Fodacionismo Climático (com Claudio Angelo)
Resumo
A conversa gira em torno do “Mapa do Caminho” proposto pelo Brasil após a COP em Belém: um roteiro (internacional e também doméstico) para orientar como os países podem superar a dependência de combustíveis fósseis, estabelecendo critérios, barreiras e facilitadores — algo como um manual de instruções para uma transição “justa, ordenada e equitativa”. Cláudio Ângelo reconstrói o contexto diplomático: a virada (ainda que limitada) na COP de Dubai, a reação contrária de países petroleiros, o apagamento do tema em Baku e o inesperado impulso político dado pelos discursos de Lula em Belém, que abriu espaço para a presidência da COP tentar manter o assunto vivo apesar do bloqueio nas negociações formais.
Ao longo do episódio, eles discutem por que as COPs frequentemente viram batalhas por linguagem (should vs shall) e por que, mesmo com metas “nacionalmente determinadas”, a diplomacia climática ainda cria constrangimentos e sinais para governos e mercados (ex.: padrões comerciais e pressão regulatória). Também entram nas recomendações do Observatório do Clima para o mapa nacional: criar um calendário para acabar com leilões de petróleo, reduzir a exposição da Petrobras a ativos encalhados, acelerar alternativas (biocombustíveis, hidrogênio verde) e encerrar subsídios e usinas a carvão — com horizonte compatível com a NDC até 2035 e ambição de emissões líquidas negativas em 2045.
Por fim, o episódio assume um tom mais político e psicológico: a perda de prioridade do clima nas elites e na mídia, a passagem do negacionismo ao fatalismo cínico e a formulação do termo “fodacionismo” (aceita-se a crise climática, mas aposta-se em se proteger e deixar o resto “se virar”). Eles conectam isso ao “realismo climático” (militarização, muros, disputa por recursos) e ao risco imediato de colapso agrícola e insegurança alimentar. Cláudio relata os impactos emocionais de anos cobrindo o tema e defende que a raiva — bem direcionada — pode ser um motor de mobilização política e social para impedir a ascensão de lideranças negacionistas/fodacionistas e pressionar por transição rápida.
Anotações
- 00:14:46 — Batalhas por linguagem na diplomacia Cláudio explica como pequenas mudanças de linguagem (should vs shall) em acordos internacionais criam constrangimentos legais e sinais para governos e mercados, mesmo que as metas sejam voluntárias.
- 00:22:37 — A virada inesperada do Lula Discutem como Lula foi assertivo sobre combustíveis fósseis em Belém, contrastando com seu discurso em Copenhague e a expectativa de que ele não tocaria no tema. Marina Silva é citada como principal influência.
- 00:26:00 — Mapa como ferramenta de imaginação O Mapa do Caminho é apresentado como essencial para que as pessoas visualizem como a transição pode acontecer, superando o fatalismo e a falta de imaginação sobre um mundo sem petróleo.
Indicações
Livros
- Overshoot (Wim Carton e Andreas Malm) — citado ao discutir o tamanho da interconexão do sistema financeiro com ativos fósseis (risco sistêmico na transição)
Filmes / Series
- Dr. Fantástico (Dr. Strangelove) — mencionado como metáfora da fantasia elitista de “bunkers” e sobrevivência seletiva diante do colapso
Artigos / Links
Linha do Tempo
- [00:00] — Abertura com o termo “fodacionismo” e apresentação de Cláudio Ângelo e do tema central (fósseis e urgência climática)
- [00:03] — Contexto: COP de Dubai, o “Balanço Global” e a primeira menção mais direta à transição para longe de combustíveis fósseis
- [00:05] — Reação de países petroleiros tentando relativizar/retroceder a decisão de Dubai e o apagamento do tema na COP de Baku
- [00:08] — COP em Belém: discursos de Lula, proposta de “Mapa do Caminho” e a estratégia da presidência da COP para tocar o tema fora do texto final
- [00:12] — Por que a COP vira disputa de linguagem (should vs shall) e como isso cria constrangimentos práticos via direito internacional e mercado
- [00:19] — “Buzz” e construção de coalizão: como o apoio à transição cresce (de poucos países para dezenas) apesar do bloqueio formal
- [00:25] — Dificuldade central: países produtores se veem como o “último vendedor de petróleo” e o risco sistêmico financeiro ligado a fósseis
- [00:32] — Recomendações do Observatório do Clima para o mapa brasileiro: calendário para fim de leilões, diversificação da Petrobras, corte do carvão, metas até 2035/2045
- [00:44] — Obstáculos internos: resistência do Ministério de Minas e Energia, atrasos e tentativa de diluir o mapa no planejamento “business as usual”
- [00:47] — Ano eleitoral e baixa prioridade política vs. realidade física: eventos extremos, pobreza e a necessidade de clima virar plataforma central
- [00:52] — Da negação ao fatalismo: Groenlândia, rotas do Ártico e o conceito de “fodacionismo”/“realismo climático”
- [00:57] — Clima como crise de comida: quebra de safra, preços, impactos na agricultura (soja, café) e espiral política pró-extrema-direita
- [01:03] — Impacto psicológico de cobrir COPs (tristeza, raiva) e defesa da raiva como energia de mobilização social e eleitoral
- [01:15] — Encerramento: o que é o Observatório do Clima e como o público pode pressionar ministérios e manter o tema vivo no debate cotidiano
Dados do Episódio
- Podcast: Calma Urgente
- Autor: Calma Urgente
- Categoria: News / Politics
- Publicado: 2026-02-12
- Duração: 1h18m
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/calma-urgente/2a566eb0-ddce-013c-5d0d-0acc26574db2/fodacionismo-clim%C3%A1tico-com-claudio-angelo/b164333a-1d5d-43b0-bde4-33851d5a6029
- UUID Episódio: b164333a-1d5d-43b0-bde4-33851d5a6029
Dados do Podcast
- Nome: Calma Urgente
- Tipo: episodic
- Site: https://calmaurgente.com
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Transcrição
[00:00:00] Eu tava tentando achar um nome pra isso, acho que o nome melhor é Fodacionismo.
[00:00:05] Eu assumo que a mudança climática é real, mas eu quero que vocês se fodam.
[00:00:12] Cara, eu vou te falar, esse termo que você acabou de criar, Cláudio, assim, por favor,
[00:00:19] bota pra fora, publica.
[00:00:25] Esse é o Cláudio Ângelo.
[00:00:27] Adequadamente coordenador de comunicação do Observatório do Clima e um jornalista com
[00:00:32] vasta experiência na cobertura das mudanças climáticas e dos impasses políticos que
[00:00:37] fazem com que a gente fique nessa suicida paralisia diante do problema.
[00:00:42] E eu chamei ele aqui pra gente conversar com alguma calma sobre o assunto mais urgente
[00:00:47] de todos os tempos, que é a necessidade imperativa de que a gente ache uma maneira
[00:00:53] como humanidade de se livrar da dependência de combustíveis fósseis o mais rápido possível.
[00:01:00] O que o Lula chamou na última Conferência do Clima, a que a gente recebeu aqui em
[00:01:05] Belém, de Mapa do Caminho, um planejamento objetivo de como realizar essa tarefa monumental.
[00:01:13] E é interessante falar isso porque muita gente acha que com o final da COP acabou
[00:01:17] a nossa presidência e é o oposto, é agora que a diplomacia brasileira assume
[00:01:21] o protagonismo no encaminhamento da próxima rodada de negociações na Turquia no final
[00:01:27] desse ano.
[00:01:28] Então a gente fala muito sobre o Mapa do Caminho e sobre o que a experiência do
[00:01:32] Ecláudio Ângelo diz sobre as grandes dificuldades que a gente vai ter pela frente,
[00:01:39] fala sobre como ele se sente sendo um cara tão mergulhado nesse assunto,
[00:01:43] causa os impactos subjetivos disso, e a gente fala sobre esse termo maravilhoso
[00:01:47] que ele criou e eu acho que define muita coisa no nosso tempo, que é o fodacionismo.
[00:01:53] Ou seja, como o negacionismo dos países ricos acabou migrando para um fatalismo
[00:01:59] cínico onde eles acham que só eles vão se salvar de uma catástrofe planetária.
[00:02:05] Então é sobre isso a nossa conversa, então espero que vocês recebam muito
[00:02:09] bem Cláudio Ângelo aqui em mais uma entrevista do Calma Urgente.
[00:02:17] Salve Cláudio, tudo certo contigo?
[00:02:21] Beleza Bruno.
[00:02:22] Estamos.
[00:02:23] Beleza.
[00:02:24] Tudo é muita coisa, né?
[00:02:25] Tudo é muita coisa.
[00:02:26] E certamente…
[00:02:27] Cláudio, falando de coisa fácil então, queria que você explicasse um pouco
[00:02:35] para o público, para as pessoas que sabem a expressão mas não sabem o significado
[00:02:39] dela, o que é Mapa do Ecláudio e qual a visão do observatório em relação
[00:02:46] aos próximos passos e as suas recomendações para isso.
[00:02:49] Tá.
[00:02:50] Quanto café você tomou?
[00:02:53] Porque eu posso dar uma resposta mais sintética e posso dar uma resposta mais longa e necessariamente
[00:03:01] mais entediante.
[00:03:03] Vamos indo e a gente vai navegando nesse mapa aí.
[00:03:06] Tá bom.
[00:03:07] Então vamos lá.
[00:03:08] Gibida Marvel, né?
[00:03:09] Que você tem que sempre ler as edições anteriores para entender o que está
[00:03:13] acontecendo agora.
[00:03:15] A história de clima é a mesma coisa.
[00:03:17] Então para entender o raio do Mapa do Caminho a gente precisa voltar a 2023, a Conferência
[00:03:23] do Clima de Dubai, a Conferência do Clima num país petroleiro, presidida por um CEO
[00:03:30] de empresa de petróleo, contando assim parece piada, mas foi isso mesmo que aconteceu.
[00:03:35] O presidente da COP de Dubai era um presidente de prezo de petróleo, da Adnok, empresa
[00:03:39] de petróleo de Abu Dhabi.
[00:03:43] E por uma dessas coisas da história, pela primeira vez em 28 anos de negociações multilaterais
[00:03:54] de combate à mudança do clima, aparece em Dubai, nesta COP improvável, num texto
[00:04:00] de negociação, chamado Balanço Global, a principal decisão daquela COP, a seguinte
[00:04:07] expressão, é, precisamos fazer uma transição justa, ordenada e equitativa para longe dos
[00:04:13] combustíveis fósseis, começando nesta década crítica.
[00:04:17] Aquilo, a gente achou um lixo na época, que texto fraco, coisa horrível.
[00:04:24] Eu me lembro que a gente ficou muito frustrados.
[00:04:27] A gente ficou muito frustrado.
[00:04:29] Eu, nessa COP, eu chorava todos os dias, todos os dias, eu tinha uma crise de
[00:04:36] E no final da COP, eu jurei que eu nunca mais voltaria na conferência do clima.
[00:04:41] Mal sabia eu, que é um pouco que nem a gente acha hoje do governo Dilma, do governo Temer.
[00:04:47] Do Alckmin.
[00:04:48] Temer, que saudade da Dilma.
[00:04:50] Aí entrou outro cara que saudade do Michel Temer.
[00:04:54] E a gente ficou com muita saudade da decisão de Dubai.
[00:04:57] Porque a gente viu que a decisão de Dubai era revolucionária somente depois
[00:05:02] que os países petroleiros começaram a se arrepender dela.
[00:05:06] Poucas semanas depois da COP de Dubai, Arábia Saudita, Iraque, Catar, e outros países,
[00:05:19] Índia, etc, meteram aquele enorme foi mal, estava doidão.
[00:05:23] Eu não sei onde é que eu estava com a cabeça quando eu concordei com esse negócio.
[00:05:28] Não podemos fazer isso.
[00:05:31] A Arábia Saudita já começou a dizer assim, não, mas veja bem, transição para longe dos
[00:05:35] combustíveis fósseis é apenas um dos tópicos de um menu de opções que a gente tem para fazer,
[00:05:41] que inclui triplicar a energia renovável, duplicar a eficiência energética, meter gás
[00:05:46] em tudo quanto é canto.
[00:05:47] A adição e não a transição, né?
[00:05:50] A adição e não a transição, aquela história.
[00:05:53] Exato.
[00:05:54] Então, assim, é como esses países começaram a querer relativizar aquela decisão,
[00:06:01] como se fosse opcional fazer uma transição para longe dos combustíveis fósseis.
[00:06:08] Corta para 2024, conferência de Baku, que não tratou disso, então não aparece
[00:06:13] combustíveis fósseis.
[00:06:15] O Brasil estava pronto para introduzir linguagens sobre combustíveis fósseis
[00:06:21] em um dos textos de negociação, mas não houve clima para isso em Baku.
[00:06:27] E aí o Brasil, que também é um país improvável para fazer essas coisas,
[00:06:33] naquele mesmo ano o Brasil publica a sua meta climática, a NDC, dizendo assim,
[00:06:38] o Brasil daria boas-vindas a um processo internacional que fixasse um calendário
[00:06:42] para a transição para longe dos combustíveis fósseis.
[00:06:46] E também, de novo, você lendo assim, fala, que bosta, né?
[00:06:50] Que coisa choxa, fraca, mas na verdade aquilo também foi um dispositivo meio revolucionário
[00:06:58] dentro dessa pasmaceira na qual os países tentam retroceder de acordo já feitos
[00:07:04] todos os anos.
[00:07:06] Então a gente usou isso de gancho com a presidência brasileira, que assumiria
[00:07:11] no ano seguinte da COP30, para falar, bom, vocês prometeram que o Brasil estava interessado
[00:07:18] em fazer a transição, então, por favor, vamos fazer a transição.
[00:07:22] E a presidência brasileira, a presidência da COP, assim, tá, é, sim, fomos nós.
[00:07:28] A gente realmente tem interesse em ter essa conversa, mas o clima lá fora está muito ruim.
[00:07:36] E aí veio o Trump.
[00:07:37] E aí o clima ficou muito ruim mesmo.
[00:07:42] Corta para Belém.
[00:07:44] Poucas semanas antes da COP30, ninguém tinha segurança de que haveria condições políticas
[00:07:54] para o Brasil fazer uma proposta em torno de trazer esse tema da eliminação dos
[00:08:00] combustíveis fósseis de volta para a mesa.
[00:08:04] E aí para a surpresa de 11 entre 10 observadores desse processo, o Luiz Inácio Mula da Silva,
[00:08:13] que duas semanas antes tinha liberado a exploração de petróleo na Foz do Amazonas,
[00:08:18] vai lá e faz, não um, mas três discursos antes da abertura da COP, mais um na abertura da COP,
[00:08:25] falando assim, precisamos de um mapa do caminho para orientar a transição.
[00:08:32] Ele não falou a transição para longe dos combustíveis fósseis, ele deu uma degradada
[00:08:37] nessa linguagem, ele falou assim para superar a nossa dependência de combustíveis fósseis
[00:08:41] e para zerar o desmatamento, são dois mapas do caminho.
[00:08:45] Então para finalmente responder a sua pergunta, o mapa do caminho, ele é um roteiro que
[00:08:51] vai ser construído ao longo deste ano de 2026, para que os países tenham critérios
[00:09:00] e conheçam quais são as barreiras, quais são os facilitadores, uma espécie de manual de
[00:09:05] instruções para você fazer a sua transição para longe dos combustíveis fósseis, porque isso
[00:09:11] não pode ser imposto aos países pelas regras do Acordo de Paris, tudo dentro do Acordo de
[00:09:16] Paris é nacionalmente determinado e os países que gostam de bloquear a discussão, eles jogam
[00:09:22] muito com isso, mas você está aqui querendo me impor coisa, é nacionalmente determinado,
[00:09:27] o que eu vou fazer, que nem criança, a escola fala, vai ser do meu jeitinho, a hora que eu quiser,
[00:09:33] a hora que for bom para mim, então é por isso que não tem calendário, não tem critério,
[00:09:39] não tem nada, então o que se está tentando agora é estabelecer esses critérios. Teve uma
[00:09:46] coisa importante em Belém a esse respeito, que o discurso do Lula, os discursos do Lula,
[00:09:51] abriram uma avenida de ação política para que o André Correia do Lago, presidente da COP,
[00:09:58] pudesse botar o assunto na mesa, porque agora havia respaldo, só que isso entrou na segunda
[00:10:09] semana de COP, no primeiro rascunho da chamada decisão, decisão mutirântica, decisão mais
[00:10:15] importante de Belém, tinha lá um texto sobre isso, falando de transição e mapas do caminho,
[00:10:21] e na mesma hora os países que nunca querem nada mesmo levantaram a mão e falaram que palhaçada
[00:10:29] é essa, isso aqui foi feito sem consulta, a gente não concorda com isso, tira esse negócio daí.
[00:10:35] Então o que sobrou na mão do André Correia do Lago no final, que a gente pode conversar
[00:10:41] depois, que eu acho que foi uma coisa muito esperta que ele fez, foi no discurso final dele,
[00:10:47] de encerramento da COP, ele fala assim, ó, eu percebi que existe um clima de muita receptividade,
[00:10:58] meio como quem diz assim, essa é uma ideia cujo tempo chegou, então eu vou criar esses
[00:11:03] roadmaps de ofício, esses mapas do caminho, vou criar aqui, como se eu fosse o Alexandre
[00:11:09] Lourais, entendeu, mandando investigar fake news, vou criar esse negócio de ofício e
[00:11:17] decisão monocrática e vou usar os meus poderes, presidente da COP para desenhar esse roteiro
[00:11:21] daqui até o final da minha presidência, presidência brasileira se encerra em novembro.
[00:11:27] Isso é uma coisa muito importante que acho que pouca gente sabe, a presidência dele
[00:11:32] passou na COP, não acabou na COP, ele tem esse ano todo para passar o bastão para o próximo
[00:11:39] presidente que a gente ainda não sabe quem vai ser, né? Um australiano, provavelmente.
[00:11:44] Exato, sabemos já, vai ser, eu não lembro o nome dele, mas é um turco.
[00:11:47] Um turco, ah, que eu li que ia ser um australiano, mas tá, mudou.
[00:11:52] É uma zona, presidência da COP é turca, mas a liderança das negociações é australiana.
[00:11:58] Tá, ok. Então é nisso que a gente tá, neste momento a presidência brasileira da COP 30 tem
[00:12:08] a caneta na sua mão para desenhar o mapa do caminho. O documento técnico é uma parte desse
[00:12:17] negócio, mas a gente entende, Bruno, que outra parte desse negócio é manter o buzz em torno
[00:12:24] dessa coisa, porque é muito difícil, a gente pode falar sobre isso também, é muito difícil que
[00:12:31] esse tema seja formalizado nas negociações, tem o menor clima para isso neste momento.
[00:12:36] Qualquer proposta sobre combustíveis fósseis que entrar em uma sala de negociação na
[00:12:47] ONU vai ser abatida na decolagem.
[00:12:50] Então vamos falar um pouco disso, acho que antes de entrar então nos detalhes das
[00:12:56] suas recomendações, no que você fez, tem dois pontos aí que me deixam muito aflito,
[00:13:01] isso aí que você compartilha exponencialmente a minha aflição, dado seu relato de chorar todos
[00:13:08] os anos em 23, mas que quando você me fala que na 28ª COP uma frase foi um ponto revolucionário e
[00:13:19] a batalha toda que eu vi esse ano e que você me descreveu é uma batalha por linguagem,
[00:13:25] é uma batalha por inserir frases em um texto. E é muito agoniante ver que em 28
[00:13:33] anos, eu me lembro de ver a Rio a 92, eu era jovem mas eu fui lá, eu entrei no salão,
[00:13:39] meu avô tava fazendo filme lá e tal, tava sendo cinegrafista lá, e eu lembro de ter
[00:13:45] muito claro já naquela época que o problema era os combustíveis fósseis. Então me deixa
[00:13:51] muito desistir, eu tinha 3 anos de idade, e eu me lembro e eu fico muito agoniante ver qual
[00:13:57] que é então, o que a gente tá fazendo então na COP, se a luta pela linguagem é tão
[00:14:03] difícil, imagina a implementação, se falar de mapa é tão interditado, o que que a gente
[00:14:11] tem a fazer de prático assim, você acha que eu te escutar um pouco sobre essa minha agonia?
[00:14:16] É assim, sim, são batalhas por linguagem, são batalhas por uma frase, são batalhas
[00:14:26] por coisas menores que uma frase, por onde tem um should, que é deveria você botar um shall,
[00:14:35] deverá. Isso em diplomacia faz toda a diferença do mundo, porque você vincula os países
[00:14:45] dentro de um arcabouço de direito internacional. Mas vincula mesmo? Mas vincula, porque ao mesmo
[00:14:54] tempo eu entendo que isso seria importantíssimo, mas quando você encerra falando que a decisão
[00:14:59] é sempre nacional, qual que é o vínculo entre essa linguagem e a prática? Talvez seja a minha
[00:15:05] pergunta. É, então, a gente pode também discutir se o direito internacional ainda vale alguma
[00:15:10] coisa nos dias de hoje. Mas assim, vamos por um momento a sumir que vale, que nem aquela coisa
[00:15:18] na CNTP, as condições normais de temperatura e pressão, a gente ainda vive num mundo baseado em
[00:15:23] regras no qual o direito internacional vale alguma coisa. O acordo de Paris, ele tem essa
[00:15:30] característica meio dual e isso foi feito de propósito para permitir que os Estados Unidos se
[00:15:37] juntassem ao acordo. Hoje em dia a gente olha para trás e fala, porra, talvez não precisasse
[00:15:47] ter chamado para a festa o cara, não ter mandado convite. A questão é a seguinte, essas regras
[00:15:54] internacionais, elas funcionam como um constrangimento aos países, porque você pode no
[00:16:05] limite, e é o que a União Europeia está fazendo agora, falar assim, olha, nós temos aqui um
[00:16:09] conjunto de regras acordadas internacionalmente de que nós vamos limitar o aquecimento global a
[00:16:17] um grau e meio e para isso nós vamos ter que cortar emissões. E quem não fizer,
[00:16:24] se você quiser exportar para mim um produto seu de alto teor de carbono, eu vou recusar com base
[00:16:30] no acordo de Paris. A União Europeia recusou o acordo do União Europeia Mercosul durante o governo
[00:16:36] de Bolsonaro exatamente porque o Brasil estava descumprindo o acordo de Paris. Então funciona
[00:16:43] como um, apesar de ser tudo nacionalmente determinado, você é livre para fixar suas
[00:16:51] metas, mas você é obrigado a concluir suas metas. Então o conjunto, isso é uma sinalização
[00:16:59] do mercado também. Então assim, eu acho que não é exagero dizer que a próxima vez que você
[00:17:07] entrar no Uber e for um BYD dolphin, você vai pelo menos em parte agradecer a convenção do clima
[00:17:14] da ONU por isso, porque essa exposão de carro elétrico, ela acontece porque existe no mundo um
[00:17:26] bolso jurídico, que por mais falho e frustrante que seja, deu o sinal de que, olha, os carros,
[00:17:36] a combustão precisa acabar, porque senão a gente vai tostar. Então é para isso que serve,
[00:17:40] né? É voluntário, nacionalmente determinado, etc. Mas você tem o valor do acordo de Paris,
[00:17:51] produzir esses sinais para os governos e para o mercado e um pouco tentar reorientar toda a
[00:17:58] economia. E meio que funciona, né, Bruno? Antes do acordo de Paris a gente estava no trajetório
[00:18:04] de aquecimento de 4 graus. E hoje está apenas em 2.8, 2.7, quase 3 graus. Se a gente contar os
[00:18:17] assuntos de retoalimentação do sistema climático pode ser mais do que isso, mas isso também é outra
[00:18:22] discussão. Então tem uma ser ventiga, né? A gente não vai ficar brigando por um chá ou um show
[00:18:30] da toa. Tem um sentido, tem um método nessa loucura de 31 anos que é a convenção do clima.
[00:18:38] Então vamos voltar para o mapa, deixa eu ver se eu entendi. Então é missão agora da
[00:18:44] presença da copy, barra brasileira, que é o desenho de um mapa que não está desenhado.
[00:18:50] Então eles vão estabelecer esse mapa e será um documento mais ou menos oficial para chegar na
[00:18:56] próxima copy, seja o que Deus quiser, ser interditado, não sei, mas vai existir esse
[00:19:02] frame para ser apresentado para a sociedade. E você acha que a missão desse frame, que é
[00:19:08] isso que você falou, ele precisa ter esse buzz, ele precisa ser um documento defendido
[00:19:12] pela sociedade, é mais ou menos isso que você imagina como missão para o ano para quem está
[00:19:17] fora da construção do mapa? Mais do que defendido pela sociedade, ele precisa ser percebido
[00:19:25] pelos países, pelos governos do mundo inteiro, como um assunto incontornável.
[00:19:30] E a gente viu isso acontecer em Belém. Do ponto de vista estritamente da negociação,
[00:19:37] muita gente consideraria Belém um fracasso completo e eu talvez seja uma dessas pessoas,
[00:19:42] porque de fato não saiu dali nada que aponta uma solução para a crise do clima. Teve
[00:19:49] decisões importantes, em transição justa, teve ali a criação do mecanismo de adaptar,
[00:19:54] dos indicadores de adaptação, mas assim, no duro no duro, resposta para a família que
[00:20:03] estava em casa em Porto Alegre, não tem ali. O que aconteceu de mais interessante em Belém?
[00:20:10] Foi tudo em volta da negociação. E eu acho que isso também se aplica à convenção do clima
[00:20:17] como em todas as coisas que acontecem em volta da negociação, os movimentos sociais que a
[00:20:22] negociação dispara são mais interessantes e efetivos que a negociação em si. Em Belém
[00:20:29] começa a COP com dois países interessados em transição energética, o Brasil, o Lula,
[00:20:34] e a Colômbia, que já desde 2022-2023 vem falando que precisa fazer a transição,
[00:20:41] que precisa acelerar a transição. A Colômbia prometeu, o presidente Gustavo
[00:20:45] Petro prometeu que iria parar a expansão de combustíveis fósseis na Colômbia. No dia
[00:20:51] seguinte, tomou uma patada das agências de rating, o crédito da Colômbia desceu para,
[00:20:59] sei lá, B-menos, C-menos por conta dessa declaração do Petro, mas a Colômbia
[00:21:06] tem sido muito consistente nisso. Então tinha dois países interessados nisso. Se você ia
[00:21:10] perguntar para a União Europeia, e não estou falando em tese, porque eu perguntei, e aí essa
[00:21:16] conversa de Mapa do Caminho, do Lula, e os europeus muito cautelosos, não, veja bem. A gente precisa
[00:21:26] manter essa bola rolando. Então eles não estavam interessados. Em 2025, Bruno,
[00:21:34] parecia que a gente era maluco falando de combustível fóssil, com os países, a sociedade
[00:21:40] não queria saber. Tinha uma minoria de organizações e a presidência da COP30 interessados nesse negócio.
[00:21:48] Nem o Lula sabia que ele estava interessado nesse negócio. Isso é uma coisa que aconteceu de última hora.
[00:21:55] Mas o Lula, sendo justo, acho que é pelo menos com o que ele já disse em outras COPs,
[00:22:03] ele foi muito assertivo em relação a combustíveis fósseis no Egito, em Copenhague, não?
[00:22:11] Ele não falava como anfitrião.
[00:22:14] Em Copenhague, não. Em Copenhague, o discurso dele foi maravilhoso.
[00:22:19] Foi maravilhoso.
[00:22:20] Foi maravilhoso.
[00:22:21] Eu lembro de ficar muito emocionado.
[00:22:24] Foi o discurso mais bonito de um chefe de estado que eu vi nessas conferências, uma história.
[00:22:30] Foi espetacular, de fato. Mas em Dubai, ele chegou a falar um pouco disso,
[00:22:38] porque a Marina Silva estava lá insistindo muito que ele falasse.
[00:22:41] Mas depois ele deu uma de Fernando Henrique. Esqueçam tudo o que eu falei sobre esse assunto.
[00:22:51] Um mês e pouco antes da COP, ele falou que nenhum país está pronto para sair com combustíveis fósseis.
[00:22:58] Falou que liberou a foz do Amazonas.
[00:23:03] Então ele vinha numa pegada que nada indicava que ele fosse fazer uma fala tão forte
[00:23:13] e tão assertiva sobre combustíveis fósseis em Belém.
[00:23:18] E fez. Tem muitas pessoas que têm mérito por isso, a principal delas, sem dúvida nenhuma,
[00:23:26] é a Marina Silva que tem sido absolutamente consistente sobre isso para variar.
[00:23:31] Marina é consistente, é quase um pleonado.
[00:23:37] Mas eu esqueci o que eu estava falando.
[00:23:42] Ninguém queria falar de combustíveis fósseis na COP do ano passado, na COP30.
[00:23:48] Ninguém queria falar. Aí chegaram Brasil e Colômbia e no final da COP era 84 países,
[00:23:52] inclusive a União Europeia, interessados nessa conversa.
[00:23:57] Então foi uma onda que começou a crescer muito em Belém.
[00:24:02] E é essa onda que a gente precisa manter durante 2025.
[00:24:08] A gente precisa fazer essa onda crescer, porque uma vez que a possibilidade de isso vingar na negociação formal,
[00:24:18] neste ano, eu diria que ela é nula.
[00:24:23] Apesar disso, se você tiver 80, daqui a pouco 92, 95, 110, 115, 120 países,
[00:24:35] interessados em ter essa conversa, vai ficar muito difícil para os russos, para os sauditas,
[00:24:45] dizerem não para esse negócio depois.
[00:24:47] Então eu acho que cercar esse bicho tornar a ideia de uma transição energética mais confortável
[00:24:58] e fazer esses países entenderem que ninguém vai exigir que eles desliguem todos os postos amanhã.
[00:25:07] Precisa ser uma transição manejada, e a gente precisa encontrar o dinheiro para fazer,
[00:25:12] para reduzir a vulnerabilidade dos países, para reduzir a vulnerabilidade do sistema financeiro.
[00:25:18] Isso tudo vai ter que ser muito bem coordenado, porque metade do sistema financeiro mundial
[00:25:24] está atrelada a combustível fóssil.
[00:25:26] Então se desliga a sal de arâmico num dia, no outro dia o HSBC cai.
[00:25:32] E aí é uma desgraça para todo mundo.
[00:25:34] É esse estudo mesmo?
[00:25:35] Tipo, metade do mercado financeiro está atrelado?
[00:25:38] Essa é uma cifra de dois pesquisadores suecos, o Wincarton e o Andras Malmert,
[00:25:44] servindo um livro espetacular chamado Overshoot, que eles dão esse número,
[00:25:48] é tipo metade do sistema financeiro.
[00:25:49] Claro, eu senti.
[00:25:54] A mobilização de capital é muito grande.
[00:25:57] Muito interconectado.
[00:25:59] Então essa é a ideia, você estabelece os critérios e estimula os países a começarem a fazer
[00:26:07] os seus próprios mapas do caminho.
[00:26:09] E tem uma coisa muito óbvia que quando você fala é que eu sinto que nem no nível político alto,
[00:26:15] mas é no nível rasteiro das nossas conversas mesmo de pessoas ansiosas.
[00:26:19] Quando a gente fala de combustível fósseis, as pessoas literalmente não imaginam como.
[00:26:24] Então se tiver um caminho, se tiver uma ideia, dá para fazer assim.
[00:26:31] É um ponto de partida gigantesco para isso se viabilizar na cabeça das pessoas,
[00:26:37] porque eu sinto que grande parte do nosso problema de ir à transição é um certo fatalismo
[00:26:44] por uma falta de imaginação e de visualização de como o mundo pode de fato ser um mundo diferente,
[00:26:50] de como é que a gente chega num ponto.
[00:26:52] Porque todo mundo me fala isso, tem que acabar com os combustíveis fósseis.
[00:26:56] E o seu carro é a quê? E o posto de gasolina? E a Petrobras?
[00:27:00] Então assim, tá aqui um desenho, né? Vamos começar a falar disso é como se fosse um plano de verdade, né?
[00:27:07] É isso, e aquela coisa que, olha, vai ser melhor para você, você reduz a sua exposição a ativos encalhados,
[00:27:17] você reduz a possibilidade do seu presidente ter que dormir de palitóis, sapato,
[00:27:22] porque ele pode ser sequestrado pelo Donald Trump amanhã ou depois.
[00:27:26] Então assim, tem muitas vantagens, mas é difícil fazer os países enxergarem isso,
[00:27:32] especialmente países que acham, porque assim, eu nunca perguntei isso para a delegação saudita,
[00:27:41] mas eu não acho que os sauditas imaginem que eles vão viver para sempre de petróleo.
[00:27:47] O que os sauditas imaginam é que quando esse negócio acabar
[00:27:54] e quando a demanda tiver que ser reduzida em 80% em 2050,
[00:28:00] que é o cálculo que se faz para a gente chegar a zerar emissões líquidas em 2050,
[00:28:06] que é a única maneira da gente ter alguma esperança de não tostar neste planeta,
[00:28:10] a gente precisa reduzir em 80% a demanda de combustíveis fósseis no mundo.
[00:28:14] Até 2050.
[00:28:17] Os sauditas têm a extração de petróleo mais barata do mundo.
[00:28:24] Então o cálculo que eles fazem é assim, eu vou ser o last man standing,
[00:28:28] eu vou ser a última pessoa de pé vendendo petróleo quando todo mundo tiver quebrado,
[00:28:33] porque o preço vai cair tanto que não vai compensar.
[00:28:40] Então, e você pergunta para o Brasil quem vai ser o último produtor de petróleo de pé,
[00:28:48] e eles falam, claro que vamos ser nós, porque nós temos o petróleo mais bonito,
[00:28:54] cheiroso, leve e que tem menos carbono na produção.
[00:28:59] É made in Amazonia.
[00:29:01] Você pergunta isso para a Venezuela, a Venezuela não está em condição de dizer mais nada,
[00:29:08] claro que seremos nós, porque nós temos as maiores jazidas do planeta.
[00:29:12] Pergunta para a Rússia, os Estados Unidos, todos os países produtores de petróleo,
[00:29:17] acham que vão ser o último vendedor de petróleo do mundo.
[00:29:20] E é esse o problema que a gente tem.
[00:29:24] Ninguém quer dar o primeiro passo, porque todo mundo acha que vai ser o último,
[00:29:30] mas todo mundo já entende que a demanda está caindo.
[00:29:36] Você tem tecnologias muito competitivas entrando maciçamente no mercado hoje
[00:29:43] para reduzir consumo de petróleo.
[00:29:45] Mas a demanda está caindo mesmo,
[00:29:48] porque as curvas de aceleração, pelo menos até um ano atrás, dois anos atrás,
[00:29:51] são vertidinosas.
[00:29:53] Tem gente que diz que assim nós não estamos tendo uma transição,
[00:29:57] estamos tendo uma adição energética.
[00:30:00] Isso é verdade em muitos lugares, mas tem regiões, por exemplo,
[00:30:06] como a Europa, onde você já está tendo uma substituição de fato.
[00:30:10] É uma redução, e isso também com a questão de vulnerabilidade geopolítica,
[00:30:15] os europeus entenderam que não pode depender de combustível fóssil,
[00:30:18] porque a maioria dos países da Europa não tem combustível fóssil,
[00:30:22] eles dependem de importação, dependem da Rússia, dependem dos Estados Unidos,
[00:30:25] dependem dos árabes, enfim, esse monte de lugar total.
[00:30:27] Vulnerabilidade total.
[00:30:30] Do mundo, a Europa não é pioneira na transição energética
[00:30:34] porque ela quer ver um planeta verde, saudável,
[00:30:37] onde todo mundo sobrevive.
[00:30:39] Ela tem uma vulnerabilidade energética.
[00:30:43] Então tem questões de soberania energética, de independência e de custo,
[00:30:48] e já estão levando muita gente a reduzir a demanda por petróleo.
[00:30:52] Evidentemente, nós não chegamos no pico da demanda ainda,
[00:30:57] tem várias projeções possíveis de acordo com o cenário que você pinta
[00:31:01] de cumprimento do acordo de Paris de descarbonização,
[00:31:05] mas em algum momento, o pico já deveria ter acontecido,
[00:31:09] mas em algum momento, na próxima década,
[00:31:11] a gente vai ter o pico e o declínio da demanda de petróleo.
[00:31:15] Se der certo, se alguma coisa…
[00:31:19] Se as coisas continuarem indo mais ou menos nesse caminho.
[00:31:24] Mesmo com o Donald Trump, mesmo com o Putin,
[00:31:26] mesmo com os sauditas mandando…
[00:31:28] Mesmo com Trump e Putin, porque a China está inundando
[00:31:32] o planeta de tecnologia renovável barata.
[00:31:35] Hoje, a ponte mais barata do mundo para gerar eletricidade
[00:31:41] é o painel solar.
[00:31:42] Se você me perguntasse 10 anos atrás, nem para mim,
[00:31:47] quando você olha a primeira meta do Brasil, o NDC,
[00:31:52] ela assume, e os estudos que foram feitos antes do NDC,
[00:31:56] assumiam que o Brasil chegaria em 2020 e poucos
[00:32:01] sem nenhum carro elétrico,
[00:32:04] porque seria caro demais.
[00:32:05] A NDC do Brasil, a primeira de 2015,
[00:32:10] ela tinha uma previsão de entrada de energia solar na matriz,
[00:32:13] solar fotovoltaica,
[00:32:14] e já era menor do que a realidade dos leilões
[00:32:17] que já estavam instalando fotovoltaica no Brasil,
[00:32:20] que era pínols, era muito pouca coisa naquela época.
[00:32:23] Então, isso está entrando muito forte e muito barato.
[00:32:27] Então, tem uma razão econômica muito forte também
[00:32:31] para essas energias se disseminarem.
[00:32:35] Não é só político, tem algo racional no mercado mesmo.
[00:32:40] Então, vamos falar um pouco da visão do observatório,
[00:32:46] do clima, em relação ao mapa.
[00:32:49] Eu sei que vocês publicaram, há mais ou menos 15 dias,
[00:32:52] um documento de recomendações.
[00:32:55] Eu queria que se fizesse mais ou menos um sumário
[00:32:57] dos pontos mais importantes,
[00:32:59] aonde você acha que a sociedade civil e as ongues brasileiras
[00:33:02] têm a contribuir com a presidência brasileira
[00:33:05] em relação à construção do próprio mapa.
[00:33:07] As nossas recomendações foram para o mapa do caminho brasileiro,
[00:33:10] porque, como não estou confuso o bastante, são dois.
[00:33:13] São duas coisas, são dois mapas, verdade.
[00:33:15] Tem o Internacional, que está sendo conduzido
[00:33:17] pela presidência da COP30,
[00:33:20] pela Anatónia e pelo embaixador André Correia do Lago,
[00:33:22] e tem o mapa doméstico, que decorre diretamente
[00:33:28] da determinação do Lula,
[00:33:30] dos discursos do Lula de um mapa internacional.
[00:33:32] Mas o Brasil precisa também superar a sua dependência
[00:33:36] de combustível e esforças,
[00:33:38] portanto o Lula determinou no final do ano passado
[00:33:41] que o Conselho Nacional de Política Energética
[00:33:44] estabelecesse os critérios,
[00:33:46] fizesse o desenho de como seria essa redução
[00:33:51] da dependência das combustíveis fósseis,
[00:33:52] a superação da dependência das combustíveis fósseis no Brasil.
[00:33:59] Para absoluto desespero do Alexandre Silveira,
[00:34:02] Ministro de Minas e Energia,
[00:34:04] o Brasil está na maior produção de petróleo da sua história,
[00:34:09] foi no ano passado, recorde absoluto,
[00:34:12] nós éramos o 9º produtor, passamos para o 8º,
[00:34:16] a gente deve estar hoje em algo entre 7º e 6º,
[00:34:19] maior produtor de petróleo do mundo.
[00:34:21] E aí, no meio dessa festa,
[00:34:24] o seu chefe fala para você,
[00:34:27] Silveira, junta aí com seus maiores inimigos,
[00:34:30] Marina Silve e Fernando Aldade,
[00:34:32] para propor maneiras da gente diversificar
[00:34:37] e reduzir a nossa posição
[00:34:39] e superar a nossa dependência de combustíveis fósseis.
[00:34:43] Então, o Brasil está nessa, está tudo atrasado,
[00:34:46] o prazo era dia 6 de fevereiro,
[00:34:49] 6, 8 de fevereiro,
[00:34:51] para que quatro ministérios entregassem os termos de referência
[00:34:55] para a produção desse Mata do Caminho.
[00:34:58] E o que a gente fez,
[00:34:59] e só dando mais um passo atrás, Bruna,
[00:35:02] é isso que a gente espera que todos os países,
[00:35:04] essa é a reação que a gente espera de todos os países.
[00:35:07] Uma vez que tem um processo para o Internacional rolando,
[00:35:10] que os países olhem para dentro e falem,
[00:35:14] tá bom, deixa eu fazer o meu aqui.
[00:35:16] Então, o Brasil está fazendo,
[00:35:18] a Noruega tem discussões nesse sentido,
[00:35:20] o Reino Unido já prometeu que iria parar a expansão.
[00:35:24] E a Colômbia, evidentemente, é outro país,
[00:35:27] acho que são esses quatro que estão nesse movimento.
[00:35:30] Que estão trabalhando em um documento próprio.
[00:35:32] Estão trabalhando para isso.
[00:35:34] E aí, o Oficial Otário do Clima fez uma série de recomendações
[00:35:37] para o governo, para o Mapa do Caminho Nacional.
[00:35:41] Então, o que significa a gente superar
[00:35:44] a dependência de combustíveis fósseis no Brasil?
[00:35:46] Significa, por exemplo,
[00:35:48] acho que para mim essa é a medida mais importante,
[00:35:50] você começar a estabelecer um calendário
[00:35:52] para o fim dos leilões de petróleo.
[00:35:55] É uma sinalização de que o Brasil
[00:35:59] vai botar um horizonte na expansão.
[00:36:03] E, de novo, a expansão da produção de hidrocarbonetos,
[00:36:07] se você acreditar na Agência Internacional de Energia,
[00:36:10] é uma coisa que deveria ter parado em 2021.
[00:36:14] Não parou no mundo inteiro, ao contrário,
[00:36:17] os países estão acelerando.
[00:36:19] O Brasil tem uma expansão de hidrocarbonato,
[00:36:22] de produção maior que a da Arábia Saudita.
[00:36:25] Muito embora a expansão bruta mesmo, grosso,
[00:36:30] 70% dos novos postos de petróleo
[00:36:32] estejam sendo cavados em cinco países,
[00:36:35] todos desenvolvidos, Estados Unidos,
[00:36:37] Canadá, Noruega, Reino Unido e Austrália.
[00:36:40] Que vergonha.
[00:36:42] Enfim.
[00:36:43] 70%.
[00:36:45] Então, a gente propõe ao governo
[00:36:48] que comece a pensar num calendário
[00:36:51] para o fim dos leilões.
[00:36:52] Para mim essa é a medida mais importante,
[00:36:54] a recomendação mais importante,
[00:36:56] que a gente comece a pensar também
[00:37:00] em reduzir a exposição da Petrobras
[00:37:04] a ativos encalhados,
[00:37:06] porque essa coisa de que o Brasil achar
[00:37:08] que vai ser o último vendedor de petróleo do planeta
[00:37:10] é uma ilusão.
[00:37:12] E quanto mais cedo a Petrobras começar
[00:37:16] a diversificar o seu portfólio,
[00:37:19] menos ela estará exposta a choques
[00:37:22] no preço do petróleo,
[00:37:23] que causem problemas para a companhia,
[00:37:25] e a última coisa que qualquer brasileiro quer
[00:37:28] é que a Petrobras afunde.
[00:37:30] Pelo tamanho dela, ela é superimportante
[00:37:34] para a estabilidade econômica deste país,
[00:37:37] para os empregos que ela gera, enfim.
[00:37:40] Então, são essas as recomendações
[00:37:43] que a gente tirou de um estudo que a gente fez,
[00:37:47] 30 organizações da rede fizeram,
[00:37:49] que publicaram em 2024,
[00:37:52] que chamam de Futuro da Energia,
[00:37:54] e parte de modelagens e mostra
[00:37:57] como é que o Brasil poderia aproveitar
[00:37:59] coisas que o Brasil já tem,
[00:38:01] como biocombustíveis, hidrogênio verde,
[00:38:05] para reduzir a demanda,
[00:38:08] reduzir em 80% a demanda por combustíveis fósseis.
[00:38:12] E o Brasil é um dos países que estão
[00:38:14] mais bem posicionados para fazer isso,
[00:38:17] porque a nossa matriz elétrica
[00:38:19] já é muito descarbonizada.
[00:38:21] Muito diversificada também, né?
[00:38:23] Muito diversificada também.
[00:38:25] Então, a gente tem muita hidroelétrica,
[00:38:27] a gente tem muita eólica,
[00:38:28] a gente tem muita solar,
[00:38:30] tem termoelétrica a gás,
[00:38:32] tem termoelétrica, tem um monte de tranqueira também,
[00:38:35] mas a gente está vivendo no Brasil hoje,
[00:38:39] na verdade, o problema é oposto.
[00:38:42] Por conta de mau planejamento do sistema elétrico,
[00:38:44] tem energia renovável sobrando na matriz hoje.
[00:38:47] E o operador nacional do sistema
[00:38:48] está tendo que desligar de vez em quando,
[00:38:52] cortar, né?
[00:38:54] Chama de curtailment.
[00:38:56] Ele corta energia para a gente não ter estrago
[00:38:59] no sistema interligado por conta do excesso…
[00:39:01] Para não queimar o fusível.
[00:39:03] Para não queimar o fusível por conta do excesso
[00:39:05] de energia eólica e solar que está sendo gerada
[00:39:08] país afora, na minha casa, que inclusive.
[00:39:12] E mesmo assim a gente continua
[00:39:13] subsidiando o carvão mineral.
[00:39:16] Essas coisas que o Brasil,
[00:39:19] essa é uma das recomendações, inclusive,
[00:39:21] vamos desligar as usinas a carvão mineral,
[00:39:23] vamos parar de explorar carvão mineral no Brasil
[00:39:26] e cortar o fusível.
[00:39:27] E vocês estabelecem prazos?
[00:39:30] Você tem uma ideia de quando seria o ideal do Brasil
[00:39:34] parar de fazer a leilão?
[00:39:36] Ou você acha que essa é uma conversa
[00:39:37] que precisa ser feita necessariamente junto
[00:39:39] com os atores políticos?
[00:39:41] Eu teria que olhar o documento para ver essas datas,
[00:39:44] mas é tudo assim.
[00:39:47] Eu tô com ele aqui, eu tô lendo algumas coisas.
[00:39:51] Então você não repara se eu estiver olhando pro lado.
[00:39:54] A coisa do carvão acho que é 2027.
[00:39:56] Porque a gente aprovou uma lei no governo de Bolsonaro
[00:39:59] para estender os subsíduos ao carvão até 2040.
[00:40:04] Eu lembro disso.
[00:40:05] Que é uma loucura completa.
[00:40:09] O carvão está declinando até nos Estados Unidos.
[00:40:12] Até a Índia aceita uma redução.
[00:40:15] Até a China aceita uma redução gradual do uso de carvão.
[00:40:19] E o Brasil está estendendo os subsíduos ao carvão
[00:40:22] por mais 15 anos.
[00:40:25] É uma insanidade completa
[00:40:27] fruto de um lobby muito pontual,
[00:40:30] mas muito bem organizado
[00:40:32] do pessoal de Santa Catarina do Rio Grande do Sul.
[00:40:35] Acompanhei bem essa campanha aí.
[00:40:38] Então esse é um dos prazos.
[00:40:41] Eu realmente precisaria olhar o documento,
[00:40:43] mas é tudo no horizonte de…
[00:40:47] Essas coisas precisam acontecer até 2035.
[00:40:51] Porque 2035 é o ano da nossa NDC.
[00:40:56] E a nossa proposta é que o Brasil
[00:41:01] seja negativo em carbono já em 2045.
[00:41:05] A gente tem condição de fazer mais do que
[00:41:08] zerar as nossas emissões.
[00:41:11] A gente tem muita área para recuperar florestas
[00:41:16] e sequestrar carbono em recuperação de vegetação.
[00:41:21] E a gente tem também muito potencial
[00:41:28] de biocombustíveis com sequestro de carbono.
[00:41:32] Chamado BEX.
[00:41:34] Você faz emissão negativa.
[00:41:36] Você faz uma usina de álcool
[00:41:38] com captura de carbono.
[00:41:40] O álcool em tese…
[00:41:42] Volta uma parte do carbono.
[00:41:44] E você captura um pouco desse carbono.
[00:41:47] Então você está fazendo um sequestro líquido.
[00:41:50] Emissões negativas.
[00:41:51] Então o Brasil tem muita coisa que pode fazer
[00:41:54] para se tornar carbono negativo,
[00:41:56] expansão maciça de biocombustíveis,
[00:41:59] de novo hidrogênio verde.
[00:42:02] Tem muitas possibilidades.
[00:42:04] E possibilidades muito diversas.
[00:42:07] Então a gente tem esse horizonte até 2035
[00:42:11] para fazer essa redução de 80%
[00:42:15] do nosso consumo de combustíveis fósseis.
[00:42:18] Para que a gente chegue em 2045
[00:42:21] com emissões líquidas negativas.
[00:42:25] E vocês estão com uma boa interlocução
[00:42:28] com a elaboração do mapa nacional?
[00:42:31] Parece uma coisa que está sendo feita
[00:42:33] como uma sugestão à parte.
[00:42:35] É uma sugestão…
[00:42:36] Tem ideia do que o governo vai produzir?
[00:42:41] A gente não tem ideia.
[00:42:43] A gente sabe que meio ambiente e fazenda
[00:42:49] têm trabalhado juntos.
[00:42:55] Ninguém sabe ainda o que é que…
[00:42:58] Nem os termos de referência estão prontos,
[00:43:00] porque atrasou tudo.
[00:43:01] Então a gente não sabe o que eles vão propor no fim.
[00:43:10] Sabemos que um calendário para o fim dos leilões
[00:43:13] é uma proposta bastante ousada.
[00:43:16] Mas, de novo, a gente está dizendo
[00:43:19] que precisa ser feito do ponto de vista do clima.
[00:43:22] Porque a gente deve satisfações ao clima.
[00:43:29] O sistema político precisa correr atrás
[00:43:31] e fazer as coisas que vão resolver o problema.
[00:43:40] E tem o Ministério de Minas e Energia
[00:43:43] tentando diluir o mapa do caminho
[00:43:47] no planejamento energético nacional.
[00:43:51] Se isso acontecer, vai ser muito ruim.
[00:43:54] Porque o planejamento energético nacional
[00:43:56] é tipo business as usual.
[00:43:58] Não tem nada ousado.
[00:44:01] Eles não querem ouvir falar de limites
[00:44:04] à expansão da produção de petróleo.
[00:44:08] E termo elétrica também,
[00:44:10] que é um negócio privado gigantesco hoje no país.
[00:44:12] É, a questão é falar com as Minas e Energia.
[00:44:14] Quando a gente fez a proposta de meta
[00:44:17] para o Brasil em 2024,
[00:44:19] quando a gente foi falar com o Ministério de Minas e Energia,
[00:44:22] eles vêm com esses argumentos legalistas.
[00:44:24] Tipo, mas vem cá, a gente tem uma lei no Brasil
[00:44:27] para subsidiar a Carvão até 2040.
[00:44:29] O que vocês vão fazer com a lei?
[00:44:31] Cara, revoga.
[00:44:33] Derrubar ela, faz outra.
[00:44:35] Faz outra.
[00:44:37] E assim, o Ministério de Minas e Energia,
[00:44:39] ano passado, demitiu o secretário
[00:44:41] de Transição Energética.
[00:44:43] Então talvez, só talvez,
[00:44:45] ele não esteja muito interessado
[00:44:47] nessa conversa de transição.
[00:44:49] Porque vamos lembrar que o Ministro de Minas e Energia
[00:44:51] é o cara que, em 2023,
[00:44:53] na Cúpula da Amazônia,
[00:44:55] disse que os dados do IPCC
[00:44:57] são todos bobagem,
[00:44:59] que não é bem assim.
[00:45:01] Então é um proto-negacionista climático.
[00:45:07] E ano eleitoral, não é, Cláudio?
[00:45:09] O que não deixa coisa mais simples também
[00:45:11] de fazer o Mapa do Caminho, imagino.
[00:45:13] E de que maneira que você entende
[00:45:15] que o nosso calendário é político
[00:45:17] em função da construção do mapa?
[00:45:21] Olha, pode cortar de dois lados, Bruno.
[00:45:23] Eu acho que pode reduzir o apoio
[00:45:27] a uma proposta desse tipo.
[00:45:31] Mas pode também reduzir o oversight,
[00:45:35] a vigilância dos atores políticos
[00:45:37] sobre a área técnica.
[00:45:39] Então acho que as duas coisas
[00:45:41] podem acontecer.
[00:45:43] Mas de fato, neste ano de eleição,
[00:45:47] a nossa agenda,
[00:45:49] que já não é assim,
[00:45:51] uma prioridade no Mero Mundo do governo.
[00:45:53] Não é assim o BBB,
[00:45:55] não é o final do Brasileirão.
[00:45:57] Ela despenca.
[00:45:59] E aí, cara,
[00:46:01] se você perguntar para mim,
[00:46:03] em agosto, setembro,
[00:46:07] se eu prefiro
[00:46:09] botar todo o peso do mundo na agenda climática
[00:46:13] ou se eu prefiro impedir que a extrema-direita
[00:46:15] ganhe a eleição de novo
[00:46:17] e leve pro saco outra vez
[00:46:19] não só a agenda climática,
[00:46:21] mas o resto de todas as agendas do país,
[00:46:25] é óbvio que eu vou falar, pelo amor de Deus,
[00:46:27] não deixe a extrema-direita voltar.
[00:46:31] Então um pouco esse manejo de perspectivas
[00:46:35] que a gente precisa
[00:46:37] fazer ao longo desse ano.
[00:46:39] Mas por outro lado,
[00:46:41] a gente também não pode ignorar
[00:46:45] que qualquer…
[00:46:47] o clima, a atmosfera,
[00:46:51] ela não tá nem aí
[00:46:53] o resultado da nossa eleição.
[00:46:55] O clima vai continuar esquentando,
[00:46:57] brasileiros vão continuar morrendo
[00:46:59] em eventos climáticos extremos,
[00:47:01] pessoas pobres vão continuar ficando mais pobres,
[00:47:05] porque elas são atingidas
[00:47:07] por eventos climáticos extremos.
[00:47:09] Então no fundo,
[00:47:13] apesar dessa agenda
[00:47:15] estar tão distante
[00:47:17] das mentes dos políticos,
[00:47:19] ao mesmo tempo não dá pra você imaginar
[00:47:21] nada mais importante
[00:47:23] como plataforma política
[00:47:27] neste ano de 2026
[00:47:29] do que essa agenda,
[00:47:31] porque o que tá em jogo
[00:47:33] é a possibilidade da gente continuar
[00:47:37] na superfície, da gente continuar
[00:47:39] respirando,
[00:47:41] figurativamente,
[00:47:43] mas em alguns casos, literalmente,
[00:47:45] neste país.
[00:47:47] Essa é a minha desespero,
[00:47:49] de ver a COP com todo o bom trabalho
[00:47:53] feito pela presidência brasileira,
[00:47:55] essas coisas positivas que você aponta.
[00:47:57] A minha agonia é que isso tá
[00:47:59] quase que relegado à área diplomática
[00:48:01] e esse assunto
[00:48:03] não permeia Davos,
[00:48:05] onde os fóruns,
[00:48:07] onde o poder,
[00:48:09] o poder que executa ações,
[00:48:11] que não tem mapas,
[00:48:13] mas que tem o cacetete,
[00:48:15] que tem o cheque na mão.
[00:48:17] Eu sinto que é cada vez mais
[00:48:19] um não-assunto.
[00:48:21] Tem um grande descompasso
[00:48:23] que não é só combustível fóssil,
[00:48:25] mas é o próprio assunto
[00:48:27] da nossa climática.
[00:48:29] Ele parece meio datado,
[00:48:31] ou já entrou num certo fatalismo,
[00:48:33] nessas discussões de alta roda.
[00:48:35] E aí me parece essa,
[00:48:37] não digo nenhuma loucura,
[00:48:39] mas essa incompatibilidade
[00:48:41] muito radical entre o modelo mental
[00:48:43] baseado em índices econômicos
[00:48:45] e o modelo químico-físico
[00:48:47] da biosfera aqui, novamente.
[00:48:49] Não está debatendo.
[00:48:51] E pra mim,
[00:48:53] a coisa mais louca é exatamente essa.
[00:48:55] É como a mudança climática,
[00:48:57] os efeitos ambientais,
[00:48:59] é a parte que
[00:49:01] a economia entende como uma
[00:49:03] variável a ser negociada.
[00:49:05] E o crescimento econômico,
[00:49:07] as ações, o mercado financeiro,
[00:49:09] isso é o fixo que precisa
[00:49:11] ser preservado.
[00:49:13] Então essa inversão, pra mim,
[00:49:15] é o que angustia de ver essa conversa
[00:49:17] acontecendo no mesmo formato há 30 anos.
[00:49:19] Eles processam isso
[00:49:21] ainda como uma externalidade.
[00:49:23] Uma coisa que é externa economia.
[00:49:25] Na verdade, a atmosfera foi,
[00:49:27] até agora,
[00:49:29] uma espécie de
[00:49:31] fundo garantidor de crédito
[00:49:33] pro capitalismo.
[00:49:35] É o fiador, né?
[00:49:37] A atmosfera
[00:49:39] subsidiou o capitalismo
[00:49:41] durante 150 anos.
[00:49:43] E a gente está tendo que socializar
[00:49:45] esse preju agora.
[00:49:47] Nós somos os contribuintes que botaram
[00:49:49] o dinheiro lá no fundo garantidor de crédito,
[00:49:51] tomaram
[00:49:53] um toco do sistema
[00:49:55] bancário do capitalismo
[00:49:57] e agora estamos tendo que lidar com prejuízo.
[00:50:01] E assim você falou de Davos,
[00:50:03] eu estava lembrando,
[00:50:05] em 2019,
[00:50:07] foi a Greta em Davos falando
[00:50:09] nossa casa está em chamas
[00:50:11] e eu quero que vocês entrem em pânico.
[00:50:13] Em 2026
[00:50:15] é o Mark Carney,
[00:50:17] que é um banqueiro,
[00:50:19] e foi o cara que, enquanto era
[00:50:21] presidente do Banco da Inglaterra,
[00:50:23] foi o maior defensor
[00:50:25] do desinvestimento
[00:50:27] em fósseis,
[00:50:29] e aí virou Primeiro-Ministro do Canadá e falou
[00:50:31] pensando bem, estamos expandindo.
[00:50:33] Mas é o Carney falando que
[00:50:35] putz, precisamos,
[00:50:37] estamos numa ruptura, estamos vivendo
[00:50:39] uma ruptura, acabou
[00:50:41] aquela nossa ilusão
[00:50:43] da ordem global
[00:50:45] baseada em regras,
[00:50:47] toda aquela coisa da hipocrisia, do ocidente,
[00:50:49] etc.
[00:50:53] E nesse
[00:50:55] panorama, não é só no Brasil
[00:50:59] que essa coisa despenca de prioridade.
[00:51:01] A gente está vendo
[00:51:03] a imprensa britânica,
[00:51:05] saiu uma pesquisa poucos dias atrás,
[00:51:07] a imprensa britânica que era
[00:51:09] acho que o último bastião
[00:51:11] do progressismo climático
[00:51:13] na imprensa mundial,
[00:51:15] a mudança do clima caiu
[00:51:17] das primeiras páginas
[00:51:19] dos jornais.
[00:51:21] Eu lembro, se eu não me engano,
[00:51:23] foi em 2015, 2014,
[00:51:25] alguma coisa assim, que o Guardian
[00:51:27] fez clima a ser uma editoria em si.
[00:51:29] Não era mais uma pauta do
[00:51:31] caderno científico, eles criaram
[00:51:33] um departamento
[00:51:35] climático para cobrir,
[00:51:37] o que eu tomei com um grande…
[00:51:39] Foi isso, foi editorial de capa que o Alan Rusbiger
[00:51:41] publicou dizendo, olha,
[00:51:43] já falhamos, o jornalismo falhou
[00:51:45] esse negócio, então agora a gente
[00:51:47] tomou uma decisão de, show vou
[00:51:49] fazer só, literalmente, a gente vai botar
[00:51:51] esse negócio na capa
[00:51:53] do jornal.
[00:51:55] Isso sumiu e os empresários
[00:51:57] meio que estão tratando isso
[00:51:59] como essa moda aí
[00:52:01] de clima já foi.
[00:52:03] Passou, né? Passou.
[00:52:05] E eu sinto que tem uma outra questão,
[00:52:07] queria te ouvir sobre isso, que aí é um pouco
[00:52:09] mais apocalíptico,
[00:52:11] mas a sensação que dá
[00:52:13] é que a galera foi do
[00:52:17] negacionismo para o fatalismo
[00:52:19] sem nem tentar,
[00:52:21] sem passar pela tentativa,
[00:52:23] que eu acho que muitos
[00:52:25] países estão incluindo a
[00:52:27] catástrofe e a climática
[00:52:29] em seus mapas do caminho
[00:52:31] estratégicos pro século 21,
[00:52:33] aí muito mais em orçamento militar,
[00:52:35] investimento de tecnologia,
[00:52:37] e é fronteiras
[00:52:39] do que, vamos tentar não chegar
[00:52:41] naquele lugar ali, vamos tentar
[00:52:43] evitar de chegar no cataclisma.
[00:52:45] E essa sensação que me passa
[00:52:47] não só com o Trump, mas com Davos
[00:52:49] e tudo mais, é até no discurso do próprio
[00:52:51] Carney, porque quando ele fala isso
[00:52:53] foi um discurso muito poderoso, muito
[00:52:55] importante, mas é quando o Trump
[00:52:57] quis a Groenlândia, que é ali
[00:52:59] alto ocidente e tal,
[00:53:01] e o artigo ótimo que você escreveu,
[00:53:03] que você colocou, que ele não é um negacionista
[00:53:05] no final das contas, o Donald Trump.
[00:53:07] Ele fala pra fora que ele é, mas na
[00:53:09] prática ele quer a Groenlândia
[00:53:11] porque o artigo tá derretendo, porque ali
[00:53:13] vai virar rota navegável,
[00:53:15] exploratória e tudo mais.
[00:53:17] Eu queria que você falasse um pouco
[00:53:19] disso, se você acha que
[00:53:21] a gente já migrou de
[00:53:23] um negacionismo pra esse
[00:53:25] lugar que já assume que a
[00:53:27] esfera diplomática
[00:53:29] falhou.
[00:53:31] Eu tava tentando achar
[00:53:33] um nome pra isso, acho que o nome melhor
[00:53:35] é fodacionismo.
[00:53:37] Eu
[00:53:39] assumo que a mudança climática
[00:53:41] é real, mas eu quero que vocês
[00:53:43] se fodam.
[00:53:45] Cara, eu vou te falar, esse termo que você acabou
[00:53:47] de criar, Cláudio, assim,
[00:53:49] por favor,
[00:53:51] bota pra fora,
[00:53:53] publica.
[00:53:55] Porque é isso, cara, é assim,
[00:53:57] eu quero a Groenlândia
[00:53:59] e eu tenho interesse na segurança do artigo
[00:54:01] porque eu sei que aquele lugar tá derretendo.
[00:54:03] E que as rotas estão
[00:54:05] se abrindo e que isso vai ser cada vez
[00:54:07] mais ocupado.
[00:54:09] Eu tenho interesse em minerais estratégicos
[00:54:11] porque eu sei que em algum
[00:54:13] momento quem dominar
[00:54:15] as reservas desse negócio
[00:54:17] vai poder fazer frente à China, que a China
[00:54:19] produz 90% refina,
[00:54:21] 90% das terras raras no mundo.
[00:54:23] Então a lógica subjacente
[00:54:25] é toda
[00:54:27] de aceitar
[00:54:29] a realidade cataclísmica
[00:54:31] da mudança climática,
[00:54:33] achar que você é rico
[00:54:35] suficiente pra se proteger
[00:54:37] e achar que
[00:54:39] isso vai te dar leverage.
[00:54:41] Tem um artigo
[00:54:43] que foi a coisa
[00:54:45] de longe mais revoltante que eu li
[00:54:47] em 2025, de um cara que foi assessor
[00:54:49] não do
[00:54:51] Stephen Miller, mas ele foi
[00:54:53] assessor do John Kerry,
[00:54:55] publicou
[00:54:57] na revista do
[00:54:59] Council on Foreign Relations
[00:55:01] um artigo chamado
[00:55:03] É a Hora do Realismo Climático.
[00:55:05] O Realismo Climático
[00:55:07] tem um
[00:55:09] jogo de palavras aí
[00:55:11] que eles querem ser
[00:55:13] realistas sobre a realidade climática,
[00:55:15] mas também dialoga
[00:55:17] com a teoria realista das relações
[00:55:19] internacionais, que assim,
[00:55:21] quem tem mais armas…
[00:55:23] Que é uma teoria que está infelizmente
[00:55:25] sendo adotada com mais vigor
[00:55:27] nos últimos anos.
[00:55:29] O governo Trump me parece ser
[00:55:31] um caso perfeito de Realismo
[00:55:33] Climático
[00:55:35] na prática, porque ele está
[00:55:37] aumentando os muros,
[00:55:39] ele está aumentando
[00:55:43] a porrada na
[00:55:45] imigração, porque
[00:55:47] vai haver cada vez mais
[00:55:49] pessoas refugiadas do clima tentando
[00:55:51] emigrar para países desenvolvidos.
[00:55:53] Essa galera do Realismo
[00:55:55] Climático diz assim, ah, mas os Estados Unidos
[00:55:57] nem tem nada hoje, as nossas emissões são
[00:55:59] uma porcentagem muito pequena das
[00:56:01] emissões do mundo, veja a
[00:56:03] China. Então assim,
[00:56:05] é de um grau de cinismo, e eles dizem assim,
[00:56:07] olha, não adianta,
[00:56:09] as metas são inesequíveis,
[00:56:11] não tem nada que a gente possa
[00:56:13] fazer, nós não somos os principais
[00:56:15] responsáveis pelo problema,
[00:56:17] então vamos aqui
[00:56:19] turbinar o nosso
[00:56:21] sistema de defesa,
[00:56:23] dar mais dinheiro para as forças armadas,
[00:56:25] aumentar os muros,
[00:56:27] expulsar os imigrantes,
[00:56:29] e se proteger, e a gente está
[00:56:31] vendo muito,
[00:56:33] muita gente flertando
[00:56:35] com essa
[00:56:37] feudalização.
[00:56:39] Você achar que você,
[00:56:41] ah, tem dinheiro suficiente
[00:56:43] para se proteger
[00:56:45] dos impactos, que os impactos vão ser
[00:56:47] manejáveis no mundo
[00:56:49] dois graus, três graus mais quente,
[00:56:51] quem vai sofrer mesmo essa gente
[00:56:53] marrom aí,
[00:56:55] no sul global, o que é verdade,
[00:56:57] mas enfim,
[00:56:59] mas então você vai conseguir se proteger,
[00:57:01] você é rico o suficiente para isso,
[00:57:03] isso vai facilitar a sua
[00:57:05] dominância sobre recursos naturais,
[00:57:09] e que é isso aí, quem pode mais, chora menos,
[00:57:11] sinto muito, e os países começam
[00:57:13] a partir dos, começando pelos
[00:57:15] países ricos, começam
[00:57:17] a se cercar para se proteger
[00:57:19] desse mundo que está virando
[00:57:21] esse caos distópico climático
[00:57:23] de incêndios e
[00:57:25] enchentes e fome,
[00:57:27] porque esse é o efeito
[00:57:29] talvez mais pernicioso
[00:57:31] da mudança climática,
[00:57:33] são pessoas passando fome,
[00:57:35] porque a comida vai ficar
[00:57:37] impagável, porque a gente vai ter
[00:57:39] muitos prejuízos à agricultura.
[00:57:41] E falando nisso, você não
[00:57:45] você não tem a sensação de que esse
[00:57:47] talvez seja um dos maiores argumentos
[00:57:49] para a gente romper um certo
[00:57:51] impasse político brasileiro,
[00:57:53] porque em termos de impacto econômico,
[00:57:55] a quebra do agronegócio
[00:57:57] brasileiro por conta de mudanças climáticas
[00:57:59] pode ser muito mais catastrófica,
[00:58:01] não só em nível econômico,
[00:58:03] mas em nível humanitário,
[00:58:05] do que uma relativa perda de valor da
[00:58:07] Petrobras no mercado
[00:58:09] nos próximos 5, 6 anos,
[00:58:11] porque literalmente,
[00:58:13] é uma coisa que as pessoas realmente
[00:58:15] acham que o grande problema que a gente não conseguiu
[00:58:17] comunicar é que
[00:58:19] por se falar em mudança climática
[00:58:21] e a maneira como ela é comunicada
[00:58:23] visualmente, a maioria
[00:58:25] das pessoas, acho que quase todo mundo,
[00:58:27] até eu mesmo, me pego vendo isso,
[00:58:29] é um problema meteorológico.
[00:58:31] Então a gente tem que se adaptar
[00:58:33] para chuva mais forte, para calor mais forte,
[00:58:35] para vendaval, então tem que reforçar
[00:58:37] o telhado, vai ter que ter mais defesa
[00:58:39] civil e por aí vai.
[00:58:41] E toda vez que eu falo isso
[00:58:43] as pessoas ficam meio paralisadas
[00:58:45] e não acreditam muito, porque eu falo
[00:58:47] o problema da mudança climática
[00:58:49] não é tempestade, gente,
[00:58:51] é quebra de safra.
[00:58:53] É tipo assim,
[00:58:55] isso tá prestes a acontecer
[00:58:57] e aí não é que o preço vai
[00:58:59] subir, é que não vai ter mesmo.
[00:59:01] E aí é que a gente vai começar
[00:59:03] a entender as consequências, isso não é muito
[00:59:05] falado, não é muito comunicado,
[00:59:07] que não é que a gente vai passar mais calor,
[00:59:09] vai passar fome.
[00:59:11] E a agricultura familiar
[00:59:13] que produz grande parte
[00:59:15] da nossa comida,
[00:59:17] ela é absolutamente
[00:59:19] frágil.
[00:59:21] A agricultura industrial,
[00:59:23] empresarial,
[00:59:25] ela tem ainda um pouco de
[00:59:27] colchão, mas óbvio que já está
[00:59:29] sofrendo. Sai em 2021
[00:59:31] um paper na Nature,
[00:59:33] uma amiga minha,
[00:59:35] Ludmila Hattis, mostrando
[00:59:37] que
[00:59:39] a zona ótima
[00:59:41] para a soja em Mato Grosso
[00:59:43] já foi deslocada.
[00:59:45] Não só em Mato Grosso, mas em todo o centro-oeste
[00:59:47] do Brasil. As sementes de soja
[00:59:49] que a gente planta no Brasil,
[00:59:51] elas foram desenvolvidas na década de 70,
[00:59:53] para um determinado
[00:59:55] clima.
[00:59:57] E já não é o mesmo.
[00:59:59] Para você produzir soja
[01:00:01] com a mesma produtividade
[01:00:03] hoje, você tem que usar
[01:00:05] muito mais insumos.
[01:00:07] Tem lugares que
[01:00:09] você mede a temperatura de 50 graus
[01:00:11] no solo. As plantas morrem
[01:00:13] com 50 graus.
[01:00:19] Já existe,
[01:00:21] os agricultores
[01:00:23] já estão vendo
[01:00:25] que essas coisas estão acontecendo.
[01:00:27] Mas quando você olha para a representação
[01:00:29] política do agronegócio,
[01:00:31] ela é, essa sim, dá pra dizer,
[01:00:33] que ela é franca e abertamente
[01:00:35] negacionista. Não,
[01:00:37] não é, não é assim, e se for assim
[01:00:39] o problema não é meu. O problema é das emissões
[01:00:41] dos combustíveis fósseis
[01:00:43] dos países ricos.
[01:00:45] O que
[01:00:47] sim, é verdade,
[01:00:49] mas
[01:00:51] não obsta o fato
[01:00:53] de que o Brasil é o quinto maior emissor de gás de
[01:00:55] verde estufa do mundo.
[01:00:57] E o nosso setor, a nossa atividade
[01:00:59] que mais emite atividades
[01:01:01] agropecuárias, se a gente não fizer nada a respeito,
[01:01:03] a gente vai se ferrar igual.
[01:01:05] E somos tropicais, né,
[01:01:07] que é algo também bastante específico
[01:01:09] em relação ao problema todo.
[01:01:11] A gente não tem agricultura irrigada,
[01:01:13] a nossa agricultura depende de chuva,
[01:01:15] de regimes de chuva estáveis,
[01:01:17] isso é cada vez menos,
[01:01:19] os regimes de chuva estão
[01:01:21] cada vez menos estáveis no Brasil.
[01:01:23] Em Brasília, onde eu moro,
[01:01:25] a estação
[01:01:27] chuvosa ela reduziu
[01:01:29] e a chuva
[01:01:31] estão mais intensas,
[01:01:33] porque quando chove, chove tudo uma vez.
[01:01:37] E isso, acredito que
[01:01:39] seja verdade para as regiões produtores
[01:01:41] de soja do centro-oeste, de
[01:01:43] grãos, enfim.
[01:01:45] E as previsões são horríveis, né,
[01:01:47] milho safrinha acaba,
[01:01:49] a soja tem reduções de 40%
[01:01:51] no Brasil,
[01:01:53] a seringueira
[01:01:55] ela começa a
[01:01:57] declinar na Amazônia e começa a se dar melhor
[01:01:59] em São Paulo,
[01:02:01] o feijão de corda já migrou
[01:02:03] para o centro-oeste,
[01:02:05] quando eu era moleque aqui em Brasília
[01:02:07] você não tinha feijão de corda na feira,
[01:02:09] hoje é um pasão de feijão de corda na feira.
[01:02:11] Então essas coisas já estão acontecendo,
[01:02:13] os produtores já estão tendo que lidar com isso
[01:02:15] de alguma maneira.
[01:02:17] O preço do café,
[01:02:19] eu escrevi
[01:02:21] no começo do ano passado,
[01:02:23] o dia que o café chegar a 40 reais,
[01:02:25] eu vou começar a roubar
[01:02:27] café no supermercado,
[01:02:29] o café chegou a 40 reais.
[01:02:31] Caiu um pouco,
[01:02:33] mas também não caiu de volta
[01:02:35] para os 12 reais que eu pagava dois anos atrás.
[01:02:37] Caríssimo.
[01:02:39] Então é isso que está acontecendo
[01:02:41] com a agricultura.
[01:02:43] E a caristia que a gente está vendo,
[01:02:45] não só no Brasil,
[01:02:47] a gente está vendo nos Estados Unidos também,
[01:02:49] a tal da affordability,
[01:02:51] a coisa do preço
[01:02:53] da comida que está mais cara no mundo
[01:02:55] inteiro,
[01:02:57] isso não dá para a gente descolar
[01:02:59] isso de efeito de mudança climática,
[01:03:01] isso já é mudança climática,
[01:03:03] em alguma medida, afetando o safra
[01:03:05] e deixando a comida mais cara.
[01:03:07] O efeito perverso disso
[01:03:09] é que isso aumenta
[01:03:11] a revolta na população
[01:03:13] contra os
[01:03:15] incumbentes no sistema político
[01:03:17] e aumenta a chance eleitoral
[01:03:19] da extrema-direita, que vai tornar o problema
[01:03:21] climático mais grave
[01:03:23] ainda e que vai deixar a comida
[01:03:25] mais cara ainda, é uma espiral
[01:03:27] maluca, um ciclo vicioso.
[01:03:29] Cláudio,
[01:03:31] queria te perguntar uma pergunta mais subjetiva.
[01:03:33] Você tem muitas e muitas
[01:03:35] copes, né? Você foi em quantas?
[01:03:37] Sabe de cabeça?
[01:03:39] Treze.
[01:03:41] É uma estrada ótima, uma estrada boa.
[01:03:43] E eu sempre acompanho
[01:03:45] as suas coberturas, os seus resumos
[01:03:47] e meu comunicador favorito
[01:03:49] sempre em todas as copes que eu acompanhei
[01:03:51] você lá.
[01:03:53] Queria saber do efeito delas
[01:03:55] e da sua
[01:03:57] hiperinformação em relação
[01:03:59] a isso, que está mergulhado
[01:04:01] nesse assunto há tantos anos.
[01:04:03] Como é que você fica
[01:04:05] psicologicamente, espiritualmente,
[01:04:07] mentalmente? Porque eu sinto que
[01:04:09] grande parte da minha geração, pelo menos
[01:04:11] gente mais nova do que eu sinto isso
[01:04:13] com mais força, evita
[01:04:15] o assunto não por negacionismo
[01:04:17] mas por fobia de ansiedade, por vontade
[01:04:19] de não entrar em contato com uma realidade
[01:04:21] que eles sentem absolutamente
[01:04:23] intragável, com algo que não dá pra ver.
[01:04:25] Do mesmo jeito que eu não consigo ver, sei lá
[01:04:27] cirurgia, eu fecho o olho e não consigo ver
[01:04:29] eu sinto que culturalmente
[01:04:31] ao mesmo tempo que a consciência
[01:04:33] do problema está aumentando, as pessoas
[01:04:35] conseguem entrar em contato em uma maneira muito limitada.
[01:04:37] Eu queria saber dos efeitos dessa sua
[01:04:39] seu emergulho
[01:04:41] dentro de você.
[01:04:45] Cara, Bruno varia.
[01:04:47] Eu já tive
[01:04:49] eu comecei
[01:04:51] a cobrir
[01:04:53] esse negócio quando eu ainda
[01:04:55] era jornalista
[01:04:57] por curiosidade intelectual.
[01:04:59] Nossa!
[01:05:01] Que fascinante!
[01:05:03] Isso que está acontecendo?
[01:05:05] Como é que os países se juntam pra tentar resolver o problema?
[01:05:07] E é um universo
[01:05:09] que
[01:05:11] quando você
[01:05:13] começa a falar a língua
[01:05:15] não tem mais volta, porque é absolutamente fascinante
[01:05:17] as relações de poder
[01:05:19] a maneira como a ciência
[01:05:21] orienta as ações políticas
[01:05:23] e tal, é tudo muito
[01:05:25] interessante.
[01:05:27] Depois de uns anos
[01:05:29] eu comecei a entender que
[01:05:31] não, isso aqui não é interessante, isso aqui é um desastre.
[01:05:33] E eu fui ficando muito triste.
[01:05:37] Quando você
[01:05:39] e Dubai foi onde isso bateu
[01:05:41] mais forte pra mim.
[01:05:43] Que é você ver que
[01:05:45] nessas reuniões
[01:05:49] o todo é sempre menor
[01:05:51] que a soma das partes.
[01:05:53] Isso é uma…
[01:05:55] Quando você percebe isso, bicho
[01:05:57] teve um dia que eu cheguei cedo
[01:05:59] em Dubai, de manhã, e tem o pessoal que fica distribuindo
[01:06:01] chocolate na entrada, que as pessoas chegam cedo.
[01:06:03] Eu abri o envelope
[01:06:05] do chocolate e tinha assim
[01:06:07] um aviso.
[01:06:09] Esse chocolate foi produzido a um grau e meio.
[01:06:11] A 1,1 grau Celsius.
[01:06:15] Eu li aquele negócio e falei
[01:06:17] puta que pariu, a gente tá a um grau e meio
[01:06:19] eu comecei a chorar.
[01:06:21] Copiosamente ali no meio do corredor.
[01:06:23] E não foi a primeira vez. Aí eu fiz uma live
[01:06:25] no final da Copa de Dubai.
[01:06:27] Com a Katharine
[01:06:29] Makena, que é ex-ministra do Membranças do Canadá.
[01:06:31] Eu lembro dela, essa figura.
[01:06:33] E aí cara, no final da live
[01:06:35] ela tava chorando também. Então assim
[01:06:37] teve esse momento da tristeza
[01:06:39] e hoje em dia eu só fico puto.
[01:06:41] Dá muita raiva, dá muita raiva de você ver
[01:06:43] a passividade
[01:06:47] do sistema político, a passividade
[01:06:49] das pessoas,
[01:06:51] a sociedade civil frequentemente batendo
[01:06:53] cabeça, um pouco
[01:06:55] sensabilidade. A maneira como
[01:06:57] a extrema direita
[01:06:59] assume
[01:07:03] o poder
[01:07:05] no maior responsável
[01:07:07] pela mudança do clima
[01:07:09] e adota essa atitude
[01:07:11] fodacionista, tipo
[01:07:13] olha, isso aí.
[01:07:15] E vocês que lutam.
[01:07:17] Então cara, dá muita
[01:07:19] raiva. E o que eu tento
[01:07:21] um pouco
[01:07:23] argumentar
[01:07:25] com a minha
[01:07:27] turma da sociedade civil
[01:07:29] é o seguinte,
[01:07:31] não adianta mais fazer esse discurso
[01:07:33] que nós temos uma esperança. Eu acho que isso acabou
[01:07:35] um pouco depois da eleição do Trump,
[01:07:37] esse discurso da esperança
[01:07:39] acabou, mas a gente via muito
[01:07:41] entre
[01:07:43] comunicadores, entre
[01:07:45] jornalistas que cobrem essa área e
[01:07:47] entre ONGs e alguns
[01:07:49] delegados dos países,
[01:07:51] uma atitude assim de ah, mas a gente não pode
[01:07:53] exagerar
[01:07:55] no catastrofismo pra não
[01:07:57] desengajar o pessoal.
[01:07:59] E eu acho que é o contrário
[01:08:01] cara, uma coisa que eu acho que a Greta
[01:08:03] ensinou pra todo mundo
[01:08:05] é que a raiva é uma imensa
[01:08:07] mobilizadora.
[01:08:09] Então acho que o que tá faltando é as pessoas ficarem
[01:08:11] com raiva suficiente
[01:08:13] e pararem de eleger negacionistas,
[01:08:15] usarem a arma mais poderosa que elas
[01:08:17] têm, que é o voto, menos nos Estados Unidos,
[01:08:19] não sei se eles vão um dia
[01:08:21] votar de novo.
[01:08:23] Parece que não, mas enfim.
[01:08:25] Mas pra eleger
[01:08:27] político,
[01:08:29] evitar que a extrema direita
[01:08:31] conquiste
[01:08:33] governos e eleger políticos
[01:08:35] que tenham como prioridade
[01:08:37] o número 1, o número 2, o número 3,
[01:08:39] é dar um jeito nesse negócio.
[01:08:41] Infelizmente a gente não
[01:08:43] consegue mais
[01:08:45] limitar o aquecimento global a um grau e meio,
[01:08:49] mas tem muita coisa.
[01:08:51] Acho que a gente já perdeu essa mesmo, né?
[01:08:53] Eu também tenho certeza, eu tenho certeza.
[01:08:55] Não, porque eu fiz essa pergunta pra Anathony, pro
[01:08:57] André, da Correia, do Lago,
[01:08:59] e os dois assim, não, não, não, não, não, não.
[01:09:01] A gente não perdeu um e meio,
[01:09:03] ainda há um caminho.
[01:09:05] E eu assim…
[01:09:07] Não, a gente vai entrar em
[01:09:09] overshoot de um grau e meio
[01:09:11] daqui aos 5.
[01:09:13] E pra que a gente consiga devolver
[01:09:17] as temperaturas pra perto de um grau e meio,
[01:09:21] no final deste século, talvez
[01:09:23] nem eu nem vocês estejamos vivos pra ver isso,
[01:09:25] os cortes de emissões
[01:09:27] que vão ter que ser feitos
[01:09:29] já,
[01:09:31] são ordens de grandeza
[01:09:33] mais radicais do que o que qualquer país
[01:09:35] tem na mesa, entendeu?
[01:09:37] Isso os países que apresentaram metas,
[01:09:39] porque tem países que nem apresentaram metas ainda.
[01:09:41] Mais pessoas precisam entender
[01:09:43] o tamanho desse buraco
[01:09:45] e ficar com muita raiva.
[01:09:47] Eu concordo muito contigo
[01:09:49] e até te digo,
[01:09:51] eu acho que a raiva
[01:09:53] bem trabalhada,
[01:09:55] bem organizada e bem distribuída
[01:09:57] ela é mais poderosa do que o próprio voto
[01:09:59] de 4 em 4 anos,
[01:10:01] porque ela mobiliza o dia a dia,
[01:10:03] ela mobiliza outras formas de
[01:10:05] constrangimento, de
[01:10:07] de conscientização.
[01:10:09] E a sensação que eu tenho, eu também,
[01:10:11] não sou tão mergulhado no assunto
[01:10:13] quanto você, mas eu me lembro também
[01:10:15] como jornalista quando eu comecei a me impactar
[01:10:17] com isso daí, que foi no IPCC de 2006.
[01:10:19] Que foi um IPCC muito
[01:10:21] marcante, ele veio com uma notícia
[01:10:23] muito grave, eu lembro que eu não dormia e tal.
[01:10:25] E
[01:10:27] houve esperança com
[01:10:29] Obama,
[01:10:31] hahaha, por aí vai.
[01:10:33] Mas eu tenho a sensação
[01:10:35] que dos últimos,
[01:10:37] de janeiro pra cá,
[01:10:39] não nem falar dos últimos anos, janeiro pra cá.
[01:10:41] Esse mês que parece que foi uma
[01:10:43] era em termos de rupturas,
[01:10:45] como o Carney colocou.
[01:10:47] E agora Jeffrey Epstein,
[01:10:49] inteligência artificial, esses vilões
[01:10:51] muito escancarados,
[01:10:53] eu acho que o território da
[01:10:55] raiva, ele tem muito mais
[01:10:57] lugar pra florescer nos alvos
[01:10:59] certos e não nos alvos fictícios,
[01:11:01] como foram estabelecidos nos últimos dez
[01:11:03] anos, que a gente odiava
[01:11:05] imigrantes, questões
[01:11:07] de países, dinheiro,
[01:11:09] e agora a gente tem muito
[01:11:11] clara uma casta de vilão.
[01:11:13] Que
[01:11:15] literalmente tem o comando
[01:11:17] dessas grandes alavancas na mão.
[01:11:19] E eu realmente acho que a gente
[01:11:21] nunca vai ganhar deles com
[01:11:23] mero constrangimento
[01:11:25] ou com calendário eleitoral.
[01:11:27] Essa raiva é o único jeito
[01:11:29] que eu acho que tem desse capital político
[01:11:31] e capital capital mesmo, desses caras
[01:11:33] começarem a derreter, acho que
[01:11:35] antes de toda Antártida, sabe?
[01:11:37] Mas eu não sei se é uma experiência
[01:11:39] também um pouco ingênua,
[01:11:41] acho que como todas as minhas anteriores
[01:11:43] foram, eu vou me desiludindo uma atrás da outra,
[01:11:45] mas é onde eu me pego hoje.
[01:11:47] Eu também estou muito com você.
[01:11:49] A gente não tem outra coisa
[01:11:51] a fazer.
[01:11:53] É uma ameaça existencial.
[01:11:55] Na verdade,
[01:11:57] duas, o clima e a inteligência
[01:11:59] artificial e esses
[01:12:01] malucos. Eu não consigo
[01:12:03] apagar
[01:12:05] da cabeça a entrevista do Peter Thiel.
[01:12:07] Acho que foi pro New York Times,
[01:12:09] que o repórter perguntou. Mas eu acho que a humanidade
[01:12:11] deve continuar, e ele faz assim
[01:12:13] e você sabe que eu
[01:12:15] fui fundo nessa
[01:12:17] história do Peter Thiel,
[01:12:19] sou um pouco obcecado, infelizmente
[01:12:21] com esse cara, com a turma dele.
[01:12:23] Ele hesitou
[01:12:27] porque ele falou assim, eu vou ter que arrumar um jeito
[01:12:29] de falar aqui
[01:12:31] sem mentir
[01:12:33] pra todas as pessoas que
[01:12:35] me admiram
[01:12:37] privadamente
[01:12:39] e sem admitir
[01:12:41] em rede nacional, que eu acho que não.
[01:12:43] Porque esses caras
[01:12:45] literalmente, eles têm uma visão assim
[01:12:47] e aí soa muito conspiratório e tudo mais, mas é uma visão
[01:12:49] que não inclui os bilhões
[01:12:51] de pessoas aqui.
[01:12:53] A solução climática desses caras
[01:12:55] não é a redução de combustíveis
[01:12:57] fósseis, é a redução de seres
[01:12:59] humanos. A redução drástica
[01:13:01] de seres humanos.
[01:13:03] E tá em curso o projeto.
[01:13:05] Daí a raiva mesmo.
[01:13:07] Pra não falar temos piores que raiva.
[01:13:09] Que se o cubo que estivesse vivo
[01:13:11] ele ia achar, se aquela cena final
[01:13:13] do Dr. Fantástico
[01:13:15] foi uma brincadeira de criança.
[01:13:17] Tipo, como é que eu pude
[01:13:19] ser tão inocente daquela hora que o Dr.
[01:13:21] Fantástico fala, então,
[01:13:23] a casta dos escolhidos,
[01:13:25] a gente vai pra uns bunkers,
[01:13:27] se enche de whisky mulher
[01:13:29] e beleza.
[01:13:31] E o fondacionismo é muito rasteiro,
[01:13:33] não é o que a gente vive hoje.
[01:13:35] E esses caras
[01:13:37] estão
[01:13:39] aperfeiçoando
[01:13:41] a fantasia do
[01:13:43] Dr. Fantástico.
[01:13:45] E é uma fantasia mesmo, porque a coisa que
[01:13:47] eu acho fora da minha
[01:13:49] raiva de que eles estão tentando fazer
[01:13:51] isso, eu olho ao
[01:13:53] mesmo tempo, eu falo, como eles são burros
[01:13:55] e ingênuos de achar que isso tem como dar certo.
[01:13:57] De achar que eles
[01:13:59] não vão junto na fogueira.
[01:14:01] O maior exemplo pra mim disso, cara,
[01:14:03] é os Estados Unidos mesmo.
[01:14:05] O que eu sempre dou pras pessoas que quando falam,
[01:14:07] eles vão se enfiar num bunker, eu falo, você acha que isso vai dar certo?
[01:14:09] Porque os caras usaram aquela
[01:14:11] máquina de guerra deles
[01:14:13] e os caras perderam pro Talibã
[01:14:15] depois de 18 anos. Quer dizer,
[01:14:17] você não consegue dominar
[01:14:19] nenhum país extremamente pobre e
[01:14:21] pequeno
[01:14:23] da Ásia Menor.
[01:14:25] Então, essa ilusão
[01:14:27] de que eles tenham esse controle, de que eles vão
[01:14:29] ser capazes de fazer o que eles acham que vão fazer
[01:14:31] é absolutamente ilusória até
[01:14:33] pra os padrões deles, assim.
[01:14:35] É isso, cara. E num mundo de quatro graus,
[01:14:37] bicho,
[01:14:39] esquece. Esquece.
[01:14:41] Você não vai ter o que comer porque você não vai ter
[01:14:43] onde plantar. É simples
[01:14:45] assim.
[01:14:47] Então,
[01:14:49] é muito assustador. A não ser que eles
[01:14:51] estejam nessa coisa mesmo
[01:14:53] da singularidade,
[01:14:55] que é outra
[01:14:57] maluquice de fundir a consciência
[01:14:59] deles com a das máquinas e
[01:15:01] viver eternamente no espaço,
[01:15:03] entendeu?
[01:15:05] Boa sorte. Tem que
[01:15:07] não gostar mesmo desse planetinha bom
[01:15:09] aqui, pra tipo, é preferir
[01:15:11] ser um HD no espaço
[01:15:13] do que um ser humano na Terra. Realmente,
[01:15:15] tá de parabéns.
[01:15:17] É isso aí, são as pessoas mais ricas
[01:15:19] do planeta.
[01:15:21] Parabéns, capitalismo.
[01:15:23] Olha o tipo de gente que vocês botam no
[01:15:25] topo. Parabéns.
[01:15:27] Cláudio, pra encerrar com o serviço,
[01:15:29] me fala um pouco sobre o observatório
[01:15:31] e de que maneira que as pessoas podem colaborar
[01:15:33] com a construção ou com a difusão desse
[01:15:35] mapa do caminho ao longo do ano.
[01:15:37] Porque a gente deixou as pessoas aqui um pouco desesperadas
[01:15:39] ou com raiva ou fatalistas.
[01:15:41] E o que que você acha que a sociedade
[01:15:43] civil, ou a nossa audiência,
[01:15:45] tem a fazer até o fim
[01:15:47] do ano? Até a próxima COP.
[01:15:49] Cara, é…
[01:15:51] O Observatório do Clima é uma rede de organizações,
[01:15:53] 160 organizações da sociedade civil.
[01:15:55] A gente faz um monte de coisa, a gente
[01:15:57] faz um processo de governo, a gente
[01:15:59] faz incidência política, e a gente
[01:16:01] calcula as emissões do Brasil todos os anos.
[01:16:03] É a nossa principal
[01:16:05] atividade,
[01:16:07] o consórcio de organizações
[01:16:09] que faz todo o ano
[01:16:11] segue o cálculo das emissões
[01:16:13] brasileiras.
[01:16:15] Como fazer?
[01:16:17] Pressionar a senhora Miriam Belchior,
[01:16:19] ministra… Será
[01:16:21] ministra da Casa Civil, quando o
[01:16:23] Paulo Costa se desincompatibilizar.
[01:16:25] Pressionar o Ministério do
[01:16:27] Ambiente, o Ministério da Fazenda,
[01:16:29] e principalmente o Ministério
[01:16:31] de Minas e Energia
[01:16:33] para que o Mapa do Caminho
[01:16:35] Brasileiro seja de fato algo que nos
[01:16:37] conduza a
[01:16:39] superar a nossa dependência de combustíveis
[01:16:41] fósseis. Prestar
[01:16:43] atenção nessas coisas,
[01:16:45] entender que
[01:16:47] o mundo precisa
[01:16:49] se livrar
[01:16:51] dos combustíveis fósseis, se quiser
[01:16:53] viver, e que essa transição
[01:16:55] ela tem que começar já.
[01:16:57] Ela precisa ser necessariamente
[01:16:59] ordenada e justa,
[01:17:01] não estamos falando aqui de fechar
[01:17:03] todos os postos da Petrobras amanhã,
[01:17:05] embora eu pessoalmente defenda isso,
[01:17:07] acho que tinha que fechar mesmo, mas
[01:17:09] não é disso que a gente está falando.
[01:17:13] Mas que para ela ser
[01:17:15] justa, ordenada, equitativa,
[01:17:17] ela precisa ser uma transição, ela precisa
[01:17:19] começar, precisa começar muito rápido.
[01:17:21] Então, é isso,
[01:17:23] e manter esse assunto,
[01:17:25] falar desse assunto no
[01:17:27] boteco, falar desse
[01:17:29] assunto no Uber, porque
[01:17:31] é uma questão existencial para todo o
[01:17:33] mundo. E ficar
[01:17:35] com muita raiva.
[01:17:37] E não eleger negacionista. Negacionista, não.
[01:17:39] O fodacionista.
[01:17:41] O fodacionista, que é a minoria
[01:17:43] aqui no Brasil, mais uma coisa
[01:17:45] do norte global.
[01:17:47] Claudio, muito obrigado pelo seu tempo.
[01:17:49] Boa. E a gente se vê.
[01:17:51] Obrigado, Bruno. Próximo.
[01:18:19] Comunicação de Cortes Júlia Leite
[01:18:21] Nas redes sociais Bruna Messina
[01:18:23] Gestão de Comunidade Marcela Brandes
[01:18:25] Identidade Visual Pedro Inoi
[01:18:27] e Consultoria de Comunicação Luna Costa