RT Comentado 52 – Labubu, saia, pizza e recessão


Resumo

O episódio investiga a onda de “recession indicators” que viralizam nas redes sociais — sinais supostamente capazes de prever crises econômicas a partir de tendências de consumo e cultura, como comprimento de saias, batom, pizza congelada, cuecas e até o boneco Labubu. A conversa revisita a história desses “indicadores” e mostra como alguns parecem fazer sentido à primeira vista, mas esbarram em problemas clássicos: confundir correlação com causalidade, ignorar fatores sociais e mudanças estruturais (como pandemia e trabalho remoto), além do viés de confirmação.

Ao analisar casos famosos, o episódio argumenta que esses indicadores raramente funcionam como previsão econômica consistente. Quando dão “certo”, muitas vezes apenas refletem a economia com atraso (como no caso das saias) ou são distorcidos por contextos específicos (máscaras derrubando o batom em 2020; conforto elevando a venda de cuecas no home office). No fim, a principal conclusão é que esses fenômenos dizem menos sobre o futuro da economia e mais sobre ansiedade econômica coletiva e sobre como as pessoas buscam padrões para sentir algum controle — e como essa percepção pode, ela própria, influenciar comportamento econômico real.


Indicações

Livros

  • The Overspent American (Juliet Schor) — citado como origem conceitual do comportamento por trás do “efeito batom” (indulgência acessível e consumo de status)

Linha do Tempo

  • [00:00] — Introdução aos “indicadores de recessão” que viralizam nas redes (batom, pizza congelada, saias, Labubu)
  • [00:01] — Proposta do episódio: história, o que funciona, o que falha e ansiedade econômica coletiva
  • [00:01] — Pedido de apoio ao podcast antes de entrar no tema principal
  • [00:02] — Índice das saias (Hamline Index): mito de origem, exemplos históricos e questionamentos
  • [00:04] — Testes empíricos e críticas ao índice das saias (atraso temporal, fatores culturais, fast fashion)
  • [00:06] — Efeito batom: origem, lógica da “indulgência acessível” e formalização do termo
  • [00:09] — Falhas do efeito batom em 2008 e 2020; substituições (hidratação, esmalte, rímel) e fatores externos
  • [00:12] — Pizza congelada como indicador: crescimento de vendas, lógica do orçamento e preferência por marcas premium
  • [00:15] — Índice de cuecas de Alan Greenspan: racional, evidências em 2007–2010 e quebra do padrão na pandemia
  • [00:18] — Labubu: explosão em 2024 via celebridades, números do mercado e leitura como “novo efeito batom”
  • [00:20] — Nostalgia e retorno dos anos 2000 na moda (cintura baixa etc.) e conexão com incerteza econômica
  • [00:22] — Nostalgia também na música: volta do nu metal e artistas dos anos 2000 em meio à ansiedade de recessão
  • [00:23] — Conclusão: indicadores culturais refletem sentimentos, não previsões; correlação vs. causalidade e viés de confirmação
  • [00:26] — Ansiedade coletiva, busca por controle e como percepção econômica pode virar comportamento econômico real

Dados do Episódio

  • Podcast: Viracasacas Podcast
  • Autor: Viracasacas Podcast
  • Categoria: News / Politics
  • Publicado: 2026-01-09
  • Duração: 0h27m

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Olá pessoas, hoje vamos falar sobre teorias econômicas que volta e meia aparecem nas

[00:00:15] redes sociais.

[00:00:16] Eu acabei de ver um vídeo sobre isso no TikTok.

[00:00:19] E não é sobre criptomoedas ou ações da bolsa.

[00:00:23] Estamos falando de batom, pizza congelada, comprimento de saia e labubus.

[00:00:29] Tanto tempo atrás estavam usando a hashtag recession indicator, pessoas apontando para

[00:00:33] tudo.

[00:00:34] O retorno das calças de cintura abaixo dos anos 2000, o aumento nas vendas de pizza congelada

[00:00:40] até labubus.

[00:00:41] A lógica?

[00:00:43] Todos seriam sinais de que uma recessão econômica estaria chegando.

[00:00:47] Mas tem fundamento isso?

[00:00:49] Existe alguma base científica para dizer que o comprimento da saia de alguém ou a

[00:00:54] marca de batom que você compra podem prever uma crise econômica?

[00:00:59] A resposta é complicada.

[00:01:02] Porque acredite ou não, economistas levam algumas dessas teorias a sério há quase 100

[00:01:07] anos.

[00:01:08] Hoje vamos explorar a história desses indicadores culturais de recessão, desde as saias dos

[00:01:14] anos 1920 até os labubus.

[00:01:17] Vamos entender porque essas teorias surgem, quais parecem funcionar, quais falham miseravelmente

[00:01:23] e o que isso tudo realmente revela sobre como processamos a ansiedade econômica coletiva.

[00:01:30] Antes de começar, aquele lembrete de sempre, apoie o Viracasacas.

[00:01:35] Entre no apoia.se barra viracasacas ou na orelha o cc ou mande um pix recorrente para

[00:01:41] viracasacaspodcast arroba gmail.com e apoie com apenas 5 reais por mês.

[00:01:49] Nesse caso eu não preciso de índice algum, não vai prejudicar o seu orçamento e nos

[00:01:55] ajuda bastante.

[00:01:56] Agora sim, vamos começar com a mais antiga dessas teorias, o índice das saias ou Hamline

[00:02:04] Index em inglês.

[00:02:06] A história que todo mundo conta é assim.

[00:02:09] Em 1926, um economista chamado George Taylor teria observado uma correlação fascinante.

[00:02:16] Ele notou que quando a economia estava em alta, as saias das mulheres ficavam mais

[00:02:20] curtas e quando a economia despencava, o comprimento das saias aumentava.

[00:02:25] O índice das saias teria nascido dessa observação.

[00:02:30] Mas aqui já vai o primeiro plot twist.

[00:02:33] Essa história toda está errada.

[00:02:35] George Taylor nunca propôs essa teoria.

[00:02:38] A tese de Taylor, de 1929, identificou o comprimento das saias como um fator que levou ao crescimento

[00:02:46] explosivo na indústria de meias durante os anos 1920, mas não propôs uma teoria sobre

[00:02:54] saias.

[00:02:55] Então a origem real do índice das saias é desconhecida, mas isso não impediu que

[00:02:59] a teoria se espalhasse.

[00:03:01] Ainda assim, a lenda pegou.

[00:03:04] E tem exemplos históricos que parecem confirmar o padrão.

[00:03:08] Pense nos anos 1920, a era do jazz e da prosperidade econômica nos Estados Unidos.

[00:03:14] Foi quando surgiram as Flappers, aquelas garotas rebeldes que dançavam Charleston com vestidos

[00:03:19] que chegavam só até o joelho, um escândalo para os padrões da época.

[00:03:24] As saias estavam curtas, a economia estava bombando.

[00:03:28] Aí veio o crash de 1929.

[00:03:31] A grande depressão dos anos 30 trouxe desemprego massivo, fome, desespero.

[00:03:37] E as saias aumentaram.

[00:03:39] Os vestidos longos e conservadores voltaram com força total.

[00:03:44] Avançamos algumas décadas.

[00:03:46] Os anos de 1960 foram marcados por crescimento econômico contínuo nos Estados Unidos e

[00:03:52] na Europa.

[00:03:53] E foi justamente nessa época que a mini saia fez sua entrada no mundo da moda.

[00:03:58] A economia subia, a saia subiu.

[00:04:02] Então chegou 1973.

[00:04:04] O embargo de petróleo dos países árabes, a crise energética e a inflação galopante.

[00:04:10] E adivinha o que voltou à moda?

[00:04:12] A maxi saia.

[00:04:13] Aqueles vestidos longos, hippies, que iam até o tornozelo.

[00:04:17] As ações despencaram, as saias alongaram.

[00:04:21] Parece convincente, não?

[00:04:23] Só que tem um problema enorme.

[00:04:24] Correlação não é causalidade.

[00:04:27] Em 2010, dois economistas decidiram realmente testar essa teoria.

[00:04:33] Eles fizeram uma análise quantitativa de dados mensais de comprimento de saias, de 1921

[00:04:39] a 2009.

[00:04:40] E descobriram algo surpreendente.

[00:04:43] A correlação existe sim, mas está invertida.

[00:04:47] As mudanças na economia acontecem primeiro, e só então as saias mudam, com um atraso

[00:04:53] de cerca de três ou quatro anos.

[00:04:55] Ou seja, as saias não preveem nada, elas simplesmente refletem, com anos de atraso,

[00:05:01] o que já aconteceu na economia.

[00:05:03] E tem mais.

[00:05:04] A teoria sempre foi problemática.

[00:05:07] Como apontam os críticos, há vários problemas fundamentais com o índice das saias.

[00:05:13] Primeiro, ele ignora fatores sociais e culturais.

[00:05:17] Nos anos 1940, por exemplo, as saias ficaram mais curtas.

[00:05:22] Não porque a economia estava melhorando durante a Segunda Guerra Mundial, mas porque havia

[00:05:26] racionamento de tecidos e as mulheres estavam entrando no mercado de trabalho.

[00:05:32] Roupas práticas eram necessidade, não reflexo de otimismo econômico.

[00:05:36] Segundo, nos anos 1970, a teoria simplesmente desabou.

[00:05:43] Durante a recessão econômica e instabilidade política dessa década, mini, mid e maxi saias

[00:05:49] coexistiram simultaneamente na moda.

[00:05:52] Não havia uma tendência única para correlacionar com a economia, havia de tudo ao mesmo tempo.

[00:05:58] E terceiro, o mundo mudou.

[00:06:01] A ascensão do fast fashion, a globalização da indústria da moda, a diversidade de estilos

[00:06:07] disponíveis, tudo isso tornou impossível falar de qual a saia da temporada.

[00:06:13] Hoje você pode ir a qualquer loja e encontrar saias de todos os tipos.

[00:06:18] Qual delas reflete a economia?

[00:06:21] O índice das saias pode ser uma lente interessante para examinar a relação entre moda e sociedade,

[00:06:27] mas como indicador econômico, não passa no teste.

[00:06:31] Mas enquanto o índice das saias tropeçava em suas próprias inconsistências, outro

[00:06:36] indicador cultural estava ganhando força, o efeito batom.

[00:06:40] A história oficial começa em 2001, mas o fenômeno é mais antigo.

[00:06:46] Desde a grande depressão dos anos 1930, enquanto a produção industrial dos Estados

[00:06:51] Unidos despencava, algo surpreendente aconteceu.

[00:06:55] As vendas de cosméticos aumentaram.

[00:06:58] Entre 29 e 33, no pior momento da crise econômica, houve um aumento de 25% nas compras de produtos

[00:07:06] de beleza, mas foi só décadas depois que alguém deu o nome para esse fenômeno.

[00:07:12] Bernard Lauder, presidente da Stel Lauder Companies, a gigante que fabrica as linhas

[00:07:18] Stel Lauder, Clinique e Mac, estava observando suas vendas no outono de 2001.

[00:07:24] O mundo ainda estava em choque com os ataques terroristas de 11 de setembro, a economia

[00:07:29] dos Estados Unidos estava cambaleando, todo mundo esperava que as vendas de luxo despencassem.

[00:07:35] Só que o oposto aconteceu.

[00:07:37] As vendas de batom da Stel Lauder subiram 11% no último trimestre de 2001.

[00:07:44] Lauder ficou intrigado.

[00:07:45] Ele começou a investigar e percebeu o padrão.

[00:07:48] O mesmo havia acontecido durante a recessão de 1990 e, como já mencionamos, durante a

[00:07:54] grande depressão.

[00:07:55] Em 2008, Lauder formalizou sua observação e o termo efeito batom entrou para o vocabulário

[00:08:03] econômico.

[00:08:05] A teoria é elegante.

[00:08:07] Quando as pessoas não podem pagar por grandes indulgências, um vestido de grife, férias

[00:08:12] caras, um carro, uma casa, elas ainda querem se presentear com algo.

[00:08:17] E batom é perfeito.

[00:08:19] Custava nos Estados Unidos entre 20 a 30 dólares, você pode usar em público e dar aquela

[00:08:25] sensação de luxo sem destruir o orçamento.

[00:08:28] É o que os economistas chamam de indulgência acessível.

[00:08:34] Na verdade, o conceito original nem veio de Lauder.

[00:08:37] Foi a economista e socióloga Juliet Schor que primeiro descreveu esse comportamento

[00:08:42] em seu livro The Overspent American.

[00:08:46] Schor falava sobre como consumidores compravam batons mais caros e prestigiosos que seriam

[00:08:51] usados em público, comparados com marcas menos prestigiosas usadas na privacidade do

[00:08:57] banheiro.

[00:08:59] Schor acreditava que vendas mais altas de batom indicavam falta de disposição para

[00:09:04] comprar vestidos.

[00:09:07] A lógica é simples.

[00:09:08] Certa parcela dos consumidores ainda vai comprar bens de luxo, mesmo durante uma economia

[00:09:14] ruim.

[00:09:15] Quando a confiança do consumidor na economia está diminuindo, os consumidores vão comprar

[00:09:20] bens que tenham menos impacto em seus fundos disponíveis.

[00:09:25] Fora do mercado de cosméticos, consumidores poderiam ser tentados a comprar outras mercadorias,

[00:09:30] como cervejas caras ou aparelhos eletrônicos menores e menos caros.

[00:09:36] Parecia fazer sentido.

[00:09:38] Por um tempo, o efeito batom foi levado a sério como um indicador informal da confiança

[00:09:43] do consumidor.

[00:09:45] Mas aí chegou 2008 e a maior crise econômica desde a depressão, bancos quebrando, desemprego

[00:09:52] disparando o mercado imobiliário em colapso.

[00:09:55] Se o efeito batom fosse real, era agora que ele deveria aparecer com toda a força.

[00:10:01] Só que não apareceu.

[00:10:03] As vendas de batom caíram junto com o resto da economia.

[00:10:07] A teoria tinha falhado de modo espetacular.

[00:10:12] Mas tinha mais.

[00:10:13] Em 2020 veio a pandemia da Covid-19.

[00:10:17] Outra crise econômica em massa.

[00:10:19] Seria a hora do efeito batom se redimir.

[00:10:23] Só que as vendas de batom despencaram de novo.

[00:10:26] A razão era óbvia.

[00:10:28] Todo mundo estava usando máscara.

[00:10:30] Pra que comprar batom se metade do seu rosto está coberto o dia inteiro?

[00:10:35] O CEO da Stella Alder teve que admitir em 2020 que o índice do batom tinha sido substituído.

[00:10:42] Ele chamou agora de índice da hidratação, porque as pessoas estavam comprando hidratantes

[00:10:48] em vez de batom.

[00:10:49] E surgiram novos candidatos para substituir o batom.

[00:10:53] O efeito esmalte de uem apareceu com força.

[00:10:56] As vendas de esmalte nos Estados Unidos subiram 218% em 2020 durante o período de lockdown.

[00:11:04] No Reino Unido houve crescimento de dois dígitos nas vendas online de esmalte.

[00:11:10] Também apareceu o efeito rímel.

[00:11:12] Quando você está constantemente usando uma máscara, a frase sorria com os olhos ganha

[00:11:17] ainda mais significado e as vendas de rímel dispararam.

[00:11:21] O problema fundamental do efeito batom é o mesmo do índice das saias.

[00:11:26] Confundir correlação com causalidade e ignorar fatores externos.

[00:11:31] O aumento nas vendas de cosméticos em 2001 foi posteriormente atribuído ao aumento do

[00:11:37] interesse em marcas de cosméticos criadas por celebridades, não a economia.

[00:11:43] Como resuma o economista.

[00:11:45] O efeito batom é apenas um exemplo do efeito substituição, quando a demanda por um produto

[00:11:51] muda porque seu preço muda em comparação com outros produtos.

[00:11:55] O efeito batom pode não prever recessões, mas nos ensina algo sobre a psicologia do

[00:12:02] consumidor.

[00:12:03] Em tempos difíceis, as pessoas procuram pequenos confortos.

[00:12:08] O produto específico pode mudar, mas o impulso permanece.

[00:12:12] Bom, se batom e esmalte falharam como indicadores, que tal algo mais corriqueiro?

[00:12:19] Que tal pizza congelada?

[00:12:22] Se batom parecia estranho como indicador econômico, bom, pode ser preparando, porque agora vamos

[00:12:29] falar de pizza congelada e cuecas.

[00:12:32] Sim, cuecas.

[00:12:34] Mas vamos começar pela pizza.

[00:12:37] Nos últimos anos, as vendas de pizza congelada têm disparado.

[00:12:41] Os números são impressionantes.

[00:12:43] As vendas saltaram de 5.6 bilhões de dólares em 2019 para quase 6.6 bilhões em 2020.

[00:12:52] E mais, em 2024, as vendas nos Estados Unidos atingiram quase 7 bilhões de dólares, contribuindo

[00:13:01] para um mercado global de 18.5 bilhões.

[00:13:06] Isso não é uma novidade.

[00:13:08] Historicamente, as vendas de pizza e alimentos congelados em geral tendem a disparar pouco

[00:13:14] antes de períodos de crise econômica.

[00:13:17] Em 2009, no meio da recessão, as vendas de alimentos congelados cresceram 3.1%.

[00:13:24] A lógica, novamente, é muito simples.

[00:13:27] Pizza congelada é conveniente e, mais importante, é uma opção muito mais econômica para

[00:13:33] uma refeição em família.

[00:13:35] Quando as pessoas estão se sentindo pressionadas, seja economicamente ou existencialmente, elas

[00:13:41] recorrem à recessão de congelados do supermercado.

[00:13:44] Nos últimos anos, as pessoas têm optado por comprar uma parcela maior de suas refeições

[00:13:48] do supermercado do que em restaurantes.

[00:13:51] E pizza congelada não é a exceção.

[00:13:55] Mas aqui está a parte interessante.

[00:13:57] Não são as marcas genéricas ou mais baratas que crescem.

[00:14:01] São as marcas premium.

[00:14:03] Durante períodos de incerteza econômica, é comum que consumidores mudem de delivery

[00:14:08] para pizza congelada como medida de economia, e isso sugere que consumidores conscientes

[00:14:14] do orçamento podem estar ajustando seus hábitos de alimentação.

[00:14:19] Mas eles não querem pizza de qualidade inferior.

[00:14:22] Enquanto as vendas de pizza congelada aumentam à medida que a confiança econômica dos

[00:14:27] consumidores cai, não mudamos para comprar produtos muito baratos.

[00:14:32] Em vez disso, marcas premium de pizza congelada ganham maior crescimento de vendas durante

[00:14:38] esses períodos.

[00:14:39] Os consumidores podem pular uma noite de pizza na pizzaria local, mas são menos dispostos

[00:14:46] a optar por pizza barata tirada do freezer.

[00:14:49] Como indicador de recessão, pizza congelada funciona melhor que batom ou saias.

[00:14:55] Mas ainda assim não é perfeito.

[00:14:57] As vendas podem ser influenciadas por outros fatores, mudanças nos hábitos de trabalho

[00:15:03] remoto, evolução nas preferências alimentares, campanhas de marketing bem sucedidas, e o

[00:15:09] crescimento contínuo desde 2020 torna muito difícil separar efeitos da pandemia de sinais

[00:15:16] de recessão.

[00:15:18] Mas se pizza congelada parece um indicador estranho, espere até conhecer o favorito

[00:15:23] do ex-presidente do Federal Reserve dos Estados Unidos.

[00:15:28] Alan Greenspan presidiu o Banco Central dos Estados Unidos de 1987 a 2006.

[00:15:36] Durante esse tempo, ele supervisionou a resposta à quebra do mercado de ações de 87, a bolha

[00:15:42] das.com e os estágios iniciais da bolha imobiliária.

[00:15:46] Greenspan era conhecido por sua atenção aos detalhes e sua habilidade de analisar

[00:15:51] vários indicadores econômicos para desenvolver uma compreensão abrangente da saúde geral

[00:15:57] da economia.

[00:15:58] E um de seus indicadores favoritos era venda de cuecas.

[00:16:03] O índice de cuecas é um índice econômico que supostamente pode detectar os começos

[00:16:09] de uma recuperação ou de uma crise econômica.

[00:16:12] A premissa é que cuecas são uma necessidade em tempos econômicos normais e as vendas

[00:16:19] permanecem estáveis.

[00:16:21] Durante uma crise severa, a demanda por esses bens muda.

[00:16:25] A lógica de Greenspan também é elegante.

[00:16:29] Ele certa vez disse a um jornalista, a peça de roupa que é mais privada são as cuecas,

[00:16:35] porque ninguém as vê exceto pessoas no vestiário, e quem se importa?

[00:16:40] As vendas são geralmente estáveis, então naquelas poucas ocasiões que caem, isso significa

[00:16:46] que os homens estão tão pressionados que estão decidindo não substituir suas cuecas.

[00:16:52] Bom, pense nisso.

[00:16:54] Cuecas são invisíveis.

[00:16:56] Ninguém sabe se você está usando a mesma cueca furada há três anos.

[00:17:00] Não é como uma camisa rasgada ou sapatos gastos que as pessoas podem ver.

[00:17:05] Então quando o dinheiro aperta, cuecas são uma das primeiras coisas que homens param

[00:17:10] de comprar.

[00:17:11] Afinal, quem vai notar?

[00:17:13] E o índice de cuecas realmente parecia funcionar.

[00:17:16] As vendas de cuecas dos Estados Unidos caíram significativamente de 2007 a 2009, mas ganharam

[00:17:23] força novamente em 2010, quando a economia se recuperou.

[00:17:27] O índice ganhou por eminência nos anos 1970 e 1980, quando economistas e analistas começaram

[00:17:35] a reconhecer seu valor potencial como um indicador econômico.

[00:17:39] Mas aí veio 2020.

[00:17:41] A pandemia, o lockdown e algo inesperado aconteceu.

[00:17:45] As vendas de cuecas aumentaram.

[00:17:47] Por quê?

[00:17:48] Porque todo mundo estava trabalhando de casa.

[00:17:52] O conforto se tornou uma prioridade.

[00:17:54] A recessão da Covid mudou a maneira como olhamos para nossos indicadores econômicos

[00:17:59] especiais.

[00:18:00] Tanto pizza congelada quanto cuecas nos ensinam algo importante.

[00:18:06] Indicadores econômicos culturais podem funcionar até que parem de funcionar.

[00:18:12] Mudanças estruturais na sociedade, como o trabalho remoto em massa, por exemplo, podem

[00:18:17] quebrar padrões que pareciam sólidos por décadas.

[00:18:21] E isso nos leva aos Labubus.

[00:18:24] Labubu é um boneco peludo, com orelhas pontudas, olhos enormes e dentes serrilhados formando

[00:18:31] um sorriso travesso.

[00:18:33] Ele foi criado em 2015 pelo artista Kassim Lung, como parte de uma série chamada The

[00:18:40] Monsters.

[00:18:41] Por alguns anos, Labubu foi apenas um brinquedo colecionável de nicho.

[00:18:46] Mas 2024 viu a popularidade do Labubu explodir mundialmente.

[00:18:52] O catalisador foi uma celebridade.

[00:18:56] Lisa, da Blackpink, mostrou um chaveiro Labubu em seu Instagram, provocando uma tendência

[00:19:02] viral entre seus mais de 100 milhões de seguidores.

[00:19:06] Logo depois, outras estrelas como Rihanna e até Kim Kardashian, claro, foram vistas

[00:19:12] com Labubu.

[00:19:13] Isso se traduziu em negócios sérios.

[00:19:15] A receita da fabricante dobrou para quase dois bilhões de dólares.

[00:19:21] Os números são impressionantes.

[00:19:23] A avaliação da Popmart atingiu 40 bilhões de dólares, superando gigantes como a Hasbro

[00:19:29] e Mattel, com vendas anuais subindo para aproximadamente 1.8 bilhão de dólares.

[00:19:37] E aqui está a conexão com tudo que discutimos.

[00:19:40] Labubu é o efeito batom perfeito para a atualidade.

[00:19:45] Os bonecos custavam entre 15 e 30 dólares nos Estados Unidos, exatamente na mesma faixa

[00:19:52] de preço de um batom de luxo.

[00:19:55] É pequeno o suficiente para não destruir o orçamento, mas luxuoso o suficiente para

[00:20:00] parecer especial.

[00:20:02] Você pode pendurar na bolsa e mostrar para todo mundo.

[00:20:06] Como disse um analista de brinquedos, quando as pessoas se sentem negativamente sobre suas

[00:20:11] perspectivas financeiras, elas mudam seus gastos com brinquedos para produtos que acreditam

[00:20:17] ser colecionáveis.

[00:20:19] Labubus também dão a impressão de ter um valor que supera o preço real.

[00:20:25] É o efeito batom, o efeito pizza congelada e a gamificação do consumo.

[00:20:30] Tudo junto em um boneco peludo com um dente pontiagudo.

[00:20:34] Mas Labubu não é o único sinal cultural dessa época.

[00:20:38] Há outro fenômeno acontecendo e ele tem tudo a ver com nostalgia.

[00:20:43] O retorno da estética dos anos 2000 que explodiu nos últimos anos.

[00:20:48] Calça de cintura baixa, veludo, tênis chunk, clipe de broboleta, tudo meio que voltou.

[00:20:55] E aqui está a conexão econômica.

[00:20:57] A volta dessa estética está correlacionada com a pandemia de covid e a recessão econômica

[00:21:03] correspondente.

[00:21:04] Esse retorno tem sido comparado a nostalgia.

[00:21:08] Um fenômeno onde a cultura muda tão rapidamente que gerações mais novas sentem falta de

[00:21:14] coisas do passado recente.

[00:21:16] A mudança rápida nos anos 2000 veio dos ataques de 11 de setembro, da guerra ao terror e dos

[00:21:22] rápidos avanços tecnológicos da época, como o iPod e o iPhone.

[00:21:28] Para a geração Z que não experimentou a era original, a popularidade atual lhes deu

[00:21:33] a oportunidade de fazer isso.

[00:21:36] E eles podem reimaginar estilos clássicos para caberem em seu guarda-roupa, incorporando

[00:21:41] peças ou tendências específicas que os atraiam.

[00:21:44] Um artigo sobre moda explica a ressurgência da moda dos anos 2000 impulsionada por uma

[00:21:51] mistura de nostalgia, sustentabilidade e a influência das redes sociais.

[00:21:56] As pessoas são atraídas pela mistura única de otimismo futurista e os estilos icônicos

[00:22:02] do início dos anos 2000.

[00:22:04] Mas há uma dimensão mais profunda.

[00:22:06] A geração Z abraça a moda dos anos 2000 representando nostalgia por uma era pré-recessão,

[00:22:13] pré-rede sociais que parece a distância mais despreocupada e otimista do que o mundo

[00:22:19] de hoje.

[00:22:20] Se encerrar o coletivo por um passado imaginado, pode ser tão poderoso quanto a nostalgia

[00:22:26] pessoal.

[00:22:27] Em tempos incertos, às vezes tudo que você precisa é de um pouco de glitter e talvez

[00:22:32] algumas calças de cintura baixa para se sentir mais otimista novamente.

[00:22:37] E não é só a moda.

[00:22:40] A música dos anos 2000 fez uma volta.

[00:22:43] Bandas de nu metal como Limp Bizkit, Korn e Slipknot fizeram turnês enormes recentemente.

[00:22:49] Linkin Park se reformou com uma nova vocalista.

[00:22:52] Até Hilary Duh fez música nova.

[00:22:55] Tudo isso enquanto a ansiedade sobre uma possível recessão domina as conversas.

[00:23:01] Então o que todos esses indicadores realmente nos dizem?

[00:23:04] Que há uma recessão chegando?

[00:23:07] Não necessariamente.

[00:23:09] Como vimos com Baton, Sires e Cuecas, esses indicadores culturais são mais sobre como

[00:23:13] nos sentimos do que sobre para onde a economia está indo.

[00:23:18] Os indicadores não tradicionais de recessão não são inúteis.

[00:23:23] Eles fornecem insights valiosos sobre como as pessoas estão se sentindo sobre a economia

[00:23:27] e podem, às vezes, estar certos sobre algo.

[00:23:31] As saias mais curtas podem dizer algo sobre os tempos, mas não são um substituto para

[00:23:37] análise macroeconômica sólida.

[00:23:40] Mas talvez o próprio fenômeno seja revelador.

[00:23:43] Quando milhões de pessoas estão procurando desesperadamente por sinais de crise em tendências

[00:23:48] de moda e produto de consumo, isso diz algo sobre a ansiedade econômica coletiva.

[00:23:55] O interesse público em memes de recessão parece funcionar como um mecanismo de enfrentamento

[00:24:01] em tempos de estresse, um fenômeno que provavelmente persistirá enquanto a incerteza econômica

[00:24:07] permanecer alta.

[00:24:10] Então depois de toda essa jornada, o que realmente aprendemos?

[00:24:14] A verdade é essa.

[00:24:16] Nenhum desses indicadores culturais funciona de verdade como previsão econômica.

[00:24:21] E o problema fundamental é sempre o mesmo, confundir correlação com causalidade.

[00:24:27] Só porque duas coisas acontecem ao mesmo tempo, não significa que uma causa a outra.

[00:24:33] Às vezes saias ficam mais curtas quando a economia está boa, às vezes não, às vezes

[00:24:37] as vendas de batom sobem durante a recessão, às vezes caem.

[00:24:41] O padrão não é confiável o suficiente para ser chamado de indicador.

[00:24:45] E tem um outro problema grande, o viés de confirmação.

[00:24:50] Prestamos atenção nos momentos em que o padrão parece funcionar e ignoramos todos os momentos

[00:24:56] em que ele falha.

[00:24:57] Além disso, como a gente já viu, fatores sociais mudam tudo.

[00:25:01] Então, se esses indicadores não funcionam, por que continuamos falando sobre eles?

[00:25:09] Por que eles revelam algo mais interessante do que as previsões econômicas?

[00:25:13] Eles revelam essa tal ansiedade coletiva.

[00:25:16] Eles revelam como a gente processa a incerteza, e eles mostram nossa necessidade psicológica

[00:25:22] de encontrar padrões e sentir que temos algum tipo de controle sobre o caos.

[00:25:27] O efeito batom, por exemplo, não prevê recessões, mas ele nos ensina sobre o efeito

[00:25:35] de substituição em economia comportamental, como consumidores trocam produtos caros por

[00:25:40] alternativas mais baratas que ainda oferecem satisfação psicológica.

[00:25:45] O que torna esses indicadores econômicos intrigantes é que eles capturam como as pessoas

[00:25:51] se sentem, não apenas o que as pessoas fazem.

[00:25:54] Quando as pessoas começam a procurar esses padrões em todo lugar, quando cada produto

[00:26:00] que compramos se torna um preságio, quando precisamos transformar nosso batom em nossas

[00:26:05] cuecas em termômetros econômicos, isso nos diz que estamos nervosos, que estamos inseguros,

[00:26:12] que queremos algum tipo de aviso, alguma preparação, algum controle sobre forças que são maiores

[00:26:20] do que nós.

[00:26:21] E talvez isso seja mais útil do que qualquer previsão sobre saias ou batom, porque percepção

[00:26:28] econômica, no fim das contas, impulsiona comportamento econômico real.

[00:26:33] Se todo mundo achar que uma recessão está chegando, eles começam a cortar gastos.

[00:26:38] E quando todo mundo corta gastos, aí sim pode vir uma recessão.

[00:26:44] Mas isso não significa que devemos ignorar completamente esses fenômenos culturais.

[00:26:49] Eles nos lembram que economia não é só números e gráficos, é também psicologia, cultura

[00:26:55] e emoção coletiva.

[00:26:56] É como nos sentimos quando acordamos de manhã, o que compramos quando queremos nos sentir

[00:27:01] melhor, como expressamos esperança ou medo através de nossas escolhas.

[00:27:06] E quem sabe, talvez daqui a 20 anos não vamos lembrar do PIB ou das taxas de juros, vamos

[00:27:12] lembrar dos labubus, das calças de cintura baixa e de como todos nós tentamos encontrar

[00:27:18] ordem no caos um meme de recessão por vés.

[00:27:23] Espero que vocês estejam… céticos.

[00:27:26] Até a próxima.