1745 - TRUMP E O FUTURO DO MUNDO: OLIVER STUENKEL
Resumo
Oliver Stuenkel, pesquisador do Carnegie Endowment e professor em Harvard, analisa a profunda transformação na ordem geopolítica global. Ele argumenta que o período excepcional de estabilidade pós-Guerra Fria, marcado pela hegemonia americana e baixos gastos em defesa, está chegando ao fim. A ascensão de Donald Trump, a invasão russa da Ucrânia e a recente intervenção americana na Venezuela são sinais de um retorno às leis clássicas da geopolítica, onde grandes potências buscam controlar suas esferas de influência, violando soberanias de países menores.
A conversa detalha a intervenção de Trump na Venezuela, derrubando Nicolás Maduro, mas optando por negociar com a vice-presidente Delcy Rodrigues em vez de impor a líder oposicionista Maria Corina Machado. Stuenkel vê isso como um movimento pragmático, reconhecendo que uma transição democrática imposta de fora poderia levar ao caos, como no Iraque e no Afeganistão. O objetivo americano, segundo ele, não é a democracia, mas o controle sobre o petróleo venezuelano e a reafirmação da Doutrina Monroe, que considera a América Latina como sua esfera de influência exclusiva.
Stuenkel também discute a obsessão de Trump com a anexação da Groenlândia, território dinamarquês, o que representaria o colapso da OTAN e um ponto de ruptura nas relações transatlânticas. Ele argumenta que essa movimentação, apesar de parecer absurda, é séria e reflete um pensamento imperial clássico, onde líderes buscam aumentar territórios para consolidar seu legado histórico, similar à lógica de Vladimir Putin na Ucrânia.
Para o Brasil, Stuenkel recomenda a estratégia do “multi-alinhamento”: diversificar parcerias comerciais e diplomáticas (com EUA, China, Europa, Rússia, Índia, Arábia Saudita) para aumentar a autonomia estratégica e reduzir a vulnerabilidade a pressões externas. Ele defende investimentos em defesa nacional, soberania digital (protegendo dados públicos) e segurança de fronteiras, evitando tanto o confronto direto com os EUA quanto a dependência excessiva, como no caso do México. O cenário global, segundo ele, será de tensão permanente, com mais conflitos, menos crescimento econômico e maior inflação, exigindo que empresas e governos se preparem para um mundo menos previsível e mais fragmentado.
Indicações
Books
- O Fim da História — Livro de Francis Fukuyama, mencionado como uma visão utópica do pós-Guerra Fria que influenciou líderes empresariais e políticos a acreditarem que grandes guerras eram coisa do passado, levando à construção de cadeias de suprimentos globais ultracomplexas e vulneráveis.
- Mundo Pós-Ocidental — Livro escrito por Oliver Stuenkel há dez anos, onde ele previa que a ascensão de outras potências reduziria o espaço de projeção dos EUA. Ele comenta que a mudança ocorreu de forma mais rápida e por meio de um processo voluntário americano, não pelo confronto direto.
- Série Fundação — Série de livros de Isaac Asimov mencionada por Rogério Vilela. A teoria da psicohistória de Asimov, que prevê mudanças em grandes populações, é usada como analogia para discutir como agentes imprevisíveis como Trump podem quebrar expectativas baseadas em padrões históricos e conectividade global.
People
- Francis Fukuyama — Colega acadêmico mencionado, autor de ‘O Fim da História’. Stuenkel brinca que nos EUA se diz que ‘é tudo culpa do Fukuyama’ por ter disseminado uma visão utópica que levou à negligência geopolítica.
- George Washington — Citado como exemplo de líder que, ao recusar ser rei ou presidente vitalício após dois mandatos, estabeleceu uma norma republicana crucial para a democracia americana, em contraste com as ambições atuais de alguns líderes.
Places
- Groenlândia — Território autônomo dinamarquês no centro da obsessão de Trump. Stuenkel discute extensivamente as razões estratégicas (fracas) e a motivação mais provável: o desejo de Trump de ter um legado histórico como líder que expandiu o território americano.
- Conferência de Munique (Münchner Sicherheitskonferenz) — Encontro anual de líderes políticos, ministros da defesa e generais que Stuenkel frequentará em breve. Ele comenta que o clima, antes de irmandade entre aliados, agora será de tensão, especialmente se ocorrer perto de uma possível invasão americana da Groenlândia.
Linha do Tempo
- 00:17:29 — O fim da excepcionalidade pós-Guerra Fria — Stuenkel explica que os últimos 80 anos foram uma aberração na história humana, com uma única potência hegemônica (EUA) sem rivais à altura. Isso permitiu que potências econômicas como a Alemanha negligenciassem a geopolítica e a defesa, confiando na proteção americana. Esse período de estabilidade relativa, com globalização e integração comercial, criou a ilusão de que as leis da geopolítica haviam sido superadas, mas agora está acabando.
- 00:23:32 — Três momentos que marcam a volta da geopolítica — São apontados três eventos que sinalizam o fim da era de estabilidade: a invasão russa da Crimeia em 2014 (ignorada pela Europa), a decisão americana de derrubar Maduro na Venezuela (violação clara de soberania por interesse próprio), e as movimentações dos EUA para anexar a Groenlândia (o que destruiria a OTAN). Isso mostra o retorno da lógica clássica de grandes potências controlando seus entornos.
- 00:29:34 — Análise da intervenção americana na Venezuela — Stuenkel relata os eventos de 3 de janeiro, quando Trump derrubou Maduro. Inicialmente, havia a expectativa de que imporia Maria Corina Machado, o que geraria instabilidade profunda, pois as Forças Armadas venezuelanas, compostas por generais com privilégios ligados ao regime, não a aceitariam. Às 11h, Trump anunciou que negociaria com a vice-presidente Delcy Rodrigues, mostrando que seu objetivo era acesso ao petróleo, não democratização.
- 00:44:46 — Trump e Putin como produtos do seu tempo (Zeitgeist) — Discute-se se líderes como Trump e Putin são agentes imprevisíveis ou reflexos de mudanças estruturais nas sociedades. Stuenkel tende à visão estrutural: Trump surge de um cansaço com a hipocrisia das elites, desigualdade crescente e perda de fé no ‘sonho americano’. Ele traduziu esse sentimento melhor que Hillary Clinton. Da mesma forma, Chávez foi eleito na Venezuela devido à percepção generalizada de corrupção da elite anterior.
- 01:05:24 — A ameaça à Groenlândia e o legado imperial de Trump — Stuenkel analisa a fixação de Trump pela Groenlândia. Argumentos estratégicos (minerais, Ártico) são fracos, pois os EUA já podem fazer o que querem militarmente lá. A explicação mais plausível é uma obsessão pessoal com o legado histórico, inspirada em líderes imperiais que ampliaram territórios. Uma anexação romperia a OTAN, unificaria a Europa contra os EUA e teria custos enormes para ganhos mínimos.
- 01:22:00 — O mundo das esferas de influência e o papel do Brasil — Stuenkel discute se o mundo está voltando a um sistema de esferas de influência rígidas. Ele acredita que é mais uma competição por influência. Para o Brasil escapar de pressões predatórias, recomenda: 1) Multi-alinhamento (diversificar parceiros comerciais); 2) Investir na defesa nacional e base industrial; 3) Desenvolver soberania digital (proteger dados); 4) Reforçar segurança de fronteiras; 5) Manter uma parceria pragmática com os EUA, sem alinhamento incondicional.
- 01:46:28 — Tensão interna nos EUA e clima de medo — Stuenkel descreve a atmosfera tensa em Washington e outros estados, com o envio da Guarda Nacional e agentes da ICE (imigração) para cidades governadas por democratas, numa aparente intimidação política. Isso gera medo em comunidades latinas, inclusive entre cidadãos americanos, e restringe a vida social. Ele relata, por exemplo, ter desistido de ir a um bar brasileiro para assistir a uma final do Flamengo por medo de uma operação da ICE.
- 02:36:07 — Comparação entre as ações de Trump na Venezuela e de Putin na Crimeia — Em resposta a uma pergunta, Stuenkel afirma que há similaridades: ambos os presidentes agem com base na ideia de que ter maior influência naquele país é de seu interesse nacional e que faz parte de sua zona de influência. Ambos violam a soberania de países menores em suas esferas de influência. A Venezuela hoje é um protetorado americano, assim como Putin gostaria que a Ucrânia fosse em relação à Rússia.
- 02:46:31 — A situação do Irã e o fim de ciclo do regime — Stuenkel compara o Irã à União Soviética dos anos 80: um regime que perdeu legitimidade, sustentado por oportunistas, não por ideólogos. A economia está isolada por sanções, a população jovem é cínica e há um êxodo de cérebros. O regime pode ruir a qualquer momento, mas a repressão violenta desincentiva protestos da classe média. Uma intervenção externa seria desastrosa. A queda do regime é mais uma questão de ‘quando’ do que ‘se’.
- 02:59:13 — Risco de interferência americana nas eleições brasileiras — Stuenkel alerta que, diferentemente de Biden (que pressionou para que o resultado fosse respeitado), Trump poderia tentar influenciar ativamente a eleição brasileira, ameaçando com sanções ou tarifas se seu candidato preferido não vencer, como fez na Argentina e em Honduras. A defesa da integridade eleitoral contra interferências externas será um tema crucial na campanha.
Dados do Episódio
- Podcast: Inteligência Ltda.
- Autor: Rogério Vilela
- Categoria: Comedy Comedy Interviews
- Publicado: 2026-01-20T03:27:03Z
- Duração: 03:08:06
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/intelig%C3%AAncia-ltda/15b41480-8fe1-0139-3506-0acc26574db2/1745-trump-e-o-futuro-do-mundo-oliver-stuenkel/68571236-c090-4168-8a50-37a105e70538
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Dados do Podcast
- Nome: Inteligência Ltda.
- Tipo: episodic
- Site: https://rogeriovilela.com/
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Transcrição
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[00:17:29] Dos últimos mil anos.
[00:17:31] Estabilidades, guerras, fomorias.
[00:17:33] Exatamente, porque tivemos ao longo dos últimos 80 anos uma situação inédita na história humana de uma grande potência.
[00:17:44] Hegemônica.
[00:17:45] Hegemônica, sem nenhum rival a curto e médio prazo.
[00:17:51] Que, se você olha para o século XV, XVI e VII, nenhuma potência na história conseguiu, de fato, se consolidar globalmente.
[00:18:00] Ou seja, permanentemente você tinha tensão entre grandes potências.
[00:18:07] Um sistema com uma grande potência apenas elimina a principal ameaça ao sistema internacional,
[00:18:14] que é conflito entre grandes potências, que, por definição, produz instabilidade global.
[00:18:19] Então, mesmo durante…
[00:18:21] Durante a existência da União Soviética, quando você tinha um sistema bipolar,
[00:18:27] os Estados Unidos projetavam uma imensa influência em boa parte do mundo.
[00:18:34] Agora, a grande aberração mesmo surgiu só a partir dos anos 90,
[00:18:39] quando a União Soviética colapsou e aí não teve mais nenhuma potência capaz de desafiar os Estados Unidos.
[00:18:46] E os Estados Unidos…
[00:18:47] A China não era o que é agora, né?
[00:18:49] Exatamente.
[00:18:50] Não lembra como que era.
[00:18:51] Eu lembro que…
[00:18:51] Eu lembro que nos anos 90, os postos na Embaixada Brasileira em Pequim eram uma punição,
[00:18:59] porque ninguém estava nem aí.
[00:19:01] Não era um país relevante.
[00:19:03] Claro que tinha gente que falava, olha, a China um dia vai se transformar em uma grande potência,
[00:19:08] mas mudou mesmo só a partir do ano 2000.
[00:19:11] E olha lá, naquela época a China não tinha nenhuma ambição militar comparável ao que é hoje.
[00:19:18] Então, essa situação…
[00:19:21] Essa situação típica, apesar dos conflitos que, obviamente, aconteciam ao longo das últimas décadas,
[00:19:28] na África, no Oriente Médio, invasão do Iraque, do Afeganistão,
[00:19:35] você criou uma situação em que numerosas grandes potências econômicas
[00:19:42] negligenciaram por completo a geopolítica.
[00:19:45] Grande exemplo, a Alemanha, que deixou de fazer investimentos em defesa,
[00:19:50] deixou de…
[00:19:50] De se preocupar com sua própria segurança,
[00:19:54] porque apostou em um mundo seguro, globalizado,
[00:19:58] abriu mão da energia nuclear, comprou a energia da Rússia,
[00:20:03] terceirizou sua proteção para os Estados Unidos e vendeu seus produtos para a China.
[00:20:08] Ou seja…
[00:20:08] E ganhou muito dinheiro.
[00:20:09] Muito dinheiro.
[00:20:10] Se tornou uma sociedade muito próspera, com vastos serviços públicos, universidade grátis.
[00:20:18] Ou seja, a Europa é o grande…
[00:20:20] O grande símbolo disso.
[00:20:21] Mas mesmo o Brasil acabou não gastando muito em defesa, porque não era preciso.
[00:20:27] Porque os Estados Unidos optaram por uma estratégia também inédita,
[00:20:31] depois do colapso da União Soviética, de querer integrar todos os países
[00:20:37] num sistema econômico liderado pelos Estados Unidos.
[00:20:40] Então, em vez de enfraquecer a China, os Estados Unidos acabaram acelerando a ascensão chinesa,
[00:20:46] criando uma relação mutualmente benéfica do ponto de vista econômico.
[00:20:49] Então…
[00:20:50] Eu lembro que nos anos 2000 até 2015, por aí,
[00:20:55] a relação entre a China e os Estados Unidos era uma coisa fantástica,
[00:21:00] porque a China se beneficiava demais da demanda americana por produtos manufaturados na China.
[00:21:08] Tinha uma mão de obra barata, era interessante para os dois, era um ganha-ganha.
[00:21:12] Era ganha-ganha mesmo.
[00:21:13] Os chineses sempre falam do win-win, às vezes é preciso tomar um pouco de cuidado,
[00:21:17] mas naquela época era assim mesmo.
[00:21:20] Então…
[00:21:20] É…
[00:21:20] É…
[00:21:20] É…
[00:21:20] Essa famosa Nike, a Apple, todo mundo indo para lá.
[00:21:24] Sim, sim.
[00:21:25] Aquilo transformou a China numa rapidez enorme.
[00:21:27] E para o mundo, a gente teve acesso a produtos muito tecnológicos, muito caros,
[00:21:32] que de repente ficou acessível para todo mundo.
[00:21:34] Exato.
[00:21:35] Então, esse momento, eu acho que produziu uma ilusão
[00:21:41] de que o mundo deixou para trás todas as movimentações geopolíticas
[00:21:50] de…
[00:21:50] De tensão permanente, de uma potência tentando anexar parte de uma potência menor.
[00:21:58] Tínhamos, apesar de violações ocasionais, violação da soberania iraquiana,
[00:22:06] enfim, várias guerras que…
[00:22:08] A invasão russa à Ucrânia que começou em 2014.
[00:22:13] Era um mundo em que os gastos em defesa eram muito baixos, super baixos.
[00:22:19] É…
[00:22:20] E muitas pessoas acham, ah, os gastos de defesa sempre aumentam.
[00:22:24] Você só olha o porcentual do PIB, ou seja, da economia como um todo,
[00:22:29] de gastos públicos, teve uma queda brutal até meados dos anos 90,
[00:22:36] porque não era preciso.
[00:22:37] O Japão, por exemplo, não tinha grandes forças armadas.
[00:22:40] Por quê?
[00:22:40] Porque tinha um acordo de defesa mútua com os Estados Unidos.
[00:22:44] A Alemanha também.
[00:22:45] Ou seja, a Europa acabou gastando muito pouco para a sua própria defesa,
[00:22:48] porque os Estados Unidos cuidavam…
[00:22:50] Isso gerou muitos benefícios, obviamente,
[00:22:54] mas eu acho que nos levou a acreditar que a estabilidade geopolítica era o novo normal
[00:23:01] e que, por meio da globalização e da integração comercial,
[00:23:06] por meio do intercâmbio de milhões e milhões de estudantes,
[00:23:10] que criou um mundo mais intercâmbio do que qualquer momento da história,
[00:23:15] que seria possível superar…
[00:23:19] As diferenças…
[00:23:20] As leis da geopolítica.
[00:23:21] E o que estamos vendo agora é que essas leis continuam válidas
[00:23:25] e que esse momento excepcional que vivemos está acabando.
[00:23:32] E, para mim, há três momentos que reforçam isso.
[00:23:40] O primeiro é a invasão russa da Ucrânia em 2014,
[00:23:47] não agora, mais recentemente, do restante,
[00:23:49] mas já da Crimea.
[00:23:50] O primeiro sinal de uma…
[00:23:52] O que passou batido, né?
[00:23:54] Porque houve uma…
[00:23:56] A Europa fingiu que…
[00:23:58] Não era com ela…
[00:23:59] Não era com ela, ou seja,
[00:24:00] que queria manter seus privilégios econômicos
[00:24:03] que eram essenciais para toda a abordagem estratégica da Europa.
[00:24:09] Ou seja, vamos manter a nossa relação
[00:24:11] e meio que aceitar o ataque russo à Ucrânia.
[00:24:18] E achando que eles iam parar também.
[00:24:20] É uma violação flagrante, muito evidente,
[00:24:24] a anexação de um território que faz parte da Ucrânia.
[00:24:28] Depois, mais recentemente,
[00:24:30] a decisão americana de derrubar o Maduro.
[00:24:35] Independentemente…
[00:24:35] Eu detesto o Maduro.
[00:24:37] Acho que a Venezuela, ao longo dos últimos 20 anos,
[00:24:40] foi uma catástrofe.
[00:24:41] Eu tenho muitos amigos venezuelanos que tiveram que fugir.
[00:24:44] A Venezuela tem sido o maior problema da América,
[00:24:50] da América Latina, ao longo das últimas décadas.
[00:24:52] Mesmo assim, uma violação clara da soberania venezuelana.
[00:24:55] E, obviamente, nenhum interesse por parte dos Estados Unidos
[00:24:58] de querer transformar a Venezuela num país democrático.
[00:25:01] Tem interesses muito específicos que se explicam
[00:25:03] por um pensamento clássico de grandes potências
[00:25:06] que querem controlar seus entornos,
[00:25:09] ignorando a soberania desses países
[00:25:11] nas suas esferas de influência.
[00:25:14] E, agora, mais recentemente,
[00:25:16] movimentações explícitas por parte dos Estados Unidos
[00:25:18] de querer…
[00:25:19] de querer…
[00:25:20] anexar a Groenlândia, que faz parte da Dinamarca,
[00:25:23] o que seria o fim da OTAN,
[00:25:27] que é a maior aliança militar
[00:25:30] na história das relações internacionais,
[00:25:34] e que tem sido um dos pilares ainda de um sistema
[00:25:36] da ordem pós-Segunda Guerra Mundial,
[00:25:40] sobretudo pós-anos 90,
[00:25:43] e que vai transformar o nosso mundo
[00:25:46] muito mais do que a gente reconhece.
[00:25:49] Sobre o que a gente conhece,
[00:25:50] sobretudo porque qualquer empresa hoje
[00:25:53] que vai vender para o mundo,
[00:25:55] uma empresa que precisa de insumos,
[00:25:58] ela precisa, o tempo inteiro,
[00:26:00] pensar sobre a próxima crise geopolítica.
[00:26:02] Então, se você é uma empresa que traz insumos
[00:26:05] dos Estados Unidos, da Europa, da Ásia,
[00:26:08] para produzir aqui e vender, sei lá,
[00:26:10] para o mercado americano…
[00:26:13] Você não sabe como vai estar ano que vem.
[00:26:14] O tempo inteiro, você precisa pensar sobre
[00:26:17] cadeias de valor alternativo,
[00:26:20] sobre seus estoques.
[00:26:22] Nos anos 90, tinha…
[00:26:23] Tivemos uma pandemia ainda, que você não falou também,
[00:26:25] no meio de tudo.
[00:26:27] Isso, eu até acho que pode entrar na história
[00:26:31] como um dos últimos grandes desafios
[00:26:34] que a comunidade internacional até meio que
[00:26:38] conseguiu resolver, entre aspas, relativamente bem.
[00:26:42] Houve muita cooperação para avançar a pesquisa.
[00:26:44] Mas foi um golpe na economia.
[00:26:46] Claro, foi um golpe.
[00:26:47] Mas o que eu estou dizendo agora é que,
[00:26:50] nos anos 90, tinha muitas empresas
[00:26:53] adotando uma estratégia chamada
[00:26:55] Just-in-Time, que era a partir da lógica
[00:26:58] de que uma empresa não precisa ter estoque nenhum.
[00:27:01] Assim que ela receber um insumo,
[00:27:04] esse insumo já será utilizado para o processo produtivo.
[00:27:08] Aquilo, obviamente, é muito mais barato,
[00:27:10] muito mais eficiente, porque você não precisa…
[00:27:13] O risco é menor.
[00:27:14] Ou você não precisa estocar produtos.
[00:27:18] Mas isso só funciona…
[00:27:20] quando o mundo está completamente estável,
[00:27:22] quando as regras do comércio internacional
[00:27:25] estão totalmente previsíveis,
[00:27:28] sem nenhuma perspectiva de guerra que possa interromper isso.
[00:27:32] Agora é o contrário.
[00:27:33] Se você é uma empresa que vende, sei lá o quê,
[00:27:36] você precisa de 500 fornecedores diferentes
[00:27:42] de 110 países.
[00:27:45] É completamente comum.
[00:27:46] Parece complexo, mas hoje em dia a nossa globalização é assim.
[00:27:49] O risco de um desses fornecedores, de repente, enfrentar uma tarifa,
[00:27:53] você ter que pagar uma tarifa enorme,
[00:27:55] ou desse fornecedor ter que…
[00:28:00] Ele não consegue te enviar o produto
[00:28:03] porque o fornecedor do seu fornecedor não está conseguindo entregar mais
[00:28:07] por causa de um problema geopolítico.
[00:28:10] Tudo isso agora vai produzir um mundo com menos crescimento
[00:28:14] e com mais inflação, porque as empresas precisam…
[00:28:19] ter um custo maior de produção.
[00:28:22] Eles precisam repassar esse custo para o consumidor.
[00:28:24] Precisam contratar seguro.
[00:28:26] Contratar seguro.
[00:28:27] Isso, sobretudo, aliás, para a América Latina,
[00:28:29] tive na semana passada uma conversa muito chata com um cliente.
[00:28:33] Imagina os números do seguro, como deve estar aumentando.
[00:28:36] Porque eu sempre vinha falando para os clientes,
[00:28:40] a América Latina, sobretudo a América do Sul,
[00:28:43] é uma região de baixo risco geopolítico.
[00:28:45] Você pode investir aqui, você não precisa pagar os prêmios altos,
[00:28:48] para seguro em caso de crise geopolítica.
[00:28:53] E agora com Venezuela, obviamente, isso mudou.
[00:28:56] Porque o investidor, muitas vezes,
[00:28:59] ele não sabe da diferença entre…
[00:29:01] Venezuela, Paraguai, Brasil.
[00:29:03] É normal, eu entendo.
[00:29:05] Pensam assim, porque um cara que está na Malásia
[00:29:08] e investe em…
[00:29:10] O cara não tem conhecimento.
[00:29:11] Para ele, a América do Sul, hoje,
[00:29:14] traz uma preocupação,
[00:29:17] ligada a uma possível intervenção americana,
[00:29:20] sobre rupturas rápidas,
[00:29:23] que é o pesadelo de qualquer investidor.
[00:29:25] Você nunca quer uma mudança abrupta assim,
[00:29:28] que gera uma situação imprevisível.
[00:29:31] E naquele sábado, no dia 3 de janeiro,
[00:29:34] quando o Trump derrubou…
[00:29:36] Você estava lá nos Estados Unidos?
[00:29:38] Estava aqui, na verdade, tive que voltar.
[00:29:40] Você estava aqui, é verdade.
[00:29:42] O Trump derrubou o Maduro.
[00:29:45] E aí aconteceu uma coisa muito interessante.
[00:29:48] Ele derrubou o Maduro lá,
[00:29:50] pelas três ou quatro da madrugada.
[00:29:53] E entre as quatro da madrugada,
[00:29:56] até as onze,
[00:29:58] muitas pessoas achavam que o Trump
[00:30:00] ia instalar, em Caracas,
[00:30:02] a Maria Corina Machado, líder da oposição,
[00:30:05] como nova presidente dos Estados Unidos.
[00:30:08] Eu imaginei isso também.
[00:30:09] Então, eu imediatamente,
[00:30:11] sabendo dos antecedentes,
[00:30:13] Iraque e outros,
[00:30:16] isso aí vai produzir uma situação,
[00:30:19] uma instabilidade enorme na Venezuela,
[00:30:23] com potenciais riscos para toda a região.
[00:30:26] Porque se você quer democratizar a Venezuela,
[00:30:30] e você, de repente, bota lá a líder da oposição,
[00:30:34] mesmo ela tendo vencido as eleições em 2024,
[00:30:38] você está criando um problema enorme,
[00:30:40] porque as forças armadas da Venezuela,
[00:30:42] eles não querem que a Maria Corina Machado assuma.
[00:30:46] Na Venezuela, tem dois mil generais.
[00:30:50] E por que tem dois mil generais?
[00:30:52] Porque o governo chavista
[00:30:54] comprou a lealdade desses caras
[00:30:57] entregando privilégios econômicos.
[00:30:59] Então, tem o general do arroz,
[00:31:01] tem o general de determinados remédios,
[00:31:04] tem o general que cuida da venda de drogas
[00:31:07] numa determinada região da Venezuela.
[00:31:09] Ou seja, esses caras estão muito comprometidos
[00:31:11] com o regime.
[00:31:13] Se, de repente, você bota uma pessoa
[00:31:17] que quer democratizar o país e vai dizer
[00:31:20] ó, isso aqui acabou,
[00:31:22] pode ter um levante militar contra essa pessoa.
[00:31:25] Eles não vão aceitar ela,
[00:31:27] porque eles não querem abrir mão
[00:31:29] dos seus vastos privilégios.
[00:31:31] Tem muitas pessoas que a gente chama de entufados,
[00:31:35] ou seja, conectados com o regime chavista,
[00:31:38] que têm as casas mais bonitas na Flórida.
[00:31:41] Que é a grana que eles utilizaram
[00:31:46] para desviar a ADA, tudo.
[00:31:48] Então, nos briefings para os meus clientes,
[00:31:51] antes das 11, eu falei
[00:31:53] a Venezuela vai entrar num ciclo
[00:31:55] de instabilidade profunda,
[00:31:57] com risco elevado de conflito armado interno.
[00:32:02] Porque os Estados Unidos
[00:32:04] podem passar pela mesma situação
[00:32:06] que passou no Iraque e outros países.
[00:32:07] Tudo bem que a Venezuela tem uma memória institucional
[00:32:09] democrática, etc.
[00:32:11] Mas as instituições estão completamente comprometidas.
[00:32:16] Ou seja, ao longo dos últimos 25 anos,
[00:32:19] os técnicos foram removidos
[00:32:22] e eles botaram pessoas leais
[00:32:25] que muitas vezes não têm nenhuma capacidade técnica.
[00:32:28] Então, olhando o sistema energético,
[00:32:32] polícia, jurídico, forças armadas,
[00:32:36] é tudo comprometido.
[00:32:38] Houve uma fusão total
[00:32:40] entre burocracia e partido.
[00:32:43] Aí eu falei
[00:32:45] isso aqui vai dar merda.
[00:32:47] Aí, inclusive, eu conhecia pessoas
[00:32:50] dentro do governo Trump
[00:32:51] que haviam alertado o próprio Trump
[00:32:53] que aquilo seria muito arriscado.
[00:32:55] Mas eu achava que o Trump
[00:32:57] ia fazer do mesmo jeito.
[00:32:59] Aí, às 11 da manhã, ele falou
[00:33:01] eu não vou contar com a líder da oposição venezuelana.
[00:33:05] Ela não faz parte dos meus planos para a Venezuela.
[00:33:09] Minha principal interlocutora
[00:33:13] é a vice-presidente do Nicolás Maduro,
[00:33:16] Elce Rodriguez.
[00:33:17] Você entendeu?
[00:33:18] Mandando tudo no seu lugar.
[00:33:20] Aí eu tive que ligar para todos eles.
[00:33:23] Eu confesso assim,
[00:33:25] eu acho um erro ele ter derrubado o Maduro
[00:33:28] e já podemos falar o porquê.
[00:33:30] De novo, isso não tem absolutamente nada a ver,
[00:33:32] eu não tenho nenhuma simpatia pelo Maduro.
[00:33:35] E quando eu critiquei
[00:33:37] a atuação militar do Estado,
[00:33:39] nos Estados Unidos, obviamente,
[00:33:40] tinha um monte de gente falando
[00:33:41] ah, o Oliver é fã do Maduro, etc.
[00:33:43] O Maduro foi o pior presidente da história
[00:33:46] da Venezuela.
[00:33:47] Muito pior até do que o Chávez,
[00:33:49] que já foi…
[00:33:50] Pois é, prisões, perseguição,
[00:33:53] uma péssima gestão da economia,
[00:33:55] nenhuma compreensão sobre
[00:33:57] como funciona a economia,
[00:33:58] uma postura na política externa,
[00:34:00] aliás, muito ruim para o Brasil.
[00:34:02] Sufocava qualquer tipo de manifestação,
[00:34:04] de proposição.
[00:34:05] É, péssimo, enfim.
[00:34:07] Mas o Trump compreendeu
[00:34:09] o risco de tentar impor
[00:34:13] uma liderança…
[00:34:15] De fora.
[00:34:16] De fora, que apesar de ter vencido
[00:34:17] as últimas eleições,
[00:34:20] não possui espaldo nas Forças Armadas.
[00:34:23] E aí foi realmente, inclusive depois,
[00:34:26] ficou evidente que a própria CIA
[00:34:27] tinha feito um relatório
[00:34:29] fazendo esse mesmo alerta,
[00:34:30] que eu acabei de fazer,
[00:34:31] que você não pode botar lá um cara
[00:34:33] porque você pode criar uma situação
[00:34:35] em que ela controla parte
[00:34:37] das Forças Armadas.
[00:34:38] Vão apoiá-la,
[00:34:40] uma outra parte vai ficar contra,
[00:34:43] e aí você tem uma situação terrível,
[00:34:45] porque parte do território venezuelano
[00:34:47] é controlado por milícias,
[00:34:50] pelas Farc,
[00:34:51] um estado muito complexo.
[00:34:53] Então, o Trump agora disse que,
[00:34:58] às 11h, ficou evidente
[00:34:59] que ele não vai democratizar a Venezuela,
[00:35:01] que a sua única meta
[00:35:04] é remover um líder
[00:35:07] que tem laços com a China, com a Rússia,
[00:35:12] e a meta americana é ter melhor acesso
[00:35:16] ao petróleo venezuelano,
[00:35:18] lembrando que a Venezuela
[00:35:19] tem as maiores reservas do mundo,
[00:35:21] reservas comprovadas.
[00:35:23] E aí eu liguei para os meus clientes
[00:35:26] e falei, olha, a situação mudou,
[00:35:28] a Venezuela, desta forma,
[00:35:31] não vai passar por uma situação
[00:35:34] de conflito armado,
[00:35:35] porque a DLC consegue dizer aos generais,
[00:35:38] vocês continuam me apoiando,
[00:35:40] vocês mantêm os seus privilégios,
[00:35:43] e eu vou ter uma relação com o Trump,
[00:35:47] que é uma parceria que se limita
[00:35:49] à exploração do petróleo venezuelano.
[00:35:52] Então, isso mostra que a realidade
[00:35:55] agora para empresas muda muito rapidamente.
[00:35:58] E o mesmo na Groenlândia, por exemplo.
[00:36:01] Se você é um produtor de carros avançados,
[00:36:04] um produtor de carros,
[00:36:05] a Volkswagen, por exemplo,
[00:36:07] ela não apenas produz uma parte considerável
[00:36:10] de seus carros nos Estados Unidos,
[00:36:12] mas ela vende muitos carros para os Estados Unidos.
[00:36:14] Então, uma guerra tarifária entre a União Europeia
[00:36:18] e os Estados Unidos,
[00:36:20] ela mexe muito com o modelo de negócios
[00:36:23] e requer um ajuste total
[00:36:27] sobre onde construir a próxima fábrica, etc.
[00:36:31] E todas essas empresas agora estão contratando
[00:36:33] um monte de formado em RI,
[00:36:36] Relações Internacionais,
[00:36:38] porque de repente precisam olhar para o noticiário
[00:36:41] toda hora antes de tomar decisões
[00:36:44] sobre investimentos, etc.
[00:36:46] Então, eu achei a postura do Trump
[00:36:49] até pragmática de não querer
[00:36:52] uma ruptura,
[00:36:54] iniciar uma transformação agora,
[00:36:56] porque o risco disso é grande.
[00:36:59] Se você coloca um líder
[00:37:01] depois de uma intervenção estrangeira,
[00:37:04] essa pessoa não possui legitimidade.
[00:37:08] Por exemplo, como o Brasil derrubou a ditadura?
[00:37:11] Uma mobilização interna.
[00:37:13] Como o Chile, a Argentina,
[00:37:15] todos os países latino-americanos,
[00:37:17] por vontade e capacidade própria interna,
[00:37:20] derrubaram seus regimes.
[00:37:21] A Venezuela não conseguiu.
[00:37:23] Então, uma transição para a democracia
[00:37:25] após uma intervenção armada de fora
[00:37:28] pode dar muito errado,
[00:37:30] como foi o caso no Iraque e no Afeganistão.
[00:37:33] Na Líbia, aliás, três países
[00:37:35] que sofreram intervenção estrangeira
[00:37:37] e hoje estão em caos total.
[00:37:40] Isso não é uma defesa das lideranças
[00:37:42] desses três países na época,
[00:37:44] mas mostra que se você quer fazer isso,
[00:37:46] você precisa fazer um compromisso
[00:37:48] de décadas.
[00:37:50] Os Estados Unidos fizeram isso
[00:37:52] com a Alemanha e com o Japão.
[00:37:54] E com o Panamá, aliás.
[00:37:56] O Panamá invadiu em 1989,
[00:37:59] mandaram 25 mil soldados americanos,
[00:38:03] derrubaram o presidente,
[00:38:06] o general Manuel Noriega.
[00:38:09] Morreu bastante gente.
[00:38:11] Então deixou um trauma na sociedade,
[00:38:13] mas o Panamá hoje é uma democracia
[00:38:17] multipartidária, um país próspero.
[00:38:20] Ou seja, pode dar certo.
[00:38:22] Mas estamos agora numa nova fase
[00:38:26] em que grandes potências
[00:38:28] violam a soberania de países menores
[00:38:32] por motivos de interesse próprio.
[00:38:35] E isso vai gerar muita instabilidade,
[00:38:39] porque agora todo mundo precisa se perguntar
[00:38:41] e aí, como que eu vou me defender?
[00:38:44] E no caso europeu é o mais óbvio,
[00:38:46] porque a Europa nunca pensou direito nisso.
[00:38:49] Então um país como o País Baixo,
[00:38:52] Bélgica, Alemanha,
[00:38:55] não tem um plano B.
[00:38:57] Sempre dependiam dos Estados Unidos
[00:38:59] e hoje enfrentam, de fato,
[00:39:01] duas grandes potências
[00:39:03] ameaçando a soberania de países europeus.
[00:39:08] Do lado americano,
[00:39:10] Estados Unidos querendo anexar
[00:39:12] a parte da Dinamarca.
[00:39:13] E do outro lado,
[00:39:15] a Rússia tendo invadido a Ucrânia,
[00:39:19] também querendo anexar parte
[00:39:21] ou todo o território da Ucrânia.
[00:39:23] Então lá, eu sempre falei,
[00:39:25] o meu melhor investimento foi
[00:39:27] em ações de empresas europeias de defesa,
[00:39:31] porque o setor era minúsculo
[00:39:33] e todas as armas vinham de grande parte
[00:39:35] de fora dos Estados Unidos.
[00:39:37] E agora, sendo ameaçado pelos Estados Unidos,
[00:39:40] a Alemanha vai comprar armas americanas?
[00:39:42] Não pode.
[00:39:43] Por quê?
[00:39:44] Porque os Estados Unidos enviam
[00:39:48] as atualizações de software
[00:39:51] do equipamento militar a cada 15 dias.
[00:39:55] Isso quer dizer que,
[00:39:57] deixando de enviar essas atualizações,
[00:40:00] o míssil alemão não funciona mais.
[00:40:03] Então, se a Alemanha enfrentar uma ameaça
[00:40:06] vindo por parte dos Estados Unidos,
[00:40:08] precisa da sua própria indústria.
[00:40:11] Então, você tem uma explosão agora
[00:40:14] de investimentos na Europa.
[00:40:18] E eu acho que isso vai acontecer também na Ásia,
[00:40:21] onde o Japão já não pode mais dormir tranquilo,
[00:40:25] sabendo que os Estados Unidos
[00:40:27] vão defender o Japão.
[00:40:29] Se houver um ataque contra o Japão,
[00:40:31] a Coreia do Sul não pode mais ter essa certeza.
[00:40:34] Então, a gente está tendo um colapso
[00:40:40] desse grande acordo
[00:40:42] que possibilitou baixíssimos gastos
[00:40:47] em defesa ao redor do mundo,
[00:40:49] permitindo que esses gastos fossem para a pesquisa,
[00:40:51] para a educação, para a infraestrutura,
[00:40:54] para a produção.
[00:40:56] Então, isso para a Europa é um grande baque
[00:41:00] e o Brasil também precisa ativamente pensar
[00:41:03] sobre o que isso obviamente significa.
[00:41:05] Eu não acho que estamos com uma invasão americana
[00:41:08] iminente, mas evidentemente,
[00:41:11] pessoas que me diziam anos atrás
[00:41:14] que o Brasil precisava investir mais na sua defesa,
[00:41:16] e eu falava que o risco era muito baixo,
[00:41:19] que o Brasil tem muitos outros desafios,
[00:41:21] hoje a situação realmente é diferente.
[00:41:23] Porque o que mais me preocupa é
[00:41:26] a justificativa do Trump para invadir a Venezuela
[00:41:30] mudou várias vezes.
[00:41:33] Em algum momento foi o tráfico,
[00:41:35] mas a Venezuela não tem um papel relevante no tráfico.
[00:41:38] Se fosse assim, a Colômbia seria a primeira.
[00:41:41] Mas a Venezuela é um Estado altamente corrupto,
[00:41:44] um modelo econômico totalmente fracassado,
[00:41:47] repressivo, com participação com o crime organizado,
[00:41:51] mas não é um ator-chave.
[00:41:53] Então, bombardear uns barcos não faz a menor diferença.
[00:41:57] Não faz a menor diferença.
[00:41:59] Você tem hoje uma abundância,
[00:42:01] a cocaína, a fentanil está facilmente acessível
[00:42:05] no mercado americano,
[00:42:07] e nunca foi tão barato.
[00:42:09] Ou seja, toda a guerra militarizada contra o narcotráfico
[00:42:13] ao longo das últimas décadas foi um grande fracasso.
[00:42:16] Os cartéis hoje são mais poderosos
[00:42:19] do que em qualquer momento da história.
[00:42:21] Então, é droga?
[00:42:23] Não.
[00:42:24] É para promover a democracia?
[00:42:26] Evidentemente não,
[00:42:27] porque a Venezuela hoje continua do mesmo jeito.
[00:42:32] E não há nenhum sinal por parte dos Estados Unidos
[00:42:35] de querer botar a Maria Corina Machado lá no poder.
[00:42:40] A Delcy Rodrigues,
[00:42:42] a não ser que haja uma grande mobilização,
[00:42:45] que é difícil porque um quarto da população já fugiu,
[00:42:48] continua tudo igual.
[00:42:49] Então, a democracia provavelmente também não é.
[00:42:56] É o petróleo?
[00:42:58] É, mas assim,
[00:43:00] quando ele começou a falar disso,
[00:43:03] eu comecei a ligar para contatos no setor petrolífero
[00:43:07] nos Estados Unidos.
[00:43:08] E eu vi muita hesitação.
[00:43:10] Os caras falaram, meu,
[00:43:11] a gente não quer investir na Venezuela,
[00:43:13] porque o Trump pode nos garantir estabilidade
[00:43:17] ao longo de…
[00:43:18] mais três anos.
[00:43:20] Mas depois de Trump,
[00:43:21] a gente não sabe.
[00:43:23] Pode ser que o próximo presidente americano
[00:43:25] não vai apoiar a Delcy Rodrigues.
[00:43:27] Pode ser que um líder,
[00:43:29] uma outra figura política,
[00:43:32] uma liderança política venezuelana
[00:43:34] vai derrubar ela
[00:43:36] e nacionalizar todos os investimentos americanos.
[00:43:38] Então, assim,
[00:43:40] eu acho que o Trump
[00:43:42] brigou com as empresas americanas.
[00:43:45] Depois convidou elas para a Casa Branca.
[00:43:47] Várias dizeram, cara, isso aí…
[00:43:49] A Exxon chamou a Venezuela de não investível.
[00:43:53] O Trump ficou chateado com a empresa.
[00:43:57] Eu acho que é muito mais uma lógica
[00:43:59] de grandes potências querendo controlar
[00:44:03] os principais países na sua esfera de influência.
[00:44:07] É a volta da doutrina Monroe dos Estados Unidos
[00:44:09] no século XIX.
[00:44:10] É a mesma justificativa que o Putin utilizou
[00:44:14] para invadir a Ucrânia.
[00:44:15] Pois é.
[00:44:16] Não quero o Altan aqui na garagem.
[00:44:19] Era basicamente dizer
[00:44:21] eu não quero, por exemplo,
[00:44:23] que a Ucrânia faça parte da União Europeia,
[00:44:26] que seja uma democracia bem-sucedida,
[00:44:29] porque sendo um país muito parecido com a Rússia,
[00:44:32] talvez os russos vendo a Ucrânia
[00:44:37] sendo um país próspero, livre
[00:44:39] e bem-sucedido economicamente
[00:44:42] vão perguntar, mas por que a Rússia não pode ser assim?
[00:44:44] É.
[00:44:45] Então, assim,
[00:44:46] o desejo de manter a Ucrânia pobre, dividida
[00:44:52] faz parte da estratégia também
[00:44:55] de você controlar.
[00:44:57] O Trump está nem aí para a Venezuela,
[00:45:00] ou seja, para o venezuelano.
[00:45:02] Tanto que uma Venezuela próspera,
[00:45:06] super rica,
[00:45:08] que de repente começa a se tornar
[00:45:10] um ator geopolítico,
[00:45:12] isso não é no interesse do Trump.
[00:45:13] Do mesmo jeito que o Putin
[00:45:15] não quer uma Ucrânia forte.
[00:45:17] Isso é o novo normal.
[00:45:20] Eu não estou aqui para justificar
[00:45:23] e dizer que isso está certo,
[00:45:26] mas a história sempre foi assim.
[00:45:28] Se você olha para o século 16, 17, 18,
[00:45:32] a história sempre é assim,
[00:45:34] que as grandes potências querem o seu entorno.
[00:45:37] Então, as guerras entre a Turquia,
[00:45:40] o Império Otomano e a Rússia.
[00:45:42] Entre a França e a Alemanha.
[00:45:46] Entre a Inglaterra e a Alemanha.
[00:45:48] É sempre sobre o desejo
[00:45:51] de você ter maior controle
[00:45:53] sobre o seu entorno.
[00:45:55] Dizem que a história não se repete,
[00:45:57] mas ela rima, né?
[00:45:58] Então, eu acho que nós…
[00:46:02] Nos Estados Unidos a gente brinca
[00:46:04] que é tudo culpa do Francis Fukuyama,
[00:46:06] que aliás é um colega nosso.
[00:46:08] Ele hoje já está aí
[00:46:11] há uns 70 anos,
[00:46:13] mas que escreveu
[00:46:16] nos anos 90
[00:46:18] o famoso livro chamado
[00:46:19] O Fim da História.
[00:46:20] Pois é.
[00:46:21] Que em retrospectiva
[00:46:23] é obviamente totalmente utópico.
[00:46:25] Quando foi lançado?
[00:46:26] No início dos anos 90.
[00:46:27] Inicialmente um artigo,
[00:46:28] depois se transforma em um livro.
[00:46:30] Ele está no auge do…
[00:46:32] Pós Guerra Fria.
[00:46:34] Dizendo que nunca antes na história
[00:46:37] tivemos uma concentração de poder
[00:46:39] global tão grande,
[00:46:41] e os Estados Unidos possuem
[00:46:44] a capacidade de remodelar,
[00:46:46] não apenas remodelar o mundo,
[00:46:48] mas de mudar as leis
[00:46:50] das relações internacionais.
[00:46:52] Ou seja, de mudar essa lógica
[00:46:54] que eu acabo de descrever
[00:46:56] e por várias décadas funcionou.
[00:46:58] Funcionou porque
[00:47:00] em vez de confrontar ativamente a Rússia…
[00:47:03] Inicialmente a Rússia não
[00:47:05] estava tão fragilizada.
[00:47:07] A Rússia não se mobilizou contra
[00:47:09] os Estados Unidos.
[00:47:10] A China não.
[00:47:12] A China abraçou os Estados Unidos
[00:47:14] economicamente falando.
[00:47:16] Não teve uma aliança
[00:47:18] anti-americana notável.
[00:47:20] Quem se opôs ativamente contra
[00:47:22] os Estados Unidos era Saddam Hussein,
[00:47:24] depois a República Islâmica no Irã,
[00:47:26] a Coreia do Norte.
[00:47:28] Mas países muito pouco capazes
[00:47:30] de montar de fato
[00:47:32] uma ameaça crível
[00:47:34] à supremacia americana.
[00:47:36] O fim da história teve
[00:47:42] um impacto muito grande
[00:47:44] sobre a forma como
[00:47:46] lideranças empresariais
[00:47:48] e políticas
[00:47:50] enxergavam o mundo.
[00:47:52] O encontro anual em Davos,
[00:47:56] que aliás acontece neste final de semana,
[00:47:58] que é de grandes lideranças
[00:48:00] empresariais e políticas
[00:48:02] para falar sobre
[00:48:04] a situação no mundo,
[00:48:06] esse encontro
[00:48:08] acabou sendo emblemático
[00:48:10] porque aquilo
[00:48:12] foi um encontro pró-globalização
[00:48:14] e também
[00:48:16] partiu da premissa de que
[00:48:18] grandes guerras eram coisas do passado.
[00:48:20] A gente pode…
[00:48:22] A gente nem precisa muito estudar
[00:48:24] a história antes da
[00:48:26] Segunda Guerra Mundial, porque essas coisas
[00:48:28] não existem mais.
[00:48:30] Isso levou empresas a
[00:48:32] construírem redes ultracomplexas
[00:48:34] ao redor do mundo.
[00:48:36] Confiando
[00:48:38] nessa situação estável.
[00:48:40] Sempre dizendo que
[00:48:42] mesmo durante os últimos
[00:48:44] 30 anos também teve guerras terríveis
[00:48:46] com alto custo humano.
[00:48:48] Tivemos sempre
[00:48:50] por aí 30 guerras,
[00:48:52] muitas guerras civis, mas
[00:48:54] estamos hoje numa situação de
[00:48:56] mais de 50 guerras.
[00:48:58] E com os personagens envolvidos.
[00:49:00] Isso é importante.
[00:49:02] Mas a gente está vendo uma…
[00:49:04] Israel e Irã.
[00:49:06] Só, por exemplo,
[00:49:08] às vezes,
[00:49:10] nem são os Estados Unidos, nem é a Rússia,
[00:49:12] se tem, por exemplo, uma guerra civil
[00:49:14] no Sudão, com
[00:49:16] os Emirados Árabes
[00:49:18] apoiando um lado,
[00:49:20] a Arábia Saudita apoiando o outro.
[00:49:22] Por quê? Porque ambos
[00:49:24] estão buscando projetar
[00:49:26] sua influência, fortalecer
[00:49:28] aliados. Então você tem uma guerra lá
[00:49:30] com genocídio,
[00:49:32] provável genocídio, com milhares
[00:49:34] e milhares de mortos.
[00:49:36] Porque há uma guerra por procuração
[00:49:38] entre dois atores
[00:49:40] que querem se transformar
[00:49:42] em potências mais visíveis,
[00:49:44] mais atuantes nessa
[00:49:46] região. E no Iêmen é igual.
[00:49:48] No Iêmen você tem os
[00:49:50] Emirados Árabes apoiando um lado,
[00:49:52] a Arábia Saudita apoiando
[00:49:54] o outro e o Irã apoiando um
[00:49:56] terceiro. Então você tem uma guerra…
[00:49:58] Os Houthis.
[00:50:00] Então você tem uma guerra civil
[00:50:02] com três atores
[00:50:04] nos…
[00:50:06] Os Estados Unidos e Israel também
[00:50:08] frequentemente atuam
[00:50:10] para combater os Houthis.
[00:50:12] Ou seja, você tem
[00:50:14] pelo menos cinco potências
[00:50:16] fornecendo
[00:50:18] um processo de intervenção
[00:50:20] permanente
[00:50:22] num país muito pequeno, totalmente
[00:50:24] devastado pela guerra. Isso ocorre
[00:50:26] na República Democrática do Congo
[00:50:28] e em vários
[00:50:30] outros lugares ao redor
[00:50:32] do mundo.
[00:50:34] E como os Estados Unidos já não…
[00:50:36] Eu acho que tem duas coisas
[00:50:38] acontecendo. Eu escrevi
[00:50:40] dez anos atrás um livro
[00:50:42] chamado Mundo Pós-Ocidental.
[00:50:44] E o que eu estava dizendo
[00:50:46] é que a ascensão de outras
[00:50:48] potências vai fazer com que
[00:50:50] aos poucos os Estados Unidos tenham menos
[00:50:52] e menos espaço para se projetar.
[00:50:54] O que eu não previa
[00:50:56] é que aquilo ocorreria
[00:50:58] por meio de um processo
[00:51:00] voluntário americano.
[00:51:02] Porque os Estados Unidos teriam
[00:51:04] perfeitamente a capacidade de manter
[00:51:06] suas bases ao redor do mundo.
[00:51:08] Mas quem de fato está
[00:51:10] encerrando esse momento não é a ascensão
[00:51:12] da China, não é a ascensão dos Estados Unidos.
[00:51:14] Então
[00:51:16] ocorreu de forma muito mais rápida do que
[00:51:18] eu pensei.
[00:51:20] E os debates que a gente tem hoje na Alemanha
[00:51:22] sobre armas nucleares
[00:51:24] na Polônia estão
[00:51:26] muito mais avançados do que eu pensei.
[00:51:28] Então a mudança veio…
[00:51:30] Mas isso não prova também uma coisa
[00:51:32] que…
[00:51:34] Não sei se você já leu Osimov,
[00:51:36] a série de livros dele da Fundação.
[00:51:38] Ele tem uma teoria
[00:51:40] da psicohistória
[00:51:42] que fala que quanto maior é o número
[00:51:44] da população que você estuda,
[00:51:46] quando você chega nos trilhões
[00:51:48] e quatro bilhões, mais fácil prever
[00:51:50] mudanças.
[00:51:52] E que
[00:51:54] ele tem esse império galáctico
[00:51:56] e um cara faz um cálculo
[00:51:58] baseado no que aconteceu
[00:52:00] no Império Romano, que esse império vai cair
[00:52:02] é inevitável que ele vai cair
[00:52:04] pelos cálculos dele, e que o que ele quer fazer
[00:52:06] é que esse retorno seja o mais rápido
[00:52:08] possível, porque senão cai na barbárie.
[00:52:10] São milhares ou milhões de anos
[00:52:12] que ia ficar nisso. Então ele faz
[00:52:14] um resgate de toda essa
[00:52:16] história num planeta
[00:52:18] que ele chama de Fundação, para ter
[00:52:20] toda a história guardada para se recuperar
[00:52:22] se reerguer rápido. Por que eu estou falando isso?
[00:52:24] Porque a população
[00:52:26] mundial chegou num
[00:52:28] jeito que as economias estavam tão
[00:52:30] tão conectadas
[00:52:32] e era tanta gente envolvida
[00:52:34] inclusive de consumidores
[00:52:36] que imaginou-se que isso
[00:52:38] era totalmente previsível. E tanto
[00:52:40] no livro quanto no que eu estou vendo agora
[00:52:42] dando um
[00:52:44] pouco de spoiler da coleção de
[00:52:46] livros dele, é que assim, quando
[00:52:48] um agente, uma pessoa
[00:52:50] sai muito da curva, ela quebra toda
[00:52:52] essa expectativa dessa população.
[00:52:54] Por exemplo, o Trump e o Putin
[00:52:56] são caras imprevisíveis.
[00:52:58] Se você vê mais ou menos
[00:53:00] entra um presidente ou sai
[00:53:02] outro, você tem mais ou menos uma ideia
[00:53:04] do que pode acontecer. Sai um pouquinho
[00:53:06] daqui, mas não sai totalmente da curva
[00:53:08] como um, principalmente o Trump.
[00:53:10] O Putin nem tanto, mas também.
[00:53:12] E no livro acontece a mesma coisa.
[00:53:14] Quando você tem um elemento que bagunça
[00:53:16] toda essa estrutura, fica imprevisível.
[00:53:18] E o Trump parece que é esse
[00:53:20] ator agora. O Putin um pouco
[00:53:22] a partir de 2014
[00:53:24] e o Trump agora. E a gente não sabe se vai ter
[00:53:26] um terceiro ou quarto ator.
[00:53:28] Não dá mais para fazer previsão.
[00:53:30] Essa é, na verdade,
[00:53:32] o que você está descrevendo. Um grande debate
[00:53:34] na ciência política, por exemplo, e na
[00:53:36] história, sobretudo, sobre como
[00:53:38] explicar mudança.
[00:53:40] Como Hitler foi esse agente.
[00:53:42] E aí, obviamente,
[00:53:44] a abordagem
[00:53:46] típica, clássica,
[00:53:48] é dizer que mudanças
[00:53:50] estruturais…
[00:53:52] Isso aí.
[00:53:54] Eu lancei em 2016
[00:53:56] em inglês e
[00:53:58] alguns anos depois foi publicado em
[00:54:00] português.
[00:54:02] Preciso, aliás, lançar uma nova edição
[00:54:04] que o mundo mudou bastante
[00:54:06] ao longo dos últimos
[00:54:08] dez anos. Então, a abordagem clássica
[00:54:10] histórica, obviamente, é que mudanças estruturais
[00:54:12] causam mudanças políticas
[00:54:14] e as lideranças
[00:54:16] agem
[00:54:18] dentro dessas realidades estruturais
[00:54:20] e, na verdade…
[00:54:22] Elas estão meio presas a isso. Exato.
[00:54:24] Tem pouca margem para
[00:54:26] decisões autônomas. Então, por exemplo,
[00:54:28] sua sociedade
[00:54:30] está economicamente em ascensão
[00:54:32] ou não,
[00:54:34] aquilo define, de fato,
[00:54:36] o que você pode fazer e também
[00:54:38] que tipo de líder será eleito.
[00:54:40] Então,
[00:54:42] essa escola de
[00:54:44] pensamento, ela tem muito
[00:54:46] receio em relação a
[00:54:48] uma análise sobre como
[00:54:50] Trump vai mudar o mundo,
[00:54:52] como Hitler, não sei o que e tal, porque
[00:54:54] eles dizem o seguinte. Se o Hitler
[00:54:56] tivesse sido aceito na Academia das Artes
[00:54:58] em Viena,
[00:55:00] ele teria lá passado a vida
[00:55:02] pintando uma pessoa muito parecida,
[00:55:04] teria aparecido,
[00:55:06] porque a Alemanha estava estruturalmente
[00:55:08] demandando uma pessoa
[00:55:10] que implementasse
[00:55:12] mudanças radicais, basicamente.
[00:55:14] É o tal do Zeitgeist. Existe
[00:55:16] um espírito do tempo
[00:55:18] que propicia…
[00:55:20] Por acaso é o Trump, mas se não fosse o Trump
[00:55:22] seria outra pessoa muito parecida.
[00:55:24] É exatamente isso. Ou seja,
[00:55:26] que
[00:55:28] às vezes as pessoas
[00:55:30] dizem que
[00:55:32] para se eleger presidente de um país,
[00:55:34] o primeiro ministro, para vencer uma eleição,
[00:55:36] você precisa ser o melhor
[00:55:38] analista político, o melhor
[00:55:40] analista que traduz o Zeitgeist,
[00:55:42] o espírito daquele momento,
[00:55:44] porque você precisa
[00:55:46] se apresentar
[00:55:48] como a resposta para os anseios
[00:55:50] daquele momento. E a Alemanha
[00:55:52] profunda… Um reconhecimento de padrões.
[00:55:54] Você enxerga, por exemplo,
[00:55:56] o Bolsonaro, por exemplo.
[00:55:58] O Bolsonaro percebeu
[00:56:00] que na eleição de 2018
[00:56:02] o eleitorado
[00:56:04] queria algo totalmente
[00:56:06] diferente. Não era nem Dilma,
[00:56:08] nem Aécio. Isso.
[00:56:10] Por exemplo, o Geraldo Alckmin
[00:56:12] teve uma performance
[00:56:14] péssima. Por quê? Porque era
[00:56:16] visto como alguém muito padrão,
[00:56:18] dentro do conhecido.
[00:56:20] Havia um…
[00:56:22] De repente se abriu um espaço
[00:56:24] por uma série de fatores
[00:56:26] ligados à situação
[00:56:28] econômica, percepção de segurança pública,
[00:56:30] corrupção, etc.
[00:56:32] Que viabilizou
[00:56:34] a ascensão como alguém assim.
[00:56:36] Mas o Bolsonaro, 20 anos antes,
[00:56:38] não teria a menor chance, porque o Brasil
[00:56:40] não queria alguém assim.
[00:56:42] E da mesma forma, o Hitler se candidatando
[00:56:44] nos anos… 20 anos antes
[00:56:46] ou nos anos 60,
[00:56:48] não dá certo. Ou seja,
[00:56:50] a sociedade quer outra coisa.
[00:56:52] Então, alguém como Trump
[00:56:54] não surge
[00:56:56] do nada. Alguém como Chávez
[00:56:58] não surge do nada. As pessoas sempre dizem
[00:57:00] Ah, mas a Venezuela era uma democracia
[00:57:02] estável nos anos 90.
[00:57:04] Era um país super inseguro,
[00:57:06] desigual pra caramba
[00:57:08] e um dos países mais corruptos
[00:57:10] do mundo. Eu não estou aqui justificando
[00:57:12] Chávez. Estou dizendo
[00:57:14] Hugo Chávez foi eleito
[00:57:16] a partir de uma constatação generalizada
[00:57:18] na sociedade venezuelana
[00:57:20] de que toda a elite era
[00:57:22] corrupta e que era preciso
[00:57:24] escolher alguém
[00:57:26] totalmente diferente.
[00:57:28] Apesar do Chávez
[00:57:30] ter liderado
[00:57:32] um golpe fracassado
[00:57:34] em 1992. Ou seja, era evidente
[00:57:36] que esse cara tinha
[00:57:38] ambições autoritárias.
[00:57:40] Só pra dizer assim, esse pensamento
[00:57:42] mostra que
[00:57:44] o Napoleão
[00:57:46] não surgiu do nada. Ele é produto
[00:57:48] do seu tempo. O Trump é produto do seu tempo.
[00:57:50] Eu tendo a concordar com isso
[00:57:52] porque assim, o Trump 20 anos
[00:57:54] antes era uma piada.
[00:57:56] Não tinha a menor condição de alguém assim
[00:57:58] se eleger. Então quando você
[00:58:00] tem uma fragilidade
[00:58:02] no tecido social, você tem
[00:58:04] uma sensação de desintegração
[00:58:06] que é claramente palpável nos Estados Unidos.
[00:58:08] Muita tensão interna,
[00:58:10] um cansaço com elites,
[00:58:12] um
[00:58:14] cinismo profundo com a
[00:58:16] hipocrisia das lideranças.
[00:58:18] Por exemplo, por que o Trump fala
[00:58:20] eu vou derrubar esse cara
[00:58:22] por causa do petróleo? Porque ele
[00:58:24] sabe que nos Estados Unidos
[00:58:26] há um cansaço
[00:58:28] com a hipocrisia
[00:58:30] na retórica estabelecida
[00:58:32] da elite política, que supostamente
[00:58:34] invadiu o Iraque para
[00:58:36] armas de destruição em massa. Não tinha.
[00:58:38] Ele já vai lá e fala a real.
[00:58:40] Fala a real. Então ele percebeu
[00:58:42] esse cansaço
[00:58:44] melhor do que Hillary Clinton, que fala
[00:58:46] nós somos mais fortes juntos,
[00:58:48] vamos nos unir.
[00:58:50] Não é o momento.
[00:58:52] Ou seja, não quer dizer que ela esteja errada.
[00:58:54] Ela simplesmente não conseguiu traduzir
[00:58:56] o Zeitgeist da mesma forma.
[00:58:58] Todo presidente americano
[00:59:00] tem esse negócio de ampliar a influência
[00:59:02] e mandar no mundo, mas ninguém
[00:59:04] falava isso. Aí ele fala, não,
[00:59:06] America first.
[00:59:08] Essa coisa direta, crua,
[00:59:10] é algo
[00:59:12] que faz sentido
[00:59:14] naquele momento.
[00:59:16] Você falou dessa abordagem
[00:59:18] teórica. É claro que às vezes
[00:59:22] se você aplica essa
[00:59:24] teoria das mudanças
[00:59:26] estruturais, e eu ao longo da minha vida
[00:59:28] entrevistei muitas lideranças políticas
[00:59:30] e a gente falou justamente sobre isso.
[00:59:32] É interessante que
[00:59:34] teve alguns ex-presidentes
[00:59:36] que me falaram
[00:59:38] eu fui presidente, mas
[00:59:40] quando eu sentei naquela cadeira
[00:59:42] eu não consegui mudar nada.
[00:59:44] Porque eu estava com o Congresso
[00:59:46] na mão da oposição,
[00:59:48] o Supremo não queria aprovar aquela proposta
[00:59:50] que eu tinha.
[00:59:52] Alguns dizem que não tinha uma crise
[00:59:54] para eu realmente implementar a mudança.
[00:59:56] Então assim,
[00:59:58] qualquer liderança
[01:00:00] enfrenta limitações.
[01:00:02] Os eleitores
[01:00:04] de Trump, parte deles
[01:00:06] sente uma…
[01:00:10] Eu falo frequentemente com eleitores de Trump.
[01:00:12] É algo
[01:00:14] para mim inexplicável.
[01:00:20] É um desejo
[01:00:22] de apoiar esse cara
[01:00:24] independentemente do que ele diz.
[01:00:26] Os caras vão apoiar o Trump em qualquer instância
[01:00:28] mesmo se ele mudar de opinião.
[01:00:30] Estão dispostos a acompanhá-lo
[01:00:32] mesmo ele dizendo o oposto
[01:00:34] daquilo que falou no ano passado.
[01:00:36] Isso surge quando
[01:00:38] alguém perdeu completamente
[01:00:40] a fé em
[01:00:42] informações confiáveis,
[01:00:44] é muito vulnerável a teorias da conspiração…
[01:00:46] Mas em qualquer análise,
[01:00:48] hoje em dia não dá para separar
[01:00:50] o momento que a gente está vivendo tecnológico
[01:00:52] e de mudança de paradigma.
[01:00:54] As pessoas se sentem muito inseguras,
[01:00:56] então uma pessoa
[01:00:58] muito insegura
[01:01:00] se agarra num determinado político e fala
[01:01:02] eu vou seguir esse cara
[01:01:04] e se esse cara mudar de opinião
[01:01:06] eu vou também mudar de opinião
[01:01:08] e não preciso mais de ter senso crítico.
[01:01:10] E há um terço, eu diria um terço
[01:01:12] da população americana hoje
[01:01:14] que vai apoiar o Trump
[01:01:16] independente do que ele fizer.
[01:01:18] Olha toda
[01:01:20] a investigação sobre
[01:01:22] pedofilia ligada
[01:01:24] ao
[01:01:26] Trump.
[01:01:28] Ninguém sabe se ele de fato esteve envolvido,
[01:01:30] mas fato é que atrapalhou muito
[01:01:32] o processo de divulgar
[01:01:34] informações. Isso por si só
[01:01:36] num momento normal nos Estados Unidos
[01:01:38] seria suficiente para
[01:01:40] empichar o presidente.
[01:01:42] Mas não, tem um terço da população
[01:01:44] que estará com ele em qualquer
[01:01:46] circunstância. Isso pode mudar lá na frente.
[01:01:48] Então assim, eu não sei
[01:01:50] quão imprevisível é o Trump
[01:01:52] de fato. Eu acho que ele é
[01:01:54] o reflexo
[01:01:56] de uma crise profunda das instituições
[01:01:58] americanas, de uma percepção
[01:02:00] de que
[01:02:02] o
[01:02:04] American Dream, o sonho americano de que
[01:02:06] você trabalhando muito, se dedicando muito, estudando muito
[01:02:08] você terá uma vida melhor do que
[01:02:10] seus pais, que em função
[01:02:12] de uma grave
[01:02:14] desigualdade não funciona mais.
[01:02:16] O sistema econômico americano hoje
[01:02:18] não te dá mais a chance,
[01:02:20] as mesmas chances que seus pais tiveram.
[01:02:22] O Trump não oferece nenhuma
[01:02:24] resposta
[01:02:26] mas ele utiliza
[01:02:28] essa frustração para
[01:02:30] criar um movimento que é muito poderoso.
[01:02:32] Então assim, eu acho
[01:02:34] que não é por acaso
[01:02:36] que não surgiu nenhum Trump
[01:02:38] ao longo dos últimos 200 anos. Veja que os Estados Unidos
[01:02:40] conseguiram eleger
[01:02:42] pessoas
[01:02:44] bastante republicanas
[01:02:46] apesar de todas as coisas que aconteceram
[01:02:48] de guerras
[01:02:50] desnecessárias.
[01:02:52] Mas houve um compromisso
[01:02:54] republicano enorme
[01:02:56] desde George Washington
[01:02:58] até Barack Obama.
[01:03:00] Ou seja, ninguém quis ser ditador
[01:03:02] desses caras.
[01:03:04] Ninguém se agarrou a essa cadeira na Casa Branca
[01:03:06] e disse eu quero ficar.
[01:03:08] O Roosevelt se elegeu quatro vezes
[01:03:10] mas depois ele
[01:03:12] por motivos de saúde
[01:03:14] não pode seguir, ele faleceu.
[01:03:18] Mas mesmo ele não tinha realmente um compromisso
[01:03:20] de ser presidente para o resto da vida.
[01:03:22] Eu moro em Washington atualmente
[01:03:24] e aí perto de Washington
[01:03:26] tem a casa
[01:03:28] de George Washington.
[01:03:30] Mount Vernon, que vale muito a pena visitar.
[01:03:32] Você que viaja bastante para os Estados Unidos é muito legal.
[01:03:34] Só que não vá no inverno que pode fazer
[01:03:36] muito frio. Mas é uma casa super bonita
[01:03:38] perto do Potomac do Rio.
[01:03:40] E
[01:03:42] quando depois do
[01:03:44] primeiro mandato
[01:03:46] ele já queria se aposentar
[01:03:48] depois de alguma pressão
[01:03:50] ficou por mais um mandato
[01:03:52] e houve um movimento que queria que ele
[01:03:54] fosse rei.
[01:03:56] E ele disse que não queria.
[01:03:58] Queria voltar para casa.
[01:04:00] Claro que ele queria ser presidente
[01:04:02] para a vida.
[01:04:04] E se ele tivesse
[01:04:06] feito isso, aceito isso
[01:04:08] os Estados Unidos hoje seria muito diferente.
[01:04:10] Porque ele ao dizer
[01:04:12] isso é suficiente
[01:04:14] eu cumpri essa função
[01:04:16] e agora eu vou sair da política.
[01:04:18] E saiu da política mesmo.
[01:04:20] E que venha outro.
[01:04:22] E criou-se uma norma
[01:04:24] que você pode ter
[01:04:26] até oito anos na presidência.
[01:04:28] E só durante a segunda guerra mundial
[01:04:30] muito tempo depois
[01:04:32] mais de um século depois
[01:04:34] um presidente ficou
[01:04:36] quatro mandatos depois
[01:04:38] houve um ajuste
[01:04:40] na constituição
[01:04:44] que realmente só pode
[01:04:46] ficar por dois mandatos.
[01:04:48] E durante todo
[01:04:50] os últimos oitenta anos
[01:04:52] nenhum presidente americano questionou isso.
[01:04:54] Por quê?
[01:04:56] Porque o sistema funcionava tão bem
[01:04:58] que não havia nenhum apoio
[01:05:00] para esse tipo de gesto.
[01:05:02] Agora tem.
[01:05:04] Então se você entrevista eleitores do Trump
[01:05:06] e pergunta você quer que o Trump seja presidente
[01:05:08] para o resto da vida dele?
[01:05:10] Eles dizem que sim.
[01:05:12] Isso não existia.
[01:05:14] O Trump é imprevisível
[01:05:16] mas ele também é reflexo de algo
[01:05:18] que está acontecendo na sociedade americana
[01:05:20] e no mundo.
[01:05:22] Por um lado sim.
[01:05:24] Tem líderes como ele pelo mundo.
[01:05:26] Tem um pouco de estilo de comunicação
[01:05:28] mas ao mesmo tempo tem
[01:05:30] uma grande
[01:05:32] resiliência da democracia também.
[01:05:34] Ou seja,
[01:05:36] teve
[01:05:38] na Polônia, por exemplo, um líder
[01:05:40] que representava
[01:05:42] um certo risco para a ordem democrática
[01:05:44] e houve uma mobilização
[01:05:46] um primeiro
[01:05:48] ministro
[01:05:50] e perdeu a eleição.
[01:05:52] Eu acho que na Hungria pode agora ter
[01:05:54] uma movimentação para
[01:05:56] vencer na próxima eleição.
[01:05:58] O Orbán que é o
[01:06:00] político europeu mais parecido.
[01:06:02] Ou seja,
[01:06:04] é verdade que
[01:06:06] o Trump reflete algo que está
[01:06:08] acontecendo não só nos Estados Unidos
[01:06:10] mas em outras regiões do mundo também.
[01:06:12] Então eu sou mais do lado estrutural
[01:06:14] na hora de tentar
[01:06:16] explicar a história.
[01:06:18] Mas isso não quer dizer que presidentes não tenham
[01:06:20] agência.
[01:06:22] O Washington,
[01:06:24] por exemplo,
[01:06:26] rejeitou
[01:06:28] a demanda popular
[01:06:30] de ficar presidente por mais da vida.
[01:06:32] Isso teve sim um impacto.
[01:06:34] Só dizer que é estrutura
[01:06:36] também não
[01:06:38] leva em consideração que indivíduos
[01:06:40] tem uma enorme capacidade de
[01:06:42] mudar a história.
[01:06:44] O Napoleão, por exemplo, mudou a história
[01:06:46] porque
[01:06:48] foi um gênio militar.
[01:06:50] Então conseguiu vencer numerosas batalhas
[01:06:52] e ele não tivesse tido essa capacidade
[01:06:54] a história teria sido diferente.
[01:06:56] Mas eu
[01:06:58] não acho que o Putin seja tão
[01:07:00] imprevisível assim.
[01:07:02] Eu acho que ele pegou um
[01:07:04] pedacinho da Ucrânia.
[01:07:06] Primeiro ele se
[01:07:08] elegeu
[01:07:10] sendo sucessor de um
[01:07:12] líder alcoólatra
[01:07:14] que virou uma piada nacional
[01:07:16] e que foi uma afronta ao orgulho nacional
[01:07:18] russo, o Boris Yeltsin.
[01:07:20] A
[01:07:22] Rússia entrou numa situação de
[01:07:24] instabilidade total
[01:07:26] de anarquia nos anos 90
[01:07:28] e o Putin foi lá e falou
[01:07:30] eu vou reestabelecer
[01:07:32] a um alto custo para a democracia
[01:07:34] e os direitos humanos, mas eu vou
[01:07:36] reestabelecer, reimpor a ordem
[01:07:38] na sociedade russa.
[01:07:40] Isso inicialmente fez muito sucesso.
[01:07:42] E aí aos poucos
[01:07:44] implementou uma escalada autoritária
[01:07:46] que se você olha a história
[01:07:48] russa é muito comum.
[01:07:50] Há poucos experimentos com a democracia
[01:07:52] e agora está dizendo que
[01:07:54] quer reestabelecer a glória
[01:07:56] imperial
[01:07:58] russa
[01:08:00] aos poucos tentando
[01:08:02] reconquistar a sua esfera de influência.
[01:08:04] Então assim, é imprevisível?
[01:08:06] Não sei. Foi até
[01:08:08] pegou um pedacinho da Ucrânia
[01:08:10] para avaliar como a Europa
[01:08:12] vai reagir. Não reagiu.
[01:08:14] Experimentou a temperatura da água
[01:08:16] e pulou de cabeça.
[01:08:18] Aproveitou e pegou o resto.
[01:08:20] E assim,
[01:08:22] infelizmente eu acho
[01:08:24] que
[01:08:26] a
[01:08:28] Rússia pode
[01:08:30] acabar daqui a 10, 15 anos
[01:08:32] pode ficar com
[01:08:34] a totalidade da Ucrânia.
[01:08:36] Vai depender da
[01:08:38] agilidade europeia em
[01:08:40] desenvolver a capacidade militar
[01:08:42] agora de defender a Ucrânia
[01:08:44] porque os Estados Unidos estão
[01:08:46] aos poucos
[01:08:48] abandonando o país.
[01:08:50] E a Europa…
[01:08:52] Este é o
[01:08:54] grande momento da Europa.
[01:08:56] De novo, eu concordo.
[01:08:58] Eu acho que algumas lideranças europeias
[01:09:00] agora serão decisivas.
[01:09:02] O Macron está no finzinho do mandato
[01:09:04] com baixíssima
[01:09:06] aprovação.
[01:09:08] Então
[01:09:10] se ele conseguir
[01:09:12] fazer seu sucessor ou alguém
[01:09:14] como Macron assumirá na França
[01:09:16] o projeto europeu pode
[01:09:18] ainda passar por um processo de
[01:09:20] conciliação. Mas se for uma
[01:09:22] uma pessoa como Marine Le Pen
[01:09:24] anti-
[01:09:26] anti-união europeia, aí a Europa
[01:09:28] entra num processo de fragmentação
[01:09:30] com menos capacidade de
[01:09:32] apanhar a Ucrânia
[01:09:34] e aí a Rússia…
[01:09:36] Para o Putin não importa porque
[01:09:38] como não é um país democrático
[01:09:42] é impressionante como
[01:09:44] apesar da
[01:09:46] enorme quantidade de vítimas
[01:09:48] russas
[01:09:50] nessa guerra
[01:09:52] da quantidade de soldados que já morreram
[01:09:54] não há mobilização
[01:09:56] contra o governo russo. Não há.
[01:09:58] Por quê? Porque esses caras vêm
[01:10:00] do interior de regiões
[01:10:02] sem visibilidade política
[01:10:04] são muitas minorias
[01:10:06] e essas
[01:10:08] pessoas sabem, se eles falecerem no conflito
[01:10:10] a família vai receber
[01:10:12] um bônus financeiro
[01:10:14] que produz
[01:10:16] benefícios para eles
[01:10:18] Então assim
[01:10:20] para a Rússia não teria problema
[01:10:22] se essa guerra continuar por mais 5 ou 6 anos
[01:10:24] Caramba!
[01:10:26] É, isso é como eu falei
[01:10:28] eu acho que é um novo normal
[01:10:32] Só para concluir essa questão
[01:10:34] essa nova situação
[01:10:36] vai mudar o tipo de líder
[01:10:38] que se elege, porque
[01:10:40] as sociedades agora vão perceber
[01:10:42] poxa, a situação
[01:10:44] está um pouco mais tensa, então
[01:10:46] a disposição de eleger um cara
[01:10:48] que nunca…
[01:10:50] Mas o Trump se elegeu com esse discurso
[01:10:52] de ser o cara da paz, né?
[01:10:54] Vou acabar com todas as guerras, não foi isso?
[01:10:56] Sim, sim, que obviamente
[01:10:58] enfim, agora a gente está vendo
[01:11:00] eu lembro de um debate aqui uns anos atrás
[01:11:02] que antes da eleição
[01:11:04] e eu falei, olha
[01:11:06] isso não é viável
[01:11:08] porque a vasta maioria desses conflitos
[01:11:10] nem sequer depende dos Estados Unidos
[01:11:14] ele se elegeu assim
[01:11:16] mas eu acho que assim
[01:11:18] quando
[01:11:20] o último presidente americano da Guerra Fria
[01:11:22] o George Bush
[01:11:24] pai, foi o ex-diretor
[01:11:26] da CIA
[01:11:28] para se ter uma ideia
[01:11:30] os americanos, o eleitor americano
[01:11:32] tinha tanta noção dos perigos lá fora
[01:11:34] que elegeu
[01:11:36] o diretor da CIA
[01:11:38] que havia viajado o mundo
[01:11:40] que era um especialista em relações internacionais
[01:11:42] aí acabou a Guerra Fria
[01:11:44] e elegeram
[01:11:46] um cara do interior
[01:11:48] que tinha nenhuma experiência internacional
[01:11:50] o Bill Clinton
[01:11:52] então eu acho que agora
[01:11:54] com essa nova realidade
[01:11:56] países como
[01:11:58] Alemanha
[01:12:00] mas até países latino-americanos
[01:12:02] eu acho que terão mais receio em eleger
[01:12:04] alguém
[01:12:06] que nunca teve
[01:12:08] nunca viajou
[01:12:10] porque é um momento muito tenso
[01:12:12] então assim, isso é um sinal interessante
[01:12:14] como o cenário global impacta
[01:12:16] o cenário eleitoral aqui
[01:12:18] e assim, mesmo
[01:12:20] o atual governo brasileiro
[01:12:24] se deu muito bem ao longo do último ano
[01:12:26] resistiu a pressão americana
[01:12:28] e fechou o acordo
[01:12:30] assinou o acordo
[01:12:32] com os europeus
[01:12:34] então o espaço hoje para um candidato
[01:12:36] brasileiro, para desafiar o Lula
[01:12:38] por exemplo
[01:12:40] que não conhece o mundo
[01:12:42] é muito menor
[01:12:44] por isso que o Flávio, o que o Flávio está fazendo para iniciar
[01:12:46] a campanha? está viajando
[01:12:48] porque precisa mostrar ao eleitor
[01:12:50] que
[01:12:52] entende das dinâmicas
[01:12:54] globais que hoje representam
[01:12:56] uma
[01:12:58] um fator essencial para entender
[01:13:00] a política interna
[01:13:02] então eu acho que qualquer pessoa que tentar se candidatar
[01:13:04] em novembro
[01:13:06] vai viajar para caramba
[01:13:08] vai
[01:13:10] viajar para mostrar que consegue lidar
[01:13:12] com essa situação
[01:13:14] e isso vai ser uma vantagem
[01:13:16] para o Lula
[01:13:18] que obviamente
[01:13:20] tendo sido presidente por muitos anos
[01:13:22] é uma pessoa
[01:13:24] relativamente bem informada
[01:13:26] eu não estou aqui dizendo que tudo
[01:13:28] eu discordo de vários elementos
[01:13:30] da política externa deste governo
[01:13:32] por exemplo eu acho que o Lula
[01:13:34] cometeu um erro gravíssimo ao
[01:13:36] depois de voltar à presidência
[01:13:38] convidar o Maduro para Brasília
[01:13:40] e tentar relançar o Nassu com a Venezuela
[01:13:42] e fracassou por causa da Venezuela
[01:13:44] né?
[01:13:46] então serão
[01:13:48] serão anos
[01:13:50] animados e eu acho que esses últimos
[01:13:52] hoje é o dia 19
[01:13:54] eu acho que o restante do ano vai ser meio que
[01:13:56] assim
[01:13:58] de tensão permanente geopolítica
[01:14:00] mas eu falei um pouco
[01:14:02] da mudança de paradigma
[01:14:04] pelo seguinte, a gente tinha o petróleo
[01:14:06] como uma grande
[01:14:08] coisa que moldava o mundo
[01:14:10] e
[01:14:12] agora me parece que
[01:14:14] por isso que eu falei da tecnologia, a inteligência artística
[01:14:16] artificial, computadores
[01:14:18] e quânticos e tal
[01:14:20] e terras raras parece que
[01:14:22] está todo mundo
[01:14:24] brigando nessa esfera
[01:14:26] agora porque sabe que é isso que vai determinar
[01:14:28] daqui os próximos 10 anos
[01:14:30] inclusive exatamente
[01:14:32] Groenlândia
[01:14:34] foi um dos fatores
[01:14:36] eu acho que foram duas
[01:14:38] coisas que salvaram
[01:14:40] o Brasil durante a crise
[01:14:42] tarifária com os Estados Unidos
[01:14:44] no ano passado
[01:14:46] obviamente o governo fez um ótimo trabalho
[01:14:48] eu estive em Washington e vi de perto
[01:14:50] o governo brasileiro
[01:14:52] e os fornecedores
[01:14:54] de produtos brasileiros
[01:14:56] se coordenando
[01:14:58] o jogo com os compradores
[01:15:00] americanos de produtos brasileiros
[01:15:02] fazendo pressão
[01:15:04] para aumentar as chances do
[01:15:06] Trump recuar, isso deu super certo
[01:15:08] mas o que permitiu que o Brasil pudesse
[01:15:10] jogar esse jogo, duas coisas
[01:15:12] primeiro é um país que
[01:15:14] exporta muito mais para a China
[01:15:16] do que para os Estados Unidos
[01:15:18] então em última instância
[01:15:20] o Brasil
[01:15:22] a manutenção dessas tarifas
[01:15:24] teria causado um dano
[01:15:26] mas o dano seria
[01:15:28] aceitável entre aspas
[01:15:30] não ia derrubar a economia brasileira
[01:15:32] porque a dependência
[01:15:34] brasileira não é dos Estados Unidos
[01:15:36] é muito mais da China
[01:15:38] e o Brasil exporta mais para a China do que para a Europa e os Estados Unidos juntos
[01:15:40] mas o segundo fator
[01:15:42] foi que o Brasil
[01:15:44] é dono de 20%
[01:15:46] das terras raras
[01:15:48] do mundo
[01:15:50] e os Estados Unidos estavam brigando com a China
[01:15:52] que tem mais da metade
[01:15:54] e aí os assessores
[01:15:56] do Trump disseram
[01:15:58] cara, você não pode brigar com a China
[01:16:00] e o Brasil ao mesmo tempo
[01:16:02] exatamente
[01:16:04] então foi isso que deu ao Brasil
[01:16:06] mais poder de barganha
[01:16:08] agora isso também lá na frente pode ser um risco
[01:16:10] obviamente
[01:16:12] quererem entrar aqui para pegar
[01:16:14] tem alguns papos
[01:16:16] agora precisa de armas nucleares
[01:16:18] etc
[01:16:20] eu sempre digo o seguinte sobre isso
[01:16:22] você
[01:16:24] se movimentar nessa direção causa um monte
[01:16:26] de tensão entre seus vizinhos
[01:16:28] que começam a se preocupar com você
[01:16:30] uma corrida nuclear
[01:16:32] que aliás a constituição brasileira é muito clara
[01:16:34] que diz que energia nuclear só pode
[01:16:36] tecnologia nuclear só para fins pacíficos
[01:16:38] agora o que o Brasil pode fazer
[01:16:40] é elevar sua latência nuclear
[01:16:42] isso quer dizer
[01:16:44] alcançar
[01:16:46] a capacidade de
[01:16:48] se for preciso
[01:16:50] rapidamente alcançar
[01:16:52] um nível de enriquecimento
[01:16:54] para fazer
[01:16:56] se enfrentar
[01:16:58] uma ameaça
[01:17:00] iminente
[01:17:02] mas isso pode ser feito
[01:17:04] nos bastidores
[01:17:06] sem desenvolver uma arma nuclear
[01:17:08] mas acumular todo o conhecimento tecnológico necessário
[01:17:10] para dar esse passo
[01:17:12] é isso que a Polônia vai fazer
[01:17:14] isso não causa
[01:17:16] Israel foi além
[01:17:18] Israel de fato possui
[01:17:20] armas nucleares
[01:17:22] mas você está certo que hoje
[01:17:24] o petróleo
[01:17:26] apesar de ainda ter alguma relevância
[01:17:28] ele não é mais
[01:17:30] ele não tem mais a mesma
[01:17:32] importância que tinha lá atrás
[01:17:34] porque estamos em meio a uma transição energética
[01:17:36] tanto que as pessoas dizem
[01:17:38] a Venezuela tem 300 bilhões
[01:17:40] de barris de petróleo
[01:17:42] mas a maioria
[01:17:44] desse petróleo jamais
[01:17:46] será explorado
[01:17:48] porque é muito caro?
[01:17:50] não, porque não haverá mais tempo
[01:17:52] porque 300 bilhões de barris
[01:17:54] mesmo botando
[01:17:56] toda a grana para modernizar o setor
[01:17:58] petrolífero
[01:18:00] na Venezuela, você demora séculos
[01:18:02] para tirar o petróleo
[01:18:04] e daqui a 50 anos, muito provavelmente
[01:18:06] a demanda
[01:18:08] para petróleo estará declinando
[01:18:10] e aí você muito rapidamente chega
[01:18:12] a uma situação em que você
[01:18:14] teoricamente pode continuar explorando
[01:18:16] mas economicamente não é mais viável
[01:18:18] porque a partir de um determinado momento
[01:18:20] o preço do petróleo cai
[01:18:22] para 30, para 20
[01:18:24] para o barril e aí não vale a pena
[01:18:26] tanto que
[01:18:28] o custo do petróleo
[01:18:30] venezuelano
[01:18:32] é um pouco maior porque ele precisa ser
[01:18:34] misturado com outros tipos de petróleo
[01:18:36] para derretê-lo
[01:18:38] ele é maciço
[01:18:40] ou seja, o petróleo é duro
[01:18:42] se você botar
[01:18:44] o petróleo da Venezuela em um copo
[01:18:46] você pode virar o copo
[01:18:48] o petróleo não sai do copo
[01:18:50] porque é pastoso
[01:18:52] então o que
[01:18:54] os Estados Unidos que estão
[01:18:56] se apoderando de parte do petróleo
[01:18:58] venezuelano estão fazendo
[01:19:00] eles pegam esse petróleo
[01:19:02] misturam com o petróleo de outro lugar
[01:19:04] para poder comercializá-lo
[01:19:06] então isso não é tão simples
[01:19:08] assim e além disso com toda
[01:19:10] a insegurança jurídica na Venezuela
[01:19:12] eu não vejo
[01:19:14] uma empresa topando fazer bilhões
[01:19:16] e bilhões de investimentos
[01:19:18] porque pode seguir daqui a 15, 20 anos
[01:19:20] a transição energética
[01:19:22] terá avançado ao ponto de
[01:19:24] terras raras
[01:19:26] minerais críticos sendo
[01:19:28] muito mais importantes do que o petróleo
[01:19:30] mas inteligência artificial
[01:19:32] e aí eu realmente
[01:19:34] vejo
[01:19:36] eu falo inteligência artificial
[01:19:38] mas isso no topo
[01:19:40] a tecnologia
[01:19:42] a gente já está
[01:19:44] conseguindo ver uma guerra
[01:19:46] daqui a pouco só de drones e robôs
[01:19:48] não é viagem
[01:19:50] pensar que isso aconteça
[01:19:52] eu vejo realmente os Estados Unidos
[01:19:54] e a China
[01:19:56] a China está um pouquinho atrás
[01:19:58] em algumas áreas
[01:20:00] mas em outras está
[01:20:02] no âmbito militar
[01:20:04] até um pouco mais avançado
[01:20:06] em algumas áreas específicas
[01:20:08] a Rússia por exemplo
[01:20:10] na produção de drones em massa
[01:20:12] avançou muito
[01:20:14] tanto que produz uma situação
[01:20:16] engraçada ou seja
[01:20:18] irônica
[01:20:20] que as forças armadas
[01:20:22] hoje
[01:20:24] mais experientes da Europa
[01:20:26] são as forças armadas ucranianas
[01:20:28] e um dos problemas
[01:20:30] que a Europa tem é o seguinte
[01:20:32] a Ucrânia não pode perder
[01:20:34] porque a Ucrânia será necessária para defender
[01:20:36] para compartilhar conhecimento militar
[01:20:38] com as outras forças armadas europeias
[01:20:40] como o bloco militar europeu
[01:20:42] então você tem aí uma indústria
[01:20:44] super interessante
[01:20:46] inclusive na área de drones
[01:20:48] dentro da Ucrânia
[01:20:50] e você tem algumas potências como Turquia, Irã
[01:20:52] produzindo drones
[01:20:54] e aí a lógica da guerra mudou também
[01:20:56] porque você não precisa ter mais
[01:20:58] o drone mais sofisticado
[01:21:00] você precisa
[01:21:02] de repente ter uma capacidade de produzir
[01:21:04] milhares e milhares de drones baratos
[01:21:06] que podem abater
[01:21:08] mísseis caríssimos a um custo
[01:21:10] muito pequeno
[01:21:12] então você cria uma situação
[01:21:14] em que uma
[01:21:16] você cria um gargalo
[01:21:18] tanto drone que o cara não consegue derrubar tudo
[01:21:20] porque um míssel custa
[01:21:22] às vezes um milhão de dólares
[01:21:24] e esses drones saem por 50 mil dólares
[01:21:26] ou menos
[01:21:28] então eu vejo a China e os Estados Unidos
[01:21:30] muito à frente de todos os outros países
[01:21:34] o que reforça que
[01:21:36] lá na frente
[01:21:38] a não ser que países como a Coreia do Sul
[01:21:40] ou Japão obtenham
[01:21:42] capacidade nuclear
[01:21:44] a China em algum momento terá superioridade
[01:21:46] militar no espaço
[01:21:48] asiático
[01:21:50] e aí a grande pergunta é
[01:21:52] até que ponto os Estados Unidos ainda vão querer defender
[01:21:54] os seus aliados lá na região
[01:21:56] o que você acha?
[01:21:58] tem duas grandes
[01:22:00] interpretações do que
[01:22:02] está acontecendo nesse momento
[01:22:04] a primeira é que estamos de volta
[01:22:06] no mundo das esferas de influência
[01:22:08] como sempre foi
[01:22:10] que os Estados Unidos
[01:22:12] vai tentar dominar
[01:22:14] o Caribe
[01:22:16] o México
[01:22:18] e a América Central
[01:22:20] o restante da América do Sul
[01:22:22] acho que não vai funcionar
[01:22:24] eu moro em Washington
[01:22:26] e falo o tempo inteiro com
[01:22:28] integrantes do governo
[01:22:30] Trump, com pessoas do Legislativo
[01:22:32] eu acho que a ideia de querer dominar
[01:22:34] ou de querer
[01:22:36] expulsar
[01:22:38] a China de
[01:22:40] áreas estratégicas
[01:22:42] no Brasil, na Argentina, no China
[01:22:44] é uma loucura, não vai funcionar
[01:22:46] porque o Brasil não pode substituir
[01:22:48] a China
[01:22:50] como construtora
[01:22:52] de portos, por exemplo
[01:22:54] os Estados Unidos não fazem isso
[01:22:56] quem faz isso é a China
[01:22:58] vai ser muito difícil
[01:23:00] você tem que
[01:23:02] sob nenhuma condição hoje
[01:23:04] o Brasil vai topar encerrar
[01:23:06] ou se afastar economicamente
[01:23:08] na China, não faz o menor sentido
[01:23:10] de substituir a China
[01:23:12] mas mais ou menos o Caribe
[01:23:14] essa região, Groenlândia, Canadá
[01:23:16] eu acho que hoje parece uma piada
[01:23:18] mas eu acho que
[01:23:20] a soberania canadense está
[01:23:22] sob risco real
[01:23:24] se a gente
[01:23:26] volta nessa esfera
[01:23:28] nesse mundo de esferas de influência
[01:23:30] o Canadá é o país
[01:23:32] é o país
[01:23:34] que enfrenta um desafio
[01:23:36] enorme e em última instância
[01:23:38] é
[01:23:40] não consegue se defender
[01:23:42] hoje, ainda não tem
[01:23:44] é completamente independente
[01:23:46] agora, aí a Rússia pode buscar
[01:23:48] aumentar sua esfera
[01:23:50] no leste europeu
[01:23:52] que além da Ucrânia pode incluir os Bálticos
[01:23:54] e a China pode
[01:23:56] apesar de não
[01:23:58] não vejo aí um desejo de
[01:24:00] aumentar
[01:24:02] o território chinês para além de Taiwan
[01:24:04] mas claramente se posicionar como potência
[01:24:06] dominante
[01:24:08] mas
[01:24:10] eu confesso que conversando com
[01:24:12] os meus interlocutores
[01:24:14] no pentágono hoje
[01:24:16] eu não vejo uma movimentação
[01:24:18] real de querer sair
[01:24:20] da Ásia, sair do
[01:24:22] Oriente Médio
[01:24:24] veja o que o Trump fez com o Irã
[01:24:26] se o Trump realmente
[01:24:28] falasse olha
[01:24:30] durante a campanha
[01:24:32] vamos sair do Oriente Médio
[01:24:34] que faz todo sentido porque o Oriente Médio
[01:24:36] não é mais relevante, o Irã
[01:24:38] o que acontece no Irã é importante do ponto de vista
[01:24:40] humanitário
[01:24:42] eu espero muito que
[01:24:44] seria ótimo se o Irã pudesse
[01:24:46] derrubar, os iranianos pudessem
[01:24:48] derrubar o regime, se transformar numa
[01:24:50] democracia, etc, mas
[01:24:52] do ponto de vista do interesse real
[01:24:54] dos Estados Unidos, o Oriente Médio
[01:24:56] já não é o que era antes, porque
[01:24:58] os Estados Unidos não precisa mais de importar petróleo
[01:25:00] e é uma região
[01:25:02] que
[01:25:06] o Irã é uma economia
[01:25:08] totalmente estagnada
[01:25:10] que é muito maior do que a Venezuela
[01:25:12] por causa da população, mas
[01:25:14] se realmente
[01:25:16] estivéssemos entrando
[01:25:18] num mundo de esferas de influência
[01:25:20] porque os Estados Unidos estão
[01:25:22] pensando em invadir
[01:25:24] ou em atacar o regime iraniano
[01:25:26] não faz sentido
[01:25:28] e o mesmo eu confesso assim
[01:25:30] falando com pessoas
[01:25:32] em Taiwan, eles acham que
[01:25:34] por muito tempo conseguirão reter
[01:25:36] apoio dos Estados Unidos
[01:25:38] então
[01:25:40] eu acho que
[01:25:42] não é necessariamente um mundo
[01:25:44] de esferas, mas um mundo em que
[01:25:46] simplesmente grandes potências
[01:25:48] vão competir ativamente
[01:25:50] por influência em determinados países
[01:25:52] e a gente vai ter uma proliferação
[01:25:54] de Ucrânias ao redor do mundo
[01:25:56] Ah é? O que aconteceu na Venezuela
[01:25:58] de certa forma não é bom
[01:26:00] pra China e pra Rússia
[01:26:02] Sim
[01:26:04] Porque falam, olha o que os Estados Unidos fez
[01:26:06] Total, eu concordo
[01:26:08] com isso
[01:26:10] e aí eu falei isso
[01:26:12] e aí várias pessoas falam
[01:26:14] mas a Rússia e a China criticaram
[01:26:16] é óbvio que criticaram
[01:26:18] tem que criticar, etc, falam que é um absurdo
[01:26:20] e se você acompanha a TV pública
[01:26:22] chinesa hoje
[01:26:24] falam sobre o absurdo que é
[01:26:26] o tempo inteiro, a violação da soberania
[01:26:28] falando como se
[01:26:30] os Estados Unidos fosse um ator totalmente
[01:26:32] imprevisível, etc
[01:26:34] pra depois, olha, diante dessa situação
[01:26:36] a China também
[01:26:38] tem que tomar algumas medidas lá na frente
[01:26:40] possivelmente, ou seja
[01:26:42] também você dizer
[01:26:44] eu acho que nem necessariamente só pra a China
[01:26:46] poder fazer igual, mas a China poder
[01:26:48] dizer
[01:26:50] nós somos
[01:26:52] o ator que se
[01:26:54] comporta bem no cenário
[01:26:56] internacional, nós somos
[01:26:58] confiáveis, então assim
[01:27:00] para
[01:27:02] a tentativa chinesa de aumentar sua
[01:27:04] influência no restante da América do Sul
[01:27:06] foi ótimo
[01:27:08] porque
[01:27:10] qualquer país sul-americano hoje
[01:27:12] vê a China como
[01:27:14] um ator crucial
[01:27:16] para se defender contra os Estados Unidos
[01:27:18] faz todo sentido, todo mundo
[01:27:20] você acha que os chilenos, os bolivianos
[01:27:22] não olharam pro Lula
[01:27:24] e se perguntaram porque o cara consegue fazer isso
[01:27:26] porque o Brasil tem uma
[01:27:28] ampla relação econômica com a China
[01:27:30] se
[01:27:32] os Estados Unidos tivessem feito essa
[01:27:34] ameaça tarifária contra o Brasil
[01:27:36] 25 anos atrás
[01:27:38] o Brasil estaria totalmente ferrado
[01:27:40] porque não tinha
[01:27:42] relação com a China
[01:27:44] tinha uma
[01:27:46] exposição enorme
[01:27:48] e eu confesso assim
[01:27:50] eu vou dizer assim
[01:27:54] lá eu lembro que em
[01:27:56] 2004, 2005
[01:28:00] havia
[01:28:02] negociações sobre uma área de livre
[01:28:04] comércio nas Américas
[01:28:06] todas as Américas, os Estados Unidos
[01:28:08] eles queriam
[01:28:10] fechar um acordo com todos os países da América do Sul
[01:28:12] com a Argentina
[01:28:14] com o Brasil
[01:28:16] e o governo brasileiro
[01:28:18] não só o Lula, mas o FHC
[01:28:20] também tinha muito receio
[01:28:22] e eu na época
[01:28:24] eu falei, olha
[01:28:26] pode gerar bastante vantagem econômica
[01:28:28] e eu
[01:28:30] lembro na época tinha muitos
[01:28:32] diplomatas brasileiros me dizendo, Oliver
[01:28:34] a gente precisa
[01:28:36] reter alguma autonomia estratégica
[01:28:38] e se a gente seguir o modelo mexicano
[01:28:40] lá na frente
[01:28:42] pode ser um problema
[01:28:44] e olha isso foi
[01:28:46] 10 anos antes do Trump
[01:28:48] e realmente
[01:28:50] a retrospectiva eles estavam certos
[01:28:52] porque isso não quer dizer que
[01:28:54] eu moro nos Estados Unidos
[01:28:56] eu gosto muito de morar nos Estados Unidos
[01:28:58] não é uma postura anti-americana
[01:29:00] é só dizer super pragmático
[01:29:02] você precisa diversificar seus parceiros
[01:29:04] Europa, Rússia, México
[01:29:06] Argentina, Estados Unidos
[01:29:08] todos, Arábia Saudita
[01:29:10] porque quanto mais
[01:29:12] parceiros você tem, menos exposto você é
[01:29:14] a uma atuação como essa
[01:29:16] que a gente viu agora que um país diz
[01:29:18] eu vou impor sanções contra
[01:29:20] o STF
[01:29:22] para influenciar uma decisão do
[01:29:24] judiciário brasileiro
[01:29:26] e aí eu espero muito que
[01:29:28] a campanha
[01:29:30] a campanha presidencial agora
[01:29:32] que está começando agora
[01:29:34] não seja sobre
[01:29:36] você é a favor do Trump, contra Trump
[01:29:38] é a favor da China, contra China
[01:29:40] quando eu digo a gente precisa
[01:29:42] ampliar nossa relação comercial
[01:29:44] com Arábia Saudita
[01:29:46] eu não gosto da Arábia Saudita
[01:29:48] não gosto do governo da Arábia Saudita
[01:29:50] eu estou dizendo isso para que o Brasil tenha
[01:29:52] mais autonomia estratégica
[01:29:54] e por isso eu acho que assim
[01:29:56] agora vai ser fundamental
[01:29:58] eu acho que tem que fechar um acordo livre comércio
[01:30:00] com o Canadá
[01:30:02] com a Índia
[01:30:04] que vai ser muito difícil obviamente
[01:30:06] vai ser um acordo muito limitado
[01:30:08] vários outros atores
[01:30:10] inclusive
[01:30:12] com regimes que são
[01:30:14] terríveis, isso faz parte
[01:30:16] eu acho que o Brasil
[01:30:18] está certo ao manter sua relação comercial
[01:30:20] com a Rússia, apesar da Rússia ser um regime
[01:30:22] detestável
[01:30:24] mas eu também acho que é preciso manter
[01:30:26] relações com os Estados Unidos
[01:30:28] então assim
[01:30:30] eu acho que
[01:30:34] um diplomata uma vez me falou
[01:30:38] não pode
[01:30:42] não pode fazer declarações
[01:30:44] de amor nas relações internacionais
[01:30:46] ou seja, se não pode dizer
[01:30:48] eu gosto desse líder lá
[01:30:50] então eu quero ampliar minha relação porque eu gosto desse cara
[01:30:52] isso não faz o menor sentido porque
[01:30:54] eu lembro que o
[01:30:56] Eduardo Bolsonaro
[01:30:58] quando o Jair Bolsonaro ganhou a eleição
[01:31:00] ele fez uma viagem aos Estados Unidos
[01:31:02] e
[01:31:04] deu uma apresentação lá
[01:31:06] e ele falou eu gosto tanto
[01:31:08] dos Estados Unidos eu quero que o Brasil
[01:31:10] seja parceiro incondicional
[01:31:12] dos Estados Unidos
[01:31:14] e eu falei meu Deus é a pior coisa que você pode fazer
[01:31:16] porque a partir do momento que os Estados Unidos
[01:31:18] te enxergam como parceiro
[01:31:20] incondicional
[01:31:22] eles vão fazer o que?
[01:31:24] vão te maltratar
[01:31:26] e aí você já que
[01:31:28] seu apoio é grátis
[01:31:30] você perdeu
[01:31:32] toda a sua capacidade de barganha então
[01:31:34] eu espero muito
[01:31:36] que a gente não cai nesse negócio de ah
[01:31:38] o cara de esquerda é anti-Estados Unidos
[01:31:40] o governo de direita é pró-Estados Unidos
[01:31:42] porque não é sobre isso
[01:31:44] não importa porque lá nos Estados Unidos pode
[01:31:46] na próxima eleição vende-se um cara de esquerda
[01:31:48] entendeu? não importa
[01:31:50] então acho que ideologia
[01:31:52] e geopolítica
[01:31:54] precisa muito separar
[01:31:56] vamos lá
[01:31:58] o Romero precisa ir ao banheiro, manda uma pergunta aí
[01:32:00] vamos lá
[01:32:02] o correndo para cachorro já está abrindo aqui as perguntas
[01:32:04] perguntando o seguinte
[01:32:06] rompeu a soberania da Venezuela durante a invasão
[01:32:08] ou a ditadura de Maduro
[01:32:10] rompia a soberania através da força?
[01:32:12] então essa é uma pergunta
[01:32:14] excelente
[01:32:16] e muito importante para a gente discutir agora
[01:32:18] porque provavelmente
[01:32:20] veremos questões
[01:32:22] parecidas acontecendo
[01:32:24] ao longo
[01:32:26] dos próximos anos
[01:32:30] quando falamos de soberania
[01:32:32] não
[01:32:34] estamos
[01:32:36] eu preciso explicar
[01:32:38] que eu não estou aqui justificando
[01:32:40] defendendo o Maduro de forma alguma
[01:32:42] mas
[01:32:44] o golpe de Estado
[01:32:46] ou um regime autoritário
[01:32:48] é certamente condenável
[01:32:50] do ponto de vista moral
[01:32:52] preferimos um regime democrático
[01:32:54] mas não representa
[01:32:56] uma
[01:32:58] violação da democracia sendo que essa pessoa
[01:33:00] faz parte
[01:33:02] da Venezuela, é venezuelano
[01:33:04] e portanto
[01:33:06] apesar de ser condenável
[01:33:08] não se trata no direito internacional
[01:33:10] de uma violação da soberania
[01:33:12] venezuelana
[01:33:14] uma intervenção armada
[01:33:16] vindo de fora
[01:33:18] para derrubar um líder seja ele
[01:33:20] democraticamente eleito
[01:33:22] seja ele autoritário
[01:33:24] sim representa uma violação
[01:33:26] da soberania
[01:33:28] isso não quer dizer
[01:33:30] que em qualquer
[01:33:32] circunstância seja indefensável
[01:33:34] invadir um outro país
[01:33:36] você por exemplo tem
[01:33:38] teóricos
[01:33:40] inclusive alguns precedentes
[01:33:42] que dizem que
[01:33:44] se houver
[01:33:46] um genocídio acontecendo
[01:33:48] ou
[01:33:50] crime de guerra em larga escala
[01:33:52] que mesmo
[01:33:54] sem aprovação do
[01:33:56] conselho de segurança pode ser
[01:33:58] moralmente justificável
[01:34:00] tentar intervir
[01:34:02] militarmente, tivemos um caso assim
[01:34:04] na Iuslávia por exemplo nos anos 90
[01:34:06] também não estou aqui para
[01:34:08] defender essa postura
[01:34:10] mas existe esse argumento
[01:34:12] mas a princípio
[01:34:14] a regra é
[01:34:16] o conselho
[01:34:18] de segurança precisa aprovar
[01:34:20] uma intervenção
[01:34:22] militar em outro país
[01:34:24] este é o
[01:34:26] primeiro cenário ou um país
[01:34:28] pode atacar
[01:34:30] uma outra nação quando estiver
[01:34:32] sob ataque, ou seja os Estados Unidos
[01:34:34] pode atacar
[01:34:36] Venezuela se
[01:34:38] tivesse um ataque prévio por parte da Venezuela
[01:34:40] contra os Estados Unidos
[01:34:42] que não foi o caso neste momento
[01:34:44] Trump até tentou fazer essa justificativa
[01:34:46] dizendo que
[01:34:48] a participação venezuelana
[01:34:50] no tráfico de drogas
[01:34:52] equivale a um ataque
[01:34:54] aos Estados Unidos
[01:34:56] o que é obviamente
[01:34:58] um argumento muito questionável
[01:35:00] e foi rejeitado
[01:35:02] por praticamente todos os
[01:35:04] especialistas, então neste caso
[01:35:06] sim a violação da soberania
[01:35:08] não ocorreu por parte de Maduro
[01:35:10] mas por parte dos Estados Unidos
[01:35:12] da mesma forma que ocorreu
[01:35:14] quando a Rússia
[01:35:16] invadiu a Ucrânia
[01:35:18] porque não houve
[01:35:20] nenhuma
[01:35:22] nenhuma
[01:35:24] resolução do conselho de segurança
[01:35:26] aprovando
[01:35:28] a invasão e da mesma forma
[01:35:30] a Ucrânia não estava
[01:35:32] atacando militarmente a Rússia
[01:35:34] então
[01:35:36] neste caso
[01:35:38] a Rússia violou
[01:35:40] a soberania ucraniana
[01:35:42] e os Estados Unidos violaram
[01:35:44] a soberania venezuelana
[01:35:46] e só queria
[01:35:48] dizer, eu postei um vídeo
[01:35:50] sobre isso e as pessoas falaram
[01:35:52] ah, mas então quer dizer que você
[01:35:54] não aprovaria um ataque
[01:35:56] contra a Alemanha de Hitler
[01:35:58] não, neste caso
[01:36:00] é sim aceitável
[01:36:02] porque
[01:36:04] a Alemanha atacou outros países
[01:36:06] então a Alemanha declarou guerra
[01:36:08] aos Estados Unidos
[01:36:10] invadiu a Polônia, a Inglaterra
[01:36:12] a França, então esses países reagiram
[01:36:14] invadindo
[01:36:16] a Alemanha
[01:36:18] e neste caso obviamente
[01:36:20] se trata de uma ação legítima
[01:36:22] porque é uma reação
[01:36:24] ao ataque
[01:36:26] da Alemanha naquela época
[01:36:28] antes da próxima pergunta
[01:36:30] as próximas respostas serão mais curtas
[01:36:32] para a gente incentivar mais pessoas
[01:36:34] por isso eu falo, esse cara aí não para de…
[01:36:36] tem mais alguma nesse sentido?
[01:36:38] sobre os Estados Unidos
[01:36:40] tem bastante assim
[01:36:42] manda, manda
[01:36:44] eu quero falar sobre Irã
[01:36:46] o McLovin, ele mandou aqui
[01:36:48] McLovin é de um filme, não é?
[01:36:50] eu lembro disso também
[01:36:52] cara que mudou de nome
[01:36:54] Superbad
[01:36:56] boa, boa, verdade, verdade
[01:36:58] ele mandou aqui duas perguntas em uma
[01:37:00] se você acha que
[01:37:02] a Venezuela
[01:37:04] foi um ensaio para tentar
[01:37:06] invadir a Groenlândia
[01:37:08] e se você acha que caso
[01:37:10] os Estados Unidos consigam invadir a Groenlândia
[01:37:12] se a Europa consegue
[01:37:14] segurar os Estados Unidos com armas lá
[01:37:16] então vamos lá, é boa pergunta dele
[01:37:18] por causa disso, eu pelo menos não vejo
[01:37:20] uma relação entre as duas coisas
[01:37:22] mas a Groenlândia ele está falando desde o começo
[01:37:24] sobre a Groenlândia
[01:37:26] essa fixação
[01:37:28] eu achei que no começo era mais uma bravata
[01:37:30] e parece que é real a parada
[01:37:32] ele quer realmente e vai a qualquer custo
[01:37:34] e a Europa
[01:37:36] se admitir isso é a mesma coisa
[01:37:38] do que aconteceu com a Ucrânia
[01:37:40] eu acho que seria um
[01:37:42] equivalente como a Crimeia
[01:37:44] seria a Rússia
[01:37:46] aí seria um ensaio para sei lá fazer o que depois
[01:37:48] e por isso é tão importante
[01:37:52] dizer que aquilo é totalmente inacetável
[01:37:54] da mesma forma que teria sido necessário
[01:37:56] coloca o mapa da gente
[01:37:58] que mostra onde fica a Groenlândia
[01:38:00] que mostra os Estados Unidos
[01:38:02] e onde fica a Rússia com Alaska também
[01:38:04] porque uma das justificativas dele é porque
[01:38:06] eu quero a Rússia como nosso vizinho
[01:38:08] sendo que a Alaska está grudado com a Rússia
[01:38:14] sobre a Groenlândia
[01:38:18] o argumento mais comum
[01:38:20] que eu ouço tanto de analistas
[01:38:22] no Brasil mas também de pessoas
[01:38:24] dentro do governo Trump
[01:38:26] que é sério o negócio
[01:38:28] antes de dizer
[01:38:30] é sério
[01:38:32] eu
[01:38:34] acho que a Europa demorou
[01:38:36] para compreender que há um risco
[01:38:38] real
[01:38:40] vou falar disso e estou mirando outra coisa
[01:38:42] e também assim
[01:38:44] não acho que seja está querendo desviar a atenção
[01:38:46] da Epstein
[01:38:48] existe uma ambição real
[01:38:50] a justificativa
[01:38:52] mais comum
[01:38:54] é que a Groenlândia tem uma relevância
[01:38:56] estratégica e que portanto
[01:38:58] é
[01:39:00] frente à
[01:39:02] ameaça russa e chinesa
[01:39:04] os Estados Unidos
[01:39:06] precisam ter uma maior
[01:39:08] projeção militar
[01:39:10] na Groenlândia
[01:39:12] o problema com esse argumento
[01:39:14] até porque os mares estão descongelando
[01:39:16] e aquela vai ser uma rota extremamente importante
[01:39:18] isso é tudo importante
[01:39:20] o Ártico vai ser mais importante
[01:39:22] todo mundo aceita isso
[01:39:24] o problema com essa
[01:39:26] a Groenlândia realmente
[01:39:28] é totalmente estratégica
[01:39:30] para os Estados Unidos
[01:39:32] todos os atores são estratégicos
[01:39:34] para a Europa, para a Rússia e para os Estados Unidos
[01:39:36] e a China tem
[01:39:38] uma ambição no Ártico também
[01:39:40] participa dos debates
[01:39:42] promove expedições
[01:39:44] tem muita tecnologia
[01:39:46] para exploração
[01:39:48] de minerais
[01:39:50] em condições climáticas extremas
[01:39:52] isso é um fator
[01:39:54] evidente
[01:39:56] a questão é que
[01:39:58] o acordo atual entre a Dinamarca
[01:40:00] e os Estados Unidos
[01:40:02] permite qualquer
[01:40:04] tipo de atividade militar
[01:40:06] dos Estados Unidos na Groenlândia
[01:40:08] isso quer dizer o que?
[01:40:10] não há nenhuma necessidade de anexar
[01:40:12] agora no outro dia eu conversei com
[01:40:14] ele pode colocar base
[01:40:16] inclusive no final da Guerra Fria
[01:40:18] teve várias bases militares
[01:40:20] com em algum momento
[01:40:22] mais de 10 mil tropas
[01:40:24] americanas
[01:40:26] nunca teve nenhuma contestação
[01:40:28] nenhuma resistência por parte
[01:40:30] da Dinamarca
[01:40:32] o mesmo vale para a exploração
[01:40:34] de minerais
[01:40:36] tem alguns minerais lá muito menos
[01:40:38] do que no Brasil
[01:40:40] em condições muito difíceis
[01:40:42] hoje não faz sentido
[01:40:44] explorar minerais críticos na Groenlândia
[01:40:46] tiraram pessoas
[01:40:48] e no documento
[01:40:50] mais importante
[01:40:52] que articula a segurança
[01:40:54] nacional dos Estados Unidos
[01:40:56] escrito pelo governo Trump
[01:40:58] sabe quantas vezes a palavra Groenlândia aparece?
[01:41:00] nenhuma vez
[01:41:02] não aparece
[01:41:04] é importante
[01:41:06] se fosse tão importante
[01:41:08] por que você não coloca 100 mil tropas?
[01:41:10] pode colocar
[01:41:12] gigas nucleares, mísseis
[01:41:14] o que você quiser
[01:41:16] não tem nenhuma restrição
[01:41:18] mas não pode confiar na Dinamarca
[01:41:20] a Dinamarca
[01:41:22] se pudesse desenhar um aliado
[01:41:24] fiel
[01:41:26] a Dinamarca mandou um monte de gente
[01:41:28] para Afeganistão
[01:41:30] a Dinamarca é
[01:41:32] o melhor aliado que existe
[01:41:34] não confio
[01:41:36] existe esse papo do Trump?
[01:41:38] não confio na Dinamarca
[01:41:40] sim
[01:41:42] os diplomatas dizem
[01:41:44] nas conversas que eu tenho
[01:41:46] com integrantes do governo Trump
[01:41:48] por que você quer anexar esse território
[01:41:50] sendo que você já pode fazer o que quiser
[01:41:52] mas a gente não sabe
[01:41:54] no futuro
[01:41:56] então você não pode confiar em ninguém
[01:41:58] a Dinamarca
[01:42:00] se comportou
[01:42:02] sempre
[01:42:04] você não vê nenhum objetivo oculto
[01:42:06] um país super pro americano
[01:42:08] do Trump
[01:42:10] alguma coisa que não é falada
[01:42:12] que a gente não está colocando na mesa
[01:42:14] aí vão as conversas
[01:42:16] então
[01:42:18] a única explicação
[01:42:20] que eu tenho
[01:42:22] é
[01:42:24] que o Trump
[01:42:26] tem uma certa obsessão
[01:42:28] com seu próprio legado
[01:42:30] e pensa um pouco
[01:42:32] sobre legado como
[01:42:34] lideranças europeias
[01:42:36] e russas
[01:42:38] ao longo dos últimos séculos
[01:42:40] e na Rússia
[01:42:42] o que te faz um grande líder
[01:42:44] o que te faz entrar na história
[01:42:46] como grande líder
[01:42:48] é você aumentar
[01:42:50] o território do império
[01:42:52] isso é a única coisa
[01:42:54] engraçado que é um pensamento
[01:42:56] muito imperial
[01:42:58] que está voltando
[01:43:00] então assim
[01:43:02] a China com o Taiwan
[01:43:04] o Pedro grande
[01:43:06] o Catarina grande
[01:43:08] e o Putin aliás
[01:43:10] pensa da mesma forma
[01:43:12] Stalin
[01:43:14] então essas são as pessoas que
[01:43:16] Ivan o terrível
[01:43:18] a Rússia depois só perdeu território
[01:43:20] perdeu
[01:43:22] a União Soviética
[01:43:24] claro, exatamente
[01:43:26] depois do colapso
[01:43:28] Lenin também na verdade foi uma época
[01:43:30] que a Rússia perdeu território
[01:43:32] apesar da estabilização
[01:43:34] da Rússia
[01:43:36] no caos pós segunda
[01:43:38] guerra fria
[01:43:40] eu acredito que o seu
[01:43:42] grande legado seja reconquista
[01:43:44] de parte
[01:43:46] da esfera de influência russa
[01:43:48] e há relatos de conversas
[01:43:50] que ele tem com
[01:43:52] professores de história
[01:43:54] perguntando ah como
[01:43:56] o que você acha que vai ser meu legado
[01:43:58] como que eu vou ser estudado daqui a
[01:44:00] exatamente e é um caso que é muito famoso
[01:44:02] de um
[01:44:04] de uma espécie de intelectual
[01:44:06] público, youtuber e historiador
[01:44:08] que tem aqui no Brasil também um cara que fala muito
[01:44:10] sobre história e antes da invasão
[01:44:14] a Ucrânia, o Putin
[01:44:16] isso foi antes de 2014
[01:44:18] esse historiador
[01:44:20] é convidado para um bate papo
[01:44:22] com Vladimir Putin
[01:44:24] e o Vladimir Putin pergunta como serei
[01:44:26] estudado
[01:44:28] aí ele fala ah se estabilizou a Rússia
[01:44:30] e tal blá blá blá
[01:44:32] ele fala assim só isso, só isso
[01:44:34] e depois da guerra
[01:44:36] ele convidou o cara de novo e
[01:44:38] e agora?
[01:44:40] então assim
[01:44:42] eu acho que o Trump
[01:44:44] funciona da mesma forma
[01:44:46] eu acho que até em conversa
[01:44:48] dos dois isso existe um alinhamento
[01:44:50] existe um alinhamento com certeza
[01:44:52] então assim eu acho que é uma ambição pessoal
[01:44:54] a carta que o Trump
[01:44:56] enviou hoje ao primeiro
[01:44:58] ministro da Noruega
[01:45:00] é tão absurda eu nunca li um do
[01:45:02] documento assim
[01:45:04] na verdade é uma mensagem que ele enviou
[01:45:06] por meio do celular
[01:45:08] ao primeiro ministro
[01:45:10] dizendo
[01:45:12] como vocês não me deram
[01:45:14] o prêmio nobre da paz
[01:45:16] eu vou deixar de me
[01:45:18] preocupar tanto com a paz
[01:45:20] e que é uma loucura total
[01:45:22] porque a Noruega, o governo norueguês
[01:45:24] não decide quem vence o prêmio
[01:45:26] é um comitê cujos integrantes
[01:45:28] são
[01:45:30] selecionados pelo parlamento
[01:45:32] ou seja
[01:45:34] o primeiro ministro não tem esse poder
[01:45:36] ele não pode de repente
[01:45:38] mudar a composição
[01:45:40] e ele
[01:45:42] deixa muito claro essa frustração
[01:45:44] que ele tem de não ter recebido
[01:45:46] e nessa mesma carta
[01:45:48] questiona
[01:45:50] o
[01:45:52] que a
[01:45:54] grelinha fria parte da dinamarca
[01:45:56] e meio que assim
[01:45:58] diz olha me frustrei muito com
[01:46:00] esse não de vocês por não ter
[01:46:02] recebido esse prêmio nobel
[01:46:04] agora vocês vão pagar o preço
[01:46:06] e eu vou me mobilizar
[01:46:08] e buscar
[01:46:10] anexar a Groenlândia
[01:46:12] tem uma série de motivos
[01:46:14] mas eu acho que assim a gente falou aqui
[01:46:16] de como explicar a história
[01:46:18] e este é de fato um caso
[01:46:20] acho onde
[01:46:22] é uma
[01:46:24] questão muito pessoal
[01:46:26] do presidente americano
[01:46:28] como você acha que ele vai ser lembrado
[01:46:30] se ele anexar a Groenlândia certamente
[01:46:32] isso não dá para negar
[01:46:34] eu já não estou nem duvidando mais disso
[01:46:36] agora é preciso também lembrar
[01:46:38] que
[01:46:40] o atual governo americano
[01:46:42] trata a Europa como se fosse assim
[01:46:44] um parceiro inútil sendo que
[01:46:46] todas as movimentações
[01:46:48] militares
[01:46:50] de destaque ao longo das últimas décadas
[01:46:52] no Iraque no Afeganistão
[01:46:54] e não só
[01:46:56] nessas duas guerras mas assim
[01:46:58] os Estados Unidos está bombardeando
[01:47:00] países ao redor do mundo com
[01:47:02] frequência seja o Iêmen
[01:47:04] seja a Líbia seja a Síria
[01:47:06] as bases
[01:47:08] da Europa são fundamentais
[01:47:10] para a logística militar dos Estados Unidos
[01:47:12] se tem assim uma
[01:47:14] mega base na Alemanha que serve
[01:47:16] e serviu ao longo das últimas
[01:47:18] décadas e se a China pegar essa influência
[01:47:20] estender a influência para lá
[01:47:22] se houver agora uma anexação
[01:47:24] por parte dos
[01:47:26] Estados Unidos da Groenlândia
[01:47:28] você pode ter uma
[01:47:30] movimentação europeia de
[01:47:32] poucos querer tirar essas bases
[01:47:34] fazer um grande investimento
[01:47:36] na sua própria defesa que vai demorar um pouquinho
[01:47:38] hoje a Alemanha não consegue se defender sozinho
[01:47:40] ou seja
[01:47:42] se houver a invasão amanhã
[01:47:44] não vai ser assim que
[01:47:46] no final de semana os alemães vão expulsar os americanos
[01:47:48] lá porque eles são ainda essenciais
[01:47:50] inclusive uma parte
[01:47:52] significativa da inteligência
[01:47:54] que a Ucrânia utiliza
[01:47:56] para se defender contra a Rússia ainda vem dos americanos
[01:47:58] todo o equipamento
[01:48:00] essencial hoje já vem dos europeus
[01:48:02] mas
[01:48:04] a invasão
[01:48:06] da Groenlândia traria
[01:48:08] um ganho muito pequeno
[01:48:10] para os Estados Unidos a um custo gigante
[01:48:12] de basicamente
[01:48:14] perder a Europa como
[01:48:16] aliados
[01:48:18] super fiéis ao longo das últimas
[01:48:20] décadas então eu acho que seria
[01:48:22] um erro terrível
[01:48:24] diante de novo você pode
[01:48:26] alcançar o que você quiser sem romper
[01:48:28] com os europeus
[01:48:30] mas o que você quer é
[01:48:32] que a Europa seja destruída
[01:48:34] em anos
[01:48:36] se você olha
[01:48:38] as pesquisas de opinião
[01:48:40] sobre o que as pessoas
[01:48:42] na Europa pensam sobre os Estados Unidos
[01:48:44] é chocante
[01:48:46] hoje em torno de 16%
[01:48:48] dos europeus
[01:48:50] consideram os Estados Unidos um aliado
[01:48:52] caiu dramaticamente
[01:48:54] não confio
[01:48:56] o que quer dizer isso
[01:48:58] é que os Estados Unidos
[01:49:00] são hoje um país europeu
[01:49:02] ser pro-americano já não dá voto
[01:49:04] então assim isso é uma chance de ouro
[01:49:06] para o anti-americanismo
[01:49:08] votar com tudo
[01:49:10] as pessoas se sentem
[01:49:12] muito inseguras
[01:49:14] e assim a Europa
[01:49:16] apesar de muitas vezes
[01:49:18] estar dividido a gente viu isso
[01:49:20] nas negociações comerciais com o Mercosul
[01:49:22] piada os alemães queriam os franceses não queriam
[01:49:24] mas o Trump
[01:49:26] pode acabar unindo
[01:49:28] os europeus também
[01:49:30] e aí é um bloco formidável
[01:49:32] que pode agir
[01:49:34] não necessariamente no interesse
[01:49:36] dos americanos
[01:49:38] então eu acho que assim
[01:49:40] uma estratégia muito
[01:49:44] vai ser muito ruim para os Estados Unidos
[01:49:46] porque eles meio que
[01:49:50] a Europa obviamente se beneficia
[01:49:52] muito do apoio militar americano
[01:49:54] mas não é que os europeus não fazem nada
[01:49:56] hoje por exemplo a maior
[01:49:58] boa parte
[01:50:00] do financiamento
[01:50:02] dos equipamentos militares para defender
[01:50:04] a Ucrânia vem dos europeus não vem mais
[01:50:06] os americanos
[01:50:08] os agentes
[01:50:10] da CIA podem se movimentar
[01:50:12] livremente em toda a Europa
[01:50:14] com apoio dos governos locais
[01:50:16] a perseguição de pessoas
[01:50:18] que podem cometer atos terroristas
[01:50:20] estão
[01:50:22] todo Alemanha cheio de
[01:50:24] agentes da CIA
[01:50:26] monitorando
[01:50:28] extremistas
[01:50:30] se essa parceria acaba
[01:50:34] a gente não sabe para onde o mundo vai
[01:50:38] quem mais vai sofrer a curto prazo
[01:50:40] são os europeus
[01:50:42] de toda essa dinâmica global que eu estou descrevendo
[01:50:44] os europeus realmente
[01:50:46] vão passar por uma situação difícil
[01:50:48] porque a Europa
[01:50:50] tomou decisões
[01:50:52] que na época pareciam sensatas
[01:50:54] mas que hoje
[01:50:56] mostram
[01:50:58] que se preparam para esse novo mundo
[01:51:00] as sociedades
[01:51:02] europeias se baseiam muito em
[01:51:04] serviços do Estado
[01:51:06] muito generosos
[01:51:08] você pode estudar de graça
[01:51:10] e tudo isso vai
[01:51:12] a princípio acabar
[01:51:14] ou seja eles precisam
[01:51:16] repensar o modelo de sociedade
[01:51:18] que sempre dói
[01:51:20] porque acaba
[01:51:22] sendo parte da identidade
[01:51:24] alemã de ter
[01:51:26] um Estado, o que eles chamam de Estado
[01:51:28] de bem estar social
[01:51:30] e os alemães
[01:51:32] muitas vezes vão para os Estados Unidos e dizem
[01:51:34] nossa como é terrível
[01:51:36] aqui tem gente que adoece
[01:51:38] e não consegue pagar o tratamento
[01:51:40] eles ficam indignados
[01:51:42] e eu pessoalmente também fico
[01:51:44] indignado, eu acho uma loucura como um país
[01:51:46] rico assim, pode ter gente que
[01:51:48] fica doente e não consegue pagar
[01:51:50] e encerra o tratamento
[01:51:52] morre em casa, não tem grana
[01:51:54] isso é impensável na Alemanha
[01:51:56] ou até em Portugal ou na Espanha
[01:51:58] o modelo de sociedade na Europa é diferente
[01:52:02] mas isso em parte
[01:52:04] tornou-se viável
[01:52:06] graças a proteção americana
[01:52:08] então os europeus
[01:52:10] sem essa proteção
[01:52:12] eles não vão conseguir mais manter
[01:52:14] todos esses standards
[01:52:16] eu me preocupo um pouco
[01:52:18] que isso vai gerar
[01:52:20] uma rejeição ampla
[01:52:22] e permite a ascensão
[01:52:24] também de líderes mais extremistas
[01:52:26] porque se você tem
[01:52:28] 50 anos
[01:52:30] e você sempre teve
[01:52:32] você se acostumou
[01:52:34] a um estado que
[01:52:36] garante um padrão
[01:52:38] por exemplo assim
[01:52:40] você quer estar desempregado na Alemanha
[01:52:42] ou nos Estados Unidos, certamente na Alemanha
[01:52:44] certamente
[01:52:46] todo esse papo do governo Trump
[01:52:48] o migrante vai se beneficiar
[01:52:50] do estado americano
[01:52:52] que estado
[01:52:54] que o estado te dá
[01:52:56] é muito pouco
[01:52:58] então assim, os americanos estão acostumados
[01:53:00] eu acho que a economia americana
[01:53:02] até meio que vai lidar com isso relativamente bem
[01:53:04] agora, o impacto político
[01:53:06] disso na Europa vai ser
[01:53:08] e os países nórdicos, Suécia
[01:53:10] Finlândia, qual que é o movimento deles?
[01:53:12] porque eles tem um medo
[01:53:14] porque eles estão colados lá também na rocha
[01:53:16] eu, nas minhas conversas com
[01:53:18] diplomatas
[01:53:20] europeus, os mais
[01:53:22] ligados, os mais
[01:53:24] realistas que já processaram
[01:53:26] já sabem de tudo isso
[01:53:28] é
[01:53:30] dos bálticos
[01:53:32] os bálticos vivem sob ameaça real dos russos
[01:53:34] que são
[01:53:36] Letônia, Lituânia, Estônia
[01:53:38] Bielorrússia não
[01:53:40] porque é alinhada
[01:53:42] ainda faz parte da
[01:53:44] totalmente aliada aos russos
[01:53:46] esses aí
[01:53:48] tem grandes investimentos em armamentos
[01:53:50] tem
[01:53:52] já estão falando assim
[01:53:54] tive uma conversa
[01:53:56] antes do Natal
[01:53:58] com um
[01:54:00] um integrante
[01:54:02] do banco central
[01:54:04] europeu que é
[01:54:06] da Latvia
[01:54:08] ele me falou de planos muito concretos
[01:54:10] ele falou assim, os russos vão por exemplo atacar
[01:54:12] nossos sistemas de pagamento
[01:54:14] com cartão, a gente precisa ter um plano B
[01:54:16] pra por exemplo ter
[01:54:18] gerador perto de caixa eletrônico
[01:54:20] porque os russos vão atacar
[01:54:22] o sistema de eletricidade
[01:54:24] e aí eles vão
[01:54:26] vão travar todos
[01:54:28] os caixas eletrônicos pra tentar causar
[01:54:30] uma instabilidade na sociedade antes de um
[01:54:32] possível ataque militar
[01:54:34] então eles falam assim, eu fiquei assim
[01:54:36] nossa cara, você pensou sobre isso
[01:54:38] eles tem tudo detalhado
[01:54:40] Polônia também
[01:54:42] depois vem
[01:54:44] Scandinávia, totalmente preparado
[01:54:46] aí você fala depois com os alemães
[01:54:48] franceses, aí a coisa
[01:54:50] não sei, não é tão provável
[01:54:52] aí já tem uma coisa assim
[01:54:54] de estocar comida, de se preparar
[01:54:56] pra guerra real
[01:54:58] olha
[01:55:00] acho que se eu morasse na Alemanha
[01:55:02] eu não
[01:55:04] estaria preocupado com isso
[01:55:06] agora, se eu faço
[01:55:08] parte de um governo regional
[01:55:10] ou de um governo federal
[01:55:12] ou das forças armadas, eu preciso
[01:55:14] pensar sobre essas questões
[01:55:16] então, resiliência tecnológica
[01:55:18] é algo fundamental
[01:55:20] e a Europa vive ainda
[01:55:22] numa ilusão
[01:55:24] países maravilhosos
[01:55:26] hoje, os estados europeus
[01:55:28] estão totalmente expostos
[01:55:30] a ataques cibernéticos
[01:55:32] se você tiver um ataque
[01:55:34] russo, sem apoio americano
[01:55:36] a Europa
[01:55:38] a sociedade não está preparada pra isso
[01:55:40] não sabe o que fazer
[01:55:42] porque todos os dados públicos
[01:55:44] muitos estão em nuvens
[01:55:46] nos Estados Unidos
[01:55:48] então toda essa questão de
[01:55:50] você proteger seus dados
[01:55:52] você ter um plano B
[01:55:54] teve um grupo de
[01:55:56] extremistas de esquerda
[01:55:58] que atacaram
[01:56:00] numa
[01:56:02] recente agora
[01:56:04] em Berlim
[01:56:06] atacaram uma unidade de produção
[01:56:08] elétrica pra parte da sociedade
[01:56:10] eu tenho família em Berlim
[01:56:12] isso é um ataque
[01:56:14] amador
[01:56:16] no meio do inverno foram pra essa estação
[01:56:18] e cortaram os cabos
[01:56:20] literalmente
[01:56:22] nada sofisticado
[01:56:24] e dezenas de milhares de pessoas
[01:56:26] ficaram sem energia por dias
[01:56:28] e aí as forças armadas tiveram que
[01:56:30] distribuir comida
[01:56:32] teve que ter um plano pra botar
[01:56:34] certas pessoas em hotéis
[01:56:36] tem idoso que pode morrer
[01:56:38] na casa
[01:56:40] em temperaturas
[01:56:42] muito baixas
[01:56:44] eu falei com meus familiares em vários
[01:56:46] bairros de Berlim
[01:56:48] e
[01:56:50] foi um caos inicialmente
[01:56:52] o prefeito
[01:56:54] primeiro
[01:56:56] eles não sabiam o que estava acontecendo
[01:56:58] demoraram pra entender o que estava acontecendo
[01:57:00] aí depois esse grupo
[01:57:02] na verdade um grupo
[01:57:04] que quer chamar atenção pras mudanças climáticas
[01:57:06] eu estava dizendo depois
[01:57:08] essa é a pior forma de você
[01:57:10] defender
[01:57:12] o ódio das pessoas contra isso
[01:57:14] é inacreditável
[01:57:16] é igual o pessoal que destrói obras
[01:57:18] de arte pra chamar atenção
[01:57:20] totalmente louco
[01:57:22] então
[01:57:24] nesses
[01:57:26] esquisitos
[01:57:28] os bálticos
[01:57:30] os países da escandinávia estão muito à frente
[01:57:32] muito à frente
[01:57:34] e vários políticos na Alemanha disseram ainda bem
[01:57:36] que isso aconteceu agora
[01:57:38] pra gente começar a pensar sobre isso
[01:57:40] o Brasil aliás não está preparado pra isso
[01:57:42] mas a ameaça pro Brasil
[01:57:44] a curto prazo vem de outro lugar
[01:57:46] que é eventos climáticos extremos
[01:57:48] que também
[01:57:50] falta total de preparo
[01:57:52] porque as comunidades hoje não tem um plano de emergência
[01:57:54] pra o que fazer
[01:57:56] se tem uma inundação
[01:57:58] é um caos
[01:58:00] como a gente teve no sul
[01:58:02] em geral eu acho que essa situação
[01:58:04] geopolítica mais instável
[01:58:08] fará com que as sociedades
[01:58:10] precisam ser mais resilientes
[01:58:12] porque a gente se acostumou
[01:58:14] e eu me beneficio muito disso
[01:58:16] todos os dias
[01:58:18] eu moro nos EUA, moro em Washington
[01:58:20] dou aula em Boston
[01:58:22] estou em São Paulo
[01:58:24] a gente estava falando disso
[01:58:26] eu passo o dia aqui em São Paulo
[01:58:28] faço um bate e volta
[01:58:30] então esse tipo de coisa
[01:58:32] pode ser interrompido muito facilmente
[01:58:34] no caso da Venezuela
[01:58:36] antes do ataque militar
[01:58:38] americano em Caracas
[01:58:40] a IATA
[01:58:42] que é a agência de aviação
[01:58:44] recebeu um aviso
[01:58:46] do governo americano
[01:58:48] de fechar o espaço aéreo
[01:58:50] então todos os dias
[01:58:52] os voos foram cancelados
[01:58:54] e aí tinha um monte de turista americano
[01:58:56] nessas ilhas do Caribe
[01:58:58] que ficou preso lá por vários dias
[01:59:00] não conseguiu mais voltar para os EUA
[01:59:02] inclusive vários atores americanos
[01:59:04] não conseguiram receber prêmios
[01:59:06] porque estavam nessas ilhas
[01:59:08] de Sambar
[01:59:10] que aviação
[01:59:12] então assim
[01:59:14] a gente acha que esse mundo hiper conectado
[01:59:16] acesso à internet
[01:59:18] faz pagamento digital
[01:59:20] pega o avião
[01:59:22] assumiu que isso faz parte
[01:59:24] que não vai ser tirado
[01:59:26] qualquer tensão geopolítica acaba com isso
[01:59:28] a gente passou por isso daqui no final do ano passado
[01:59:30] ficamos dois dias sem energia
[01:59:32] sem nada aqui
[01:59:34] e sem previsão
[01:59:36] o que foi mesmo? um ciclone?
[01:59:38] foi
[01:59:40] onde eu vejo
[01:59:42] a gente sempre brinca
[01:59:44] com meus amigos
[01:59:46] onde você tem que investir agora
[01:59:48] diante do cenário geopolítico
[01:59:50] se você é uma empresa
[01:59:52] de operadores
[01:59:54] na Europa é um bom negócio
[01:59:56] atualmente
[01:59:58] ação para sobreviver
[02:00:00] se eu tivesse 18 anos hoje
[02:00:02] mas assim
[02:00:04] você pode ter
[02:00:06] tem muitas formas de você se proteger
[02:00:08] mas assim
[02:00:10] como se protege sistema ferroviário
[02:00:12] hospitais
[02:00:14] comunicação celular
[02:00:16] ou seja
[02:00:18] todas essas coisas
[02:00:20] eu acho que a gente precisa pensar
[02:00:22] só tratar tudo isso como secundário
[02:00:28] esse debate está avançando
[02:00:30] eu vou daqui a três semanas
[02:00:32] eu vou para a conferência
[02:00:34] de Munique
[02:00:36] é um encontro anual
[02:00:38] de
[02:00:40] lideranças políticas
[02:00:42] ministros da defesa e generais
[02:00:44] do mundo inteiro
[02:00:46] um hotel minúsculo de conversas por três dias
[02:00:50] antigamente era assim
[02:00:52] os europeus se tratavam como irmãos
[02:00:54] e agora vai ser
[02:00:56] muito interessante perceber como
[02:00:58] eles se tratam agora
[02:01:00] porque pode ser
[02:01:02] logo antes ou logo depois de uma invasão
[02:01:04] americana
[02:01:06] os europeus agora já estão
[02:01:08] articulando uma resposta
[02:01:10] de tarifas
[02:01:12] contra os Estados Unidos
[02:01:14] ainda
[02:01:16] não está claro se
[02:01:18] haverá uma ameaça
[02:01:20] de retaliação tarifária
[02:01:22] ou não
[02:01:24] mas fato é que mesmo se
[02:01:26] o Trump não
[02:01:28] anexar a Groenlândia
[02:01:30] que é plausível porque o Senado americano
[02:01:32] está super mobilizado
[02:01:34] e os europeus
[02:01:36] também não são bobos
[02:01:38] eles não leram bem a situação
[02:01:40] mas agora estão se mobilizando
[02:01:42] as embaixadas da Alemanha, da Espanha
[02:01:44] da Inglaterra, da França
[02:01:46] em Washington
[02:01:48] estão ligando para senadores
[02:01:50] para deputados do partido republicano
[02:01:52] esses liguem para a Casa Branca
[02:01:54] para empresas americanas
[02:01:56] de muita exposição
[02:01:58] na Europa, tem muitas empresas americanas
[02:02:00] que se tiver
[02:02:02] sanções, aí acabou para eles
[02:02:04] também
[02:02:06] para dizer não faça essa loucura
[02:02:08] do mesmo jeito que o Brasil
[02:02:10] mobilizou tudo em Washington
[02:02:12] para pressionar o Trump a recuar
[02:02:14] não foi só o charme
[02:02:16] do Lula, foi todo um trabalho
[02:02:18] acho que foi até um pouco exagerado
[02:02:20] assim
[02:02:22] ele fez lá, teve uma boa atuação
[02:02:24] mas assim, a movimentação
[02:02:26] brasileira foi excelente em Washington
[02:02:28] e da mesma forma
[02:02:30] os diplomatas europeus atualmente
[02:02:32] não tem férias lá em Washington, estão ralando loucamente
[02:02:34] então ainda pode ser que não
[02:02:36] o problema é que o dano já foi feito
[02:02:38] então mesmo se ele recuar
[02:02:40] a confiança
[02:02:42] não existe mais
[02:02:44] você levantou um assunto que agora estou pensando
[02:02:46] as big techs não vão gostar nada disso
[02:02:48] terrível, porque os europeus vão retaliar
[02:02:50] contra as big techs, totalmente
[02:02:52] e as big techs, pelo que eu estou entendendo
[02:02:54] tem um poder muito grande dentro do governo do Trump
[02:02:56] e é evidente que as big techs
[02:02:58] agora vamos dizer ao presidente
[02:03:00] cara
[02:03:02] não vamos fazer isso, porque
[02:03:04] se
[02:03:06] para os vários governos
[02:03:08] europeus
[02:03:10] que já não gostam das big techs americanas
[02:03:12] para eles até pode ser
[02:03:14] uma boa saída para
[02:03:16] justificar ações
[02:03:18] mais duras contra essas empresas
[02:03:20] em relação
[02:03:22] a uma ameaça americana
[02:03:24] contra a Groenlândia
[02:03:26] e sobre as big techs eu acho uma coisa interessante
[02:03:28] isso vai ser
[02:03:30] um dos temas principais nessas conversas
[02:03:32] agora em Munique
[02:03:36] cada vez ao longo dos últimos 500 anos
[02:03:38] quando surgiu algum ator muito poderoso
[02:03:40] que chegou a desafiar
[02:03:42] o poder dos estados
[02:03:44] em algum momento
[02:03:46] ou esses estados
[02:03:48] reagiram
[02:03:50] e destruíram esses atores
[02:03:52] ou
[02:03:54] reduziram dramaticamente
[02:03:56] o poder desses atores, então por exemplo
[02:03:58] seja as grandes empresas de petróleo
[02:04:00] 100 anos atrás
[02:04:02] Rockefeller e tal, em algum momento
[02:04:04] o estado americano foi lá
[02:04:06] e dividiu as empresas
[02:04:08] para elas ficassem
[02:04:10] menos poderosas
[02:04:12] você tem uma série de movimentações agora
[02:04:14] de estados
[02:04:16] com medo né
[02:04:18] estão impondo regras duríssimas
[02:04:20] contra sobretudo
[02:04:22] estados autoritários já fazem isso há muito tempo
[02:04:24] a China
[02:04:26] o Elon Musk
[02:04:28] não reclama das restrições
[02:04:30] que estados autoritários
[02:04:32] impõem, porque ele sabe que o estado
[02:04:34] autoritário
[02:04:36] ele não tem
[02:04:38] nenhuma restrição de
[02:04:40] se impor contra esses atores
[02:04:42] agora países
[02:04:44] democráticos
[02:04:46] tem uma
[02:04:48] tem uma
[02:04:50] tem as vezes
[02:04:52] um pouco mais de dificuldade
[02:04:54] em parte porque uma empresa
[02:04:56] é PICTEC
[02:04:58] pode
[02:05:00] é
[02:05:02] pode comprar entre aspas apoio político
[02:05:04] no parlamento
[02:05:06] pode financiar campanha e tudo
[02:05:08] mas por exemplo a Austrália
[02:05:10] agora impôs
[02:05:12] uma
[02:05:14] restrição para que
[02:05:16] pessoas com menos de 18 anos
[02:05:18] já não podem mais
[02:05:20] ativar as redes sociais
[02:05:22] geral
[02:05:24] com menos de 18?
[02:05:26] acredito que sim
[02:05:28] não sei se é 16 ou 18
[02:05:30] vamos dar uma olhada na idade
[02:05:32] foi até interessante
[02:05:34] que
[02:05:36] vários pais
[02:05:38] australianos
[02:05:40] relataram que
[02:05:42] essas foram as primeiras férias de verão
[02:05:44] sem rede social das crianças
[02:05:46] e falaram que as crianças
[02:05:48] ficaram transformados
[02:05:50] transformados ou transtornados?
[02:05:52] os dois
[02:05:54] mas eu acho que assim
[02:05:56] eles relataram
[02:05:58] é muito na imprensa muito divulgado
[02:06:00] e está sendo celebrado
[02:06:02] como um sucesso por parte do governo
[02:06:04] que impôs essa restrição
[02:06:06] 18 ou
[02:06:08] ou
[02:06:10] menos de 16 anos
[02:06:12] 16
[02:06:14] tipo de um
[02:06:16] none state
[02:06:18] governo de babado
[02:06:20] de jovens
[02:06:22] que
[02:06:24] voltam a sair a noite
[02:06:26] fazer coisas porque
[02:06:28] é que nem meu filho
[02:06:30] ele passou o final de semana na praia
[02:06:32] com meus pais
[02:06:34] e levou o carregador errado
[02:06:36] ou seja
[02:06:38] teve o melhor final de semana
[02:06:40] eu falei
[02:06:42] foi demais
[02:06:44] a gente fez isso, fez isso
[02:06:46] você não jogou nada?
[02:06:48] não, não consegui carregar
[02:06:50] foi legal, foi
[02:06:52] então assim
[02:06:54] eu acho que
[02:06:56] os estados
[02:06:58] isso já está acontecendo no Brasil
[02:07:00] a gente viu isso nessa briga entre Elon Musk
[02:07:02] e o judiciário
[02:07:04] brasileiro
[02:07:06] mas isso vai acontecer na Europa também
[02:07:08] então as big techs eu acho que
[02:07:10] vão enfrentar uma resistência
[02:07:12] crescente
[02:07:14] dos estados
[02:07:16] porque há um temor de dependência tecnológica
[02:07:18] não só assim
[02:07:20] a gente está muito olhando
[02:07:22] as redes sociais e tal
[02:07:24] mas estou falando mais assim da Amazon por exemplo
[02:07:26] a AWS
[02:07:28] que é o serviço das nuvens
[02:07:30] onde muitos governos
[02:07:32] guardam os seus dados
[02:07:34] e essa empresa
[02:07:36] possui uma enorme
[02:07:38] por mais que seja uma situação de conflito
[02:07:40] então assim
[02:07:42] o que a gente vai ter
[02:07:44] muitas
[02:07:46] iniciativas
[02:07:48] de racionalização
[02:07:50] da gestão de dados
[02:07:52] em geral
[02:07:54] então você vai ter uma situação
[02:07:56] que
[02:07:58] o futuro governo da Alemanha
[02:08:00] diz que todos os dados pertencentes
[02:08:02] aos cidadãos alemães
[02:08:04] precisam estar guardados em território
[02:08:06] nacional
[02:08:08] não só das redes sociais
[02:08:10] mas também do sistema público
[02:08:12] e isso
[02:08:14] aumenta a autonomia
[02:08:16] mas aumenta muito o custo também
[02:08:18] porque hoje em dia
[02:08:20] você faz isso na Amazon
[02:08:22] porque é mais barato também
[02:08:24] então você vai ter uma fragmentação desse mercado
[02:08:26] e também o mundo
[02:08:32] com um pouco menos de inovação
[02:08:34] porque você não pode mais escalar
[02:08:36] com a mesma facilidade
[02:08:38] uma empresa de inteligência artificial
[02:08:40] por exemplo
[02:08:42] uma empresa americana de inteligência artificial
[02:08:44] talvez já não possa mais
[02:08:46] fechar facilmente um acordo com
[02:08:48] o ministério da defesa na França
[02:08:50] porque o governo francês
[02:08:52] vai dizer, eu vou depender de uma empresa americana
[02:08:54] sendo que há um risco
[02:08:56] da França entrar em conflito
[02:08:58] militar com os Estados Unidos
[02:09:00] então isso acho que também
[02:09:02] traz um aspecto
[02:09:04] sobre as vantagens do mundo
[02:09:06] no qual nós todos
[02:09:08] crescemos
[02:09:10] que foi muito bom para a inovação
[02:09:12] para a circulação de ideias
[02:09:14] sabe
[02:09:16] eu
[02:09:18] , eu fiz faculdade nos Estados Unidos
[02:09:20] eu lembro que na minha turma tinha
[02:09:22] pessoas de sei lá
[02:09:24] 50 nacionalidades
[02:09:26] e era assim
[02:09:28] um aprendizado enorme
[02:09:30] hoje você acha que
[02:09:32] hoje já caiu quase para zero
[02:09:34] nas faculdades
[02:09:36] chineses
[02:09:38] é muito raro
[02:09:40] eu atualmente
[02:09:42] coordeno um grupo de estudos
[02:09:44] na Kennedy School
[02:09:46] onde se estudam relações internacionais
[02:09:48] na Harvard
[02:09:50] onde eu também estudei
[02:09:52] 25 anos atrás
[02:09:54] e acho que hoje em cada turma
[02:09:56] tem assim um chinês
[02:09:58] e geralmente são chineses que moram há décadas
[02:10:00] nos Estados Unidos
[02:10:02] o que eu tinha na minha época
[02:10:04] eram pessoas
[02:10:06] que eram do partido comunista
[02:10:08] que passavam dois anos nos Estados Unidos
[02:10:10] e depois voltavam a ocupar cargos-chave
[02:10:12] então para mim foi fantástico
[02:10:14] aprendi muito, até hoje
[02:10:16] isso acabou
[02:10:18] se os Estados Unidos avançarem para
[02:10:20] anexar a Groenlândia
[02:10:24] o ministério das relações
[02:10:26] exteriores da Alemanha não vai mais
[02:10:28] enviar jovens diplomatas
[02:10:30] é uma linha que se ultrapassada não tem como voltar
[02:10:32] aí não vai ter mais
[02:10:34] um jovem diplomata alemão
[02:10:36] para estudar dois anos
[02:10:38] fazer um mestrado nos Estados Unidos
[02:10:40] aí acabou
[02:10:42] enfim, eu acho que seria
[02:10:44] o pior
[02:10:46] erro da
[02:10:48] do Trump até agora
[02:10:50] porque o ganho é pequeno
[02:10:52] e o custo é enorme
[02:10:54] mas tudo é possível
[02:10:56] eu realmente
[02:10:58] eu achei
[02:11:00] até
[02:11:02] até outubro
[02:11:04] eu também eu achava assim
[02:11:06] muito pouco provável e aí eu consegui
[02:11:08] emplacar uma reunião
[02:11:10] com alguém no
[02:11:12] pentágono que está um pouco mais
[02:11:14] envolvido com o processo decisório
[02:11:16] explica para a gente o seu trabalho lá como
[02:11:18] você está no dia a dia
[02:11:20] de Washington você está do lado
[02:11:22] sim
[02:11:24] você tem circulação por onde
[02:11:26] então eu sou pesquisador no Carnegie
[02:11:28] Endowment que é um think tank
[02:11:30] ou seja é um
[02:11:32] a melhor tradução seria instituto de pesquisa
[02:11:34] mas na verdade não é uma tradução
[02:11:36] perfeita porque o papel
[02:11:38] dos think tanks nos Estados Unidos
[02:11:40] é
[02:11:42] de produzir ideias
[02:11:44] que possam ser aplicados por
[02:11:46] governos depois em grande
[02:11:48] parte o governo americano hoje em dia mudou
[02:11:50] então eu falo muito
[02:11:52] mais com diplomatas
[02:11:54] da América do Sul do que com
[02:11:56] diplomatas americanos então falo muito
[02:11:58] com as embaixadas etc então é um
[02:12:00] espaço onde
[02:12:02] pesquisadores desenvolvem
[02:12:04] ideias que podem
[02:12:06] se transformar em políticas públicas no
[02:12:08] meu caso de políticas externas
[02:12:10] então é muito comum
[02:12:12] que por exemplo um
[02:12:14] deputado americano pede
[02:12:16] uma reunião e diz a
[02:12:18] eu gostaria de saber de tal tal tal coisa
[02:12:20] e aí a gente vai ou eu vou no caso
[02:12:22] para brifar ou o deputado
[02:12:24] ou a deputada ou os assessores
[02:12:26] do deputado ou da deputada
[02:12:28] geralmente
[02:12:30] antes de conhecer um deputado
[02:12:32] pessoalmente você tem assim cinco
[02:12:34] reuniões com o staff ou seja
[02:12:36] com a equipe dele e em algum momento
[02:12:38] você fala cara seria importante você conhecer
[02:12:40] o Oliver e tal e aí na melhor das
[02:12:42] hipóteses você
[02:12:44] vai trocar mensagem no celular e aí
[02:12:46] a pessoa vai te consultar ou vai pedir
[02:12:48] sua opinião antes de votações
[02:12:50] e aí você vira um interlocutor
[02:12:52] que obviamente é muito útil para você
[02:12:54] entender o pensamento dessa pessoa também
[02:12:56] então é diferente de uma universidade
[02:12:58] porque o acadêmico
[02:13:00] clássico ele é princípio
[02:13:02] ele faz
[02:13:04] pesquisa que não necessariamente
[02:13:06] tem uma utilidade
[02:13:08] imediata ele pode fazer
[02:13:10] explicar porque na primeira guerra
[02:13:12] mundial aconteceu isso ou não aquilo
[02:13:14] aquilo é muito interessante muito útil
[02:13:16] mas não é algo que o deputado
[02:13:18] vai pegar tanto que o deputado
[02:13:20] não lê o negócio de
[02:13:22] 20 páginas ele
[02:13:24] vai querer um memo
[02:13:26] de duas páginas
[02:13:28] então
[02:13:30] o que a gente faz é publicar artigos
[02:13:32] que sejam compreensíveis
[02:13:34] para
[02:13:36] tomadores de decisão
[02:13:38] além disso eu coordeno um grupo
[02:13:40] de estudos na Kennedy School
[02:13:42] que é
[02:13:44] o departamento de
[02:13:46] políticas públicas na universidade de
[02:13:48] Harvard onde é um pouco mais
[02:13:50] acadêmico mas no fundo também é
[02:13:52] muito aplicado então muitos
[02:13:54] dos estudantes lá
[02:13:56] na verdade
[02:13:58] todos praticamente
[02:14:00] todos os estudantes lá eles
[02:14:02] querem entrar na vida pública política
[02:14:04] e não
[02:14:06] no mundo acadêmico é muito diferente
[02:14:08] de se você
[02:14:10] sei lá
[02:14:12] se tem doutorandos por exemplo como
[02:14:14] professor aqui no Brasil os seus
[02:14:16] alunos serão
[02:14:18] futuros professores de ERI
[02:14:20] e professoras de relações internacionais
[02:14:22] lá os meus alunos
[02:14:24] são futuros
[02:14:26] analistas da CIA
[02:14:28] ou do serviço secreto chinês
[02:14:30] ou político francês
[02:14:32] entendeu então é algo
[02:14:34] muito aplicado e o
[02:14:36] dia a dia é portanto
[02:14:38] análise ou seja
[02:14:40] eu no meu escritório
[02:14:42] mas muitas reuniões muitas
[02:14:44] vezes formais ou informais então às vezes
[02:14:46] um diplomata
[02:14:48] alemão
[02:14:50] pede para almoçar
[02:14:52] e quer trocar uma ideia
[02:14:54] sobre e aí a gente
[02:14:56] eu posso compartilhar
[02:14:58] ideia sobre sei lá a Groenlândia por exemplo
[02:15:00] e a minha
[02:15:02] função é muito dialogar
[02:15:04] com as embaixadas da América
[02:15:06] do Sul
[02:15:08] eu imagino o que aconteceu na Venezuela
[02:15:10] isso por exemplo
[02:15:12] não só me procurou tem uma série
[02:15:14] de pessoas mas assim em Washington
[02:15:16] o número de pessoas
[02:15:18] que estudam América
[02:15:20] do Sul sobretudo é muito pequeno
[02:15:22] imagina o típico
[02:15:24] latino-americanista em Washington
[02:15:26] entende de Cuba
[02:15:28] e México e talvez um pouco El Salvador
[02:15:30] mas muitos nunca estiveram
[02:15:32] no Brasil então
[02:15:34] assim então
[02:15:36] assim é uma mistura de
[02:15:40] eu brinco assim
[02:15:42] é pesquisa mas também é muita fofoca
[02:15:44] é claro
[02:15:46] você sente o ambiente né
[02:15:48] tem essas fofocas porque é uma cidade pequena
[02:15:50] entendeu todo mundo assim
[02:15:52] eu acho que quem
[02:15:54] no restaurante você encontra outras pessoas
[02:15:56] toda hora e as vezes
[02:15:58] no ano passado eu
[02:16:00] fui com minha esposa
[02:16:02] para o Kennedy Center que é um
[02:16:04] que é um centro cultural
[02:16:06] e
[02:16:08] e a gente ia pegar um Uber e de repente
[02:16:10] estava tudo bloqueado em Georgetown e a gente
[02:16:12] viu que estava fechado
[02:16:14] então a gente sabia que tinha
[02:16:16] ou o presidente ou o vice-presidente
[02:16:18] por perto jantando lá
[02:16:20] e o serviço secreto fechou as ruas
[02:16:22] então
[02:16:24] você sempre a cidade inteira
[02:16:26] é uma só fofoca sobre
[02:16:28] o que está acontecendo tal
[02:16:30] e é uma cidade pequena 600 mil
[02:16:32] habitantes é minúscula
[02:16:34] assim então
[02:16:36] e para quem não estuda
[02:16:38] política ou geopolítica deve ser muito
[02:16:40] chato viver em Washington porque
[02:16:42] você vai comprar um sorvete
[02:16:44] você encontra todo mundo
[02:16:46] lá na mesa as pessoas falam
[02:16:48] agro-inlândia não sei que tal
[02:16:50] mas assim para quem gosta do tema
[02:16:52] você está no lugar certo é ótimo
[02:16:54] e essa queda de braço do Trump com
[02:16:56] o prefeito não sei
[02:16:58] sobre a
[02:17:00] isso obviamente isso é um assunto aliás
[02:17:02] que é difícil para a gente entender o que estava
[02:17:04] acontecendo lá
[02:17:06] na verdade assim tem duas
[02:17:08] iniciativas
[02:17:10] que geram muita
[02:17:12] fricção uma é o envio da guarda
[02:17:14] nacional para
[02:17:16] supostamente lidar com
[02:17:18] crime em
[02:17:20] várias cidades
[02:17:22] sobretudo cidades
[02:17:24] democratas
[02:17:26] Washington é uma cidade
[02:17:28] que votou em peso
[02:17:30] para o Partido Democrata
[02:17:32] isso tem a ver
[02:17:34] um pouco com
[02:17:36] o perfil da cidade tem muito funcionário
[02:17:38] público então eles tendem a
[02:17:40] apoiar mais o
[02:17:42] Partido Democrata
[02:17:44] tem vamos dizer
[02:17:46] uma elite que
[02:17:48] pensa muito em relações internacionais
[02:17:50] essas pessoas tendem
[02:17:52] a ser mais céticos em relação a
[02:17:54] Donald Trump então existe um certo
[02:17:56] receio do presidente com Washington
[02:17:58] onde a Kamala Harris nas últimas
[02:18:00] eleições obteve mais de 90%
[02:18:02] dos votos então
[02:18:04] assim é muito difícil achar
[02:18:06] eleitores do
[02:18:08] Trump em Washington então
[02:18:10] também foi uma espécie de vingança
[02:18:12] de mandar tropas e assim
[02:18:14] eu moro nos bairros mais seguros da cidade
[02:18:16] e
[02:18:18] eu vi um soldado
[02:18:20] em cada esquina meio esquisito
[02:18:22] e totalmente desnecessário
[02:18:24] eles estavam lá entediados
[02:18:26] tem alguns bairros perigosos
[02:18:28] em Washington mas a maioria
[02:18:30] dessas pessoas se concentrou lá
[02:18:32] então é uma espécie de sinalização de força
[02:18:34] de intimidação
[02:18:36] também é um pouco assustador
[02:18:40] tem uma questão racial ou seja
[02:18:42] eu nunca fui
[02:18:44] abordado por eles eles me dão
[02:18:46] bom dia etc
[02:18:48] mas
[02:18:50] pra
[02:18:52] se você é negro por exemplo é uma questão realmente
[02:18:54] um pouco tenso assim mais tenso
[02:18:56] latino também é
[02:18:58] eu por ser brasileiro e por ter meu
[02:19:00] visto o meu passaporte
[02:19:02] brasileiro eu oficialmente
[02:19:04] também eu faço parte
[02:19:06] eu também sou migrante latino
[02:19:08] na
[02:19:10] oficialmente
[02:19:12] na estatística do governo americano
[02:19:14] além disso
[02:19:16] além dessa guarda nacional que meio que
[02:19:18] não tem nenhuma utilidade
[02:19:20] tem agora agência de imigração
[02:19:22] e alfândega conhecida como
[02:19:24] ICE
[02:19:26] nas cidades procurando
[02:19:28] pessoas sem documentação
[02:19:30] e isso realmente gera
[02:19:32] um medo grande eu por exemplo
[02:19:34] olha só eu to com meu passaporte aqui
[02:19:36] cara
[02:19:38] eu não saio eu assim
[02:19:40] eu nunca saio
[02:19:42] sem passaporte
[02:19:44] isso gera uma situação muito tensa
[02:19:46] é porque inclusive
[02:19:48] o ICE prende
[02:19:50] muitos americanos
[02:19:52] é porque ele tem um sotaque
[02:19:54] etc teve casos de
[02:19:56] de pessoas
[02:19:58] de agentes do ICE batando
[02:20:00] cidadãos americanos recentemente
[02:20:02] é isso
[02:20:04] é
[02:20:06] alguns veem como uma espécie
[02:20:08] de
[02:20:10] de tática de intimidação
[02:20:12] não é a melhor forma
[02:20:14] de prender pessoas
[02:20:16] sem documentos porque se
[02:20:18] eles entram em cidades governados
[02:20:20] pelo partido democrata e não
[02:20:22] em cidades onde há maior
[02:20:24] presença de
[02:20:26] pessoas sem documentação então agora
[02:20:28] por exemplo estão em Minnesota
[02:20:30] o estado de Minnesota
[02:20:32] é um fenômeno
[02:20:34] político porque ela é no midwest
[02:20:36] uma região que geralmente
[02:20:38] apoia o Trump
[02:20:40] mas no meio disso você tem a Minnesota
[02:20:42] que é super progressista
[02:20:44] e costuma
[02:20:46] eleger candidatos do partido
[02:20:48] democrata
[02:20:50] então também uma espécie de vingança
[02:20:52] pessoal contra Minnesota que agora
[02:20:54] as cidades lá estão cheias de
[02:20:56] agentes do ICE
[02:20:58] da agência de imigração e é uma
[02:21:00] coisa muito duvidosa
[02:21:02] do ponto de vista jurídico porque essas pessoas
[02:21:04] a princípio devem
[02:21:06] proteger as fronteiras mas estão
[02:21:08] nas cidades americanas
[02:21:10] e de novo eu tenho uma
[02:21:12] componente racial evidente
[02:21:14] eu tenho amigos americanos nascidos
[02:21:16] nos Estados Unidos
[02:21:18] toda hora
[02:21:20] toda hora
[02:21:22] porque tem descendentes sei lá
[02:21:24] da Colômbia etc
[02:21:26] eu já
[02:21:28] jamais fui parado
[02:21:30] então assim isso gera uma situação
[02:21:32] muito ruim em bairros
[02:21:34] com uma
[02:21:36] população latina muito grande
[02:21:38] você sente uma tensão
[02:21:40] você tem pais que estão com medo de levarem
[02:21:42] seus filhos para a escola então tem crianças
[02:21:44] que não vão para a escola
[02:21:46] pais
[02:21:48] e crianças americanas
[02:21:50] porque você pode
[02:21:52] ser levado
[02:21:54] não está claro se você tem
[02:21:56] quais são seus direitos etc
[02:21:58] então a sociedade americana atualmente vive uma
[02:22:00] uma fase muito difícil
[02:22:02] em relação a isso eu morei nos Estados Unidos
[02:22:04] nos anos 90, 2000
[02:22:06] 2010 e agora ou seja sempre
[02:22:08] por alguns anos em cada década
[02:22:10] e eu nunca vi o
[02:22:12] país tão tenso
[02:22:14] assim tão polarizado dividido
[02:22:16] você vê a divisão
[02:22:18] porque assim por exemplo
[02:22:20] esse caso da
[02:22:22] mãe que foi morta
[02:22:26] assim
[02:22:28] é uma discussão técnica
[02:22:30] se a pessoa tentou derrubar
[02:22:32] ou não mas fato é que
[02:22:34] são
[02:22:36] muito provavelmente
[02:22:38] essa pessoa não teve intenção de matar
[02:22:40] o agente um agente
[02:22:42] treinado nunca para na frente de um
[02:22:44] carro justamente para evitar
[02:22:46] essa situação
[02:22:48] essa pessoa antes do
[02:22:50] encontro não demonstrou uma
[02:22:52] atividade hostil
[02:22:54] aos agentes
[02:22:56] tem inúmeras formas
[02:22:58] de parar o carro você pode atirar contra
[02:23:00] os pneus para parar o carro você pode atirar
[02:23:02] na perna da pessoa essa
[02:23:04] pessoa recebeu dois tiros na cara
[02:23:06] e obviamente
[02:23:08] isso gera uma apreensão muito grande
[02:23:10] e aí eu confesso assim
[02:23:12] eu
[02:23:14] eu fiquei muito surpreso
[02:23:16] com
[02:23:18] chamou atenção como
[02:23:20] amigos assim que votaram no Trump
[02:23:22] imediatamente me disseram não
[02:23:24] foi totalmente correto matar ela
[02:23:26] é
[02:23:28] eu falei assim você realmente acredita nisso
[02:23:30] sério você acha que tipo o
[02:23:32] cara deve ir lá e tipo matar a mulher
[02:23:34] assim que ela
[02:23:36] movimentar o veículo
[02:23:38] e aí eu com vários amigos falei
[02:23:40] cara eu achei assim meio tenso se falar isso
[02:23:42] porque
[02:23:44] um agente treinado não vai
[02:23:46] lá para matar ele
[02:23:48] precisa desescalar a
[02:23:50] situação essas pessoas são muito
[02:23:52] agressivas então
[02:23:54] eu tenho vários amigos que hoje
[02:23:56] pensam duas vezes na hora de pensar
[02:23:58] será que eu vou dar uma volta no parque
[02:24:00] então assim é uma
[02:24:02] situação ruim é de novo assim se o objetivo
[02:24:04] fosse apenas
[02:24:06] o
[02:24:08] prender pessoas sem
[02:24:10] documentação
[02:24:12] eles não estariam em Minnesota
[02:24:14] estariam em outras cidades porque do
[02:24:16] ponto de vista porcentual Minnesota
[02:24:18] não é uma grande concentração
[02:24:20] é porque o
[02:24:22] governador de Minnesota
[02:24:24] foi o candidato a vice da Kamala Harris
[02:24:26] é
[02:24:28] então
[02:24:30] é muito preocupante eu confesso
[02:24:32] assim eu
[02:24:34] é
[02:24:36] aqueles Estados Unidos que eu
[02:24:38] conheci nos anos 90 que é um país muito
[02:24:40] mais legal assim que também piorou em
[02:24:42] vários aspectos né quando eu
[02:24:44] fiz meu colegial nos Estados Unidos não tinha
[02:24:46] nada que eu tenha em massa ainda era uma
[02:24:48] coisa assim hoje
[02:24:50] é uma preocupação cara eu tenho meu
[02:24:52] filho lá numa escola
[02:24:54] eu imagino porque
[02:24:56] não tem como você prever em algumas
[02:24:58] cidades tem assim treinamento
[02:25:00] como a criança precisa comportar eu
[02:25:02] falei cara isso é uma loucura
[02:25:04] isso não existe uma criança de
[02:25:06] sei lá 10 12 anos não deve
[02:25:08] ter que passar por um treinamento sobre
[02:25:10] o que fazer quando tem um
[02:25:12] um cara que vai atirando
[02:25:14] batendo criança e além disso
[02:25:16] é uma
[02:25:18] é
[02:25:20] em Washington não tem problema entre
[02:25:22] aspas porque todos os pais que eu
[02:25:24] encontro na hora de buscar os filhos eu
[02:25:26] sei que 98%
[02:25:28] não gosta no Trump mas eu tenho
[02:25:30] amigos que vivem em outros estados eles
[02:25:32] dizem que o encontro social normal
[02:25:34] é uma situação super tensa porque
[02:25:36] você não sabe como a pessoa
[02:25:38] volta e as pessoas não querem falar de
[02:25:40] política então a situação
[02:25:42] é até um pouco parecida eu
[02:25:44] é
[02:25:46] a gente que vive em regimes um pouco
[02:25:48] mais autoritários como
[02:25:50] a Turquia a Rússia e
[02:25:52] lá é padrão você
[02:25:54] vai numa um encontro assim
[02:25:56] num bar você jamais fala de
[02:25:58] política porque super perigoso
[02:26:00] você não pode
[02:26:02] você não conhece a pessoa você vai
[02:26:04] falar mal do Erdogan você pode ser
[02:26:06] preso no dia seguinte entendeu então
[02:26:08] assim meio que tem uma
[02:26:10] uma perda muito grande de
[02:26:12] de temas que você pode levantar
[02:26:14] um encontro social
[02:26:16] então é
[02:26:18] muito é um clima muito
[02:26:20] pesado atualmente é
[02:26:22] guerra civil não não
[02:26:24] guerra civil assim
[02:26:26] eu vou dizer uma coisa
[02:26:28] a situação em Minnesota
[02:26:30] é preocupante porque porque você tem
[02:26:34] a agência de imigração ICE
[02:26:36] sob comando de Trump
[02:26:38] com um mandato super agressivo
[02:26:40] que envolve às vezes prender
[02:26:42] cidadãos americanos e
[02:26:44] você tem as forças locais
[02:26:46] que possuem
[02:26:48] outro mandato e que
[02:26:50] querem proteger os cidadãos
[02:26:52] e que se houver
[02:26:54] confrontos entre essas duas forças
[02:26:56] aí eu acho que a gente está numa situação
[02:26:58] muito ruim porque daí
[02:27:00] é uma situação meio cinzenta do ponto de vista
[02:27:02] jurídico isso não quer
[02:27:04] dizer que de repente vai ter confrontos em
[02:27:06] todos os estados mas meramente
[02:27:08] você tem uma situação em que pode haver
[02:27:10] confronto entre
[02:27:12] duas forças de segurança do
[02:27:14] estado
[02:27:16] entendeu é muito
[02:27:18] ruim isso é realmente
[02:27:20] uma perda de energia
[02:27:22] total o debate que isso gera
[02:27:24] na sociedade tem tantos
[02:27:26] problemas nos estados unidos
[02:27:28] em cima de saúde
[02:27:30] tem mil
[02:27:32] educação tem
[02:27:34] mil outros problemas e aí uma parte
[02:27:36] significativa da atenção pública
[02:27:38] se dedica a atuação
[02:27:40] desses caras
[02:27:42] é preocupante e assim
[02:27:44] eu vivo querendo
[02:27:46] convencer minha família
[02:27:48] a visitar a gente lá
[02:27:50] mas eu entendo que hoje as pessoas estão
[02:27:52] com receio para a copa do mundo
[02:27:54] pois é tem isso
[02:27:56] cara eu assim
[02:27:58] que vai ter de estrangeiro lá como vai ser
[02:28:00] e assim eu vou te contar uma história cara
[02:28:02] o
[02:28:04] você sabe que eu sou flamenguista né
[02:28:06] e aí quando o flamengo
[02:28:08] jogou a final do
[02:28:10] do libertadores
[02:28:12] eu falaria fluminense
[02:28:14] por que será né não é não tem claro de
[02:28:16] fluminense bota
[02:28:18] eu já ouvi falar de gente falando
[02:28:20] assim tem cara de Santista
[02:28:22] Santista também talvez né
[02:28:24] São paulino
[02:28:26] né eu acho que tá mais pra fluminense
[02:28:28] fluminense mas eu quero entender
[02:28:30] porque o fluminense tem essa coisa um pouco
[02:28:32] mais requintada
[02:28:34] eu não consigo imaginar ele sem
[02:28:36] camisa meio maloqueiro né
[02:28:38] rodando a camisa do Flamengo assim
[02:28:40] Flamengo
[02:28:42] não vejo essa cena bom então assim
[02:28:44] aí teve esse esse jogo com o Flamengo e o Flamengo e o Flamengo e o Flamengo e o Flamengo e o Flamengo e o Flamengo e o Flamengo e o Flamengo e o Flamengo e o Flamengo e o Flamengo
[02:28:45] esse esse jogo contra a final né
[02:28:47] contra o Palmeiras
[02:28:49] foi em
[02:28:51] em Lima
[02:28:53] Lima no Peru
[02:28:55] e eu pensei cara
[02:28:57] se é legal né a gente ir num bar
[02:28:59] e tal todo mundo assistindo junto
[02:29:01] e aí até achei um bar perto
[02:29:03] da de Washington que é uma concentração
[02:29:05] de imigrantes
[02:29:07] brasileiros
[02:29:09] vou levar meu filho tal ele não conhece
[02:29:11] né e depois
[02:29:13] pensei cara vai que
[02:29:15] o AIS vai lá levar todo mundo
[02:29:17] é mesmo né aí a gente fez em casa
[02:29:19] achei tão triste assim sabe
[02:29:21] fiquei muito chateado assim porque eu fiquei
[02:29:23] super animado a gente tem um grupo de WhatsApp
[02:29:25] era uma chance né de encontrar
[02:29:27] é foi muito legal e tal
[02:29:29] aí no final eu falei cara não vou
[02:29:31] não vale a pena porque se eu fosse um agente do AIS
[02:29:33] eu vou pra esse bar
[02:29:35] no dia do jogo eu vou lá
[02:29:37] fecha a porta prende todo mundo
[02:29:39] e provavelmente assim três
[02:29:41] dos
[02:29:43] dos sei lá 80
[02:29:45] realmente não possui
[02:29:47] documentação adequada entendeu
[02:29:49] então assim é nesses detalhes pequenos
[02:29:51] que você vê sua vida no dia
[02:29:53] a dia tá um pouco
[02:29:55] a gente acaba se restringindo
[02:29:57] um pouco eu adoro por exemplo
[02:29:59] comida peruana
[02:30:01] comida etíope
[02:30:03] geralmente meu é fantástico
[02:30:05] tem uma comunidade gigante de
[02:30:07] etíopes em Washington todo motorista
[02:30:09] do Uber em Washington é etíope
[02:30:11] em Boston todo mundo é brasileiro
[02:30:13] é fantástico assim então assim
[02:30:15] só que eu lembro que
[02:30:17] encontrei dois motoristas brasileiros em
[02:30:19] Vegas cara Las Vegas e Uber
[02:30:21] e aí aconteceu uma coisa também em Boston
[02:30:23] no ano passado a gente parou em Boston
[02:30:25] e aí
[02:30:27] tava assim um frio
[02:30:29] desgraçado falei gente a gente quer fazer um
[02:30:31] churrasco em samba em casa
[02:30:33] trazer uma banda
[02:30:35] assim
[02:30:37] aquecer a alma um pouco né trazer todo mundo
[02:30:39] e tal aí falei
[02:30:41] lá um
[02:30:43] conheci um brasileiro que tava dirigindo
[02:30:45] Uber que me passou o número de um
[02:30:47] cara que toca samba lá e tal
[02:30:49] e o cara também falou cara atualmente
[02:30:51] assim nesses lugares
[02:30:53] não vai ninguém é muito
[02:30:55] ruim assim você não quer ser visto
[02:30:57] é eu ia toda
[02:30:59] semana no supermercado brasileiro
[02:31:01] minerão deve ter restaurante
[02:31:03] brasileiro tem tem mas assim
[02:31:05] agora será que
[02:31:07] será que eu vou com esse risco e tal
[02:31:09] mesmo assim se o risco é pequeno
[02:31:11] não vai acontecer nada contigo mas só pelo
[02:31:13] transtorno né então assim isso
[02:31:15] isso é tão triste digo porque
[02:31:17] assim essa diversidade
[02:31:19] enorme das comunidades
[02:31:21] aquilo sempre foi um ponto muito bacana
[02:31:23] das cidades americanas
[02:31:25] e agora fica tudo
[02:31:27] assim fica uma tensão
[02:31:29] então
[02:31:31] eu acho que muito vai depender dos
[02:31:33] midterms das eleições parlamentares
[02:31:35] em novembro quando se
[02:31:37] renova toda a
[02:31:39] câmara dos deputados
[02:31:41] e um terço do senado
[02:31:43] se os democratas
[02:31:45] tem um cheiro já disso mais ou menos
[02:31:47] bom o trump vive brincando
[02:31:49] que quer cancelar não vai
[02:31:51] não vai ser possível que aliás é interessante que
[02:31:53] é uma piada de
[02:31:55] mau gosto não não pode ele não tem nenhum controle
[02:31:57] sobre isso mas assim faz um pouco
[02:31:59] para também assustar
[02:32:01] é pode
[02:32:03] ter tentativas de endurecer
[02:32:05] os requerimentos de
[02:32:07] documentação na hora de votar
[02:32:09] mas eu acho que o
[02:32:11] principal cenário é que os democratas
[02:32:13] vão retomar
[02:32:15] a câmara dos deputados eles não vão
[02:32:17] retomar o senado mas retomando a
[02:32:19] câmara você basicamente pode bloquear
[02:32:21] qualquer projeto de lei
[02:32:23] e você pode empichar o
[02:32:25] presidente que não quer dizer que ele
[02:32:27] será derrubado porque nos estados unidos
[02:32:29] diferentemente do brasil quando o presidente
[02:32:31] sofre impeachment ele fica no poder
[02:32:33] e só sai quando
[02:32:35] o senado também aprova o impeachment
[02:32:37] como o senado
[02:32:39] está sob controles republicanos
[02:32:41] o impeachment que já correu duas vezes com trump
[02:32:43] não leva a
[02:32:45] a sua queda é
[02:32:47] mas basicamente o congresso pode
[02:32:49] travar um monte de coisas
[02:32:51] e eu acho que se os democratas
[02:32:53] vencerem o país
[02:32:55] entra um pouco numa fase de
[02:32:57] normalização é
[02:32:59] agora o que
[02:33:01] acontece quando o presidente
[02:33:03] perde a câmara
[02:33:05] na segunda metade do seu mandato
[02:33:07] ele vira pato manco a gente chama
[02:33:09] lembra ele porque não pode
[02:33:11] aprovar mais nada então isso é muito
[02:33:13] incomum porque geralmente
[02:33:15] os eleitores punem o presidente
[02:33:17] e punem ele ao
[02:33:19] tirar a maioria dele na câmara
[02:33:21] dos deputados e aí
[02:33:23] o que resta política externa
[02:33:25] porque lá pode meio
[02:33:27] que fazer o que quiser então
[02:33:29] meu medo
[02:33:31] é
[02:33:33] que os democratas vão retomar a câmara
[02:33:35] dos deputados pode até ter uma
[02:33:37] normalização assim vai
[02:33:39] acabar essa coisa do ice que
[02:33:41] é que eu acho que gera
[02:33:43] um custo muito alto assim é
[02:33:45] uma queda brutal de turistas
[02:33:47] chegando nos estados unidos
[02:33:49] é que é um país maravilhoso você
[02:33:51] conhece para fazer turismo é muito bacana
[02:33:53] e agora realmente não
[02:33:55] é um país convidativo
[02:33:57] é se chega lá o cara
[02:33:59] sabe na fronteira já é um pouco tenso
[02:34:01] é
[02:34:03] então isso acho que
[02:34:05] pode pode melhorar
[02:34:07] mas no âmbito externo
[02:34:09] ele pode isso pode acabar
[02:34:11] incentivando o trump
[02:34:13] a fazer ainda mais já que em casa
[02:34:15] não pode alcançar
[02:34:17] mais muita coisa
[02:34:19] então eu acho que os próximos três anos
[02:34:21] vão ser
[02:34:23] bem turbulentos
[02:34:25] inclusive
[02:34:27] se eu tivesse que adivinhar
[02:34:29] o que é a próxima
[02:34:31] ação na
[02:34:33] américa latina
[02:34:35] eu diria
[02:34:37] que são ataques dos estados
[02:34:39] unidos a cartéis mexicanos
[02:34:41] que falando de soberania é uma
[02:34:43] se for feito sem
[02:34:45] anuência do governo mexicano é uma
[02:34:47] violação obviamente
[02:34:49] e
[02:34:51] essa coisa de mandar mísseis
[02:34:53] contra o tráfico de drogas é
[02:34:55] pior coisa que se pode fazer porque
[02:34:57] facilita uma fragmentação
[02:34:59] e enquanto houver demanda
[02:35:01] por drogas na sociedade americana
[02:35:03] vai ter alguém que
[02:35:05] que toma todos os riscos
[02:35:07] para produzir isso acho um pouco
[02:35:09] assim
[02:35:11] eu fico muito
[02:35:13] impressionado
[02:35:15] como no debate público
[02:35:17] aqui os traficantes
[02:35:19] longuíssima matéria
[02:35:21] contra o el chapo
[02:35:23] mano todos esses caras
[02:35:25] existem porque há uma demanda brutal
[02:35:27] o maior
[02:35:29] mercado da cocaína são os estados unidos
[02:35:31] e não é que o traficante obriga
[02:35:33] o americano a tomar cocaína
[02:35:35] é uma demanda entendeu então assim
[02:35:37] você pode mandar mísseis para quem quiser
[02:35:39] a cocaína vai
[02:35:41] chegar e isso acho que tem um
[02:35:43] muito pouca reflexão sobre isso
[02:35:45] ninguém
[02:35:47] não existe nenhuma iniciativa
[02:35:49] por parte do governo de
[02:35:51] lidar com isso
[02:35:53] é toda culpa da
[02:35:55] dos traficantes entendeu
[02:35:57] que obviamente são atores
[02:35:59] que devem ser perseguidos
[02:36:01] mas assim eu acho que falta um pouco esse aspecto
[02:36:03] no debate assim
[02:36:05] fala Romer
[02:36:07] vamos a Juliano Almeida
[02:36:09] ele mandou aqui a pergunta
[02:36:11] os estados unidos sempre gerou
[02:36:13] crises em países emergentes
[02:36:15] seja por recursos naturais ou porque
[02:36:17] se opôs a seu imperialismo
[02:36:19] como o Brasil poderia
[02:36:21] escapar das garras predatórias
[02:36:23] dos estados unidos
[02:36:25] então
[02:36:29] em primeiro lugar
[02:36:31] acho que
[02:36:35] o Brasil hoje não corre
[02:36:37] um risco iminente isso é
[02:36:39] a primeira questão
[02:36:41] o Brasil é muito
[02:36:43] menos vulnerável e
[02:36:45] é
[02:36:47] a pior estratégia
[02:36:49] de países
[02:36:51] em relação aos estados unidos
[02:36:53] é uma estratégia de confronto
[02:36:55] a gente viu isso
[02:36:57] no caso de Saddam Hussein
[02:36:59] no Iraque
[02:37:01] tanto nos anos 90 quanto nos anos 2000
[02:37:03] no caso
[02:37:05] do Afeganistão
[02:37:07] que
[02:37:09] onde se encontravam as bases
[02:37:11] de Al Qaeda
[02:37:13] o caso
[02:37:17] da Venezuela que depois
[02:37:19] do golpe fracassado de 2002
[02:37:21] acabou adotando uma postura
[02:37:23] muito mais crítica em relação
[02:37:25] aos estados unidos e o Brasil acho que
[02:37:27] não
[02:37:29] entrará nessa rota
[02:37:31] de
[02:37:33] desafiar
[02:37:35] os estados unidos frontalmente
[02:37:37] eu acho que essa é a pior estratégia
[02:37:39] e manter
[02:37:41] uma parceria pragmática
[02:37:43] de certa forma
[02:37:45] reduz muito o risco
[02:37:47] ou a potencial
[02:37:49] ameaça
[02:37:51] vindo dos estados unidos
[02:37:53] por isso eu sempre digo assim
[02:37:55] a melhor estratégia é o multi alinhamento
[02:37:57] o Brasil deixando claro que possui
[02:37:59] ótimos laços comerciais
[02:38:01] diplomáticos com todos
[02:38:03] os atores inclusive os estados unidos
[02:38:05] então manter
[02:38:07] isso permitir que tem empresas
[02:38:09] americanas atuando no mercado brasileiro ótimo
[02:38:11] tem empresas brasileiras
[02:38:13] atuando no mercado americano ótimo
[02:38:15] quanto mais laços desse tipo
[02:38:17] maior o custo
[02:38:19] para os estados unidos
[02:38:21] esticarem a corda
[02:38:23] em relação ao Brasil
[02:38:25] e a gente viu isso claramente
[02:38:27] que quem em parte
[02:38:31] ajudou a
[02:38:33] abaixar a temperatura durante essa crise
[02:38:35] bilateral entre os estados
[02:38:37] unidos e o Brasil no ano passado
[02:38:39] foram
[02:38:41] as empresas americanas que
[02:38:43] compram produtos brasileiros
[02:38:45] então a gente
[02:38:47] precisa vender mais para os americanos
[02:38:49] para reduzir
[02:38:51] uma possível ameaça americana
[02:38:53] em relação ao Brasil porque a partir de uma
[02:38:55] relação saudável comercial
[02:38:57] você vai ter empresas
[02:38:59] americanas defendendo o Brasil
[02:39:01] lá dentro que sempre são os
[02:39:03] maiores aliados são
[02:39:05] os americanos que querem preservar a relação
[02:39:07] e a gente está vendo a mesma coisa
[02:39:09] com a China por exemplo quem
[02:39:11] mandou Trump recuar
[02:39:13] são as multinacionais
[02:39:15] americanas que dependem da China
[02:39:17] então a gente quer
[02:39:19] que empresas americanas
[02:39:21] queiram preservar
[02:39:23] uma relação normal
[02:39:25] com o Brasil mas da mesma
[02:39:27] forma é fundamental
[02:39:29] que o Brasil amplie as suas relações
[02:39:31] com outras grandes potências para não estar
[02:39:33] numa situação de dependência
[02:39:35] isso quer dizer
[02:39:37] não cometer o erro do México
[02:39:39] que seria o outro extremo
[02:39:41] a Venezuela cometeu um erro
[02:39:43] ao confrontar demais
[02:39:45] ao virar um grande aliado da Rússia
[02:39:47] da China só falar
[02:39:49] mal dos Estados Unidos aí é um risco
[02:39:51] agora você alinhar totalmente
[02:39:53] com os Estados Unidos também é ruim porque daí
[02:39:55] você vira o Canadá ou
[02:39:57] o México e vira totalmente vulnerável atualmente
[02:39:59] então
[02:40:01] esse caminho do meio
[02:40:03] me parece ser fundamental
[02:40:05] isso quer dizer
[02:40:07] ampliar laços comerciais com todo mundo
[02:40:09] virar um país mais aberto
[02:40:11] mas como último ponto
[02:40:13] o Brasil precisa
[02:40:15] investir pesadamente
[02:40:17] na sua própria defesa
[02:40:19] isso envolve investir
[02:40:21] na base industrial
[02:40:23] nacional
[02:40:25] na indústria de defesa
[02:40:27] nacional e também
[02:40:29] diversificar suas parcerias de defesa
[02:40:31] ou seja não depender dos Estados Unidos
[02:40:33] não depender da China
[02:40:35] não depender dos europeus
[02:40:37] e ter um sistema
[02:40:39] que envolva tecnologia militar
[02:40:41] muito diferente
[02:40:43] muito diversificada
[02:40:45] e por fim
[02:40:47] o Brasil precisa pensar sobre sua
[02:40:49] autonomia tecnológica
[02:40:51] isso eu vejo hoje como principal
[02:40:53] vulnerabilidade
[02:40:55] a gente falou disso aqui já
[02:40:57] os dados do SUS estão
[02:40:59] todos na Virgínia
[02:41:01] isso não é sustentável
[02:41:03] a médio prazo
[02:41:05] ou você espalha
[02:41:07] você tem um espelho
[02:41:09] Virgínia só para falar é o estado
[02:41:11] não a Virgínia a influenciadora
[02:41:13] a Virgínia tem os dados do SUS
[02:41:15] por que né
[02:41:17] não sei o que
[02:41:19] ou você tem
[02:41:21] um espelho que
[02:41:23] eles existem lá
[02:41:25] mas eles também existem
[02:41:27] no Brasil ou também existem
[02:41:29] em outro lugar
[02:41:31] daí se tiver uma ruptura diplomática
[02:41:33] você preserva isso
[02:41:35] eu acho que soberania digital
[02:41:37] é um tema
[02:41:39] muito importante
[02:41:41] e sobretudo
[02:41:43] agora cada vez mais
[02:41:45] relevante o estado brasileiro
[02:41:47] precisa investir
[02:41:49] não que já esteja ciente
[02:41:51] disso ou seja
[02:41:53] em Brasília muitas pessoas falam disso
[02:41:55] não é um insight
[02:41:57] mas estados o governo federal
[02:41:59] os governos estaduais
[02:42:01] precisam fazer
[02:42:03] muito mais para se proteger contra
[02:42:05] ciberataques não aliás apenas
[02:42:07] de atores estaduais externos
[02:42:09] não é só um ciberataque americano
[02:42:11] russo mas de
[02:42:13] criminosos assim qualquer
[02:42:15] que podem roubar dados
[02:42:17] e a gente teve casos assim
[02:42:19] de hospitais na Alemanha alguns anos atrás
[02:42:21] sendo alvos de um ciberataque
[02:42:23] russo e morreram pacientes
[02:42:25] por que os médicos logo antes
[02:42:27] da cirurgia não tinham mais acesso aos dados
[02:42:29] morreu paciente
[02:42:31] não sabiam qual tipo sanguíneo
[02:42:33] era tudo travado
[02:42:35] entendeu então essas coisas eu acho
[02:42:37] importante
[02:42:41] mas assim o Brasil
[02:42:43] o governo aliás aumentou recentemente
[02:42:45] o orçamento
[02:42:47] para as forças armadas
[02:42:49] e por fim cara ele me fez uma pergunta
[02:42:51] eu jurei que ia responder de forma mais rápida
[02:42:53] mas agora estou falando aqui a 15 minutos
[02:42:55] segurança de fronteira é um assunto
[02:42:57] super importante
[02:42:59] porque a gente quer evitar o seguinte
[02:43:01] que daqui a dois anos o Trump
[02:43:03] fala assim ah o PCC
[02:43:05] o Brasil não está dando conta não
[02:43:07] vamos ter que
[02:43:09] não acho que isso vai acontecer
[02:43:11] mas assim não dá pretexto
[02:43:13] e hoje a realidade
[02:43:15] é o seguinte
[02:43:17] o Brasil não controla
[02:43:19] firmemente todas as fronteiras
[02:43:21] como deveria
[02:43:23] você tem grupos armados
[02:43:25] lá na fronteira
[02:43:27] em algumas partes da fronteira circulando
[02:43:29] mais do que deveria
[02:43:31] e
[02:43:33] e isso acho que
[02:43:35] precisa investir muito
[02:43:37] e isso requer muita cooperação
[02:43:39] de inteligência
[02:43:41] não só com o país da região
[02:43:43] mas com outros governos da região
[02:43:45] hoje esses cartéis são grupos
[02:43:47] que atuam globalmente
[02:43:49] com uma forte atuação
[02:43:51] na Europa então assim
[02:43:53] investir nisso nessa cooperação
[02:43:55] acho que é uma melhor forma de se proteger
[02:43:57] mas vai é
[02:43:59] não é uma pergunta trivial
[02:44:01] é um tema muito importante
[02:44:03] agora eu juro que será mais rápido mesmo
[02:44:05] é que as perguntas são muito boas
[02:44:07] é culpa dos caras entendeu
[02:44:09] a gente tem também aqui da suado88
[02:44:11] o que ela perguntou dá para comparar
[02:44:13] o que o Trump está fazendo com a Venezuela
[02:44:15] e o que o Putin fez com a Crimeia
[02:44:21] de certa forma sim porque
[02:44:25] em ambos os casos
[02:44:27] você teve um presidente dizendo
[02:44:29] que aquele
[02:44:31] eu ter maior influência
[02:44:33] naquele país é do meu interesse nacional
[02:44:35] esse país
[02:44:37] faz parte da minha zona de influência
[02:44:39] os russos tem um mito
[02:44:41] sobre a suposta origem
[02:44:43] civilizacional da Rússia
[02:44:45] na Ucrânia
[02:44:47] mas o Trump realmente
[02:44:49] ele postou uma foto dizendo que
[02:44:51] ele é o presidente da Venezuela
[02:44:53] então assim isso é um pensamento
[02:44:55] imperial clássico e hoje
[02:44:57] a Venezuela eu sinto dizer
[02:44:59] me dói muito
[02:45:01] constatar isso
[02:45:03] mas a Venezuela é um protetorado
[02:45:05] americano hoje
[02:45:07] a Venezuela não possui soberania plena
[02:45:09] porque
[02:45:11] a presidente do país
[02:45:13] está sob ameaça
[02:45:15] permanente dos Estados Unidos
[02:45:19] e este é um arranjo que o Putin
[02:45:21] gostaria de ter com o presidente da Ucrânia
[02:45:23] pode ser
[02:45:25] nominalmente soberano
[02:45:27] mas quem manda no fundo
[02:45:29] na visão russa
[02:45:31] deve ser Moscou e não Kiev
[02:45:33] então nesse sentido sim
[02:45:37] por isso eu sempre condenei
[02:45:39] os dois eu acho que é um
[02:45:41] é
[02:45:43] eu espero muito que a Venezuela
[02:45:45] se estabilize que vire
[02:45:47] uma nação mais próspera
[02:45:49] mas eu me preocupo um pouco
[02:45:51] com o cenário da Venezuela dando certo
[02:45:53] entre aspas economicamente
[02:45:55] porque isso pode incentivar
[02:45:57] os americanos a fazerem isso
[02:45:59] em outras nações
[02:46:01] mas sim são ambos
[02:46:03] comportamentos
[02:46:05] clássicos de grandes potências
[02:46:07] se projetando
[02:46:09] militarmente
[02:46:11] e violando a soberania
[02:46:13] nas suas
[02:46:15] esferas de influência
[02:46:17] aqui foi
[02:46:19] vamos falar de Irã então
[02:46:21] qual é a situação atual do Irã
[02:46:23] possibilidade de intervenção dos Estados Unidos
[02:46:25] pelo que você falou é bem pequena
[02:46:27] e o que pode acontecer lá
[02:46:31] porque lá é o que você falou
[02:46:33] está acontecendo um movimento interno
[02:46:35] sim
[02:46:37] será que ele tem força
[02:46:39] porque na Venezuela não teve força para derrubar
[02:46:41] exato
[02:46:43] o Irã hoje
[02:46:45] acho que é um pouco
[02:46:47] comparável com a União Soviética
[02:46:49] no fim dos anos 80
[02:46:51] é um sistema político que perdeu
[02:46:53] legitimidade
[02:46:55] na população
[02:46:57] você tem cada vez menos ideólogos
[02:46:59] cada vez mais oportunistas
[02:47:01] ou seja
[02:47:03] quem sustenta o regime está lá
[02:47:05] por causa dos benefícios
[02:47:07] e não porque
[02:47:09] acredita nos slogans
[02:47:11] oficiais
[02:47:13] se você viu relatos de
[02:47:15] burocratas
[02:47:17] soviéticos em 88
[02:47:19] os caras não acreditavam
[02:47:21] sabiam que aquilo não estava funcionando
[02:47:23] era evidente
[02:47:25] mas não queriam abrir mão dos seus privilégios
[02:47:27] e o Irã
[02:47:29] funciona dessa forma hoje
[02:47:31] um cinismo profundo
[02:47:33] entre a população jovem
[02:47:35] nenhum tipo de visão
[02:47:37] sobre como seria
[02:47:39] um Irã mais próspero
[02:47:41] um país mais moderno
[02:47:43] um país completamente atrasado
[02:47:45] que em algum momento
[02:47:47] o regime vai colapsar
[02:47:49] agora
[02:47:51] nunca com regimes autoritários
[02:47:53] nunca dá para fazer previsões
[02:47:55] porque eles não são transparentes
[02:47:57] você pode sentir quando
[02:47:59] um governo democrático vai cair
[02:48:01] no caso da Dilma
[02:48:03] é para sentir
[02:48:05] quando regimes autoritários
[02:48:07] eles podem ruir
[02:48:09] de um dia para outro
[02:48:11] você tem casos
[02:48:13] de ditadores que parecem
[02:48:15] inabaláveis e no dia seguinte
[02:48:17] eles estão no avião fugindo para o exílio
[02:48:19] então em algum momento
[02:48:21] isso vai acontecer
[02:48:23] pode ser na semana que vem
[02:48:25] sim
[02:48:27] pode ser daqui a 3, 4 anos
[02:48:29] ou seja em algum momento
[02:48:31] mas o regime está com os dias contados
[02:48:33] e pode prolongar isso apenas por meio da repressão
[02:48:35] que é o que está acontecendo
[02:48:37] exatamente
[02:48:39] mas não vai conseguir trazer de volta
[02:48:41] grupos inteiros da sociedade
[02:48:43] que vão genuinamente
[02:48:45] apoiar o regime
[02:48:47] porque
[02:48:49] o regime
[02:48:51] não possui meios
[02:48:53] não possui uma receita
[02:48:55] para reformas necessárias
[02:48:57] econômicas
[02:48:59] tem uma imigração elevada
[02:49:01] as mentes mais brilhantes estão saindo
[02:49:03] essa é a primeira questão
[02:49:09] essa disfunção interna
[02:49:11] explica
[02:49:13] as derrotas geopolíticas ao longo
[02:49:15] dos últimos anos
[02:49:17] com o enfraquecimento
[02:49:19] de Hezbollah
[02:49:21] dos Houthis
[02:49:23] e de outros grupos
[02:49:25] que o Irã estava sustentando
[02:49:27] como aliados na região
[02:49:29] então o Irã está enfraquecido
[02:49:31] internamente
[02:49:33] e no âmbito geopolítico
[02:49:35] também, perdeu influência
[02:49:41] e
[02:49:43] apesar de ter ótimas relações
[02:49:45] com a China, por exemplo
[02:49:47] a China não vai
[02:49:49] não quer ser visto como um ator
[02:49:51] que sustenta um regime
[02:49:53] porque não é um aliado chave
[02:49:55] nesse quesito
[02:49:57] o mesmo vale para a Rússia
[02:49:59] o Irã fornece
[02:50:01] a maioria dos drones
[02:50:03] que matam civis
[02:50:05] e soldados ucranianos
[02:50:07] mas o Irã
[02:50:09] é
[02:50:11] ideologicamente contra a Ucrânia
[02:50:13] no sentido que
[02:50:15] não é uma
[02:50:17] conexão ideológica que une
[02:50:19] Teherã a Moscou
[02:50:21] então se o regime
[02:50:23] cair, a Rússia não vai intervir
[02:50:25] militarmente para tentar
[02:50:27] fortalecê-lo, então é um regime bastante
[02:50:29] isolado também pelas sanções, aliás
[02:50:31] não só sanções americanas, mas sanções
[02:50:33] da ONU devido ao programa nuclear
[02:50:35] iraniano, então uma economia
[02:50:37] totalmente isolada, uma chatice
[02:50:39] viajar para lá porque você precisa levar tudo em
[02:50:41] espécie, se o cartão não funciona
[02:50:43] é um país maravilhoso
[02:50:45] culturalmente, as pessoas são maravilhosas
[02:50:47] espero muito que
[02:50:49] em algum momento o Irã possa
[02:50:51] se reerguer e se
[02:50:53] normalizar politicamente porque
[02:50:55] é um dos países mais bacanas
[02:50:57] de se visitar
[02:50:59] muito legal
[02:51:01] agora
[02:51:03] o regime também perdeu qualquer
[02:51:05] hesitação
[02:51:07] em relação a repressão letal
[02:51:09] contra a sua própria população
[02:51:11] e se você é uma
[02:51:13] pessoa
[02:51:15] que não tem nada a perder
[02:51:17] numa situação econômica muito ruim
[02:51:19] você pode continuar
[02:51:21] participando de manifestações, agora se você é
[02:51:23] uma pessoa de classe média, tem um emprego
[02:51:25] uma vida minimamente estável
[02:51:27] você tem algo a perder
[02:51:29] então um
[02:51:31] colapso do regime por meio de grandes
[02:51:33] manifestações é só possível se você tem
[02:51:35] uma adesão maciça da classe média
[02:51:37] e se
[02:51:39] sei lá, um professor de
[02:51:41] colégio, que é classe média no Irã
[02:51:43] dois filhos
[02:51:47] vai se juntar a uma
[02:51:49] manifestação sabendo que há um risco real
[02:51:51] de ser morto
[02:51:53] é muito difícil
[02:51:55] é um dilema terrível que essas pessoas tem que enfrentar
[02:51:57] então assim, por enquanto pode ser
[02:51:59] que o regime se estabilizou porque
[02:52:01] matou tanta gente
[02:52:03] que
[02:52:05] criou um fortíssimo desincentivo
[02:52:07] para você se manifestar novamente
[02:52:09] além disso tem um grande
[02:52:11] problema que é o seguinte
[02:52:13] a oposição está totalmente
[02:52:15] dividida
[02:52:17] você tem os monarquistas
[02:52:19] que querem a volta do Shah
[02:52:21] que o filho do Shah mora nos Estados Unidos
[02:52:23] para voltar ao regime
[02:52:25] anterior, antes da revolução islâmica
[02:52:27] antes de 1979
[02:52:31] mas a boa parte da oposição iraniana
[02:52:33] dentro do país detesta os
[02:52:35] monarquistas, porque aquele regime
[02:52:37] também foi
[02:52:39] estabilidade mais perseguição
[02:52:41] não havia realmente
[02:52:43] liberdade
[02:52:45] não havia democracia
[02:52:47] então
[02:52:49] eles querem uma democracia
[02:52:51] genuína, laica
[02:52:53] sem monarca
[02:52:55] sem nada
[02:52:57] além disso você tem separatistas
[02:52:59] balutes, curdos
[02:53:01] você tem grupos armados
[02:53:03] então assim, se amanhã
[02:53:05] derruba o regime
[02:53:07] pode ter uma
[02:53:09] uma guerra civil realmente
[02:53:11] acontecendo no país, então eu acho que
[02:53:13] se acontecer
[02:53:15] o supremo líder tem 86 anos
[02:53:17] então se ele morrer
[02:53:19] em algum momento
[02:53:21] pode ser que haja
[02:53:23] uma instabilidade, e aí a partir desse momento
[02:53:25] eu acho que o cenário mais provável
[02:53:27] é que algum general vai assumir o comando
[02:53:33] para manter o controle
[02:53:35] mas
[02:53:37] eu vejo o regime
[02:53:39] como completamente, chegou no fim do ciclo
[02:53:41] e Trump, assim
[02:53:43] eu espero muito que não haja uma intervenção militar
[02:53:45] porque
[02:53:47] aí realmente
[02:53:49] há um risco de um segundo Iraque
[02:53:51] ou se você não tem nenhuma atuação
[02:53:53] dentro do país
[02:53:55] por parte dos Estados Unidos, você pode ser tipo uma
[02:53:57] Líbia, que o que aconteceu
[02:53:59] Obama
[02:54:01] bombardeou
[02:54:03] as forças do regime
[02:54:05] da Líbia, do Gaddafi
[02:54:07] isso levou
[02:54:09] a um colapso do regime
[02:54:11] então os rebeldes derrotaram
[02:54:13] as forças do Gaddafi
[02:54:15] isso foi em 2008, 2009
[02:54:17] o Gaddafi foi morto
[02:54:19] e desde então
[02:54:21] há 15 anos o país está em uma guerra civil
[02:54:23] super sangrenta
[02:54:25] nunca teve tropas do ocidente lá
[02:54:27] mas assim
[02:54:29] o governo Obama
[02:54:31] falou
[02:54:33] o problema não é nosso
[02:54:35] mas a Líbia desestabilizou
[02:54:37] vários países em toda a região
[02:54:39] uma situação terrível
[02:54:41] então
[02:54:43] e tem outra
[02:54:45] da mesma forma como uma intervenção militar
[02:54:47] na Venezuela
[02:54:49] deslegitima a oposição
[02:54:51] vai
[02:54:53] deslegitimar
[02:54:55] os Estados Unidos vai atacar e botar o filho do chá
[02:54:57] o cara
[02:54:59] imediatamente será interpretado como
[02:55:01] um Fatochi dos Estados Unidos
[02:55:03] então eu sempre digo assim
[02:55:05] a melhor democratização ocorre
[02:55:07] internamente, sem
[02:55:09] alguém atendendo por fora
[02:55:11] as vezes dá certo, como no caso do Panamá
[02:55:13] ou no caso da Alemanha, ou no caso do Japão
[02:55:15] mas a vasta maioria
[02:55:17] é uma receita para o caos
[02:55:19] mas assim
[02:55:21] se houver uma transição bem sucedida
[02:55:23] é um país muito legal
[02:55:25] se visitar
[02:55:27] então vale muito a pena
[02:55:29] eu fui 15 anos atrás e passei um mês lá
[02:55:31] um país super bacana
[02:55:33] pessoas muito
[02:55:35] interessadas
[02:55:37] é tipo de lugar que você vai pegar um táxi
[02:55:39] vai te falar de
[02:55:41] vai pensar com você sobre
[02:55:43] os grandes autores da filosofia
[02:55:45] é uma coisa maravilhosa mesmo
[02:55:47] e
[02:55:49] alguma outra
[02:55:51] explosão em algum
[02:55:53] conflito que você vê a margem
[02:55:55] olha eu acho que
[02:55:57] lembra que você veio falar aqui da eleição de Taiwan
[02:55:59] lembra?
[02:56:01] Taiwan por enquanto
[02:56:03] aqueles que dizem os Estados Unidos invadiu
[02:56:05] a Venezuela agora a China
[02:56:07] eu acho que por enquanto não vai haver
[02:56:09] essa movimentação porque
[02:56:11] é o velho ditado
[02:56:13] nunca interrompa
[02:56:15] seu inimigo
[02:56:17] quando ele estiver cometendo erros
[02:56:19] então a China
[02:56:21] está lá só assistindo
[02:56:23] o Trump rompendo com os europeus
[02:56:25] se envolvendo
[02:56:27] conflitos
[02:56:29] a China vai ficar quieta
[02:56:31] não é o momento
[02:56:33] de fazer grandes movimentações
[02:56:35] isso é a interpretação
[02:56:37] então acho que não vejo um conflito
[02:56:39] iminente nesse
[02:56:41] quesito eu acho que
[02:56:43] o Irã certamente é um tema que
[02:56:45] preocupa que lá
[02:56:47] como eu disse em algum momento a situação
[02:56:49] vai se desestabilizar
[02:56:51] e a questão do plano
[02:56:53] da bomba
[02:56:55] isso eu acho que
[02:56:59] o ataque que aconteceu no ano passado
[02:57:01] provavelmente não
[02:57:03] destruiu o programa nuclear
[02:57:05] por completo
[02:57:07] mas o regime está sob muita pressão econômica
[02:57:09] também então eu acho muito difícil
[02:57:11] o Irã conseguir avançar rapidamente
[02:57:13] agora
[02:57:15] a esse ponto
[02:57:17] tanto porque mesmo
[02:57:19] a arma nuclear não salvaria
[02:57:21] agora o regime
[02:57:23] pode ser que seja derrubado do mesmo jeito
[02:57:25] e aí você está numa situação terrível
[02:57:27] mas imagina você tem um regime
[02:57:29] que não seja uma arma nuclear
[02:57:31] cai o regime
[02:57:33] e você tem uma guerra civil
[02:57:35] então aí é uma situação muito
[02:57:37] difícil
[02:57:39] eu acho que assim
[02:57:41] a situação na Ucrânia é cada vez mais crítica
[02:57:43] para os ucranianos
[02:57:45] os russos estão avançando
[02:57:47] uma guerra energética destruindo
[02:57:49] plantas
[02:57:51] energéticas
[02:57:53] para deixar a população civil no frio
[02:57:55] durante o inverno
[02:57:57] então a Rússia pode
[02:57:59] aos poucos conquistar
[02:58:01] uma série de cidades importantes
[02:58:03] mesmo assim o cenário mais provável
[02:58:05] é de um conflito ainda mais prolongado
[02:58:07] a Ucrânia não vai colapsar
[02:58:09] acho que
[02:58:11] nos próximos dois anos o conflito
[02:58:13] está instalado
[02:58:15] com baixas chances de um acordo
[02:58:17] mas o Trump pode voltar
[02:58:19] a se engajar também
[02:58:21] nesse conflito apesar de não ter conseguido
[02:58:23] extrair nenhuma
[02:58:25] concessão significativa dos russos
[02:58:27] ou seja, a estratégia americana
[02:58:29] tem sido
[02:58:31] a Rússia está mais forte que a Ucrânia
[02:58:33] então vão bater na Ucrânia
[02:58:35] até ela aceitar um acordo
[02:58:37] que é uma espécie de rendição
[02:58:39] eu acho que
[02:58:41] ao longo deste ano
[02:58:43] é preciso olhar para futuras
[02:58:45] possíveis intervenções americanas
[02:58:47] em países latino-americanos, sobretudo no México
[02:58:49] teremos eleições
[02:58:51] na Colômbia
[02:58:53] e em Peru
[02:58:55] o que pode acontecer lá é uma interferência
[02:58:57] prévia por parte dos Estados Unidos
[02:58:59] para tentar influenciar o resultado
[02:59:01] como aconteceu em Honduras e na Argentina
[02:59:03] e aí cara, a partir de abril
[02:59:05] vai ser muito
[02:59:07] sobre eleição aqui
[02:59:09] no país
[02:59:11] os olhos dos americanos vão estar voltados para cá?
[02:59:13] isso, como última questão
[02:59:15] eu acho que
[02:59:17] é preciso falar de
[02:59:19] garantir a integridade eleitoral
[02:59:21] frente a
[02:59:23] interferências externas
[02:59:25] e aí eu queria dizer o seguinte
[02:59:27] quando eu
[02:59:29] falo desse assunto
[02:59:31] tem muita gente que fala
[02:59:33] você não criticou os Estados Unidos
[02:59:35] do governo Biden
[02:59:37] quando houve uma pressão
[02:59:39] americana
[02:59:41] contra os generais
[02:59:43] brasileiros para que eles
[02:59:45] aceitassem o resultado
[02:59:47] mas foi justamente isso, ou seja, não houve
[02:59:49] por parte do governo americano uma tentativa
[02:59:51] de
[02:59:53] definir a eleição
[02:59:55] houve uma pressão diplomática
[02:59:57] para que os
[02:59:59] generais respeitassem o resultado
[03:00:01] se o Bolsonaro tivesse vencido a eleição
[03:00:03] o Biden não teria
[03:00:05] questionado
[03:00:07] então é diferente do Trump
[03:00:09] o Biden não interferiu
[03:00:11] na eleição nesse sentido
[03:00:13] ele atuou para
[03:00:15] minimizar o risco
[03:00:17] de um golpe de estado
[03:00:19] de uma atuação militar não respeitando
[03:00:21] o resultado, algo desse tipo
[03:00:23] hoje a situação é diferente
[03:00:25] eu acho que é plausível do Trump
[03:00:27] por exemplo
[03:00:29] um mês antes das eleições
[03:00:31] dizer
[03:00:33] se vocês reelegerem
[03:00:35] o Lula, eu vou impor
[03:00:37] sanções, eu vou importar
[03:00:39] tarifas
[03:00:41] eu vou encerrar essa participação
[03:00:43] econômica aqui nesse setor
[03:00:45] algo desse tipo
[03:00:47] isso ocorreu
[03:00:49] na Argentina
[03:00:51] não é totalmente hipotético
[03:00:53] isso aconteceu na Argentina
[03:00:55] com o Trump
[03:00:57] fazendo uma ameaça concreta
[03:00:59] dizendo que eu só vou dar
[03:01:01] 20 bilhões para estabilizar
[03:01:03] o número de vocês se vocês elegeram o Milley
[03:01:05] e no caso de Honduras no ano passado
[03:01:07] falaram se vocês não elegeram o meu candidato
[03:01:09] eu vou encerrar
[03:01:11] a cooperação econômica com Honduras
[03:01:13] e ele acabou ganhando
[03:01:15] e se eu for Sandorenho
[03:01:17] faz sentido, é um país totalmente
[03:01:19] dependente dos Estados Unidos
[03:01:21] então eu acho que esse vai ser o grande tema
[03:01:23] como
[03:01:25] blindar
[03:01:27] o sistema eleitoral
[03:01:29] e também o debate público
[03:01:31] não deve ser relevante
[03:01:33] se o país X
[03:01:35] prefere candidato A ou B
[03:01:37] então acho que isso pode
[03:01:39] aumentar muito a polarização
[03:01:41] e a posição do Brasil em relação
[03:01:43] a esses conflitos
[03:01:45] se rolar um conflito realmente grande aí
[03:01:47] o Brasil vai ter que em algum momento
[03:01:49] tomar um lado?
[03:01:51] eu acho que por enquanto não há risco
[03:01:53] de um conflito grande
[03:01:55] entre duas grandes potências
[03:01:57] porque se houver
[03:01:59] uma invasão americana
[03:02:01] da Groenlândia
[03:02:03] haverá uma reação militar
[03:02:05] simbólica
[03:02:07] de confrontos
[03:02:09] mas numericamente poucos
[03:02:11] porque os Estados Unidos tem uma superioridade enorme militar
[03:02:13] então
[03:02:15] vamos morrer
[03:02:17] 300 soldados europeus
[03:02:19] é possível
[03:02:21] mas não será um conflito
[03:02:23] prolongado
[03:02:25] o que pode então acontecer são mais
[03:02:27] o que a gente chama de
[03:02:29] impacto de segunda ordem
[03:02:31] ou seja, acaba a OTAN
[03:02:33] a Alemanha desenvolve uma arma nuclear
[03:02:35] coisas desse tipo que depois
[03:02:37] causa algo
[03:02:39] eu não antevejo um grande conflito
[03:02:41] ao longo desse ano
[03:02:43] acho que a Rússia pode
[03:02:45] avançar um pouco na Ucrânia
[03:02:47] os Estados Unidos podem intervir no México
[03:02:49] o Irã pode cair e os Estados Unidos podem intervir no Irã
[03:02:51] ou seja
[03:02:53] o regime iraniano pode cair
[03:02:55] mas
[03:02:57] quanto mais o Brasil
[03:02:59] ficar fora dessas
[03:03:01] questões melhor
[03:03:03] porque apesar da tensão na Venezuela
[03:03:05] o Trump
[03:03:07] o triunfo brasileiro
[03:03:09] é o não envolvimento
[03:03:11] em conflitos
[03:03:13] armados
[03:03:15] a interferência em outras nações
[03:03:17] o Brasil não está interferindo
[03:03:19] em nenhuma nação
[03:03:21] a reputação do Brasil
[03:03:23] é muito boa
[03:03:25] muito boa
[03:03:27] eu vivo fora
[03:03:29] faz tempo
[03:03:31] e o país
[03:03:33] sobretudo depois da
[03:03:35] atuação no ano passado em relação aos Estados Unidos
[03:03:37] quanto menos envolvimento melhor
[03:03:41] eu espero muito
[03:03:43] que os candidatos
[03:03:45] das eleições não façam grandes pronunciamentos
[03:03:47] sobre o que acontece aqui ou lá
[03:03:49] é melhor
[03:03:51] fazer tudo com calma
[03:03:53] é isso
[03:03:55] mas eu acho que vai ser um ano
[03:03:57] muito turbulento
[03:03:59] geopoliticamente falando
[03:04:01] acho que a gente está só no começo
[03:04:03] afinal de contas
[03:04:05] na
[03:04:07] Venezuela pode perfeitamente
[03:04:09] se a Delcy Rodrigues não entregar o que o Trump
[03:04:11] pedir ele pode derrubar ela
[03:04:13] pode ter um golpe interno
[03:04:15] do Deus lá do cabelo
[03:04:17] do chefe das forças armadas derrubando ela
[03:04:19] aí os Estados Unidos se vê obrigado a invadir
[03:04:21] novamente
[03:04:23] então é uma situação muito perigosa
[03:04:25] na Venezuela
[03:04:27] Oliver obrigado demais aí pelo palco
[03:04:29] que isso obrigado pelo convite
[03:04:31] agora é a hora de você passar seus canais
[03:04:33] redes sociais
[03:04:35] e quando acontecer alguma coisa
[03:04:37] a gente vai para lá
[03:04:39] se acontecer alguma coisa lá nos Estados Unidos
[03:04:41] Instagram, TikTok e X
[03:04:43] antigamente o Twitter são essas três principalmente
[03:04:45] eu posto todos os vídeos também no
[03:04:47] Substack não sei se faz uma newsletter
[03:04:49] aí recebe por e-mail
[03:04:51] e o sobrenome dele está escrito
[03:04:53] no título para você não errar
[03:04:55] isso aí
[03:04:57] STUNKEL
[03:04:59] STUNKEL
[03:05:01] STUNKEL
[03:05:03] eu estou lendo lá na placa STUNKEL
[03:05:05] STUNKEL
[03:05:07] Fale aí
[03:05:09] como que é
[03:05:11] STUNKEL
[03:05:13] ele acertou
[03:05:15] tá certo então obrigado demais Oliver obrigado a você que esteve aqui com a gente
[03:05:17] agradecer nossos patrocinadores não é isso aí
[03:05:19] estratégia concursos
[03:05:21] contabilizei também
[03:05:23] a Insider nossa parceira
[03:05:25] sempre aqui comigo né
[03:05:27] é isso aí
[03:05:29] e já falei aqui já cantei a bola para ele
[03:05:31] acontecer alguma coisa a gente vai lá para Washington nós três
[03:05:33] bora lá cara tem lugar lá?
[03:05:35] como chama lá na edícula né
[03:05:37] não sei se tem edícula lá né
[03:05:39] que nem aqui no Brasil
[03:05:41] não então eu só queria dizer isso como última coisa
[03:05:43] a gente acabou alugando uma casa maior
[03:05:45] porque eu queria muito receber assim
[03:05:47] familiares assim
[03:05:49] os primos do meu filho etc
[03:05:51] agora o pessoal
[03:05:53] não quer ir
[03:05:55] nem churrasco que veio não
[03:05:57] é pois é
[03:05:59] a gente esperava assim
[03:06:01] todo mundo vindo para Páscoa
[03:06:03] meu filho vai fazer quatro anos
[03:06:05] a gente ia fazer um grande encontro
[03:06:07] mas pelo visto a gente vai fazer aqui
[03:06:09] vai ter que adiar
[03:06:11] ou fazer aqui
[03:06:13] então assim será um grande prazer recebê-los
[03:06:15] vamos lá se acontecer alguma coisa a gente pinta lá
[03:06:17] obrigado Oliver então vamos é contigo aí cara
[03:06:19] é a hora de você brilhar
[03:06:21] agradecer demais para você que chegou no final desse papo
[03:06:23] se você ainda não deu o seu like
[03:06:25] você está pangando
[03:06:27] não custa nada deixar o like e se inscrever
[03:06:29] é isso aí ajuda a gente a bater os 6 milhões né
[03:06:31] isso o que o pessoal escreve nos comentários para provar
[03:06:33] chegou até o final dessa live
[03:06:35] chegou no final coloca aí
[03:06:37] flamenguista requintado
[03:06:39] flamenguista requintado
[03:06:41] nos comentários descobrimos que Oliver
[03:06:43] é flamenguista em
[03:06:45] sem camisa no maracas
[03:06:49] essa cena tem que ser registrada um dia
[03:06:51] xingando o juiz
[03:06:53] seu juiz bobo
[03:06:55] não pode
[03:06:57] seu patife
[03:06:59] ignóbil
[03:07:01] eu não consigo
[03:07:03] imaginar ele
[03:07:05] falando palavrão
[03:07:07] vamos lá
[03:07:09] vamos junto
[03:07:11] eu topo demais
[03:07:13] estou esperando meu filho chegar uns 6 anos
[03:07:15] essa idade já começa a ser legal
[03:07:17] meu filho curte muito ir no estádio comigo
[03:07:19] é ótimo
[03:07:21] obrigado demais então fiquem com Deus
[03:07:23] beijo no cotovelo e tchau e que bom que vocês vieram
[03:07:25] fui
[03:07:27] as opiniões e declarações feitas pelos entrevistados
[03:07:29] do inteligência limitada são de exclusiva responsabilidade
[03:07:31] deles e não refletem necessariamente a posição do apresentador
[03:07:33] da produção ou do canal o conteúdo aqui exibido
[03:07:35] tem caráter informativo e opinativo
[03:07:37] não sendo vinculado a qualquer compromisso com a veracidade
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[03:07:41] caso você se sinta ofendido ou tenha qualquer questionamento
[03:07:43] sobre as declarações feitas neste vídeo
[03:07:45] por favor entre em contato conosco para esclarecimentos
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[03:08:05] se inscreva no canal e ative as notificações
[03:08:07] até a próxima