Wittgenstein e a virada linguística na filosofia
Resumo
Este episódio oferece uma introdução a Ludwig Wittgenstein, um dos filósofos mais importantes do século XX e figura central da chamada “virada linguística”. A apresentação começa com uma breve biografia do pensador, destacando sua origem em uma família rica de Viena, sua formação em engenharia, sua experiência como soldado na Primeira Guerra Mundial (período em que escreveu o Tractatus), e sua busca por uma vida simples e espiritual influenciada por Tolstoi, que o levou a viver em uma cabana na Noruega, trabalhar como professor e até tentar uma vida de trabalho manual na União Soviética.
A primeira parte filosófica é dedicada ao “Tractatus Logico-Filosóficus”. A obra tem como objetivo identificar sobre o que podemos falar de forma significativa, o que exige uma investigação sobre a natureza da linguagem. Sua ideia central é que a linguagem é um “retrato do mundo”, compartilhando com ele a mesma forma lógica. Uma famosa consequência dessa visão é a afirmação de que “os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”. O Tractatus conclui que há coisas sobre as quais não se pode falar, apenas mostrar – incluindo temas como Deus, ética e o sentido da vida –, o que confere à obra um caráter paradoxal e místico. Wittgenstein acreditou, por um tempo, que o livro havia resolvido todos os problemas da filosofia, uma posição que ele mais tarde rejeitaria.
A segunda parte aborda a fase posterior de Wittgenstein, centrada nas “Investigações Filosóficas”. Aqui, o foco se desloca para o uso da linguagem em contextos sociais. O episódio explora a famosa afirmação “se um leão pudesse falar, não o entenderíamos” para introduzir o conceito de “formas de vida” (Lebensform). A linguagem só faz sentido dentro de uma cultura e um conjunto de experiências compartilhadas. Outro conceito-chave apresentado é o de “jogos de linguagem” (Sprachspiel), que postula que o significado de uma palavra ou expressão é dado pelas regras de seu uso em situações sociais concretas.
Finalmente, o episódio sintetiza a contribuição de Wittgenstein: sua filosofia, em ambas as fases, teve o objetivo de limitar ou mesmo acabar com a filosofia tradicional, combatendo o que ele chamava de “enfeitiçamento do nosso entendimento pelas palavras”. A tarefa da filosofia, para o Wittgenstein maduro, seria conduzir as palavras de seu uso metafísico abstrato de volta ao seu uso cotidiano, eliminando assim os problemas filosóficos que surgem de um mau uso da linguagem. Sua obra deu origem a duas grandes correntes: o positivismo lógico (a partir do Tractatus) e a filosofia analítica da linguagem ordinária (a partir das Investigações).
Indicações
Books
- Tractatus Logico-Filosóficus — Obra da primeira fase de Wittgenstein, que propõe a linguagem como um retrato lógico do mundo e busca delimitar o que pode ser dito de forma significativa.
- Investigações Filosóficas — Obra da segunda fase de Wittgenstein, que introduz os conceitos de “formas de vida” e “jogos de linguagem”, focando no uso social e contextual da linguagem.
- Filosofia para a Vida, Quando Pensar é o Melhor Remédio — Livro do apresentador do podcast, publicado pela editora Vozes, que propõe a filosofia como uma terapia para a alma, ajudando a lidar com dificuldades humanas não-patológicas.
Courses
- Introdução à Filosofia dos pré-socráticos a Sartre — Curso oferecido pelo podcast que cobre Wittgenstein e diversos outros filósofos de todos os períodos. O conteúdo deste episódio foi extraído desse curso.
Music
- Sonata em ré menor, Op. 108 de Johannes Brahms — Trecho musical tocado durante a “Pausa Musical” do episódio. Brahms é descrito como um compositor alemão nascido em 1833 em Hamburgo e falecido em 1897 em Viena.
People
- Georg Lukács — Filósofo húngaro mencionado como tendo uma trajetória paralela à de Wittgenstein: ambos nasceram em famílias ricas no Império Austro-Húngaro, passaram por fases filosóficas distintas e rejeitaram obras influentes que escreveram (Lukács rejeitou ‘História e Consciência de Classe’).
- Tolstoi — Escritor russo que influenciou profundamente Wittgenstein em sua busca por uma vida simples, de renovação moral e espiritual, refletida em suas escolhas de vida após a Primeira Guerra.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução: O enigma do leão que fala e a virada linguística — O episódio começa com a provocação de Wittgenstein: se um leão pudesse falar, não o entenderíamos, mesmo que falasse nossa língua. Isso ilustra o cerne da virada linguística na filosofia, que deixa de se interessar pelas coisas em si para focar em como nos expressamos sobre elas. O apresentador anuncia que fará um esboço biográfico de Wittgenstein e apresentará as ideias centrais de suas duas obras principais: o Tractatus Logico-Filosóficus e as Investigações Filosóficas.
- 00:03:45 — Biografia de Wittgenstein: do engenheiro milionário ao filósofo asceta — É apresentada a trajetória de vida incomum de Ludwig Wittgenstein. Nascido em uma família milionária de Viena, estudou engenharia, mas doou sua herança. Serviu como soldado na Primeira Guerra Mundial, onde escreveu o Tractatus. Influenciado por Tolstoi, buscou uma vida simples, morando em uma cabana na Noruega, trabalhando como professor (sem sucesso) e até tentando uma vida de trabalho manual na União Soviética. Sua vida é comparada à do filósofo húngaro Georg Lukács, ambos de origens ricas e com fases filosóficas distintas.
- 00:07:36 — O Tractatus Logico-Filosóficus: a linguagem como retrato do mundo — Inicia-se a análise da primeira fase de Wittgenstein, centrada no Tractatus. A proposta da obra é identificar sobre o que podemos falar de forma significativa, o que requer investigar a natureza da linguagem. A ideia central é que a linguagem é um “retrato do mundo”, compartilhando com a realidade a mesma “forma lógica”. Isso leva à famosa conclusão de que “os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”. Consequentemente, sobre certos temas (como Deus, ética), não se pode falar, apenas mostrar. O Tractatus exerceu grande influência no Círculo de Viena e no positivismo lógico.
- 00:17:27 — As Investigações Filosóficas: formas de vida e jogos de linguagem — A discussão avança para a segunda fase de Wittgenstein, representada pelas Investigações Filosóficas. Retomando a imagem do leão, é explicado o conceito de “formas de vida” (Lebensform): a linguagem só faz sentido dentro de uma cultura e um conjunto de experiências compartilhadas. É introduzido também o conceito de “jogos de linguagem” (Sprachspiel), onde o significado de uma expressão é dado pelas regras de seu uso em situações sociais concretas. A filosofia, nesta visão, deve combater o “enfeitiçamento do entendimento pelas palavras”, trazendo os conceitos de volta ao seu uso cotidiano.
- 00:23:16 — Conclusão: O legado de Wittgenstein e a tarefa da filosofia — O episódio é resumido, reiterando que Wittgenstein é um pilar da virada linguística. Seu objetivo, em ambas as fases, foi limitar ou acabar com a filosofia tradicional. O Tractatus, com sua visão da linguagem como retrato lógico, deu origem ao positivismo lógico. Já as Investigações, focadas no uso social da linguagem, fundamentaram a filosofia analítica da linguagem ordinária. A tarefa final da filosofia, para Wittgenstein, é uma luta contra os mal-entendidos gerados quando as palavras são deslocadas de seus contextos originais de uso.
Dados do Episódio
- Podcast: Filosofia Vermelha
- Autor: Glauber Ataide
- Categoria: Society & Culture Philosophy
- Publicado: 2025-12-22T09:00:00Z
- Duração: 00:27:13
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/filosofia-vermelha/dd38e8c0-673a-0138-a0de-0acc26574db2/wittgenstein-e-a-virada-lingu%C3%ADstica-na-filosofia/b4df0862-c27c-4b5f-a9b4-0764970a4bfc
- UUID Episódio: b4df0862-c27c-4b5f-a9b4-0764970a4bfc
Dados do Podcast
- Nome: Filosofia Vermelha
- Tipo: episodic
- Site: https://www.filosofiaepsicanalise.org/
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Transcrição
[00:00:00] Olá, amigos e amigas do Saber. Você já parou para pensar que se um leão pudesse falar, nós não
[00:00:08] o entenderíamos. Em nossa imaginação, a barreira comunicativa entre nós e os leões diz respeito
[00:00:16] apenas ao idioma, de modo que, ao assistirmos o rei leão, por exemplo, podemos facilmente
[00:00:22] compreender Simba e os outros animais. Agora, isso se explica pelo fato de o desenho da Disney
[00:00:29] de utilizar animais apenas de forma alegórica, representando a nós mesmos seres humanos na
[00:00:36] forma de leões e outros animais. Agora, no mundo real, no entanto, não compreenderíamos um leão
[00:00:44] mesmo que ele falasse português. Bom, pelo menos é esta uma das teses de Ludwig Wittgenstein,
[00:00:52] um dos filósofos mais importantes do século 20 e que transformou a filosofia desde então.
[00:00:59] Neste episódio de hoje, apresentaremos inicialmente um breve esboço biográfico
[00:01:04] de Wittgenstein. Na sequência, apresentaremos, em traços gerais, algumas das principais ideias
[00:01:11] de sua obra Tractatus Logico-Filosóficus, para depois falarmos sobre sua obra Investigações
[00:01:18] Filosóficas. Este episódio lhe fornecerá o essencial para compreender, em linhas bem gerais,
[00:01:24] os principais objetivos de um dos filósofos mais importantes do século 20 e a relação entre mundo
[00:01:32] e linguagem. E durante o episódio, eu trarei também uma novidade e um presente para vocês.
[00:01:38] Então vamos lá, acompanhem.
[00:01:40] Antes de iniciar um breve recado, se você deseja uma introdução geral à filosofia ou gostaria de
[00:01:59] se aprofundar em temas específicos, estude Filosofia Conosco. Os links para os nossos
[00:02:05] cursos estão na descrição deste episódio. E lembrando que estes links já possuem cupons de
[00:02:11] desconto, mas eles duram apenas alguns dias. E é importante também ressaltar que todos os nossos
[00:02:17] cursos oferecem acesso vitalício. Mesmo que você não pretenda começar agora, você já pode fazer
[00:02:24] sua inscrição e garantir seu acesso para iniciar quando quiser. Segundo as estatísticas do Spotify,
[00:02:30] cerca de 60 mil pessoas têm o nosso podcast em sua lista de mais ouvidos. Estes são números muito
[00:02:38] especiais e até mesmo inesperados para mim, tendo em vista que este trabalho é de reflexão e educação
[00:02:45] filosófica, algo que não é muito popular. Este recado então é para vocês que já acompanham
[00:02:51] o nosso trabalho. Se você gosta de nosso podcast, você certamente gostará também de meu novo livro,
[00:02:58] a obra Filosofia para a Vida, Quando Pensar é o Melhor Remédio, foi publicada pela editora Vozes
[00:03:04] e tem por objetivo resgatar a prática filosófica enquanto terapia para a alma. Eu mostro neste
[00:03:12] livro que, através da filosofia, podemos lidar com diversas dificuldades da vida que nada possuem de
[00:03:18] patológico, sendo apenas parte do que significa ser humano. Você pode adquirir a obra em praticamente
[00:03:26] qualquer livraria física de sua cidade ou através de inúmeros sites, inclusive através do link da
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[00:03:38] Amazon, você ajuda também a manter o podcast. Voltemos então ao nosso tema Ludwig Wittgenstein
[00:03:45] e a Virada Linguística na Filosofia. Vejam, Ludwig Wittgenstein é um dos principais filósofos da
[00:03:53] virada linguística ocorrida no século 20. Esta chamada virada linguística se interessa não
[00:04:00] pelas coisas como as percebemos, mas como nós nos expressamos sobre elas. Vejam então inicialmente
[00:04:09] essa distinção. Não se trata das coisas como nós as percebemos, mas como nós nos expressamos sobre
[00:04:18] pelas coisas que percebemos. O objetivo inicial de Wittgenstein era simplesmente acabar com a
[00:04:26] filosofia, no sentido de resolver definitivamente todos os seus problemas através de um esclarecimento
[00:04:34] sobre a linguagem. A ideia então era resolver problemas linguísticos para elucidar todas as
[00:04:43] questões da filosofia. Vejam, Wittgenstein não teve uma educação formal em filosofia. Não,
[00:04:51] Wittgenstein na verdade estudou engenharia. Ele nasceu em uma família milionária de Viena,
[00:04:58] na Austra, e foi filho de um dos maiores industriais da Europa. Mas Wittgenstein nunca se afeiçoou
[00:05:06] em uma vida de burguês. Inclusive, Wittgenstein doou toda a sua herança para artistas e para
[00:05:14] sua irmã. Ele teve uma vida bem interessante. Ele foi soldado na Primeira Guerra Mundial,
[00:05:20] durante a qual escreveu o Tractatus Logico-Filosóficus, que nós vamos falar sobre
[00:05:26] um pouquinho hoje. Influenciado pelo escritor russo Tolstoi, Wittgenstein buscou uma vida simples,
[00:05:34] uma vida de renovação moral e espiritual. Ele morou por um tempo em uma cabana isolada na
[00:05:41] Noruega e foi professor em uma escola infantil, mas ele não tinha paciência com os alunos.
[00:05:48] Dizem que ele ficava tão nervoso que ele chegava a trancar os dentes diante dos erros das crianças.
[00:05:55] Deveria ser um terror para os meninos. Por um tempo, ele foi também ajudante de jardineiro
[00:06:03] e mosteiro. Inclusive, ele viajou também à União Soviética para tentar um emprego com trabalho
[00:06:10] manual, fosse em uma fábrica ou em uma fazenda coletiva. Mas ele não conseguiu e voltou.
[00:06:17] Vejam então que Wittgenstein teve uma vida, de certa forma, exótica. E a sua trajetória lembra,
[00:06:24] em alguns aspectos, a trajetória do filósofo húngaro Georg Lucat, o pensador que eu estudei
[00:06:31] em filosofia. Tanto Wittgenstein quanto Lucat nasceram em famílias ricas no Império Austro-Húngaro
[00:06:38] e passaram por distintas fases filosóficas, buscando soluções não apenas para problemas sociais,
[00:06:45] mas também pessoais. Assim como Lucat, Wittgenstein também escreveu uma obra que
[00:06:51] se tornou extremamente influente e até deu origem a uma nova escola filosófica, mas ele depois
[00:06:58] rejeitou esta obra, assim como Lucat rejeitou História e Consciência de Classe, obra sem a
[00:07:05] qual não existiria a Teoria Crítica e a Escola de Frankfurt. Wittgenstein era homossexual,
[00:07:12] assim como alguns de seus irmãos, e tinha também tendências suicidas. Mas ele morreu de câncer
[00:07:20] em 1951. Vamos falar agora sobre sua obra Tractatus Logico-Filosóficus. Vejam,
[00:07:36] a filosofia de Wittgenstein se divide em duas fases, e geralmente fala-se em Wittgenstein 1
[00:07:43] e Wittgenstein 2. Nós apresentaremos neste episódio alguns dos principais conceitos de
[00:07:50] suas principais obras, das quais apenas a primeira foi publicada quando ele ainda vivia.
[00:07:56] Comecemos então falando sobre o Tractatus Logico-Filosóficus. A proposta do Tractatus é
[00:08:03] identificar sobre o que podemos falar de forma significativa, um objetivo que exige então uma
[00:08:12] investigação sobre a natureza da própria linguagem. Então vejam só, saber sobre o que
[00:08:20] podemos falar, e para isso precisamos investigar a natureza da própria linguagem. A principal
[00:08:28] ideia de Wittgenstein nesta obra é que a linguagem é um retrato do mundo. Vejam só, a linguagem é um
[00:08:36] retrato do mundo. Biógrafos de Wittgenstein apontam que a inspiração para essa concepção veio de uma
[00:08:44] matéria de jornal que mostrava que, em um processo judicial da época, carros de brinquedo foram usados
[00:08:52] para representar um acidente. Então vejam, os carrinhos eram usados como a linguagem descrevendo
[00:08:59] carros reais no evento deste acidente, e o mais importante, ambos compartilhavam a mesma forma lógica.
[00:09:07] Os carrinhos de brinquedo podiam então ser utilizados para representar qualquer situação de trânsito,
[00:09:14] como engarrafamentos ou acidentes, mas precisavam sempre obedecer às leis da lógica. Não era
[00:09:22] possível, por exemplo, que dois carrinhos ocupassem o mesmo espaço ao mesmo tempo, ou que apenas um
[00:09:28] carrinho ocupasse mais de um lugar ao mesmo tempo. Wittgenstein chega então à conclusão de que as
[00:09:35] proposições são capazes de retratar o mundo porque ambos têm a mesma forma lógica, no sentido de que
[00:09:44] não podem ser ilógicas. Então vejam só, as proposições, no sentido mais popular, as proposições
[00:09:53] e as afirmações, elas são capazes de retratar o mundo porque tanto as proposições quanto o mundo
[00:10:00] têm a mesma forma lógica, no sentido de que não podem ser ilógicas. Uma das ideias mais conhecidas de
[00:10:08] Wittgenstein expressa essa relação, é a ideia de que os limites da linguagem são os limites do pensamento.
[00:10:16] Essa é uma parte muito interessante, uma reflexão das mais influentes de Wittgenstein. Os limites da
[00:10:24] linguagem são os limites do pensamento. Então para Wittgenstein, ir além da linguagem seria ir além
[00:10:34] dos limites da possibilidade lógica, e é por isso que nós não podemos dizer nada sobre o que o mundo
[00:10:41] não é. E o próprio livro do Wittgenstein, o Tractatus, era paradoxalmente uma dessas coisas,
[00:10:49] e Wittgenstein tenta vencer essa dificuldade dizendo que, embora não seja possível dizer certas
[00:10:56] coisas, nós podemos mostrar que elas são verdadeiras. Vejam só, embora não seja possível dizer certas
[00:11:04] coisas, nós podemos sim mostrar que elas são verdadeiras. Uma das consequências dessa posição
[00:11:11] é que Deus se enquadra entre as coisas sobre as quais não se pode falar. Já que a linguagem só
[00:11:20] retrata o mundo e Deus não é parte do mundo, logo a linguagem não pode se expressar sobre Deus.
[00:11:28] Wittgenstein mantém sua fé em Deus, mesmo assim ele afirma que o inesprimível existe,
[00:11:35] embora não possamos falar ou pensar sobre ele. O final desta obra, o Tractatus, que foi escrito
[00:11:42] durante a guerra e no período em que Wittgenstein conhece a obra de Tolstoi, apresenta em certos
[00:11:48] pontos uma mistura de lógica e misticismo. Ele inclusive afirma que aquilo que ele não afirmou
[00:11:55] no Tractatus é mais importante do que ele afirmou. Vejam só, o que ele não afirmou nessa obra é mais
[00:12:04] importante do que aquilo que ele afirmou. Wittgenstein acreditou por algum tempo que sua
[00:12:10] obra tinha definitivamente resolvido todos os problemas filosóficos, mas ele próprio depois
[00:12:17] percebeu que isso não era verdade. Um dos problemas que podemos apontar é que a vida nos impõe
[00:12:25] a falar sobre certas coisas, como sobre o bem e o mal, por exemplo, mas a sua própria obra, o Tractatus,
[00:12:32] nos proíbe de discutir sobre tais temas. O Tractatus exerceu uma enorme influência no chamado Círculo
[00:12:40] de Viena, um grupo de pensadores que defendia o positivismo lógico. Isso mostra a relevância da
[00:12:47] obra de Wittgenstein para a filosofia do século 20. Pessoal, hoje eu trago um presente para vocês.
[00:12:53] É com grande satisfação que eu anuncio o retorno de nossa clássica Pausa Musical durante os
[00:13:00] episódios. Nossa Pausa Musical se tornou um dos diferenciais de nosso podcast, uma marca,
[00:13:06] uma característica deste podcast, e vários de vocês comentaram que sentiam falta das músicas,
[00:13:12] mas nós tivemos que interromper este momento de nossos episódios nos últimos meses devido a
[00:13:17] algumas de licença das gravações. Não obstante, eu sempre tenha sido cauteloso para utilizar apenas
[00:13:24] versões em domínio público. Acontece que a verificação automática do Spotify confundia as músicas
[00:13:31] de nossos episódios com gravações semelhantes que de fato possuem copyright, e isso fez com que
[00:13:36] alguns episódios daqui do podcast fossem retirados do ar. A partir de hoje, estamos testando um novo
[00:13:43] programa e, provavelmente, nossa Pausa Musical está de volta para valer. Você ouvirá hoje um
[00:13:49] trecho da sonata em ré menor, Opo 108, de Brahms. Johannes Brahms nasceu em 1833 em Hamburg, na
[00:13:58] Alemanha, e faleceu em 1897 em Viena, na Áustria. Enquanto você aprecie esta música, gostaria de
[00:14:06] pedir que você avalie o nosso podcast com cinco estrelas no Spotify ou em qualquer outra plataforma
[00:14:12] de médias da qual você nos ouve. Isso não dura nem dez segundos e, dessa forma, você contribui
[00:14:18] com este trabalho e nos ajuda a chegar a mais pessoas.
[00:17:12] Voltemos então ao nosso tema Wittgenstein e a virada linguística na filosofia. Vamos
[00:17:27] falar agora sobre um tema que apresentamos no início deste episódio, a questão de se um leão
[00:17:34] pudesse falar. Vejam, em sua obra investigações filosóficas, Wittgenstein afirma que se um leão
[00:17:42] pudesse falar, nós não o compreenderíamos. Essa imagem nos ajuda a compreender o seu conceito de
[00:17:49] formas de vida. Veja, essa afirmação parece contraditória, porque se um leão falasse português,
[00:17:57] então nós poderíamos compreender o que ele está dizendo. Agora, a questão nada tem a ver com
[00:18:05] reconhecer as palavras utilizadas em um discurso, porque as palavras em si não querem dizer muita
[00:18:13] coisa. O ponto da afirmação de Wittgenstein é que as palavras expressam, acima de tudo, uma intenção
[00:18:21] em uma determinada situação social, e isso sempre ocorre dentro de uma cultura compartilhada. Então,
[00:18:29] às vezes isso é muito importante. As palavras expressam, acima de tudo, uma intenção em uma
[00:18:37] determinada situação social, e isso sempre ocorre dentro de uma cultura compartilhada. Um exemplo
[00:18:45] pode ajudar a esclarecer este ponto. Veja, se um cirurgião diz a uma enfermeira, durante uma cirurgia,
[00:18:52] é o seguinte, olha, enfermeira, bisturi, bom, ambos entendem o que se quer dizer ali, naquele
[00:19:00] momento e naquele contexto. Agora, se mais tarde, durante o jantar, este mesmo médico diz, enfermeira,
[00:19:08] sal, e ele diz isso à mesma pessoa, ambos entendem a referência e acham engraçado. Agora, se houver
[00:19:16] uma terceira pessoa nesse jantar, que não seja da área médica, ela pode não entender do que se
[00:19:22] quer dizer. O ponto de Wittgenstein é que a linguagem só faz sentido quando compartilhamos
[00:19:29] um mesmo mundo, uma mesma situação social, uma cultura compartilhada. Vejam só, a linguagem só
[00:19:37] faz sentido quando nós compartilhamos um mesmo mundo, uma mesma situação social, uma cultura
[00:19:45] compartilhada. O conceito de forma de vida, ou Lebensform, em alemão, se refere então às
[00:19:51] ações habituais e respostas que formam o pano de fundo de uso de qualquer linguagem. Então,
[00:19:59] a linguagem não é mais pensada apenas como um sistema de signos, mas a ênfase recai no uso
[00:20:06] que os agentes fazem da linguagem em suas atividades. Então, ao invés de pensar na área médica,
[00:20:12] por exemplo, apenas como um dispositivo para descrever números, não, ela deve ser compreendida em
[00:20:18] seu uso prático quando utilizada para contar e medir coisas, por exemplo. Então, a existência
[00:20:25] de um leão é tão diferente da nossa que, mesmo que um leão falasse português e nós conseguíssemos
[00:20:33] entender cada uma de suas palavras, isso não adiantaria muito porque nós não compartilhamos
[00:20:39] o mundo de uma experiência de ser leão. E nessa mesma obra, em suas investigações
[00:20:45] filosóficas, Wittgenstein apresenta também o conceito de Sparspeil, em alemão, que significa
[00:20:52] jogo de linguagem. Este conceito quer dizer basicamente que o significado de uma expressão
[00:20:59] é dado pelas regras de seu uso em situações sociais concretas. Isso é semelhante à forma
[00:21:07] como uma determinada figura de um jogo também é dada pelas regras do próprio jogo. Então,
[00:21:14] o significado concreto das expressões que utilizamos em nossa linguagem deve ser buscado
[00:21:20] nas regras dos nossos jogos de linguagem, em seu uso nas situações sociais concretas.
[00:21:26] Wittgenstein afirmava que vários problemas filosóficos se deviam a um uso incorreto da
[00:21:34] linguagem quando conceitos eram deslocados de seu uso cotidiano para significar algo distinto do
[00:21:42] que deveria originalmente. Essas expressões eram deslocadas então de seus contextos originais e
[00:21:49] colocadas então em novas relações e isso não apenas obscurecia certas questões que a filosofia
[00:21:56] deveria resolver, mas isso também inventava problemas que, de certa maneira, não existiam.
[00:22:03] Então, a tarefa da filosofia para Wittgenstein consiste em eliminar estes erros e por isso ele
[00:22:11] afirma em suas investigações que nós devemos conduzir as palavras de seu uso metafísico para
[00:22:18] o seu uso cotidiano novamente. Vejam só, isso é uma definição de filosofia interessante.
[00:22:24] Nós temos aqui mais um filósofo dizendo em que consiste o filosofar. Então, para Wittgenstein,
[00:22:31] a filosofia consiste em eliminar erros de linguagem, isso é, conduzindo as palavras de seu uso
[00:22:40] metafísico de volta para o seu uso cotidiano. Então, a filosofia para Wittgenstein, em uma
[00:22:48] outra formulação, é uma luta contra o enfeitiçamento de nosso entendimento por meio das
[00:22:56] palavras. Mais uma vez, porque isso aqui é muito importante para termos uma introdução a Wittgenstein
[00:23:02] a entender do que se trata a sua filosofia. A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento
[00:23:10] de nosso entendimento por meio das palavras. Façamos então um breve resumo sobre o que
[00:23:16] aprendemos neste episódio. Wittgenstein é um dos principais filósofos da chamada virada
[00:23:23] linguística ocorrida no século XX. A chamada virada linguística se interessa não pelas coisas
[00:23:29] como as percebemos, mas como nos expressamos sobre elas. O objetivo inicial de Wittgenstein
[00:23:36] era simplesmente acabar com a filosofia, projeto que mais tarde ele considerou inesequível e
[00:23:42] abandonou. A obra de Wittgenstein se divide em dois momentos. A primeira, na qual ele publica o
[00:23:49] Tractatus Logico-Filosóficus e a segunda, cujo centro são as investigações filosóficas. Agora,
[00:23:56] o que ambos possuem em comum é o seu objetivo de limitar e até mesmo acabar com a própria filosofia.
[00:24:04] Cada uma dessas obras deu origem a uma escola filosófica diferente, o positivismo lógico e a
[00:24:11] filosofia analítica da linguagem. No que diz respeito ao Tractatus Logico-Filosóficus,
[00:24:17] vimos que sua proposta é identificar aquilo sobre o que podemos falar de forma significativa e isso
[00:24:25] nos leva, por sua vez, a investigar sobre a natureza da própria linguagem. A ideia principal
[00:24:32] é que a linguagem é um retrato do mundo. E na sequência apresentamos, em linhas bem gerais,
[00:24:40] dois importantes conceitos presentes na obra investigações filosóficas. O conceito de formas
[00:24:46] significativas e o de jogo de linguagem. Fizemos isso a partir da afirmação de Wittgenstein de que,
[00:24:52] se um leão pudesse falar, não o compreenderíamos. O ponto de Wittgenstein é que a linguagem só
[00:25:00] faz sentido quando compartilhamos um mesmo mundo, uma mesma situação social ou uma cultura
[00:25:07] compartilhada. A existência de um leão é tão diferente da nossa que, mesmo que ele falasse
[00:25:14] e conseguíssemos compreender cada uma de suas frases, isso não adiantaria muito porque nós
[00:25:21] não compartilhamos o seu mundo. Nós não compartilhamos a experiência de ser leão.
[00:25:26] Vimos também que o conceito de jogo de linguagem quer dizer basicamente que o significado de uma
[00:25:33] expressão é dado pelas regras de seu uso em situações sociais concretas. O conteúdo do
[00:25:41] vídeo de hoje foi extraído de nosso curso Introdução à Filosofia dos pré-socráticos
[00:25:46] Assartre. Para aprender não apenas sobre Wittgenstein, mas sobre diversos outros
[00:25:51] filósofos de todos os períodos da filosofia, inscreva-se em nosso curso através do link
[00:25:57] disponibilizado na descrição deste episódio ou então em nosso site. O endereço é
[00:26:02] www.filosofiaepicanálise.org. E não se esqueça que você pode encontrar meu novo livro,
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[00:26:35] do episódio, mas você pode também digitar o endereço em seu navegador,
[00:26:39] www.apoia.se barra Filosofia Vermelha. E outra forma fácil de manter este trabalho no ar é
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[00:26:55] .com. Um grande abraço e até o próximo.