#240 – Avesso de Marx, com Crisóstomo de Souza
Resumo
O episódio apresenta uma entrevista com o filósofo José Crisóstomo de Souza sobre seu livro ‘Avesso de Marx’. A conversa explora as dimensões menos discutidas do pensamento de Marx, destacando suas raízes no idealismo alemão, no neoplatonismo e em tradições cristãs esotéricas. Crisóstomo argumenta que Marx carrega uma forte carga humanista especulativa e teleológica, frequentemente obscurecida pelas leituras estruturalistas e economicistas posteriores.
O diálogo percorre a trajetória intelectual de Crisóstomo, desde seu encantamento inicial com o humanismo marxista de Erich Fromm durante a ditadura militar até sua desilusão com a ortodoxia marxista no processo de redemocratização. Ele explica como sua leitura ‘interna’ de Marx busca recuperar o ‘materialismo prático’ presente nas ‘Teses sobre Feuerbach’, contrastando-o com o ‘materialismo histórico-dialético’ e o ‘humanismo especulativo’ que também permeiam a obra marxiana.
Crisóstomo critica o que chama de ‘humanismo xarope’ contemporâneo - uma moralização simplista da política que substitui a análise materialista por julgamentos morais presunçosos. Ele defende um retorno ao materialismo prático, entendido como engajamento com as circunstâncias materiais concretas e com as aspirações reais das pessoas, em contraposição a projetos políticos baseados em esquemas teleológicos pré-determinados.
A conversa também aborda o contexto brasileiro, discutindo como o marxismo foi recebido e transformado no país, a relação entre filosofia acadêmica e política, e os desafios atuais da esquerda diante do avanço da extrema direita. Crisóstomo anuncia seu próximo livro, ‘Para além de Marx e Foucault’, que desenvolve sua proposta de um ‘materialismo prático poético’ como alternativa para o pensamento progressista contemporâneo.
Indicações
Books
- Avesso de Marx — Livro de José Crisóstomo de Souza discutido no episódio, que faz uma leitura interna de Marx, destacando suas raízes humanistas especulativas e teológicas.
- Ascensão e Queda do Sujeito no Movimento Jovem Hegeliano — Livro anterior de Crisóstomo mencionado, publicado em 1992, que estuda Hegel, Strauss, Bauer, Feuerbach, Stirner e Marx, estabelecendo bases para sua recontextualização do pensamento marxiano.
- Para além de Marx e Foucault — Próximo livro de Crisóstomo anunciado no final, que desenvolve sua proposta de ‘materialismo prático poético’ como alternativa para o pensamento progressista contemporâneo.
- Filosofia, Ação e Criação — Livro coletivo mencionado que documenta trabalho filosófico colaborativo, disponível gratuitamente no site da UFBA.
- O Conceito Marxista do Homem (Erich Fromm) — Livro que introduziu Crisóstomo ao marxismo na juventude, representando a vertente humanista e antropológica do pensamento de Marx.
- Narciso e Goldmund (Hermann Hesse) — Mencionado como exemplo da literatura que explora dilemas existenciais e busca de sentido, em contraste com o ‘humanismo xarope’ contemporâneo.
Concepts
- Materialismo prático — Conceito defendido por Crisóstomo como a dimensão mais fecunda de Marx, baseado nas ‘Teses sobre Feuerbach’, que enfatiza a atividade sensível, a práxis e a relação dialética entre pensamento e ação.
- Humanismo xarope — Termo cunhado por Crisóstomo para criticar a moralização simplista da política contemporânea, que substitui análise materialista por julgamentos morais presunçosos e reduz complexidades a binaries simplistas.
- Linha de massa — Abordagem política mencionada que parte das necessidades e aspirações concretas das pessoas (como segurança pública em favelas) em vez de impor esquemas teóricos pré-determinados.
People
- Erich Fromm — Psicanalista e filósofo social da Escola de Frankfurt, autor de ‘A Arte de Amar’ e ‘O Conceito Marxista do Homem’, que introduziu Crisóstomo ao marxismo humanista.
- Moses Hess — Filósofo alemão mencionado como ‘pai do comunismo alemão’ e também do sionismo, que influenciou o jovem Marx com suas ideias humanistas e especulativas.
- Bruno Bauer — Teólogo hegeliano que foi mentor intelectual do jovem Marx. Crisóstomo destaca que Marx planejava dar um curso sobre um teólogo kantiano antes da cassação de Bauer.
- Luiz Eduardo Soares — Antropólogo e político brasileiro, autor do romance ‘Experimento de Avelar’ mencionado como narrativa sobre a transição da ditadura à democracia e os desafios do marxismo pós-queda da URSS.
Linha do Tempo
- 00:01:20 — Introdução ao tema do livro ‘Avesso de Marx’ — Apresentação do episódio e do convidado José Crisóstomo de Souza. O entrevistador estabelece que a conversa girará em torno do livro ‘Avesso de Marx’, situando-o como uma intervenção na filosofia brasileira. Crisóstomo é apresentado como alguém que busca mostrar como Marx não se dissocia completamente das tradições humanistas e especulativas alemãs, incluindo influências neoplatônicas e cristãs esotéricas.
- 00:10:04 — Trajetória intelectual e encontro com Marx — Crisóstomo relata seu primeiro contato com Marx através do livro ‘O Conceito Marxista do Homem’ de Erich Fromm durante a juventude. Ele descreve como o marxismo ofereceu uma compreensão abrangente da sociedade que ressoava com suas inquietações políticas durante a ditadura militar. Com a democratização, ele decidiu se dedicar ao estudo filosófico mais aprofundado de Marx, enfrentando ceticismo acadêmico na Unicamp por sua formação baiana e seu perfil de ‘ativista’.
- 00:20:02 — O Marx antes do comunismo e suas influências — Crisóstomo explora o Marx jovem, anterior à sua conversão ao comunismo, destacando sua paixão por Hegel e seu envolvimento com o ‘cristianismo esotérico’ alemão. Ele argumenta que Marx primeiro se apaixonou por um certo humanismo e só depois encontrou um discurso racional que sustentava suas convicções comunistas. Esta análise questiona a narrativa de um desenvolvimento puramente científico e destaca as continuidades entre o jovem Marx e tradições especulativas alemãs.
- 00:33:05 — Os três Marx: prático, dialético e especulativo — Crisóstomo distingue três dimensões no pensamento de Marx: o materialismo prático (presente nas ‘Teses sobre Feuerbach’), o materialismo histórico-dialético (com sua teleologia e determinismo) e o humanismo especulativo (de raízes românticas e teológicas). Ele defende o primeiro como o mais fecundo, caracterizado por uma ontologia da ‘atividade sensível’ onde realidade, conhecimento e ação estão entrelaçados, em contraste com as construções sistemáticas e providencialistas das outras dimensões.
- 00:56:07 — Marx como criador de um credo secular — Crisóstomo argumenta que Marx foi o maior criador de um ‘credo secular’ na modernidade, oferecendo uma narrativa de queda e salvação com pretensões de objetividade científica. Ele relaciona isso ao apelo emocional do marxismo em contextos de luta política, como durante a ditadura brasileira, onde fornecia um sentido de destino histórico que justificava sacrifícios. Esta análise conecta o marxismo a necessidades humanas profundas de significado e transcendência.
- 00:59:31 — Crítica ao ‘humanismo xarope’ contemporâneo — Crisóstomo critica a moralização simplista da política contemporânea, que ele chama de ‘humanismo xarope’. Ele contrasta esta abordagem com a complexidade moral encontrada em autores como Sartre e Dostoiévski, e com a tradição cristã que reconhece a dificuldade de ser ‘bom’. Para ele, este moralismo presunçoso é politicamente estéril e incapaz de enfrentar desafios complexos, levando a uma esquerda que está ‘na democracia, mas não está na democracia’.
- 01:14:04 — Materialismo prático como alternativa política — Crisóstomo propõe o ‘materialismo prático’ como alternativa política, focando no acesso a meios e competências como base para emancipação, em vez de esquemas teleológicos pré-determinados. Ele defende uma política que parta das aspirações e lutas concretas das pessoas (como a ‘linha de massa’ dos anos 60/70), em diálogo com suas necessidades reais - como segurança pública em favelas - ao invés de impor visões idealizadas de emancipação desde cima.
- 01:32:28 — Anúncio do próximo livro e considerações finais — Crisóstomo anuncia seu próximo livro ‘Para além de Marx e Foucault’, que desenvolve sua proposta de ‘materialismo prático poético’. Ele explica que voltou a Marx por ser uma ‘linguagem natural’ da esquerda brasileira, mas busca ‘descongelá-lo’ para enfrentar os desafios atuais. A conversa termina com reflexões sobre a filosofia brasileira e a necessidade de um pensamento que dialogue com a realidade nacional, mencionando figuras como o Padre Vaz e sua influência na Ação Popular.
Dados do Episódio
- Podcast: Filosofia Pop
- Autor: Filosofia Pop
- Categoria: Society & Culture Philosophy Education Arts Books
- Publicado: 2025-12-01T03:01:00Z
- Duração: 01:48:18
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/56aa96e0-d74d-0132-0356-059c869cc4eb/episode/c56c2ea5-23e3-4689-b768-3b02d6793aea
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Dados do Podcast
- Nome: Filosofia Pop
- Tipo: episodic
- Site: https://filosofiapop.com.br/inicial/
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Transcrição
[00:00:00] Filosofia Pop
[00:00:30] Filosofia Pop é um podcast que aborda a filosofia como parte da cultura.
[00:00:44] A cada 15 dias, sempre às segundas-feiras, a gente vai estar aqui para continuar essa conversa com vocês.
[00:00:50] Intercalando com nossos episódios normais, de quando em quando apresentamos entrevistas temáticas especiais.
[00:00:55] O episódio de hoje é uma parceria com o Projeto de Extensão.
[00:00:58] Filosofia, Cultura Popular e Ética, desenvolvido na Universidade Federal de Itaí.
[00:01:03] Se você gosta do nosso conteúdo, deixe seus comentários, compartilhe com os amigos e se inscreva nos canais.
[00:01:08] Estamos no Twitter, Instagram, Youtube, Spotify e onde mais você ouvir podcasts.
[00:01:13] Nosso e-mail é contato.filosofiapop.com.br
[00:01:17] Seu apoio faz toda a diferença.
[00:01:20] Vamos então para a nossa conversa com José Crisóstomo de Souza sobre o Avesso de Marx.
[00:01:28] Hoje a gente recebe direto de Salvador para o Sr. José Crisóstomo de Souza.
[00:01:39] É a nossa segunda conversa aqui no podcast de Filosofia Pop.
[00:01:42] E hoje a gente vai conversar, o mote da conversa é esse livro, o Avesso de Marx.
[00:01:47] Mas a gente vai ver como esse livro, o Avesso de Marx, faz parte da filosofia brasileira também.
[00:01:52] Ele é uma cartada dentro do jogo da filosofia brasileira.
[00:01:58] Quando eu comecei a ler o texto e eu vi a história do mito do humanos,
[00:02:04] que está em Goethe, promovendo uma espécie de união entre divino e humano,
[00:02:10] eu fiquei pensando assim, o Machado de Assis era sacana mesmo, né?
[00:02:16] Eu fiquei pensando logo no humanitismo, né?
[00:02:20] Como é que você vê? Você acha que tem uma aproximação até nisso, assim,
[00:02:23] de uma dimensão humanita, se tem fome?
[00:02:27] Isso conta muito.
[00:02:28] Você terminou o pensamento do Marx, essa ideia de uma teleologia, de conjunção, né?
[00:02:36] Que independe da nossa vontade. Vai acontecer.
[00:02:40] É. Bom, primeiro, acho que essa coisa do humano ali pelo renascimento para frente,
[00:02:48] mas também no neoplatonismo e tudo, adquire certas conotações, assim,
[00:02:54] especulativas, até místicas, que frequentemente a gente descreve,
[00:02:58] mas conhece, vai passando batido.
[00:03:00] O homem também é um conceito óbvio, o humano é um conceito óbvio,
[00:03:03] humano, desumano, estamos todos naturalmente do lado humano,
[00:03:07] e aí o jogo é jogado.
[00:03:09] De fato, isso existe e eu procurei mostrar como o Marx, de certa forma,
[00:03:15] não se dissocia disso, né?
[00:03:18] Ele nasce naquela Alemanha, floresce, nasce e floresce naquela Alemanha
[00:03:24] de transição, né? De ancião regime para a modernidade,
[00:03:28] de certa forma, de cristandade para a modernidade.
[00:03:30] Isso é muito sentido na Alemanha, que tem uma cultura muito própria,
[00:03:37] pariu a reforma, mas não só essa expressão um pouco mais modernizante
[00:03:44] de um cristianismo mais individualista, mas pariu também várias outras
[00:03:49] leituras profundas, né? Leituras mais panteístas das coisas.
[00:03:53] Então, isso ficou em Alemanha um pouco na rota,
[00:03:57] na reta do neoplatonismo, que é um paradigma que concorre com esse
[00:04:04] do iluminismo que tomou conta do acidente, mas é um leito subjacente
[00:04:10] que aflora aqui e ali.
[00:04:12] Então, de fato, estudando o Marx mais detalhadamente,
[00:04:18] dos manuscritos para trás até, digamos assim, me deparei com esses
[00:04:24] envolvimentos dele.
[00:04:27] E tem um leito ali que inclui, sei lá, Meister e Eckhart, né?
[00:04:31] E depois, o Goethe, naturalmente, que a própria ideia de iluminismo,
[00:04:36] você sabe, é um termo um pouco ambíguo, né?
[00:04:38] Porque iluminismo, iluminação, a gente pensa só as luzes da razão,
[00:04:44] mas de repente também são luzes de um entendimento superior,
[00:04:48] de uma razão superior, não certamente, não há de ser a do mecanicismo,
[00:04:52] não há de ser a do racionalismo abstrato.
[00:04:56] Então, isso também é um tema que tem uma grande importância.
[00:04:57] Então, eu acho que é muito importante que a gente tenha uma ideia
[00:04:57] de como tudo está aí um pouco no desenvolvimento desse pensamento alemão
[00:05:02] do século XIX.
[00:05:05] Para não dizer que está no nosso, talvez, até,
[00:05:10] nas nossas inclinações humanas mais profundas,
[00:05:15] que aparecem nessa, numa cultura e noutra,
[00:05:19] como vontade de unidade, né?
[00:05:23] Essas coisas todas aí que eu gostaria até de deixar claro
[00:05:27] que, quando eu falo isso, não é desqualificação nenhuma
[00:05:30] você mostrar que um pensamento tem um desenvolvimento, assim,
[00:05:35] meio metafísico ou meio especulativo,
[00:05:39] por si ainda temos que ver o interesse disso,
[00:05:45] as implicações disso, e não considerar que esse enquadramento
[00:05:49] é um xingamento, porque senão você já estaria falando, de fato,
[00:05:54] de um partido irracionalista moderno, dominante,
[00:05:57] binarista, essas coisas todas que a turma mais ou menos vê
[00:06:02] e que tem um certo fundo de razão.
[00:06:05] Eu não sei se você já viu, tem um conto, uma crônica do Machado de Assismo
[00:06:09] em que ele escreve o marxista chegando no Brasil,
[00:06:13] o marxista russo, e ele conta que esse marxista
[00:06:18] vem para o Brasil, para russo, vem para o Brasil para divulgar
[00:06:21] as ideias de Marx, mas ele percebe que aqui no Brasil
[00:06:25] já tem um centro marxista.
[00:06:27] Quando a gente senta nesse centro marxista, o pessoal está dançando polka,
[00:06:30] o pessoal está se lembrando das coisas e carnavalizando,
[00:06:35] e ele faz um discurso lá, todo revolucionário,
[00:06:37] o pessoal bate palma e continua dançando.
[00:06:41] A Rússia, então, a Rússia por onde transitou depois o marxismo
[00:06:46] é um celeiro, é um solo fértil de preocupações desafiadoras
[00:06:52] da estreiteza moderna, que se embolcam aí no misticismo,
[00:06:56] no misticismo russo profundo, da Rússia profunda.
[00:07:01] Essas coisas não se suprimem facilmente, não.
[00:07:06] Vamos voltar um pouquinho para o livro,
[00:07:08] que eu acho que é uma coisa muito importante.
[00:07:10] A escrita dele.
[00:07:12] A escrita dele, eu pensei, essa escrita foi difícil.
[00:07:15] Essa escrita aqui tem uma aparente facilidade,
[00:07:20] mas é uma facilidade custosa, porque, de certa forma,
[00:07:24] o senhor está desafiando todo o método estrutural,
[00:07:27] porque o senhor quer desfiar-se dele, dessa tradição de pensamento,
[00:07:32] produzir criativamente e manter a sua voz.
[00:07:36] Eu fiquei pensando aqui, esse aqui é o último texto de filosofia sem Iá,
[00:07:41] porque sem inteligência artificial.
[00:07:45] Sim, sim, sim.
[00:07:46] Sem dúvida, foi bem penoso, sacrificado, exprimido,
[00:07:53] que só uma inteligência natural, com seus vícios,
[00:07:56] e em ferramentas, poderiam produzir.
[00:08:00] É de fato, é um compromisso de minúcia,
[00:08:03] de buscas de ressonância, de associações,
[00:08:10] e talvez essa ideia de uma aderência às minudências ali do próprio autor,
[00:08:16] que eu chamo os meandros do pensamento de Marx.
[00:08:18] Vamos seguir, vamos dar uma chance do próprio Marx,
[00:08:21] porque o estruturalismo tem essa ambição de ser fiel ao autor,
[00:08:25] fazer uma leitura.
[00:08:26] Mas nem tanto, porque já vai dizendo que é um sistema,
[00:08:30] que é um sistema que tem pressupostos,
[00:08:33] que tem o chamado de um tempo lógico,
[00:08:37] e esse tempo lógico dá conta da construção.
[00:08:43] Então, eu pretendia ser mais fiel do que isso,
[00:08:48] me deixar levar pela exploração dos meandros do pensamento de Marx,
[00:08:54] quase como se estivesse sentado conversando com ele,
[00:08:56] ou vendo ele conversando com gente que o desafiava,
[00:08:59] e vendo onde ele se sentia mais provocado,
[00:09:06] e que tipo de recurso ele usava para responder a esses outros filósofos.
[00:09:11] Eu considero isso muito revelador,
[00:09:13] conduzir um filósofo ao seu verdadeiro leito de interlocução,
[00:09:17] formador, provocador,
[00:09:20] porque aí as falas não caem do céu, elas são contextuais.
[00:09:24] O estruturalismo tinha…
[00:09:26] Havia muito medo de que um pensamento contextualista
[00:09:30] fosse levar a reduzir o pensamento a causas sociais
[00:09:34] ou causas psicológicas, biológicas, psicanalíticas.
[00:09:38] Mas não, o contexto de interlocução efetivo, cultural,
[00:09:43] de tempo, de espírito, de uma cultura etc.,
[00:09:48] só pode ser esclarecedor com relação
[00:09:51] às verdadeiras…
[00:09:54] ao verdadeiro movimento,
[00:09:56] ao movimento que o pensamento do autor está fazendo.
[00:10:01] Acho que isso vem da sua trajetória.
[00:10:04] Estou aqui com a ascensão e queda do sujeito
[00:10:07] no movimento jovem hegeliano,
[00:10:08] que é um livro publicado em 1992,
[00:10:11] e está lá Hegel, Strauss, Bauer, Feuerbach, Steiner e Marx.
[00:10:16] Então, é como se…
[00:10:17] O senhor leu todo o contexto
[00:10:19] e fez essa recontextualização do trabalho de Marx.
[00:10:21] Isso faz parte da sua história.
[00:10:24] E eu acho que…
[00:10:26] Tem uma pergunta meio biográfica,
[00:10:28] que eu acho muito importante.
[00:10:29] A gente está falando de uma tentativa de descentralizar Marx.
[00:10:33] Mas como foi o seu contato com Marx?
[00:10:35] O senhor aprendeu Marx transcendentalizado?
[00:10:37] Como foi o seu processo, de alguma forma,
[00:10:43] de vida, dessa descentralização?
[00:10:47] Eu posso dizer, até sem muita interpretação
[00:10:51] de minha intencionalidade nesse passo,
[00:10:56] que eu tinha um encantamento por teoria,
[00:11:01] por teoria científica,
[00:11:02] por grandes paradigmas que dão conta de compreensões gerais das coisas.
[00:11:08] E eu me animava muito de ver isso na biologia,
[00:11:13] com a evolução, ou na física,
[00:11:15] com a teoria da relatividade, teoria quântica,
[00:11:17] na cosmologia, me interessava muito nessas coisas.
[00:11:20] Então…
[00:11:22] E não pelo que era teoria social,
[00:11:24] pelo que era teoria política.
[00:11:25] Eu dizia, mas onde está aí o sentido que isso dá?
[00:11:29] Não me respondia em nada nesses termos.
[00:11:33] A sociologia com que eu entrei em contato e tudo, nada.
[00:11:37] E aí eu li os manuscritos.
[00:11:41] Não, eu não li os manuscritos.
[00:11:42] Eu li o conceito filósofo.
[00:11:45] O conceito marxista do homem.
[00:11:47] O conceito marxista do homem, de Erich Fromm,
[00:11:50] que é um integrante da escola de Frankfurt.
[00:11:54] Mas desses assim,
[00:11:55] até tomados um pouco como menos rigorosos,
[00:11:59] menos obscuros, talvez, meio pop,
[00:12:02] porque ele escreveu um livro, se não me engano,
[00:12:05] A Arte de Amar.
[00:12:06] Erich Fromm escreveu A Arte de Amar,
[00:12:09] que encantou toda uma geração, a minha, na juventude.
[00:12:12] Ele falava de amor de um jeito encantador, humano, persuasivo.
[00:12:17] Eu me lembro que, principalmente, ele dizia que
[00:12:20] o decisivo é mais amar do que ser amado.
[00:12:23] Com relação ao amor, à preocupação, à intenção,
[00:12:25] a intenção principal de todos é conseguir ser amado.
[00:12:28] E ele dizia, não, a força do amor é a força de você se pôr como quem ama.
[00:12:33] Então, imagina, um cara desse vai falar de Marx,
[00:12:37] antropologia, o Marx antropológico,
[00:12:40] mas, ao mesmo tempo, o Marx da compreensão do nosso tempo histórico,
[00:12:44] do racha da sociedade, do conflito social, da perda, da alienação.
[00:12:50] São os termos clássicos do humanismo marxista.
[00:12:53] Então, me encantou.
[00:12:55] Aí, eu que já tinha inclinações um pouco ali de aflições de juventude carente,
[00:13:05] socialmente atrapalhada, eu já tinha uma inclinação para querer…
[00:13:10] Estava insatisfeito com o mundo e com o que o mundo fazia comigo.
[00:13:15] E, opa, aqui agora tem uma pegada compreensiva do social
[00:13:20] comparável àquelas compreensivas do…
[00:13:25] do Darwin ou do Einstein ou do Max Planck.
[00:13:29] Mas não enquanto ciência rádio,
[00:13:31] porque, no fundo, eu estava querendo essas narrativas
[00:13:34] pelo sentido de compreensão que elas ofereciam.
[00:13:38] Então, eu tenho um interesse científico,
[00:13:40] mas sempre tive uma sensibilidade um pouco mais hermenêutica,
[00:13:44] de leituras de sentidos gerais, de busca.
[00:13:50] Então, o Erich Fromm me ofereceu isso.
[00:13:54] A partir daí, eu fui casando isso com uma militância.
[00:13:58] E aí, eu digo, olha, o Marx sob a ditadura…
[00:14:03] Eu digo, olha, o Marx…
[00:14:05] O Marx, justamente, que envolve a sua pequena luta política
[00:14:09] nos destinos mais gerais do homem, da história e da humanidade.
[00:14:15] Então, é algo que, sob condições duras como a da ditadura,
[00:14:20] encaixam, assim, um modo de pensar,
[00:14:22] encaixam, assim, um modo de vida, de entrega,
[00:14:26] porque a luta contra a ditadura é uma entrega,
[00:14:28] de certa forma, não quero ser patético,
[00:14:30] é uma entrega da vida, do risco que ela envolve, etc.
[00:14:33] Então, o marxismo é a coisa.
[00:14:35] Eu até costumo dizer assim, olha, se voltar à ditadura,
[00:14:37] eu volto à ortodoxia.
[00:14:39] Pior, nem vou dizer o nome aqui
[00:14:41] da mais ortodoxa ortodoxia comunista,
[00:14:45] porque, de fato, é, então, aquela coisa menos de brincadeira,
[00:14:49] aquela coisa…
[00:14:50] Então, eu vejo isso em Marx.
[00:14:52] Então, aí, eu fui por aí.
[00:14:55] Quando a ditadura distendeu e pintou a democratização,
[00:15:04] eu digo assim, agora eu vou fazer isso,
[00:15:07] mas como filosofia mesmo,
[00:15:09] porque eu tenho mais inclinação filosófica do que política.
[00:15:13] Agora, eu acho que as duas estão bem casadas,
[00:15:15] mas eu tenho mais inclinação filosófica do que política.
[00:15:18] Aí, é visto assim, olha, deixa os amigos irem,
[00:15:20] a minha geração ia ir para Portugal,
[00:15:22] a minha irmã ia para Portugal,
[00:15:23] e minha irmã ia para Portugal.
[00:15:25] Então, se eu for fazer isso,
[00:15:27] eu acho que tem que ter essa crítica,
[00:15:29] porque não é só prática,
[00:15:31] mas tem que ter essa crítica de que a gente tem que ter
[00:15:33] uma política institucional e uma política institucional.
[00:15:36] Eu os admiro por peitarem isso,
[00:15:39] que também têm suas demandas duras, os colegas,
[00:15:43] e também o romantismo da revolução
[00:15:46] checado pelo trâmite prosaico da política tradicional,
[00:15:50] já derrubei a ditadura
[00:15:53] agora eu posso
[00:15:54] agora eu tenho o direito de cuidar desse outro jardim
[00:15:57] então os amigos vão pra lá
[00:15:59] no Genuíno, no Companhia Limitada
[00:16:01] e eu vou
[00:16:02] que essa é um pouco a geração
[00:16:05] que me viram mais bem circunscrita
[00:16:07] e eu vou mexer no negócio
[00:16:09] do marxismo mesmo, vou mexer
[00:16:11] nisso aí, porque eu sempre quis
[00:16:13] entender melhor o que era
[00:16:15] aquilo que estava me levando
[00:16:17] sustentando minhas crenças
[00:16:19] agora
[00:16:20] no combate você não faz isso
[00:16:23] bem, agora eu vou
[00:16:25] fazer sim, vai ser minha contribuição
[00:16:27] vai ser meu serviço
[00:16:28] vai ser, porque também
[00:16:31] aí você enfrenta no
[00:16:33] debate de esquerda, muitos
[00:16:34] os famosos rachas
[00:16:37] os famosos rachas
[00:16:38] as pessoas subitamente
[00:16:41] entendem que não entendiam
[00:16:43] que não era aquele entendimento
[00:16:44] com o qual conviviam, mas é totalmente
[00:16:47] outro, mas entendem isso
[00:16:48] rapidamente quase como um iluminismo
[00:16:50] mas você estava
[00:16:52] tudo bem, eu acho que você está pensando
[00:16:54] bem, mas a
[00:16:56] meia hora atrás você estava pensando
[00:16:59] tão veementemente
[00:17:01] sobre outra coisa
[00:17:02] de outra maneira sobre isso
[00:17:04] e agora? Então a esquerda
[00:17:06] vive dessas tendências
[00:17:08] que estão sempre como
[00:17:10] recuperações mais
[00:17:13] autênticas de uma verdade
[00:17:14] em conflito com outras
[00:17:16] degeneradas, etc.
[00:17:18] Mas nós não podemos ser tão
[00:17:20] infantis nisso, então
[00:17:22] vamos mexer, vamos mexer nisso aí
[00:17:24] eu digo, eu vou mexer nisso aí, vou
[00:17:26] parir algumas coisas, que aí
[00:17:28] sim, houve quem me dissesse assim
[00:17:30] ah, você está querendo
[00:17:32] inventar a roda, já tem a roda
[00:17:34] quer dizer, a roda é Marx, por que
[00:17:36] você não vai querer agora ver
[00:17:38] se a roda roda mesmo
[00:17:40] se ela é boa roda
[00:17:42] se é redonda, pra onde
[00:17:45] nos conta, pra quê?
[00:17:46] Então você quer reinventar a roda
[00:17:48] mas eu quero saber
[00:17:50] justamente isso
[00:17:52] quero checar de que maneira
[00:17:54] essa roda responde
[00:17:55] as necessidades do caminho, qual é a
[00:17:58] trilha que ela
[00:17:59] enfrenta, etc. Então é a
[00:18:02] hora de eu fazer isso, aí foi fazer isso
[00:18:04] com filosofia, fazer pós-graduação
[00:18:06] pagar o mico da
[00:18:07] o tributo da filosofia
[00:18:10] formal, técnica
[00:18:12] o pessoal quer saber se
[00:18:14] inclusive o pessoal logo me encarou
[00:18:16] eu fui pra Unicamp, passei um pouco ali
[00:18:18] entre USP e Unicamp, mas minha titulação é
[00:18:20] pela Unicamp, eu sei que o pessoal
[00:18:21] olhou logo pra mim e disse, esse cara chegou
[00:18:23] não só da Bahia
[00:18:25] que é um negócio
[00:18:28] que talvez não prometa
[00:18:30] tanto, mas ainda vem escrito
[00:18:32] aqui um negócio que eu vou dizer
[00:18:34] que é ativista, mas não é
[00:18:35] é emista, mas é coisa até pior
[00:18:38] mas aí você tem que dizer
[00:18:39] segura aí seu filho da puta que você
[00:18:42] vai ver o que o nordestino
[00:18:44] desafiado pode fazer
[00:18:46] o que a minha geração pode fazer
[00:18:48] então enquanto vocês estão aqui
[00:18:50] sentados, aí fiz direitinho
[00:18:52] o tal do dever de casa
[00:18:53] investi muito
[00:18:55] e aí fui fazer essa história de dar
[00:18:58] uma espécie de signal
[00:18:59] na ideia da leitura interna
[00:19:02] vou fazer mais interna
[00:19:04] ainda com outro tipo
[00:19:06] de resultado, porque eu vou tomar
[00:19:07] o pensamento como um movimento
[00:19:10] de pensamento
[00:19:11] que se insere
[00:19:14] numa interlocução tácita
[00:19:16] ou explícita
[00:19:18] e que eu capto
[00:19:19] não por um a priori de que há uma
[00:19:22] construção lógica, mas eu quero ver mesmo
[00:19:24] o que é que expressa
[00:19:28] um texto
[00:19:29] em termos de preocupações
[00:19:32] empenhos
[00:19:34] interesses, etc
[00:19:38] cálculos, etc
[00:19:39] porque o Marx tem um negócio, por exemplo
[00:19:42] óbvio
[00:19:43] o Marx
[00:19:45] o pessoal pega logo o capital
[00:19:47] que é aquela
[00:19:48] coisa construída mais
[00:19:49] parecendo o tal castelo de cristal
[00:19:52] aquela coisa mais
[00:19:53] matemática
[00:19:57] sei lá, teórica
[00:19:58] conceitual, armada
[00:19:59] até fora do tempo e do espaço
[00:20:02] em certa medida
[00:20:03] o Marx
[00:20:06] se tornou
[00:20:07] o máximo
[00:20:10] de Marx no capital
[00:20:11] mas olha meu filho, o Marx se tornou
[00:20:14] comunista antes
[00:20:16] de ter o materialismo histórico
[00:20:18] e a crítica da economia política
[00:20:20] se tornou antes
[00:20:22] não lhe parece um pouco peculiar
[00:20:24] ao Tusser
[00:20:25] que ele primeiro
[00:20:26] se apaixonou
[00:20:30] por um certo humanismo
[00:20:31] e depois encontrou um discurso
[00:20:34] racional que
[00:20:35] ó grande coincidência
[00:20:37] o sustentava
[00:20:39] e que punha o comunismo como um modo
[00:20:42] de produção
[00:20:42] em um desenvolvimento determinista
[00:20:45] que você pode estabelecer em linguagem
[00:20:47] bem secular e científica
[00:20:49] que entretanto conduz
[00:20:50] aquela sua meta
[00:20:53] amada de juventude
[00:20:55] com que ele compartilhava
[00:20:57] com místicos como Moses Hess
[00:20:59] por exemplo, que além de ser pai do comunismo alemão
[00:21:01] é o pai do sionismo
[00:21:02] então quer dizer
[00:21:04] então tem essa coisa
[00:21:08] já que sugere
[00:21:09] que os interesses que eu chamo
[00:21:11] normativos, ideais
[00:21:13] foram mais determinantes do que as inferências
[00:21:15] lógicas que parecem
[00:21:17] que quiseram servir
[00:21:19] servir a essa
[00:21:22] construção de adesão
[00:21:24] mais
[00:21:26] humanista
[00:21:28] especulativa que ele traz de origem
[00:21:30] aí eu fui mexer um pouco
[00:21:32] nisso e me deparei com os primeiros
[00:21:34] primeiros, porque se tem um jovem
[00:21:36] Marx, tem um Marx adolescente
[00:21:38] também, podemos daqui a pouco chegar no Marx
[00:21:40] infante, né?
[00:21:42] mas do interesse de pensamento
[00:21:43] não precisamos ir tão lá atrás
[00:21:45] se não vai ser uma coisa meio freudiana
[00:21:47] parar ali nos quatro anos de idade
[00:21:49] no édipo de Marx
[00:21:50] não precisa ser isso
[00:21:52] mas o que é que foi Marx antes de ser comunista?
[00:21:57] o que é que foi Marx
[00:21:57] quando se apaixonou por Hegel
[00:21:59] e chutou o curso de direito
[00:22:02] para a aflição do seu pai
[00:22:03] para querer seguir essa paixão
[00:22:05] por esse homem, Hegel
[00:22:07] a quem ele se referiu
[00:22:10] como quase que
[00:22:11] quase como um bruxo
[00:22:14] de encantamento
[00:22:15] de encantamento
[00:22:17] de encantação
[00:22:19] envolvente
[00:22:21] então aí você vai ver esse Marx
[00:22:23] também o Marx
[00:22:25] era
[00:22:27] aquele clima
[00:22:29] que eu chamo de um cristianismo esotérico
[00:22:31] tá lá em Herder, tá lá em Goethe
[00:22:33] é bem alemão
[00:22:35] eu costumo dizer assim, olha, não acredite em alemão liberal
[00:22:37] todo alemão é panteísta
[00:22:39] e se sai do panteísmo religioso
[00:22:41] que é uma coisa assim
[00:22:43] meio espinozana, ele vai
[00:22:45] para um panteísmo secular
[00:22:47] que é um pouco
[00:22:49] o comunismo, que é uma espécie de
[00:22:51] comunalismo radical
[00:22:53] é uma barra pesada
[00:22:55] a proposta
[00:22:57] do comunismo, porque embora
[00:22:59] apareça como um modo
[00:23:01] de produção sucessivo
[00:23:03] é também algo que não
[00:23:05] comporta Estado
[00:23:07] propriedade
[00:23:09] dinheiro, que faz a coincidir
[00:23:11] o interesse geral com o interesse particular
[00:23:13] espontaneamente, é um conjunto
[00:23:15] de pretensões que eu digo
[00:23:17] mas como que Marx
[00:23:19] conseguiu ainda
[00:23:21] impor o rótulo de utópico
[00:23:23] aos outros
[00:23:25] nenhum outro
[00:23:27] dos socialistas utópicos
[00:23:29] tem uma utopia tão plena
[00:23:31] radical
[00:23:33] como eu diria
[00:23:35] etérea, celestial
[00:23:37] como o comunismo vai ler
[00:23:39] o que ele diz
[00:23:41] eu não boto palavras na boca
[00:23:43] de Marx, essa minha leitura
[00:23:45] é justamente
[00:23:47] bruta, porque eu não tenho
[00:23:49] que botar palavras na boca
[00:23:51] eu só tenho que
[00:23:53] ver o que é mesmo que ele está dizendo
[00:23:55] talvez
[00:23:57] contrariando ele um pouquinho
[00:23:59] num exercício
[00:24:01] que ele tem exímio
[00:24:03] e os filósofos são bons nessas coisas todas
[00:24:05] senão não viravam as estrelas todas
[00:24:07] que eles são
[00:24:09] eles andam pra frente apagando
[00:24:11] as próprias pegadas
[00:24:13] porque eles têm um pleito
[00:24:15] de
[00:24:17] banalidade radical
[00:24:19] que Nietzsche celebra
[00:24:21] que os românticos celebram
[00:24:23] e aos quais Marx não escapa
[00:24:25] porque haveria de escapar
[00:24:27] um ser humano como outro qualquer
[00:24:29] enfrentando o dilema
[00:24:31] digamos assim, de estar no tempo
[00:24:33] e contemplar a eternidade
[00:24:35] e aí, como é que vai ser isso
[00:24:37] mas se você olhar
[00:24:39] as cartas de Marx estão lá
[00:24:41] essas figurinhas que eles
[00:24:43] trocam com Engels
[00:24:45] de maneira que se agora você vê uma espécie
[00:24:47] de analogia da libertação
[00:24:49] só surpreende ignorantes
[00:24:51] como é que o cristianismo agora abraçou Marx
[00:24:53] meu Deus, deve ser porque Marx é tudo
[00:24:55] não é, porque Marx já está
[00:24:57] já nasce colado com uma certa leitura
[00:24:59] esotérica do cristianismo
[00:25:01] é perfeitamente previsível o que acontece
[00:25:03] aí eu me pergunto
[00:25:05] um pouco
[00:25:07] você me detém aí na hora que quiser
[00:25:09] eu me pergunto um pouco
[00:25:11] eu que gosto desse tipo de especulação
[00:25:13] mas me pergunto
[00:25:15] sim, mas vale misturar
[00:25:17] com a política
[00:25:21] por alguma razão a gente
[00:25:23] separa igreja de estado
[00:25:25] não é por razões somente
[00:25:27] politico-práticas
[00:25:29] é por pressupostos um tanto
[00:25:31] de episteme
[00:25:33] de compreensão das coisas
[00:25:35] se organiza o estado
[00:25:37] com base em arranjos de convivência
[00:25:39] já essas coisas
[00:25:41] não tem nada a ver com arranjos de convivência
[00:25:43] tem a ver com coisas muito mais sólidas
[00:25:45] pretensões de mais sólidas do que de arranjos
[00:25:47] precários
[00:25:49] de paixão subjetiva
[00:25:51] de entrega de vida
[00:25:53] não há muito
[00:25:55] posso só falar francamente
[00:25:57] eu não gosto muito
[00:25:59] das coisas do Leonardo Boff
[00:26:01] mas gosto das coisas do Clodovice Boff
[00:26:03] o Clodovice Boff muita gente que é
[00:26:05] político vai ler e vai se desencantar
[00:26:07] porque ele está querendo fazer religião
[00:26:09] quando faz teologia
[00:26:11] então eu tenho uma certa
[00:26:13] vou entregando aqui de barato
[00:26:15] um certo ceticismo com relação a isso
[00:26:17] que virou um pouco
[00:26:19] a característica da nossa esquerda
[00:26:21] misturar um pouco
[00:26:23] religião católica
[00:26:25] protestante e anato
[00:26:27] o que a gente permite
[00:26:29] acerta o catolicismo
[00:26:31] nós todos somos católicos
[00:26:33] eu sou católico de formação
[00:26:35] posso dizer
[00:26:37] como era aluno estudioso
[00:26:39] até de catecismo eu fui bom
[00:26:41] mas não fui coroinha
[00:26:43] mas de toda maneira
[00:26:45] eu acho
[00:26:47] o meu livro tem essa intenção
[00:26:49] de radicalizar
[00:26:53] de secularizar um pouco Marx
[00:26:55] e de desnaturalizá-lo
[00:26:57] ele não parecer tão óbvio
[00:26:59] me permita
[00:27:01] ter esse chavão
[00:27:03] quem conhece um pensamento só
[00:27:05] não conhece pensamento nenhum
[00:27:07] isso para nós filósofos faz sentido
[00:27:09] você está operando no interior
[00:27:11] de certos pressupostos
[00:27:13] ali tem uma certa circularidade
[00:27:15] implícita
[00:27:17] o pensador segundo ele mesmo
[00:27:19] é o máximo
[00:27:21] e por boas razões
[00:27:23] são as dele
[00:27:25] mas você tem que entender
[00:27:27] que você está capturado
[00:27:29] por aqueles pressupostos
[00:27:31] então tudo faz sentido absoluto
[00:27:33] e quem vier de outros pressupostos
[00:27:35] por definição não dá conta
[00:27:37] do que ele falou aqui
[00:27:39] dá conta de outra coisa
[00:27:41] mas nós temos essa disposição
[00:27:43] a filosofia apesar de tudo
[00:27:45] mas sabendo que tinha muitas outras
[00:27:47] antes dele e duvidando
[00:27:49] de que não houvesse outras depois
[00:27:51] tanto assim que o Hegel lá
[00:27:53] faz tanto assim que pegar tudo junto
[00:27:55] mas é esse movimento todo
[00:27:57] eu estou ali dentro dele
[00:27:59] eu só estou melhor porque eu peguei isso tudo
[00:28:01] eu quero estar dentro disso aí
[00:28:03] me pôr na extensão disso aí
[00:28:05] mas então
[00:28:07] o Marxismo tem muito disso
[00:28:09] de ser autossuficiente
[00:28:11] daí você vê esse livro
[00:28:13] é o que basicamente?
[00:28:15] você vê Marx falando desses filósofos todos
[00:28:17] e o que eles diziam mesmo
[00:28:19] por si
[00:28:21] segundo o que eles diziam
[00:28:23] de Marx
[00:28:25] você faz então um jogo de espelhos
[00:28:27] você vê fora a barriga
[00:28:29] como Marx os espelha
[00:28:31] agora você vai ver como é
[00:28:33] que você pode ver Marx
[00:28:35] espelhado por esses outros caras
[00:28:37] que não eram pensadores
[00:28:39] desprezíveis
[00:28:41] nem deixavam de futucar Marx
[00:28:43] onde dói
[00:28:45] isso não é relativismo
[00:28:47] a gente não é relativista
[00:28:49] por isso
[00:28:51] mas a gente quer entender
[00:28:53] que o movimento de pensamento
[00:28:55] não se sustenta dogmaticamente
[00:28:57] ele reflete
[00:28:59] pontos de vista
[00:29:01] que procuram dar conta da realidade
[00:29:03] não se equivalem todos
[00:29:05] se batem com o real
[00:29:07] e portanto podem ser medidos
[00:29:09] pelo real
[00:29:11] mas o real também é sempre dito
[00:29:13] é sempre parcialmente
[00:29:15] visto
[00:29:17] então a filosofia promete
[00:29:19] manter
[00:29:21] esse jogo
[00:29:23] aberto em benefício
[00:29:25] de construções melhores
[00:29:27] de compreensões melhores
[00:29:29] não é isso mesmo?
[00:29:31] então aí vai na direção
[00:29:33] da democracia
[00:29:35] eu acho que essa recontextualização
[00:29:37] é um movimento quase como
[00:29:39] o que o senhor fez
[00:29:41] com o Marx
[00:29:43] porque o senhor pegou o Marx e mostrou o contexto dele
[00:29:45] para jogar no seu contexto de formação
[00:29:47] para a gente ver como um corpo produz um texto
[00:29:49] de certa forma
[00:29:51] mas a gente
[00:29:53] nesse sentido
[00:29:55] eu acho que a narrativa que eu mais gosto
[00:29:57] sobre essa transição
[00:29:59] da ditadura para a democracia
[00:30:01] é a narrativa do Luiz Eduardo Soares
[00:30:03] quando ele deu a volta pragmatista dele
[00:30:05] ele fez um romance chamado
[00:30:07] Experimento de Avelar
[00:30:09] nesse romance ele coloca vários personagens
[00:30:11] que lutaram com a ditadura
[00:30:13] chamado Avelar que sumiu
[00:30:15] e que teria escrito o texto
[00:30:17] que seria definitivo
[00:30:19] para você conseguir
[00:30:21] reacuançar o marxismo
[00:30:23] trazer o marxismo de volta
[00:30:25] depois da queda da União Soviética
[00:30:27] de tudo aquilo que aconteceu
[00:30:29] e o personagem sai procurando esse texto perdido
[00:30:31] e até que ele encontra o Experimento de Avelar
[00:30:33] e é uma obra de arte pós-moderna
[00:30:39] então né cara
[00:30:41] você vê que
[00:30:43] a gente enfrenta essas questões
[00:30:45] às vezes mais com literatura
[00:30:47] do que com filosofia
[00:30:49] com metáforas
[00:30:51] e com filosofia
[00:30:53] quando você meio que aceita esse jogo
[00:30:55] da finitude
[00:30:57] do experimentalismo
[00:30:59] do contingente
[00:31:03] e abraça isso
[00:31:05] com intenções construtivas
[00:31:07] você não
[00:31:09] se deita nessa rede
[00:31:11] de indiferença
[00:31:13] ou perplexidade
[00:31:15] você retorna
[00:31:17] ao terreno
[00:31:19] em que outros seres humanos comuns
[00:31:21] convivem
[00:31:23] com relação ao qual
[00:31:25] você se acha tão superior
[00:31:27] e que entretanto os seres humanos comuns
[00:31:29] tem uma maneira mais prosaica
[00:31:31] de
[00:31:33] admitir
[00:31:35] a finitude
[00:31:37] a limitação
[00:31:39] das crenças que tem
[00:31:41] e das formas de sustentá-las
[00:31:43] o que entretanto não os impede
[00:31:45] de dar o seu melhor
[00:31:47] por exemplo para escolher
[00:31:49] a educação do filho
[00:31:53] o tipo de relação
[00:31:55] matrimonial que desenvolve
[00:31:57] todos os homens tem
[00:31:59] intenções construtivas
[00:32:01] sobre essas coisas todas
[00:32:03] e manejam
[00:32:05] o seu bom senso
[00:32:07] da maneira melhor possível
[00:32:09] sem essa
[00:32:11] a excedência
[00:32:13] que os filósofos na verdade
[00:32:15] eles ficam negando
[00:32:17] aquilo que eles mesmos construíram
[00:32:19] porque as pessoas comuns não pegaram
[00:32:21] essas viagens tão translocadas
[00:32:23] aí a filósofa
[00:32:25] empurra esse negócio para cima do pessoal
[00:32:27] depois vem de lá e diz
[00:32:29] não, mas não é nada disso
[00:32:31] não tem base para isso
[00:32:33] tá meu filho eu nunca levei você muito a sério
[00:32:35] eu acho que
[00:32:37] sair desse sublime
[00:32:39] ou saber do nosso jogo
[00:32:41] o limite dele é muito importante
[00:32:43] é interessante também a gente voltar lá no Marx
[00:32:45] e ver as distinções que você faz
[00:32:47] você encontra materialismo prático no Marx
[00:32:49] materialismo histórico dialético
[00:32:51] humanismo especulativo
[00:32:53] eu queria que você falasse desses Marx
[00:32:55] que você encontra e como você
[00:32:57] salva Marx também
[00:32:59] como você distingue
[00:33:01] você destrincha o Marx
[00:33:03] é, bom
[00:33:05] eu me encantei muito
[00:33:07] com os manuscritos
[00:33:11] mas
[00:33:13] eu me desvia imbuído
[00:33:15] de uma dimensão
[00:33:17] filosófica especulativa
[00:33:19] poética
[00:33:21] metafórica, alegórica
[00:33:23] muito
[00:33:25] encantadora
[00:33:27] mas
[00:33:31] pertencendo mais
[00:33:33] ao campo um pouco da crença
[00:33:35] daquilo que acolhe
[00:33:37] seus afetos
[00:33:39] certos tipos de inquietações
[00:33:41] depois você pega de Marx um texto
[00:33:43] com as teses
[00:33:45] as teses
[00:33:47] bom, eu me encantei pelas teses
[00:33:49] são só duas páginas
[00:33:51] você pode mastigar
[00:33:53] direitinho
[00:33:55] e aí você vai dizer, olha
[00:33:57] vocês aí da USP
[00:33:59] e mesmo aquele francês lá
[00:34:01] como era o nome dele, não me lembro
[00:34:03] tem tantas leituras das teses
[00:34:05] as teses já produziram com as suas duas páginas e meia
[00:34:07] duas mil páginas e meia
[00:34:09] de tanta gente
[00:34:11] mas se você ler as teses, Marx foi para a França
[00:34:13] e escreveu elas na França
[00:34:15] em 45, você vê como Marx evoluía
[00:34:17] escreveu os manuscritos
[00:34:19] escreveu aquele negócio
[00:34:21] do mito de humanos a respeito do roubo de madeira
[00:34:23] em 43
[00:34:25] em 44 já fez um negócio
[00:34:27] mais de economia
[00:34:29] abertamente, do que místico
[00:34:31] cristão
[00:34:33] e depois já fez aquele negócio
[00:34:35] mais
[00:34:37] prosaico
[00:34:39] mais conciso
[00:34:41] parece até uma coisa meio anglo-sacana
[00:34:43] meio antissônica, meio analítica
[00:34:45] são as teses
[00:34:47] e ele fez isso já na França
[00:34:49] a França é um bom solo
[00:34:51] talvez para sacudir
[00:34:53] algumas poeiras alemãs
[00:34:55] que a ideologia alemã
[00:34:57] antes de mais nada é ideologia demais
[00:34:59] o Marx é muito esperto
[00:35:01] nisso, ele cobre muita retaguarda
[00:35:03] a ideologia alemã
[00:35:05] sim Marx, mas e você?
[00:35:07] e você nessa história toda?
[00:35:09] você foi hegeliano, você adorava Goethe
[00:35:11] você se empolgou
[00:35:13] você
[00:35:15] foi convertido por Moses Harris
[00:35:17] você andou entre Feuerbach
[00:35:19] e Hegel
[00:35:21] isso tudo é teologia
[00:35:23] você admite, o teu principal mentor
[00:35:25] o principal mentor
[00:35:27] de Marx não foi Hegel, nem Feuerbach
[00:35:29] foi Bruno Bauer
[00:35:31] teólogo, teólogo
[00:35:33] não vou xingar não, um pensador
[00:35:35] extraordinário, talvez o mais brilhante
[00:35:37] discípulo de Hegel
[00:35:39] teria admitido isso
[00:35:41] então era teólogo
[00:35:43] o primeiro curso que Marx ia dar
[00:35:45] na universidade
[00:35:47] se o pistolão dele, que é Bauer
[00:35:49] não tivesse sido cassado
[00:35:51] era um curso sobre um teólogo kantiano
[00:35:53] então chega o Marx na França
[00:35:55] lê ali um pouco
[00:35:57] é provável
[00:35:59] lê um pouco de Condorcet
[00:36:01] e dessas coisas
[00:36:03] sopra ali uma maragem
[00:36:05] de um idealismo
[00:36:07] não tão de sistema
[00:36:09] e ele dispara
[00:36:11] esse pequeno resumo
[00:36:13] essa pequena plataforma
[00:36:15] que é o contrário
[00:36:17] de sistema
[00:36:19] é anotações
[00:36:21] anotações para
[00:36:23] e tem o título
[00:36:25] não é contra Feuerbach
[00:36:27] é ad Feuerbach
[00:36:29] a propósito de Feuerbach
[00:36:31] então são provocações
[00:36:33] a partir de Feuerbach
[00:36:35] então eu me encantei muito por esse texto
[00:36:37] explorei
[00:36:39] ele diz muita coisa
[00:36:41] porque é conciso
[00:36:43] é verdade que é um manuscrito
[00:36:45] o João Quartinho de Moraes
[00:36:47] que é um marxista
[00:36:49] de quatro costados
[00:36:51] ele disse
[00:36:53] o negócio que ele não publicou
[00:36:55] o negócio que ele não publicou
[00:36:57] você não pode pegar
[00:36:59] eu tenho uma metáfora diferente
[00:37:01] eu vou dizer a metáfora
[00:37:03] e depois não deixa eu me perder
[00:37:05] a metáfora é o seguinte
[00:37:07] se você quer ser pintor
[00:37:09] você vai para o atelier
[00:37:11] do artista
[00:37:13] e vê os esboços
[00:37:17] as molduras
[00:37:19] os cavaletes
[00:37:21] as tintas
[00:37:23] os rasgados
[00:37:25] o chão e tudo
[00:37:27] aí sim meu filho
[00:37:29] ali é que você vai ver
[00:37:31] a filosofia nascendo
[00:37:33] então os manuscritos
[00:37:35] tem essa propriedade
[00:37:37] são os rascunhos
[00:37:39] como eu não estou querendo atribuir
[00:37:41] a verdade sobre Marx
[00:37:43] porque eu não tenho essa inclinação
[00:37:45] do que é o Marx em si
[00:37:47] porque ele é intocável
[00:37:49] você defende ele de todo jeito
[00:37:51] defende para cima, defende para baixo
[00:37:53] defende para esquerda, defende para direita
[00:37:55] defende para sair daquele negócio acabado
[00:37:57] eu digo que ele não merece isso
[00:37:59] eu quero ver ele como um acontecimento em curso
[00:38:01] que se bate de um lado para o outro
[00:38:03] onde eu me choco e parto dali também
[00:38:05] para outras coisas
[00:38:07] então as teses
[00:38:09] tem esse caráter
[00:38:11] de um rascunho
[00:38:13] ali
[00:38:15] no rascunho ele tem coisas bem centrais
[00:38:17] uma dessas que ele diz
[00:38:19] apesar de
[00:38:21] ser assim tão resumida
[00:38:23] ele diz aí o que é a realidade
[00:38:25] o que é atividade
[00:38:27] o que é o conhecimento
[00:38:29] o que é o real
[00:38:31] o que é o conhecimento do real
[00:38:33] e o que é a ação dentro do real
[00:38:35] ele responde
[00:38:37] às questões principais da filosofia
[00:38:39] o real é atividade sensível
[00:38:41] olha que coisa
[00:38:43] magnífica
[00:38:45] o real não é algo, não é um objeto
[00:38:47] não é uma coisa, é um movimento, é um processo
[00:38:49] ele não gosta disso
[00:38:51] então assuma
[00:38:53] Marx também está dentro do processo
[00:38:55] se você quer sair
[00:38:57] do manjado aí
[00:38:59] até moderno, dualista, cartesiano
[00:39:01] o real é atividade sensível
[00:39:03] não é atividade linguística
[00:39:05] não é atividade subjetiva
[00:39:07] não é atividade sensível
[00:39:09] quer dizer, é atividade social material
[00:39:11] sensível aí tem esse caráter
[00:39:13] é atividade social, é produção
[00:39:15] é fazer, olha que coisa legal
[00:39:17] o Goethe dizia, no começo era o ato
[00:39:19] eu gosto de repetir isso
[00:39:21] não era o verbo, era o ato
[00:39:23] eu que sou meio antilinguocêntrico
[00:39:25] é no começo
[00:39:27] quando você vê que isso tudo
[00:39:29] antes de aparecer como teoria
[00:39:31] aparece como alegoria
[00:39:33] no começo era o ato, no começo era o verbo
[00:39:35] mas o verbo é o evangelho
[00:39:37] não era de João Evangelista
[00:39:39] quer dizer, a outra
[00:39:41] Goethe, quer dizer
[00:39:43] o espírito que dá conta
[00:39:45] das coisas é desse horizonte
[00:39:47] mais abrangente, então está lá
[00:39:49] o real é atividade humana
[00:39:51] e o homem também é atividade
[00:39:53] humana sensível
[00:39:55] começa a operar aí, ou seja
[00:39:57] ele faz um negócio que é meio
[00:39:59] unitarista
[00:40:01] panteísta, que é dar a mesma
[00:40:03] definição para o sujeito
[00:40:05] e para o objeto, ambos
[00:40:07] são atividade sensível
[00:40:09] está lá
[00:40:11] está lá isso
[00:40:13] eu me apaixonei por isso
[00:40:15] o real é prática, não é uma filosofia da
[00:40:17] praxis, cacete
[00:40:19] vamos lá, então o que ele
[00:40:21] vai dizer todo, a verdade
[00:40:23] de um pensamento
[00:40:25] não se esclarece
[00:40:27] fora da ação, mas da ação
[00:40:29] é a outra tese
[00:40:31] ele chama Marx
[00:40:33] o poder, a força
[00:40:35] de um pensamento
[00:40:37] é a sua verdade
[00:40:39] mostrada na prática
[00:40:41] então
[00:40:43] na verdade essa é a declaração mais
[00:40:45] pragmatista de Marx, o pessoal pensa
[00:40:47] que é a
[00:40:49] os filósofos tem até agora
[00:40:51] interpretado, mas trata de informar
[00:40:53] não, não é essa e depois eu posso dizer porque
[00:40:55] é
[00:40:57] é essa outra
[00:40:59] é essa outra, então
[00:41:01] a verdade
[00:41:03] de um pensamento, meu filho, não é algo que você
[00:41:05] fique discutindo fora da prática
[00:41:07] então essa é uma tese
[00:41:09] em princípio experimentalista
[00:41:13] arregaça as mangas, meu filho
[00:41:15] e meta a mão no real
[00:41:17] e o real material, mesmo esse real
[00:41:19] político, institucional
[00:41:21] se você tem inclinações
[00:41:23] menos dualistas
[00:41:25] ele está impregnado de matéria
[00:41:27] vamos dizer assim que é uma expressão
[00:41:29] que Marx usa para linguagem
[00:41:31] está impregnado de matéria e está impregnado
[00:41:33] para algo que está fora de sua cabeça
[00:41:35] ele diz que a linguagem é impregnada
[00:41:37] de matéria e é a única consciência
[00:41:39] que interessa porque é aquela
[00:41:41] compartilhada com os outros homens
[00:41:43] a que você fala
[00:41:45] está no trânsito entre
[00:41:47] do entendimento humano
[00:41:49] das coisas
[00:41:51] porque o entendimento humano é social
[00:41:53] e ele valida e serve
[00:41:55] na conduta que é social
[00:41:57] então você vê quanta coisa tem ali
[00:41:59] de extraordinário e que não
[00:42:01] não entra ainda em teleologia
[00:42:03] não entra ainda em determinismo
[00:42:05] não é verdade?
[00:42:07] não entra muito em especulação
[00:42:09] não entra em moralização
[00:42:11] não entra em presunções de valor
[00:42:13] muito arrogantes
[00:42:15] então está lá
[00:42:17] e mais coisas a gente poderia ver
[00:42:19] por exemplo quando ele diz
[00:42:21] contra o
[00:42:23] materialismo anterior
[00:42:25] o materialismo anterior
[00:42:27] ele se põe acima
[00:42:29] da sociedade
[00:42:31] porque ele pretende transformar
[00:42:33] a sociedade
[00:42:35] aí é que ele pergunta mas quem vai educar
[00:42:37] quer dizer o pensamento
[00:42:39] entra na realidade
[00:42:41] para construí-la
[00:42:43] em cima
[00:42:45] dos outros homens
[00:42:47] e esse
[00:42:49] pensamento aqui
[00:42:51] quem é que checa ele
[00:42:53] de onde vem
[00:42:55] como ele vai se aliaducar
[00:42:57] como ele vai ser corrigido
[00:42:59] qual dos outros homens é que precisa ser esclarecido
[00:43:01] qual é a sua fonte
[00:43:03] é exterior a essa dinâmica de envolvimento
[00:43:05] com o mundo
[00:43:07] a questão que é
[00:43:09] a de que não só
[00:43:11] o pensamento se prova
[00:43:13] na ação
[00:43:15] mas como ele se engendra na ação
[00:43:17] obviamente são seres desse mundo
[00:43:19] é uma coisa meio daruniana básica
[00:43:21] você se bate desde menininho
[00:43:23] pegando, cheirando, lambendo
[00:43:25] é aí que vai entendendo assim
[00:43:27] entendendo assado, o que é duro, o que é frio
[00:43:29] o que é bom, o que é alimento, o que não é
[00:43:31] então o pensamento também nasce
[00:43:33] então aquele negócio tem a prática
[00:43:35] mas também a teoria
[00:43:37] são importantes
[00:43:39] 50-50
[00:43:41] não é 50-50
[00:43:43] tem a prática humana
[00:43:45] a prática humana é pensada
[00:43:47] é pensado que o homem não é bicho burro
[00:43:49] vamos dizer assim meio simplificadamente
[00:43:51] nenhum bicho é burro
[00:43:53] mas o homem é assim
[00:43:55] o pensamento é o pensamento da ação
[00:43:57] e se prova na ação e se engendra na ação
[00:43:59] é esse recurso que você tem
[00:44:01] de fazer um arrasoado sobre o que ele aparece
[00:44:03] no trato com as coisas
[00:44:05] eu digo que essas teses de Marcos
[00:44:07] esse é o tal do materialismo prático de Marcos
[00:44:09] e eu digo assim Marcos
[00:44:11] ele nem sempre é tão fiel
[00:44:13] vamos e venhamos
[00:44:15] se você ler o próprio Capital
[00:44:17] se você ler o próprio Lucas
[00:44:19] se você ler os Grundris
[00:44:21] se você ler os Grundris
[00:44:23] você vê que se dá muito
[00:44:25] ao momento da conceituação
[00:44:27] se dá muito
[00:44:29] e se confia muito
[00:44:31] ao momento da conceituação
[00:44:33] e se confia muito
[00:44:35] que esse movimento da conceituação
[00:44:37] é uma reconstituição do real
[00:44:39] total
[00:44:41] na minha cabecinha singular
[00:44:43] porque de fato
[00:44:45] a cabecinha de Marcos é posta
[00:44:47] num lugar singular acima
[00:44:49] dos outros homens todos
[00:44:51] é embaraçoso para quem é socialista
[00:44:53] e comunista
[00:44:55] no plano ontológico e político
[00:44:57] no plano epistemológico
[00:44:59] a apropriação da verdade
[00:45:01] é um movimento subjetivo
[00:45:03] popular
[00:45:05] que reproduz na mente
[00:45:07] um movimento geral do ser
[00:45:09] é uma má epistemologia
[00:45:11] é uma epistemologia burguesa
[00:45:13] anticomunista
[00:45:15] não é comunalista
[00:45:17] você sabe que a filosofia contemporânea
[00:45:19] progrediu mais no sentido de perceber
[00:45:21] a verdade como justificação
[00:45:23] como adquirindo uma certa
[00:45:25] verificação na interlocução
[00:45:27] com os homens
[00:45:29] e no trato com a vida
[00:45:31] até Marx, até Hegel
[00:45:33] se você for ver a dialética do senhor e do escravo
[00:45:35] o escravo vai sacando
[00:45:37] melhor o que é o mundo
[00:45:39] porque ele mete mão nele
[00:45:41] o senhor não mete mão nele
[00:45:43] então o escravo fica mais sabido
[00:45:45] do que
[00:45:47] o senhor
[00:45:49] não é a interação conflitiva
[00:45:51] intersubjetiva
[00:45:53] que por si engendra
[00:45:55] essa intimidade superior com o mundo
[00:45:57] é a batalha material
[00:45:59] com o mundo
[00:46:01] olha, para uma sociedade escravista como a nossa
[00:46:03] em Jessé
[00:46:05] então
[00:46:07] se a escravidão nos marcou
[00:46:09] quem sabe nos marcou no nosso pedantismo também
[00:46:11] de chamar pobre de burro
[00:46:13] porque
[00:46:15] isso é perigoso na sociedade escravista
[00:46:17] você tem uma parte intelectual
[00:46:19] que é verdadeira
[00:46:21] nem Platão foi tão assim
[00:46:23] o próprio Marx disse
[00:46:25] que a primeira
[00:46:27] o começo de toda divisão de classe
[00:46:29] é a separação de trabalho intelectual
[00:46:31] e trabalho material
[00:46:33] aí começa a humanidade
[00:46:35] a se incindir
[00:46:37] olha aí, então não separe não meu nego
[00:46:39] não separe não
[00:46:41] mete a mão
[00:46:43] não separe humanas de exatas
[00:46:45] não separe
[00:46:47] o movimento crítico
[00:46:49] do movimento de fazer
[00:46:51] não separe
[00:46:53] então isso tudo está lá
[00:46:55] nas teses
[00:46:57] de um modo
[00:46:59] que deixa fora
[00:47:01] os compromissos mais
[00:47:03] especulativos
[00:47:05] não é que eu tenha nada
[00:47:07] contra
[00:47:09] que se desdobrem as coisas
[00:47:11] em especulações
[00:47:13] mas aqui tem um pensamento mais sóbrio
[00:47:15] ele não tomou ainda
[00:47:17] umas canas ali
[00:47:19] ele está inteirinho
[00:47:21] está numa perna só
[00:47:23] anda bem, está enxergando
[00:47:25] então isso que são as teses
[00:47:27] eu te falei 3, 4 coisas que estão nelas
[00:47:29] então o conhecimento
[00:47:31] a ação e a realidade
[00:47:33] estão se revelando
[00:47:35] nessa pequena
[00:47:37] nessa pequena
[00:47:41] produção
[00:47:43] mas
[00:47:45] respiro agora
[00:47:47] mas esse
[00:47:49] marques materialista prático
[00:47:51] é o que você
[00:47:53] quer resgatar de certa forma
[00:47:55] mas existe um marques
[00:47:57] histórico dialético
[00:47:59] e esse humanismo especulativo
[00:48:01] também né? é
[00:48:03] eu acho que é bom fazer a crítica
[00:48:05] desse também
[00:48:07] pra gente seguir
[00:48:09] deixa eu lhe dizer uma coisa
[00:48:11] as pessoas gostam
[00:48:13] de dialética
[00:48:15] e acham que é por esses
[00:48:17] meandros de contradição
[00:48:19] exteriorização
[00:48:21] alienação
[00:48:23] eventualmente
[00:48:25] unidade
[00:48:27] diversidade
[00:48:29] particular
[00:48:31] universal etc
[00:48:33] não é nada disso
[00:48:35] as pessoas não gostam de dialética
[00:48:37] por nada disso
[00:48:39] as pessoas mais uma vez
[00:48:41] gostam de dialética
[00:48:43] pelo conteúdo normativo da dialética
[00:48:45] isso é um pouco Nietzscheano
[00:48:47] que no fim é a moral que está por trás
[00:48:49] de nossas declarações mais
[00:48:51] objetivas neutras
[00:48:53] sobre o que é
[00:48:55] são declarações sobre o que deve
[00:48:57] sobre o que deve ser
[00:48:59] então tem essa dimensão
[00:49:01] é
[00:49:03] a normativa da dialética
[00:49:05] qual é a dimensão da normativa da dialética?
[00:49:07] é muito simples
[00:49:09] é a ideia de Alfebo
[00:49:11] é a ideia de superação
[00:49:13] e a ideia de emancipação
[00:49:15] é a passagem da
[00:49:17] o que é
[00:49:19] aí é que tá
[00:49:21] o Marx é mais hegeliano
[00:49:23] do que a gente gostaria
[00:49:25] pra não ficar embaraçado
[00:49:27] o outro serviu isso
[00:49:29] o outro serviu que Marx é uma combinação
[00:49:31] de Hegel com Feuerbach
[00:49:33] não tem cientificidade
[00:49:35] de cientificidade
[00:49:37] então vamos fazer
[00:49:39] um corte epistemológico
[00:49:41] mas depois você vai descobrir
[00:49:43] que ele arrasta Hegel
[00:49:45] e Feuerbach pra dentro do Capital
[00:49:47] também no fetichismo da mercadoria
[00:49:49] claro que faz isso
[00:49:51] mas ele faz isso
[00:49:53] porque Marx é hegeliano até o fim
[00:49:55] então
[00:49:57] quando Lenin leu
[00:49:59] o Capital
[00:50:01] quem não ler
[00:50:03] a lógica de Hegel
[00:50:05] aliás não
[00:50:07] não é bem assim
[00:50:09] o Capital ele leu logo
[00:50:11] ele leu a lógica de Hegel
[00:50:13] no exemplar de Bakuni
[00:50:15] no exemplar de Bakuni
[00:50:17] Bakunin se quiser
[00:50:19] do anarquista russo
[00:50:21] sobrou pro Lenin russo comunista
[00:50:23] ele leu e disse
[00:50:25] olha essa é a lógica do Capital
[00:50:27] quem não ler
[00:50:29] não entende o Capital
[00:50:31] ele ainda diz
[00:50:33] que ele é o capital dos últimos 50 anos
[00:50:35] quer dizer Marx morreu ali
[00:50:37] de oitenta e poucos
[00:50:39] então bota mais 50 anos aí
[00:50:41] é mais ou menos
[00:50:43] Lenin leu isso se não me engano
[00:50:45] em 1916
[00:50:47] então o que é
[00:50:49] a construção da grande lógica
[00:50:51] é a passagem da lógica objetiva
[00:50:53] a lógica subjetiva
[00:50:55] a lógica passa
[00:50:57] do ser pra essência
[00:50:59] pra substância e pra sujeito
[00:51:01] essa é a progressão
[00:51:03] da emancipação
[00:51:05] não é por acaso que outro marxista
[00:51:07] cujo nome eu não vou me lembrar
[00:51:09] agora que eu não sou tão bom assim
[00:51:11] estou velho
[00:51:13] ele diz
[00:51:15] a dialética
[00:51:17] é a álgebra da revolução
[00:51:19] é a álgebra da revolução
[00:51:21] é a lógica do movimento
[00:51:23] complexo real
[00:51:25] de construção
[00:51:27] das coisas
[00:51:29] então a lógica
[00:51:31] a dialética interessa
[00:51:33] primeiro torna o real
[00:51:35] lógico
[00:51:37] o movimento do real é lógico
[00:51:39] olha
[00:51:41] o pessoal acha que é muito leigo
[00:51:43] mas dizer que o real
[00:51:45] se move
[00:51:47] por um sentido lógico
[00:51:49] racional
[00:51:51] é uma progressão
[00:51:53] que tem uma lógica
[00:51:55] quase como se você fizesse com a física
[00:51:57] você descobre aquela matemática
[00:51:59] que dá conta de que a onda
[00:52:01] e a partícula são a mesma coisa
[00:52:03] e tudo
[00:52:05] e a lava é boa
[00:52:07] rutherford e companhia
[00:52:09] e mais o gato de schrodinger
[00:52:11] e etc
[00:52:13] mas então você tem a ideia
[00:52:15] despudoradamente
[00:52:17] você tem essa ideia
[00:52:19] despudoradamente meu irmão
[00:52:21] mas você já notou cara
[00:52:23] que você está dizendo
[00:52:25] não só que o real é racional
[00:52:27] mas que o real é lógico
[00:52:29] ele tem um movimento
[00:52:31] de reflexa rica
[00:52:33] mas dotada de um sentido
[00:52:35] cumulativo, construtivo
[00:52:37] que aponta para um certo sentido
[00:52:39] então é a lógica da passagem
[00:52:41] da substância ao sujeito
[00:52:43] que a substância é real separado do homem
[00:52:45] o que é o sujeito
[00:52:47] não é ainda
[00:52:49] aquele homem isolado
[00:52:51] que se confronta com seu real
[00:52:53] produzido como estranho a ele
[00:52:55] é aquele que vai então
[00:52:57] não só na cabeça
[00:52:59] mas na apropriação real
[00:53:01] do mundo
[00:53:03] chamar as circunstâncias
[00:53:05] para dentro do processo
[00:53:07] de racionalização do mundo
[00:53:09] que é humano
[00:53:11] e tem bases objetivas
[00:53:13] então o Marx
[00:53:15] da dialética
[00:53:17] é justamente
[00:53:19] o Marx
[00:53:21] de um certo sentido
[00:53:23] não é o que todos nós queremos
[00:53:25] que o real tenha sentido
[00:53:27] que aponte para alguma consumação
[00:53:29] pelo menos quem tem formação judaica
[00:53:31] como nós no ocidente
[00:53:33] se você for budista talvez não seja bem assim
[00:53:35] mas essa ideia mesmo
[00:53:37] opa
[00:53:39] olha aí
[00:53:41] quer dizer
[00:53:43] digamos assim
[00:53:45] responde a expectativas
[00:53:47] de dar sentido à vida
[00:53:49] de uma forma
[00:53:51] e as pessoas vão passando nisso
[00:53:53] como se não tivesse essas dimensões
[00:53:55] não se sustentassem também
[00:53:57] então eu quero dizer isso
[00:53:59] que a ideia do método, da lógica
[00:54:01] que é um organo racional
[00:54:03] fecundo, produtivo
[00:54:05] porque o real tem movimento
[00:54:07] e perceber sentido
[00:54:09] e lógica nesse movimento
[00:54:11] faz sentido
[00:54:13] mas talvez não com um sistema fechado
[00:54:15] com começo, meio e fim
[00:54:17] tão providenciais
[00:54:19] não é isso mesmo?
[00:54:21] eu costumo dizer assim
[00:54:23] olha uma coisa
[00:54:25] Marcos
[00:54:27] que eu digo o que Marx faz
[00:54:29] é para bem que coisa
[00:54:31] Marx é um autor
[00:54:33] que faz com que
[00:54:35] aquilo que é moralmente
[00:54:37] condenado
[00:54:39] é materialmente condenado
[00:54:41] o que é moralmente
[00:54:43] condenado
[00:54:45] é materialmente condenado
[00:54:47] pelo próprio movimento do real
[00:54:49] isso é um providencialismo
[00:54:51] que nenhum cristão enuncia
[00:54:53] de forma tão radical
[00:54:55] e o real tem um sentido
[00:54:59] ele é a narrativa
[00:55:01] de uma queda
[00:55:03] de uma salvação
[00:55:05] de um renascimento
[00:55:07] de uma recuperação
[00:55:09] então é isso ai
[00:55:11] vai xingar isso ai
[00:55:13] é uma narrativa
[00:55:15] as narrativas impregnam tudo
[00:55:17] mas entendam então
[00:55:19] que há essa coisa
[00:55:21] tão animadora
[00:55:23] quando eu estava na ditadura
[00:55:25] quando você pensava que podia ser morto
[00:55:27] capturado, torturado e morto
[00:55:29] o que você pensava?
[00:55:31] era o sujeito que segurava a tortura melhor
[00:55:33] era o que fosse capturado
[00:55:35] no auge dessa
[00:55:37] empolgação
[00:55:39] desse entusiasmo, você sabe o que é entusiasmo
[00:55:41] etimologicamente
[00:55:43] Deus dentro de você
[00:55:45] você dizia assim
[00:55:47] esse que me assassina
[00:55:49] é o morto
[00:55:51] eu viverei
[00:55:53] no sentido geral
[00:55:55] das coisas que ele idiota estúpido
[00:55:57] tenta barrar
[00:55:59] mas não se barra
[00:56:01] o mar como o rei canuto
[00:56:03] para as ondas
[00:56:05] então é isso ai
[00:56:07] Marcos tem o lado malné dele
[00:56:11] é o maior criador
[00:56:13] de um credo secular
[00:56:15] na modernidade
[00:56:17] acabou o cristianismo
[00:56:19] veio um credo positivo
[00:56:21] que é secular
[00:56:23] que procura se expressar em meios
[00:56:25] de forma estritamente objetiva
[00:56:27] e que promove
[00:56:29] muita pesquisa material
[00:56:31] porque você vai estudar as classes sociais
[00:56:33] a dinâmica das classes sociais
[00:56:35] agora há uma narrativa compreensiva
[00:56:37] que abrange isso tudo
[00:56:39] que é essa da tese
[00:56:41] da lógica da emancipação
[00:56:43] então é isso que é
[00:56:45] e não é dito por mim
[00:56:47] os marcos dizem
[00:56:49] é aqui a lógica, a álgebra da revolução
[00:56:51] então meu filho é a álgebra
[00:56:53] quem diz isso são revolucionários reais
[00:56:55] até bem mais revolucionários do que você
[00:56:57] e até mais parecidos com o revolucionário
[00:56:59] que eu fui na ditadura
[00:57:01] mas é direitinho aquilo que você diz
[00:57:03] que é a sua maneira de pensar
[00:57:05] conheça ela direitinho
[00:57:07] não avance no meu pescoço
[00:57:09] porque eu estudei mais do que você
[00:57:11] esse autor
[00:57:13] e na verdade posso dizer até que nisso
[00:57:15] expresso mais amor por ele do que você
[00:57:17] e um amor mais genuíno
[00:57:19] o pessoal aqui não precisava ler Marx
[00:57:23] não fazia parte do jogo
[00:57:25] porque você pode ter outros marxismos
[00:57:27] aí você vai multiplicando
[00:57:29] Humberto Eco
[00:57:31] tem um romance chamado
[00:57:33] Pêndulo de Foucault
[00:57:35] que ele coloca uma personagem chamada Amparo
[00:57:37] uma marxista negra brasileira
[00:57:39] e o italiano
[00:57:41] vem namorar com ela no Brasil
[00:57:43] está apaixonado por ela
[00:57:45] e ela tem um chamado do santo dela
[00:57:47] só que ela não quer
[00:57:49] porque ela é materialista
[00:57:51] ela não vai para esse chamado
[00:57:53] aí eles vão num ritual do candomblé
[00:57:55] de repente o espírito baixa nela
[00:57:57] no dia seguinte ela foge morrendo de vergonha
[00:57:59] porque não poderia ter acontecido isso
[00:58:05] e o personagem achava engraçado
[00:58:07] todo mundo aqui falava de Marx
[00:58:09] mas ninguém lia
[00:58:11] você me levou a isso
[00:58:13] eu me esqueci
[00:58:15] que bom falar com gente
[00:58:17] que tem tantas evocações aí
[00:58:19] para compartilhar desse tipo
[00:58:21] me falta frequentemente
[00:58:23] poder frequentar mais a literatura
[00:58:25] e recuperar aquela que eu mesmo já li
[00:58:27] Humberto Eco é um desses caras adorados
[00:58:29] porque ele conhece um pouco
[00:58:31] as manias do espírito
[00:58:33] do pensamento
[00:58:35] e é capaz de construir
[00:58:37] coisas instigantes
[00:58:39] em cima disso
[00:58:41] eu tenho algumas críticas em relação a isso
[00:58:43] mas eu vou pular elas
[00:58:45] porque acho que a gente já fez alguma coisa interessante
[00:58:47] o humanismo especulativo
[00:58:49] entra naquilo que a gente falou do humanos
[00:58:51] a gente já falou disso
[00:58:53] fala do materialismo dialético também
[00:58:55] acabamos de falar dele
[00:58:57] e falando do marxista prático
[00:58:59] agora se a gente for pensar nas consequências
[00:59:01] do averso de Marx
[00:59:03] a gente pode pensar em consequências filosóficas
[00:59:05] práticas
[00:59:07] as filosóficas são o essencialismo
[00:59:09] o substancialismo
[00:59:11] solução do sujeito
[00:59:13] você pode pensar a crítica do capital
[00:59:15] como uma teodiceia secular
[00:59:17] no âmbito da teoria
[00:59:19] mas vamos lá falar do humanismo xarope
[00:59:21] que talvez seja mais próximo
[00:59:23] de quem está nos ouvindo
[00:59:25] que é uma tentativa de ver
[00:59:27] com as consequências políticas práticas
[00:59:29] é
[00:59:31] eu de fato faço essa brincadeira
[00:59:33] que é
[00:59:35] o avanço
[00:59:37] da dimensão moral
[00:59:39] sobre
[00:59:41] a compreensão
[00:59:43] das coisas
[00:59:45] e a definição
[00:59:47] de uma orientação de ação
[00:59:49] para elas
[00:59:51] então
[00:59:53] sem muita mediação
[00:59:55] você confunde
[00:59:57] por exemplo posições políticas
[00:59:59] como posições amorosas
[01:00:01] posições que você retrata
[01:00:03] como posições não amorosas
[01:00:05] anti-amorosas
[01:00:07] quer dizer
[01:00:09] há um reino de fato da moralização
[01:00:11] às vezes até
[01:00:13] porque depois de Nietzsche
[01:00:15] e Freud
[01:00:17] a gente não pode achar
[01:00:19] tão ingenuamente
[01:00:21] que sabe o que é ser bom
[01:00:23] e que pretender
[01:00:25] ser esse
[01:00:27] que sabe o que é bom
[01:00:29] exatamente
[01:00:31] isso não é
[01:00:33] precisa ser muito curto de espírito
[01:00:35] para não ver problemas aí
[01:00:37] e aliás
[01:00:39] é não ter formado
[01:00:41] nem uma boa cultura cristã
[01:00:43] o cristianismo
[01:00:45] que o sujeito acha que dispensou
[01:00:47] como bobagem
[01:00:49] se declara ateu e vai apostar nessas coisas
[01:00:51] o cristianismo coloca
[01:00:53] que o ser bom é dilemático
[01:00:55] é desafiador
[01:00:57] é complicado
[01:00:59] se você tem uma mão direita
[01:01:01] não saiba o que tua mão esquerda faz
[01:01:03] que você não deve
[01:01:05] atentar contra
[01:01:07] Deus
[01:01:09] por arrogância
[01:01:11] sepulcos caiados
[01:01:13] são aqueles que conseguem
[01:01:15] se moldar exteriormente
[01:01:17] à boa conduta
[01:01:19] quando há ainda uma interioridade
[01:01:21] que deixaria
[01:01:23] espaço para tanta maldade
[01:01:25] e aqui
[01:01:27] usando a coisa da interioridade
[01:01:29] que alguns podem dispensar
[01:01:31] mas na verdade mostra um pouco
[01:01:33] essa história
[01:01:35] de que ser bom não é simples
[01:01:37] e talvez nem deva ser tão facilmente
[01:01:39] visado
[01:01:41] aí tem a doutrina da graça
[01:01:43] que complica um pouco mais as coisas
[01:01:45] se acha salvo
[01:01:47] quem é que sabe que está salvo
[01:01:49] as pessoas não percebem
[01:01:51] que a religião fala
[01:01:53] de questões reais
[01:01:55] que a teologia
[01:01:57] é até uma sugestão dali
[01:01:59] a teologia é antropologia
[01:02:01] expressa em linguagem mais
[01:02:03] alegórica
[01:02:05] especulativa
[01:02:07] mas não por isso falsa
[01:02:09] é como o interesse
[01:02:11] pelos sonhos
[01:02:13] os sonhos são delirantes
[01:02:15] eu não sei porque os lacanianos dispensaram
[01:02:17] tanto os sonhos
[01:02:19] na psicanálise
[01:02:21] aquela coisa alegórica
[01:02:23] tem um sentido
[01:02:25] e o sentido não está
[01:02:27] no terapeuta, está em você
[01:02:29] pergunta a você
[01:02:31] e até você varia alguma coisa ali
[01:02:33] arriscar algum entendimento
[01:02:35] ver se aquilo ilumina alguma coisa
[01:02:37] que você reconhece em você
[01:02:39] isso tudo o estruturalismo
[01:02:41] justamente pela vontade de ser ciência
[01:02:43] e deixar essas
[01:02:45] coisas todas que estão
[01:02:47] em Marx e até ainda em Freud
[01:02:49] no terreno
[01:02:51] das presunções
[01:02:53] do humano
[01:02:55] não rigorosas
[01:02:57] não positivistas
[01:02:59] porque tem um positivismo do estruturalismo
[01:03:01] que o Foucault
[01:03:03] de certa forma reivindica
[01:03:05] mas que o trai depois
[01:03:07] como normativismo furioso
[01:03:09] então o moralismo
[01:03:11] a moral não só é um assunto desafiador
[01:03:13] dilemático
[01:03:15] como ele também
[01:03:17] aparece de forma robusta
[01:03:19] em atitudes de intolerância
[01:03:21] perseguição
[01:03:23] em inglês tem aquela expressão
[01:03:25] self righteousness
[01:03:27] é a certeza da própria
[01:03:29] da própria bondade
[01:03:31] é um crime
[01:03:33] é execrado
[01:03:35] self righteousness não é uma coisa que você deve alimentar
[01:03:37] supor-se certo
[01:03:39] imaginar-se dono do que é bom
[01:03:41] então
[01:03:43] isso tudo sai
[01:03:45] e entra
[01:03:47] uma simplicidade
[01:03:49] ruim para a política
[01:03:51] ruim para a moral
[01:03:53] ruim até para o sentido religioso
[01:03:55] que se possa querer ver
[01:03:57] nas coisas
[01:03:59] que o capitalismo
[01:04:01] eu digo que vira crítica do capitalismo
[01:04:03] eu faço esse trocadilho
[01:04:05] porque de fato vira uma crítica moral
[01:04:07] Marx
[01:04:09] tentou desesperadamente
[01:04:11] não que ele não tivesse moral
[01:04:13] intenções edificantes
[01:04:15] mas ele tratou de guardar isso
[01:04:17] e procurar
[01:04:19] se confrontar com o real
[01:04:21] pelo seu próprio movimento
[01:04:23] por suas contradições
[01:04:25] e ver naquilo ali
[01:04:27] o que
[01:04:29] poderia ser produtivo, favorável,
[01:04:35] isso seria a política,
[01:04:37] não o dogma de certeza de tomar partido aqui e ali.
[01:04:43] Então, isso de fato é o tal do humanismo xarope,
[01:04:48] muito presunçoso, é dulcorado.
[01:04:51] As pessoas falam da autoajuda,
[01:04:57] mas ficam no mesmo barco bastante.
[01:05:01] Eu sou dos que acham que entre Schopenhauer e autoajuda
[01:05:05] a distância não é tão grande assim.
[01:05:08] Eu não acho ruim que as pessoas…
[01:05:11] Você vê o Paulo Coelho, por exemplo,
[01:05:13] uma pessoa tolerante,
[01:05:15] uma pessoa simpática, construtiva.
[01:05:18] Eu costumo dizer que é um Hermann Hesse mais aguado para a massa.
[01:05:24] Então, perdeu-se esse sentido,
[01:05:27] esse sentido de desafio
[01:05:30] na compreensão do bom e do mal
[01:05:34] e nas escolhas que se fazem na vida.
[01:05:38] A minha geração…
[01:05:39] Olha aí a presunção.
[01:05:41] Nossa, em certo sentido, você está careca,
[01:05:44] mas tem idade de ser meu filho.
[01:05:46] Um pouquinho aí, você raspa a cabeça.
[01:05:49] Mas, enfim, na minha geração,
[01:05:51] você carregava marques debaixo do braço,
[01:05:55] cultura axilar.
[01:05:57] Você botava marques debaixo do braço,
[01:05:59] mas você botava outros dois autores
[01:06:00] que compunham um tripé mais complexo.
[01:06:06] Um era Sartre
[01:06:08] e o outro era Hermann Hesse.
[01:06:11] Eu falei de Paulo Coelho,
[01:06:13] Hermann Hesse que me perdoe,
[01:06:15] falei de Paulo Coelho, lembrei de Hermann Hesse.
[01:06:16] Hermann Hesse, os dilemas da busca de si,
[01:06:20] mística, etc.,
[01:06:23] no Novo das Estepes.
[01:06:26] Aliás, ele tem…
[01:06:27] Ele tem um livro que é Narciso Goldmund.
[01:06:29] Goldmund, em alemão, significa crisóstomo,
[01:06:31] mesmo que crisóstomo em grego.
[01:06:33] Então, você pode imaginar eu, garoto, também,
[01:06:35] querendo identificações animadoras para mim.
[01:06:38] Eu sou o Goldmund aí, cara.
[01:06:40] É o crisóstomo.
[01:06:43] Então, quer dizer, você tinha…
[01:06:46] O que é Sartre?
[01:06:49] Sartre é justamente o desafio da má fé,
[01:06:53] da presunção moral,
[01:06:55] o apelo à responsabilidade,
[01:06:57] à autorresponsabilização por suas próprias escolhas,
[01:07:01] e não à imersão das suas escolhas em algum determinismo social
[01:07:06] que as imponha de fora para dentro.
[01:07:09] Não é isso que é Sartre?
[01:07:10] Então, esse tripé fazia da gente,
[01:07:13] mesmo sob a ditadura,
[01:07:15] priorizando tudo pela política e pelo credo político,
[01:07:19] fazia da gente,
[01:07:20] oferecia para a gente uma condição um pouco mais rica
[01:07:24] e provocadora,
[01:07:26] no campo do pensamento.
[01:07:28] Eu fico achando que perdemos um pouco disso.
[01:07:31] E que as pessoas que leem Marx hoje,
[01:07:35] sei lá,
[01:07:37] leiam Kundera também,
[01:07:39] leiam Dostoiévski,
[01:07:44] leiam mesmo Sartre.
[01:07:47] Por que não?
[01:07:49] Então, leiam um pouco de essencialismo,
[01:07:53] assistam.
[01:07:55] Leiam livros e filmes que provoquem essa ideia dos impasses.
[01:08:01] Eu estava vendo, marlumbrando,
[01:08:03] Vidas em Fuga.
[01:08:05] Vidas em Fuga é um filme porradão do John Huston,
[01:08:08] mas é uma peça de um dramaturgo americano,
[01:08:16] o Tennessee Williams.
[01:08:18] Eu acho que é uma peça do Tennessee Williams.
[01:08:20] Então, se exponham a essas coisas,
[01:08:23] a esses desafios.
[01:08:25] Não se reduzam à simplicidade.
[01:08:27] Então, é isso que eu chamo do humanismo xarope.
[01:08:31] Aí tem essa história,
[01:08:33] essa história do letramento,
[01:08:35] quem é letrado,
[01:08:37] vamos letrar e não é letrado,
[01:08:39] não é letrado nesse modo iluminado de crer.
[01:08:42] O que é isso, cara?
[01:08:44] Então, o mundo está dividido entre letrado,
[01:08:46] que comodamente é você,
[01:08:48] e letrado,
[01:08:50] quem não pensa como você.
[01:08:52] O que é isso, assim?
[01:08:54] Você espera levar a melhor nisso de forma tão barata?
[01:08:59] Você quer ser bom a tão baixo custo?
[01:09:03] Você entra aí na vida, cara,
[01:09:06] não tenha certezas tantas,
[01:09:08] enfrente desafios, mostre perplexidades,
[01:09:11] enfrente outras maneiras de compreender as coisas.
[01:09:17] Então, é isso que eu chamo do humanismo xarope,
[01:09:20] que tomou conta do pensamento que deve cuidar,
[01:09:25] porque a política é da ordem do finito,
[01:09:28] dos arranjos sociais.
[01:09:30] Se você põe as suas esperanças de infinitude
[01:09:33] na finitude da política,
[01:09:35] é um estupro da política.
[01:09:37] E isso faz com que a esquerda esteja dentro e esteja fora.
[01:09:41] Está na democracia, mas não está na democracia.
[01:09:44] Está no capitalismo, mas não está no capitalismo.
[01:09:47] Vai construir o socialismo,
[01:09:50] percebe que tem que manter o mercado,
[01:09:53] mas nem presta muita atenção nisso.
[01:09:55] Todo mundo aqui está torcendo pela China,
[01:09:57] porque a China se opõe aos Estados Unidos,
[01:09:59] mas qualquer um desses aí é para a cadeia lá na China,
[01:10:02] porque a China não tem tempo a perder
[01:10:05] com certas crenças mais vagas.
[01:10:10] Já é um exagero até,
[01:10:12] não interessa a cor do gato,
[01:10:14] não interessa que caça o rato.
[01:10:15] Eu gosto disso aí,
[01:10:17] mas eu acho que interessa um pouquinho a cor do gato também,
[01:10:19] porque a cor do gato também…
[01:10:22] Eu quero para o Brasil um gato que realmente caça os ratos,
[01:10:27] mas eu quero sim ter alguma escolha sobre a cor do gato.
[01:10:33] Então, eu acho que o senso prático precisa se reforçar
[01:10:38] com algum senso estético e mesmo com algum senso moral.
[01:10:42] Mas eu acho que essas fórmulas muito prontas que estão aí
[01:10:46] são ruins.
[01:10:48] E eu acho que elas chegaram a uma certa exaustão,
[01:10:52] e que nós estamos vendo um momento
[01:10:54] em que esse modo de pensar fica atabalhoado
[01:10:59] diante da ascensão de modos tão crus de pensamento
[01:11:04] como são os da extrema direita,
[01:11:06] mas não tira daí uma provocação para melhorar de vida,
[01:11:12] para melhorar o seu entendimento das coisas.
[01:11:14] O Lula disse há um tempo atrás que, olha,
[01:11:18] o problema da ascensão da extrema direita
[01:11:22] são os erros da esquerda.
[01:11:24] Ele disse isso. Não fui eu, Crisoto.
[01:11:26] Foi ele que disse.
[01:11:28] A insuficiência da…
[01:11:30] E ele falou, inclusive, globalmente,
[01:11:32] porque é um fenômeno global.
[01:11:34] O Partido Democrata, e principalmente a sua esquerda,
[01:11:36] está aí sem saber o que faz,
[01:11:38] e o Trump tocando o barco ali na frente.
[01:11:40] A Europa, coitada, aí claudicando,
[01:11:43] porque é a pátria desse humanismo mais comprometido,
[01:11:46] a ordem liberal baseada em normas,
[01:11:49] e, de repente, não tem normas aí para ela se basear, etc.
[01:11:52] Então, o Lula disse isso.
[01:11:55] E, aliás, outra coisa aqui,
[01:11:57] vou citar o Dirceu também,
[01:11:59] colega Dirceu da minha geração.
[01:12:01] Ele disse assim…
[01:12:02] Isso aí já faz um trânsito um pouquinho político,
[01:12:07] menos especulativo,
[01:12:10] e com uma dimensão mais de materialismo prático.
[01:12:15] Ele disse assim, olha,
[01:12:16] nós temos que sair do reformismo fraco
[01:12:19] para o reformismo forte.
[01:12:21] Ele disse isso aí.
[01:12:23] Então, quem estiver criticando o que está aí,
[01:12:28] a insuficiência,
[01:12:29] porque não sou eu, não preciso criticar,
[01:12:31] está aí o problema,
[01:12:32] os desafios eleitorais, pelo menos.
[01:12:34] Então, esses desafios,
[01:12:36] me permitam esse trânsito para o político,
[01:12:40] esse trânsito aí diz, olha,
[01:12:43] o povo não quer isso aí mais tempo,
[01:12:45] mais do mesmo, mais do mesmo,
[01:12:47] não quer mais do mesmo.
[01:12:48] Agora, então, aí você diz,
[01:12:50] ah, mas aí você quer o quê?
[01:12:51] Não tem revolução?
[01:12:52] Sim, meu filho, não tem revolução,
[01:12:54] talvez até não tenha,
[01:12:56] mas por que você lê tudo dentro dessa grade?
[01:12:59] Será que essa sua grade, então,
[01:13:01] é a mãe do emperramento
[01:13:03] e não a mãe do movimento?
[01:13:05] Você tem uma lógica do movimento
[01:13:07] que, em não sendo seguida,
[01:13:09] você escolhe a permanência,
[01:13:12] o que eu chamaria de…
[01:13:14] de quietismo, né?
[01:13:16] Conformismo, quietismo.
[01:13:18] Então, mudanças mínimas,
[01:13:19] mas são as possíveis.
[01:13:21] E se você pede mais,
[01:13:22] você já tem aquele modelo.
[01:13:23] Então, você está pedindo revolução,
[01:13:24] você está pedindo socialismo,
[01:13:25] você está pedindo socialização
[01:13:27] dos meios de produção.
[01:13:28] Calma, meu filho!
[01:13:29] Calma!
[01:13:30] Isso ficou lá no século XIX,
[01:13:32] você não está nem tendo
[01:13:33] as indústrias pujantes aí.
[01:13:35] O ABC não está mais aí, meu filho,
[01:13:38] não tem mais ABC.
[01:13:39] Não vai ter industrialização
[01:13:41] que faça ABC aparecer e reaparecer aqui.
[01:13:43] E o velho PT retornar
[01:13:45] com aquela base sindical que ele tinha.
[01:13:48] Não vai ter isso.
[01:13:49] Então, eu fiquei,
[01:13:51] do meu empenho político
[01:13:53] de combate à ditadura,
[01:13:55] com essa vontade de ir do filosófico
[01:13:57] para o prático e do prático para o filosófico.
[01:14:00] E aí, a ideia de materialismo prático
[01:14:02] seria dizer assim…
[01:14:04] Será que se eu…
[01:14:06] Me interrompa aí quando quiser.
[01:14:07] Eu tenho uma ideia que é assim.
[01:14:08] O materialismo prático pode ser entendido
[01:14:10] também da seguinte maneira.
[01:14:13] Considerar as receitas de Marx,
[01:14:15] expressões históricas
[01:14:17] e certas premissas filosóficas.
[01:14:19] E como as expressões históricas mudaram muito,
[01:14:24] seria bom você ser capaz de recuar
[01:14:27] da parte da doutrina mais aderente a elas
[01:14:30] para os pressupostos
[01:14:32] que mostraram fecundidade para enfrentar aquilo
[01:14:35] e que você recua…
[01:14:37] Tem até um ditado de Lênin,
[01:14:40] il faut recouler pour mieux sauter.
[01:14:42] Il faut recouler pour mieux sauter.
[01:14:44] É preciso recuar para avançar melhor.
[01:14:47] Então, o que é a dialética básica de Marx
[01:14:52] fora dessa presunção escatológica,
[01:14:56] até odisseica, etc.,
[01:14:58] que você capta muito bem
[01:15:00] e definiu também?
[01:15:02] É o seguinte.
[01:15:04] Eu acho que é uma lógica
[01:15:06] da relação entre
[01:15:10] entre meios
[01:15:15] e competências.
[01:15:17] Como meios e competências importam
[01:15:21] para as relações que os homens desenvolvem entre si.
[01:15:25] O acesso a meios e competências.
[01:15:27] O que é a socialização dos meios de produção?
[01:15:29] Acesso a meios.
[01:15:31] Meios e competências.
[01:15:33] Certo?
[01:15:34] Produtivas, poéticas.
[01:15:37] Isso, para Marx, é uma conversão
[01:15:41] de uma subjetividade acanhada
[01:15:43] a uma subjetividade que se reencontra
[01:15:46] com suas potencialidades de criação.
[01:15:49] Isso é também, não é verdade?
[01:15:51] O trabalho…
[01:15:52] Quase que acaba o trabalho em sentido capitalista
[01:15:54] e entra o trabalho como coisa livre.
[01:15:56] Então, pegue isso aí
[01:15:58] e tente aplicar um pouco aqui agora
[01:16:00] como, tomando política progressista,
[01:16:03] como aquela que promove a base da sociedade,
[01:16:05] o acesso a meios e competências.
[01:16:06] E que leia nisso possibilidades de construção de si
[01:16:14] nos termos que estão lá nos manuscritos
[01:16:19] de recuperar a dimensão artística do fazer
[01:16:22] e de autoconstrução de si na construção do mundo.
[01:16:26] Então, o meu materialismo prático
[01:16:29] volta como um materialismo interativo,
[01:16:32] artefatual, materialista,
[01:16:35] porque não tem nada a ver com materialismo metafísico
[01:16:39] nem com ateísmo.
[01:16:40] O materialismo assim é…
[01:16:42] Olha, Marx disse uma sugestão,
[01:16:44] disse uma coisa boa.
[01:16:45] Olhe para as circunstâncias materiais.
[01:16:47] Olhe para as circunstâncias materiais, meu filho.
[01:16:49] Veja quem é que está tendo acesso a meios e competências,
[01:16:52] porque isso define quem tem acesso a poder e a criação.
[01:16:55] Então, eu faço esse negócio
[01:16:58] como se fosse uma recua ao Ground Zero,
[01:17:00] à estaca zero de Marx.
[01:17:02] O que seria a estaca zero de Marx?
[01:17:04] Seria uma ontologia,
[01:17:06] a ontologia de fundo dele.
[01:17:08] É a ontologia do material sensível,
[01:17:10] ativo, prático,
[01:17:12] articulado por relações sensíveis
[01:17:15] que encontram suporte na materialidade do mundo,
[01:17:18] nos meios, no acesso aos meios
[01:17:21] e na assimetria desses acessos.
[01:17:23] Então, de repente, você readquire
[01:17:26] uma plasticidade da teoria
[01:17:29] que se concilia com a plasticidade
[01:17:32] que o Real mostra,
[01:17:34] teoricamente,
[01:17:36] e que Marx quis dizer que mostrava.
[01:17:38] O Real é um fazer aberto, construtivo, etc.
[01:17:41] Então, você não fica mais estarecido
[01:17:44] com o que não está acontecendo,
[01:17:47] como a escola de Frankfurt.
[01:17:49] Cadê o proletariado? Cadê aquele proletariado?
[01:17:52] Cadê a revolução? Cadê aquela revolução?
[01:17:55] Meu filho, então você daqui a pouco
[01:17:57] vai lamentar que o Brasil seja um país de nível médio,
[01:18:00] porque, se ele fosse um país feudal,
[01:18:04] ele ia fazer a revolução,
[01:18:06] tomar o Palácio de Inverno,
[01:18:07] a queda da Bastilha,
[01:18:09] e aí ia ser o melhor dos mundos possíveis.
[01:18:11] Então, não está vindo isso.
[01:18:13] Você fica fazendo também algo
[01:18:15] que, do ponto de vista político-ideológico,
[01:18:17] pode revelar que você está mais preocupado
[01:18:19] com um projeto de partido
[01:18:21] do que da emancipação dos outros,
[01:18:24] porque você está querendo dizer o que é emancipação.
[01:18:27] Porque isso, Marx diz assim,
[01:18:29] a emancipação dos trabalhadores
[01:18:31] é obra dos próprios trabalhadores.
[01:18:33] Ele não é muito fiel a isso
[01:18:36] no resto da sua teoria.
[01:18:38] Eu posso ir por aí e mostrar,
[01:18:40] mas deixemos isso aí.
[01:18:42] Mas que tal achar que não só são eles
[01:18:46] que são os agentes da sua emancipação,
[01:18:50] mas são eles que escolhem o conteúdo
[01:18:53] do que acham que é a emancipação?
[01:18:55] Aí ninguém quer,
[01:18:58] porque você quer ter a receita.
[01:19:01] Você é intelectual de classe média, etc.
[01:19:04] Então, o marxismo às vezes sustenta
[01:19:06] essa presunção de você ocupar o Estado
[01:19:13] e prover os imbecis,
[01:19:16] me desculpe, na condição de assistidos.
[01:19:19] Aí, por exemplo,
[01:19:21] se fala com respeito ao empreendedorismo.
[01:19:24] Claro que o empreendedorismo,
[01:19:25] nessas circunstâncias que nós temos aí,
[01:19:27] é uma farsa.
[01:19:29] Mas e o assalariado?
[01:19:31] Você esquece que o assalariado
[01:19:33] é a escravidão moderna?
[01:19:34] O que é que tem de tão extraordinário
[01:19:36] carteira assinada, meu filho?
[01:19:37] O que é que tem de tão extraordinário
[01:19:39] em ser dirigido para ser um apertador de parafuso
[01:19:43] numa unidade industrial de escala?
[01:19:48] O que é que tem isso aí?
[01:19:50] Marx disse que isso aí era uma maravilha, por acaso?
[01:19:53] Então, por que você não pode encarar
[01:19:56] relações e práticas de modo mais aberto,
[01:20:00] normativamente?
[01:20:02] Por que a tua normatividade
[01:20:03] tem que pautar uma trilha fechada
[01:20:07] quando o povo lida com as necessidades básicas de dar?
[01:20:11] Não lida só com as necessidades básicas
[01:20:13] de prover seus meios,
[01:20:14] lida também com a necessidade
[01:20:16] de levar uma vida digna,
[01:20:18] que contemple suas disposições de se realizar,
[01:20:21] de enriquecer a si e suas relações,
[01:20:25] e seu filho,
[01:20:27] e o gosto artístico,
[01:20:29] e a música e tudo?
[01:20:31] Então, por que você vai ficar de fora aqui
[01:20:36] com uma visão seca,
[01:20:39] prescritiva seca,
[01:20:41] porque já vimos que ela é pobre normativamente,
[01:20:44] e aí você não sabe o que fazer com o mundo como ele é,
[01:20:47] com o povo como ele é?
[01:20:49] Você, na verdade, não gosta de povo, meu filho.
[01:20:52] Você gosta da teoria,
[01:20:54] do ideal de povo que a teoria tem.
[01:20:57] Então, isso é um cerco humanil.
[01:20:58] E o humanil corre o risco de ser o humanil
[01:21:00] dos homens que não são.
[01:21:02] Agora, se você ler Marx,
[01:21:05] eu posso mostrar para você,
[01:21:06] eu cito Marx de Kohl,
[01:21:07] Marx diz assim, cara,
[01:21:09] como é que você deixa passar batido um negócio desse, cara?
[01:21:12] Tão fechado, tão dogmático,
[01:21:14] tão século XIX.
[01:21:16] Marx diz literalmente assim,
[01:21:18] porque eu sei que Marx de Kohl é salteado.
[01:21:20] Marx diz assim,
[01:21:22] os filósofos não têm coragem
[01:21:26] de dizer-vos, não sois homens.
[01:21:31] Eles dizem apenas,
[01:21:34] falta-vos a consciência de homens.
[01:21:38] E aí está o materialismo.
[01:21:40] Você vê que gracinha é o materialismo.
[01:21:42] Os idealistas dizem,
[01:21:44] esses homens aí estão faltando a consciência.
[01:21:46] Marx diz, não, eles não têm,
[01:21:48] eles não têm só
[01:21:50] de não homens a consciência,
[01:21:53] eles têm o seu próprio ser.
[01:21:54] Eles são não homens.
[01:21:55] Eles são não homens.
[01:21:57] Está dito assim, cara.
[01:21:59] Esse é o máximo do essencialismo.
[01:22:01] É o máximo da metafísica.
[01:22:04] É uma coisa cruel.
[01:22:07] Não sois homens.
[01:22:10] Eu sou um homem.
[01:22:12] E sou tornado homem
[01:22:14] por um engajamento,
[01:22:16] por uma certa prática de poder, aliás,
[01:22:18] de dirigir a sociedade
[01:22:20] empalmando o poder do Estado.
[01:22:22] Ah, tá bom, cara.
[01:22:23] Então é a mão visível e tudo.
[01:22:24] Então, qual é a diferença entre esse negócio
[01:22:27] e a mão invisível do Adam Smith?
[01:22:30] São concepções igualmente ideológicas
[01:22:33] que podem patrocinar interesses
[01:22:36] não universalizáveis.
[01:22:38] Interesses não universalizáveis.
[01:22:41] O Horthy, no final da vida,
[01:22:44] deu um puxão de orelha no Richard Posner
[01:22:46] dizendo que ele estava longe demais
[01:22:48] da perspectiva que ele tinha
[01:22:50] de dirigir a sociedade de cima para baixo,
[01:22:53] com o judiciário.
[01:22:55] Que isso era o fim da democracia.
[01:22:57] Que isso acabava com o que o John Dewey pregava.
[01:23:01] Que acabava não sendo pragmático.
[01:23:04] Mas eu vejo uma situação assim que
[01:23:07] muitas vezes a gente está usando a Constituição
[01:23:09] e a ideia de progresso
[01:23:11] no sentido de que as normas não podem evoluir
[01:23:14] para barrar retrocessos mesmo
[01:23:18] em termos de direitos que foram conquistados.
[01:23:21] É.
[01:23:22] Eu acho que isso é um problema bem sério,
[01:23:26] que é um problema prático.
[01:23:28] É um problema prático.
[01:23:30] É um problema prático.
[01:23:32] A fonte da normatividade é esse movimento popular
[01:23:37] e a ideia de desconstrução
[01:23:40] que era da esquerda virou da direita.
[01:23:43] Vamos desconstruir o Estado.
[01:23:45] A justiça não é justa.
[01:23:47] Vamos acabar com tudo.
[01:23:49] É.
[01:23:50] É.
[01:23:51] É.
[01:23:52] É.
[01:23:53] É.
[01:23:54] Bom.
[01:23:55] É.
[01:23:56] Então, tem esse desafio aí
[01:23:58] do populismo de direita.
[01:24:01] O extremismo realista ali.
[01:24:06] Meio…
[01:24:07] Até me lembro, às vezes, mais Mussolini,
[01:24:09] a Itália, etc.
[01:24:11] Então…
[01:24:16] Então, eu acho que
[01:24:19] a vida de pensamento,
[01:24:21] ela é se reconciliar com o real
[01:24:24] e fazer…
[01:24:28] Não é muito diferente da tarefa da política.
[01:24:31] Quer dizer, articular,
[01:24:33] não brigar com o que se oferece,
[01:24:35] mas também não se render ao que se oferece.
[01:24:38] Mas, honestamente,
[01:24:40] honestamente, como
[01:24:42] o filósofo como publicista,
[01:24:46] como alguém que participa da discussão da esfera pública,
[01:24:49] e o político como agente estatal,
[01:24:52] vamos dizer assim,
[01:24:54] é produzir,
[01:24:56] mas com sentido artefatual,
[01:25:02] que lhe põe por igual
[01:25:04] no fazimento geral dos homens,
[01:25:07] experimental, etc.
[01:25:09] Então, qual é o…
[01:25:11] Então, nesse caso,
[01:25:13] você entra na periferia,
[01:25:15] você vê as aspirações,
[01:25:17] vê as religiões,
[01:25:18] as adesões,
[01:25:20] as formas de associação,
[01:25:22] veja aí,
[01:25:24] veja aí
[01:25:26] o que se costura e…
[01:25:30] Se tiver um partido muito forte,
[01:25:34] você não faz nada.
[01:25:36] Então, isso politicamente
[01:25:38] eu chamo de linha de massa.
[01:25:40] Quando eu fazia trabalho nas periferias,
[01:25:42] eu venho da periferia, voltei para a periferia
[01:25:44] fazer trabalho também no meio rural, etc.
[01:25:46] Boa ajuda aí para fazer isso,
[01:25:48] inclusive do César,
[01:25:50] depois do Jornal Movimento, essas coisas,
[01:25:52] e de outras coisas mais barra pesada, batidária.
[01:25:54] A gente trabalhava com o povo
[01:25:56] para mobilizá-lo e associá-lo.
[01:25:58] E depois tentava dizer
[01:26:00] como se lançar uma demanda
[01:26:02] a uma ação
[01:26:04] que significasse
[01:26:06] protagonismo em condições antidemocráticas,
[01:26:08] forçasse protagonismo,
[01:26:10] ação, liberdade,
[01:26:12] vamos dizer, em ato.
[01:26:14] Então, qual era a primeira coisa
[01:26:16] que o pessoal queria?
[01:26:18] Vou lhe dizer, que, por enquanto,
[01:26:20] eles continuam querendo, um posto policial.
[01:26:22] Eles queriam um posto policial.
[01:26:24] Era a ditadura.
[01:26:26] Quer dizer, você estava vendo
[01:26:28] o que a farda fazia, nós,
[01:26:30] agentes subversivos.
[01:26:32] Eles queriam um posto policial.
[01:26:34] Se você quisesse continuar
[01:26:36] esse movimento
[01:26:38] de favorecimento
[01:26:40] de busca e construção
[01:26:42] associativa
[01:26:44] cidadã,
[01:26:46] protagonista
[01:26:48] e de melhoria de condições de vida,
[01:26:50] você vai responder
[01:26:52] a isso aí. Eles querem,
[01:26:54] como poderiam querer, um campo de futebol.
[01:26:56] Ah, você é ruim de bola,
[01:26:58] como eu sou.
[01:27:00] Então, você já tem um preconceito.
[01:27:02] Eu gosto, pelo menos, de carnaval,
[01:27:04] gosto muito de dançar.
[01:27:06] Então, se eles quiserem formar uma banda,
[01:27:08] se quisessem, eu já tinha toda a disposição
[01:27:10] de dançar muito,
[01:27:12] na minha militância também.
[01:27:14] É isso que nos faria mais
[01:27:16] agentes aptos,
[01:27:18] até titulados
[01:27:20] por uma inserção,
[01:27:22] no sentido de…
[01:27:24] Mas se você pega
[01:27:26] uma coisa teórica acima
[01:27:28] e briga
[01:27:30] com
[01:27:32] o que o mundo,
[01:27:34] o que os homens fazem,
[01:27:36] as mulheres e os seres humanos,
[01:27:38] no embate pela sua vida
[01:27:40] cotidiana, como é o caso
[01:27:42] da ocupação territorial.
[01:27:44] Do crime organizado
[01:27:46] em suas duas grandes facções.
[01:27:48] Comando Vermelho, etc.
[01:27:50] Então, você sabe
[01:27:52] o que é viver naquelas condições,
[01:27:54] você sabe porque
[01:27:56] o povo radicaliza
[01:27:58] na disposição de respaldar
[01:28:00] a ação policial violenta
[01:28:02] que vai,
[01:28:04] que é, de certa forma,
[01:28:06] contra os pobres.
[01:28:08] Mas
[01:28:10] vai lá dentro, vai sentir.
[01:28:12] Não vai
[01:28:14] também cagar
[01:28:16] regra de fora
[01:28:18] desse embate
[01:28:20] que fecha o comércio aqui, impede
[01:28:22] a escola ali, toma o celular
[01:28:24] do cara que mal comprou
[01:28:26] e que vai passar 12 meses pagando
[01:28:28] o celular, que é um instrumento de trabalho.
[01:28:30] Eu falei, acesso a meios de compra,
[01:28:32] acesso ao celular é
[01:28:34] emancipatório para eles que são
[01:28:36] trabalhadores de biscate livre,
[01:28:38] é evidente, por razões óbvias.
[01:28:40] Então, quer dizer, por que
[01:28:42] não…
[01:28:44] A gente tem uma linha de massa,
[01:28:46] a chamada isso em termos de
[01:28:48] política dos anos 60, 70,
[01:28:50] a terra é mal-funcionária.
[01:28:52] Então, nós não podemos recuperar um pouco disso?
[01:28:54] A esquerda não é isso?
[01:28:56] Eu queria
[01:28:58] lembrar o seguinte,
[01:29:00] eu digo para os meus alunos, eu dizia,
[01:29:04] eu dizia o seguinte,
[01:29:06] você é socialista?
[01:29:08] Você é anticapitalista?
[01:29:12] As chances
[01:29:14] de você ser reacionário
[01:29:16] são muito grandes, segundo Marx.
[01:29:18] Você
[01:29:20] provavelmente é um reacionário,
[01:29:22] conservador, idealista,
[01:29:24] delirante. Por quê?
[01:29:26] No maior manifesto anticapitalista
[01:29:28] de todos os tempos, que é o manifesto
[01:29:30] comunista, Marx gasta um
[01:29:32] capítulo inteiro para falar
[01:29:34] contra quatro, cinco tipos de
[01:29:36] socialismo. Está lá, é só ir olhar.
[01:29:38] Socialismo feudal,
[01:29:40] socialismo pequeno burguês,
[01:29:42] socialismo de filósofo,
[01:29:44] ele desanca esse negócio todo.
[01:29:46] E depois
[01:29:48] diz assim, olha, o que
[01:29:50] que é
[01:29:52] a posição operária
[01:29:54] dos comunistas?
[01:29:56] É aquela
[01:29:58] que toma
[01:30:00] como referência
[01:30:02] o movimento da própria sociedade.
[01:30:04] Não é uma norma
[01:30:06] que ele propõe
[01:30:08] para baixar sobre a sociedade,
[01:30:10] mesmo que vire isso.
[01:30:12] Ele diz ali, olha,
[01:30:14] quer dizer, esse negócio
[01:30:16] de anticapitalismo e tudo mais
[01:30:18] pode virar uma coisa
[01:30:20] etérea, filosófica,
[01:30:22] de classe média, lida,
[01:30:24] intelectual, e aí
[01:30:26] você, o operário real,
[01:30:28] o trabalhador real, o homem do povo
[01:30:30] real, é outra história.
[01:30:32] Eu acho que já em Marx,
[01:30:34] no próprio
[01:30:36] Marx mesmo, há um desvio possível
[01:30:38] que é declarar que os
[01:30:40] operários são os herdeiros da
[01:30:42] filosofia clássica alemã, quer dizer,
[01:30:44] não é uma herança muito pesada
[01:30:46] para o sujeito que ganha meio salário mínimo,
[01:30:48] um salário mínimo e meio, e ter que herdar
[01:30:50] a filosofia clássica alemã,
[01:30:52] né?
[01:30:54] Então, esculhamos um pouco
[01:30:56] o trabalhador, não, o trabalhador por si mesmo
[01:30:58] só chega até o nível do sindicalismo,
[01:31:00] quer dizer, nós não queremos isso
[01:31:02] de Marx, porque
[01:31:04] então nós queremos, isso aqui é um materialismo prático,
[01:31:06] isso aqui partir para o materialismo prático.
[01:31:08] Você percebe que o materialismo prático
[01:31:10] ele quer ter um
[01:31:12] compromisso humanista real,
[01:31:14] e quer conceber
[01:31:16] a
[01:31:18] a emancipação de forma
[01:31:20] bonita, rica,
[01:31:22] promissora, que eu até gosto de
[01:31:24] concretizar na palavra
[01:31:26] florescimento.
[01:31:28] Nós queremos uma sociedade florescente,
[01:31:30] de um povo florescente,
[01:31:32] um país florescente, florescente,
[01:31:34] uma coisa assim meio renascimento,
[01:31:36] entendeu?
[01:31:38] Meio escola de samba também,
[01:31:40] então
[01:31:42] eu queria
[01:31:44] com o materialismo prático
[01:31:46] reconstituir também
[01:31:48] uma certa normatividade,
[01:31:50] mas aquela normatividade
[01:31:52] do plástico criativo
[01:31:54] que se
[01:31:56] que se nutre
[01:31:58] de aspirações
[01:32:00] e ânimos manifestos
[01:32:02] das próprias pessoas,
[01:32:04] não por idealizar
[01:32:06] e todo mundo é bom,
[01:32:08] bom selvagem, não,
[01:32:10] mas porque politicamente
[01:32:12] é o que você quer articular para sair,
[01:32:14] coletivamente,
[01:32:16] de situações de exclusão,
[01:32:18] de degradação,
[01:32:20] que desgraçam depois até o conjunto
[01:32:22] da sociedade toda.
[01:32:24] Então,
[01:32:26] é essa a ideia.
[01:32:28] Eu acho que a gente vai ter que terminar nosso diálogo,
[01:32:30] porque eu já estou cansando o senhor,
[01:32:32] porque já está chegando
[01:32:34] agora uma hora e meia de conversa.
[01:32:36] É, não,
[01:32:38] é um abuso, eu sou
[01:32:40] um pouco enroto, me desculpe.
[01:32:42] Não, mas eu acho que,
[01:32:44] eu queria deixar o espaço aberto para o senhor
[01:32:46] divulgar o que o senhor quiser divulgar.
[01:32:48] Eu tenho a curiosidade de saber o que vem agora,
[01:32:50] porque esse livro sobre Marx,
[01:32:52] eu não estava esperando.
[01:32:54] De repente apareceu, tinha aparecido
[01:32:56] um livro grande,
[01:32:58] Filosofia, Ação e Criação,
[01:33:00] um grande documento do trabalho
[01:33:02] coletivo,
[01:33:04] e depois apareceu
[01:33:06] O Avesso do Marx, que eu não estava esperando,
[01:33:08] porque você voltar para um clássico
[01:33:10] nesse momento em que
[01:33:12] você já está desenvolvendo uma perspectiva
[01:33:14] própria,
[01:33:16] não parece ter sentido se você não estivesse no Brasil.
[01:33:18] É, exato,
[01:33:20] então é isso, mas eu estou,
[01:33:22] mas eu estou,
[01:33:24] mas eu tenho uma surpresa aqui para você,
[01:33:26] é isso mesmo,
[01:33:28] porque voltar a Marx,
[01:33:30] reforçar Marx,
[01:33:32] então,
[01:33:34] é uma certa ideia também
[01:33:36] meio dialética, o que é que o outro
[01:33:38] está pensando quando pensa mais
[01:33:40] filosoficamente, o que é que é uma
[01:33:42] filosofia efetiva no Brasil, porque tem
[01:33:44] essa safra toda de leituras internas,
[01:33:46] todos nós, você sabe, estudamos,
[01:33:48] cada um escolhe um autor, fica
[01:33:50] especialista naquele autor,
[01:33:52] mas no fundo, todo mundo,
[01:33:54] quando vem para a prática política,
[01:33:56] para as convicções
[01:33:58] de aspiração social,
[01:34:00] é Marx que é meio linguagem natural,
[01:34:02] é meio óbvio, então se você
[01:34:04] quer falar da filosofia como coisa
[01:34:06] viva e não simplesmente
[01:34:08] como leitura exegética
[01:34:10] desse ou daquele filósofo, que é um cultivo
[01:34:12] bom, necessário e que pode também ser
[01:34:14] cultivo, é você pegar Marx,
[01:34:16] as pessoas falam, todo mundo
[01:34:18] fala, mais-valia, emancipação,
[01:34:20] socialismo, comunismo,
[01:34:22] modo de produção,
[01:34:24] alienação, trabalho livre,
[01:34:26] fetichismo da mercadoria,
[01:34:28] é uma coisa popíssima,
[01:34:30] então eu entrei aí por causa disso,
[01:34:32] mas, então é
[01:34:34] coisa meio dialética, quer dizer,
[01:34:36] a sua fala
[01:34:38] se desdobra na fricção
[01:34:40] com outras falas, no diálogo,
[01:34:42] no agonismo, e ali
[01:34:44] você cria uma
[01:34:46] inclusão dialógica,
[01:34:48] uma inclusão dialógica.
[01:34:50] Então, agora, eu tenho esse livro
[01:34:52] que está saindo agora,
[01:34:54] olha só.
[01:34:58] Para além de Marx e Foucault,
[01:35:00] para a filosofia da praxe com poesia.
[01:35:02] É, é.
[01:35:04] Ficou o Foucault barbudo, né?
[01:35:06] Não, você sabe que eu
[01:35:08] fui, eu pedi ao editor,
[01:35:10] não, um cara que me auxilia nessas
[01:35:12] coisas, ele falou, tem inteligência
[01:35:14] artificial aí, vamos fazer
[01:35:16] uma figura
[01:35:18] entre Marx e Foucault.
[01:35:20] O Foucault-Marx, o
[01:35:22] Marxou. Aí eu,
[01:35:24] ele não fez, eu fui lá na
[01:35:26] na
[01:35:28] inteligência artificial, futuquei,
[01:35:30] futuquei, e saiu isso aqui.
[01:35:32] Saiu isso aqui.
[01:35:34] Ele é meio, é um híbrido de Marx
[01:35:36] com Foucault.
[01:35:38] Certo?
[01:35:40] Então, na verdade,
[01:35:42] é isso. Eu, se eu
[01:35:44] recuei pro século XIX,
[01:35:46] pelo menos agora eu recuei pro século XX.
[01:35:48] Marx e Foucault.
[01:35:50] Eu considero que eles continuam
[01:35:52] definindo o que é política progressista,
[01:35:54] o que é política de esquerda no
[01:35:56] Brasil hoje. Continuam definindo
[01:35:58] o que é. E tem um
[01:36:00] parentesco velado
[01:36:02] que transparece no fato de que
[01:36:04] todo mundo que é Foucaultiano também é
[01:36:06] anticapitalista, é também
[01:36:08] marxista, vê também
[01:36:10] o capital como grande coisa.
[01:36:12] Então, eu
[01:36:14] agora vou pegar esse negócio
[01:36:16] que é o que informa as humanas
[01:36:18] de modo mais completo.
[01:36:20] E botei esse subtítulo
[01:36:22] porque eu avanço um pouco
[01:36:24] mais no tal do qual que é
[01:36:26] o meu materialismo. Então,
[01:36:28] no Marx eu fiquei muito na leitura
[01:36:30] interna, vamos dizer assim, na leitura
[01:36:32] na crítica imanente, né?
[01:36:34] E dá pra entender o que é que eu tô mexendo,
[01:36:36] mas eu não desdobro. Nesse aqui,
[01:36:38] eu já digo,
[01:36:40] olha, eu já entro mais no que é
[01:36:42] esse materialismo prático poético meu
[01:36:44] e por isso
[01:36:46] eu chamo o outro, o subtítulo do outro
[01:36:48] é para uma filosofia com futuro,
[01:36:50] não é pra filosofia do futuro,
[01:36:52] é pra filosofia com futuro. Quer dizer,
[01:36:54] eu acho que Marx não tem mais
[01:36:56] tanto futuro. Então,
[01:36:58] um pensamento que
[01:37:00] responda a esse futuro
[01:37:02] que tá chegando aí, você
[01:37:04] precisa
[01:37:06] descongelar Marx
[01:37:08] pra se tornar disponível
[01:37:10] pra isso. E aqui já é
[01:37:12] um pouco mais, eu dizia assim, olha,
[01:37:14] eu quero que você
[01:37:16] se torne disponível pra um
[01:37:18] ponto de vista prático poético.
[01:37:20] É isso que eu tenho. Então, nesse livro
[01:37:22] eu já
[01:37:24] amplio o diálogo
[01:37:26] de Marx pra
[01:37:28] Foucault, sempre colocando
[01:37:30] em xeque o que são as humanas
[01:37:32] hoje no Brasil,
[01:37:34] o que é o pensamento universitário,
[01:37:36] que termina determinando em boa medida
[01:37:38] o que é o pensamento de esquerda,
[01:37:40] e aí, então,
[01:37:42] sair pra dizer mais o que
[01:37:44] eu acho que deveria ser. Então,
[01:37:46] se você me dá essa oportunidade,
[01:37:48] essa aqui é um
[01:37:50] exemplar de correção.
[01:37:52] Ainda nessa semana,
[01:37:54] eu falo com o meu editor
[01:37:56] pra imprimir
[01:37:58] e jogar no mercado,
[01:38:00] vamos dizer assim.
[01:38:02] Vou imprimir isso na mão aqui pra você.
[01:38:04] Então, a primeira indicação
[01:38:06] para além de Marx e Foucault, que vai estar
[01:38:08] saindo em breve, eu vou fazer
[01:38:10] as indicações aqui. Eu vou voltar lá atrás
[01:38:12] e vou indicar ascensão e queda do sujeito
[01:38:14] no Movimento Jovem Hegeliano,
[01:38:16] que vocês encontrem algum sebo
[01:38:18] bem documentado aí,
[01:38:20] que é um texto de 92.
[01:38:24] Filosofia, ação, criação,
[01:38:26] vale a pena comprar o livro,
[01:38:28] mas você pode encontrar ele
[01:38:30] pra baixar na internet, ele está de acesso gratuito
[01:38:32] no site da Ufoba.
[01:38:34] Tem um mais antigo que talvez
[01:38:36] seja
[01:38:38] A Filosofia Entre Nós, é um livro
[01:38:40] que ocupa um lugar muito parecido com
[01:38:42] de como fazer filosofia sem ser grego,
[01:38:44] sem o gênero estar morto.
[01:38:46] É, sim.
[01:38:48] São ensaios de metafilosofia
[01:38:50] no Brasil,
[01:38:52] um dia eu vou escrever sobre isso,
[01:38:54] como essa metafilosofia converge
[01:38:56] para um pragmatismo epistemológico.
[01:38:58] Vários autores
[01:39:00] começaram a fazer metafilosofia,
[01:39:02] Paulo Arantes,
[01:39:04] você, o Margut,
[01:39:06] muita gente fazendo
[01:39:08] metafilosofia e todo mundo convergindo
[01:39:10] para alguma coisa.
[01:39:12] Então, depois eu vou colocar
[01:39:14] vocês como personagens da minha história.
[01:39:16] É,
[01:39:18] essa
[01:39:20] formato aqui não foi um diálogo
[01:39:22] em que eu pudesse lhe ouvir mais,
[01:39:24] travar um papo entre filósofos aqui,
[01:39:26] mas você está com essas ideias que me parecem
[01:39:28] interessantíssimas e que no fim
[01:39:30] é um pouco essa coisa.
[01:39:32] Eu quero, na verdade,
[01:39:34] fazer brotar
[01:39:36] um certo percurso nacional de
[01:39:38] pensamento.
[01:39:40] Por isso eu vou publicar coisas mais
[01:39:42] sobre a USP,
[01:39:44] a UPCB
[01:39:46] e a
[01:39:48] APML.
[01:39:50] Vou falar desses atores
[01:39:52] que são tremendamente relevantes
[01:39:54] para a formação do nosso pensamento político,
[01:39:56] que é o que mais conta, que é o que sai pelas mãos.
[01:39:58] E a gente não fala.
[01:40:00] Tem produção de pensamento
[01:40:02] onde filósofos acadêmicos tiveram
[01:40:04] às vezes encostados, como Jean Notte
[01:40:06] estava encostado, Amarilena está encostado
[01:40:08] nas coisas, e aquele cara lá,
[01:40:10] o Padre Vaz,
[01:40:12] que foi pai da ação
[01:40:14] popular,
[01:40:16] que deu na ação popular
[01:40:18] marxista-leninista.
[01:40:20] Teatro Chardin, Marx…
[01:40:22] A gente tem história de pensamento no Brasil.
[01:40:24] Tem história de pensamento no Brasil.
[01:40:26] Tem história de filosofia no Brasil.
[01:40:28] E tem essa coisa que você está tentando captar
[01:40:30] nas metas-filosofias
[01:40:32] de reflexão sobre
[01:40:34] o que é o percurso brasileiro de pensamento.
[01:40:36] O que é a possibilidade brasileira
[01:40:38] de fazer filosofia.
[01:40:40] E tem uma curiosidade,
[01:40:42] aqui em Goiás,
[01:40:44] você tinha os colonizadores da USP
[01:40:46] que vinham para cá.
[01:40:48] Os bandeirantes.
[01:40:50] Os bandeirantes não cabiam nos outros lugares.
[01:40:52] O Rio também. O Rio também mandava bandeirantes para cá.
[01:40:54] Só que, de repente,
[01:40:56] os estrangeiros não sabiam
[01:40:58] que eles estavam vindo para um lugar
[01:41:00] que não podiam fazer filosofia,
[01:41:02] que é o Julio Cabreira, o Gonçalo.
[01:41:04] Talvez de uma forma meio iluminada
[01:41:06] tentavam fazer alguma coisa.
[01:41:08] É muito curioso isso.
[01:41:10] Como eles vinham de outro lugar
[01:41:12] e não se encaixavam.
[01:41:14] Exatamente.
[01:41:16] Não se encaixavam.
[01:41:18] Eles não tinham essa forma
[01:41:20] que se tornou aqui tão naturalizada.
[01:41:22] E aí não era
[01:41:24] interpelada.
[01:41:26] E eles, vindo de fora,
[01:41:28] interpelavam, desnaturalizavam
[01:41:30] essa coisa. Mas que merda é essa?
[01:41:32] Não posso abrir a boca aqui na primeira pessoa
[01:41:34] nunca.
[01:41:36] Mas, enfim…
[01:41:38] Eu fiz só uma última indicação
[01:41:40] para fechar.
[01:41:42] Eu tenho um artigo sobre Foucault
[01:41:44] que se chama Foucault lendo Kant.
[01:41:46] Eu trabalhei…
[01:41:48] Eu trabalhei o último
[01:41:50] texto dele sobre o que é iluminismo.
[01:41:52] Só que eu trabalhei…
[01:41:54] São duas versões do que é iluminismo.
[01:41:56] E tem um debate interessante
[01:41:58] que ele ia participar de um evento
[01:42:00] promovido… Ele estava organizando um evento
[01:42:02] em que ele ia debater com Habermas,
[01:42:04] Horthy e outros filósofos
[01:42:06] e morreu antes de fazer esse evento.
[01:42:08] E aí eu defendo
[01:42:10] que há duas divisões ali.
[01:42:12] Uma coisa é a ontologia
[01:42:14] do presente e outra coisa
[01:42:16] é a ontologia de nós mesmos.
[01:42:18] São coisas diferentes.
[01:42:20] E o Foucault diz nesse texto
[01:42:22] que ele era um reformista.
[01:42:24] Certo.
[01:42:26] E qual é o título
[01:42:28] do seu artigo? Onde é que está?
[01:42:30] Foucault lendo Kant
[01:42:32] está na revista
[01:42:34] Interação, da UFG.
[01:42:36] É uma revista dos alunos.
[01:42:38] É curioso porque
[01:42:40] nesse artigo eu queria mostrar
[01:42:42] como o Foucault de alguma forma
[01:42:44] converge vocabulário privado
[01:42:46] e vocabulário público.
[01:42:48] Porque você tem que ser poeta e criador
[01:42:50] ao mesmo tempo.
[01:42:52] Mas nesse momento final
[01:42:54] ele tenta falar o que é crítica
[01:42:56] mas você tem que ver que são dois textos
[01:42:58] que falam de coisas diferentes.
[01:43:00] São dois o que é iluminismo.
[01:43:02] Duas palestras diferentes.
[01:43:04] E ele fala ontologia do presente
[01:43:06] e ontologia de nós mesmos.
[01:43:08] Ele teve um diálogo com
[01:43:10] Horthy em que ele lançou
[01:43:12] aquela ideia dos vocabulários privados
[01:43:14] e vocabulários públicos.
[01:43:16] E a resposta do Foucault foi
[01:43:18] uma coisa é perigosa,
[01:43:20] outra coisa é mais perigosa ainda.
[01:43:24] Esse Foucault não tem jeito.
[01:43:26] Era um pândego.
[01:43:28] Bacana.
[01:43:30] Marco, vamos manter contato
[01:43:32] porque não é por acaso
[01:43:34] que nós temos esses
[01:43:36] cruzamentos de interesse
[01:43:38] como você acabou de dizer,
[01:43:40] Horthy, Foucault e essa filosofia
[01:43:42] no Brasil e tudo.
[01:43:44] Agradeço muito a atenção
[01:43:46] e de quem
[01:43:48] porventura do público
[01:43:50] enfrente uma
[01:43:52] gravação tão estenada.
[01:43:54] Muito obrigado, professor.
[01:43:56] Um forte abraço.
[01:43:58] Muito obrigado.
[01:44:06] Obrigado.
[01:44:36] Obrigado.
[01:45:06] Obrigado.
[01:45:36] Obrigado.
[01:46:06] Obrigado.
[01:46:36] Obrigado.
[01:47:06] Obrigado.
[01:47:36] Obrigado.
[01:48:06] Obrigado.