MUNDO INTERNO #79: Festas familiares e cortes necessários
Resumo
Vanessa Gazeta e Felipe exploram as complexidades emocionais das festas de fim de ano, especialmente para expatriados. Eles discutem a sensação de obrigatoriedade em estar com a família durante o Natal e Ano Novo, que muitas vezes se torna uma experiência indigesta em vez de prazerosa. Os hosts refletem sobre como essa pressão pode ser danosa e a importância de criar espaço para separação e diferenciação.
A conversa aborda a dificuldade de equilibrar o desejo de ver a família com a necessidade de usar as férias para outros interesses pessoais, como viajar ou conhecer novos lugares. Eles analisam o ressentimento que pode surgir quando apenas uma pessoa (geralmente quem mora fora) assume a responsabilidade de manter os vínculos familiares, enquanto os outros membros não reciprocam o esforço.
Os participantes discutem o conceito da família como um “cartel” que impõe regras não escritas sobre onde e como as relações devem acontecer. Eles sugerem que mudar o local dos encontros familiares (como alugar uma casa neutra) pode alterar dinâmicas estabelecidas e permitir novas formas de interação. A adolescência é apresentada como um período crucial de diferenciação, mas muitos adultos continuam sem fazer essa separação necessária.
Vanessa e Felipe enfatizam a importância da autenticidade e da coragem para “comprar a briga” quando necessário, distinguindo entre ser pacífico e ser submisso. Eles compartilham histórias clínicas que ilustram como defender pequenos desejos (como escolher um sabor de pizza diferente) pode ser um primeiro passo para afirmar a própria identidade fora dos papéis familiares estabelecidos.
O episódio conclui refletindo sobre como a diferenciação da família permite descobrir aspectos de si mesmo que não eram visíveis no contexto familiar. Os hosts discutem a plasticidade do “eu” e como a saúde mental depende da capacidade de se separar para depois retornar às relações familiares de forma mais fortalecida e autêntica, sustentando quem se é sem tentar calar os outros ou se calar para se encaixar.
Indicações
Conceitos
- Família como cartel — Metáfora usada para descrever como famílias podem funcionar como um sistema fechado que pune membros que saem e impõe regras não escritas sobre como as relações devem acontecer.
- Plasticidade do eu — Conceito discutido referente à capacidade de descobrir que podemos ser diferentes dos papéis fixos que ocupamos em nossas famílias, especialmente quando experimentamos outros contextos sociais.
- Autenticidade — Processo de encontrar e defender aquilo que é importante para cada pessoa, começando com pequenas escolhas e sustentando o desconforto que isso pode gerar nos outros, especialmente no contexto familiar.
EstratéGias
- Mudar o QG do cartel — Sugestão de reunir a família em lugares neutros (como casas alugadas) em vez de sempre na casa dos pais, o que pode alterar dinâmicas estabelecidas e permitir novos papéis e interações.
- Começar com pequenas escolhas — Recomendação terapêutica de começar o processo de autenticidade defendendo pequenos desejos, como escolher um sabor de pizza diferente, mesmo que isso gere desconforto nos outros.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução ao tema das festas familiares compulsórias — Vanessa e Felipe apresentam o episódio sobre as pressões das festas de fim de ano. Eles contrastam com episódios anteriores sobre “digerir o excesso de família” e focam agora em como cuidar desse excesso, estabelecer limites e diferenciar-se da família. Discutem a sensação de obrigatoriedade em estar com a família no Natal e Ano Novo.
- 00:03:00 — O dilema das férias e a pressão familiar — Vanessa compartilha experiências clínicas de pacientes expatriados que usam suas únicas férias anuais para visitar familiares no Brasil. Ela descreve o conflito interno entre querer ver a família e também desejar usar esse tempo para viajar ou conhecer outros lugares. O dilema surge quando o paciente pensa “como vou fazer” para dividir o tempo entre família e interesses pessoais.
- 00:07:00 — Ressentimento e desequilíbrio nos esforços relacionais — Os hosts discutem o ressentimento que surge quando apenas quem mora fora assume a responsabilidade de manter os vínculos familiares. Felipe fala sobre a dificuldade quando os familiares não fazem o movimento de ir até o espaço relacional, mesmo tendo condições financeiras e de saúde. Vanessa menciona que mesmo quando o paciente pode pagar pela vinda dos familiares, há resistência por parte deles.
- 00:09:00 — A família como cartel e a punição por sair — Felipe introduz a metáfora da família como um “grande cartel” que pune o integrante que decidiu sair. Eles discutem a regra não escrita de que a família precisa acontecer no lugar de origem, e como quem sai é visto como aquele que deve arcar com todo o ônus de manter a relação. Vanessa compartilha sua experiência positiva de voltar para a casa da mãe, mas reconhece que nem todos têm essa relação.
- 00:11:00 — Mudar o QG do cartel: encontros em lugares neutros — Vanessa sugere a ideia de reunir a família em lugares neutros, como casas alugadas, em vez de sempre na casa dos pais. Ela descreve como isso pode mudar dinâmicas estabelecidas: quem cozinha, quem limpa, as conversas e até as brincadeiras são diferentes. Felipe concorda que mudar o “QG do cartel” altera toda a dinâmica que pode se impor ali.
- 00:12:00 — Processo de diferenciação na adolescência e além — Felipe discute o processo de diferenciação da família, usando a adolescência como exemplo crucial onde as pessoas rompem com expectativas familiares para se descobrir como indivíduos. Ele reconhece que nem todos fazem isso na adolescência, mas em algum momento da vida é necessário descobrir “quem eu sou independente da minha família” e quais escolhas foram silenciadas por não caberem no contexto familiar.
- 00:15:00 — Natal como prova de fogo da diferenciação — Os hosts discutem como o Natal e as férias familiares funcionam como uma “prova de fogo” para quem já começou um processo de diferenciação. Felipe usa a metáfora de peças de quebra-cabeça que não se encaixam: quando você começa a se descobrir fora do contexto familiar, voltar pode ser difícil porque você não cabe mais perfeitamente no molde familiar. A autenticidade é apresentada como um prêmio difícil de alcançar.
- 00:16:00 — Começar com pequenas escolhas: o exemplo da pizza — Vanessa usa o exemplo de escolher o sabor da pizza como metáfora para começar a defender pequenos desejos. Ela incentiva pacientes que dizem “não sei o que quero” a começarem escolhendo algo no cardápio que chame atenção, mesmo que seja incomum como “abacaxi com brie”. O desafio é sustentar o desconforto que essa escolha pode gerar nos outros, especialmente no contexto familiar onde os papéis já estão muito definidos.
- 00:19:00 — História pessoal: o constrangimento de não perguntar — Vanessa compartilha uma história pessoal constrangedora onde ela perguntou ao homem (Gabriel) como ele gostava da carne no churrasco, mas não perguntou à mulher (Raissa). Ela reflete sobre como ficou envergonhada e como admira a liberdade de Raissa em reivindicar seu espaço dizendo “eu prefiro mal passada”. Vanessa reconhece que ela mesma teria ficado quieta para evitar conflito.
- 00:22:00 — Autenticidade e a importância de defender desejos — Felipe discute o conceito de autenticidade não como algo produtivo da sociedade, mas como a capacidade de encontrar e defender o que é importante para cada um. Ele enfatiza que isso acontece passo a passo, começando com pequenas defesas como escolher um sabor de pizza diferente. Vanessa compartilha outra história sobre uma professora de yoga que, ao começar a comer carne por recomendação médica, descobriu não apenas força física mas também força para defender seus pontos de vista.
- 00:24:00 — A diferença entre ser pacífico e ser submisso — Vanessa reflete sobre como gosta de ser pacífica, mas reconhece a importância de poder “comprar a briga” quando necessário. Ela argumenta que não comprar a briga geralmente vem do medo de perder amor, afetos, ou ferir o outro. Felipe distingue entre ser submisso e ser submetido às circunstâncias, desejos alheios ou próprios medos. Eles discutem como isso é particularmente difícil para mulheres na cultura machista.
- 00:26:00 — Responsabilidade por trás da submissão — Os hosts exploram como por trás da pessoa “boazinha” que se submete ao desejo do outro está a dificuldade de assumir responsabilidade. Felipe argumenta que quando você defende seu ponto de vista, você também se torna responsável pelas consequências, críticas e possíveis erros. Vanessa concorda que o caminho autoral e individual requer coragem para enfrentar o medo, mas seguir passos alheios tende a levar a uma vida insatisfatória.
- 00:28:00 — Pais que não defendem seus próprios desejos — Vanessa discute como pais que não fazem valer seus próprios desejos criam filhos que se tornam “reizinhos” da casa, incapazes de lidar com frustração. Ela argumenta que essas crianças aparentam ser fortes por mandarem e desmandarem, mas crescem inseguras porque não podem se apoiar em pais com “envergadura”. Felipe cita que tanto privar alguém de tudo quanto dar tudo o que deseja são formas de destruir uma pessoa.
- 00:30:00 — A estruturação através da separação e frustração — Felipe reflete sobre como decepções, limitações e faltas são estruturantes, criando um repertório que serve de degrau para momentos difíceis futuros. Ele conecta isso com a abertura do programa: a estrutura vem de saber se separar de quem amamos para entender nossos contornos. Vanessa concorda que a plasticidade do “eu” só acontece quando sabemos nos separar, seja de filhos ou de pais.
- 00:32:00 — Aceitar a família sem se transformar para caber — Vanessa argumenta que o objetivo não é se distanciar para criticar a família, mas para poder aceitá-la sem precisar se transformar para caber nela. Ela fala sobre a importância de voltar sustentando quem você é enquanto deixa os outros se sustentarem também. Felipe menciona o conceito de politeísmo vs. monocultura, sugerindo que famílias saudáveis permitem divergência e pluralidade.
- 00:34:00 — Descobrir a plasticidade do eu fora da família — Felipe recomenda sair um pouco da família para descobrir que podemos ser diferentes dos papéis que ocupamos nela. Ele dá exemplos: a pessoa que na família é sempre o “revoltado” descobre que em outros grupos ninguém a acha birrenta; o “quietinho” descobre que é mais sociável fora. Quando essa pessoa volta para a família fortalecida por essas descobertas, pode lidar melhor com as diferenças.
- 00:36:00 — História da mochileira e a mudança de perspectiva — Vanessa conta a história de uma mochileira que, ao voltar para casa do pai, foi acusada de não ajudar com cadeiras que precisavam ser baixadas. Em vez de apenas negar a acusação, ela propôs ao pai entenderem juntos por que ele só a via como desleixada, já que em suas viagens as pessoas elogiavam sua prestatividade. Ela sugeriu mudanças práticas na comunicação para que pudesse ocupar um papel diferente na dinâmica familiar.
- 00:38:00 — Amor versus narcisismo familiar — No fechamento, Felipe oferece sua opinião sobre amor versus narcisismo nas relações familiares. Ele argumenta que a hiperdedicação às pessoas da nossa família muitas vezes é narcisismo disfarçado de amor. O amor verdadeiro, em sua visão, expande para incluir mais pessoas fora do “cartel” familiar, enquanto o narcisismo se concentra apenas no grupinho próximo. Vanessa concorda e elogia sua reflexão.
Dados do Episódio
- Podcast: ONDEM Podcasts
- Autor: ONDEM Podcasts
- Categoria: Society & Culture Society & Culture Places & Travel
- Publicado: 2025-12-23T16:09:08Z
- Duração: 00:40:38
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/ondem-podcasts/56ab7440-5157-0132-cea1-5f4c86fd3263/mundo-interno-79-festas-familiares-e-cortes-necess%C3%A1rios/e5f6046d-6a5f-4716-9469-abb787ccbb8a
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Dados do Podcast
- Nome: ONDEM Podcasts
- Tipo: episodic
- Site: http://www.onomedissoemundo.com
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Transcrição
[00:00:00] O Natal e o Ano Novo, eles têm esse peso.
[00:00:05] Parece que tem uma certa questão compulsória, de que a gente tem que ficar com a família.
[00:00:12] Como a gente entra no limite do outro, o outro entra nos nossos limites.
[00:00:18] Mas que importante que é você poder comprar a briga.
[00:00:21] Não comprar a briga é medo de perder o amor, é medo de perder os afetos ali.
[00:00:26] Tem uma diferença entre ser pacífico e ser submisso.
[00:00:32] E acho que muitas vezes a gente confunde as coisas.
[00:00:38] Bem-vindo ao Mundo Interno, um lugar que reflete sobre as questões emocionais do expatriado.
[00:00:44] Mas também de todo aquele que experimenta uma sensação de não pertencimento.
[00:00:48] Eu sou a Vanessa Gazeta.
[00:00:49] Eu sou o Felipe.
[00:00:50] Esteja você onde estiver, que nesse episódio você se sinta um pouco mais em casa.
[00:00:56] Estou com o Felipe. Oi, Fê.
[00:00:58] Olá, agora é sempre bom estar aqui.
[00:01:00] Ah, muito bom, meu amigo.
[00:01:02] E hoje a gente vai falar sobre o fim de ano, mas de um jeito diferente do que a gente falou há um ano.
[00:01:08] Quando a gente estava falando sobre como digerir o excesso de família, estar com a família,
[00:01:14] os encontrões quando a gente está em família.
[00:01:18] Hoje a gente vai falar de como poder cuidar desse excesso.
[00:01:24] É como a gente se cuida.
[00:01:26] A gente cuida de si mesmo, do excesso de família, das bordas que se borram, dos limites que se borram.
[00:01:33] Como a gente entra no limite do outro e o outro, o outro-este da família, entra nos nossos limites.
[00:01:39] E da necessidade de se separar nesse sentido, de se diferenciar da família.
[00:01:44] Não no sentido de drasticamente separação, mas de ter esse maior espaço.
[00:01:51] Para que não seja indigesto, como a gente dizia o ano passado.
[00:01:54] Fê, o que você diria?
[00:01:55] O que você diria sobre esse tema, para começar?
[00:01:57] A gente refletiu bastante antes sobre ele.
[00:02:00] E ele foi surgindo a partir das nossas vivências pessoais e das falas dos nossos pacientes,
[00:02:08] das pessoas que a gente atende.
[00:02:10] E como parece que tem uma certa questão compulsória de que a gente tem que estar junto.
[00:02:17] As festas parece que elas convocam as pessoas a se juntarem, mas não de uma maneira gostosa.
[00:02:23] Necessariamente gostosa.
[00:02:25] De uma forma compulsória, acho que é essa a palavra.
[00:02:27] Então, a gente tem que perdoar.
[00:02:30] A gente tem que estar junto, porque é a sua mãe, porque é o seu filho, porque são o seu tio e seu irmão.
[00:02:39] E é um tem que.
[00:02:41] É óbvio que perdoar é importante, estar junto é importante, relevar é importante.
[00:02:46] Marcar uma data para se unir à família, tudo isso é importante.
[00:02:50] Mas essa compulsão a ter que fazer isso no Natal e no Ano Novo.
[00:02:54] Eu acho que ela tem sido danosa e a gente começou a pensar nisso.
[00:03:00] De refletir sobre, ok, tem momentos que a gente precisa também dar espaço para se separar.
[00:03:08] Sabe o que eu fiquei pensando?
[00:03:09] Uma coisa que apareceu muito no consultório nas últimas semanas, com a chegada do fim de ano.
[00:03:15] Como dar esse espaço para si mesmo e para arejar essas relações também.
[00:03:21] E como sustentar esse espaço.
[00:03:23] Vou dar um exemplo.
[00:03:24] Uma coisa que eu estou escutando muito é a época de férias.
[00:03:28] Por mais que em muitos países, dezembro e janeiro não são meses de férias.
[00:03:32] É muito engraçado, porque a gente continua querendo pegar férias nesses meses.
[00:03:36] Ainda que a gente esteja num país que não faz sentido.
[00:03:40] Mas é muito comum.
[00:03:41] A maioria dos meus pacientes, basicamente 99%, mora fora do Brasil.
[00:03:46] E diria que talvez um 80% deles estão voltando ou já voltaram para o Brasil para passar as festas.
[00:03:53] E aí tem, ou vão, já estão em vias de ir.
[00:03:57] E aí tem um ponto que eu estou escutando com muita frequência esses dias.
[00:04:01] Que é, poxa, mas são minhas férias, minhas únicas férias.
[00:04:05] Eu vou tirar férias uma vez esse ano.
[00:04:07] A maioria dos anos eu tiro uma férias longa.
[00:04:10] E eu vou gastar todo esse tempo com a minha família.
[00:04:13] E está tudo bem, eu amo a minha família.
[00:04:15] Mas às vezes, com três, quatro dias, eu já matei a saudade.
[00:04:18] Eu já vi quem eu queria ver, já conectei.
[00:04:21] E eu queria fazer outras coisas.
[00:04:23] Geralmente mostrar para o companheiro, para a companheira, para os filhos, outras partes do Brasil.
[00:04:27] Ou aquela mesma pessoa, o paciente brasileiro, querendo conhecer ou revisitar outras partes do Brasil.
[00:04:34] Ou o mundo, né? O mundo é muito grande para vir só para o Brasil de férias.
[00:04:37] Mas eu acho que quando é o mundo, é diferente.
[00:04:39] Acho que é pior quando é, eu quero ir para o Brasil, mas eu não quero ir para São Paulo, onde está a minha família.
[00:04:45] Eu quero ir para o Brasil.
[00:04:46] Como assim você vem para cá, vem para o Brasil e você vai para a Bahia e não vai vir para o seu estado?
[00:04:51] Não posso acreditar que você está saindo do seu país, vindo para o nosso país e que você vai para a Bahia e não vai vir me ver.
[00:04:58] E às vezes nem tem essa fala do familiar dizendo isso.
[00:05:01] Essa fala está dentro do paciente.
[00:05:03] Como eu vou fazer?
[00:05:04] Quando ele chega no como eu vou fazer, eu já acho que a gente já deu vários passos bons.
[00:05:09] Porque a maior parte não chega nesse como eu vou fazer.
[00:05:12] A dor começa no…
[00:05:13] Eu queria fazer coisas diferentes com as minhas férias.
[00:05:17] Eu queria ver minha família, mas também queria conhecer esse lugar.
[00:05:20] Eu queria visitar esse lugar, ir para outros estados, fazer uma coisa diferente, uma viagem.
[00:05:26] Sempre foi meu sonho quando eu morava no Brasil, mas agora, sei lá, agora que eu ganho em euros, que eu ganho em dólar,
[00:05:32] eu poderia ir para esse lugar que antes eu não podia, morando lá.
[00:05:36] E aí a questão começa ali.
[00:05:38] Então já vai ter que se separar um pouco dessa família.
[00:05:40] Você não vai poder ficar os 20 dias que você vai ter de férias lá junto com a sua família.
[00:05:45] E aí essa separação já é todo um tema para o próprio paciente.
[00:05:49] Depois vai se tornar uma questão na família, né?
[00:05:51] E como continuar bancando isso de eu vou, vou passar com você alguns dias e depois eu vou conhecer outros lugares.
[00:05:58] Quando chega nesse ponto, o paciente já está mais fortalecido.
[00:06:01] Então ele consegue bancar, justificar, aceitar ou não, mas ele consegue bancar.
[00:06:06] Não, mas para mim é importante.
[00:06:08] Mas a princípio é tão proibido ir ao Brasil e não estar todo esse tempo.
[00:06:13] É, mas você está sempre fora.
[00:06:16] E aí, de novo, não é que alguém falou isso.
[00:06:18] Essa voz é dentro da cabeça do paciente.
[00:06:20] Eu estou o ano todo fora.
[00:06:22] Não estou acompanhando o envelhecimento dos meus pais, dos meus avós.
[00:06:26] E aí eu estou aqui e tenho que ficar pegando os shaboos.
[00:06:29] Porque eu já fugi dos shaboos, né?
[00:06:31] Não chegou em mim o ano todo.
[00:06:33] E eu vou para a Bahia?
[00:06:35] Eu tenho que ir lá, levar todo mundo no médico.
[00:06:38] Eu não estou dizendo que é errado, não.
[00:06:40] Mas as coisas que vão passando pela nossa cabeça.
[00:06:44] Aquilo do aprisionamento e não do…
[00:06:48] Não da libertação, né?
[00:06:50] De você poder ser quem você é lá fora.
[00:06:53] Também dentro do Brasil, que é a sua terra.
[00:06:55] Onde as férias também rolam de uma maneira distinta, né?
[00:06:58] Pô, você sair lá, nesses países que estão frios agora.
[00:07:01] E você vai para o Brasil, ui, aquele calor.
[00:07:03] E não pode ir para a praia?
[00:07:05] Caraca!
[00:07:06] Porque tem…
[00:07:07] Apesar do mundo inteiro achar que quem é do Brasil está na praia.
[00:07:10] Não estamos, né?
[00:07:11] Não estamos.
[00:07:12] Mas o que eu sinto é isso.
[00:07:13] Eu também tenho alguns…
[00:07:14] Meus pacientes não são tantos como o seu.
[00:07:16] Mas tenho alguns que moram fora.
[00:07:18] A gente pode pensar na relação como um espaço onde essas duas pessoas, né?
[00:07:24] Mãe e filho.
[00:07:25] Um irmão e outro irmão.
[00:07:27] Eles vão até esse lugar, né?
[00:07:29] Em tese.
[00:07:30] Não que precisa ser simétrico.
[00:07:32] Mas em tese, essas duas pessoas precisam fazer um movimento até esse lugar central.
[00:07:36] Esse espaço relacional, né?
[00:07:38] E aí, o que eu sinto é que as pessoas têm uma dificuldade maior.
[00:07:43] Elas sofrem mais.
[00:07:44] Quando elas não veem.
[00:07:45] Que o familiar faz o movimento de ir para o espaço.
[00:07:49] É sempre elas, né?
[00:07:51] Quando a gente tem uma família que, é claro, às vezes tem uma questão financeira que não pode.
[00:07:56] Então, é outra história.
[00:07:58] Mas quando a família pode.
[00:07:59] Ela tem saúde para isso.
[00:08:00] E ela tem dinheiro para isso.
[00:08:01] É como se só quem mora fora é endereçado para aquela pessoa toda a obrigatoriedade de fazer a relação acontecer.
[00:08:08] E aí, isso é muito difícil, né?
[00:08:10] É verdade.
[00:08:11] Eu vou chamar de ressentimento.
[00:08:13] É um ressentimento que…
[00:08:14] É um ressentimento que eu escuto muito dos pacientes dizendo
[00:08:19] Só eu que gasto.
[00:08:21] E aí, só eu vou até os meus familiares.
[00:08:23] Eles não veem.
[00:08:24] Eles não sabem como é a minha vida aqui.
[00:08:26] Principalmente pela questão econômica.
[00:08:28] Mas não é só a questão econômica.
[00:08:30] Porque muitas vezes tem a condição desse paciente que mora fora pagar, por exemplo, para os familiares virem.
[00:08:37] Mas tem o ressentimento também de quem ficou, né?
[00:08:40] E que não está tão acostumado a pegar avião.
[00:08:42] E que não está disposto.
[00:08:43] O medo que dá de pegar avião, de fazer uma conexão errada e tudo mais.
[00:08:48] Não está disposto a passar por isso.
[00:08:50] Pela escolha daquele integrante que decidiu.
[00:08:53] Então, ele decidiu.
[00:08:55] Então, ele vai ter que arcar com todo o ônus disso sozinho.
[00:08:58] E aí, fica nesse lugar pesado mesmo.
[00:09:01] É o cara que fica sendo punido por ter decidido deixar o cartel que você disse, né?
[00:09:07] A gente estava falando antes.
[00:09:09] E o Frei falou a frase…
[00:09:11] A família parece um grande cartel.
[00:09:13] Estilo Dom Corleone.
[00:09:15] E aí, o cartel pune esse integrante.
[00:09:17] Porque você saiu do nosso cartel.
[00:09:19] Então, agora você vai ter que pagar.
[00:09:21] Você é o cara que está sozinho.
[00:09:23] Então, a gente não vai aí na sua terra.
[00:09:25] Ninguém fala desse jeito.
[00:09:26] Mas é o que está.
[00:09:27] É a informação que está.
[00:09:29] E aí, fica ressentido dos dois lados.
[00:09:31] Como se tivesse escrito em algum lugar.
[00:09:34] Em alguma tábua de pedra.
[00:09:36] Que a família precisa acontecer no lugar de origem.
[00:09:40] Ah, é verdade.
[00:09:41] É verdade.
[00:09:42] E quem disse isso, né?
[00:09:43] Que a família tem que acontecer e se encontrar no lugar de origem.
[00:09:46] Sim.
[00:09:47] Eu amo voltar para a casa da minha mãe.
[00:09:50] É meu lugar favorito.
[00:09:51] Porque eu volto e penso…
[00:09:52] Uh, que gostoso.
[00:09:53] Sabe?
[00:09:54] Aqui é onde eu chamaria de casa no Brasil.
[00:09:56] É onde eu chamo de casa.
[00:09:57] Não é que tem meu quarto.
[00:09:59] Não existe mais nada nesse sentido.
[00:10:00] Mas assim, a casa da minha mãe tem um cheiro que eu não…
[00:10:03] Não é um cheiro que…
[00:10:04] Sabe quando você chega num lugar e você sente o cheiro?
[00:10:06] Na casa da minha mãe, eu não sinto o cheiro.
[00:10:07] Porque ela é tão minha que eu…
[00:10:08] Tanto que o meu filho, ele fala…
[00:10:09] Não, eu tenho tal casa, tal casa, tal casa.
[00:10:12] Aí eu falo…
[00:10:13] Filho, aonde você tem tanta casa?
[00:10:15] Ele conta a casa da minha mãe como sendo dele.
[00:10:17] De tanto que é nossa a casa da minha mãe nesse sentido, assim.
[00:10:20] Realmente, você chega e você já…
[00:10:22] Até que não é filho da minha mãe, você sente assim.
[00:10:24] Porque eu acho que minha mãe é uma pessoa que deixa as pessoas desse jeito na casa dela.
[00:10:28] Mas eu fico pensando, assim, nas experiências que eu já tive.
[00:10:32] De encontrar a minha família.
[00:10:33] Mas não é que eu não fui para a casa da minha mãe.
[00:10:35] Agora que você falou isso, eu estou gostando dessa ideia.
[00:10:37] Mas de reunir em outro lugar.
[00:10:39] Um ponto, sem ser a casa da minha mãe.
[00:10:41] De juntar meus irmãos numa casa alugada por todo mundo.
[00:10:45] Aí já entra todo mundo, né?
[00:10:47] Não é só eu gastando dinheiro.
[00:10:49] Todo mundo alugando uma casa num outro lugar.
[00:10:51] Numa outra cidade.
[00:10:52] Que é uma casa que não é de ninguém.
[00:10:53] Porque é alugada ali para aquele período.
[00:10:55] E quantas coisas diferentes surgem nos vínculos.
[00:10:59] Quem cozinha não é mais sempre a mesma pessoa.
[00:11:02] Quem limpa também é outra.
[00:11:03] As conversas são outras.
[00:11:04] Porque também você está num…
[00:11:06] Né?
[00:11:07] Você está num outro…
[00:11:08] Numa outra dinâmica.
[00:11:09] E é muito interessante.
[00:11:11] E não quer dizer que só sai coisa boa.
[00:11:12] Mas até as farpas são diferentes.
[00:11:14] Ou se brinca de coisa diferente, né?
[00:11:16] Eu já tive essa experiência.
[00:11:17] Tipo, a gente não tem o costume de jogar baralho.
[00:11:19] Mas você vai num lugar.
[00:11:20] Está numa casa.
[00:11:21] Porque lá você não tem o seu quarto para ir lá se esconder.
[00:11:24] Seu refúgio.
[00:11:25] Aí você pega um…
[00:11:26] Então tá bom. O que a gente vai fazer?
[00:11:27] Vamos jogar baralho.
[00:11:28] É verdade.
[00:11:29] É isso.
[00:11:30] Acho que mudar o QG…
[00:11:33] O QG do cartel.
[00:11:35] O QG do cartel.
[00:11:36] Muda muito.
[00:11:37] Toda a dinâmica que pode se impor ali.
[00:11:42] Isso é interessante também para sair sempre do mesmo.
[00:11:45] Porque a gente está falando…
[00:11:47] Não sei que palavra dar.
[00:11:48] Eu vou dar liberdade por falta de uma melhor.
[00:11:51] Mas eu acho que liberdade é uma palavra muito grande.
[00:11:53] Para isso que eu vou dizer.
[00:11:55] Mas se a gente pensar assim no nosso processo…
[00:11:57] Eu vou chamar de processo evolutivo.
[00:11:59] De novo, por falta de uma palavra melhor.
[00:12:01] Mas assim, se a gente pensar no nosso crescimento.
[00:12:03] Nosso processo de amadurecimento.
[00:12:05] Talvez seria uma palavra melhor.
[00:12:06] Ou a transformação que a gente vai tendo ao longo da vida.
[00:12:10] Não sei se a gente evolui necessariamente.
[00:12:12] Mas a gente vai se transformando pelo menos.
[00:12:14] Se a gente pensar na adolescência.
[00:12:16] Que é o momento crucial.
[00:12:18] Não quer dizer que todo mundo passe por isso.
[00:12:20] Mas é a hora que você se diferencia da família.
[00:12:22] E como é que você se diferencia?
[00:12:24] Primeiro, para que você se diferencia?
[00:12:26] Você não é um Xerx do seu pai e da sua mãe.
[00:12:28] Por mais que eles queiram.
[00:12:30] Eles nem sabem o que eles querem.
[00:12:32] Mas enquanto a gente é criança.
[00:12:34] A gente gosta das coisas que os pais gostam.
[00:12:36] Ou dizem para a gente que a gente tem que gostar.
[00:12:38] A gente veste o que eles mandam.
[00:12:40] A gente come o que tem ali.
[00:12:42] Que foram escolhas dos adultos e não as nossas.
[00:12:44] Chega na adolescência.
[00:12:46] Você é o suco disso tudo.
[00:12:48] E é a hora que você fala não para tudo.
[00:12:50] Que você ridiculariza todo mundo.
[00:12:52] E escolhe tudo o oposto do que foi dito e posto para você até então.
[00:12:56] Que é a sua possibilidade de se descobrir como indivíduo.
[00:13:00] E não como mais um elemento nessa sopona.
[00:13:02] E não como mais um elemento nessa sopona.
[00:13:04] Que tem nessa sopa.
[00:13:06] A gente pode pensar pai e mãe.
[00:13:08] Mas também nossas gerações anteriores.
[00:13:10] Nossos pais já são também.
[00:13:12] Um resumo do que foi.
[00:13:14] Marcas de tudo isso.
[00:13:16] Das histórias deles.
[00:13:18] E aí eu fico pensando na adolescência.
[00:13:20] Você tem uma certa liberdade poética.
[00:13:22] Quase.
[00:13:24] Uma certa permissão.
[00:13:26] Para romper com tudo.
[00:13:28] E aí você rompe com tudo.
[00:13:30] Pinta o cabelo de verde.
[00:13:32] Escolhe uma música completamente oposta.
[00:13:34] Uma religião que não tem nada a ver com a religião dos seus pais.
[00:13:36] Nega tudo.
[00:13:38] Se veste preto.
[00:13:40] Só que depois passa.
[00:13:42] E nem sempre a gente faz isso na adolescência também.
[00:13:44] Eu conheço muita gente que foi muito tranquila na adolescência.
[00:13:46] Para não ferir os pais.
[00:13:48] Inclusive.
[00:13:50] Que já vai mostrando essa dinâmica.
[00:13:52] Mas em algum momento da vida.
[00:13:54] Você vai ter que fazer essa diferenciação.
[00:13:56] Quem eu sou.
[00:13:58] Independente da minha família.
[00:14:00] Quais as escolhas que eu não pude fazer até hoje.
[00:14:02] Que eu nem sei quais são.
[00:14:04] Que eu silenciei.
[00:14:06] Porque não cabia.
[00:14:08] Na família que eu tenho.
[00:14:10] Porque não ia ser valorizado.
[00:14:12] Porque não tinha espaço para isso.
[00:14:14] E não é que as pessoas da sua família vem e te dizem.
[00:14:16] Não você não pode ser isso que você quer ser.
[00:14:18] Você nem sabe o que você quer ser.
[00:14:20] Porque não tem.
[00:14:22] Dentro de uma família.
[00:14:24] Não é para romper com a família.
[00:14:26] Mas se a gente está muito inserido.
[00:14:28] A gente não consegue.
[00:14:30] Descobrir o que a gente quer.
[00:14:32] Fora daquilo que se quer.
[00:14:34] E aí eu acho que o Natal.
[00:14:36] É uma prova de fogo.
[00:14:38] O Natal e o Ano Novo.
[00:14:40] As férias grandes com a família.
[00:14:42] É uma prova de fogo.
[00:14:44] Porque se você saiu.
[00:14:46] Você já saiu porque alguma coisa te mandava sair.
[00:14:48] Você já sentia em algum lugar de você.
[00:14:50] Ainda que não consciente.
[00:14:52] Que você precisava se distanciar.
[00:14:54] Para descobrir algo que você não sabia.
[00:14:56] Mas descobriu depois.
[00:14:58] Que você precisava ser.
[00:15:00] Para se sentir mais satisfeito.
[00:15:02] Você começa ali.
[00:15:04] Meio fora desse quebra-cabeça.
[00:15:06] E ali só cabe redondinho.
[00:15:08] Você está quadradinho.
[00:15:10] Ou ao contrário.
[00:15:12] Ali é quadradinho.
[00:15:14] Você está redondinho.
[00:15:16] Eu acho que é mais por aí.
[00:15:18] Como você vai fluir nessa dinâmica.
[00:15:20] Não costuma ser fácil.
[00:15:22] Não costuma ser gostoso isso.
[00:15:24] E a autenticidade.
[00:15:26] Ela costuma ser um prêmio.
[00:15:28] Não para quem sabe.
[00:15:30] Eu acho que essas pessoas que tem mais dificuldade.
[00:15:32] Eu vejo muito isso na clínica.
[00:15:34] A grande fala delas.
[00:15:36] Mas eu não sei o que eu quero.
[00:15:38] Porque elas usualmente querem.
[00:15:40] O que outros desejaram para ela querer.
[00:15:42] E ela só replica.
[00:15:44] É tipo aquela pessoa que vai pedir pizza.
[00:15:46] E tá bom.
[00:15:48] O que vocês escolherem para mim está bom.
[00:15:50] Eu sempre falo para as pessoas.
[00:15:52] Comece escolhendo a pizza.
[00:15:54] Não abra mão.
[00:15:56] Como eu faço isso?
[00:15:58] Eu não sei. Mas comece escolhendo a pizza.
[00:16:00] Nunca mais.
[00:16:02] Você está proibido.
[00:16:04] De escolher o sabor que escolheram.
[00:16:06] Ou você vai falar.
[00:16:08] Mas eu não sei o que eu quero.
[00:16:10] Para mim tudo está bom.
[00:16:12] Mas alguma coisa que se olhou no cardápio.
[00:16:14] E te chamou a atenção.
[00:16:16] Abacaxi com alguma coisa.
[00:16:18] Com brie.
[00:16:20] Mas é estranho.
[00:16:22] Escolhe esse sabor da pizza.
[00:16:24] Sustenta o desconforto que talvez vai gerar nas outras pessoas.
[00:16:26] É de meio a meio.
[00:16:28] Sei lá o que.
[00:16:30] Eu acho que quando a gente vem para o cartel da família.
[00:16:32] É muito mais difícil fazer isso.
[00:16:34] Porque é como se fosse.
[00:16:36] O reino dos nossos pais.
[00:16:38] É o reino onde todo mundo tem um lugar muito claro.
[00:16:40] Olha a ceia.
[00:16:42] É a mamãe que faz.
[00:16:44] E vai ter aquele prato tradicional.
[00:16:46] E assim que a gente vai fazer.
[00:16:48] O horário. Os lugares são muito marcados.
[00:16:50] Então é muito mais difícil.
[00:16:52] A gente reivindicar o direito de escolher.
[00:16:54] As coisas.
[00:16:56] Onde tudo já foi escolhido durante muitos anos.
[00:16:58] E na família todo mundo já tem o seu papel muito claro.
[00:17:00] Isso que você falou que é fantástico.
[00:17:02] E eu fico pensando.
[00:17:04] Já tem o papel.
[00:17:06] Muitas vezes já tem o papel de quem defende o seu pedaço de pizza.
[00:17:08] O seu sabor de pizza.
[00:17:10] Maluco.
[00:17:12] E aí você pensa.
[00:17:14] Não posso ser mais essa pessoa.
[00:17:16] Porque minha família não vai aguentar duas pessoas.
[00:17:18] Que exigem que o seu espaço seja protegido.
[00:17:20] Seja respeitado.
[00:17:22] Que é como a gente cresce.
[00:17:24] Tentando equilibrar as tensões dentro da família.
[00:17:26] Então tem.
[00:17:28] Então provavelmente aquele outro.
[00:17:30] Já é mais pacífico.
[00:17:32] Porque senão vira uma loucura.
[00:17:34] E aí quando você volta.
[00:17:36] Você não quer mais fazer esse papel.
[00:17:38] Mas aí você acaba fazendo.
[00:17:40] Porque senão você tem medo disso.
[00:17:42] Da hostilidade.
[00:17:44] Da violência que cresce.
[00:17:46] Ou das desavenças.
[00:17:48] E aí não desce.
[00:17:50] Porque você já não quer mais ficar nesse lugar.
[00:17:52] E aí quando você fala.
[00:17:54] Sustenta o seu sabor de pizza de abacaxi.
[00:17:56] É que eu gosto.
[00:17:58] Essa pizza aqui.
[00:18:00] Chama california.
[00:18:02] É abacaxi com.
[00:18:04] Presunto.
[00:18:06] Eu adoro abacaxi no salgado.
[00:18:08] E aí eu fico pensando assim.
[00:18:10] Sustentar esse lugar.
[00:18:12] É muito difícil.
[00:18:14] Mas você falou uma palavra que eu gosto tanto dela.
[00:18:16] Eu tenho medo que ela já esteja gasta.
[00:18:18] E eu tenho medo dela ser mal empregada.
[00:18:20] Mas é uma palavra muito boa.
[00:18:22] Que é autenticidade.
[00:18:24] E não autêntico.
[00:18:26] Dessa coisa meio produtiva da sociedade.
[00:18:28] Mas o autêntico assim.
[00:18:30] De conseguir encontrar.
[00:18:32] E isso não é uma coisa que a gente vai fazer de uma vez.
[00:18:34] E tem a vida toda para isso.
[00:18:36] Mas ir encontrando aquilo que.
[00:18:38] É importante para você.
[00:18:40] Que faz sentido para você.
[00:18:42] E que a gente só sabe um passo de cada vez.
[00:18:44] Você não sabe assim.
[00:18:46] Ah vou dar esses cinco passos.
[00:18:48] Vou sustentar isso daqui.
[00:18:50] E isso vai me tornar no ser singular que eu sou.
[00:18:52] Não é desse jeito.
[00:18:54] A minha autenticidade.
[00:18:56] Defender quem eu sou.
[00:18:58] E quem eu quero continuar sendo.
[00:19:00] Seja comer a pizza de abacaxi.
[00:19:02] Ainda que todo mundo ache um nojo.
[00:19:04] E aí isso pode ser que me dê forças.
[00:19:06] Para amanhã defender.
[00:19:08] Que eu nem acho tão importante assim.
[00:19:10] Trabalhar tanto.
[00:19:12] Igual toda minha família trabalha.
[00:19:14] E pode ser que numa outra instância.
[00:19:16] Dentro de mim.
[00:19:18] Depois isso é fora.
[00:19:20] Eu consiga defender que os meus valores.
[00:19:22] São tais coisas e tais coisas.
[00:19:24] Como meu pai para minha mãe.
[00:19:26] Sim.
[00:19:28] É quase como se.
[00:19:30] Eu descubro o que eu quero.
[00:19:32] Primeiro sustentando o querer.
[00:19:34] Diferente do que os outros quiseram.
[00:19:36] Não sabendo.
[00:19:38] Porque a gente não começa nesse processo sabendo.
[00:19:40] Ah é muito difícil.
[00:19:42] Bancar a briga.
[00:19:44] Eu não sei se eu já contei essa história aqui.
[00:19:46] Eu acho que não.
[00:19:48] Mas eu estava pensando assim.
[00:19:50] É mais difícil para a mulher.
[00:19:52] Muito mais.
[00:19:54] Nossa eu cometi uma agafe horrorosa.
[00:19:56] Outro dia.
[00:19:58] E depois eu fiquei pensando.
[00:20:00] Por que eu fiz uma coisa dessa.
[00:20:02] Uma mulher tão livre.
[00:20:04] O nome dela é Raissa.
[00:20:06] Inclusive minha gente.
[00:20:08] Ela e o Gabriel que são ouvintes.
[00:20:10] Estavam passando por aqui.
[00:20:12] E vieram me visitar.
[00:20:14] E agora eles são amigos.
[00:20:16] E a Raissa estava comendo um churrasco feito por mim.
[00:20:18] Olha só.
[00:20:20] Você vai abrir uma porta enorme com essa frase.
[00:20:22] Eu não tenho talento.
[00:20:24] De fazer churrasco.
[00:20:26] E eu estava lá fazendo churrasco para eles.
[00:20:28] Tinha outros amigos também que eu tinha convidado.
[00:20:30] Porque eu recebo bem as pessoas.
[00:20:32] Por isso que elas se tornam amigas.
[00:20:34] Enfim.
[00:20:36] Ouvinte já é amigo.
[00:20:38] E aí.
[00:20:40] Estava recebendo Raissa e Gabriel.
[00:20:42] E aí eu fui perguntar para o Gabriel.
[00:20:44] Que ponto ele gostava da carne.
[00:20:46] Porque ainda estava em tempo de pegar.
[00:20:48] Mal passada.
[00:20:50] Para quem quisesse.
[00:20:52] Fazer lasquinhas bem passadas.
[00:20:54] E aí eu.
[00:20:56] Estou atenta e falo.
[00:20:58] Gabriel você gosta de carne bem passada ou mal passada?
[00:21:00] E ele fala. Eu gosto assim.
[00:21:02] Não me lembro agora se era bem passada ou mal passada.
[00:21:04] E nisso eu volto para a churrasqueira.
[00:21:06] E aí a Raissa.
[00:21:08] Me fala.
[00:21:10] Eu prefiro mal passada.
[00:21:12] E aí eu não sabia onde enfiar a minha cara.
[00:21:14] Eu não sabia como explicar para ela.
[00:21:16] Do por que eu não perguntei para ela.
[00:21:18] Eu só perguntei para ele.
[00:21:20] Mas eu não quis ficar também.
[00:21:22] Eu estava me martelando ali.
[00:21:24] Me machucando com aquilo.
[00:21:26] Pedi desculpa.
[00:21:28] Dei a carne no ponto que ela queria.
[00:21:30] Depois dei a do Gabriel.
[00:21:32] De outros amigos também.
[00:21:34] Mas depois pensei.
[00:21:36] O que tem que ficar mais forte para mim.
[00:21:38] É a liberdade.
[00:21:40] E o bancar dessa mulher.
[00:21:42] Que ela chegou e falou.
[00:21:44] Eu existo.
[00:21:46] Eu nunca vim na sua casa.
[00:21:48] Você está fazendo um churrasco aí.
[00:21:50] Eu.
[00:21:52] Eu teria ficado quieta.
[00:21:54] Porque eu sou essa pessoa ruim de briga.
[00:21:56] Que não era uma briga.
[00:21:58] Mas na minha cabeça já era uma briga.
[00:22:00] Reivindicar um espaço.
[00:22:02] E ela reivindicou.
[00:22:04] E deu tudo certo.
[00:22:06] E eu dei a carne para ela.
[00:22:08] Depois fiquei chateada.
[00:22:10] Rendeu.
[00:22:12] Estou aqui contando essa história.
[00:22:14] E fiquei pensando.
[00:22:16] Ela é tida.
[00:22:18] Não sei se facilidade.
[00:22:20] Mas ela sempre se defendeu.
[00:22:22] Talvez com muita agressividade.
[00:22:24] E ela está encontrando o caminho do meio.
[00:22:26] Que geralmente é o melhor.
[00:22:28] Na história dela.
[00:22:30] Isso me lembrou uma outra história.
[00:22:32] De uma professora de yoga super legal.
[00:22:34] Mas que foi a vida toda vegetariana.
[00:22:36] Pela história da vida dela.
[00:22:38] Nunca gostou de carne.
[00:22:40] Sempre muito pacífica.
[00:22:42] Até pela profissão.
[00:22:44] E ela falou.
[00:22:46] Imagina uma pessoa que treina o dia inteiro.
[00:22:48] Faz yoga o dia inteiro.
[00:22:50] Dá aula disso.
[00:22:52] E ainda assim eu era bunda mole.
[00:22:54] Em todos os sentidos que você imagina.
[00:22:56] Minha bunda era mole mesmo.
[00:22:58] Fisicamente mole.
[00:23:00] E eu não conseguia me defender.
[00:23:02] Eu não conseguia defender os meus pontos de vista.
[00:23:04] Os meus desejos.
[00:23:06] O meu lugar.
[00:23:08] A minha autenticidade.
[00:23:10] Quem eu sou.
[00:23:12] Porque quando a gente não defende nosso desejo.
[00:23:14] A gente não consegue defender quem a gente é.
[00:23:16] Porque uma coisa vem depois da outra.
[00:23:18] Primeiro você defende um espaço seu.
[00:23:20] E aí você fala. Não é que eu gosto de abacaxi?
[00:23:22] Ou ao contrário.
[00:23:24] Não é que eu tenho alergia desse abacaxi.
[00:23:26] Que eu briguei tanto.
[00:23:28] Mas você precisa primeiro defender esse lugar.
[00:23:30] Para depois você descobrir quem você é.
[00:23:32] E aí ela estava com uns problemas terríveis de saúde.
[00:23:34] E o médico disse para ela.
[00:23:36] Você tem que comer carne.
[00:23:38] E ela nunca tinha comido carne.
[00:23:40] Ela não gostava de carne.
[00:23:42] Só que a carne tem uma certa agressividade.
[00:23:44] De coisas no seu corpo.
[00:23:46] Eu gostei dessa história.
[00:23:48] Porque ela fala. Eu começo a comer carne.
[00:23:50] Uma coisa que eu nem gostava.
[00:23:52] Mas uma orientação médica.
[00:23:54] Começo a fazer fibra muscular.
[00:23:56] Meu corpo começa a ficar enrijecido.
[00:23:58] E eu também começo a ficar uma mulher.
[00:24:00] Dona de mim.
[00:24:02] E uma coisa foi.
[00:24:04] Eu fui pensando muito nessa questão do bunda mole.
[00:24:06] Como é importante.
[00:24:08] As vezes eu penso assim.
[00:24:10] Nossa.
[00:24:12] Eu sou muito pacífica.
[00:24:14] Gosto de ser pacífica.
[00:24:16] Na verdade mesmo que eu não gostasse.
[00:24:18] Eu não consigo ser muito contrário do que isso.
[00:24:20] Mas que importante que é você poder comprar a briga.
[00:24:22] Você poder enfrentar o medo que dá.
[00:24:24] Porque eu acho que.
[00:24:26] Não comprar a briga.
[00:24:28] É medo de perder o amor.
[00:24:30] É medo de perder os afetos ali.
[00:24:32] É medo de ferir.
[00:24:34] Fatalmente o outro.
[00:24:36] É medo de romper aquele vínculo.
[00:24:38] Como a gente é criancinha por dentro.
[00:24:40] Porque criança tem medo de brigar com a mãe.
[00:24:42] Com o pai.
[00:24:44] É muito mais pacífico ser submisso.
[00:24:46] É.
[00:24:48] E acho que muitas vezes a gente confunde as coisas.
[00:24:50] E vai sendo submisso ao invés de ser pacífico.
[00:24:52] Eu gosto de uma palavra.
[00:24:54] É submetido.
[00:24:56] Mas eu acho que assim.
[00:24:58] Elas são irmãs gêmeas.
[00:25:00] Submisso e submetido.
[00:25:02] Mas o submetido parece que ele está em tudo.
[00:25:04] Porque as vezes você pode não ser submissa.
[00:25:06] De repente.
[00:25:08] Ou submisso.
[00:25:10] A todo mundo.
[00:25:12] As circunstâncias.
[00:25:14] Aceita as circunstâncias o tempo todo.
[00:25:16] Está submetido ao desejo do outro.
[00:25:18] Está submetido aos seus próprios medos.
[00:25:20] Sendo submisso.
[00:25:22] Juntando o que você disse que é mais difícil para as mulheres.
[00:25:24] Eu acho que sim.
[00:25:26] Óbvio que podem ser homens.
[00:25:28] Eu sempre faço questão de dizer isso.
[00:25:30] Mas para além da cultura machista.
[00:25:32] Que já é naturalmente.
[00:25:34] Mais colonizadora das mulheres.
[00:25:36] Eu acho que tem a questão dos filhos.
[00:25:38] Porque o que eu vejo muito acontecer.
[00:25:40] É pessoas que vêm de um lugar.
[00:25:42] Onde elas não podiam desejar.
[00:25:44] Só que a hora que elas aprendem a desejar.
[00:25:46] Muito rapidamente elas tem filhos.
[00:25:48] E é o direito ao desejo do filho e não dela.
[00:25:50] E elas não conseguem.
[00:25:52] Antes elas não se separavam dos pais para poder desejar.
[00:25:54] E aí elas não se separam dos filhos.
[00:25:56] Para poder desejar.
[00:25:58] E aí isso vai se misturando com o amor.
[00:26:00] Vai se misturando com o cuidado.
[00:26:02] E aí vira uma perdição só.
[00:26:04] E que é um.
[00:26:06] Uma lambança.
[00:26:08] Difícil de identificar.
[00:26:10] Não dar tanta voz ao desejo do filho.
[00:26:12] É uma maneira de continuar submetida.
[00:26:14] E também não se responsabilizar.
[00:26:16] Porque por trás do submetimento.
[00:26:18] Está o medo.
[00:26:20] De ser responsável.
[00:26:22] Porque quando você defende o seu ponto de vista.
[00:26:24] Aquilo que você acha que vai.
[00:26:26] Ser bom para você naquela hora.
[00:26:28] Você é responsável também.
[00:26:30] Pelas contra indicações disso tudo.
[00:26:32] Pelo resultado disso tudo.
[00:26:34] Pela pizza ser ruim e ninguém gostar.
[00:26:36] Exato.
[00:26:38] Enfim.
[00:26:40] Ser criticada.
[00:26:42] Algo dá errado.
[00:26:44] E acho que atrás da.
[00:26:46] Dessa pessoa boazinha.
[00:26:48] Que se submete ao desejo do outro.
[00:26:50] Dessa passividade que eu digo que eu tenho.
[00:26:52] Tem também.
[00:26:54] Essa dificuldade de pegar para si.
[00:26:56] A responsabilidade.
[00:26:58] De pagar o preço das coisas.
[00:27:00] O preço da vida.
[00:27:02] Da vida vivida com mais satisfação.
[00:27:04] É você peitar o medo.
[00:27:06] A coragem ou a falta dela.
[00:27:08] Mas que você vai precisar.
[00:27:10] O caminho é autoral.
[00:27:12] É individual senão você vai.
[00:27:14] Provavelmente ter uma vida muito insatisfatória.
[00:27:16] Repetindo os passos ou seguindo os passos de outras pessoas.
[00:27:18] Do companheiro, da companheira.
[00:27:20] Da igreja, da família.
[00:27:22] Da sociedade que você está.
[00:27:24] Mas que não é o seu.
[00:27:26] Tende a não ser uma coisa boa.
[00:27:28] Dificilmente essas pessoas.
[00:27:30] Quando chegam nesse momento que você olha para trás.
[00:27:32] Olha e gosta do que fez.
[00:27:34] Eu estou aqui pensando nisso.
[00:27:36] Você falou.
[00:27:38] Da mãe ou do pai.
[00:27:40] Que pega essa voz.
[00:27:42] E põe a voz no filho.
[00:27:44] E aí faz tudo para o filho.
[00:27:46] Pelo filho.
[00:27:48] Está submetido a isso.
[00:27:50] Como é destrutivo também.
[00:27:52] Para o filho estar nesse lugar.
[00:27:54] É muito destrutivo.
[00:27:56] Esse excesso de voz.
[00:27:58] E até de amor.
[00:28:00] É destrutivo para essa relação.
[00:28:02] É um poder que um filho não pode ter.
[00:28:04] Não nessa hora.
[00:28:06] Daí o problema é outro.
[00:28:08] É um filho que.
[00:28:10] Reivindica demais.
[00:28:12] Porque.
[00:28:14] Também não aprende a ceder.
[00:28:16] Por conta de pais que nunca vão fazer valer o próprio desejo.
[00:28:18] De uma maneira egoísta mesmo.
[00:28:20] Nem acho que a palavra seria essa.
[00:28:22] Porque egoísmo a gente usa para falar de um pecado capital.
[00:28:24] Mas.
[00:28:26] Pais que não tem.
[00:28:28] Não fazem valer o seu próprio desejo.
[00:28:30] E é esse reizinho da casa.
[00:28:32] Que não sabe ter frustração.
[00:28:34] Daí acho que são essas crianças.
[00:28:36] Talvez mais de agora.
[00:28:38] Que são muito frágeis.
[00:28:40] Quando você não dá voz para o seu próprio desejo.
[00:28:42] E dá muita voz.
[00:28:44] Para o lugar da criança.
[00:28:46] Essa criança ela pode.
[00:28:48] Aparentemente parecer muito forte.
[00:28:50] Porque é o reizinho.
[00:28:52] É quem reivindica tudo.
[00:28:54] É quem manda e desmanda.
[00:28:56] Quem pauta as coisas que vão acontecer ali.
[00:28:58] Geralmente ao redor dos interesses dela.
[00:29:00] Mas ela cresce muito insegura.
[00:29:02] Porque ela não está podendo se apoiar.
[00:29:04] Nesse pai ou nessa mãe.
[00:29:06] Não é uma pessoa que ela pensa.
[00:29:08] Essa pessoa tem envergadura.
[00:29:10] E eu posso testar ela.
[00:29:12] Porque ela não vai romper.
[00:29:14] Essa pessoa não pode.
[00:29:16] Essa pessoa se rompe.
[00:29:18] Ela não cresce segura.
[00:29:20] Ela não cresce bem.
[00:29:22] Ela cresce frágil.
[00:29:24] Não pequenas.
[00:29:26] Mas frustrações que poderiam ser sustentadas.
[00:29:28] De uma maneira mais tranquila.
[00:29:30] Na criança.
[00:29:32] Tem algum filósofo.
[00:29:34] Se tivéssemos um tempo.
[00:29:36] Poderíamos procurar.
[00:29:38] Se você quiser destruir uma pessoa.
[00:29:40] Dê tudo o que ela deseja.
[00:29:42] Ou prive ela de tudo o que ela deseja.
[00:29:44] É verdade.
[00:29:46] São duas formas.
[00:29:48] Dois caminhos opostos.
[00:29:50] Dessa destruição do outro.
[00:29:52] De criar pessoas inseguras.
[00:29:54] Sim.
[00:29:56] Pois é.
[00:29:58] Por mais desagradável que seja.
[00:30:00] Você passar por uma grande decepção.
[00:30:02] Por grandes decepções que a gente passa.
[00:30:04] Por limitações.
[00:30:06] Por faltas.
[00:30:08] É estruturante.
[00:30:10] Quando você está passando por um momento difícil.
[00:30:12] Você se recorda.
[00:30:14] Do seu último momento difícil.
[00:30:16] Ou de um grande momento difícil.
[00:30:18] Esse repertório.
[00:30:20] Vai sendo degrau de alguma forma.
[00:30:22] Onde você pisa.
[00:30:24] Quando você está passando por alguma coisa complicada.
[00:30:26] E aí pensando assim.
[00:30:28] Na abertura do nosso programa.
[00:30:30] O quanto essa estrutura.
[00:30:32] Ela vem por a gente.
[00:30:34] Saber se separar de quem a gente ama.
[00:30:36] Para poder entender.
[00:30:38] Quais são os seus contornos.
[00:30:40] O que te aproxima do lugar que você veio.
[00:30:42] O que te difere do lugar.
[00:30:44] Da onde você veio.
[00:30:46] E vai dando esses contornos.
[00:30:48] E essa plasticidade do eu.
[00:30:50] Eu acho que só vai acontecer.
[00:30:52] Na hora que a gente sabe se separar.
[00:30:54] E aí esse separar.
[00:30:56] É tanto se separar de filho.
[00:30:58] Como se separar de pai e mãe.
[00:31:00] Veja a nossa fala do cartel.
[00:31:02] Como a vida vai virando uma coisa de.
[00:31:04] Tudo é voltado para a família.
[00:31:06] E eu acho que o Natal e o Ano Novo.
[00:31:08] Eles tem esse peso.
[00:31:10] De que a gente tem que ficar com a família.
[00:31:12] Como se fosse na família.
[00:31:14] Que a gente se constrói.
[00:31:16] Mas a gente se constrói fora da família também.
[00:31:18] Talvez seja a partir da família.
[00:31:20] Porque é da onde a gente saiu.
[00:31:22] Mas é fora da família também.
[00:31:24] Uma grande parte.
[00:31:26] É fora da família.
[00:31:28] Não sei se foi esse o tom.
[00:31:30] Que eu acabei dando também.
[00:31:32] Eu não concordo que.
[00:31:34] Por conta de todos os defeitos.
[00:31:36] Que todos nós temos.
[00:31:38] E todas as nossas famílias tem.
[00:31:40] Que é se distanciar da família.
[00:31:42] Para poder enxergar os defeitos dela.
[00:31:44] E ser o abençoado que é diferente.
[00:31:46] Eu acho que é o contrário.
[00:31:48] É poder estar distanciado.
[00:31:50] Enxergar onde são as coisas.
[00:31:52] Que você não concorda.
[00:31:54] Que na sua vida vai ser diferente.
[00:31:56] E ter paz para tudo isso também.
[00:31:58] Quando volta e se encontra.
[00:32:00] Que isso não seja uma crítica.
[00:32:02] Porque também não é por aí.
[00:32:04] Eu acho que quanto mais você pode aceitar.
[00:32:06] A família que você tem.
[00:32:08] Sem que você se transforme.
[00:32:10] Para caber nessa família.
[00:32:12] Você possa voltar sustentando quem você é.
[00:32:14] Mas também deixando que todo mundo se sustente.
[00:32:16] É porque.
[00:32:18] A gente já falou dessa palavra.
[00:32:20] Em outros episódios.
[00:32:22] Que não tem essa porosidade para o outro.
[00:32:24] É justamente a diferença.
[00:32:26] Quando você é um politeísta.
[00:32:28] Onde pode ter vários deuses.
[00:32:30] Não tem que ter um único deus.
[00:32:32] Ou uma única cultura.
[00:32:34] Se a gente pensar em monocultura.
[00:32:36] Dá para ter a divergência.
[00:32:38] Dá para ter pluralidade.
[00:32:40] E até.
[00:32:42] Se divertir quem sabe.
[00:32:44] Se nutrir.
[00:32:46] Daquilo que é tão diferente.
[00:32:48] E contundente.
[00:32:50] Entre todas essas pessoas.
[00:32:52] Como a gente faz fora da família.
[00:32:54] Como a gente permite as outras pessoas.
[00:32:56] Porque fora da família.
[00:32:58] A gente é mais viu.
[00:33:00] Talvez.
[00:33:02] A gente não passa tantos limites.
[00:33:04] Com amigo.
[00:33:06] Com colega de trabalho.
[00:33:08] A gente joga com esse vínculo elástico.
[00:33:10] Que é o familiar.
[00:33:12] Fora da família.
[00:33:14] Você não fala as coisas.
[00:33:16] Do jeito que você fala.
[00:33:18] Geralmente dentro da família.
[00:33:20] Não estou dizendo que precisa ser diferente.
[00:33:22] Mas acho que a gente pode se nutrir mais.
[00:33:24] Do que pode oferecer a família.
[00:33:26] Que geralmente é muito inclusive.
[00:33:28] Mas se a gente não tiver tão.
[00:33:30] Sei lá.
[00:33:32] Tentando encaixar e se calando muito.
[00:33:34] Ou tentando calar os outros.
[00:33:36] Para que tudo se encaixe.
[00:33:38] Eu vou.
[00:33:40] Ainda sempre recomendar.
[00:33:42] Que saia um pouco da família.
[00:33:44] Para poder descobrir.
[00:33:46] Que as vezes a gente vem em um lugar.
[00:33:48] Onde nós somos sempre.
[00:33:50] Na família a gente é sempre o revoltado.
[00:33:52] O chato.
[00:33:54] O quietinho.
[00:33:56] E a hora que você sai.
[00:33:58] Você fala assim.
[00:34:00] Não é que todo mundo falava que eu era muito birrento.
[00:34:02] Mas nesse outro lugar.
[00:34:04] Nesse outro grupo.
[00:34:06] Ninguém me acha birrento.
[00:34:08] Não é que eu era super quietinho na família.
[00:34:10] Aí quando eu saio.
[00:34:12] Eu sou mais sociável.
[00:34:14] Daí a hora que vai descobrindo essa plasticidade.
[00:34:16] Do eu.
[00:34:18] A hora que essa pessoa volta para a família.
[00:34:20] Se ela tiver a condição de lidar.
[00:34:22] Com a diferença.
[00:34:24] Ela já está mais fortalecida.
[00:34:26] De descobrir que ela é mais coisas.
[00:34:28] Do que a própria família enxerga.
[00:34:30] E é bem isso.
[00:34:32] Eu estava lembrando de uma história.
[00:34:34] Enquanto você contava isso.
[00:34:36] Me fez se acordar.
[00:34:38] Tinha uma menina.
[00:34:40] Uma mulher mais jovem.
[00:34:42] Mochileira.
[00:34:44] E ela passa muitos meses fora do Brasil.
[00:34:46] Mochilando por aí.
[00:34:48] E aí ela vai.
[00:34:50] Dormindo no sofá.
[00:34:52] Ela vai ficando por aí.
[00:34:54] Em casas de gente conhecida.
[00:34:56] E gente desconhecida.
[00:34:58] E é assim que ela curte fazer essas viagens de mochileira.
[00:35:00] E aí ela volta.
[00:35:02] Ela faz isso várias vezes.
[00:35:04] Por ano.
[00:35:06] Todo ano.
[00:35:08] E aí nessa última volta ao Brasil.
[00:35:10] Ela passa pela casa do pai.
[00:35:12] E aí tem que estão fazendo alguma coisa.
[00:35:14] Lá na casa dele.
[00:35:16] Ele fala.
[00:35:18] Ah você fulaninha.
[00:35:20] Ela lava a louça.
[00:35:22] Arruma as coisas.
[00:35:24] Tinha umas cadeiras em cima de uma mesa.
[00:35:26] E ela não se ligou.
[00:35:28] Que alguém tinha que baixar as cadeiras.
[00:35:30] Porque se você não baixar as cadeiras.
[00:35:32] Vai ser a sua madrasta.
[00:35:34] Que está mal da coluna.
[00:35:36] Que vai ter que baixar.
[00:35:38] E ela não tinha se ligado.
[00:35:40] Aí ela primeiro ficou com raiva.
[00:35:42] Porque se é acusado.
[00:35:44] Você fica com raiva.
[00:35:46] A raiva é de cega.
[00:35:48] Não conseguiu falar nada.
[00:35:50] Eu escutei coisas tão diferentes.
[00:35:52] As pessoas diziam.
[00:35:54] Nossa como você é prestativa.
[00:35:56] Nossa como você é atenta.
[00:35:58] Nossa como você me ajudou.
[00:36:00] Porque como ela estava em casas de pessoas que ela não conhecia.
[00:36:02] Ela tinha que ficar atenta.
[00:36:04] Na dinâmica daquela casa que ela não conhecia.
[00:36:06] E as vezes ela estava ali.
[00:36:08] Ou pagando muito pouco.
[00:36:10] Ou pagando nada.
[00:36:12] Ela estava ali ajudando coletivamente.
[00:36:14] Barrendo, lavando louça, cozinhando.
[00:36:16] Ajudando no funcionamento daquele lugar.
[00:36:18] E as pessoas dizendo para ela.
[00:36:20] Que ela não aparecia na casa dela.
[00:36:22] Só que aí ela.
[00:36:24] Foi uma história bonita.
[00:36:26] Porque ela não só ficou nesse lugar de falar.
[00:36:28] Eu não sou isso não que você está me dizendo.
[00:36:30] Ela disse.
[00:36:32] A gente precisa entender junto.
[00:36:34] Porque que você só me deixa existir nesse lugar.
[00:36:36] Da pessoa desleixada que não ajuda ninguém.
[00:36:38] Que é egoísta.
[00:36:40] Que ainda por cima ela é filha única.
[00:36:42] Então a gente já tem esse rótulo.
[00:36:44] Do filho único que é egoísta.
[00:36:46] A gente vai ter que entender junto.
[00:36:48] De uma maneira.
[00:36:50] E porque que eu realmente nem vi.
[00:36:52] Que tinha essas coisas para fazer.
[00:36:54] A gente vai ter que fazer uma mudança.
[00:36:56] Talvez você vai ter que me dizer.
[00:36:58] Luana você pode me ajudar aqui com essas cadeiras.
[00:37:00] Ou eu cozinho e você lava.
[00:37:02] Para eu ir mudando de lugar.
[00:37:04] Porque eu sei que eu posso ser diferente.
[00:37:06] E aí eu falei.
[00:37:08] Parabéns, parabéns.
[00:37:10] Nossa que orgulho.
[00:37:12] Orgulho do terapeuta.
[00:37:14] Nossa arrasou.
[00:37:16] Que bonito a gente descobrir que pode ser diferente.
[00:37:18] Sim.
[00:37:20] Eu vou dizer que é fundamental para a gente.
[00:37:22] Para a saúde mental.
[00:37:24] Saber que a gente pode ser diferente.
[00:37:26] Da família que a gente construiu.
[00:37:28] Eu tendo a pensar que as vezes é mais difícil.
[00:37:30] Se separar de um filho.
[00:37:32] Para poder saber que a gente é diferente.
[00:37:34] Da posição de pai e mãe.
[00:37:36] Então.
[00:37:38] É a diferença que liberta a gente.
[00:37:40] Eu acho do nosso sofrimento.
[00:37:42] É verdade.
[00:37:44] Bom ficamos por aqui hoje.
[00:37:46] É suficiente para a gente repensar.
[00:37:48] Nossa ceia de natal.
[00:37:50] Nosso ano novo.
[00:37:52] O quanto a gente quer estar junto.
[00:37:54] O quanto a gente quer separar.
[00:37:56] Bom Fê.
[00:37:58] Tem algo mais que você queira falar.
[00:38:00] Para o fechamento desse episódio.
[00:38:02] Acho que a gente.
[00:38:04] É minha opinião isso.
[00:38:06] Porque vai ser difícil a gente definir o que é o amor.
[00:38:08] Ou pegar a definição de uma pessoa.
[00:38:10] E importar para nós.
[00:38:12] A gente tem que construir.
[00:38:14] As relações.
[00:38:16] Amor.
[00:38:18] Algo inatingível.
[00:38:20] Algo que é como um horizonte.
[00:38:22] Quanto mais a gente cresce.
[00:38:24] Mais ele expande.
[00:38:26] Mas o que eu acho que não é amor.
[00:38:28] A nossa hiper dedicação.
[00:38:30] As pessoas da nossa família.
[00:38:32] Acho que isso é narcisismo.
[00:38:34] Não estou dizendo que a gente tem que amar nossos filhos.
[00:38:36] Nossos pais.
[00:38:38] Mas eu não considero isso o amor puro.
[00:38:40] Eu acho que o amor puro.
[00:38:42] Vai incluindo mais gente.
[00:38:44] Dentro desse espaço amostral.
[00:38:46] Do qual a gente engaja.
[00:38:48] Tempo. Energia.
[00:38:50] Força para amar.
[00:38:52] Então quanto mais a gente olha na nossa vida.
[00:38:54] E a gente está hiper centralizado.
[00:38:56] Em nossos filhos.
[00:38:58] Em nossos pais.
[00:39:00] Em nossos irmãos.
[00:39:02] As pessoas do nosso grupinho.
[00:39:04] Na minha opinião.
[00:39:06] A gente fantasia dizendo que a gente ama muito.
[00:39:08] E tem uma mescla muito perigosa.
[00:39:10] Entre amor e narcisismo.
[00:39:12] Talvez quanto mais a gente conseguir.
[00:39:14] Entender que amor.
[00:39:16] É incluir o outro de fora.
[00:39:18] Aquele que não pertence a essa patotinha do cartel.
[00:39:20] E vai incluindo.
[00:39:22] E ampliando.
[00:39:24] E claro que tem limites.
[00:39:26] A gente não vai conseguir incluir todo mundo.
[00:39:28] Acho que não pertence aos humanos.
[00:39:30] Mas a gente pode pelo menos estar no caminho.
[00:39:32] E não se enganar.
[00:39:34] De que a gente ama muito.
[00:39:36] Porque a gente está hiper engajado nas pessoas.
[00:39:38] Eu sei que você acha isso.
[00:39:40] Adorei.
[00:39:42] Muito boas palavras, Fê.
[00:39:44] Qualquer coisa que eu acrescentar a isso.
[00:39:46] Eu vou estragar essa obra de arte.
[00:39:50] Gente, então vamos ficando por aqui.
[00:39:52] Boas festas para todo mundo.
[00:39:54] Em janeiro nós voltamos.
[00:39:56] Final de janeiro, né Fê?
[00:39:58] Quiçá fevereiro.
[00:40:00] Pra gente ter férias.
[00:40:02] De falar e de ficar refletindo a vida.
[00:40:04] Tudo bem.
[00:40:06] As pessoas aguentam.
[00:40:08] Em 2026 a gente vai aparecer.
[00:40:10] Obrigada por esse ano.
[00:40:12] Obrigada por tudo que chegou na gente.
[00:40:14] Mensagens.
[00:40:16] Pessoas apoiando nosso trabalho.
[00:40:18] Nos vemos no ano que vem.
[00:40:20] Quem quiser acompanhar nosso trabalho.
[00:40:22] Eu estou no Instagram como Mundo Interno Psi.
[00:40:24] Fê, como a gente te acha?
[00:40:26] No Instagram também.
[00:40:28] Em conversa para viagem.
[00:40:30] É isso.
[00:40:32] Beijo grande.
[00:40:34] Fiquem bem.
[00:40:36] Tchau, Fê.