#458 “A Sociedade do Saco Cheio”
Resumo
Gabriel Divan e Felipe Abaldo Aravante, ambos professores, iniciam o episódio comentando sobre a sensação geral de cansaço e desmotivação, especialmente no final do ano. Eles observam que muitos alunos parecem apáticos, desengajados e sem energia para participar ativamente das aulas ou mesmo para atividades sociais. A conversa gira em torno das mudanças nas dinâmicas educacionais, onde a presença física não garante a atenção, com muitos estudantes presentes apenas de corpo, mas com a mente em outro lugar, frequentemente distraídos por celulares e múltiplas tarefas.
Os hosts discutem a pressão sobre os professores para serem “showmen” e tornarem tudo divertido, argumentando que algumas matérias exigem seriedade e estudo técnico, e nem tudo pode ser gamificado. Eles refletem sobre a geração atual, marcada pela tecnologia e pela incapacidade de estar plenamente presente em um só lugar, um fenômeno que Zygmunt Bauman já abordava com o conceito de “não-lugar”. A pandemia também é citada como um fator que agravou essa desconexão, criando hábitos difíceis de reverter.
A discussão avança para a invasão dos espaços pessoais, especialmente via WhatsApp, onde os alunos esperam respostas imediatas a qualquer hora, desrespeitando os limites entre vida profissional e pessoal. Eles criticam a transferência de responsabilidade, onde os estudantes não aceitam a possibilidade de fracasso ou reprovação, exigindo constantes “continues” como em um videogame. Eles contrastam isso com experiências próprias na faculdade, onde havia mais rigor, mas também mais distância e, por vezes, humilhação por parte de professores.
Por fim, eles reconhecem que, apesar dos problemas atuais, a relação professor-aluno hoje é mais aberta e acessível do que no passado, evitando os abusos de autoridade e a empáfia de outrora. O episódio termina com dicas culturais e um agradecimento ao público pelo carinho e engajamento, que motiva a continuidade do podcast.
Indicações
Filmes
- Os Infiltrados (The Departed) — Citado por Gabriel como um exemplo clássico e emocionante sobre infiltração policial, ideal para ilustrar discussões sobre a lei do crime organizado.
- Donnie Brasco — Filme baseado em caso verídico, recomendado por Gabriel para tratar de infiltração. Estrelado por Al Pacino e Johnny Depp, mas observa-se que os alunos provavelmente não o viram.
- O Poderoso Chefão — Mencionado como um filme que os alunos não viram, gerando surpresa nos hosts. Gabriel brinca sobre a polêmica de ser considerado o maior filme de todos os tempos.
- Goodfellas — Outro filme sobre máfia citado, mas com a certeza de que os alunos também não o assistiram.
Livros
- O Crime do Bom Nazista — Livro de Samir Machado de Machado recomendado por Gabriel. É uma novela curta que se passa em um zepelim nos anos 1930, com uma trama investigativa e personagens LGBTQ+ em papéis de poder e ação, fugindo de estereótipos.
- Os Homens Elegantes e Os Homens Cordiais — Série de livros do mesmo autor, Samir Machado de Machado, mencionada por Gabriel. Ele elogia especialmente o segundo volume, “Os Homens Cordiais”, por esticar a trama de forma interessante.
Pessoas
- Zygmunt Bauman — Sociólogo frequentemente citado como “o papa dos boomers”. Seus conceitos sobre modernidade líquida, o “não-lugar” e a falta de presença são usados para analisar a apatia e a fragmentação da atenção na era digital.
- James Goldsmith — Jurista teórico do processo mencionado por Felipe. Sua ideia sobre o dinamismo das situações processuais e a necessidade de aproveitar oportunidades foi usada como analogia para a vida e a aceitação de perdas.
- Aurí Celso de Lima Lopes Júnior — Professor e orientador de Felipe, conhecido como “advogado caminhão”. Foi quem o apresentou ao trabalho de James Goldsmith.
- Samir Machado de Machado — Escritor brasileiro recomendado por Gabriel, autor de “O Crime do Bom Nazista” e da série “Os Homens Elegantes/Cordiais”. É elogiado por criar narrativas com personagens LGBTQ+ em papéis de poder e ação.
Series
- Pluribus — Série da Apple TV+ recomendada por Felipe. Ele a descreve como arrojada, esquisita e diferente do usual, com dilemas interessantes, produzida pela mesma equipe de Breaking Bad.
- Tremembé — Série brasileira mencionada por Gabriel, que a considera divertidíssima pelo seu nível de ruindade que prende a atenção. Ele brinca sobre a possibilidade de aparecer o Robinho, já que a série trata de cumprimento de sentença estrangeira.
Linha do Tempo
- 00:05:10 — Introdução ao tema: Todo mundo de saco cheio — Gabriel e Felipe iniciam a conversa comentando sobre a sensação geral de cansaço e desmotivação, especialmente no final do ano. Eles observam que as pessoas estão apáticas, sem energia para conversar ou se engajar, e refletem sobre os dois extremos: ou se tenta resolver tudo de uma vez, ou se procrastina completamente. A discussão já aponta para a apatia que permeia o ambiente acadêmico e social.
- 00:07:44 — A analogia do piloto e do cirurgião: engajamento nos estudos — Felipe compartilha uma analogia que usa com seus alunos no primeiro dia de aula: se um piloto ou um cirurgião se preparasse com o mesmo empenho que alguns alunos dedicam ao curso de direito, ninguém se sentiria seguro. O ponto é questionar o nível de comprometimento e seriedade com que os estudantes encaram sua formação, sugerindo que há uma desconexão entre a responsabilidade profissional futura e a dedicação atual.
- 00:11:14 — A apatia no ensino superior e o mito da doutrinação — Os hosts discutem a realidade do ensino superior, desmistificando a ideia de que as faculdades “doutrinam” os alunos. Eles afirmam que, ao contrário, o problema é a falta de interesse e energia dos estudantes. Não há um desejo de se engajar politicamente ou intelectualmente; há uma apatia generalizada, onde até mesmo atividades de lazer, como festas, não despertam interesse. A questão central é a falta de vontade de qualquer coisa.
- 00:17:01 — A pressão para o professor dar “show” e a seriedade necessária — Felipe e Gabriel criticam a expectativa de que os professores precisam ser multitarefas, engraçados e usar tecnologia o tempo todo para prender a atenção. Eles argumentam que algumas disciplinas, por natureza, exigem seriedade, estudo técnico e momentos chatos. A tentativa constante de entreter pode ser constrangedora e criar uma dependência por estímulos externos, impedindo que os alunos desenvolvam a capacidade de se concentrar em conteúdos densos.
- 00:22:27 — O “não estar” presente: celulares e a fragmentação da atenção — Os hosts aprofundam a discussão sobre o uso de celulares em sala de aula. Eles descrevem cenas comuns: alunos fisicamente presentes, mas mentalmente ausentes, conversando no WhatsApp, assistindo a jogos ou fazendo compras online. Gabriel cita Zygmunt Bauman para falar do “não-lugar” – a sensação de estar em todos os lugares e em lugar nenhum ao mesmo tempo. Essa fragmentação da atenção impede um engajamento profundo com qualquer atividade, seja acadêmica ou de lazer.
- 00:31:36 — WhatsApp vs. E-mail: invasão de espaço e limites profissionais — Felipe expressa sua aversão ao uso do WhatsApp para assuntos acadêmicos, defendendo o e-mail como canal formal que respeita horários de trabalho. Ele argumenta que o WhatsApp invade o espaço pessoal e cria uma expectativa de resposta imediata, desrespeitando o professor como trabalhador que tem direito ao descanso. Eles discutem a importância de estabelecer limites claros de comunicação para preservar a saúde mental e a vida privada.
- 00:38:50 — O vício no celular: exemplo extremo na academia — Gabriel conta uma história vívida e absurda de uma mulher na academia que, durante uma aula intensa, rastejou pelo chão para pegar o celular no corredor, dar uma olhada rápida e voltar rastejando. O exemplo serve para ilustrar a dependência patológica e a ansiedade geradas pelo dispositivo. Eles refletem sobre o que leva alguém a um comportamento tão extremo por algo que, na maioria das vezes, não é urgente.
- 00:45:31 — O legado da pandemia: aulas online e a “câmera fechada” no presencial — Os professores discutem como a pandemia deixou marcas duradouras no comportamento dos alunos. Eles notam que, mesmo no ensino presencial, muitos agem como se ainda estivessem no virtual: desengajados, fazendo outras atividades paralelas, como se a câmera estivesse fechada. A experiência do ensino remoto criou hábitos de baixo comprometimento e multitarefa que são difíceis de reverter, e o presencial parece estar imitando os vícios do virtual.
- 00:52:54 — A incapacidade de lidar com a perda e a transferência de responsabilidade — Felipe e Gabriel abordam um fenômeno preocupante: a dificuldade dos alunos em aceitar a reprovação ou qualquer resultado negativo. Eles observam uma mentalidade onde o estudante acha que “não pode rodar” e transfere a responsabilidade para o professor, exigindo compensações. Os hosts contrastam isso com suas próprias experiências na faculdade, onde era natural assumir as consequências das escolhas (ou dos imprevistos) e seguir em frente, entendendo que nem sempre se ganha.
- 01:00:10 — A mudança para a chamada: um retrocesso necessário? — Felipe revela que, após 18 anos de docência, começou a fazer chamada neste semestre devido ao alto absenteísmo e à falta de comprometimento. Ele vê a prática como arcaica e punitiva, mas necessária para “moralizar” a presença. Eles refletem sobre o paradoxo: os alunos chegam atrasados, saem mais cedo e não demonstram interesse, forçando o professor a adotar medidas que, em um cenário ideal, seriam desnecessárias se houvesse engajamento genuíno.
- 01:10:50 — Contraste com o passado: rigidez, humilhação e assédio — Os hosts fazem um contraponto importante: embora critiquem a apatia atual, reconhecem que o modelo antigo de ensino era marcado por autoritarismo, humilhação, assédio e distância entre professor e aluno. Eles compartilham histórias pessoais de professores que se achavam superiores, faltavam sem aviso ou assediavam alunas. Concluem que, apesar dos problemas atuais, a relação hoje é mais aberta, acessível e respeitosa do que no passado, evitando abusos de poder.
- 01:20:07 — Dicas culturais: série Pluribus e livro O Crime do Bom Nazista — Na reta final, os hosts fazem suas recomendações culturais. Felipe indica a série “Pluribus” (Apple TV+), elogiando sua originalidade e tom esquisito, similar a “Severance”. Gabriel recomenda o livro “O Crime do Bom Nazista”, de Samir Machado de Machado, uma novela curta que se passa em um zepelim nos anos 1930, com tramas envolvendo personagens LGBTQ+ em papéis de poder e ação, longe dos estereótipos de sofrimento.
Dados do Episódio
- Podcast: Viracasacas Podcast
- Autor: Viracasacas Podcast
- Categoria: News Politics
- Publicado: 2025-11-18T03:10:07Z
- Duração: 01:35:48
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/viracasacas-podcast/dee3a250-f2f5-0134-ec5e-4114446340cb/458-a-sociedade-do-saco-cheio/c63321cf-73b7-480f-a9c8-61a2ad1c7b23
- UUID Episódio: c63321cf-73b7-480f-a9c8-61a2ad1c7b23
Dados do Podcast
- Nome: Viracasacas Podcast
- Tipo: episodic
- Site: https://www.spreaker.com/podcast/viracasacas-podcast—6704831
- UUID: dee3a250-f2f5-0134-ec5e-4114446340cb
Transcrição
[00:00:00] A bestialidade imperialista.
[00:00:03] Bestialidade que não tem uma fronteira determinada
[00:00:08] nem pertence a um país determinado.
[00:00:12] Que tipo de democracia é essa?
[00:00:15] Que tipo de liberdade é essa?
[00:00:18] Isto é a doutrina liberal.
[00:00:21] É a doutrina que o mercado e a democracia vão juntos, são inseparáveis.
[00:00:26] Isto é uma praga.
[00:00:27] Porque a utopia serve para isso, para caminhar.
[00:00:57] Por exemplo, no meu tempo, os computadores vinham com uma gavetinha do CD-ROM
[00:01:03] que tu ficava abrindo e fechando.
[00:01:05] Tu estragava porque tu ficava abrindo e fechando.
[00:01:08] E aí tinha também um monte, uma infinidade, uma enormidade de entradas USB.
[00:01:13] Você podia conectar até a sua mãe no USB.
[00:01:17] Aí agora não tem.
[00:01:18] E aí eu tive que comprar um daqueles hubzinhos que tem mais entradinhas.
[00:01:22] E aí quase deu um problema com o microfone que eu estou gravando,
[00:01:26] este Onesp.
[00:01:27] Eu não conheço o podcast porque estava dando uma interferência advinda do hubzinho.
[00:01:32] Só que pela quantidade de entradas que tem nesta máquina originalmente,
[00:01:36] ou eu conecto o microfone, ou eu conecto o mouse, ou eu não sei o que eu faço.
[00:01:40] Então assim, o Bauman tinha razão.
[00:01:42] Os hubzinhos embutidos nas máquinas e o CD playerzinho eram bacanas.
[00:01:48] USB líquido, né cara? É isso aí.
[00:01:51] É, USB líquido.
[00:01:52] Porra, cara, eu nunca vou superar a grande sacada,
[00:01:57] dos caras que fizeram aquele, o primeiro e mais popular queimador de CDs virgem chamado Nero.
[00:02:03] Nero?
[00:02:04] Pô, é o melhor nome que tem, né cara?
[00:02:06] Pô, Nero é muito louco.
[00:02:07] Tá louco, cara.
[00:02:07] Nero Burning Room.
[00:02:09] Ai, ai, ai.
[00:02:10] Nero Burning Room e Boomers Burning the Film, né meu?
[00:02:14] Porque o nosso tema de hoje é basicamente esse.
[00:02:16] Se bem que a gente tem alguns lamentos sinceros, né?
[00:02:18] É verdade, é verdade, né?
[00:02:20] Começando com a lamentação, né?
[00:02:22] Se você quiser que este podcast continue no ar,
[00:02:27] pode nos ajudar.
[00:02:29] Então, antes da gente iniciar o nosso programa,
[00:02:31] que vocês já sabem, né?
[00:02:33] Primeira coisa, você pode recomendar ele pras pessoas,
[00:02:36] você pode compartilhar,
[00:02:38] você pode pegar uma pessoa na rua,
[00:02:41] amarrar ela, levar pra sua casa,
[00:02:43] obrigar ela a ouvir o Viracazacas, né?
[00:02:46] Todas essas são formas justas de você ajudar esse podcast.
[00:02:51] Agora, Gabriel, se você tiver 60 reais sobrando no ano,
[00:02:56] Gabriel, no ano,
[00:02:57] o que é que tu pode fazer também?
[00:02:59] Cara, esta é a grande matemática.
[00:03:02] Felipe Abaldo Aravante, conhecido como o homem que calculava,
[00:03:06] ele mostrou pra gente o quão ínfimo é o seu gasto
[00:03:10] se você apoiar mensalmente o Viracazacas com 5 reais.
[00:03:16] Uma vez por mês, 5 reais.
[00:03:19] Ao final do ano, você vai ter permitido que o Viracazacas exista,
[00:03:23] tendo gasto, num total, 60 reais,
[00:03:26] que você nem viu sumir.
[00:03:29] Dependendo do sorvete gourmet,
[00:03:31] ou do 99, pra onde é que você tá indo aí, né?
[00:03:35] Cara, você vai gastar mais ou menos isso numa tacada ou numa corrida.
[00:03:38] 5 reais mensais.
[00:03:40] Ao final do ano, você permitiu que um dos podcasts mais queridos do Brasil
[00:03:44] continuasse de pé, tendo gasto, no ano inteiro, 60 reais.
[00:03:48] 5 em 5, cara.
[00:03:49] Pelo amor de Deus.
[00:03:51] Apoia o Viracazacas.
[00:03:52] Eu não sei mais o que eu vou fazer.
[00:03:54] Eu não sei.
[00:03:54] Eu vou me pintar de vermelho e amarelo.
[00:03:56] E vou sair correndo pelado, né?
[00:03:58] No meio da avenida.
[00:04:00] 5 reais mensais em orelo.cc
[00:04:02] ou em apoia.se barra viracazacas
[00:04:05] ou no pix viracazacas podcast arroba gmail.com
[00:04:10] Pelo amor de Deus.
[00:04:12] Sabe o Milton?
[00:04:13] Aproveitar que faleceu o grande Loh Borges esses dias aí, né?
[00:04:16] Eu só vou dizer uma coisa pra vocês.
[00:04:18] Pelo amor de Deus.
[00:04:21] Sabe?
[00:04:22] Acho que tá bom.
[00:04:23] Acho que já tá bom.
[00:04:23] Também assim, dá pra lembrar outra coisa, né?
[00:04:25] Quer andar na moda?
[00:04:26] Ah, umapenca.com barra viracazacas.
[00:04:30] Camisetinha, ecobag, canequinha.
[00:04:33] Estou usando neste momento a minha camiseta lá bestialidade imperialista.
[00:04:38] Pois é, pois é.
[00:04:39] Olha só.
[00:04:40] Aproveita que tá chegando um certo show aí em São Paulo, né?
[00:04:45] Bota a camisa do Noel.
[00:04:48] Noel Divan e Liam Abau, né?
[00:04:51] Tem essa também.
[00:04:52] Tá cheio de camisa bonita lá.
[00:04:54] E vamos nessa, hein?
[00:04:55] Apoia o Viracazacas também, sendo chique, também usando a nossa grife.
[00:05:00] Perfeitamente.
[00:05:01] Agora sim.
[00:05:01] Vamos lá.
[00:05:02] Dale.
[00:05:10] Gabriel Divan.
[00:05:11] E aí, meu caro, como é que tá?
[00:05:12] E aí?
[00:05:13] Estamos aí, né?
[00:05:14] Com pouca munição, mas avançando.
[00:05:16] Eu sempre lembro disso, quando um amigo meu dizia, né?
[00:05:19] Muito bom, cara.
[00:05:20] Estamos só nós, sabe por quê, Divan?
[00:05:22] Por quê?
[00:05:23] Porque tá todo mundo de saco cheio.
[00:05:24] Tá todo mundo.
[00:05:25] Tá todo mundo cansado, né?
[00:05:26] É, cara.
[00:05:27] Ninguém topa mais conversar com a gente porque tá em coisa pra fazer.
[00:05:31] É, afinal de…
[00:05:31] Porque, cara, final de ano tem um negócio que me estresse demais.
[00:05:35] Todo final de semestre, na verdade.
[00:05:37] Todo mundo quer fazer tudo o que não fez o semestre todo.
[00:05:41] Tem que ser agora.
[00:05:42] Todas as reuniões, todos os relatórios.
[00:05:44] Tudo, tudo.
[00:05:45] Absolutamente tudo tem que ser agora.
[00:05:46] Cara, e isso contrasta com uma coisa que eu já confessei várias vezes,
[00:05:51] que é um problema que eu tenho.
[00:05:53] Eu tenho aquela coisa de…
[00:05:55] Eu tô engajado e eu preciso me manter na ponta dos cascos, né?
[00:05:59] Aí, se dá uma exceçãozinha, eu já abro pra outra e pra outra e pra quinze.
[00:06:04] Sabe quando o cara tá, assim, no meio de semana e pensa assim, ó?
[00:06:07] Ah, eu vou comer uma barra de chocolate, né?
[00:06:09] Ah, eu vou comer hoje e tal.
[00:06:11] Aí, o cara come a barra de chocolate.
[00:06:12] Daí, ele pensa assim, bom, já comeu a barra de chocolate, né?
[00:06:14] Então, não custa eu comer um pedacinho de bolo, não sei o quê.
[00:06:18] Então, não custa eu tomar um chopp no almoço.
[00:06:21] Então, não custa.
[00:06:22] Ah, então essa semana, né?
[00:06:23] Já está perdida.
[00:06:24] Pois é.
[00:06:25] Tem essa coisa, né?
[00:06:26] E aí, no final do ano, tem isso.
[00:06:28] Ou o cara tá fazendo tudo, tudo, tudo.
[00:06:30] Ou começa aquela coisa do…
[00:06:32] Ah, isso é um problema pra depois de amanhã eu pensar que amanhã eu vou resolver na semana que vem.
[00:06:37] E assim vai indo, vai indo.
[00:06:39] Então, tem essas duas energias.
[00:06:41] Esses dois lobos dentro da pessoa, né?
[00:06:44] Ou o cara tem que resolver tudo.
[00:06:46] Ou tudo vira aquela coisa mística pra desejar um ano melhor e um mundo melhor
[00:06:52] depois de pular as ondinhas na praia, né?
[00:06:53] E muda o calendário, muda tudo.
[00:06:55] Então, a gente tá vivendo nessa, cara.
[00:06:58] Mas tu sabe que eu tava esse tempo no aeroporto e eu comprei um livro
[00:07:02] muito bom sobre isso aí.
[00:07:03] O nome dele era A Sociedade do Cansaço.
[00:07:06] Ah, meu Deus do céu, cara.
[00:07:08] Tô brincando, tô brincando, ó.
[00:07:10] Brincando, ó.
[00:07:10] Não, não, não, não.
[00:07:11] Chega de livros de aeroporto, por enquanto, pelo menos, né?
[00:07:14] Não é esse o nosso papo do dia.
[00:07:18] Mas…
[00:07:18] É papo de professor, assim?
[00:07:20] É papo de boomer que a gente vai ter hoje?
[00:07:22] Olha, é papo de boomer.
[00:07:23] Primeiro porque nós somos boomers e somos professores, né?
[00:07:26] Então, não há como fugir do lugar de fala.
[00:07:29] Esse é o lugar de fala.
[00:07:31] Esse é o chamado, né?
[00:07:33] Cara, vou te dizer uma coisa.
[00:07:36] Tem um negócio que eu falo pra todo mundo das minhas turmas, dos meus alunos,
[00:07:41] no primeiro dia de aula.
[00:07:42] E eu digo mais ou menos assim pra eles.
[00:07:44] Galera, eu não quero fazer ameaça, eu não quero bancar o sermão aqui nem nada,
[00:07:49] mas eu só tenho uma pergunta pra fazer pra vocês
[00:07:52] que vocês podem responder.
[00:07:53] Eu não quero fazer ameaça, eu não quero bancar o sermão aqui nem nada,
[00:07:56] mas eu só tenho uma pergunta pra vocês que vocês podem responder.
[00:07:56] Eu não quero fazer ameaça, eu não quero bancar o sermão aqui nem nada,
[00:07:56] mas eu só tenho uma pergunta pra vocês que vocês podem responder.
[00:07:56] Aí eu coloco um exemplo assim, ó.
[00:07:58] Um piloto de avião faz as horas de voo dele e a preparação dele
[00:08:03] e um médico cirurgião do pronto-socorro faz a residência dele e a faculdade dele
[00:08:11] da mesma maneira, da mesmíssima maneira para o curso de pilotagem e as técnicas respectivas
[00:08:18] e para a cirurgia e para a medicina,
[00:08:21] da mesma maneira que você está fazendo,
[00:08:23] da mesma maneira que você está fazendo,
[00:08:23] com o mesmo espírito que você está tendo
[00:08:25] e com o mesmo empenho que você está levando no curso de direito.
[00:08:29] Aí a pergunta é o seguinte, ó.
[00:08:31] Avião pra Maceió e cirurgia de urgência de apendicite.
[00:08:35] Vai tranquilo ou não vai?
[00:08:37] Aí a maioria da galera começa a rir, né?
[00:08:39] A galera começa a rir e fala assim, ó.
[00:08:41] Cara, vocês estão rindo do quê? De nervoso?
[00:08:43] Que acharam bonito? Acharam graça e tal?
[00:08:45] Porque assim, se o cara olha e pensa assim,
[00:08:48] nunca que eu vou me consultar com um cirurgião que faz a faculdade de medicina
[00:08:53] e fez a residência e tem o mesmo empenho e o mesmo talento
[00:08:57] que eu tenho pro direito, senão eu vou morrer.
[00:08:59] Pois é, meu galo.
[00:09:00] Tem alguma coisa errada, né?
[00:09:02] Tem alguma coisa errada aí.
[00:09:02] E aí?
[00:09:03] Não adianta reclamar que a marquise do prédio caiu.
[00:09:07] Não adianta reclamar que a escada vai dar em lugar nenhum
[00:09:10] ou que a porta não abre, né?
[00:09:11] A porta abre pro lado errado.
[00:09:12] Não adianta reclamar que a rede elétrica está assim,
[00:09:15] que a instalação da net foi assada,
[00:09:17] que o quadro está mal pintado,
[00:09:19] que a cirurgia deu erro lá
[00:09:21] e você que foi com uma cara de octógono,
[00:09:23] do UFC, né?
[00:09:25] Enfim, cara, esse é o tipo de coisa.
[00:09:27] Só que aí a gente tem que parar também pra se perguntar e pra pensar
[00:09:30] em que limite isso também não é
[00:09:33] a gente querendo impor esse papo do
[00:09:36] olha só, no meu tempo, as pessoas…
[00:09:39] Esse é o ponto, né, cara?
[00:09:41] Esse é o ponto.
[00:09:42] Cara, eu não sei, velho.
[00:09:44] Eu poderia dizer que está todo mundo de saco cheio,
[00:09:47] eu poderia dizer que está todo mundo por aqui, ó,
[00:09:50] e aí você imaginou eu fazendo um gesto, né,
[00:09:52] que ou vai na minha garganta,
[00:09:53] ou vai na minha sobrancelha,
[00:09:53] eu poderia dizer que ninguém aguenta mais nada,
[00:09:56] eu poderia dizer que é fim do ano,
[00:09:58] mas eu vou falar uma coisa que eu acho até pior, cara.
[00:10:01] A gente está meio contaminado
[00:10:03] por uma espécie de apatia, né?
[00:10:06] Por uma coisa do tipo
[00:10:07] tudo tanto fez como tanto faz,
[00:10:09] parece que não tem muito proatividade,
[00:10:11] parece que não tem aquela energia mínima,
[00:10:15] e aí fica um pouco difícil, né,
[00:10:17] de lidar com essas coisas,
[00:10:18] porque uma coisa é aquele cara, né,
[00:10:20] e a gente vai falar um pouquinho aqui hoje sobre isso,
[00:10:22] aquele cara que diz assim,
[00:10:24] ah, porque na minha época, né,
[00:10:26] porra, o na minha época é quase sempre nocivo,
[00:10:30] poderia ser fonte de histórias tão engraçadas,
[00:10:32] tão legais,
[00:10:33] poderia ser fonte de aprendizado,
[00:10:35] mas sempre é um na minha época punitivo, né,
[00:10:38] como quem diz assim,
[00:10:39] ah, agora vocês são tudo uns coió,
[00:10:41] eu é que era bom,
[00:10:42] no meu tempo era assim, assado.
[00:10:44] Cara, não dá pra cair nessa,
[00:10:46] mas eu não sei, né,
[00:10:48] eu acho que a gente poderia se referir
[00:10:50] e se reportar,
[00:10:52] aqui, a todas as professoras e professores do Brasil,
[00:10:56] pra perguntar o que diabos anda acontecendo.
[00:10:59] Eu gostaria bastante, né,
[00:11:01] de ter alguma experiência com ensino médio, por exemplo,
[00:11:05] pra saber como é que tá a questão, né,
[00:11:07] e quais são os pontos mais evidentes de diferença
[00:11:10] com essa questão do celular proibido, por exemplo, e tudo mais.
[00:11:14] Mas, cara, no ensino de terceiro grau,
[00:11:19] a gente tava falando com a Ana no episódio passado, né,
[00:11:22] e ainda tem aquela lenda, não,
[00:11:24] as faculdades ensinam o que não precisa,
[00:11:27] elas ensinam o marxismo, elas doutrinam.
[00:11:29] Você entra lá, bonitinho, penteadinho,
[00:11:32] querendo emprego,
[00:11:33] e sai com um piercing na bochecha, né,
[00:11:35] e cabelo pintado de lilás,
[00:11:36] é uma coisa horrorosa.
[00:11:38] Cara, basicamente não acontece nada disso,
[00:11:41] e ao contrário, né, ao contrário.
[00:11:44] Antes fosse que algum aluno dissesse assim,
[00:11:46] ô, professor, tá doutrinando um pouco aí,
[00:11:48] doutrina um pouco mais aí,
[00:11:49] porque aí seria minimamente algum interesse,
[00:11:52] Felipe,
[00:11:52] alguma questão libidinal,
[00:11:55] algum desejo, alguma vontade de alguma coisa,
[00:11:58] porque o que rola é uma vontade de nada.
[00:12:01] Não é um zen budismo, né,
[00:12:03] tu não tá empatado, né,
[00:12:05] com aquela questão por autocontrole,
[00:12:07] não, não, não, é uma falta de energia
[00:12:09] pra qualquer coisa, inclusive pra querer alguma coisa.
[00:12:12] É muito impressionante, cara.
[00:12:13] Eu também percebo esse mesmo tipo de coisa,
[00:12:15] e vê bem,
[00:12:16] eu acho que
[00:12:18] o que é mais triste em todo o negócio
[00:12:20] é que às vezes rola uma apatia
[00:12:22] até pra fazer essas coisas erradas, sabe?
[00:12:25] Outro dia eu tava numa sala de aula, assim,
[00:12:28] e daí entrou o pessoal dizendo assim,
[00:12:29] ó, vai ter uma festa, e bebida liberada,
[00:12:32] e bababá, e tudo, sabe,
[00:12:33] olhando assim meio com medo, do tipo,
[00:12:36] ah, o professor vai falar alguma coisa,
[00:12:37] que tão bebendo e tal,
[00:12:39] e daí, tá, fizeram a propaganda deles e tal,
[00:12:42] e daí depois saíram e voltaram na aula seguinte,
[00:12:45] dizendo, professor, a gente vai ter que falar de novo,
[00:12:46] por causa que ninguém tá indo na festa.
[00:12:49] Eu digo, poxa, mas nem pra beber, cara,
[00:12:51] mas nem sabe,
[00:12:52] pra ir comer o churrasquinho, conversar,
[00:12:55] fazer bobagem,
[00:12:57] poxa, tem que fazer bobagem também.
[00:12:59] Não, mas é um negócio que também, assim, ó,
[00:13:01] não é nem o cara que tá hiper aplicado, né,
[00:13:04] na tua aula que tu veja, assim,
[00:13:05] o legítimo interesse e tal,
[00:13:07] e vê, cara,
[00:13:08] eu costumo fazer muita autocrítica
[00:13:11] desse tipo de coisa, sabe,
[00:13:13] que é evidente que o problema pode ser eu.
[00:13:15] Evidente que eu posso não tá sabendo me comunicar,
[00:13:18] posso não tá sabendo,
[00:13:19] mas assim, ó, tem coisas que,
[00:13:22] por padrão, elas vão ser chatas.
[00:13:24] Uma sala de aula não tem como ser divertida, sabe?
[00:13:26] Todo esse negócio do,
[00:13:28] ah, mas tem que fazer showzinho,
[00:13:30] mas tem que puxar atenção,
[00:13:31] mas tem que usar não sei o quê,
[00:13:33] cara, tem coisas que simplesmente não são assim.
[00:13:36] Vai ter coisa que é chata,
[00:13:37] vai ter coisa que é ruim de fazer,
[00:13:39] vai ter coisa que tu preferia tá fazendo,
[00:13:41] outra coisa do que tá ali naquele momento,
[00:13:44] mas é assim que funciona, né,
[00:13:46] tu nunca vai tá aproveitando
[00:13:48] 100% o tempo todo
[00:13:50] como se tudo fosse,
[00:13:52] uma grande festa,
[00:13:53] como se fosse, né,
[00:13:55] enfim, sei lá,
[00:13:56] tu tá gostando pra caralho daquele negócio.
[00:13:59] Então,
[00:14:00] me deixa muito triste esse negócio
[00:14:03] de tu ver exatamente isso que tu falou,
[00:14:06] que é apatia, sabe?
[00:14:07] Eu não quero tá aqui,
[00:14:09] ah, mas então tu quer tá ali numa festa
[00:14:11] se divertindo com o pessoal e bebendo?
[00:14:12] Não, também não, sabe?
[00:14:15] O que que tu quer?
[00:14:16] Me diz que voe, né, como eu diria
[00:14:19] o grafo do desejo do Lacan, né?
[00:14:22] Chega lá no final do negócio e diz
[00:14:23] o que que você quer, meu amigo, né?
[00:14:25] Tá bastante complicado.
[00:14:27] O que que eu quero?
[00:14:27] O que que eu quero?
[00:14:29] Mas, cara, esse exemplo é bem interessante,
[00:14:33] por quê?
[00:14:33] Bom, em primeiro lugar,
[00:14:34] se me perguntarem,
[00:14:35] Gabriel, festa, bebida liberada, sim ou não?
[00:14:39] A resposta é, obviamente, não.
[00:14:40] Isso é um erro, né?
[00:14:42] É muito melhor você pagar um pouco mais
[00:14:44] pra tomar uma bebidinha na elegância ali e tal
[00:14:46] do que você pagar uma ninharia
[00:14:49] pra chegar lá e ficar um monte de gente disputando, né?
[00:14:52] Parece aquela coisa do Mad Max, né?
[00:14:53] Das pessoas esperando cair a água, né?
[00:14:55] Ai, olha a água!
[00:14:56] Aí vem uma cerveja glacial quente e tal
[00:14:59] e no meio da festa acaba a cerveja e tal.
[00:15:01] Aí tu é obrigado a comprar.
[00:15:02] Mas isso tu diz hoje com 40 e poucos anos,
[00:15:05] de verdade.
[00:15:05] Quando tu tinha 16, tu dizia, pô, do caralho!
[00:15:08] Mas o senhor não deixou eu molhar o bico
[00:15:10] com a cerveja glacial quente, né?
[00:15:12] Eu ia dizer que quando eu tinha 17 anos,
[00:15:15] ou seja, faz aí uns 30 anos quase,
[00:15:20] cara,
[00:15:20] aí era outra história,
[00:15:22] porque daí o cara não tinha um puto tostão,
[00:15:25] era o lugar onde todo mundo ia
[00:15:26] e fazia sentido a pessoa ficar com um copinho na mão
[00:15:29] mendigando uma cerveja glacial quente,
[00:15:31] assim, por favor, aqui!
[00:15:33] Aquela história e tal.
[00:15:35] E, velho, mas o problema não é esse, né?
[00:15:38] Eu ia dizer que era um erro,
[00:15:39] mas eu também ia dizer que há uma idade
[00:15:42] em que você tem que descobrir alguns erros
[00:15:44] e você tem que descobrir, inclusive,
[00:15:46] se pra você não é um acerto,
[00:15:48] porque, né, gosto não se discute,
[00:15:50] como diria aquela véia que comia ranho.
[00:15:53] Então, sendo assim, né,
[00:15:55] talvez a pessoa até hoje seja um entusiasta
[00:15:57] da festa, da bebida liberada,
[00:15:59] no ginásio, com o som, né,
[00:16:01] o som abafado e a coisa…
[00:16:03] Agora, o que me chama a atenção é justamente isso, né,
[00:16:06] porque tu tocou num ponto interessante.
[00:16:09] Talvez essa galera esteja num nível de costume,
[00:16:13] mas que também seja estimulado
[00:16:15] por aquilo que a gente passou a considerar
[00:16:18] que deveria ser o correto.
[00:16:19] Eu explico.
[00:16:20] Todo mundo diz assim, né,
[00:16:22] você que tá me ouvindo aí,
[00:16:23] você que é da sala de aula,
[00:16:25] você que é do ramo, né,
[00:16:26] você já escutou, e mesmo quem não é,
[00:16:28] já deve ter escutado também assim,
[00:16:30] o professor hoje, ele precisa ser multitarefas,
[00:16:33] ele precisa atrair atenção nos alunos
[00:16:35] de uma outra maneira, ele precisa não sei o quê.
[00:16:37] A gente colocou um monte de coisa na berlinda
[00:16:39] que o professor supostamente precisa,
[00:16:43] e aí, claro, atrair a atenção,
[00:16:45] mostrar empatia, ter didática,
[00:16:47] falar com clareza, tentar expor a coisa
[00:16:50] de uma maneira qualificada.
[00:16:51] Isso aí é óbvio, isso é praxe.
[00:16:53] Agora, essa necessidade do precisa dar showzinho,
[00:16:57] precisa ser engraçado, precisa mostrar
[00:16:59] novas tecnologias, precisa não sei o quê.
[00:17:01] Cara, isso é uma fonte pra um boomerismo depressivo,
[00:17:06] onde a pessoa vai lá e tenta mostrar
[00:17:08] um canva lá, uns negócios,
[00:17:10] e acha que tá abalando e tal,
[00:17:11] e isso pros caras já é a idade da pedra.
[00:17:14] Aí o cara fala umas piadas pra tentar se conectar,
[00:17:16] e mete uma gíria ou outra pré-programada
[00:17:19] no meio da coisa,
[00:17:20] isso é meio ridículo.
[00:17:21] E isso é uma questão muito interessante, por quê?
[00:17:24] Porque, velho, eu não sei se exatamente
[00:17:26] precisa dar showzinho
[00:17:28] pelo simples fato de que o senhor
[00:17:30] matou a bola na caçapa.
[00:17:32] Cara, tem coisas que, por padrão,
[00:17:36] precisam ser de outra maneira.
[00:17:39] Você não vai estudar, sei lá eu,
[00:17:41] a conexão e a continência no processo penal,
[00:17:44] sempre com um exemplo engraçado,
[00:17:46] sempre com uma coisa meio anedótica,
[00:17:49] sempre com algum negocinho.
[00:17:51] Quer dizer, esses dias, por exemplo,
[00:17:52] eu tava explicando pros meus alunos
[00:17:54] aquela coisa de extraterritorialidade,
[00:17:57] de um crime que é praticado
[00:17:59] num outro país e o resultado se dá no Brasil.
[00:18:01] Ou um crime que é praticado no Brasil
[00:18:03] e o resultado se dá num outro país.
[00:18:05] Crimes, por exemplo, que envolvam
[00:18:06] questão internética, é uma batata
[00:18:08] pro cara chegar nesse exemplo e pro cara falar disso.
[00:18:11] Aí eu falei lá da coisinha,
[00:18:13] no país vizinho aqui do lado,
[00:18:16] o país de Leonel Messi,
[00:18:17] fizeram o favor de cortar,
[00:18:19] a coisinha. E a galera tá aqui, né?
[00:18:21] Tem gente que tá precisando atualizar
[00:18:22] o episódio da série nova, tem gente que quer ver
[00:18:25] aquele filme que tava lá marcado
[00:18:26] no portfólio e não vai mais conseguir.
[00:18:29] Então, eu usei esse exemplo,
[00:18:31] um monte de gente achou graça, um monte de gente
[00:18:33] deu risada, um monte de gente falou.
[00:18:35] Só que assim, cara, o estudo
[00:18:37] em algum momento, ele precisa
[00:18:39] ser técnico, ele precisa ser
[00:18:41] estritamente aplicado,
[00:18:43] ele precisa ter um ar de sobriedade,
[00:18:45] ele precisa ser encarado com seriedade,
[00:18:47] porque se pra tudo a gente
[00:18:49] achar que vai ter exemplo engraçadinho
[00:18:51] e movimentar e fazer
[00:18:52] coisinha que anima
[00:18:55] e gamificar e não sei o que,
[00:18:56] cara, vai chegar uma hora que ou a gente vai fazer isso de um jeito
[00:18:59] constrangedor, ou a gente não
[00:19:01] vai ter como fazer e aí tu cria
[00:19:03] uma dependência, porque aí o cara fica lá
[00:19:05] te olhando e ele fica esperando
[00:19:07] assim, tá? Cadê a brincadeira? Cadê
[00:19:09] o QR Code? Cadê o negócio
[00:19:10] interativo? Cadê a dancinha?
[00:19:12] Quando é que ele vai fazer uma piada? Não tem,
[00:19:15] cara. Tem vezes que não tem, tem vezes que é baixar a cabeça,
[00:19:17] ler pra caralho,
[00:19:19] sofrer, queimar a pestana com um monte de coisa
[00:19:20] chata, e me parece
[00:19:22] que a questão é, as pessoas
[00:19:25] elas não estão nem despreparadas
[00:19:27] pra isso, elas estão desconectadas
[00:19:29] com a possibilidade disso existir,
[00:19:31] velho, porque, repito,
[00:19:33] não vou ficar aqui sendo o cara
[00:19:35] que fica dizendo que no meu tempo era assim
[00:19:36] ou era assado. Agora, a quantidade
[00:19:38] de gente que vai pra uma sala de aula hoje em dia
[00:19:40] munido apenas num celular,
[00:19:43] às vezes com os AirPods no ouvido,
[00:19:46] e fica basicamente
[00:19:47] com a cabeça baixa, vendo outra coisa,
[00:19:49] ouvindo outra coisa, enquanto
[00:19:50] o cara fala, e aí não
[00:19:52] anotando nada, não prestando atenção em nada,
[00:19:54] não usando funcionalidade nenhuma, simplesmente a
[00:19:56] pessoa vai de corpo presente, e não é
[00:19:59] aquele ir disfarçado, assim, do tipo, olha,
[00:20:00] vou tentar dar uma dormida aqui, né,
[00:20:02] pra esse louco não ver aqui. Não, não, não!
[00:20:05] O cara, ele fica simplesmente
[00:20:06] alheio num outro planeta, e ele está sentado
[00:20:09] ali, né, de corpo presente,
[00:20:11] né, com a questão do
[00:20:13] chamado corpo presente, de uma
[00:20:14] maneira que jamais em outros tempos foi vista.
[00:20:17] E isso tem a ver com essa
[00:20:18] questão da apatia também, né, a pessoa
[00:20:20] não vê sentido em nada, não se engaja em nada,
[00:20:23] e é como tu falou, poderia ser
[00:20:25] uma turma inteira de malacos aí
[00:20:26] que só querem fazer a festa, e só querem fazer
[00:20:28] o ingresso pra festinha da Bebida Liberada,
[00:20:31] poderia ser uma turma inteiramente,
[00:20:33] né, alheia ao conteúdo da festinha,
[00:20:35] porque querem se preparar em alto nível,
[00:20:37] né, e aí tem aquela coisa meio rígida, assim,
[00:20:38] de todo mundo estudando pra caralho,
[00:20:40] mas não é nenhum, não é nem outro,
[00:20:42] é ao contrário, a galera tá com a alma
[00:20:44] em algum outro lugar, e que
[00:20:46] não é exatamente voando por aí,
[00:20:48] por cima das Copas das Árvores, ou coisa e tal,
[00:20:50] a galera tá com a alma, sei lá, meu,
[00:20:52] no TikTok da Virgínia com o Vini Júnior,
[00:20:55] né, ou sei lá eu aonde.
[00:20:57] Pois é, cara, e tem uma coisa disso aí
[00:20:58] que eu acho engraçado, eu vou citar aqui um cara
[00:21:00] que tu gosta bastante, Gabriel Divan,
[00:21:03] que é o maior boomer
[00:21:05] de todos os tempos, e é aqui que
[00:21:06] eu não quero que a gente caia, mas tem uma
[00:21:08] coisa dele que ele fala que volta e meio
[00:21:10] me lembro, Zygmunt Bauman, né,
[00:21:13] o maior boomer.
[00:21:14] O papa dos boomers,
[00:21:17] o grande boomerista,
[00:21:18] da humanidade.
[00:21:20] Mas tinha uma coisa que ele falou em alguns dos
[00:21:23] líquidos, né, que eu não vou me recordar,
[00:21:25] porque eu tive como… Alguns dos 39
[00:21:26] livros líquidos, né, que dizem todos
[00:21:28] a mesma coisa, o senhor quer dizer isso, né?
[00:21:30] Porque eu, como grande parte das pessoas,
[00:21:33] assim, eu também peguei um, gostei,
[00:21:35] daí eu vi o outro, daí disse, mas tá parecido,
[00:21:37] daí outro, e outro, assim, daí quando chegou
[00:21:39] no sexto, que tava igual,
[00:21:41] eu parei, assim, né?
[00:21:42] Mas assim, ó, teve uma coisa que ele falou que eu acho
[00:21:44] interessante, que é
[00:21:46] a questão de tu tá num espaço
[00:21:48] e, na verdade, tu nunca
[00:21:51] está em lugar nenhum.
[00:21:52] Isso é uma coisa que volta e meia eu alerto
[00:21:55] agorizada, assim, sabe?
[00:21:57] Eu não vejo problema nenhum de não gostar da minha aula,
[00:21:59] eu não vejo problema nenhum de não se interessar
[00:22:01] por alguma coisa. Eu tinha
[00:22:03] disciplina que eu odiava,
[00:22:05] que eu tava mais afim de fazer outra coisa,
[00:22:07] que eu ia pro DA jogar truco,
[00:22:10] sabe? Normal, tu não tem
[00:22:11] que gostar. Ninguém tem que gostar de direito de trabalho,
[00:22:13] ninguém tem que gostar de direito penal, ninguém tem que gostar
[00:22:14] de história. Cada um acha
[00:22:16] coisa mais interessante.
[00:22:18] Mas o que eu acho problemático é esse eterno
[00:22:21] não estar. Quando tu
[00:22:23] fala, por exemplo, do negócio da presença
[00:22:24] do celular. Porque isso é uma coisa que eu digo pra eles,
[00:22:27] assim, ó, o cara tá dentro da sala
[00:22:29] de aula e tu tá no celular falando
[00:22:31] com alguém que tá do lado de fora, dizendo
[00:22:33] o que que tu vai fazer depois,
[00:22:35] né, quando tu tá no bar, quando tu
[00:22:37] tá em casa, quando tu tá com a namorada,
[00:22:38] quando tu tá com o namorado, etc e tal.
[00:22:41] Mas aí, quando tu tá com essa pessoa,
[00:22:43] tu tá preocupado por causa que tu não prestou
[00:22:44] atenção na aula e depois vai ter a prova.
[00:22:47] Daí tu tá se comunicando com os colegas, dizendo,
[00:22:48] assim, ó, ah, então o que que vai cair? Será que é
[00:22:50] aquele negócio que ele falou? Eu não entendi muito bem, não sei o que,
[00:22:52] não sei o que, não sei o que. Cara,
[00:22:54] é pior de todos os mundos
[00:22:56] porque tu acaba não fazendo absolutamente nada.
[00:22:59] Quando era pra tá assistindo
[00:23:00] um filme, tu não tá assistindo um filme
[00:23:02] porque tu tá pensando na aula. Quando tu tá na
[00:23:04] aula, tu tá pensando em ir pra casa pra assistir
[00:23:06] um filme. Esse não estar,
[00:23:09] esse estar em todos os lugares
[00:23:10] e não tá em lugar nenhum,
[00:23:12] eu acho que não é, assim, ó, de novo,
[00:23:14] não é, ai, você não deveria,
[00:23:16] não é cagar regra, não é lição,
[00:23:18] não é lição de moral, mas é um negócio que é muito
[00:23:20] ruim pra pessoa. Quando tá
[00:23:22] no bar, esteja no bar,
[00:23:24] aproveita, fala de bobagem,
[00:23:27] sabe? Fala merda,
[00:23:29] vomita, sabe?
[00:23:30] Agora, quando tu tá na sala, não adianta
[00:23:32] tu ficar nesses dois negócios.
[00:23:35] Tanto que uma coisa que acontece
[00:23:37] muito, né, Edvan, é aquele negócio
[00:23:39] de tu pegar, por exemplo, tu tá na sala
[00:23:40] e eu te digo, pessoal, alguma dúvida?
[00:23:42] Vamos conversar, eu preciso saber o que que não tá
[00:23:44] sendo bem recebido pra te
[00:23:46] explicar melhor. Nada.
[00:23:48] Depois, num domingo,
[00:23:50] às duas horas da manhã,
[00:23:52] vem, e depois eu vou entrar nesse negócio,
[00:23:54] né, ainda bem quando
[00:23:55] vem o e-mail dizendo o negócio,
[00:23:58] né, que não, eu não entendi como é que vem.
[00:24:00] Porque depois tem um outro ponto que
[00:24:01] eu quero entrar, que é, aí sim,
[00:24:04] né, a gente pode falar
[00:24:05] de uma certa invasão
[00:24:07] em espaço que não deveriam existir
[00:24:10] a meu ver, como é o caso
[00:24:12] do WhatsApp. Mas eu acho
[00:24:13] muito ruim esse esquema de você,
[00:24:15] né, não estar em lugar nenhum.
[00:24:18] No intervalo, tu não tá no intervalo,
[00:24:20] na aula, tu não tá na aula, fora de casa,
[00:24:21] tu não tá fora de casa. Nisso eu concordo
[00:24:24] com o velho Boomer. Cara, é, aí
[00:24:25] nós vamos, né, ter que dar a mão
[00:24:27] palmatória, dizer que o
[00:24:30] Papa Boomer I,
[00:24:32] né, Zygmunt Bauman,
[00:24:33] cara, ele tem razão nesse ponto,
[00:24:36] mas, assim, eu não vou tirar o mérito
[00:24:37] dele, né, mas várias
[00:24:39] outras pessoas abordam esse tipo de
[00:24:41] tema também, porque é
[00:24:43] uma questão recorrente há muito tempo,
[00:24:45] só que agora ela ganhou uma materialização,
[00:24:48] ou uma desmaterialização
[00:24:50] num sentido
[00:24:51] mais agudo, porque o celular, ele te
[00:24:54] permite o não lugar, ou ele
[00:24:56] te permite a virtualidade
[00:24:57] de espaços de uma maneira jamais
[00:25:00] vista antes, né. Então
[00:25:01] o cara tá num elevador,
[00:25:03] num hotel
[00:25:05] fora do Brasil, se comunicando com
[00:25:07] não sei quem, não sei onde,
[00:25:09] então é uma coisa muito louca, cara,
[00:25:11] porque essa questão aí
[00:25:14] me choca bastante, sabe.
[00:25:16] Me choca bastante, porque,
[00:25:18] é outra coisa que eu costumo falar pra galera,
[00:25:20] galera, vocês
[00:25:21] podem fazer várias coisas ao mesmo tempo,
[00:25:24] mal,
[00:25:25] mal, né, porque o cara assim,
[00:25:28] não, não, tranquilo, professor, eu tô aqui com
[00:25:29] o meu laptop aberto, e eu tô
[00:25:32] com uma aba aberta
[00:25:33] numa coisa que tem a ver com a matéria, numa outra
[00:25:35] aba eu tô vendo o minuto a minuto da partida
[00:25:38] do campeonato, na outra eu tô
[00:25:39] fazendo uma compra na Shopee,
[00:25:42] né, e no meu celular aqui tem
[00:25:44] mensagem do Instagram
[00:25:45] da gata, e
[00:25:47] no WhatsApp tem o grupo da rafoagem
[00:25:49] dos amigos que tá bombando também, e o senhor
[00:25:51] tá falando aqui na minha frente, e tá tudo bem,
[00:25:53] eu tô aqui, ó, tô coordenando. Não, não, cara,
[00:25:55] você simplesmente tá fazendo várias coisas
[00:25:57] ao mesmo tempo, mal, porque
[00:25:59] ou seja pro jogo que você vai perder
[00:26:01] um lance, ou pra gata que você vai
[00:26:03] deixar de responder no ato que ela precisa,
[00:26:06] ou a piadinha que rolou naquele
[00:26:07] momento no grupo da chinelagem lá,
[00:26:10] cara, em algum desses momentos
[00:26:11] você vai negligenciar alguma coisa, porque
[00:26:13] ou você é o doutor Manhattan,
[00:26:16] você,
[00:26:17] vai conseguir fazer todas as coisas com nível de
[00:26:19] consciência ao mesmo tempo, ou
[00:26:21] tem alguma coisa que tá em déficit, cara,
[00:26:23] e é óbvio que um cara falando de
[00:26:25] processo penal, um jogo rolando,
[00:26:28] uma compra de um item bacana,
[00:26:29] uma galera mandando
[00:26:30] mensaginha, é óbvio que o que vai ficar em déficit
[00:26:33] é um xarope lá, é um chatonildo
[00:26:35] falando umas coisas lá, sei que, de
[00:26:37] STJ, não sei o que, é claro,
[00:26:39] cara, é claro, e eu digo
[00:26:41] assim pra pessoal, ó, galera,
[00:26:44] façam outro teste aí,
[00:26:45] qual foi a última vez que vocês viram um
[00:26:47] filme inteiro assim, ó, sentou, viu o filme
[00:26:49] e aí terminou o filme, aí você vai na
[00:26:51] cozinha, aí você vai no celular, aí você vai ao banheiro,
[00:26:53] porque o cara
[00:26:55] vê o Gabriel falando e assiste a
[00:26:57] partida ao mesmo tempo e
[00:26:59] tá mandando mensagem ao mesmo tempo, cara, eu
[00:27:01] até assim consigo compreender, né,
[00:27:03] o Gabriel é uma mala, né,
[00:27:05] agora, o cara vê um filme
[00:27:07] ao mesmo tempo em que ele tá
[00:27:09] curtindo um
[00:27:11] Reels no Instagram, ao mesmo tempo
[00:27:13] que ele tá mandando um negócio do Zap,
[00:27:15] cara, isso é inadmissível, meu,
[00:27:17] isso é bizarro, porque
[00:27:19] tu botou o filme pra quê, cara?
[00:27:21] É aquela história, né, o nosso
[00:27:23] outro padrinho aí, né, o Marcos,
[00:27:25] né, o Marcos, ele falava,
[00:27:27] né, cara, a música tá
[00:27:29] tocando no fone, é como se ela tivesse
[00:27:31] que tocar pra meio que cumprir
[00:27:33] uma meta, né, ou pra gente completar
[00:27:35] um estágio ali, porque o cara não tá ouvindo,
[00:27:37] o cara deixou no play, como
[00:27:39] quem diz assim, tá, meu, o que que tu quer? Ele tira
[00:27:41] o fone, deixa no play, como
[00:27:43] diz assim, tá, fala logo, fala logo
[00:27:45] que tem uma tarefa rolando aqui, a tarefa no caso
[00:27:47] é ele fazer 500 mil outras coisas e uma
[00:27:49] música tocar até o final, é o mesmo que um
[00:27:51] filme, cara, o filme é até mais alarmante
[00:27:53] porque ele tem som e imagem,
[00:27:55] então tu dá play numa coisa
[00:27:57] para que ela esteja acontecendo na tua
[00:27:59] frente, pra que aí tu vai ficar
[00:28:01] fazendo outras, e não é nem aquela instituição,
[00:28:03] né, instituição
[00:28:05] brasileira e mundial, que é
[00:28:07] botar o filminho ruim pra dormir, né,
[00:28:09] porque isso aí existe, botar a
[00:28:11] musiquinha para dormir, botar
[00:28:13] o podcast para dormir, que nem a
[00:28:15] Beatriz faz, né, mas não,
[00:28:16] não, o cara bota o troço
[00:28:18] como quem diz assim, eu quero ver esse filme, mas
[00:28:20] o ver o filme implica em fazer outras coisas,
[00:28:22] transfere agora para essas responsabilidades
[00:28:25] tipo, aula,
[00:28:27] transfere para outras
[00:28:28] cara, transfere para outras, porque
[00:28:30] a reunião online também
[00:28:32] é fantástica, né, e aí a gente não precisa falar
[00:28:34] só dos alunos e tal, pode falar, né,
[00:28:36] da gente mesmo e de colegas e de pessoas
[00:28:38] que estão, né, na mesma
[00:28:40] na mesma prateleira,
[00:28:42] digamos assim, aí o cara na reunião vai
[00:28:44] lá, um desliga a câmera, porque
[00:28:46] tá pelado pela casa,
[00:28:48] o outro tá no carro, aí fica a coisa
[00:28:50] mais horrível, que é aquela filmagem do queixo
[00:28:52] do cara, assim, olhando pra frente,
[00:28:54] como quem diz assim, estou acompanhando, tá,
[00:28:56] estou acompanhando aqui, mas é que eu preciso,
[00:28:58] estou em trânsito, não sei o que, cara, pelo amor
[00:29:00] de Deus, cara, ninguém mais tem
[00:29:02] obrigação de estar em lugar nenhum, e veja
[00:29:04] bem, eu acho que onde tem home office,
[00:29:07] eu gostaria de, que a possibilidade
[00:29:09] fosse plenamente franqueada,
[00:29:11] mas então esteja
[00:29:12] de office no teu home, né, meu,
[00:29:14] porque home office não é o
[00:29:16] cara tá indo passear com o cachorro, com
[00:29:18] o celular ligado no bolso, com
[00:29:20] um fonezinho de ouvido, e
[00:29:22] mandando palminha só de vez em quando, pra
[00:29:24] marcar presença lá no chat, tá,
[00:29:25] do Meet, ou coisa parecida.
[00:29:28] Então, cara, há um problema muito sério
[00:29:30] aqui, com toda uma geração,
[00:29:32] e aí uma geração inclui
[00:29:34] pessoas que não são da mesma idade, inclusive,
[00:29:36] mas uma geração marcada,
[00:29:38] não por tempo de vida, mas marcada
[00:29:40] por convivência e por
[00:29:42] estrutura de aparelhos eletrônicos e
[00:29:44] essas possibilidades.
[00:29:46] Isso aí eu concordo plenamente contigo,
[00:29:48] o negócio, e é muito engraçado,
[00:29:50] porque é exatamente um tipo
[00:29:52] de mentalidade
[00:29:54] que é imposta por objetos de consumo,
[00:29:56] né, porque já faz muito
[00:29:58] tempo que tu vê exatamente essa
[00:30:00] propaganda que é da figura que tá com
[00:30:02] fone de ouvido, que tá com o celular na mão,
[00:30:04] e tá andando de skate, e tá
[00:30:06] trabalhando, e tá fazendo não sei o que,
[00:30:08] porque tu consegue fazer tudo e ser
[00:30:10] multi, né, como é que é, multitasking,
[00:30:13] né, tu consegue fazer tudo ao mesmo tempo.
[00:30:15] Eu me sinto assim, ó,
[00:30:15] eu me sinto a pessoa mais burra do mundo,
[00:30:18] porque eu não consigo fazer isso aí,
[00:30:20] se eu tiver que parar pra estudar,
[00:30:22] se eu tiver que parar pra escrever, eu tenho que parar
[00:30:24] para escrever, eu não posso tá com
[00:30:26] outra coisa ligada, prestando
[00:30:28] atenção em duas coisas ao mesmo tempo, eu devo ser
[00:30:30] muito burro, primeiro, né.
[00:30:33] Segundo, cara,
[00:30:34] é um troço que tu vê no trânsito, velho,
[00:30:36] eu digo assim, ó, eu devo ser a pessoa menos importante
[00:30:38] do mundo, porque
[00:30:40] do meu trajeto de casa
[00:30:42] até meu trabalho, eu nunca
[00:30:44] tenho que pegar,
[00:30:45] meu celular pra ver o que que é essa mensagem
[00:30:48] que chegou pra responder na hora. Tudo
[00:30:50] que eu tenho na minha vida, pode esperar
[00:30:52] 40 minutos.
[00:30:54] Tudo. E daí as pessoas
[00:30:56] tão no carro, e
[00:30:57] mandando uma mensagem, e ouvindo
[00:30:59] a mensagem que veio e coisa, eu digo, velho,
[00:31:02] eu devo ser muito
[00:31:03] desimportante. A minha vida,
[00:31:05] eu devo ser muito patético, assim, porque
[00:31:07] nada precisa ser respondido
[00:31:10] naquele minuto, exatamente.
[00:31:12] Porque essa é outra coisa,
[00:31:13] que é o negócio da, né,
[00:31:15] tudo tem que ser imediato,
[00:31:18] né, tudo tem que ser feito na hora,
[00:31:20] tudo tem que ser respondido
[00:31:21] naquele minuto. Tem uma
[00:31:23] confusão muito grande, tanto em
[00:31:25] trabalho, quanto também nesse relacionamento
[00:31:28] com o aluno, e aí eu quero ver
[00:31:29] qual é que é a tua opinião, cara,
[00:31:31] entre o que que é resolvido por e-mail
[00:31:34] e o que que é resolvido por WhatsApp.
[00:31:36] Porque eu odeio o WhatsApp
[00:31:37] de todo o meu coração pras coisas.
[00:31:40] Aquilo que pode ser
[00:31:41] resolvido no outro dia, aquilo que
[00:31:43] tu pode deixar como não lido,
[00:31:45] resolver depois, isso é
[00:31:47] assunto de e-mail.
[00:31:49] WhatsApp, pra mim, é um negócio que
[00:31:51] você só manda quando diz assim, ó,
[00:31:53] preciso que tu me responda o quanto antes.
[00:31:55] Não precisa ser agora, porque se for agora, eu vou te ligar.
[00:31:58] E daí, pra mim, é a coisa mais
[00:31:59] terrível do mundo, eu ter que ligar
[00:32:01] pra alguém em 2025.
[00:32:03] Mas, bem, pode acontecer, né?
[00:32:06] Agora, isso aí também tá indo pra esse
[00:32:08] negócio do, ô, professor, eu
[00:32:09] olhei tal coisa que assim, tarará,
[00:32:11] e daí vem por WhatsApp.
[00:32:13] Cara, eu fico sentido,
[00:32:15] disso aí, vou te dizer porquê,
[00:32:18] tá? E vai ter gente que vai dizer que eu sou
[00:32:19] um crápula por causa desse negócio.
[00:32:21] Mas, assim, ó, primeiro, eu acho
[00:32:24] que meu celular é meu espaço pessoal.
[00:32:26] Divã tem meu celular, né?
[00:32:28] A Dani tem meu celular,
[00:32:29] meus amigos têm celular, minha mãe
[00:32:31] tem meu celular. No mais,
[00:32:34] assim, ó, posso receber coisas
[00:32:36] de trabalho, sim, tá?
[00:32:38] Mas, sábado,
[00:32:40] domingo, noite,
[00:32:42] tarará, é meu.
[00:32:43] É pra mim. Não é pra receber,
[00:32:45] essas coisas. Eu não quero ter que ficar
[00:32:47] conectado o tempo todo. Eu quero
[00:32:49] receber um meme, eu quero receber
[00:32:51] alguma coisa curiosa,
[00:32:53] uma conversa, mas isso aí, não.
[00:32:56] Primeiro. Segundo,
[00:32:58] cara, tem esse
[00:32:59] troço todo que eu acho, as
[00:33:01] pessoas não tão mais vendo, ou
[00:33:03] talvez nunca viram, eu não sei,
[00:33:06] professor como trabalhador.
[00:33:08] Eu tenho horário de trabalho.
[00:33:09] Eu bato ponto. Eu registro
[00:33:12] meu horário de trabalho.
[00:33:13] Eu tenho direito a repouso semanal
[00:33:15] remunerado. Sabe?
[00:33:17] A gente fica com essa ideia
[00:33:19] de que é um sacerdócio,
[00:33:21] cara. Do tipo, tu tem que estar
[00:33:23] o tempo todo à disposição
[00:33:25] porque essa é tua função.
[00:33:27] Velho, não é. Eu faço
[00:33:29] as coisas, eu faço mais
[00:33:31] do que cabe dentro da minha carga
[00:33:33] horária, sabe? Então,
[00:33:35] eu acho injusto quando chega,
[00:33:37] porque eu não dou o meu celular por aí,
[00:33:39] quando alguém descobre o meu número de celular,
[00:33:41] e eu recebo num domingo
[00:33:43] de tarde, do tipo, professor, dá pra dar uma
[00:33:45] olhada se esse trabalho que a entrega é
[00:33:47] na sexta-feira que vem, tá bom?
[00:33:49] Eu não gosto de ver esse espaço invadido
[00:33:51] e eu me acho não respeitado
[00:33:53] como trabalhador. Sabe? Tu não
[00:33:55] chega pro cara da loja
[00:33:56] e tu manda pra ele assim, ô, na
[00:33:59] quarta-feira eu vou ali comprar uma camiseta.
[00:34:01] Pode me dizer já quanto é que tá?
[00:34:03] Porra! Primeiro que eu não tô vendendo
[00:34:05] nada. E segundo que é assim, ó,
[00:34:07] todo mundo te diz, ô, não vou incomodar no domingo.
[00:34:09] Por que que a gente dá?
[00:34:11] Né? Por isso que eu falei antes do negócio, tá?
[00:34:13] Quando tu recebe o e-mail às duas da manhã,
[00:34:15] beleza, manda e-mail às duas, às três,
[00:34:17] às cinco, domingo, tarará,
[00:34:19] responde quando der, né?
[00:34:21] Agora, no telefone
[00:34:23] da pessoa, cara,
[00:34:25] sabe?
[00:34:26] De novo, professor é trabalhador,
[00:34:29] cara. Eu tenho horário,
[00:34:30] eu tenho horário pras coisas, né?
[00:34:33] Complicado.
[00:34:34] Cara, primeiro eu vou
[00:34:36] pegar um gancho
[00:34:38] de uma das coisas que tu mencionou ali, que é
[00:34:40] a pessoa ter que responder
[00:34:42] o WhatsApp. E isso
[00:34:44] também é geracional.
[00:34:46] E veja bem, eu tô marcando aqui o
[00:34:48] termo geracional pra tentar fugir
[00:34:50] de uma coisa de geração
[00:34:52] alfa, Z, idade, isso aqui. Não, não,
[00:34:54] eu tô falando de uma geração a partir
[00:34:56] da onde a gente, basicamente, foi
[00:34:58] tragado pra dentro do celular. Quer dizer,
[00:35:00] tem véio boomer que tá nessa
[00:35:02] também, né? Tem cara que deve
[00:35:04] tá te ouvindo e pensando assim, não, isso daí,
[00:35:06] pelo amor de Deus, onde é que
[00:35:08] já se viu? O celular tá lá pras pessoas? Não, não,
[00:35:10] não. A questão é essa, né?
[00:35:12] Eu contei isso aqui, acho que foi na
[00:35:14] época do Twitter, né? Quando eu tava
[00:35:16] usando o Twitter ainda. Não sei
[00:35:18] se foi no Blue Sky já, eu acho que não.
[00:35:20] Tem uma aula que eu faço na academia
[00:35:22] que ela consiste
[00:35:24] no seguinte, nós vamos pra uma ala
[00:35:26] fechada lá da academia, pra uma sala
[00:35:28] fechada, com um sistema
[00:35:30] de transmissão e som
[00:35:32] diferenciado do resto da academia
[00:35:34] e aí tem algumas
[00:35:36] rodadas de exercícios de força
[00:35:38] ou, sei lá, de abdominal, não sei o que,
[00:35:40] misturadas com exercícios aeróbicos.
[00:35:42] Então tu faz uma série X,
[00:35:44] e vai pra bicicleta. Faz uma série
[00:35:46] X, vai pro remo. Faz uma série
[00:35:48] X, vai pra esteira. É uma
[00:35:50] coisa com intensidade, assim, né? Mistura
[00:35:52] cardio com
[00:35:53] condicionamento, com não sei o que. E como
[00:35:56] eles botam na gente aquelas negocinhas
[00:35:58] assim que medem o batimento
[00:36:00] cardíaco e supostamente
[00:36:02] eu quero acreditar naquilo, né?
[00:36:04] Mede as calorias perdidas.
[00:36:06] Se bem que numa aula pegadaça
[00:36:08] o cara perde 500 calorias, ele pode
[00:36:10] sair dali e comer um bombom Ferreiro Rocher.
[00:36:12] Aí repõe tudo, né? Ao mesmo tempo.
[00:36:14] Mas, enfim. Nessa aula
[00:36:16] eles pedem pro pessoal deixar o celular
[00:36:18] fora, porque periga, né?
[00:36:20] Ficar atrapalhando o bluetooth
[00:36:22] não sei o que, e atrapalhar a coisa e tal.
[00:36:25] E, cara, é um momento tão bom
[00:36:26] assim, tu deixa o celular, tu se concentra
[00:36:28] naquilo, tu se concentra na
[00:36:30] intensidade que tu tem que fazer, porque vai aumentando
[00:36:32] a velocidade e a intensidade e tal.
[00:36:35] E tu, cara,
[00:36:36] relaxa ao mesmo tempo que se cansa, ao mesmo tempo
[00:36:38] que se exercita.
[00:36:40] Tem uma moça
[00:36:41] que faz academia mais ou menos
[00:36:43] nos mesmos horários que eu faço
[00:36:45] e que ela faz, às vezes, essa mesma aula
[00:36:47] que eu faço, e eu já percebi
[00:36:49] uma coisa, cara. Assim, ó. Às vezes o cara
[00:36:51] tá nervoso com alguma coisa, o cara
[00:36:53] tá esperando uma notícia e coisa e tal
[00:36:55] e ninguém resiste à tentação de
[00:36:57] dar uma olhadinha no celular, né?
[00:36:59] Tem gente que fica lá e quer fazer o seu
[00:37:01] quer fazer seu nome, quer fazer o seu
[00:37:03] charme, então se filma, se fotografa,
[00:37:06] pede pra alguém filmar.
[00:37:07] Esse é outro fenômeno que já virou normal, né?
[00:37:10] Agora,
[00:37:11] essa menina especificamente, eu já
[00:37:13] reparei, ela não passa um
[00:37:15] segundo sem estar olhando o celular.
[00:37:17] Se o exercício é de perna,
[00:37:19] né? Aquele que fica lá mexendo o joelhinho assim,
[00:37:21] né? Ela fica o tempo todo olhando
[00:37:23] o celular. Se o exercício
[00:37:25] envolve tu usar um só braço,
[00:37:27] ela fica um braço
[00:37:29] mexendo e o outro olhando o celular.
[00:37:31] Se o exercício envolve mexer
[00:37:33] os dois braços, ela faz que nem a
[00:37:35] Paraguaia da Copa do Mundo, ela bota o celular
[00:37:37] no meio dos peitos, faz o exercício e rapidamente
[00:37:39] saca ele pra, nos intervalos,
[00:37:41] ficar olhando. Aí, nesse
[00:37:43] dia da aula, aconteceu uma coisa curiosa.
[00:37:45] Ela deixou o celular num escaninho
[00:37:47] fora, bem pertinho da porta, ali.
[00:37:49] Do ladinho, ali, da onde se fecha
[00:37:51] a porta pra entrar pra aula.
[00:37:53] No intervalo entre algumas sessões
[00:37:54] de exercício, eu juro por Deus, cara, eu tinha que ter filmado
[00:37:57] isso, porque ele explica a humanidade
[00:37:58] inteira isso aí. Ela tinha
[00:38:00] acabado um exercício de abdômen no chão,
[00:38:04] ela foi rastejando,
[00:38:05] eu tô falando sério, ela foi rastejando
[00:38:07] pelo chão, que nem uma
[00:38:09] minhoca, abriu a porta,
[00:38:10] botou a mão pra fora da sala,
[00:38:12] achou o celular dela,
[00:38:14] deu uma olhadinha, assim, e devolveu o celular
[00:38:16] pro escaninho, fechou a porta e voltou rastejando.
[00:38:19] Eu fico pensando assim,
[00:38:20] cara, tu tá com a mãe
[00:38:22] no hospital, porra, então
[00:38:24] teu lugar não é na academia,
[00:38:26] né? Vai receber a proposta de
[00:38:28] emprego da tua vida, bom, então fica
[00:38:30] sentadinha olhando pra porra do telefone,
[00:38:33] né, e esperando.
[00:38:35] Tem a notícia mais
[00:38:36] importante do ano que vai vir, cara,
[00:38:38] eu não sei como é que tu consegue ficar numa sala
[00:38:40] fechada, eu estaria nervoso.
[00:38:42] Ora, se não é nenhum desses, cara, o que
[00:38:44] diabos tu tem que fazer pra tu rastejar,
[00:38:47] rastejar
[00:38:48] pelo chão, pegar um celular,
[00:38:50] olhar o negócio, sei lá, curtir uma foto,
[00:38:52] sei lá, eu de uma amiga de biquíni em Jericoacoara,
[00:38:55] e aí devolver o celular,
[00:38:57] mas que gana é essa,
[00:38:59] meu, que ânsia é essa, pelo amor de
[00:39:00] Deus, velho. É um negócio assim,
[00:39:02] isso aí é caso
[00:39:04] de o cara olhar e dizer assim, ó, nós temos um problema
[00:39:06] aqui. Não é que a galera tá
[00:39:08] muito frequentemente
[00:39:10] usando, não é que a galera tá,
[00:39:12] não, não, não, isso é um problema, cara, a pessoa rasteja
[00:39:14] pra olhar um story
[00:39:16] sem som e voltar
[00:39:18] e tal, cara,
[00:39:20] então é uma coisa assim, impressionante,
[00:39:22] mas olha, em relação a isso
[00:39:24] que tu falou, eu sou
[00:39:26] antipático e eu não tenho nenhum medo de ser
[00:39:28] antipático, porque senão a vida vira um inferno,
[00:39:30] né, cara. Aula, por exemplo,
[00:39:32] primeiro dia de aula eu boto o e-mail no quadro
[00:39:34] e digo assim, galera, aqui tá o meu e-mail,
[00:39:36] a minha comunicação é por e-mail,
[00:39:38] vocês me mandem e-mails, eu vou tentar responder
[00:39:40] o mais rápido possível, e-mails,
[00:39:42] eu vou tentar não deixar ninguém no vácuo, quase nunca,
[00:39:44] né, por e-mail.
[00:39:46] Não mandem mensagem pelo celular,
[00:39:48] eu não estou dando meu celular e vocês
[00:39:50] têm e-mails de descobrir, né, mas vocês
[00:39:52] não vão mandar. Aí alguém vai
[00:39:54] perguntar, ah, mas o professor Zezinho
[00:39:56] fez um grupo com a turma
[00:39:58] assim, então quando quiser mandar uma mensagem,
[00:40:00] manda pro professor Zezinho, né,
[00:40:02] manda figurinha pro professor Zezinho e pronto,
[00:40:04] eu não tô aqui com meu celular, porque é
[00:40:06] uma questão até de desorganização, né,
[00:40:08] cara, porque o cara tem todas as coisas
[00:40:10] da sua vida pessoal, aí
[00:40:12] alguém manda um troço lá, tipo assim, ó,
[00:40:14] documento aqui, preciso agora, não sei o que,
[00:40:17] não sei o que lá, resolução
[00:40:18] de trabalho, não sei o que, cara,
[00:40:20] é isso aí vai ficar perdido no
[00:40:22] meio do grupo do
[00:40:24] condomínio, do grupo da galera
[00:40:26] da família, do grupo da galera da praia,
[00:40:28] do grupo da galera do Grêmio,
[00:40:30] né, no que isso afeta o Grêmio,
[00:40:32] no grupo da galera não sei da onde,
[00:40:34] no grupo da galera não sei da onde, sem a
[00:40:36] fulaninha, no grupo não sei o que, não sei o que,
[00:40:38] cara, não dá, meu, não dá,
[00:40:40] cara, é uma coisa de maluco, meu,
[00:40:42] eu entrego o celular, por exemplo, pra
[00:40:44] orientandos e orientandas do mestrado,
[00:40:46] porque aí, né, a relação,
[00:40:48] ela precisa ser um pouco mais direta,
[00:40:50] ela precisa envolver uma série de questões
[00:40:52] ali, pode ter tarefas a cumprir ou não,
[00:40:55] agora, eu não fico espalhando
[00:40:56] meu telefone por aí, e aí as pessoas
[00:40:58] reclamam, né, tu já deve ter escutado
[00:41:00] essa reclamação, né, ah, os alunos não
[00:41:02] param, é, whatsapp dia e
[00:41:04] noite, manhã e madrugada, sim, porque
[00:41:06] tu deixa, filha, tu permite,
[00:41:08] my brother, primeiro cara
[00:41:10] que manda mensagem, eu digo assim, olha,
[00:41:12] entre em contato por e-mail conforme combinamos,
[00:41:15] a segunda mensagem não vai acontecer,
[00:41:16] porque na segunda eu bloqueei já, né,
[00:41:18] e é assim a gente vive, cara,
[00:41:20] e eu digo, ó, se vocês mandarem
[00:41:22] mensagem pro celular, vocês só vão
[00:41:24] receber de resposta uma mensagem
[00:41:26] dizendo que vocês perderam tempo, porque
[00:41:28] vocês deveriam ter mandado um e-mail,
[00:41:30] e é isso mesmo, cara, a gente tá trabalhando
[00:41:32] aqui, né, eu não tô aqui pra
[00:41:34] quebrar galho, né, tu quer me contratar
[00:41:36] como advogado, cara, eu tô preso
[00:41:38] aqui, sábado de noite, bom, tudo bem,
[00:41:40] aí eu acho que é justificável, agora,
[00:41:42] mandar uma mensagem, como quem diz assim,
[00:41:44] não, agora tu vai me responder, porque o WhatsApp tem isso, né,
[00:41:47] o WhatsApp, mesmo que tu não queira,
[00:41:48] ele tem uma intransigência,
[00:41:50] porque tu tá interpelando a pessoa,
[00:41:52] tu tá interpelando a pessoa, nessa virtualidade
[00:41:54] espacial que o velho Boomer falava,
[00:41:56] o Zygmunt Boomer,
[00:41:58] é como se tu tivesse cutucando a pessoa com o cotovelo,
[00:42:00] assim, ô meu, ô meu,
[00:42:02] tipo assim, ô meu, velho, ô meu,
[00:42:04] madrugada, sábado pra domingo, é isso?
[00:42:07] Não, nada disso, brother,
[00:42:08] nada disso, ó, não vem que não tem,
[00:42:10] e aí, claro,
[00:42:11] esse é um convite também
[00:42:13] a você desagregar, né,
[00:42:16] você está perdendo
[00:42:18] possibilidade de contato com a pessoa,
[00:42:20] porque tem gente que só sabe se comunicar
[00:42:22] assim, né, cara, tem a rapaziada
[00:42:24] na aula que tu vê, assim, ó,
[00:42:26] os caras ficam lá, e fica o cara dando uma risadinha
[00:42:28] pro outro, e o outro pro um, e um
[00:42:30] pro outro, e os caras dele no celular ali,
[00:42:32] tudo bem, não pode ficar conversando
[00:42:34] assim, da maneira que se gostaria e tal,
[00:42:36] mas, cara, tem gente que, sei lá,
[00:42:38] o cara não sabe se comunicar, né,
[00:42:41] eu falei que eu não quero ser
[00:42:42] o tiozão chato aquele,
[00:42:45] mas eu não sei, cara, tem gente
[00:42:47] que se pá, né,
[00:42:48] pode ser um mecanismo, por exemplo, pra você quebrar
[00:42:51] o gelo com alguém que você tem algum interesse
[00:42:53] amoroso, ou coisa parecida, mas tem gente que
[00:42:55] eu acho que treme, se vai chegar e vai dar um oi
[00:42:57] pra uma pessoa, né, ou vai convidar
[00:42:59] pra fazer alguma coisa e tal, cara, é muito
[00:43:01] esquisito isso aí, né, e faz parte desse
[00:43:03] contato, o cara consegue interpelar
[00:43:05] do jeito mais ousadia e alegria
[00:43:07] do mundo pelo telefone,
[00:43:09] mas o cara não desenrola nada do tipo assim,
[00:43:11] ó, vem cá, gostaria de falar contigo, né,
[00:43:13] daí eu acho meio sinistro.
[00:43:14] Quando vem o áudio, né, cara, o temido áudio,
[00:43:17] assim. Cara, mas eu vou te dizer que eu não sou
[00:43:19] tão contra o áudio, o problema é que áudio chama
[00:43:21] áudio, né, e aí
[00:43:23] tem, o áudio abre porteira pra
[00:43:25] mais áudio, né, eu pergunto quando as pessoas
[00:43:27] querem, porque às vezes eu acho
[00:43:28] mais fácil explicar por áudio, mas
[00:43:31] geralmente… Mas eu digo, aquele primeiro
[00:43:33] contato, assim, número desconhecido, um minuto e
[00:43:35] meio de áudio, tu diz assim, eu nem sei quem você é,
[00:43:37] meu amigo. Não, e vamos combinar outra coisa
[00:43:39] também, né, cara, é, oi, tu
[00:43:41] do bom, Felipe? Aqui é o Gabriel.
[00:43:43] Eu queria falar contigo sobre
[00:43:45] a repimboca da parafuseta,
[00:43:47] porque a cartilagem do tubarão-baleia
[00:43:49] pode ser usada para você
[00:43:51] pintar paredes, sabe? Aquele
[00:43:53] troço, oi, tudo bem? Número
[00:43:55] desconhecido. Meu Deus,
[00:43:57] oi, tudo bem, não,
[00:43:59] oi, tudo bem, solto. Bom dia, como vai?
[00:44:02] Vou bem, filha da puta.
[00:44:04] E daí? Quem
[00:44:05] é você? É, em primeiro lugar,
[00:44:07] quem é você? Porque, porra,
[00:44:09] velho, e outra, cara, tem
[00:44:11] aquela história assim, ó,
[00:44:13] oi, tudo bem? Ou, bom dia, como vai?
[00:44:15] Aí tu olha, não tem o nome do cara
[00:44:17] ali, assim, porque o meu tem um sinalzinho
[00:44:19] do tio, escrito Gabriel de Vann, até porque eu sou
[00:44:21] tiozão, né? Tio, Gabriel, né?
[00:44:23] Brincando. Mas, assim, no meu tem
[00:44:25] Gabriel, você quer? Quem tem meu
[00:44:27] contato, tem, né? Anota como quiser
[00:44:29] o meu nome, né? Agora, quem não tem, vai aparecer
[00:44:31] Gabriel de Vann. Agora vem assim, oi, tudo bem?
[00:44:33] Uma estrelinha, uma sereia,
[00:44:35] uma lua cheia e um
[00:44:37] bonequinho dando jet ski.
[00:44:38] Vai tomar no teu cu, cara!
[00:44:41] Que que é isso, velho?
[00:44:42] Shaolin matador de porco, né? Aquele famoso
[00:44:45] da pandemia, né?
[00:44:47] Não, não dá, não dá. Ai, ai, ai.
[00:44:49] Agora, isso é
[00:44:51] uma boa coisa, né? Tu acha que a gente tá tendo
[00:44:53] também um rescaldo de pandemia?
[00:44:55] Porque, assim, ó, eu voltei meia
[00:44:57] tenho algumas aulas por Meet, cara,
[00:44:59] e chega a me dar feedback
[00:45:01] de guerra, sabe?
[00:45:03] Porque é aquele lance das câmeras fechadas,
[00:45:06] de ninguém se comunicando,
[00:45:07] de ninguém falando nada,
[00:45:09] e parece, às vezes, quando tu tá em sala
[00:45:11] de aula de verdade, que não tudo,
[00:45:13] né? Não todo mundo, assim.
[00:45:15] Mas tem uma galera que parece que ainda tá,
[00:45:17] né? Tá com a câmera fechada e fazendo
[00:45:19] outra coisa enquanto tá assistindo
[00:45:21] a aula, sabe? É muito engraçado
[00:45:23] porque o presencial
[00:45:25] parece estar imitando, né?
[00:45:27] O virtual ao invés de
[00:45:29] o contrário funcionar. Cara, é perfeito,
[00:45:31] perfeita essa análise, porque
[00:45:32] falava com alguns colegas sobre isso,
[00:45:35] né? Nós temos
[00:45:37] não só uma galera que aprendeu
[00:45:39] a lidar,
[00:45:41] com esse ambiente acadêmico,
[00:45:43] universitário, por exemplo,
[00:45:45] na pandemia,
[00:45:47] mas como a gente tem também um
[00:45:48] pós-pandemia que ficou,
[00:45:51] que deixou marcas, né?
[00:45:52] O nível de comprometimento que o cara
[00:45:54] acha que pode ter, ele acha
[00:45:57] que pode ser o mesmo daqueles dois
[00:45:59] anos em que todo mundo deu um arrego pra ele
[00:46:01] porque tava foda, e aí o cara
[00:46:03] fazia prova por formulário,
[00:46:05] e era toda aquela confusão onde o desafio
[00:46:07] era reduzido e tudo mais,
[00:46:09] e era tudo uma espécie de gandai,
[00:46:11] misturado com o estado de sítio, misturado com
[00:46:13] a apreensão de o que vai acontecer,
[00:46:15] e, velho, aquilo deixou
[00:46:17] uma espécie de rastro, porque as pessoas
[00:46:19] de fato, né? A tua analogia eu achei
[00:46:21] muito boa, cara. As pessoas, elas estão presencialmente
[00:46:23] na tua frente com a câmera fechada,
[00:46:25] né? A câmera da cara delas tá fechada,
[00:46:27] elas tão fazendo outra coisa,
[00:46:29] né? E na impossibilidade de passear com o
[00:46:31] cachorro, né? Ou ir ao banheiro,
[00:46:33] sei lá, ou coisa parecida, as pessoas
[00:46:35] tão em outros lugares ali.
[00:46:37] Mas, velho,
[00:46:38] é uma coisa que eu não sei onde é que eu vi,
[00:46:41] eu vou tentar me lembrar agora onde é que eu vi
[00:46:43] esses dias, que tem
[00:46:45] aquela história, né? Que
[00:46:46] agora eu vou ser o
[00:46:48] pedagogo, né? Aquele, né?
[00:46:51] O cara da pedagogia, aquele.
[00:46:53] Tem aquela história que, se tu
[00:46:55] tá com a mente 100% ocupada com
[00:46:57] uma série de outras coisas, inclusive não sobra
[00:46:59] nem espaço e não sobra
[00:47:01] nem potência pra tu imaginar
[00:47:02] nada. Então, se o cara
[00:47:04] tá vendo um filme, ele pode até
[00:47:07] não gostar do filme, ele pode sair,
[00:47:09] sair do filme,
[00:47:11] assim, o cara tá vendo um filme e uma cena lembra
[00:47:13] alguma coisa dele. Ele pode viajar
[00:47:14] e ele não prestar atenção nos próximos 20
[00:47:17] minutos do filme, porque ele deu uma viajada.
[00:47:19] Mas ele deu uma viajada a partir de um
[00:47:21] estímulo que ele recebeu e a mente dele funcionou,
[00:47:23] trabalhou, lembrou de alguma coisa,
[00:47:25] lembrou de alguém, sentiu algo.
[00:47:27] O cara pode tá olhando uma aula
[00:47:28] e pensar, cara, mas isso aí
[00:47:31] ele dá uma viajada que não tem nada a ver
[00:47:32] com o conteúdo da aula, mas ele criou
[00:47:34] alguma coisa, ele produziu de certa maneira.
[00:47:37] Pode ser até pro lado da besteira,
[00:47:38] da coisinha, mas, cara,
[00:47:40] tu criou, né, de alguma maneira.
[00:47:42] Agora, o cara, ele tá escutando
[00:47:44] a aula, mas não tá ouvindo, ele tá vendo
[00:47:46] uma mensagem, mas ele não tá 100%
[00:47:48] naquela conversa, naquele
[00:47:50] diálogo no WhatsApp, ele tá olhando
[00:47:52] uma coisa numa tela de um tablet, de um computador,
[00:47:54] mas ele também não está prestando atenção
[00:47:56] naquilo e o
[00:47:58] resultado de tudo isso é
[00:47:59] todas as possibilidades de estímulos
[00:48:02] e criatividade e
[00:48:04] imaginação e raciocínio que você
[00:48:06] poderia utilizar estão trancadas, né.
[00:48:08] Você não tem uma banda tão larga assim,
[00:48:10] né, dessas coisas. Então,
[00:48:12] é isso, quer dizer, o cara não tá
[00:48:14] te olhando, mas ele poderia, então, estar fazendo
[00:48:16] outra coisa. Ele poderia estar
[00:48:17] full em outra coisa, mas
[00:48:20] ele também não tá, cara, porque eu acho
[00:48:22] engraçado a pessoa escolhe estar
[00:48:23] ali pra não estar ali, ou seja,
[00:48:26] tem cara que senta, abre um computador
[00:48:28] e fica, né, digitando
[00:48:30] alguma coisa, que eu não sei se é um trabalho
[00:48:32] pra outra disciplina, não sei se é uma coisa do
[00:48:34] trabalho dele durante o dia,
[00:48:35] eu não sei se ele tá escrevendo um romance,
[00:48:38] se estivesse era ótimo, né, mas eu acho
[00:48:40] difícil, eu não sei o que ele tá fazendo,
[00:48:42] e aí o cara escolhe estar
[00:48:44] num ambiente em que ele
[00:48:46] precisaria estar prestando atenção numa coisa, mas ele precisa
[00:48:48] se concentrar em outra também.
[00:48:50] Aí vem aquela pergunta, né, por que diabos
[00:48:52] tu não fica em casa, cara?
[00:48:53] Porque tem a chamada, não sei o que, cara, mas é
[00:48:56] que todos os dias do semestre
[00:48:58] você precisa fazer
[00:49:00] outra coisa. É sério que não tem um dia
[00:49:02] que tu vai pra aula de sangue doce, assim,
[00:49:03] vamos assistir essa aula aí, cara, vamos ver o papo
[00:49:06] desse maluco aí. Então,
[00:49:08] é uma coisa complicada, cara, porque
[00:49:09] o planeta inteiro aprendeu
[00:49:12] alguma coisa, ou desaprendeu
[00:49:14] alguma coisa com o período da pandemia.
[00:49:16] E é a mesma coisa que eu tenho falado
[00:49:18] agora nos últimos minutos, né,
[00:49:19] a questão do celular, ela é geracional
[00:49:22] não só no sentido de idade,
[00:49:24] de pessoas que se educaram e aprenderam
[00:49:26] a conviver só com o celular na mão,
[00:49:28] ela é geracional no sentido de que
[00:49:30] pós-celular, pós-redes sociais,
[00:49:32] pós-difusão disso aí,
[00:49:34] cara, a vida de todo mundo mudou,
[00:49:35] e algumas pessoas foram engolidas
[00:49:37] por esse maremoto aí, cara, né,
[00:49:39] e tem velho, tem novo, tem adulto,
[00:49:41] tem criança na jogada, né, não é só
[00:49:43] dizer que é os novinhos e coisa parecida.
[00:49:45] Não, não é, não é, não é, não é, não.
[00:49:47] É bem comum, né, cara,
[00:49:49] até quando tu tá conversando com pessoa,
[00:49:51] de puxar o celular na hora e ficar
[00:49:53] vendo coisa e tal, ao invés de conversar.
[00:49:56] Mas tem uma coisa que o seguinte,
[00:49:58] eu, né, só pra
[00:50:00] também não ficar parecendo
[00:50:01] cagação de regra, cara, eu no início
[00:50:03] da faculdade me dei muito mal.
[00:50:05] Me dei muito mal porque, assim, eu não tava no…
[00:50:09] né, na pegada…
[00:50:09] na pegada de faculdade, não tava
[00:50:11] com a cabeça naquilo ali, porque é um rompimento
[00:50:13] muito grande, né, quando tu sai do ensino
[00:50:15] médio, que tem um negócio
[00:50:17] mais de levar pela mão,
[00:50:19] etc e tal, pra te chegar numa faculdade,
[00:50:22] ainda mais numa época
[00:50:23] em que você não
[00:50:25] conversava com professores,
[00:50:27] você não tinha acesso a professora
[00:50:29] de forma alguma que não fosse
[00:50:31] em sala de aula, né, tu não vai ligar
[00:50:33] pro telefone fixo
[00:50:35] no teu professor, no
[00:50:37] escritório dele, até porque ele vai te
[00:50:39] mandar merda, né.
[00:50:40] Então tem um rompimento muito grande.
[00:50:42] Eu rodei em disciplina,
[00:50:44] eu tive que fazer de novo,
[00:50:47] eu tive que fazer exame,
[00:50:49] todo esse tipo de coisa, assim, aconteceu comigo.
[00:50:51] Só que tinha um lance, cara.
[00:50:52] Tu pegava, eu, pelo menos,
[00:50:54] pegava. Ia fazer outras
[00:50:57] coisas, tava mais interessado em outras
[00:50:58] coisas, não ia na aula, rodava
[00:51:00] naquela disciplina, meu velho,
[00:51:03] você perdeu. E é assim
[00:51:05] que funciona, tá?
[00:51:06] Às vezes a gente perde, a gente…
[00:51:09] Eu quero mais assistir um filme do que
[00:51:10] tá na aula. Não fui naquela
[00:51:12] aula, teve uma questão em cima daquele
[00:51:14] negócio, perdi? Perdeu.
[00:51:17] Acontece. Tá tudo
[00:51:19] bem. E às vezes acontece
[00:51:21] inclusive com coisas que estão completamente
[00:51:22] fora do nosso controle.
[00:51:24] Não tô nem falando do… Ah, você
[00:51:26] faz escolhas e então tem que…
[00:51:29] Não, às vezes são coisas que são fora do nosso
[00:51:30] controle. Às vezes você bateu de carro
[00:51:32] e não pode ir pra aula e acontece
[00:51:34] isso aí. Às vezes você fica doente
[00:51:37] e acontece isso aí. É normal,
[00:51:39] é da vida, né?
[00:51:40] A gente tem que, uma das coisas, exatamente
[00:51:43] tu poder reconhecer
[00:51:45] que esse tipo de coisa
[00:51:46] pode acontecer e você vai
[00:51:49] ser prejudicado. E é isso aí,
[00:51:51] cara. E é isso aí.
[00:51:53] Agora, tem um lance
[00:51:54] que eu já ouvi muitas vezes
[00:51:57] e eu não gosto quando eu ouço isso aí
[00:51:59] do… Eu não posso
[00:52:01] rodar nessa disciplina.
[00:52:03] Eu não posso ir mal
[00:52:05] nesta prova. Eu não posso
[00:52:07] levar esta falta.
[00:52:09] Sabe? Com um tom
[00:52:11] de cobrança como se isso fosse
[00:52:13] tua responsabilidade de fazer
[00:52:15] ou um negócio simples, né?
[00:52:16] Tipo, ah, é só me dar
[00:52:18] três pontos, quatro pontos,
[00:52:21] dez faltas, tira pra mim.
[00:52:23] E que não é assim que funcionam
[00:52:25] as coisas, sabe?
[00:52:27] Porque tu acaba jogando no outro
[00:52:29] uma responsabilidade por uma coisa que não é
[00:52:31] dele. E talvez não seja de
[00:52:32] ninguém. E é
[00:52:34] assim. E tá ok.
[00:52:37] Sabe? Ah, mas é que eu faltei aquelas
[00:52:38] oito aulas, Divã,
[00:52:40] por causa que eu tive que ajudar meu pai a
[00:52:42] construir um
[00:52:44] galinheiro.
[00:52:46] Tudo bem. Mas não é do Divã,
[00:52:48] não é do teu pai, não é teu.
[00:52:50] Agora tem que ter esse negócio de saber
[00:52:52] perder. E me parece que a galera
[00:52:54] tá sem saber perder.
[00:52:57] E às vezes você perde.
[00:52:58] Nem todo jogo tu ganha.
[00:53:00] Né? E de novo, gente,
[00:53:03] assim, ó, não quero culpar ninguém
[00:53:04] por nada. Não quero sair naquele papo
[00:53:06] moralista do, não, fez a tua escolha,
[00:53:08] né, filhão? Aguenta. Às vezes é
[00:53:10] assim, né? Fez a tua escolha, aguenta.
[00:53:13] Tem vezes que não é a tua escolha
[00:53:15] e tu tem que aguentar também.
[00:53:16] Porque são coisas da vida que acontecem.
[00:53:19] Agora tudo acaba sendo jogado
[00:53:20] pro cara, né? Olha aqui, ó.
[00:53:22] Não pude porque não sei o quê. Então não posso rodar.
[00:53:24] Não posso rodar porque eu tenho não sei o quê.
[00:53:27] Não posso porque… Cara,
[00:53:28] pode sim. Pode. É assim
[00:53:30] que funciona. Pode sim. Cara, perfeito.
[00:53:33] Perfeito. Porque, assim, isso é uma coisa
[00:53:34] que eu também friso com a galera.
[00:53:36] Eu falo na primeira aula,
[00:53:38] quando eu dou a primeira aula, aquela do
[00:53:40] semestre, assim, né? Eu falo
[00:53:42] assim, galera, tem umas coisas que eu vou falar que vai
[00:53:44] parecer papo de coach, tá?
[00:53:46] Eu juro por Deus que é a última vez. É a primeira e última
[00:53:48] vez que eu vou falar. Mas eu acho importante
[00:53:50] falar. Bom, tu sabe muito bem,
[00:53:52] né? E tem muita gente que sabe também.
[00:53:55] Eu fui
[00:53:55] entre especialização, mestrado
[00:53:58] e doutorado, eu fui
[00:54:00] uns 10 anos orientando do
[00:54:02] senhor Aurí Celso de Lima
[00:54:04] Lopes Júnior. Também conhecido como Aurí
[00:54:06] Lopes Júnior, né?
[00:54:07] Alguns conhecem ele. Uma menina
[00:54:09] falou pra mim esse dia. Ah, tá, é o advogado
[00:54:11] caminhão aquele, né? Eu é o advogado
[00:54:13] caminhão. Exatamente, né?
[00:54:15] O grande
[00:54:16] highlight do currículo do Aurí.
[00:54:20] Cara, e o Aurí
[00:54:21] ele me convenceu
[00:54:23] a estudar um
[00:54:25] cara que ele enfatiza muito
[00:54:27] que depois dele enfatizar
[00:54:29] começou a se dar no Brasil, né?
[00:54:31] Uma atenção um pouco maior, mas
[00:54:33] houve um tempo que ficou apagado esse
[00:54:35] cara, que é o James Goldsmith.
[00:54:37] E de fato, cara, o James Goldsmith
[00:54:39] é um dos maiores gênios do direito
[00:54:40] processual, no sentido amplo da palavra,
[00:54:43] do mundo. E o Goldsmith,
[00:54:45] cara, ele teorizou sobre
[00:54:47] uma coisa que é um pensamento
[00:54:49] extremamente avançado, principalmente
[00:54:51] pra um jurista meio durango, né?
[00:54:53] Um cara que era da Alemanha,
[00:54:55] aí teve problemas com a questão
[00:54:57] do regime e vai pra Espanha
[00:54:59] e aí na Espanha também tem
[00:55:00] uma série de questões lá com o franquismo
[00:55:02] e tudo mais. Então ele tá naquele mundo
[00:55:05] do direito, assim, né?
[00:55:07] O direito clássico, o direito europeu,
[00:55:09] continental. Mas ele tem
[00:55:11] uma ideia sobre uma questão de processo
[00:55:13] que é muito avançada
[00:55:14] que ele fala o seguinte, ó, véio,
[00:55:17] tu tem certas questões de obrigações
[00:55:19] e direitos mediante
[00:55:21] a questão da tua posição
[00:55:23] numa espécie de situação
[00:55:25] processual que
[00:55:27] com o andar da carruagem, galo,
[00:55:29] véio, elas vão mudar, quer dizer,
[00:55:31] é aquela história. A rigor,
[00:55:34] o réu não tem que provar a sua própria
[00:55:35] inocência, né? Isso aí é um…
[00:55:36] Isso aí é um preceito básico. Quem tem que provar
[00:55:38] é a culpa, né? A partir
[00:55:40] da acusação. Mas…
[00:55:43] Cara, quem é que me garante
[00:55:44] que tu não vai ter algum momento
[00:55:46] onde vai ser não só
[00:55:48] melhor, como crucial pra ti que tu
[00:55:50] não faça uma prova a favor de ti mesmo?
[00:55:52] Porque as coisas andam, elas são dinâmicas.
[00:55:55] Então, a questão
[00:55:56] toda tá no aproveitamento
[00:55:58] ou não de chances ou de oportunidades
[00:56:01] e de saber que
[00:56:02] muitas vezes tu não tem controle sobre tudo
[00:56:04] mas tu tem que ter controle sobre uma certa parte
[00:56:06] pra obter uma vantagem maior ou
[00:56:08] pra correr o risco de uma eventual
[00:56:10] desvantagem. E eu digo pra
[00:56:12] agulhizada assim, ó, no processo
[00:56:15] penal, véio, é, na vida,
[00:56:17] né, também vai ter um paralelo
[00:56:19] aqui. Porque tu não consegue controlar
[00:56:20] tudo. O que tu tem que fazer é
[00:56:22] controlar o que tu pode controlar
[00:56:24] pra diminuir o campo de ação
[00:56:26] da desvantagem ou do, entre aspas,
[00:56:28] inimigo, ou pra diminuir
[00:56:30] o campo de ação da aleatoriedade.
[00:56:33] Porque quanto mais campo de ação
[00:56:34] tiver o aleatório e ou o
[00:56:36] entre aspas, inimigo, o outro lado
[00:56:38] o revés, né, qualquer coisa que seja
[00:56:40] cara, é mais chance
[00:56:43] de dar alguma merda pra ti.
[00:56:44] Então, dá pra perder um processo
[00:56:46] por exemplo, onde tu tem razão, onde tu tá
[00:56:48] indo bem, onde tu tem os melhores argumentos
[00:56:50] as melhores provas? Dá, porque às vezes tu perde.
[00:56:53] Porque às vezes tu fez tudo direitinho
[00:56:55] a sorte jogou onde
[00:56:57] pôde jogar a teu favor, mas o outro lado
[00:56:58] jogou melhor ainda, cara.
[00:57:01] O que tu não pode fazer é jogar
[00:57:03] mal, desleixadamente, a ponto
[00:57:05] de o cara ganhar quando
[00:57:06] ele é melhor, e ganhar também quando tá médio
[00:57:09] e ganhar também quando tá ruim, mas é que tu foi
[00:57:10] tão péssimo que só o ruim dele já superou.
[00:57:13] Então eu aviso pra eles assim,
[00:57:14] pessoal, estudem um mínimo
[00:57:17] cara, estudem um mínimo
[00:57:19] porque aí você
[00:57:21] vai fazer pelo menos a parte
[00:57:23] que você tá interessado em tentar
[00:57:24] cumprir. Agora, o cara
[00:57:26] acha que tanto no processo
[00:57:28] quanto na vida, ele não pode perder, meu.
[00:57:31] E eu digo pra eles, olha
[00:57:32] galera, tem recurso, recurso, recurso
[00:57:34] recurso, mas tem uma hora que deu, tem uma hora que
[00:57:36] acabou, cara, tem uma hora que transitou em julgado.
[00:57:39] Assim como tem recursos
[00:57:41] que os tribunais superiores
[00:57:42] em determinadas circunstâncias, que são
[00:57:44] maioria, inclusive, eles não vão receber,
[00:57:47] meu. Então aqui
[00:57:48] é a mesma coisa. As coisas da vida
[00:57:50] são assim. Tu vai fazer, às vezes,
[00:57:52] o teu melhor, e aquilo não vai
[00:57:54] ser suficiente. Mas pelo menos
[00:57:57] tu vai dizer, olha, eu fiz o meu melhor e o que
[00:57:58] deu foi, né, ou
[00:58:00] o outro lado foi melhor ainda, ou
[00:58:02] deu uma merda que eu não tinha como evitar.
[00:58:05] Agora, o cara,
[00:58:06] o cara acha que não pode perder, assim como
[00:58:08] ele acha que não pode se dar mal,
[00:58:10] assim como ele acha que não pode ser reprovado
[00:58:12] uma disciplina, assim como ele acha…
[00:58:14] É aquela história. Essa galera,
[00:58:16] e aí eu não queria forçar
[00:58:18] essa barra, porque tem uma série de outras
[00:58:20] variáveis aqui, né. Mas, cara,
[00:58:22] tem uma galera que parece,
[00:58:24] às vezes, extremamente
[00:58:26] despreparada psicologicamente pra lidar
[00:58:28] com qualquer coisa.
[00:58:30] E eu não tô me referindo àqueles anúncios, assim,
[00:58:32] ó, olha, a geração não
[00:58:34] sei o que, não quer mais trabalhar, só quer
[00:58:36] choramingar, porque a gente já conversou
[00:58:38] sobre isso, né. Uma coisa é a
[00:58:40] geração que choraminga demais, mas
[00:58:42] outra coisa é, talvez tem
[00:58:44] uma geração aí que tá
[00:58:45] fazendo um movimento que a gente nunca
[00:58:48] fez, que é não engolir certos sapos
[00:58:50] e questionar por que que o sapo é sapo, por que
[00:58:52] que eu tenho que engolir o sapo. Então
[00:58:54] tem uma coisa de interessante
[00:58:56] e de poderosa
[00:58:58] no choramingo.
[00:59:00] Agora, tem choramingo que é choramingo.
[00:59:03] Tem que analisar
[00:59:04] se o cara tá realmente levantando
[00:59:06] uma questão que a gente nunca levantou e nós
[00:59:08] estamos tratando ele como alienígena, porque ele tá
[00:59:10] finalmente levantando, porque ninguém até hoje
[00:59:12] conseguiu fazer isso.
[00:59:14] E tem o outro lado, que é
[00:59:16] a pessoa não aceita um compromisso básico,
[00:59:18] ela não aceita uma responsabilidade mínima,
[00:59:20] ela não aceita perder, porque vai
[00:59:22] perder muitas vezes, porque ninguém ganha sempre.
[00:59:25] E isso é preocupante.
[00:59:27] Isso é preocupante, porque o cara
[00:59:28] vai lá e diz assim, ah, eu não posso
[00:59:30] rodar. Quer ver outra coisa que me deixa
[00:59:32] louco? Professora, é o seguinte,
[00:59:34] a turma inteira foi mal aqui na prova,
[00:59:36] porque
[00:59:36] é o que só acontece
[00:59:39] nas minhas provas. E depois eu mostro
[00:59:42] pra eles que tudo tava explicadinho,
[00:59:44] tudo estava bem pautado,
[00:59:46] tudo era fácil
[00:59:48] de ser resolvido. Eles acham que a prova
[00:59:50] era impossível no primeiro momento, é sempre aquele
[00:59:52] choro. Aí, aquela primeira conversa,
[00:59:54] não, porque se a turma inteira foi
[00:59:56] mal, o problema não é a turma, é o
[00:59:58] professor. Pica, né?
[01:00:00] Pica, velho, porque se a turma inteira
[01:00:02] não estuda porra nenhuma, e se o cara faz
[01:00:04] a prova mais fácil do mundo, mas ninguém consegue sequer
[01:00:06] perceber que era fácil, né? O problema não é esse.
[01:00:08] Mas vem aquela história assim, ó.
[01:00:10] Então, professor, fui mal na prova.
[01:00:13] E aí, o que o senhor vai fazer
[01:00:14] por mim, né? Como é que a gente vai
[01:00:16] fazer aqui pra recuperar? Quer dizer
[01:00:18] que eu tenho que ficar dando continue
[01:00:20] pro cara, né? No meu tempo
[01:00:22] tinha, inclusive, o joguinho tinha
[01:00:24] número limitado de continue,
[01:00:26] né, cara? Tem uma hora que acabou, deu game over,
[01:00:28] deu game over. O cara acha que ele vai
[01:00:30] pegar continue, né, o tempo todo.
[01:00:32] Como quem diz assim, enquanto eu não me der bem,
[01:00:34] isso aqui não acabou, velho.
[01:00:35] E isso é uma coisa tão ingênua
[01:00:37] quanto intransigente, né?
[01:00:39] Quanto perversa, quanto burra,
[01:00:41] quanto esquisita.
[01:00:43] Ao mesmo tempo, tudo que me deixa
[01:00:45] nervoso. Pois é, cara, é que
[01:00:47] exatamente, né? Outro dia eu brinquei com
[01:00:49] esse negócio de que eu acho que a mudança
[01:00:51] nos videogames deu um
[01:00:53] impacto, sabe, na formação.
[01:00:55] Porque quando tu tinha
[01:00:56] três continue e depois tu começava tudo de novo,
[01:01:00] assim, isso gera um certo caráter
[01:01:01] na pessoa, sabe?
[01:01:04] Mas…
[01:01:04] E tem muito esse lance da responsabilidade,
[01:01:07] né, da responsabilidade por
[01:01:09] resultado, da responsabilidade
[01:01:11] das coisas e dessa transferência
[01:01:13] de responsabilidade, sabe?
[01:01:15] Isso que eu acho mais sacanagem.
[01:01:17] Porque, cara,
[01:01:19] eu me esforço, eu sou uma pessoa que me esforço
[01:01:21] continuamente pra não ser
[01:01:23] pau no cu. Continuamente
[01:01:25] eu tento fazer esse negócio.
[01:01:27] Porque eu já te contei essa história,
[01:01:29] eu vou contar em público aqui.
[01:01:30] Eu tive um professor que quando eu passei
[01:01:33] no concurso pra Caixa Feliz,
[01:01:34] eu tive que mudar da manhã pra noite
[01:01:37] pra conseguir trabalhar de dia
[01:01:39] e fazer faculdade de noite
[01:01:40] e perdi uma prova dele, né,
[01:01:43] e não podia fazer de manhã por causa que
[01:01:45] tava entrando, tava em estágio probatório,
[01:01:47] papabá, cheguei pro cara e disse assim
[01:01:49] professor, aconteceu isso, isso,
[01:01:51] isso, não vou conseguir fazer sua prova,
[01:01:53] tem alguma coisa que dê pra fazer pra mim?
[01:01:55] E o cara olhou na bolada dos meus olhos
[01:01:57] assim e falou
[01:01:58] Felipe, por ti tu não
[01:02:01] mereceria, mas eu vou fazer por causa
[01:02:03] do teu pai.
[01:02:04] Que eu conhecia ele, era gente boa.
[01:02:07] Mas assim, ó, me humilhou,
[01:02:08] não tinha por que fazer,
[01:02:10] não tinha nada disso aí, coisa.
[01:02:12] Era aquele negócio, né, era direito
[01:02:14] dele, se ele chega também e diz, não dá,
[01:02:16] não dá, tranquilo, eu é que tô
[01:02:18] pedindo arrego. Mas era melhor
[01:02:20] ter dito não dá do que ser
[01:02:22] filho da puta, assim. Mas beleza.
[01:02:24] E daí depois, um ano depois,
[01:02:26] sei lá, eu encontrei ele na Caixa Federal,
[01:02:28] ele tava esperando pra pegar uma
[01:02:30] senhazinha lá pra ser atendido daqui a
[01:02:32] uma hora e meia, quando desse o lugar dele.
[01:02:34] E daí eu me levantei e
[01:02:36] fui até ele e digo, professor fulano de
[01:02:38] tal, o senhor não vai ficar esperando
[01:02:40] na minha frente. Eu vou lhe atender
[01:02:42] agora. Ele disse, não, não precisa fazer
[01:02:44] nada disso e tal. Eu digo, não, não,
[01:02:46] eu faço questão porque eu só tô aqui graças
[01:02:48] ao senhor. Foi pior do que se eu
[01:02:50] tivesse mandado ele se fuder naquele
[01:02:52] momento, deixado ele esperar, porque depois
[01:02:54] daquilo o cara me encontrava na rua e ele
[01:02:56] atravessava, assim, dois quarteirão
[01:02:58] pra pegar e me cumprimentar e
[01:03:00] tal, porque ele ficou com a cara lá no chão.
[01:03:02] Isso foi um troço que me marcou muito,
[01:03:04] do tipo, cara, se um dia eu for
[01:03:06] professor, e eu nunca tive, na verdade,
[01:03:08] essa vontade, foi um negócio que aconteceu na minha
[01:03:09] vida, eu digo,
[01:03:12] nunca vou ser pau no cu, assim, nunca vou humilhar
[01:03:14] uma pessoa por causa das coisas.
[01:03:15] E é evidente que tem muita coisa
[01:03:17] que tu pode ajudar.
[01:03:19] Quantas vezes, né, tu recebe um e-mail,
[01:03:21] fiquei doente, alguém na minha família
[01:03:23] faleceu, aconteceu uma coisa, poxa,
[01:03:26] você ajuda com tudo.
[01:03:27] Mas essa transferência de responsabilidade,
[01:03:30] de repente acontecer algo,
[01:03:32] eu chegar e dizer, não,
[01:03:33] você tem que me ajudar,
[01:03:36] você é o responsável, né?
[01:03:39] Todo mundo
[01:03:39] rodou na cadeira do divão,
[01:03:41] foi mal na prova do divão,
[01:03:43] a culpa só pode ser dele.
[01:03:45] Poxa, cara, até porque tem um lance que é
[01:03:47] muito certo, né?
[01:03:49] Tu se alimenta demais da energia
[01:03:51] da turma. É impossível
[01:03:53] tu dar uma aula boa pra uma
[01:03:55] turma que não esteja interessada.
[01:03:57] E aqui eu falo uma turma, sei lá, tu tá com
[01:03:59] 40 pessoas e ninguém
[01:04:01] tu vê assim que tá minimamente interessado.
[01:04:03] E acontece.
[01:04:05] É impossível tu chegar
[01:04:07] motivado, é impossível tu bolar
[01:04:09] coisa nova na tua cabeça.
[01:04:11] Cara, é uma tortura
[01:04:13] quando isso aí acontece.
[01:04:15] E o contrário também. Às vezes tu tá
[01:04:17] podre de cansado, tu não aguenta mais
[01:04:19] fazer as coisas, tu chega numa turma que tá
[01:04:21] afim, velho. Nossa, dá uma
[01:04:23] adrenalina do caramba, assim,
[01:04:25] pra te tirar força não sei da onde
[01:04:27] assim pra conseguir fazer.
[01:04:29] Cara, isso é 100% verdade.
[01:04:30] Mas eu queria fazer
[01:04:32] uma parte,
[01:04:33] sabe, uma parte, não uma
[01:04:35] coluna, né? Eu queria dar uma parte
[01:04:37] aqui, porque
[01:04:38] muito tempo depois eu vim a conhecer esse
[01:04:41] cidadão aí, de quem o Felipe falou,
[01:04:43] né, desse caos aí.
[01:04:45] E é um velho corno lá que eu acho
[01:04:47] que tu devia deixar ele esperando, tá? O meu voto.
[01:04:50] Eu vou ser o relator do voto
[01:04:51] vencido, tá? Eu acho que esse
[01:04:53] velho corno aí devia, porque é uma figura desprezível.
[01:04:56] Quem ouve o Vira Casacas
[01:04:58] acharia esse cara
[01:04:59] desprezível, eu tenho toda certeza.
[01:05:01] Isso é verdade.
[01:05:01] Até porque a gente fala mal de gente
[01:05:04] tipo ele, e… A gente fala mal
[01:05:06] de gente tipo ele, a gente fala mal de quem ele
[01:05:08] defende, a gente fala mal de quem
[01:05:10] ele apoiou, né? A gente
[01:05:12] fala mal, né? E o cara é um entusiasta
[01:05:14] assim, né? Então, deixa estar.
[01:05:16] Deixa estar. Mas, cara,
[01:05:19] é…
[01:05:20] E olha, os caras acham assim, nossa,
[01:05:22] é muito difícil, né?
[01:05:24] O cara é muito exigente, não sei o quê.
[01:05:26] Assim, ó, a quantidade
[01:05:28] de arrego por minuto que eu dou
[01:05:30] é muito impressionante.
[01:05:31] Essa coisa do atestado… Imagina se eu vou
[01:05:34] ficar conferindo, né?
[01:05:36] Se o atestado,
[01:05:38] não sei o quê… Cara, só não faz
[01:05:40] a coisa cretina, né?
[01:05:42] Tipo, teve aquele cara
[01:05:44] que meteu um atestado com assinatura
[01:05:46] do veterinário, né?
[01:05:49] E teve outro
[01:05:50] que meteu o atestado da
[01:05:52] ginecologista. Eu fiquei pensando assim,
[01:05:54] ó, meu velho, né?
[01:05:55] Atestado a ginecologista, cara.
[01:05:58] Então, tudo bem, ele pode ter…
[01:05:59] Foi do nosso colega, né? Foi do nosso colega
[01:06:01] que recebeu a fotinho por WhatsApp,
[01:06:03] né? O cara disse, morreu uma pessoa da minha
[01:06:05] família. E daí ele pegou e mandou uma
[01:06:07] foto do velório, cara.
[01:06:09] Isso não precisa lá do cachorro, né, velho?
[01:06:12] Não, cara, mas assim, ó.
[01:06:14] O atestado ginecologista,
[01:06:16] né? Deu vontade de perguntar pro cara,
[01:06:17] tá, meu, tu foi, tu e a tua mina
[01:06:19] foram no concerto da Cigaita?
[01:06:22] Que diabo que aconteceu aqui?
[01:06:24] Porque, velho, não, é assim, ó.
[01:06:25] É impressionante, cara, né?
[01:06:27] Agora, fora isso, meu,
[01:06:29] fora isso, cara, eu vou dizer uma
[01:06:31] coisa, eu comecei a fazer chamada.
[01:06:34] Chamada.
[01:06:35] Eu comecei a fazer esse ano, cara,
[01:06:37] 18 anos de docência.
[01:06:40] A primeira vez que eu tô fazendo
[01:06:41] chamada é este semestre, não é nem
[01:06:43] no ano, porque primeira metade do ano eu não fazia.
[01:06:46] Foi por uma questão de necessidade,
[01:06:48] cara, porque
[01:06:48] tem turmas, essa aí que tu falou, da
[01:06:51] baixa energia e tal. Tem galera que,
[01:06:53] meu, o cara chega 40 minutos
[01:06:55] depois, o cara fica lá
[01:06:57] sem olhar pra tua cara um minuto e ele vai
[01:06:59] embora 35 minutos antes,
[01:07:01] e volta a pergunta, né, pra mesa.
[01:07:03] Por que, seu infeliz, você foi
[01:07:05] nesse lugar? Você não queria estar lá?
[01:07:07] Tem outros lugares que são melhores, né?
[01:07:09] Pelo amor de Deus. E aí eu disse assim,
[01:07:11] não, cara, vamos moralizar isso aqui. Eu sempre
[01:07:13] me orgulhei de não fazer chamada e tal.
[01:07:15] Aí agora eu mudei. Agora eu mudei, vou fazer chamada.
[01:07:17] Então, eu acho um troço completamente arcaico,
[01:07:19] né? E, de certa maneira,
[01:07:21] é meio constrangedoramente punitivo,
[01:07:23] mas fazer o quê? Então o cara pega
[01:07:25] uma canetinha, pega lá e fica lá.
[01:07:27] Aninha, Aninha 2,
[01:07:29] não sei o quê,
[01:07:31] demônio,
[01:07:31] e chama lá aquela multidão
[01:07:34] de pessoas e tal. Cara, é meio patético,
[01:07:36] mas é isso. Nas minhas aulas,
[01:07:38] todo mundo sempre esteve no sistema
[01:07:40] presente, né? Aí sempre tem,
[01:07:42] eu me lembro daquele amigo
[01:07:44] meu que pergunta assim, tá, cara,
[01:07:46] mas se alguém cometer um
[01:07:48] crime, né? É sempre esse papo,
[01:07:50] né, cara? A imaginação das pessoas vai longe.
[01:07:52] E se alguém cometer um crime e usar
[01:07:54] como álibi que esteve na tua aula
[01:07:56] porque tu deu uma presença sem mais nem menos,
[01:07:58] então eu servi como álibi
[01:08:00] pra um homicídio, pronto.
[01:08:01] Acontece, acontece nas melhores famílias.
[01:08:04] Mas agora não mais, hein, galera? Acabou a do
[01:08:06] álibi, hein, porque se você não tá na aula ali,
[01:08:08] você não ganha presença.
[01:08:10] E tem cara que chega pra mim e diz assim, ó,
[01:08:12] ô, professor,
[01:08:14] mas eu só me atrasei 15 minutos.
[01:08:17] A aula começa às 8 da manhã,
[01:08:19] eu entro em
[01:08:20] sala de aula às 8 e alguma coisinha,
[01:08:22] e depois disso ainda
[01:08:24] o cara chega 15 minutos e ele quer
[01:08:26] arrego. Eu falei, velho, olha a minha
[01:08:28] idade, cara. Olha pra mim, eu estou
[01:08:30] aqui às 8 e pouquinho. Por que que
[01:08:31] tu, um rapaz aí com um viço, né?
[01:08:34] Um rapaz com uma cara lisinha,
[01:08:36] uma moça com colágeno aí,
[01:08:38] todo mundo na flor da idade. Por que que vocês não
[01:08:39] estão às 8 da manhã? Se esse
[01:08:42] tio aqui pode estar, vocês podem
[01:08:44] também, pelo amor de Deus.
[01:08:46] Então, cara, é uma série de coisas
[01:08:47] muito interessantes. Agora, tu lembrou
[01:08:49] esse professor desagradável aí?
[01:08:52] Eu também vou ter que
[01:08:54] dizer uma coisa. Quando a gente
[01:08:56] fala que em outros tempos
[01:08:58] a coisa era diferente,
[01:09:00] vamos ser, não vamos ser
[01:09:02] caricatos que nem o Zygmunt
[01:09:04] Bulmer, né? Porque o cara fala
[01:09:06] assim, o trabalho era estável,
[01:09:08] os casamentos duravam,
[01:09:10] não sei o quê. Cara,
[01:09:12] a maior chance de um casamento
[01:09:14] durar era por outros motivos, como
[01:09:16] manter as aparências,
[01:09:18] cuidar das crianças e coisa parecida.
[01:09:20] Talvez as pessoas fossem extremamente infelizes
[01:09:22] naquele casamento de 40 anos
[01:09:23] e elas não tinham brecha social
[01:09:26] pra escapar daquilo.
[01:09:28] Talvez o trabalho oprimiu o
[01:09:30] cara durante 52 anos na mesa
[01:09:32] fina pra no final ele ganhar uma plaquetinha
[01:09:34] lá e é isso, cara.
[01:09:36] Então a gente tem esse lado também,
[01:09:38] porque no nosso tempo era mais sério
[01:09:40] o negócio. Talvez, né,
[01:09:41] porque o professor sentia vontade pra humilhar
[01:09:44] o cara assim, sem mais nem menos, né?
[01:09:46] Tu disse que a pessoa não tinha contato
[01:09:48] com o professor? Tudo bem, ninguém mandava
[01:09:50] WhatsApp pro cara de madrugada.
[01:09:52] Mas ao mesmo tempo também ninguém sentia vontade
[01:09:54] pra ir falar com o cara, porque
[01:09:55] o cara fazia questão de manter
[01:09:57] aquela marra de quem dá medo, né?
[01:10:00] E o cara dizia assim, é,
[01:10:01] tinha alguns professores
[01:10:04] meus que em todas as palavras dele,
[01:10:06] se tu pudesse ler nas entrelinhas
[01:10:08] e ver o que que tava entre parentes,
[01:10:10] era um troço tipo assim, ó, vocês são os ignorantes,
[01:10:12] eu tô aqui, né,
[01:10:14] mostrando, quem sabe, vocês deveriam
[01:10:16] dar graça a Deus só pra eu estar nessa sala.
[01:10:18] E aí o cara chegava 40 minutos
[01:10:20] atrasado, ia embora e não
[01:10:22] ia quando não queria. E depois
[01:10:24] chegava lá e metia o papo assim,
[01:10:25] eu tive um júri muito importante, eu tive uma
[01:10:28] audiência com um ministro em Brasília,
[01:10:30] e tal, e tu tem que aturar isso daí, né, cara.
[01:10:32] Então tá cheio de coisa da época
[01:10:34] passada, que são os vícios
[01:10:36] que você não quer voltar.
[01:10:38] A relação professor-aluno de hoje
[01:10:40] em dia, por pior que seja, né,
[01:10:42] vários dos problemas que a gente tá falando
[01:10:44] aqui, ela é 5 milhões de vezes
[01:10:46] melhor do que a questão que tinha
[01:10:48] antigamente. Tu tinha que
[01:10:50] chegar, né, tu chegava que nem o
[01:10:52] agrimensor no castelo, né,
[01:10:54] Deus me livre pra marcar uma audiência
[01:10:56] com alguém, sabe-se lá quando, né.
[01:10:58] Cara, é um negócio assim, ó,
[01:11:00] e dá arrepios, né. E tem um amigo meu
[01:11:02] que contou um negócio, e ele contou com
[01:11:04] certo orgulho, né, porque assim,
[01:11:06] na tua área, eu não sei, cara, mas
[01:11:08] na parte das ciências criminais no Brasil
[01:11:10] tem um certo fetiche
[01:11:12] com a escola de Coimbra, né,
[01:11:14] que é muito impressionante, né. Ah, mas tem tudo,
[01:11:16] sim, sim, sim. Coimbra é um negócio
[01:11:18] impressionante pra todos, né. A capital
[01:11:20] da bunda moleste jurídica mundial.
[01:11:22] Cara, aí tem um amigo meu que
[01:11:24] disse que na aula de um certo professor lá,
[01:11:26] né, um penalista muito famoso,
[01:11:28] talvez o nome mais famoso, né, daquele…
[01:11:29] daqueles que estão lá, entre os já muito famosos
[01:11:31] que estão, na aula
[01:11:33] do cara tava um calor e um
[01:11:35] cara tirou o casaco, porque sim, eles
[01:11:37] tem que estar de gravata na aula, né, afinal
[01:11:39] de contas, né. Aí o cara tirou o
[01:11:41] casaco porque tava calor, e ele
[01:11:43] foi fazer uma pergunta. E o
[01:11:45] professor ficou brabo com ele, como quem diz assim,
[01:11:48] muito me admiro o senhor falar na frente
[01:11:49] dos seus colegas, inclusive
[01:11:51] das senhoras, suas colegas aí,
[01:11:54] se trajando dessa maneira,
[01:11:55] não sei o que, não sei o que. Aí lá, pela
[01:11:57] santa, o cara entendeu que ele tinha que botar de novo o
[01:11:59] casaco, né, se recompor e fazer
[01:12:01] uma pergunta. Ah, me erra,
[01:12:03] cara, me erra, pode ser a faculdade
[01:12:05] universal do planeta
[01:12:07] Terra, do planeta Saturno, não sei o que,
[01:12:10] da galáxia, da pica, não, não, pelo
[01:12:11] amor de Deus, velho. Vai de
[01:12:13] retro, cara. Se é isso que o cara
[01:12:15] tem como seriedade, não sei o que,
[01:12:17] ô, velho, eu tô quase preferindo o maluco
[01:12:19] escutando fone do celular, meu. Tô quase.
[01:12:22] Não tô, mas tô quase.
[01:12:23] Não, mas é que isso aí é real, cara.
[01:12:25] Isso aí é real, assim, ó, eu não troco
[01:12:27] nem a pau, né, aquele
[01:12:29] negócio de que tu tinha medo
[01:12:31] de reclamar por causa que
[01:12:33] tinha uma questão que tava mal corrigida
[01:12:35] nitidamente, daí tu tinha
[01:12:37] professor, desculpe, com licença,
[01:12:39] será que poderia e tal,
[01:12:41] né, tu não ter acesso,
[01:12:43] tu não poder conversar, tu não poder trocar
[01:12:45] ideia, o cara, isso que
[01:12:47] tu fala, né, Diva, do cara que não ia dar aula,
[01:12:50] ele não avisava.
[01:12:52] Tu chegava lá,
[01:12:53] né, sete e quarenta da manhã,
[01:12:56] às oito e meia, vinha alguém avisar
[01:12:57] ou o professor não veio.
[01:12:59] Não, era horrível, não era melhor
[01:13:01] de forma alguma, né, a gente tá
[01:13:03] fazendo aí um desabafo
[01:13:06] muito mais no sentido de tentar
[01:13:07] ajudar, de repente, alguém,
[01:13:09] porque, cara,
[01:13:11] meu sonho, Diva, era, um,
[01:13:14] não fazer chamada, e
[01:13:15] dois, não fazer nem prova, cara.
[01:13:18] Porque, sinceramente, se alguém tá ali
[01:13:20] querendo, com vontade,
[01:13:22] com atenção,
[01:13:23] eu não vejo o que uma prova
[01:13:25] comprova a respeito de quanto
[01:13:28] que a pessoa sabe.
[01:13:29] Tu pode pegar a pessoa num dia ruim,
[01:13:31] tu pode pegar ela num dia que tá com dor de cabeça,
[01:13:34] tu pode pegar ela que ela estudou
[01:13:36] todo o resto e se perdeu em
[01:13:37] duas questões ali,
[01:13:40] então, assim, ó, é muito de momento, né,
[01:13:42] tu não tá medindo exatamente o que que ela
[01:13:44] sabe efetivamente sobre aquela
[01:13:46] matéria, sabe?
[01:13:48] Então, assim, ó, meu sonho era esse aí.
[01:13:49] Se eu entrasse numa sala que eu dissesse,
[01:13:51] pessoal, todo mundo tá afim,
[01:13:54] juro, eu não faria
[01:13:56] chamada, eu não faria prova,
[01:13:58] porque eu não vejo fundamento
[01:13:59] de nada disso aí. Acaba virando
[01:14:01] um negócio que, assim, ó, ah, não, o professor gosta
[01:14:03] de fazer prova, ninguém gosta, gente.
[01:14:06] Tu tem que elaborar a questão,
[01:14:08] tu tem que corrigir, tu tem que
[01:14:09] calcular, tu tem que passar pro sistema,
[01:14:12] é um saco, é horrível
[01:14:14] de fazer isso aí. Chamada,
[01:14:16] faz, bota no papel,
[01:14:17] abre lá, coloca o conteúdo,
[01:14:19] coloca a presencinha, tem que ficar tirando lá
[01:14:21] da aninha que não veio naquele dia e tal.
[01:14:24] Então, assim, ó, não é prazeroso,
[01:14:26] sabe? De repente, assim, ó,
[01:14:27] quando eu comecei a dar aula, achava
[01:14:29] massa, ó, ser rigoroso, ser
[01:14:31] CDF, bababá. Hoje eu só
[01:14:33] queria, assim, poder, pô, queria que a galera
[01:14:35] tivesse afim pra eu chegar na minha aula
[01:14:37] e ir embora, todo mundo ficar feliz, sabe?
[01:14:40] Pô, mas toma cuidado, né? Porque o
[01:14:41] Piercy, lá no, da arte de consertar
[01:14:43] motocicletas e tal, ele resolveu fazer isso
[01:14:45] com os alunos, né? Ele disse assim, ó, não vai ter prova, não vai
[01:14:47] ter nada. Aí uns não gostaram, foram embora
[01:14:50] e ficou os interessados. Mas
[01:14:51] se lembra que ele acabou maluco, né?
[01:14:53] Mas enfim…
[01:14:55] Ele teve uns probleminhas, né?
[01:14:59] Mas, cara…
[01:14:59] Não foi por causa disso. Não, não foi por causa disso.
[01:15:02] Não foi, não sejamos desonestos aqui, né?
[01:15:04] Mas, assim, cara,
[01:15:05] tinha um professor meu da área do direito
[01:15:07] do trabalho, né? Que tinha
[01:15:09] ocupado grandes cargos aí, em grandes
[01:15:11] cortes aí, trabalhistas. E não
[01:15:13] adianta vocês ficarem tentando adivinhar quem é
[01:15:15] aí, porque, meu, se lembra que eu fiz
[01:15:17] faculdade quando o Dom João
[01:15:19] abriu os portos, né? Em 1808, né?
[01:15:22] Então esse velho atualmente deve estar
[01:15:23] enterrado num sarcófago já,
[01:15:26] a quinta geração dele, sei lá,
[01:15:27] e aí o cara, ele
[01:15:29] tinha uma marra…
[01:15:30] Ninguém menos que Lindolfo Collor.
[01:15:32] É, é. Getúlio
[01:15:35] Vargas, né? Aí que
[01:15:37] acontece. O cara tinha uma manha
[01:15:39] que uns amigos meus me cantaram
[01:15:41] essa pedra aí, e eu não
[01:15:43] acreditei, né, cara? E aí, quando
[01:15:45] eu peguei exame com o cara… Eu peguei pouco
[01:15:47] exame, cara. Na real, assim, eu tinha um medo
[01:15:49] desgraçado de rodar, de fazer tudo
[01:15:51] de novo, sei que. Então, assim, eu
[01:15:53] peguei pouco exame e não rodei nenhuma vez.
[01:15:56] Mas eu peguei exame com esse cara.
[01:15:57] Sejam mais como o Divã e menos como eu, crianças.
[01:15:59] É. Aí o que acontece?
[01:16:02] Eu fui pro exame e o cara
[01:16:03] falou, ô, meu, o tal fulano lá,
[01:16:05] ele gosta de agradar
[01:16:07] as gurias, tal, então ele só bota em
[01:16:09] exame os marmanjos, tal.
[01:16:11] Aí eu fiquei olhando e digo assim, cara, mas
[01:16:12] se o cara é um falcatrua
[01:16:15] que acha que vai ganhar alguma coisa
[01:16:17] em termos das gatinhas, aí, sei que,
[01:16:18] não deveria ser ao contrário? Ele não deveria
[01:16:21] botar elas em exame pra ele ficar ali
[01:16:23] num tete-a-tete, ali, sei que?
[01:16:25] Porque era um velho completamente
[01:16:27] carcomido, assim. Eu fiquei
[01:16:29] pensando, ele acha o que, cara? Ele acha que
[01:16:31] uma menina que passou por média com
[01:16:33] ele, ela vai chegar, vai voltar lá no
[01:16:35] gabinete dele, vai dizer assim, professora, adorei que eu passei,
[01:16:37] queria conversar um pouco com o senhor aqui.
[01:16:39] Então, se o cara quer dar até
[01:16:41] o golpe, é o golpe errado, porque ele
[01:16:43] botou só os homens lá, então ficava uma galera
[01:16:45] lá, né, se olhando, né?
[01:16:47] Cara, eu juro por Deus, eu fiz a prova
[01:16:49] e entreguei pra ele. Ele olhou pra minha
[01:16:51] prova, olhou pro tamanho
[01:16:53] da minha resposta, olhou, olhou como quem
[01:16:55] olha, assim, de fora, não como quem lê.
[01:16:57] E aí ele olhou assim, tu precisa de
[01:16:59] quanto? Eu falei, ó, eu preciso de quatro,
[01:17:01] professora. Ele, assim, tu vai sair
[01:17:03] com seis e meio aqui, e eu, tá ótimo,
[01:17:05] professora, tá beleza. Aí o cara
[01:17:07] me deu a nota. E eu fiquei pensando,
[01:17:09] cara, o que que é isso, cara? O que que tá acontecendo,
[01:17:11] cara? Na minha cara, o nego olha pra
[01:17:13] prova e diz assim, ó, seguinte,
[01:17:15] seis e meio, tá bom ou tá ruim?
[01:17:17] Aí, assim, ele foi sorteando as notas,
[01:17:19] tal, e olha o absurdo,
[01:17:21] cara. E era isso, era o cara que fazia
[01:17:23] isso, o cara que não ia,
[01:17:25] o cara que se achava o máximo, assim, ele não
[01:17:27] foi nenhuma vez no semestre, ele vai uma vez,
[01:17:29] dá uma suposta, suposta
[01:17:31] aula magna lá, e depois não vai de novo.
[01:17:33] Então, cara, isso é absurdo,
[01:17:35] velho, isso é absurdo. Então, quer dizer…
[01:17:37] E fora esses negócios de assédio, né,
[01:17:38] pelo amor de Deus, olha. Ah, não, cara, e outra,
[01:17:41] né, cara, e assim, ó, a gente não vai
[01:17:43] querer dizer que não há agora,
[01:17:45] e há muito, e há em níveis alarmantes.
[01:17:48] Mas imagina o que que era antes
[01:17:49] quando rolava toda essa situação de
[01:17:51] medo misturado com
[01:17:53] empáfia, misturado com não sei
[01:17:55] o que, misturado com não dá nada nunca,
[01:17:57] misturado com um velho do
[01:17:59] céu, é bem complicado, cara.
[01:18:01] Então, assim, a gente sai de uma geração
[01:18:03] em que todos esses problemas
[01:18:05] estavam verificados,
[01:18:07] e ela carregava, eu acho que é meio
[01:18:09] inerente, né,
[01:18:10] ela carregava uma seriedade, ela carregava
[01:18:13] um temor, né, de
[01:18:15] largar simplesmente a coisa, dar de ombros,
[01:18:17] e vai pra uma outra onde fica muito
[01:18:19] mais confortável, mas ela também
[01:18:21] inerentemente traz esse tipo de coisa,
[01:18:23] né, cara. A gente precisaria achar aqui
[01:18:24] uma questão que permeia
[01:18:27] o bom aspecto, né.
[01:18:28] Eu tenho até medo de falar que precisa achar
[01:18:30] o meio e o termo, porque vão pensar que eu sou da Folha de São Paulo, né.
[01:18:33] O cara tem que achar o meio e o termo
[01:18:34] entre o revólver e o alvo, né.
[01:18:37] Tem que fazer um debate. Não, não é
[01:18:38] isso que eu tô dizendo, gente. Agora,
[01:18:40] que precisa, sim, uma
[01:18:42] consciência de que há
[01:18:44] questões que não podem
[01:18:46] ser levadas na brincadeira, e tem
[01:18:48] coisas, pessoal, que, lamento informar, mas
[01:18:50] são chatas na vida. O cara que não
[01:18:52] tá preparado sequer pra uma prova
[01:18:54] de uma porra, de uma faculdade,
[01:18:56] num semestrinho qualquer,
[01:18:57] cara, o cara não tá preparado
[01:18:59] pra nada, pra nenhuma decepção, pra nenhum relacionamento,
[01:19:01] o cara não tá preparado pra lidar
[01:19:03] com morte, com luto, com inventário,
[01:19:05] o cara não tá preparado pra lidar com
[01:19:07] desapontamentos, o cara talvez não esteja
[01:19:09] preparado nem pra lidar com derrota do
[01:19:11] time, né. Então, velho,
[01:19:13] assim, isso é bem, bem
[01:19:15] problemático. Perfeito, Gabriel
[01:19:17] Ivan. Acho que é isso aí, né, meu
[01:19:19] cara. Vamos falar de outras
[01:19:21] coisas? É, vamos tentar ser menos
[01:19:23] boomerista agora, né.
[01:19:25] Vamos tentar ser um pouco
[01:19:27] contemporâneo, né. Bota o Didi
[01:19:29] com um pochete
[01:19:31] oncinha aí e
[01:19:33] a barreta do Suicidal Tennis,
[01:19:35] sei lá eu, né,
[01:19:37] como é que é a história. Não,
[01:19:39] eu tô confundindo. O Didi,
[01:19:41] ele é meio modernete, né.
[01:19:43] É o Buscemi,
[01:19:45] né, que tá de boné e skate.
[01:19:47] Ele tá de skate, né. Não, o Didi
[01:19:49] ele vai numa festa da Popload
[01:19:51] lá, do Lúcio Ribeiro, né.
[01:19:53] O Buscemi, o Buscemi
[01:19:54] tenta se enturmar com a galerinha lá, que já está
[01:19:56] desatualizada, inclusive.
[01:19:59] Ai, meu velho, é brabo, cara.
[01:20:01] É brabo. Mas feito o desabafo,
[01:20:03] né, vamos pra aquele
[01:20:05] periodozinho das dicas culturais
[01:20:07] aí? Vamos pra aquele periodozinho onde a gente
[01:20:09] vai tentar. Isso é outra
[01:20:11] coisa, né, cara, que a gente poderia falar um programa
[01:20:13] inteiro só sobre isso.
[01:20:15] Em algum momento, nós
[01:20:16] parecíamos algo como
[01:20:18] o irmão mais velho legal
[01:20:20] da garotada, né. Depois
[01:20:23] tu vai indo pra idade do tio
[01:20:24] barra pai. Agora,
[01:20:26] tu já tá numa fase onde
[01:20:28] quem é essa mala aí? Quem é esse coroa aí, né?
[01:20:31] E tipo, e cara, não tem nenhuma
[01:20:32] conexão, velho. Não tem
[01:20:34] conexão no sentido dos filmes que
[01:20:36] vê, das séries que vê, das
[01:20:38] músicas que escuta. Não tem
[01:20:40] nada, não tem nada que tenha um mínimo
[01:20:43] de liame, assim. Eu fico
[01:20:44] muito impressionado. Esses tempos eu falei
[01:20:46] na aula do negócio do Tremembé, aquele,
[01:20:49] né, porque, cara, eu achei
[01:20:51] divertidíssimo, assim.
[01:20:52] É um nível de ruindade
[01:20:54] daquele tipo que ele dobra o
[01:20:56] fio e tu quer ver o próximo episódio,
[01:20:58] né. É o nível de ridículo
[01:21:01] desse nível, assim, em que pese
[01:21:02] há que se dizer de novo, né. As caracterizações
[01:21:05] dos personagens estão muito boas, cara.
[01:21:06] Muito boas mesmo. Fantástico, fantástico.
[01:21:08] A caracterização do Gugu é a pior
[01:21:10] do mundo, né. E a única que
[01:21:12] distorce. Eu não entendi. Porque tá todo mundo igual,
[01:21:14] cara. Eles acharam uma galera igual, né, meu.
[01:21:16] E eu falei do negócio do Tremembé. O Nardone?
[01:21:18] O Nardone tá assim, o negócio
[01:21:20] que diz, cara, eu não sei.
[01:21:22] É ele, eu acho que é ele. É, é ele,
[01:21:24] cara. Não, mas pra
[01:21:25] Rui Barbosa ficar igual a Suzane, cara,
[01:21:28] tu tem que ver que, né, os
[01:21:30] caras capricharam lá no figurino e maquiagem
[01:21:32] e tudo mais. E no trabalho dos atores
[01:21:34] também. Mas eu falei do Tremembé
[01:21:36] e eu perguntei, eu tava falando do cumprimento
[01:21:38] da sentença estrangeira. Eu perguntei,
[01:21:41] alguém já viu até o final? Será que aparece o Robinho?
[01:21:44] Porque apesar de ser cumprimento
[01:21:46] de sentença estrangeira, né,
[01:21:48] não tem presídio federal pra esses casos,
[01:21:50] assim. Então ele vai parar em presídio estadual,
[01:21:52] que no caso ele tá em Tremembé. Inclusive ele
[01:21:54] tá pedindo remoção, né, esses tempos aí.
[01:21:57] E aí eu falei disso a alguns alunos
[01:21:59] e alunos disseram, ô pessoal, tô assistindo,
[01:22:01] né, porra, que loucura.
[01:22:03] Né, Jatobá, Sandrão,
[01:22:05] Matsunaga, aí
[01:22:06] tem toda aquela treta. Sandrão demais.
[01:22:09] É, mas cara, fora
[01:22:10] isso, tu não consegue falar
[01:22:12] assim, pô, já leram o livro tal?
[01:22:15] Quem é que viu o filme tal? Os caras
[01:22:16] não viram nada, meu. Nada,
[01:22:18] vezes nada. Outro dia
[01:22:20] eu falei a respeito que o poderoso
[01:22:22] chefão, eu digo assim, tá, né,
[01:22:24] ninguém, ninguém tinha visto.
[01:22:27] O poderoso chefão, que é um negócio que, tipo,
[01:22:28] né, o poderoso chefão…
[01:22:31] Eu não vou… Já estamos
[01:22:32] indo pras dicas culturais, eu não vou criar
[01:22:34] polêmica, né, mas a gente vai ter que também
[01:22:36] conversar um dia sobre as pessoas que acham que o poderoso
[01:22:38] chefão é o maior filme de todos os tempos, né, porque, pelo amor
[01:22:40] de Deus, né.
[01:22:42] Eu tava falando de máfia,
[01:22:44] vou falar do quê? É, é, tá certo.
[01:22:46] Pode falar do Goodfellas, né.
[01:22:49] Ah, daí tu acha que eles foram ver o Goodfellas.
[01:22:51] Pior ainda. É, claro que não, claro que não.
[01:22:53] Mas, cara, quando eu falo de…
[01:22:54] da lei do crime organizado, que, aliás, né,
[01:22:57] aliás,
[01:22:58] esse programa tá indo ao ar aí, né, daqui a pouco,
[01:23:00] né, a lei do crime organizado muda
[01:23:02] e ela vira lei estadual
[01:23:04] de combate ao crime organizado com participação
[01:23:06] da Polícia Federal, caso o governador autorize,
[01:23:08] né. Mas, enfim, né,
[01:23:10] grandes parlamentares da República.
[01:23:13] Eu falo da lei de crime
[01:23:14] organizado e tem uma parte que regula
[01:23:16] ali, mal e mal,
[01:23:18] falta muita coisa ainda, mas ela regula
[01:23:20] a infiltração de agentes.
[01:23:22] Daí eu digo, galera, vocês querem umas sugestões
[01:23:24] de filmes aí? Pô, vou dar uns filmes
[01:23:26] pra vocês olharem, cara.
[01:23:28] Não é que o cara…
[01:23:29] Não, olha só, o Infiltrados é batata, né.
[01:23:32] Porque, puta, eu acho um baita filme, cara.
[01:23:34] Eu acho um filme… E é um filme
[01:23:36] emocionante, né, porque tu fica na tensão,
[01:23:39] né, os caras vão se descobrir, né.
[01:23:40] Não? Pô, um infiltrado
[01:23:42] lá, um aqui, aquela coisa
[01:23:44] toda. Mas eu digo assim, pessoal,
[01:23:47] tem outro filme legal,
[01:23:48] que foi um caso, que é um caso
[01:23:50] verídico, tatatata, que é o Donnie Brasco.
[01:23:53] Cara, é massa,
[01:23:54] esse filme, massa pra caralho.
[01:23:56] Só que, meu, os caras não vêem nada, os caras não viram nenhum
[01:23:58] chefão, né, meu. Imagina se eles vão ver o Donnie Brasco,
[01:24:00] que é de 97, né,
[01:24:02] com o Al Pacino. E fora o negócio que eu reclamo
[01:24:04] sempre, que é de… Tem na Netflix,
[01:24:07] professor, não tem. Ah…
[01:24:08] É, pois é. Não tem o que fazer, né.
[01:24:11] Eu vou ver. Não, mas, cara,
[01:24:12] tô dizendo, na semana passada, quando eu falei
[01:24:14] da coisinha lá, um monte de gente
[01:24:16] falou, pô, tiraram a coisinha, né, pro senhor,
[01:24:18] eu fiquei pensando assim,
[01:24:20] eu perdi de perguntar assim, tá, cara, e o que
[01:24:22] vocês assistem nessa porra, dessa coisinha?
[01:24:24] O que vocês veem mesmo? A Fazenda?
[01:24:26] Né, o Champions League?
[01:24:29] O The Last of Us, né.
[01:24:31] O que vocês assistem, cara?
[01:24:32] Porque, cara, os caras não viram nada,
[01:24:34] né, meu. Pelo amor de Deus, aí,
[01:24:36] imagina o Donnie Brasco, né.
[01:24:38] Quando o Johnny Depp ainda era quente, né,
[01:24:40] cara. Bom filme, bom filme.
[01:24:42] Mas já falamos de monte de filme aqui, vamos falar de algumas
[01:24:44] outras coisas aí, Felipe Abau, porque agora
[01:24:46] é hora das dicas culturais no
[01:24:48] Vira Casacas. É aquele momento
[01:24:50] onde a gente fala na esperança de
[01:24:52] que alguém vá seguir as dicas.
[01:24:54] Verdadeira, porque um monte de gente segue as dicas,
[01:24:56] um monte de gente vai lá e vai atrás,
[01:24:58] um monte de gente vai perseguir
[01:25:00] aquilo que a gente sugere, um monte de gente
[01:25:02] vem falar de novo depois conosco
[01:25:04] um tempo mais, né.
[01:25:06] Sabe aquela dica que vocês deram no episódio, blé, blé, blé?
[01:25:08] Pois é, eu fui ouvir, foi bem legal,
[01:25:10] tal. Então, aproveite as dicas
[01:25:12] culturais e se for comprar
[01:25:14] alguma coisa de livro,
[01:25:16] por exemplo, ou de alguma coisa que está
[01:25:18] indicada no nosso site,
[01:25:20] lá, usa os links que estão lá,
[01:25:22] porque todas as dicas estão lá.
[01:25:24] Ah, galera, eu tô com vergonha,
[01:25:26] eu não entendi bem o nome, né,
[01:25:28] do filme que o professor Abau falou,
[01:25:30] que é em russo. Beleza,
[01:25:32] vai estar lá no site viracasacas.com
[01:25:34] todas as dicas, tudo bonitinho,
[01:25:36] tudo linkado. O que que nós temos
[01:25:38] aí, Felipe Abau?
[01:25:39] Eu vou dar de dica, então, uma série,
[01:25:42] cara, que está em andamento
[01:25:44] ainda, agora eu acho que está com 13
[01:25:46] episódios só, está todo mundo
[01:25:48] falando a respeito dela e eu vou me juntar ao coro
[01:25:50] aqui, porque se tem
[01:25:52] uma coisa chata a respeito das coisas
[01:25:54] atuais, eu já falei disso aí, cara,
[01:25:56] é que é tudo igual, é tudo
[01:25:58] mais o mesmo, é a regravação,
[01:26:01] é o Toy Story 5,
[01:26:03] é o não sei o que,
[01:26:04] é o mesmo, né,
[01:26:06] a mesma trama, é o mesmo roteiro, é o mesmo
[01:26:08] ator, é tudo igual, é o filme de hominha,
[01:26:10] e tem
[01:26:12] um seriado agora da Apple
[01:26:14] que é diferente, me chamou
[01:26:16] a atenção, está com aquela
[01:26:18] pilhazinha meio Severance das
[01:26:20] ideias, assim, daquele negócio interessante,
[01:26:23] que é a Pluribus,
[01:26:24] tá, então saiu agora
[01:26:26] há pouco essa Pluribus, e
[01:26:28] eu não vou falar do que ela é por causa do
[01:26:30] seguinte, tá, se tu
[01:26:32] ver os trailers que tem, assim,
[01:26:34] eles não te dizem nada sobre a série,
[01:26:36] eu acho que o mais legal
[01:26:38] é ir ver ela sem
[01:26:40] saber sobre o que ela é, porque
[01:26:42] é o melhor jeito de encarar,
[01:26:44] porque ela é esquisita pra caramba,
[01:26:46] ela tem dilemas
[01:26:48] bem interessantes, do tipo, será que eu
[01:26:50] faria isso aqui, será que eu gostaria
[01:26:52] mais de assado, né,
[01:26:54] ela é extremamente esquisita, é dos mesmos
[01:26:56] produtores do Breaking Bad,
[01:26:58] né, tanto que a atriz principal
[01:27:00] ela fez o Breaking Bad, fez o Better Call
[01:27:02] o Sol, é muito
[01:27:04] diferente, é, tá bem esquisita,
[01:27:06] tomara que mantenha a mesma
[01:27:08] toada até o final,
[01:27:10] até porque é legal isso aí, né, Divã,
[01:27:12] e assim, uma coisa que também se perdeu muito
[01:27:14] com o negócio do streaming, do maratonar
[01:27:16] e tal, que é a da galera ir assistindo
[01:27:18] os episódios juntos, né,
[01:27:20] o negócio que meio aconteceu com o Game of Thrones,
[01:27:22] aconteceu um pouquinho com o Succession, assim,
[01:27:24] de ficar assistindo e discutindo o dia
[01:27:26] seguinte, então, né, vamos assistir juntos
[01:27:28] aí, que tá bem bacana, assim,
[01:27:30] Pluribus, da Apple,
[01:27:32] ou em outros meios que ainda resistem
[01:27:34] também. Cara, eu ouvi falar
[01:27:36] muito bem da série e
[01:27:37] estou no barco de quem
[01:27:39] não sabe nada sobre e
[01:27:42] só ganha recomendações, então eu tô
[01:27:43] no ponto, né, eu acho que eu sou o alvo
[01:27:46] da dica cultural aqui, nesse momento.
[01:27:48] Mas não vai atrás,
[01:27:50] não pesquise sobre. Não, não, não, eu não quero,
[01:27:51] eu tô me mantendo sem,
[01:27:54] círculos que eu tô, as pessoas não estão falando muito,
[01:27:56] então eu tô, assim, eu sou
[01:27:58] literalmente o público-alvo da dica, porque
[01:28:00] eu vou assistir sem saber muita coisa,
[01:28:02] só sabendo que é arrojada,
[01:28:04] né, basicamente é isso. É arrojada,
[01:28:06] é arrojada. Beleza.
[01:28:08] Bom, a minha dica cultural é um livro,
[01:28:10] livro bem curtinho, porque
[01:28:12] essa época do ano tá todo mundo, né,
[01:28:14] atribulado, todo mundo querendo,
[01:28:16] ou resolver
[01:28:17] Juscelino, cinco anos em…
[01:28:20] cinquenta anos em cinco,
[01:28:22] ou tá todo mundo querendo largar a Pascoal,
[01:28:24] cobra, né, então tem que ser livro curtinho,
[01:28:26] livro rapidinho e tudo mais.
[01:28:28] Esse autor eu já falei dele
[01:28:30] aqui, porque ele tem uma série
[01:28:32] que, talvez, um dia,
[01:28:34] talvez prometa virar uma trilogia,
[01:28:36] mas por enquanto são dois livros,
[01:28:38] que é o Samir Machado de Machado,
[01:28:41] né, é tipo
[01:28:42] o nosso amigo Eduardo Marques de Marques,
[01:28:44] né, o Samir Machado de Machado,
[01:28:46] um escritor muito interessante,
[01:28:48] né, de uma leva aí, bem bacana,
[01:28:51] e ele tem aqueles livros
[01:28:52] que eu já indiquei, que é Os Homens
[01:28:54] Elegantes e Os Homens Cordiais.
[01:28:56] Os Homens Cordiais é o segundo livro,
[01:28:58] ele é um barato, cara, assim, ele é um barato
[01:29:00] mesmo, assim, ele é
[01:29:02] muito melhor, na minha opinião, que o primeiro,
[01:29:04] e ele estica aquela
[01:29:06] trama de um jeito muito interessante, né,
[01:29:08] é a prova de que o número dois pode ser
[01:29:10] melhor que o um também, né, mas enfim,
[01:29:13] não é da
[01:29:13] dupla Homens Elegantes e
[01:29:16] Homens Cordiais que eu tô falando agora,
[01:29:18] eu tô falando de um livrinho bem curtinho, uma novelinha
[01:29:20] assim, que o cara lê numa sentada,
[01:29:22] que é do Samir também,
[01:29:24] é O Crime do Bom Nazista,
[01:29:26] né, um livrinho
[01:29:28] bem interessante, que
[01:29:30] ele se passa durante uma
[01:29:32] das viagens, né, do Zepelin,
[01:29:34] né, uma viagem turística do Zepelin
[01:29:36] ao Brasil, na época
[01:29:38] do início, do início
[01:29:40] da ascensão do Partido Nazista na Alemanha,
[01:29:43] e ele envolve uma trama
[01:29:44] lá, que vai ter a ver com uma questão
[01:29:46] que vai ocorrer dentro da cabine,
[01:29:48] né, durante a viagem do Zepelin,
[01:29:50] com um dos passageiros e tal,
[01:29:52] e eu também não vou falar muito sobre,
[01:29:54] o livro, eu só vou dizer uma coisa,
[01:29:56] aquele meme que as pessoas reclamam
[01:29:58] que não existe e que precisava
[01:30:00] existir e tal, é o cara que
[01:30:02] não leu os livros do Samir Machado de Machado,
[01:30:04] né, que o cara cansou de ver
[01:30:06] gay sofrendo, gay chorando, ele quer
[01:30:08] ver gay dando golpe, gay dando tiro,
[01:30:10] gay empinando motocicleta
[01:30:12] e tal, é isso aí, é isso que você
[01:30:14] vai encontrar nos livros dele, então,
[01:30:16] é gay passando a perna, é
[01:30:18] gay se dando bem, né, é gay
[01:30:20] fazendo a revanche e tal, então,
[01:30:21] é volta e meia, o que é,
[01:30:24] em algum momento, o tema
[01:30:26] das histórias, né, e essa aí
[01:30:27] eu não vou dizer muita coisa a mais, né,
[01:30:30] mas já falei até
[01:30:31] demasiado, então, o crime
[01:30:33] do bom nazista, pro cara ler assim, ó,
[01:30:36] senta aí uma, duas
[01:30:37] tardes e lê esse livro aí, tá resolvido.
[01:30:40] Maravilha, Gabriel
[01:30:41] Edivan, então, muito bem, agora
[01:30:43] podemos ir para os nossos salves?
[01:30:46] Nossos vivas?
[01:30:47] Vamos para os nossos vivas? Vamos pra lá?
[01:30:50] E eu acho que a gente pode
[01:30:52] fazer assim nos vivas, a gente pode chegar e
[01:30:54] abrir e dizer assim, ó,
[01:30:56] que belo episódio, né, os caras falaram
[01:30:58] muito bem, né, e tal, é…
[01:30:59] É, e sim, né,
[01:31:02] sempre que eles falam aqui, mandam bem,
[01:31:04] e tal. Vamos ver o que nossos nós do futuro
[01:31:06] vão falar. Vamos lá.
[01:31:09] Muito bem, Gabriel Edivan,
[01:31:14] peito, né,
[01:31:16] agora já está mais leve, assim,
[01:31:18] depois de tudo, sei, quem é
[01:31:19] millennial, quem é geração X,
[01:31:22] que é o nosso público? Eu acho que
[01:31:24] vai se identificar com coisas.
[01:31:26] A gente estava até
[01:31:28] eu e a Fernanda debatendo ontem
[01:31:29] sobre as gerações, porque tem…
[01:31:31] Até nisso eu estou mal, né, cara, porque
[01:31:33] surge uma outra aí que o cara já não sabe,
[01:31:36] né, e tem uma antes dos
[01:31:37] boomers, inclusive, cara,
[01:31:39] a geração, como é que é? Agora não
[01:31:41] lembro. É, não tem, tem, tem remanescentes
[01:31:44] ainda, né. Vai que o cara
[01:31:45] é submetido a um exame, né,
[01:31:47] de gráficos ali e
[01:31:49] possibilidades para mostrar como é que eram as cordas
[01:31:52] vocais, para saber como é que ele falava. Fica tipo,
[01:31:53] a múmia aquela.
[01:31:57] Mas é o seguinte, Felipe, eu não tenho
[01:31:59] exatamente um viva, mas eu
[01:32:01] quero dizer aqui uma coisa que é muito
[01:32:04] bacana, que foi confirmada
[01:32:05] pela nossa querida Ana Paula
[01:32:07] Salviati.
[01:32:10] Cara, o Vira Casacas,
[01:32:12] ele é o podcast mais
[01:32:13] incrível do planeta Terra.
[01:32:16] Eu não estou falando nível nacional,
[01:32:18] tá? Eu estou falando mais.
[01:32:20] O podcast mais incrível do mundo
[01:32:22] no quesito de que?
[01:32:23] Não tem convidados que são
[01:32:25] mais elogiados, mais mimados,
[01:32:28] mais abraçados, que ganham
[01:32:29] mais carinho do que os nossos
[01:32:31] e as nossas. Cara, é impressionante.
[01:32:33] E volta e meia eu falo com a galera
[01:32:35] a respeito disso. Eu já falei com o
[01:32:37] Samir a respeito disso, já falei com
[01:32:39] a Maria a respeito disso, já falei
[01:32:42] com um monte de gente. Aí eu
[01:32:43] troquei umas mensagens com a Ana Paula
[01:32:45] essa semana, porque, cara, a
[01:32:47] quantidade de pessoas que vão para as
[01:32:49] redes sociais dizer que adoram ela,
[01:32:51] que gostam, que adoraram ouvi-la, que querem
[01:32:53] mais e que se identificaram e que riram
[01:32:55] e que choraram. É muito impressionante.
[01:32:57] E ela disse assim, porra, ir no
[01:32:59] Vira Casacas é um negócio que reconforta,
[01:33:02] né? Porque a gente fica por cima da carne
[01:33:03] seca e fala, é, velho, é isso aí. Então
[01:33:05] o Viva de hoje, o Salve de hoje,
[01:33:07] é ao contrário, é nosso para
[01:33:09] os ouvintes. Muito obrigado
[01:33:11] por fazer a gente se sentir tão bem e por fazer
[01:33:14] as nossas convidadas e convidados
[01:33:15] saírem assim, ó, nossa,
[01:33:17] olha, eu faço alguma coisa que importa,
[01:33:20] hein, cara? Eu encosto
[01:33:22] no coração das pessoas. É isso,
[01:33:23] isso que provoca o Vira Casacas. É verdade,
[01:33:25] cara, ó, nosso público é muito manso
[01:33:27] exatamente por causa que
[01:33:29] engaja muito com as coisas, né?
[01:33:31] Elogia as pessoas, fala dos convidados,
[01:33:34] começa, né, a seguir,
[01:33:36] etc e tal. Então, assim, é muito
[01:33:37] bom, cara. Então, hoje,
[01:33:39] eu também, assim, ó, eu responsável
[01:33:41] por cuidar dos e-mails do Vira, eu não
[01:33:43] recebi nenhum e-mailzinho dessa vez, com
[01:33:45] um pedido de salve, mas
[01:33:47] assim, ó, eu sempre recebo aqueles e-mailzinhos
[01:33:49] do pessoal que começou a colaborar com a
[01:33:51] gente, na Aurelo, no
[01:33:53] Apoia-se, recebo ali o avisozinho
[01:33:55] do Pix Recorrente, assim, ó,
[01:33:57] também agradecer demais
[01:33:59] quem dá essa força ali, porque,
[01:34:01] poxa, né, eu sei que
[01:34:03] é aquele negócio, tu vai ter que ir, tu vai ter
[01:34:05] que entrar, tu tem que se cadastrar, daí
[01:34:07] mandam os pilinhas ali e tal, pode
[01:34:09] parecer pouco, ajuda muito, assim,
[01:34:11] ó, cada vez que chega um negócio desse,
[01:34:13] é esse carinho aqui pra gente
[01:34:15] ou não, é aquela mensagem do
[01:34:17] queremos que continue, continue
[01:34:19] aí, né? E volta e
[01:34:21] o cara tá cansado, o cara tá puto,
[01:34:23] o cara tá com cheio de coisa pra fazer
[01:34:25] e daí, quando recebe um troço desses,
[01:34:27] puf, né? Vamos lá,
[01:34:29] vamos seguir, vamos de novo, vamos gravar.
[01:34:31] É, esse é o sentimento, cara, esse é o sentimento.
[01:34:33] Bom, vídeo e episódio que a gente acabou de
[01:34:35] conversar com a galera aí, né? Pelo amor de Deus,
[01:34:37] é o retrato de duas pessoas cansadas.
[01:34:40] Mas,
[01:34:41] a gente tá cansado, mas daí
[01:34:43] vem, né, vem a energia, né?
[01:34:45] Vem a injeção aquela, né? Vem
[01:34:47] o tônico, o biotônico.
[01:34:49] Então, muito obrigado a todo mundo aí e,
[01:34:51] por favor, né, continuem sendo,
[01:34:53] também, um dos públicos mais
[01:34:55] bacanas e mais educados,
[01:34:57] né, da internet.
[01:34:59] Porque, claro, volta e meia tem gente
[01:35:01] que tem crítica, que não gosta, que tem
[01:35:03] comentário, que nos dá toque, isso aí é
[01:35:05] sempre bacana. Agora,
[01:35:07] é muito pouco chato, eu acho que o
[01:35:09] chato no mundinho
[01:35:11] vira casaco, ele se sente tão deslocado
[01:35:13] que ele sai da sala, né? Saiu da
[01:35:15] fulano, saiu da sala. É mais ou menos isso,
[01:35:17] né? Porque aqui não tem fã de canalha, não tem,
[01:35:19] não tem caô e não tem mala sem alça.
[01:35:22] Perfeito, Gabriel, de vez.
[01:35:23] Então é isso aí, né? Mandamos esse abração
[01:35:25] aí pra todo mundo. Tomara que gostem do episódio.
[01:35:27] Por quê? Somos homens normais, né?
[01:35:29] Homens e homens inocentes, né?
[01:35:31] Tchau, prejudicada.
[01:35:34] What is normal, man?
[01:35:36] What do you mean normal, man?
[01:35:37] Just an incident.