ai não, mas colocar

[00:28:15] na poupança é super, né,

[00:28:17] super antigo, você tem que

[00:28:18] investir melhor. Aí fui eu, né, pesquisar,

[00:28:21] o que que era investir melhor na cabeça do povo.

[00:28:24] Aí eu aprendi que tem que ser

[00:28:25] alguma coisa que rende, não,

[00:28:27] é o CDB que vem, rende 100%,

[00:28:29] pelo menos 100% do CDI.

[00:28:31] Ah, Isabela, o que que é isso? Eu não sei,

[00:28:33] eu repito que não é um papagaio. Eu aprendi

[00:28:35] e tá tatuado no meu cérebro,

[00:28:37] aí agora eu pesquiso,

[00:28:39] né, eu uso isso de referência,

[00:28:41] mas é muito difícil pra mim essa

[00:28:43] coisa de pensar

[00:28:45] finanças e

[00:28:47] nos vídeos que eu assisto,

[00:28:49] ah, mas então você pode fazer tal

[00:28:51] coisa, não sei o que, analise o mercado,

[00:28:53] se vale a pena. Aí eu já falo assim,

[00:28:55] eu não sei analisar em nada, não sei

[00:28:57] confiar nesse povo, porque eu saí de dois extremos.

[00:28:59] Quando eu era mais nova, eu era muito

[00:29:01] aspas, ingênua. Hoje em dia eu não confio em ninguém.

[00:29:04] Então, eu já vejo, né,

[00:29:05] esse povo na internet

[00:29:07] falando, ah, porque agora a Selic

[00:29:09] tá alta, a Selic é a taxa básica de juros,

[00:29:12] então tá compensando

[00:29:13] fazer tal coisa. Aí eu já fico assim,

[00:29:15] hum, mas será que tá mesmo? Não sei não,

[00:29:17] vou mexer nisso não.

[00:29:19] É, mas Isabela, para a,

[00:29:21] além da

[00:29:22] questionável habilidade de

[00:29:25] prever o mercado dessas pessoas,

[00:29:27] que na minha cabeça se fossem

[00:29:29] tão boas assim, tinham ficado ricas prevendo

[00:29:31] e não vendendo cursos,

[00:29:33] eu entendo muito isso,

[00:29:35] eu também descobri, descalculia

[00:29:36] só quando eu fiz a avaliação

[00:29:38] com a neuropsicóloga,

[00:29:41] e eu entendo muito a questão

[00:29:43] do nosso limite.

[00:29:45] Ah, talvez a gente conseguisse

[00:29:47] um pouquinho mais de dinheiro

[00:29:48] se fizesse aplicações e

[00:29:50] o tal do day trade, põe na bolsa

[00:29:53] e mexe. Mas vai

[00:29:54] torrar tanto o neurônio, vai ocupar

[00:29:56] tanto da nossa cabeça que a gente não

[00:29:58] vai ter paz

[00:30:00] mexendo com isso, e ainda com a gente perder dinheiro.

[00:30:03] Que é pior de tudo. Então faz

[00:30:04] exatamente o que você faz, eu tô fazendo

[00:30:06] isso aí também, é renda fixa,

[00:30:09] a renda é baixa, a chance

[00:30:11] de dar errado é baixa, vai

[00:30:13] e deixa lá, sobra um pouco, você

[00:30:14] deixa lá, tenta deixar um tanto

[00:30:16] fixo, e tenta pensar

[00:30:19] tá, eu recebo tanto,

[00:30:20] eu deveria estar gastando até

[00:30:22] tanto por mês, se é algo, se eu tô gastando mais

[00:30:24] que isso, tá errado, onde é que eu corto? Mas

[00:30:26] se essa maluquice numérica não é

[00:30:28] pra você, aceite e vai com calma.

[00:30:31] Interrompemos esse episódio

[00:30:32] para um rápido comunicado. Você já

[00:30:34] acessou o canal autismo.com.br

[00:30:36] hoje? Lá você encontrará

[00:30:38] uma série de reportagens sobre diversos

[00:30:40] assuntos muito relevantes para a vida de quem

[00:30:42] é autista ou para quem tem um autista

[00:30:44] na família. Lá você encontra

[00:30:46] a versão trimestral da Revista Autismo no formato

[00:30:48] digital, e também existe

[00:30:50] a opção de você receber na sua casa, pagando

[00:30:52] apenas o custo de envio, a versão física

[00:30:54] impressa. Aqui em Goiânia, você

[00:30:56] pode buscar na sede do Noia Autismo.

[00:30:59] Eu

[00:31:00] como

[00:31:01] eu até já comentei algumas vezes

[00:31:04] com algumas pessoas, eu tenho

[00:31:06] uma meta de melhorar minha renda, porque

[00:31:09] apesar dela

[00:31:10] não ser a pior coisa do mundo atualmente

[00:31:12] e ser muito melhor do que

[00:31:14] tudo que eu já ganhei na vida

[00:31:15] eu

[00:31:17] ainda não tenho

[00:31:20] condições de fazer uma reserva financeira

[00:31:22] por exemplo, porque a despesa que eu tenho hoje

[00:31:24] por ter uma criança, uma criança

[00:31:26] atípica, que precisa fazer um monte de terapias

[00:31:28] faz com que eu sempre

[00:31:30] viva com uma sobra

[00:31:32] financeira muito pequena em relação ao que eu ganho hoje

[00:31:34] mas

[00:31:36] eu tenho pretensões

[00:31:38] de melhorar isso, sim

[00:31:40] de repente até passar num

[00:31:42] concurso melhor em algum momento, ou não

[00:31:44] fazer um planejamento financeiro diferente

[00:31:46] enfim, tem muitas possibilidades

[00:31:49] mas

[00:31:50] eu

[00:31:50] , eu vejo que planejamento

[00:31:52] financeiro é uma coisa que pega

[00:31:54] pra muita gente que tá dentro do

[00:31:56] espectro autista, por ser uma dificuldade

[00:31:58] relacionada com a função executiva também

[00:32:00] e que

[00:32:02] às vezes a pessoa, ela simplesmente não

[00:32:04] consegue

[00:32:05] seja por impulsividade, seja por

[00:32:08] muitas vezes

[00:32:10] investir num lugar errado

[00:32:12] achar que o CDB tá valendo mais que o CDI

[00:32:14] ou seja

[00:32:16] porque

[00:32:17] ela não quer abrir mão

[00:32:20] de viver coisas

[00:32:21] que lhe são prazerosas

[00:32:23] que são importantes pra qualidade de vida

[00:32:26] como

[00:32:27] não só

[00:32:29] coisas que a pessoa gosta como hobbies e tal

[00:32:32] mas até mesmo coisas que fazem bem pra própria saúde

[00:32:35] em nome

[00:32:36] de, sei lá, viver

[00:32:38] uma coisa financeira boa lá pra frente

[00:32:40] com aquele pensamento de que

[00:32:42] a vida acontece agora, né

[00:32:44] e eu sou uma pessoa que tem uma questão muito forte

[00:32:46] com essa coisa de deixar

[00:32:48] de viver as coisas

[00:32:49] em nome do futuro

[00:32:51] às vezes eu tive muita dificuldade com isso durante muito tempo

[00:32:54] e continuo tentando

[00:32:56] equilibrar as duas

[00:32:58] visões, sabe, de ter um pouquinho

[00:33:00] de desfrutar um pouquinho das

[00:33:02] coisas atuais, mas

[00:33:04] sem deixar de pensar um pouquinho no futuro porque

[00:33:06] senão eu posso me enrolar também e aí

[00:33:08] não dá certo. A minha esposa ela é

[00:33:10] totalmente do caramba

[00:33:12] eu ralei tanto, eu mereço

[00:33:14] pedir esse lanche

[00:33:15] ah, eu vou guardar esse dinheiro

[00:33:18] pra gente poder viajar

[00:33:19] e ir num show da banda que eu gosto

[00:33:22] ela

[00:33:23] colocou pra ela mesmo que

[00:33:26] ela precisa ter essas recompensas

[00:33:28] e não é que não merece

[00:33:29] claro que ela merece, mas às vezes não dá

[00:33:32] agora tá um pouquinho mais fácil

[00:33:34] de dar, mas teve épocas que não dava

[00:33:36] e queria mesmo assim

[00:33:38] já eu sou totalmente

[00:33:40] essa sua ideia de, porra, eu podia

[00:33:42] guardar, guardar, guardar

[00:33:45] e ir lá na frente

[00:33:46] e ficar tranquilo

[00:33:47] eu queria realmente poder acumular

[00:33:49] eu até já vi reportagem que

[00:33:52] teve uma onda, claro, já acabou

[00:33:54] Estados Unidos já era, mas

[00:33:55] teve uma época que o pessoal lá tava

[00:33:58] trabalhando, vivendo com o mínimo do mínimo

[00:34:00] e se aposentando com 40, 45 anos

[00:34:03] porque acumulou dinheiro pra poder viver bem

[00:34:05] isso primeiro

[00:34:06] não dá certo na realidade brasileira

[00:34:08] mas bem que eu gostaria

[00:34:10] de poder só acumular, acumular

[00:34:12] e usufruir depois

[00:34:13] é justamente por esse senso de recompensa

[00:34:16] que você citou que sua esposa tem

[00:34:18] Gustavo

[00:34:19] eu acabo cometendo as maiores besteiras possíveis

[00:34:22] e imagináveis, porque eu fico tipo

[00:34:24] mano, eu sou elogiado tantas vezes

[00:34:26] no meu trabalho como um dos melhores funcionários

[00:34:28] de todos os setores

[00:34:31] sei lá, tipo, mano, eu mereço

[00:34:32] vai, na moral mesmo

[00:34:34] tô cansado pra caramba, eu mereço

[00:34:36] esse presente, e de presentinho

[00:34:38] em presentinho

[00:34:39] a conta vai se esvaziando

[00:34:42] cara, é muito chato

[00:34:44] porque eu tenho total consciência

[00:34:46] de que se eu fosse

[00:34:47] mais moderado

[00:34:49] eu ainda teria alguma reserva mesmo

[00:34:51] que mínima, apesar de todos os

[00:34:53] contratempos recentes, seja por questão

[00:34:55] de doença, seja por questão de remédio faltando

[00:34:57] seja por questão de tudo, sabe?

[00:34:59] tá aí a dica, quando você for

[00:35:01] encontrar uma pessoa pra poder se relacionar

[00:35:03] pra ter um relacionamento longo, duradouro

[00:35:05] e se casar, escolha uma pessoa

[00:35:07] que seja bem regulada nisso pra poder ajudar

[00:35:09] nessa parte de balancear contigo

[00:35:10] estilo Gustavo, entendi, captei vossa mensagem

[00:35:13] e aí você falou de uma coisa importante, né

[00:35:15] de que o casal que dá certo é sempre a pessoa

[00:35:17] que controla cada centavo com a pessoa

[00:35:19] que é impulsiva

[00:35:22] e que quer

[00:35:22] estar sempre procurando essa recompensa

[00:35:25] que você falou, ir uma casa com a outra

[00:35:27] e eu não tô citando

[00:35:29] o nome de ninguém aqui, pelo amor de Deus

[00:35:31] imagina, beijo, moça bonita

[00:35:33] mas uma coisa

[00:35:35] eu tô muito feliz atualmente, que apesar

[00:35:37] do dinheiro não estar sobrando muito

[00:35:39] eu não estou mais entrando

[00:35:41] no vermelho

[00:35:42] e não estou

[00:35:45] mais fechando

[00:35:47] as contas com saldo negativo

[00:35:49] e dever cartão de crédito, essas coisas

[00:35:51] a sensação de não

[00:35:53] estar no vermelho é maravilhosa

[00:35:55] de não estar devendo

[00:35:57] e cartão de crédito é uma das coisas mais

[00:35:59] perigosas que existe, porque tem uma taxa assim

[00:36:01] pior que a jota

[00:36:02] a gente não pode também ficar se culpando

[00:36:06] muitas vezes por não conseguir guardar dinheiro

[00:36:07] na inflação que o Brasil

[00:36:09] tem hoje, o preço das coisas assim

[00:36:11] tá absurdamente absurdo

[00:36:12] e a evolução do salário não acompanha o preço das coisas

[00:36:16] então

[00:36:17] às vezes

[00:36:19] você tá conseguindo

[00:36:20] pagar suas contas e viver com qualidade

[00:36:23] e não estar devendo ninguém

[00:36:24] você já tá melhor do que a maioria da população

[00:36:26] então a gente tem que ficar feliz por isso também

[00:36:28] porque é uma conquista

[00:36:30] é uma coisa que muita gente gostaria

[00:36:33] e isso não quer dizer

[00:36:35] que você não tem que lutar pra melhorar

[00:36:37] que você não tem que ficar se conformando

[00:36:39] até porque

[00:36:41] eu tenho muito medo

[00:36:43] daqui 10, 20 anos, quanto que vai estar o preço

[00:36:45] das coisas e se o salário

[00:36:47] vai acompanhar, eu acho muito difícil

[00:36:49] e claro

[00:36:51] também ver que

[00:36:53] vida financeira tá muito relacionada

[00:36:56] com a forma como a gente vê a vida

[00:36:58] de modo geral

[00:36:59] se você é uma pessoa que gosta de viver

[00:37:01] você não vai viver só em função de juntar dinheiro

[00:37:04] juntar dinheiro, juntar dinheiro

[00:37:05] e não vai usufruir de nada, você nem sabe se você vai estar vivo

[00:37:08] com 45 anos

[00:37:09] mas se você é uma pessoa

[00:37:12] imediatista

[00:37:14] impulsiva e que não pensa no futuro

[00:37:16] de modo nenhum, você vai passar a vida

[00:37:18] inteira vivendo no vermelho

[00:37:19] e isso é um fato

[00:37:21] via de regra, eu tendo a ser

[00:37:23] mais reservada com

[00:37:25] gastar dinheiro, agora especificamente

[00:37:28] eu não tô sobrando muito pra poder

[00:37:29] fazer escolha, né, mas

[00:37:31] quando sobra, eu geralmente fico

[00:37:33] ah não, não vou gastar isso não, vou guardar

[00:37:35] isso é o geral

[00:37:38] mas tem duas situações que

[00:37:39] eu acabo quebrando essa regra

[00:37:41] e é… eu tento

[00:37:43] segurar, mas assim, às vezes eu tive um dia

[00:37:45] muito ruim, eu geralmente faço

[00:37:47] isso como forma de

[00:37:49] estação pra dias ruins, não pra comemorar dias

[00:37:52] bons, aí às vezes eu tive

[00:37:54] um dia muito ruim, eu falo assim, não cara

[00:37:55] eu preciso lembrar que a vida não é

[00:37:58] uma bosta, vou pedir aqui um hambúrguer

[00:38:00] e é meio triste, né, você

[00:38:02] usar comida pra lembrar

[00:38:03] dessas coisas, mas essa é a situação 1

[00:38:06] e a situação 2 é quando

[00:38:07] o TDAH resolve atacar

[00:38:10] aí ele cisma que agora

[00:38:12] você mestra na arte de bordado

[00:38:14] livre, e aí eu entro

[00:38:16] na Shopping e gasto rios de

[00:38:18] dinheiro pra comprar todo o kit

[00:38:19] de iniciante do bordado livre

[00:38:21] aí chega lá em casa e eu nunca mais

[00:38:24] pego nele, a rigidez do autismo

[00:38:26] também me impede

[00:38:28] de usar dinheiro em momentos

[00:38:30] que assim, que nem eu falei, agora

[00:38:32] especificamente eu não tô assim, mas por exemplo

[00:38:34] quando tá sobrando eu poderia usar

[00:38:36] esse dinheiro pra, sei lá

[00:38:38] às vezes sair mais, fazer alguma coisa

[00:38:40] que eu gosto, mas eu acabo

[00:38:42] não, eu preciso guardar o dinheiro

[00:38:44] eu vou guardar o dinheiro, ah mas você tem algum

[00:38:46] objetivo? Não, mas eu cismei que eu tenho que guardar

[00:38:48] e eu vou guardar. Então

[00:38:49] essa discussão, ela tem muitos

[00:38:52] nuances, eu acredito que a gente conseguiu

[00:38:54] falar de muitas

[00:38:56] coisas que eu considero relevante

[00:38:58] pro autismo na vida financeira

[00:39:00] eu acredito que dinheiro é um assunto

[00:39:02] que vai nos perseguir ou não

[00:39:04] até o final das nossas vidas, então

[00:39:06] na próxima semana a gente terá um novo

[00:39:08] episódio com uma nova formação e eu agradeço

[00:39:11] a audiência

[00:39:12] e a atenção e a paciência

[00:39:14] de todos vocês, muito obrigado.

[00:39:19] Obrigado.