Estamos comendo proteína demais?
Resumo
O episódio discute como a proteína — antes associada principalmente a atletas — virou “estrela” da alimentação cotidiana, impulsionada por produtos industrializados com proteína adicionada e pelo boom de suplementos como o whey protein. A conversa explora como esse movimento muda a forma de falar e pensar comida (reduzindo alimentos a nutrientes) e ajuda a criar uma indústria bilionária, além de influenciar hábitos e até o prazer de comer.
A nutricionista Nadine Marques explica que, apesar de a proteína ser essencial, consumir quantidades muito altas não traz benefícios adicionais (especialmente acima de cerca de 1,5–1,8 g/kg/dia) e pode gerar sobrecarga metabólica, afetando órgãos como rins e fígado, além de desequilibrar outros nutrientes e favorecer ganho de peso (já que excesso de macronutrientes pode ser armazenado como gordura). Ela também critica a mudança recente nas diretrizes dos EUA que aumentou o destaque para proteínas de origem animal, contrariando evidências de longo prazo e deslocando o foco de alimentos em falta na dieta, como frutas, legumes e verduras.
Por fim, o episódio contextualiza a “sociedade do whey” e a obsessão por proteína como resultado de um histórico de “mito do déficit proteico”, com raízes no século XX e relações com interesses econômicos e excedentes da indústria de laticínios e pecuária. A conclusão reforça que a maioria das pessoas já atinge a necessidade proteica com a alimentação habitual e que suplementos deveriam ser usados apenas quando há necessidade real, com orientação profissional.
Anotações
- 00:02:09 — Rita Lobo: a comida perde a identidade: Quando voce comeca a chamar carne de proteina, a comida perde a identidade e qualquer coisa serve. A obsessao nutricional mudou ate o vocabulario e o prazer de comer.
- 00:07:12 — Alimentos sao pacotes de nutrientes: Reduzir bife a proteina ignora gordura saturada, colesterol, zinco e vitaminas B que vem no pacote. Chamar leite de calcio ou arroz de carboidrato empobrece o entendimento nutricional.
- 00:18:01 — Nutricionismo: o reducionismo nutricional: Reduzir alimentos a veiculos de nutrientes leva a logica de medicamento. A industria extrai nutrientes, isola em suplementos e cria um mercado bilionario alimentado pelo medo de deficiencia.
- 00:23:16 — Whey: subproduto da industria de laticinios: Quanto mais se produz queijo, mais sobra soro de leite. Historicamente, excesso de subprodutos industriais e reembalado e colocado no mercado como produto premium.
- 00:24:19 — O mito do deficit proteico: Artigo de Donald McLaren (1974) nomeou o grande fiasco da proteina. Lobby da industria de leite dos EUA e pecuaria do Reino Unido construiu narrativa de deficiencia proteica para escoar excesso de producao.
Indicações
Artigos / Links
Linha do Tempo
- [00:00] — Introdução aos macronutrientes e às funções das proteínas no organismo
- [00:01] — Proteína “sai da panela” e vira destaque em rótulos, bebidas e chocolates; febre do whey
- [00:03] — Indústria bilionária de proteína adicionada e crescimento do mercado no Brasil e no mundo
- [00:04] — Entrevista com Nadine Marques: excesso de proteína traz riscos e não gera benefícios extras
- [00:08] — Proteína em excesso pode ser estocada como gordura; crítica ao reducionismo de chamar alimento pelo nutriente
- [00:11] — Mudança nas diretrizes dos EUA: mais proteína (especialmente animal) e menos carboidratos/vegetais no “prato”
- [00:15] — “Heroína da nutrição”: obsessão por proteína reduz diversidade alimentar e ignora falta de frutas e verduras
- [00:18] — Dados do Brasil: consumo médio de proteína é adequado em todas as faixas de renda; baixo déficit populacional
- [00:22] — Efeito prático de recomendar mais proteína: reforço do imaginário de necessidade e deslocamento de outros alimentos
- [00:26] — Nutricionismo e fortificação/suplementação: mercado cresce ao extrair e isolar nutrientes
- [00:30] — Origem da “onda do whey”: musculação, culto ao corpo e substituição de refeições por shakes
- [00:34] — Whey como ultraprocessado e subproduto do soro do leite; riscos do uso para substituir refeições
- [00:37] — “Mito do déficit proteico”: histórico e interesses econômicos (excedentes de leite e pecuária) por trás da narrativa
Dados do Episódio
- Podcast: O Assunto
- Autor: G1
- Categoria: News
- Publicado: 2026-02-09
- Duração: 0h27m
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/o-assunto/9cc32e40-a9cb-0137-fae6-0acc26574db2/estamos-comendo-prote%C3%ADna-demais/1dde649f-a727-40e1-8c5a-d4da0abcfcac
- UUID Episódio: 1dde649f-a727-40e1-8c5a-d4da0abcfcac
Dados do Podcast
- Nome: O Assunto
- Tipo: episodic
- Site: https://g1.globo.com/podcast/
- UUID: 9cc32e40-a9cb-0137-fae6-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Para a gente ficar saudável, o nosso organismo precisa de uma alimentação que equilibre
[00:00:08] o que se chama de macronutrientes.
[00:00:10] Um deles é o carboidrato, o pão, o arroz, o macarrão.
[00:00:13] O outro é a gordura, os óleos, os azeites.
[00:00:16] E um terceiro, que é o personagem principal deste episódio, é a proteína.
[00:00:21] Há muitos tipos de proteína e todos eles são fundamentais.
[00:00:25] As proteínas são moléculas grandes, formadas a partir de moléculas menores, os aminoácidos.
[00:00:31] E essas proteínas têm muitas funções.
[00:00:34] Formam células, órgãos, tecidos, como a nossa pele, o nosso cabelo, o músculo e
[00:00:39] por aí vai.
[00:00:40] Atuam também na defesa do organismo, além de regular processos vitais do nosso corpo.
[00:00:45] Carnes vermelhas ou brancas, como frango, peixe fresco, além de ovos e até a soja,
[00:00:52] são algumas das principais e mais comuns fontes de proteína.
[00:00:56] O melhor lugar para encontrar uma boa proteína sempre foi a panela.
[00:01:00] Mas de uns anos para cá, você certamente começou a ver que ela vem sendo vendida
[00:01:03] mais e mais nas prateleiras dos supermercados.
[00:01:06] Está em tudo.
[00:01:07] Em bebidas enlatadas, caixinhas de leite, iogurtes e até no rótulo de chocolates.
[00:01:12] Tanto é assim que nos anúncios e embalagens, o destaque é o número de gramas de proteína
[00:01:17] do produto.
[00:01:18] Quanto mais, melhor.
[00:01:20] O suplemento proteico mais famoso é o tal do whey protein, feito a partir do soro do
[00:01:26] leite.
[00:01:27] Durante muito tempo, ele ficou restrito à alimentação de atletas.
[00:01:30] Agora virou uma febre.
[00:01:32] Até ingrediente de receitas nas redes sociais.
[00:01:35] Vou mostrar pra vocês como eu tô amando tomar o meu whey pro dia, tá?
[00:01:38] Eu comei que fazia uma goraraba de whey.
[00:01:41] E eu me tornei a pessoa que eu mais temi.
[00:01:43] A gente, eu tô viciada em comer banana amassadinha assim, ó, com o whey.
[00:01:48] A obsessão com a nutrição e com uma suposta alimentação mais saudável mudou até o nosso
[00:01:53] vocabulário.
[00:01:54] E não é exagero dizer que mexeu inclusive com o prazer de simplesmente comer.
[00:02:00] A chefe Rita Lobo nota isso no áudio seguir.
[00:02:04] Quando você começa a chamar carne de proteína, a comida perde a identidade e qualquer coisa
[00:02:08] serve.
[00:02:09] Tanto faz, você tá comendo bife, ovo, arroz com feijão, iogurte de proteico cheio
[00:02:14] E disso se formou uma indústria bilionária.
[00:02:21] No Brasil, considerando apenas os produtos que se apresentam como whey protein, o crescimento
[00:02:26] é de 8% ao ano.
[00:02:28] Mas o fenômeno é global.
[00:02:29] O dado é de uma consultoria canadense especializada em alimentação.
[00:02:33] Apenas em 2024, o segmento de produtos com proteína adicionada movimentou mais
[00:02:38] de 55 bilhões de dólares.
[00:02:41] Daqui a 10 anos, a expectativa é de chegar a quase 130 bilhões.
[00:02:48] Da Redação do G1, eu sou o Natuzaneri e o assunto hoje é Proteína.
[00:02:54] Estamos comendo demais?
[00:02:56] Neste episódio eu converso com a nutricionista Nadine Marques, doutora em Saúde Pública
[00:03:00] pela Faculdade de Saúde Pública da USP.
[00:03:03] Nadine é pesquisadora da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis
[00:03:08] e Sustentáveis, na mesma instituição.
[00:03:11] Segunda-feira, 9 de fevereiro.
[00:03:17] Nadine, a gente vai falar de uma mudança na recomendação nutricional nos Estados Unidos,
[00:03:23] mas antes eu queria te fazer uma pergunta assim de largada.
[00:03:26] Comer proteína demais é um problema?
[00:03:29] Os estudos são poucos, na verdade, que avaliam realmente quais os danos do consumo
[00:03:35] excessivo de proteínas.
[00:03:36] Mas fato é que o que a gente já tem verificado é que não existem benefícios adicionais
[00:03:42] quando a gente começa a aumentar o consumo de proteínas e aí eu estou falando principalmente
[00:03:46] ali a partir de 1,5 grama por quilo de peso por dia, 1,8.
[00:03:52] O que tem se verificado é que não existem benefícios adicionais.
[00:03:55] Os macronutrientes, que são aqueles nutrientes que a gente precisa em maior quantidade
[00:03:59] na nossa alimentação, então carboidratos, gorduras e proteínas, por uma questão
[00:04:04] evolutiva de eficiência metabólica, a gente vai armazenar na forma de gordura.
[00:04:10] Isso serve para todos eles, mas para além disso, as proteínas são o único macronutriente
[00:04:14] que tem nitrogênio na sua composição.
[00:04:17] Então, no momento de armazenar, precisa passar por um metabolismo específico, passar
[00:04:22] por alguns órgãos especificamente.
[00:04:24] E trabalhar com esse excesso pode acabar sobrecarregando esses órgãos e aí eu
[00:04:28] estou falando especificamente de fígado, de rins, eu estou falando sobre um desbalanço
[00:04:34] metabólico, por exemplo, então isso pode ser perigoso para o equilíbrio cardiovascular,
[00:04:39] para a saúde cardiovascular exatamente, para o balanço de cálcio no nosso organismo
[00:04:44] porque o organismo é essa grande orquestra que vai tentando se equilibrar a todo momento
[00:04:50] e existe interferência de um nutriente sobre o outro no nosso corpo, de um composto
[00:04:55] sobre o outro também, então o corpo ter que lidar com esse excesso tem consequências.
[00:05:00] Essas consequências podem resultar em desbalanço de outros nutrientes, o cálcio é um deles.
[00:05:06] Não é como se quanto mais a gente comer, mais músculo a gente vai produzir, a gente
[00:05:12] não produz mais se não houver estímulo do exercício físico, por exemplo, então
[00:05:16] não é automático, a gente ingere e estoca na forma de músculo, se não houver
[00:05:20] um estímulo muito específico que é feito a partir do exercício e a partir de exercícios
[00:05:26] de tipos específicos, por duração específica também, ao longo do tempo, então com
[00:05:31] frequência, com constância, essas proteínas que estão sendo ingeridas na intencionalidade
[00:05:36] de formar mais massa muscular.
[00:05:50] Uma pessoa que quer construir uma casa, ela procura um engenheiro, assim como uma
[00:05:58] pessoa que quer fazer a utilização de um suplemento, tem que procurar um nutricionista,
[00:06:02] um profissional que vai estar apto para analisar se realmente ela precisa daquilo,
[00:06:07] porque como o próprio nome diz, suplemento ele vem para suplementar alguma falta e
[00:06:11] às vezes essa falta não existe.
[00:06:13] Então vai acontecer um desbalanço na intencionalidade de equilibrar, de armazenar
[00:06:18] bem armazenado esse excesso, da forma mais eficiente possível, desbalança outros órgãos
[00:06:24] e aí esses danos são os que a gente já tem pistas que podem acontecer, saúde do
[00:06:29] coração, aumento do peso corporal, porque a gente armazena as proteínas assim como
[00:06:34] as gorduras e os carboidratos em excesso, como forma de gordura, que é a forma
[00:06:39] mais eficiente que o nosso corpo tem de fazer.
[00:06:41] Isso eu não sabia, eu achava que o bifinho que eu comia e somente ele quando
[00:06:47] eu me sentia culpada, eu não estava correndo tanto risco assim de ampliar a
[00:06:53] ingestão de gordura, o que você está dizendo é que a proteína em excesso pode
[00:06:57] se transformar dentro do meu corpo em gordura.
[00:06:59] Exato, e o bife por exemplo, a gente está num momento em que a gente se
[00:07:04] refere muito aos alimentos só pelo nutriente fundamental que tem ali,
[00:07:09] o nutriente que chama mais atenção ou que tem uma quantidade mais
[00:07:14] significativa. Então quando eu falo de bife, eu tenho sim proteína ali dentro
[00:07:18] numa quantidade bastante importante, mas eu tenho uma série de outros nutrientes
[00:07:22] então vem junto nesse pacote bife, gordura saturada, colesterol, vem
[00:07:27] nutrientes como zinco, vitaminas do complexo B também, nutrientes que são
[00:07:32] desejáveis, então todos os alimentos, quando eu falo de alimentos
[00:07:36] íntegros mesmo, são pacotes de nutrientes e esse é mais um dos
[00:07:40] perigos da gente se referir aos alimentos como o nutriente fundamental, então é
[00:07:45] como chamar o leite de cálcio, chamar o pão de carboidrato ou o arroz de
[00:07:49] carboidrato, estou reduzindo demais tudo que aquele alimento significa.
[00:07:54] Nadine, eu te fiz essa pergunta sobre se o consumo de proteína em excesso seria
[00:07:58] um problema, porque no mês passado os Estados Unidos mudaram a sua
[00:08:02] diretriz nutricional recomendando comer mais proteína.
[00:08:07] Eu queria te perguntar qual é a base científica para essa nova
[00:08:11] recomendação e entender melhor essa mudança de diretriz.
[00:08:15] Natusa, a gente pode entender essa nova diretriz de uma forma um pouco
[00:08:20] conflitante, então quando a gente fala, por exemplo, sobre redução ou o fato de
[00:08:26] evitar ultraprocessados, isso está de fato cada vez mais em linha com o que
[00:08:30] a ciência tem demonstrado, mas essa inversão da pirâmide, como você
[00:08:34] disse, em que os alimentos fontes de proteína, especialmente aqueles de
[00:08:38] origem animal, ficam em destaque, tem uma recomendação aumentada, isso na
[00:08:44] verdade contradiz o que a ciência vem mostrando ao longo das últimas
[00:08:48] décadas. A gente tem traçado recomendações para redução do consumo em
[00:08:53] relação ao que se consome predominantemente na maior parte do
[00:08:58] mundo, então o que indica que a gente já consome, e no Brasil é assim
[00:09:03] quantidades excessivas de carne, de alimentos de origem animal, fontes de
[00:09:08] proteína.
[00:09:09] Deixa eu te fazer uma pergunta raciocinando como se fosse um prato.
[00:09:13] Anteriormente, a recomendação americana era de que o prato fosse
[00:09:18] composto mais pelo quê?
[00:09:20] Então ele seria composto por cereais integrais, o arroz, por exemplo, se a
[00:09:24] gente traduzir aqui, principalmente para a nossa realidade, cereais
[00:09:28] integrais, leguminosas, os cereais como a base do que seria pirâmide em maior
[00:09:33] quantidade, porque eles fornecem os carboidratos predominantemente, que a
[00:09:38] gente precisa de fato em maior quantidade, haveria ali alguma quantidade
[00:09:42] de carne e que iria fornecer então uma gama enorme de nutrientes e também
[00:09:47] as proteínas, e haveria quase metade do prato de vegetais, então legumes
[00:09:53] e verduras, quando a gente fala de um prato de refeição principal, né,
[00:09:56] almoço, jantar, legumes e verduras, cruas e cozidas, então quantitativamente a
[00:10:02] gente estaria falando mais nesse perfil de prato do guia anterior.
[00:10:07] E aí, com essa nova diretriz, esse prato muda de configuração e aí ele
[00:10:13] passa a ser como?
[00:10:14] Ele passa a ter uma participação maior, né, uma porção maior dessa
[00:10:18] carne, dessa fonte de proteína de origem animal que ganhou destaque
[00:10:23] dessas novas diretrizes e uma quantidade diminuída em relação ao que era a
[00:10:27] recomendação anterior, tanto das fontes de carboidratos, que eu dei o
[00:10:31] exemplo anterior, né, como o arroz integral, por exemplo, quanto também dos
[00:10:35] vegetais, dos legumes e verduras, eles passam a apresentar um percentual
[00:10:39] menor. Se a gente imaginar que o prato é um gráfico de pizza, por exemplo, é
[00:10:43] como se a fatia tivesse diminuído e a fatia das carnes tivesse aumentado.
[00:10:48] Bom, isso se insere, imagino eu, num contexto maior em que as proteínas se
[00:10:54] transformam, né, nesse mundo nutricional, numa espécie de heroínas da nutrição.
[00:11:01] Faz sentido isso?
[00:11:03] Faz sentido, Natusa. O que a gente tem verificado é, justamente, isso já
[00:11:07] aconteceu em outros momentos da história, mas uma certa obsessão por
[00:11:11] proteínas, né, olhando para esses nutrientes, é como se eles fossem os
[00:11:15] heróis da alimentação. De fato, elas têm diversas funções no organismo, mas é
[00:11:21] muito importante quando a gente fala de alimentação, de nutrição adequada e
[00:11:26] saudável, alimentação equilibrada, é importante haver justamente o equilíbrio
[00:11:31] entre diferentes fontes de diferentes nutrientes e a gente consegue esse
[00:11:35] equilíbrio a partir da diversidade. Essa obsessão por proteínas faz com
[00:11:40] que a gente volte o olhar apenas para as proteínas como nutriente e priorize
[00:11:46] alimentos que são fontes dessas, desses nutrientes na alimentação em detrimento
[00:11:51] de outros alimentos que, a propósito, a gente, inclusive, precisaria mais porque
[00:11:56] está mais em falta na nossa alimentação. Então, é como dizer que
[00:11:59] essa obsessão não atende ao que a gente verifica, de fato, em estudos que
[00:12:04] avaliam o consumo alimentar real das populações. A gente já come, em média,
[00:12:10] quantidades adequadas de fontes de proteínas enquanto a gente come, por
[00:12:14] outro lado, quantidades insuficientes de outros alimentos como frutas, legumes e
[00:12:19] verduras, que o guia alimentar dos Estados Unidos recomendou algum grau de
[00:12:24] diminuição em relação ao guia anterior.
[00:12:26] Bom, quando você fala que a gente já consome quantidade suficiente, você está
[00:12:30] falando, claro, na média porque a gente fala de uma realidade mundial de
[00:12:35] extrema e absoluta desigualdade em que uns comem adequadamente, outros tantos
[00:12:41] não têm uma nutrição adequada por questões econômicas, financeiras de
[00:12:47] renda, não é isso?
[00:12:48] Sim, com certeza. Existe essa desigualdade que também é muito
[00:12:52] verificada no padrão alimentar, nos hábitos de consumo alimentar.
[00:12:56] A pesquisa de uma rede de serviços de alimentação aponta que quase 90%
[00:13:00] dos brasileiros preferem uma alimentação saudável desde que tenha
[00:13:04] carne. 74% consomem proteína animal e laticínios regularmente, índice acima da
[00:13:10] média global.
[00:13:11] Mas especificamente em relação às proteínas e às fontes desse nutriente na
[00:13:16] nossa alimentação, os dados mais recentes que nós temos da pesquisa de
[00:13:20] orçamentos familiares, que agora está terminando uma nova fase de coleta e
[00:13:25] deve ser publicada em breve, mas a mais recente que nós temos é a de
[00:13:28] 2017, 2018, dava conta que em todas as faixas de renda nós tínhamos, a
[00:13:34] população brasileira, um consumo adequado de fontes de proteína e
[00:13:39] consequentemente desse nutriente, com um nível de déficit muito baixo,
[00:13:44] de deficiência desse nutriente, da casa de 3% na nossa população, em todos os
[00:13:49] estratos populacionais. Existe uma importância cultural mesmo, dos
[00:13:53] alimentos, fontes de proteína, especificamente das carnes, para a
[00:13:57] nossa população e para outras populações ao redor do mundo. Isso vai
[00:14:00] variar bastante entre países do norte global e do sul global, por exemplo,
[00:14:05] países que enfrentam situações mais graves de fome, desnutrição, de
[00:14:09] insegurança alimentar, é claro, mas até quando a gente olha para os
[00:14:13] diferentes estratos de renda da nossa população, e sim a nossa população
[00:14:18] enfrenta muita desigualdade, isso é até um dado surpreendente, que a
[00:14:22] gente tem essa essa tendência de alcançar as recomendações de
[00:14:26] proteínas, porque culturalmente são alimentos muito valorizados.
[00:14:30] Bom, a OMS diz o seguinte, que é a Organização Mundial da Saúde, que é
[00:14:36] recomendável a ingestão de 0,6 a 0,8 grama de proteína por quilo por dia.
[00:14:45] Então, por exemplo, se uma pessoa pesa 50 quilos, portanto, de 30 a
[00:14:52] 40 gramas de proteína e assim por diante. Se a pessoa pesa 100 quilos, deve
[00:14:58] consumir de 60 a 80 gramas. Essa diretriz americana, essa nova diretriz
[00:15:04] americana, dobra essa quantidade. O que isso significa para o nosso corpo e
[00:15:11] para a forma como a gente se alimenta na prática? Consumir mais proteína, se
[00:15:17] fosse para seguir a recomendação americana, isso significaria o que para
[00:15:22] Para seguir a recomendação americana, a própria população dos Estados Unidos
[00:15:27] não precisaria mudar muito da alimentação deles, porque eles já
[00:15:30] consomem também em excesso, assim como nós aqui no Brasil temos já um
[00:15:35] consumo excessivo. Mas quando é feita essa recomendação de aumento em
[00:15:39] relação ao que se recomendava antes, gera essa percepção, esse imaginário
[00:15:44] de que é necessário aumentar ainda mais em relação ao que já se consome.
[00:15:49] Então eu tô dizendo aqui sobre um padrão alimentar em que vai haver, por
[00:15:54] exemplo, leite no café da manhã, queijo e pão. E no almoço vai haver
[00:15:59] arroz, feijão e alguma carne, um filé de frango, um filé de peixe,
[00:16:03] alguma coisa assim. Eu já tô alcançando a recomendação apenas com
[00:16:07] esses alimentos que já estão presentes no nosso padrão alimentar,
[00:16:11] mas não é como se a gente precisasse de fato incrementar o consumo de
[00:16:15] proteínas, nem a partir de alimentos, muito menos a partir de suplementos. E se
[00:16:21] isso vai sendo levado a cabo, outros alimentos que deveriam de fato estar
[00:16:25] recebendo maior atenção, vão ficando cada vez mais para fora desse padrão
[00:16:30] alimentar e isso é prejudicial porque outros nutrientes compostos e também tô
[00:16:36] falando de variedade de cores, sabores, texturas na alimentação, vão
[00:16:40] sendo cada vez mais deixados de lado, o que torna essa alimentação muito
[00:16:44] baseada em carnes e alimentos de origem animal e muito pouco diversa, é uma
[00:16:50] alimentação mais monótona e que também nos tempos atuais vai contando cada vez
[00:16:55] mais com suplementos que fornecem também quantidades adicionais de
[00:16:59] proteínas, que considerando que a gente já consome em média, não seriam
[00:17:03] necessárias. Você entra numa farmácia, você vê uma
[00:17:07] infinidade de suplementos proteicos, você entra no supermercado, você é
[00:17:13] impactado nas redes sociais por produtos assim, então até aqui a gente estava
[00:17:18] falando do prato, da carne, do peixe, do frango, agora eu quero falar com aquilo
[00:17:24] que não se parece com comida. Pois é, Natusa, de fato a gente tem
[00:17:27] verificado uma mudança bastante grande, como você bem colocou e vem
[00:17:33] muito também desse olhar que eu vinha dizendo de a gente reduzir os
[00:17:36] alimentos a nutrientes apenas, então quando eu deixo de enxergar,
[00:17:41] reconhecer, valorizar todo esse pacote que mora dentro de um alimento e que vai
[00:17:47] fazer uma série de funções diferentes no meu corpo e passo a olhar só pra
[00:17:51] nutrientes específicos e dentro da nutrição a gente chama isso de
[00:17:55] nutricionismo, que é o reducionismo nutricional, é reduzir os alimentos
[00:18:00] apenas a veículos de nutrientes, isso é bastante perigoso porque a gente
[00:18:04] começa a se aproximar de uma lógica de medicamento, de uma lógica de
[00:18:09] como se eu pudesse extrair e é isso que a indústria vem fazendo cada vez mais,
[00:18:14] extrair nutrientes de um alimento e adicionar em outros fortificando, por
[00:18:19] exemplo, ou extrair e isolar oferecendo suplementos isolados, isso se tornou um
[00:18:25] mercado enorme e milionário que cresce cada vez mais mundo afora, soma-se a
[00:18:30] isso, essa oferta que está em todos os lugares, em uma rede social, em
[00:18:35] propagandas, quando entra no mercado, quando entra na farmácia, quando a pessoa
[00:18:39] que se comunica com o público faz essa propaganda, isso vai criando um
[00:18:44] imaginário de realmente uma necessidade aumentada de proteínas e
[00:18:49] também um medo muito grande de que a gente não alcance a quantidade que a
[00:18:52] gente precisa de proteínas, o fato é que a gente alcança já a partir da
[00:18:57] alimentação e para além disso a gente vai ter um excesso de proteínas no
[00:19:02] corpo que causa aqueles riscos que a gente vinha dizendo então em relação à
[00:19:07] saúde do coração, à saúde dos ossos, à saúde de órgãos como o fígado e os
[00:19:13] rins e até mesmo o aumento de peso e para além disso esse hiperfoco, digamos
[00:19:19] assim, em alimentos fonte de proteína e em suplementos que oferecem
[00:19:24] proteínas, desloca o foco do nosso olhar de onde a gente deveria estar
[00:19:29] olhando mesmo que são os alimentos que faltam na nossa alimentação, frutas,
[00:19:34] legumes e verduras, a gente come de forma geral muito pouco, muito menos do
[00:19:38] que deveria e eles também fornecem diversos nutrientes importantes, uma
[00:19:43] gama enorme, além de trazer cultura alimentar, além de conferir cor, textura,
[00:19:49] sabor, variedade, diversidade para a nossa alimentação.
[00:19:53] Espera um pouquinho que eu já volto para continuar a minha conversa com a Nadine Marques.
[00:20:02] Essa onda da proteína, essa sociedade do whey, digamos assim, surgem a partir
[00:20:10] de que momento? É uma busca pelo corpo mais musculoso, é uma busca por um
[00:20:19] corpo, como se diz por aí, isso é muito relativo, em forma surge quando? Quando é
[00:20:25] que a gente tem o deflagrador disso? Já faz algum tempo, desde meados do
[00:20:29] século passado, que existe essa construção de um mito de que a gente
[00:20:34] tem deficiência de proteínas, de que precisa haver um investimento maior em
[00:20:39] olhar para a quantidade de proteínas na nossa alimentação, esse imaginário
[00:20:43] de que as proteínas são esse nutriente herói e virtuoso e aí a gente vai
[00:20:48] avançando no tempo e de fato as proteínas estão bastante associadas a
[00:20:52] aumento de massa muscular quando existe prática de exercício físico,
[00:20:57] principalmente do tipo da musculação, para a construção muscular, então
[00:21:02] para que isso aconteça é necessário que as necessidades de proteínas sejam
[00:21:06] atendidas, então a gente estava mais nesse ponto. Mais referência ao
[00:21:11] ovo que é a galinha, mas tem havido uma retroalimentação entre o aumento da
[00:21:17] prática de atividade física e aí também marcadamente a prática de
[00:21:22] musculação em academias e como se fosse um pacote sonor, como se a partir
[00:21:27] do momento que a pessoa começa a fazer esse tipo de exercício
[00:21:30] necessariamente ela precisasse aumentar o seu consumo de proteínas e a
[00:21:34] forma mais eficiente fosse essa, a distincia de proteínas, a
[00:21:38] e a forma mais eficiente fosse essa, a de shakes, que de forma geral também
[00:21:43] substituem refeições. Isso vai sendo retroalimentado, os dois elementos,
[00:21:48] o exercício físico com um terceiro elemento aqui que é esse culto a um
[00:21:53] corpo mais definido, digamos assim, mais atlético, podemos dizer assim
[00:21:58] também, mas que faz parte também de um imaginário de padrão de beleza e
[00:22:02] como se as proteínas fossem um elemento fundamental para isso, elas
[00:22:07] são um elemento muito importante, mas antes de qualquer coisa a gente precisa
[00:22:12] entender qual é o consumo atual de cada um dos indivíduos, de cada pessoa e
[00:22:17] quando a gente olha para os dados de consumo alimentar, a gente já consome
[00:22:21] adequadamente. Nutricionistas explicam que mesmo o whey sendo considerado um
[00:22:26] ultraprocessado, ele tem benefícios nutricionais e é considerado uma boa
[00:22:30] fonte de proteína. Claro que falando de ultraprocessado, tanto o whey quanto as
[00:22:34] frutas e as baixas tem ingredientes que em excesso não fazem bem para a saúde.
[00:22:37] Outro ponto importante é que o whey não deve ficar sendo usado para substituir as
[00:22:41] refeições, por mais tentador que isso pareça. Os nutricionistas ainda lembram
[00:22:45] que nem todo mundo precisa tomar whey.
[00:22:47] Isso faz também referência ao fato de que o whey é a proteína do soro do leite.
[00:22:52] Ela vem a partir da indústria de lácteos, então quando se produz queijo,
[00:22:57] por exemplo, uma parte das proteínas forma o queijo e outra parte, que são
[00:23:02] proteínas do soro, que não coagulam, não endurecem ali para formar o queijo,
[00:23:06] são desprezadas. Então ela é um subproduto da indústria de lácteos.
[00:23:11] E quanto mais se produz lácteos, mais sobra esse subproduto. E existem pistas
[00:23:17] também ao longo da história que quando existe excesso de subprodutos da
[00:23:22] indústria de alimentos, esses produtos vão sendo direcionados sob outros
[00:23:26] formatos, vão sendo colocados no mercado de outras formas. Isso acontece
[00:23:31] com whey, por exemplo.
[00:23:32] Sim, eu estou entendendo aqui o teu ponto. Não é dizer que a proteína não faz bem.
[00:23:36] Não, faz bem. O ponto é dizer que proteína em doses excessivas
[00:23:41] pode fazer bastante mal, sobretudo se essas doses excessivas de proteína
[00:23:47] significarem a ausência de outros nutrientes. É como se a proteína tivesse
[00:23:52] virado a prima dona do espetáculo, mas não houvesse quase atores coadjuvantes
[00:23:58] nesse grande show, nessa grande apresentação. Me corrija se eu tiver
[00:24:02] errada. Você, junto com outros pesquisadores, publicou um artigo recente
[00:24:07] sobre o que você enxerga como o mito do déficit proteico. Vocês recuperam
[00:24:13] a origem dessa ideia de que todo mundo precisa consumir mais e mais
[00:24:17] proteína, que isso vem lá da metade do século XX, mas eu queria que você
[00:24:21] retomasse para a gente esse histórico. Quais eram os interesses em jogo na
[00:24:26] quela época? Era isso? Descoar aquilo que sobrava dentro da indústria? Era
[00:24:30] outra coisa? Nesse artigo que você citou, que nós nomeamos como o mito do déficit
[00:24:35] proteico, nós recuperamos um artigo que fez 50 anos no ano passado, em que
[00:24:40] o autor, que é o Donald McLaren, nomeia como o grande fiasco da proteína.
[00:24:47] Ele conta sobre esse esforço coletivo, e isso envolveu agências das Nações
[00:24:53] Unidas, por exemplo, em fazer recomendações no sentido de aumentar
[00:24:58] o consumo de proteína, já naquela altura, 50 anos atrás. Isso estava muito
[00:25:03] relacionado, segundo esse autor, que é o que a gente recupera no nosso
[00:25:07] artigo, a um excesso de produção de leite nos Estados Unidos, que resultou
[00:25:12] na produção de leite em pó, que tinha uma distribuição, um escoamento muito
[00:25:16] mais fácil do que o leite em natura. Ele é menos perecível, o leite em
[00:25:20] pó. Então, essa construção de narrativa de um risco aumentado de
[00:25:25] deficiência de proteínas foi sendo acompanhada por isso. Nos Estados
[00:25:29] Unidos, o excesso de produção de leite, no Reino Unido também, por um
[00:25:35] excesso de produção pecuária, que a gente fala, que é de gado bovino.
[00:25:39] Então, os produtos lácteos que estavam em excesso naquelas populações
[00:25:42] passaram a ser direcionados para outros países que, sim, têm questões
[00:25:47] com um déficit de forma geral, com uma alimentação menos rica, com uma
[00:25:51] alimentação mais relacionada à insegurança alimentar, mas não
[00:25:55] necessariamente faltando proteínas. Então, a gente vai vendo esse padrão
[00:26:00] se repetir. E o que a ciência foi mostrando foi que, em situações em que
[00:26:05] existe energia suficiente naquele padrão alimentar, calorias
[00:26:10] suficientes, dificilmente a gente vai ter déficit de proteína.
[00:26:14] Geralmente, se existem calorias suficientes, haverá também suficiência
[00:26:18] proteica, a não ser que esse padrão alimentar se concentre em pouquíssimos
[00:26:23] alimentos, como os tubérculos, por exemplo. Batata, mandioxol baseada em
[00:26:28] tubérculos, por exemplo, que são alimentos mais pobres em proteínas.
[00:26:36] Eu que agradeço. Foi um prazer.
[00:26:44] Obrigado.