Notas do Subsolo: Uma Análise Filosófica


Resumo

Este episódio do podcast Filosofia Vermelha é dedicado à análise da obra ‘Notas do Subsolo’ de Fyodor Dostoiévski. O apresentador destaca a originalidade e o caráter revolucionário do livro, que antecipa muitos temas do existencialismo e explora questões filosóficas profundas como liberdade, identidade, culpa e as relações humanas. A obra é apresentada como um espelho ampliado da condição humana, onde o protagonista, um ‘paradoxista’, serve de exemplo para reflexões sobre a consciência excessiva e seus desdobramentos.

A discussão percorre a profundidade psicológica dos personagens de Dostoiévski, traçando paralelos com pensadores como Søren Kierkegaard e Friedrich Nietzsche, que reconheceu uma afinidade imediata com a obra. Também é abordada a análise de Sigmund Freud, que via em Dostoiévski quatro facetas: o artista criativo, o neurótico, o moralista e o pecador. O episódio explora como ‘Notas do Subsolo’ influenciou posteriormente autores como Franz Kafka, especialmente na representação da transformação e da alienação.

O foco central está no protagonista anônimo, que se autodenomina ‘paradoxista’, e sua luta com uma consciência amplificada que o paralisa e o leva a comportamentos autodestrutivos. São examinados trechos emblemáticos, como a recusa em tratar uma doença como ato de liberdade, o ressentimento que perdura por décadas após ofensas mínimas, e situações humilhantes que ele busca ativamente, como o desejo de ser atirado pela janela de uma taverna. Essas passagens ilustram a tese de que a consciência extrema é uma doença que impede a ação direta.

O episódio também comenta a estrutura da obra, dividida em duas partes, onde a segunda serve para exemplificar, através de episódios concretos, os princípios abstratos apresentados na primeira. A narrativa do jantar com ex-colegas e o encontro com a prostituta Lisa revelam a incapacidade do protagonista de conviver socialmente e sua espiral de solidão. Por fim, o apresentador reflete sobre como a obra funciona como uma lupa que exagera características humanas fundamentais, questionando modelos utópicos de sociedade que ignoram a natureza inconstante e pouco honesta do homem.


Indicações

Books

  • Filosofia para a Vida, Quando Pensar é o Melhor Remédio — Livro do apresentador publicado pela editora Vozes, que propõe a filosofia como terapia para a alma, ajudando a lidar com dificuldades humanas não patológicas.

Courses

  • Filosofia Conosco — Cursos de filosofia oferecidos pelo projeto, com acesso vitalício e cupons de desconto por tempo limitado, para introdução e aprofundamento em temas filosóficos.

Music

  • Morning Mood de Edvard Grieg — Trecho da suíte ‘Peer Gynt’ tocado durante a pausa musical do episódio, para revigorar a concentração dos ouvintes.

People

  • Sigmund Freud — Mencionado por sua análise da personalidade de Dostoiévski, identificando quatro facetas: artista criativo, neurótico, moralista e pecador, e por considerar ‘Os Irmãos Karamazov’ o maior romance.
  • Friedrich Nietzsche — Citado por ter lido ‘Notas do Subsolo’ em 1887 e expressado uma afinidade imediata com Dostoiévski, reconhecendo uma profundidade psicológica compartilhada.
  • Søren Kierkegaard — Comparado a Dostoiévski por sua sensibilidade religiosa e antecipação de temas existencialistas.
  • Franz Kafka — Mencionado em relação a ‘A Metamorfose’, cujo tema de transformação em inseto ecoa a ideia de consciência amplificada que transforma o protagonista em um ‘camundongo’.
  • Sêneca — Citado pela espiral entre solidão e multidão, que descreve a dificuldade do protagonista em conviver socialmente.

Playlists

  • Clássicas Filosofia Vermelha — Playlist no Spotify com as músicas clássicas usadas nos intervalos dos episódios do podcast, acessível através do perfil do Filosofia Vermelha.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução à obra Notas do Subsolo de Dostoiévski — O episódio começa apresentando ‘Notas do Subsolo’ como uma das obras mais originais e revolucionárias da literatura, que aborda temas filosóficos como liberdade, identidade, culpa e relações humanas. O apresentador destaca que a obra antecipa o existencialismo e que, apesar de séria, contém momentos cômicos. Ele sugere que todos nós, em alguma medida, somos ‘homens e mulheres do subsolo’, identificando-nos com o protagonista.
  • 00:01:15Anúncio dos cursos de filosofia Filosofia Conosco — O apresentador faz uma pausa no conteúdo principal para promover os cursos oferecidos pelo projeto Filosofia Conosco. Ele menciona que os cursos fornecem acesso vitalício e que há cupons de desconto disponíveis por tempo limitado. Os links estão na descrição do episódio, incentivando os ouvintes a se inscreverem para estudar filosofia de forma aprofundada.
  • 00:01:48Lançamento do livro ‘Filosofia para a Vida’ do apresentador — O apresentador anuncia seu novo livro, intitulado ‘Filosofia para a Vida, Quando Pensar é o Melhor Remédio’, publicado pela editora Vozes. A obra propõe a filosofia como uma terapia para a alma, ajudando a lidar com dificuldades humanas que não são necessariamente patológicas. Ele incentiva a compra através do link da Amazon na descrição, o que também contribui para a manutenção do podcast.
  • 00:02:44Retorno ao tema: aspectos filosóficos de Dostoiévski — Após os anúncios, o apresentador retoma a discussão sobre ‘Notas do Subsolo’, focando nos aspectos filosóficos da obra de Dostoiévski. Ele destaca a profundidade psicológica dos personagens e os temas existenciais, comparando-o a Kierkegaard e antecipando o existencialismo. Também menciona outras obras como ‘Crime e Castigo’ e ‘O Idiota’ como exemplos da maestria do autor.
  • 00:03:43A afinidade de Nietzsche com Notas do Subsolo — O apresentador cita que Nietzsche leu ‘Notas do Subsolo’ em 1887 e expressou uma alegria imensa ao descobrir Dostoiévski, sentindo uma ‘afinidade imediata’. Isso é destacado como significativo, dado que Nietzsche também era conhecido por sua profundidade psicológica. A citação de Nietzsche ilustra o impacto que a obra teve sobre filósofos contemporâneos e posteriores.
  • 00:04:35A análise de Freud sobre Dostoiévski — Sigmund Freud analisou a personalidade de Dostoiévski através de sua biografia e obra, identificando quatro facetas: o artista criativo, o neurótico, o moralista e o pecador. O apresentador menciona que Freud considerava ‘Os Irmãos Karamazov’ o maior romance já escrito, equiparando Dostoiévski a Shakespeare. Essa análise psicanalítica reforça a complexidade do autor e sua relevância para a compreensão da mente humana.
  • 00:05:08Discussão específica sobre o protagonista de Notas do Subsolo — O foco se volta para o protagonista de ‘Notas do Subsolo’, um homem obcecado pelo livre-arbítrio que se identifica como ‘paradoxista’. Ele tem 40 anos e faz comentários cínicos sobre a vida após essa idade. O apresentador lê trechos que mostram o caráter estranho e autodepreciativo do personagem, que se vê como incapaz de se tornar ‘nem mau, nem bom’, refletindo uma crise de identidade profunda.
  • 00:06:42Comparação com Kafka e a consciência amplificada — O protagonista afirma ter uma ‘consciência amplificada’ que o transforma em um ‘camundongo’, em contraste com a metamorfose em inseto de Gregor Samsa em Kafka. O apresentador discute como essa consciência exagerada é vista como uma doença que impede a ação, pois o personagem acredita que pessoas de ação são ‘obtusas e limitadas’. Isso antecipa temas existencialistas sobre paralisia pela reflexão excessiva.
  • 00:07:27A consciência como doença e a paralisia da ação — O paradoxista afirma que ‘ter uma consciência profunda é uma doença’, levando à inação. Ele argumenta que, para agir, é preciso estar ‘completamente calmo e livre de respostas’, algo que sua consciência hiperativa não permite. O apresentador conecta essa ideia ao existencialismo, onde a reflexão extrema pode resultar em paralisia, impedindo escolhas e engajamento no mundo.
  • 00:08:39A falta de identidade e a busca por definição — O protagonista sofre por não ter uma identidade clara, a ponto de desejar ser chamado de ‘preguiçoso’ apenas para ter uma definição. O apresentador compara isso com tendências contemporâneas de pessoas que buscam diagnósticos ou rótulos para obter uma identidade. Isso ilustra a angústia existencial de não saber quem se é e a necessidade de ser reconhecido, mesmo que por características negativas.
  • 00:09:56O tema da culpa no protagonista — O protagonista se sente culpado ‘sem culpa’, segundo as leis da natureza, mas por motivos incomuns: por ser mais inteligente que os outros e por não ter generosidade. Ele se descreve como rabugento, rancoroso e indeciso, mas essa desagradabilidade é uma escolha filosófica. O apresentador lê trechos onde o personagem decide não tratar uma doença do fígado como exercício de liberdade, mostrando como o ressentimento guia suas ações.
  • 00:10:47A escolha de não se tratar como ato de liberdade — O primeiro parágrafo da obra é citado, onde o protagonista declara ser um homem doente, mau e sem atrativos, que sofre do fígado mas não se trata por raiva. Ele reconhece que isso prejudica apenas a si mesmo, mas insiste nessa postura como afirmação de sua vontade. O apresentador destaca isso como uma manifestação extrema de livre-arbítrio e ressentimento, onde o sofrimento autoinfligido torna-se uma forma de autonomia.
  • 00:12:13O ressentimento como característica central — O protagonista guarda ofensas por 40 anos, revivendo-as com detalhes cada vez mais vergonhosos e provocando-se com fantasias. O apresentador descreve como o ressentimento transforma eventos banais em traumas psicológicos duradouros. Isso é exemplificado posteriormente com a cena da taverna, onde um esbarrão sem malícia se torna uma obsessão vingativa.
  • 00:12:49Pausa musical com Morning Mood de Edvard Grieg — O episódio faz uma pausa para tocar um trecho de ‘Morning Mood’, do compositor norueguês Edvard Grieg, parte da suíte ‘Peer Gynt’. O apresentador incentiva os ouvintes a avaliarem o podcast com cinco estrelas e menciona a playlist ‘Clássicas Filosofia Vermelha’ no Spotify, onde podem encontrar mais músicas usadas nos intervalos.
  • 00:16:43Segunda parte da obra e situações humilhantes — Após a pausa, o apresentador explica que a segunda parte de ‘Notas do Subsolo’ relata situações que ilustram os princípios da primeira. O protagonista se coloca voluntariamente em situações humilhantes, como buscar libertinagem para sufocar seu interior. Um exemplo é o episódio em que ele deseja ser atirado pela janela de uma taverna, mostrando seu desejo por qualquer evento que quebre a monotonia.
  • 00:17:45O episódio da taverna e o desejo de ser atirado pela janela — O protagonista vê uma briga em uma taverna onde um homem é atirado pela janela e sente inveja, entrando no local na esperança de que o mesmo aconteça com ele. O apresentador ri ao descrever a cena, destacando a absurdidade do desejo. Isso exemplifica a psicologia do personagem, que busca experiências intensas, mesmo que humilhantes, para escapar de seu tédio e consciência opressiva.
  • 00:19:28O ressentimento transformando uma situação banal — Na taverna, o protagonista é movido de lugar por um homem que nem o nota, e isso gera um ressentimento profundo. Ele planeja uma vingança elaborada, incluindo uma carta de desafio para duelo (não enviada) e um plano para esbarrar no homem na rua. O apresentador mostra como uma interação insignificante se torna um evento central em sua vida psicológica, alimentando sua paranoia e necessidade de reconhecimento.
  • 00:20:18O plano de vingança e o esbarrão na rua — O protagonista faz um empréstimo para comprar roupas novas, a fim de estar apresentável para o esbarrão planejado, esperando criar uma cena pública. No final, ele consegue esbarrar no homem, que nem olha para trás, mas o protagonista interpreta isso como fingimento, acreditando que estão ‘quites’. O apresentador comenta a ironia: o adversário nunca soube de sua existência, mostrando a desconexão entre sua percepção e a realidade.
  • 00:21:11Dificuldades de convívio social e a espiral de solidão — O protagonista alterna entre se achar mais inteligente e mais burro que os outros, tornando o convívio social tenso e insuportável. O apresentador cita Sêneca sobre a espiral entre solidão e multidão. Isso é exemplificado quando o protagonista se convida para um jantar com ex-colegas que não gostam dele, acabando em humilhação, mas levando ao encontro com Lisa, uma prostituta que revela novos aspectos de sua interioridade.
  • 00:22:22O jantar com ex-colegas e o encontro com Lisa — O protagonista ouve ex-colegas planejando uma despedida e se convida para o jantar, comprometendo-se a pagar parte mesmo sem dinheiro. O jantar é um desastre, acrescentando humilhações, mas no final da noite ele conhece Lisa, uma jovem prostituta. Essa relação é brevemente mencionada como um momento que revela outras camadas de sua vida interior, embora não detalhada no episódio.
  • 00:23:31Considerações finais: a obra como lupa para a natureza humana — O apresentador conclui que ‘Notas do Subsolo’ funciona como uma lupa que exagera características humanas para que possamos vê-las melhor. O paradoxista afirma ter levado às últimas consequências o que outros não ousam levar à metade, acusando-os de covardia disfarçada de bom senso. A obra questiona modelos de sociedades ideais, argumentando que ignoram a natureza inconstante e pouco honesta do homem, que muitas vezes valoriza mais o processo de busca que o objetivo em si.

Dados do Episódio

  • Podcast: Filosofia Vermelha
  • Autor: Glauber Ataide
  • Categoria: Society & Culture Philosophy
  • Publicado: 2026-02-02T09:00:00Z
  • Duração: 00:26:23

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Olá, amigos e amigas do Saber! No episódio de hoje, vamos falar sobre Notas do Subsolo

[00:00:07] de Fyodor Dostoevsky. A obra é considerada uma das mais originais e revolucionárias

[00:00:13] da literatura, apresentando diversos temas filosóficos e antecipando os romances existencialistas.

[00:00:22] Várias passagens e situações na vida de seu protagonista nos convidam a refletir sobre

[00:00:28] liberdade, identidade, culpa, relações com os outros e as desvantagens de uma consciência

[00:00:35] muito aguçada. A obra é séria, mas não podemos evitar sorrir ou mesmo dar gargalhadas

[00:00:43] em alguns pontos da obra. Algo que Freud explica é que nos identificamos e nos vemos

[00:00:50] amplificados neste personagem. Todos nós somos, em alguma medida, homens e mulheres

[00:00:57] do subsolo. Então vamos lá, acompanhem! Antes de iniciar um breve recado, se você

[00:01:15] deseja uma introdução geral à filosofia ou gostaria de se aprofundar em temas específicos,

[00:01:21] estude Filosofia Conosco. Os links para os nossos cursos estão na descrição deste

[00:01:25] episódio. E lembrando que estes links já possuem cupons de desconto, mas eles duram

[00:01:31] apenas alguns dias. É importante ressaltar também que todos os nossos cursos oferecem

[00:01:37] acesso vitalício. Mesmo que você não pretenda começar agora, você já pode fazer sua inscrição

[00:01:43] e garantir seu acesso para iniciar quando quiser. E o nosso segundo recado é que, se

[00:01:48] você acompanha nosso podcast, sem dúvida alguma gostará também do meu novo livro.

[00:01:54] Intitulada Filosofia para a Vida, Quando Pensar é o Melhor Remédio, a obra foi publicada

[00:02:00] pela editora Vozes e tem por objetivo resgatar a prática filosófica enquanto terapia para

[00:02:07] alma. Eu mostro neste livro que, através da filosofia, podemos lidar com diversas dificuldades

[00:02:13] da vida que, longe de serem patológicas, são apenas parte do que significa ser humano.

[00:02:21] Nem todo o desconforto da alma é uma doença. Você pode adquirir a obra em praticamente

[00:02:26] qualquer livraria física de sua cidade ou através de inúmeros sites, inclusive através

[00:02:32] do link da Amazon que você encontra na descrição deste episódio. E lembrando que, ao adquirir

[00:02:37] a obra através deste link da Amazon, você contribui diretamente na manutenção do podcast.

[00:02:44] Voltemos então ao nosso tema Notas do Subsolo. Gostaria de ressaltar neste episódio, sobretudo,

[00:02:50] os aspectos filosóficos da obra de Dostoievski. Duas características do autor que mais me

[00:02:56] chamam atenção são a profundidade psicológica de seus personagens e os temas filosóficos

[00:03:03] e existenciais em suas tramas. Dostoievski compartilha com Soren Kierkegaard, por exemplo,

[00:03:10] uma forte sensibilidade religiosa, além de antecipar vários temas da filosofia existencialista.

[00:03:19] Obras como Crime Castigo, por exemplo, têm como pano de fundo questões éticas e religiosas

[00:03:24] profundas, enquanto clássicos como O Idiota alcançam uma profundidade psicológica como

[00:03:31] poucos autores são capazes de fazer. Dostoievski se tornou mais conhecido no ocidente apenas

[00:03:37] depois da Primeira Guerra Mundial. O filósofo alemão Nietzsche leu, no entanto, a obra

[00:03:43] Notas do Subsolo já em 1887 e Nietzsche afirmou o seguinte, vejam só, eu nem conhecia o

[00:03:52] nome Dostoievski algumas semanas atrás. Um esticar de braços acidental trouxe a minha

[00:03:59] atenção Les Prez Sotérin, uma obra recentemente traduzida para o francês. O instinto de afinidade,

[00:04:07] como alguém poderia chamá-lo, aflorou imediatamente. Minha alegria foi imensa,

[00:04:13] fecha aspas. Então, como podemos ver, Nietzsche, filósofo também caracterizado por uma profundidade

[00:04:20] psicológica reconhecida até mesmo por Sigmund Freud, Nietzsche sentiu uma afinidade imediata ao ler

[00:04:28] Notas do Subsolo. E por falar em Freud, o pai da psicanálise analisou a personalidade de Dostoievski

[00:04:35] a partir tanto de sua biografia quanto de sua obra. Para Freud, a rica personalidade do autor russo

[00:04:44] poderia ser apresentada em quatro facetas, o artista criativo, o neurótico, o moralista e o pecador.

[00:04:53] Os irmãos Karamazov era para Freud o maior romance já escrito, e Dostoievski não estaria muito

[00:05:01] atrás de nomes como William Shakespeare na opinião de Freud. Mas vamos falar agora especificamente

[00:05:08] sobre a obra sobre Notas do Subsolo. Vejam, essa obra nos apresenta um protagonista obcecado por

[00:05:16] livre-arbítrio. Em momento algum ele nos diz o seu nome, mas ao final nós descobrimos que ele se

[00:05:24] identifica como paradoxista. Ele nos conta ter 40 anos de idade, mas faz também a seguinte observação,

[00:05:32] vejam só o que ele diz sobre ter 40 anos de idade ou mais. E 40 anos é toda uma vida, é a velhice mais

[00:05:42] avançada. Depois dos 40 é indecoroso viver, é vulgar, imoral. Quem vive além dos 40? Respondam-me

[00:05:52] sincera e honestamente, pois vou lhes dizer quem vive, os tolos e os canales. Fecha aspas. Vejam,

[00:06:00] gente, isso já nos dá uma ideia de quão estranho é este personagem, porque ele está falando

[00:06:07] sobretudo sobre si mesmo. Agora, ele nos conta a história de sua vida para descrever sua

[00:06:13] transformação. Ele deseja mostrar que ele também é um produto de seu tempo, das circunstâncias e de

[00:06:21] sua sociedade. Ele se expressa assim, abre aspas, não apenas não consegui tornar-me cruel, como

[00:06:28] também não consegui me tornar nada, nem mau, nem bom, nem canalha, nem homem honrado, nem herói,

[00:06:35] nem inseto. Fecha aspas. Observe que o tema da transformação em inseto seria abordado décadas

[00:06:42] mais tarde por Franz Kafka, em sua obra A Metamorfose, na qual o protagonista Gregor Sanz de

[00:06:49] fato se transforma em um inseto. Agora, aqui no Notas do Subsolo, o protagonista afirma possuir

[00:06:56] uma consciência amplificada. Mas essa consciência amplificada lhe transforma não em um inseto,

[00:07:04] mas em um camundongo. Em suas próprias palavras, abre aspas, um camundongo de consciência intensificada,

[00:07:12] que seja, mas de qualquer forma, um camundongo. Porém, temos aí também um homem e, consequentemente,

[00:07:19] tudo mais. Fecha aspas. Note que essa consciência exagerada é um problema. Ele afirma que gostaria

[00:07:27] de ser como uma pessoa comum destes chamados indivíduos e homens de ação direto, porque

[00:07:34] ter uma consciência profunda é uma doença. Vejam só, é uma questão bem interessante que

[00:07:39] autores existencialistas abordaram depois. Ter uma consciência profunda é uma doença. O paradoxista

[00:07:47] afirma o seguinte, abre aspas, quanto mais consciência eu tinha do bem e de todo esse belo

[00:07:54] e sublime, mais afundava no meu lodo e mais capaz me tornava de atolar-me nele completamente. Fecha

[00:08:03] aspas. Então note que sua consciência não lhe permite ser um homem de ação, porque, segundo ele,

[00:08:09] todos os indivíduos e homens de ação diretos são ativos precisamente porque são obtusos e

[00:08:17] limitados. Agora, alguém com uma consciência tão amplificada, por outro lado, não consegue agir,

[00:08:23] porque para se começar a agir é preciso que antes esteja completamente calmo e totalmente livre de

[00:08:32] respostas. Então vejam que muita reflexão pode levar a completa paralisia, a inação total.

[00:08:39] Perceba que esta falta de identidade dilacera o paradoxista. Ele não sabe como se apresentar

[00:08:47] à sociedade ou então a si mesmo, de modo que, mesmo uma característica reprovável,

[00:08:53] lhe deixaria satisfeito por pelo menos ser possível adjetivá-lo. Então vejam só o que ele afirma.

[00:09:00] Ele diz que se alguém lhe chamasse de preguiçoso, por exemplo, isso seria mais que agradável,

[00:09:06] porque isso mostraria que ele foi definido positivamente, que há o que dizer sobre ele.

[00:09:13] Ele diz o seguinte, abre aspas, um preguiçoso. Isso é de fato um título, uma função,

[00:09:20] é uma carreira, senhores. Fecha aspas. Isso parece ser cada vez mais comum em nossos dias.

[00:09:27] Todos nós conhecemos alguém que parece extrair certa satisfação em ser diagnosticado com algum

[00:09:35] tipo de transtorno e anunciar isso repetidas vezes em suas redes sociais. É como se o transtorno

[00:09:41] fornecesse identidade à pessoa. E vários temas da filosofia existencialista são antecipados

[00:09:56] às contas do subsolo e um deles é a culpa. O protagonista se sente culpado por tudo à sua volta,

[00:10:03] como ele diz, culpado sem culpa e de acordo com as leis da natureza. Agora, os motivos pelos quais

[00:10:11] ele se sente culpado não são os mais óbvios. Ele se sente culpado, em primeiro lugar, por ser

[00:10:17] mais inteligente do que todos os que o rodeiam e também por não ter nenhuma generosidade. Ele

[00:10:25] fala mal sobre si mesmo o tempo inteiro e nisso ele parece de fato sincero. Ele se revela como

[00:10:32] um indivíduo extremamente rabugento, rancoroso e indeciso, mas ser desagradável não é exatamente

[00:10:39] um traço de personalidade, mas é uma escolha filosófica. Logo no início da obra, ele deixa

[00:10:47] isso claro ao dizer que, embora tenha um problema de fígado, ele decidiu não se tratar a fim de

[00:10:54] exercer sua liberdade. Vamos ler o primeiro parágrafo da obra para ter uma ideia mais

[00:11:00] nítida sobre o que estamos falando. Ele diz o seguinte, abre aspas,

[00:11:04] Sou um homem doente. Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás,

[00:11:11] não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me trato,

[00:11:18] nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina. Além de tudo,

[00:11:24] sou supersticioso ao extremo. Bem, o bastante para respeitar a medicina. Tenho instrução

[00:11:31] suficiente para não ser supersticioso, mas sou. Não, senhores. Se não quero me tratar é de raiva.

[00:11:38] Isso os senhores provavelmente não compreendem. Que assim seja, mas eu compreendo. Certamente,

[00:11:46] eu não poderia explicar a quem exatamente eu atinjo nesse caso com a minha raiva. Sei

[00:11:52] perfeitamente que, não me tratando, não posso prejudicar os médicos. Sei perfeitamente bem

[00:11:58] que com isso prejudico somente a mim e a mais ninguém. Mesmo assim, se não me trato é de raiva.

[00:12:05] Se o fígado dói, que doa ainda mais. Fecha aspas. Note que o ressentimento é uma das

[00:12:13] principais características deste personagem. Ao sofrer uma ofensa, por exemplo, ele é um sujeito

[00:12:19] de consciência ampliada, um camundongo, humilhado, abatido e ridicularizado, ele fica por 40 anos

[00:12:27] lembrando a ofensa sofrida até nos últimos e mais vergonhosos detalhes, cada vez acrescentando

[00:12:35] uma conta própria por menores ainda mais vergonhosos e cassuando perversamente de si mesmo e provocando-se

[00:12:43] com a própria fantasia. Faremos agora a nossa clássica pausa musical a fim de que você absorva

[00:12:49] melhor o conteúdo exposto até agora e revigore a concentração para o restante do episódio.

[00:12:54] Vamos ouvir um trecho de uma composição que você muito provavelmente irá reconhecer. A Morning Mood

[00:13:01] é a compositor norueguês Grieg. Ela é parte da obra Piergant nº 1 opus 46. Edvard Grieg nasceu

[00:13:09] em 1843 em Bergen, na Noruega, onde também faleceu em 1907. Enquanto você aparecer essa música,

[00:13:17] avalie o nosso podcast com cinco estrelas no Spotify ou na plataforma através da qual você

[00:13:23] nos ouve. Assim, você contribui com este trabalho e nos ajuda a chegar a mais pessoas.

[00:16:01] Caso você tenha interesse em conhecer melhor as músicas que tocamos aqui nos intervalos dos

[00:16:29] vídeos, basta procurar pela playlist Clássicas Filosofia Vermelha no Spotify. Na terceira aba de

[00:16:36] nosso perfil no Spotify, há um link direto para essa playlist. Voltemos então ao nosso tema Notas

[00:16:43] do Subsolo. Vejam, a obra Notas do Subsolo é dividida em duas partes. E na segunda, o protagonista

[00:16:50] nos relata situações que servem como perfeitas ilustrações de alguns princípios apresentados na

[00:16:57] música. Nós podemos ver como o protagonista se coloca voluntariamente em situações humilhantes,

[00:17:05] como se sentisse certo tipo de prazer em seu próprio sofrimento e vexame. Ele afirma que

[00:17:13] sua vida é monótona e entediante e seu único refúgio é a leitura. Fora isso, ele precisava

[00:17:23] libertinagem, como ele diz, mesmo sentindo vergonha, medo e uma sensação de sujeira,

[00:17:30] buscando praticamente qualquer evento que pudesse lhe fazer esquecer ou sufocar o que se acumulava

[00:17:38] em seu interior. É nesse sentido que ele conta sobre o dia em que queria ser atirado pela janela.

[00:17:45] Vejam bem, você não ouviu errado. Ele queria ser atirado pela janela. Vejam só o que ele diz,

[00:17:52] uma noite, ao passar diante de uma pequena taverna, vi pela janela iluminada uns senhores brigando

[00:18:00] perto do bilhar, batendo-se com os tacos, e depois vi um deles ser atirado pela janela.

[00:18:06] Se fosse em outra hora, teria sentido asco, mas estava num momento tal que comecei a invejar o

[00:18:15] ator que foi atirado pela janela, a tal ponto que entrei na taverna na sala de bilhar. Quem sabe não

[00:18:23] me envolvo numa briga e também me atiram pela janela. Fecha aspas. Este é um dos trechos do

[00:18:30] livro que me levou as gargalhadas na primeira vez que eu li. Vejam, que tipo de pessoa tem uma tal

[00:18:38] energia. Quão estranho um indivíduo precisa ser para desejar ser arremessado pela janela. Agora,

[00:18:46] mesmo não tendo obrigado dessa vez, ele conseguiu, no entanto, uma humilhação que viria a lhe ocupar

[00:18:53] por muito tempo. Ele nos conta o seguinte, abre aspas. Eu estava parado junto ao bilhar e, sem

[00:19:00] notar, obstruí o caminho por onde ele precisava passar. Ele me pegou pelos ombros e, sem dizer

[00:19:07] nada, sem me prevenir ou dar uma explicação, moveu-me para outro lugar e passou como se nem

[00:19:14] me notasse. Eu o perdoaria, até mesmo se ele tivesse me esmorrado, mas não pude perdoá-lo por

[00:19:21] me haver movido do lugar sem nem ao menos se dar conta disso. Fecha aspas. Gente, o que aconteceu

[00:19:28] é que o ressentimento do protagonista transformou essa situação extremamente banal em um evento de

[00:19:35] grandes proporções em sua vida psicológica. Ele chegou até mesmo a escrever uma carta desafiando

[00:19:42] aquele homem da taverna para um duelo, mas ainda bem ele não chegou a enviar essa carta. E depois

[00:19:49] de ponderar sobre a melhor forma de se vingar, ele chegou à conclusão de que ele esbarraria com o seu

[00:19:56] agressor na calçada de uma avenida movimentada, como ele diz, ombro com ombro, o bastante para

[00:20:04] ele ir dentro das normas da decência, de maneira que ele se choque comigo na mesma medida que eu me

[00:20:11] chocar com ele. E o que se segue então parece um filme surrealista de Luis Buñuel. Os passos e

[00:20:18] reflexões para executar este plano exigem até mesmo que ele faça um empréstimo para comprar

[00:20:24] uma roupa nova e estar assim apresentável, porque se esse esbarrão na rua causasse uma cena e ele

[00:20:32] desnascesse o centro das atenções por alguns instantes, ele tinha que estar pelo menos bem

[00:20:37] vestido. No final de tudo, ele consegue esbarrar no indivíduo, mas o indivíduo nem mesmo olha para

[00:20:44] trás. E o nosso protagonista acha, no entanto, que foi apenas fingimento da parte dele, porque ele

[00:20:52] deve ter se ofendido com tal ato de bravura, e ele pensa que agora ambos estão quites em pé de

[00:20:58] verdade, nem desnecessário dizer que seu adversário nunca nem ao menos soube de sua

[00:21:05] existência. Como já deu para perceber, o convívio social desse protagonista é cheio de tensões. Na

[00:21:11] primeira parte da obra ele afirma que se reconhece como mais inteligente do que todos que o rodeiam,

[00:21:18] mas em certas circunstâncias ele se sente burro diante de pessoas normais. Vejam só o que ele

[00:21:25] afirma, abre aspas, pacientemente eu ficava ali sentado umas quatro horas junto a essas pessoas

[00:21:32] como um idiota, ouvindo-as sem coragem ou sem assunto para falar com elas. Sentia-me burro,

[00:21:39] vinham-me ondas de suor e parecia que estava tendo um ataque de paralisia, mas isso tinha o seu lado

[00:21:46] bom e útil, fecha aspas. Então percebam quão difícil é para ele ficar ao lado dos outros sem

[00:21:52] tensões. Ele se acha ou mais inteligente ou mais burro que todos. E essa busca por companhia é

[00:22:00] incompatível com suas habilidades sociais. Nós encontramos na vida do protagonista aquela espiral

[00:22:08] de que nos fala o filósofo romano Sêneca, segundo a qual a solidão nos faz desejar a multidão,

[00:22:14] mas esta nos conduz novamente a solidão. Então, por exemplo, certo dia o protagonista reencontrou

[00:22:22] uns amigos de escola com os quais não tinha uma boa relação e ele descobriu que esses ex-colegas

[00:22:30] estavam organizando uma despedida para um amigo dessa época. O paradoxista então ouviu a conversa

[00:22:37] e o que ele fez? Ele convidou a si mesmo para o jantar e ainda se comprometeu a contribuir

[00:22:44] financeiramente mesmo não tendo dinheiro. Então note a situação em que ele se colocou. Ele se

[00:22:51] convidou para um jantar com pessoas de que não gostava, as quais também não gostavam dele,

[00:22:57] e para isso ele ainda precisava conseguir dinheiro emprestado. O jantar foi obviamente um desastre em

[00:23:04] vários níveis e aspectos e acrescentou ainda mais humilhações à vida do protagonista,

[00:23:10] mas ao final da noite ele acabou conhecendo Lisa, uma jovem prostituta que revelará outros aspectos

[00:23:17] da sua vida interior. Vamos encaminhando então para as nossas considerações finais e o que é que

[00:23:31] podemos afirmar a guisa de conclusão. Vejam, as notas do subsolo são como uma lupa e fazem uso

[00:23:39] do exagero como recurso didático para que possamos ver melhor como todos nós somos.

[00:23:45] Nas palavras do paradoxista, abre aspas, eu apenas levei as últimas consequências na minha vida

[00:23:52] aquilo que os senhores não tiveram coragem de levar nem à metade e ainda por cima acharam

[00:23:59] que sua covardia era bom senso, consolando-se e enganando a si próprios com isso. Então perceba

[00:24:07] que ele fala não somente de suas experiências íntimas, mas generaliza características que nele

[00:24:15] apenas aparecem de maneira ampliada e exagerada. É neste sentido que ele afirma sua descrença

[00:24:21] em modelos de sociedades ideais, porque tais cálculos para sociedades perfeitas parecem

[00:24:28] não levar em conta traços fundamentais da natureza humana. Ele assim se expressa,

[00:24:33] mas como os senhores sabem que não só é possível, como também necessário, mudar assim o homem. De onde

[00:24:42] os senhores tiraram essa conclusão de que é tão necessário corrigir a vontade humana? Então na

[00:24:49] opinião do paradoxista, o homem é um ser inconstante e pouco honesto e talvez, a semelhança do jogador

[00:24:57] Andrés, goste apenas do processo de procurar atingir um objetivo e não do objetivo em si.

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[00:26:03] é o nosso endereço de e-mail filosofiavermelha arroba gmail.com. Um grande abraço e até o próximo.