#221 Liberalismo e Fascismo: antagonismo ideológico ou proximidade pragmática?
Resumo
O episódio discute como liberalismo, conservadorismo e fascismo se definem na literatura acadêmica e por que a relação entre liberalismo e fascismo gera tanta polêmica no debate público. A conversa parte de uma apresentação do liberalismo como tradição do Iluminismo sustentada por direitos naturais, constitucionalismo e (em parte importante de sua história) defesa do livre mercado — lembrando que há liberalismos democráticos (como o de John Stuart Mill) e liberalismos antidemocráticos (como o de Herbert Spencer e, mais tarde, certas vertentes neoliberais). Em paralelo, o conservadorismo é apresentado como defesa da tradição e da mudança gradual (com Edmund Burke como referência clássica), e o fascismo como uma “direita disruptiva” e mobilizadora de massas, marcada por paramilitarismo e violência política.
A discussão então desloca o foco para a prática histórica: apesar das diferenças conceituais, as fronteiras ficam mais porosas quando se observa como fascistas ascenderam ao poder por meio de transações com elites tradicionais. O caso italiano é analisado em detalhe: a crise do Estado liberal após a Primeira Guerra, o medo do “perigo bolchevique” no Biennio Rosso e o uso das milícias fascistas para reprimir a esquerda, com apoio e expectativa de “normalização” por parte de setores liberais. No caso alemão, destaca-se que o nazismo emerge mais do caldo do conservadorismo e das direitas antissemitas do que de uma herança liberal, além de se discutir a disputa pelo termo “socialismo” e a inadequação da tese de que nazismo seria “de esquerda”.
Por fim, o episódio aborda a recepção liberal do fascismo no entreguerras a partir de citações de Ludwig von Mises e exemplos como elogios de Winston Churchill ao fascismo italiano como barreira ao bolchevismo, problematizando a ideia de que instituições liberais “domariam” fascistas. A conversa conecta essas dinâmicas ao Brasil: a tradição liberal brasileira frequentemente conviveu com autoritarismos, do Visconde de Cairu a apoios a regimes como a ditadura militar, e discute-se também o integralismo e suas reconfigurações posteriores. Damian Mello encerra situando seu livro na historiografia recente (com diálogo com autores como Paxton e a agenda transnacional) e reforça a necessidade de rigor conceitual para evitar banalizações do termo “fascismo”.
Anotações
- 01:01:14 — Churchill e o elogio ao fascismo italiano: Ao comentar a posição de Mises sobre o fascismo, o professor lembra que em 1927 Winston Churchill viajou à Itália e publicou uma carta aberta a Mussolini na imprensa britânica com elogios ao governo fascista. Ele cita a famosa passagem em que Churchill diz que, se fosse italiano, estaria feliz com o governo, e que os italianos teriam descoberto o “antídoto” contra os males do bolchevismo — indo, segundo ele, até além do que Mises havia afirmado. Damian ressalta o contraste com a imagem posterior de Churchill na Segunda Guerra, quando passou a ser celebrado por setores liberais de direita como combatente de Hitler, apesar de ter sido elogioso ao fascismo italiano no fim dos anos 20.
- 01:06:23 — A ilusão liberal de “domar” os fascistas: Damian observa que a passagem de Mises que aposta numa moderação do fascismo retoma uma expectativa semelhante à de liberais italianos no início do governo Mussolini: figuras como Giovanni Amendola e Benedetto Croce apoiaram o fascismo por ele ter destruído os socialistas, mas imaginavam que depois ele seria incorporado e controlado pela ordem liberal. Ele argumenta que essa expectativa falhou porque não se compreendeu que a própria ascensão do fascismo era resultado da crise do Estado liberal; por isso, a “ordem” não teria como domá-lo. Em seguida, ele menciona que há casos em que grupos neofascistas podem ser “domados” dependendo do contexto — citando a Itália dos anos 1990 com Berlusconi —, mas ressalta que no caso de Mussolini ocorreu o oposto: o fascismo se impôs, usando violência e impondo às elites tradicionais a lógica de “ou entram ou estão fora”, além de manobras internas para consolidar o controle no próprio partido.
Indicações
Livros
- Liberalismo Antigo e Moderno (José Guilherme Merquior) — Indicado como síntese liberal feita por um autor liberal, útil para entender tradições e correntes do liberalismo.
- A Riqueza das Nações (Adam Smith) — Citado como marco clássico da defesa do livre mercado no liberalismo econômico.
- A Anatomia do Fascismo (Robert Paxton) — Referência “incontornável” para entender como o fascismo triunfa via alianças com elites tradicionais e pela análise da prática política.
- A Ordem do Capital (Clara Mattei, 2023) — Recomendado para discutir austeridade, política econômica no início do fascismo italiano e conexões com democracias liberais.
- Fascistas (Michael Mann) — Citado como obra em português que combina ideologia, cultura política e práticas (como paramilitarismo) na análise do fascismo.
- Fascismo: Conceito e História (Damian Mello) — Livro do convidado: introduz debates contemporâneos e conta a história do fascismo (Itália/Alemanha), destacando dimensões transnacionais e disputas conceituais.
- O Nascimento do Fascismo (Angelo Tasca) — Citado pela máxima de que, para conhecer o fascismo, é preciso contar sua história; influência reconhecida na tradição historiográfica.
- Fascismo em sua Época (Ernst Nolte) — Mencionado como obra importante (e polêmica) na formação do campo a partir dos anos 1960, com definição pelo “negativo” (anti-marxista/anti-liberal/anti-conservador).
- História do Fascismo (Stanley G. Payne) — Apontado como manual de referência com síntese historiográfica e conceitual.
- A Natureza do Fascismo (Roger Griffin) — Referência decisiva nos anos 1990 para entender o núcleo ideológico (renascimento nacional), ainda pouco acessível em português.
- A Era dos Extremos (Eric Hobsbawm) — Citado pela interpretação de que a Segunda Guerra tem causalidade mais direta ligada ao nazismo/fascismo.
Artigos / Links
- apoia.se/obrigaahistoria — Link citado para apoiar financeiramente o podcast.
- Link para a página da coleção História FM (na descrição do episódio) — Indicado como caminho para encontrar e comprar os livros da coleção, incluindo o do convidado.
Linha do Tempo
- [00:02] — Definições iniciais: o que são fascismo, liberalismo e conservadorismo
- [00:04] — Liberalismo segundo eixos (direitos naturais, constitucionalismo, livre mercado) e suas correntes
- [00:06] — Conservadorismo (Burke), tradição e ceticismo diante de “engenharia social”
- [00:11] — Fascismo como novidade do século XX: mobilização de massas, violência e paramilitarismo
- [00:17] — Caso italiano: Mussolini, crise do pós-guerra, Biennio Rosso e a emergência do fascismo
- [00:29] — Alianças políticas: fascistas no Bloco Nacional com Giolitti e a expectativa liberal de “domar” o fascismo
- [00:42] — Caso alemão: diferenças em relação à Itália, conservadorismo e disputa do termo “socialismo”
- [00:56] — Citações de Mises e o debate sobre liberalismo, antifascismo e “solução emergencial” autoritária
- [01:12] — Brasil: liberalismo e democracia na história brasileira; integralismo e aproximações com autoritarismos
- [01:20] — Historiografia do fascismo: marxismo (Gramsci), Paxton, transnacionalidade e debates conceituais
- [01:42] — Recomendações finais e apresentação do livro do convidado
Dados do Episódio
- Podcast: História FM
- Autor: Leitura ObrigaHISTÓRIA
- Categoria: History
- Publicado: 2025-11-24
- Duração: 1h50m
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/hist%C3%B3ria-fm/f7321ef0-4f2e-0137-f266-1d245fc5f9cf/221-liberalismo-e-fascismo-antagonismo-ideol%C3%B3gico-ou-proximidade-pragm%C3%A1tica/85e7ec70-da50-46ad-a94d-f86f5bbb487a
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Dados do Podcast
- Nome: História FM
- Tipo: episodic
- Site: https://apoia.se/obrigahistoria
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Transcrição
[00:00:00] Você está ouvindo o História FM.
[00:00:24] Liberalismo e fascismo.
[00:00:26] Essas duas ideologias são um ponto de conflito nas redes sociais,
[00:00:29] com algumas pessoas colocando elas como antagônicas,
[00:00:32] outros colocando elas como próximas.
[00:00:34] Mas, afinal de contas, o que diz a literatura acadêmica sobre isso?
[00:00:37] Esse é o tema de hoje do História FM.
[00:00:39] Eu sou Iclis Rodrigues e, para conversar sobre esse assunto,
[00:00:42] eu convidei aqui mais uma vez conosco o professor Damian Mello,
[00:00:44] a quem eu passo a palavra para se apresentar para vocês
[00:00:46] e, depois de se apresentar, para falar um pouco do seu lançamento,
[00:00:50] do livro da coleção História FM que ele escreveu.
[00:00:53] Então, Damian, seja muito bem-vindo.
[00:00:54] Fique à vontade para se apresentar para o pessoal.
[00:00:56] Oi, boa, Iclis.
[00:00:58] Um grande prazer estar aqui de novo com os ouvintes do História FM.
[00:01:01] Eu me chamo Damian Mello,
[00:01:03] eu sou professor de História Contemporânea da UF,
[00:01:05] do Bacharelado de Políticas Públicas,
[00:01:08] e tenho pesquisado a direita nos últimos anos, etc.
[00:01:13] E acabei de escrever uma contribuição para a coleção
[00:01:16] organizada pelo próprio Iclis, do História FM,
[00:01:20] o livro sobre fascismo.
[00:01:21] E, enfim, quero…
[00:01:23] aproveitar aqui para fazer a propaganda um pouco do próprio livro, né?
[00:01:29] E discutir algumas questões aqui importantes sobre esse assunto das direitas,
[00:01:34] principalmente as diferenças ideológicas que existem no campo das direitas, né?
[00:01:38] E a gente começa com esse tópico aí que você me trouxe.
[00:01:42] Então é isso.
[00:01:43] Vamos entender um pouco mais a relação dessas duas ideologias,
[00:01:47] se elas são próximas ou antagônicas,
[00:01:51] depois que eu der um recado para vocês.
[00:01:53] Vamos lá.
[00:01:56] Pessoal, está rolando uma obra no terreno do Iclis
[00:01:59] e está difícil gravar no momento.
[00:02:00] Então faz de conta que essa voz é de uma pessoa real
[00:02:03] te dizendo que hoje não tem leitura dos nomes dos novos apoiadores.
[00:02:08] Mas todo mundo que apoiou terá seu nome lido no episódio seguinte, ok?
[00:02:12] Enquanto isso, se você não for um apoiador,
[00:02:14] considere a possibilidade de apoiar a gente em
[00:02:17] apoia.se
[00:02:18] barra
[00:02:19] obriga a história.
[00:02:20] Ou se quiser fazer um apoio pontual,
[00:02:22] você pode fazer isso.
[00:02:23] Pela chave Pix.
[00:02:24] Leitura obriga a história
[00:02:26] arroba gmail.com
[00:02:27] Beleza?
[00:02:28] Agora sim.
[00:02:29] Vamos para o episódio.
[00:02:35] Fascismo é uma ideologia que surge na Europa com raízes no final do século XIX,
[00:02:40] unindo o nacionalismo, o tradicionalismo
[00:02:42] e uma forte identidade estética
[00:02:44] sob um líder carismático para um projeto de nação
[00:02:46] guiado pelo capitalismo autárquico
[00:02:48] e por uma visão romantizada daquela sociedade.
[00:02:53] Para a gente começar essa conversa,
[00:02:59] eu acho que primeiro a gente precisa de definições, né?
[00:03:01] Do que seria fascismo, liberalismo
[00:03:04] e até conservadorismo, trazendo para esse balaio
[00:03:06] que pode ser importante, né?
[00:03:07] Porque, assim, a gente já tem episódio aqui sobre fascismo
[00:03:10] e eu ainda estou devendo um sobre liberalismo
[00:03:12] que eu quero fazer em algum momento.
[00:03:13] Mas, de qualquer forma, eu acho que é importante
[00:03:15] a gente ter aqui definições para o pessoal não ser obrigado
[00:03:17] a ouvir outros episódios
[00:03:19] para saber do que a gente está falando.
[00:03:20] Então, a minha primeira pergunta é
[00:03:22] quais são as definições,
[00:03:23] quais são as definições dessas ideologias
[00:03:25] se a gente pegar a literatura acadêmica sobre o assunto?
[00:03:27] Bom, eu acho da maior importância
[00:03:29] a gente começar o papo fazendo esse paralelo, né?
[00:03:32] Entre essas ideologias, justamente para ver
[00:03:34] onde é que elas se encontram e onde é que elas se separam.
[00:03:37] Primeiro, vou começar pelo liberalismo, né?
[00:03:39] E vou tomar aqui na…
[00:03:41] Existe uma vasta bibliografia sobre o assunto,
[00:03:43] mas eu recomendo bastante, né?
[00:03:45] Já fica aqui como dica de leitura para a galera, né?
[00:03:49] O livro do José Guilherme Mercure,
[00:03:51] que é o liberalismo antigo e moderno,
[00:03:53] que foi um liberal brasileiro,
[00:03:56] cara, extremamente sofisticado,
[00:03:57] um intelectual de direita, né?
[00:03:59] E esse livro é bastante interessante
[00:04:01] no sentido que ele é uma apresentação
[00:04:05] da visão liberal, da teoria liberal,
[00:04:07] das escolas, do pensamento liberal,
[00:04:09] feita por um liberal e que não esconde
[00:04:11] essa sua posição
[00:04:12] e com bastante rigor acadêmico, né?
[00:04:16] E o Mercure, ele defende uma síntese
[00:04:19] do que seria o liberalismo,
[00:04:21] defendendo o liberalismo a partir de três eixos.
[00:04:23] E pensando que é uma tradição
[00:04:25] do pensamento político,
[00:04:27] da maior importância que se constitui, né?
[00:04:29] Essa estrutura no contexto do iluminismo,
[00:04:32] basicamente, né?
[00:04:32] Para a gente não ser anacrônico, né?
[00:04:34] Então, em primeiro lugar, a base desse pensamento
[00:04:37] estaria a teoria dos direitos naturais, né?
[00:04:40] O chamado justnaturalismo,
[00:04:42] que o próprio Mercure
[00:04:43] interpreta como a teoria dos direitos humanos,
[00:04:45] aquela noção de que as pessoas
[00:04:47] nascem portando os direitos, né?
[00:04:49] E o segundo eixo, totalmente relacionado a esse,
[00:04:52] é a outra característica importante,
[00:04:53] o liberalismo, que é o constitucionalismo, né?
[00:04:56] É importante lembrar que o liberalismo surge
[00:04:58] num contexto de luta contra
[00:05:00] os estados absolutistas na Europa, né?
[00:05:03] E a Inglaterra,
[00:05:05] com o país que constituiu
[00:05:06] o pioneiro no capitalismo
[00:05:08] na Revolução Burguesa,
[00:05:09] é um país que se torna
[00:05:12] um paradigma, né?
[00:05:13] Da estrutura de Estado liberal
[00:05:16] a partir do final do século XVII, né?
[00:05:19] E vai ter como seu grande teórico, né?
[00:05:21] Nesse contexto, o John Logg, né?
[00:05:22] E o outro, o John Logg, né?
[00:05:23] E o outro, o John Logg, né?
[00:05:23] E o outro, o John Logg, né?
[00:05:23] E o outro, o John Logg, né?
[00:05:23] Então, aquela ideia de Estado
[00:05:25] baseado, ou seja, a legitimidade
[00:05:27] do Estado baseado na noção de Constituição.
[00:05:29] Isso desdobrado na noção
[00:05:31] de que as pessoas nascem com direitos naturais,
[00:05:33] então o Estado, o governo,
[00:05:35] deve ter o seu
[00:05:37] escopo de ação limitado
[00:05:39] e esses limites devem ser estabelecidos
[00:05:41] de forma consensual com os cidadãos
[00:05:43] e daí o pacto desse funcionamento
[00:05:45] desse tipo de sociedade, baseado numa
[00:05:47] carta constitucional, né? Então, esse é
[00:05:49] um aspecto muito importante do liberalismo
[00:05:51] no seu aspecto político, né?
[00:05:53] E como a gente sabe, ou seja,
[00:05:55] o outro aspecto fundamental
[00:05:56] da visão liberal de mundo
[00:05:58] é a defesa do livre mercado, né?
[00:06:01] A defesa daquilo que a gente pode separar
[00:06:03] e chamar de liberalismo econômico
[00:06:05] que tem na grande obra
[00:06:07] do Adam Smith, principalmente
[00:06:08] A Riqueza das Nações, o seu marco
[00:06:11] fundamental, né?
[00:06:14] Não propriamente
[00:06:15] ali que nasce essa
[00:06:17] ideia de livre mercado, mas vamos dizer
[00:06:19] a melhor defesa, né? No contexto
[00:06:21] de formação clássica do pensamento
[00:06:23] Então, o liberalismo surge ali no contexto
[00:06:25] do iluminismo e o conservadorismo
[00:06:27] também, né? Então, é importante lembrar
[00:06:29] que o conservadorismo tem como
[00:06:31] seu pai fundador principal
[00:06:33] considerado na bibliografia e na literatura
[00:06:35] embora isso não seja completamente
[00:06:37] consensual, depois a gente pode até falar
[00:06:39] sobre esse assunto, o
[00:06:40] Edmund Burke, né? Principalmente o texto
[00:06:43] do Edmund Burke, onde ele critica
[00:06:45] a Revolução Francesa, né?
[00:06:47] E ele critica a Revolução Francesa
[00:06:49] principalmente a partir da ideia de que a
[00:06:51] Revolução Francesa estaria
[00:06:53] tentando fazer
[00:06:55] uma mudança radical
[00:06:57] na sociedade sem preservar
[00:06:59] as tradições, e aí
[00:07:01] entra no ponto fundamental do
[00:07:03] conservadorismo, que é a defesa da tradição
[00:07:05] Então, a crítica dele à Revolução Francesa
[00:07:07] justamente é essa, né? Porque é um movimento
[00:07:09] que se apresenta como um movimento de ruptura
[00:07:11] e uma obra de engenharia social
[00:07:13] e a obra de engenharia social
[00:07:15] é sempre vista pelo pensamento conservador
[00:07:17] de forma cética, eles não acreditam
[00:07:19] a ideia, a base,
[00:07:21] o pensamento conservador é a ideia
[00:07:23] de que a defesa da ordem
[00:07:25] é espontânea, né?
[00:07:26] Que derivaria
[00:07:28] dessa manutenção das tradições
[00:07:31] Cabe uma curiosidade, o fato
[00:07:35] de que o Burke foi
[00:07:37] do partido Whig
[00:07:39] o partido que é considerado
[00:07:41] o precursor do partido liberal
[00:07:43] britânico, né? Ao contrário
[00:07:45] do partido Tory, né?
[00:07:47] Que é o precursor do partido conservador
[00:07:49] Mas é importante lembrar que
[00:07:51] quando o Burke defende a ideia
[00:07:53] de tradição, né? De defesa
[00:07:55] da tradição, das instituições
[00:07:56] tradicionais, é importante lembrar
[00:07:59] que ele está escrevendo no contexto da Inglaterra
[00:08:00] que já é um país
[00:08:01] estruturado a partir da ideia de
[00:08:04] constitucionalismo, né? Daquelas
[00:08:07] ideias que o Locke
[00:08:08] defendeu, né? Então, o conservadorismo
[00:08:11] ele defende
[00:08:12] a manutenção da ordem, ele não é
[00:08:15] contrário à mudança na sociedade
[00:08:17] mas ele recomenda
[00:08:19] que as mudanças devem ser
[00:08:21] despreservando a tradição
[00:08:22] Então, a gente tem aí, tem dois
[00:08:24] pontos, né? Importantes das
[00:08:27] uma síntese bastante rápida
[00:08:29] que eu estou fazendo entre essas duas
[00:08:31] tradições do pensamento político que surge
[00:08:33] ali no contexto do século XVIII
[00:08:35] E quando a gente está falando de
[00:08:37] fascismo, a gente está falando de uma novidade
[00:08:39] ideológica do século XX
[00:08:40] Mas cabe lembrar também que
[00:08:43] essas mesmas tradições, antes de eu
[00:08:45] falar do fascismo, tanto liberalismo quanto
[00:08:46] conservadorismo, embora elas tenham esses
[00:08:49] marcos fundadores do ponto de vista
[00:08:51] das suas diretrizes
[00:08:52] do pensamento, inclusive, no caso
[00:08:54] esses marcos relacionados a obras
[00:08:56] de determinados autores, são tradições
[00:08:59] que são plurais
[00:09:01] que apresentam, inclusive
[00:09:02] evoluções, às vezes, contraditórias
[00:09:05] Então, o liberalismo, por exemplo
[00:09:06] tem uma tendência do liberalismo
[00:09:08] que vai se desdobrar
[00:09:11] principalmente na corrente chamada
[00:09:12] utilitarista na Inglaterra
[00:09:15] e que vai ter como nome muito importante
[00:09:17] o John Stuart Mill
[00:09:18] e que vai ser a tendência do liberalismo, digamos assim
[00:09:21] que vai se encontrar e vai
[00:09:23] buscar se identificar com a noção
[00:09:25] de democracia
[00:09:26] principalmente a noção de sufrágio
[00:09:29] universal
[00:09:31] O Stuart Mill, inclusive, chegou a defender
[00:09:33] o sufrágio feminino
[00:09:35] Isso é importante
[00:09:38] porque existe uma outra tendência
[00:09:39] do liberalismo que é antidemocrática
[00:09:42] Isso é um ponto
[00:09:43] importante que a gente vai desenvolver
[00:09:45] ao longo dessa conversa hoje
[00:09:47] e que a gente pode pensar principalmente
[00:09:49] na vertente vincular
[00:09:51] ao darwinismo social
[00:09:53] e principalmente no campo do liberalismo
[00:09:55] O principal representante dessa vertente
[00:09:57] que foi o Herbert Spencer
[00:09:59] Na medida em que
[00:10:02] ele defende
[00:10:03] aqueles princípios próprios
[00:10:05] do darwinismo social
[00:10:07] como de seleção natural
[00:10:09] ele trata
[00:10:11] as desigualdades sociais como
[00:10:13] algo
[00:10:15] inexorável
[00:10:17] e que
[00:10:19] digamos assim
[00:10:21] e que é um prêmio à competência
[00:10:23] daqueles que vencem
[00:10:24] tanto no mercado quanto do ponto de vista
[00:10:27] ou seja, do ponto de vista das classes sociais
[00:10:29] das desigualdades sociais
[00:10:31] quanto do ponto de vista da
[00:10:33] evolução das sociedades
[00:10:35] no plano internacional
[00:10:37] então a visão da arquitetura social
[00:10:39] também justifica fenômenos como
[00:10:40] colonialismo e o próprio imperialismo
[00:10:43] Pois bem, então a gente tem
[00:10:44] só chamando a atenção, ou seja, tem
[00:10:46] evoluções do que seriam
[00:10:49] essas tradições tanto do liberalismo e do conservadorismo
[00:10:51] também, a gente vai ter tanto
[00:10:53] conservadorismo que vai
[00:10:54] se opor a noções como
[00:10:57] livre mercado, chama aqui a atenção
[00:10:59] para uma vertente do pensamento conservador
[00:11:01] que teve alguma influência no Brasil
[00:11:03] que foi o positivismo, por exemplo
[00:11:05] uma tendência do pensamento conservador
[00:11:07] e que é, pelo contrário
[00:11:09] estatista, uma visão
[00:11:11] organicista da sociedade, é muito diferente
[00:11:13] de outras vertentes que vão estar
[00:11:15] mais próximas de noções
[00:11:17] como defesa do livre mercado
[00:11:19] inclusive entendendo
[00:11:21] isso como defesa de uma instituição tradicional
[00:11:23] Pois bem
[00:11:25] no século XX
[00:11:27] vai surgir uma concorrência, vai surgir uma novidade
[00:11:29] ideológica muito grande no campo das
[00:11:31] gerentes que vai ser o fascismo
[00:11:33] e que vai ter pontos de distinção
[00:11:35] em relação a essas duas
[00:11:36] tradições. Pontos de contato
[00:11:39] a gente vai ver principalmente do ponto de vista da prática
[00:11:41] política, como os fascistas chegam ao
[00:11:43] poder nas sociedades em que eles conseguiram
[00:11:45] chegar ao poder, onde eles
[00:11:47] estabeleceram relações e alianças
[00:11:49] com as elites tradicionais
[00:11:51] dependendo do país, liberais e
[00:11:53] ou conservadoras, mas
[00:11:55] há uma distinção também do ponto de vista daquilo
[00:11:57] que seria a ideologia própria do
[00:11:59] fascismo em relação às ideologias
[00:12:01] dessas direitas tradicionais
[00:12:03] Bom, o fascismo
[00:12:04] a defesa das hierarquias
[00:12:07] sociais, da ordem
[00:12:08] social, ela
[00:12:11] identifica ou identifica com
[00:12:13] o conservadorismo, entretanto
[00:12:15] o fascismo, ao contrário do conservadorismo
[00:12:17] ele representa uma novidade
[00:12:19] uma direita disruptiva
[00:12:21] alguns autores
[00:12:22] chegam a chamar o fascismo de uma
[00:12:25] direita revolucionária, na medida
[00:12:27] que ela se distingue da própria
[00:12:29] direita tradicional
[00:12:30] conservadora
[00:12:33] que desconfia
[00:12:35] completamente da participação
[00:12:36] das massas populares na política
[00:12:39] no primeiro momento
[00:12:40] se opondo, por exemplo, à
[00:12:42] extensão do sufragio ao maior número
[00:12:45] de pessoas, ou seja, se opondo
[00:12:47] a um valor que é importante no
[00:12:48] entendimento contemporâneo do que é a democracia
[00:12:51] e depois, uma vez
[00:12:53] que a extensão do sufragio
[00:12:55] se torna um traço inexorável
[00:12:56] se opondo à mobilização
[00:12:59] política
[00:13:00] que a mobilização política de massas
[00:13:02] estava muito vinculada, inclusive
[00:13:04] àquela experiência que nasce
[00:13:06] junto, ou pelo menos já existia
[00:13:09] mas que vai ganhar um novo significado
[00:13:11] junto das democracias, que é o movimento
[00:13:13] operário
[00:13:13] que vai também lutar pelo
[00:13:17] sufragio universal, assim como
[00:13:19] o movimento de sufragistas, de mulheres
[00:13:21] etc. O conservadorismo repele, portanto
[00:13:23] essa participação de massas
[00:13:25] essa mobilização
[00:13:26] em certo sentido, a própria
[00:13:29] retórica populista
[00:13:31] que é uma característica importante
[00:13:33] que aparece no fascismo
[00:13:34] de sua origem, ou seja, o fascismo
[00:13:37] é um movimento que faz mobilização de
[00:13:39] massas, é uma direita mobilizadora
[00:13:41] e nesse sentido ela se distingue
[00:13:43] do
[00:13:44] conservadorismo, ela pode ter até alguns
[00:13:47] objetivos em comum, mas ela vai se
[00:13:49] distinguir do conservadorismo nessa
[00:13:51] medida, inclusive na medida em que
[00:13:53] ela prega a solução
[00:13:55] violenta, o uso
[00:13:57] da violência como meio
[00:13:59] de solução de determinados
[00:14:01] conflitos políticos, o uso
[00:14:03] da violência tipicamente fascista é diferente
[00:14:05] do uso da violência que a gente
[00:14:07] encontra sendo
[00:14:09] definida pelos pensadores conservadores, que em geral
[00:14:11] defendem, por exemplo, manobras
[00:14:13] contra revolucionários que se utilizam
[00:14:15] das estruturas próprias do Estado
[00:14:17] para efetuar uma repressão política
[00:14:19] como o caso dos próprios militares
[00:14:21] e as estruturas repressivas
[00:14:23] do próprio judiciário, para reprimir
[00:14:25] tentativas revolucionárias
[00:14:27] e empreender
[00:14:29] a restauração da ordem
[00:14:31] e a restauração das hierarquias sociais
[00:14:32] isso é uma característica que a gente encontra no conservadorismo
[00:14:35] enquanto que no fascismo a gente tem
[00:14:36] essa contra-revolução de baixo
[00:14:39] para cima, que mobiliza massas
[00:14:41] que mobiliza setores
[00:14:42] que pertencem
[00:14:44] a camadas plebeias da sociedade
[00:14:46] principalmente a pequena burguesia
[00:14:48] então já aí a gente encontra
[00:14:50] distinções importantes para o entendimento
[00:14:53] do que é a novidade ideológica
[00:14:55] do fascismo em relação a esses
[00:14:57] outros campos ideológicos, mas como eu disse
[00:14:59] no início, essas fronteiras
[00:15:01] que separam ideologicamente
[00:15:02] o fascismo do conservadorismo
[00:15:04] e do próprio liberalismo
[00:15:06] elas se tornam menos evidentes
[00:15:09] na medida em que a gente
[00:15:11] vai jogar um olhar
[00:15:12] para a prática efetiva
[00:15:15] dos fascistas, dos conservadores
[00:15:17] dos liberais, no contexto onde
[00:15:19] o fascismo emerge como
[00:15:20] uma possibilidade de
[00:15:22] regime político, a gente vai
[00:15:24] encontrar uma porosidade
[00:15:26] muito maior entre essas
[00:15:28] tradições nas práticas
[00:15:30] políticas, então do ponto de vista
[00:15:32] dos historiadores é muito importante
[00:15:34] levar a sério as
[00:15:36] delimitações, as definições conceituais
[00:15:38] dessas tradições do pensamento
[00:15:40] político, que engendram
[00:15:43] alternativas políticas
[00:15:44] formas de organização, formas de
[00:15:47] concepções de Estado
[00:15:49] principalmente
[00:15:50] que a gente encontra nessas tradições
[00:15:52] políticas, mas ao mesmo tempo
[00:15:54] a gente deve observar
[00:15:56] na história como essas coisas se comportaram
[00:15:58] isso já é
[00:16:00] uma contribuição que está presente
[00:16:02] em uma série de historiadores que vêm
[00:16:04] discutindo
[00:16:05] nas últimas décadas
[00:16:07] em trabalhos bastante densos
[00:16:10] como os fascistas chegaram e se mantiveram
[00:16:12] no poder durante um certo período da história
[00:16:14] do século XX
[00:16:15] e isso eu trago
[00:16:18] no meu
[00:16:20] livro
[00:16:20] então por isso é uma
[00:16:23] boa conversa, é isso que a gente está tendo aqui
[00:16:26] Gente, chegou
[00:16:29] a Black Week, nessa semana
[00:16:31] aquele meu cupom que vocês já conhecem
[00:16:33] o História FM, que dá 15% de desconto
[00:16:36] pode ser somado aos descontos
[00:16:37] do site da Insider, totalizando até
[00:16:39] 70% de desconto
[00:16:41] esse é o maior desconto da história
[00:16:43] da Insider, e vocês que acompanham
[00:16:45] a História FM há algum tempo e já me
[00:16:47] viram falando dessa marca, sabem disso
[00:16:50] não tem época melhor do ano para adquirir
[00:16:52] essas que são as roupas mais tecnológicas do mercado
[00:16:54] roupas que não esquentam, desamassam do corpo
[00:16:56] não desbotam, são super leves
[00:16:57] e em compras acima de R$399
[00:16:59] você ganha brindes, o que é melhor ainda
[00:17:01] e se você quiser ficar por dentro das melhores
[00:17:04] promoções da Black Week, aqui na descrição
[00:17:05] do episódio tem um link para o grupo de WhatsApp
[00:17:07] da Insider, onde você fica sabendo das promoções
[00:17:10] relâmpago antes de todo mundo
[00:17:11] para fazer a melhor combinação de uso de cupons
[00:17:14] e descontos do site, então aproveita
[00:17:16] o meu cupom História FM, que é
[00:17:17] aplicado automaticamente, se você acessar
[00:17:19] a Insider pelo link que está aqui na descrição
[00:17:21] mas se você entrar por outro link, aí você tem que digitar
[00:17:23] História FM no final, aproveita esse
[00:17:26] cupom, que essa é a semana
[00:17:28] para adquirir as roupas mais
[00:17:30] tecnológicas do mercado com a Insider
[00:17:31] O fascismo aos moldes que a gente conhece
[00:17:38] hoje, ele aparece na cena pela
[00:17:39] primeira vez na Itália, e o caso
[00:17:41] italiano é bem interessante para o tema do episódio de hoje
[00:17:44] porque Mussolini começa a carreira
[00:17:46] política dele na esquerda como um socialista
[00:17:48] mas durante a Primeira Guerra Mundial
[00:17:49] ele dá um giro 180 e vira
[00:17:51] o inimigo público número um da esquerda radical
[00:17:53] italiana, eventualmente
[00:17:55] e quanto mais o tempo passava, mais
[00:17:57] as falas públicas dele iam se
[00:17:59] alinhando com os interesses dos liberais
[00:18:01] italianos, e aí eu queria te perguntar
[00:18:03] o que exatamente Mussolini falava
[00:18:05] para agradar as alas liberais da política
[00:18:07] italiana antes de ele se tornar
[00:18:09] líder na Itália, e os liberais
[00:18:11] eles tinham alguma desconfiança em relação a ele?
[00:18:13] Bom, vamos lá então
[00:18:15] chegando no ponto, que é a
[00:18:17] prática efetiva dos
[00:18:19] socialistas diante
[00:18:20] como é que os caras chegam ao poder, como é que
[00:18:23] historicamente se estrutura
[00:18:25] e o caso do Mussolini é muito importante
[00:18:27] como você lembrou, o Mussolini é
[00:18:29] um personagem político que tem
[00:18:31] origem na esquerda, inclusive nas alas
[00:18:33] mais à esquerda do próprio Partido Socialista
[00:18:36] italiano, um jornalista
[00:18:38] bastante importante
[00:18:39] está na origem da militância política dele
[00:18:41] mas na Guerra Mundial
[00:18:43] a sua posição de defesa da entrada
[00:18:45] da Itália na Primeira Guerra Mundial
[00:18:47] leva à expulsão do Partido Socialista
[00:18:49] ele é expulso por causa disso
[00:18:51] porque está rompendo ali um princípio
[00:18:54] que mesmo o Partido Socialista
[00:18:55] é um partido bastante moderado
[00:18:57] ou seja, a linha majoritária
[00:19:00] da direção política do Partido Socialista
[00:19:02] não era revolucionária
[00:19:04] mas eles carregavam
[00:19:06] esse princípio que estava presente
[00:19:07] no movimento operário, de forma geral
[00:19:09] que é um princípio internacionalista, e por isso
[00:19:11] fizeram contrários a que a classe
[00:19:13] trabalhadora dos países europeus
[00:19:16] entrassem em confronto, porque
[00:19:17] no final das contas a guerra serviu aos
[00:19:19] esses dos donos do capital
[00:19:21] esse era o entendimento generalizado
[00:19:24] entre os intelectuais do movimento operário
[00:19:26] em muitos países, os partidos
[00:19:28] operários, partidos socialistas
[00:19:30] social-democratas
[00:19:31] foram contaminados pela
[00:19:33] verve nacionalista
[00:19:36] e acabaram apoiando a entrada
[00:19:38] dos seus países na guerra, mas não foi o caso
[00:19:40] da Itália, a Itália
[00:19:41] o Partido Socialista italiano levou isso a sério
[00:19:43] tanto que expulsa lá o Mussolini
[00:19:45] e o Mussolini vai ter uma trajetória
[00:19:47] a gente vai identificar
[00:19:49] a sua trajetória, o elemento fundamental
[00:19:52] do entendimento do que é o fascismo
[00:19:54] quanto esse fenômeno político novo
[00:19:56] e aí a gente discute um pouco
[00:19:58] o que é a tradição liberal italiana
[00:20:00] ou seja, a tradição liberal
[00:20:02] a principal tradição das classes dominantes italianas
[00:20:04] desde o período chamado
[00:20:05] ressurgimento, e o que é
[00:20:08] essa tradição liberal italiana?
[00:20:09] primeiro que ela é mais complexa
[00:20:11] ela é mais diversa, então você tem
[00:20:14] tanto uma tradição
[00:20:15] que a gente pode localizar
[00:20:18] mais à esquerda
[00:20:19] estava presente na figura do Giuseppe Manzini
[00:20:22] e estava presente no próprio Garibaldi
[00:20:25] a defesa
[00:20:26] de uma república, por exemplo
[00:20:29] a unificação da Itália
[00:20:30] no estado republicano
[00:20:32] e você tem a vertente que acaba sendo a vencedora
[00:20:34] no processo de unificação da Itália
[00:20:36] de criação da Itália moderna
[00:20:37] que é a vertente mais conservadora
[00:20:40] que vai ter
[00:20:42] a solução monárquica
[00:20:44] que está ligada à casa de Savoy, etc
[00:20:46] e que vai ficar conhecida
[00:20:48] na história italiana como
[00:20:49] a direita histórica
[00:20:51] o liberalismo histórico
[00:20:55] então isso é uma
[00:20:56] vertente importante
[00:20:58] esse grupo
[00:21:00] que é vitorioso no período do ressurgimento
[00:21:02] na segunda metade da década de 70
[00:21:04] do século XIX, ele vai
[00:21:05] ser derrotado por uma ala
[00:21:07] que vai ficar conhecida como esquerda histórica
[00:21:10] mas é liberal também
[00:21:12] não tem nada a ver com o socialismo ainda
[00:21:15] mas que enfim
[00:21:16] vai ter outros elementos
[00:21:19] importantes que vão construir
[00:21:19] o seu pensamento
[00:21:21] e vai ter como figura muito importante
[00:21:23] a figura de Giovanni Giolitti
[00:21:25] que foi a grande figura da política italiana
[00:21:27] na década anterior à entrada da Itália
[00:21:29] na primeira guerra mundial
[00:21:30] o político com grande habilidade
[00:21:34] inclusive de
[00:21:35] cooptação dos grupos que eventualmente
[00:21:37] poderiam fazer oposição
[00:21:39] ele teve uma grande habilidade política em certo período
[00:21:41] e isso na Itália recebe até uma palavra
[00:21:43] chamada transformismo
[00:21:45] que para a tradução melhor
[00:21:47] para o nosso entendimento
[00:21:49] do vocabulário político brasileiro
[00:21:51] a gente tem mesmo com a ideia de cooptação mesmo
[00:21:53] a capacidade que ele tinha de cooptar
[00:21:54] figuras que pertenciam
[00:21:57] ou aos socialistas
[00:21:59] ou ao que já no início do século XX
[00:22:02] começa a acontecer
[00:22:02] que é uma participação maior dos católicos na política
[00:22:05] é importante lembrar que a igreja
[00:22:07] desde o período da unificação italiana
[00:22:10] ela teve uma oposição oficial
[00:22:11] de boicotar as estruturas do Estado italiano
[00:22:14] um grande problema político
[00:22:15] que aliás só vai ser resolvido pelo próprio Mussolini
[00:22:18] com os tratados dilatados
[00:22:19] lá de 1929
[00:22:21] que ele celebra com a igreja católica
[00:22:23] mas já no início do século XX
[00:22:25] tem o início de uma participação de católicos
[00:22:28] na vida política italiana
[00:22:29] e o Giolitti era um sujeito com capacidade
[00:22:31] de incorporar esses elementos
[00:22:33] no interior
[00:22:34] da sua composição política
[00:22:37] então ele tinha
[00:22:39] esse estilo
[00:22:41] então a gente está falando de uma tradição
[00:22:43] liberal que marca
[00:22:45] as classes dominantes italianas
[00:22:47] no interior da qual você tem
[00:22:49] uma
[00:22:49] aula mais à direita
[00:22:50] e uma aula mais
[00:22:51] que seria mais à esquerda
[00:22:52] pensando sempre que
[00:22:54] esses signos
[00:22:56] de esquerda e direita
[00:22:57] eles devem ser entendidos
[00:22:59] de forma posicional
[00:23:00] pensando no contexto
[00:23:02] do espectro político
[00:23:03] estão falando de esquerda e direita
[00:23:04] no interior do liberalismo
[00:23:06] mas é importante lembrar também
[00:23:07] que o próprio Estado italiano
[00:23:08] é um Estado liberal
[00:23:09] no sentido
[00:23:10] do entendimento
[00:23:11] de que ele realiza
[00:23:12] aqueles traços fundamentais
[00:23:14] que a gente discutiu ali
[00:23:15] quando a gente estava falando
[00:23:16] do que é teoricamente o liberalismo
[00:23:18] ou seja, um Estado constitucional
[00:23:19] no caso a monarquia constitucional
[00:23:22] a forma do regime
[00:23:25] político italiano
[00:23:26] o Diolite
[00:23:27] ele também vai ser responsável
[00:23:29] pela reforma de ampliação
[00:23:31] do escopo da participação
[00:23:32] eleitoral masculina
[00:23:34] é de 1913
[00:23:35] a grande reforma eleitoral
[00:23:37] na Itália
[00:23:38] que incorpora o maior número
[00:23:39] de pessoas
[00:23:40] do sexo masculino
[00:23:41] ao direito de votar
[00:23:42] e ser votado
[00:23:43] mas digamos assim
[00:23:44] o grande evento
[00:23:45] que gera
[00:23:46] uma entrada maior
[00:23:48] de setores de massa
[00:23:49] na vida política
[00:23:51] na vida nacional
[00:23:52] da Itália
[00:23:53] e sem dúvida nenhuma
[00:23:54] é a própria guerra
[00:23:55] a guerra
[00:23:56] leva
[00:23:57] traz da passividade política
[00:23:59] setores muito mais amplos
[00:24:00] da população
[00:24:01] no contexto
[00:24:02] que evidentemente
[00:24:02] não é um contexto democrático
[00:24:04] é o contexto da própria guerra
[00:24:05] estou chamando a atenção
[00:24:06] para esse processo
[00:24:07] a guerra é fundamental
[00:24:08] para o entendimento
[00:24:08] do fascismo
[00:24:10] e da guerra
[00:24:11] se desdobra
[00:24:12] a própria crise
[00:24:13] do Estado liberal italiano
[00:24:14] na medida que é um Estado
[00:24:15] que embora tenha participado
[00:24:17] da coalizão vencedora
[00:24:19] da primeira guerra mundial
[00:24:21] ele vai se sentir desprestigiado
[00:24:23] na medida em que
[00:24:23] não vai ter nenhum ganho
[00:24:24] não vai ter nenhum lucro de guerra
[00:24:27] esse que é o ponto
[00:24:29] há aí também
[00:24:30] em certo sentido
[00:24:31] um próprio desgaste
[00:24:32] que é um desgaste
[00:24:33] resultante desse fracasso
[00:24:35] dessa participação italiana
[00:24:37] na guerra
[00:24:39] um desgaste
[00:24:40] que é um desgaste
[00:24:40] das classes dominantes
[00:24:41] tradicionais
[00:24:42] dos grupos tradicionais
[00:24:43] que dominavam
[00:24:44] a política
[00:24:45] na própria Itália
[00:24:47] o que se combina
[00:24:48] a um
[00:24:49] um
[00:24:49] periodo de grande
[00:24:50] mobilização política
[00:24:52] à esquerda
[00:24:53] e uma grande influência
[00:24:54] internacional
[00:24:55] da própria revolução soviética
[00:24:57] que vai ter um impacto importante
[00:24:58] dentro do território italiano
[00:25:00] com a sessão eleitoral
[00:25:02] do Partido Socialista
[00:25:03] que ganha
[00:25:04] um peso maior
[00:25:05] na eleição de 1919
[00:25:06] e um ciclo de mobilizações
[00:25:08] do movimento operário
[00:25:10] inclusive com ocupações
[00:25:12] de fábrica
[00:25:13] no norte da Itália
[00:25:14] principalmente
[00:25:14] na cidade de Turim
[00:25:16] e também
[00:25:17] mobilizações
[00:25:18] de trabalhadores
[00:25:19] do Brasil
[00:25:19] do campo
[00:25:20] que vai ser
[00:25:22] um período
[00:25:22] de turbulento
[00:25:23] de dois anos
[00:25:24] de forte ativação
[00:25:25] da luta de classes
[00:25:27] que vai ficar conhecido
[00:25:27] como o bienio rosso
[00:25:29] o bienio vermelho
[00:25:30] os dois anos
[00:25:31] de grande ativação
[00:25:32] política
[00:25:34] da luta de classes
[00:25:35] então
[00:25:35] o perigo
[00:25:36] do comunismo
[00:25:37] o perigo
[00:25:38] do bolchevismo
[00:25:39] eles geram
[00:25:40] pânico
[00:25:41] nas classes dominantes
[00:25:41] italianas
[00:25:42] não era só
[00:25:44] uma grande teoria
[00:25:45] da conspiração
[00:25:46] era algo
[00:25:46] muito efetivo
[00:25:47] ali
[00:25:48] que a luta de classes
[00:25:49] tinha atingido
[00:25:49] vinha
[00:25:51] numa certa
[00:25:52] aceleração
[00:25:53] só que
[00:25:54] todo esse movimento
[00:25:55] acaba sendo
[00:25:55] barrado
[00:25:57] enfim
[00:25:59] essa grande
[00:26:00] grande vaga
[00:26:01] de mobilização
[00:26:01] parecia que a revolução
[00:26:03] estava próxima
[00:26:04] de ocorrer
[00:26:04] uma revolução
[00:26:05] bolchevique
[00:26:06] como era
[00:26:06] chamada
[00:26:07] na época
[00:26:08] mas ela vai ser
[00:26:09] minada
[00:26:10] inclusive com a
[00:26:11] colaboração
[00:26:11] da própria direção
[00:26:12] reformista
[00:26:13] do partido
[00:26:14] socialista
[00:26:15] e é nesse
[00:26:15] contexto
[00:26:16] que emerge
[00:26:16] o fascismo
[00:26:18] emerge
[00:26:19] aparece
[00:26:19] , enfim
[00:26:21] uma iniciativa
[00:26:21] do próprio Mussolini
[00:26:23] convoca a formação
[00:26:25] desse movimento
[00:26:26] em março de 1919
[00:26:28] declarando guerra
[00:26:29] ao socialismo
[00:26:29] ou seja
[00:26:30] declarando guerra
[00:26:31] à sua antiga
[00:26:32] organização política
[00:26:33] mas
[00:26:34] e aí lembrando
[00:26:36] que nesse contexto
[00:26:37] agora
[00:26:37] depois da primeira
[00:26:38] guerra mundial
[00:26:39] socialismo
[00:26:40] não é só
[00:26:41] uma ideia
[00:26:43] presente
[00:26:44] no programa
[00:26:44] de algumas
[00:26:45] organizações políticas
[00:26:46] ele já está
[00:26:47] significando
[00:26:48] algo a mais
[00:26:49] que é
[00:26:49] a identificação
[00:26:50] de uma forma
[00:26:51] de uma sociedade
[00:26:52] que está em estruturação
[00:26:53] que no caso
[00:26:54] é a União Soviética
[00:26:55] ou seja
[00:26:55] a União Soviética
[00:26:56] mesmo em 1922
[00:26:58] mas ou seja
[00:27:00] o socialismo
[00:27:01] ele está deixando
[00:27:02] de ser simplesmente
[00:27:03] uma palavra
[00:27:04] de um programa político
[00:27:05] uma imaginação
[00:27:06] sobre o que deveria ser
[00:27:07] um futuro
[00:27:08] pós-capitalista
[00:27:09] e você tem um país
[00:27:09] no mundo
[00:27:10] que está
[00:27:10] se propondo
[00:27:11] a realizar
[00:27:11] esse ideal
[00:27:12] então
[00:27:13] medo
[00:27:14] e com consequências
[00:27:15] na estrutura social
[00:27:17] uma das medidas
[00:27:18] dos bolcheviques
[00:27:18] era esse propósito
[00:27:19] da apreensão
[00:27:19] da propriedade privada
[00:27:20] dos capitalistas
[00:27:21] então é uma coisa
[00:27:22] muito efetiva
[00:27:23] está sendo colocado
[00:27:25] então o medo
[00:27:26] o próprio medo
[00:27:26] disso
[00:27:26] é alguma coisa
[00:27:27] que tem uma
[00:27:28] importância política
[00:27:29] muito maior
[00:27:30] e o Mussolini
[00:27:31] se propõe
[00:27:32] a mobilizar
[00:27:32] esse temor
[00:27:33] com a formação
[00:27:35] desse movimento
[00:27:35] fascista ali
[00:27:36] na Itália
[00:27:37] em março de 1919
[00:27:39] mas esse movimento
[00:27:40] ele vai começar
[00:27:41] a ganhar importância
[00:27:42] política efetiva
[00:27:43] dentro da Itália
[00:27:44] principalmente
[00:27:44] quando a sua
[00:27:46] característica
[00:27:47] que é uma característica
[00:27:47] fundamental
[00:27:48] de qualquer movimento
[00:27:49] fascista
[00:27:49] que é o paramilitarismo
[00:27:51] sua característica
[00:27:52] de ser um movimento
[00:27:53] armado
[00:27:53] um movimento
[00:27:54] de característica
[00:27:55] miliciana
[00:27:56] ele começa a servir
[00:27:57] para setores
[00:27:59] importantes
[00:27:59] das classes dominantes
[00:28:00] para reprimir
[00:28:01] a esquerda
[00:28:02] para reprimir
[00:28:02] o movimento socialista
[00:28:04] seja na área urbana
[00:28:05] e principalmente
[00:28:06] na área rural
[00:28:06] onde ele começa
[00:28:07] a se desenvolver
[00:28:07] efetivamente
[00:28:08] ele começa a ser
[00:28:10] contratado
[00:28:10] as milícias
[00:28:11] começam a ser
[00:28:12] patrocinadas
[00:28:13] por grupos
[00:28:14] importantes
[00:28:14] das classes dominantes
[00:28:15] rurais
[00:28:16] e depois isso
[00:28:16] chega ao meio
[00:28:18] urbano
[00:28:18] para que
[00:28:19] os seus esquadrões
[00:28:20] pratiquem
[00:28:21] exposições punitivas
[00:28:23] para destruir
[00:28:25] toda aquela
[00:28:25] aquela
[00:28:26] enfim
[00:28:27] para destruir
[00:28:28] as possibilidades
[00:28:29] do socialismo
[00:28:30] italiano
[00:28:30] significava
[00:28:32] atacar
[00:28:32] o próprio
[00:28:33] partido socialista
[00:28:34] italiano
[00:28:35] e outros setores
[00:28:37] de esquerda
[00:28:38] que eram minoritários
[00:28:39] mais importantes
[00:28:39] também ali
[00:28:40] a partir de 1921
[00:28:42] tem o próprio
[00:28:42] partido comunista
[00:28:43] que é uma dissidência
[00:28:44] à esquerda
[00:28:44] do partido socialista
[00:28:46] a gente tem grupos
[00:28:47] anarquistas também
[00:28:48] mas o alvo
[00:28:49] principal
[00:28:49] era o partido socialista
[00:28:50] que chama atenção
[00:28:51] era um partido
[00:28:52] muito enraizado
[00:28:53] em setores
[00:28:54] importantes
[00:28:54] da classe
[00:28:55] trabalhadora
[00:28:56] italiana
[00:28:56] ou seja
[00:28:57] partido que
[00:28:57] estava presente
[00:28:58] só no processo
[00:29:00] eleitoral
[00:29:01] e nem só
[00:29:02] tão somente
[00:29:03] na vida
[00:29:04] sindical
[00:29:04] na vida
[00:29:05] dos sindicatos
[00:29:06] era um partido
[00:29:07] que tinha um enraizamento
[00:29:08] na organização
[00:29:09] da vida cotidiana
[00:29:10] dos trabalhadores
[00:29:11] italianos
[00:29:12] que inclusive
[00:29:12] organizavam
[00:29:13] o seu tempo
[00:29:14] fora do trabalho
[00:29:15] pois bem
[00:29:15] o fascismo
[00:29:17] começa a crescer
[00:29:18] como
[00:29:18] movimento
[00:29:19] miliciano
[00:29:21] propriamente dito
[00:29:21] ele começa a ganhar
[00:29:22] importância
[00:29:22] como movimento armado
[00:29:24] e isso é importante
[00:29:24] ser dito
[00:29:25] porque ele só
[00:29:26] se torna um partido
[00:29:27] político
[00:29:28] vai se formar
[00:29:29] como partido
[00:29:30] nacional
[00:29:31] fascista
[00:29:32] em 1921
[00:29:33] e aí
[00:29:34] nesse momento
[00:29:35] de formação
[00:29:37] do fascismo
[00:29:38] deixando de ser
[00:29:38] simplesmente
[00:29:39] um movimento
[00:29:40] e se tornando
[00:29:41] também um partido
[00:29:42] político
[00:29:42] aí a gente
[00:29:44] encontra
[00:29:45] as relações
[00:29:46] um momento
[00:29:47] talvez importante
[00:29:47] de discutir
[00:29:48] as relações
[00:29:48] com o liberalismo
[00:29:49] por quê?
[00:29:50] porque esse partido
[00:29:51] nacional fascista
[00:29:52] se formaliza
[00:29:53] como partido
[00:29:53] vai participar
[00:29:54] do processo eleitoral
[00:29:55] de 1921
[00:29:56] e ele vai participar
[00:29:57] na chapa
[00:29:58] liderada pelo Giovanni Giolitti
[00:29:59] pelo grande
[00:30:00] político liberal
[00:30:02] italiano
[00:30:02] tradicional
[00:30:03] liberal italiano
[00:30:04] uma grande chapa
[00:30:05] da direita
[00:30:06] chamada
[00:30:06] bloco nacional
[00:30:07] o fascista
[00:30:08] participa
[00:30:09] da coalizão
[00:30:10] do bloco nacional
[00:30:10] na disputa
[00:30:11] das eleições
[00:30:11] de 1921
[00:30:14] elege uma pequena
[00:30:15] bancada
[00:30:16] proporcionalmente
[00:30:17] ao que foi
[00:30:18] o que eram
[00:30:19] outros partidos
[00:30:19] mas você já vê ali
[00:30:21] o estabelecimento
[00:30:21] de relações
[00:30:22] entre liberais
[00:30:23] e fascistas
[00:30:24] depois isso vai
[00:30:25] ter consequências
[00:30:27] importantes
[00:30:28] na própria
[00:30:28] emergência do Mussolini
[00:30:30] como primeiro-ministro
[00:30:31] que é a primeira etapa
[00:30:33] do processo
[00:30:34] de ascensão
[00:30:35] dos fascistas
[00:30:36] ao poder
[00:30:37] o Mussolini
[00:30:38] se torna
[00:30:39] primeiro-ministro
[00:30:39] no final de outubro
[00:30:40] de 1922
[00:30:43] e antes disso
[00:30:44] ele dá
[00:30:44] várias declarações
[00:30:45] favoráveis
[00:30:47] digamos assim
[00:30:48] a ideias liberais
[00:30:49] ou seja
[00:30:50] chama atenção
[00:30:51] que há um aspecto
[00:30:52] antiliberal
[00:30:53] importante no fascismo
[00:30:54] que deve ser
[00:30:55] alinhavado
[00:30:56] na medida que o fascismo
[00:30:57] pretende
[00:30:57] uma ordem política
[00:30:59] onde
[00:30:59] ou seja
[00:31:01] pode até que ser
[00:31:02] pode até que ser
[00:31:03] que tenha
[00:31:04] uma constituição
[00:31:05] mas ela vai estar
[00:31:06] sempre subordinada
[00:31:07] às vontades
[00:31:08] da liderança fascista
[00:31:09] ou seja
[00:31:09] o movimento fascista
[00:31:10] sempre vai ser superior
[00:31:11] à própria ideia
[00:31:12] de constitucionalização
[00:31:13] evidentemente
[00:31:14] que isso que é uma ideia
[00:31:15] que não é uma ideia
[00:31:16] que se acomoda bem
[00:31:17] ao liberalismo
[00:31:18] embora
[00:31:18] e esse é um papo
[00:31:19] que a gente pode desenvolver bem
[00:31:20] muitos setores
[00:31:22] das elites liberais
[00:31:23] buscaram
[00:31:24] nesse contexto
[00:31:25] estabelecer
[00:31:26] boas relações
[00:31:27] com os fascistas
[00:31:28] na medida em que
[00:31:29] observava
[00:31:30] que os fascistas
[00:31:30] estavam cumprindo
[00:31:31] uma missão
[00:31:32] que esses liberais
[00:31:34] consideravam importante
[00:31:35] que era o que?
[00:31:36] que era destruir
[00:31:37] o movimento socialista
[00:31:38] aliando
[00:31:38] ou seja
[00:31:39] proteger
[00:31:40] a Itália
[00:31:42] do bolchevismo
[00:31:42] proteger a Itália
[00:31:43] da possibilidade
[00:31:45] de uma revolução
[00:31:45] socialista
[00:31:47] então
[00:31:47] muitos setores
[00:31:49] das elites liberais
[00:31:50] olham positivamente
[00:31:51] para os fascistas
[00:31:52] e pretendem
[00:31:53] digamos assim
[00:31:54] normalizar
[00:31:55] o próprio fascismo
[00:31:56] no interior da ordem liberal
[00:31:58] então quando
[00:31:58] os liberais
[00:31:59] passam a apoiar
[00:32:01] que Mussolini
[00:32:02] pudesse formar
[00:32:03] um gabinete
[00:32:04] a pretensão deles
[00:32:05] era que
[00:32:05] os fascistas
[00:32:06] fossem controlados
[00:32:08] uma vez cumprida
[00:32:08] sua tarefa
[00:32:09] de destruição
[00:32:10] dos socialistas
[00:32:11] das possibilidades políticas
[00:32:12] dos socialistas
[00:32:13] que eles fossem normalizados
[00:32:14] no interior
[00:32:15] da ordem política
[00:32:17] de um Estado
[00:32:18] que era o Estado liberal
[00:32:19] então tem um período
[00:32:21] que é um período
[00:32:22] que a gente pode
[00:32:23] na periodização
[00:32:24] do processo
[00:32:26] do regime
[00:32:26] do fascista italiano
[00:32:28] chamar atenção
[00:32:29] na importância
[00:32:30] do período
[00:32:30] desde 1922
[00:32:31] ao final de 1922
[00:32:32] até 1925
[00:32:34] onde não existe
[00:32:35] propriamente
[00:32:36] uma mudança
[00:32:37] no regime político
[00:32:39] ou seja
[00:32:39] da forma de Estado
[00:32:41] italiano
[00:32:41] embora os fascistas
[00:32:42] já estejam no poder
[00:32:43] a gente tem ali
[00:32:44] a gente está diante
[00:32:45] de um governo fascista
[00:32:47] mas a gente tem
[00:32:47] mas a gente não está ainda
[00:32:48] não tem ainda
[00:32:49] um regime fascista
[00:32:50] e é esse
[00:32:51] um período muito importante
[00:32:53] onde você percebe
[00:32:54] importantes transações
[00:32:56] entre figuras importantes
[00:32:58] do liberalismo italiano
[00:33:00] com o fascismo
[00:33:01] inclusive tanto
[00:33:02] no apoio inicial
[00:33:03] e depois
[00:33:04] que vai gerar
[00:33:05] inclusive uma conversão
[00:33:06] de setores importantes
[00:33:08] das elites liberais italianas
[00:33:10] ao próprio fascismo
[00:33:11] então só para encerrar
[00:33:13] esse comentário aqui
[00:33:13] inicial
[00:33:14] que já desenvolvi
[00:33:15] bastante
[00:33:16] mas
[00:33:16] o primeiro
[00:33:17] figuras
[00:33:18] que depois vão se notabilizar
[00:33:20] pela própria oposição
[00:33:21] ao fascismo
[00:33:22] o grande filósofo
[00:33:23] liberal italiano
[00:33:24] chamado Benedetto Crotti
[00:33:26] Benedetto Crotti
[00:33:27] apoia a ascensão
[00:33:28] de Mussolini
[00:33:29] ao poder
[00:33:30] mesmo quando
[00:33:32] o governo Mussolini
[00:33:34] vive uma crise importante
[00:33:36] provocada por um assassinato
[00:33:38] de um deputado socialista
[00:33:39] em 1924
[00:33:40] o deputado
[00:33:41] Giacomo Matteotti
[00:33:43] que faz uma denúncia
[00:33:44] da violência
[00:33:45] usada pelos fascistas
[00:33:47] no mundo
[00:33:47] no processo eleitoral
[00:33:48] e depois dessa denúncia
[00:33:49] no parlamento
[00:33:50] ele é sequestrado
[00:33:51] e assassinado
[00:33:51] isso gera uma crise
[00:33:53] política importante
[00:33:54] na Itália
[00:33:55] uma expectativa
[00:33:56] das oposições
[00:33:57] ao fascismo
[00:33:58] de que o rei
[00:33:59] Vittorio Emanuel
[00:34:00] demitisse o Mussolini
[00:34:01] do cargo de primeiro-ministro
[00:34:03] havia uma expectativa
[00:34:04] nesse sentido
[00:34:05] ainda ali
[00:34:06] o Crotti
[00:34:07] continua
[00:34:08] a apoiar
[00:34:09] o Mussolini
[00:34:10] entretanto
[00:34:11] depois
[00:34:12] principalmente
[00:34:13] a partir de 1925
[00:34:14] começa o processo
[00:34:15] de fechamento
[00:34:16] do regime
[00:34:17] e aí você vai ter
[00:34:19] um descolamento
[00:34:20] de alguns liberais
[00:34:20] que vão começar
[00:34:21] a fazer oposição
[00:34:22] então já no segundo semestre
[00:34:24] de 1924
[00:34:25] o Crotti
[00:34:26] e outras figuras
[00:34:26] vão articular
[00:34:27] o manifesto
[00:34:28] de intelectuais
[00:34:29] antifascistas
[00:34:30] antifascistas
[00:34:31] não fascistas
[00:34:32] porque
[00:34:33] por outro lado
[00:34:34] uma figura
[00:34:35] que era
[00:34:35] um interlocutor
[00:34:36] importante do Crotti
[00:34:37] mas que ele sim
[00:34:39] vai do liberalismo
[00:34:40] e abraça
[00:34:41] e acaba se tornando
[00:34:42] uma figura importante
[00:34:43] do fascismo
[00:34:43] um intelectual
[00:34:45] importante
[00:34:45] que adere ao fascismo
[00:34:46] que foi
[00:34:47] o Giovanni Gentili
[00:34:48] que a gente pode falar
[00:34:49] mais um pouco
[00:34:49] sobre ele
[00:34:50] na medida que
[00:34:51] ele é muito importante
[00:34:52] para essa relação
[00:34:53] para pensar essa relação
[00:34:54] entre liberais
[00:34:56] e o fascismo
[00:34:57] o Giovanni Gentili
[00:34:58] vai tentar liderar
[00:35:00] e vai organizar
[00:35:02] um manifesto
[00:35:02] de intelectuais
[00:35:03] que apoiavam
[00:35:03] o fascismo
[00:35:04] em torno
[00:35:06] ao Giovanni Giolitti
[00:35:07] vai se formar
[00:35:08] todo um círculo
[00:35:10] o próprio círculo
[00:35:11] vai ser um círculo
[00:35:12] que vai representar
[00:35:13] bem essa adesão
[00:35:14] de liberais
[00:35:15] ao fascismo
[00:35:16] que vão
[00:35:16] transitar
[00:35:17] e vão
[00:35:19] inclusive
[00:35:19] tentar interpretar
[00:35:20] o próprio fascismo
[00:35:22] como um fenômeno
[00:35:23] capaz de renovar
[00:35:24] o antigo projeto
[00:35:25] de atualização
[00:35:27] do antigo projeto
[00:35:28] do liberalismo
[00:35:30] do período
[00:35:30] do ressurgimento
[00:35:31] o liberalismo
[00:35:32] da direita histórica
[00:35:34] eles vão entender
[00:35:35] buscar entender
[00:35:36] mais ou menos
[00:35:36] o fascismo
[00:35:37] nesse sentido
[00:35:38] e a partir
[00:35:38] desse curso
[00:35:39] vão buscar
[00:35:39] se identificar
[00:35:41] e apoiar
[00:35:42] esse regime
[00:35:44] as coisas
[00:35:45] que eu estou dizendo
[00:35:45] sobre esse assunto
[00:35:46] é que
[00:35:46] nesse momento
[00:35:47] nesse contexto
[00:35:47] estamos fazendo
[00:35:48] principalmente
[00:35:48] um estudo
[00:35:48] que tem alguns
[00:35:50] artigos publicados
[00:35:51] por esse autor
[00:35:51] no Brasil
[00:35:52] já discutindo
[00:35:53] esse assunto
[00:35:53] mas tem um livro
[00:35:54] que vai sair
[00:35:54] no ano que vem
[00:35:55] que é do professor
[00:35:56] Álvaro Bianchi
[00:35:57] professor do Outcamp
[00:35:57] que está justamente
[00:35:58] estudando
[00:35:59] que apresenta
[00:36:00] nesse livro
[00:36:01] que vai sair dele
[00:36:02] essa relação
[00:36:03] entre esses liberais
[00:36:05] italianos
[00:36:05] e o fascismo
[00:36:06] mas eu chamo atenção
[00:36:07] também para um outro estudo
[00:36:08] também
[00:36:09] recentemente publicado
[00:36:11] no Brasil
[00:36:11] da Clara Matei
[00:36:13] que discute
[00:36:13] um outro aspecto
[00:36:14] importante
[00:36:14] da relação
[00:36:15] entre o fascismo
[00:36:16] e o liberalismo
[00:36:17] que é a relação
[00:36:18] entre os liberais
[00:36:19] mais identificados
[00:36:20] com o liberalismo
[00:36:21] econômico
[00:36:22] na medida
[00:36:23] em que os primeiros anos
[00:36:24] do Mussolini no poder
[00:36:26] ou seja
[00:36:26] os primeiros anos
[00:36:27] do governo
[00:36:28] principalmente
[00:36:28] até 1925
[00:36:30] a política econômica
[00:36:31] implementada
[00:36:33] é uma política econômica
[00:36:34] evidentemente liberal
[00:36:35] ela vai estar
[00:36:36] sendo
[00:36:36] liderada
[00:36:38] pelo ministro
[00:36:38] das finanças
[00:36:39] do Mussolini
[00:36:40] que foi o Alberto
[00:36:41] Stefani
[00:36:42] e apoiada
[00:36:43] por eminências
[00:36:45] pardas
[00:36:45] do liberalismo
[00:36:46] econômico
[00:36:47] italiano
[00:36:48] estou falando aqui
[00:36:50] de
[00:36:50] Matteo Pantaleone
[00:36:53] que foi uma figura
[00:36:54] muito importante
[00:36:55] do ensino
[00:36:56] da economia
[00:36:58] muito inserido
[00:37:01] nos círculos
[00:37:01] da difusão
[00:37:02] da própria perspectiva
[00:37:03] neoclássica
[00:37:04] digamos assim
[00:37:05] na Itália
[00:37:06] do pensamento econômico
[00:37:07] e muitos outros
[00:37:08] o próprio
[00:37:09] Luigi Einaudi
[00:37:11] que foi
[00:37:11] uma figura
[00:37:12] o liberal
[00:37:13] e olha
[00:37:15] a coisa interessante
[00:37:15] tanto o
[00:37:16] Alberto DiCaprio
[00:37:17] que foi
[00:37:17] Stefani
[00:37:17] como o
[00:37:18] Matteo Pantaleone
[00:37:19] eles entraram
[00:37:20] e foram
[00:37:20] militantes
[00:37:21] do partido
[00:37:22] socialista
[00:37:23] do partido
[00:37:23] fascista
[00:37:24] melhor dizendo
[00:37:24] no caso
[00:37:25] do Alberto DiStefani
[00:37:27] alguém que
[00:37:28] entrou no movimento
[00:37:29] fascista
[00:37:30] ainda lá em
[00:37:30] 1919
[00:37:31] no iniciozinho
[00:37:32] do movimento
[00:37:33] fascista
[00:37:34] ou seja
[00:37:35] é um fascista
[00:37:36] de carteirinha
[00:37:36] um membro
[00:37:37] que assume
[00:37:38] a parte
[00:37:39] das finanças
[00:37:40] e implementa
[00:37:41] uma política
[00:37:42] econômica
[00:37:43] que era
[00:37:43] livre cambista
[00:37:44] transferiu
[00:37:45] propriedades públicas
[00:37:46] para o setor
[00:37:47] privado
[00:37:48] empreendeu
[00:37:48] uma espécie
[00:37:49] de reforma
[00:37:49] da previdência
[00:37:50] ligado
[00:37:51] ao sistema
[00:37:52] de pensões
[00:37:53] que era
[00:37:53] uma coisa
[00:37:53] muito importante
[00:37:54] ali
[00:37:54] na Itália
[00:37:55] que tinha
[00:37:55] acabado
[00:37:56] de sair
[00:37:56] da guerra
[00:37:57] enfim
[00:37:58] uma política
[00:37:58] eminentemente
[00:37:59] liberal
[00:38:00] do ponto de vista
[00:38:00] econômico
[00:38:01] e essa
[00:38:02] é implementada
[00:38:02] pelo menos
[00:38:03] até 1925
[00:38:04] ali na Itália
[00:38:05] a política
[00:38:06] de austeridade
[00:38:07] inclusive
[00:38:08] como mostra
[00:38:09] a Clara Mattei
[00:38:10] mas você tem
[00:38:10] figuras
[00:38:11] como é o caso
[00:38:12] do Luigi Einaudi
[00:38:13] que era
[00:38:13] uma figura
[00:38:14] importante
[00:38:15] da defesa
[00:38:15] da visão
[00:38:16] liberal
[00:38:17] econômica
[00:38:18] na Itália
[00:38:19] que ele
[00:38:20] não entra
[00:38:20] no partido
[00:38:21] fascista
[00:38:22] mas ele é um
[00:38:23] apoiador
[00:38:23] daquela política
[00:38:24] econômica
[00:38:24] ele representa
[00:38:25] também esse lado
[00:38:26] da defesa
[00:38:27] do liberalismo
[00:38:28] econômico
[00:38:28] ou seja
[00:38:28] que vai estar
[00:38:29] presente ali
[00:38:29] naquele momento
[00:38:30] inicial
[00:38:31] dos fascistas
[00:38:32] no poder
[00:38:33] e a gente
[00:38:34] pode lembrar
[00:38:34] também de outras
[00:38:35] figuras
[00:38:35] também importante
[00:38:37] da intelectualidade
[00:38:39] italiana
[00:38:40] que aderem
[00:38:40] ao fascismo
[00:38:41] que vem da tradição
[00:38:42] liberal
[00:38:42] que é o caso
[00:38:43] de outra figura
[00:38:44] que também
[00:38:44] era um economista
[00:38:45] mas que também
[00:38:46] tem
[00:38:46] uma posição
[00:38:48] muito importante
[00:38:48] na formação
[00:38:49] daquilo que se entende
[00:38:50] como ciência política
[00:38:51] italiana
[00:38:52] que era o
[00:38:52] Vifredo Pareto
[00:38:53] o Vifredo Pareto
[00:38:54] vai ser uma figura
[00:38:55] que nos últimos
[00:38:56] anos de vida
[00:38:57] dele coincide
[00:38:58] com a ascensão
[00:38:59] do Mussolini
[00:39:00] ele vai dar apoio
[00:39:01] ele vai se identificar
[00:39:02] ele vai ser o defensor
[00:39:03] dessa experiência
[00:39:05] fascista
[00:39:05] está aí também
[00:39:06] um liberal
[00:39:06] embora um liberal
[00:39:07] conservador
[00:39:08] também que apoia
[00:39:09] o início
[00:39:10] da chegada
[00:39:10] do poder
[00:39:11] aos fascistas
[00:39:12] mas eu chamo
[00:39:13] atenção
[00:39:13] que mesmo
[00:39:14] você tem também
[00:39:15] caso daqueles
[00:39:16] liberais
[00:39:17] que apoiam
[00:39:18] essa ascensão
[00:39:19] inicial
[00:39:20] do Mussolini
[00:39:21] ao poder
[00:39:22] mas que depois
[00:39:23] vão romper
[00:39:24] com ele
[00:39:24] alguns vão romper
[00:39:25] no episódio
[00:39:26] que eu acabei
[00:39:27] de mencionar
[00:39:28] do assassinato
[00:39:29] do deputado
[00:39:29] Matteotti
[00:39:30] em 1924
[00:39:31] como é o caso
[00:39:32] por exemplo
[00:39:32] de Giovanni Amendola
[00:39:34] Giovanni Amendola
[00:39:35] foi uma figura
[00:39:36] importante
[00:39:36] do liberalismo
[00:39:38] italiano
[00:39:39] apoiou a ascensão
[00:39:40] do Mussolini
[00:39:41] ao poder
[00:39:42] a partir
[00:39:43] do entendimento
[00:39:44] de que
[00:39:45] o fascismo
[00:39:46] tinha
[00:39:46] uma importância
[00:39:47] no combate
[00:39:48] ao socialismo
[00:39:49] mas depois
[00:39:50] vai se colocar
[00:39:52] na oposição
[00:39:52] acaba indo
[00:39:53] ao exílio
[00:39:54] e é basicamente
[00:39:55] assassinado
[00:39:56] no exílio
[00:39:56] por fascistas
[00:39:57] que vão lá
[00:39:58] e o espancam
[00:39:59] em Paris
[00:40:00] alguns anos
[00:40:01] depois
[00:40:01] em 1922
[00:40:02] no momento
[00:40:03] do fechamento
[00:40:04] do regime
[00:40:04] então você também
[00:40:05] tem esses liberais
[00:40:06] que entraram
[00:40:07] em atrito
[00:40:07] o próprio caso
[00:40:08] do Crote
[00:40:09] o Benedetto Crote
[00:40:10] que eu mencionei
[00:40:11] ele não sofre
[00:40:12] nenhuma represária
[00:40:13] física
[00:40:13] do fascismo
[00:40:15] evidentemente
[00:40:16] até pelo lugar
[00:40:17] que ele ocupava
[00:40:19] no mundo da cultura
[00:40:19] italiana
[00:40:20] uma figura
[00:40:20] muito importante
[00:40:22] mas ele vai se passar
[00:40:23] depois desse apoio
[00:40:25] inicial
[00:40:25] vai se passar também
[00:40:26] a oposição
[00:40:26] ao fascismo
[00:40:27] como eu mencionei
[00:40:28] aqui
[00:40:28] o marco disso
[00:40:30] vai ser
[00:40:30] o manifesto
[00:40:31] dos intelectuais
[00:40:32] não fascistas
[00:40:33] que é liderado
[00:40:34] pelo Crote
[00:40:36] mas ele vai ser
[00:40:37] inclusive
[00:40:38] um alvo
[00:40:39] dos setores
[00:40:40] intelectuais
[00:40:41] que aderem
[00:40:41] ao fascismo
[00:40:43] mas pela sua posição
[00:40:44] ele vai
[00:40:45] acabar
[00:40:46] sobrevivendo
[00:40:48] digamos assim
[00:40:48] as represálias
[00:40:50] não vai ser preso
[00:40:51] não vai ser espancado
[00:40:52] etc
[00:40:53] ao contrário
[00:40:53] de outros liberais
[00:40:54] também que vão
[00:40:55] sofrer na mão
[00:40:56] dos fascistas
[00:40:57] então isso
[00:40:58] nos diz
[00:40:59] muitas coisas
[00:40:59] entre elas
[00:41:00] que os liberais
[00:41:02] também
[00:41:02] ou seja
[00:41:03] existe uma pluralidade
[00:41:04] nesse campo liberal
[00:41:04] uma boa parte deles
[00:41:06] adere ao
[00:41:07] o fascismo
[00:41:08] por critérios
[00:41:10] distintos
[00:41:10] porque havia
[00:41:11] ocorrentes
[00:41:12] distintas
[00:41:12] no liberalismo
[00:41:13] italiano
[00:41:14] alguns vão
[00:41:15] se opor
[00:41:16] ao fascismo
[00:41:17] setor minoritário
[00:41:18] mas precisa ser
[00:41:20] lembrado
[00:41:21] mas isso
[00:41:22] diz muito
[00:41:23] sobre
[00:41:23] um aspecto
[00:41:24] que alguns
[00:41:25] historiadores
[00:41:26] sempre chamam
[00:41:27] atenção
[00:41:27] para a gente entender
[00:41:28] os locais
[00:41:29] onde os fascistas
[00:41:30] de fato
[00:41:31] triunfaram
[00:41:32] e conseguiram
[00:41:33] chegar ao poder
[00:41:34] que foi justamente
[00:41:35] estabelecendo
[00:41:35] transações
[00:41:36] e alianças
[00:41:37] com as elites
[00:41:37] políticas tradicionais
[00:41:38] como insiste
[00:41:40] o Robert Paxson
[00:41:41] no seu livro
[00:41:42] incontornável
[00:41:43] com a anatomia
[00:41:43] do fascismo
[00:41:45] o fascismo
[00:41:47] inspirou
[00:41:48] movimentos
[00:41:48] similares
[00:41:49] fora da Europa
[00:41:50] inclusive no Brasil
[00:41:51] com o integralismo
[00:41:52] e a ação
[00:41:52] integralista brasileira
[00:41:54] o primeiro movimento
[00:41:54] fascista
[00:41:55] fundado no Brasil
[00:41:56] foi a legião
[00:41:57] cruzeiro do sul
[00:41:58] de 1922
[00:41:59] inspirada
[00:42:00] diretamente
[00:42:00] pelo partido
[00:42:01] nacional fascista
[00:42:02] fundado por Mussolini
[00:42:03] na Itália
[00:42:04] no ano anterior
[00:42:04] e no caso alemão
[00:42:13] uns anos atrás
[00:42:14] ficou um movimento
[00:42:15] copopular
[00:42:15] aquela estupidez
[00:42:16] que o nazismo
[00:42:17] seria um regime
[00:42:18] de esquerda
[00:42:18] estupidez
[00:42:19] essa que foi apoiada
[00:42:20] por muito idiota
[00:42:20] na internet
[00:42:21] que acha que entende
[00:42:22] mais de história
[00:42:23] do que historiador
[00:42:24] inclusive gente
[00:42:25] que hoje está
[00:42:25] na política institucional
[00:42:26] enfim
[00:42:27] uma das ferramentas
[00:42:28] para tentar provar isso
[00:42:29] seria o programa
[00:42:30] inicial do partido nazista
[00:42:31] quando eles começaram
[00:42:32] as suas atividades
[00:42:33] ignorando que
[00:42:34] assim como na Itália
[00:42:35] conforme o partido nazista
[00:42:36] foi avançando
[00:42:37] ele foi se adaptando
[00:42:38] às questões
[00:42:38] da política alemã
[00:42:39] a ponto de ir lá
[00:42:40] para meados de 36
[00:42:41] Hitler dar uma entrevista
[00:42:42] falando que
[00:42:43] das aproximações
[00:42:44] do nazismo
[00:42:45] com o liberalismo
[00:42:46] na economia e tal
[00:42:47] mas eu vou deixar
[00:42:47] esse ponto
[00:42:48] em aberto aqui e tal
[00:42:50] eu queria te perguntar
[00:42:51] sobre a relação
[00:42:52] entre o nazismo
[00:42:52] e o liberalismo
[00:42:53] antes de Hitler
[00:42:54] chegar ao poder
[00:42:55] ele teve apoio
[00:42:56] liberal
[00:42:56] ou ele foi visto
[00:42:58] mais como uma ameaça
[00:42:59] então eu acho
[00:43:00] que essa questão
[00:43:01] para a gente responder
[00:43:02] essa questão
[00:43:02] a gente tem que lembrar
[00:43:03] algumas coisas
[00:43:04] uma distinção importante
[00:43:07] digamos assim
[00:43:07] na cultura política
[00:43:08] das classes dominantes
[00:43:09] dos dois países
[00:43:10] da Itália e da Alemanha
[00:43:11] então enquanto
[00:43:12] que o liberalismo
[00:43:13] a gente
[00:43:14] pode entender
[00:43:15] é o centro
[00:43:16] ou seja
[00:43:17] é a grande tradição
[00:43:20] da reflexão política
[00:43:21] das elites políticas
[00:43:22] tradicionais
[00:43:23] italianas
[00:43:24] que inclusive
[00:43:25] tinham um aspecto
[00:43:26] um traço
[00:43:27] muito característico
[00:43:28] que era o anticlericalismo
[00:43:29] por causa dos conflitos
[00:43:30] com a própria igreja
[00:43:31] da igreja católica
[00:43:32] o caso alemão
[00:43:34] a gente tem
[00:43:34] um peso maior
[00:43:35] da visão conservadora
[00:43:37] do conservadorismo político
[00:43:38] então
[00:43:38] o próprio liberalismo
[00:43:40] alemão
[00:43:41] ele não tem
[00:43:42] o mesmo lugar
[00:43:43] é importante
[00:43:43] a gente lembrar disso
[00:43:44] ou seja
[00:43:44] a gente tem
[00:43:44] ele não tem
[00:43:45] o mesmo lugar
[00:43:46] que o liberalismo
[00:43:47] teve
[00:43:48] tanto no mundo
[00:43:48] anglo-saxão
[00:43:49] como no caso
[00:43:50] da Itália
[00:43:50] então só daí
[00:43:52] a gente já
[00:43:52] é preciso
[00:43:53] fazer essa distinção
[00:43:56] então por exemplo
[00:43:56] a gente lembra
[00:43:57] dos momentos
[00:43:58] decisivos
[00:43:59] lá da ascensão
[00:44:00] do Hitler
[00:44:00] ou seja
[00:44:01] o presidente da república
[00:44:02] é o marechal
[00:44:03] Rittenburgo
[00:44:04] que era um conservador
[00:44:05] os grandes partidos
[00:44:06] da direita tradicional
[00:44:08] alemã
[00:44:09] no período
[00:44:09] da república
[00:44:10] de Weimar
[00:44:10] principalmente
[00:44:11] o partido
[00:44:11] do centro católico
[00:44:13] também o partido
[00:44:14] conservador
[00:44:14] você não tem
[00:44:15] propriamente
[00:44:16] a visão liberal
[00:44:18] ela não tem
[00:44:18] o mesmo lugar
[00:44:19] que tem
[00:44:20] no caso
[00:44:21] da Itália
[00:44:23] então acho
[00:44:23] que o primeiro lugar
[00:44:24] é lembrar
[00:44:25] é lembrar disso
[00:44:26] segundo
[00:44:27] outro aspecto
[00:44:28] eu posso até
[00:44:30] mencionar aqui
[00:44:30] uma coisa
[00:44:31] sobre essa questão
[00:44:32] dessa estupidez
[00:44:33] de falar de
[00:44:34] nazismo
[00:44:35] ser de esquerda
[00:44:35] etc
[00:44:36] é uma coisa
[00:44:36] que eu discuto
[00:44:37] mais nesse livro
[00:44:38] no meu livro
[00:44:39] é o que é que
[00:44:41] significa
[00:44:42] a própria palavra
[00:44:42] socialismo
[00:44:43] ali no contexto
[00:44:44] da cultura
[00:44:45] política
[00:44:45] alemã
[00:44:46] mas lembrando
[00:44:47] que um dos movimentos
[00:44:48] intelectuais
[00:44:49] que contribuem
[00:44:50] bastante
[00:44:50] que geram temas
[00:44:51] e parte do repertório
[00:44:53] que vai ser
[00:44:53] importante
[00:44:54] do partido
[00:44:54] nazista
[00:44:55] vai ser o movimento
[00:44:56] de intelectuais
[00:44:57] chamado
[00:44:57] revolução
[00:44:58] conservadora
[00:44:59] onde está
[00:44:59] Oswald Spengler
[00:45:01] Moller von der Brocke
[00:45:02] enfim
[00:45:03] o próprio
[00:45:04] Karl Schmitt
[00:45:04] figuras
[00:45:06] alguns vão aderir
[00:45:07] ao nazismo
[00:45:08] outros não
[00:45:09] mas olha
[00:45:10] a identidade
[00:45:11] olha o lugar
[00:45:12] que eles buscam
[00:45:13] se identificar
[00:45:13] no espaço
[00:45:14] no espectro político
[00:45:15] no lugar do conservadorismo
[00:45:16] não no liberalismo
[00:45:17] então isso é
[00:45:17] uma outra coisa importante
[00:45:19] mas você lembrou bem
[00:45:20] que lá por meados
[00:45:21] dos anos 30
[00:45:21] e a gente está falando
[00:45:22] do nazismo
[00:45:23] já no poder
[00:45:24] ou seja
[00:45:25] você tem toda a evolução
[00:45:26] do pensamento
[00:45:27] desses movimentos fascistas
[00:45:28] você tem um momento
[00:45:30] antes da chegada
[00:45:31] do poder
[00:45:31] você tem mudanças
[00:45:32] na retórica
[00:45:33] uma vez que esses movimentos
[00:45:34] chegam ao poder
[00:45:35] e passam a ter as tarefas
[00:45:36] de construção
[00:45:37] de um regime político
[00:45:38] e a gente vai ter
[00:45:39] uma política
[00:45:41] econômica
[00:45:42] bastante curiosa
[00:45:43] no
[00:45:43] no
[00:45:43] no
[00:45:44] , no, no
[00:45:45] no nazismo
[00:45:45] você tem
[00:45:46] em certo aspecto
[00:45:47] você tem uma influência
[00:45:49] de ideias keynesianas
[00:45:50] isso é bastante importante
[00:45:52] na política econômica
[00:45:53] praticada pelo nazismo
[00:45:54] por exemplo
[00:45:55] o investimento
[00:45:56] em obras públicas
[00:45:57] construção de estados
[00:45:58] que são investimentos
[00:45:59] estatais
[00:46:00] para
[00:46:00] no sentido
[00:46:03] de serem
[00:46:04] medidas anticíclicas
[00:46:06] você tem
[00:46:07] planejamento
[00:46:08] para a própria
[00:46:09] do próprio
[00:46:11] ou seja
[00:46:11] para a própria estratégia
[00:46:12] de rearmamento
[00:46:13] da Alemanha
[00:46:14] e você tem
[00:46:14] e por outro lado
[00:46:15] como método
[00:46:16] de financiamento
[00:46:17] da própria política
[00:46:18] de rearmamento
[00:46:19] você tem uma onda
[00:46:20] importante
[00:46:21] de privatizações
[00:46:22] que aí
[00:46:23] acaba aproximando
[00:46:25] nessa
[00:46:25] há ideias
[00:46:27] que são próprias
[00:46:28] do liberalismo econômico
[00:46:29] e lembro bem
[00:46:30] num período
[00:46:31] onde o liberalismo
[00:46:32] econômico
[00:46:33] ele está
[00:46:34] em baixa
[00:46:35] ele está sendo questionado
[00:46:36] no mundo inteiro
[00:46:36] no mundo capitalista
[00:46:38] ele está
[00:46:38] ele está
[00:46:39] batendo em retirada
[00:46:40] ele está marginalizado
[00:46:42] mas mesmo
[00:46:43] mesmo ali
[00:46:44] no contexto
[00:46:45] alemão
[00:46:46] que tem todos esses aspectos
[00:46:47] que eu chamei a atenção
[00:46:48] ou seja
[00:46:49] medidas anticíclicas
[00:46:50] no sentido keynesiano
[00:46:52] planejamento
[00:46:53] da economia
[00:46:54] para o rearmamento
[00:46:55] você também tem
[00:46:56] práticas
[00:46:57] que são próprias
[00:46:58] do liberalismo econômico
[00:46:59] como é
[00:46:59] a própria noção
[00:47:00] de privatização
[00:47:01] que segundo alguns autores
[00:47:02] é formulada justamente
[00:47:04] naquele contexto
[00:47:05] o fascismo no poder
[00:47:06] principalmente
[00:47:06] o nazismo
[00:47:07] nazismo alemão
[00:47:08] então isso é coisa
[00:47:09] de muito importante
[00:47:10] a ser discutido
[00:47:12] e aí eu acho
[00:47:13] que vale a pena
[00:47:13] te retomar
[00:47:14] porque
[00:47:15] esses aspectos
[00:47:17] que são próprios
[00:47:18] da virada
[00:47:19] da política econômica
[00:47:21] da visão
[00:47:22] inclusive
[00:47:23] dos paradigmas
[00:47:24] do pensamento econômico
[00:47:25] dos anos 30
[00:47:26] com a própria emergência
[00:47:28] da visão keynesiana
[00:47:31] ela foi tratada
[00:47:32] por muitos opositores
[00:47:33] do Keynes
[00:47:35] na época
[00:47:35] e até hoje
[00:47:36] como se fosse
[00:47:37] sinônimo de socialismo
[00:47:39] tentando atribuir
[00:47:40] a ideia de socialismo
[00:47:42] que está presente
[00:47:42] no nome do partido nazista
[00:47:44] e que é
[00:47:44] a isso
[00:47:45] então como você lembrou bem
[00:47:46] essa estupidez
[00:47:48] que ficou forte
[00:47:49] no Brasil
[00:47:50] no último período
[00:47:51] é reproduzida
[00:47:52] em muitos materiais
[00:47:53] nacional socialismo
[00:47:54] então só pode ser de esquerda
[00:47:55] porque socialismo
[00:47:57] ela esconde
[00:47:58] uma série de histórias
[00:48:00] que são importantes
[00:48:01] para a gente entender isso
[00:48:02] e uma delas
[00:48:02] que eu trago
[00:48:03] no livro
[00:48:03] é justamente
[00:48:04] a disputa em torno
[00:48:05] da palavra socialismo
[00:48:06] a palavra socialismo
[00:48:07] é uma palavra em disputa
[00:48:09] no âmbito da cultura
[00:48:09] política na Europa
[00:48:11] não só
[00:48:12] no mundo germânico
[00:48:13] mas mesmo
[00:48:14] por exemplo
[00:48:15] no mundo latino
[00:48:16] um grande historiador israelense
[00:48:18] chamado
[00:48:19] Ziv Sternhell
[00:48:20] um sujeito
[00:48:21] com muita influência
[00:48:22] na historiografia
[00:48:25] do fascismo
[00:48:26] inclusive
[00:48:26] um eminente liberal
[00:48:27] uma pessoa
[00:48:29] com posições políticas
[00:48:30] liberais
[00:48:32] ele tem uma pesquisa
[00:48:33] muito importante
[00:48:33] sobre a origem
[00:48:34] da ideologia fascista
[00:48:36] na França
[00:48:37] e ele chama atenção
[00:48:38] para por exemplo
[00:48:39] autores
[00:48:40] que vão circular
[00:48:41] entre a ação francesa
[00:48:43] que era
[00:48:44] uma organização
[00:48:44] da direita
[00:48:45] antissemita
[00:48:47] inclusive
[00:48:47] importante ali
[00:48:48] na França
[00:48:49] surgida ainda antes
[00:48:50] da primeira guerra mundial
[00:48:52] que vai ter
[00:48:53] alguns de suas figuras
[00:48:54] vinculadas
[00:48:55] a sua organização
[00:48:55] que vão migrar
[00:48:56] e vão estar na origem
[00:48:57] da formação
[00:48:57] do próprio fascismo mesmo
[00:48:59] ele vai chamar atenção
[00:49:00] como Charles Morin
[00:49:01] por exemplo
[00:49:02] já defendia
[00:49:03] uma ideia
[00:49:04] de um
[00:49:05] socialismo nacional
[00:49:06] ou seja
[00:49:07] uma ideia
[00:49:08] de um socialismo
[00:49:09] que seria
[00:49:10] não marxista
[00:49:11] porque ele negaria
[00:49:11] a luta de classe
[00:49:13] e internacionalismo
[00:49:14] mas buscaria
[00:49:14] equacionar
[00:49:15] resolver a questão social
[00:49:17] que é a questão
[00:49:17] da pobreza
[00:49:18] do aumento da pobreza
[00:49:19] provocado pelo
[00:49:20] capitalismo
[00:49:21] no âmbito
[00:49:22] de um projeto
[00:49:22] nacionalista
[00:49:23] e aí até
[00:49:24] a grande tese
[00:49:25] a grande contribuição
[00:49:26] do Stern Real
[00:49:28] para a historiografia
[00:49:29] é justamente
[00:49:29] chamar atenção
[00:49:30] de como você tem
[00:49:31] ou seja
[00:49:32] esse outro conceito
[00:49:33] de socialismo ali
[00:49:34] no mundo francês
[00:49:35] mas no mundo
[00:49:36] anglo-saxão
[00:49:37] acabei de me referir
[00:49:38] a uma tradição
[00:49:40] um movimento
[00:49:41] intelectual
[00:49:42] que vai ter
[00:49:42] muita importância
[00:49:43] na formação
[00:49:44] do nazismo
[00:49:44] na medida em que
[00:49:45] vai fornecer
[00:49:46] uma série de temas
[00:49:47] e de ideias
[00:49:49] no próprio nazismo
[00:49:50] que remetem
[00:49:51] mais ou menos
[00:49:52] à ideia
[00:49:52] da revolução conservadora
[00:49:54] então você vai ter
[00:49:54] uma série de autores
[00:49:56] entre eles
[00:49:56] o próprio Oswald Spengler
[00:49:58] que participou
[00:49:59] desse movimento
[00:50:00] buscando apresentar
[00:50:01] a ideia
[00:50:02] de que o socialismo
[00:50:03] seria uma instituição
[00:50:04] germânica
[00:50:05] que não tem nada a ver
[00:50:06] com a luta de classe
[00:50:06] nem internacionalismo
[00:50:08] como se tivesse sido
[00:50:09] uma palavra
[00:50:09] que tivesse sido usurpada
[00:50:11] pelos marxistas
[00:50:12] o argumento
[00:50:14] semelhante
[00:50:14] é o mesmo argumento
[00:50:15] que o Hitler
[00:50:16] vai utilizar
[00:50:17] para inclusive
[00:50:18] explicar
[00:50:19] para um jornalista
[00:50:21] britânico
[00:50:22] o nome do seu partido
[00:50:24] usar justamente
[00:50:25] essa ideia
[00:50:25] ah não
[00:50:26] o socialismo
[00:50:27] é uma instituição germânica
[00:50:28] ela foi roubada
[00:50:30] foi expropriada
[00:50:31] foi vilipendiada
[00:50:32] pelos marxistas
[00:50:33] que introduziram
[00:50:34] essas ideias
[00:50:35] de luta de classe
[00:50:36] etc
[00:50:37] e tudo
[00:50:37] evidentemente
[00:50:38] sendo atribuído
[00:50:39] a parte de uma
[00:50:40] grande conspiração judaica
[00:50:42] e blá blá blá
[00:50:42] e todo esse blá blá blá
[00:50:43] do nazismo
[00:50:45] mas eu chamo a atenção
[00:50:46] portanto
[00:50:46] que essa palavra
[00:50:47] é uma palavra
[00:50:48] que está em disputa
[00:50:49] na disputa política
[00:50:51] do processo político
[00:50:54] na Alemanha
[00:50:55] que ao mesmo tempo
[00:50:57] os socialdemocratas
[00:50:58] que são o maior partido operário
[00:51:00] o maior partido de esquerda
[00:51:02] na Alemanha
[00:51:03] na República de Weimar
[00:51:04] é um partido
[00:51:05] cujos militantes
[00:51:07] se identificavam
[00:51:07] como socialistas
[00:51:09] então evidentemente
[00:51:10] o socialismo ali
[00:51:11] estava
[00:51:11] a noção de socialismo
[00:51:13] estava sendo disputada
[00:51:14] entre esquerda
[00:51:15] e direita
[00:51:16] ali no âmbito
[00:51:17] da Alemanha
[00:51:18] nesse contexto
[00:51:19] e como se sabe
[00:51:20] também
[00:51:21] o Hitler
[00:51:21] coloca esse nome
[00:51:23] num partido
[00:51:24] que originalmente
[00:51:24] se chamava
[00:51:25] Partido dos Trabalhadores Alemães
[00:51:27] para ser o Partido Nacional
[00:51:28] Socialista
[00:51:28] dos Trabalhadores Alemães
[00:51:30] porque ele pretendia
[00:51:31] disputar
[00:51:32] a influência
[00:51:33] junto à classe
[00:51:33] trabalhadora
[00:51:34] ele tinha esse
[00:51:36] objetivo
[00:51:37] de fazer a disputa
[00:51:38] de setores de massa
[00:51:39] importante
[00:51:40] da classe
[00:51:41] trabalhadora
[00:51:42] e evidentemente
[00:51:43] daí o uso
[00:51:44] do vermelho
[00:51:45] e a própria
[00:51:46] ideia de socialismo
[00:51:48] ou seja
[00:51:48] da medida
[00:51:49] que a ideia
[00:51:50] de capitalismo
[00:51:51] está muito desgastada
[00:51:52] do ponto de vista
[00:51:53] da sua defesa
[00:51:54] ideológica
[00:51:56] inclusive
[00:51:56] pela tragédia
[00:51:58] que foi
[00:51:58] vivida
[00:51:59] pelos alemães
[00:52:00] com a derrota
[00:52:01] na Primeira Guerra Mundial
[00:52:03] e todas as dificuldades
[00:52:04] enfrentadas
[00:52:05] nos primeiros anos
[00:52:05] da República de Weimar
[00:52:07] então
[00:52:07] a ideia de capitalismo
[00:52:08] estava bastante
[00:52:09] questionada
[00:52:10] e evidentemente
[00:52:12] que
[00:52:12] seja
[00:52:42] , né
[00:52:43] isso é consensual
[00:52:44] na literatura acadêmica
[00:52:46] o nazismo
[00:52:46] não tem
[00:52:47] é um movimento
[00:52:49] que não tem
[00:52:49] nenhum grupo
[00:52:50] significativo
[00:52:51] que tenha vindo
[00:52:52] de uma militância
[00:52:53] de esquerda anterior
[00:52:54] então ele é basicamente
[00:52:56] um fenômeno
[00:52:56] que surge ali
[00:52:57] no próprio
[00:52:58] cadinho
[00:52:59] das direitas
[00:53:00] antissemitas
[00:53:02] alemães
[00:53:03] então tem
[00:53:03] um outro
[00:53:04] tipo de
[00:53:05] trajetória
[00:53:06] portanto
[00:53:06] a ideia
[00:53:07] é estudar
[00:53:08] a história
[00:53:08] e conhecer
[00:53:09] a história
[00:53:09] desse processo
[00:53:10] a gente consegue
[00:53:11] afirmar
[00:53:12] afastar muito
[00:53:13] desses espantalhos
[00:53:14] entender
[00:53:15] o significado
[00:53:17] histórico
[00:53:17] de determinadas palavras
[00:53:19] e o que
[00:53:20] elas estão
[00:53:21] significando
[00:53:22] naquele
[00:53:22] contexto
[00:53:23] e o que elas
[00:53:24] significam
[00:53:25] do ponto de vista
[00:53:26] do espectro político
[00:53:27] o entendimento
[00:53:28] do que elas representam
[00:53:29] no espectro político
[00:53:31] para a gente
[00:53:31] conseguir
[00:53:32] entender
[00:53:33] que determinadas
[00:53:34] posições
[00:53:34] têm sido
[00:53:35] defendidas
[00:53:35] hoje
[00:53:36] no debate público
[00:53:37] que são
[00:53:37] meras
[00:53:38] grandes manipulações
[00:53:39] que não tem
[00:53:41] valor
[00:53:42] acadêmico
[00:53:43] e científico
[00:53:44] e eu termino
[00:53:45] esse comentário
[00:53:46] aqui
[00:53:46] tentando aqui
[00:53:47] trazer justamente
[00:53:48] esse debate
[00:53:49] sobre
[00:53:50] esquerda
[00:53:51] e direita
[00:53:53] o lugar do
[00:53:54] fascismo
[00:53:55] e como isso
[00:53:56] aparece na visão
[00:53:57] porque
[00:53:57] nos documentos
[00:53:59] fascistas
[00:54:00] é muito comum
[00:54:00] que os fascistas
[00:54:02] busquem apresentar
[00:54:03] sua posição ideológica
[00:54:04] como estando
[00:54:05] para além
[00:54:05] da própria
[00:54:07] dia de
[00:54:08] esquerda e direita
[00:54:09] como se fosse
[00:54:10] uma grande
[00:54:10] novidade política
[00:54:11] que ultrapassasse
[00:54:12] esse tipo
[00:54:12] de distinção
[00:54:14] mas o discurso
[00:54:16] fascista
[00:54:16] às vezes
[00:54:17] ele é contraditório
[00:54:18] uma hora os fascistas
[00:54:19] estão falando isso
[00:54:20] e outra hora
[00:54:21] estão assumindo
[00:54:22] mais ou menos
[00:54:22] a posição
[00:54:23] que eles estão
[00:54:24] mesmo
[00:54:24] na política
[00:54:26] então por exemplo
[00:54:27] eu vou fazer aqui
[00:54:28] para encerrar
[00:54:28] esse ponto mesmo
[00:54:29] uma citação
[00:54:30] de um documento
[00:54:31] muito importante
[00:54:32] que foi escrito
[00:54:33] pelo Mussolini
[00:54:34] pelo Giovanni Gentili
[00:54:35] embora só tenha sido
[00:54:36] assinado
[00:54:37] pelo próprio
[00:54:38] Mussolini
[00:54:39] que é a
[00:54:40] doutrina do fascismo
[00:54:41] um documento
[00:54:41] que é publicado
[00:54:42] em 1932
[00:54:43] um momento
[00:54:44] onde o regime
[00:54:45] já está bastante
[00:54:46] consolidado
[00:54:47] e onde é
[00:54:48] depois de todo um debate
[00:54:49] importante
[00:54:51] sobre a definição
[00:54:52] do que é a ideologia
[00:54:53] do que é a doutrina
[00:54:54] do próprio fascismo
[00:54:55] um debate
[00:54:55] entre os intelectuais
[00:54:56] fascistas
[00:54:57] aparece esse documento
[00:54:59] que pelo fato
[00:55:00] de ter sido assinado
[00:55:01] pelo Mussolini
[00:55:02] tem um lugar
[00:55:02] muito canônico
[00:55:04] nessas definições
[00:55:05] então abre aspas
[00:55:06] o Mussolini
[00:55:07] fala o seguinte
[00:55:07] Mussolini
[00:55:08] e o Giovanni Gentili
[00:55:10] falando
[00:55:10] sabendo que
[00:55:11] o século
[00:55:12] XIX
[00:55:13] foi o século
[00:55:14] do socialismo
[00:55:15] liberalismo
[00:55:15] e democracia
[00:55:16] isso não quer dizer
[00:55:17] que o século XX
[00:55:18] tenha também
[00:55:19] de ser
[00:55:20] o século
[00:55:20] do socialismo
[00:55:21] liberalismo
[00:55:22] e democracia
[00:55:23] doutrinas políticas
[00:55:24] passam
[00:55:25] nações se mantêm
[00:55:26] nós estamos livres
[00:55:28] para acreditar
[00:55:28] que este é o século
[00:55:30] da autoridade
[00:55:31] um século
[00:55:32] que tende
[00:55:33] para a direita
[00:55:34] um século
[00:55:34] fascista
[00:55:35] fecha asas
[00:55:36] então olha
[00:55:37] o lugar
[00:55:38] evidente que o Mussolini
[00:55:40] está colocando
[00:55:41] o fascismo
[00:55:42] ele está evidentemente
[00:55:44] o localizando
[00:55:44] no campo da direita
[00:55:46] ao mesmo tempo
[00:55:47] chama atenção
[00:55:47] porque isso é parte
[00:55:48] da nossa conversa
[00:55:49] de hoje
[00:55:49] e ele também
[00:55:50] está distinguindo
[00:55:52] o fascismo
[00:55:53] dessas tradições
[00:55:54] do pensamento político
[00:55:55] que digamos assim
[00:55:56] que segundo ele
[00:55:57] foram as tradições
[00:55:59] que pontuaram
[00:56:00] o século XIX
[00:56:01] que é o socialismo
[00:56:02] o liberalismo
[00:56:03] e a democracia
[00:56:04] e evidentemente
[00:56:04] só do campo
[00:56:05] do pensamento político
[00:56:06] então ele está
[00:56:06] reivindicando também
[00:56:07] a sua distinção
[00:56:08] em relação
[00:56:09] ao próprio liberalismo
[00:56:10] ou seja
[00:56:11] você tem momentos
[00:56:12] onde o Mussolini
[00:56:13] eu trago alguns dele
[00:56:14] no livro
[00:56:15] onde o Mussolini
[00:56:16] reivindica aspectos
[00:56:18] do liberalismo econômico
[00:56:19] outros intelectuais
[00:56:22] fascistas
[00:56:22] que buscam apresentar
[00:56:24] como é o caso
[00:56:24] do próprio Gentili
[00:56:25] do próprio Giovanni Gentili
[00:56:27] o fascismo
[00:56:28] como atualização
[00:56:29] do liberalismo
[00:56:31] da direita histórica
[00:56:32] italiana
[00:56:33] como eu já
[00:56:33] tinha dito
[00:56:34] mas isso
[00:56:35] em certo momento
[00:56:37] a chave muda
[00:56:39] e aí já se quer
[00:56:41] apresentar
[00:56:42] o fascismo
[00:56:42] como completa novidade
[00:56:43] ideológica
[00:56:44] e ele é colocado
[00:56:46] na direita política
[00:56:47] e é também
[00:56:48] colocado em distinção
[00:56:49] dessas outras tradições
[00:56:50] inclusive do próprio liberalismo
[00:56:52] um dos autores liberais
[00:56:53] que ganhou muito espaço
[00:56:55] nas redes sociais
[00:56:56] na última década
[00:56:57] foi o Ludwig von Mises
[00:56:58] e eu trago o Mises aqui
[00:56:59] porque em 1927
[00:57:00] ele escreveu o seguinte
[00:57:02] aí abre aspas
[00:57:03] para o Mises
[00:57:04] não se pode negar
[00:57:05] que o fascismo
[00:57:06] e movimentos similares
[00:57:07] visando o estabelecimento
[00:57:08] de ditaduras
[00:57:09] são repletos
[00:57:10] das melhores
[00:57:11] intenções
[00:57:12] e que suas intervenções
[00:57:13] tem salvo
[00:57:14] a civilização europeia
[00:57:15] até agora
[00:57:15] o mérito que o fascismo
[00:57:16] ganhou desse modo
[00:57:17] para si
[00:57:18] viverá eternamente
[00:57:19] na história
[00:57:19] mas embora sua política
[00:57:20] tenha trazido a salvação
[00:57:22] até o momento
[00:57:22] ela não é do tipo
[00:57:23] que pode prometer
[00:57:24] um sucesso continuado
[00:57:25] o fascismo
[00:57:26] foi um improviso
[00:57:27] emergencial
[00:57:27] vê-lo como algo
[00:57:28] mais do que isso
[00:57:29] seria um erro fatal
[00:57:30] fecha aspas
[00:57:31] eu gosto de trazer
[00:57:32] essa frase à tona
[00:57:33] porque ela é apropriada
[00:57:34] pelos críticos
[00:57:35] e pelos defensores
[00:57:36] do Mises
[00:57:36] de maneiras diferentes
[00:57:37] os defensores
[00:57:38] argumentam
[00:57:39] que ele só elogiava
[00:57:40] o fascismo
[00:57:40] por ele supostamente
[00:57:41] ter salvado
[00:57:41] a Europa do socialismo
[00:57:42] mas que ele mesmo
[00:57:44] dizia que não era bom
[00:57:45] em si
[00:57:45] o fascismo
[00:57:46] no longo prazo
[00:57:47] já os críticos
[00:57:47] usam isso
[00:57:48] como exemplo
[00:57:49] de que os liberais
[00:57:49] sempre que se sentem
[00:57:50] minimamente ameaçados
[00:57:52] pelo avanço
[00:57:52] de políticas de esquerda
[00:57:53] no meio de uma população
[00:57:54] que cansa
[00:57:55] das políticas liberais
[00:57:56] de austeridade
[00:57:57] eles não tem pudor
[00:57:58] e abrem caminho
[00:57:58] para o fascismo
[00:57:59] para impedir isso
[00:58:00] claro que a gente
[00:58:00] tem que levar em conta
[00:58:01] que a leitura global
[00:58:02] e no senso comum
[00:58:03] sobre fascismo
[00:58:04] antes e depois
[00:58:05] da segunda guerra mundial
[00:58:06] é diferente
[00:58:07] mas ainda assim
[00:58:08] é importante trazer
[00:58:09] esses pontos
[00:58:09] você poderia comentar
[00:58:10] sobre isso?
[00:58:11] então eu acho
[00:58:11] que vai ser
[00:58:11] muito importante
[00:58:11] vale a pena
[00:58:12] a gente traçar um paralelo
[00:58:14] para entender
[00:58:14] historicamente
[00:58:15] essa posição do Mises
[00:58:17] e aí cabe lembrar
[00:58:18] como você
[00:58:18] foi anunciar
[00:58:20] a questão
[00:58:21] que esse texto
[00:58:22] do Mises
[00:58:22] ele está presente
[00:58:23] num livro
[00:58:24] cujo assunto
[00:58:25] é liberalismo
[00:58:26] é liberalismo
[00:58:27] segundo a tradição clássica
[00:58:29] fazendo uma defesa
[00:58:30] do liberalismo
[00:58:31] na verdade
[00:58:31] ele está fazendo
[00:58:32] uma defesa
[00:58:32] da vertente liberal
[00:58:34] a qual ele se enquadra
[00:58:35] que é justamente
[00:58:35] uma vertente
[00:58:36] contrária
[00:58:37] a o John Stuart Mill
[00:58:39] nesse sentido
[00:58:40] lembro
[00:58:41] uma vertente
[00:58:42] contrária
[00:58:43] à democracia
[00:58:44] ou seja
[00:58:45] ele se enquadra
[00:58:46] perfeitamente
[00:58:46] como depois
[00:58:47] algumas décadas depois
[00:58:48] Michel Foucault
[00:58:49] vai chamar a atenção
[00:58:51] dessa relação
[00:58:52] entre o chamado
[00:58:53] neoliberalismo
[00:58:55] onde está enquadrado
[00:58:55] a figura do von Mises
[00:58:56] e o Herbert Spencer
[00:58:58] que é uma tradição
[00:58:59] antidemocrática
[00:59:00] e o núcleo
[00:59:03] da conversa dele
[00:59:04] é mais ou menos
[00:59:04] qual seja
[00:59:05] e para a gente entender
[00:59:07] mais ou menos
[00:59:07] como existe
[00:59:08] um grão de verdade
[00:59:10] na defesa
[00:59:11] dos
[00:59:11] defensores do Mises
[00:59:13] porque
[00:59:13] o fascismo
[00:59:15] não é bom em si
[00:59:16] ele é uma solução
[00:59:18] de emergência
[00:59:19] ou seja
[00:59:20] a visão
[00:59:20] de que ele pode ser
[00:59:22] uma solução
[00:59:22] de emergência
[00:59:23] para um momento grave
[00:59:25] lembrando que
[00:59:26] algum tempo
[00:59:27] depois
[00:59:27] desse texto
[00:59:29] o Mises
[00:59:30] depois se tornou
[00:59:31] conselheiro econômico
[00:59:32] da ditadura
[00:59:33] do Dolfus
[00:59:34] na Áustria
[00:59:35] que foi um regime
[00:59:36] que na época
[00:59:37] até foi classificado
[00:59:38] como
[00:59:39] foi visto como
[00:59:39] fascista
[00:59:40] por causa
[00:59:40] principalmente
[00:59:41] das suas relações
[00:59:41] do Dolfus
[00:59:42] com Mussolini
[00:59:43] mas hoje
[00:59:43] a historiografia
[00:59:44] não trata como
[00:59:45] uma experiência
[00:59:46] propriamente fascista
[00:59:47] embora
[00:59:48] relacionada
[00:59:49] com aspectos
[00:59:51] importantes
[00:59:51] do fascismo
[00:59:52] de tão importante
[00:59:53] estão falando
[00:59:53] do autor
[00:59:54] liberal
[00:59:54] quando a gente
[00:59:55] está falando
[00:59:55] do João Mises
[00:59:56] que não tem
[00:59:57] nenhum apego
[00:59:57] pela democracia
[00:59:58] como é
[00:59:59] aliás
[00:59:59] uma característica
[01:00:00] importante
[01:00:00] dessa vertente
[01:00:02] do liberalismo
[01:00:02] que é o neoliberalismo
[01:00:04] é uma vertente
[01:00:05] de fato
[01:00:06] autoritária
[01:00:07] e olha
[01:00:07] ou seja
[01:00:09] o que o Mises
[01:00:10] está colocando
[01:00:11] aqui
[01:00:11] do ponto de vista
[01:00:12] das opções
[01:00:13] étnico-políticas
[01:00:14] é que eles
[01:00:14] podem fazer
[01:00:15] tranquilamente
[01:00:16] alianças com os fascistas
[01:00:17] embora não considerem
[01:00:18] que o caminho
[01:00:19] dos fascistas
[01:00:19] seja o ideal
[01:00:20] mas diante
[01:00:21] de uma ameaça
[01:00:22] revolucionária
[01:00:23] uma ameaça
[01:00:23] bolchevique
[01:00:24] não tem problema
[01:00:24] nenhum
[01:00:25] em fazer
[01:00:25] uma aliança
[01:00:26] com eles
[01:00:26] contra o inimigo
[01:00:27] em comum
[01:00:27] eu chamo a atenção
[01:00:28] com a posição
[01:00:29] até mais
[01:00:30] de celebração
[01:00:32] do fascismo
[01:00:33] e dessa posição
[01:00:33] cumprida pelo fascismo
[01:00:35] isso aqui
[01:00:36] está falando
[01:00:36] no texto do Mises
[01:00:37] de 1927
[01:00:38] nesse mesmo ano
[01:00:40] o Winston Churchill
[01:00:40] viaja
[01:00:41] Itália
[01:00:42] e depois
[01:00:43] ele publica
[01:00:44] uma carta aberta
[01:00:45] para o Mussolini
[01:00:46] na imprensa britânica
[01:00:47] e as palavras
[01:00:49] dele
[01:00:49] são palavras
[01:00:50] de
[01:00:50] se eu fosse
[01:00:52] um italiano
[01:00:53] eu estaria
[01:00:54] muito feliz
[01:00:55] com o governo
[01:00:56] tem a famosa
[01:00:57] passagem
[01:00:58] onde o Churchill
[01:00:59] diz que
[01:01:00] os italianos
[01:01:01] descobriram
[01:01:02] o antídoto
[01:01:03] contra os males
[01:01:04] do bolchevismo
[01:01:05] ou seja
[01:01:05] está dando até
[01:01:06] um passo além
[01:01:07] da posição
[01:01:08] do Mises
[01:01:09] e lembra que
[01:01:09] posteriormente
[01:01:11] o papel
[01:01:11] que o Churchill
[01:01:12] cumpriu
[01:01:12] na segunda guerra mundial
[01:01:13] que serve
[01:01:14] para que
[01:01:15] muitos
[01:01:15] figuras da direita
[01:01:16] hoje
[01:01:17] liberais
[01:01:17] inclusive
[01:01:18] o celebre
[01:01:19] como um verdadeiro
[01:01:21] combatente
[01:01:22] do Hitler
[01:01:23] ali
[01:01:23] do ponto de vista
[01:01:24] militar
[01:01:24] na segunda guerra mundial
[01:01:25] ele está
[01:01:26] entre os países
[01:01:27] que liderou
[01:01:28] o governo
[01:01:29] dos governos
[01:01:29] que se colocaram
[01:01:30] contra o Hitler
[01:01:31] mas ele foi
[01:01:31] elogioso
[01:01:32] do fascismo
[01:01:33] italiano
[01:01:34] no final
[01:01:36] dos anos 20
[01:01:37] porque também
[01:01:38] esse é um contexto
[01:01:39] e aí
[01:01:40] quem esclarece muito
[01:01:41] é o estudo
[01:01:41] da Clara Matei
[01:01:42] que eu havia me referido
[01:01:44] esqueci de falar
[01:01:44] o nome do livro
[01:01:45] a ordem do capital
[01:01:47] que saiu
[01:01:47] em 2023
[01:01:49] no Brasil
[01:01:50] ela mostra como
[01:01:51] esse é um período
[01:01:52] ou seja
[01:01:54] o caminho
[01:01:55] da Itália
[01:01:55] para a ditadura
[01:01:56] fascista
[01:01:57] ou seja
[01:01:57] em 1927
[01:01:58] a ditadura
[01:01:59] fascista
[01:01:59] está consolidada
[01:02:00] na Itália
[01:02:01] entre 25
[01:02:03] e 27
[01:02:04] o regime
[01:02:04] fecha completamente
[01:02:05] virou uma ditadura
[01:02:06] de partido único
[01:02:07] a própria política
[01:02:08] econômica
[01:02:09] deixa de ser
[01:02:10] propriamente
[01:02:10] liberal
[01:02:11] e talvez esteja aí
[01:02:12] a frustração
[01:02:13] do Mises
[01:02:14] mas de qualquer modo
[01:02:15] a Itália se torna
[01:02:16] um campo importante
[01:02:18] de investimentos
[01:02:19] e de acumulação
[01:02:20] capitalista
[01:02:21] então a gente tem
[01:02:22] outros estudiosos
[01:02:24] que mostram
[01:02:25] como aumentou
[01:02:25] o fluxo de investimentos
[01:02:27] de capitalistas
[01:02:28] principalmente
[01:02:28] britânicos
[01:02:29] e norte-americanos
[01:02:30] para a Itália
[01:02:31] fascista
[01:02:32] ou seja
[01:02:32] é um campo importante
[01:02:33] de investimento
[01:02:34] você tem as elites
[01:02:35] conservadoras
[01:02:36] representadas aqui
[01:02:37] tanto pela declaração
[01:02:39] do Mises
[01:02:39] quanto pela declaração
[01:02:40] do Churchill
[01:02:41] e aí no caso
[01:02:41] do ponto de vista político
[01:02:42] muito mais importante
[01:02:43] a declaração
[01:02:44] do Churchill
[01:02:45] na medida em que
[01:02:46] a visão do Mises
[01:02:48] ela é marginal
[01:02:49] no pensamento econômico
[01:02:51] e ela
[01:02:52] hoje
[01:02:52] embora hoje
[01:02:53] ela seja resgatada
[01:02:54] como se ela
[01:02:55] tivesse sido
[01:02:55] um grande valor
[01:02:56] na época
[01:02:56] que teve muito
[01:02:58] mas ele representa
[01:02:59] ele vocaliza
[01:03:00] de certo modo
[01:03:01] interesses
[01:03:02] e visões
[01:03:02] que são visões de classe
[01:03:04] com visões elogiosas
[01:03:05] sobre o fascismo
[01:03:06] pelo papel
[01:03:07] que o fascismo
[01:03:07] tinha cumprido
[01:03:08] e aí só chama
[01:03:09] atenção para isso
[01:03:09] não só em
[01:03:10] deter a possibilidade
[01:03:12] de uma revolução socialista
[01:03:13] de uma construção
[01:03:14] de socialismo
[01:03:14] na Itália
[01:03:16] como principalmente
[01:03:17] de criar
[01:03:20] um ambiente favorável
[01:03:22] para o mundo
[01:03:22] dos negócios
[01:03:23] acho importante
[01:03:24] lembrar disso
[01:03:24] e lembrar
[01:03:25] que nessa passagem
[01:03:26] do próprio Mises
[01:03:27] quando ele fala
[01:03:28] ele fala de fascismo
[01:03:29] e movimentos
[01:03:31] similares
[01:03:32] ou seja
[01:03:32] os movimentos
[01:03:33] similares
[01:03:34] porque de fato
[01:03:35] como aponta
[01:03:36] alguns historiadores
[01:03:38] importantes
[01:03:38] como o próprio
[01:03:39] Stanley Taney
[01:03:40] um historiador
[01:03:40] muito importante
[01:03:42] do fascismo
[01:03:42] inclusive
[01:03:43] um homem conservador
[01:03:45] mas um historiador
[01:03:46] profissional
[01:03:46] da maior importância
[01:03:47] ele chama atenção
[01:03:48] que o fascismo
[01:03:49] emerge
[01:03:49] num contexto
[01:03:50] de uma certa família
[01:03:51] de movimentos
[01:03:52] de direita
[01:03:53] ele enquadra o fascismo
[01:03:54] ao lado
[01:03:55] da emergência
[01:03:56] de novas direitas
[01:03:57] radicais
[01:03:58] e mesmo
[01:03:59] de uma nova direita
[01:04:00] conservadora
[01:04:01] autoritária
[01:04:01] o fascismo ali
[01:04:02] surgindo nesse ambiente
[01:04:03] muitas coisas
[01:04:05] que na época
[01:04:05] era todo mundo
[01:04:06] acusado de ser fascismo
[01:04:07] que hoje
[01:04:08] o próprio PN
[01:04:09] é um historiador
[01:04:09] importante
[01:04:10] na história
[01:04:10] na redelimitação
[01:04:13] desse objeto
[01:04:14] que é o fascismo
[01:04:15] no interior
[01:04:15] dessa grande família
[01:04:16] de movimentos
[01:04:18] que a gente pode
[01:04:19] por outra chave
[01:04:20] interpretativa
[01:04:20] dizer que são
[01:04:21] uma família
[01:04:21] de movimentos
[01:04:22] contra-revolucionários
[01:04:23] como diria
[01:04:24] o Gramsci
[01:04:25] na medida em que
[01:04:26] ele entende
[01:04:26] que o fascismo
[01:04:27] foi um representante
[01:04:28] ideológico
[01:04:29] dessa vaga
[01:04:30] contra-revolucionária
[01:04:32] o que acaba
[01:04:33] sendo bastante
[01:04:34] visível
[01:04:34] quando a gente
[01:04:35] percebe
[01:04:36] que várias experiências
[01:04:37] de governos
[01:04:38] autoritários
[01:04:38] de direita
[01:04:39] no contexto
[01:04:40] dos anos 20
[01:04:40] mas principalmente
[01:04:41] dos anos 30
[01:04:42] embora não seja
[01:04:43] hoje se entenda
[01:04:44] não seja propriamente
[01:04:45] fascista
[01:04:45] mas vão copiar
[01:04:46] vários dos seus elementos
[01:04:47] vão incorporar
[01:04:49] inclusive o caso
[01:04:50] do próprio Vargas
[01:04:51] no Brasil
[01:04:52] no período
[01:04:53] do Estado Novo
[01:04:53] copia elementos
[01:04:54] que gerou inclusive
[01:04:55] a acusação na época
[01:04:57] de ser fascista
[01:04:58] etc
[01:04:58] eu acho isso
[01:04:59] importante
[01:05:00] ou seja
[01:05:01] situar
[01:05:02] o texto
[01:05:03] do Mises
[01:05:04] nesse contexto histórico
[01:05:05] ou seja
[01:05:06] porque ele está fazendo
[01:05:07] esse elogio
[01:05:08] ao fascismo
[01:05:09] e isso tem
[01:05:10] a ver com
[01:05:10] a boa vontade
[01:05:11] das classes dominantes
[01:05:13] na época
[01:05:13] em relação
[01:05:14] ao fascismo
[01:05:15] sendo apresentado
[01:05:16] como uma solução
[01:05:17] e aí
[01:05:18] a citação dele
[01:05:19] de outros
[01:05:20] da época
[01:05:21] eu acho importante
[01:05:21] colocar nessa perspectiva
[01:05:23] a primeira coisa
[01:05:26] é que
[01:05:26] como em qualquer
[01:05:27] ideologia
[01:05:27] e movimento político
[01:05:28] não existe apenas
[01:05:29] um fascismo
[01:05:30] mas diversas
[01:05:31] variações
[01:05:32] especialmente
[01:05:33] de acordo
[01:05:34] com cada
[01:05:34] contexto nacional
[01:05:40] .
[01:05:41] Um outro ponto
[01:05:43] importante sobre o Mises
[01:05:44] ou melhor
[01:05:45] sobre o que ele escrevia
[01:05:46] sobre o fascismo
[01:05:47] é quando ele diz assim
[01:05:48] abre aspas
[01:05:48] assim que o primeiro
[01:05:49] fluxo de raiva
[01:05:50] tiver passado
[01:05:50] sua política
[01:05:51] no caso a política
[01:05:52] do fascismo
[01:05:53] tomará um curso
[01:05:54] mais moderado
[01:05:54] e provavelmente
[01:05:55] o será cada vez mais
[01:05:57] com a passagem do tempo
[01:05:57] essa moderação
[01:05:58] é o resultado
[01:05:59] do fato de que
[01:06:00] a visão liberal tradicional
[01:06:01] continua a ter
[01:06:02] uma influência inconsciente
[01:06:03] nos fascistas
[01:06:04] fecha aspas
[01:06:04] e o que extraz esse ponto
[01:06:06] porque a gente
[01:06:07] ouviu mais
[01:06:08] de uma vez na história
[01:06:09] esse papo
[01:06:10] de que as instituições
[01:06:11] da democracia
[01:06:11] representativa liberal
[01:06:12] vão domar
[01:06:14] os fascistas
[01:06:14] vão conter
[01:06:15] o seu ímpeto
[01:06:15] violento e tal
[01:06:16] e o que normalmente
[01:06:17] acontece
[01:06:18] não é isso
[01:06:19] então você gostaria
[01:06:20] de comentar a respeito?
[01:06:22] Então
[01:06:22] olha que coisa interessante
[01:06:23] como essa passagem
[01:06:25] do Mises
[01:06:25] essa conclusão dele
[01:06:27] é uma conclusão
[01:06:28] que ou seja
[01:06:28] ele acaba resgatando
[01:06:30] uma expectativa
[01:06:30] que aqueles liberais
[01:06:32] que eu mencionei
[01:06:33] ali na Itália
[01:06:35] em 1922
[01:06:36] pelo menos até 1924
[01:06:37] tinha em relação
[01:06:38] ao fascismo
[01:06:39] ou seja
[01:06:39] de que ele fosse
[01:06:40] ser domado
[01:06:42] ou seja
[01:06:42] quando o Giovanni Amêndola
[01:06:45] quando o Benedetto Crotti
[01:06:46] apoia o fascismo
[01:06:49] porque foi legal
[01:06:50] eles destruíram
[01:06:51] os socialistas
[01:06:52] mas eles tinham
[01:06:53] uma expectativa
[01:06:53] de que os fascistas
[01:06:54] no final dos anos
[01:06:55] fossem ser incorporados
[01:06:56] à ordem
[01:06:57] que a ordem
[01:06:57] fosse capaz
[01:06:58] de domá-lo
[01:06:59] e por que a ordem
[01:07:00] não é capaz de domá-lo?
[01:07:01] porque eles não entendiam
[01:07:02] que a própria ascensão
[01:07:04] do fascismo
[01:07:05] era uma das resultantes
[01:07:06] da própria crise
[01:07:07] do Estado Liberal
[01:07:08] é um Estado em crise
[01:07:09] então
[01:07:09] como assim
[01:07:10] seja uma expectativa
[01:07:11] ilusória
[01:07:12] de que eles seriam
[01:07:13] domados
[01:07:13] do fascismo
[01:07:14] isso talvez
[01:07:15] a gente possa
[01:07:17] encontrar
[01:07:17] esse tipo de dinâmica
[01:07:19] acontecendo
[01:07:20] mais recentemente
[01:07:21] por exemplo
[01:07:21] na Itália
[01:07:22] do Silvio Berlusconi
[01:07:23] quando
[01:07:24] ou seja
[01:07:24] os fascistas históricos
[01:07:26] italianos
[01:07:27] um contexto
[01:07:27] completamente diferente
[01:07:28] foi o contexto
[01:07:29] dos anos 90
[01:07:30] o movimento social italiano
[01:07:31] que era o partido
[01:07:32] fascista
[01:07:33] neofascista
[01:07:34] que tinha sido
[01:07:35] fundado pelos
[01:07:36] remanescentes
[01:07:38] da República de Sao
[01:07:39] lá
[01:07:39] pelo regime
[01:07:40] da República Social Italiana
[01:07:42] ali no final
[01:07:42] da Segunda Guerra Mundial
[01:07:43] eles montam
[01:07:44] esse partido neofascista
[01:07:46] que nunca conseguiu
[01:07:46] chegar no poder
[01:07:47] e só consegue
[01:07:48] voltar ao governo
[01:07:49] fazendo parte
[01:07:50] da grande aliança
[01:07:51] com o Silvio Berlusconi
[01:07:52] em geral
[01:07:52] inclusive
[01:07:53] o famoso texto
[01:07:54] do Huberto Eco
[01:07:55] falando da atualidade
[01:07:57] do fascismo
[01:07:58] naquele contexto
[01:07:58] o que aconteceu
[01:07:59] com aqueles
[01:08:01] com aquele movimento
[01:08:02] fascista
[01:08:03] uma vez que
[01:08:03] vão participar
[01:08:04] do governo Berlusconi
[01:08:05] eles foram
[01:08:06] meio que
[01:08:06] meio que domados
[01:08:07] então se você
[01:08:09] está chamando atenção
[01:08:09] para isso
[01:08:10] para a gente
[01:08:10] não acreditar
[01:08:11] que tem uma fatalidade
[01:08:13] que existe em casos
[01:08:14] onde é possível
[01:08:15] onde talvez
[01:08:16] as condições
[01:08:17] o Paxton fala
[01:08:18] de várias
[01:08:19] das condições
[01:08:20] para que o fascismo
[01:08:21] triunfe
[01:08:22] ou seja
[01:08:23] você não tem
[01:08:24] as condições objetivas
[01:08:25] que permite
[01:08:25] que o fascismo
[01:08:26] triunfe
[01:08:27] na medida
[01:08:27] que ele pode
[01:08:28] montar um regime
[01:08:29] político
[01:08:29] talvez seja possível
[01:08:30] que eles sejam
[01:08:32] domados
[01:08:32] que eles sejam
[01:08:33] usados
[01:08:33] para determinadas
[01:08:34] tarefas
[01:08:35] e que eles
[01:08:36] possam ser domados
[01:08:37] ou seja
[01:08:37] lembrando também
[01:08:38] que na Itália
[01:08:39] dos anos
[01:08:39] 90
[01:08:40] não tinha nenhuma
[01:08:40] ameaça de revolução
[01:08:41] socialista
[01:08:42] o próprio Partido
[01:08:43] Comunista
[01:08:43] está se moderando
[01:08:45] completamente
[01:08:45] está se tornando
[01:08:47] efetivamente
[01:08:48] o que já era
[01:08:48] há alguns anos
[01:08:50] mas se afirmando
[01:08:51] completamente
[01:08:52] como uma organização
[01:08:52] social-democrata
[01:08:54] ou seja
[01:08:54] não tem nenhuma
[01:08:54] ameaça de esquerda
[01:08:55] radical
[01:08:55] naquele contexto
[01:08:56] tem um colapso
[01:08:57] do sistema político
[01:08:59] como tinha também
[01:09:00] na década de 20
[01:09:01] e você tem
[01:09:02] um governo
[01:09:02] de um outsider
[01:09:03] do empresário
[01:09:04] o caso do
[01:09:06] Berlusconi
[01:09:06] e os fascistas
[01:09:07] meio que se adaptando
[01:09:09] tanto que
[01:09:09] isso gerou
[01:09:10] todo o debate
[01:09:10] a discussão hoje
[01:09:11] sobre um conceito
[01:09:12] que é muito interessante
[01:09:13] para entender
[01:09:13] algumas dessas
[01:09:14] algumas formações
[01:09:16] desse sistema de direito atual
[01:09:17] na Europa
[01:09:18] que é a noção
[01:09:18] de pós-fascismo
[01:09:19] entretanto
[01:09:20] ou seja
[01:09:21] no caso
[01:09:21] do Mussolini
[01:09:23] e no próprio
[01:09:23] era o caso
[01:09:24] que muito pelo contrário
[01:09:25] os caras estavam achando
[01:09:27] que ia moderar ele
[01:09:28] e ele vai moderar
[01:09:29] ou seja
[01:09:29] o Mussolini
[01:09:30] monta a sua ditadura
[01:09:32] fazendo ajustes
[01:09:33] de contas
[01:09:34] tanto
[01:09:34] com as elites
[01:09:35] políticas tradicionais
[01:09:37] na medida que
[01:09:37] chega para elas
[01:09:38] e falam
[01:09:38] ou vocês entram
[01:09:39] ou vocês estão fora
[01:09:40] se utilizando
[01:09:41] inclusive da violência
[01:09:42] para isso
[01:09:43] contra a esquerda
[01:09:44] evidentemente
[01:09:45] mas inclusive
[01:09:47] dentro do próprio
[01:09:48] partido fascista
[01:09:49] na medida em que
[01:09:49] ele também travou
[01:09:50] uma série de manobras
[01:09:52] para garantir
[01:09:53] o seu controle
[01:09:54] na máquina
[01:09:55] partidária
[01:09:56] faz uma série
[01:09:57] de coisas
[01:09:58] que contrariam
[01:09:58] totalmente
[01:09:59] essa expectativa
[01:10:00] de que ele fosse
[01:10:01] ser domado
[01:10:02] e a gente tem
[01:10:03] mais de alguns
[01:10:04] exemplos
[01:10:05] onde figuras
[01:10:06] de extrema direita
[01:10:08] são apoiados
[01:10:09] por setores
[01:10:09] da classe dominante
[01:10:10] com o discurso
[01:10:11] de que eles serão domados
[01:10:12] e no final das contas
[01:10:13] é o contrário
[01:10:14] que acontece
[01:10:14] e esse foi o caso
[01:10:15] do Bolsonaro
[01:10:16] sem querer aqui
[01:10:17] entrar no assunto
[01:10:18] que nos levaria
[01:10:19] para um outro
[01:10:20] talvez um outro podcast
[01:10:21] em outro momento
[01:10:23] mas ou seja
[01:10:23] que em hipótese nenhuma
[01:10:24] não é ele
[01:10:26] que é moderado
[01:10:26] no final das contas
[01:10:27] pelo contrário
[01:10:28] ele bolsonariza
[01:10:29] outros setores
[01:10:31] aqui fazendo
[01:10:31] o paralelo aqui
[01:10:32] histórico
[01:10:33] um salto
[01:10:34] talvez um pouco imprudente
[01:10:35] mas fazendo
[01:10:36] uma comparação
[01:10:37] aqui entre dois cenários
[01:10:38] de ascensão
[01:10:39] da extrema direita
[01:10:40] mas chamando a atenção
[01:10:41] que a gente
[01:10:42] como historiador
[01:10:42] a gente tem que ter
[01:10:43] sempre esse pé atrás
[01:10:45] com talvez
[01:10:46] com colocações
[01:10:47] que possam ser deterministas
[01:10:49] entende?
[01:10:49] ou seja
[01:10:49] na medida em que
[01:10:50] não, sempre que
[01:10:51] não há nunca
[01:10:53] a possibilidade
[01:10:54] de uma figura
[01:10:54] de extrema direita
[01:10:55] ser domada
[01:10:56] isso depende do contexto
[01:10:57] acho que tem que pensar sempre
[01:10:58] teve uma série
[01:11:00] de questões ali
[01:11:01] do contexto
[01:11:02] que explicam
[01:11:02] porque acabou
[01:11:03] triunfando
[01:11:04] o fascismo triunfa
[01:11:05] e consegue implantar
[01:11:06] regimes políticos
[01:11:07] tanto no caso
[01:11:09] italiano
[01:11:09] como no caso alemão
[01:11:10] e muito pelo contrário
[01:11:12] eles que domam
[01:11:13] e submetem
[01:11:14] todo o sistema político
[01:11:16] a esses projetos
[01:11:18] mas isso não é
[01:11:19] não é sempre
[01:11:21] que está determinado
[01:11:22] para o que vai acontecer
[01:11:23] assim
[01:11:23] isso que eu pensei
[01:11:24] diante dessa questão
[01:11:25] que você trouxe
[01:11:25] e no caso do Brasil
[01:11:27] eu queria aproveitar
[01:11:28] esse comentário
[01:11:29] que você fez
[01:11:29] sobre Bolsonaro
[01:11:31] porque
[01:11:31] ele se conecta
[01:11:33] um pouco
[01:11:33] com o que eu queria
[01:11:34] perguntar
[01:11:35] que é sobre
[01:11:35] esse afastamento
[01:11:37] ou aproximação
[01:11:38] de liberais brasileiros
[01:11:39] em relação ao fascismo
[01:11:40] e aqui
[01:11:40] eu não quero banalizar
[01:11:41] o conceito de fascismo
[01:11:42] como se ele fosse
[01:11:43] adjetivo
[01:11:45] para falar
[01:11:45] de qualquer conservador
[01:11:46] ou algo do tipo
[01:11:47] eu estou falando
[01:11:47] de fascismo histórico mesmo
[01:11:49] ou neofascismo
[01:11:50] como alguns
[01:11:52] se referem
[01:11:53] a fenômenos mais recentes
[01:11:54] porque esse assunto
[01:11:55] está muito em voga
[01:11:55] depois da ascensão
[01:11:56] do bolsonarismo
[01:11:57] e apesar do Jair Bolsonaro
[01:11:59] ter um comportamento
[01:11:59] diferente
[01:12:00] de algumas antigas
[01:12:01] lideranças fascistas
[01:12:02] em alguns pontos
[01:12:04] em outros pontos
[01:12:04] ele tem muitas semelhanças
[01:12:06] como essa coisa
[01:12:06] da mobilização
[01:12:07] das massas
[01:12:08] constante
[01:12:08] para manutenção
[01:12:09] da ideologia
[01:12:11] e para empreender
[01:12:12] a ideologia em si
[01:12:13] que é uma das características
[01:12:14] mais marcantes
[01:12:15] do que define
[01:12:15] um regime fascista
[01:12:16] ou um sujeito fascista
[01:12:18] entre outras características
[01:12:20] enfim
[01:12:20] então como é que você
[01:12:22] discutiria
[01:12:23] essa relação
[01:12:24] entre o liberalismo
[01:12:25] no Brasil
[01:12:25] e o fascismo
[01:12:26] ou o neofascismo
[01:12:27] no Brasil
[01:12:28] bom
[01:12:28] eu acho que primeiro
[01:12:30] talvez seja importante
[01:12:32] situar que
[01:12:33] na história brasileira
[01:12:35] o liberalismo
[01:12:36] e a relação dos liberais
[01:12:38] com a visão democrática
[01:12:38] ela nunca foi
[01:12:40] um casamento
[01:12:42] muito
[01:12:43] óbvio
[01:12:44] basta lembrar
[01:12:45] que o liberalismo
[01:12:46] brasileiro
[01:12:47] a ata de fundação
[01:12:48] do liberalismo
[01:12:49] brasileiro
[01:12:50] é a obra
[01:12:51] do José da Silva
[01:12:53] Lisboa
[01:12:53] o que depois
[01:12:54] recebeu o título
[01:12:55] do Visconde de Cairu
[01:12:56] o sujeito que faz
[01:12:58] lá o decreto
[01:12:59] de abertura
[01:12:59] dos portos
[01:13:00] das nações amigas
[01:13:01] e foi o primeiro
[01:13:02] sujeito que traduziu
[01:13:03] para o Brasil
[01:13:05] a riqueza
[01:13:06] das nações
[01:13:07] do Smith
[01:13:08] que é o sujeito
[01:13:08] que divulgou
[01:13:09] as ideias
[01:13:10] do liberalismo econômico
[01:13:11] no Brasil
[01:13:12] naquele contexto chave
[01:13:13] do processo de independência
[01:13:15] do Brasil
[01:13:15] pois bem
[01:13:16] do ponto de vista
[01:13:17] da visão da política
[01:13:18] ou seja
[01:13:18] a visão sobre
[01:13:19] como deveria ser
[01:13:20] o Estado
[01:13:21] o Visconde de Cairu
[01:13:23] era uma figura
[01:13:24] formada
[01:13:25] na tradição
[01:13:26] do iluminismo
[01:13:27] lusitano
[01:13:28] e portanto
[01:13:29] a feita
[01:13:30] uma noção
[01:13:30] de um Estado
[01:13:31] absolutista
[01:13:32] tal como era
[01:13:33] o Estado
[01:13:34] português
[01:13:35] então esse
[01:13:36] liberal na economia
[01:13:38] e conservadoria
[01:13:38] dos costumes
[01:13:39] não é uma novidade
[01:13:41] histórica
[01:13:41] esse foi um dos
[01:13:43] eslogans ali
[01:13:44] da ascensão
[01:13:44] do bolsonarismo
[01:13:45] ele se apresentando
[01:13:46] como uma grande novidade
[01:13:47] na política brasileira
[01:13:49] porque nunca
[01:13:50] tivesse existido
[01:13:51] esse liberal na economia
[01:13:52] e conservador
[01:13:53] nos costumes
[01:13:53] na verdade
[01:13:54] isso tem um traço
[01:13:55] de continuidade
[01:13:55] que vem do Cairu
[01:13:56] até o Paulo Guedes
[01:13:58] o próprio liberalismo
[01:14:01] das elites paulistas
[01:14:02] da primeira república
[01:14:03] ele era bastante
[01:14:04] informado
[01:14:05] pelo Darwinismo social
[01:14:06] e isso está
[01:14:07] muito impregnado
[01:14:08] ali
[01:14:08] naquele regime
[01:14:10] da primeira república
[01:14:11] então isso
[01:14:12] vale a pena
[01:14:13] chamar atenção
[01:14:14] para isso
[01:14:14] como
[01:14:15] eminentes liberais
[01:14:17] brasileiros
[01:14:18] por exemplo
[01:14:18] em vários contextos
[01:14:19] apoiaram regimes autoritários
[01:14:21] inclusive a ditadura militar
[01:14:22] como por exemplo
[01:14:23] o próprio Eugênio Goudan
[01:14:24] e o próprio Roberto Campos
[01:14:26] foram eminentes
[01:14:27] as partes
[01:14:27] da ditadura militar
[01:14:28] brasileira
[01:14:29] ao mesmo tempo
[01:14:30] cabe pensar
[01:14:31] na relação
[01:14:33] com o fascismo
[01:14:34] histórico brasileiro
[01:14:35] o integralismo
[01:14:36] o integralismo
[01:14:37] no seu contexto
[01:14:38] de movimento
[01:14:39] de massas
[01:14:40] ou seja
[01:14:41] década de 30
[01:14:42] principalmente
[01:14:42] a trajetória
[01:14:43] da ação integralista
[01:14:44] brasileira
[01:14:45] de 1932
[01:14:46] a 1938
[01:14:47] era um movimento
[01:14:48] eminentemente
[01:14:48] antiliberal
[01:14:49] num contexto
[01:14:50] que cabe lembrar
[01:14:51] esse foi o maior
[01:14:52] movimento fascista
[01:14:53] fora da Europa
[01:14:54] esse movimento
[01:14:54] brasileiro
[01:14:55] e é um contexto
[01:14:56] também onde as ideias
[01:14:57] liberais estavam
[01:14:58] em crise
[01:14:59] vale chamar atenção
[01:15:00] então esse era
[01:15:01] um contexto
[01:15:02] muito significativo
[01:15:03] onde os traços
[01:15:04] antiliberais
[01:15:06] se apresentam
[01:15:07] muito fortemente
[01:15:08] naquele contexto
[01:15:09] do fascismo
[01:15:11] histórico brasileiro
[01:15:12] enquanto movimento
[01:15:13] de massas
[01:15:14] ao mesmo tempo
[01:15:15] eu chamo atenção
[01:15:16] para um aspecto
[01:15:17] que foi discutido
[01:15:18] há alguns anos
[01:15:19] por um colega
[01:15:20] que é um estudioso
[01:15:21] do integralismo brasileiro
[01:15:23] mas principalmente
[01:15:24] do integralismo brasileiro
[01:15:25] do Plínio Salgado
[01:15:26] e do movimento político
[01:15:27] em torno dessa figura
[01:15:28] num contexto
[01:15:29] após a segunda
[01:15:30] guerra mundial
[01:15:30] que é o meu amigo
[01:15:31] e historiador
[01:15:32] Gilberto Calil
[01:15:33] Gilberto Calil
[01:15:34] chama atenção
[01:15:35] de como o Plínio Salgado
[01:15:36] vai ser um grande
[01:15:37] admirador
[01:15:38] das ideias
[01:15:39] do Hayek
[01:15:40] ou seja
[01:15:40] das ideias
[01:15:41] de um intelectual
[01:15:42] que é uma eminência
[01:15:42] fundamental
[01:15:43] daquilo que se chama
[01:15:44] de neoliberalismo
[01:15:45] ali no contexto
[01:15:46] não no contexto
[01:15:47] dos anos 30
[01:15:48] mas no contexto
[01:15:49] dos anos 50
[01:15:50] vai ter
[01:15:51] no final dos anos 40
[01:15:53] início dos anos 50
[01:15:54] vai ter
[01:15:54] apontamentos
[01:15:55] e elogios
[01:15:56] à visão econômica
[01:15:58] do Hayek
[01:15:59] por exemplo
[01:16:01] então a gente tem ali
[01:16:02] o fascista histórico
[01:16:03] brasileiro
[01:16:04] num contexto
[01:16:04] em que ele já não era mais
[01:16:06] o líder de um movimento
[01:16:07] de massas
[01:16:07] mas era um político
[01:16:08] importante
[01:16:09] o Plínio Salgado
[01:16:10] foi candidato
[01:16:11] a presidente da república
[01:16:12] na eleição
[01:16:12] que elegeu
[01:16:13] o Juscelino Kubitschek
[01:16:14] em 1955
[01:16:15] ele perdeu
[01:16:17] mas ele teve 10%
[01:16:17] dos votos
[01:16:18] depois ele tem
[01:16:19] uma trajetória importante
[01:16:20] como deputado
[01:16:21] durante o período
[01:16:23] da ditadura militar
[01:16:24] ele teve
[01:16:25] uma
[01:16:25] enfim
[01:16:26] é óbvio
[01:16:27] que a ditadura militar
[01:16:28] esteve longe
[01:16:28] de ser um regime
[01:16:29] integralista
[01:16:30] mas os integralistas
[01:16:32] apoiaram
[01:16:33] e participaram
[01:16:34] e deram
[01:16:35] prestaram serviços
[01:16:36] importantes
[01:16:36] a
[01:16:37] a estrutura
[01:16:38] do regime político
[01:16:39] da ditadura militar
[01:16:40] e a própria ideia
[01:16:41] da reforma educacional
[01:16:42] educação moral e cívica
[01:16:44] eram ideias integralistas
[01:16:45] foram incorporadas
[01:16:46] ao próprio
[01:16:46] regime
[01:16:47] então a própria
[01:16:48] ditadura militar
[01:16:49] é um regime
[01:16:49] onde você tem
[01:16:50] intelectuais estatistas
[01:16:53] liberais
[01:16:54] principalmente liberais
[01:16:55] com essa verve
[01:16:56] que depois o Merkior
[01:16:57] vai explicar muito bem
[01:16:58] no livro dele
[01:16:59] que é o liberismo
[01:17:00] aquele liberal
[01:17:01] que só está preocupado
[01:17:02] com a questão
[01:17:02] do livre mercado
[01:17:03] questão do liberalismo
[01:17:05] político
[01:17:05] da liberdade política
[01:17:06] pode ficar
[01:17:07] esse segundo
[01:17:07] plano
[01:17:08] ou pode só ser
[01:17:10] importante
[01:17:10] na medida
[01:17:11] que se tenha
[01:17:12] o liberalismo
[01:17:13] na economia
[01:17:14] e gente
[01:17:15] integralista
[01:17:16] o regime
[01:17:16] teve evidentemente
[01:17:19] um sentido
[01:17:20] que não foi liberal
[01:17:21] o caso da ditadura
[01:17:22] militar brasileira
[01:17:23] nem no plano
[01:17:24] de vista econômico
[01:17:24] mas intelectuais liberais
[01:17:26] tiveram importância
[01:17:27] no apoio
[01:17:28] a esse regime
[01:17:30] e na participação
[01:17:31] importante
[01:17:32] influente
[01:17:32] em determinados períodos
[01:17:33] como é o primeiro
[01:17:34] governo castelo branco
[01:17:35] que tem lá
[01:17:35] a participação
[01:17:36] do Roberto Campos
[01:17:37] então eu estou
[01:17:38] chamando a atenção
[01:17:38] fazendo esse comentário
[01:17:40] panorâmico
[01:17:41] puxando a atenção
[01:17:41] para todas
[01:17:42] essas determinações
[01:17:44] aqui
[01:17:44] para a gente entender
[01:17:45] que não é
[01:17:46] essa relação
[01:17:47] entre esses liberais
[01:17:49] figuras como
[01:17:49] Paulo Guedes
[01:17:50] e outras figuras
[01:17:51] em torno a ele
[01:17:52] e visões
[01:17:53] que a gente
[01:17:53] que tem sido
[01:17:54] debatidas
[01:17:54] se de fato
[01:17:55] ou não
[01:17:56] se adequam
[01:17:56] a uma aproximação
[01:17:58] com a noção
[01:17:58] de fascismo
[01:17:59] ou neofascismo
[01:18:00] ou pós-fascismo
[01:18:01] para entender
[01:18:02] o fenômeno
[01:18:03] do bolsonarismo
[01:18:05] ele tem que ser colocado
[01:18:06] em perspectiva histórica
[01:18:07] porque se não
[01:18:07] não é a primeira vez
[01:18:08] que liberais brasileiros
[01:18:09] dão seu apoio
[01:18:10] a experiências autoritárias
[01:18:12] não existe
[01:18:13] esse casamento
[01:18:14] insolúvel
[01:18:16] do liberalismo
[01:18:18] com a democracia
[01:18:19] no caso do Brasil
[01:18:20] isso é
[01:18:20] menos verdade ainda
[01:18:23] você vai ter
[01:18:24] em vários momentos
[01:18:24] enquanto assim
[01:18:26] você vai ter
[01:18:26] autores liberais
[01:18:28] evidentemente
[01:18:28] que vão
[01:18:29] estar preocupados
[01:18:31] com a questão
[01:18:31] da democracia
[01:18:32] é o caso
[01:18:32] do próprio
[01:18:33] Merkio
[01:18:33] que foi citado
[01:18:34] aqui desde o início
[01:18:35] do programa
[01:18:36] enfim
[01:18:37] um intelectual de direita
[01:18:39] foi uma figura
[01:18:41] do governo Collor
[01:18:42] mas não obstante
[01:18:43] a sua teoria
[01:18:44] a sua contribuição
[01:18:45] literária
[01:18:47] aquilo que ele discute
[01:18:47] inclusive
[01:18:48] que é o liberalismo
[01:18:49] aproxima desse campo
[01:18:50] que seria
[01:18:50] do liberalismo democrático
[01:18:52] ou seja
[01:18:52] é importante
[01:18:54] eu estou chamando a atenção
[01:18:55] estou falando que
[01:18:56] metodologicamente
[01:18:57] e do ponto de vista
[01:18:58] da nossa honestidade
[01:18:59] intelectual
[01:18:59] provavelmente dito
[01:19:00] pensar nessa pluralidade
[01:19:02] do campo
[01:19:02] do campo liberal
[01:19:04] mas ao mesmo tempo
[01:19:05] não negar
[01:19:05] que você tem
[01:19:06] largas faixas
[01:19:07] dessa tradição
[01:19:08] no Brasil
[01:19:08] que teve
[01:19:09] relações importantes
[01:19:10] estruturantes
[01:19:11] com visões autoritárias
[01:19:13] em mais de um momento
[01:19:14] da história brasileira
[01:19:15] um dos fascismos
[01:19:19] mais conhecidos
[01:19:20] é o fascismo italiano
[01:19:21] o primeiro dos fascismos
[01:19:23] que chegou ao poder
[01:19:24] após a chamada
[01:19:25] marcha sobre Roma
[01:19:26] em 28 de outubro
[01:19:27] de 1922
[01:19:28] e que teve
[01:19:29] Benito Mussolini
[01:19:30] como seu principal líder
[01:19:36] e para terminar
[01:19:39] eu quero te perguntar
[01:19:40] sobre historiografia
[01:19:41] porque é o seguinte
[01:19:42] diante da ascensão
[01:19:43] da extrema direita
[01:19:44] a nível global
[01:19:45] nesses últimos anos
[01:19:46] muita coisa tem se publicado
[01:19:47] sobre fascismo
[01:19:48] no mundo
[01:19:49] e aqui no Brasil
[01:19:50] também
[01:19:51] aqui não é diferente
[01:19:52] e você está publicando
[01:19:53] um livro sobre fascismo
[01:19:54] então eu queria te perguntar
[01:19:55] o seguinte
[01:19:55] como é que você se situa
[01:19:57] de um ponto de vista
[01:19:58] historiográfico
[01:19:59] nessa tradição
[01:19:59] e o que é que o teu livro
[01:20:00] está trazendo de novo
[01:20:02] ou se não está trazendo
[01:20:03] nada inédito
[01:20:05] mas é
[01:20:05] com que aspectos
[01:20:06] mais atuais
[01:20:07] da historiografia
[01:20:09] sobre fascismo
[01:20:09] você está dialogando
[01:20:11] e trazendo nele
[01:20:11] Pois bem
[01:20:12] a gente já teve a oportunidade
[01:20:13] de conversar mais de uma vez
[01:20:14] aqui no História FM
[01:20:15] já apresentei
[01:20:18] minhas credenciais teóricas
[01:20:20] em mais de um momento
[01:20:20] eu sou um historiador marxista
[01:20:22] eu tenho principalmente
[01:20:24] influência muito grande
[01:20:25] do pensamento
[01:20:26] do Antônio Gramsci
[01:20:27] e entendo que
[01:20:29] no contexto
[01:20:29] do fascismo histórico
[01:20:31] o fascismo
[01:20:32] é uma das melhores leituras
[01:20:33] ali da época
[01:20:34] do entendimento
[01:20:35] do fascismo
[01:20:35] foi feito
[01:20:36] por alguns autores marxistas
[01:20:38] embora nem todos
[01:20:40] muitos inclusive
[01:20:41] produziram
[01:20:41] grandes caricaturas
[01:20:42] e inclusive
[01:20:43] esse aspecto
[01:20:46] que eu acho
[01:20:46] muito condenável
[01:20:47] que existe até hoje
[01:20:48] principalmente
[01:20:49] campos da esquerda
[01:20:49] de sair chamando
[01:20:50] qualquer coisa de fascismo
[01:20:52] isso é muito ruim
[01:20:54] do ponto de vista
[01:20:54] de um trabalho científico
[01:20:55] isso não ajuda em nada
[01:20:56] então o próprio
[01:20:57] objetivo do livro
[01:20:58] é também
[01:21:00] discutir propriamente
[01:21:01] o que é fascismo
[01:21:02] contando um pouco
[01:21:03] a sua história
[01:21:03] e nesse sentido
[01:21:04] eu estou seguindo aqui
[01:21:05] um pouco
[01:21:05] uma recomendação
[01:21:07] de um
[01:21:08] antifascista importante
[01:21:11] italiano
[01:21:12] que viveu
[01:21:13] aquele contexto
[01:21:14] que foi
[01:21:15] o Angelo Tasca
[01:21:16] que participou
[01:21:18] do Partido Comunista Italiano
[01:21:20] depois vai ser expulso
[01:21:22] no contexto
[01:21:23] da ascensão
[01:21:24] do estalinismo
[01:21:25] e vai migrar
[01:21:26] para uma visão
[01:21:27] social-democrata
[01:21:28] vai ser um
[01:21:30] intelectual
[01:21:30] social-democrata
[01:21:31] e ele vai ter um livro
[01:21:32] um curso
[01:21:34] que ele vai dar
[01:21:34] na verdade
[01:21:35] em 1938
[01:21:35] e ele vai ter um livro
[01:21:35] em Paris
[01:21:37] e que vai se tornar
[01:21:38] um livro
[01:21:38] muito importante
[01:21:39] o Nascimento do Fascismo
[01:21:40] onde ele tem
[01:21:41] uma divisa
[01:21:43] que eu acho
[01:21:43] muito importante
[01:21:44] para conhecer o fascismo
[01:21:45] é necessário
[01:21:46] contar a sua história
[01:21:47] então sigo muito
[01:21:48] essa ideia
[01:21:49] essa noção do Tasca
[01:21:51] influencia
[01:21:51] o próprio Paxton
[01:21:52] ele é citado
[01:21:53] no livro do Paxton
[01:21:55] o Renzo De Felice
[01:21:56] que foi
[01:21:57] um grande historiador
[01:21:58] italiano
[01:21:59] inclusive
[01:22:00] muito longe
[01:22:01] da esquerda
[01:22:02] mas foi um historiador
[01:22:02] muito importante
[01:22:03] que escreveu
[01:22:04] uma longa biografia
[01:22:05] do Mussolini
[01:22:05] uma biografia
[01:22:06] que ele começa
[01:22:07] a publicar
[01:22:07] em 1960
[01:22:08] e vai até
[01:22:09] o último capítulo
[01:22:11] o último tomo
[01:22:12] dessa biografia
[01:22:13] é só publicado
[01:22:14] um ano depois da morte
[01:22:15] do próprio De Felice
[01:22:16] ele morre em 1996
[01:22:17] e o livro é publicado
[01:22:18] em 1997
[01:22:18] mas enfim
[01:22:19] eu estou fazendo
[01:22:20] toda essa introdução
[01:22:21] para falar um pouco
[01:22:22] da historiografia
[01:22:23] do fascismo
[01:22:24] que aconteceu com ela
[01:22:25] na medida em que
[01:22:26] na historiografia profissional
[01:22:28] essa
[01:22:28] a visão
[01:22:30] que eu
[01:22:31] compartilho
[01:22:32] que é a visão
[01:22:32] marxista
[01:22:34] ela é menos influente
[01:22:35] hoje em dia
[01:22:36] mas isso não significa
[01:22:37] que eu vá ler
[01:22:38] todos os outros autores
[01:22:39] que não são
[01:22:40] marxistas
[01:22:41] meio que fazendo
[01:22:42] uma rejeição a priori
[01:22:43] ah, esse cara aqui
[01:22:44] não é marxista
[01:22:44] não deu nada
[01:22:45] para aprender com ele
[01:22:45] pelo contrário
[01:22:46] eu tenho uma visão
[01:22:47] que eu devo aprender
[01:22:48] com quem é a melhor pesquisa
[01:22:49] que está sendo publicada
[01:22:50] que está escrita
[01:22:51] então
[01:22:51] esse campo
[01:22:53] ele se estruturou
[01:22:54] academicamente
[01:22:55] do ponto de vista
[01:22:56] da formação
[01:22:57] de uma historiografia
[01:22:59] com historiadores profissionais
[01:23:00] sobre o fascismo
[01:23:01] principalmente
[01:23:01] a partir da década de 60
[01:23:03] e isso foi gerando
[01:23:05] movimentos
[01:23:06] tanto no sentido
[01:23:07] de buscar
[01:23:08] a precisão conceitual
[01:23:09] do que é
[01:23:10] propriamente fascismo
[01:23:11] e nesse sentido
[01:23:12] muita coisa
[01:23:13] que a época
[01:23:14] do contexto
[01:23:15] entre guerras
[01:23:16] era chamada de fascismo
[01:23:17] e hoje
[01:23:18] largas faixas
[01:23:19] da historiografia
[01:23:20] já vêm
[01:23:21] de um modo diferente
[01:23:22] então, por exemplo
[01:23:23] ainda existem hoje
[01:23:25] historiadores
[01:23:25] do franquismo
[01:23:27] e do salazarismo
[01:23:29] que entendem
[01:23:29] essas experiências
[01:23:30] como experiências fascistas
[01:23:32] mas a maior parte
[01:23:32] da historiografia
[01:23:33] já abandonou
[01:23:34] há algum tempo
[01:23:34] essa perspectiva
[01:23:35] por exemplo
[01:23:36] na década de 60
[01:23:37] ainda era possível ler
[01:23:38] gente que escrevia
[01:23:39] sobre o fascismo japonês
[01:23:41] por causa da aliança
[01:23:42] do Japão
[01:23:43] com as potências
[01:23:43] e a participação do Japão
[01:23:44] no eixo
[01:23:45] da segunda guerra mundial
[01:23:46] mas, por exemplo
[01:23:47] essa é uma interpretação
[01:23:48] que já se caiu
[01:23:49] em desuso
[01:23:50] durante muito tempo
[01:23:51] durante um certo período
[01:23:52] a delimitação
[01:23:53] desse objeto
[01:23:54] fascismo
[01:23:56] dava conta
[01:23:56] de que teria sido
[01:23:57] um fenômeno
[01:23:58] basicamente europeu
[01:23:59] e circunscrito
[01:24:01] ao contexto
[01:24:01] do entreguerras
[01:24:02] mas depois
[01:24:03] começou-se a pensar
[01:24:04] que o fascismo
[01:24:05] não se corresponde
[01:24:07] só às experiências
[01:24:09] onde ele conseguiu
[01:24:10] triunfar
[01:24:11] chegar ao poder
[01:24:12] e implantar
[01:24:13] regimes políticos
[01:24:14] mas também
[01:24:14] há aqueles casos
[01:24:16] onde o fascismo
[01:24:17] surge como um movimento
[01:24:19] mesmo que seja
[01:24:21] um movimento fracassado
[01:24:22] e aí
[01:24:22] nesses termos
[01:24:23] a gente entra
[01:24:23] naquela que é
[01:24:24] a perspectiva
[01:24:25] mais recente
[01:24:26] que tem influenciado
[01:24:27] muito
[01:24:27] as pesquisas
[01:24:28] que é um certo resultado
[01:24:29] do desenvolvimento
[01:24:30] das pesquisas
[01:24:31] mas que
[01:24:31] acaba gerando
[01:24:33] bastante influência
[01:24:34] que é a perspectiva
[01:24:35] do entendimento
[01:24:36] da transnacionalidade
[01:24:37] do fascismo
[01:24:38] eu me refiro aqui
[01:24:39] principalmente
[01:24:39] ao historiador argentino
[01:24:40] Federico Fickonstein
[01:24:42] que tem defendido isso
[01:24:43] que o fenômeno
[01:24:44] do fascismo
[01:24:45] é um fenômeno
[01:24:45] transnacional
[01:24:46] na medida em que
[01:24:47] movimentos fascistas
[01:24:48] e ideias fascistas
[01:24:49] são encontrados
[01:24:50] naquele período
[01:24:51] do entreguerras
[01:24:52] em vários países do mundo
[01:24:53] a gente encontra
[01:24:54] o caso brasileiro
[01:24:55] é bastante importante
[01:24:56] sempre lembrado
[01:24:57] porque o integralismo
[01:24:57] é o maior movimento fascista
[01:24:59] fora da Europa
[01:25:00] mas você tem
[01:25:01] movimentos fascistas
[01:25:02] no próprio Japão
[01:25:03] na China
[01:25:04] na Índia
[01:25:05] movimentos fascistas
[01:25:06] na África do Sul
[01:25:07] nos Estados Unidos
[01:25:08] e além daqueles casos
[01:25:11] de fenômenos
[01:25:12] movimentos fascistas
[01:25:13] na Europa
[01:25:14] que não conseguiram
[01:25:16] chegar ao poder
[01:25:16] pelas vias próprias
[01:25:18] pelas contradições internas
[01:25:19] do processo político
[01:25:20] interno dos seus países
[01:25:21] mas que
[01:25:22] em alguns casos
[01:25:24] chegaram ao poder
[01:25:25] na situação específica
[01:25:27] da Europa ocupada
[01:25:28] há um assunto
[01:25:29] inclusive
[01:25:29] que eu e você
[01:25:30] conversamos bastante
[01:25:31] na medida em que você
[01:25:32] foi um editor
[01:25:33] de luxo
[01:25:35] que eu sei
[01:25:35] que eu tive
[01:25:35] para esse livro
[01:25:36] já que você entende
[01:25:37] um pouco do riscado
[01:25:38] e a gente bateu
[01:25:39] vários papos bons
[01:25:40] para a finalização
[01:25:42] do livro
[01:25:42] e entre eles
[01:25:43] foi esse
[01:25:43] ou seja
[01:25:44] o que pensar
[01:25:45] por exemplo
[01:25:46] do fascismo
[01:25:47] da Noruega
[01:25:48] onde o Kisling
[01:25:50] era o líder
[01:25:51] do fascismo
[01:25:52] norueguês
[01:25:53] ele não chega ao poder
[01:25:54] pelo processo político
[01:25:55] interno na Noruega
[01:25:56] mas chega
[01:25:57] com a Noruega
[01:25:58] ocupada pelo nazismo
[01:26:00] esse é um caso
[01:26:01] bastante específico
[01:26:02] mas de qualquer modo
[01:26:03] estou falando aqui
[01:26:04] de todo um
[01:26:05] esforço que ocorreu
[01:26:06] nas últimas décadas
[01:26:07] de delimitação
[01:26:08] tanto geográfica
[01:26:09] temporal
[01:26:10] mas também conceitual
[01:26:11] sobre o que é o fascismo
[01:26:13] e no caso conceitual
[01:26:14] a gente tem assim
[01:26:15] um certo processo
[01:26:17] interessante
[01:26:18] de desenvolvimento
[01:26:19] da historiografia
[01:26:20] nos últimos
[01:26:21] 60 anos
[01:26:22] digamos assim
[01:26:23] nos anos 60
[01:26:24] eu chamo a atenção
[01:26:25] na década de 60
[01:26:26] são publicados
[01:26:27] alguns textos
[01:26:27] alguns livros
[01:26:29] alguns trabalhos
[01:26:29] que vão ter
[01:26:30] um desenvolvimento
[01:26:31] muito importante
[01:26:31] vão marcar
[01:26:32] muito a construção
[01:26:33] do campo
[01:26:33] você vai chamar atenção
[01:26:34] para um livro
[01:26:35] um historiador
[01:26:35] que a gente inclusive
[01:26:36] já mencionou
[01:26:37] no outro episódio
[01:26:38] que a gente gravou
[01:26:39] sobre revisionismo histórico
[01:26:40] e que eu falei
[01:26:41] bastante mal dele
[01:26:42] porque nesse assunto
[01:26:43] revisionismo
[01:26:43] ele tem
[01:26:44] bastante responsabilidade
[01:26:46] mas ele foi
[01:26:46] ter uma figura
[01:26:47] muito importante
[01:26:48] que é o Ernest Nolte
[01:26:49] um historiador alemão
[01:26:50] que na década de 60
[01:26:52] publicou um livro
[01:26:53] o fascismo
[01:26:54] em sua época
[01:26:55] que vai ser traduzido
[01:26:56] por inglês
[01:26:56] vai ter bastante influência
[01:26:57] no campo
[01:26:58] onde ele busca
[01:26:59] apresentar
[01:26:59] um conceito
[01:27:01] de fascismo
[01:27:02] um conceito
[01:27:02] inclusive
[01:27:03] com uma certa
[01:27:04] carga dialética
[01:27:05] do fascismo
[01:27:06] entendendo
[01:27:06] o fascismo
[01:27:07] a partir daquilo
[01:27:08] que o fascismo nega
[01:27:09] o seu caráter
[01:27:10] anti-marxista
[01:27:11] anti-liberal
[01:27:12] e anti-conservador
[01:27:13] também
[01:27:14] entende o fascismo
[01:27:16] inserido
[01:27:17] em uma grande tradição
[01:27:17] contra-revolucionária
[01:27:19] e nesse sentido
[01:27:20] ele inclusive
[01:27:20] comete o erro
[01:27:21] de incluir
[01:27:21] entre o fascismo
[01:27:23] entre o fascismo italiano
[01:27:24] e o nazismo alemão
[01:27:25] o caso da ação francesa
[01:27:27] outros casos também
[01:27:28] ou seja
[01:27:28] o caso
[01:27:28] que a ação francesa
[01:27:29] é uma organização
[01:27:30] que eu já mencionei
[01:27:31] aqui nesse programa
[01:27:32] mas que surgiu
[01:27:32] antes da primeira guerra mundial
[01:27:34] teve membros
[01:27:35] que depois
[01:27:36] vão dar origem
[01:27:37] a organizações fascistas
[01:27:38] na própria França
[01:27:39] mas que em si
[01:27:40] não seria
[01:27:40] um caso de fascismo
[01:27:43] mas aparece
[01:27:43] esse livro do Nolte
[01:27:44] é uma contribuição
[01:27:45] muito interessante
[01:27:46] começa a ser publicada
[01:27:48] principalmente
[01:27:48] a obra do
[01:27:49] Zevenstern
[01:27:50] que eu mencionei aqui
[01:27:51] que discute um pouco
[01:27:53] a origem
[01:27:53] da ideologia fascista
[01:27:55] e ele tem
[01:27:56] uma hipótese
[01:27:56] que é bastante
[01:27:57] controversa
[01:27:58] mas ele é
[01:27:58] bastante sério
[01:28:00] então ele chama
[01:28:00] atenção para o fascismo
[01:28:02] como uma síntese
[01:28:02] de influências ideológicas
[01:28:04] que vinham
[01:28:04] tanto da extrema direita
[01:28:06] ou seja
[01:28:07] no caso
[01:28:07] da própria ação francesa
[01:28:09] que eu acabei
[01:28:10] de mencionar
[01:28:10] mas também
[01:28:11] de uma vertente
[01:28:12] da extrema esquerda
[01:28:13] que vai ter
[01:28:14] acabar tendo
[01:28:15] influência importante
[01:28:17] na sua migração
[01:28:18] para a direita
[01:28:19] na construção
[01:28:19] do próprio fascismo
[01:28:20] no mundo latino
[01:28:21] que é
[01:28:22] o que ele chama
[01:28:22] de revisionismo
[01:28:24] antimaterialista
[01:28:25] do marxismo
[01:28:26] que é feita
[01:28:27] principalmente
[01:28:27] por um autor
[01:28:28] chamado
[01:28:28] George Sorrell
[01:28:29] George Sorrell
[01:28:30] foi muito influente
[01:28:31] naquilo que foi conhecido
[01:28:32] como
[01:28:32] sindicalismo revolucionário
[01:28:34] no mundo latino
[01:28:36] alguns de seus discípulos
[01:28:37] vão migrar
[01:28:38] para o fascismo
[01:28:39] o próprio
[01:28:39] sindicalismo revolucionário
[01:28:40] é uma vertente
[01:28:41] que tem alguma influência
[01:28:42] na Itália
[01:28:42] algumas figuras
[01:28:44] que se identificavam
[01:28:45] com essa perspectiva
[01:28:46] vão migrar
[01:28:46] para o fascismo
[01:28:47] então ele está
[01:28:48] chamando atenção
[01:28:49] no caso
[01:28:50] principalmente
[01:28:50] do mundo latino
[01:28:51] como tem
[01:28:52] uma vertente
[01:28:53] que vem
[01:28:53] da extrema esquerda
[01:28:54] que conflui
[01:28:55] para o fascismo
[01:28:56] que conflui
[01:28:57] portanto
[01:28:58] nesse fenômeno
[01:28:59] que é o fenômeno
[01:29:00] de uma direita
[01:29:00] revolucionária
[01:29:01] qual o problema
[01:29:02] da perspectiva
[01:29:03] do externo em real
[01:29:04] é que
[01:29:04] nada disso
[01:29:05] você encontra
[01:29:05] na Alemanha
[01:29:06] por exemplo
[01:29:06] então ele tem
[01:29:07] que apresentar
[01:29:08] um conceito
[01:29:08] de fascismo
[01:29:09] que exclui
[01:29:10] o caso alemão
[01:29:12] do conceito
[01:29:12] de fascismo
[01:29:13] um troço
[01:29:14] que tem
[01:29:14] um longo debate
[01:29:15] a esse respeito
[01:29:17] então ele é
[01:29:18] bastante referência
[01:29:19] no campo de pesquisa
[01:29:20] sobre o fascismo
[01:29:22] o externo
[01:29:22] ele morreu
[01:29:22] há poucos anos
[01:29:23] inclusive
[01:29:24] mas essa ideia
[01:29:25] de exclusão
[01:29:26] do nazismo
[01:29:27] do conceito
[01:29:27] de fascismo
[01:29:28] é vista
[01:29:28] com mais reserva
[01:29:29] por toda uma vertente
[01:29:30] mais influente
[01:29:31] na historiografia
[01:29:32] é na década de 60
[01:29:33] também
[01:29:34] que começa
[01:29:34] a ser apresentado
[01:29:35] começa a ser publicada
[01:29:37] o que eu já mencionei
[01:29:38] a grande biografia
[01:29:40] do Mussolini
[01:29:41] escrita pelo
[01:29:42] Renzo De Felice
[01:29:43] que foi um grande
[01:29:44] historiador profissional
[01:29:45] italiano
[01:29:46] que tem essa
[01:29:47] que trouxe
[01:29:48] ao longo da publicação
[01:29:50] dos volumes
[01:29:50] sobre a biografia
[01:29:51] do Mussolini
[01:29:52] ele foi trazendo
[01:29:52] assuntos
[01:29:53] às vezes até polêmicos
[01:29:54] como por exemplo
[01:29:55] o grande apoio
[01:29:56] que o regime do Mussolini
[01:29:57] teve nos anos 30
[01:29:59] principalmente
[01:30:00] entre o tratado
[01:30:01] de Latrão 29
[01:30:01] e a guerra da Etiópia
[01:30:03] agressiva
[01:30:04] imperialista
[01:30:04] do fascismo italiano
[01:30:05] na Etiópia
[01:30:06] em 35 e 36
[01:30:07] o regime gozou
[01:30:08] de grande apoio
[01:30:09] apoio popular
[01:30:10] ele discute isso
[01:30:11] isso gerou
[01:30:12] uma grande controvérsia
[01:30:13] pública
[01:30:14] inclusive na Itália
[01:30:16] então ele teve
[01:30:17] uma importância grande
[01:30:18] em estimular
[01:30:19] o surgimento
[01:30:20] de toda uma geração
[01:30:21] de pesquisadores
[01:30:22] do fascismo
[01:30:24] na Itália
[01:30:24] teve uma influência
[01:30:25] internacional muito grande
[01:30:26] um grande discípulo dele
[01:30:28] é o Emilio Gentili
[01:30:29] que eu considero
[01:30:30] um dos melhores
[01:30:30] historiadores
[01:30:31] sobre o fascismo
[01:30:32] italiano
[01:30:32] muito melhor
[01:30:33] do que eu
[01:30:33] o próprio De Felice
[01:30:34] que tem toda uma pesquisa
[01:30:36] sobre a ideologia fascista
[01:30:38] que no sentido contrário
[01:30:39] à própria
[01:30:40] visão do Stanley Hale
[01:30:41] nos anos 60
[01:30:43] também começa
[01:30:43] a ser publicada
[01:30:44] a obra de um outro autor
[01:30:45] que é um alemão
[01:30:47] emigrado para os Estados Unidos
[01:30:48] que é o George Moss
[01:30:49] que tem uma pesquisa
[01:30:51] muito importante
[01:30:51] sobre o nazismo
[01:30:52] e quando ele discute
[01:30:54] como o nazismo
[01:30:55] ele surge
[01:30:56] na Itália
[01:30:57] como parte
[01:30:58] de uma série
[01:31:00] de entidades
[01:31:02] que participavam
[01:31:02] do movimento
[01:31:03] chamado
[01:31:03] Fogo
[01:31:03] que também
[01:31:05] é um dos
[01:31:06] desdobramentos
[01:31:07] de práticas
[01:31:09] e temas
[01:31:09] dos intelectuais
[01:31:10] chamada
[01:31:11] Revolução
[01:31:12] Conservadora
[01:31:13] que é um movimento
[01:31:14] que valorizava
[01:31:15] visões
[01:31:16] uma tentativa
[01:31:17] de apresentar
[01:31:18] um espírito
[01:31:19] nacional
[01:31:20] alemão
[01:31:21] que era
[01:31:21] bastante
[01:31:21] antissemita
[01:31:22] também
[01:31:24] ou seja
[01:31:25] isso estava
[01:31:25] muito enraizado
[01:31:26] ali
[01:31:26] na cultura
[01:31:27] alemã
[01:31:29] e o nazismo
[01:31:30] surge um pouco
[01:31:31] desse tronco
[01:31:31] então
[01:31:32] são autores
[01:31:33] muito importantes
[01:31:34] nesse trabalho
[01:31:35] como também
[01:31:36] teve importância
[01:31:37] por exemplo
[01:31:37] os autores
[01:31:38] já mencionei
[01:31:39] esse aspecto aqui
[01:31:39] que buscaram
[01:31:40] desclassificar
[01:31:41] o próprio franquismo
[01:31:42] como experiência
[01:31:43] fascista
[01:31:44] à medida
[01:31:45] em que também
[01:31:45] chamou a atenção
[01:31:46] que na Espanha
[01:31:47] franquista
[01:31:48] e no próprio
[01:31:49] contexto da guerra civil
[01:31:50] e depois
[01:31:51] vai ter uma organização
[01:31:52] tipicamente fascista
[01:31:53] importante
[01:31:54] que vai ser
[01:31:54] a falange espanhola
[01:31:56] então aí eu destaco
[01:31:56] o próprio trabalho
[01:31:57] do Stanley Paine
[01:31:58] que vai ser
[01:31:58] um historiador
[01:31:59] desse processo
[01:32:00] desse movimento
[01:32:01] muito vinculado
[01:32:02] a essa hipótese
[01:32:03] ou seja
[01:32:03] desclassifica o franquismo
[01:32:05] como experiência
[01:32:06] de regime fascista
[01:32:07] mas entende
[01:32:07] que tem
[01:32:08] um movimento fascista
[01:32:09] que é importante
[01:32:10] nos anos 30
[01:32:11] no contexto da guerra civil
[01:32:12] e depois
[01:32:12] nos primeiros anos
[01:32:13] do regime
[01:32:14] no partido legal
[01:32:15] do regime fascista
[01:32:17] ser uma falange
[01:32:17] que era
[01:32:18] um movimento
[01:32:18] tipicamente fascista
[01:32:21] e o Paine
[01:32:22] também vai ser importante
[01:32:23] na medida
[01:32:23] que ele vai
[01:32:24] publicar alguns manuais
[01:32:25] sobre fascismo
[01:32:27] que são obras
[01:32:28] de referência
[01:32:28] até hoje
[01:32:29] ele tem um manual
[01:32:29] que foi publicado
[01:32:31] em 1980
[01:32:31] de uma apresentação
[01:32:33] conceitual
[01:32:34] do que é o fascismo
[01:32:36] e ele traz ali
[01:32:36] digamos assim
[01:32:37] uma síntese
[01:32:38] das contribuições
[01:32:39] de toda essa historiografia
[01:32:40] que eu mencionei aqui
[01:32:42] de grafismo
[01:32:43] de anos 60 e 70
[01:32:44] e nos anos 90
[01:32:45] ele também vai fazer
[01:32:46] uma versão mais atualizada
[01:32:47] desse mesmo livro
[01:32:49] chamado
[01:32:49] História do Fascismo
[01:32:50] que vale a pena
[01:32:51] na medida em que ele
[01:32:52] faz um grande panorama
[01:32:55] e apresenta
[01:32:56] uma conceituação
[01:32:57] do que é
[01:32:58] a especificidade
[01:32:59] desse fenômeno
[01:33:00] dessa direita revolucionária
[01:33:02] que é o fascismo
[01:33:03] mas sem dúvida nenhuma
[01:33:04] o autor mais influente
[01:33:06] nessa trajetória
[01:33:07] nas últimas décadas
[01:33:08] e que vai
[01:33:09] propor uma nova síntese
[01:33:10] dessa historiografia
[01:33:12] e que vai ter
[01:33:12] uma pesquisa voltada
[01:33:14] principalmente
[01:33:14] para o aspecto
[01:33:16] ideológico do fascismo
[01:33:17] a natureza ideológica
[01:33:18] do fascismo
[01:33:18] vai ser o
[01:33:19] Roger Griffin
[01:33:20] o historiador britânico
[01:33:22] muito prolixo
[01:33:23] tem produzido
[01:33:23] muito material
[01:33:24] desde a década de 90
[01:33:26] até hoje
[01:33:26] sobre o fascismo
[01:33:27] ele tem um livro
[01:33:28] de 1991
[01:33:28] chamado
[01:33:29] A Natureza do Fascismo
[01:33:30] e infelizmente
[01:33:31] toda essa bibliografia
[01:33:32] que eu estou mencionando
[01:33:32] é uma história
[01:33:32] que eu estou mencionando
[01:33:32] que eu estou mencionando
[01:33:33] que pouquíssima coisa disso
[01:33:34] tem em português
[01:33:36] ou quase nada
[01:33:36] tem em português
[01:33:37] inclusive esse livro
[01:33:38] do Roger Griffin
[01:33:39] aliás o Roger Griffin
[01:33:40] não tem nada em português
[01:33:41] a única coisa em português
[01:33:42] do Roger Griffin
[01:33:43] é um verbete
[01:33:44] do dicionário
[01:33:45] do pensamento social
[01:33:45] do século XX
[01:33:46] sobre o fascismo
[01:33:47] que é da autoria dele
[01:33:48] mas os grandes trabalhos dele
[01:33:49] estão inéditos
[01:33:50] em português ainda
[01:33:51] a gente consegue ler
[01:33:51] alguma coisa em espanhol
[01:33:52] tudo em inglês
[01:33:54] e ele tem uma grande
[01:33:55] contribuição
[01:33:55] no entendimento
[01:33:57] no campo
[01:33:58] inclusive tem uma revista
[01:34:00] que ele fundou
[01:34:01] em 2012
[01:34:01] de estudo
[01:34:02] sobre o fascismo
[01:34:03] estudos comparados
[01:34:04] sobre o fascismo
[01:34:04] que é uma revista
[01:34:05] super importante
[01:34:06] hoje do campo
[01:34:08] então ele tem uma
[01:34:09] a gente pode chamar
[01:34:10] uma militância
[01:34:12] acadêmica
[01:34:13] no campo
[01:34:13] o seguinte
[01:34:14] que ele é um
[01:34:15] historiador prolixo
[01:34:16] ele busca convencer
[01:34:18] o campo
[01:34:18] das suas posições
[01:34:19] então ele chega
[01:34:20] tem um certo aspecto
[01:34:22] até cabotino
[01:34:24] na medida em que
[01:34:25] ele declarou
[01:34:26] que as suas ideias
[01:34:27] no final dos anos
[01:34:27] 80
[01:34:28] 90
[01:34:29] desculpe
[01:34:30] ele mesmo declarou
[01:34:31] que as suas ideias
[01:34:32] são conscientes
[01:34:32] tinham formado
[01:34:34] um consenso no campo
[01:34:35] de pesquisa
[01:34:36] sobre o fascismo
[01:34:37] essa ideia
[01:34:38] de que o fascismo
[01:34:38] é uma direita revolucionária
[01:34:40] uma forma específica
[01:34:41] de nacionalismo
[01:34:43] revolucionário
[01:34:44] que tem sempre
[01:34:45] no seu núcleo ideológico
[01:34:47] fundamental
[01:34:48] visões de renascimento
[01:34:49] nacional
[01:34:50] então ele tem
[01:34:51] super influência
[01:34:52] e quero chamar
[01:34:53] atenção
[01:34:54] de que
[01:34:54] o nosso querido
[01:34:56] Robert Paxson
[01:34:57] o historiador
[01:34:57] que eu me referi
[01:34:58] em vários momentos
[01:34:59] e que é uma grande
[01:35:00] referência para mim
[01:35:01] em certa medida
[01:35:02] quando escreve
[01:35:03] a anatomia do fascismo
[01:35:04] está em certo modo
[01:35:05] polemizando
[01:35:06] com a perspectiva
[01:35:07] do Griffin
[01:35:07] o que é que é
[01:35:08] o grande contribuição
[01:35:09] do Paxson
[01:35:10] e aí eu falo um pouco dele
[01:35:11] ou seja
[01:35:11] é discutir um pouco
[01:35:13] a prática dos fascistas
[01:35:14] é ver como os fascistas
[01:35:15] por exemplo
[01:35:16] os fascistas italianos
[01:35:17] começam como um movimento
[01:35:18] que era republicano
[01:35:20] e anticlerical
[01:35:21] e quatro anos depois
[01:35:22] eles estão fazendo
[01:35:23] acordo com a monarquia
[01:35:24] para o Bolsonaro
[01:35:25] chegar no poder
[01:35:26] depois vão fazer
[01:35:27] acordo com a igreja
[01:35:28] você tem católicos
[01:35:29] fascistas
[01:35:30] católicos que aderem
[01:35:31] ao fascismo
[01:35:32] aliás
[01:35:32] quando
[01:35:32] Mussolini celebra
[01:35:34] o acordo com
[01:35:35] a igreja católica
[01:35:36] em 29
[01:35:37] isso dá um grande
[01:35:38] prestígio
[01:35:39] do Mussolini
[01:35:40] e do fascismo
[01:35:41] em setores do mundo católico
[01:35:43] do conservadorismo católico
[01:35:44] isso vai ter
[01:35:45] um impacto importante
[01:35:45] isso é um impacto decisivo
[01:35:47] por exemplo
[01:35:47] na própria mentalidade
[01:35:49] no próprio pensamento político
[01:35:50] do Plínio Salgado
[01:35:51] que era também
[01:35:53] um pensador católico
[01:35:54] quer dizer
[01:35:55] o que o Paxson
[01:35:56] chama a atenção
[01:35:57] é como o fascismo
[01:35:59] vai mudando de opinião
[01:36:00] ao longo do tempo
[01:36:00] então como é que a gente
[01:36:01] encontra
[01:36:01] essa ideologia
[01:36:03] fascista
[01:36:04] ela é muito fluida
[01:36:06] então o livro dele
[01:36:08] de certa medida
[01:36:08] é uma polêmica
[01:36:10] no interior desse campo
[01:36:11] como é também
[01:36:12] o próprio livro
[01:36:13] também do sociólogo
[01:36:15] Michael Mann
[01:36:16] que é um texto
[01:36:17] que está publicado
[01:36:18] em português
[01:36:19] fascistas
[01:36:20] onde ele também
[01:36:21] que ele tenta buscar
[01:36:23] fazer uma síntese
[01:36:23] tanto dos aspectos
[01:36:25] culturais e ideológicos
[01:36:26] do fascismo
[01:36:26] mas também das suas práticas
[01:36:27] da importância
[01:36:28] do fascismo
[01:36:29] da existência
[01:36:31] de paramilitações
[01:36:31] militarismo
[01:36:32] por exemplo
[01:36:33] são aspectos
[01:36:33] que o Michael Mann
[01:36:35] chama bastante atenção
[01:36:37] na sua contribuição
[01:36:38] sobre o assunto
[01:36:39] e nessa vertente
[01:36:41] de estudos
[01:36:42] que valorizam bastante
[01:36:43] buscam muito pesquisa
[01:36:45] em fontes primárias
[01:36:46] para entender
[01:36:47] a ideologia
[01:36:48] do fascismo
[01:36:50] vez por outra
[01:36:50] você encontra
[01:36:51] autores
[01:36:52] que às vezes
[01:36:54] tem uma visão
[01:36:54] muito acrítica
[01:36:55] em relação
[01:36:55] às fontes primárias
[01:36:56] olham aqui
[01:36:57] as fontes primárias
[01:36:59] quase que às vezes
[01:37:01] em vez de fazer
[01:37:01] uma pesquisa
[01:37:01] aquilo que é a obrigação
[01:37:02] de qualquer historiador
[01:37:03] ou seja
[01:37:04] de tratar como fonte
[01:37:05] você quer fazer
[01:37:06] a crítica
[01:37:07] das fontes
[01:37:08] bem que reproduz
[01:37:09] as ideias presentes
[01:37:10] nas fontes
[01:37:11] então
[01:37:11] isso também gerou
[01:37:12] uma onda de críticas
[01:37:14] a essa perspectiva
[01:37:16] de valorização
[01:37:17] da ideologia
[01:37:18] fascista
[01:37:19] nas pesquisas
[01:37:19] por parte de autores
[01:37:21] de várias
[01:37:21] vertentes
[01:37:22] inclusive autores
[01:37:23] marxistas
[01:37:24] então
[01:37:24] eu mesmo ajudei
[01:37:25] a publicar
[01:37:26] no ano passado
[01:37:27] um livro
[01:37:27] do historiador
[01:37:28] marxista britânico
[01:37:30] do fascismo
[01:37:30] que é o David Ranton
[01:37:31] que justamente
[01:37:33] faz uma crítica
[01:37:34] forte
[01:37:34] às vezes
[01:37:35] até erra um pouco
[01:37:37] a mão
[01:37:37] em relação
[01:37:37] à contribuição
[01:37:38] que essa vertente
[01:37:39] traz
[01:37:40] embora ele dialogue
[01:37:41] com ela
[01:37:41] ou seja
[01:37:42] traz para o entendimento
[01:37:43] do que é o fascismo
[01:37:44] ou seja
[01:37:44] claro que é evidente
[01:37:45] que a gente precisa
[01:37:46] recorrer às fontes primárias
[01:37:47] mas evidentemente
[01:37:48] que a gente tem que ter
[01:37:49] um distanciamento crítico
[01:37:50] em relação a elas
[01:37:51] e a própria perspectiva
[01:37:53] transnacional
[01:37:54] que eu tinha me referido
[01:37:55] aqui
[01:37:56] ela é um certo resultado
[01:37:57] do desenvolvimento
[01:37:58] das pesquisas
[01:37:59] nas últimas décadas
[01:38:00] sobre o fenômeno
[01:38:01] do fascismo
[01:38:01] que estão
[01:38:02] fora do mundo europeu
[01:38:04] então
[01:38:04] além do caso brasileiro
[01:38:06] que eu já me referi
[01:38:07] e que tem uma grande
[01:38:08] historiografia
[01:38:08] sobre integralismo
[01:38:10] a gente tem
[01:38:10] estudos sobre
[01:38:11] o fascismo
[01:38:12] no Chile
[01:38:13] no período entre guerras
[01:38:14] o movimento
[01:38:15] chamado
[01:38:16] nazismo
[01:38:17] que era o nacional
[01:38:18] socialismo chileno
[01:38:20] um movimento fascista
[01:38:21] muito influenciado
[01:38:22] pelo nazismo
[01:38:23] no Chile
[01:38:24] movimentos fascistas
[01:38:25] em outros lugares
[01:38:26] do mundo
[01:38:27] que tem gerado
[01:38:27] pesquisas
[01:38:28] então isso acabou
[01:38:29] gerando
[01:38:29] essa redefinição
[01:38:30] desse objeto
[01:38:31] do campo
[01:38:32] que é pensado hoje
[01:38:34] como um objeto
[01:38:35] que embora
[01:38:36] do ponto de vista
[01:38:37] da sua dimensão
[01:38:38] histórica
[01:38:39] ele possa ser delimitado
[01:38:40] no período
[01:38:41] entre guerras
[01:38:42] mas a delimitação
[01:38:43] geográfica
[01:38:44] ele não é pensado
[01:38:45] mais como simplesmente
[01:38:46] um fenômeno europeu
[01:38:47] embora encontre ainda
[01:38:49] polêmicas
[01:38:50] em relação
[01:38:50] a esse assunto
[01:38:51] mas digamos
[01:38:51] que o estado da arte
[01:38:52] hoje é muito envolto
[01:38:54] a esse entendimento
[01:38:56] e nesse sentido
[01:38:58] para terminar
[01:38:58] mesmo o comentário
[01:39:00] o que tem chamado
[01:39:00] bastante atenção
[01:39:01] em vários pesquisadores
[01:39:03] mais recentemente
[01:39:04] são as influências
[01:39:05] das experiências
[01:39:06] coloniais
[01:39:07] na formação
[01:39:08] da ideologia fascista
[01:39:10] a gente sabe
[01:39:11] como
[01:39:11] o Hitler
[01:39:13] por exemplo
[01:39:13] era um grande admirador
[01:39:15] não só
[01:39:16] das práticas
[01:39:16] do colonialismo alemão
[01:39:18] inclusive do colonialismo
[01:39:19] britânico
[01:39:20] ou seja
[01:39:20] embora
[01:39:21] o império britânico
[01:39:22] fosse um alvo
[01:39:24] depois ele tem entrado
[01:39:25] em guerra
[01:39:26] em certo momento
[01:39:27] da sua elaboração
[01:39:28] intelectual
[01:39:29] o Hitler
[01:39:30] chegou
[01:39:31] a ser
[01:39:31] a pensar
[01:39:32] na possibilidade
[01:39:32] de uma aliança
[01:39:33] com o império britânico
[01:39:35] contra a União Soviética
[01:39:36] e toda a visão estratégica
[01:39:38] do nazismo
[01:39:39] traz sempre
[01:39:40] visões
[01:39:41] imagens
[01:39:42] que são tipicamente
[01:39:43] do processo
[01:39:44] colonialista
[01:39:45] ou mesmo
[01:39:47] da influência
[01:39:47] da experiência
[01:39:48] específica
[01:39:49] da formação
[01:39:50] dos Estados Unidos
[01:39:50] da América
[01:39:51] quando a gente
[01:39:52] por exemplo
[01:39:52] lembra daquela
[01:39:53] famosa passagem
[01:39:54] que eu trago
[01:39:55] no meu livro
[01:39:55] do Hitler
[01:39:57] pensando na invasão
[01:39:58] à União Soviética
[01:39:59] e a frase dele
[01:40:00] segundo a qual
[01:40:01] o Volga
[01:40:02] o Rio Volga
[01:40:02] é o nosso
[01:40:03] Mississipi
[01:40:04] na medida em que
[01:40:05] o processo
[01:40:06] de expansão
[01:40:06] territorial
[01:40:08] dos Estados Unidos
[01:40:08] da América
[01:40:09] depois de dependência
[01:40:10] foi um movimento
[01:40:11] para além do Mississipi
[01:40:13] ultrapassar o Mississipi
[01:40:14] e a grande vaga
[01:40:15] para o Oeste
[01:40:15] e ela teve
[01:40:16] evidentemente
[01:40:17] um aspecto
[01:40:18] colonialista
[01:40:19] na medida em que
[01:40:20] foi colonização
[01:40:21] de um território
[01:40:22] e de expulsão
[01:40:23] e de assassinato
[01:40:24] da população indígena
[01:40:26] que ocupava
[01:40:26] aquele território
[01:40:27] então essas ideias
[01:40:29] o próprio sistema
[01:40:30] Jim Crow
[01:40:31] influenciou
[01:40:31] o Hitler
[01:40:33] olhava o Crow
[01:40:35] dos Estados Unidos
[01:40:36] de segregação racial
[01:40:37] como exemplo
[01:40:38] de metodologia
[01:40:39] de segregação
[01:40:40] racial
[01:40:40] então esses aspectos
[01:40:42] sem falar
[01:40:43] do próprio
[01:40:43] da visão
[01:40:44] do projeto colonialista
[01:40:46] do fascismo italiano
[01:40:47] muito
[01:40:48] com práticas
[01:40:49] importantes
[01:40:50] inclusive
[01:40:50] o próprio caso
[01:40:51] que é o auge
[01:40:53] inclusive
[01:40:54] do apoio interno
[01:40:55] que é
[01:40:55] a agressão
[01:40:56] à Etiópia
[01:40:57] você já chama
[01:40:58] atenção
[01:40:58] para essa
[01:40:58] algumas pesquisas
[01:40:59] têm chamado
[01:41:00] atenção
[01:41:00] para essa
[01:41:01] fonte
[01:41:02] da visão fascista
[01:41:04] que é a visão
[01:41:05] colonialista
[01:41:05] que evidentemente
[01:41:06] não era
[01:41:07] ela não foi
[01:41:08] só uma referência
[01:41:08] para o fascismo
[01:41:09] foi uma referência
[01:41:10] para outros projetos
[01:41:11] também
[01:41:11] tão colonialistas
[01:41:13] quanto
[01:41:13] então digamos assim
[01:41:15] se a gente pudesse
[01:41:16] fazer um comentário
[01:41:16] final
[01:41:17] um pouco sobre
[01:41:18] como caminha
[01:41:19] a historiografia
[01:41:20] quais são os temas
[01:41:21] que mais
[01:41:22] tem influenciado
[01:41:22] a historiografia
[01:41:23] no último período
[01:41:24] e como ela
[01:41:25] tem visto
[01:41:26] o tema
[01:41:27] o conceito de fascismo
[01:41:28] é um campo rico
[01:41:30] com ideias
[01:41:31] com controvérsias
[01:41:31] internas
[01:41:32] com pesquisas
[01:41:33] que tem ajudado
[01:41:34] bastante a gente
[01:41:34] no entendimento
[01:41:35] cada vez mais preciso
[01:41:37] desse fenômeno
[01:41:38] e que hoje
[01:41:39] tem sido
[01:41:41] também movida
[01:41:42] por um interesse
[01:41:44] das contradições
[01:41:45] do mundo
[01:41:45] do tempo presente
[01:41:46] na medida que
[01:41:47] a gente está diante
[01:41:48] de um cenário
[01:41:49] da política internacional
[01:41:50] de ascensão
[01:41:51] das extremas direitas
[01:41:52] e que há sempre
[01:41:53] tanto de forma adequada
[01:41:56] como também
[01:41:56] muitas vezes
[01:41:57] inadequadas
[01:41:58] afirmações
[01:41:59] sobre determinados
[01:42:00] desses fenômenos
[01:42:01] como se fossem
[01:42:01] recriações do fascismo
[01:42:03] em alguns casos
[01:42:04] com alguma justeza
[01:42:05] e em muitos casos
[01:42:06] como simplesmente
[01:42:07] imagens hiperbólicas
[01:42:09] que têm
[01:42:10] simplesmente
[01:42:11] um aspecto
[01:42:12] de polêmica
[01:42:14] e não
[01:42:15] de algo
[01:42:16] realmente sério
[01:42:17] que valha
[01:42:18] uma pesquisa
[01:42:19] é por aí
[01:42:20] que estamos
[01:42:21] aliás
[01:42:25] vale lembrar
[01:42:26] cá entre nós
[01:42:27] que a Thatcher
[01:42:28] era uma apoiadora
[01:42:29] incondicional
[01:42:30] do Pinochet
[01:42:31] mesmo depois
[01:42:32] de todos os crimes
[01:42:33] dele contra a humanidade
[01:42:35] terem vindo
[01:42:36] à tona
[01:42:37] recomendações de leitura
[01:42:45] para quem ouviu
[01:42:46] até o final
[01:42:46] se interessou
[01:42:47] quer estudar mais
[01:42:47] sobre esse assunto
[01:42:48] eu vou pedir
[01:42:49] para você
[01:42:49] falar rapidinho
[01:42:50] do teu livro
[01:42:51] apesar de você
[01:42:51] ter falado dele
[01:42:52] na resposta
[01:42:53] mas só para o pessoal
[01:42:54] saber o que vai encontrar
[01:42:55] e mais dois livros
[01:42:56] que você recomenda
[01:42:57] sobre esse assunto
[01:42:58] fica à vontade
[01:42:59] então vou
[01:42:59] recomendar
[01:43:00] meu próprio livro
[01:43:00] que chama-se
[01:43:02] Fascismo
[01:43:03] Conceito e História
[01:43:04] e que eu discuto
[01:43:05] faço uma discussão
[01:43:06] sobre
[01:43:06] apresenta
[01:43:07] digamos assim
[01:43:08] a visão mais
[01:43:09] contemporânea
[01:43:10] que os pesquisadores
[01:43:11] já têm discutido
[01:43:12] sobre o conceito
[01:43:13] de fascismo
[01:43:14] mas opto
[01:43:15] por contar
[01:43:16] um pouco mais
[01:43:16] a história
[01:43:17] então é uma narrativa
[01:43:18] principalmente
[01:43:19] se a gente pegar
[01:43:20] os casos italianos
[01:43:21] e o caso alemão
[01:43:22] que eu conto
[01:43:22] bastante a história
[01:43:23] do processo
[01:43:24] de ascensão
[01:43:25] do fascismo
[01:43:25] nessas duas experiências
[01:43:27] que são sem dúvida
[01:43:27] uma das mais importantes
[01:43:29] ou seja
[01:43:29] onde o fascismo
[01:43:30] chega ao poder
[01:43:30] implementa
[01:43:31] ao seu nível máximo
[01:43:32] suas propostas
[01:43:34] mas também
[01:43:35] chamando a atenção
[01:43:36] para o caráter
[01:43:36] transnacional
[01:43:37] desse fenômeno
[01:43:38] então menciono
[01:43:40] também
[01:43:40] esses outros
[01:43:41] movimentos fascistas
[01:43:42] que não conseguem
[01:43:43] que não conseguiram
[01:43:44] triunfar
[01:43:45] em vários lugares
[01:43:46] do mundo
[01:43:46] mas constituem
[01:43:47] fazem parte
[01:43:48] desse objeto
[01:43:49] que é o fascismo
[01:43:50] penso em casos
[01:43:52] ou seja
[01:43:52] apresento também
[01:43:53] discussões sobre
[01:43:54] essas controvérsias
[01:43:55] por exemplo
[01:43:56] eu acho um aspecto
[01:43:57] interessante do meu livro
[01:43:59] eu ter dedicado
[01:43:59] eu tenho dedicado
[01:44:00] bastante atenção
[01:44:01] para responder
[01:44:02] essa dúvida
[01:44:03] que é uma dúvida honesta
[01:44:04] embora tenha sido utilizada
[01:44:05] por perspectivas
[01:44:07] manipuladoras
[01:44:08] que é a presença
[01:44:09] dessas palavras
[01:44:11] como socialismo
[01:44:12] e mesmo
[01:44:13] para descrever
[01:44:14] como nomenclatura
[01:44:16] de determinados
[01:44:17] fenômenos
[01:44:17] do fascismo
[01:44:19] principalmente
[01:44:19] o caso
[01:44:20] alemão
[01:44:22] então eu dedico
[01:44:23] uma parte do livro
[01:44:24] a esclarecer
[01:44:25] esse ponto
[01:44:26] recorrendo
[01:44:27] à historiografia
[01:44:29] é um livro
[01:44:29] totalmente
[01:44:30] embasado
[01:44:31] na historiografia
[01:44:32] acadêmica
[01:44:33] discuto
[01:44:34] a tentativa
[01:44:35] de internacionalização
[01:44:36] do fascismo
[01:44:37] inclusive
[01:44:37] a fracassada
[01:44:39] tentativa de criar
[01:44:40] um internacional
[01:44:41] fascista
[01:44:41] tento explicar
[01:44:42] porque fracassou
[01:44:44] e principalmente
[01:44:44] concluo com
[01:44:45] o que foi o fascismo
[01:44:46] na segunda guerra mundial
[01:44:48] eu penso assim
[01:44:49] naquela famosa
[01:44:50] passagem
[01:44:51] do eric robson
[01:44:52] na era dos extremos
[01:44:53] quando ele diz
[01:44:54] que até hoje
[01:44:55] a historiografia
[01:44:56] se debate
[01:44:57] sobre as causas
[01:44:58] da primeira guerra mundial
[01:45:00] mas em relação
[01:45:00] a segunda guerra mundial
[01:45:01] é muito fácil
[01:45:02] responder
[01:45:03] quem causou
[01:45:03] adolf hitler
[01:45:04] na medida que o hitler
[01:45:06] foi a mais importante
[01:45:07] expressão
[01:45:08] do fascismo
[01:45:09] na medida que eu estou
[01:45:09] entendendo
[01:45:10] que o nazismo
[01:45:11] é o fascismo
[01:45:12] em sua dimensão
[01:45:12] mais radical
[01:45:13] estaria o fascismo
[01:45:14] como dos responsáveis
[01:45:16] pela eclosão
[01:45:17] desse que foi
[01:45:17] o conflito
[01:45:19] mais sanguinolento
[01:45:20] da história
[01:45:21] da humanidade
[01:45:22] e eu falo um pouco
[01:45:24] do fascismo
[01:45:24] na guerra
[01:45:25] eu capto
[01:45:26] dedicado
[01:45:27] ou seja
[01:45:27] como essa experiência
[01:45:29] do desenvolvimento
[01:45:30] que gera
[01:45:31] inclusive
[01:45:31] o fim
[01:45:32] do próprio
[01:45:33] fascismo histórico
[01:45:34] nesse sentido
[01:45:35] e por fim
[01:45:35] discuto a atualidade
[01:45:37] desse assunto
[01:45:38] ou seja
[01:45:38] lá na década de 60
[01:45:39] como eu mencionei
[01:45:40] quando começa
[01:45:41] a se desenvolver
[01:45:42] uma historiografia
[01:45:42] profissional
[01:45:43] sobre o fascismo
[01:45:45] era muito comum
[01:45:46] que a expectativa
[01:45:47] fosse que
[01:45:47] era um estudo
[01:45:48] sobre um fenômeno
[01:45:49] datado
[01:45:50] o próprio título
[01:45:51] do livro
[01:45:51] do ernest nolte
[01:45:52] dava conta disso
[01:45:53] o nome era
[01:45:54] fascismo em sua época
[01:45:55] então era um assunto
[01:45:56] do passado
[01:45:57] hoje a gente não tem mais
[01:45:58] essa
[01:45:59] essa
[01:46:30] 益
[01:46:31] a essa questão
[01:46:32] é necessário
[01:46:33] ter um conhecimento
[01:46:33] razoável
[01:46:34] do que foi
[01:46:35] o fascismo histórico
[01:46:35] então o livro
[01:46:36] também oferece
[01:46:37] elementos importantes
[01:46:39] para o entendimento
[01:46:40] do que foi
[01:46:40] o fascismo histórico
[01:46:41] qualquer coisa
[01:46:41] que possa ser chamada
[01:46:43] com rigor
[01:46:44] de fascista
[01:46:44] hoje tem que passar
[01:46:45] para algum tipo
[01:46:46] de comparação
[01:46:47] com o que foi
[01:46:48] o fascismo histórico
[01:46:49] então esse é o ponto
[01:46:50] que eu busco contribuir
[01:46:51] com esse livro
[01:46:53] para
[01:46:53] enfim
[01:46:55] e outras
[01:46:55] recomendações
[01:46:57] que eu faço
[01:46:58] questão de trazer
[01:46:59] aqui
[01:46:59] recentemente
[01:47:00] eu vou recomendar
[01:47:01] o livro da Clara Matei
[01:47:03] A Ordem do Capital
[01:47:04] um livro que faz
[01:47:06] um estudo
[01:47:06] sobre a política econômica
[01:47:08] do fascismo italiano
[01:47:09] dos seus primeiros anos
[01:47:10] fazendo uma comparação
[01:47:12] com a política econômica
[01:47:14] implantada
[01:47:15] por uma democracia liberal
[01:47:16] que é a Inglaterra
[01:47:17] na mesma época
[01:47:18] na década de 20
[01:47:19] esses dois países
[01:47:20] que implantam
[01:47:21] políticas de austeridade
[01:47:23] pioneiramente
[01:47:24] aplicam pioneiramente
[01:47:25] ou seja
[01:47:25] é a fabricação
[01:47:26] da própria noção
[01:47:27] de austeridade
[01:47:28] e como isso
[01:47:28] se casou
[01:47:29] perfeitamente
[01:47:30] com o fascismo
[01:47:31] dos primeiros anos
[01:47:32] e como isso
[01:47:33] é importante
[01:47:34] para celebrar
[01:47:35] o apoio
[01:47:36] das classes dominantes
[01:47:37] em relação
[01:47:38] ao fascismo italiano
[01:47:40] que é só um livro
[01:47:41] que eu recomendo
[01:47:42] bastante
[01:47:42] e por último
[01:47:43] eu vou recomendar
[01:47:44] um livro
[01:47:44] que não foi publicado ainda
[01:47:45] mas está
[01:47:46] em via de ser publicado
[01:47:47] vai sair
[01:47:48] no ano que vem
[01:47:49] que é o livro
[01:47:49] do professor Alvaro Bianco
[01:47:51] que eu mencionei também
[01:47:52] que justamente
[01:47:53] discute
[01:47:53] com bastante
[01:47:55] propriedade
[01:47:56] profundidade
[01:47:56] essa relação
[01:47:58] entre o setor
[01:47:59] da intelectualidade
[01:48:00] liberal
[01:48:00] italiana
[01:48:02] com o fascismo
[01:48:03] tanto os que
[01:48:04] aderiram
[01:48:05] os que
[01:48:06] buscaram
[01:48:08] inclusive
[01:48:09] entender
[01:48:10] que o fascismo
[01:48:10] seria uma atualização
[01:48:11] daquele liberalismo
[01:48:12] da direita
[01:48:13] do período do ressurgimento
[01:48:14] quanto aqueles
[01:48:15] que vão
[01:48:16] passar para a oposição
[01:48:18] ao fascismo
[01:48:19] ou seja
[01:48:19] ali de fato
[01:48:20] a gente encontra
[01:48:21] um trabalho
[01:48:22] que vai
[01:48:23] aprofundar bastante
[01:48:25] o assunto
[01:48:25] que moveu
[01:48:26] aqui a nossa
[01:48:27] conversa de hoje
[01:48:30] então é isso gente
[01:48:31] Damien
[01:48:32] alguma consideração final?
[01:48:33] não
[01:48:34] eu só queria agradecer
[01:48:35] a todos e todas
[01:48:37] que acompanharam o episódio
[01:48:38] e dizer para vocês
[01:48:40] da importância
[01:48:40] de apoiar
[01:48:41] o podcast
[01:48:42] História FM
[01:48:43] que é uma iniciativa
[01:48:44] da maior importância
[01:48:46] de divulgação
[01:48:47] científica
[01:48:48] muito séria
[01:48:48] e que
[01:48:50] enfim
[01:48:50] que vale a pena
[01:48:51] ser apoiado
[01:48:53] inclusive porque
[01:48:53] isso aqui é um suporte
[01:48:54] para todo mundo
[01:48:55] que atua na área
[01:48:56] como professor
[01:48:57] como é meu caso
[01:48:58] estou sempre
[01:48:58] incorporando
[01:49:00] os episódios
[01:49:00] de História FM
[01:49:01] na minha bibliografia
[01:49:03] de curso
[01:49:04] e muitos colegas
[01:49:04] fazem isso também
[01:49:05] como eu tenho conversado
[01:49:07] então
[01:49:07] isso tem a ver
[01:49:08] com a seriedade
[01:49:09] do trabalho
[01:49:09] que tem sido feito
[01:49:10] pelo ICLS
[01:49:11] prestigiar inclusive
[01:49:12] a própria coleção
[01:49:13] da qual
[01:49:14] orgulhosamente
[01:49:15] meu livro faz parte
[01:49:16] que está prestes
[01:49:17] a ser publicado
[01:49:18] valeu ICLS
[01:49:19] e valeu todo mundo
[01:49:20] muito obrigado
[01:49:21] então é isso gente
[01:49:22] muito obrigado
[01:49:23] por terem ouvido
[01:49:23] até o final
[01:49:24] eu vou deixar
[01:49:25] na descrição
[01:49:25] aqui desse episódio
[01:49:27] o link
[01:49:27] para você adquirir
[01:49:28] o livro do Damien
[01:49:29] na verdade
[01:49:29] eu vou deixar
[01:49:30] o link
[01:49:30] que leva
[01:49:30] para a página
[01:49:31] da coleção
[01:49:32] e vai estar
[01:49:32] todos os livros
[01:49:32] incluindo o do Damien
[01:49:34] a gente gravou
[01:49:35] isso aqui
[01:49:35] num dia
[01:49:35] que o livro
[01:49:36] ainda não saiu
[01:49:36] mas ele vai ao ar
[01:49:37] depois que o livro
[01:49:38] já estiver vendo
[01:49:38] aliás
[01:49:39] só curiosidade
[01:49:39] a gente gravou
[01:49:40] esse episódio
[01:49:40] no dia
[01:49:41] que saiu
[01:49:42] o livro
[01:49:42] sobre Guerra dos Tamoios
[01:49:43] mas esse episódio
[01:49:44] já vai ter saído
[01:49:45] quando você ouvir
[01:49:46] esse aqui
[01:49:46] então vai ali
[01:49:47] na descrição
[01:49:47] tem link do apoia-se
[01:49:49] tem link
[01:49:49] dos livros
[01:49:50] dos cursos
[01:49:51] enfim
[01:49:51] de todo esse material
[01:49:52] que pode ser útil
[01:49:53] para você
[01:49:53] beleza?
[01:49:54] então é isso
[01:49:54] muito obrigado
[01:49:55] e até a próxima
[01:50:00] o História FM
[01:50:05] é uma produção
[01:50:05] do canal
[01:50:06] Leitura Obriga História
[01:50:07] apresentação
[01:50:08] Icles Rodrigues
[01:50:09] edição
[01:50:09] Samuel Gambini
[01:50:10] roteiro
[01:50:11] Icles Rodrigues
[01:50:12] o financiamento
[01:50:12] deste programa
[01:50:13] é realizado
[01:50:14] pelos nossos colaboradores
[01:50:15] em apoia.se
[01:50:17] barra
[01:50:17] Obriga História
[01:50:30] Esse podcast
[01:50:30] foi editado
[01:50:31] por Samuel Gambini