#222 Império do Japão: da Restauração Meiji ao fim da Segunda Guerra


Resumo

O episódio reconstrói a formação do Império do Japão a partir do colapso do Bakufu Tokugawa e da Restauração Meiji, explicando como pressões externas (como a missão de Matthew Perry e a “diplomacia da canhoneira”, além da Guerra do Ópio e tensões com a Rússia) se somaram a crises internas (instabilidade política, fome, protestos e novas correntes intelectuais) para viabilizar a centralização do poder em torno do imperador e a modernização acelerada. A conversa detalha a industrialização e a reorganização do Estado, com destaque para as zaibatsu, a missão Iwakura, a criação de instituições inspiradas em modelos europeus e a Constituição Meiji, descrita como um arcabouço que abria espaço para o autoritarismo.

Na sequência, o debate aborda mudanças culturais e sociais: a construção de uma “religião política” centrada no imperador, a separação forçada entre xintoísmo e budismo, perseguições e proibições de práticas tradicionais, além da reinvenção ideológica do “samurai” (bushidô) ao mesmo tempo em que a classe samurai é abolida e parte dela se converte em elite burocrática e militar. O episódio então acompanha o Japão imperialista em guerras e anexações (China, Coreia, Rússia, Primeira Guerra), o crescimento de ideias de superioridade étnico-racial e a guinada repressiva na Era Shōwa, com censura, propaganda, militarização da educação e a Lei de Preservação da Paz.

Por fim, entra nos episódios mais violentos do expansionismo: a invasão da Manchúria (Incidente de Mukden), a guerra total contra a China, o Massacre de Nanquim e crimes como a Unidade 731 e a escravidão sexual (“mulheres de conforto”), além do impacto dos bombardeios incendiários e das bombas atômicas. O pós-guerra é discutido a partir da ocupação liderada pelos EUA (MacArthur), da Constituição de 1947 e do Artigo 9, e das ambiguidades da “justiça dos vencedores” no Tribunal de Tóquio. O encerramento trata do “rebranding” do Japão pacifista, das disputas internas de memória (vítima, perpetrador, inocente) e do terreno fértil para revisionismos.


Anotações

  • 00:32:11 — Zaibatsu e concentração industrial: Ao discutir a industrialização acelerada do Japão no pós-abertura e na Era Meiji, o participante aponta as zaibatsu como um primeiro plano para o desenvolvimento econômico: conglomerados industriais e financeiros que surgem a partir da venda de antigas estatais do período Tokugawa para famílias ligadas a atividades mercantis. Ele cita quatro principais (Mitsui, Sumitomo, Yasuda e Mitsubishi) e comenta que seus nomes e logos remetem a brasões familiares. Segundo ele, essas estruturas formaram oligopólios e foram alvo de críticas, por serem vistas como um conluio que poderia inviabilizar o crescimento da democracia, ao concentrar mercado e dificultar a criação de novas empresas; ainda assim, aparecem na fala como parte central da estratégia de fortalecimento industrial (com foco em setores como estaleiros, metalurgia e fábricas de munição) dentro de um Estado mais centralizado.

Indicações

Livros

  • The Pacific War (Ienaga Saburo) — Indicado como base crítica sobre o período 1931–1945 e a trajetória do militarismo japonês; o autor também é citado pelas disputas sobre memória e ensino de história no Japão.
  • The Japanese Colonial Empire, 1895–1945 (ed. Ramon H. Myers e Mark R. Peattie) — Coletânea temática para entender o império colonial japonês, com capítulos sobre política, sociedade, cultura e guerra.
  • The Long Defeat (Hashimoto Akiko) — Usado para discutir identidades e memória coletiva no pós-guerra (vítima, perpetrador e inocente) e como essas narrativas competem internamente.
  • Shinron / Shingron (Aizawa Seishisai) — Mencionado como texto ligado ao slogan sonnō jōi e à defesa de centralidade imperial e expulsão de estrangeiros no contexto pré-Meiji.
  • (Livro-reportagem sobre Nanquim) (Honda Katsuhichi) — Citado como obra que compila entrevistas, diários e testemunhos (chineses e japoneses) para documentar as atrocidades do Massacre de Nanquim.

Filmes / Series

  • O Último Samurai — Mencionado como popularizador de ideias equivocadas sobre o fim dos samurais; usado para corrigir anacronismos (como chamar Mutsuhito de “Imperador Meiji” em vida).
  • Samurai X (Rurouni Kenshin) — Referência cultural para ilustrar restrições pós-Meiji (como portar espadas) e citar a inspiração do personagem em Kawakami Gensai.
  • A Arpa da Birmânia — Recomendado como filme japonês que retrata o desencanto com a guerra e a ocupação, enfatizando críticas internas ao imperialismo.
  • Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka) — Citado para exemplificar o impacto dos bombardeios incendiários na vida civil e o trauma no fronte interno.
  • Oppenheimer — Mencionado como gancho recente para discutir memória pública sobre as bombas atômicas (com crítica de que o filme não aprofunda certos aspectos).
  • Godzilla (1954) — Apontado como expressão cultural do trauma nuclear e da ambivalência da ciência no pós-guerra.
  • Shin Godzilla — Referido como releitura contemporânea que mantém ecos do trauma (inclusive com personagem ligada a hibakusha).
  • Godzilla Minus One — Citado como obra recente ambientada no pós-guerra, mostrando a permanência do tema na cultura popular.
  • Momotarō: Umi no Shinpei (Momotaro e os Bravos Guerreiros do Mar) — Apresentado como longa animado de propaganda de guerra voltado a crianças.
  • Astro Boy (Tetsuwan Atomu) — Citado como exemplo de como o “átomo” vira tema recorrente na cultura japonesa após 1945.
  • Tradução da Constituição do Japão (site da Embaixada do Japão) — Mencionada como fonte pública para consultar o texto, incluindo o Artigo 9 (renúncia à guerra).

Linha do Tempo

  • [00:00] — Apresentação do tema “Império do Japão” e do convidado Jojo Neto
  • [00:03] — O que foi a Restauração Meiji: fim do Bakufu e crise do sistema Tokugawa
  • [00:05] — Sakoku e contatos limitados: comércio com China e Holanda via Nagasaki/Dejima
  • [00:06] — Pressões externas no século XIX: Rússia, Guerras Napoleônicas, Guerra do Ópio e abertura forçada na Ásia
  • [00:10] — Matthew Perry (1853–1854), “diplomacia da canhoneira” e o Tratado de Kanagawa
  • [00:19] — Fatores internos: crise socioeconômica, protestos, escolas intelectuais (Kokugaku/Mito) e o slogan sonnō jōi
  • [00:23] — Golpe e Guerra Bōshin: aliança Satsuma–Chōshū, queda do último shogun e ascensão de Mutsuhito (Meiji)
  • [00:30] — Industrialização e centralização: fukoku kyōhei, zaibatsu, missão Iwakura e reformas institucionais
  • [00:39] — Transformações culturais e religiosas: “religião política”, shinbutsu bunri, perseguições ao budismo e controle social
  • [00:47] — Declínio/reinvenção dos samurais: fim de estipêndios, “shizoku”, rebeliões e a Revolta de Satsuma (1877)
  • [00:52] — Guerras e imperialismo: Sino-Japonesa, Boxers, Russo-Japonesa e anexação da Coreia (1910); superioridade racial
  • [01:03] — Era Taishō e Primeira Guerra: ganhos no Pacífico e frustrações em Versalhes (cláusula de igualdade racial)
  • [01:11] — Era Shōwa: Lei de Preservação da Paz (1925), censura, repressão e militarização da sociedade
  • [01:22] — Manchúria (1931) e guerra total na China (1937): Incidente de Mukden, Manchukuo e escalada do conflito
  • [01:35] — Massacre de Nanquim, Unidade 731 e crimes de guerra; ocupações e “mulheres de conforto”
  • [01:58] — Fronte interno: propaganda, fome, exploração do trabalho e bombardeios incendiários; Hiroshima e Nagasaki
  • [02:23] — Rendição, ocupação aliada e Constituição de 1947; Tribunal de Tóquio e continuidades do trauma
  • [02:33] — Pós-guerra: “rebranding” pacifista, memória coletiva e revisionismo histórico; recomendações finais

Dados do Episódio

  • Podcast: História FM
  • Autor: Leitura ObrigaHISTÓRIA
  • Categoria: History
  • Publicado: 2025-12-08
  • Duração: 2h45m

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Música

[00:00:16] Você está ouvindo o História FM.

[00:00:19] Música

[00:00:27] Império do Japão, esse é o tema de hoje do História FM.

[00:00:31] Eu sou o Iclis Rodrigues e para falar sobre esse assunto aqui conosco pela primeira vez,

[00:00:35] o Jojo Neto aqui em Aposta-Palavra, para se apresentar para vocês.

[00:00:38] Então, seja muito bem-vindo.

[00:00:40] O que é a vontade para se apresentar para o pessoal?

[00:00:42] Obrigado, Iclis.

[00:00:43] Muito obrigado pela oportunidade que está falando sobre esse tema.

[00:00:46] É um tema que eu venho pesquisando ao longo do tempo,

[00:00:50] a história do Japão, principalmente a história moderna.

[00:00:53] Eu sou bacharel e mestrando na Pukeminas em relações internacionais.

[00:00:59] Eu já fui estagiário docente nas disciplinas de Segurança Internacional

[00:01:03] e nas disciplinas de Arts and Conflicts,

[00:01:06] uma disciplina ministrada em inglês.

[00:01:09] E a gente sempre intercala essas coisas, mas o meu interesse sempre foi muito o Japão nesse sentido.

[00:01:15] Falar sobre esse momento histórico aí, que é o Império do Japão,

[00:01:18] que é muito famoso, mas ao mesmo tempo talvez um pouco não compreendido em sua plenitude.

[00:01:24] Conversar sobre um pouquinho isso hoje, né?

[00:01:26] Então é isso.

[00:01:27] Vamos conhecer um pouco mais desse período turbulento da história japonesa

[00:01:30] depois que eu der um recado para vocês.

[00:01:36] Como eu prometi no último episódio,

[00:01:37] cá estou eu para falar para vocês na nossa campanha no Apoia-se,

[00:01:41] porque é ela que financia esse trabalho.

[00:01:44] Nada disso que você está ouvindo seria possível

[00:01:46] se nós não tivéssemos ouvintes generosos que têm a possibilidade,

[00:01:50] claro, eu sei que nem todo mundo pode,

[00:01:52] mas que têm a possibilidade de apoiar esse projeto educacional, gratuito,

[00:01:56] que ajuda milhares de pessoas.

[00:01:59] Eu já recebi muitas mensagens, muitos contatos de pessoas

[00:02:03] que realmente conseguiram algumas conquistas muito bacanas,

[00:02:07] ou conseguir passar na disciplina, se formar, passar num mestrado, doutorado

[00:02:11] ou até em concurso para professor graças ao material que a gente faz aqui.

[00:02:15] Então eu queria muito agradecer a vocês que apoiam,

[00:02:17] porque é graças a vocês que todas as pessoas estão conseguindo

[00:02:21] atingir esses objetivos.

[00:02:23] Eu sou um meio, mas esse meio não existiria se não fosse o apoio de vocês.

[00:02:27] E você que está ouvindo pode apoiar também em apoia.se barro obriga a história.

[00:02:31] O link está na descrição do episódio para facilitar para você, beleza?

[00:02:35] E os nossos novos apoiadores e apoiadores são

[00:02:45] Gilberto Santoro Júnior e Rafael Braga.

[00:02:47] Muito obrigado, pessoal.

[00:02:49] Graças a vocês que a gente continua no ar.

[00:02:51] E se você ainda não apoia, como eu disse, o link está aqui na descrição,

[00:02:54] junto com vários outros links, como os links do patrocínio de Insider,

[00:02:57] os meus cursos, enfim, o que for relevante,

[00:03:01] você encontra na descrição dos episódios, beleza?

[00:03:09] Com o fim da era Meiji, em 1912, tivemos a ascensão do imperador Yoshihito,

[00:03:14] a era Taisho.

[00:03:15] O novo imperador tinha saúde frágil desde o nascimento.

[00:03:19] E duas correntes políticas se estabeleceram,

[00:03:21] os que defendiam mais poder ao parlamento e reformas democráticas,

[00:03:25] e os que defendiam que o imperador deveria ser substituído

[00:03:28] e que um modelo baseado à autoridade central era necessário.

[00:03:38] Normalmente se entende que o começo do Império do Japão

[00:03:41] se dá com a restauração Meiji, ou Meiji, eu não sei qual é a pronúncia correta.

[00:03:45] Você poderia explicar para quem está ouvindo o que foi esse evento histórico

[00:03:49] e o que levou a ele?

[00:03:50] Bom, vamos lá, está certo, realmente, Meiji, né?

[00:03:54] Curiosamente o I é para prolongar o som do E, então Meiji.

[00:03:58] De fato, ele é o início desse momento chamado Império do Japão.

[00:04:02] Só que tem dois termos aí, uma coisa é a era Meiji,

[00:04:06] a outra coisa é a restauração Meiji, que é concomitante,

[00:04:10] a era Meiji dá a restauração Meiji, mas são dois conceitos diferentes.

[00:04:14] A era Meiji é esse ponto de virada que o Japão passa para uma virada

[00:04:19] não só institucional, mas também cultural,

[00:04:23] em todo o sistema político dele, até na própria cultura do Japão como um todo.

[00:04:29] O nome dela é dado por causa do imperador,

[00:04:32] o imperador que era muito novo, mas antes disso a gente fala um pouquinho

[00:04:36] sobre o que que levou até essa mudança de imperador,

[00:04:39] ao mesmo tempo essa chamada restauração.

[00:04:42] Porque a restauração, apesar de ela levar o mesmo nome da era,

[00:04:45] ela começa um pouco antes.

[00:04:47] Ela é o fim do governo que muitas pessoas chamam de Japão feudal,

[00:04:52] mas esse termo é historicamente incorreto,

[00:04:54] é você atrelar uma lógica europeia

[00:04:58] a uma lógica de outro lugar do mundo só porque é minimamente semelhante

[00:05:01] assim com a analogia tão um pouco forçada.

[00:05:04] Então ao longo disso eu vou chamar de Bakufu.

[00:05:06] O Bakufu é esse sistema de que tem um shogun,

[00:05:10] que é um generalíssimo que governa conjuntamente com o imperador.

[00:05:15] E ele estava sobre o Bakufu do Tokugawa, que se não me engano

[00:05:18] já tem um episódio no História FM sobre isso.

[00:05:20] Então para profundar mais nesse período recomendo ir lá,

[00:05:23] que é um período de quase 300 anos dessa lógica de governo.

[00:05:26] Só que ele vai se enfraquecendo ao longo do tempo.

[00:05:30] A elite estava um pouco estagnada.

[00:05:33] Você tem estagnação política muito grande, né?

[00:05:37] E tinha uma certa insatisfação com o próprio governo do Tokugawa.

[00:05:41] E essa insatisfação como um todo ela vai lançar um estopim na década de 1850.

[00:05:46] Qual que era a sua ação do Japão na época?

[00:05:49] Ele estava com uma forma de governo que era o Sakoku,

[00:05:53] que se for traduzir literalmente seria país enclausurado.

[00:05:58] Que desde o início desse Bakufu que é a época

[00:06:02] do que o pessoal geralmente fala que o Japão estava fechado.

[00:06:05] Tipo assim, é uma lógica que não tinha muitas relações internacionais.

[00:06:10] Mas, contrário do que muita gente diz, ele não estava hermeticamente fechado.

[00:06:14] Havia um contato limitado, principalmente com a China e com a Holanda.

[00:06:19] Era um comércio ilimitado que se limitava a um porto no Japão,

[00:06:22] que era o porto na ilha de Dedima, que fica em Nagasaki.

[00:06:26] É bem um porto ali que facilita tanta entrada,

[00:06:31] porque ele fica do lado oeste do Japão,

[00:06:33] então ele facilita a entrada de comércio chinês

[00:06:37] e de comércio holandês também.

[00:06:40] E ao longo desse tempo tem vários movimentos internos e externos.

[00:06:44] Fala um pouquinho, mais ou menos estava acontecendo externamente ao Japão,

[00:06:49] porque havia uma certa pressão para ele se abrir,

[00:06:52] para ele parar com esse isolacionismo de diversas fontes.

[00:06:56] Tinha uma tensão, em primeiro lugar, com a Rússia.

[00:06:59] A Rússia teve um conflito,

[00:07:03] que não é ainda a guerra russia-japonesa, então vamos bem depois,

[00:07:07] mas a Rússia havia anexado os territórios da ilha escúrio

[00:07:11] e das ilhas Sakhalin ao norte.

[00:07:13] E ao norte do Japão as fronteiras estavam um pouco difusas,

[00:07:17] é como se fosse uma tensão que ficou mal resolvida.

[00:07:20] E essa não resolução, ao longo do tempo,

[00:07:23] ela vai ficando cada vez mais tensa,

[00:07:27] porque é uma situação mal resolvida,

[00:07:30] que o Japão diplomaticamente não quer resolver,

[00:07:32] mas ao mesmo tempo é logo na fronteira.

[00:07:34] Isso com os russos.

[00:07:36] Na Europa Ocidental aconteceu outra coisa,

[00:07:38] porque na Europa estavam acontecendo as guerras napoleônicas,

[00:07:42] logo no início do século XIX, final do século XVIII e início do século XIX,

[00:07:48] que vai ter feito sim no Japão, mesmo a distância sendo muito grande.

[00:07:53] Você tem um evento, que foi um navio britânico,

[00:07:56] que ele invadiu esse porto de Nagasaki em busca de suprimentos,

[00:08:00] porque ele precisava para sobreviver.

[00:08:03] E isso levou, inclusive, um oficial da…

[00:08:05] Não sei se pode chamar de marinha,

[00:08:07] mas um oficial comandando a região,

[00:08:10] ele foi obrigado a cometer um suicídio de ritual,

[00:08:14] só que isso foi um motivador de que as autoridades japonesas

[00:08:18] questionasse os holandeses sobre o que estava acontecendo na Europa

[00:08:21] e ficar a par de acontecimentos globais,

[00:08:23] era algo que não acontecia anteriormente,

[00:08:26] é assim que o Japão fica a par da ascensão de Napoleão

[00:08:31] e também da Revolução dos Estados Unidos.

[00:08:32] Leva até a figura de George Washington,

[00:08:35] leva até a figura do próprio Napoleão para analisar.

[00:08:39] Comcomitando com isso, internamente,

[00:08:41] existe o movimento intelectual Karurangaka,

[00:08:43] que era um acesso de estudiosos,

[00:08:46] mais nesse porto de Dedima, lá em Nagasaki,

[00:08:50] que foi o acesso de estudiosos a conhecimentos ocidentais,

[00:08:53] tecnologia, medicina, ciência, ocidental como um todo,

[00:08:57] que é um fator contribuinte disso,

[00:09:00] e começa a ter mais esse impacto de fora,

[00:09:02] começa a ter essa resposta de dentro de ter mais interesse

[00:09:08] sobre aprender o mundo lá fora, colocando aqui entre aspas.

[00:09:12] A China também foi um fator curcial,

[00:09:14] porque as informações da China vieram logo depois,

[00:09:18] por causa da Primeira Guerra do Ópio,

[00:09:21] em 1939 até 1942, do 1839 até 1842,

[00:09:27] que levou o Japão a entender mais que a Europa estava chegando.

[00:09:33] A Grã-Bretanha força a abertura da China,

[00:09:35] e isso tem algum efeito no Japão.

[00:09:38] Colocou que mesmo na China,

[00:09:40] que os japoneses naquela época viam como uma civilização central,

[00:09:44] como um modelo de civilização, mesmo ela estava vulnerável.

[00:09:50] Há tecnologias e políticas ocidentais naquele momento,

[00:09:54] o que fez ter um alerta, isso também é um ponto de pressão.

[00:09:57] Isso está caminhando para uma figura histórica que é muito importante,

[00:10:02] mas antes disso você tem o rei Guilherme II da Holanda,

[00:10:05] que enviou a proposta formal ao Shogun, do Shogunato Tokugawa,

[00:10:10] em 1944, dos séculos XIX,

[00:10:13] que teve um aumento no comércio global por causa das guerras napoleônicas.

[00:10:18] Esse rei, nessa proposta, cita a questão da guerra do ópio,

[00:10:24] que é uma evidência de urgência

[00:10:27] que o Japão precisava fomentar o próprio comércio com o resto do mundo.

[00:10:30] Isso também é um ponto de pressão.

[00:10:32] E aí tem uma figura histórica que o pessoal,

[00:10:34] quando fala de revolução, sempre cita,

[00:10:36] uma figura histórica muito famosa, que é o Matthew Perry.

[00:10:39] O Matthew Perry não é o ator de Friends,

[00:10:42] nem o Perry Ornitorrinco do Finesa Fermi,

[00:10:46] mas é o Matthew C. Perry, que é um comodoro,

[00:10:48] da Marinha dos Estados Unidos.

[00:10:50] Ele chega em uma missão própria com o interesse de falar com o Japão,

[00:10:57] e essa missão acontece em julho de 1853.

[00:11:00] Ele chega com uns navios que, inclusive, ele tem um termo histórico,

[00:11:04] que eram os Kurofune, que é, literalmente, embarcações negras,

[00:11:07] que eram embarcações que o Japão nunca tinha visto.

[00:11:13] O Matthew Perry, inclusive, depois ele vai ser conhecido como,

[00:11:16] nos próprios Estados Unidos, como o comodoro dos navios a vapor.

[00:11:21] Ele chega com navios enormes e ele chega no porto, na baía de Edo.

[00:11:27] Ele evita o porto de Nagasaki.

[00:11:30] Ele chega logo em porto em Edo, que estava fechado,

[00:11:32] era só para embarcações japonesas.

[00:11:34] Ele atraca nessa baía,

[00:11:37] e exigindo que ele falasse com a maior autoridade do Japão,

[00:11:40] porque ele quer falar com o imperador e não com o Shogun.

[00:11:43] Lembrando que, dentro do Japão, o próprio sistema do Shogunato,

[00:11:47] ele estava um pouco fratilizado, ele estava um pouco descrente

[00:11:51] com relação se aquilo era realmente o caminho

[00:11:55] que o Japão deveria tomar nesse sentido.

[00:11:57] E ele traz algumas exigências,

[00:11:59] falando que ele queria falar de uma nação civilizada para outra,

[00:12:03] palavras dele.

[00:12:04] E ele, talvez por uma noção meio errônea,

[00:12:08] até meio orientalista de pompa,

[00:12:10] ele chega com cartas oficiais do Presidente dos Estados Unidos,

[00:12:14] diretamente para o imperador do Japão.

[00:12:16] Inclusive, tem uma cerimônia que ele exige,

[00:12:18] ele traz as declarações, os documentos,

[00:12:22] em caixas dornadas e tudo mais.

[00:12:24] Ele chega realmente com um pouco mais de pompa

[00:12:27] daquilo que ele percebia que era a nobreza, talvez.

[00:12:30] Mas é bem descrito como ele chega com essas caixas dornadas e tudo mais.

[00:12:34] E em Kurihama, o Kurihama existe hoje em dia,

[00:12:38] se você, inclusive, colocar Kurihama,

[00:12:41] ou visitar, ou até mesmo olhar no mapa mesmo,

[00:12:43] você vai ver que tem um parque dedicado ao Perry,

[00:12:46] não um memorial, não exatamente dedicado,

[00:12:48] mas um memorial que foi ali que ele esteve.

[00:12:50] O nome é Perry Park, ou Perry Coin,

[00:12:53] que seria em japonês, um memorial para esse militar.

[00:12:57] E ele exige esse encontro com o imperador,

[00:13:01] inclusive vai ter uma marcha cerimonial,

[00:13:04] as tropas japonesas recebendo ele enfileradas.

[00:13:07] E aí que ele vai utilizar de um termo que é famoso

[00:13:10] tanto na história quanto nas relações internacionais,

[00:13:13] que é a famosa diplomacia da canhoneira.

[00:13:15] Basicamente, as negociações dele com o imperador nesse primeiro momento

[00:13:19] é demonstração de poder e ameaça.

[00:13:22] É basicamente assim que ele negociou com a delegação do imperador.

[00:13:27] Ele avisou que os navios dele, os kurofunei que ele chegou,

[00:13:30] ele já estão com a tripulação pronta,

[00:13:32] os decks limpos para poder varrer a praia com o tiro das armas do navio.

[00:13:36] Ele fala mais ou menos com essa palavra

[00:13:38] e ainda faz uma outra ameaça que ele poderia convocar mais navios

[00:13:43] diretamente da Califórnia, se fosse necessário.

[00:13:47] E dentro dessas caixas que eu falei antes, inclusive,

[00:13:50] ele dá uma intimidação que ele dá bandeiras brancas para a delegação japonesa

[00:13:54] com uma declaração pessoal falando o que eram aquelas bandeiras brancas.

[00:13:58] Falou que essas bandeiras vão ser necessárias

[00:14:00] para a rendição japonesa incondicional

[00:14:02] caso o Japão não atende essa demanda nos Estados Unidos.

[00:14:04] Ou seja, ele chega realmente com um nível de ameaça

[00:14:08] e demonstração de poder muito forte.

[00:14:10] Logo em seguida, ele faz uma anobra de reconhecimento.

[00:14:13] Enquanto está conversando um dos navios,

[00:14:16] ele faz uma manobra de reconhecimento da costa

[00:14:18] e isso estava sendo proibido.

[00:14:20] Já era proibido atracar no porto.

[00:14:23] Quem dirá também fazer um reconhecimento da costa?

[00:14:25] Ele faz isso.

[00:14:26] E o aviso dele, ele faz algumas demandas,

[00:14:29] mas ele avisa que vai retornar no ano seguinte.

[00:14:31] Ele dá inclusive o mês, ele fala abril ou maio,

[00:14:34] então mês de 4 a 5, quase no meio do ano,

[00:14:37] para receber a resposta do Japão às exigências dele.

[00:14:41] Uma das exigências era a própria apresentação formal,

[00:14:45] que era apresentar essa carta do presidente dos Estados Unidos

[00:14:48] para o Japão para falar sobre abertura de comércio e um monte de coisa.

[00:14:52] Ele queria proteção humanitária

[00:14:53] porque os Estados Unidos estavam aumentando a frota dele naval.

[00:14:57] E uma coisa muito importante nessa época de navegações

[00:15:02] é, claro, hoje em dia, obviamente ainda é,

[00:15:04] mas hoje em dia o mundo está muito mais conectado,

[00:15:06] mas era a proteção humanitária a navios naufragados,

[00:15:10] marinheiros, que às vezes eles precisam entrar em portos de emergência.

[00:15:15] Claro, na época não haviam aviões,

[00:15:16] mas hoje em dia a gente vê muitos aviões

[00:15:18] tendo que fazer pouso emergencial,

[00:15:20] no mar muitas vezes tem porta-aviões,

[00:15:22] eles têm que receber permissão, etc.

[00:15:25] Havia um sistema parecido com portos,

[00:15:28] muitos tratados internacionais,

[00:15:29] eles envolviam essa ajuda humanitária

[00:15:31] quando tinha que atracar um navio num porto de emergência

[00:15:35] para poder receber suprimentos.

[00:15:37] Igual aconteceu com a Inglaterra antes,

[00:15:39] só que com a Inglaterra antes foi realmente um problema muito enorme,

[00:15:42] tanto que forçou um oficial do Japão a ser condenado a cometer esse…

[00:15:48] E, de toda forma, qualquer necessidade

[00:15:52] que haveria para um navio estadunidense,

[00:15:55] ele teria que atracar num porto japonês,

[00:15:57] essa proteção humanitária ali no Pacífico.

[00:16:00] Obviamente, a permissão do governo

[00:16:02] para receber esses suprimentos dos navios.

[00:16:05] Ele queria também estabelecer, o Perry, uma estação de carbão,

[00:16:10] por causa que estava aumentando a navegação a vapor

[00:16:12] e o combustível é uma necessidade,

[00:16:15] e ele queria abertura comercial inicial,

[00:16:17] que seria permissão para entrar em um ou mais portos

[00:16:21] para negociar carga de venda e troca.

[00:16:23] Ele queria todas essas coisas,

[00:16:24] ali ele teve a primeira delas, que era entregar a carta,

[00:16:27] e um ano depois ele voltaria para ver se conseguia outras.

[00:16:30] Ele fala que ia voltar em abril ou maio,

[00:16:32] como eu falei, só que ele volta mais cedo,

[00:16:34] porque ele ouve as notícias que houve uma missão russa também.

[00:16:39] Sempre colocam o Perry como esse ponto inicial,

[00:16:41] de fato, ele é um estopim,

[00:16:42] mas você tem também um obirante putiatim,

[00:16:45] acho que é assim que fala o nome dele, que é uma missão russa,

[00:16:48] que essa missão russa vai em Nagasaki

[00:16:50] e o objetivo era um tratado russo-japonês.

[00:16:54] E o Perry volta em fevereiro

[00:16:57] com o objetivo de não deixar isso acontecer,

[00:16:59] ou pelo menos ser o primeiro isso,

[00:17:00] isso em 1854.

[00:17:02] Ele volta com o esquadrão mais forte,

[00:17:04] dessa vez com o navio a vapor,

[00:17:06] os Kurofune inicialmente não eram navios a vapor,

[00:17:08] mas agora ele volta com uma frota muito maior

[00:17:10] e com uma frota muito mais forte,

[00:17:11] e insiste que as negociações sejam feitas em Kanagawa.

[00:17:15] O pessoal que já foi para o Japão ou que conhece um pouquinho o Japão

[00:17:18] conhece esse nome Kanagawa.

[00:17:20] Kanagawa não é mais ou menos onde é a província de Kanagawa hoje em dia,

[00:17:25] mas aqui Kanagawa se refere a uma cidade que é perto da Yokohama.

[00:17:29] Para quem não conhece Yokohama é a segunda maior cidade do Japão,

[00:17:32] ela fica logo ao sul de Tóquio.

[00:17:33] Ele exige que esse encontro seja feito em Kanagawa,

[00:17:36] que é mais vantajoso para ele

[00:17:37] por causa da Califórnia diretamente em Pacífico.

[00:17:40] Se fosse em Nagasaki, ele teria que dar uma volta pela costa

[00:17:43] até chegar do lado oeste, do lado leste seria melhor.

[00:17:45] E 23 dias de negociação depois é feito o tratado de Kanagawa,

[00:17:49] muitas vezes chamada de Convenção de Kanagawa,

[00:17:51] que é um tratado de 12 artigos

[00:17:53] que firmava aqueles objetivos do Perry, mas alguns.

[00:17:56] Então ele consegue provisão de suprimento,

[00:18:00] estação de carvão, abertura de comércio inicial

[00:18:03] e os Estados Unidos conseguem não um porto, mas dois portos.

[00:18:06] Um é em Shimoda, que é logo na entrada da Baía de Tóquio,

[00:18:09] hoje em dia é Baía de Tóquio, antigamente Baía de Edo,

[00:18:11] inclusive a mudança do nome da capital a gente também vai falar aqui.

[00:18:16] E outro porto é em Hakodate, que é em Hokkaido,

[00:18:18] que é a ilha mais ao norte.

[00:18:20] Geralmente o pessoal olha no Japão no mapa

[00:18:21] ele tem uma ilhona grandona, como se fosse uma cabeça, é ali.

[00:18:25] Hakodate é logo ao sul dessa ilha, mas do lado norte do Japão.

[00:18:29] Ambos os portos são de uso exclusivo dos Estados Unidos,

[00:18:32] assim como o porto de Nagasaki é de uso exclusivo holandês e chinês.

[00:18:36] E o tratado afirmava, se não me engano no artigo 12, no 12º artigo,

[00:18:41] paz e amizade entre os países,

[00:18:43] e um estabelecimento consular inicial em Shimoda.

[00:18:47] E ele abriu porta que outros tratados fossem firmados,

[00:18:50] então outros tratados no mesmo ano foram firmados,

[00:18:53] o da Grã-Bretanha foi firmado no mesmo ano,

[00:18:56] o da Rússia, do Almirante Putiatim foi afirmado um ano depois,

[00:18:59] e com a França é em 58.

[00:19:02] Isso com a França é um pouco mais depois,

[00:19:04] e isso é antes da era Meiji.

[00:19:07] Mas esses foram todos os fatores externos que levaram a essa revolução Meiji,

[00:19:12] e certamente contribuíram para essa percepção mais tarde.

[00:19:16] A Missão Perry certamente é esse ponto de virada,

[00:19:18] mas é muito mais um estropim do que outra coisa,

[00:19:20] para que outros conflitos internos começassem a acontecer.

[00:19:24] Eu falo conflitos mesmo,

[00:19:26] mas também toda aquela construção que eu falo de fatores internos

[00:19:29] vai explodir junto com isso.

[00:19:31] E esses fatores internos,

[00:19:33] a partir da fraqueza do Bakufu que eu mencionei anteriormente,

[00:19:37] teve basicamente uma crise socioeconômica

[00:19:40] que esse poder estava diminuindo.

[00:19:42] Foram séculos e séculos de paz, a Paz Tokugawa,

[00:19:45] muitas vezes que se chama,

[00:19:46] mas a estrutura do Bakufu Han,

[00:19:48] que seria a concentração de poder no Bakufu e nos Han,

[00:19:53] que eram os domínios que, erroneamente, chamam-se de feudos,

[00:19:56] mas isso estava desequilibrado e dificultava a tomada de decisão rápida.

[00:20:01] Os estudiosos japoneses da época defendiam a visão de um poder central,

[00:20:05] mas era muito instável esse sistema Bakufu Han.

[00:20:08] Conflitos internos, protestos populares,

[00:20:12] e inclusive havia períodos de fome decorrentes de desastres naturais.

[00:20:17] Tudo bem que o desastre natural não tem como controlar,

[00:20:19] mas a resposta a ele era um pouco lenta.

[00:20:21] E isso intensificou mais todos esses protestos no final do século XVIII

[00:20:26] até essa metade do século XIX.

[00:20:28] Fora isso, o contato de intelectuais com o mundo estrangeiro,

[00:20:31] ele forma uma base intelectual que começa com o Urangakku,

[00:20:36] Urangakku seria os estudiosos ocidentais,

[00:20:39] só que aí começa a ter uma nova escola de pensamento,

[00:20:41] que é o Kokugakku.

[00:20:43] Para quem notou, o Gakku seria o equivalente à logia

[00:20:48] que a gente usa, o sufixo logia do porópio português.

[00:20:53] O Kokugakku era uma corrente de pensamento nativista.

[00:20:56] Ela vai ficando mais religiosa e mais política ao longo do século XIX.

[00:21:01] Uma pessoa que traduz muito isso, uma pessoa, na verdade, não.

[00:21:04] Uma escola dentro dessa corrente de pensamento que fortalece muito isso

[00:21:08] é a escola de mito. Não é mito no português, não é a palavra em português.

[00:21:12] Mito era o nome de um dos domínios.

[00:21:14] E que é fundada pelo estudioso, que é o Aizawa Seishisai,

[00:21:19] que ele reafirma,

[00:21:21] é a primeira escola que reafirma a ideia do imperador

[00:21:25] como uma governança divina e que a centralidade do poder deveria vir dele,

[00:21:30] portanto que o Japão deveria ser um reino divino.

[00:21:33] Não é à toa, inclusive, que a palavra, em japonês,

[00:21:35] para um imperador do Japão, é tenno.

[00:21:37] O ten é de paraíso, de divino.

[00:21:40] Sim, pelo kanji mesmo.

[00:21:42] E ele tem essa advertência com relação ao ocidente,

[00:21:46] que obviamente essa crítica aumenta mais com a pressão do Perry,

[00:21:50] e é incuncionada e alavancada por todas essas pressões internacionales

[00:21:53] e extratadas que estavam ali acontecendo.

[00:21:56] É um movimento muito singular e ele queria que esse reino divino do Japão,

[00:22:02] do imperador como um descendente de deuses tintoístas, viria.

[00:22:06] É nessa seara intelectual que é cunhado um slogan,

[00:22:10] que é o slogan pré-meiji, que é o sono-joi,

[00:22:14] que é um termo que é adaptado, inclusive, da literatura confuciana,

[00:22:17] que o Aizawa coloca no livro dele, que chama Shingron,

[00:22:20] que é a defesa para essa mudança de paradigma,

[00:22:24] que até então não tinha o nome meiji, evidentemente,

[00:22:27] mas ele ressignifica esse termo para um slogan político.

[00:22:31] O sono-joi pode… O sono é uma referência ao imperador,

[00:22:35] uma referência, não, reverência ao imperador,

[00:22:38] essa reverência ao trono,

[00:22:40] e o joi pode ser traduzido como uma expulsão desses bárbaros,

[00:22:45] expulsão de fora, que seria reverenciar o imperador,

[00:22:48] expulsar os estrangeiros,

[00:22:50] ou seja, basicamente um slogan de defesa da centralidade do poder

[00:22:54] e da proteção contra uma suposta ameaça estrangeira ali

[00:22:58] que ele estava colocando.

[00:23:00] E, bom, esse termo, inclusive, ele não é contra o Sakoku,

[00:23:05] que ainda é a situação que o Japão está deixando de perder,

[00:23:08] que era esse Japão fechado,

[00:23:10] mas ele é contrário ao sistema do Bakussu, que estava em crise.

[00:23:14] Justamente essa crise estimula a ideia

[00:23:16] do que o Japão precisava dominar a força do Ocidente

[00:23:19] para poder repelir a própria força.

[00:23:22] Como funcionaria isso?

[00:23:23] Usando os próprios ganhos que eles teriam em comércio

[00:23:27] para poder lutar contra essa ameaça que vem de fora.

[00:23:30] O parry é só um estopim disso tudo,

[00:23:34] para aumentar ainda mais esse nativismo,

[00:23:35] para aumentar ainda mais esse sentimento.

[00:23:37] E nessa seada toda, nesse caldeirão que está acontecendo,

[00:23:42] tem duas mortes que são uma coincidência muito conveniente,

[00:23:47] que é a morte do shogun, que era o Tokugawa Iemoti,

[00:23:52] que ele morre em 1866.

[00:23:55] Ele morreu jovem, ele morre aos 20 anos,

[00:23:58] por deficiência de vitamina B1,

[00:24:00] que era algo que era meio comum na época.

[00:24:02] Ele morre numa série de reveses.

[00:24:07] Você tem a ascensão desse último shogun,

[00:24:10] que é conhecido como o último shogun,

[00:24:11] que é o Tokugawa Yoshinobu.

[00:24:13] Só fazendo uma adendo que todos os nomes que eu falar aqui em japonês

[00:24:16] é o sobrenome e logo em seguida o nome.

[00:24:18] Todos aqui vão estar nesse sentido, inclusive dos imperadores,

[00:24:21] inclusive dos peoriadores, que eu vou citar.

[00:24:23] Esse shogun, ele é considerado uma figura relevante,

[00:24:28] por isso ele é nomeado.

[00:24:30] E o imperador, que na época era o imperador Koumei,

[00:24:33] ainda não é o imperador Meiji, mas é o imperador Koumei,

[00:24:36] ele decreta essa ascensão do shogun

[00:24:40] e morre cinco meses depois de Variula.

[00:24:41] E isso, claro, obviamente é uma coincidência,

[00:24:45] só que é uma morte muito conveniente,

[00:24:47] porque esse imperador Koumei, ele tinha mais consciência

[00:24:50] de que ele deveria trabalhar com o shogun e não contra ele,

[00:24:54] então ele não era contra o sistema bakufu,

[00:24:58] o que dificultava quem queria colocar o imperador como centro do poder.

[00:25:04] A morte, então, é conveniente nesse sentido.

[00:25:05] E nesse cenário da morte do shogun e logo em seguida do imperador,

[00:25:10] começa a ter o plano de um golpe de estado.

[00:25:13] Muitas pessoas colam com o peori como esse grande alterador

[00:25:16] da lógica do Japão em que tudo é decorrência dele,

[00:25:19] mas na verdade ele é o estupim,

[00:25:20] e a mudança vem mais nesse golpe dos fatores internos,

[00:25:24] é o movimento duplo, fatores internos e pressão de fora.

[00:25:27] E vai culminar nesse golpe que, quando acontece a morte dele,

[00:25:31] duas províncias, províncias não, a província vai receber esse nome depois,

[00:25:35] mas dois domínios, que são os dos satsuma, que fica bem mais ao sul do Japão,

[00:25:39] e o chōshū, que é outro domínio que fica ao sudoeste do Japão,

[00:25:42] eles ficam mais ou menos perto, mas não fazem fronteira,

[00:25:45] eles formam um plano, realmente um konluio,

[00:25:48] que é mediado pela figura do sakamotorioma,

[00:25:52] uma figura meio famosa,

[00:25:54] acho que quem sabe uma coisa ou outra ou viu alguma coisa do Japão

[00:25:57] conhece esse nome sakamotorioma,

[00:25:59] porque satsuma e chōshū tinham muito ressentimento entre eles,

[00:26:03] mas ao longo dessas dificuldades,

[00:26:06] eles conseguem fazer uma aliança que é crucial,

[00:26:10] isso no início 66, pouco antes da morte do imperador,

[00:26:13] o imperador morreu em janeiro de 67,

[00:26:16] e eles formam essa vanguarda do golpe em um triunvirato,

[00:26:20] seria um triunvirato dominado por Saigo Takamori,

[00:26:24] que é uma figura que vai aparecer depois,

[00:26:26] ou Kubo Toshimichi,

[00:26:28] esses dois são do domínio de satsuma,

[00:26:30] e o Kido Takayoshi, que é do domínio de chōshū,

[00:26:33] formam, formulam como vai acontecer esse golpe,

[00:26:36] e, claro, a figura do sakamotorioma para mediar a organização,

[00:26:40] e eles fazem unidades armadas,

[00:26:42] e são, evidentemente, domínios do que a gente chama de samurais,

[00:26:47] mas eles estão usando armas de fogo, nesse caso,

[00:26:50] não vai pensando que eles estariam usando espadas,

[00:26:54] claro, lanças, evidentemente,

[00:26:55] mas baionetas e armas de fogo, principalmente,

[00:26:59] e eles trabalham juntos para fortalecer,

[00:27:03] se fortalecer essa força e marcham para tomar o poder.

[00:27:07] Eles conseguem, inclusive, rapidamente,

[00:27:11] acontece uma pequena guerra que é chamada Guerra Civil do Japão,

[00:27:14] que é a Guerra Bōshin.

[00:27:16] Bōshin seria traduzido como a Guerra do Ano do Dragão,

[00:27:19] porque ela acontece em 68, que é o Ano do Dragão.

[00:27:22] Eles conseguem expulsar o Yoshinobu,

[00:27:24] o Yoshinobu, ele vai, ele se isola,

[00:27:27] na Batalha de Tobafushimi, que é 27 de janeiro de 1868.

[00:27:31] As unidades do Bakufu, elas estavam mal preparadas,

[00:27:34] um período muito grande de paz e mal lideradas também,

[00:27:37] uma pessoa com pouca experiência de guerra,

[00:27:39] e elas foram submetidas a um marcarga de fogo muito pesado,

[00:27:43] recuam para Osaka, as unidades são completamente derrotadas,

[00:27:47] o Yoshinobu, ele foge depois desse isolamento dentro do castelo,

[00:27:52] e ele vive em Edo, até o final da vida dele,

[00:27:55] fora do olhar público e ali sem poder.

[00:27:57] Ele é forçado a ceder as terras, é forçado a ceder seus poderes,

[00:28:01] e a corte, essa nova corte,

[00:28:04] que inclusive um líder da corte também ajuda, conspira,

[00:28:08] que é o Iwakura Tomomi, outro nome que vai voltar a aparecer,

[00:28:11] é Saigo Takamori e Iwakura Tomomi vão aparecer depois,

[00:28:15] e eles conseguem formar uma nova corte

[00:28:17] sobre o domínio de um imperador muito jovem,

[00:28:20] que é o Mutsuhito, o Mutsuhito é chamado desse jeito,

[00:28:24] depois que ele falece, que recebe o nome Meiji,

[00:28:28] isso é importante,

[00:28:29] e inclusive isso é a partir da restauração Meiji,

[00:28:32] que é o imperador receber um nome póstumo pelo termo que a gente conhece,

[00:28:36] por exemplo, dando um salto de tempo,

[00:28:38] mas o Hirohito é conhecido como imperador Showa,

[00:28:41] o nome dele depois é Showa, que é o nome da sua era,

[00:28:44] isso é junto com a restauração Meiji.

[00:28:47] Então esse Mutsuhito, que é muito jovem,

[00:28:49] ele era adolescente, 14, 16 anos, se não me engano, salve engano,

[00:28:52] ele sucede a comer e ele autoriza esse golpe basicamente,

[00:28:57] embora ele seja muito jovem para ter uma responsabilidade muito grande,

[00:29:02] só que aí é findada esse golpe, essa guerra civil inclusive,

[00:29:08] e aí que inicia-se a era Meiji em 1868

[00:29:12] e conjuntamente com isso se inicia já iniciada a restauração Meiji,

[00:29:18] que começa com a abertura dos portos,

[00:29:19] e aí a gente vai vendo como funciona isso depois.

[00:29:22] Antes dos Jogos Olímpicos de 2020 disputados em Tóquio,

[00:29:25] o governo da Coreia do Sul solicitou aos organizadores

[00:29:28] que a chamada Bandeira do Sol Nascente japonesa

[00:29:31] não fosse exibida no contexto dos jogos,

[00:29:33] baseado no argumento de que essa bandeira está relacionada

[00:29:36] com o imperialismo japonês e as atrocidades cometidas pelo Japão

[00:29:40] na Península da Coreia e na China.

[00:29:52] Uma coisa sobre o Japão desse período que sempre me chama a atenção

[00:29:56] e chama a atenção dos historiadores em geral

[00:29:58] é a rápida industrialização do país depois dessa abertura,

[00:30:01] só que o impacto não foi só econômico, claro,

[00:30:03] então eu queria te perguntar sobre o desenvolvimento econômico,

[00:30:06] mas também sobre impactos culturais e políticos

[00:30:10] da influência ocidental no Japão,

[00:30:12] que vai desde a política institucional

[00:30:13] até a proibição de práticas culturais anteriores,

[00:30:16] então o que é que você poderia falar para a gente

[00:30:18] sobre essas transformações?

[00:30:19] Certamente o ponto central da RMAG,

[00:30:22] porque você tem ela caracterizada por, principalmente, fatores econômicos.

[00:30:27] Eu falei que antes o slogan pré-MAG era o SONO JOY,

[00:30:31] só que o SONO JOY dá lugar a um novo slogan,

[00:30:34] que seria o FUKOKO KYOHEI.

[00:30:36] O FUKOKO KYOHEI é esse novo slogan que significa,

[00:30:39] se eu fosse traduzir muito, quase literalmente,

[00:30:41] seria país rico e o exército forte.

[00:30:44] E o principal objetivo, o objetivo central era a industrialização

[00:30:49] e, principalmente, o fortalecimento do exército,

[00:30:53] dessa força nacional, principalmente porque agora você tem um novo líder

[00:30:56] e o monopólio da força desse líder é muito importante.

[00:31:00] Obviamente você vai ter, claro, as mudanças institucionais, evidentemente,

[00:31:05] você tem agora um novo sistema político,

[00:31:08] praticamente agora centralizado pela figura do imperador,

[00:31:11] mas o que muita gente se surpreende

[00:31:14] é a velocidade dessa mudança industrial,

[00:31:17] dessa mudança econômica,

[00:31:19] dessa desenvolvimento, podemos chamar assim,

[00:31:22] mas que ela não surge do nada.

[00:31:25] Muitas pessoas, eu, uma pessoa que estuda mais,

[00:31:28] talvez não tenha essa impressão,

[00:31:29] mas a impressão geral que fica é que o Japão, antigamente,

[00:31:32] ele era só rural, majoritariamente rural,

[00:31:35] vou aqui colocar entre muitas aspas,

[00:31:37] FEDUAL, que é um termo que muita gente usa,

[00:31:39] e, do nada, ele tem um polo tecnológico

[00:31:43] de um dos maiores do mundo, se não é bem verdade,

[00:31:45] o Japão, ele tinha uma indústria primária antes,

[00:31:49] só que agora eles começam a investir pesadamente em indústria,

[00:31:53] indústria que eles tinham, basicamente, manufatura,

[00:31:55] esse tipo de indústria,

[00:31:57] mas um dos planos, é o primeiro plano,

[00:31:59] para a industrialização e desenvolvimento econômico,

[00:32:01] são as zaibatsu.

[00:32:02] As zaibatsu, elas são muito famosas,

[00:32:06] temos hoje em dia, inclusive, atuam,

[00:32:08] mas elas são esses conglomerados industriais e financeiros

[00:32:12] que emergem do Japão a partir de um plano

[00:32:15] de venda de antigas estatais do período Tokugawa,

[00:32:19] e para famílias que dominavam essa indústria

[00:32:22] que descendo de famílias mercantes.

[00:32:24] Você tem quatro principais zaibatsu,

[00:32:26] que é a Mitsui, a Sumitomo, a Yasuda e a Mitsubishi,

[00:32:30] que eu acredito que é a mais famosa.

[00:32:32] O nome, inclusive, são nomes de famílias,

[00:32:34] inclusive, a logo dessas empresas são brasões de famílias

[00:32:39] que descendem, como eu falei, das famílias mercantes,

[00:32:42] mas só que elas formam oligopólios industriais de mercado.

[00:32:47] Inclusive, elas não são recebidas tão amigavelmente,

[00:32:52] porque muitas pessoas acreditam esse momento inicial

[00:32:55] como sendo um colúio,

[00:32:56] que a formação da zaibatsu inviabilizaria

[00:33:00] o crescimento da democracia no Japão,

[00:33:02] visto que é um fortalecimento muito grande de oligopólio,

[00:33:05] pouca liberdade econômica para formar novas empresas,

[00:33:09] foi recebido com certa crítica,

[00:33:11] mas só uma política citada para o desenvolvimento industrial,

[00:33:13] e seria possível apenas com a centralização desse estado

[00:33:17] para essas medidas.

[00:33:18] As indústrias, elas focavam principalmente em

[00:33:21] como instaleiros metalúrgicas e fábrica de munição,

[00:33:24] e elas assumem essa posição de domínio no mercado.

[00:33:27] Anos mais tarde, inclusive, você vai ver que a Mitsubishi fabricava desde

[00:33:30] aparelhos de comunicação em geral,

[00:33:33] eu, por exemplo, tive uma TV da Mitsubishi,

[00:33:35] mas ela fabricava de aparelho de comunicação rádio,

[00:33:38] esse tipo de coisa, até navio de guerra.

[00:33:40] O caça de guerra mais famoso do Japão, que é o Zero,

[00:33:44] é a pessoa que faz estudos estratégicos, estudos de segurança,

[00:33:48] conhece esse caça, que é o Caça Zero,

[00:33:50] o nome completo dele é Mitsubishi Zero.

[00:33:52] Então, elas fabricam de tudo,

[00:33:54] justamente por essa estratégia econômica

[00:33:58] que é empregada durante esse governo.

[00:34:00] E o que é muito importante também, igual falei antes,

[00:34:03] que é usar a tecnologia e o aprendizado do Ocidente

[00:34:08] contra o Ocidente, inicialmente.

[00:34:10] E aí que eu falei do Iwakura Tomomi,

[00:34:13] que era esse nobre da corte que ajudou a conspirar contra o golpe,

[00:34:16] ele faz uma missão para o Ocidente, que é uma missão estratégica,

[00:34:20] que é a missão Iwakura, ela dura de 71 até 73,

[00:34:24] e ele viaja para aprender segredos, entre aspas,

[00:34:28] da riqueza e do poder do Ocidente.

[00:34:31] E aí ele consegue aprender como inovar institucionalmente,

[00:34:36] restaurar a soberania, fortalecer a integridade nacional,

[00:34:40] e como burlar os tratados, que eles consideravam tratados desiguais,

[00:34:44] que são os tratados que eu mencionei anteriormente,

[00:34:46] que inclusive limitavam o poder do Japão de proteger indústrias nascentes

[00:34:52] por conta das tarifas que eram pesadas da Europa.

[00:34:55] Ele faz essa missão para ter essa base teórica.

[00:34:59] E uma coisa que o Japão faz, que é combinar a indústria tradicional,

[00:35:04] então você tem o setor tradicional, principalmente seda,

[00:35:08] pesca, agricultura, a venda desses produtos para fora

[00:35:13] para fortalecer a indústria moderna,

[00:35:15] que seria armamento, ferrovia, comunicação,

[00:35:18] então ele faz essa dinâmica de crescimento duplo.

[00:35:21] Ele fortalece a produtividade doméstica de exportação

[00:35:25] da indústria tradicional

[00:35:26] para poder fortalecer a indústria moderna que crescia,

[00:35:28] principalmente com as raibatas.

[00:35:29] E, bom, isso basicamente foi a lógica do crescimento industrial e econômico

[00:35:34] do Japão durante muito tempo.

[00:35:35] E a mudança institucional, ela também acontece junto.

[00:35:38] Inclusive, eu falei da mudança do nome da capital,

[00:35:40] ela acontece, isso é um sinal disso,

[00:35:43] porque ele sai do sistema bakufu-han para um sistema centralizado.

[00:35:46] O que muda também, e aí começa a ter mais uma cara do Japão,

[00:35:50] como conhecemos, é a mudança do nome dos domínios.

[00:35:54] E agora eles não são mais domínios,

[00:35:55] eles não são mais esses han, que funcionam no esquema de vassalagem,

[00:35:59] mas eles são estados federativos,

[00:36:02] na dinâmica até muito parecida, fazendo uma analogia um pouco forçada,

[00:36:05] mas com o Brasil, com a dinâmica dessa divisão de estados, governadores,

[00:36:09] mas numa monarquia com poder centralizado do imperador.

[00:36:12] Nessa seara que as antigas fronteiras dos domínios,

[00:36:17] elas viram as províncias que nós conhecemos hoje em dia,

[00:36:20] que são as chamadas Todohokken, que são as 47 províncias do Japão.

[00:36:24] Elas ganham o nome que elas têm hoje em dia,

[00:36:27] inclusive o nome é a mudança de Edo para Tokyo,

[00:36:31] e aí vira Tokyo, que é o descrito federal do Japão,

[00:36:35] onde está a centralização do poder.

[00:36:37] Inclusive o significado de Tóquio é bem característico,

[00:36:40] que é literalmente capital do leste, é um nome simbólico assim,

[00:36:44] e claro, o nome das outras províncias,

[00:36:46] por exemplo, Satsuma e Chōshi, acabam mudando,

[00:36:49] alguns continuam igual, ou pelo menos parecidos,

[00:36:54] o Nagasaki acaba continuando igual nesse sentido,

[00:36:57] só que a institucionalização do Estado,

[00:37:00] ela encerra o sistema igual falei, colocando o imperador como eixo,

[00:37:06] e aí você tem figuras, por exemplo, a figura do primeiro-ministro.

[00:37:10] Isso até hoje em dia tem,

[00:37:12] mas o início desse sistema do primeiro-ministro

[00:37:17] é muito inspirado em modelos autoritários da Europa,

[00:37:20] principalmente a Alemanha de Bismarck.

[00:37:23] O primeiro-primeiro-ministro é o Itō Hirobumi,

[00:37:27] que inclusive ele era um samurai do domínio chōshu,

[00:37:30] isso não é coincidência,

[00:37:32] ele acende o poder num domínio muito parecido com a Alemanha de Bismarck,

[00:37:36] modelos autoritários argumentando

[00:37:38] que o Japão precisava de uma religião

[00:37:41] e de uma base cívica forte que ele não possuía.

[00:37:44] Colocando a Casa Imperial nesse centro,

[00:37:47] eles começam a tecer como seria esse Estado.

[00:37:51] Uma das políticas, inclusive, é colocar uma religião política,

[00:37:55] que eu vou detalhar isso mais fundo,

[00:37:57] e criar a identidade desse novo Japão.

[00:38:01] Nessa seara que é construída a Constituição de 89,

[00:38:06] Constituição de lá vem um pouco mais tarde,

[00:38:09] ela vem bem depois,

[00:38:10] e tem um historiador, inclusive, o Yanaga, Yanaga Saburo,

[00:38:14] vou falar um pouco mais dele, mas que detalha mais o período da guerra,

[00:38:17] mas ele fala que a Constituição da Era Meiji,

[00:38:19] que durou até a Era Showa, era uma cornucópia autoritária.

[00:38:23] Essa Constituição, inclusive, a figura da cornucópia

[00:38:26] saindo sempre alimentos e mantimentos dela,

[00:38:30] mas é como se a Constituição,

[00:38:31] cada vez que ela sofrer um emendo ou uma alteração,

[00:38:34] ela ficava mais autoritária.

[00:38:36] Ela não garantia direitos humanos básicos,

[00:38:39] liberdade de expressão, aquela coisa toda,

[00:38:41] e ela também dava brecha para que direitos e liberdades

[00:38:46] fossem abolidos com leis subsequentes.

[00:38:49] Essa figura, de novo, da cornucópia como saindo sempre,

[00:38:53] só que autoritarismo.

[00:38:54] Existe uma certa idealização do passado,

[00:38:57] mas aí eu falo um pouquinho mais quando tiver essa questão cultural,

[00:39:01] isso vai acendendo mais ao longo do tempo,

[00:39:03] principalmente quando se iniciam os conflitos,

[00:39:07] dando esse spoiler aí do futuro histórico.

[00:39:10] A identidade política singular que o Japão precisava

[00:39:14] é de ver o Japão como esse grande corpo estatal

[00:39:18] na figura dessa pureza imperial.

[00:39:19] Um dos termos que usam muito é o bunmei kaika,

[00:39:23] que é a civilização e essa iluminação.

[00:39:25] E se iluminar com os saberes do ocidente,

[00:39:28] ao mesmo tempo civilizar da maneira japonesa

[00:39:31] contra essa proteção externa.

[00:39:33] E esse é o marco da iluminação institucional do Japão.

[00:39:39] E os fatores culturais são, certamente, muito importantes nesse sentido.

[00:39:43] Eu falei que antigamente a religião, o hirobumi,

[00:39:47] ele vai falar dessa religião política como na Europa tinha,

[00:39:52] mas ele defende que isso acontece no Japão também.

[00:39:54] E nesse sentido, eu acho que o que mais afeta a vida das pessoas,

[00:39:58] nesse sentido, e ficou muito icônico,

[00:40:01] foi o shinbutsu bunri.

[00:40:03] O shinbutsu bunri é a separação do shintoísmo e do budismo.

[00:40:08] O pessoal que acha, às vezes, confunde as duas religiões,

[00:40:11] são coisas diferentes, evidentemente,

[00:40:15] mas imagina que no Japão hoje você tem um sincretismo religioso muito forte.

[00:40:19] E tem mesmo, principalmente entre o budismo e o shintoísmo.

[00:40:22] Naquela época, eles eram quase amalgamados.

[00:40:25] Até durante o bakufu, eles eram mais amalgamados.

[00:40:28] Os templos budistas, geralmente, eram amalgamados a santuários shintoístas.

[00:40:34] Se você ver a arquitetura de certos templos, inclusive em Tóquio,

[00:40:38] templos budistas, quando eu falo templo, me refiro a budistas,

[00:40:41] quando eu falo santuário, me refiro a shintoístas.

[00:40:42] Eles são muito próximos um do outro.

[00:40:45] Esse movimento, ele decidiu separar,

[00:40:47] e realmente, por político do Estado,

[00:40:50] definiu como as duas religiões diferentes.

[00:40:52] É um mandato ideológico, também administrativo,

[00:40:54] que é implementado nesse novo governo,

[00:40:57] logo após o estabelecimento dele que deve se separar.

[00:41:02] E há proibição de práticas budistas nesse sentido.

[00:41:05] O budismo sofre uma perseguição,

[00:41:07] porque ele é visto como um perigo estrangeiro,

[00:41:11] obviamente não europeu,

[00:41:13] mas ele é visto como esse perigo estrangeiro que deve ser separado,

[00:41:16] e isso leva a rebeliões populares,

[00:41:19] porque, principalmente, são fés,

[00:41:22] fés das pessoas que são ameaçadas.

[00:41:24] E a resistência popular não serve de muita coisa,

[00:41:27] mas você tem medidas para proibir práticas tradicionais de ano novo.

[00:41:32] Tanto o shintoismo quanto o budismo,

[00:41:34] eles possuem práticas muito particulares do ano novo.

[00:41:38] Mas outro que é muito simbólico,

[00:41:41] e ele é proibido durante essa época, é o Obon.

[00:41:44] O pessoal que está mais ligado à cultura japonesa

[00:41:45] vai conhecer o Obon, que é o festival dos antepassados,

[00:41:48] ou o festival dos finados,

[00:41:50] que ele é de essência budista, mas ele é proibido.

[00:41:54] E é, muitas vezes, um festival que a população se conecta com a própria família.

[00:41:59] Hoje em dia existe o Obon, obviamente,

[00:42:02] isso é uma prática religiosa.

[00:42:04] E, inclusive, é o período,

[00:42:07] eu estou dando sessaltos, mas só como curiosidade,

[00:42:10] é o período que o povo sai do interior

[00:42:12] para visitar a família, na cidade grande,

[00:42:15] ou, ao contrário, vai para o interior visitar a família,

[00:42:18] nessa época também era um senso de pertencimento muito forte

[00:42:22] dentro da religião, mas é proibido completamente.

[00:42:24] Tem um incentivo à afabetização,

[00:42:27] que já era relativamente alta,

[00:42:30] mas ela é impulsionada pela necessidade de administração,

[00:42:34] a necessidade de comércio,

[00:42:36] que é essencial para essa nova sociedade que eles estão querendo criar.

[00:42:41] E aí, nessa séria toda que eu falei dessa ideologização do passado,

[00:42:46] é que é criado e fortalecido, no século XX,

[00:42:50] a idealização do passado do Japão.

[00:42:53] Se a pessoa que está ouvindo pensar um pouquinho

[00:42:55] dessa idealização do passado do fascismo,

[00:42:58] não é muito distante,

[00:42:59] não é muito distante, e depois vai se aproximar bastante,

[00:43:03] mas nessa época isso era muito embrionário,

[00:43:05] e isso nasce o Japão,

[00:43:07] esse retorno aos padrões de antigamente,

[00:43:10] mas esses padrões de antigamente também são idealizados,

[00:43:13] essa restauração da antiguidade é idealizada.

[00:43:16] O nome desse movimento, inclusive, é Foucault,

[00:43:18] mas não tem nada a ver com o filósofo.

[00:43:20] Ela é uma invocação ideológica desse passado puro,

[00:43:26] e que essa restauração estaria centrada nesse novo governo.

[00:43:31] Inclusive, esse Foucault que foi quem motivou a restauração

[00:43:34] do próprio poder imperial,

[00:43:35] mas é uma justificativa ideológica

[00:43:38] para toda essa seada que está acontecendo,

[00:43:41] a divisão da religião, ou a perseguição a estrangeiros,

[00:43:46] essa securitização que está acontecendo do Japão dessa época,

[00:43:49] é a cola ideológica que une.

[00:43:52] Falando da Constituição anteriormente,

[00:43:53] só citando por cima o que foi acontecendo ao longo do tempo,

[00:43:56] você tem regulamentação de publicação,

[00:43:58] você tem a lei dos jornais,

[00:44:00] e principalmente a proibição de críticas,

[00:44:05] de críticas ao imperador, de leis governamentais,

[00:44:09] críticos de ações governamentais,

[00:44:11] e aí está na lei indiscriminadamente,

[00:44:14] mas a pergunta que fica é quem define.

[00:44:16] São leis rigorosas

[00:44:18] e que vão realmente minar os direitos da população

[00:44:22] de forma embrionária e vai piorando ao longo do tempo.

[00:44:24] E aí você tem nisso tudo a abolição da classe dos guerreiros,

[00:44:32] que seria a classe dos samurai, a classe bushi, que geralmente se fala.

[00:44:35] O que é interessante é que o código civil da lei

[00:44:38] coloca o sistema familiar, eu vou colocar aqui entre aspas samurai,

[00:44:42] como um modelo para os japoneses,

[00:44:44] que seria a centralização num forte poder paternal,

[00:44:49] eu falo parental, mas é paternal,

[00:44:52] algo realmente de colocar no código civil

[00:44:55] a centralidade da família no homem, no pai,

[00:44:58] visando reforçar a suposta lealdade familiar,

[00:45:01] que é base para a lealdade imperial que teria,

[00:45:04] e isso, claro, essa idealização do passado que eu falei,

[00:45:07] do que seria um samurai.

[00:45:09] É uma reafirmação dessa evocação, dessa imagem do samurai,

[00:45:12] mas que é aqui, imagem, a imagem criada,

[00:45:16] e isso também se traduz com o estatuto do exército.

[00:45:19] Um termo que invoca muito problema é o tal do bushido,

[00:45:23] bushido, o caminho do guerreiro, muitas vezes traduzido.

[00:45:25] Só que o bushido existir ou não é inclusive uma questão de sorreador,

[00:45:30] spoiler, não exatamente do jeito que as pessoas pensam,

[00:45:32] que teria um código de ética do samurai,

[00:45:35] que teria um código de ética do bushi, nesse sentido.

[00:45:39] Isso muda ao longo do tempo,

[00:45:40] o próprio Tokugawa não é uniforme nesse sentido,

[00:45:43] e isso varia, inclusive, de domínio para domínio.

[00:45:45] O bushido é uma criação dessa época,

[00:45:48] fortalece no século XX, com o fortalecimento do exército,

[00:45:51] mas já começa essa época.

[00:45:53] Koko Kyohei, país rico, exército forte.

[00:45:56] Mas a ideia dessa idealização do samurai,

[00:45:58] ela também é implementada no exército e nas famílias.

[00:46:01] Enquanto isso, a classe samurai também sofre de uma abolição total

[00:46:05] e ela vai ficar bem dividida, mas enfim.

[00:46:11] Tem gente que deixa para comprar presente de Natal tarde demais.

[00:46:14] Aí quer comprar na internet para pagar mais barato,

[00:46:16] mas a compra chega tarde demais para as festas de fim de ano.

[00:46:19] Aí você corre para o shopping, em cima da hora,

[00:46:21] está tudo lotado, caro, cheio de fila.

[00:46:23] Então, por que não comprar agora, no começo do mês?

[00:46:26] E a minha dica, claro, são as roupas insider,

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[00:47:06] Aqui eu quis reservar uma pergunta específica

[00:47:08] para o declínio da classe dos samurais,

[00:47:10] porque essa figura do samurai é meio onipresente na indústria cultural.

[00:47:14] A gente tem o filme Último Samurai com Tom Cruise,

[00:47:16] que ajudou a solidificar algumas ideias

[00:47:18] sobre como teria sido esse declínio nessa classe,

[00:47:21] que não são tão condizentes assim,

[00:47:22] porque a historiografia sabe sobre isso e tal.

[00:47:24] Então, você poderia contar para a gente as causas desse declínio,

[00:47:27] como ele aconteceu e como esse grupo se reinventou

[00:47:29] dentro de uma sociedade japonesa que mudava tanto?

[00:47:32] Posso, claro. Inclusive, é interessante

[00:47:33] se citar o filme do Último Samurai,

[00:47:35] porque tem alguns erros históricos nesse filme, alguns vários,

[00:47:39] mas o que eu acho muito interessante

[00:47:42] é logo no início do filme que passou de cabeça

[00:47:44] que eles chamam o imperador de Imperador Meiji,

[00:47:48] mas ele não recebe esse nome naquele momento,

[00:47:50] ele recebe esse nome postumamente.

[00:47:53] Inclusive, o Meiji Meiji é de iluminação

[00:47:56] que tem a ver com o que foi aquele período.

[00:47:58] Ali ele teria sido chamado de Mutsuhito,

[00:48:01] fazendo uma comparação muito exústica,

[00:48:02] ele começou a chegar e disse que esse aqui é o Papa é mérito, é mérito?

[00:48:05] Bota ele de novo na cova, porque ele não era pataqui,

[00:48:07] então seria um nome postumamente que ele recebe.

[00:48:10] Mas essa reinvenção do samurai, o declínio da classe,

[00:48:15] vamos falar do declínio da classe,

[00:48:16] ela é simultaneamente uma reinvenção

[00:48:18] e simultaneamente um declínio também,

[00:48:20] porque não foi toda a classe samurai que conseguiu se reinventar

[00:48:24] e não foi toda ela que prosperou nesse sentido.

[00:48:27] A abolição, eu já falei, ela foi justamente ali na Constituição

[00:48:31] e todo o enfraquecimento que a Paz Tokugawa trouxe para essa classe,

[00:48:35] que estava ali as traças, colocada as traças,

[00:48:38] isso gera uma crise de identidade muito forte

[00:48:40] que vai culminar nesse novo sistema político

[00:48:45] que os antigos samurais se tornam,

[00:48:49] e nesse caso realmente, uma classe fantasma,

[00:48:52] que são os shizoku, que são os antigos samurais.

[00:48:55] A estrutura acabou, mas como fica com toda essa classe que fica?

[00:48:59] Alguns conseguiram se reinventar,

[00:49:02] eu falei do Hirobumi, que era um antigo samurai pequeno,

[00:49:05] do domínio de Chōsu,

[00:49:07] principalmente porque eles tinham um letramento muito forte,

[00:49:11] até uma certa noção,

[00:49:12] então muitos conseguiram se reinventar,

[00:49:14] mas com o fim desse estrutura de privilégios,

[00:49:17] você tem também uma coisa que tem fim, que são estipêndios,

[00:49:21] estipêndios vitalícios acabam,

[00:49:23] então realmente o samurai vai ter que trabalhar,

[00:49:26] ele vai ter que ter uma mudança muito rápida,

[00:49:29] o governo inclusive tenta incentivar,

[00:49:31] fazendo que essa pensão, esse estipêndio,

[00:49:33] seja trocado por título de dívida do governo,

[00:49:36] só que isso dá uma economia muito pequena, que é perdido,

[00:49:40] talvez purê na aptidão,

[00:49:42] uma falta de costume nesse sentido,

[00:49:45] e para esses samurais que não conseguiram se reinventar,

[00:49:47] realmente foi uma época de declínio,

[00:49:49] que foi uma época de resistência, teve rebeliões,

[00:49:52] uma delas ficou muito famosa,

[00:49:53] que é mais ou menos a que é retratada no filme do último samurai,

[00:49:57] inclusive o nome dessas rebeliões são os Shizoku Hanran,

[00:50:00] os Shizoku são antigos samurais.

[00:50:02] A mais famosa é em 77, que é a rebelião de Satsuma,

[00:50:06] Satsuma, a província lá, que ajudou a fundar o governo,

[00:50:08] que é de uma figura que eu já citei aqui anteriormente,

[00:50:10] que eu falei que ela ia ser importante,

[00:50:12] porque ele é uma figura, que é o Saigo Takamori.

[00:50:14] O Saigo Takamori, ele foi um dos caras do Triunvirato,

[00:50:17] que ajudou a colocar o governo Meiji,

[00:50:19] só que ele ficou insatisfeito com as novas condições.

[00:50:23] Para quem viu o filme do samurai,

[00:50:24] a figura que é inspirada nele é o personagem do Atanabe Ken,

[00:50:29] que é o cara que inclusive está ali com o cabelo raspado,

[00:50:32] eu não lembro o nome dele no filme, acho que é Katsumoto,

[00:50:35] o negócio assim, salvingando Katsumoto,

[00:50:37] é mais ou menos essa figura do Saigo Takamori.

[00:50:40] Ele é meio paradoxal, porque ele ajuda a acabar com o Tokugawa,

[00:50:43] mas no momento que ele está insatisfeito,

[00:50:45] ele ajuda a rebelião contra esse governo.

[00:50:48] A maior revolta que esse governo teve,

[00:50:50] mas que não chega a ser uma guerra civil igual foi a guerra de Bochim,

[00:50:54] a guerra civil.

[00:50:55] O que é irônico, muitos falharam a se reinventar,

[00:51:01] mas os que conseguiram, eles conseguiram um posto de poder muito forte.

[00:51:05] A liderança do estado Meiji, além do imperador,

[00:51:09] era uma coesão de ex-samurais de Shizuoka mesmo,

[00:51:13] principalmente Satsuma e Chocho.

[00:51:15] O Hirobumi, que é o primeiro ministro,

[00:51:18] são pessoas que tinham experiência burocrática,

[00:51:21] eles conseguem canalizar essa experiência burocrática e militar,

[00:51:25] essa experiência militar num período de paz,

[00:51:27] mas uma experiência estratégica para poder reinventar.

[00:51:30] Inclusive os samurais, falei inclusive duas vezes,

[00:51:34] mas os samurais ajudam a dominar a burocracia e as forças armadas.

[00:51:39] Chocho, principalmente, o domínio de Chocho lidera muito mais o exército,

[00:51:43] e Satsuma foca muito na Marinho.

[00:51:45] Então você tem essa reinventação dentro do próprio meio militar

[00:51:49] fazendo uma coisa parecida, que é liderar uma classe guerreira.

[00:51:54] Só que isso são os comandantes do exército.

[00:51:59] O exército do Japão é feito por recrutamento nesse sentido,

[00:52:03] mas, igual falei, a idealização desse passado é transmitida,

[00:52:09] esse passado samurai é transmitida ao exército,

[00:52:12] é transmitida às forças armadas.

[00:52:14] A Marinha também, aeronáutica, depois que vai virar também.

[00:52:17] Então esses valores idealizados são prescritos

[00:52:19] para os recrutos comuns do exército de que seria uma nação de samurais,

[00:52:24] desse bushido que é inventado,

[00:52:27] que é um objetivo do Estado medir nesse sentido.

[00:52:31] Então o fim dos samurais é abrupto, muitos não se adaptam,

[00:52:34] mas muitos conseguem se reinventar.

[00:52:36] É interessante como isso é transmitido no filme,

[00:52:38] mas o filme não teve um tom cruíce para salvar os samurais nesse sentido.

[00:52:43] Entre o fim do século XIX e o começo do XX,

[00:52:45] o Japão se envolveu em episódios de conflito militar,

[00:52:48] como a Primeira Guerra Sino-Japonesa,

[00:52:50] o envio de tropas para a rebelião dos boxers,

[00:52:52] que inclusive já tem episódio aqui no História FM,

[00:52:54] para quem quiser ouvir,

[00:52:55] a annexação da Coreia, a Guerra Russo-Japonesa.

[00:52:58] É bastante coisa, talvez o ideal não fosse uma pergunta para cada,

[00:53:02] mas como tem muito assunto para cobrir,

[00:53:04] então eu resolvi passar por esse tópico numa pergunta só.

[00:53:07] Então se você puder falar um pouco sobre o que foram esses conflitos,

[00:53:11] como elas construíram esse sentimento de superioridade racial e militar

[00:53:17] entre uma parcela significativa dos japoneses,

[00:53:20] em especial nas Forças Armadas,

[00:53:21] como elas contribuíram para essa formação de ideia, enfim.

[00:53:25] Bom, eu vou fazer um apanhado em geral,

[00:53:29] mas partindo da lógica militar para essas guerras

[00:53:31] e como essas guerras auxiliam isso do que falar detalhes das batalhas em si,

[00:53:36] inclusive porque o Japão vai se envolver em conflito militar

[00:53:38] atrás do outro nesse sentido.

[00:53:40] Só que esse fim do século XIX e início do século XX,

[00:53:43] o Japão usa o conflito militar como passagem de entrada,

[00:53:48] colocando integrados para esse clube imperialista

[00:53:50] que estava crescendo no mundo, um clube imperialista mundial.

[00:53:53] Qual o lugar do Japão nesse sentido?

[00:53:54] Ele vai usar o conflito militar para poder entrar,

[00:53:57] para ser o ticket dele nesse sentido.

[00:53:58] Ele não é consequência só da modernização,

[00:54:02] é a consequência da modernização

[00:54:04] deliberadamente para ascender a esse status de império.

[00:54:08] E aí, um império realmente imperialista.

[00:54:10] Por que ele faz isso?

[00:54:11] Principalmente, que a gente pode colocar

[00:54:13] para garantir a sobrevivência dele no mundo que é dominado por potências,

[00:54:16] grandes potências, principalmente os ocidentais.

[00:54:19] Avançavam agressivamente na Ásia,

[00:54:21] já falo aqui da Guerra do Ópio nesse sentido,

[00:54:25] mas essas potências têm contato direto com a Ásia,

[00:54:27] não é a separação territorial que vai dificultar isso,

[00:54:32] eles já estavam entrando.

[00:54:33] O Japão fala assim,

[00:54:34] preciso garantir o meu espaço aqui,

[00:54:36] eles ainda não chegaram completamente,

[00:54:39] talvez eu possa garantir um pouco de espaço aqui.

[00:54:41] E, inclusive, é partir desse momento

[00:54:45] que você tem a mudança de mentalidade racial,

[00:54:48] étnico-racial do Japão com relação aos vizinhos.

[00:54:52] Eu falei antes, a China era vista como uma grande nação,

[00:54:57] a China era vista como um centro,

[00:54:58] um centro cultural e um centro econômico.

[00:55:03] Historicamente foi nesse sentido uma história de cooperação,

[00:55:06] mas nesse momento que o Japão já estava centralizando,

[00:55:09] já estava com outra mentalidade, uma lógica de estado nativista

[00:55:12] e que via estados ocidentais com bárbaros,

[00:55:14] ele tenta garantir seu espaço

[00:55:16] e a Primeira Guerra Seno-Japonesa, o primeiro passo.

[00:55:20] Ele teve um plano de fundo

[00:55:22] que era a disputa da influência na península coreana,

[00:55:26] é o ponto principal de que o Japão queria influenciar a península coreana,

[00:55:31] e a vitória foi muito rápida, a guerra é menos de um ano,

[00:55:34] cerca de um ano,

[00:55:35] e a consequência disso é muito transformador,

[00:55:38] porque o Japão consegue anexar a Taiwan ou a Ilha de Formosa,

[00:55:42] ele consegue também anexar a Ilhas Penghu,

[00:55:44] se não me engano, é assim que se pronuncia mesmo,

[00:55:47] não lembro dos tons,

[00:55:49] que é a primeira colônia formal do Japão,

[00:55:51] o pessoal tem muita mentalidade que o Japão colonizou a Coreia,

[00:55:54] isso ainda vai acontecer, calma, século XIX ainda,

[00:55:56] só que essa primeira vitória,

[00:55:58] a China que é venerada como esse berço da cultura,

[00:56:01] começa a mudar de mentalidade para o Japão como uma nação fraca,

[00:56:05] e a celebração da vitória, ela reacende uma chama

[00:56:08] que estava ali sendo alimentada por essas ideologias nativistas,

[00:56:12] só que agora ela ganha concretude numa vitória,

[00:56:15] e isso é interpretado pelo Exército como o Tóquio,

[00:56:19] ou o Império,

[00:56:21] tem o direito de controlar e dominar outros territórios chineses,

[00:56:25] que inclusive é a motivação de tropas,

[00:56:29] é claro que uma historicidade ali entraria mais em detalhes,

[00:56:32] daria para aprofundar, dá muito pano para manga,

[00:56:34] acho que cada pergunta aqui dá muito pano para manga,

[00:56:36] mas o Japão envia tropas como essa força multinacional

[00:56:40] para reprimir o levante dos boxes ali no norte da China,

[00:56:43] só que o Japão está enviando tropas para quê?

[00:56:46] Para inserir o Japão no mesmo nível das potências ocidentais

[00:56:49] nesse imperialismo que é direcionado à China,

[00:56:51] e isso também ajuda a contribuir para esse sentimento de superioridade,

[00:56:55] muitos intelectuais, inclusive japoneses,

[00:56:58] intelectual classe, intelectual geralmente ao longo de todo esse período,

[00:57:02] das guerras, da época Meiji, da Era Taisho e da Era Sho,

[00:57:05] depois eles vão ter geralmente uma percepção muito contrária

[00:57:08] com o que o Japão fazia, não se engane,

[00:57:10] não era uma opinião pública monolítica,

[00:57:13] mas elas começam a ter uma visão mais crítica

[00:57:16] de que o Japão participar de saque, de pilhagem,

[00:57:20] mostra que esse imperialismo é destrutivo,

[00:57:23] e principalmente que não era exclusividade da Europa,

[00:57:26] exclusividade que eu vou colocar, exclusividade ocidental,

[00:57:31] mas só que para muitos isso também significou o quê?

[00:57:33] O Japão agora é uma agente de poder no cenário internacional.

[00:57:38] Lá atrás eu falei também da Rússia,

[00:57:40] porque as fronteiras com a Rússia, e o Japão faz fronteira com a Rússia,

[00:57:43] mas são fronteiras marítimas, sim, de toda forma,

[00:57:46] fronteiras ali nas ilhas do norte,

[00:57:48] derrotar uma potência europeia colocaria o Japão em um ponto de destaque,

[00:57:55] tomando os russos como uma potência mais ligada à Europa

[00:57:58] do que ligado à Ásia como um todo.

[00:58:01] A Rússia é também um sujeito muito suigêneris

[00:58:04] nesse cenário internacional no quesito de identidade.

[00:58:07] Só que derrotar a Rússia na guerra russa japonesa,

[00:58:10] que é uma terceira vitória do Japão nesse cenário,

[00:58:13] coloca o Japão numa principal potência na Ásia,

[00:58:18] no leste asiático, na verdade.

[00:58:20] Embora ela tenha um grande custo em vida,

[00:58:23] o Japão consegue conquistar outros territórios,

[00:58:27] território a randá de Kwantung,

[00:58:29] e ele consegue a metade sul das ilhas de Sakhalin,

[00:58:33] da ilha de Sakhalin, perdão.

[00:58:35] Inclusive, ela tem um nome japonês, é Karafuto.

[00:58:38] Tanto que hoje em dia alguns mapas aparecem os dois nomes,

[00:58:42] como aparecem, por exemplo, Falklands e Malvinas,

[00:58:46] tipo, aparecem os dois nomes.

[00:58:48] Mas essa última vitória consolida a crença

[00:58:52] e materializa o que antes era uma crença

[00:58:55] e que o Japão era a principal potência.

[00:58:56] Essa sequência de vitórias, ela incende uma chama.

[00:58:59] Vitórias rápidas, todas elas duram um ano.

[00:59:03] A primeira guerra sendo japonesa, 94, 95.

[00:59:06] A guerra russa japonesa, ela é de 1904 a 1905.

[00:59:11] É muito rápido.

[00:59:12] E o Japão começa a ver que a expansão é possível

[00:59:17] e talvez seja uma resposta.

[00:59:20] Inclusive, é nesse ponto que a manchúria é vista como esse…

[00:59:25] Vou colocar aqui um termo que tem muita carga geopolítica,

[00:59:28] que é o espaço vital.

[00:59:30] Mas a manchúria começa a ser vista como esse desejo do Japão.

[00:59:34] Mas aí tem um ápice nesse cenário desses três conflitos,

[00:59:37] que é a anexação da Coreia.

[00:59:38] E aí é em 1910, que é transformado na colônia,

[00:59:41] num protetorado, que o Japão realmente domina.

[00:59:45] Um território a ser explorado,

[00:59:47] que o Japão via com uma fraqueza política.

[00:59:50] E aí que a lógica fascista começa a se exibir mesmo.

[00:59:56] E uma atitude, vou colocar aqui, um tema arrogante de dominação,

[01:00:01] sem senso de humanidade nenhuma.

[01:00:03] O Japão usa força militar para poder obrigar a Coreia a se dar alguns tratados.

[01:00:08] Um eco, inclusive histórico,

[01:00:10] do que o Japão teria aprendido, entre aspas, com o Ocidente.

[01:00:14] Porque o Japão vai usar a diplomacia da Cão Unida também

[01:00:16] com relação a Coreia para assinar tratados desiguais,

[01:00:19] principalmente o Tratado de Canhuá,

[01:00:20] que concede plenos direitos ao Japão de extraterritorialidade

[01:00:25] e rendição de controle de questões aduaneiras, enfim.

[01:00:30] Coloca realmente a Coreia como uma colônia e Tóquio como sendo metrópole.

[01:00:37] Isso consolida a ascensão japonesa.

[01:00:40] Inclusive, isso tem efeitos na Coreia hoje em dia.

[01:00:43] Muitas pessoas pesquisam sobre isso.

[01:00:46] A própria língua japonesa, eu não só falo, eu também ensino,

[01:00:50] eu sei muito pouco de coreano,

[01:00:53] mas o pouco que eu sei de coreano é como ele se relacionou com o japonês,

[01:00:56] que é uma herança dessa época de colonização.

[01:00:59] O coreano é uma língua relativamente nova com relação, por exemplo, ao chinesa,

[01:01:03] mas ele recebe influência dos dois lados.

[01:01:06] A China como sendo essa antiga potência cultural,

[01:01:08] mas o Japão como sendo essa colonização.

[01:01:10] Você tem muito ressentimento até hoje por causa do início,

[01:01:13] em 1910, do início desprotetorado até toda a dominação que o Japão vai ter

[01:01:19] nesse lugar ao longo do tempo que a gente entra.

[01:01:23] Pode entrar em detalhes aqui também.

[01:01:25] Só que o que isso consolida no Japão,

[01:01:27] a perspectiva de superioridade étnico-racial.

[01:01:31] Não só que a cultura japonesa seria superior,

[01:01:35] mas que a raça japonesa, o Yamato, a raça japonesa seria superior nesse sentido.

[01:01:41] É realmente as noções de darwinismo social,

[01:01:45] e aqui eu estou realmente invocando o aprendizado europeu disso,

[01:01:48] porque lembro, o Japão tem estudiosos ocidentais nesse sentido,

[01:01:51] e tinha uma ideologia que nesse momento ela é fundada,

[01:01:54] mas o darwinismo social é nessa missão de que somos superiores,

[01:01:58] portanto, somos o guia para transformar as civilizações asiáticas

[01:02:03] que estariam corrompidas, ou usando outro termo, degeneradas,

[01:02:06] para encenderem, nós somos o pivô da civilização.

[01:02:10] Claro, é uma mentira.

[01:02:12] A lógica que define essa época seria o poder faz o direito.

[01:02:17] O direito de que? De dominar.

[01:02:18] O direito de coagir, de realmente ter força coerciva sobre os outros.

[01:02:26] Só que isso faz que fora do eixo leste asiático,

[01:02:32] o Japão seja visto como um participante nas dinâmicas do mundo,

[01:02:36] como um novo, uma nova potência.

[01:02:38] Só que isso vai motivar um ciclo de expansão muito grande.

[01:02:41] Tipo assim, a próxima conquista, qual vai ser?

[01:02:45] E claro, isso vai obviamente escalonar para um futuro muito grande,

[01:02:49] com ideologia que combina uma lógica militarista, uma lógica racista,

[01:02:53] e que vai combinar e evoluir ao longo do tempo até o MAPS na Segunda Guerra.

[01:02:59] Em 1912, começa o que ficou conhecida como Era Taisho.

[01:03:03] E no primeiro momento, o Japão participou da Primeira Guerra Mundial

[01:03:07] ao lado do que ficou conhecida como a Triple Sintente.

[01:03:10] E também já temos o episódio sobre a Primeira Guerra Mundial

[01:03:13] para quem quiser procurar e ouvir depois.

[01:03:14] Enfim, você pode falar sobre a participação do Japão nessa guerra

[01:03:17] e qual foi a reação deles ao tratado de Versalho,

[01:03:20] uma vez que essa reação ajuda a explicar

[01:03:23] o desenvolvimento do imperialismo japonês depois de certa forma?

[01:03:26] Primeiro, leve com o texto o que significa a nova era.

[01:03:29] Significa que há um novo imperador.

[01:03:32] Dessa vez o imperador Taisho, que recebe também esse nome próximamente,

[01:03:35] que ele fica cerca de 20 anos, ele tinha saúde muito frágil.

[01:03:39] E era, inclusive, um momento interno de balanceio,

[01:03:41] porque um novo imperador significa uma nova lógica,

[01:03:43] porque os poderes eram muito centralizados.

[01:03:46] Japão, inclusive, era uma das nações mais centralizadas da sua época.

[01:03:49] Inclusive, esse é um momento tipo assim,

[01:03:51] o Japão vai se fortalecer militarmente e realmente concentrar poderes,

[01:03:55] ou ele vai ter uma certa abertura levemente democrática

[01:03:59] ainda nessa dinâmica de governo.

[01:04:01] Inclusive, o nome disso é a democracia Taisho.

[01:04:04] É um período muito particular do Japão,

[01:04:05] que é muito interessante internamente.

[01:04:08] Só que, ao mesmo tempo, nessa época, o Japão se junta, em 1914,

[01:04:14] como um combatente, na triplicitente,

[01:04:17] que basicamente aproveita das hostilidades globais

[01:04:21] para desenvolver a sua expansão desse império colonial,

[01:04:25] conquistando alguns territórios alemães ali no Pacífico.

[01:04:29] Os nomes são chineses, mas eram domínios protetorados alemães.

[01:04:34] Você tem Tindal, em Shantung.

[01:04:37] Você tem ilhas alemãs na Micronésia, não arquipélago,

[01:04:41] mas você tem ilhas Marshall, Carolinas, as Marianas, menos Guam.

[01:04:46] Guam não entra nesse sentido.

[01:04:48] O Japão consegue dominar.

[01:04:51] E aí, com a vitória da triplicitente na Primeira Guerra,

[01:04:56] não apenas o Tratado de Versailles, mas toda a Conferência de Paz de Paris,

[01:05:00] nas discussões, os Estados Unidos

[01:05:03] queria que Shantung fosse devolvida à China.

[01:05:08] É uma proposta que os Estados Unidos teve ao tratado,

[01:05:10] que o Japão vê com relutância, de início,

[01:05:14] quais eram os interesses dos Estados Unidos.

[01:05:16] E aí, inclusive, uma leve tensão se emicia com os Estados Unidos,

[01:05:21] porque muitos dos interesses dos Estados Unidos

[01:05:22] estavam ali de encontro com o Japão.

[01:05:25] É uma coisa que não estaria ali.

[01:05:27] Mas a participação do Japão é basicamente naval, no Pacífico.

[01:05:31] Inclusive, ela tinha uma aliança naval com a Grã-Bretanha.

[01:05:35] Enfim, e na Conferência de Paz de Paris,

[01:05:38] você tem a Delegação japonesa,

[01:05:39] e um ex-primeiro-ministro participa.

[01:05:42] Os ex-primeiros-ministros tinham o nome de príncipes,

[01:05:45] que é o Sayonji Kimmochi, que ele vai para Paris.

[01:05:49] O Japão tenta propor cláusulas

[01:05:54] no tratado e garantir os seus territórios conquistados.

[01:05:59] E ele tem uma proposta, uma proposta de cláusula,

[01:06:03] que é a cláusula da igualdade racial.

[01:06:06] Isso é muito interessante.

[01:06:08] É paradoxal, com a própria política japonesa interna, inclusive,

[01:06:14] mas o objetivo deles que eles queriam com essa cláusula racial,

[01:06:18] que seria, basicamente, que nenhuma potência

[01:06:22] poderia ser discriminada racialmente

[01:06:25] por quesito de questões sociais,

[01:06:29] mas que é paradoxo com o que o Japão fazia dentro do seu próprio país,

[01:06:33] que qualquer pessoa que não pertencesse à etnia do Yamato,

[01:06:36] que eu falei aqui antes, basicamente não tinham direitos de cidadão.

[01:06:39] O pessoal pensa o Japão como um grande atinoestado, mas não.

[01:06:42] Na guerra russa japonesa, esqueci de mencionar,

[01:06:44] inclusive, você tem a dominação dos povos indígenas Ainu,

[01:06:47] porque a guerra se dá ao norte do Japão.

[01:06:49] O norte do Japão tem o povo Ainu,

[01:06:51] que, inclusive, fala um outro dialeto, uma outra cultura,

[01:06:54] e realmente um povo indígena ali do Japão.

[01:06:56] E lá embaixo, ao sul, Okinawa, que tem o Ushinanchu,

[01:07:00] que não são vistos com o Yamato,

[01:07:03] e os dois lados foram completamente colonizados nessa política interna.

[01:07:09] Mas eles queriam essa cláusula racial,

[01:07:11] principalmente para poder buscar expor a hipocrisia de seus aliados.

[01:07:16] Porque é uma dinâmica assim, se aceitassem a cláusula,

[01:07:21] eles enfraqueceriam o próprio imperialismo ocidental.

[01:07:24] E se recusassem, o Japão ia ganhar leverage

[01:07:28] dentro da sua própria ideologia de superioridade na Ásia.

[01:07:34] Tipo assim, olha, realmente,

[01:07:35] eles não querem aceitar um povo asiático no meio da Europa.

[01:07:42] É quase cínico assim essa dinâmica, mas é uma proposta de cláusula.

[01:07:48] E eles desconfiavam, principalmente dos Estados Unidos nesse sentido,

[01:07:51] principalmente do Woodrow Wilson, o presidente, então presidente,

[01:07:56] que eles desconfiavam, em palavras dele,

[01:07:58] que havia um núcleo racista dentro da política dele,

[01:08:02] e que mantinha o asiático um padrão inferior ao dos europeus nesse sentido.

[01:08:08] Então eles buscam essa cláusula. Ela é recusada,

[01:08:12] mas uma cláusula semelhante é colocada na Carta das Nações Unidas em 1945.

[01:08:18] O que está sendo criado na Conferência de Paz e País é a Liga das Nações.

[01:08:20] Inclusive é um caso muito interessante para nós das relações internacionais.

[01:08:23] A Liga das Nações é sempre mencionada, porque ela é um caso muito interessante.

[01:08:28] Só que o Japão, a reação deles, embora a cláusula deles não foi aceita,

[01:08:33] e eu faço parte desse clube ocidental totalmente agora ou não,

[01:08:37] tem essa dúvida, mas ele tem ganhos concretos.

[01:08:39] Ele tem ganhos territoriais no Pacífico,

[01:08:41] ele tem concessões, e para o Japão significa o quê?

[01:08:44] Poder militar e negociação pragmática funciona.

[01:08:49] Esse jogo dá para ser jogado.

[01:08:52] E isso, claro, gera um certo ressentimento em relação aos Estados Unidos,

[01:08:57] em relação a outras potências,

[01:08:59] porque as negociações de paz não acabam a contratar adversários.

[01:09:03] O Japão, inclusive, ele cede um dos territórios,

[01:09:05] ele ganha a maioria, mas o território mesmo de Shandong,

[01:09:08] depois você tem a Conferência… Qual que era o nome?

[01:09:11] Era a Conferência Naval de Washington,

[01:09:14] que Shandong volta ao domínio chinesa em 1922.

[01:09:18] Só que, por um geral, foi um ganho muito grande.

[01:09:20] E isso coloca o Japão, inclusive, no posto para negociar com a Alemanha,

[01:09:25] para negociar com a União Soviética,

[01:09:27] para negociar com o Reino Unido, com a Grã-Bretanha,

[01:09:31] tipo, realmente, nesse novo bloco.

[01:09:34] Qual que é o principal ponto, inclusive, negativo?

[01:09:36] É um reforço do sentimento anticolonial.

[01:09:39] Isso só reforça aquilo que eu falei antes,

[01:09:41] que a percepção japonesa de criar um Estado,

[01:09:45] um Estado que já criaram, obviamente,

[01:09:48] mas a percepção japonesa de que eles precisavam ser

[01:09:50] uma nova potência dominante na Ásia,

[01:09:52] de que eles deveriam dominar a Ásia para proteger

[01:09:55] com essa expansão do Ocidente,

[01:09:57] que o Ocidente, apesar dele conseguir jogar o jogo ali,

[01:10:00] ele não estaria completamente inserido junto a essas potências,

[01:10:05] por sua identidade, por sua cultura,

[01:10:07] o que, certamente, é anticolonial, mas aqui, toma cuidado.

[01:10:11] Não é porque ele era anticolonização da Europa

[01:10:14] que ele não fosse colonialista.

[01:10:16] Anticolonial não significa pós-colonial ou decolonial.

[01:10:19] É muito importante fazer essa diferenciação.

[01:10:23] Basicamente, a justificativa que o Japão teve

[01:10:25] para a política do Nanxin, que aí ela vai evoluir,

[01:10:28] entro nisso mais tarde.

[01:10:30] Nanxin é a expansão para o sul,

[01:10:32] que ia dominar as ilhas lá de baixo,

[01:10:34] acho que ali já estava crescendo, domina Taiwan,

[01:10:37] domina algumas ilhas Marshall, Micronesia e tudo mais,

[01:10:40] e isso só vai justificar ainda mais essa expansão

[01:10:43] que vai tendo ali, aumentando cada vez mais.

[01:10:47] O Japão também participou da, assim, chamada Guerra Civil Russa,

[01:10:51] e nós também temos episódios sobre essa guerra

[01:10:53] para quem quiser procurar, mas enfim.

[01:10:54] Ele lutou apoiando os países ocidentais,

[01:10:56] que, por sua vez, apoiavam os russos que combatiam os bolcheviques,

[01:11:00] mas, eventualmente, acabaram se retirando,

[01:11:01] em partes porque os Estados Unidos e o Reino Unido

[01:11:04] pressionaram o Japão a sair.

[01:11:05] Eles tinham receio, aparentemente, da expansão do imperialismo japonês,

[01:11:09] que ameaçava os interesses dos Estados Unidos

[01:11:11] e as comunidades britânicas na Ásia,

[01:11:13] e eu falo isso porque as lideranças japonesas

[01:11:15] tinham um medo gigante do comunismo.

[01:11:17] Isso levou, inclusive, à lei de preservação de paz de 1925,

[01:11:21] que foi criada, em grande medida,

[01:11:22] para conter o avanço do socialismo e do comunismo.

[01:11:24] Em seguida, a gente tem o período Showa,

[01:11:27] que viu a expansão, a sessão do militarismo e do nacionalismo,

[01:11:31] então eu queria pedir para você explicar esse contexto,

[01:11:34] explicando o que era essa lei de preservação de paz

[01:11:36] e como funcionou a sessão do militarismo e do nacionalismo japonês.

[01:11:39] Perfeitamente.

[01:11:41] Eu já cheguei a introduzir, basicamente,

[01:11:44] como funcionava a Constituição Meiji,

[01:11:47] de novo, evocando a imagem da Cornucopia Autoritária,

[01:11:51] e a lei da preservação de paz de 1925

[01:11:54] é de uma série de leis que visavam, principalmente,

[01:11:57] a segurança internacional com relação à expansão do comunismo.

[01:12:02] Os ideais já estavam lá, dentro do Japão,

[01:12:05] inclusive, isso é um fator interessante,

[01:12:06] mas a lei da preservação de paz era para prevenir que mais se penetrasse.

[01:12:11] Essa imagem do comunismo como um grande infiltrador de ideias

[01:12:16] chega ao Japão.

[01:12:17] Ela é, basicamente, o objetivo principal, a supressão de ideias

[01:12:20] e de movimentos sociais.

[01:12:22] Ela é mais uma série de leis que buscava

[01:12:26] suprimir qualquer organização social contra o império que fosse,

[01:12:30] porque o comunismo era visto como tendo um grande poder de organização.

[01:12:36] Então, cada vez mais, para abafar a formação

[01:12:39] e abafar o máximo possível das ideias que tem.

[01:12:42] Curiosidade, eu estou pulando alguns anos, anos mais tarde,

[01:12:45] ideais comunistas são relativamente fortes no Japão.

[01:12:49] Marxistas são muito fortes no Japão.

[01:12:51] Inclusive, durante a guerra e na era Showa,

[01:12:54] ela acontece um ano depois da promulgação.

[01:12:57] Dessa lei, inclusive, a resistência comunista

[01:13:00] é o principal front contra o Japão imperial

[01:13:03] dentro do Japão pelos próprios japoneses.

[01:13:05] Aí fica título de curiosidade, inclusive.

[01:13:07] Então, realmente era uma coisa que era uma ameaça para o império,

[01:13:12] nesse sentido, a organização social, qual que ela fosse,

[01:13:15] e o comunismo tinha um grande poder de manifestação no Japão.

[01:13:19] Ele realmente poderia se manifestar.

[01:13:22] E esse longo histórico de lei de segurança,

[01:13:23] ele é repressão ideológica, o geral.

[01:13:25] Repressão ideológica de formação de revistas, críticas,

[01:13:29] de publicações críticas.

[01:13:31] E, basicamente, o sistema político-media,

[01:13:34] ainda mais nessa época,

[01:13:35] ele amordaçou e vendou a população do Japão.

[01:13:38] Tipo assim, privando o Japão de fatos básicos,

[01:13:42] de troca de opinião livre e opinião massa.

[01:13:45] Você poderia publicar suas ideias,

[01:13:47] principalmente sobre questões do Estado e questões da sociedade.

[01:13:51] Dificilmente o público, o povo japonês, podia participar do governo.

[01:13:56] Tipo assim, podia participar, não do governo,

[01:13:58] mas participar da criação de ideias.

[01:14:01] Inclusive, qualquer questão que fosse meramente contemporânea,

[01:14:04] não estivesse falando sobre o que estava acontecendo no mundo

[01:14:07] ou o que o Japão estava fazendo,

[01:14:09] se enquadrava numa categoria de perigo.

[01:14:12] Jornais, publicações, discursos públicos,

[01:14:16] eles poderiam ser silenciados, pessoas presas,

[01:14:19] por decisão arbitrária.

[01:14:22] E não tinha como recorrer contra o aprisionamento,

[01:14:27] assédio policial, encarceramento forçado.

[01:14:31] De novo, analogias assim, mas cuidado com analogias.

[01:14:37] Essa lei de 2025 fazendo uma forçação,

[01:14:41] lembra um pouco o AI-5 aqui no Brasil,

[01:14:42] porque ele é uma série de atos institucionais,

[01:14:44] o AI-5 foi um maior, mas é uma série de leis.

[01:14:47] Esse, certamente, é muito grande.

[01:14:50] O AI-5, inclusive, determinava prisão arbitrária,

[01:14:53] e esse aí também.

[01:14:54] Mas é um pouco diferente nesse sentido,

[01:14:57] não é ditadura por ditadura, mas, enfim, cada um, cada qual.

[01:15:00] Mas no Japão, o roteiro de filme, de peça teatral,

[01:15:04] o Japão, a indústria cinematográfica, estava nascendo.

[01:15:07] Eles eram sujeitos à censura prévia.

[01:15:11] Da mesma forma, igual eu já falei, publicação, discurso público.

[01:15:14] E, tipo assim, censões penais a rodo.

[01:15:19] Tinha uma cláusula da lei da preservação, da lés da majestade.

[01:15:23] Qualquer indivíduo com uma convicção

[01:15:26] que fosse contrária ao governo de qualquer forma,

[01:15:28] mesmo que não fosse, expressa abertamente,

[01:15:32] poderia acabar na prisão.

[01:15:33] Ou seja, expressa abertamente, o que eu quero dizer,

[01:15:35] a pessoa, literalmente, falasse contra o imperador,

[01:15:37] mas, tipo, qualquer coisa que tivesse um vieso um pouco mais crítico,

[01:15:40] já era cortada na hora para tentar cortar pela raiz

[01:15:43] toda a organização de movimento,

[01:15:45] não necessariamente comunista,

[01:15:46] mas, certamente, principalmente comunista.

[01:15:48] O movimento comunista, durante a guerra, inclusive,

[01:15:53] ele foi destruído, ele foi suprimido, encarcerado,

[01:15:58] evocando essa lei da preservação da paz.

[01:16:01] Eu estou saltando há alguns anos, estou saltando lá para a década de 30.

[01:16:03] Cinco anos depois, seis anos depois, a partir desses cinco anos depois.

[01:16:08] A lei de preservação de paz é evocada o tempo todo para poder suprimir isso,

[01:16:12] não só no território japonês, mas no território das colônias.

[01:16:16] Na Coreia, também, a população coreana, o povo coreano,

[01:16:20] também, durante a Era Showa, era suprimida por isso.

[01:16:24] Então, não era só um controle do próprio povo japonês,

[01:16:26] era um controle também dos povos das colônias,

[01:16:29] principalmente na Coreia,

[01:16:30] que é onde tem uma maior concentração de população,

[01:16:32] mas, é claro, nas ilhas também.

[01:16:34] E isso foi o início de uma linha mais severa de algo que já era severo.

[01:16:39] Talvez por isso que eu pensei no I5, quando eu falei isso,

[01:16:41] algo que já era severo, e ali só afirmou.

[01:16:44] É claro, veio mais tempo do que aqui no Brasil,

[01:16:47] mas, tipo, isso é um pico.

[01:16:49] Por isso que a Era Showa é tão famosa.

[01:16:51] Eu falei da Era Taisho, de ela ser esse momento, tipo assim,

[01:16:54] será que o Japão vai ter um pouquinho mais de liberalização,

[01:16:58] sem caminhar para um lado mais de uma democracia liberal,

[01:17:01] ou ele vai continuar?

[01:17:02] O momento da Taisho, ele teve essa dupla,

[01:17:05] mas na Era Showa, isso é consolida que não.

[01:17:07] Na verdade, ele vai ficar mais forte, ele vai centralizar,

[01:17:09] mas o Estado, ele vai suprimir qualquer concentração popular.

[01:17:13] E isso vai se transmitir onde, que é um foco muito interessante,

[01:17:16] é na educação.

[01:17:17] A educação, ela começa a ser manipulada

[01:17:20] para criar um ambiente interno de conformidade.

[01:17:24] De conformidade, que de pouco pensamento crítico,

[01:17:26] pouco florescimento de ideias.

[01:17:30] O militarismo, ele era oficializado.

[01:17:33] Oficializado, eu digo assim, como o político do Estado,

[01:17:36] como o serviço público, ele estava presente em todo o canto.

[01:17:39] Ele estava em todos os lugares, realmente,

[01:17:41] para acabar com qualquer ideia.

[01:17:43] E era ensinado a obediência incondicional.

[01:17:46] A obediência incondicional a quem?

[01:17:49] A dor, obviamente, amor à pátria,

[01:17:52] disposição de caso você precisasse, desde criança,

[01:17:56] você morrer pelo seu país era algo bom.

[01:17:58] O currículo escolar foi totalmente militarizado.

[01:18:01] Tudo isso em justificativa da lei da preservação de paz

[01:18:05] e destas leis que se encaminharam para ela.

[01:18:08] E isso era traduzido completamente nas crianças.

[01:18:10] Nessa época, você tem um crescimento de canções infantis,

[01:18:13] que eram canções militarizadas.

[01:18:16] Não é à toa, mas não é dessa época,

[01:18:19] é algo que já vinha o uniforme das crianças.

[01:18:21] Eles são uniformes militares.

[01:18:23] Você vê fotos do Japão mais antigo,

[01:18:25] você vai ver que eles usam um bonézinho que é um cap.

[01:18:27] As escolas têm uma lógica militar nesse sentido,

[01:18:32] não apenas no Império, mas escolas em geral tinham.

[01:18:35] É algo que vem de alguns anos, é algo que é mais antigo que isso,

[01:18:38] mas certamente fortaleceu algo que já estava lá.

[01:18:40] Crianças cantavam canções racistas com relações chineses,

[01:18:46] de violento com relação aos russos,

[01:18:48] e realmente desprezando com que a pessoa vinha de fora,

[01:18:51] coreanos também.

[01:18:53] Enfim, se a vida era difícil, inclusive nas colônias,

[01:18:57] nessa época, inclusive, vai vir muita gente,

[01:19:00] principalmente coreanos, para o Japão, nessa época,

[01:19:02] para suprimão de obra.

[01:19:04] E os descendentes desses coreanos, eles são chamados 20.

[01:19:07] Os descendentes coreanos, até hoje, no Japão,

[01:19:09] não têm cidadania plena,

[01:19:10] tanto que eles são o principal exemplo de discurso de extrema-direito no Japão.

[01:19:14] Claro, estou faltando alguns anos, mas estou falando que

[01:19:16] as consequências desse passado ecoam até hoje na população mesmo.

[01:19:20] Os coreanos ANT não têm cidadania plena por muitas vezes,

[01:19:23] um ou outro recebe algum auxílio do governo,

[01:19:26] mas isso evoca ainda mais

[01:19:28] por que esse assistencialismo com essas pessoas.

[01:19:31] Então, é algo que ecoa até hoje,

[01:19:33] é algo que ecoa, inclusive, às populações okinawanas,

[01:19:36] que na hora que começa a guerra, elas vão fugir todas,

[01:19:38] muitos vêm para o Brasil,

[01:19:40] muitas pessoas no Brasil são descendentes,

[01:19:41] são o chinan-chu, não são yamato, são os chinan-chu,

[01:19:45] falam dialetos diferentes,

[01:19:47] muitos dos anuíes são mortos,

[01:19:49] os anuíes eram mortos na guerra, os russos japoneses,

[01:19:52] então tem esse nacionalismo muito forte,

[01:19:54] e isso tudo traduzido numa lei.

[01:19:55] A prerrogativa é legal para se fazer isso,

[01:19:58] liberdade de pensamento, educação conforme isso, enfim, em geral.

[01:20:02] E o que é pior, falando sobre a lei,

[01:20:05] eu sigo o salto daqui para lá de vez em quando,

[01:20:07] mas eu tento manter o fio da meada,

[01:20:09] mas falando sobre a lei, ela inclusive é endurecida depois,

[01:20:12] em 1941, ainda vamos falar sobre a guerra ainda,

[01:20:16] ainda vamos chegar lá, mas sobre a lei,

[01:20:17] ela permitia a detenção preventiva de estivistas políticos

[01:20:20] por tempo indeterminado,

[01:20:22] prisioneiro político, preso, preso.

[01:20:25] Quando eu vou receber minha pena? Não sei.

[01:20:27] Não vai, provavelmente não vai ter.

[01:20:29] E eles eram mantidos em prisão,

[01:20:32] tipo assim, mesmo depois de cumprir a pena,

[01:20:34] que era sentenciada a eles, se era sentenciada,

[01:20:37] eles se mantiram em prisão. Qual é a minha sentença?

[01:20:39] Não vai saber.

[01:20:40] E era preso e detido, às vezes alguns, vários morreram encarcerados,

[01:20:46] mesmo que renegasse suas crenças,

[01:20:48] porque uma condição que a pessoa renegando supostamente suas crenças,

[01:20:53] ela tinha uma certa defesa ali,

[01:20:57] mas naquele momento, a partir de 1941, não.

[01:21:00] Mesmo que a crença fosse renegada, a pessoa não se organizasse mais,

[01:21:04] ela não receberia mais nenhum tipo de indulto,

[01:21:07] de perdão, vamos colocar desse jeito.

[01:21:10] A ascensão do militarismo que intensifica na Era Sho

[01:21:13] é principalmente por conta dessa tradução legal

[01:21:17] de algo que muitas vezes era ideia e que saiu.

[01:21:20] Essa lei certamente é um marco

[01:21:23] que capapulta o Japão nessa década de 1930

[01:21:27] para essa política colonial imperial mais militarizada agora do que nunca.

[01:21:33] E ultranacionalista, claramente.

[01:21:37] Você que é fã de Samurai Shizu, você vai lembrar

[01:21:39] que o personagem principal, Kenshin Rimura,

[01:21:42] ele vive no começo da Era Menji

[01:21:44] e é parado o tempo inteiro pela polícia

[01:21:46] porque estava andando com suas espadas.

[01:21:50] Uma curiosidade rápida,

[01:21:51] o Kenshin foi inspirado em um dos maiores assassinos da história do Japão,

[01:21:56] chamado Kawakami Gensai.

[01:22:04] A década de 1930 foi um momento de profundo expansionismo

[01:22:08] e o momento em que o Japão começa a ser mais percebido internacionalmente

[01:22:13] como um império bastante agressivo,

[01:22:15] o que não quer dizer que os outros não fossem, mas enfim.

[01:22:17] E nós tivemos no começo da década a tomada da Manchúria

[01:22:20] e, em 1937, o começo da Segunda Guerra Sinod japonesa.

[01:22:24] Você pode explicar para a gente esses dois eventos?

[01:22:26] Sim, claro.

[01:22:28] Igual falei, o Japão nessa década

[01:22:32] de 1930 é que ele começa realmente a se aumentar.

[01:22:37] Mas se eu falo de 1937, eu na verdade vou falar de antes,

[01:22:41] vou falar de 1931.

[01:22:43] Muitos historiadores, inclusive historiadores japoneses,

[01:22:45] e aqui eu vou citar, já dando espalha da minha indicação,

[01:22:48] o historiador Ienaga Saburo,

[01:22:51] ele defende uma visão crítica,

[01:22:54] e isso é muito importante partindo de um historiador japonês,

[01:22:57] uma visão crítica da guerra,

[01:22:59] mas ele defende que a Segunda Guerra Mundial,

[01:23:02] a tomada da Manchúria é visto como um longo conflito de 15 anos.

[01:23:07] 15, 14 anos, né?

[01:23:09] Que não começa em 1937, no eixo europeu em 1939,

[01:23:14] mas em 1931, na década de 1930,

[01:23:17] que é quando o Japão se consolida como um império imperialista,

[01:23:21] como uma ameaça até pela Europa.

[01:23:23] O que acontece em 1931?

[01:23:26] Já deu spoiler que não a tomada da Manchúria,

[01:23:30] mas o início da tomada da Manchúria.

[01:23:33] Em 1931, você tem uma invasão oficial da China,

[01:23:37] principalmente a Manchúria,

[01:23:39] que eu já falei que era visto como esse espaço vital,

[01:23:42] eu estou pegando emprestado o termo da geopolítica,

[01:23:46] que não é exatamente essa definição,

[01:23:48] mas o Japão via como a linha vital da sua nação.

[01:23:52] Eles fazem um planejamento,

[01:23:54] e aí realmente um planejamento de uma…

[01:23:56] Não sei se o termo seria conspiração,

[01:23:58] eu creio que não é isso, mas é um incidente falso

[01:24:01] para justificar a entrada do Exército.

[01:24:04] O que eles fazem?

[01:24:05] Eles fazem uma explosão fabricada,

[01:24:07] eles fazem uma explosão criminosa,

[01:24:09] que é planejada pelo Exército Kwantung.

[01:24:11] O Exército Kwantung são tropas japonesas

[01:24:14] na região de Kwantung, que era dominada pelo Japão.

[01:24:17] Eles fazem uma explosão escondida na linha principal

[01:24:22] da ferrovia do sul da Manchúria, de Mukden,

[01:24:26] 18 de setembro de 1931.

[01:24:28] Nessa explosão que acontece,

[01:24:30] eles responsabilizam tropas chinesas publicamente,

[01:24:35] embora isso fosse uma conspiração dentro do próprio território

[01:24:38] para justificar a entrada de que ali haveriam subversivos,

[01:24:42] que ali haveria uma ameaça,

[01:24:43] tipo assim, olha, já estão explodindo aqui ferrovias,

[01:24:46] que são vias estratégicas,

[01:24:48] mas, na verdade, é uma montagem de tenentes, de generais.

[01:24:53] Um deles, inclusive, tem nomes.

[01:24:55] O tenente coronel, Ishihara Kandi.

[01:25:01] Ele é uma das pessoas que planejam isso e ajudam a executar.

[01:25:04] E isso rapidamente se escala,

[01:25:08] porque em resposta a essa explosão fabricada,

[01:25:10] a justificativa é que o exército japonês poderia entrar

[01:25:12] e realmente acabar com as tropas

[01:25:17] do mareshau ali, o Tianhuelian,

[01:25:21] que era quem dominava,

[01:25:23] quem governava realmente, efetivamente, a região da Manchúria.

[01:25:26] E eles, rapidamente, ocupam a área.

[01:25:28] Inclusive, é um ato ilegal.

[01:25:31] Tem que lembrar que nesse momento você tem o pacto Kellogg-Briant.

[01:25:34] O pacto de Paris, que foi um tratado de 1928.

[01:25:38] Formalmente, ele renunciava à guerra

[01:25:42] como uma forma de resolver a questão

[01:25:46] sobre as novas potências da China.

[01:25:48] Porque a China, nesse momento, está dividida entre novas potências

[01:25:52] desde 1922.

[01:25:53] E o pacto Kellogg foi uma continuidade desse momento de 1922,

[01:25:57] que seria um pacto de não agressão.

[01:26:00] E as partes signatárias, elas comprometem, as partes signatárias, as nove.

[01:26:04] Estados Unidos, Reino Unido, Japão, França, Itália,

[01:26:07] a própria China, mas a Holanda, Bélgica e Portugal,

[01:26:11] que se comprometem a respeitar o domínio do outro

[01:26:17] e da própria soberania chinesa dentro dos seus territórios de influência

[01:26:21] e não executar ações imperiais e nem recorrer à guerra

[01:26:25] como meio de resolver qualquer solução ali naquele momento.

[01:26:29] E o que é mais curioso?

[01:26:30] Obviamente, é uma séria violação do Direito Internacional da época.

[01:26:35] Mas o que é mais curioso

[01:26:37] é que isso foi um crime de acordo com a lei doméstica do Japão.

[01:26:41] Isso que é mais curioso nesse sentido,

[01:26:43] porque no Código Criminal das Forças Armadas,

[01:26:48] o artigo 35, e aqui, esse eu vou ter que ler,

[01:26:52] mas o artigo 35, ele fala sobre que um comandante que iniciar hostilidades

[01:26:56] com um governo estrangeiro sem provocação deve ser punido com a morte,

[01:27:01] e o artigo 37, o artigo 13º, 17º, sei lá,

[01:27:06] é o comandante que, exceto em situação de extrema emergência,

[01:27:11] mover tropas além de sua área de jurisdição,

[01:27:14] deve ser punido pela morte ou imprisonamento de não menos que sete anos.

[01:27:19] Isso é o que é mais curioso.

[01:27:20] Só que o que aconteceu nessa lei doméstica é que isso teve apoio.

[01:27:23] Tipo assim, pra que, politicamente ou ideologicamente,

[01:27:28] ignorar a própria lei e o próprio Direito Internacional da época

[01:27:32] para poder invadir e dominar a região.

[01:27:35] O próprio operador não condena, não pune as ações.

[01:27:41] Igual a sua lei, o militarismo se expandiu para todos os lados ali dentro.

[01:27:46] E tem uma prerrogativa de um comando supremo

[01:27:49] que justifica aquelas ações, rebele a interferência civil.

[01:27:53] E dentro do parlamento, inclusive, não teve nenhuma…

[01:27:58] Não revolta, mas não teve nenhuma resposta com relação a isso,

[01:28:01] porque o primeiro-ministro da época, que era o Akatsuki Rejiro,

[01:28:05] muitas pessoas conhecem o Hideki Todio,

[01:28:09] mas ainda não é ele, ele vai entrar depois.

[01:28:12] Mas ele colocou o parlamento dele no bolso,

[01:28:15] porque ele tinha apoio dos ministros, apoio do imperador,

[01:28:17] e ele garantiu imunidade de todo mundo que conspirou

[01:28:21] contra esse início do evento.

[01:28:23] Foi um fato consumado, e foi um fato consumado através de outro.

[01:28:27] A própria bombardeamento foi um ferro a cumprir.

[01:28:31] E a expansão das tropas e o avanço das tropas

[01:28:35] contra o domínio da Manchúria é um ou outro ferro a cumprir.

[01:28:38] Isso foi colocando um atrás do outro, e o parlamento não reagia.

[01:28:41] E quem dirá? A população, que nada podia fazer.

[01:28:44] Claro, isso foi verdade, era conhecido dentro do exército

[01:28:50] e dentro do comando do Japão, mas ninguém sabia.

[01:28:52] Muitas pessoas realmente acreditavam que uma bomba tinha explodido,

[01:28:55] que foi um ataque contra o Japão.

[01:28:57] É basicamente o plano com a identificativa perfeita nesse sentido.

[01:29:01] E é criado realmente o estado fantoche da Manchúria,

[01:29:05] ou no termo chinês, Manchukuo.

[01:29:08] É um novo estado ali do Japão.

[01:29:10] Colocam o Puyi, que é o último imperador, como o líder,

[01:29:15] mas é uma liderança falsa.

[01:29:17] E formalmente, o Manchúria entra pro lado do Japão.

[01:29:25] Não pro lado do Japão, mas entra dentro do domínio do Japão.

[01:29:28] E esse estado fantoche é basicamente feito

[01:29:30] pra evitar qualquer acusação de violação do Direito Internacional.

[01:29:34] Ele tem controle militar japonês, certamente,

[01:29:37] mas é dito aqui, olha, ainda tem controle…

[01:29:39] Os chineses ainda são soberanos sobre sua própria região.

[01:29:43] Não eram, efetivamente não eram, mas colocaram ali pra…

[01:29:48] Tipo assim, frente à Liga das Nações, frente ao resto do mundo,

[01:29:52] pra dizer, olha, a soberania está sendo respeitada,

[01:29:55] aqui temos apenas algumas tropas militares japonesas.

[01:29:58] Mentira.

[01:29:58] E o Japão não foi, isso não colou pra muita gente.

[01:30:02] Ele foi, na verdade, condenado pela Liga das Nações.

[01:30:06] Condenado no sentido assim, o pessoal viu isso como um desrespeito,

[01:30:10] isso foi uma agressão, ele foi publicamente apontar dedos.

[01:30:15] Isso leva o Japão, na verdade, a ter um certo isolamento internacional,

[01:30:19] como sendo, olha, até no meio das potências,

[01:30:22] você é beliverante demais.

[01:30:25] E é que, com o perdão da licença poética aqui,

[01:30:28] cuidado a transformar também estados em pessoas.

[01:30:31] O Estado fez, o Estado disse, o Estado, cujo Estado condenou,

[01:30:35] é uma coisa que geralmente a gente evita,

[01:30:37] mas aqui fica mais pela didática mesmo.

[01:30:40] Mas, lembrando, esse nome de Japão,

[01:30:43] eu falo assim, é o Outra Cúpula do Exército, o Imperador, nesse sentido.

[01:30:46] De 1931 ou 1932 até 1937, que é quando começa a larga escala,

[01:30:53] você tem conflitos menores, tem pequenos confrontos,

[01:30:55] você tem, por exemplo, o primeiro incidente de Xangai,

[01:30:59] o primeiro, tem uma imagem, o primeiro incidente de Xangai,

[01:31:02] hostilidades aqui e ali, um crescimento do movimento anticolonial ocidental,

[01:31:07] que eu já falei antes.

[01:31:09] Só que aí, qual que é o pivô, o pivô não,

[01:31:13] qual que é o estopim dessa nova guerra em larga escala,

[01:31:17] que inclusive é chamada da Segunda Guerra Sinonjaponesa,

[01:31:20] é o incidente da Ponte Marco Polo.

[01:31:22] Foi um confronto entre o Exército Nacional Revolucionário da China

[01:31:26] e as forças japonesas na Ponte Marco Polo.

[01:31:28] Ele não foi uma provocação planejada,

[01:31:30] era uma situação muito volátil, ela acontece repentinamente.

[01:31:38] O Japão que estava com o novo gabinete, que era do Fumimaru Konoe,

[01:31:42] ele defendia uma política cintana forte da intervenção na China,

[01:31:45] e esse evento ele só começou a escalar bastante.

[01:31:48] Ele foi um conflito que estava ali, tipo o conflito azarquí ali,

[01:31:52] só que esse evento ele começa realmente a intensificar,

[01:31:56] cada vez mais expandir para outros lados da China,

[01:31:58] e enviar tropas para o norte da China,

[01:32:00] o que só agravou a situação mais ainda.

[01:32:04] As forças japonesas, elas ocupam Pequim,

[01:32:07] Pequim que não é a capital, Beidin ainda não é a capital da época,

[01:32:11] a capital da República da China é Nanquim, na época,

[01:32:14] e eles cruzam o Rio Amarelo e vão avançando.

[01:32:17] E aí tem o segundo incidente de Xangai,

[01:32:20] que as forças japonesas invadem Xangai,

[01:32:21] ocupam Nanquim, conseguem ocupar Nanquim,

[01:32:24] que inclusive é um massacre sem precedência à história,

[01:32:28] não querem entrar em detalhes agora,

[01:32:30] não vão falar sobre o panorama geral desses eventos.

[01:32:33] Os chineses tentam resistir,

[01:32:35] inclusive o Xangkai-shek consegue fazer uma frente unida

[01:32:40] com os comunistas para lutar contra o Japão nesse sentido,

[01:32:43] mas o avanço é contínuo.

[01:32:44] As unidades japonesas conseguem ocupar Cantão,

[01:32:48] eles conseguem ocupar Yuhang,

[01:32:49] eles conseguem até algumas cidades ao longo do Rio Yantze,

[01:32:52] e espalha, ele espalha o combate praticamente por toda a China,

[01:32:56] muito da administração da China está concentrada

[01:32:59] ali na região leste da China,

[01:33:02] menos na região oeste, mas na região leste da China,

[01:33:05] efetivamente ele espalha ali por todas as zonas principais,

[01:33:08] as principais cidades ali.

[01:33:10] Só que, inclusive, um erro do Japão, na verdade,

[01:33:13] é subestimar a China ou achar que a sua expansão,

[01:33:18] os chineses viam, achar que os chineses viam como uma forma de libertação,

[01:33:24] isso não aconteceu, isso foi um erro.

[01:33:26] A política japonesa de ocupação e exploração

[01:33:29] acenderam uma consciência nacionalista e resistência da China.

[01:33:33] Teve o efeito contrário, na verdade,

[01:33:35] o Japão queria se vender como um grande libertador da Ásia

[01:33:38] e que sua violência era justificada, mas na verdade, teve.

[01:33:41] Claramente, o efeito contrário.

[01:33:42] Os japonês acharam que as ações deles eram sem punição internacionalmente,

[01:33:46] ali regionalmente, mas isso foi visto como um erro.

[01:33:52] Depois, os militares eram extremamente cruéis,

[01:33:56] bradavam anticomunismo, que na verdade fez o efeito contrário.

[01:34:01] Acendeu o comunismo no país, acendeu a resistência,

[01:34:04] acendeu o sentimento nacional chinês.

[01:34:07] E o apoio popular aos chineses à resistência

[01:34:10] aumentou, o apoio popular, que eu digo, dentro da própria China.

[01:34:13] Não reconhecer isso foi um dos pontos de erro do Japão.

[01:34:17] O Japão avançando na China, mas não conseguindo avançar muito além,

[01:34:23] ele começa também a expandir para o Sul,

[01:34:25] e aí que ele começa a atacar as potências ocidentais,

[01:34:29] ele começa a atacar os Estados Unidos, ficou famoso, o Pearl Harbor.

[01:34:33] Aí tem a Batalha Geral, Guadalcanal, contra a Inglaterra.

[01:34:38] E, enfim, até para a Holanda, os País Baixos,

[01:34:41] que eram aliados comerciais há muito tempo,

[01:34:44] para buscar recursos, para preservar seus sucessos, enfim.

[01:34:50] Mas esse é o panorama geral, pontos que eu aprofundo,

[01:34:55] posso aprofundar aqui se você quiser,

[01:34:57] mas eu parto também dessa visão de que, tipo assim,

[01:35:01] em 1987 foi o início da guerra em grande escala,

[01:35:04] mas esse conflito já vem de 1931, com o início da invasão da Manchúria.

[01:35:12] Eu acho que são também parte inseparável deste mesmo conflito.

[01:35:16] Eu queria dedicar uma pergunta ao massacre de Nanjing,

[01:35:19] que é possivelmente o evento mais conhecido da invasão da China.

[01:35:22] Ele resultou não apenas em um número alto de mortes,

[01:35:25] mas também em diversas atrocidades que desafiam a compreensão

[01:35:29] e os nossos parâmetros mais básicos de sanidade e humanidade.

[01:35:32] Você poderia explicar o que foi esse evento

[01:35:35] e que coisas os japoneses fizeram lá,

[01:35:37] a ponta dessa história ter reverberado tanto até hoje?

[01:35:39] Olha, agora eu acho que cabe um certo aviso aqui,

[01:35:44] eu não quero entrar em muitos detalhes muito gráficos,

[01:35:49] até para preservar o ouvinte,

[01:35:51] mas é importante que se fala sobre isso,

[01:35:54] então cuidado, porque a gente também vai falar de atrocidade,

[01:35:59] não sem precedentes, mas atrocidades extremas.

[01:36:02] O contexto do massacre de Nanjing,

[01:36:04] também chamado de atrocidade de Nanjing ou estupro de Nanjing,

[01:36:07] eles acontecem ali depois da tomada da cidade, em 1937.

[01:36:12] Os japãos rompem o cerco de Xangai,

[01:36:15] para quem não tem o mapa da China aí na cabeça,

[01:36:18] ele é um porto, e Nanjing fica um pouco mais dentro do país do que Xangai.

[01:36:22] Eles avançam para Xangai até Nanjing, eles conseguem ocupar,

[01:36:26] e ele até hoje é uma mancha nessa história do Japão,

[01:36:30] um período de várias manchas,

[01:36:32] é um período inclusive que afeta relações diplomáticas até hoje,

[01:36:36] e essas atrocidades acontecem em cerca de três meses, até 38 ali.

[01:36:41] Ele não é um confronto militar apenas,

[01:36:44] claro, ele tem um período de confronto militar,

[01:36:45] mas é um evento isolado de atrocidade de violência militar,

[01:36:49] de violência de tropa inferior contra civis,

[01:36:52] principalmente em zona de combate.

[01:36:54] Claro, o avanço, majoritariamente, é feito por terra,

[01:36:57] mas ele é feito também pelo ar.

[01:36:59] O Japão começa a bombardear Nanjing com os caças, os caças-zero,

[01:37:04] atirar em pessoas, enfim, tudo mais.

[01:37:10] Vitimar deliberadamente um monte de civis.

[01:37:14] As motivações para isso, de novo, aqui não é para justificar,

[01:37:20] mas qual foi a explicação dada.

[01:37:23] Os chineses resistiram fortemente ali na luta em Xangai,

[01:37:27] e isso frustrou certamente as tropas e os chefes do exército,

[01:37:33] e com essas perdas nesses dias de combate,

[01:37:37] e por vingança, por retaliação,

[01:37:40] a violência simplesmente aumentou.

[01:37:43] A violência, que já acontecia no conflito, evidentemente,

[01:37:45] mas ela começa a aumentar ali

[01:37:48] para realmente um sentimento de expurgar, de exterminar todo mundo.

[01:37:53] Tem, inclusive, um momento de que foi um suposto desrespeito à autoridade,

[01:37:58] foi indisciplina dos soldados,

[01:38:00] que foi a justificativa que deram no Tribunal de Toca, inclusive,

[01:38:03] que foram oficiais que eram do 13º Batalhão, 16ª Divisão…

[01:38:08] Perdão, 30º Batalhão, 16ª Divisão,

[01:38:12] que relatam que os oficiais estavam agindo com indisciplina

[01:38:20] que eles não foram ordenados a fazer isso.

[01:38:23] Isso é uma defesa alegada no Tribunal de Tóquio.

[01:38:26] Mas o que aconteceu mesmo foi que foi uma vista grossa que fizeram,

[01:38:31] evidentemente, embora não tenha sido ordenada de fato,

[01:38:34] mas não teve ordens para parar também essa caverdade.

[01:38:39] Foi uma defesa que não se configura na veracidade dos fatos,

[01:38:45] de relatos, de testemunhos dos próprios soldados, inclusive.

[01:38:50] Testemunho dos próprios soldados.

[01:38:52] E o comportamento foi de um massacre dos soldados em terra e no ar,

[01:38:57] de matar indiscriminadamente civis,

[01:39:00] fazerem prisioneiros de guerra só para em seguida executá-los,

[01:39:05] num padrão de extermínio, fazendo paredão e execução em massa,

[01:39:12] de todas as formas possíveis, não apenas com tiros, mas também decapitações.

[01:39:17] Tem, inclusive, relatos ao que foi noticiado no Japão, inclusive,

[01:39:21] de um concurso de dois crentes de quem matava mais pessoas com espadas.

[01:39:27] O armamento japonês incluía uma pequena espada,

[01:39:33] uma pequena espada tradicional, inclusive, seria arma branca.

[01:39:37] Quem mataria mais, quem matasse 100 pessoas primeiro com espada,

[01:39:41] venceria e quase conseguiram.

[01:39:44] Além da violência direta que vitimou mais de 10 mil pessoas diretamente,

[01:39:51] em paredão morreram mais de 10 mil, mas o total é muito maior que isso.

[01:39:54] Tem também a questão das mutilações,

[01:39:56] que apesar de não matar a pessoa,

[01:39:59] mas eu vou mutilar deliberadamente todos os membros

[01:40:04] e não vou socorrer a pessoa.

[01:40:05] Muitas pessoas morriam não de tiros para matar, mas de tortura,

[01:40:09] basicamente, de tortura por mutilação e coisa,

[01:40:12] e, por fim, violência sexual,

[01:40:15] não só mulheres, pessoas idosas e meninas,

[01:40:19] estupro coletivo, enfim, na frente das próprias famílias,

[01:40:24] mas aí, de novo, poupar dos detalhes.

[01:40:28] Você tem relatos de pessoas dessa época,

[01:40:32] e crianças que eu falo assim, bebês de colo também nesse sentido.

[01:40:36] E saque, obviamente, saque, depredação das casas,

[01:40:41] incêndio criminoso, incendia nas casas e colocando as pessoas por correr,

[01:40:47] destruindo não só patrimônio físico, mas também moral, psicológico,

[01:40:51] enfim, arruinando famílias completas.

[01:40:57] Os relatos das pessoas que sobreviveram a isso,

[01:41:00] a maioria eram crianças na época, que foram sobreviventes de boeira.

[01:41:06] Inclusive, tinham pessoas que não tinham chineses lá,

[01:41:10] que tiveram que fazer como se fosse um campo emergencial de refugiados,

[01:41:16] um lugar ali para socorrer as pessoas que estavam correndo pelas ruas.

[01:41:21] Inclusive, tiveram jornais japoneses que noticiaram que…

[01:41:28] Jornais que eu falo depois,

[01:41:30] muitos jornais japoneses foram investigar a fundo dessa história,

[01:41:34] que não faltam fontes primárias para dizer que aconteceu,

[01:41:37] apesar de muitas pessoas, inclusive políticos influentes japoneses,

[01:41:41] disserem que não aconteceu, ou que não foi exatamente isso,

[01:41:45] ou que foi apenas parte da guerra, claramente foi algo além.

[01:41:49] Mas, inclusive, eles pegaram testemunhas de que tinham pessoas que…

[01:41:55] Todo mundo que sobrasse depois que as tropas avançavam

[01:41:59] tinham pessoas para pegar as pessoas que sobraram,

[01:42:01] então tropas que ficavam para trás

[01:42:03] para poder ver quem tinha se escondido para poder acabar, exterminar.

[01:42:07] E outras pessoas, inclusive, os corpos da vítima,

[01:42:10] eles aliciavam outros trabalhadores, chineses ali,

[01:42:14] aliciavam como trabalhadores para poder limpar,

[01:42:17] para jogar os corpos no rio,

[01:42:19] para poder limpar a cidade e dizer que não aconteceu,

[01:42:22] o corpo era lavado por rio,

[01:42:23] e os trabalhadores eram mortos e jogados no rio depois.

[01:42:27] Limpa esse estrago todo aqui nesse sentido,

[01:42:31] e não contava para a pessoa que também ia matar.

[01:42:34] Obviamente, na época, teve uma supressão de notícia,

[01:42:37] dentro do estado japonês não foi noticiado de forma alguma,

[01:42:40] foi censurado, revistas acabaram por causa disso,

[01:42:44] mesmo revistas ali que estavam dentro da censura,

[01:42:47] então não estavam publicando nada crítico,

[01:42:49] foram tentar noticiar isso, não acabaram,

[01:42:51] encerraram a publicação das revistas, foram censuradas mesmo.

[01:42:54] E não apenas de discussão,

[01:42:56] mas o conhecimento desse evento foi totalmente suprimido na época.

[01:43:01] Outra coisa que usaram foi também gás veneroso,

[01:43:04] que já era uma violação de guerra na época,

[01:43:07] por conta da Primeira Guerra,

[01:43:09] e isso aparentemente foi usado.

[01:43:11] Claro, dentro do Exército isso foi uma das coisas mais desumanizantes,

[01:43:16] eles justificaram com isso desumanizando essas pessoas,

[01:43:18] mas tem muitos soldados que foram testemunha disso

[01:43:20] e relatam como isso aconteceu, o que aconteceu de fato.

[01:43:24] Você tem mais de um testemunho,

[01:43:25] você tem mais de uma questão de história oral,

[01:43:26] e você tem fotos da época,

[01:43:28] inclusive sempre acham novas fotos disso,

[01:43:31] você tem fotos que estavam em antigos arquivos pessoais de pessoas,

[01:43:36] de pessoas que passaram por lá,

[01:43:37] mas nunca vieram com essas fotos públicas,

[01:43:39] o Viremesh surge algumas fotos em álbuns

[01:43:43] exatamente desse evento que durou meses.

[01:43:46] Você tem participação de jornalistas japoneses

[01:43:48] denunciando os horrores do Japão, isso é muito importante.

[01:43:52] A voz de uma pessoa que é da origem do perpétador,

[01:43:56] eu vou citar aqui o Honda Katsuhichi,

[01:43:59] que ele documenta com entrevistas sobre eventos chineses

[01:44:03] e pega também diários testemunhos de soldados japoneses,

[01:44:06] diários de chineses também,

[01:44:08] para poder compilar.

[01:44:09] Ele fez um livro, o homônimo, fala no Nanquim,

[01:44:13] o recomendo pesquisar, mas é um horror.

[01:44:16] E o saldo total das mortes não tem exatamente,

[01:44:20] mas fica entre 100 mil e 300 mil pessoas,

[01:44:24] sem contar os casos de violência sexual,

[01:44:26] que não fica muito atrás não.

[01:44:28] As pessoas fontes chutam de 20 mil a 80 mil pessoas,

[01:44:33] talvez mais, isso é uma faixa ali.

[01:44:37] É uma controvérsia até hoje.

[01:44:40] Já que a gente está tratando disso,

[01:44:41] teve também uma questão de um projeto administrativo do Japão.

[01:44:46] Não sei se você conhece, Cicles, mas a Unidade 731?

[01:44:49] Já ouviu falar?

[01:44:50] Sim, eu tenho um livro sobre isso, mas não cheguei a ler.

[01:44:52] Olha só, mas recomendo.

[01:44:54] Eu não sei se motivar você a ler é algo tão bom,

[01:44:58] mas é importante saber.

[01:45:00] A Unidade 731 foi um projeto de armas biológicas do Japão.

[01:45:04] Ontem mesmo me apareceu um link de uma notícia

[01:45:07] de alguns veteranos da Segunda Guerra

[01:45:10] falando sobre como eles eram ingênuos, etc.

[01:45:14] E um dos relatos era de um cara que foi trabalhar nessa unidade

[01:45:18] e não sabia o que estava rolando até chegar lá.

[01:45:19] É umas coisas muito terríveis.

[01:45:21] É terríveis, terríveis.

[01:45:22] Por favor, eu não vi isso, mas duraria também saber mais.

[01:45:25] Mas enfim, tem um nome,

[01:45:27] talvez as pessoas lembrem talvez do Mengele, da Alemanha,

[01:45:30] mas comparação por comparação a gente chega a lugar nenhum,

[01:45:33] mas foi um general, que foi o Shiro Ishii,

[01:45:36] que ele era o responsável.

[01:45:38] Eu não duvido que os soldados que trabalhavam lá

[01:45:40] realmente não sabiam disso,

[01:45:42] porque era um projeto secreto, era o desenvolvimento de armas,

[01:45:44] e esse negócio costuma ter sigilo mesmo.

[01:45:47] Os prisioneiros de guerra eram transferidos para lá,

[01:45:49] maioria chineses, mas russo, coreano, mongol

[01:45:52] e até mesmo estadunidenses eram vítimas de lá,

[01:45:54] em que as armas biológicas,

[01:45:56] fazendo um resumo do resumo,

[01:45:57] as armas biológicas eram testadas em seres humanos,

[01:46:00] e aí patógenos, você vai ter peste bubônica,

[01:46:03] você vai ter antrax, tifóide, desinteria, gentracólera,

[01:46:08] você tinha vivissecções, todo tipo,

[01:46:11] ciência, mas usada para o mal.

[01:46:14] Você tem experiência de congelamento, câmera de pressão,

[01:46:17] todo tipo de coisa nesse sentido.

[01:46:22] Que assim, coisas de ondas, tudo no meio da indústria da guerra.

[01:46:26] Inclusive, tem um certo papel dos Estados Unidos depois,

[01:46:31] do Tribunal de Toca, assim, do mais,

[01:46:34] para ocultação disso,

[01:46:36] para talvez o uso das informações dessas armas.

[01:46:40] Há uma certa ocultação, mas a maioria, claro, público,

[01:46:42] já é público,

[01:46:44] descoberta de agentes patógenos, não descoberta de agentes patógenos,

[01:46:47] mas descoberta de efeitos de agentes patógenos.

[01:46:50] Inclusive, realmente, usar pessoas de cobaia,

[01:46:55] além dos sequelas para a vida,

[01:46:58] das pessoas que eram vítimas,

[01:47:01] a contaminação também foi um problema,

[01:47:05] porque muitos dos dejetos e lixos eram lançados em rios,

[01:47:08] ou seja, ainda intoxicava toda a água ali perto

[01:47:13] e liberava, claro, podia fugir pulgas,

[01:47:16] peste bubônica, ratos,

[01:47:18] e todo tipo de vetor de infecções

[01:47:23] chegavam ali na região,

[01:47:25] e a Unidade 731 fica na Manchúria.

[01:47:27] Lançou um filme chinês recentemente, não vi,

[01:47:30] mas que o nome, Unidade 731,

[01:47:33] para lembrar que isso permanece na memória de muita gente,

[01:47:36] mas eu não tenho certeza se todo mundo conhece

[01:47:38] sobre a Unidade 731, e ela está também nessa séria,

[01:47:40] ela não faz parte do conflito de Nanquim,

[01:47:44] mas ela… do conflito não, do massacre de Nanquim,

[01:47:47] mas, evidentemente, ela faz parte de como

[01:47:49] as pessoas eram tratadas como desumanizadas,

[01:47:53] qualquer pessoa que não fosse japonês ali,

[01:47:55] japonês era não-humano.

[01:47:58] Inclusive, o nome que davam as cobaias era Marutá.

[01:48:01] Marutá seria, tipo, trashpaw, tipo, tora,

[01:48:05] como se fosse um boneco de teste mesmo, é horrível,

[01:48:07] e eu acho que isso resume bem, bastante,

[01:48:10] um pouco das atrocidades que o Japão fez na China

[01:48:13] e com os coreanos também, evidentemente.

[01:48:16] Além da superioridade racial,

[01:48:17] a cultura japonesa também seria superior

[01:48:20] e poderia ser imposta pela Ásia

[01:48:22] e deveria ser protegida de ser corrompida pelo Ocidente,

[01:48:26] desde estilos musicais até o sindicalismo,

[01:48:29] que seria uma forma de subversão do militarismo de casta,

[01:48:32] e na religião, o xintoísmo é adotado como política de Estado.

[01:48:46] Nós já temos aqui, no História FM,

[01:48:48] um episódio todo dedicado à Segunda Guerra Mundial no Pacífico.

[01:48:51] Se você botar aí na sua plataforma de podcast,

[01:48:54] guerra no Pacífico provavelmente vai aparecer.

[01:48:56] E não confundir com a guerra do Pacífico do século XIX

[01:48:58] entre Chile de um lado e Bolívia do outro.

[01:49:01] Sobre essa guerra eu ainda não fiz episódio.

[01:49:03] Se tiver alguém aí que sabe,

[01:49:05] que estudou esse assunto e quiser recomendar, fica à vontade.

[01:49:08] Mas, enfim, por conta disso,

[01:49:09] eu não quero ficar focando aqui em batalhas como Midway,

[01:49:12] e, entre outras, porque nós já temos episódios sobre isso.

[01:49:14] Nessa parte eu queria focar mais no expansionismo japonês na Ásia,

[01:49:18] as razões das escolhas de expansão,

[01:49:21] de como era a ocupação japonesa nesses lugares,

[01:49:24] até porque havia ali um conflito entre marinha e exército

[01:49:27] de qual estratégia expansionista seguir, tudo isso, enfim.

[01:49:30] O que você gostaria de falar pra gente sobre isso?

[01:49:32] É, dando um panorama bem geral, e, é claro,

[01:49:34] como eu falei, cada uma dessas perguntas dá muito para um panorama,

[01:49:37] eu gosto bastante disso,

[01:49:38] mas, aqui, novamente, tratando desse sentido,

[01:49:41] eu já vi pessoas em palestras,

[01:49:43] pessoas que não necessariamente estudam o Japão a fundo,

[01:49:46] mas estudam, segundo a guerra nas relações internacionais,

[01:49:49] a gente está trabalhando muito com as guerras,

[01:49:50] principalmente, a primeira e a segunda,

[01:49:52] porque é o início da disciplina que acontece ali,

[01:49:55] o Japão, muitas vezes, ele é uma nota de rodapé.

[01:49:57] E eu já vi uma percepção errônea de que…

[01:50:01] existe uma percepção que o Japão,

[01:50:02] isso não é uma percepção errónea,

[01:50:05] de que…

[01:50:06] existe uma percepção que o Japão foi se expandindo

[01:50:10] apesar das suas faltas de recursos.

[01:50:13] Só que, na verdade, ao contrário,

[01:50:14] o Japão começa a se expandir para ter mais recursos.

[01:50:16] Na verdade, a falta de recursos é a motivação da expansão primária ali.

[01:50:19] Claro, tem a justificativa ideológica, como todo império, né?

[01:50:23] Uma grande expansão, uma grande atrocidade humana,

[01:50:26] ela tem que ter uma justificativa, evidentemente, mentira,

[01:50:29] mas é muito grande, né?

[01:50:31] O Japão, ele estava com falta de recursos,

[01:50:34] já aí na década de 40, 1940,

[01:50:37] de falta de recursos como petróleo, para combustível e tudo mais.

[01:50:40] E como eles não conseguiram avançar muito mais na China,

[01:50:45] eu já falei que teve um nanxin, a expansão para o sul,

[01:50:47] e aí ele começa a atacar Piu Rabo,

[01:50:49] ele ataca a Inglaterra, Holanda, em todas essas batalhas,

[01:50:53] não a Batalha de Okinawa,

[01:50:54] a Batalha de Okinawa é uma retaliação dos Estados Unidos,

[01:50:56] mas isso foi uma decisão do Tojo Hideki,

[01:50:59] aí uma figura que muitas pessoas conhecem,

[01:51:01] que foi o primeiro-ministro da guerra,

[01:51:03] pelo menos o mais famoso, porque foi o último da guerra,

[01:51:06] que ele tomou a guerra e provocou os Estados Unidos

[01:51:10] como necessário para a vitória,

[01:51:14] e essa expansão para a vitória.

[01:51:17] E eu não dei nome,

[01:51:18] mas para essa justificativa do Japão panasiático,

[01:51:22] não é o panazianismo,

[01:51:24] mas é uma justificativa que uniria a Ásia,

[01:51:28] que ele chamava de esfera de co-prosperidade,

[01:51:32] tem um nome completo,

[01:51:33] que seria a esfera de co-prosperidade da Grande Ásia oriental,

[01:51:36] cuidado com esse termo oriental,

[01:51:37] eu estou citando um termo de época,

[01:51:39] não estou citando que você deve usar esse termo,

[01:51:40] esse termo é problemático, mas aí aprenderemos sobre…

[01:51:43] O orientalismo fica para outro dia, se eu me engano, não,

[01:51:47] já temos um episódio de História FM sobre orientalismo,

[01:51:51] mas enfim, isso aí é um nome de um lugar,

[01:51:54] que é a justificativa ideológica pelo qual o Japão daria sua superioridade

[01:51:58] na etnico-social e que ele seria o libertador da Ásia.

[01:52:02] E a natureza do Japão se expandindo é, evidentemente,

[01:52:05] a busca por recursos e a justificativa ideológica de libertação.

[01:52:08] Poderia ser resumido nisso, que seriam as razões de expansão,

[01:52:14] é tão simples quanto parece, porém,

[01:52:16] essa justificativa de expansão já estava acontecendo,

[01:52:21] a continuidade da expansão da China,

[01:52:23] só que agora ela muda de foco, ela vai para o sul,

[01:52:25] ilhas de Borneu, nessas ilhas e tudo mais.

[01:52:28] Só que, obviamente, é uma exploração colonial,

[01:52:31] a justificativa é basicamente uma exploração colonial,

[01:52:33] principalmente no Sudeste Oceático,

[01:52:34] que a prioridade era a aquisição de material essencial para a guerra,

[01:52:37] o sustento das forças de ocupação,

[01:52:39] o próprio sustento, enquanto a dominância não precisa sustentar,

[01:52:42] é um plano para impedir o desenvolvimento industrial

[01:52:45] das regiões aliadoscentes, tipo o Sudeste Oceático,

[01:52:49] realmente castrar, cortar o desenvolvimento industrial

[01:52:53] do Leste Oceático, assegurar o Japão

[01:52:56] com uma única potência industrial e dominadora de toda aquela região.

[01:52:58] E aí ele teria não apenas fontes de matéria-prima,

[01:53:01] mas todo um mercado de produtos manofaturado,

[01:53:04] um mercado de dominação colonial e mais forças de trabalho, enfim.

[01:53:07] A questão do massacre de Nanking,

[01:53:09] ela foi uma retaliação muito violenta,

[01:53:12] mas não quer dizer que o abuso nas ocupações coloniais

[01:53:17] fosse tão diferente.

[01:53:20] Se eu fosse poder definir, era irracionalidade,

[01:53:23] e selvageria, cuidado definindo povos racializados como selvagens,

[01:53:29] mas o comportamento era desumano, é isso que eu quero dizer.

[01:53:33] Total desrespeito pelas pessoas, através de trabalho forçado,

[01:53:37] que coreano-chinês já eram submetidos a isso, mas dessa vez,

[01:53:40] indonésios, filipinos, das novas zonas de dominação,

[01:53:46] eles eram mobilizados forçadamente

[01:53:48] para realizar os trabalhos braçais que as tropas não queriam fazer,

[01:53:52] principalmente nas frentes de batalha,

[01:53:54] e muitas das pessoas morrem de má nutrição,

[01:53:58] exaustão, maus tratos, enfim.

[01:54:01] Além dos saques, dos incêndios, dos estupros,

[01:54:03] os massacres ali, que viraram rotina.

[01:54:06] Era realmente uma estratégia de extermínio,

[01:54:08] mas é daí que surge um termo e um fator conhecido

[01:54:14] que as pessoas conhecem de nome, mas talvez não sabem muitos detalhes,

[01:54:17] que são, isso aqui é um eufemismo,

[01:54:19] é um termo, então, entre aspas, as mulheres de conforto,

[01:54:22] as iansu, que seria o termo em japonês.

[01:54:25] As iansu, e lembrando, isso é um termo eufemismo de quê?

[01:54:29] Escravidão sexual.

[01:54:31] Tudo bem que o termo agora virou sinônimo dessa escravidão sexual,

[01:54:34] então, por isso que ainda se usa esse termo,

[01:54:36] mas cuidado, sempre quando eu uso esse termo,

[01:54:38] eu prefiro colocar entre aspas, ou iansu, ou mulheres de conforto,

[01:54:42] que eram mulheres meninas também, muito jovens,

[01:54:46] maioria coreanas, inclusive, que eram transportadas para outros lugares,

[01:54:49] mas também tiveram pessoas das próprias outras ilhas ocupadas,

[01:54:53] que elas eram aliciadas e forçadas, ou até mesmo enganadas, coibidas,

[01:54:58] para trabalhar nessas estações de conforto na linha de frente.

[01:55:02] E para que servia isso?

[01:55:03] Para ser uma válvula de escape e controle dos soldados.

[01:55:07] A decisão era basicamente dos soldados se aliviar

[01:55:12] para que a violência não acabasse com toda a dominação colonial

[01:55:15] e eles pudessem obedecer mais sistematicamente,

[01:55:17] ou seja, um horror, um horror completo.

[01:55:20] As mulheres de conforto são um problema até hoje.

[01:55:22] De novo, eu falo, a massacre de Naki,

[01:55:24] as mulheres de conforto também são esse problema para a diplomacia

[01:55:26] do Japão até hoje, porque muitas delas estavam vivas

[01:55:30] e conseguiram testemunhar, coreanas, já tem poucas vivas,

[01:55:34] mas ainda lutaram contra, é um problema diplomático até hoje.

[01:55:39] Mas elas eram aliciadas e depois, inclusive, esse termo iansu,

[01:55:42] ele vai voltar aqui, porque eu também vou falar

[01:55:45] da dominação dos Estados Unidos no Japão,

[01:55:47] porque os Estados Unidos e o Japão, o Japão fez a mesma estratégia

[01:55:49] com mulheres japonesas e com os Estados Unidos,

[01:55:51] de ter estações de conforto para as tropas estadunidenses

[01:55:53] que estavam dominando para eles não violentarem mais pessoas.

[01:55:56] Enfim, muito necessário depois.

[01:55:58] Não preciso dizer que a ocupação japonesa

[01:56:01] não traz essa libertação prometida,

[01:56:03] ela traz brutalidade, exploração,

[01:56:05] e inclusive traz um sentimento de resistência

[01:56:08] para as regiões ocupadas, principalmente da China.

[01:56:11] E nos sudestes da África, você teve áreas que inicialmente,

[01:56:15] inicialmente, receberam os japoneses como supostos libertadores

[01:56:19] que realmente estariam com um problema

[01:56:21] e talvez viram o Japão com uma certa esperança ser as tropas,

[01:56:24] e isso foi o caso da Birmania, Minhamar hoje em dia,

[01:56:28] e Indonésia também, mas rapidamente isso se quebrou,

[01:56:35] não só pela arrogância e o senso de superioridade que o Japão tinha,

[01:56:40] mas discriminação racial, exploração, revoltas,

[01:56:44] tem inclusive um filme japonês um pouco mais antigo,

[01:56:46] que é a Arpa da Birmania,

[01:56:48] que fala sobre o desencanto de um soldado japonês

[01:56:50] que vê o que é isso que eu estou fazendo.

[01:56:54] E ele decide, na verdade, ficar com os birmaneses,

[01:56:58] se tornar um monge e abdicar totalmente.

[01:57:00] Inclusive, se era punido com morte, a deserção e tudo mais.

[01:57:03] E ele chega, não, isso não é para mim.

[01:57:06] Um filme japonês com essa perspectiva

[01:57:07] é um filme japonês que fez tanto sucesso que ele teve um remake.

[01:57:10] O remake nem mudou nada, foi só uma atualização com cores, basicamente.

[01:57:14] E é um filme maravilhoso, fica aí a recomendação, inclusive,

[01:57:18] que mostra que mesmo os japonês não concordam com essa ideia

[01:57:21] logo depois da guerra, o filme antigo, década de 60, então.

[01:57:24] Mas, obviamente, o Japão não libertou a Ásia,

[01:57:26] ele só teve a justificativa disso,

[01:57:28] e no sudeste asiático fez não muito diferente

[01:57:31] do que ele fez com a China e com a Coreia.

[01:57:33] Você chamar essa agressão japonesa de uma libertação

[01:57:36] e tentar justificar ou relativizar o que ele fez

[01:57:38] por causa de que realmente o ocidente representava o ameaça

[01:57:41] e o ocidente é tão violento no seu colonialismo quanto é,

[01:57:45] mas você tentar justificar um colonialismo pelo outro

[01:57:47] é se virar história totalmente com isso para baixo,

[01:57:49] isso não se justifica.

[01:57:51] E o que você poderia nos contar sobre o fronte interno no Japão,

[01:57:55] sobre a vida das populações civis no país

[01:57:57] enquanto o Japão se expandia e conseguia algumas conquistas importantes?

[01:58:01] Olha, parece que eu estou falando aqui

[01:58:02] porque eu falo sempre da população japonesa,

[01:58:05] é porque eu sinto que pouco se fala dela mesma,

[01:58:07] eu tenho essa impressão, a impressão é totalmente minha.

[01:58:09] Mas essa expansão tem um custo, não só o custo de recursos,

[01:58:13] porque apesar de eles estarem expandindo por recursos,

[01:58:17] eles também tinham que gastar recursos para explorar.

[01:58:20] E tem um preço também social nisso, porque o expansionismo

[01:58:24] do Japão colonialismo exige a repressão dentro.

[01:58:27] Eu fiz aqui o preâmbulo de como a constituição censurava,

[01:58:31] mas o fronte interno era um controle ideológico rígido,

[01:58:34] que é só reiterando aqui,

[01:58:36] destruição total de qualquer possibilidade de democracia

[01:58:39] e uma privação econômica que era crescente.

[01:58:42] E principalmente nos anos finais da guerra, isso se expande cada vez mais.

[01:58:47] O pessoal poderia não ter um senso de informação

[01:58:50] ou ter um controle ideológico,

[01:58:51] mas a fome não engana,

[01:58:53] você não tem como controlar a fome

[01:58:55] quando você não consegue alimentar a sua população.

[01:58:57] E isso tem seu motivo,

[01:58:59] isso foi evidentemente muito atrelado à guerra,

[01:59:03] que foi quando o povo realmente percebeu que essa guerra

[01:59:05] tinha um custo.

[01:59:06] Para garantir o apoio público,

[01:59:08] o Japão aqui só reiterando, desmantelou qualquer liberdade civil que tinha

[01:59:12] e a conformidade garantindo um sistema escolar

[01:59:16] que visava formar novas pessoas que apoiassem o império

[01:59:20] e tivessem uma perspectiva homogênea,

[01:59:26] tirando a diversidade de pensamento,

[01:59:28] mas só tendo o conhecimento que era aprovado pelo Estado,

[01:59:30] militarização da educação

[01:59:32] e claramente propaganda.

[01:59:33] Eu lembro de um pôster,

[01:59:35] eu vi algumas pessoas que têm um sentimento pós-colonial,

[01:59:40] pessoas do movimento decolonial,

[01:59:42] erroneamente usando um pôster da época,

[01:59:45] que é um pôster de duas pessoas com roupa tradicional,

[01:59:47] e eram roupas tradicionais de Maiko, que são aprendiz de Geisha,

[01:59:51] com um pôster com elas segurando um pôster do Winston Churchill

[01:59:54] e tapando o nariz, como se fosse fedido,

[01:59:58] tipo assim, falando resistência anti-ocidental.

[02:00:00] Já vi pessoas compartilhando isso sem saber o contexto,

[02:00:03] que isso aqui vinha da época da guerra.

[02:00:05] Então, a propaganda ensinava o desprezo,

[02:00:09] que talvez se você desvincular de um contexto,

[02:00:11] o problema é tomar cuidado,

[02:00:12] que anticolonial não é o pós-colonial.

[02:00:15] O anticolonial do Japão quer substituir um colonialismo pelo outro.

[02:00:19] Em muitas dessas propagandas e pôsters,

[02:00:21] textos escolares, textos de revistas,

[02:00:25] ensinava desprezo por outras nações,

[02:00:27] China, Coreia, Europa inteira,

[02:00:29] temas militaristas e canções militares

[02:00:31] eram introduzidos para as crianças,

[02:00:33] inclusive com termos racistas,

[02:00:37] com relação a isso, e uma indocinação para formar novos soldados,

[02:00:42] para formar uma massa de população que aceita disciplina militar,

[02:00:46] com indocinação estatal, ditatorial muito grande.

[02:00:51] E funcionou para a maioria dos estudantes,

[02:00:55] e manipulação, difamação, supressão de fatos, enfim,

[02:00:59] e cada vez um apoio ao imperador.

[02:01:02] Tem, inclusive, propaganda fabricada.

[02:01:04] Teve um incidente, foi um incidente pontual,

[02:01:05] mas só para citar um exemplo disso,

[02:01:08] tiveram três soldados engenheiros que foram mortos

[02:01:13] por conta de um acidente de um pavio curto,

[02:01:15] esses três engenheiros acabaram explodindo, explodiram,

[02:01:19] sem querer em Shanghai, lá no incidente de Shanghai, lá atrás, antes do massacre.

[02:01:22] E isso foi vendido como história de heroísmo,

[02:01:25] de que eles eram bombas humanas e que se sacrificaram

[02:01:29] e de que, tipo, eles lutaram tão bravamente

[02:01:33] que para conquistar eles explodiram. Não, foi um acidente.

[02:01:36] Isso foi vendido como se fosse um caso de suicídio por bomba.

[02:01:43] Inclusive, a mentira do sacrifício, ela é muito forte.

[02:01:48] O pessoal tem a ideia dos kamikaze, dos pilotos de guerra,

[02:01:53] isso não é só uma questão de estratégia de guerra,

[02:01:57] isso era uma propaganda de que essas pessoas estavam num nível

[02:02:02] de que para conquistar tudo usava a sua própria vida

[02:02:04] e gritavam, aqui a gente tem a impressão que eles gritavam apenas banzai,

[02:02:08] mas seria tenorêka banzai,

[02:02:11] que é banzai, se fosse traduzir ao pé da letra, seria dez mil anos,

[02:02:16] ou dez milhares de anos,

[02:02:19] tipo que vive o imperador por dez mil anos, o banzai se viva.

[02:02:25] Só que, na verdade, o testemunho de que essas pessoas no rádio

[02:02:28] não gritavam isso, na verdade, talvez gritavam

[02:02:31] clamando pelas pessoas que eles deixaram mães, esposas.

[02:02:34] Inclusive, o termo em japonês mais usado não é kamikaze,

[02:02:37] embora as unidades kamikaze, elas eram coisas…

[02:02:40] Muitas pessoas falam kamikaze, perdão,

[02:02:41] eu falo kamikaze por causa da pronúncia do eno japonês,

[02:02:44] mas elas eram atokotai, que eram as unidades de ataque especial.

[02:02:48] Então, eram unidades, quando acabavam a munição, elas se jogavam,

[02:02:52] eram ensinadas a se jogarem e se elas não se jogassem,

[02:02:56] eu morria de qualquer jeito, porque ia contar como dizer que eu ia morrer.

[02:02:59] Então, muitas delas, inclusive, não iriam fazer isso,

[02:03:02] mas era vendido como essa, morrer para o imperador era valoroso.

[02:03:06] Um silêncio total de atrocidades, obviamente.

[02:03:09] E falando da vida econômica, a vida econômica,

[02:03:12] ela declina o salário, piora as condições,

[02:03:15] e inclusive teve exploração do trabalho,

[02:03:18] porque com escassez de mão de obra,

[02:03:20] teve uma flexibilização de lei trabalhista,

[02:03:22] ou seja, as pessoas trabalhavam mais de 12 horas por dia,

[02:03:25] recebendo menos, mas elas tinham que trabalhar, porque senão não viviam.

[02:03:29] Então, tiverem mulheres e crianças sendo autorizadas…

[02:03:31] Mulheres não eram totalmente autorizadas a trabalhar,

[02:03:34] mas mulheres adultas, mas crianças sendo autorizadas a trabalhar,

[02:03:37] exaustivamente, com trabalhos perigosos, em fábrica,

[02:03:41] descanso obrigatório foi totalmente suspenso,

[02:03:43] pessoas eram designadas para trabalhos noturnos e diurnos,

[02:03:47] em turnos intermináveis.

[02:03:48] Enquanto isso, a comida em casa faltava.

[02:03:54] Teve racionamento do arroz,

[02:03:55] o arroz que é a base da comida japonesa,

[02:04:00] do Brasil também, no final das contas, arroz e feijão.

[02:04:03] Pessoal teve o racionamento do arroz,

[02:04:05] comia alimento improvisado,

[02:04:09] pegava farelo que sobrava para tentar fazer farinha,

[02:04:12] para poder fazer pão.

[02:04:13] Uma pessoa relatava que comia folha de abóbora,

[02:04:15] pegava as folhas dos vegetais que sobrava,

[02:04:17] sobrava de lixo para fazer comida.

[02:04:19] Enquanto isso, tinha uma desigualdade crescente,

[02:04:22] porque havia privilégios para poucas pessoas,

[02:04:25] generais, até mesmo os grandes oficiais militares,

[02:04:29] e também proprietários de fábrica de armamento.

[02:04:32] Tinha banquete suntuoso, casas grandes,

[02:04:35] pessoas para trabalhar para ele.

[02:04:37] Não só oficiais militares, mas também donos de fábrica,

[02:04:39] donos de subsidiária da Zaibatsu, que citei anteriormente.

[02:04:43] Muitas pessoas relatam as fábricas,

[02:04:45] que eram tipo assim, eu sou dono da fábrica,

[02:04:47] que faço só o cockpit do avião.

[02:04:48] Geralmente essa pessoa tinha muita garantia.

[02:04:51] Enquanto isso, o trabalhador que está lá vendo essa vida

[02:04:55] tinha que se contentar com o racionamento, enfim.

[02:04:58] E é claro, o custo humano da guerra foi tremendo,

[02:05:01] ainda mais quando a guerra chegou no território japonês,

[02:05:04] porque até então, apesar de ter todos isso,

[02:05:07] isso ainda vai ficar pior quando em 44,

[02:05:10] a partir de 44, começam os bombardeios.

[02:05:12] E os bombardeios eram indiscriminados,

[02:05:15] eles não diferenciavam civis militares,

[02:05:17] principalmente dos Estados Unidos,

[02:05:18] aqui eu estou falando que quem conseguiu atingir esse fronte interno

[02:05:22] ali foram os Estados Unidos.

[02:05:23] E o Japão que já sofria com as dificuldades internas do próprio Japão,

[02:05:29] ainda tinham que sofrer bombardeios de outros.

[02:05:32] Então, a população sofreu de qualquer lado.

[02:05:36] E é claro, o apoio foi diminuindo ao longo do tempo.

[02:05:39] Eu perguntei antes como o Japão viveu durante o auge do expansionismo,

[02:05:42] mas se depois que o Japão começa não só a recuar na guerra,

[02:05:45] como também ser severamente bombardeado pelos aliados,

[02:05:48] com bombardeios que já eram extremamente destrutivos,

[02:05:51] mesmo antes das bombas atômicas.

[02:05:52] Aproveitando a deixa que você falou,

[02:05:54] que eu falei dos bombardeios indiscriminados dos Estados Unidos,

[02:05:56] isso é quando o custo humano começou também a contar como vida de violência direta.

[02:06:00] Os bombardeios que eles começam,

[02:06:03] aqui a gente está falando de bombardeios incendiários dos Estados Unidos,

[02:06:06] que foi uma estratégia que eles utilizaram,

[02:06:08] que era para atingir civil, militar,

[02:06:11] áreas industriais, área residencial, área comercial,

[02:06:13] o que fosse com o ataque incendiário.

[02:06:14] Por que ataque incendiário?

[02:06:16] As casas, principalmente para fácil e construção e tudo mais ou menos,

[02:06:20] é basicamente papel e madeira.

[02:06:22] Principalmente as casas mais pobres,

[02:06:24] elas eram madeira de muito fácil reconstrução,

[02:06:30] até por causa de desastres naturais.

[02:06:32] Inclusive vai ter um grande desastre natural

[02:06:34] com o grande ferramoto de Canto alguns anos antes.

[02:06:37] Inclusive isso dificulta um pouco a entrada do Japão na guerra,

[02:06:39] mas enfim, é outro caso.

[02:06:42] O bombardeio incendiário é justamente para queimar as cidades inteiras

[02:06:45] de uma maneira muito fácil.

[02:06:46] Ainda mais que o planejamento urbano é umas casas muito um do lado da outra,

[02:06:50] e quem foi para o Japão, já viu foto do Japão

[02:06:53] e viu a área residencial mesmo,

[02:06:54] não estou falando daqueles grandes centros urbanos,

[02:06:57] não, estou falando da área residencial mesmo.

[02:06:58] As casas são um do ladozinho da outra.

[02:07:00] Às vezes é um muro muito pequeno, um bequinho muito curto,

[02:07:03] então facilitava muito você queimar bairros inteiros

[02:07:06] com uma bomba ou menos até.

[02:07:08] Teve relato de mais de, estimativa, de mais de 80 mil mortos em uma noite.

[02:07:14] Ou até até se ficar contando o número de mortos,

[02:07:17] como se fosse contador.

[02:07:19] É uma tragédia, se morre uma, se morre um milhão de pessoas,

[02:07:22] mas enfim, para ter noção da escala é muito interessante nesse sentido,

[02:07:28] porque os bombardeios incendiários mataram mais pessoas

[02:07:30] do que as bombas atômicas, antes de chegar nelas,

[02:07:33] que outro desastre sem precedentes e sem posteridade,

[02:07:37] eu espero não pagar com a língua isso que estou falando,

[02:07:39] eu espero que não tenha mais nenhum desastre nuclear por bomba,

[02:07:42] enfim, os bombardeios incendiários eram muito trágicos.

[02:07:47] Citando outro filme aqui, talvez não esteja atrapalhando nas recomendações,

[02:07:50] não sei, mas outro filme que é muito famoso, esse sim,

[02:07:53] que é o Rotaro no Haká, o Túmulo dos Vagalumes,

[02:07:56] que é um filme da Ghibli, a Ghibli que se funda inclusive por pessoas

[02:07:59] que são críticas à guerra e membros de sindicatos de artistas,

[02:08:02] pós-guerra, obviamente, mas enfim,

[02:08:05] que retrata a vida de dois irmãos nesses bombardeios de Tóquio,

[02:08:09] verdade, a cidade bombardeada era Tóquio principalmente, a capital,

[02:08:14] e enquanto tudo que amava, a defesa quase não havia,

[02:08:20] as defesas eram pessoas com baldes de água

[02:08:23] e principalmente mobilizada pela Associação de Morado de Bairro,

[02:08:26] e contra a guerra aérea moderna, isso não foi muito pouco efetivo,

[02:08:31] na verdade, foi quase nada efetivo,

[02:08:33] e não havia qualquer ajuda de corpo de bombeiro socorrista,

[02:08:37] nesse sentido, era muito pouco, então, eram as pessoas por elas mesmas,

[02:08:40] é claro, os bombardeios dentro de centros militares, eles se ajudavam,

[02:08:44] mas assim, quando bombardeava residencial,

[02:08:46] era um custo que as pessoas estavam dispostas a pagar para continuar a guerra,

[02:08:50] e à medida que isso acontecia, e condição cada vez mais intolerável,

[02:08:55] o desilusão e sentimento anti-guerra começou,

[02:08:59] e as pessoas começaram a ter sentimentos contra,

[02:09:04] finalmente, mas, claro, lembra, o controle ideológico dificultou

[02:09:08] essa formação desse sentimento anti-imperador, anti-guerra,

[02:09:11] que ali, na hora que a guerra chega no seu prato vazio,

[02:09:16] ou na sua casa destruída, na sua família desmantelada,

[02:09:19] você vê que o preço último é você pagar a sua própria vida

[02:09:22] para que as pessoas continuem na guerra, então, é óbvio,

[02:09:28] perdendo a comparação, mas, tipo assim,

[02:09:29] as pessoas dentro do Japão não estavam sofrendo…

[02:09:34] Perdão, as pessoas dentro do Japão

[02:09:36] estavam sofrendo tanto quanto as pessoas que o Japão dominava,

[02:09:39] os bombardeios, claro,

[02:09:44] que depois vão ficando mais intensos, não era tão diferente

[02:09:47] de como eles foram tratados pelo próprio governo e pelos aliados,

[02:09:52] não era muito diferente do que o Império Japonês fez no resto da Ásia,

[02:09:55] e a raiva popular no Japão, ela começa muito grande,

[02:09:59] tem que lembrar que toda guerra você tem uma população que sofre,

[02:10:04] e, enfim, eles tinham muita dificuldade de se mobilizar ainda,

[02:10:07] mas era uma resistência que foi um pouco tardia,

[02:10:11] 1944, a gente olhando um pouco para trás, a guerra acaba em 1945,

[02:10:16] é uma resistência um pouco tardia, se comparar com essa resistência

[02:10:19] que aconteceram na Alemanha nazista e na Itália fascista,

[02:10:24] mas é semelhante, as causas e a mobilização,

[02:10:29] e, evidentemente, não tiveram muito tempo de se organizar,

[02:10:32] mas buscavam defender seus direitos e liberdades,

[02:10:35] você tem relatos de pessoas, mães de soldados,

[02:10:38] que culpavam, botavam o dedo na cara do oficial e falavam,

[02:10:44] meu filho morreu por sua causa, existem relatos de até pessoas

[02:10:48] mais idosas contra a Rihanna, mas aí acaba entrando muito nos relatos,

[02:10:52] e citando fontes, que eu vou recomendar depois,

[02:10:55] o livro do Saburo Enaaga, ele chega a detalhar um pouquinho

[02:10:58] quais eram as falas com as fontes primárias deles, mas, enfim.

[02:11:02] Então, isso, claro, vai combinar com o desastre da bomba,

[02:11:06] teve, inclusive, o filme agora, teve toda aquela questão

[02:11:09] com o filme do Oppenheimer,

[02:11:11] eu senti que o filme do Oppenheimer não detalha tanto,

[02:11:15] eu achei um filme tanto quanto esquisito,

[02:11:17] mas não cabe falar do filme aqui, cabe falar da questão da bomba.

[02:11:21] A bomba é a combinação desse bombardeio discriminado,

[02:11:24] você tem a primeira das bombas em uma área civil, em Hiroshima,

[02:11:29] que é um território profundamente residencial,

[02:11:33] no máximo, uma indústria ou outra, mas o lugar onde eles jogam a bomba,

[02:11:38] inclusive a bomba explodida, se não me engano,

[02:11:40] acho que era 60 metros do solo, mas é uma altura relativa do solo

[02:11:43] pra maximizar o raio da bomba, e majoritariamente civil,

[02:11:47] quase nenhum soldado morreu na bomba,

[02:11:49] foram alvos majoritariamente civis,

[02:11:51] e os tremores da bomba eles foram sentidos até em outras regiões.

[02:11:56] Eu morei no Japão um tempo, isso é um relato pessoal meu,

[02:11:59] e eu conheci uma senhora, uma senhora que morava na casa onde eu morava,

[02:12:03] eu fiquei com a Roach Family, e ela falou,

[02:12:05] porque ela viveu na época da guerra, quando ela era criança,

[02:12:08] ela falou que ela lembra do dia, porque ela sentiu,

[02:12:12] ela estava um pouco mais perto de Hiroshima,

[02:12:17] que ela sentiu ventos fortes, isso fica na mente dela,

[02:12:22] e logo depois ela lembra de ouvir o rádio falando disso,

[02:12:25] ela não estava em Tóquio, ela estava um pouco mais ali,

[02:12:27] pra região de Kansai, que é mais perto da onde a bomba explodiu,

[02:12:32] mas ela fala, ela relata isso, não há onda de choque,

[02:12:35] porque onda de choque é limitada,

[02:12:37] mas ela relata que sentiu ventos e lembra de ouvir no rádio,

[02:12:41] então é uma coisa que ficou muito na cabeça dela.

[02:12:43] E a bomba, ela vitimiza pessoas antes e depois o impacto,

[02:12:47] três dias depois você tem a bomba em Nagasaki,

[02:12:50] e são bombardeios os dois indiscriminadamente,

[02:12:55] e que o efeito da bomba não é só, só, só, entre aspas, gente, pelo amor de Deus,

[02:12:59] mas não é só o impacto inicial, mas o que vem depois,

[02:13:03] porque a bomba, além de explodir e vitimar um monte de pessoas,

[02:13:06] um monte de casas, de uma vez, logo depois você tem

[02:13:10] os riquecimentos líquidos da bomba, que ela forma grandes nuvens

[02:13:14] e começa a chover uma chuva radioativa, que é a chamada chuva negra,

[02:13:17] que realmente infecta as pessoas com mais radiação,

[02:13:22] ela deixa todo ali ao redor, radioativo,

[02:13:25] e os efeitos da radiação, eles são diversos,

[02:13:30] eu teria que chamar uma pessoa que entenderia um pouco mais

[02:13:33] sobre o que exatamente acontece ali dentro do seu corpo,

[02:13:36] mas você tem pessoas que a pele, por exemplo, começa a derreter,

[02:13:41] então muita gente relata que havia pessoas que estavam cegas

[02:13:44] e maquiando, mais ou menos, tentando guiar uma outra em fila,

[02:13:46] mas com a pele derretendo,

[02:13:49] pessoas que os corpos foram lavados pela chuva negra e acabaram em rios,

[02:13:53] pessoas que não sofrem um impacto tão grande,

[02:13:56] mas que pouco tempo depois começam a cuspir sangue e falecem,

[02:13:59] e isso tudo você tem ainda os enfermeiros,

[02:14:03] os socorriços e médicos que tentam entrar para socorrer essas pessoas,

[02:14:07] e ninguém sabia exatamente os efeitos disso,

[02:14:10] então ninguém sabia como lidar com aquilo, com radiação,

[02:14:13] ninguém sabia exatamente ali o que estava acontecendo,

[02:14:17] e as pessoas que foram ajudar também foram vitimadas pela contaminação depois,

[02:14:22] então foi uma tragédia sem precedentes,

[02:14:24] e até hoje não tivemos em outro país sendo bombardeado com bombas atômicas,

[02:14:29] além do Japão,

[02:14:30] mas claro, vítimas de acidentes nucleares com certeza teve, obviamente,

[02:14:34] mas foi um ataque indiscriminado que vitimou civis,

[02:14:38] vitimou uma população inocente, falo com tranquilidade inocente,

[02:14:42] muitos inclusive não japoneses, muitos coreanos que estavam lá a trabalho,

[02:14:47] então populações colonizadas,

[02:14:49] então mesmo quando você não tinha para onde fugir ainda vêm ataques de bombas,

[02:14:55] bombas que ninguém entendia o que estava acontecendo,

[02:14:58] ninguém entendeu o que aconteceu,

[02:15:00] eu tive a oportunidade também de conhecer dois sobreviventes,

[02:15:03] Ribacuxá, que seria o nome,

[02:15:05] Ribacuxá é um sobrevivente da bomba nuclear,

[02:15:08] conheci dois que emigraram aqui para o Brasil,

[02:15:11] falam português,

[02:15:13] eu conversei com eles no início da faculdade,

[02:15:15] quando eu comecei a graduação,

[02:15:17] ele também me marcou bastante,

[02:15:20] eu estava em Brasília, eu conversei com eles,

[02:15:22] e os relatos que eles falam que eles eram crianças e viram os pais morrerem,

[02:15:27] inclusive eles dão esse depoimento,

[02:15:28] e são pessoas que são ativistas anti-nucleares,

[02:15:31] isso realmente deixa marcas,

[02:15:33] e o que transformou Hiroshima naquele momento,

[02:15:35] e Nagasaki também as cidades,

[02:15:37] foi de um terreno de cinzas,

[02:15:38] principalmente no epicentro da bomba,

[02:15:40] você tem inclusive em Hiroshima,

[02:15:42] Hiroshima é uma cidade que você inventou,

[02:15:44] Hiroshima é polo-tecnológico e tudo mais,

[02:15:46] mas que na praça da bomba você tem um dos poucos prédios que sobraram,

[02:15:51] que é o Genbakudomo, o domo da bomba,

[02:15:53] que era uma construção inclusive de um arquiteto europeu,

[02:15:56] acho que ele era um lugar que ia ser exposição de arte,

[02:15:59] mas ele ainda se mantém com os tijolos da época,

[02:16:01] e pessoas, crianças, mulheres, adultos,

[02:16:05] todo tipo de pessoas,

[02:16:06] que foram vitimizadas uma vez, foram hospitalizadas,

[02:16:09] de repente, com ataque assim, sem justificativa nenhuma.

[02:16:16] Ao mesmo tempo, o que seria apenas uma defesa,

[02:16:20] torna-se também um instrumento de supremacia,

[02:16:23] provar a superioridade japonesa,

[02:16:25] e os japoneses como os líderes da Ásia.

[02:16:28] Especialmente, coreanos e chineses seriam inferiores,

[02:16:32] e o Japão teria o direito de governá-los.

[02:16:41] Nessa última pergunta, a gente falou de bombas atômicas e tal,

[02:16:45] e a gente falou um pouco da rendição japonesa

[02:16:47] naquele outro episódio sobre a Guerra do Pacífico,

[02:16:49] mas como foi um evento muito traumático para o Japão,

[02:16:52] e isso se conecta com a última pergunta que eu vou fazer no episódio.

[02:16:56] Eu queria te perguntar o impacto psicológico,

[02:16:59] social e cultural das bombas de Hiroshima e Nagasaki,

[02:17:02] pensando até na autoestima elevada que o povo japonês tinha,

[02:17:05] que estava sendo trucidada pela primeira derrota militar

[02:17:07] em uma guerra declarada para nações estrangeiras

[02:17:09] na história do país e tal.

[02:17:10] Você falou dos impactos da bomba em si,

[02:17:14] o impacto físico e radiação, etc.

[02:17:17] Mas pensando a nível nacional, como foi o impacto disso?

[02:17:20] A nível nacional mancha o Japão até hoje,

[02:17:24] e também principalmente tratar, antes disso, um pequeno contexto,

[02:17:28] o Japão já ia se perder.

[02:17:29] A rendição era praticamente…

[02:17:32] Não a redição, mas a dominação, a perda,

[02:17:36] independente de como ela fosse, já era uma questão de meses,

[02:17:39] no máximo meses.

[02:17:40] O Japão estava sem recurso, o Japão estava falido.

[02:17:42] O que aconteceu com a bomba foi um catalisador hediondo

[02:17:48] que transformou as pessoas em cobaias humanas

[02:17:51] para tentar acelerar esse final da guerra que ia acabar…

[02:17:54] A bomba foi em agosto,

[02:17:55] inclusive, esse ano a gente completou 80 anos da bomba,

[02:17:58] e do fim da guerra também, evidentemente.

[02:18:00] Mas ia durar no máximo alguns meses,

[02:18:03] o que os Estados Unidos queria era só acelerar alguns meses,

[02:18:06] e claro, isso conseguiu.

[02:18:07] Agora, sobre impactos psicológicos,

[02:18:10] pensa como um desastre desse traria um sofrimento indescritível

[02:18:14] em princípio da população civil.

[02:18:17] A gente está falando do impacto psicológico dessas pessoas,

[02:18:19] porque você tem vítimas japonesas, não japonesas,

[02:18:23] ali dessa bomba,

[02:18:24] e você tem um choque tremendo de uma consciência coletiva

[02:18:27] que se via ali com todo um embate de ideologia militar sendo colocada,

[02:18:33] e o questionamento dessa ideologia militar com o momento de passar fome.

[02:18:37] E você ainda chega com um desastre desse,

[02:18:42] é uma experiência que é traumática,

[02:18:44] e gera traumas que inclusive se traduzem na arte.

[02:18:49] Eu estou com alguns artigos, inclusive, para publicação,

[02:18:53] vamos ver como funciona,

[02:18:55] sobre o impacto dos traumas de guerra na arte japonesa depois.

[02:19:00] A gente fala muito de anime, do mangá, mas também filmes,

[02:19:03] e esse tipo de coisa, inclusive, há uma mudança nesse sentido.

[02:19:07] Falando dessa questão cultural,

[02:19:09] o primeiro filme animado do Japão, o longa,

[02:19:12] o primeiro longa animado do Japão,

[02:19:14] ele está disponível no YouTube, já está no domínio público,

[02:19:17] se não me engano, mas ele está disponível para quem quiser ver,

[02:19:20] que é o Momotaro Umino Shimpé,

[02:19:22] que é Momotaro e os Bravos Guerreiros do Mar.

[02:19:24] Ele é uma propaganda política para crianças,

[02:19:26] Momotaro é uma lenda do Japão meio histórica,

[02:19:29] é uma historinha condifada desse menino Momotaro

[02:19:32] que se alia a três animais para derrotar os Oni.

[02:19:35] Eles encenam o Momotaro como um general de guerra

[02:19:40] que vai libertar os Oni, libertar o Japão dos Oni,

[02:19:45] que são ingleses.

[02:19:46] Tanto que no Momotaro você tem o Onigashima,

[02:19:48] Onigashima é uma ilha onde os Onis moram,

[02:19:50] aí no mapa do desenho, eles mostram a Inglaterra escrito Onigashima.

[02:19:56] A Inglaterra, essa ilha seria essa terra dos Onis,

[02:19:59] é claramente propaganda nacionalista para criança.

[02:20:01] Só que você tem uma grande mudança,

[02:20:03] você tem mudança cultural de que o átomo,

[02:20:05] e principalmente a dualidade do uso da ciência,

[02:20:08] começa a ser um tema mais recorrente em artes japonesas.

[02:20:12] Eu vou citar aqui o primeiro anime a ser realizado de sucesso,

[02:20:16] até hoje muito famoso no Japão.

[02:20:17] Nós conhecemos ele como Astro Boy,

[02:20:19] e os japoneses conhecem ele como Tetsuwan Atomu,

[02:20:22] que se fosse forçar um pouco a tradução seria o Poderoso Átomo.

[02:20:25] O nome do bichinho é Atomu, que é um átomo?

[02:20:27] Porque ele usa energia nuclear para poder ser a força.

[02:20:31] O anime começa a ser realizado em 63 anos depois da guerra,

[02:20:36] mas você tem esse trauma, principalmente do Japão,

[02:20:38] de que a ciência tanto pode ser usada para o bem quanto para o mal,

[02:20:43] e a bomba atômica certamente é um catalisador disso,

[02:20:45] porque você tem energia nuclear e você tem bombas atômicas,

[02:20:48] e parte disso é o uso do núcleo dos átomos

[02:20:52] para poder dar combustível,

[02:20:55] tanto para uma destruição sem precedentes,

[02:20:56] quanto para a energia limpa, basicamente.

[02:20:59] E assim, o Godzilla também surge disso,

[02:21:01] o Godzilla inclusive é nove anos depois da guerra,

[02:21:04] o primeiro Godzilla de 1954.

[02:21:07] E o Godzilla também é dito como o primeiro Godzilla,

[02:21:11] salvo engana, ele é uma criatura que emerge do gelo pré-histórico

[02:21:15] através do teste de bombas de hidrogênio,

[02:21:18] e que talvez ganhe novos poderes,

[02:21:20] inclusive são poderes atômicos, de fogo, inclusive,

[02:21:23] a partir do crescimento dessa bomba.

[02:21:24] Então a bomba acaba sendo um tema bastante presente em filmes,

[02:21:28] em arte, até arte talvez um pouco mais tradicional nesse sentido,

[02:21:33] e certamente é um choque na alta cúpula.

[02:21:38] E aí que pela primeira vez estou falando que da alta cúpula sendo balançada,

[02:21:41] de, opa, isso aqui talvez não seja,

[02:21:45] seja exatamente, finalmente uma ameaça.

[02:21:48] O bombardeio atômico, ele é um catalisador disso tudo,

[02:21:54] para que isso seja em choque,

[02:21:56] só que evidentemente a bomba atômica é um desastre horrível e de ondo.

[02:22:02] E além das questões culturais assim,

[02:22:04] o próprio Japão, juntamente com o Brasil e com a Alemanha,

[02:22:08] ele faz parte de um grupo de estados que são estados

[02:22:10] que tem plenamente capacidade de desenvolver uma bomba atômica,

[02:22:13] e não o fazem por escolhas.

[02:22:15] Então isso traduz na política, isso traduz na cultura,

[02:22:18] é certamente um trauma nacional muito forte,

[02:22:21] tanto que foi o Nobel da Paz do ano passado,

[02:22:24] foi um grupo de ativistas antinucleares,

[02:22:26] que o Japão é a ponta de lança sobre a desnuclearização do mundo,

[02:22:32] ver todo o tratado de não proliferação nuclear inclusive,

[02:22:35] um participante muito importante, uma voz muito forte,

[02:22:37] por conta das vítimas que cometeu.

[02:22:40] Então politicamente, politicamente eu falo política externa,

[02:22:42] isso é muito forte, culturalmente isso ainda é muito forte,

[02:22:45] é só você ver que todo ano saem três Godzillas novos.

[02:22:48] A gente teve o Godzilla Minus One,

[02:22:49] mas junto com ele teve outras obras do Godzilla,

[02:22:51] que eu nem acompanho direito assim, mas eu vi que teve.

[02:22:57] Um abraço para o Matheus, meu amigo que é viciado em Godzilla

[02:22:59] e conhece todos os filmes de cabarrabas.

[02:23:01] Um abraço aí. Não conheço todos de cabarrabas, mas gosto muito.

[02:23:05] Inclusive, Godzilla, o Shin Godzilla,

[02:23:08] ele é adaptado numa situação do Japão contemporâneo.

[02:23:11] Ele é o Godzilla Minus One na época da guerra.

[02:23:13] Aí o Shin Godzilla, ele fala,

[02:23:15] uma das personagens, a avó dela era sobrevivente,

[02:23:17] era a Hibakusha, era sobrevivente da bomba.

[02:23:19] Então, claro, isso cultural a gente tem mais de cabeça,

[02:23:23] Godzilla, animes, mangás, tipo de coisa,

[02:23:25] mas política externa, isso é muito forte,

[02:23:28] política interna, isso também é muito forte

[02:23:31] e, claro, na época da guerra, isso traz uma reinvenção

[02:23:36] cultural muito grande com esse sentimento anti-imperial

[02:23:40] do Japão, que ali, a partir dali, não tem mais volta, enfim.

[02:23:44] E como é que foi a rendição japonesa e a ocupação aliada

[02:23:47] no imediato pós-guerra e os primeiros anos após a rendição?

[02:23:50] Qual foi o impacto disso no Japão?

[02:23:53] A ocupação estadunidense no Japão,

[02:23:56] ela não tem outra palavra para definir, se não cruel também,

[02:23:59] porque o Japão, que já era vítima de um governo

[02:24:01] que agora caiu na desilusão e as corquinas caíram,

[02:24:06] vamos dizer assim, eles agora começam com uma ocupação

[02:24:09] que não é tão diferente e não deixa de ser tão cruel com a população.

[02:24:14] Você tem a ocupação sobre o comandante,

[02:24:18] o título dele era Comandante Supremo das Potências Aliadas,

[02:24:22] General Douglas MacArthur, um nome muito completo,

[02:24:25] vamos chamar aqui de MacArthur, que ele é quem comandou o Japão,

[02:24:28] então o Japão tem essa perda de soberania,

[02:24:30] o Japão não tem mais poderios sobre o seu território interno,

[02:24:34] e é um claro contrário, como mudar de uma situação para outra

[02:24:40] de como seria esse novo Japão.

[02:24:43] Você tem o Japão medir, que se consolida na Showa,

[02:24:46] que é esse grande império, e ali, o que vai acontecer agora?

[02:24:49] Você tem uma democratização do Japão

[02:24:52] e uma desmilitarização do Japão, esse é o curso inicial.

[02:24:55] O objetivo era criar uma democracia no modelo

[02:24:58] de que os Estados Unidos gostaria,

[02:25:00] o Ocidente, que vai ter o Tribunal de Tóquio,

[02:25:03] mas a força principal, a força motriz principal

[02:25:06] desse novo cenário que surgia é os Estados Unidos.

[02:25:09] O Japão se rende com o preço de uma garantia

[02:25:13] de que a nova forma de governo seria de vontade

[02:25:16] e livremente expressa do povo japonês.

[02:25:19] Tudo bem, não vou dizer que o povo japonês,

[02:25:21] ou o Japão não teve influência no novo cenário,

[02:25:24] mas certamente ele teve algumas forças constritivas

[02:25:27] que partiam principalmente dos Estados Unidos.

[02:25:29] Teve uma nova Constituição promulgada em 1947.

[02:25:32] Ela estabelece a soberania popular,

[02:25:34] ela tem direitos humanos garantidos,

[02:25:38] passa essa nova Constituição,

[02:25:40] que, claro, vai evoluindo ao longo dos anos,

[02:25:42] nós estamos falando de muitos anos dessa nova Constituição,

[02:25:45] porém, alguns artigos dessa Constituição

[02:25:48] ainda são muito polêmicos,

[02:25:49] mas, principalmente o artigo 9,

[02:25:52] ele fala que o Japão se abdica da guerra

[02:25:55] como forma de resolver político, um negócio assim.

[02:25:58] Nós temos acesso à Constituição traduzida,

[02:26:01] inclusive, pelo próprio site da Embaixada do Japão.

[02:26:03] Então, isso aí é público, inclusive,

[02:26:06] para quem gosta aí do direito pode ver exatamente

[02:26:08] o que a letra fala.

[02:26:09] O artigo 9 reconhece o Japão

[02:26:11] como sendo perpetador de vários crimes

[02:26:15] e você tem, nesse artigo 9,

[02:26:17] principalmente, você tem desmantelamento militar.

[02:26:19] Exército é dissolvido, marinha é dissolvido completamente,

[02:26:23] as leis de segurança interna abolidas,

[02:26:26] embora os Estados Unidos, durante a ocupação,

[02:26:29] tenha imposto resistências à liberdade de expressão.

[02:26:32] Principalmente o quê? Críticas da ocupação.

[02:26:34] Então, inclusive, o mito criacional desse império japonês

[02:26:38] também acaba caindo por terra,

[02:26:40] mitos de divindade aqui,

[02:26:42] lembra que eu falei do extintuismo político,

[02:26:44] o imperador japonês seria descendente da própria deusa Amaterasu,

[02:26:49] talvez algumas pessoas conheçam esse nome por outras fontes,

[02:26:51] mas a Amaterasu é uma das deusas maiores do extintuismo

[02:26:55] e que o imperador é descendente da linhagem dela,

[02:26:57] é um mito, realmente, como a representação do rei

[02:27:00] como Deus na Terra, esse tipo de coisa.

[02:27:02] Lá seria Amaterasu.

[02:27:03] Isso também é dissolvido,

[02:27:07] dando lugar a valores mais circularizados,

[02:27:09] aí que o budismo, inclusive, começa a voltar na cena.

[02:27:13] Bom, isso entra em choque, justamente, com outros regimes fascistas,

[02:27:18] Itália, França, Espanha, Portugal, talvez,

[02:27:21] o próprio povo se levantou e conseguiu,

[02:27:25] em certa medida, restaurar alguns direitos,

[02:27:28] foi um ato de vontade soberano do próprio povo.

[02:27:30] No Japão, isso foi muito coestivo com relação à potência externa,

[02:27:34] afetando a soberania,

[02:27:36] e muitos autores, inclusive, que não são nacionalistas,

[02:27:39] cuidado, porque o argumento nacionalista

[02:27:41] também é contra a como a ocupação se ocorreu,

[02:27:44] muito cuidado com os discursos que se tem,

[02:27:46] e o Japão sofre dessa dominação,

[02:27:52] porque não dá tempo de ter uma organização popular

[02:27:54] para se rebelar contra o governo

[02:27:59] e colocar a autonomia popular no poder.

[02:28:01] Então, muita gente coloca o Japão como não ter uma democracia plena,

[02:28:05] eu acho que muitas questões do Japão contemporâneo

[02:28:08] vêm da época da ocupação,

[02:28:10] mas aí fica um papo para um outro cenário,

[02:28:13] fica um papo para a história contemporânea,

[02:28:15] mas é muito um pano para manga, para esse tipo de coisa.

[02:28:17] A dominação estadunidense é o foco.

[02:28:19] Você teve novos traumas,

[02:28:21] a ocupação, a perda de soberania foi um novo trauma,

[02:28:23] mais um para a conta da população japonesa,

[02:28:26] da população que ela vivia, também coreanas.

[02:28:29] As vítimas da guerra, os hibakusha,

[02:28:32] eles continuaram a sofrer sem auxílio médico,

[02:28:34] inclusive, foram discriminados,

[02:28:37] mesmo aqueles que não tiveram sequelas aparentes da bomba,

[02:28:40] mas que sobreviveram,

[02:28:41] às vezes tinham uma cicatriz ou outra,

[02:28:43] mas que não sofreram com problemas da radiação,

[02:28:45] eram discriminados, não recebiam assistência do governo,

[02:28:49] não recebiam assistência à força de ocupação

[02:28:51] e não podiam trabalhar.

[02:28:52] E os coreanos, que eu falei antes que eram os INT,

[02:28:55] que eram populações que estavam lá trabalhando,

[02:28:57] perderam direito de cidadania,

[02:28:59] que aí vai os coreanos INT de hoje em dia,

[02:29:01] que são os descendentes desses,

[02:29:02] que ainda não têm cidadania plena, eles vêm dessa época,

[02:29:05] e exploração sexual.

[02:29:06] Eu falei lá antes das mulheres de conforto,

[02:29:07] é que eu vou voltar, que você teve as…

[02:29:11] E esse tem nome, que seria Tokushu Iyanshin Setsukiokai,

[02:29:15] que não é só estação de conforto,

[02:29:17] teve uma associação,

[02:29:18] é chamada Associação de Recreação e Divertimento,

[02:29:21] nome horroroso,

[02:29:23] que é basicamente uma instalação política

[02:29:25] no próprio governo japonês ocupado,

[02:29:29] do departamento de polícia,

[02:29:31] que eram instalações de conforto sexual,

[02:29:33] e dessa vez aliciando mulheres japonesas,

[02:29:37] basicamente como um sacrifício humano,

[02:29:39] para apaziguar os soldados estadunidenses,

[02:29:42] para que eles não violassem,

[02:29:43] e aqui entre aspas, as boas mulheres,

[02:29:46] ou seja, uma situação horrível.

[02:29:48] E os postos policiais japoneses

[02:29:52] viraram basicamente cofetões, escravizadores sexuais,

[02:29:56] e aí foram dezenas de mulheres vítimas também,

[02:29:59] além das outras nos territórios de ocupação,

[02:30:02] ou seja, as postas de dominação

[02:30:04] não eram pessoas boas que vinham para democratizar,

[02:30:07] inclusive é problemático,

[02:30:08] porque essas forças coercitivas, de novo,

[02:30:10] mas literalmente os Estados Unidos,

[02:30:12] elas coibem o Japão e tentam tecer um novo cenário,

[02:30:16] e que eles puderam fazer gato e sapato ali,

[02:30:18] que fosse mais favorável a eles,

[02:30:20] e isso dita muitas coisas

[02:30:22] nessas relações internacionais do Japão.

[02:30:23] Podemos falar também do Tribunal de Tóquio,

[02:30:24] o Tribunal de Tóquio, ele condena alguns crimes,

[02:30:26] mas não condena outros.

[02:30:28] Inclusive eu tenho um artigo aí, outro a ser publicado,

[02:30:32] que ele coloca o Tribunal de Tóquio como um pivô

[02:30:35] dessa situação de conhecimento do Japão com relação aos Estados Unidos,

[02:30:39] que essa situação de aliança é limitada

[02:30:42] na medida de que os Estados Unidos agiram no Tribunal de Tóquio

[02:30:45] de uma maneira diferente do que eles agiram no Nuremberg.

[02:30:47] Mas é um artigo muito mais azerri do que da história,

[02:30:49] mas ele parte da história para analisar situações contemporâneas.

[02:30:52] E de fato, o julgamento de Nuremberg,

[02:30:55] ele foi muito diferente do julgamento de Tóquio.

[02:30:58] Tem, inclusive, o jurista indiano,

[02:31:00] que ele fazia parte representando a rage britânica, então, na época,

[02:31:05] que ele foi a única pessoa que se levantou e falou

[02:31:07] que o Tribunal estava sendo da justiça dos vitoriosos,

[02:31:12] que ele estava ignorando certos crimes dos Estados Unidos e do Japão

[02:31:16] em detrimento de outros, não estava colocando tudo na mesa,

[02:31:19] e que, inclusive, isso seria um problema,

[02:31:23] e que, inclusive, ele quis absolver o Japão nesse caso

[02:31:26] porque o Tribunal não era justo, atenção,

[02:31:29] não era porque ele defendia as ações do Japão,

[02:31:31] mas, na verdade, ele achava que o Tribunal tinha que ser refeito,

[02:31:34] a lógica do Tribunal estava muito coisa.

[02:31:36] Mas esse jurista indiano, sob o nome dele, é Pau, com L,

[02:31:40] ele é homenageado em lugares nacionalistas,

[02:31:44] para você ver como isso é muito maluco,

[02:31:46] esse final da guerra é muito truncado,

[02:31:49] muitas coisas em cima da outra e muitas coisas ficarem abertas.

[02:31:53] O Hirohito não foi condenado, sendo que ele teve participação ativa na guerra,

[02:31:56] inclusive, permaneceu como o imperador do Japão,

[02:31:59] simbolicamente, claro, hoje em dia o imperador é uma figura simbólica,

[02:32:02] até o final da Era Shoa, em 83,

[02:32:04] aí nós tivemos a Era Reisei, nasci na Era Reisei,

[02:32:08] porque a maioria das pessoas ouvindo também nasceram na Era Reisei,

[02:32:11] e agora nós temos a Era Reiwa, que começou em 2019,

[02:32:15] ou seja, ele permaneceu muito tempo como sendo essa figura e não foi condenado.

[02:32:19] Você teve crimes que não foram condenados,

[02:32:21] mulheres de conforto nem ficaram mencionadas, a não ser por esse jurista,

[02:32:24] que também é outro crime que faltou,

[02:32:27] e outra coisa, a atitude das bombas atômicas teve voz no Tribunal para dizer

[02:32:32] por que não se condena isso também, não foi, não foi condenado,

[02:32:37] e, inclusive, você vê claramente essa questão do justiço e do vitorioso no Japão,

[02:32:42] tanto na ocupação quanto no Tribunal, enquanto em diversos termos,

[02:32:45] então, não foi uma mudança para algo melhor,

[02:32:48] mas foi uma mudança para algo de realmente controlar

[02:32:51] como seria essa redemocratização e essa desmilitarização.

[02:32:55] É algo que não é passivo de crítico,

[02:32:57] mas cuidado para não cair no discurso nacionalista,

[02:33:00] e anti-colonial, que é, inclusive, um discurso que é muito velado

[02:33:04] e muito visível no Japão de hoje em dia.

[02:33:07] Quando se fala do Japão no pós-guerra,

[02:33:09] muito se fala sobre um certo rebranding do Japão

[02:33:12] tentar criar uma nova imagem para si, mais amigável,

[02:33:15] até fofo, alguns diriam, baseado na indústria cultural japonesa.

[02:33:19] Eu queria trazer esse ponto para que a gente pudesse falar sobre o Japão no pós-guerra.

[02:33:23] Qual você acha que é a imagem que o Japão tentou vender para o resto do mundo

[02:33:26] ali nas primeiras duas, três décadas após a Segunda Guerra?

[02:33:30] E o que a gente pode falar da memória coletiva interna do Japão

[02:33:33] a respeito não só do que aconteceu com eles,

[02:33:35] mas também das coisas que eles fizeram.

[02:33:37] Afinal, me parece que foram muito menos cobrados

[02:33:40] pelas atrocidades cometidas em guerra do que, por exemplo, a Alemanha.

[02:33:43] A gente sabe que a extrema-direita no Japão,

[02:33:46] a extrema-direita é negacionista, os crimes de guerra é muito forte e tudo.

[02:33:49] Então, o que a gente pode falar desse rebranding do Japão

[02:33:52] e a imagem que eles querem passar para o mundo

[02:33:54] e a memória lá dentro sobre isso?

[02:33:56] Isso, inclusive, é o meu tópico principal de pesquisa.

[02:34:00] A coisa que mais me interessa pelo Japão

[02:34:02] é justamente essa ascensão do revisionismo histórico.

[02:34:05] Mas o Tribunal de Toca é uma das razões disso.

[02:34:09] O nome do Tribunal de Toca é um pouco maior, na verdade,

[02:34:11] mas o Tribunal de Toca, para resumir, é como o Tribunal de Nuremberg

[02:34:14] em relação à cidade onde eles aconteceram.

[02:34:16] O Tribunal de Nuremberg, ele teve uma outra conduta

[02:34:20] que permitiu, até certo nível,

[02:34:23] aos alemães lidarem com a questão da memória coletiva da pós-guerra.

[02:34:28] Inclusive, o Tribunal de Nuremberg

[02:34:31] desfavorece a ascensão da extrema-direita alemã.

[02:34:34] Claro, evidentemente, pessoas que já gostam desse tipo de coisa

[02:34:39] vão sempre defender, mas não é esse o ponto.

[02:34:41] O ponto é que isso desfavorece, isso desincentiva

[02:34:45] e isso cria um cenário que é menos propício

[02:34:48] à ascensão dessas formas de discurso.

[02:34:50] O Tribunal de Toca não teve isso.

[02:34:51] No Tribunal de Nuremberg, você tem a condenação simbólica e pós-guerra do Hitler.

[02:34:55] No Tribunal de Toca, o principal responsável nem entrou na questão,

[02:34:59] quase como se ele fosse um protegido ou estrategicamente omitido disso.

[02:35:04] E é um detalhe complexo, não vou mentir.

[02:35:07] E eu acho que a sociologia combinada com a história

[02:35:09] tem muito a dizer sobre isso no caso.

[02:35:11] Você tem uma socióloga que pega muito da história.

[02:35:14] Eu sei da treta de historiadores e sociólogos,

[02:35:17] tem historiadores e sociólogos, historiadores e internacionalistas,

[02:35:20] historiadores e historiadoras, sempre tem esse tipo de questões acadêmicas,

[02:35:24] mas sinto pragmática que não é um jocoso.

[02:35:28] Essa autora, que é Hashimoto Akiko,

[02:35:31] ela fala sobre a longa derrota,

[02:35:34] principalmente nesses três décadas, vamos colocar ali décadas de 70, 80,

[02:35:39] que depois da derrota, da rendição,

[02:35:41] a principal influência da cultura do Japão foi uma memória,

[02:35:45] uma cultura coletiva de derrota.

[02:35:47] A cultura da derrota, ela coloca esse termo, a cultura da derrota,

[02:35:51] que é um momento necessário para uma reparação moral

[02:35:54] e uma reconstrução social, para onde vamos a partir disso?

[02:35:58] Claro, teve um prioridade de crescimento econômico,

[02:36:03] e nessa seara, o Japão desenvolve o que ela chama de três identidades,

[02:36:09] que é uma identidade de vítima, a identidade do perpretador,

[02:36:14] que seriam as duas principais,

[02:36:19] e a narrativa do inocente.

[02:36:21] São muito presentes no livro dela,

[02:36:24] principalmente no quesito que é a narrativa da vítima,

[02:36:26] ou a identidade de vítima.

[02:36:28] Frequentemente, ela desvia a noção do sofrimento

[02:36:32] de outras populações na Ásia,

[02:36:34] colocando o Japão como essa grande vítima dos próprios desastres,

[02:36:38] tipo a questão de Hiroshima, a questão de Nagasaki,

[02:36:43] e acaba que a narrativa do perpretador

[02:36:45] é a narrativa da responsabilização, da culpa.

[02:36:48] A identidade do inocente é muito ligada à narrativa da vítima,

[02:36:52] mas que ele não seria um perpretador,

[02:36:54] e geralmente as narrativas e identidades caminham juntas.

[02:36:59] Por exemplo, a narrativa da vítima não é desassociada

[02:37:02] da narrativa do perpretador, ela não é mutualmente excludente,

[02:37:05] ela mesma fala isso.

[02:37:06] Embora a identidade de vítima coloca muito peso

[02:37:11] no que o Japão sofreu,

[02:37:13] ela não é desassociada de que também temos responsabilidade.

[02:37:17] Esse tipo de sentimento cresceu bastante,

[02:37:20] de que o Japão é vítima e perpretador.

[02:37:23] Só que aí você tem a identidade da inocentação

[02:37:26] que vem muito desse revisionismo histórico.

[02:37:28] E é quando o Japão decide se tornar um aliado

[02:37:33] mais próximo dos Estados Unidos,

[02:37:35] inclusive é uma forma de dominação se parar para pensar,

[02:37:37] porque você tem no Japão as forças de autodefesa,

[02:37:41] o Japão não é autorizado no Direito Internacional,

[02:37:43] tem um exército marinho-aeronáutico formal,

[02:37:46] mas ele possui as forças de autodefesa,

[02:37:48] que são um exército, mas é limitado,

[02:37:50] e o Japão decide como aliado aos antigos aliados da guerra,

[02:37:56] que eu quero dizer, eles formam…

[02:37:58] Olha só, somos agora uma nação pacífica,

[02:38:00] o artigo 9, o renuncio à guerra,

[02:38:02] e isso é uma forma da política externa se mostrar a identidade.

[02:38:06] Internamente, essa tríplice entre inocente, vítima ou perpretador,

[02:38:11] externamente, o Japão quer se mostrar como um aliado do Ocidente,

[02:38:15] principalmente contra o comunismo, na sessão da Guerra Fria,

[02:38:18] tem que lembrar do cenário internacional também,

[02:38:20] mas de que o Japão tem essa visão trágica

[02:38:25] de como um novo aliado, uma nova nação pacífica,

[02:38:28] ele quer se reinventar.

[02:38:29] Agora, somos outra, somos sobre nova liderança, vamos dizer assim,

[02:38:34] a diretoria mudou.

[02:38:35] E na memória coletiva é uma, e aí citando mesmo,

[02:38:40] uma cacofonia de narrativas, uma cacofonia de identidades,

[02:38:44] que ao mesmo tempo que coexistem disputam a legitimidade.

[02:38:47] E aí, mas eu estou dizendo, isso nunca se firmou.

[02:38:51] O trauma da derrota, o trauma da responsabilidade

[02:38:55] e o trauma do talvez não conquistamos tudo o que deveria,

[02:38:59] e aí é um argumento um pouco mais radical,

[02:39:02] eles nunca deixaram de ser confluentes,

[02:39:05] mesmo depois dessas décadas das imediatas depois da guerra.

[02:39:09] E é curioso como isso está presente,

[02:39:11] é curioso como muito do pensamento é moldado do trauma em certa medida.

[02:39:16] É claro que não necessariamente um japonês pensa nisso

[02:39:20] numa visão diária,

[02:39:22] mas é certamente uma participação muito interessante

[02:39:26] na memória como um todo do Japão.

[02:39:28] E você tem figuras de historiadores

[02:39:30] que vão lutar para poder preservar essa memória

[02:39:33] como algo como fator de responsabilização.

[02:39:36] E de que muitas vezes o discurso que o Japão na política externa tem,

[02:39:40] ele é um desvio da responsabilização do que ele fez antes.

[02:39:44] E que a responsabilização não significa necessariamente

[02:39:48] o que os japoneses, que muitos narrativos de cinema direita

[02:39:51] chamam de uma visão masoquista da história.

[02:39:53] O político, os japoneses já usaram esse termo,

[02:39:56] políticos importantes da alta cúpula já usaram a visão masoquista da história.

[02:40:00] Mas muitos historiadores vão falar que não, não, não.

[02:40:02] Na verdade, o modelo, e vamos citar o holocausto para isso,

[02:40:06] é a maneira mais aceitável de confrontar esse passado.

[02:40:10] Os japoneses, inclusive, julgados pela vitória dos vencedores,

[02:40:12] facilitam isso, a justiça dos vencedores, perdão.

[02:40:15] A Alemanha, na verdade, ela tem outro tipo de política, de autoinculpação.

[02:40:20] Claro que isso também não vai suprimir qualquer movimento de sistema de direitos

[02:40:24] surgindo na Alemanha, de neo-nazismo.

[02:40:26] A gente vê isso na política contemporânea, espero que isso mude,

[02:40:29] mas enfim, no Japão não é diferente, mas no Japão a trajetória é diferente.

[02:40:34] O Japão não teve uma responsabilização muito grande de fato

[02:40:39] e nenhuma autoinculpação disso.

[02:40:42] E esse cenário, na verdade, permitiu que ele pudesse se reposicionar

[02:40:45] muito rápido no mundo, sem um paradigma que pudesse mudar.

[02:40:50] Ao mesmo tempo que ele dava prioridade a esse suposto pacifismo.

[02:40:54] Isso hoje em dia já está mudando.

[02:40:55] Está essa visão do pacifismo assim, hoje em dia já faz algumas décadas, na verdade,

[02:41:00] que o Japão, assim como a Alemanha,

[02:41:02] ele busca inclusive uma maneira de burlar o uso do seu exército.

[02:41:07] Mas enfim, eu acho que de uma maneira geral temos muito a ver do Japão.

[02:41:12] O Império Japonês tem muita participação nessas questões.

[02:41:16] Nós vemos isso na contemporaneidade, vimos isso na Guerra Fria,

[02:41:19] que o Japão se vendendo como esse aliado dos Estados Unidos,

[02:41:22] e vimos isso na ocupação.

[02:41:24] E isso tudo é consequência direta do que foi esse império.

[02:41:27] Então mesmo com tudo isso aí, eu espero que isso tenha,

[02:41:31] por mais que seja geral, assim, e aprofundando alguns tocos-chave,

[02:41:34] isso tenha elucidado, trazido uma certa robustez para esse ator,

[02:41:39] que é tão importante e muitas vezes até um pouco deixado de escanteio assim,

[02:41:43] mas que pode dizer bastante sobre relações históricas do mundo,

[02:41:47] relações internacionais do mundo,

[02:41:49] e principalmente memória humana do mundo como um todo.

[02:41:55] No tempo do Tokugawa, o poder estava dividido entre Kyoto e Edo.

[02:41:59] Agora, o país precisava de uma única capital.

[02:42:02] E a escolhida foi Edo, que passou a se chamar Tóquio,

[02:42:06] que significa capital do leste.

[02:42:17] Recomendações de leitura para quem ouviu até o final, se interessou,

[02:42:20] quer saber mais sobre o assunto,

[02:42:21] se você tivesse que recomendar até três livros,

[02:42:23] o que é que você recomenda?

[02:42:24] Até três livros, né?

[02:42:26] Eu vejo pessoas que colocam um livro a mais, um livro a menos,

[02:42:30] não vou fazer.

[02:42:31] Eu acho que o primeiro deles é o que eu mais citei,

[02:42:33] o autor que eu mais citei, que é o Ienaga Saburo,

[02:42:36] que ele tem um livro chamado The Pacific War.

[02:42:39] Ele foi traduzido do japonês para o inglês.

[02:42:41] Infelizmente, não temos ele em português,

[02:42:43] mas ele detalha principalmente um pouquinho do Meiji,

[02:42:47] de que a gente começou no Meiji,

[02:42:48] ele fala sobre contextualização do Meiji e Taisho,

[02:42:50] mas ele fala principalmente do Meiji e o Taisho,

[02:42:53] principalmente do conflito e uma visão crítica,

[02:42:55] está no subtítulo dele.

[02:42:56] Esse historiador, inclusive, é muito importante,

[02:42:57] o pessoal da história pesquisem sobre ele.

[02:42:59] Ele foi um historiador que processou por mais de uma vez

[02:43:03] o estado japonês contemporâneo, depois da ocupação,

[02:43:06] ele morre em 80, 70, não me engano,

[02:43:08] o livro é publicado mais ou menos nessa época,

[02:43:10] mas ele processa por mais de uma vez

[02:43:11] pela revisionismo histórico na educação escolar.

[02:43:14] Ele tem artigos que criticam a educação histórica no Japão,

[02:43:17] ele é uma voz muito grande que se deveria olhar para a visão

[02:43:20] de responsabilização,

[02:43:22] tanto para as vítimas japonesas, imigrantes japoneses aqui,

[02:43:25] e para as pessoas que o Japão vítimou lá fora,

[02:43:27] então ele é uma figura muito importante,

[02:43:28] baseado em fontes primárias, obviamente.

[02:43:30] O outro, e aí é um livro que mais incompaça geral,

[02:43:34] pega o final ali do Meiji até o fim da guerra,

[02:43:37] é uma coletânea, é o The Japanese Colonial Empire,

[02:43:42] do editor São Marc Petit,

[02:43:44] eu acho que é assim que se fala o nome dele,

[02:43:46] e o Ramon Howley Myers,

[02:43:49] que cada capítulo ali mais ou menos tem um tema,

[02:43:51] então tem capítulos que focam mais na era Taisho,

[02:43:53] ele tem capítulos que focam mais na população do Japão,

[02:43:57] outros na cultura, outros que falam da guerra comum toda,

[02:43:59] então eu acho que ali ele tem nesses capítulos,

[02:44:03] capítulos temáticos e pontuais,

[02:44:05] bastante coisas interessantes para vários temas.

[02:44:09] E o último aí é mais nesse pós-guerra,

[02:44:12] se notar, cada livro ele trata,

[02:44:14] o The Japanese Colonial Empire, 1895 até 1945,

[02:44:18] aí você tem o The Pacific War, que é de 1931 até 1945,

[02:44:22] aí você tem o último livro da socióloga Hashimoto Akiko,

[02:44:27] chamado The Long Defeat,

[02:44:30] que foi esse último que eu falei sobre as identidades,

[02:44:32] que pega muito da questão histórica de 1945 para cá,

[02:44:35] então ele é mais um foco na questão sociológica da identidade

[02:44:39] e ajuda a explicar tantas dinâmicas que aconteciam no pós-guerra,

[02:44:43] quantas das dinâmicas que acontecem hoje em dia.

[02:44:45] São livros excelentes, são bases de desenvolvimento excelentes,

[02:44:49] eles podem ser uma introdução muito interessante

[02:44:52] ao mesmo tempo que são um aprofundamento muito interessante.

[02:44:55] Então eu fico aí só com esses três livros,

[02:44:57] queria falar mais, mas não tem como,

[02:44:59] e é isso, muito obrigado pela oportunidade.

[02:45:04] Então é isso, gente, muito obrigado por ter ouvido até o final,

[02:45:06] não se esqueçam de me seguir lá no Instagram,

[02:45:08] arroba.iclosrodrigues, e dê uma olhada nos links da descrição,

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[02:45:15] tem um monte de coisa aí embaixo, beleza?

[02:45:17] Então é isso, muito obrigado e até a próxima.

[02:45:28] O História FM é uma produção do canal Leitura Obriga História.

[02:45:31] Apresentação, Iclis Rodrigues.

[02:45:33] Edição, Samuel Gambini.

[02:45:34] Roteiro, Iclis Rodrigues.

[02:45:36] O financiamento deste programa é realizado

[02:45:38] pelos nossos colaboradores em apoia.se barra Obriga História.

[02:45:45] Roteiro, Iclis Rodrigues.

[02:45:47] O financiamento deste programa é realizado pelos nossos colaboradores em apoia.se barra Obriga História.

[02:45:52] Roteiro, Iclis Rodrigues.

[02:45:53] Este podcast foi editado por Samuel Gambini.

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