Especial de Recesso - Lado B Revista #08 - Mulheres trans no esporte
Resumo
O episódio discute a inclusão de mulheres trans no esporte, partindo da experiência pessoal da atleta amadora e militante Dani Nunes. A conversa aborda como o esporte pode ser uma ferramenta de inclusão social, mas também um campo de disputa política, especialmente com a ascensão da extrema-direita.
Dani Nunes relata sua própria trajetória no handball, destacando como o esporte foi fundamental para sua socialização e sobrevivência, mas também como a transfobia se manifesta nesse ambiente. Ela analisa como o debate sobre a participação de atletas trans é instrumentalizado por grupos conservadores sob o pretexto da “ciência”, embora, na realidade, seja uma questão política e de transfobia estrutural.
O episódio examina casos emblemáticos, como o da jogadora de vôlei Tiffany Abreu e o ataque da extrema-direita brasileira, contextualizando-o no cenário político pós-2016. Dani critica a omissão de parte da esquerda e de movimentos feministas na defesa das atletas trans, apontando para a existência de um “pacto da cisgeneridade” que atravessa espectros ideológicos.
A discussão também aborda a interseccionalidade do tema, relacionando-o com racismo, machismo e a patologização de corpos que fogem ao padrão, como no caso da boxeadora argelina Imane Khelif. Por fim, Dani enfatiza a urgência de uma mobilização política ampla para garantir direitos e visibilidade para pessoas trans em todas as esferas da sociedade, incluindo o esporte.
Indicações
People
- Erika Hilton — Deputada federal trans citada como uma figura fundamental que levou o debate sobre pessoas trans para dentro dos lares brasileiros, rompendo com a lógica da marginalização.
- Bira (Canal O Algoritmo da Imagem) — Criador de conteúdo mencionado por Dani como uma inspiração, que defende análises com ‘menos emoção e mais razão’ e discute a realidade social do país.
- Cida Bento — Autora do conceito do ‘pacto da branquitude’, cuja obra Dani estudou e expandiu para pensar em um ‘pacto da cisgeneridade’.
- Imane Khelif — Boxeadora argelina, medalhista de ouro olímpica e pessoa intersexo, que foi alvo de ataques da extrema-direita mundial, servindo de exemplo para discutir interseccionalidade e patologização de corpos.
Podcasts
- Feminismo Negro no Esporte — Coletivo e podcast do qual Dani faz parte, onde já entrevistou a atleta intersexo Ieda dos Santos (‘Idina Sy’), discutindo as violências sofridas por atletas que fogem do padrão.
Linha do Tempo
- 00:01:20 — Apresentação do tema e da convidada Dani Nunes — Caio Belandi apresenta o episódio especial sobre mulheres trans no esporte e convida Dani Nunes, atleta amadora e militante LGBTI+, para a conversa. Ele contextualiza o debate, mencionando como a inclusão de atletas trans enfrenta desafios que vão além das quadras e é usado pela extrema-direita para validar narrativas excludentes.
- 00:04:56 — O debate internacional e o uso político da ciência — Caio pergunta a Dani sobre o estado do debate internacional nas federações esportivas. Dani responde partindo de sua experiência pessoal como “objeto da pesquisa”, relembrando como o esporte a salvou na adolescência. Ela argumenta que o debate não é sobre ciência, mas sobre transfobia e a conjuntura política de ascensão da ultradireita, que usa o tema para ganhar seguidores.
- 00:13:46 — O caso Tiffany Abreu e a ascensão da extrema-direita no Brasil — Caio menciona o caso da jogadora de vôlei Tiffany Abreu como marco do debate no Brasil, em um contexto de ascensão do bolsonarismo. Dani analisa como a extrema-direita se estrutura a partir de discursos de pânico moral e pós-verdade, atacando pessoas trans enquanto ignora problemas sociais reais. Ela cita o exemplo hipócrita da jogadora Tandara, que atacou Tiffany mas foi pega em doping.
- 00:27:38 — A omissão da esquerda e o pacto da cisgeneridade — Dani discute sua pesquisa de mestrado sobre a omissão de parlamentares progressistas na defesa de atletas trans no Congresso. Ela critica a falta de feministas e marxistas nas audiências públicas sobre o tema e introduz o conceito de “pacto da cisgeneridade”, que une pessoas cis de diferentes espectros ideológicos, marginalizando pessoas trans mesmo em espaços supostamente progressistas.
- 00:36:19 — Interseccionalidade: o caso Imane Khelif e a patologização de corpos — Caio levanta o caso da boxeadora argelina Imane Khelif, uma pessoa intersexo atacada pela extrema-direita. Dani explica como a biologia é usada de forma reducionista (a ideia de que só existem cromossomos XX e XY) para atacar corpos que fogem do padrão. Ela conecta isso ao machismo, à misoginia e à xenofobia, mostrando como a busca por um padrão estético e corporal é imposta pela direita.
- 00:47:41 — Conclusão: a urgência da mobilização e a visibilidade no esporte — Dani faz um apelo final, afirmando que a omissão também mata e que é preciso ação imediata. Ela e Caio refletem sobre a importância do esporte como ferramenta de visibilidade para pessoas trans, que muitas vezes são confinadas à marginalidade ou à sexualização. Dani destaca a importância de figuras como Erika Hilton e convoca a audiência a se politizar e apoiar criadores de conteúdo do campo progressista.
Dados do Episódio
- Podcast: Lado B do Rio
- Autor: Central 3 Podcasts
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2025-12-30T03:00:08Z
- Duração: 00:55:57
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/lado-b-do-rio/20e7d0d0-4d5c-0134-ec0b-0d50f522381b/especial-de-recesso-lado-b-revista-08-mulheres-trans-no-esporte/6c7392a5-b37a-4280-a381-243997bf2614
- UUID Episódio: 6c7392a5-b37a-4280-a381-243997bf2614
Dados do Podcast
- Nome: Lado B do Rio
- Tipo: episodic
- Site: https://www.central3.com.br/category/podcasts/lado-b-do-rio/
- UUID: 20e7d0d0-4d5c-0134-ec0b-0d50f522381b
Transcrição
[00:00:00] O podcast que você ouve agora é uma produção da Central 3.
[00:00:30] Bom momento, ouvintes da Central 3.
[00:00:35] Eu sou Caio Belandi, chegando para um Lado B do Rio especial.
[00:00:39] Estamos de recesso até a última semana de janeiro.
[00:00:44] Mas, para a gente não deixar vocês morrendo de saudade,
[00:00:46] preparamos uma série de episódios do Lado B Revista
[00:00:49] para publicar aqui no feed de podcast.
[00:00:53] O Lado B Revista, para quem não conhece,
[00:00:55] é uma espécie de spin-off do Lado B do Rio exclusivo para o YouTube.
[00:01:00] Ele foi ao ar em duas temporadas.
[00:01:02] De julho de 2024 a junho de 2025,
[00:01:06] teve apoio do escritório Normando Rodrigues Advogados.
[00:01:10] Hoje você fica com o episódio 8,
[00:01:12] uma conversa com a atleta amadora e militante LGBTI+,
[00:01:16] sobre as mulheres trans no esporte, Dani Nunes.
[00:01:20] O programa foi ao ar em outubro de 2024
[00:01:22] e é apenas um dos 18 episódios do Lado B Revista.
[00:01:26] Se você gostar, e a gente faz votos que você goste,
[00:01:29] assista todos no youtube.com.br Lado B do Rio.
[00:01:33] Obrigado e bom programa.
[00:01:35] Quando a gente pensa em esporte,
[00:01:36] pensamos em uma ferramenta de inclusão social transformadora.
[00:01:40] Seja o esporte de alto nível,
[00:01:42] que pode salvar a vida das pessoas sem perspectivas,
[00:01:46] seja o esporte amador,
[00:01:48] sempre atuando para a melhora de índices de saúde física e mental.
[00:01:52] Mas não é para todo mundo que o esporte é acolhedor.
[00:01:55] A inclusão de atletas trans enfrenta desafios
[00:01:58] que vão além das suas vidas.
[00:01:59] Esquadras, campos e piscinas.
[00:02:02] Sob a conveniente tutela da ciência,
[00:02:04] ou mesmo passando por cima dela,
[00:02:07] o debate da inclusão de pessoas trans tem sido usado
[00:02:09] por grupos da extrema direita mundial
[00:02:11] para validar narrativas excludentes,
[00:02:14] criando nas atletas trans um inimigo a ser combatido
[00:02:17] com todas as armas mais baixas disponíveis.
[00:02:21] O Brasil, claro, está presente nesse debate.
[00:02:25] A jogadora de vôlei Tiffany Abreu, há alguns anos,
[00:02:28] iniciou essa contenda em um contexto de ascensão da extrema direita
[00:02:32] e da figura de Jair Bolsonaro.
[00:02:35] A mazela é tamanha que mesmo mulheres cis, fora do padrão,
[00:02:39] ou atletas intersexo, sofrem da transfobia,
[00:02:42] pauta primordial dos fascistas
[00:02:44] sob o manto de uma falaciosa ideologia de gênero.
[00:02:49] Quais os limites da ciência nesse assunto?
[00:02:52] Como a extrema direita utiliza das atletas trans
[00:02:55] para atacar os direitos das pessoas transgênero,
[00:02:58] e, por isso, não é só a atleta que tem que ser atacada,
[00:02:58] como a esquerda está se mobilizando para garantir a inclusão
[00:03:01] de pessoas trans no esporte?
[00:03:04] Para ajudar a gente a responder essas e outras questões sobre o tema,
[00:03:07] o Lado B Revista recebe Dani Nunes, atleta trans amadora,
[00:03:12] suplente de vereador no Rio
[00:03:13] e mestrando em Relações Étnico-Raciais do Cefete.
[00:03:17] Dani, demorou bastante, eu sei, peço perdão,
[00:03:20] porque eu já queria falar com você muito antes.
[00:03:23] Para quem não sabe, a Dani é minha amiga,
[00:03:24] a gente estudou junto lá no NPC,
[00:03:27] já queria…
[00:03:28] Eu queria bater esse papo com ela,
[00:03:29] porque eu acho que é um assunto primordial.
[00:03:31] E obrigado por ter aceitado esse convite,
[00:03:33] a gente ter conseguido aí ajeitar a agenda.
[00:03:35] Bem-vinda.
[00:03:36] Ah, cara, eu agradeço.
[00:03:39] Confesso que eu não ia ver…
[00:03:42] Ia fazer um doce.
[00:03:43] Eu ia fazer um doce, gente.
[00:03:45] Ó, confidências.
[00:03:47] Mas eu confesso que, ao longo da minha vida, né,
[00:03:50] eu recebi poucos convites.
[00:03:52] E dizer não é algo muito doído e doloroso para mim.
[00:03:58] Então, por isso que eu fiz questão de vir aqui,
[00:04:01] de não aguardar mágoas, né, porque…
[00:04:03] Sem ciúmes.
[00:04:05] Não, sem ciúmes.
[00:04:05] A gente trouxe todo mundo, menos eu.
[00:04:07] Olha isso.
[00:04:09] Tá, chegou a tua hora.
[00:04:09] Mais chegou antes tarde do que nunca.
[00:04:12] E dessa vez, a gente vai trazer o Grêmio, o Wemio,
[00:04:16] qualquer coisa que estiver valendo para podcast,
[00:04:20] a gente vai trazer internacional.
[00:04:22] E é isso, obrigado.
[00:04:23] Obrigado mesmo.
[00:04:23] Antes da gente entrar no assunto de hoje,
[00:04:26] a gente vai convidar todos e todas que estão nos vendo,
[00:04:28] e que não estão inscritos no canal,
[00:04:31] a se inscrever.
[00:04:31] É muito importante que você se inscreva.
[00:04:33] É muito importante deixar seu like aqui também no vídeo,
[00:04:36] ativar as notificações.
[00:04:37] E a gente quer te ouvir.
[00:04:38] Deixa seu feedback.
[00:04:40] Você pode dizer o que está achando desse programa.
[00:04:41] Esse programa é recente, tem algumas semanas só.
[00:04:44] O que a gente pode melhorar, sugerir pautas, convidados.
[00:04:47] Enfim, a gente conta com vocês
[00:04:48] para deixar esse lado do BRVista ainda melhor
[00:04:51] e com ainda mais acesso para vocês, porque é fundamental.
[00:04:55] Dani, vamos ao que interessa.
[00:04:56] Eu queria que você me explicasse como é que está o debate atual,
[00:04:59] internacionalmente, em termos de federações, países,
[00:05:04] quanto à questão científica.
[00:05:06] E aí, acho que é importante a gente deixar claro,
[00:05:09] um parêntese fundamental antes de entrar nesse assunto,
[00:05:12] que a ciência parece, às vezes, mas ela não é neutra.
[00:05:16] Historicamente, a extrema-direita, quando convém,
[00:05:18] tenta usar essa carta e clama pela biologia
[00:05:21] para impor suas pautas.
[00:05:23] Esquece até da Bíblia e fala da biologia.
[00:05:25] Sim.
[00:05:25] Sim.
[00:05:25] Sim.
[00:05:25] Sim.
[00:05:25] Sim.
[00:05:25] Sim.
[00:05:25] Sim.
[00:05:26] Sim.
[00:05:26] Sim.
[00:05:26] Sim.
[00:05:26] Sim.
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[00:05:26] Sim.
[00:05:26] Sim.
[00:05:27] Sim.
[00:05:27] Sim.
[00:05:27] Sim.
[00:05:27] Sim.
[00:05:27] Sim.
[00:05:27] Sim.
[00:05:27] Sim.
[00:05:27] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:28] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
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[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:29] Sim.
[00:05:30] Sim.
[00:05:30] Sim.
[00:05:30] Sim.
[00:05:30] Sim.
[00:05:30] Sim.
[00:05:30] Sim.
[00:05:30] Sim.
[00:05:30] Sim.
[00:05:30] Sim.
[00:05:30] Sim.
[00:05:30] Sim.
[00:05:30] ela é só mais um elemento para colocar no debate.
[00:05:33] Então eu queria que você começasse explicando para a gente
[00:05:35] como as organizações do esporte têm debatido nesse sentido
[00:05:40] a presença de pessoas trans nas modalidades.
[00:05:44] Enfim, se permitem, se não permitem, as questões dos testes,
[00:05:49] quais federações e quais esportes estão mais avançados.
[00:05:52] Vamos dar um debate-champo para a nossa audiência nesse primeiro tema.
[00:05:55] Sim. Primeiro, cabe ressaltar aqui que eu não sou uma profissional
[00:06:00] de educação física, e quando eu começo a pautar este assunto,
[00:06:09] eu estava assessora parlamentar de uma deputada federal,
[00:06:11] e aí eu consigo descobrir que esse tema surgiu na Comissão de Esportes
[00:06:19] da Câmara dos Deputados.
[00:06:21] E aí, por eu ter sido atleta,
[00:06:25] antes da transição, e depois ter voltado a jogar,
[00:06:31] eu vi no meu corpo uma diferença substancial
[00:06:35] de quando eu era atleta para depois da transição.
[00:06:39] Então, aí eu posso estar te afirmando que eu sou o objeto da pesquisa.
[00:06:48] E em relação à ciência, e aí cabe ressaltar também que eu,
[00:06:54] na minha adolescência,
[00:06:55] por eu ser uma elfa do deserto, uma lebre alada, uma sereia da mata,
[00:07:06] a minha única forma de socializar foi por meio do esporte,
[00:07:10] onde eu praticava handball, e eu comecei por volta dos 11, 12 anos,
[00:07:17] e ali eu consegui ser alguém na sociedade,
[00:07:21] e conforme o tempo foi passando, eu descobri o porquê que eu não era…
[00:07:25] que eu não era convidada para fazer trabalho na casa das minhas amigas,
[00:07:29] para dormir na casa delas, por conta da LGBTfobia.
[00:07:34] Então, isso, conforme eu fui avançando nos meus estudos,
[00:07:41] eu fui percebendo que o esporte me salvou,
[00:07:44] inclusive o meu técnico no ensino médio,
[00:07:49] ele, quando viu as pessoas, porque a gente treinava junto,
[00:07:53] meninos com as meninas,
[00:07:55] na época de testes, porque tinham um ou dois, não me lembro se eram…
[00:08:01] eram até três testes,
[00:08:03] e aí ele queria selecionar quem ia fazer parte do time,
[00:08:08] e ele via as pessoas caçoando de mim,
[00:08:11] fazendo todo aquele alvoroço, né,
[00:08:15] aquele bullying contra a minha pessoa,
[00:08:19] e na semana seguinte, né, que daria o resultado,
[00:08:21] eu chego no horário e estava todo mundo lá,
[00:08:25] e eu vejo ele ao longe da quadra, assim, dando esporro em todo mundo,
[00:08:30] só que eu não entendo.
[00:08:32] No dia seguinte, ele vai, me chama, me tira da sala,
[00:08:36] e eu falo assim, isso no ensino médio,
[00:08:38] eu estudei numa escola técnica particular, né, lá na ETERJ,
[00:08:45] e o nome dele é Silvio, né, infelizmente ele não está mais presente aqui,
[00:08:50] e era um homem branco, da educação física, de meia idade,
[00:08:54] e ele chega lá e fala assim,
[00:08:55] ele chegou e falou o seguinte,
[00:08:58] que as pessoas de lá,
[00:09:02] que quisessem fazer parte do time,
[00:09:06] teriam que me aceitar,
[00:09:07] porque a única vaga garantida que tinha era a minha,
[00:09:11] eles teriam que me aceitar, me respeitar e tudo mais,
[00:09:13] então eu gosto de trazer esses elementos,
[00:09:17] porque naquela época, 2003, né,
[00:09:23] um homem com esse perfil,
[00:09:25] de predador da sociedade,
[00:09:27] ter essa atitude fez muita diferença na minha vida,
[00:09:31] inclusive para eu poder estar aqui falando sobre esse assunto, né,
[00:09:35] que eu não abordo numa parte mais técnica, né,
[00:09:40] utilizando as ciências biológicas, né, da saúde,
[00:09:46] e sim a ciência política,
[00:09:48] porque eu fui vendo ao longo das duas audiências públicas que tiveram,
[00:09:54] porque eu fui vendo ao longo das duas audiências públicas que tiveram,
[00:09:54] porque eu fui vendo ao longo das duas audiências públicas que tiveram,
[00:09:55] e lendo as proposições de leis, né,
[00:09:59] os projetos de leis que não se tratava sobre ciência,
[00:10:03] era transfobia, era terraplanismo,
[00:10:07] era tudo isso que eles descontavam em cima de pessoas, né,
[00:10:14] em vulnerabilidade,
[00:10:16] para se crescerem e aumentarem a sua horda, né,
[00:10:21] de seguidores que pensam, exatamente,
[00:10:24] exatamente como eles
[00:10:26] então eu descobri que não se tratava
[00:10:28] sobre ciência
[00:10:29] porque até então os estudos
[00:10:33] do COI
[00:10:34] não surgiram num bar
[00:10:36] numa conversa de amigos
[00:10:38] como a gente está tendo
[00:10:39] foram mais de 10 anos
[00:10:42] estudando, vendo
[00:10:44] os prós e os contras e lembrando
[00:10:46] que esses estudos de gênero
[00:10:49] são bem
[00:10:50] antigos, mulheres
[00:10:52] cisgêneras eram
[00:10:54] condicionadas a exames vestatórios
[00:10:56] onde ficavam nua
[00:10:58] onde tinham que abrir as pernas
[00:11:00] ficarem de quatro para uma banca
[00:11:02] de médico
[00:11:03] isso não surgiu agora
[00:11:06] isso vem de muito antes
[00:11:08] então
[00:11:09] por isso que eu afirmo
[00:11:12] que não se trata sobre
[00:11:14] ciência, se trata
[00:11:16] do momento atual que a gente
[00:11:18] está vivendo, da conjuntura política
[00:11:20] da
[00:11:21] ultradireita em
[00:11:24] ascensão
[00:11:24] onde eles acreditam
[00:11:27] que a terra é plana
[00:11:29] onde eles não têm
[00:11:32] propostas para
[00:11:34] a diminuição
[00:11:36] da desigualdade na sociedade
[00:11:38] e a gente viu recentemente
[00:11:40] nas eleições que a pessoa
[00:11:41] mais bem votada de São Paulo
[00:11:44] tinha como pautas
[00:11:46] a proibição de banheiro
[00:11:47] para as pessoas trans
[00:11:49] ou seja, a preocupação dele
[00:11:51] não era erradicar
[00:11:53] a fome
[00:11:54] colocar mais hortas
[00:11:57] ou melhorar
[00:11:59] a educação
[00:12:01] não, a preocupação dele era
[00:12:03] saber se as trans iriam fazer
[00:12:05] o número um ou o número dois
[00:12:07] ou outras coisas
[00:12:08] isso
[00:12:11] demonstra
[00:12:13] muito sobre essa questão
[00:12:16] trans no esporte
[00:12:17] porque eu fui vendo
[00:12:19] que
[00:12:20] embora a casa, a câmara dos
[00:12:23] deputados aqui
[00:12:24] tenha
[00:12:27] pessoas técnicas
[00:12:29] que estudem e falem
[00:12:31] afirmavam que não era
[00:12:33] da alçada deles
[00:12:34] legislar
[00:12:37] sobre isso porque
[00:12:38] a Constituição
[00:12:41] no seu artigo 217
[00:12:44] fala sobre
[00:12:45] a autonomia das entidades esportivas
[00:12:48] a lei Pelé
[00:12:50] que agora foi reformulada pela lei geral do esporte
[00:12:53] garantindo as entidades esportivas
[00:13:00] fazerem as suas regras
[00:13:03] as suas normativas
[00:13:05] e tudo mais
[00:13:06] mesmo assim
[00:13:07] eles quiseram comprar essa briga
[00:13:09] e
[00:13:11] o resultado das federações
[00:13:13] das confederações
[00:13:15] lá fora
[00:13:16] se dar muito ao atual
[00:13:18] no momento político
[00:13:21] porque como você falou
[00:13:23] Em nome da ciência, por exemplo, pessoas negras eram consideradas inferiores, a ciência atestava isso, ou seja, a ciência é um campo em disputa, você vai para um lado, vai para o outro, e ela não encerra, como a gente falou lá no começo, ela não encerra esse debate, ela é apenas um elemento, inclusive utilizado pela extrema direita nesse caso, porque convém.
[00:13:46] — Dani, você já começou a falar sobre a extrema direita aqui no Brasil e eu quero entrar nesse assunto agora. O debate começa a esquentar aqui com a Tiffany, a Tiffany Abreu, jogadora de vôlei, considerada a primeira atleta trans a se profissionalizar pelo Bauru em 2017, ou seja, a gente está falando de um contexto muito marcante, político, social, que é o pós-golpe em Dilma e já ali na ascensão da extrema direita e do Jair Bolsonaro.
[00:14:15] E, portanto, a gente está falando de um momento onde o ataque às pessoas trans é ainda mais feroz do que antes aos direitos mais básicos das pessoas trans, quanto mais nas atletas.
[00:14:30] E aí eu queria que você falasse, você participou desse debate nas instâncias de parlamento, institucionais, mas também nas redes, né? Como é que se formou essa rede da extrema direita no Brasil atacando as pessoas trans?
[00:14:45] E aí eu queria que você falasse, você participou desse debate nas instâncias de parlamento, institucionais, mas também nas redes, né? Como é que se formou essa rede da extrema direita no Brasil atacando as pessoas trans?
[00:15:15] E aí eu queria que você falasse, você participou desse debate nas instâncias de parlamento, institucionais, mas também nas redes, né? Como é que se formou essa rede da extrema direita no Brasil atacando as pessoas trans?
[00:15:45] E aí eu queria que você falasse, você participou desse debate nas instâncias de parlamento, institucionais, mas também nas redes, né? Como é que se formou essa rede da extrema direita no Brasil atacando as pessoas trans?
[00:16:15] E aí eu queria que você falasse, você participou desse debate nas instâncias de parlamento, institucionais, mas também nas redes, né? Como é que se formou essa rede da extrema direita no Brasil atacando as pessoas trans?
[00:16:45] E aí eu venho pesquisando sobre temas da pós-verdade, né? Que as pessoas, elas não, em grande parte, elas não verificam as fontes daquilo que elas recebem, então por isso que acaba acreditando que o pulmão da Tiffany é maior do que, sabe? Então, sem tirar um raio-x.
[00:17:15] O pulmão da Tiffany vai ser maior do que uma pessoa de um metro e cinquenta, ela tendo um metro e noventa, né? Então, inclusive esses discursos negacionistas, esses discursos onde as pessoas vão pelo caminho mais fácil é reproduzido porque quem estudou educação física.
[00:17:40] Sim.
[00:17:45] O máximo que eles fazem ali é estudar um pouquinho os anabolizantes que eles podem estar indicando, ó, eu não tô generalizando, né? Mas muitos fazem, né, indicação de substâncias impróprias pro corpo justamente pra obter vantagens, né?
[00:18:08] Então…
[00:18:15] Então, o cenário político do Brasil e o Brasil tem as especificidades, né, como racismo à brasileira, né, que as próprias vítimas do racismo, né, não conseguem compreender que são vítimas, porque acreditam que racismo é só ser chamado de macaco.
[00:18:41] E aí a gente vê, né, recentemente aquela…
[00:18:45] Influência com o sobrenome de achocolatado, né, a gente vê isso, né, ela reproduzindo toda a opressão que ela sofreu antes de acender nas outras pessoas, né, deixou de ganhar o Pink Money e agora tá ganhando a Bala Money, né, porque o que vem de hoje são esses discursos de ódio.
[00:19:14] Sim.
[00:19:14] E a política, ela tá enraizada, institucional, ela tá enraizada com esses discursos.
[00:19:20] E nós vimos nas eleições municipais a ascensão da extrema-direita e da direita justamente por conta desses discursos, né?
[00:19:31] Eles são estruturados pra isso, né?
[00:19:32] Sim, e porque a preocupação deles é se mulheres cisgêneras vão ser atacadas por mulheres trans dentro do banheiro.
[00:19:44] Onde é o maior índice de feminicídio?
[00:19:50] Quem comete?
[00:19:52] Os abusos infantis, os estupros.
[00:19:56] Quem comete?
[00:19:59] Então, o verdadeiro perigo, ele tá dentro da casa das pessoas.
[00:20:04] Mas como se tem uma cortina de fumaça e como é vendável ter o discurso…
[00:20:14] O discurso do bem contra o mal…
[00:20:16] E quem tá na roda hoje são as pessoas trans, que a gente não vê servindo um cafezinho no balcão de uma padaria.
[00:20:28] E quando a gente vê a Tiffany ascendendo, saindo da marginalização da prostituição, né, conseguindo sobreviver, né, ter o seu salário, né?
[00:20:44] o seu trabalho digno com o esporte, outros discursos vão surgindo.
[00:20:50] Ah, mas está tirando o lugar de uma mulher cisgênera.
[00:20:54] Como se tivessem milhares e dezenas de mulheres trans que puderam burlar o estigma,
[00:21:03] a convenção social de que a prostituição tem que ser o meio da subsistência, da sobrevivência,
[00:21:13] recebe esses reis.
[00:21:16] E aí vão surgindo outros cenários, como o pânico moral,
[00:21:24] que eu falei anteriormente, das pessoas estarem mais preocupadas com espantalhos,
[00:21:30] com ataques de mulheres trans que a gente não vê no noticiário todos os dias,
[00:21:37] atacando senhoras, mulheres, crianças indefesas dentro do banheiro.
[00:21:41] Não é?
[00:21:42] Não.
[00:21:43] Mas quase todos os dias a gente vê um caso de feminicídio no jornal,
[00:21:47] a gente vê um caso de abuso, de estupro, que não são cometidos por essas pessoas.
[00:21:55] Mas a maior preocupação não é saber se 100 milhões de pessoas estão sem saneamento básico,
[00:22:03] estão sem água, estão com esgoto dentro da própria casa.
[00:22:08] Isso não importa.
[00:22:09] O que importa é se a mulher…
[00:22:13] A mulher trans vai fazer o número 1 ou o número 2.
[00:22:16] E a coisa é tão estruturada e convém a tal ponto,
[00:22:20] é tão baixa e é tão estruturada,
[00:22:23] e politicamente tem sido se tornado tão viável, né?
[00:22:27] Que a gente viu, por exemplo, uma jogadora de alto nível,
[00:22:31] mulher cis, atacando a Tiffany, né?
[00:22:36] Sob o pretexto da biologia, da ciência,
[00:22:40] e ela caiu no doping.
[00:22:42] Ah, isso.
[00:22:43] De uma forma…
[00:22:44] Ou seja, você vê como a ciência é utilizada de fato ao prazer dela, né?
[00:22:51] E assim, porque leva vantagem, porque biologicamente é diferente,
[00:22:55] mas ela lá, biologicamente, se transformando numa pessoa mais forte.
[00:23:00] Também achei bastante sintomático, né?
[00:23:03] O caso da Tandara, a gente tá falando da Tandara, né?
[00:23:05] Muito sintomático, porque assim, é muita cara de pau, né?
[00:23:08] A pessoa se topar, enfim…
[00:23:11] Entre outras coisas.
[00:23:13] Tem outras coisas dela aí que também foram meio estranhas aí do clube dela e tal.
[00:23:16] Sim.
[00:23:16] E ela achar que ela moralmente tá acima de uma pessoa trans,
[00:23:20] só porque ela é uma mulher cis.
[00:23:22] Sim.
[00:23:23] E ela saiu candidata, né?
[00:23:25] Sim.
[00:23:26] A vereadora pelo partido do…
[00:23:31] do Bolsonaro, né?
[00:23:34] E ela teve menos votos que o Marquito.
[00:23:37] Pelo menos isso.
[00:23:38] Né?
[00:23:38] E aí…
[00:23:40] Pois é.
[00:23:42] Só que…
[00:23:42] Isso é o supra-sumo do bolsonarismo, né?
[00:23:47] Porque a gente precisa começar a diferenciar a direita,
[00:23:54] porque existem pessoas de direita que eu convivo, né?
[00:23:58] Eu, por ser uma pessoa política,
[00:24:01] eu preciso ter relações com o máximo de pessoas possíveis,
[00:24:06] mas o extremismo, né?
[00:24:10] Que leva o bolsonarismo e o marxismo,
[00:24:12] o salismo…
[00:24:13] É.
[00:24:15] É o que é o problema.
[00:24:17] Porque uma pessoa que foi pega num exame antidoping,
[00:24:22] que acusa a outra de ter vantagem,
[00:24:24] sendo que ela tava tendo vantagens.
[00:24:27] E o pior é que o caso dela é tão específico
[00:24:29] que ela nem rendeu naqueles Jogos Olímpicos.
[00:24:32] Pois é, nem rendeu com nada.
[00:24:33] Como a Marcia Fudiz, né?
[00:24:35] Eu nunca fui banco.
[00:24:36] A time melhorou depois que ela saiu.
[00:24:37] Isso, nunca fui banco, né?
[00:24:39] Então, assim, eu não sei se é alto rendimento ou não.
[00:24:41] Pior que é meio, bem lembrado.
[00:24:42] Mas, assim, é pra gente ver o quanto é enraizada a hipocrisia.
[00:24:51] E a coisa da performance, né?
[00:24:52] Do discurso, do formato, da estética também, né?
[00:24:56] E a estética, ela vem antes do conteúdo, né?
[00:24:59] Pois é.
[00:25:00] A forma vem antes do conteúdo.
[00:25:03] Então, por exemplo, a gente vê a Michelle Bolsonaro.
[00:25:07] Ela foi preparada e vem sendo preparada
[00:25:11] pra ser uma figura avante, né?
[00:25:15] Desse segmento.
[00:25:18] Porque muitas mulheres cisgêneras querem ser igual a ela, esteticamente.
[00:25:23] E muitos homens, cisgêneros ou não, desejam ter uma mulher igual a ela.
[00:25:29] Sim.
[00:25:30] Então, a gente está falando sobre esporte,
[00:25:34] mas a gente precisa ver que o esporte, ele não é separado das outras questões sociais.
[00:25:40] Principalmente a política institucional.
[00:25:41] Porque eu venho falando, né, na minha trajetória, recentemente fui candidata, né?
[00:25:49] Que o que a gente odeia não se chama política.
[00:25:54] Tem outro nome, a politicagem, a corrupção, a rachadinha.
[00:25:58] A gente precisa colocar esse espinho nos is.
[00:26:00] Porque a nossa omissão é a arma mais potente que eles usam contra a gente.
[00:26:05] E a gente precisa invadir a política institucional
[00:26:09] e protagonizar.
[00:26:11] E protagonizá-la.
[00:26:13] Só que, infelizmente, existe no nosso campo progressista democrático,
[00:26:21] mais progressista, mais de esquerda,
[00:26:24] uma competição.
[00:26:27] As pessoas querem ser Pokémon.
[00:26:29] Querem evoluir sozinha, ao invés de ser Power Rangers.
[00:26:33] E montar um Megazord, né?
[00:26:34] Onde todo mundo consegue destruir um mal comum.
[00:26:40] Isso…
[00:26:41] Corta e passa tanto pela questão do esporte,
[00:26:46] quanto da política institucional.
[00:26:47] Falando sobre isso,
[00:26:50] é um assunto que você costuma abordar nas suas reflexões, né?
[00:26:52] Que é uma certa omissão de parlamentares, ativistas de esquerda,
[00:26:57] progressistas, enfim, como a gente possa chamar,
[00:27:00] nesse assunto.
[00:27:01] E aí, principalmente, considerando o pacto de branquitude,
[00:27:03] você fala muito sobre, né?
[00:27:05] A gente considerar a interseccionalidade, né?
[00:27:08] Sobre heteronormatividade também.
[00:27:10] Enfim, como é que você…
[00:27:11] Avalia a extrema-direita atacando as pessoas trans
[00:27:16] na forma das atletas trans e em outras formas.
[00:27:20] Como é que você tem avaliado a militância nesse campo da esquerda,
[00:27:24] como você falou?
[00:27:25] Dos movimentos, né?
[00:27:26] Movimentos e grupos sociais que defendem isso.
[00:27:32] E também dessa esquerda, digamos assim, mais branca,
[00:27:35] homens, cis.
[00:27:37] Como é que você analisa isso?
[00:27:38] Tem…
[00:27:39] Falar um pouco sobre essa omissão,
[00:27:41] ou essa disputa.
[00:27:42] Queria que você falasse um pouco mais sobre.
[00:27:44] É, né?
[00:27:45] Eu, quando eu fiz o meu projeto de mestrado,
[00:27:48] eu coloquei o título
[00:27:49] A Omissão que Mata.
[00:27:51] A ausência de parlamentares do campo progressista
[00:27:54] na defesa de mulheres trans atletas
[00:27:57] no Congresso Nacional, na Câmara dos Deputados,
[00:28:01] no período de 2019 a 2023.
[00:28:04] Aí eu fiz até um erro de cálculo, né?
[00:28:06] Porque o período legislativo terminava em 2022.
[00:28:09] Mas foi bom porque eu pego…
[00:28:11] Eu peguei um ano de Erika Hilton e Duda Salaberti, né?
[00:28:15] Pra poder fazer essa análise.
[00:28:17] E durante as audiências públicas que tiveram sobre esse debate,
[00:28:23] a gente não viu as feministas lá.
[00:28:29] A gente teve a presença do incrível David Miranda,
[00:28:35] mas ele não pôde participar.
[00:28:37] Porque tava acontecendo na segunda audiência, né?
[00:28:39] Porque tava acontecendo na segunda audiência, né?
[00:28:40] Porque tava acontecendo na segunda audiência, né?
[00:28:41] Porque tava acontecendo na segunda audiência,
[00:28:42] onde a Tiffany apareceu,
[00:28:43] um seminário LGBT de comemoração.
[00:28:48] E quem tava presente nessas audiências públicas?
[00:28:53] A extrema-direita.
[00:28:55] E quem fez a defesa foi o movimento social, né?
[00:28:59] E a deputada, né?
[00:29:03] Na época, Erika Malunguim,
[00:29:06] que participou da segunda audiência,
[00:29:09] porque foram duas.
[00:29:10] Porque foram duas.
[00:29:11] Então a gente não teve a presença de feministas,
[00:29:16] de marxistas, de socialistas fazendo essa defesa.
[00:29:21] E aí é por isso que eu quis lançar sobre a ótica
[00:29:29] da crítica ao nosso campo.
[00:29:33] Porque só falar sobre o marxalismo e o bolsonarismo é muito fácil.
[00:29:39] Mas a gente precisa começar a ajeitar a nossa casa.
[00:29:44] A gente precisa começar a olhar pra cima
[00:29:47] e ver que o nosso teto, ele é de vidro.
[00:29:51] E se transformou em um mosaico.
[00:29:54] Então, se hoje a gente tá perdendo de 7 a 1,
[00:30:02] é porque a gente não faz o nosso dever de casa.
[00:30:07] É porque o nosso socialismo,
[00:30:10] o nosso marxismo é distante de livro.
[00:30:14] Inclusive, muitos teóricos, né?
[00:30:17] Acadêmicos do nosso campo, né?
[00:30:21] Não fazem os recortes necessários
[00:30:24] de raça, de gênero, de identidade, de gênero.
[00:30:30] Colocando todo mundo numa mesma panela, né?
[00:30:35] Trabalhadores.
[00:30:36] E isso é um discurso muito semelhante
[00:30:40] ao discurso dos racistas, né?
[00:30:44] Da extrema-direita.
[00:30:46] Ah, somos todos de uma raça, raça humana.
[00:30:48] Como se não tivesse, né?
[00:30:51] Divisões entre os trabalhadores.
[00:30:54] E como se um homem branco cisgênero
[00:30:58] não tivesse mais oportunidade do que
[00:31:01] uma mulher negra cisgênera
[00:31:04] no mercado formal de trabalho.
[00:31:06] E, na minha pesquisa,
[00:31:08] eu venho lendo o pacto da branquitude
[00:31:13] e aí eu fui vendo que a Cida Bento,
[00:31:16] que é a autora desse conceito,
[00:31:19] ela fala que existem outros pactos
[00:31:21] sociais, civilizatórios.
[00:31:24] E eu fui descobrindo que existe
[00:31:26] um pacto da cisgeneridade.
[00:31:30] Porque as pessoas mais à frente do seu tempo,
[00:31:34] mais progressistas, têm até,
[00:31:36] às vezes, amizades com pessoas trans.
[00:31:38] Mas, na hora de indicar um emprego,
[00:31:40] na hora de fazer o…
[00:31:42] Será que lembra dessas pessoas?
[00:31:44] Ou será que só lembra de pessoas cisgêneras?
[00:31:48] Tem uma escritora, filósofa,
[00:31:52] famosa, negra,
[00:31:54] que ela tem uma coletânea,
[00:31:56] uma coleção, chamada
[00:31:58] Feminismos Plurais.
[00:32:01] E tem mais homens cisgêneros
[00:32:04] escrevendo essa coletânea
[00:32:06] do que mulheres trans.
[00:32:09] Então, a gente vê que existe um pacto ali.
[00:32:12] Todos são negros, sim.
[00:32:15] Mas é um pacto da cisgeneridade.
[00:32:18] Assim como existem as TERFs,
[00:32:23] as feministas radicais,
[00:32:27] que condenam
[00:32:31] e se juntam, muitas das vezes,
[00:32:33] à bancada feminina
[00:32:37] de mulheres de direita
[00:32:39] contra os direitos da população de mulheres trans.
[00:32:44] Então, a gente vê
[00:32:46] que esse pacto da cisgeneridade,
[00:32:49] em um certo momento,
[00:32:51] une dois extremos
[00:32:54] ideológicos ou conceituais
[00:32:58] de campos totalmente opostos.
[00:33:02] Então, eu, fazendo as minhas sínteses
[00:33:07] sobre a recente eleição,
[00:33:09] acredito, como Bira,
[00:33:12] do canal O Algoritmo da Imagem,
[00:33:15] é um canal que eu gosto muito,
[00:33:18] me inspiro, inclusive,
[00:33:20] fala,
[00:33:22] a gente não tem saída, sabe?
[00:33:26] Porque, de fato,
[00:33:30] a gente vê
[00:33:32] que uma parcela
[00:33:34] da população que deveria estar lutando
[00:33:37] pelos direitos de todas as pessoas
[00:33:39] e que não está,
[00:33:40] porque tem os seus próprios corres,
[00:33:42] como se a gente tivesse tempo
[00:33:44] para escolher as lutas,
[00:33:46] não estão fazendo, sabe?
[00:33:48] E é fundamental a gente
[00:33:52] compreender a verdade
[00:33:55] nua e crua
[00:33:57] para que a gente possa avançar.
[00:33:59] Porque se a gente não começar
[00:34:01] a chacoalhar as pessoas que estão
[00:34:03] ao nosso lado da trincheira de luta,
[00:34:05] que é quem pode modificar
[00:34:07] o pensamento,
[00:34:09] a gente vai estar modificando
[00:34:11] os extremistas?
[00:34:13] Não vamos.
[00:34:14] Mas a gente também precisa compreender
[00:34:16] que a população,
[00:34:18] com esse resultado eleitoral,
[00:34:21] não é uma população
[00:34:23] de maioria fascista,
[00:34:26] de maioria extremista,
[00:34:28] de direita.
[00:34:30] Não.
[00:34:31] Essas pessoas não sabem, primeiro,
[00:34:33] o que é política institucional.
[00:34:35] Elas têm as necessidades
[00:34:37] mais urgentes dela,
[00:34:39] como a pirâmide de Maslow fala,
[00:34:41] que primeiro vem a necessidade fisiológica.
[00:34:43] Elas precisam comer,
[00:34:45] elas precisam pagar os seus aluguéis.
[00:34:47] E a gente viu
[00:34:49] quantos casos de pessoas que foram
[00:34:51] presas
[00:34:53] com dinheiro para comprar voto.
[00:34:55] Sabe?
[00:34:57] E são pessoas que têm
[00:34:59] uma máquina por detrás
[00:35:01] e que pagam essas pessoas
[00:35:03] e que acabam
[00:35:05] chegando ao poder.
[00:35:07] Mas,
[00:35:09] de fato,
[00:35:11] eu acredito que
[00:35:13] a gente precisa
[00:35:15] ter as lentes
[00:35:17] muito bem
[00:35:19] desembaçadas
[00:35:21] para poder fazer qualquer análise de conjuntura.
[00:35:23] Eu vou
[00:35:25] desde…
[00:35:27] Gabriela Prioli, a Bira,
[00:35:29] que eu gosto dela,
[00:35:31] como ela diz,
[00:35:33] menos emoção
[00:35:35] e mais razão.
[00:35:39] E eu penso nisso, sabe?
[00:35:41] Não dá para a gente generalizar,
[00:35:43] não dá para a gente,
[00:35:45] inclusive até como pesquisadora,
[00:35:47] saber
[00:35:49] é racismo, mas racismo
[00:35:51] a partir da perspectiva
[00:35:53] de co-pensador.
[00:35:55] Sim.
[00:35:57] A gente precisa compreender
[00:35:59] que o nosso campo
[00:36:01] ele está
[00:36:03] perdendo de 7 a 1
[00:36:05] por conta das contradições.
[00:36:07] Porque a gente esqueceu as nossas
[00:36:09] origens, a gente esqueceu qual foi
[00:36:11] o nosso propósito. A gente não está nas
[00:36:13] periferias e nas favelas.
[00:36:15] Agora quem está?
[00:36:17] Dani, para a gente
[00:36:19] encerrar e pegando um pouco dessa
[00:36:21] fala, a gente
[00:36:23] precisa falar, né? Esse ano a gente
[00:36:25] viu aí nas Olimpíadas de Paris, o caso da
[00:36:27] boxeadora argelina Imani Keliff,
[00:36:29] foi medalhista de ouro
[00:36:31] e repercutiu muito, alvo de muito
[00:36:33] preconceito, né? Ela é uma pessoa
[00:36:35] intersexo, criada e registrada como mulher
[00:36:37] lá na Argélia, mas que serviu
[00:36:39] de alvo da extrema direita mundial
[00:36:41] para atacá-la exatamente como
[00:36:43] atacam as pessoas trans. E aí
[00:36:45] queria que você falasse um pouco sobre isso,
[00:36:47] aproveitando a sua última fala, né?
[00:36:51] E aí a tal da interseccionalidade,
[00:36:53] né? Como é que funciona?
[00:36:55] Porque
[00:36:57] as pessoas utilizam, a extrema direita
[00:36:59] utiliza dessa questão de outras
[00:37:01] variações de gênero, né?
[00:37:03] Como as pessoas intersexo, para atacar
[00:37:05] os direitos das pessoas trans,
[00:37:07] e aí não só no esporte, né? A gente vê
[00:37:09] por exemplo,
[00:37:11] além do caso da Imani, de pessoas intersexo,
[00:37:13] a gente vê mulheres cis
[00:37:15] que não estão no padrão de feminilidade
[00:37:17] sendo atacadas, né? E aí isso
[00:37:19] dialoga com
[00:37:21] misoginia, com machismo,
[00:37:23] com xenofobia, porque
[00:37:25] é muito comum pessoas
[00:37:27] do continente africano,
[00:37:29] exatamente, então não é por acaso
[00:37:31] que acontece muito na Argélia,
[00:37:33] corredora também de
[00:37:35] semênia, casta semênia,
[00:37:37] de um país africano, ou seja,
[00:37:39] isso é historicamente comum, foi dar uma
[00:37:41] olhada para pesquisar o roteiro, e vi lá
[00:37:43] em 1930 já tinha gente,
[00:37:45] mulheres africanas
[00:37:47] de países africanos, principalmente
[00:37:49] negras, passando por isso,
[00:37:51] né? A gente viu o caso da dinancia
[00:37:53] aqui também, que na época foi um negócio
[00:37:55] que as pessoas mal sabiam como
[00:37:57] tratar, ela mesmo assim
[00:37:59] não sabia como tratar, a mídia
[00:38:01] sensacionalizou em cima, e hoje a gente
[00:38:03] vê a diferença
[00:38:05] do tratamento,
[00:38:07] enfim, queria que você falasse um pouco aí, não só no contexto
[00:38:09] das atletas trans, porque
[00:38:11] o esporte ele é uma forma
[00:38:13] não só de salvar vidas
[00:38:15] como você falou, mas também de jogar
[00:38:17] à luz esses casos, né? Quando você vê
[00:38:19] alguém jogando na televisão
[00:38:21] que é um corpo diferente do
[00:38:23] corpo que a gente está acostumado a tratar,
[00:38:25] a ver, isso joga à luz
[00:38:27] o debate de alguma forma, como é
[00:38:29] que você vê esse caso fazendo
[00:38:31] essa
[00:38:33] pensata da interseccionalidade,
[00:38:35] ou seja, como o machismo
[00:38:37] também, fala sobre machismo isso também, sobre
[00:38:39] misoginia, né? Como é que você vê
[00:38:41] a partir do caso da Imani,
[00:38:43] como é que você lê isso?
[00:38:45] Então, é…
[00:38:49] Coitada da Imani, né?
[00:38:51] Lá na Argélia
[00:38:53] você não pode ser
[00:38:55] LGBT, né? Pois é.
[00:38:57] E aí
[00:38:59] muito da
[00:39:01] pós-verdade, né?
[00:39:03] Das fake news e tudo mais
[00:39:05] e
[00:39:07] começou o movimento com
[00:39:09] a J.K. Rowling, Musk
[00:39:11] e aí os
[00:39:13] alguns parlamentares, né?
[00:39:15] aqui começaram a reproduzir
[00:39:17] o discurso de que era um
[00:39:19] homem, né?
[00:39:21] E a gente precisa
[00:39:23] compreender, né?
[00:39:25] Que essas pessoas que
[00:39:27] fazem isso, essas
[00:39:29] reproduções
[00:39:31] negacionistas,
[00:39:33] né? Que falam em nome
[00:39:35] da ciência,
[00:39:37] não sabem nem que é Maurício de Souza.
[00:39:39] Né?
[00:39:41] Se você for ver, eu não leio nenhum horóscopo
[00:39:43] semanal pra saber se aquela semana
[00:39:45] vai ter a sorte
[00:39:47] ou não. E
[00:39:49] possivelmente
[00:39:51] o nível de
[00:39:53] estudo de biologia deles
[00:39:55] foi…
[00:39:57] raso, né?
[00:39:59] Então
[00:40:01] nas minhas pesquisas também eu fiz questão
[00:40:03] de pegar um livro de biologia
[00:40:05] pra saber se esse tema
[00:40:07] era tratado,
[00:40:09] né? Como era tratado
[00:40:11] e eu percebi
[00:40:13] né? Que
[00:40:15] as questões do cromossomo que eles sempre
[00:40:17] falam, né? Ai, só tem XX,
[00:40:19] XY, gente.
[00:40:21] É falar que é
[00:40:23] terra plana, né?
[00:40:25] As pessoas intersexos foram
[00:40:27] sendo esquecidas
[00:40:29] justamente por conta desse discurso
[00:40:31] de Adão e Eva. Sim.
[00:40:33] Né? De Eva e Adão,
[00:40:35] ou tanto faz, né?
[00:40:37] Mas a gente precisa
[00:40:39] compreender que existem outras
[00:40:41] variações cromossômicas,
[00:40:43] né? Como a síndrome de Kleinfelter,
[00:40:45] como a síndrome de Morris,
[00:40:47] que é o que acomete
[00:40:49] a jogadora Erika,
[00:40:51] né? De vôlei, que
[00:40:53] ela também era uma pessoa intersexo,
[00:40:55] e que
[00:40:57] acometeu a Idina Sy. Eu
[00:40:59] faço parte de uma
[00:41:01] coletiva que tem um
[00:41:03] podcast também, que é o
[00:41:05] Feminismo Negro no Esporte,
[00:41:07] e eu tive a oportunidade de conversar com a Idina Sy, né?
[00:41:09] E
[00:41:11] ela é incrível, assim, né?
[00:41:13] É um ser humano
[00:41:15] ímpar, mas eu não
[00:41:17] consigo imaginar a quantidade
[00:41:19] de violência
[00:41:21] que ela foi submetida.
[00:41:23] Pois é,
[00:41:25] ela foi mutilada,
[00:41:27] sabe?
[00:41:29] Assim como a Erika também,
[00:41:31] para poder baixar o nível de testosterona.
[00:41:33] E
[00:41:35] o caso da Imani,
[00:41:37] ela é uma…
[00:41:39] E a gente nem sabe se ela é
[00:41:41] intersexo ou não, né?
[00:41:43] Na Argélia também
[00:41:45] tem um tabu…
[00:41:47] É, porque existem mulheres cisgêneras que têm
[00:41:49] problemas no útero
[00:41:51] que pode estar
[00:41:53] acarretando o nível de
[00:41:55] aumento de testosterona.
[00:41:57] Eu esqueci o termo, gente. Joga aí no Google,
[00:41:59] né?
[00:42:01] Até nas últimas eleições presidenciáveis,
[00:42:03] o inominável lá,
[00:42:05] que eu já citei anteriormente, mandou
[00:42:07] o pessoal dele olhar no Google,
[00:42:09] vocês também podem olhar, né?
[00:42:11] E aí tem essa variação que aumenta
[00:42:13] o nível natural de
[00:42:15] testosterona.
[00:42:17] Mas esse debate, né?
[00:42:19] É um debate onde
[00:42:21] menina veste
[00:42:23] rosa e menino veste
[00:42:25] azul.
[00:42:27] Só que
[00:42:29] meninos que vestem azul
[00:42:31] têm as mãos finas,
[00:42:33] têm os traços
[00:42:35] finos, né?
[00:42:37] E meninos que vestem rosa
[00:42:39] têm traços, como
[00:42:41] a gente diz, negroides, né?
[00:42:43] Mais densos,
[00:42:45] ou indígenas, né?
[00:42:47] E…
[00:42:49] E tá tudo bem, né?
[00:42:51] E se você for
[00:42:53] da cristã,
[00:42:55] você vai ver que essas pessoas
[00:42:57] elas foram criadas por Deus,
[00:42:59] né? Então…
[00:43:01] E não podem,
[00:43:03] não poderiam ser
[00:43:05] vítimas de um preconceito.
[00:43:07] Mas, por
[00:43:09] conta desse período da
[00:43:11] ascensão da
[00:43:13] extrema-direita no mundo,
[00:43:15] aqui, né? Com
[00:43:17] a ascensão do bolsonarismo,
[00:43:19] do marxalismo,
[00:43:21] onde pessoas precisam
[00:43:23] se encaixar em
[00:43:25] um determinado padrão.
[00:43:27] Não, elas não podem ser felizes como elas são.
[00:43:29] Elas precisam ser magras,
[00:43:31] elas precisam ou
[00:43:33] ser fitness demais,
[00:43:35] né? E aí acabam
[00:43:37] não sendo quem são.
[00:43:39] Porque a quantidade de casos
[00:43:41] que a gente vê de jovens aí
[00:43:43] morrendo de infarto
[00:43:45] por conta de uso
[00:43:47] de anabolizantes,
[00:43:49] né? Cirurgias estéticas.
[00:43:51] Cirurgias estéticas. Gente, tem
[00:43:53] uma menina lindíssima,
[00:43:55] foi fazer uma cirurgia,
[00:43:57] uma lipoaspiração no joelho
[00:43:59] e morreu.
[00:44:01] Então, assim,
[00:44:03] querer estipular
[00:44:05] que uma coisa é
[00:44:07] um fenótipo, né? Um jeito é
[00:44:09] de homem, o outro de mulher,
[00:44:11] é a mesma coisa
[00:44:13] que acreditar
[00:44:15] que uma vacina vai transformar
[00:44:17] alguém em jacaré.
[00:44:19] E isso é acreditar
[00:44:21] que a Pabllo Vittar
[00:44:23] iria roubar
[00:44:25] o lugar do cachorro
[00:44:27] caramelo quando ia
[00:44:29] sair uma nova nota
[00:44:31] de real.
[00:44:33] Pra mim tudo bem também, se botarem a Pabllo Vittar.
[00:44:35] Não, pra mim também.
[00:44:37] Mas não aconteceu.
[00:44:39] Ministro da Cultura
[00:44:41] rolou esse papo também.
[00:44:43] Como é que a margarete tá boa?
[00:44:45] Pois é. E assim, gente,
[00:44:47] eu trabalho também muito com memes,
[00:44:49] né? Infelizmente aqui não dá pra trazer.
[00:44:51] E teve
[00:44:53] gente que acreditava
[00:44:55] que saiu uma manifestação
[00:44:57] ninguém vai comer o meu cachorro.
[00:44:59] Foi, teve isso. Entendeu?
[00:45:01] Então isso a gente precisa
[00:45:03] começar a compreender
[00:45:05] que é ideológico.
[00:45:07] Cazuza já falava, né? Ideologia.
[00:45:09] Eu quero uma pra viver.
[00:45:11] E o Bira fala nos vídeos
[00:45:13] dele no Algoritmo da Imagem
[00:45:15] que tem muitas pessoas que tem
[00:45:17] apenas Deus. Sim.
[00:45:19] Não tem o que comer dentro de casa.
[00:45:21] É o que sustenta. É o que sustenta. Então
[00:45:23] a gente
[00:45:25] sempre volta
[00:45:27] a falar. Precisamos
[00:45:29] fazer o nosso dever de casa.
[00:45:31] A gente tá protelando.
[00:45:33] A gente só age quando o prédio
[00:45:35] tá pegando fogo. A gente não
[00:45:37] faz ações afirmativas,
[00:45:39] preventivas, aliás.
[00:45:41] E aí a gente vai querer combater
[00:45:43] um marçal,
[00:45:45] um representante
[00:45:47] do Bolsonaro nas urnas
[00:45:49] e achando que vai dar conta?
[00:45:51] Lula, gente,
[00:45:53] queria eu que durasse,
[00:45:55] repetilhando, né? Como dizem aí
[00:45:57] que a rainha Elizabeth era, né?
[00:45:59] Durasse pra sempre. Mas ele não vai durar.
[00:46:01] E a gente precisa criar
[00:46:03] novas figuras pra poder
[00:46:05] estarem representando
[00:46:07] a maior parte da
[00:46:09] população. Mas, infelizmente,
[00:46:11] né?
[00:46:13] Nosso campo também
[00:46:15] é muito estrela pra pouco céu.
[00:46:17] E aí isso já
[00:46:19] dá um outro debate.
[00:46:21] Mas só pra resgatar
[00:46:23] sobre essa questão
[00:46:25] da Olimpíada
[00:46:27] e da nossa vida social,
[00:46:29] é…
[00:46:31] As pessoas
[00:46:33] que têm a
[00:46:35] passabilidade,
[00:46:37] que se dizem aliados,
[00:46:39] não subam
[00:46:41] só em trio elétrico não, gente. Vamos fazer a
[00:46:43] diferença. Porque
[00:46:45] se a gente não criar um espaço melhor
[00:46:47] para todas as
[00:46:49] pessoas,
[00:46:53] nós que somos mulheres trans
[00:46:55] podemos ir primeiro.
[00:46:57] Mas quando a gente,
[00:46:59] se por acaso nós formos
[00:47:01] extintas, eles vão
[00:47:03] procurar outras vítimas.
[00:47:07] E a gente precisa se dar conta
[00:47:09] disso. Ou a gente
[00:47:11] se mobiliza, se une
[00:47:13] pra todo mundo…
[00:47:15] Vamos falar do Titanic,
[00:47:17] né?
[00:47:19] Ou a gente joga os bilionários lá
[00:47:21] de cima e
[00:47:23] sobe no
[00:47:25] nos barquinhos
[00:47:27] lá pra sobreviver.
[00:47:29] Ou a gente vai estar
[00:47:31] à deriva, como a Rose
[00:47:33] ficou e o Jack se foi.
[00:47:35] Mais cedo ou mais tarde, a gente precisa
[00:47:37] compreender porque
[00:47:39] a omissão, ela também mata.
[00:47:41] E não precisam mover
[00:47:43] placas tectônicas
[00:47:45] pra poder nos ajudar. Um esforço
[00:47:47] mínimo. Lembrete.
[00:47:49] Visibilizar, trazer.
[00:47:51] Pensar também que a gente
[00:47:53] não é só sobreviver,
[00:47:55] sobre uma pauta,
[00:47:57] que a gente quer falar sobre outros assuntos,
[00:47:59] sobre política institucional.
[00:48:01] Trazer a nossa visão
[00:48:03] sobre outros temas.
[00:48:05] Isso é fundamental. Então,
[00:48:07] é…
[00:48:09] Agora é a hora.
[00:48:11] Porque
[00:48:13] já tá tarde
[00:48:15] e a gente viu que
[00:48:17] o bagulho vai começar a ficar doido.
[00:48:19] Pra todo mundo.
[00:48:21] Então, se você não tiver
[00:48:23] vestindo rosa,
[00:48:25] toda delicada, bonitinha,
[00:48:27] vai levar uma coça. E se você
[00:48:29] não tiver
[00:48:31] exalando testosterona,
[00:48:33] vai levar uma coça.
[00:48:35] Mesmo sendo heterossexual.
[00:48:37] Pois é. Como tudo isso
[00:48:39] se interliga. A gente tá falando
[00:48:41] no final das contas, a gente tá falando também sobre isso.
[00:48:43] E aí, pra finalizar,
[00:48:45] o esporte. Você como
[00:48:47] um atleta, eu como um
[00:48:49] amante, gosto de esporte.
[00:48:51] A gente acredita que o esporte,
[00:48:53] se você não conseguir dar visibilidade
[00:48:55] nesse assunto. Visibilidade,
[00:48:57] chances de inclusão pras pessoas trans,
[00:48:59] principalmente pras mulheres trans.
[00:49:01] No esporte, vai ficar onde?
[00:49:03] Como você falou. Se não consegue
[00:49:05] nem conseguir um emprego pra servir um café.
[00:49:07] Que é difícil. E é uma coisa que eu sempre
[00:49:09] falo, que eu aprendi muito com a Lana.
[00:49:11] Lana de Olano, pra quem eu mando um beijo.
[00:49:13] Que foi colunista aqui do lado B.
[00:49:15] É…
[00:49:17] Eu tive contato com uma mulher trans
[00:49:19] com ela. Porque…
[00:49:21] E aí é um depoimento que eu gosto de falar
[00:49:23] como homem cis.
[00:49:25] Porque a gente acostuma
[00:49:27] ver mulheres trans em dois
[00:49:29] momentos, né?
[00:49:31] Na sexualidade e
[00:49:33] na marginalidade. E quando você
[00:49:35] participa, ou…
[00:49:37] Eu me emociono muito ouvindo a Dani, ouvindo
[00:49:39] a Lana, porque
[00:49:41] eu fui criado
[00:49:43] pra que isso não fosse possível.
[00:49:45] Eu fui criado pra que
[00:49:47] isso aqui fosse uma aberração.
[00:49:49] Eu fui criado pra que isso aqui fosse um…
[00:49:51] Sei lá, um show de calouros
[00:49:53] do Silvio Santos, que fazia lá até o seu…
[00:49:55] Seu papel, mas é aquela coisa da
[00:49:57] exoticidade. E quando a gente quebra essa
[00:49:59] barreira, a gente vence essa barreira pela primeira
[00:50:01] vez, a gente coloca essas pessoas,
[00:50:03] a gente começa a observar, né? O jogo
[00:50:05] do pescoço. Onde estão essas pessoas?
[00:50:07] Onde estão as pessoas trans?
[00:50:09] Né? Onde estão as mulheres trans?
[00:50:11] Os homens trans também? Na sociedade, né?
[00:50:13] Em que cargos elas estão ocupando?
[00:50:15] Se é que estão ocupando algum cargo?
[00:50:17] Né? Que debate público? Isso tá
[00:50:19] mudando bem pouquinho. A gente vê
[00:50:21] a Erika Hilton, a quem também mando um
[00:50:23] beijo, porque foi… Considero aí, a gente…
[00:50:25] A Boas Eleições, agora há pouco, está
[00:50:27] gravando um pouco depois do final do
[00:50:29] primeiro turno, a quem considero uma das grandes vitoriosas
[00:50:31] no país, porque conseguiu eleger
[00:50:33] muita gente que ela tava
[00:50:35] patrocinando. A Erika Hilton
[00:50:37] hoje é uma grande figura trans
[00:50:39] no debate sobre pessoas trans,
[00:50:41] mas no debate amplo, do trabalhador,
[00:50:43] contra o racismo,
[00:50:45] enfim… E Caio, posso te interromper rapidamente?
[00:50:47] Claro!
[00:50:49] Eu acredito que
[00:50:51] depois do Lula,
[00:50:53] quando ele venceu, em 2001,
[00:50:55] ela
[00:50:57] é a figura que mais
[00:50:59] entrou em casas,
[00:51:01] em lares,
[00:51:03] mais diversos
[00:51:05] depois dele.
[00:51:07] Então, eu também
[00:51:09] quero aproveitar esse momento e reconhecer
[00:51:11] a grandiosidade dela,
[00:51:13] porque
[00:51:15] ela rompeu com
[00:51:17] a lógica, porque de fato
[00:51:19] a gente
[00:51:21] quer tanto tá
[00:51:23] honestamente servindo um café
[00:51:25] mas a gente também quer ser atleta de alto rendimento.
[00:51:27] A gente quer ser parlamentar
[00:51:29] e se quisermos também
[00:51:31] fazer um OnlyFans,
[00:51:33] se quisermos também a prostituição,
[00:51:35] mas a gente precisa
[00:51:37] escolher. A gente não tem
[00:51:39] que ter uma solução compulsória
[00:51:41] que é a prostituição.
[00:51:43] É isso. Dani, um prazer
[00:51:45] falar com você, sempre um barato.
[00:51:47] Obrigado por ter conseguido aqui um espacinho
[00:51:49] na sua agenda. Hoje que é o seu aniversário, então já desejo
[00:51:51] parabéns, feliz aniversário pra você.
[00:51:53] Obrigada. Que você continue
[00:51:55] sendo, enfim, essa figura incrível,
[00:51:57] bem-humorada, militante.
[00:51:59] Enfim, você tem muitos adjetivos
[00:52:01] e depois eu falo.
[00:52:03] Quando fechar as câmeras eu falo.
[00:52:05] Já deixo aqui, então,
[00:52:07] meu agradecimento
[00:52:09] por ter conseguido um espacinho na agenda.
[00:52:11] Acho que a gente fez um debate aqui bastante
[00:52:13] amplo e a gente não
[00:52:15] se esgota aqui com a companhia da Dani nas redes.
[00:52:17] Deixe as suas redes, deixe o seu obrigado,
[00:52:19] o seu destaque final, Dani. Ai, gente,
[00:52:21] olha, o presente de aniversário
[00:52:23] que eu quero é que vocês me sigam, hein?
[00:52:25] É daninunes.rj
[00:52:27] Mas também
[00:52:29] quero convidar
[00:52:31] vocês a
[00:52:33] me ajudar a construir
[00:52:35] uma política
[00:52:37] institucional onde
[00:52:39] as pessoas tenham
[00:52:41] acesso à casa
[00:52:43] que não é só de uma
[00:52:45] figura hegemônica.
[00:52:47] É a casa de todas
[00:52:49] as pessoas que moram
[00:52:51] no nosso município, no nosso estado,
[00:52:53] na nossa nação, no nosso país.
[00:52:55] Então,
[00:52:57] é…
[00:52:59] estive candidata nas últimas eleições
[00:53:01] e pra mim o maior legado
[00:53:03] é ter feito conexões.
[00:53:05] E…
[00:53:07] quero aproveitar e falar
[00:53:09] sobre a importância da gente se politizar,
[00:53:11] da gente politizar
[00:53:13] as pessoas que estão ao nosso lado.
[00:53:15] Porque
[00:53:17] não dá mais pra gente
[00:53:19] aceitar que a cada
[00:53:21] quatro anos pessoas jogam
[00:53:23] pó de asfalto
[00:53:25] e consigam ser eleitas.
[00:53:27] Isso acaba
[00:53:29] acarretando na falta de médicos,
[00:53:31] na falta de professores,
[00:53:33] na falta de vagas em
[00:53:35] creches, em escolas,
[00:53:37] mas também na questão da nossa
[00:53:39] saúde, na questão do saneamento
[00:53:41] básico e outras que não
[00:53:43] atravessam apenas mulheres,
[00:53:45] homens trans, pessoas trans.
[00:53:47] Que atravessa toda
[00:53:49] a sociedade, toda uma
[00:53:51] nação. Então eu peço
[00:53:53] a vocês que se politizem,
[00:53:55] busquem conhecimentos
[00:53:57] e fortaleçam pessoas
[00:53:59] que criam conteúdos
[00:54:01] do nosso campo. Isso é fundamental
[00:54:03] pra gente acabar
[00:54:05] com algo,
[00:54:07] com a serpente
[00:54:09] já depois
[00:54:11] de ter saído do ovo
[00:54:13] que daqui a pouco tá se
[00:54:15] transformando num Godzilla. Então,
[00:54:17] sim, agora ainda tá numa serpente, mas daqui a pouco
[00:54:19] pode ser um Godzilla e aí a gente não tem
[00:54:21] um outro Titã, porque
[00:54:23] a gente também precisa deixar o Lula descansar,
[00:54:25] a gente deixa o velho aproveitar a vida,
[00:54:27] entendeu? Vamos fazer a nossa parte,
[00:54:29] não dá. Tem uma
[00:54:31] comediante trans
[00:54:33] que ela mora na Europa, ela diz
[00:54:35] assim, Suzete o nome dela,
[00:54:37] meu amor, bobinha, não se dorme
[00:54:39] na Europa. Se não se
[00:54:41] dorme na Europa, imagina aqui no Brasil,
[00:54:43] gente, a gente não tem tempo, vamos reagir.
[00:54:45] É isso, obrigada. Quero agradecer
[00:54:47] Caio, quero agradecer o pessoal todo
[00:54:49] do lado B, sou péssima com nome,
[00:54:51] mas o pessoal aqui dos bastidores, todo mundo aqui já
[00:54:53] virei amiga de infância e
[00:54:55] quero mandar um beijo, quero dizer que quero
[00:54:57] voltar sempre,
[00:54:59] porque eu acho que
[00:55:01] trazer novas óticas, novas
[00:55:03] perspectivas é também
[00:55:05] uma possibilidade de ampliação
[00:55:07] não só da
[00:55:09] nossa área de atuação,
[00:55:11] mas também enquanto
[00:55:13] seres humanos, né? Porque
[00:55:15] a gente precisa sair do
[00:55:17] nosso pequeno aquário
[00:55:19] pra começar a navegar
[00:55:21] no grande oceano. É isso, continue a nadar.
[00:55:23] O oitavo episódio do
[00:55:25] lado B Revista fica por aqui,
[00:55:27] a gente lembra que o lado B Revista é uma
[00:55:29] parceria do lado B com o escritório
[00:55:31] Normando Rodrigues, duas vezes por mês
[00:55:33] um episódio inédito do lado B
[00:55:35] Revista aqui no YouTube, então se inscreva
[00:55:37] no canal, ative as notificações,
[00:55:39] deixe seu comentário, seu feedback,
[00:55:41] se vocês tiverem alguma questão pra tratar com a Dani,
[00:55:43] deixe aí nos comentários, eu mando pra ela,
[00:55:45] ela responde lá no Instagram dela,
[00:55:47] a gente quer saber o que vocês acharam, enfim,
[00:55:49] a gente quer também que vocês possam sugerir temas
[00:55:51] e convidados, então
[00:55:53] até a próxima, valeu!
[00:55:55] Legendas por TIAGO ANDERSON