Da extrema-direita sionista ao bolsonarismo


Resumo

O episódio traça a genealogia da extrema-direita sionista, desde suas origens no pensamento de Vladimir Jabotinsky e seus flertes com o fascismo italiano, passando pela consolidação de grupos revisionistas e messiânicos como o kukismo e o kahaneismo, até a hegemonia atual no governo israelense. Michel Gherman analisa como essa trajetória se entrelaça com a radicalização de Benjamin Netanyahu, que, movido por uma busca de legitimação familiar e por alianças estratégicas, transitou de um liberalismo jabotinskiano para uma posição de extrema-direita, flertando e depois incorporando grupos religiosos expansionistas e conspiracionistas.

A conversa então desloca o foco para o Brasil, examinando como símbolos e narrativas judaico-israelenses foram colonizados – e não meramente apropriados – pela extrema-direita brasileira em parceria com setores da comunidade judaica institucional. Gherman destaca eventos-chave como as palestras de Olavo de Carvalho (2004) e Jair Bolsonaro (2017) na Hebraica, que marcaram a construção de uma identidade judaico-cristã e de uma aliança política que redefine o lugar do judeu no imaginário da direita brasileira, abandonando uma identidade étnico-cultural em prol de um projeto ideológico comum.

Por fim, o episódio aborda a instrumentalização contemporânea do conceito de antisemitismo, especialmente após o 7 de outubro de 2023. Gherman argumenta que a definição expansiva adotada por organismos como a IHRA, e promovida pela direita, tem um efeito perverso: ao equiparar qualquer crítica a Israel com antisemitismo, banaliza a categoria e, paradoxalmente, pode fomentar sentimentos antijudaicos genuínos, além de servir como ferramenta para silenciar opositores políticos em escala global.


Indicações

Filmes

  • The Order (A Ordem) — Filme de 2024 disponível no Prime Video que narra a investigação do FBI sobre um grupo supremacista branco chamado ‘A Ordem’, que mistura neonazismo e fundamentalismo cristão. É citado como uma ferramenta para entender o universo da extrema-direita estadunidense e suas táticas, incluindo a inspiração no romance conspiracionista ‘O Diário de Turner’ e planos de ataque a instituições como o Capitólio.

Livros

  • O Diário de Turner — Romance conspiracionista citado como um manual ou inspiração para o terrorismo da extrema-direita estadunidense, mencionado no contexto do filme ‘A Ordem’.

Linha do Tempo

  • 00:03:13Origens da extrema-direita sionista e a figura de Jabotinsky — Michel Gherman inicia a análise histórica, questionando a relação entre vivência e análise no estudo de Israel. Explica que a extrema-direita sionista surge de uma ruptura dentro do movimento revisionista de Jabotinsky. Destaca a complexidade de Jabotinsky, que flertou com o fascismo mas depois migrou para um liberalismo que defendia direitos individuais, porém dentro de um projeto militarista de não-divisão da Palestina histórica. Desse caldo, emerge uma ala mais radical, antiliberal e com vínculos orgânicos com fascismo e nazismo.
  • 00:20:43A radicalização de Benjamin Netanyahu e o neosionismo — Partindo da trajetória inversa de Jabotinsky (do fascismo ao liberalismo), a análise se volta para Netanyahu, que fez o caminho contrário. Gherman explora a importância da figura paterna (Ben Sion Netanyahu) e a busca do filho por superar Ben Gurion como líder mais longevo. A radicalização de Netanyahu é explicada por seu flerte e posterior incorporação de três correntes: o jabotinskianismo de extrema-direita, o kukismo messiânico-religioso (que vê a ocupação como redenção) e o kahaneismo conspiracionista e racista. Seu discurso atual é tipicamente kahaneista.
  • 00:36:42Conexões com o Brasil: colonização de símbolos e o bolsonarismo — A discussão se volta para o Brasil, analisando a relação entre a extrema-direita israelense e a brasileira. Gherman rejeita o termo ‘apropriação’ e prefere ‘colonização’, argumentando que houve uma parceria entre a extrema-direita brasileira e setores da comunidade judaica institucional. Esse processo é marcado pela palestra de Olavo de Carvalho na Hebraica em 2004 e, principalmente, pela de Jair Bolsonaro em 2017, que redefiniu a política nacional ao apresentar um candidato de extrema-direita em um clube judaico. A aliança construiu uma identidade judaico-cristã branca e armada, confortável para ambos os lados.
  • 00:49:23Instrumentalização do antisemitismo pós-7 de outubro — Gherman problematiza a narrativa de crescimento vertiginoso do antisemitismo após o 7 de outubro. Argumenta que a definição expansiva promovida pela direita (como a da IHRA), que equipara crítica a Israel a antisemitismo, tem um duplo efeito perverso: instrumentaliza a categoria para calar opositores e, ao vincular todos os judeus a Netanyahu, pode gerar antisemitismo real. Ele alerta que essa ressignificação, liderada pela extrema-direita, acaba colonizando também setores da esquerda, que passam a negar a existência do antisemitismo ou a atacar judeus indiscriminadamente, banalizando um fenômeno histórico sério.

Dados do Episódio

  • Podcast: Chutando a Escada
  • Autor: Filipe Mendonça e Geraldo Zahran
  • Categoria: News Politics Science Social Sciences Government
  • Publicado: 2025-11-28T15:19:39Z
  • Duração: 00:34:26

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Olá, pessoal, bem-vindos a mais um episódio da parceria entre o Observatório da Extrema

[00:00:09] Direita, o OED, e o podcast Chutando a Escada.

[00:00:13] Eu sou o professor Guilherme Casarões, professor de estudos brasileiros da Universidade Internacional

[00:00:19] da Flórida, nos Estados Unidos, e um dos coordenadores do Observatório da Extrema

[00:00:23] Direita.

[00:00:24] E estou aqui na parceria do meu amigo e colega, o Dilon Caldeira Neto, professor

[00:00:27] da Universidade Federal de Osso de Fora e também um dos coordenadores do Observatório

[00:00:32] da Extrema Direita.

[00:00:34] Nesse episódio, que celebra a parceria entre o OED e o Chutando a Escada, a gente vai

[00:00:38] conversar com o Michel Gherman, que é pesquisador do Observatório da Extrema Direita e que

[00:00:44] tem um vastíssimo currículo que trata das áreas de sociologia, estudos judaicos,

[00:00:50] holocaust, oriente médio e extrema direita.

[00:00:54] O Michel, ele é professor do Departamento de Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências

[00:00:58] Sociais da UFRJ, professor do programa de pós-graduação em História Social da

[00:01:03] mesma Universidade, é graduado em História pelo UFRJ, tem mestrado em Sociologia e

[00:01:07] Entropologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém e tem doutorado em História

[00:01:12] Social pelo UFRJ.

[00:01:14] Além de pesquisador do Observatório da Extrema Direita, o Michel é pesquisador

[00:01:17] vinculado ao Vital Sasun Center for Antisemitism Studies da Hebrew University of Jerusalem,

[00:01:23] uma universidade hebraica, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos,

[00:01:28] no Instituto de História da UFRJ, e pesquisador convidado no Núcleo de Estudos do Judaísmo

[00:01:33] Contemporâneo, na USP.

[00:01:35] O Michel também lidera o grupo de pesquisa do CNPQ, Extremos, Política, Religião

[00:01:40] e Violência, e o laboratório de mesmo nome no Departamento de Sociologia do

[00:01:44] Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.

[00:01:47] Olá pessoal, o Odilon aqui, e como vocês sabem, o formato do podcast da nossa parceria,

[00:01:54] do OED, com chutando a escada, ele é dividido em três partes.

[00:01:58] A primeira e mais substancial parte é a entrevista hoje com o Michel, posteriormente

[00:02:03] uma análise de notícias e conjunturas e dicas culturais, tudo sobre esse nada

[00:02:09] maravilhoso mundo da extrema direita.

[00:02:12] Então, após a entrevista com o Michel, a gente dá sequência a essas duas tradicionais

[00:02:17] etapas do nosso podcast.

[00:02:19] Michel, a gente está muito feliz de tê-lo aqui nessa conversa sobre um tema amplo,

[00:02:26] transversal, ligado a Israel, a extrema direita, e a maneira como isso tudo

[00:02:30] chega também no Brasil, então a gente queria agradecê-lo, primeiro de tudo,

[00:02:35] por essa disponibilidade em participar aqui com a gente.

[00:02:38] Eu que agradeço, é um prazer estar aqui com vocês.

[00:02:43] A escada é uma construção que serve para fazer um deslocamento vertical.

[00:02:49] Nem sempre é assim, mas tem um jeito de facilitar tudo isso.

[00:02:53] Elevador?

[00:02:54] Não.

[00:03:13] Michel, o tema sobre Israel é um tema muito candente na realidade política global

[00:03:19] das últimas décadas.

[00:03:21] Muito se fala sobre Israel, e eventualmente poucas pessoas entendem a fundo a realidade

[00:03:30] da política e da sociedade israelense como você, e esse é um campo da sua atuação

[00:03:35] não apenas acadêmica, como também da intervenção pública sobre Israel.

[00:03:41] E de fato, Michel, você estudou em Israel, viveu lá durante anos, e conhece profundamente

[00:03:48] a política e a sociedade locais.

[00:03:51] Considerando que parcela significativa da opinião pública brasileira tem uma aparente

[00:03:56] dificuldade de entender a complexidade, a amplitude da verdadeira Israel, longe da

[00:04:03] Israel imaginária, tão presente em alguns ambientes da nossa sociedade brasileira,

[00:04:08] e além da complexidade de Israel, do pensamento sionista e dos debates políticos ligados

[00:04:13] a esse tema, vamos começar com uma pergunta bastante ampla.

[00:04:17] Como que se construiu ao longo da história a extrema direita israelense, como que

[00:04:23] ela se relaciona com o sionismo?

[00:04:27] Bom, é prazer estar aqui com você também, Odilon, é uma pergunta ampla.

[00:04:32] Primeiro eu gostaria de pensar um pouco sobre pessoas que estão presentes em

[00:04:37] campos, e essa suposta relação entre a presença no campo e a possibilidade de

[00:04:44] análise.

[00:04:46] Eu suspeito que isso pode causar alguns equívocos.

[00:04:53] Tem muita gente que está em Israel e que participa dos debates públicos e que

[00:04:57] tem pouca capacidade de análise.

[00:04:59] Eu acho que um dos elementos fundamentais de qualquer campo de estudo é a reflexão

[00:05:04] sobre ele, menos do que a vivência nele.

[00:05:06] Eu acho que esse é um desafio que a gente tem, em um lugar como o Estudo de Israel,

[00:05:11] que é um lugar onde está muito perpassado por propaganda, e não necessariamente

[00:05:17] por estudos acadêmicos, tem muita gente que utiliza a ideia de ter estado, ter

[00:05:23] vivido, pra poder falar sobre.

[00:05:25] Então esse é o primeiro elemento que eu queria falar um pouco.

[00:05:27] O campo de estudos, o que a gente chama de Israeli Studies, estudos na tradução

[00:05:33] portuguesa de estudos sobre Israel, é um campo perpassado por esses grupos de

[00:05:40] pessoas, propagandistas, acadêmicos, e aqui tem uma disputa importante e que eu

[00:05:47] acho que se a propaganda ganha, a gente tem uma contribuição muito ruim para

[00:05:51] os campos da extrema-direita, vou falar sobre isso depois.

[00:05:55] Bom, o continente da direita sionista é muito amplo, Odilon.

[00:06:01] E a partir daí a gente tem um outro desafio, que é entender como é que essa direita

[00:06:09] sionista se estabelece como extrema-direita sionista.

[00:06:13] Ou, segundo a análise de um sociólogo israelense, Uri Ram, da Universidade Ben

[00:06:21] Gurion, como é que essa extrema-direita sionista cria uma perspectiva de

[00:06:27] excepção do sionismo que é tão radicalmente específica em relação à

[00:06:33] construção histórica do movimento nacional judaico que ele passa a

[00:06:37] diferenciá-la chamando de neo sionismo. E principalmente como é que

[00:06:43] essa extrema-direita se transforma no que ela é hoje, o grupo hegemônico na

[00:06:49] política israelense, e hegemônico de maneira bastante clara. Você tem

[00:06:55] governos que caminham para extrema-direita com alguma constância, mas eu diria que

[00:07:01] o ano de 2016 com a votação da lei nacional, que é uma lei que retira

[00:07:07] direitos nacionais de grupos minoritários e coloca direitos nacionais

[00:07:13] exclusivamente ao grupo majoritário, é, na minha opinião, uma percepção

[00:07:18] muito clara de que não só socialmente, politicamente, mas também

[00:07:22] socialmente, o estado de Israel é hegemonizado por perspectivas de extrema-direita.

[00:07:27] Então o que a gente está vendo hoje, na minha percepção, é a continuidade

[00:07:32] desse processo, que é um processo longo, que a gente poderia dizer que ele começa

[00:07:36] em 77 com a eleição de Beguin, mas que acaba produzindo como resultado

[00:07:44] genocídio em Gaza, que não é somente uma análise conjectural da reação ao

[00:07:51] grupo, mas tem um projeto, um setor importante da extrema-direita

[00:07:55] israelense, do que eles chamam de segunda anacapa. Então essa é a primeira

[00:08:01] questão. Quer dizer, tem um problema aqui de entender como é que aquilo virou isso e como é que

[00:08:05] esse processo construiu segemonicamente em Israel. E eu acho que antes de 77,

[00:08:11] quando a gente olha grupos como o sionismo religioso, que está dividido

[00:08:17] hoje no governo de Israel em três pequenos grupos, dois grupos um pouco

[00:08:22] maiores, um grupo bastante pequeno no governo, mas são três grupos importantes

[00:08:26] que estão dando a linha para o governo de Israel, que é o grupo do sionismo

[00:08:31] religioso, do Smokrit, o grupo força judaica, notem bem, força judaica,

[00:08:39] não força israelense, do Ben V. E tem um terceiro grupo, que é um grupo muito

[00:08:45] importante, que é o grupo Noam, do rabino Ginsburg, e que é um grupo

[00:08:53] absolutamente vinculado à extrema-direita europeia, vinculado a partidos da extrema-direita

[00:08:59] europeia, e alguns deles que vocês estudam em outras pesquisas que têm pouca

[00:09:04] relação com Israel, mas que têm muita relação com o anti-semitismo histórico.

[00:09:08] Então o partido Noam, que é o partido com agenda LGBTfóbica,

[00:09:13] operacionista, está nesse governo. Então você tem hoje três partidos do

[00:09:17] sionismo religioso, que são claramente vinculados com isso que vocês chamam,

[00:09:21] com toda a questão que eu tenho com esses termos, mas enfim, eu vou

[00:09:26] utilizá-los porque vocês utilizaram na abertura, estão ali entre a

[00:09:30] extrema-direita e a direita radical. Você tem outros grupos que são

[00:09:35] grupos do licuto, que caminham para essa direita radical, na melhor das hipóteses,

[00:09:40] e alguns deles para a extrema-direita. Então você olha e fala assim,

[00:09:43] então a gente tem pouca diferença, tem uma articulação política no governo

[00:09:47] de Israel, que colocou junto os grupos de extrema-direita e que eles

[00:09:51] sempre foram, de direita radical, que sempre foram grupos próximos.

[00:09:55] Eu diria que aqui tem um problema, que é um problema que a história do

[00:09:59] tempo presente pode nos ajudar a entender se ela for feita a partir de

[00:10:03] uma versão competente dela, que é a noção de entender o contexto,

[00:10:09] a reconfiguração a partir de uma história das ideias, uma história

[00:10:14] política que nos remonte a perspectivas lão-lineares da história.

[00:10:19] Nem tudo que começou para ser o que era, foi o que era. As coisas mudam

[00:10:24] no processo e ler a história contra a pílula é importante para entender

[00:10:27] como é que essa extrema-direita sionista se transforma hoje num grupo tão

[00:10:32] hegemônico no sionismo e que acaba colonizando a percepção sobre Israel

[00:10:36] no mundo de judeus e não judeus.

[00:10:38] E Michel, quem são as figuras históricas por trás desse processo?

[00:10:43] Que um nome importante para a gente entender, mas mesmo aqui,

[00:10:47] Casarões e eu conversamos sobre isso algumas vezes, ele é ilusório,

[00:10:52] ele produz ilusão diótica, que é o nome do Vladimir Jabotinsky.

[00:10:56] Vladimir Jabotinsky é uma figura que em algum momento da sua vida

[00:11:01] se vinculou principalmente nos anos 20, a partir da marcha sobre Roma,

[00:11:07] a partir de um vínculo profundo, ele tinha a formação, apesar de ser

[00:11:12] russo de origem, ele tinha a formação acadêmica na Universidade de Roma.

[00:11:19] Ele começa a flertar de maneira muito definitiva com o fascismo italiano.

[00:11:27] Mas esse flerte é temporário, ele recua depois e se vincula a uma certa direita liberal,

[00:11:35] uma direita liberal sionista.

[00:11:40] E assim, sem querer falar sobre o Jabotinskyianismo, que é um temão,

[00:11:44] um tema enorme, mas eu acho que tem dois elementos que diferenciam

[00:11:50] Vladimir Jabotinsky do sionismo de esquerda hegemônico daquele momento.

[00:11:56] Basicamente, a diferença fundamental é uma cultura daquilo que

[00:12:03] Av Schlein vai chamar de grande muralha, a ideia de que não se pode

[00:12:08] conviver com os nacionalismos árabes da região, e é preciso produzir

[00:12:13] um sionismo militar, militarizado, e que não dê espaço algum

[00:12:19] para qualquer tipo de vitória militar do lado árabe,

[00:12:23] essa é a primeira questão, e a segunda é uma questão cultural,

[00:12:27] a ideia de que, ao contrário do sionismo de esquerda,

[00:12:32] a noção de colonização da terra, a noção de criação de fazendas coletivas,

[00:12:38] a noção de uma cultura hebraísta baseada no coletivismo

[00:12:45] não é considerada relevante no Jabotinskyianismo.

[00:12:49] Não só é um projeto militar de hegemonia regional,

[00:12:54] mas é um projeto cultural baseado no militarismo também,

[00:12:58] isso é a direita sionista de Jabotinsky.

[00:13:02] E aqui você tem dois grupos dentro dessa direita,

[00:13:05] por isso que eu digo que tem uma ilusão de ótica, porque além desse debate,

[00:13:08] Jabotinsky propõe, principalmente na última fase da sua vida,

[00:13:12] ele propõe uma dimensão liberal de democracia em Israel,

[00:13:20] onde apesar de nenhum tipo de direitos aos árabes palestinos da região

[00:13:26] em termos nacionais, ele quer garantir direitos individuais.

[00:13:30] Ele fala, por exemplo, sobre a necessidade de um vice-primeiro-ministro

[00:13:36] árabe-palestino antes de morrer um pouco,

[00:13:40] o que ele chama de Jabotinskyianismo humanista

[00:13:43] ou de sionismo de direita humanista.

[00:13:46] A partir dessa ele fala sobre a intervenção do Estado na economia

[00:13:50] para garantir o que ele chama de 5M, que é moradia, alimentação,

[00:13:57] segurança social, etc.

[00:13:59] Ou seja, ele caminha um pouco para o que a gente chamaria

[00:14:03] de uma certa direita liberal democrática que garante direitos individuais.

[00:14:08] Ele continua, até o final da sua vida,

[00:14:11] achando que isso tem que ser feito com o poder das armas

[00:14:16] para lutar contra o nacionalismo árabe

[00:14:19] e sem nenhum tipo de divisão da Palestina histórica,

[00:14:23] o que aqui tem uma contradição.

[00:14:25] Como é que você vai dar liberdade individual

[00:14:28] onde você tem uma minoria populacional?

[00:14:31] Mas isso é uma contradição do pensamento de Jabotinsky.

[00:14:34] A gente não precisa responder porque é contradição mesmo.

[00:14:37] Então, ele é contra a divisão da Palestina histórica,

[00:14:40] ele é a favor de que o Estado judeu

[00:14:42] seja um Estado que vadesse do que hoje é Jordânia

[00:14:46] até o mar Mediterrâneo.

[00:14:50] From the river to the sea.

[00:14:52] Como se diz hoje, ele acha que Israel vai ser livre.

[00:14:57] Então, essa é a perspectiva.

[00:14:59] Mas dentro desse grupo jabotinskyano, que é contratitório,

[00:15:02] que é cheio de divisões,

[00:15:04] tem uma outra perspectiva,

[00:15:07] que é a perspectiva que caminha para a Palestina.

[00:15:10] Ou seja, se você tem o desenvolvimento desses grupos

[00:15:13] de direitacionista na Europa,

[00:15:16] efetivamente, Jabotinsky frequenta a Palestina, vai para Palestina,

[00:15:22] mas quem está na Palestina é aquilo que em inglês se chama de gangster,

[00:15:28] que é um grupo específico dentro do jabotinskyanismo

[00:15:31] e que rompe com a dimensão liberal do jabotinskyanismo.

[00:15:34] E aqui, esse grupo de direita do jabotinskyanismo,

[00:15:41] ou seja, o grupo que está à direita do jabotinskyanismo,

[00:15:44] é um grupo que eu chamaria,

[00:15:47] o grupo que dá origem à extrema direitacionista

[00:15:52] nos sentidos e nos termos que a gente conhece hoje.

[00:15:54] E aqui tem dois elementos nesse grupo.

[00:15:57] Primeiro, a ruptura completa com qualquer elemento democrático.

[00:16:01] Não há direito para os árabes,

[00:16:04] é preciso expulsá-los e, na melhor das hipóteses,

[00:16:07] retirá-los das terras.

[00:16:09] Mas tem dois elementos fundamentais

[00:16:11] que eu acho que marcam esse grupo,

[00:16:14] o grupo que em hebraico se chama de lerre,

[00:16:17] em inglês, por causa da sua liderança se chama de grupo do externo,

[00:16:21] que são fundamentais,

[00:16:23] o vínculo profundo desses grupos com o fascismo e com o nazismo.

[00:16:29] Com o fascismo a partir da memória do jabotinsky jovem, da década de 20,

[00:16:36] e com o nazismo a partir da percepção

[00:16:40] de que vínculos orgânicos com o nazismo

[00:16:44] garantiriam a expulsão dos judeus da Alemanha

[00:16:48] e a criação de uma maioria judaica na Palestina.

[00:16:51] Em sentido a um vínculo profundo,

[00:16:53] e alguns historiadores mais contemporâneos

[00:16:56] que têm pouco cuidado com essa diversidade do cionismo

[00:17:00] acham que esse é o cionismo.

[00:17:02] E é realmente a vínculos orgânicos

[00:17:05] e ao que tudo indica, algumas pesquisas de caminho nessa direção,

[00:17:10] vínculos muito próximos desse grupo

[00:17:14] junto com oficiais nazistas preocupados

[00:17:19] com formas de avançar em direção

[00:17:25] a limpeza da Europa de judeus.

[00:17:29] Acho que aqui você tem, Casarões,

[00:17:33] a gente já conversou sobre isso, por isso que estou falando com você,

[00:17:36] aqui você tem o início de uma certa extrema direita cionista.

[00:17:42] Essa extrema direita cionista passa a ser bastante

[00:17:48] anuémidoritária, na melhor das hipóteses,

[00:17:53] ela impede igualdade numérica com a direita cionista,

[00:17:58] com o tempo ela vai perdendo espaço político,

[00:18:01] mas em algum momento ela disputa a hegemonia

[00:18:04] do movimento revisionista, que é o movimento jabotinskiano,

[00:18:09] que é expulso do movimento cionista nos anos 30.

[00:18:12] Essa direita cionista expulsa do movimento cionista

[00:18:16] revisionista nos anos 30, você tem o movimento cionista

[00:18:19] revisionista e dentro do movimento cionista revisionista

[00:18:21] você tem o cionismo revisionista liberal

[00:18:23] e o cionismo revisionista de extrema direita.

[00:18:26] Essa extrema direita se consolida com uma referência

[00:18:30] relevante do cionismo de direita.

[00:18:33] A partir dessas perspectivas de um estado étnico

[00:18:38] sem direitos para as minorias, que produz expulsão

[00:18:42] ou rendição absoluta dos grupos que ficam lá

[00:18:47] e outros elementos fundamentais.

[00:18:49] Essa extrema direita cionista, por exemplo,

[00:18:52] foi responsável pelo não cumprimento de alguns acordos

[00:18:57] com as populações árabes da Palestina.

[00:19:01] O mais famoso deles é o Corrido em Deir Yassin,

[00:19:07] em 1947, 48, onde depois do movimento cionista hegemônico

[00:19:12] ter produzido um acordo com as populações das vilas

[00:19:18] que ficam no sul de Jerusalém,

[00:19:21] estou me referindo aqui a Bugós até Deir Yassin,

[00:19:25] que hoje é o sul de Jerusalém,

[00:19:27] a saída para Mevassar Edson.

[00:19:29] Esses grupos rompem com o acordo e praticam

[00:19:32] alguns massacres de civis palestinos.

[00:19:35] A partir da perspectiva de que não é possível

[00:19:39] conviver com eles ou confiar neles

[00:19:41] a partir de uma dimensão racista clara.

[00:19:43] E, de novo, o vínculo deles com o fascismo e com o nazismo

[00:19:47] é um vínculo que a gente vai perceber

[00:19:49] alguns textos importantes escritos naquele momento.

[00:19:52] Essa extrema direita acaba sendo mal vista

[00:19:56] pelos grupos, inclusive da direita jabotinskiana,

[00:19:59] acaba sendo considerada um grupo traidor pela esquerda cionista,

[00:20:04] mas ela não desaparece, ela continua sendo uma referência.

[00:20:09] E, apesar de Beguin não ser parte desse grupo,

[00:20:13] Shamir era e acaba reavaliando.

[00:20:17] O que eu quero dizer é que a extrema direita cionista

[00:20:21] jabotinskiana nunca deixou de estar presente

[00:20:25] no ambiente e no cenário político israelense.

[00:20:29] Então, deixa só para o gancho,

[00:20:32] você está falando de uma coisa que é fascinante,

[00:20:35] que é a conversão do jabotinsk

[00:20:37] de uma figura ligada ao fascismo, umbilicalmente,

[00:20:41] para uma figura liberal.

[00:20:43] Eu quero usar esse gancho justamente para fazer

[00:20:47] o caminho inverso e pensarmos em Benjamin Netanyahu,

[00:20:52] um sujeito que nasce de uma origem moderadamente liberal,

[00:20:56] vamos dizer, mas ele vai caminhando de maneira muito decidida

[00:21:00] para a direita radical, em algum momento até mesmo

[00:21:04] para a extrema direita.

[00:21:06] Então é sobre ele que eu quero fazer essa segunda pergunta.

[00:21:10] Ele já é o primeiro ministro mais longevo da história de Israel.

[00:21:13] E parte dessa capacidade de se manter no poder

[00:21:16] tem a ver com essas transformações políticas ao longo do tempo.

[00:21:20] Hoje há um consenso, entre acadêmicos, inclusive,

[00:21:24] de que Netanyahu é um dos bastiões dessa chamada extrema direita global.

[00:21:30] Ele sempre foi um político de extrema direita?

[00:21:33] Essa é a primeira coisa que eu queria que você avaliasse.

[00:21:36] Como é que se deu essa radicalização?

[00:21:39] E como que ela se relaciona com a ascensão contemporânea

[00:21:43] de um populismo de direita radical mais amplo,

[00:21:46] representado por figuras como Victor Urbano na Hungria,

[00:21:49] Trump nos Estados Unidos e até mesmo Jair Bolsonaro no Brasil?

[00:21:54] Eu tenho que fazer uma confissão.

[00:21:57] Até muito pouco tempo atrás tinha uma certa repulsa

[00:22:02] à perspectiva de biografia política,

[00:22:05] principalmente de biografia familiar.

[00:22:08] Eu tenho pouca relação na minha origem como historiador

[00:22:12] com o que a gente chama de história política

[00:22:15] no sentido do estrito da palavra.

[00:22:17] O meu vínculo é mais com a história social.

[00:22:20] Mas ultimamente eu tenho me aproximado daquilo

[00:22:23] que o grupo do René Ramon chamou de uma nova história política,

[00:22:28] uma tentativa de recuperação inclusive da biografia.

[00:22:31] E eu queria um pouco começar a falar do Netanyahu

[00:22:35] não pelo Benjamin, mas pelo Ben Sion,

[00:22:38] que é uma figura importante. Ben Sion é o pai do Netanyahu.

[00:22:41] E Ben Sion, tal qual o Netanyahu, filho,

[00:22:44] e o Ione, o outro filho,

[00:22:47] eram pertencentes a um grupo que a gente vai chamar aqui

[00:22:50] de grupo liberal dentro do sionismo de direita.

[00:22:53] Se o Jabotinsky começa na direita fascista

[00:22:59] e caminha para o liberalismo,

[00:23:01] é aqui que ele encontra o lugar para hegemonia

[00:23:04] dentro da direita sionista.

[00:23:06] E é aqui que ele produz seguidores,

[00:23:09] é aqui que ele produz um caldo cultural importante.

[00:23:12] Ben Sion Netanyahu estava nesse lugar.

[00:23:15] E Ben Sion Netanyahu, que é um historiador importante,

[00:23:18] um medievalista importante,

[00:23:21] ele esperava ser o sucessor de Jabotinsky.

[00:23:26] Jabotinsky morre de infarte,

[00:23:29] mas não consegue de maneira formal fazer o seu sucessor,

[00:23:35] ele morre na altura dos 40 anos,

[00:23:38] mas ele indica que é Begin e não Ben Sion Netanyahu.

[00:23:43] E aqui produz-se um divórcio gradual.

[00:23:46] Ben Sion vai para os Estados Unidos,

[00:23:48] tem alguns cargos diplomáticos,

[00:23:49] mas fundamentalmente vai ser professor

[00:23:51] e se afasta do centro do poder do sionismo de direita.

[00:23:56] E eu acho que um dos elementos fundamentais

[00:23:59] para a gente entender essa figura absolutamente trágica

[00:24:03] de Benjamin Netanyahu

[00:24:05] é a necessidade que ele tem de dar a resposta ao pai.

[00:24:09] Você diz que ele é o mais longevo,

[00:24:12] ele é o mais longevo em comparação

[00:24:14] com todos os outros primeiros ministros,

[00:24:17] mas tem um fundamental, que é Ben Gurion.

[00:24:21] Tem aqui uma construção de uma narrativa

[00:24:24] na perspectiva de Netanyahu

[00:24:26] de que ele começa uma nova linhagem política

[00:24:30] do sionismo de direita que supere,

[00:24:32] inclusive em termos de tempo,

[00:24:35] no poder o Ben Gurion.

[00:24:38] É por isso que era fundamental para ele

[00:24:40] sair do cenário político

[00:24:42] tendo garantido a maior fase de paz em Israel.

[00:24:46] Paz a partir da perspectiva da direita sionista.

[00:24:49] Por isso que o 7 de outubro para Netanyahu

[00:24:51] é uma quebra fundamental.

[00:24:52] Ele precisa se livrar do 7 de outubro

[00:24:54] em nome de uma memória sobre ele

[00:24:56] que eu acho que é fundamental nessa história.

[00:24:58] O que eu estou propondo é que é fundamental

[00:24:59] a memória familiar de Netanyahu

[00:25:01] para poder entender a figura de Netanyahu.

[00:25:03] Agora você tem razão.

[00:25:04] Netanyahu, em algum momento,

[00:25:06] e aí tem contradições aqui,

[00:25:08] ele era uma figura do liberalismo jabotinskian.

[00:25:12] Aqui eu vou dar um exemplo.

[00:25:14] Em 1996, Netanyahu se aproxima dos acordos de Oslo

[00:25:20] quando respeita os acordos de autonomia de Revron.

[00:25:26] O discurso dele em que ele fala sobre dois estados

[00:25:30] na Universidade de Barilã no início dos anos 2000

[00:25:34] aponta também para uma perspectiva

[00:25:36] de ruptura com o jabotinskianismo tradicional

[00:25:39] de não divisão do território.

[00:25:41] Entretanto, há elementos contraditórios

[00:25:45] que já mostram também nos anos 90

[00:25:47] que Netanyahu aponta para a extrema-direita.

[00:25:50] E se eu falei até agora de uma extrema-direita secular

[00:25:53] jabotinskiana ou pós-jabotinskiana,

[00:25:56] tem um outro elemento fundamental

[00:25:58] que a extrema-direita religiosa já é.

[00:26:01] E ela começa a dar sinais efetivos

[00:26:05] de que ela se fortalece em 1967,

[00:26:10] mas não em junho de 1967, na Guerra dos Seis Dias,

[00:26:15] mas em maio de 1967,

[00:26:17] quando tem uma figura importante na extrema-direita religiosa

[00:26:21] chamada Tzvi e Uda Kuk,

[00:26:24] um rabino que fala que não há nenhum sentido para o Estado de Israel,

[00:26:27] veja bem, nenhum sentido para o Estado de Israel

[00:26:29] a não ser a redenção messiânica do Estado de Israel.

[00:26:33] É por isso que o Uri Ram chama isso de neo-sionismo,

[00:26:37] que tem uma ruptura com o sionismo.

[00:26:39] O sionismo garante que a criação do Estado é um elemento importante.

[00:26:43] O neo-sionismo diz que não é um elemento importante,

[00:26:46] é a redenção do Estado.

[00:26:48] A redenção do Estado se dá pela ocupação dos territórios.

[00:26:51] E ocupação dos territórios é ocupação dos territórios de 1967.

[00:26:55] Tzvi e Uda Kuk falam isso antes da guerra.

[00:26:57] Ele fala que é fundamental ocupar aqueles territórios,

[00:27:00] transformar aqueles territórios em territórios judaicos,

[00:27:03] mantendo a minoria que está lá sem direitos ou expulsando-a.

[00:27:08] Essa perspectiva, essa gramática expansionista

[00:27:13] dentro da criação do Estado,

[00:27:15] não estou falando de expansão na construção do Estado,

[00:27:17] estou falando de expansão já com o Estado consolidado,

[00:27:20] é a perspectiva que vai seduzir importantes grupos da direita sionista secular.

[00:27:25] Ou seja, se a direita sionista secular

[00:27:27] olha para o projeto de Estado com uma perspectiva teoricamente expansionista,

[00:27:34] os religiosos, a direita sionista, o kukismo nesse rabino kuk,

[00:27:39] ela percebe isso como um projeto efetivamente possível.

[00:27:43] É possível e justificável invadir os territórios,

[00:27:47] ocupar os territórios, criar colônias e avançar em direção ao messianismo.

[00:27:51] Por que eu estou falando sobre isso?

[00:27:53] Primeiro porque é importante.

[00:27:54] Essa é a segunda extrema direita sionista.

[00:27:56] A primeira extrema direita sionista é jabotinskiana após jabotinskiana.

[00:27:59] A segunda é kukista.

[00:28:03] E o Nathaniel olha para esses caras com uma certa sedução.

[00:28:07] Então, a relação de Nathaniel com essas figuras,

[00:28:11] junto com setores importantes do licuto,

[00:28:13] mas Nathaniel, a gente está falando sobre ele,

[00:28:15] olha para eles assim, esses caras são o futuro.

[00:28:18] E o vínculo, o flerte,

[00:28:20] o Nathaniel não é originalmente desse lugar.

[00:28:23] Ele não é religioso, o Nathaniel é secular.

[00:28:25] Inclusive, muito secular.

[00:28:27] Mas ele olha para esses caras dizendo que esses caras são o futuro de Israel.

[00:28:32] E a proximidade dele com essas figuras

[00:28:37] é uma proximidade que vai levá-lo gradativamente para a extrema direita.

[00:28:42] E aqui eu vou começar com um caso que é um caso importantíssimo.

[00:28:45] Que é o caso de 1995.

[00:28:49] O assassinato de Irábil.

[00:28:52] Não há nenhum outro político do mainstream israelense

[00:28:59] que tenha se aproximado tanto dos grupos

[00:29:03] que objetivamente falavam do assassinato de Irábil

[00:29:07] como projeto quanto o Nathaniel.

[00:29:10] Nathaniel fez um discurso na famosa varanda na Praça Sion

[00:29:17] em que ele vê as pessoas gritando morte para Irábil

[00:29:21] e olha para as pessoas e acena as pessoas.

[00:29:25] Quem são as pessoas? Os cuquistas.

[00:29:28] Aqueles que são vinculados à perspectiva da ocupação e do messianismo religioso.

[00:29:34] Nathaniel é absolutamente cúmplice desses grupos

[00:29:40] que vão acabar assassinando Irábil.

[00:29:43] Mais do que isso,

[00:29:45] Nathaniel começa a se aproximar dos outros grupos

[00:29:49] que começam a dizer que a esquerda sionista

[00:29:52] é na verdade uma esquerda que trai o povo judeu.

[00:29:56] Quando a gente fala sobre a nova Israel imaginária,

[00:30:00] essas referências muito importantes

[00:30:04] dentro da gramática da extrema direita

[00:30:06] existem em Israel de maneira central já nos anos 90.

[00:30:11] A famosa imagem de Rabin com o uniforme da SS

[00:30:18] ou o enterro simbólico de Rabin,

[00:30:22] isso tudo acontece com alguma frequência

[00:30:25] sob os auspícios de Nathaniel.

[00:30:27] Aqui a gente começa a perceber que Nathaniel está dialogando

[00:30:30] e flertando com a extrema direita messiânica.

[00:30:33] Esse é o primeiro elemento.

[00:30:35] Tem contradições, ele vai e volta.

[00:30:38] O segundo elemento é 96, como eu falei,

[00:30:40] depois do início dos anos 2000.

[00:30:42] Mas ele está o tempo todo com o pé nessa canoa

[00:30:48] e com o pé fora dessa canoa.

[00:30:50] Ou seja, ele está indo para a extrema direita

[00:30:52] mantendo ainda um certo discurso de direita jabotinskiano.

[00:30:58] Fala sobre Oslo ao mesmo tempo

[00:31:00] que rompe completamente com a esquerda

[00:31:03] esse sionista chamando a distraidora.

[00:31:06] Fala sobre dois estados,

[00:31:07] mas impossibilita qualquer solução de dois estados.

[00:31:10] Ele está lá e está cá.

[00:31:12] Michel, muito interessante o destaque

[00:31:14] que você dá a essa dimensão religiosa

[00:31:16] do posicionamento do Nathaniel.

[00:31:18] E a relação dele com os evangélicos,

[00:31:21] tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil,

[00:31:23] em outros lugares do mundo?

[00:31:25] Onde ela entra nessa equação?

[00:31:27] No início dos anos 90,

[00:31:29] quando o presidente do parlamento de Israel,

[00:31:33] uma figura que depois virou um filósofo importante,

[00:31:35] um filósofo político importante,

[00:31:37] que é o Avramburga,

[00:31:39] a Avramburga acusa Nathaniel

[00:31:42] de estar rompendo com o sionismo tradicional

[00:31:47] que vincula o Estado de Israel

[00:31:49] ao movimento nacional judaico

[00:31:51] e se aproximando de uma certa dimensão

[00:31:55] de evangélicos de extrema direita.

[00:31:57] Eu acho que isso aqui é muito importante.

[00:31:59] Nathaniel no início dos anos 90

[00:32:01] rompe, de novo, rompe com contradições,

[00:32:04] mas rompe naquele momento

[00:32:06] com a ideia de que ele representa o povo judeu.

[00:32:08] E aqui ele faz uma certa conversão,

[00:32:12] também aqui,

[00:32:14] que é a conversão do nacionalismo judaico

[00:32:17] em direção a um nacionalismo judaico-cristão,

[00:32:21] nos termos que Ronilson Pacheco usa.

[00:32:24] E aí ele começa a se aproximar

[00:32:26] de uma certa extrema direita,

[00:32:28] principalmente dos Estados Unidos,

[00:32:30] representando nesse lugar, nos anos 90,

[00:32:32] a ideia de que Israel não é mais o Estado judeu,

[00:32:35] é um Estado da civilização judaico-cristã.

[00:32:38] Ele fala sobre isso, ele escreve sobre isso.

[00:32:40] Tem um livro dele em que ele aponta isso.

[00:32:42] Então aqui eu acho que,

[00:32:44] e de novo, com contradições,

[00:32:45] é a aproximação efetiva dele

[00:32:47] com o nacionalismo cristão dos Estados Unidos

[00:32:50] e a ruptura dele com o sionismo de esquerda.

[00:32:54] E a última fase dessa ruptura

[00:32:56] é quando, e aí eu falei sobre dois grupos,

[00:33:01] o jabotinscanismo de extrema direita,

[00:33:04] o cuquismo.

[00:33:05] E tem um terceiro grupo que vem do cuquismo,

[00:33:08] que é o grupo chamado de carranismo.

[00:33:11] É um grupo estadunidense,

[00:33:14] é um grupo criado por um rabino

[00:33:17] que nasceu nos Estados Unidos, em Nova York,

[00:33:20] chamado Meir Kahane.

[00:33:22] E a lógica desse grupo

[00:33:24] é uma lógica conspiracionista

[00:33:26] de que a esquerda, no mundo,

[00:33:28] ela é profundamente anti-semita,

[00:33:30] radicalmente anti-semita,

[00:33:32] e ela quer destruir o povo judeu.

[00:33:34] Então ele organiza,

[00:33:36] a partir de alguns enfrentamentos nos Estados Unidos,

[00:33:41] principalmente em Nova York,

[00:33:43] principalmente no bairro de Crown Heights, no Brooklyn,

[00:33:46] ele organiza um grupo de autodefesa judaico

[00:33:52] em que promove a ideia

[00:33:54] de que judeus e negros são inimigos radicais,

[00:33:57] promove a ideia

[00:33:58] de que judeus e árabes são inimigos radicais,

[00:34:00] promove a ideia

[00:34:01] de que a autodefesa é fundamental

[00:34:03] para a sobrevivência dos judeus no mundo,

[00:34:05] e promove a ideia de que o modelo dele

[00:34:08] é fazer isso em Israel,

[00:34:10] ou seja, expulsar os árabes de Israel.

[00:34:13] Então o carranismo,

[00:34:15] e aí o Meir Kahane vai para Israel,

[00:34:18] e promove um partido político,

[00:34:20] que é o partido político

[00:34:22] cuja base fundamental é a garantia

[00:34:25] da expansão da colonização

[00:34:27] nos territórios de 1967

[00:34:29] e a expulsão dos árabes daquela região.

[00:34:33] A ruptura dele com o cuquismo

[00:34:35] é que a relação dele

[00:34:37] é já com uma perspectiva

[00:34:40] de extrema-direita estadunidense e europeia,

[00:34:44] utilizando vínculos profundos

[00:34:47] com o anti-semitismo dos Estados Unidos,

[00:34:51] chamando-o de aliado,

[00:34:53] porque ele está falando também

[00:34:55] sobre conspiração de esquerda.

[00:34:57] Então você tem três grupos.

[00:34:59] O jabotismo-escanismo de direita,

[00:35:02] de extrema-direita,

[00:35:04] o cuquismo, do tzvi-euda-cu,

[00:35:06] e o terceiro grupo é o carranismo.

[00:35:08] Eu diria que Netanyahu,

[00:35:10] a partir da imagem de vínculo profundo

[00:35:13] com uma liderança

[00:35:15] que quer retomar para o licudo,

[00:35:18] para o revisionismo

[00:35:20] a importância histórica

[00:35:22] de que o pai dele tinha que ter tido,

[00:35:24] ele passa por esses três grupos.

[00:35:26] Então ele se vincula nos anos 90

[00:35:28] a um certo grupo radical extremista no licudo.

[00:35:32] Depois ele flerta radicalmente

[00:35:35] com o cuquismo de extrema-direita,

[00:35:38] do tzvi-euda-cu,

[00:35:39] e nos últimos anos ele chama para o debate,

[00:35:42] ele legitima o carranismo,

[00:35:45] porque o Rav Meir Kahane foi assassinado

[00:35:48] há 35 anos atrás, nos anos 90,

[00:35:50] mas ele tem seguidores,

[00:35:53] e os seguidores eram vistos por serem muito racistas,

[00:35:56] eram vistos pelo establishment israelense

[00:36:00] como um grupo não legítimo.

[00:36:02] Pois bem, Bibi Netanyahu os chama para dançar,

[00:36:06] os coloca dentro do governo,

[00:36:08] e hoje o discurso de Netanyahu

[00:36:10] em Israel e no mundo

[00:36:12] é um discurso tipicamente carranista.

[00:36:17] Agora, Michel,

[00:36:18] tem essa questão que é não apenas uma modificação

[00:36:22] das imaginações sobre o próprio Israel,

[00:36:26] os efeitos dessas mutações ou depurações,

[00:36:30] enfim, o que seja,

[00:36:31] do ponto de vista da extrema-direita israelense,

[00:36:34] mas também como isso estabelece um eco,

[00:36:37] um eco muito presente globalmente

[00:36:40] e particularmente na realidade brasileira.

[00:36:42] Em um artigo em cultoria

[00:36:45] com a colega Misha Klein

[00:36:47] da Universidade de Oklahoma,

[00:36:49] vocês chamaram a palestra do então

[00:36:51] pré-candidato Bolsonaro na Hebraica

[00:36:54] em 3 de abril de 2017 no Rio de Janeiro

[00:36:58] de Aquela Noite,

[00:37:00] a noite que redefiniu a relação entre judeus brasileiros

[00:37:03] e a política nacional.

[00:37:05] Você, inclusive, costuma atentar esse evento

[00:37:08] como uma das pedras angulares do bolsonarismo,

[00:37:11] como um fenômeno político mais articulado

[00:37:14] e com um poderio político mais efetivo.

[00:37:17] Diante disso, gostaríamos de ouvir

[00:37:21] sobre três aspectos desse processo.

[00:37:23] A relação da comunidade judaica com o bolsonarismo,

[00:37:26] a relação do bolsonarismo com Israel

[00:37:29] e a apropriação dos símbolos judaicos israelenses

[00:37:34] pela extrema-direita brasileira.

[00:37:36] Eu costumo chamar não de apropriação,

[00:37:39] mas de colonização.

[00:37:41] E a diferença entre apropriação e colonização

[00:37:43] explica talvez o segundo ponto que você perguntou.

[00:37:46] Porque o que eu percebo é um vínculo profundo

[00:37:50] e aqui a comunidade judaica…

[00:37:52] Quando falo comunidade judaica não estou me referindo a judeus,

[00:37:54] estou me referindo às instituições judaicas

[00:37:56] que supostamente representam a comunidade judaica.

[00:37:59] A comunidade judaica institucional brasileira

[00:38:02] é muito diferente, por exemplo,

[00:38:05] do que acontece na Argentina e nos Estados Unidos.

[00:38:08] Porque tem uma dimensão

[00:38:11] de unicidade representativa,

[00:38:15] ou seja, as entidades judaicas são elas que representam

[00:38:19] e não há possibilidade de diversidade representativa.

[00:38:23] E o segundo elemento tem um vínculo muito forte

[00:38:26] com aquilo que Monica Green chama nos anos 90,

[00:38:30] num trabalho que ela fez,

[00:38:32] de se-onistificação da comunidade judaica.

[00:38:35] Nesse sentido, numa gramática da política comunitária

[00:38:40] judaica é impossível ser judeu e não ser sionista.

[00:38:46] Isso é diferente dos Estados Unidos.

[00:38:48] Nos Estados Unidos é possível ser judeu e não ser sionista.

[00:38:51] Ou melhor ainda, é possível ser judeu e ser sionista

[00:38:55] de maneira diferente.

[00:38:57] E o que acontece no Brasil é que quem está promovendo

[00:39:01] e indicando os sinais e a sinalização

[00:39:05] do que é ser sionista ou não é o governo de turno.

[00:39:08] Ou seja, em algum sentido, e aí tem alguns trabalhos sobre isso,

[00:39:13] mas a comunidade judaica brasileira assume a ideia de Israel

[00:39:19] como uma espécie de guia para a identidade judaica no Brasil.

[00:39:26] Isso é muito mais radical do que acontece em outros lugares,

[00:39:31] como eu já citei, os Estados Unidos e a Argentina,

[00:39:35] onde não é o governo de turno e muito menos o projeto sionista

[00:39:39] que vai possibilitar a construção de uma identidade judaica local.

[00:39:44] E é por isso que acho que é importante falar sobre colonização,

[00:39:47] porque os símbolos judaicos não foram apropriados pela extrema-direita.

[00:39:52] Eles foram utilizados em parceria pela extrema-direita

[00:39:57] e por setores da direita judaica brasileira.

[00:40:00] A bandeira de Israel representa uma perspectiva judaico-cristã,

[00:40:07] civilizatória, branca, armada, etc.

[00:40:12] E isso é a definição de Judeu Imaginário,

[00:40:16] justamente porque ela dá conta de questões internas do Brasil

[00:40:22] e que são questões confortáveis para a comunidade judaica.

[00:40:25] E aqui eu poderia ir longe, pena que a gente tenha pouco tempo,

[00:40:29] mas acho que a ideia do Brasil como país do futuro,

[00:40:32] a ideia do Brasil como um lugar onde a identidade original

[00:40:36] importa menos do que o destino,

[00:40:39] em que a noção de passado é menos importante do que a noção de futuro,

[00:40:44] e aqui estamos em inversão em relação a quase todos os países do mundo,

[00:40:48] onde o mito fundacional é o mito do futuro e não o do passado,

[00:40:51] dava ao judeu brasileiro um lugar de conforto.

[00:40:55] Afinal de contas, a ideia de vínculo com vítimas históricas

[00:41:01] estava muito consolidada pelos judeus.

[00:41:04] Os judeus são vítimas do holocausto junto com os negros,

[00:41:07] que tem o racismo aqui, que não é exatamente o racismo orgânico,

[00:41:11] o Brasil não é um país racista pela perspectiva da democracia racial,

[00:41:15] mas o que acontece nos anos 2000,

[00:41:18] o que tem alguns vínculos, o primeiro é a eleição de Lula,

[00:41:22] o segundo é, antes da eleição de Lula, a conferência de Dharma,

[00:41:26] o terceiro é a adoção de quotas raciais,

[00:41:28] isso desorganiza a noção do Brasil como país do futuro,

[00:41:32] e aí coloca o judeu num lugar desconfortável,

[00:41:36] porque o judeu deixa de ser a vítima histórica do Ocidente

[00:41:39] e passa a ser branco no Brasil, é percebido como branco.

[00:41:44] É claro que aqui tem alguns elementos importantes também,

[00:41:47] como por exemplo o lugar de Israel,

[00:41:49] no início dos anos 2000, está num elemento muito importante de segunda enchifada,

[00:41:54] de retrocesso dos acordos de Oz.

[00:41:57] Então tudo isso junto aqui coloca o judeu brasileiro num lugar

[00:42:02] que é um lugar de desconforto e num lugar de aposta na direita.

[00:42:06] É claro, Fernando e Ricardo Oso e Lula, no primeiro governo,

[00:42:11] foram parceiros na construção dessa ruptura

[00:42:14] com o imaginário de futuro como mito fundacional do Brasil.

[00:42:18] Nessa perspectiva, a alternativa a isso,

[00:42:21] e aqui vocês me permitem, eu estou falando muito mais sobre o Brasil,

[00:42:24] do que qualquer outra coisa,

[00:42:26] nessa perspectiva esse vínculo entre PSDB e IPT

[00:42:31] produziu a impressão numa certa perspectiva conservadora

[00:42:36] de que o Brasil estava caminhando para a esquerda,

[00:42:39] não importa quem seja,

[00:42:41] e aqui nasce uma possibilidade, uma alternativa,

[00:42:45] de uma extrema direita brasileira.

[00:42:47] O que eu estou propondo é que,

[00:42:49] diferente das extremas-direitas periféricas dos anos 90,

[00:42:53] negacionistas do holocausto, etc.,

[00:42:56] há uma nova extrema direita que nasce para ser central nos anos 2000.

[00:43:01] E a gente pode falar sobre a palestra do Bolsonaro em 2017,

[00:43:05] mas eu acho fundamental falar sobre a palestra do Olavo de Carvalho,

[00:43:09] também hebraica, em 2004.

[00:43:11] E essa palestra do Olavo de Carvalho, hebraica, em 2004,

[00:43:14] é uma palestra que acontece não no clube vazio do Rio de Janeiro,

[00:43:17] mas no clube cheio de São Paulo.

[00:43:20] 2004, auge do governo Lula.

[00:43:23] 2004, alguns anos depois da conferência de Daman.

[00:43:27] 2004, o debate sobre cotas e intervenção racial

[00:43:33] no espaço público brasileiro está no auge.

[00:43:35] 2004, Israel está sendo considerado um país

[00:43:39] que pratica violência contra os palestinos.

[00:43:41] 2004, você tem uma percepção de novos vínculos,

[00:43:45] novas alianças entre os judeus, entre a comunidade judaica

[00:43:50] e uma direita que se revolta contra isso tudo.

[00:43:53] E essa direita não é a direita do PSDB histórico,

[00:43:58] é uma extrema direita que está na boca de Olavo de Carvalho.

[00:44:01] O discurso de Olavo de Carvalho,

[00:44:04] eu proponho que quem nos ouve agora,

[00:44:07] vai escutar o discurso de Olavo de Carvalho.

[00:44:09] O que Olavo de Carvalho traz, Odilon,

[00:44:12] no final da fala dele no discurso debraica,

[00:44:15] simplesmente a fala de um seguidor do carrana,

[00:44:19] do carranismo, Rabino Antelman,

[00:44:23] que na verdade é uma racha à direita do carranismo.

[00:44:27] O que eu quero dizer é que não dá para entender

[00:44:30] o discurso do Bolsonaro em 2017

[00:44:33] sem entender o discurso do Olavo de Carvalho em 2004,

[00:44:37] porque há referências muito radicalmente próximas

[00:44:41] entre um e outro.

[00:44:43] O que eu proponho, quando analiso os dois discursos no livro,

[00:44:48] tanto o do Olavo quanto o do Bolsonaro,

[00:44:51] mas quando analiso esses dois discursos,

[00:44:53] o que eu proponho é que há aqui

[00:44:56] um letramento de extrema direita.

[00:44:58] A gente não vai ter tempo de falar sobre isso,

[00:45:01] mas eu acho que a extrema direita,

[00:45:04] a extrema direita filossemita parte de uma ruptura

[00:45:09] com o negacionismo do holocausto.

[00:45:11] O negacionismo do holocausto perde o lugar nos anos 2000

[00:45:14] por causa de um debate público entre David Irving

[00:45:18] e Deborah Lipstadt no contexto de um julgamento.

[00:45:21] E aí você tem um recuo do negacionismo do holocausto

[00:45:25] e o avanço de uma perspectiva filossemita

[00:45:28] e de branquitude armada na figura de Israel

[00:45:31] como elemento de representação política da extrema direita.

[00:45:35] É nesse contexto que acontece o discurso

[00:45:39] do Olavo de Carvalho nebraica em 2004.

[00:45:41] E é nesse contexto que acontece

[00:45:44] o discurso do Bolsonaro nebraica em 2017.

[00:45:47] Qual o contexto?

[00:45:48] O contexto de que ele não pode ser acusado de nazista,

[00:45:51] porque ele está fazendo discurso nebraica do Rio de Janeiro,

[00:45:55] de que ele pode utilizar de maneira absolutamente clara

[00:45:58] um discurso de extrema direita,

[00:46:00] diferente do que ele fazia antes.

[00:46:02] E aqui eu brinco que o subterrâneo ocupou o espaço

[00:46:06] do andar de cima no discurso do Bolsonaro.

[00:46:09] Ele fala sobre raças boas e raças ruins,

[00:46:12] o famoso discurso em que ele fala sobre quilombolas,

[00:46:18] falando que eles não podem…

[00:46:20] Tem uma gramática tipicamente racista

[00:46:23] e eu diria inclusive nazista nesse discurso.

[00:46:26] É aplaudido em pé pelos judeus que estavam lá nebraica.

[00:46:32] Eu acho duas coisas.

[00:46:34] Primeiro, eu acho que aqui há uma mudança.

[00:46:37] A política nacional, a partir da eleição de 2017,

[00:46:40] começa a ter um candidato de extrema direita

[00:46:43] num clube judaico do Rio de Janeiro.

[00:46:47] E o segundo elemento é o elemento fundamental

[00:46:50] de que a comunidade judaica…

[00:46:52] De novo, eu me refiro à comunidade judaica institucional.

[00:46:55] Tinha judeus na porta debraica fazendo manifestações

[00:46:58] chamando Bolsonaro de nazista.

[00:47:00] Foi a primeira manifestação pública

[00:47:02] em que Bolsonaro é tratado como nazista,

[00:47:04] a manifestação na porta debraica.

[00:47:06] Mas judeus de dentro debraica, institucionalmente,

[00:47:10] eles emprestam, cedem, dão os seus símbolos

[00:47:16] para serem utilizados em parceria com a extrema direita.

[00:47:19] É por isso que não há aqui um debate

[00:47:21] sobre instrumentalização ou sobre apropriação.

[00:47:24] Há um debate sobre colonização.

[00:47:26] E como qualquer colonização,

[00:47:28] setores importantes dos grupos colonizados

[00:47:32] abrem mão da sua identidade exclusiva

[00:47:36] para compartilhar com os grupos colonizadores.

[00:47:40] Eu acho que isso tem muito vírgula com o que eu falei

[00:47:43] sobre Nathaniel nos anos 90,

[00:47:45] quando ele começa a abrir mão de uma identidade judaica

[00:47:48] em nome de uma identidade judaico-crista,

[00:47:50] o que acontece no Brasil nos anos 2000

[00:47:53] e 2004 e 2017 no mesmo sentido,

[00:47:56] Olavo e Bolsonaro no mesmo sentido,

[00:47:59] os judeus brasileiros também abrem mão

[00:48:01] de uma identidade judaica

[00:48:03] em nome de uma identidade judaico-crista.

[00:48:05] E aqui é muito importante porque no Brasil,

[00:48:08] e a gente vai ver isso depois com Trump nos anos…

[00:48:11] Agora, na atual,

[00:48:13] depois do processo eleitoral e no processo eleitoral,

[00:48:16] Trump acabou de falar que quem vota em Mandane,

[00:48:19] judeu que vota em Mandane é burro,

[00:48:22] ignorante, etc.

[00:48:24] Eu acho que aqui é uma definição sobre o que é ser judeu

[00:48:28] produzida por Olavo de Carvalho e por Bolsonaro

[00:48:31] que é muito incorporada pela comunidade judaica.

[00:48:34] A comunidade judaica institucional se vê mais à vontade

[00:48:38] ao lado de cristãos de direita do que judeus de esquerda.

[00:48:42] Eu acho que isso passa a ser atônica

[00:48:45] em outras comunidades religiosas e culturais no Brasil,

[00:48:49] mas acho que a compreensão desse vínculo ideológico e cultural,

[00:48:54] ideológico e político, não mais cultural e étnico,

[00:48:58] é fundamental para entender o que acontece depois nos Estados Unidos,

[00:49:02] na França, na Argentina, como elei, na Hungria,

[00:49:06] a ideia de que é uma nova comunidade judaica a incendente,

[00:49:11] que ela não é mais somente judaica,

[00:49:13] ela é judaica e cristã nos marcos de uma perspectiva política,

[00:49:17] ideológica e não mais cultural e étnica.

[00:49:19] Acho que o Brasil é um excelente lugar para entender o processo que levou a isso.

[00:49:23] Michel, o ataque terrorista do Ramás no dia 7 de outubro de 2023

[00:49:29] está associado, segundo dados produzidos por organizações judaicas

[00:49:33] no Brasil e no mundo, a um crescimento vertiginoso do antisemitismo.

[00:49:38] Em paralelo, políticos de direita e de extrema-direita

[00:49:41] vêm buscando criar meios de ampliar e institucionalizar

[00:49:45] o conceito de antisemitismo baseando-se na definição

[00:49:49] da International Holocaust Remembrance Association, a IHRA.

[00:49:56] A gente, inclusive, recebeu no nosso primeiro episódio da parceria

[00:50:00] do OID com Chutana Escada o Carlos Reis,

[00:50:03] que é o diretor do Museu do Local de Curitiba,

[00:50:05] com quem você teve um debate na Folha de São Paulo

[00:50:08] sobre a decisão do governo Lula de sair da aliança,

[00:50:12] que foi uma aliança que o governo Bolsonaro se juntou lá em 2021.

[00:50:16] Então eu, pegando esse contexto, e até sugiro aos nossos ouvintes

[00:50:20] que escutem esse primeiro episódio também,

[00:50:22] que fala sobre o símbolo do extremismo

[00:50:24] para a gente poder fazer esse diálogo,

[00:50:26] mas a sua reflexão no seguinte sentido, Michel,

[00:50:30] a gente está assistindo nesse momento, no Brasil e no mundo,

[00:50:34] a uma instrumentalização do conceito de antisemitismo

[00:50:39] e quais são os pontos de atenção nesse processo,

[00:50:42] pensando tanto a direita,

[00:50:45] quer dizer, como a direita vem mobilizando esse conceito,

[00:50:47] mas também a esquerda, como a esquerda vem, enfim,

[00:50:52] navegando nessas questões também que têm a ver com o antisemitismo

[00:50:56] e o preconceito contra os judeus e a islamofobia também,

[00:50:59] o reboque disso, quer dizer, como é que a gente vê

[00:51:02] tudo que aconteceu depois do 7 de outubro

[00:51:05] a partir da perspectiva da polarização política

[00:51:08] e da radicalização política no Brasil.

[00:51:10] E se você quiser também pensar no mundo, fique à vontade.

[00:51:13] A primeira pergunta é se a gente está vendo

[00:51:15] um crescimento vertiginoso de antisemitismo.

[00:51:18] É uma pergunta que a gente tem que fazer,

[00:51:20] porque…

[00:51:22] E aí, eu estou conversando com vocês

[00:51:25] algumas semanas depois do evento trágico da Matança

[00:51:31] que aconteceu aqui no Rio de Janeiro no complexo da Penha.

[00:51:36] Por que eu estou me referindo a isso?

[00:51:38] Porque eu estou vendo pesquisas que são em termos numéricos,

[00:51:44] em termos de análise de dados absolutamente sérias,

[00:51:47] mas em termos de definição elas carecem

[00:51:51] de uma perspectiva qualitativa de melhor qualidade.

[00:51:53] Você não vai perguntar para uma pessoa que mora naquele lugar

[00:51:57] o que ela acha do que aconteceu,

[00:52:00] pensando que ela vai dar uma resposta sincera

[00:52:02] e não produzida por uma subjetividade de medo e vingança.

[00:52:06] O que eu quero dizer, com todo o cuidado que eu tenho que falar isso,

[00:52:11] mas eu acho que a manipulação dos dados de pesquisa é um tema importante.

[00:52:19] Eu queria colocar isso.

[00:52:21] Eu sou um judeu público no Rio de Janeiro.

[00:52:23] Todo mundo sabe que eu sou judeu no prédio.

[00:52:25] E aqui eu estou fazendo o contrário do que eu falei que ia fazer.

[00:52:28] No prédio, na faculdade, etc.

[00:52:31] Eu tenho que dizer, todo mundo sabe, eu não estou vendo.

[00:52:37] Eu estou vendo sim um desconforto profundo com o que Israel fez em Gaza.

[00:52:44] Eu estou vendo uma denúncia profunda de genocídio.

[00:52:48] Eu estou vendo profundamente vínculos radicais

[00:52:51] entre o que Netanyahu e seu governo falam com discursos típicos do nazismo.

[00:52:58] Por exemplo, discursos de Ben-Gvir em relação aos palestinos

[00:53:02] são muito próximos de discursos de uma gramática nazista específica.

[00:53:07] Isso está sendo o contrário do que aconteceu nos anos 90.

[00:53:11] É possível hoje, com inteligência artificial e alguma facilidade,

[00:53:14] você traduzir para português um discurso do Ben-Gvir

[00:53:18] e colocar uma rede social efetivamente no que ele falou.

[00:53:21] Isso vai produzir uma reação terrível.

[00:53:23] Agora, se qualquer acusação de genocídio,

[00:53:31] de que o governo Netanyahu governa com práticas fascistas,

[00:53:36] qualquer acusação anti-cionista, por mais radical que seja,

[00:53:40] seja considerado anti-semitismo,

[00:53:42] a gente tem o aumento vertiginoso do anti-semitismo.

[00:53:45] Mas isso vincula o judeu à figura de Netanyahu.

[00:53:51] O judeu do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Brasília, de juiz de fora,

[00:53:55] à figura de Netanyahu.

[00:53:57] E aí isso produz anti-semitismo de verdade.

[00:53:59] Você está entendendo a questão?

[00:54:01] A questão não é só que tem instrumentalização no sentido objetivo da palavra.

[00:54:08] Você utiliza o conceito de anti-semitismo para calar debates públicos.

[00:54:13] Isso há.

[00:54:14] Quando eu disse que o que acontece em Gaza é genocídio,

[00:54:17] eu fui acusado de ser anti-semitista. Isso há.

[00:54:19] Quando alguém faz uma manifestação pro-palestina,

[00:54:22] ele é acusado de ser anti-semitista.

[00:54:23] Mas tem um efeito colateral que eu não sei se é não esperado ou esperado,

[00:54:28] que é uma profecia que se autocumple.

[00:54:31] Que a ideia de que qualquer crítica a Israel mais radical,

[00:54:37] qualquer crítica a Netanyahu mais radical,

[00:54:39] qualquer acusação de genocídio,

[00:54:41] é considerado anti-semitismo.

[00:54:45] Por quem?

[00:54:46] Pelas estruturas que definem o que é anti-semitismo,

[00:54:49] como por exemplo a Ira.

[00:54:50] Ora, se a acusação a Israel é anti-semitismo,

[00:54:56] e se falar que há genocídio anti-semitismo,

[00:54:59] isso vai produzir anti-semitismo de fato.

[00:55:02] E aqui tem dois elementos.

[00:55:03] O primeiro elemento é o efeito colateral que isso afeta

[00:55:08] a comunidade judaica na diáspora, no Brasil, nos Estados Unidos e tal.

[00:55:13] Isso afeta também a própria definição de anti-semitismo.

[00:55:17] Porque anti-semitismo é um fenômeno que acompanha a modernidade,

[00:55:21] é um fenômeno seríssimo,

[00:55:22] e que se você fulaniza, se você banaliza,

[00:55:28] se você trata tudo como anti-semitismo, nada é anti-semitismo.

[00:55:31] E se nada é anti-semitismo, o anti-semitismo sai do armário de verdade.

[00:55:35] Então a pergunta primeira é se esse aumento excessivo de anti-semitismo realmente existiu.

[00:55:42] E se ele existiu, é importante saber quais as motivações dele.

[00:55:46] O que eu estou propondo é que muito desses elementos

[00:55:50] são um efeito absolutamente vinculado à instrumentalização

[00:55:57] do anti-semitismo pela extrema-direita.

[00:56:00] E aí eu tenho que dizer uma coisa importante.

[00:56:03] A esquerda, pelo menos a esquerda mais radicalizada, a esquerda menos crítica,

[00:56:10] acaba sendo levada por esse processo de extrema-direita.

[00:56:14] Ela acaba definindo a inexistência de anti-semitismo

[00:56:17] e acaba atacando os judeus no escampo.

[00:56:21] Porque ela faz aquilo que a extrema-direita define que ela faça,

[00:56:25] ou seja, considerar que há um vínculo profundo entre judeus e Israel.

[00:56:31] Não só tem instrumentalização, tem uma ressignificação do anti-semitismo

[00:56:37] produzida pela extrema-direita que acaba colonizando os setores da esquerda.

[00:56:41] Isso é muito grave, é muito grave.

[00:56:44] Então se Israel serviu nos anos 40 do século XX para defender os judeus do anti-semitismo,

[00:56:54] hoje Israel está sendo utilizado para instrumentalizar

[00:56:59] a categoria de anti-semitismo pela extrema-direita do mundo.

[00:57:02] Então assim, a vitória de Mandane em Nova Iorque

[00:57:09] é relacionada não com o custo alto dos aluguéis,

[00:57:15] não com a necessidade dos noviorquinos de comprar coisas nas groceries, nada disso.

[00:57:23] É responsabilidade do ódio anti-semitismo.

[00:57:26] Ou seja, você tem 48% ou 49% dos noviorquinos que votam por ser anti-semitistas.

[00:57:33] Então aqui você na verdade banaliza o anti-semitismo,

[00:57:36] produz a instrumentalização do anti-semitismo e enfraquece a categoria sociológica,

[00:57:41] tendo como categoria a categoria denuncista.

[00:57:43] Não é casual que justamente os candidatos e os políticos de extrema-direita no Brasil e no mundo

[00:57:51] sejam aqueles que estão acusando tudo que se move e que ataca Israel como anti-semitista.

[00:57:57] Ou seja, o anti-semitismo passou a ser uma categoria para silenciar os que atacam a direita no mundo.

[00:58:04] Em mais uma etapa dessa parceria entre o Observatório da Estrela Direita e o podcast Chutando na Escada,

[00:58:11] a gente realizou um importante debate e uma importante aula do Michel aqui.

[00:58:18] Lembrando que na continuação do episódio teremos dicas culturais e também análises de notícias e de conjuntura.

[00:58:27] Mas mais do que isso, Michel, muito obrigado pela sua presença, muito obrigado pelo seu diálogo e pela participação.

[00:58:33] Contem comigo, eu que agradeço a vocês.

[00:58:36] Valeu, Michel!

[00:58:48] Pessoal, vamos falar das notícias dessa primeira e agitadíssima semana do mês de novembro.

[00:59:02] Pelo menos nessa semana a gente vai ver que quase todas as manchetes nos levam aos Estados Unidos e ao governo Trump.

[00:59:10] Vamos primeiro fazer uma turnê rápida pela Europa.

[00:59:12] A matéria da NBC News 8 de novembro mostra que o governo Trump,

[00:59:18] depois de ter imposto novas sanções ao petróleo russo, a empresas de petróleo da Rússia,

[00:59:24] concedeu à Hungria de Viktor Orbán, um aliado ideológico de longa data,

[00:59:30] uma isenção especial das sanções energéticas contra a Rússia.

[00:59:36] A Hungria é um grande importador de energia rússia e as sanções acabavam pressionando muito a economia do país,

[00:59:44] de modo que o governo americano deu um ano de isenções às sanções russas para a Hungria,

[00:59:51] para poder permitir que a Hungria siga importando o petróleo da Rússia e mantenha,

[00:59:56] como celebrou Viktor Orbán, o primeiro húngaro na sua rede social,

[01:00:01] mantenha a Hungria como país de mais baixos preços de energia na Europa.

[01:00:07] A matéria do Washington Post de nove de novembro fala da Greta Thunberg do mundo invertido,

[01:00:14] a Naomi Saibt, de 25 anos, que é uma das maiores influenciadoras de extrema direita da Alemanha.

[01:00:22] E ela apareceu nas manchetes dessa semana porque ela está buscando asilo político nos Estados Unidos

[01:00:28] sob o argumento de que ela está sendo perseguida na Alemanha em função das suas convicções.

[01:00:34] Ela acusa a agência doméstica de inteligência da Alemanha de estar a perseguindo,

[01:00:40] ela apoia temas de anti-imigração, apoia o partido AFD, que é o partido de extrema direita hoje da Alemanha,

[01:00:48] ou de direita radical, e o fato de ela ter preenchido um pedido de asilo nos Estados Unidos

[01:00:55] fala não só sobre a condição política da Alemanha e essa radicalização que a Naomi Saibt representa,

[01:01:03] mas também diz muito sobre o governo Trump, que já criticou, inclusive, as restições da liberdade de expressão na Europa

[01:01:12] por meio do seu vice-presidente J. Lee Vence, no começo do mandato,

[01:01:16] e que tem oferecido cada vez mais possibilidades e alternativas para os chamados refugiados brancos,

[01:01:23] sejam eles da Europa ou da África do Sul, para irem para os Estados Unidos e poderem usufruir

[01:01:29] das suas plenas liberdades na terra da liberdade.

[01:01:33] Então, isso aconteceu essa semana também, vale a pena acompanhar.

[01:01:38] Notícia da Belga News Agency do dia 10 de novembro,

[01:01:42] fala da formação de um novo partido de extrema direita na Bélgica, na Bélgica francófona,

[01:01:50] um novo partido que se chama Trump. Trump seria a sigla por, vou falar num francês aqui que eu posso,

[01:01:57] to reunir por la union des mouvements populistes, que é basicamente todos juntos ou todos reunidos

[01:02:05] pela união dos movimentos populistas, que é a fusão de partidos como o Chenou e o Afro-Nacional Belga,

[01:02:14] que são partidos que já tem uma história no país.

[01:02:17] O fundador e o líder desse novo partido, Trump, é o Salvatore Nicotra, que já participou da fonte nacional,

[01:02:25] e o partido tem também o político Emmanuel Licari, que foi do partido Vlams Belang, em Bruxelas,

[01:02:35] mas que foi expulso do partido depois de ter falado abertamente a favor do fascismo.

[01:02:41] Segundo Nicotra, que é o presidente do partido, essa sigla Trump não é coincidência,

[01:02:46] já que Trump é o símbolo do populismo e o Trump representa imediatamente aquilo que esse partido quer defender nesse momento.

[01:02:58] Agora indo para o Brasil, a imprensa brasileira noticiou, no dia 6 de novembro,

[01:03:03] uma carta enviada pelo governo Trump ao secretário de segurança do Rio de Janeiro.

[01:03:08] E nessa carta, a agência de repressão às drogas, que é a Drug Enforcement Administration dos Estados Unidos,

[01:03:13] expressa condolências à trágica morte de quatro policiais durante a Operação Contenção,

[01:03:19] que foi, como a gente sabe, a operação mais letal da história da polícia no Brasil.

[01:03:25] Essa manifestação do governo americano vem depois de uma série de eventos que começam lá com o senador Flávio Bolsonaro

[01:03:35] pedindo bombardeios americanos na Baía de Guanabara para acabar com o narcotráfico no Rio.

[01:03:41] Depois, uma tentativa que inclusive foi levada ao Congresso brasileiro de equiparar narcotráfico e terrorismo,

[01:03:49] o que abriria um grande precedente e perigoso precedente nessa tipificação de crimes.

[01:03:57] Então, enfim, é um contexto em que os Estados Unidos têm utilizado essa nomenclatura de narcoterrorismo

[01:04:05] para poder ter mais liberdade de ação, inclusive de ações intervencionistas em vários países do mundo,

[01:04:13] recentemente inclusos aí Colômbia e Venezuela.

[01:04:17] E vale a pena ler nesse sentido sobre tanto a Operação Contenção, a sua letaridade,

[01:04:23] a conexão com os Estados Unidos, um texto escrito pelo professor da UFRJ, Tiago Rodrigues,

[01:04:30] na Cata Capital do dia 5 de novembro, chamado Não Existe Narcoterrorismo no Brasil.

[01:04:36] Um texto muito interessante para falar justamente desse perigo, desse risco que há na construção de um nexo

[01:04:44] entre o terrorismo e a questão do narcotráfico.

[01:04:49] E por fim, a gente chega nos Estados Unidos repercutindo aqui uma matéria da agência Reuters do dia 7 de novembro

[01:04:56] que fala sobre a vitória eleitoral dos democratas em várias eleições locais ao redor dos Estados Unidos

[01:05:03] e como elas colocam em xeque as políticas anti-imigração e anti-DEI, que é diversidade, equidade e inclusão

[01:05:11] que o Trump vem defendendo desde a campanha do ano passado.

[01:05:15] E aí essa matéria traz justamente as vitórias democratas recentes.

[01:05:20] A Abigail Spamberger venceu para governadora da Virgínia,

[01:05:25] a Mike Sherrill venceu para governadora do estado de Nova Jersey,

[01:05:29] o prefeito de Nova York, Zoram Mamdani, foi eleito também numa grande renovação do Partido Democrata,

[01:05:37] ele que é muçulmano e que tem aí uma disputa com o Trump.

[01:05:42] Em outros estados, como na Califórnia, Mississipi, Cabo Lino do Sul, a gente teve eleições locais também

[01:05:48] que os democratas saíram vitoriosos, o que pode significar nesse momento uma mudança do pêndulo político

[01:05:55] nos Estados Unidos que também vale a nossa atenção.

[01:06:18] E a dica cultural desse episódio fica com o filme The Order, ou A Ordem, de 2024 disponível no Prime Video.

[01:06:27] O enredo desse filme é um enredo bem interessante.

[01:06:30] Ele narra uma investigação do FBI sobre esse grupo, A Ordem,

[01:06:35] que disseminava o supremacismo branco, organizava milícias de características antigovernamentais,

[01:06:44] envolvia desde valores do campo do neonazismo internacional como do fundamentalismo religioso cristão.

[01:06:53] É muito interessante porque isso nos auxilia a entender e interpretar não apenas o universo da extrema direita estadunidense das últimas décadas,

[01:07:03] mas também as particularidades do fenômeno neonazista.

[01:07:08] E os Estados Unidos é um dos grandes polos de produção e de novidades desse cenário.

[01:07:16] Sem cometer muitos spoilers, acho que é interessante mencionar que muitas das atuações desse grupo estão orientadas em um famoso livro conspiracionista,

[01:07:26] um romance, digamos assim, do terrorismo da extrema direita que é o diário de Turner.

[01:07:31] E tem também uma grande novidade, trazida por esse grupo, já não tão novidade,

[01:07:37] que era a tentativa de ataque às instalações do Capitólio.

[01:07:42] Então vejam, é um filme que nos auxilia a entender esse universo tão diversificado da extrema direita estadunidense,

[01:07:51] mas também como que algumas dessas ideias que antes eram mais restritas, alguns grupeiros do neonazismo, do neo-fascismo e assim por diante,

[01:08:01] acabam sendo ecoadas na extrema direita mais recente, inclusive nesses grupos efetivamente campistas.

[01:08:10] Então a dica é o filme A Ordem.

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