Ordem mundial em colapso? Geopolítica, coerção e escalada de conflitos | Mamilos #543


Resumo

O episódio usa a lógica do jogo War para organizar o “alarme permanente” do noticiário internacional, distinguindo ferramentas de poder que vão da ameaça (tarifas, retórica e intimidação) à coerção (sanções, embargos e pressão cibernética), passando por ameaças territoriais (Groenlândia, Canadá, Ucrânia) e agressões limitadas (operações sem declaração formal de guerra). No tabuleiro, aparecem casos como China–Taiwan (desestabilização e ciberpressão), o embargo a Cuba, sanções ao Irã, a atuação dos EUA na Venezuela e disputas no Oriente Médio envolvendo Israel, Líbano e Irã — com destaque para a “guerra de linguagem” que rebatiza intervenções e esvazia conceitos como “paz”.

No segundo bloco, a conversa migra para a crise/ruptura do multilateralismo criado no pós–Segunda Guerra: os EUA, principal fiador histórico, deixam de sustentar regras e instituições, abrindo vácuos que a China e outros atores (BRICS, G20) tentam preencher ou reformar. Os convidados defendem a relevância da ONU “apesar de tudo”, mas reconhecem a ascensão de um mundo policêntrico, com “muitas mesas” (militar, tecnológica, ambiental, comercial) e arranjos mais flexíveis (“minilateralismo”). Ao discutir a frase “se você não está na mesa, está no cardápio”, o episódio aponta a dissuasão nuclear como barreira máxima, alerta para corrida armamentista e reforça a necessidade de países médios — como o Brasil — combinarem pragmatismo diplomático, diversificação de parcerias e autonomia tecnológica/energética (incluindo capacidade de explorar terras raras) para não virarem alvo.


Anotações

  • 01:10:23 — Sem Mad Max, mas com instabilidade: Ao discutir em que ponto seria possível dizer que “fodeu” e que a ordem virou um cenário tipo Mad Max, Lucas argumenta que processos históricos são lentos e que uma crise sistêmica total (como em grandes guerras) é rara. Pela interdependência atual — econômica, social e cultural — ele considera improvável uma guerra total, embora reconheça que “pequenas crises” continuarão acontecendo. Ele afirma que a ordem de 1945 já acabou, mas usa a ideia de que “o velho não morreu e o novo não pode nascer”, indicando uma fase de mistura entre lógicas e regras: novos atores e poderes, mais instabilidade e imprevisibilidade, e a necessidade de criatividade e maior interlocução entre países.
  • 01:12:25 — Venezuela como turning point e risco de grande guerra: Natália diz que tem uma visão mais pessimista e que será difícil escapar do que chama de “armadilha de Tucídides”, citando o rearmamento global e a ideia de que ninguém compra arma sem pensar em matar. Ela afirma que hoje acha possível, embora não certa, a ocorrência de uma grande guerra, e aponta a ação de Donald Trump na Venezuela como algo impensável e um “turning point” na forma como ela enxerga o futuro, pela quebra de liturgia. Na sequência, ela menciona sinais de escalada em outras frentes, como a disputa financeira, comentando que Xi Jinping sinalizou a intenção de o yuan se tornar moeda de reserva internacional, além de tensões comerciais que estariam se intensificando.
  • 01:15:09 — Encerramento e convite para compartilhar: No final do episódio, as participantes agradecem a audiência e comentam que, apesar das notícias ruins discutidas, foi divertido conversar. Ju e Cris brincam que com os convidados “não tem nenhum minuto de tédio” e que a vida fica “bem interessante”, enquanto ironizam que “de tédio a gente não morre” e mencionam uma “geração exausta”. Elas fecham com um convite para o público compartilhar o programa — “seja o algoritmo que você quer ver no mundo” — e para que ninguém “passe nervoso sozinho”, encerrando com despedidas.

Indicações

Livros

  • Contrato Racial (Charles Mills) — citado para criticar a ideia de “contrato social” universal e expor assimetrias históricas do sistema internacional

Filmes / Series

  • Mad Max — mencionado como metáfora do medo de colapso de regras e avanço de um mundo regido pela força em vez da lei

Linha do Tempo

  • [00:00] — Disputa energética como motor de guerras (petróleo/gás vs. terras raras) e lógica da dissuasão nuclear
  • [00:00] — Abertura: sensação de caos global e proposta de “organizar o tabuleiro” em dois blocos
  • [00:04] — “Carta da ameaça”: ameaças via tarifas e intimidação (Trump, Putin) e respostas diferentes (ceder vs. “pagar pra ver”)
  • [00:07] — “Carta da coerção”: pressão efetiva (China–Taiwan) e instrumentos econômicos (embargo a Cuba; sanções ao Irã)
  • [00:10] — Tecnologia como poder: coerção cibernética, desinformação, eleições e infraestrutura crítica
  • [00:12] — Intervenções sem “guerra”: operação dos EUA na Venezuela e a “guerra de linguagem” para justificar ações
  • [00:14] — “Carta da ameaça territorial”: Groenlândia/Canadá e a reabertura de disputas por território; Ucrânia e Crimeia
  • [00:18] — “Agressão limitada”: Israel–Líbano e ataques pontuais; Irã como alvo de ações seletivas
  • [00:24] — Guerras fora do radar: Sudão (ouro/minérios) e Sahel (gasodutos, petróleo e disputa Rússia–Europa)
  • [00:33] — Segundo bloco: discurso de Mark Carney e a tese de “ruptura” da ordem internacional baseada em regras
  • [00:41] — ONU como “pior melhor opção”: limites, mas valor prático (refugiados, OMS) e disputa por governança
  • [00:49] — “Mesa vs. cardápio”: corrida armamentista/nuclear, múltiplas mesas de poder e o lugar do Brasil (autonomia, tecnologia e recursos)

Dados do Episódio

  • Podcast: Mamilos
  • Autor: B9
  • Categoria: News
  • Publicado: 2026-02-10
  • Duração: 1h15m

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] principais guerras que a gente vê, estão relacionadas a uma disputa energética, seja

[00:00:05] a disputa energética do século XX, que é o petróleo e o gás, ou seja a disputa energética

[00:00:10] do século XXI, que são tal das terras raras, que não são terras, que são algumas substâncias.

[00:00:15] Se você tem capacidade nuclear, você consegue dissuadir qualquer inimigo, por isso que não

[00:00:18] tem sequestro de presidente russo, muito simples.

[00:00:21] Mamilos, mamilos, mamilos, mamilos Mamileiros e mamilhetes, estamos de

[00:00:31] volta nessa temporada que vai pegar fogo do Mamilos, 2026 é o ano, hein?

[00:00:37] Eu sou a Juval Hauer, eu sou a Cris Bartos e o Mamilos de hoje é sobre um game que muita

[00:00:42] gente conhece que chama War, mas de um outro jeito.

[00:00:45] Então vamos lá, Estados Unidos captura um presidente e primeira dama da Venezuela em

[00:00:50] operação militar, Groelândia por ME diz que Trump ainda busca controle da ilha, Irã,

[00:00:57] protestos em massa, estimam-se 2.571 mortos, Rússia, tropas estrangeiras na Ucrânia seriam

[00:01:04] alvos legítimos, Gaza, fome e colapso humanitário seguem em nível crítico.

[00:01:10] Tá fácil?

[00:01:11] Se você sente que o mundo virou um alarme permanente, você não tá sozinho, a cada

[00:01:18] semana surge um novo ponto de ruptura, às vezes é uma ameaça, às vezes uma coerção

[00:01:24] econômica, às vezes é uma pressão territorial e nos casos mais graves, guerra aberta.

[00:01:30] E o efeito emocional disso é uma insegurança difusa, a sensação de que as regras que

[00:01:36] deveriam impedir a escalada, elas estão sempre atrasadas, sempre correndo atrás dos fatos.

[00:01:44] Hoje o nosso propósito é organizar o caos em duas partes.

[00:01:50] No primeiro bloco, a gente vai montar um panorama, um tabuleiro mesmo, passando por Venezuela,

[00:01:57] Groelândia, Irã, as guerras que já estão em curso, Ucrânia, Israel, Palestina, Gaza,

[00:02:03] pra entender o que que tá em disputa e quais são as ferramentas de poder em jogo.

[00:02:08] Daí você acha que acabou, mas não?

[00:02:10] No segundo bloco, a pergunta vai ficar ainda mais profunda.

[00:02:14] Quando as instituições, os mecanismos que a gente criou ali por volta do final da Segunda

[00:02:19] Guerra Mundial parece que não estão dando conta, que tipo de ordem mundial que tá

[00:02:24] emergindo?

[00:02:25] O multilateralismo, ele tá em crise estrutural ou ele tá em fase de adaptação?

[00:02:32] Quais cenários fazem mais sentido para os próximos anos e onde que o Brasil se encaixa

[00:02:37] nesse universo em disputa?

[00:02:39] Fica a fundo e vamos juntos e vamos em ótima companhia.

[00:02:43] Primeiro, Lucas Leite, seja muito bem-vindo estreando a Milos, quem é você na fila do

[00:02:47] pão?

[00:02:48] Ah, gente, obrigado.

[00:02:49] É um prazer enorme estar aqui com vocês.

[00:02:50] Sou o Lucas Leite, professor de Relações Internacionais da FAAP.

[00:02:54] Eu sou também pesquisador do INCT INEU, que estuda os Estados Unidos, Política Internacional.

[00:02:59] Sou formado em Relações Internacionais, com mestrado, doutorado e fui pesquisador

[00:03:02] visitante na Georgetown University, atualmente terminei meu pós-doutorado na Universidade

[00:03:06] Federal de Uberlândia e gosto muito de discutir questões de geopolítica, política internacional

[00:03:11] nas redes e também tô sempre na TV falando um pouquinho.

[00:03:14] Ótimo, completa a nossa mesa, Natália, seja muito bem-vinda, quem é você na fila do

[00:03:19] pão?

[00:03:20] Prazer estar aqui com vocês, mas queridas, Natália Fingerman, sou professora de Relações

[00:03:24] Internacionais na SPM, coordeno hoje um núcleo de estudos e negócios africanos, né, uma

[00:03:30] área que a gente quase não fala, que a gente esquece, mas que também tem muitos conflitos.

[00:03:34] Eu sou formada em R.I. na época que só tinha na PUC, isso entrega um pouco a idade, é

[00:03:39] melhor a gente não falar muito, fiz o mestrado na Universidade de Sussex, doutorado na GV

[00:03:46] e fiquei um tempinho morando na África, então também vou tentar falar um pouquinho desses

[00:03:51] conflitos desse continente.

[00:03:52] Gente, pra dar um panorama pra vocês, com suporte visual, a gente resolveu usar uma

[00:04:00] linguagem que a gente tá muito familiarizada com, que é lá dos anos 80, que é o War,

[00:04:05] muito jogamos War, então a gente fez as cartinhas do War do Mami Elos, tá, e aí eu vou dando

[00:04:11] uma carta pra cada um e cada carta vocês vão ganhar um, dois pins pra vocês falarem

[00:04:19] desse tipo de tensão e dar um exemplo pra gente entender, então primeiro, Natália,

[00:04:25] eu vou te dar a carta da ameaça, na escola que é onde a gente conhece, o bully vinha

[00:04:32] com te pego na saída, que é a ideia de ameaças difusas que ficam sendo feitas o tempo inteiro

[00:04:39] pra que ele não precise efetivamente fazer nada, mas ele coloque domínio do medo, como

[00:04:45] é isso no território da geopolítica?

[00:04:47] Olha, então, acho que ameaça é uma prática muito utilizada, não podemos esquecer, do

[00:04:52] nosso querido Donald Trump, ele tem utilizado ameaça constantemente, né, inclusive ameaçou

[00:05:00] o governo brasileiro, ameaçou o nosso Alexandre de Moraes, o STF, né, então acho que aqui

[00:05:06] a gente pode colocar o Brasil como uma ameaça que foi feita, mas é uma prática que não

[00:05:13] só os Estados Unidos o se utiliza, acredito que a gente tem outras lideranças utilizando

[00:05:17] da ameaça, e um parceiro arqu inimigo de Donald Trump é o Putin, né, a gente não

[00:05:24] sabe se eles são amigos ou inimigos, de considero pra caramba, hein, eu vejo o jeito que você

[00:05:32] faz e até assim, admiro, isso, que tem ameaçado muito a Polônia, não é mesmo?

[00:05:38] Então a gente sabe que essa é uma prática nas relações internacionais que eu faço

[00:05:45] se você não realizar o que eu quero, eu vou te penalizar, vou te penalizar como?

[00:05:51] Ah, colocando uma tarifa, vou te penalizar cortando algum recurso, temos outros países

[00:05:57] que utilizam ameaça também, a China tem feito ameaças aos Estados Unidos pra enfrentar

[00:06:02] algumas tarifas que os Estados Unidos têm colocado, então ameaça é uma prática que

[00:06:08] não era tão utilizada, mas passou a ser comum, de pego na saída virou comum.

[00:06:14] Mas a gente tem respostas muito diferentes, né, então, por exemplo, quando os Estados

[00:06:19] Unidos falam, volta a tarifa todo mundo, tem gente que imediatamente atendeu a ameaça

[00:06:25] e teve gente que, bancou, quis pagar pra ver, gritou seis na orelha, e por exemplo, um vizinho

[00:06:34] aí dos Estados Unidos, o México, deu uma engrossada, qual a diferença dessas abordagens

[00:06:40] aí?

[00:06:41] Olha, me parece que quem deu uma engrossada se saiu melhor nessa relação, né, então

[00:06:46] a gente pode falar sobre o México, sobre o Brasil, sobre a própria África do Sul,

[00:06:51] que também falou, ah, então tá bom, você vai me ameaçar, tudo bem, vai falar que tem

[00:06:55] genocídio contra africano, tudo bem, vamos seguir o jogo, sigo o jogo com a China, sigo

[00:07:01] o jogo aumentando a minha diversidade aí de parceiros, então a ameaça, ela nem sempre

[00:07:08] tem o resultado que o ameaçador espera, vamos dizer, né, ele faz a ameaça, aí ele vai

[00:07:14] ter que implementar a coerção e vai ter que ver até que ponto isso vai gerar impacto,

[00:07:20] e me parece que a Europa, que foi a que mais cedeu, se saiu muito pior nesse cenário.

[00:07:25] Muito ótimo.

[00:07:27] Bora pra próxima carta, Juliana, tira aí.

[00:07:29] Lucas, ela já deu spoiler da próxima carta, que é a carta da coerção, que que é essa

[00:07:36] da coerção e onde que isso tá rolando?

[00:07:38] Muito bem, a coerção é quando essa ameaça sai do plano talvez discursivo, da negociação ainda,

[00:07:44] ou daquela medida, eu vou fazer e de fato a gente tem alguma coisa acontecendo, né,

[00:07:48] então eu vou usar justamente dois exemplos aqui, um deles é Taiwan, em relação a China,

[00:07:53] vou colocar aqui, não tem Taiwan, mas fica por aqui, ó, por aqui, e o outro…

[00:07:57] Apagamento histórico.

[00:07:58] Apagamento histórico, é, da coerção, e outro vou colocar em Cuba.

[00:08:04] Então, a gente tem no caso ali, China e Taiwan, que a China usa muito da questão cibernética,

[00:08:10] por exemplo, pra tentar pressionar, mas não fica só na pressão, não fica só na chantagem,

[00:08:14] ela efetivamente trabalha o tempo todo pra tentar desestabilizar as instituições que existem em Taiwan,

[00:08:20] pra deixar uma pressão muito grande na população, pra ver que não faz sentido seguir com rumo da independência,

[00:08:25] justamente pra mostrar o seguinte, eu já tô colocando custos pra vocês,

[00:08:28] se vocês piorarem esse discurso contra mim, esse custo vai ficar maior,

[00:08:32] é quando a coerção, ela vai praquilo que a gente já percebe que tem a ver com o uso militar mesmo,

[00:08:38] com uma pressão muito grande usando de outros instrumentos.

[00:08:41] Então, eu acho que talvez, no caso de Taiwan, a gente perceba justamente essa ameaça sendo crível,

[00:08:47] eles não tão ali só falando, eles tão fazendo, a gente tá falando aqui em torno de modificação,

[00:08:53] em torno de leis, por exemplo, de mexer na própria retórica dos partidos políticos,

[00:08:58] isso tem mudado muito em Taiwan, justamente por causa dessa pressão constante.

[00:09:02] O outro exemplo que existe há décadas é o embargo econômico,

[00:09:05] então quando os Estados Unidos colocaram o embargo a Cuba por ter sido um país socialista,

[00:09:10] inclusive há pouco tempo saiu um documento mostrando que eles falaram abertamente,

[00:09:15] nós vamos fazer o embargo porque a pressão econômica é o único jeito de segurar a ilha,

[00:09:19] porque a população apoia o governo do Castro na época e tudo mais,

[00:09:23] então o que a gente tem que fazer?

[00:09:25] Uma pressão para que não tenham produtos, para que haja fome,

[00:09:27] para que haja uma pressão inflacionária, para que de dentro o país faça algum tipo de golpe,

[00:09:32] tire os castros do poder.

[00:09:33] Então o embargo econômico, ele, de novo, sai da ameaça,

[00:09:37] se você se aproximar da União Soviética e vai direto para a coerção, tá aqui, embargo econômico.

[00:09:41] O Irã também, né?

[00:09:43] O Irã também, aí entra na questão das sanções econômicas,

[00:09:45] que a gente pode se conectar diretamente com o Irã, com aquilo que a gente falou do pagar para ver,

[00:09:49] que a Europa simplesmente recuou e falou, tá bom, né?

[00:09:53] Se era Blayfell ou não era, a gente nunca vai saber.

[00:09:55] E que o Brasil, a Natália falou muito bem, né?

[00:09:57] Falou, tá bom, então vamos ver, tudo bem.

[00:09:59] Cai.

[00:10:00] Cai aí, vamos ver, seis.

[00:10:02] O Trump não falou nove, né?

[00:10:03] Pelo contrário, o que aconteceu?

[00:10:05] O Brasil já está adverso com as parcerias, já está buscando, portanto, outros meios para garantir

[00:10:09] seus interesses que não passem pela dependência justamente dos recursos americanos.

[00:10:14] Lucas, nesse jogo de coerção, tem um elemento novo que você já citou

[00:10:19] e eu queria que você aprofundasse ele um pouquinho,

[00:10:22] que é a tecnologia, né?

[00:10:24] É o dado, é a cyber coerção.

[00:10:28] Isso é um elemento novo, é a primeira vez que se tem isso.

[00:10:31] Qual que é o peso que tem?

[00:10:34] O peso disso é muito grande quando a gente pensa em eleições,

[00:10:36] quando a gente pensa em desinformação, em fake news e em capacidade crítica,

[00:10:41] ou seja, infraestrutura crítica.

[00:10:43] A gente está falando tanto de informações que vão chegar nas pessoas via WhatsApp,

[00:10:46] via Facebook, a falta de regulação das redes, por exemplo, isso já é um elemento,

[00:10:50] porque você tem uma facilidade de governos estrangeiros de afetar eleições

[00:10:54] e isso tem acontecido sistematicamente,

[00:10:56] tanto quanto a questão da iniciativa privada, em que a gente não tem uma regulação disso.

[00:11:01] Então, os interesses muito específicos de alguns grupos se sobressai em interesses públicos.

[00:11:06] Mais ainda, a gente está falando aqui também de como a Rússia, o Irã,

[00:11:09] os Estados Unidos, Israel, China, Taiwan, Brasil, entre vários outros países hoje,

[00:11:14] se destacam tanto no aspecto positivo do hacker ativismo,

[00:11:19] de ter grupos, no caso do Brasil, por exemplo,

[00:11:21] que atuam muito fortemente para gerar mais proteção,

[00:11:24] que atuam para gerar mais transparência.

[00:11:26] E mais memes.

[00:11:27] E mais memes, afinal, isso é uma arma brasileira muito grande.

[00:11:31] Quanto do outro lado, a gente percebe que as invasões,

[00:11:34] as instalações, por exemplo, nucleares, regiões específicas de geração de energia,

[00:11:40] as instalações, por exemplo, de dados do Departamento de Saúde de alguns países,

[00:11:43] tudo isso começa a ficar temasensível.

[00:11:46] Então, países que não se mobilizarem para a questão cibernética

[00:11:49] vão, obviamente, ser alvos fáceis.

[00:11:51] O caso da Venezuela, que os Estados Unidos entrou lá,

[00:11:55] mas não foi uma operação militar, é um mandado judicial, veja bem,

[00:11:59] mas em outro país para ter mandado judicial, como que é isso, Lucas?

[00:12:03] Aí a gente está no campo da coerção ainda?

[00:12:05] Olha, eu acho que da coerção a gente já foi para a atuação direta.

[00:12:09] Não chega a ser uma guerra, não há uma declaração de guerra

[00:12:11] e acho que essa é a questão mais perigosa.

[00:12:14] Nos últimos 100 anos, se os Estados Unidos declarou guerra pelo Congresso

[00:12:16] uma vez, acho que foi muito que foi a guerra da Coréia.

[00:12:19] Todos os outros momentos foram intervenções limitadas,

[00:12:23] ataques para garantir a segurança, melhoria na mudança de regime dos países

[00:12:28] para elevar a democracia, direitos humanos, etc,

[00:12:30] é um discurso que a gente conhece desse internacionalismo liberal

[00:12:34] que a gente fala dos Estados Unidos.

[00:12:36] No caso da Venezuela, eles vão justificar que o Maduro

[00:12:39] foi culpado por tribunais americanos e por isso eles têm legislação para tanto,

[00:12:43] porque existe uma lei lá nos Estados Unidos que eles aprovaram para eles

[00:12:46] e que eles podem aplicar o direito deles para fora,

[00:12:49] só falta avisar o resto do mundo.

[00:12:50] Combina com os russos.

[00:12:51] Combina com os russos, é, pois é.

[00:12:53] Com eles combinaram, né, porque duvido muito que vai lá tirar o Putin.

[00:12:57] Verdade.

[00:12:57] Tem uma coisa interessante aí que tem uma guerra que a gente não fala

[00:13:01] de todas essas, que é a guerra de linguagem, né?

[00:13:05] Porque as palavras aqui importam muito.

[00:13:08] Como assim declarou guerra uma vez só, mas estão sempre guerreando?

[00:13:11] Não, não, não, não, não.

[00:13:13] Estou fazendo uma intervenção completamente diferente.

[00:13:16] Limitada, estratégica.

[00:13:17] Nós temos hoje uma banalização da paz, né?

[00:13:20] A partir do momento que o Donald Trump fala que ele precisa receber o Nobel da paz,

[00:13:27] ele cria o Conselho da Paz.

[00:13:29] Mas que paz é essa? Que tipo de paz?

[00:13:32] O duplo-pensar, né?

[00:13:33] É, o que eles estão falando sobre paz?

[00:13:36] Isso eu acho uma questão muito grave quando a gente vai pensar em relações internacionais.

[00:13:41] Mas como é que a paz tem sido utilizada de uma maneira banal?

[00:13:44] Esvaziando o conceito da palavra, né?

[00:13:47] Exatamente, exatamente.

[00:13:48] Se esvaziou o acordo de paz entre Israel e Gaza.

[00:13:51] Paz?

[00:13:53] Paz.

[00:13:53] Pois é, aí a gente vai para a próxima carta, que eu acho que é isso.

[00:13:57] É uma ameaça também, mas a gente dá um passinho a mais.

[00:14:01] Porque não é só que eu quero interferir nas suas instituições.

[00:14:05] Não é só um cyber ataque.

[00:14:07] Eu tô dizendo que eu vou tomar o seu tênis mesmo.

[00:14:10] E aí, onde que tá rolando essa ameaça territorial?

[00:14:13] É meio vinta disso, né?

[00:14:16] A gente tinha certeza que o mapa já tava desenhado

[00:14:21] e que um não podia roubar o lanche do colega.

[00:14:25] E aí?

[00:14:26] É, parece que…

[00:14:27] Tá voltando igual a ombreira.

[00:14:28] Ninguém pediu.

[00:14:29] Ninguém pediu, mas tá voltando.

[00:14:31] O erro.

[00:14:33] A Groenlândia tem passado por uma ameaça territorial, não é mesmo?

[00:14:36] Parece que os Estados Unidos quer fincar a bandeira igual na Lua.

[00:14:41] A gente já dominou a Lua, então agora quem sabe a Groenlândia também

[00:14:45] com a bandeira dos Estados Unidos, ele até mesmo fez um meme.

[00:14:48] O Canadá também parece que vai fazer parte, né?

[00:14:51] Vai ser anexado, vai virar um estado americano.

[00:14:53] Vai ser tão bom pra vocês, a Nida falou, não é?

[00:14:55] Foi.

[00:14:56] Os americanos vão gostar do serviço de saúde, que vai ter gratuito.

[00:15:01] Parece que vai ser um bom negócio.

[00:15:03] E a Ucrânia também, né, ela tem passado por isso, não é?

[00:15:07] Vou tomar o seu território.

[00:15:09] E a Crimeia já foi tomada lá em 2014.

[00:15:12] Agora, tem uma coisa de vocês que trabalham com relações internacionais,

[00:15:15] que é muito diferente dos outros humanos que estão aqui vivendo o dia a dia.

[00:15:20] A nossa geração já cresceu no tratado do pós-segunda guerra.

[00:15:25] Essa ideia de que já tá tudo bem delimitado pra gente sempre foi assim,

[00:15:30] porque quando a gente nasceu, já tava delimitado.

[00:15:33] Quando você vai dar um zoom out na história,

[00:15:35] esses blocos nunca pararam de se mover.

[00:15:38] Como é que a gente trabalha isso?

[00:15:40] Porque a sensação de segurança, na verdade, ela é só uma ficção mesmo.

[00:15:44] Se a gente chega na Segunda Guerra Mundial,

[00:15:47] dá uns passinhos pra trás, você vê que não sempre se moveu.

[00:15:51] Isso aqui é um desenho atual, mas daqui a pouco ele muda.

[00:15:54] Como que vocês que veem o dia a dia dessas mudanças

[00:15:58] conversam com os outros humanos que falam, não sempre foi assim, não tava estabelecido?

[00:16:04] Eu acredito que o que a gente tem hoje é que a sensação de instabilidade é muito maior.

[00:16:11] Você colocou, sempre teve uma movimentação.

[00:16:14] O período da Guerra Fria, como dizem, é uma guerra fria.

[00:16:17] A sensação que se tem é que não existiu nenhum conflito direto

[00:16:21] entre as duas grandes potências, da época que era a União Soviética e Estados Unidos.

[00:16:26] Mas quando a gente sai e dá um zoom, a gente vai ver que, de fato, não pararam os conflitos.

[00:16:32] Então, nós nascemos no período de redemocratização, os anos 80.

[00:16:37] Mas o que foi o período 60, 70 na América Latina?

[00:16:41] A quantidade de intervenções militares que foram feitas,

[00:16:44] não foram golpes militares feitos pelos próprios milicos,

[00:16:49] mas pra favorecer um apoio aos Estados Unidos.

[00:16:53] A gente pega a África, dentro da África, todos os processos de independência

[00:16:57] que aconteceram no continente africano, aconteceram processos de independência junto com guerra civis.

[00:17:02] E guerra civis sustentadas porque sempre era o bloco socialista e o bloco capitalista,

[00:17:08] que mantiveram esses conflitos e que mantiveram…

[00:17:11] Armaram esses conflitos.

[00:17:13] Isso é importante, porque se a gente tá guerreando com faca, tem um impacto no país.

[00:17:19] Se a gente tá guerreando com revólver, tem outro impacto no país.

[00:17:22] Se é com bomba, né, e aí a gente vai pro nível de dano maior, certo?

[00:17:28] Não, exatamente, mantiver esses conflitos de forma constante, durante anos e mais anos.

[00:17:34] Então, você fala, como é que pode ir em regiões tão pobres,

[00:17:38] tão sem nada, com tantas armas e com tantas bombas?

[00:17:42] Uma manutenção de conflito por tanto tempo?

[00:17:44] Então, a sensação hoje da instabilidade é maior,

[00:17:48] mas, de fato, se a gente for olhar ao longo da história,

[00:17:52] essa ideia de que as guerras tinham acabado por muito tempo…

[00:17:55] Fim da história, né?

[00:17:56] Não, peraí, mas aí vocês já tão puxando pra segunda parte,

[00:18:00] que é onde você tá chegando naquele discurso que o Premier Canadense falou que

[00:18:07] nunca foi verdade, mas era cômodo pra gente, era conveniente pra gente sustentar que era verdade.

[00:18:13] Por quê?

[00:18:13] Alguns países, como o Canadá, os países europeus, estavam, sim, seguros.

[00:18:21] Essas mudanças não aconteciam no quintal deles,

[00:18:23] então eles podiam dizer que isso era verdade desde que fosse verdade pra eles.

[00:18:27] Mas chegaremos lá.

[00:18:28] Boa.

[00:18:29] Lucas, vamos pra próxima carta, que é agressão limitada.

[00:18:33] Aggressão limitada é uma palavra, uma expressão curiosa, não é?

[00:18:38] Bom, é um femismo, né?

[00:18:40] Pra eu vou te atacar, vou dominar um pedacinho, mas não vou falar que é guerra,

[00:18:43] é só pra garantir um certo interesse aqui pra você não me encher o saco, basicamente, né?

[00:18:47] E aí eu vou falar justamente, eu tinha pensado aqui primeiro em Israel e o Líbano.

[00:18:54] Pronto.

[00:18:55] Israel e Líbano justamente porque a gente tá falando de um controle ali do sul do Líbano,

[00:19:00] que é feito por Israel, que não é oficial no sentido de anexação, né?

[00:19:03] Israel não tá falando esse é meu território,

[00:19:05] apesar de que existem grupos dentro do Israel que falam que sim, existe a Greater Israel, né?

[00:19:09] Ou seja, que eles têm que conquistar, sim, aquela grande parte que pega Tussiná

[00:19:13] e uma parte da Arábia Saudita, seria uma hegemonia ali no Oriente Médio.

[00:19:16] Então ali faz parte do que eles falam que como se fosse uma área vital agora

[00:19:19] pra segurança dos israelenses.

[00:19:21] Então nesse caso, uma agressão limitada.

[00:19:23] Eles estariam atuando por causa do Hezbollah, por causa desses limites.

[00:19:27] O outro eu vou também colocar na Venezuela.

[00:19:32] A gente pode pensar que no caso da Venezuela, justamente porque é uma agressão que é limitada.

[00:19:36] Ela não fechou em todo o governo.

[00:19:39] Se a gente pensar bem, o governo de fato permanece.

[00:19:42] As instituições permanecem, não houve uma mudança de regime na Venezuela.

[00:19:46] Você fez uma operação, você tá controlando o território,

[00:19:48] querendo ou não se você controla a produção de energia, a produção de petróleo,

[00:19:52] você tá controlando boa parte do aspecto físico do país, que tem a ver com geoeconomia.

[00:19:56] E geoeconomia diz respeito, por exemplo, a quais navios podem ou não circular naquela região ali na Venezuela.

[00:20:02] E o Donald Trump mandou de fato atacar indiscriminadamente falando que eles eram narcoterroristas.

[00:20:07] Ou seja, nós estamos falando aqui de um controle territorial que não fala só do território continental,

[00:20:12] mas também do próprio mar.

[00:20:13] Então por isso eu diria que são, nesse caso, adesões limitadas.

[00:20:16] E de bens, né, porque a questão é, é o segundo maior produtor de petróleo do mundo.

[00:20:22] Então, controlar.

[00:20:24] Com capacidade de produção.

[00:20:26] Capacidade, exato.

[00:20:27] É importante colocar, porque hoje a Venezuela não produz aquilo que ela poderia.

[00:20:31] Menos que o Brasil hoje em dia, menos que o Milhão de Barris, por exemplo.

[00:20:34] Não, e eles estavam muito próximos do Irã.

[00:20:38] A partir do momento que tem essa intervenção, já corta essa relação, certo?

[00:20:43] Exato, e se tivesse outro pinzinho eu colocaria no Irã, justamente.

[00:20:47] Que é quando a gente teve aquele conflito recente, né, do ano passado,

[00:20:50] em que os Estados Unidos apoiaram Israel e atacaram junto de Israel uma série de instalações

[00:20:54] focadas em eliminar alguns alvos específicos da guarda revolucionária lá do Irã.

[00:20:59] E também alvos que supostamente estão ligados à produção de urânio,

[00:21:03] em enriquecimento de urânio para a produção do que eles dizem de ser de produção de armas nucleares.

[00:21:07] Então, essas agressões limitadas, elas dão um recado muito claro, é o que você muito bem colocou.

[00:21:12] Países que são aliados e que entram nessa esfera do inimigo,

[00:21:15] ficam coagidos a não, de alguma forma, terem que seguir aquilo que os Estados Unidos coloca,

[00:21:21] porque senão sofrerão mais agressões limitadas.

[00:21:25] Dentro da agressão limitada, você trouxe dois exemplos e dois aspectos

[00:21:30] que deixam as pessoas que querem se informar totalmente perdidas.

[00:21:34] Porque os Estados Unidos andou bombardeando um monte de navio da Venezuela,

[00:21:39] e eles falam, eram traficantes, tinham drogas.

[00:21:42] Antes a gente falava, era mesmo? Hoje eu fico, mas era?

[00:21:46] Quem pode falar que era isso? Como que eu vou ter certeza?

[00:21:49] Desde a guerra do Iraque, que eles juraram que estavam tirando as bombas, aí não tinha bomba.

[00:21:56] Agora quando, ah, eram instalações específicas nucleares.

[00:22:01] Mas quem falou que era mesmo?

[00:22:03] Aí a gente não acredita na narrativa dos veículos de jornalismo do Irã e nem da Venezuela.

[00:22:12] Porque você vai, não, isso aí não é não, eles estão falando só o lado deles.

[00:22:17] E aí a gente fica aqui sem saber, não tem uma comprovação, não tem um órgão

[00:22:23] que a gente confie o suficiente, que fala realmente, tá aqui à prova.

[00:22:28] Então você pode atacar o que você quiser e falar o porquê que você quiser.

[00:22:31] Nós teríamos, só que eles foram tirado todo o seu poder de capacidade de atuação,

[00:22:37] de investigação, de geração de transparência, que está ligado, por exemplo, às instituições da ONU.

[00:22:41] Uma série de instituições do guarda-chuva da ONU tem capacidade sim de entrar no Irã,

[00:22:46] olhar as instalações, fazer relatórios, e eles fizeram isso tudo.

[00:22:49] E mostraram, olha, não há nada aqui que demonstre que há busca

[00:22:53] por enriquecimento de urânio para construir armas nucleares.

[00:22:57] O problema é, se a gente tem um ator que fala, não importa, eu tenho informações, x, y, z,

[00:23:02] que a minha inteligência é melhor. Vozes da minha cabeça.

[00:23:04] Vozes da minha cabeça, e aí entra as armas de destruição de massa.

[00:23:08] Fonte arealdosa.

[00:23:10] É o Iraque, 2.0 nesse aspecto, né? Só que eles aprenderam que se entrar

[00:23:15] para mudar regime e ocupar o país, não vai dar certo.

[00:23:18] Então eles vão focar nas agressões limitadas ou em outras formas.

[00:23:21] Porque a coerção mesmo que vocês tinham falado, foi tão forte as sanções econômicas,

[00:23:28] que boa parte do que está motivando essas manifestações no Iraque,

[00:23:34] inclusive a gente citou no início, está morrendo muita gente,

[00:23:37] são essas sanções, é a crise econômica provocada pela sanção.

[00:23:42] Então assim, antes de vir a bomba, o implodir o país por dentro é eficiente mesmo?

[00:23:48] É um tipo de agressão também, é um tipo de intervenção limitada.

[00:23:52] Porque querendo ou não, as movimentações no Irã, sim, elas têm um fator econômico.

[00:23:57] Mas de fato, tem algum fator ali, com certeza tem a inteligência da Mossad

[00:24:06] criando com que aquelas manifestações sejam tão agressivas, tipo os black box.

[00:24:10] Não sei se vocês lembram, quem é mais hélio lembra dos black box.

[00:24:13] Que são infiltrados, que vão fazer com que aquelas manifestações

[00:24:17] deixem de ser manifestações puramente pacíficas e passem a ser manifestações

[00:24:21] que vão destruir prédios públicos, que têm objetivos políticos que vão além

[00:24:26] simplesmente de querer uma melhora na questão econômica, mas sim de ocupar o poder.

[00:24:33] Então você tem ali parte da inteligência israelense,

[00:24:36] da inteligência norte-americana envolvida assim dentro do Irã.

[00:24:41] E por fim, a nossa última cartinha aqui é guerra, porque como a Cris falou,

[00:24:48] a gente tem a impressão de que a gente tem duas guerras apenas no momento,

[00:24:51] porque são os que ocupam o noticiário.

[00:24:54] Mas eu gosto quando vocês vêm para a mesa e falam, gente,

[00:24:56] é porque vocês estão prestando pouca atenção, que guerra não está faltando nesse mundo.

[00:25:01] Como que é assim, onde que tem guerra, que guerra a gente fica sabendo,

[00:25:06] que guerra a gente não fica sabendo, que diferença faz isso?

[00:25:09] A gente consegue dizer que a gente está num mundo cada vez menos seguro?

[00:25:14] Estamos num mundo cada vez menos seguro e num mundo que cada vez mais

[00:25:19] as guerras estão em torno da questão da energia.

[00:25:22] Então as principais guerras que a gente vê estão relacionadas a uma disputa energética,

[00:25:27] seja a disputa energética, vamos dizer, do século XX, que é o petróleo e o gás,

[00:25:31] ou seja, a disputa energética do século XXI, que são a tal das terras raras,

[00:25:35] que não são terras, que são algumas substâncias.

[00:25:38] Então uma guerra que eu acho que é importante a gente colocar, ela está aqui, que é a Guerra do Sudão.

[00:25:42] É uma das guerras que mais têm causado mortos no mundo hoje,

[00:25:46] um dos maiores genocídios, e ela está em torno de vários minérios.

[00:25:50] Mas o mais importante dele é um que tem se valorizado muito graças

[00:25:54] à desvalorização do dólar, que é o ouro.

[00:25:59] O Sudão tem uma das maiores reservas de ouro do mundo.

[00:26:04] Inclusive, tem regiões do Sudão que você anda no deserto e você pega ouro.

[00:26:10] É ouro fácil.

[00:26:11] Não é nem ouro aquele ouro difícil, sabe, que você tem que garimpar.

[00:26:15] Isso, garimpar. É ouro muito fácil.

[00:26:18] E o ouro hoje tem sido muito valorizado,

[00:26:20] porque a maior parte dos bancos centrais do mundo, inclusive o Brasil,

[00:26:24] não sei se vocês viram, aumentou a sua reserva de ouro,

[00:26:27] retirou parte da sua reserva em dólar e transferiu para ouro

[00:26:32] por conta da instabilidade dos Estados Unidos.

[00:26:36] E isso tem gerado uma instabilidade na moeda norte-americana.

[00:26:39] Então essa é uma guerra que ninguém fala, que tem envolvimento, inclusive,

[00:26:44] dos Emirados Árabes Unidos, que está envolvido,

[00:26:47] que está financiando parte desse conflito.

[00:26:50] O conflito foi declarado por quem no Sudão?

[00:26:53] O conflito é declarado, tem a RFS e tem o outro grupo,

[00:26:59] que agora eu não lembro o nome, mas são dois grupos internos.

[00:27:01] Mas um é financeiro, é uma guerra civil.

[00:27:04] Mas quem está por trás desses civis?

[00:27:07] Quem está por trás desses civis, um deles é o Emirado dos Árabes Unidos.

[00:27:10] Por quê? Porque ele é o maior comprador de ouro do Sudão.

[00:27:14] Então ele tem um interesse direto dentro do Sudão e tem um lado do Sudão.

[00:27:18] Lembra que teve a divisão Sudão e Sudão do Sul?

[00:27:21] Que é onde tem uma grande reserva de petróleo.

[00:27:24] Então o Sudão também tem essa área toda de petróleo.

[00:27:27] Então você tem uma disputa entre os grupos do governo

[00:27:31] para controlar o ouro e a passagem do petróleo.

[00:27:36] Então a gente tem essa guerra que está envolvendo o Emirado dos Árabes Unidos.

[00:27:40] Parte do Irã também está envolvido.

[00:27:43] Então o Irã também trabalha com esses grupos regionais.

[00:27:47] E a gente tem todas as guerras.

[00:27:48] E aí eu vou puxar a sartinha para o meu lado, vou falar da África.

[00:27:51] Claro, é isso. É isso, por isso.

[00:27:53] Eu acho que ninguém fala. Falar aqui de Israel, todo mundo sabe.

[00:27:57] E Ucrânia. Só tem duas guerras acontecendo.

[00:28:01] Por isso, por isso.

[00:28:02] Eu acho que é na região do Sahel.

[00:28:04] E na região do Sahel a gente tem muitos conflitos.

[00:28:06] E aí a gente pode pegar Níger, Mali.

[00:28:10] Toda essa região tem muito conflito em torno também do petróleo.

[00:28:13] Porque existia um projeto e aí é um projeto que vai conectar muito com quando a gente pensa

[00:28:20] na dependência europeia do petróleo russo.

[00:28:23] Eles têm muita dependência do petróleo.

[00:28:25] Eles têm um projeto de fazer um gasoduto que sai aqui da Nigéria,

[00:28:28] que é um dos maiores produtores, inclusive que teve recentemente

[00:28:33] o que a gente está chamando aqui de agressão limitada.

[00:28:35] O Badiada, né? Exato.

[00:28:37] Os Estados Unidos fez uma agressão limitada dentro da Nigéria.

[00:28:40] Por quê? Porque o projeto era pegar esse gasoduto aqui da Nigéria

[00:28:44] e passar por toda essa região, cruzando o Níger,

[00:28:48] indo pelo Sudão e até a Europa.

[00:28:51] Você criar uma nova fonte de petróleo para a Europa.

[00:28:55] Independente da Rússia.

[00:28:56] Independente da Rússia e independente dos Estados Unidos.

[00:28:58] Perfeito. Ótima ideia.

[00:29:00] A Europa depende de quem? Dos Estados Unidos

[00:29:02] para ter muito parte do seu petróleo, que compra petróleo líquido.

[00:29:06] Então essa região está passando por um processo de instabilidade muito grande.

[00:29:12] E muito dessa instabilidade e mudança de governo foi financiada pelos russos.

[00:29:17] Boicotando este projeto dos gasodutos.

[00:29:21] Então hoje o governo do Níger rompe com a França,

[00:29:25] porque uma região do Sahel era toda dominada ali, né?

[00:29:28] Pelas colônias francesas.

[00:29:31] Eles passam a romper com a França e começam a inviabilizar

[00:29:35] esses projetos de gasodutos saindo da Nigéria.

[00:29:39] Então a gente tem aí um…

[00:29:41] Olha o tabuleiro de xadrez.

[00:29:43] Um tabuleiro de xadrez, exato.

[00:29:45] Que enquanto a gente acha que a Rússia está lutando somente aqui na Ucrânia,

[00:29:49] é um equívoco.

[00:29:50] Ela está lutando também ali na região da África,

[00:29:53] para garantir a continuidade, vamos dizer, da dependência da Rússia.

[00:29:58] A única coisa é a defesa, né?

[00:30:00] Ela não quer concorrência, perfeito.

[00:30:02] Agora tem uma coisa aqui, Natália,

[00:30:04] que eu acho que se criou na cabeça do Ocidente,

[00:30:07] uma ideia de que tanto o Oriente Médio quanto a África,

[00:30:13] eles estão brigando entre si.

[00:30:14] Um bando de malucos.

[00:30:16] Eles estão sempre brigando entre si.

[00:30:18] E a gente não percebe as influências das grandes potências

[00:30:22] movimentando por dentro esses grupos.

[00:30:27] Por que essa narrativa cola tanto?

[00:30:29] Porque de fato a gente não se preocupa com o que está acontecendo nessas regiões.

[00:30:33] Infelizmente, eu acho que isso é uma perspectiva muito brasileira, né?

[00:30:37] Acho que é muito assim, nossa…

[00:30:41] Não sei, assim, se não é a América Latina,

[00:30:44] acho que também tem um pouco essa percepção.

[00:30:46] Mas quando você vai, por exemplo, pra África,

[00:30:50] fica muito claro como as grandes disputas

[00:30:54] e essas grandes potências sabem muito bem da importância.

[00:30:57] Os Estados Unidos resolveram abrir mão da África.

[00:31:00] Inclusive a estratégia de segurança e defesa que o Donald Trump publicou,

[00:31:05] ele deixa muito claro que a África não vai ser mais o foco,

[00:31:08] porque ele percebeu que ele não está conseguindo ganhar espaço.

[00:31:11] E quem está competindo lá?

[00:31:13] A China?

[00:31:14] A China pegando muita infraestrutura, né?

[00:31:16] Portos, muito, né?

[00:31:18] Recurso natural, cobalto, controlando minério de cobalto, coal, né?

[00:31:23] Bem quietinho, sem bomba, só uma coisa comercial.

[00:31:28] A Fernanda Magnotta teve aqui em 2020, que ela falou,

[00:31:33] e ela estava falando disso, ó, tá tudo dominado, tá tudo…

[00:31:37] E na América do Sul também, chegando forte, né?

[00:31:40] Também, também. E aí que foi a preocupação dos Estados Unidos.

[00:31:44] Então vamos focar aqui na América do Sul,

[00:31:46] porque afinal é o nosso quintal,

[00:31:49] e vamos esquecer ali do continente africano,

[00:31:51] porque a gente não está conseguindo dar conta de tudo.

[00:31:53] Porque quando você fala dos motivos,

[00:31:58] e você fala do que é a riqueza hoje,

[00:32:00] do século XX é o petróleo, do XXI são esses minerais, a energia,

[00:32:06] a gente, Brasil, tem tudo.

[00:32:08] Tem.

[00:32:09] Assim, eu tô apavorada com o quanto a gente é sedutor,

[00:32:13] e atraente.

[00:32:14] Exato, exato.

[00:32:15] Porque tudo que hoje é a riqueza,

[00:32:18] que esses países estão dispostos a brigar pra ter, a gente tem.

[00:32:23] A segunda maior reserva de terras raras.

[00:32:25] E aí?

[00:32:26] Do mundo.

[00:32:27] O problema do Brasil é…

[00:32:28] Tamo com a bunda na janela?

[00:32:30] Não.

[00:32:31] O problema, eu acho que deveria integrar a parte da Petrobras,

[00:32:34] a exploração dessa reserva.

[00:32:36] Porque querendo ou não a Petrobras,

[00:32:39] agora todos os liberais vão me matar,

[00:32:41] Ela é um caso de sucesso.

[00:32:43] É mesmo.

[00:32:44] De uma estatal pública.

[00:32:47] Que dá muita grana.

[00:32:48] Dá muito dinheiro, é muito lucrativa.

[00:32:50] Desenvolveu a exploração do pré-sal.

[00:32:53] Tem muita tecnologia.

[00:32:55] Exato, muita tecnologia.

[00:32:56] E deveria criar um braço pra explorar as terras aras.

[00:33:01] Porque nós temos muito, mas não temos a capacidade de exploração.

[00:33:04] E é isso que a gente deveria buscar desenvolver internamente.

[00:33:07] Isso não significa que a gente não deve negociar com Estados Unidos ou China

[00:33:12] algumas áreas de terras aras?

[00:33:15] Não, podemos negociar.

[00:33:16] Mas é importante que isso não fique somente em mãos estrangeiras.

[00:33:19] Que a gente tenha também a nossa própria capacidade.

[00:33:21] Da mesma forma que a gente tem no petróleo.

[00:33:23] A gente tem empresas estrangeiras aqui trabalhando.

[00:33:25] Mas temos a Petrobras também trabalhando.

[00:33:28] Então, acho que o Brasil precisa ter muito claro isso na sua agenda.

[00:33:35] E seria um tema interessante até mesmo pra questão eleitoral.

[00:33:38] Ótimo.

[00:33:39] Fizemos aqui um panoraminha.

[00:33:41] Dá pra ver que o mapa não tá bolinho.

[00:33:44] Tem tensões diversas espalhadas pelo mapa.

[00:33:48] Agora no segundo bloco a gente vai tentar entender

[00:33:51] porque que esse caldeirão tá borbulhando e como que as regras mudaram.

[00:33:54] Vamos lá.

[00:33:55] Inda Vos.

[00:33:56] Países como o Canadá prosperaram sob o que chamamos de ordem internacional baseada em regras.

[00:34:01] Nós nos juntamos às suas instituições.

[00:34:03] Nós elogiamos seus princípios.

[00:34:05] Nós nos beneficiamos de sua previsibilidade.

[00:34:08] E por causa disso, podemos buscar políticas externas baseadas em valores sob sua proteção.

[00:34:13] Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa.

[00:34:18] Que o mais forte se isentaria quando conveniente.

[00:34:22] Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica.

[00:34:27] E sabíamos que o direito internacional se aplicava com rigor variável

[00:34:31] dependendo da identidade do acusado ou da vítima.

[00:34:35] Essa ficção foi útil e a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos,

[00:34:41] rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável,

[00:34:44] segurança coletiva e suporte para estruturas de resolução de disputas.

[00:34:50] Então colocamos a placa na janela.

[00:34:53] Participamos dos rituais e evitamos em grande parte apontar as lacunas entre a retórica e a realidade.

[00:35:02] Essa barganha não funciona mais.

[00:35:05] Deixe-me ser direto.

[00:35:07] Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição.

[00:35:11] Mark Karney, que é o primeiro-ministro atualmente no Canadá, fez um discurso longo, interessantíssimo.

[00:35:17] Várias frases que dá para virar camiseta.

[00:35:20] Ele está lá falando que a gente não está vivendo uma fase de transição, mas de ruptura.

[00:35:26] O fim de uma ficção confortável.

[00:35:29] E o começo de uma realidade que é mais dura.

[00:35:32] E aí a gente vai usar isso aqui como um ponto de partida.

[00:35:35] Dá para falar de ruptura mesmo? Dá para cravar? Podemos cravar?

[00:35:39] Ou ele é um processo longo que a gente está aprendendo a renomear?

[00:35:43] Não era, não é mais isso, mas também não é aquilo.

[00:35:48] Tem um terceiro caminho, realmente a gente está rompendo.

[00:35:51] E eu acho que ao mesmo tempo em que nós temos a continuação de várias regras,

[00:35:54] muitos estados indo utilizando as regras de comércio, utilizando as instituições.

[00:35:59] Tudo bem, a gente vai ter uma crise desse multilateralismo,

[00:36:02] que é a ideia de que nós vamos ter regras universais para todos,

[00:36:04] todos vão cumprir, porque se todos cumprem o custo fica diluído.

[00:36:08] Então não fica pesado para ninguém.

[00:36:10] Os países mais ricos, mais poderosos, arcam com pouco mais.

[00:36:12] Os países mais fracos, em desenvolvimento, mais pobres, arcam com menos.

[00:36:16] É a lógica de uma certa democracia dessa governança.

[00:36:20] Só que isso eu diria então, portanto, que está em crise, está em ruptura,

[00:36:23] porque o principal financiador desse processo, que são os Estados Unidos,

[00:36:26] não querem mais financiar essas mesmas regras.

[00:36:29] Quando você tem o principal ator que ajudou a criar uma ordem,

[00:36:31] a sua imagem e semelhança no pós-segunda guerra,

[00:36:34] não quer mais fazer isso, a gente tem alguns caminhos.

[00:36:38] Um deles é o que a gente viu ali no pós-guerra fria.

[00:36:41] A ideia de que os Estados Unidos vão ser unilaterais,

[00:36:44] vão agir da forma que quiserem, dependendo de quem é o governante,

[00:36:47] vai ter mais multilateralismo ou menos multilateralismo,

[00:36:49] mas ele permanece lá.

[00:36:50] Acabar com as instituições não faz sentido,

[00:36:52] porque elas ainda garantem algum tipo de interesse dos Estados Unidos,

[00:36:55] das grandes potências, melhor dizendo, do mundo ocidental em última instância,

[00:36:59] dos vencedores da segunda guerra,

[00:37:00] somando aqui China e Rússia, que em algum caso a parte.

[00:37:04] O outro lado é, essa ruptura está em processo

[00:37:10] por uma transformação que a gente não sabe para onde vai.

[00:37:12] Ou seja, nós vamos ter países que vão continuar utilizando dessas regras

[00:37:17] e como os Estados Unidos não querem mais arcar com esses custos

[00:37:20] e eles vão definir a lacarte, o multilateralismo deles,

[00:37:24] hoje com Trump a gente não tem nem isso,

[00:37:25] mas é a ideia de que America first, primeiro nós, primeiro nós,

[00:37:29] depois nós de novo.

[00:37:31] Então não sobra nada.

[00:37:32] O que a China está fazendo?

[00:37:34] A China está olhando para isso tudo, o Brasil, a Índia

[00:37:37] e vários países que sempre ganharam muito com o multilateralismo

[00:37:40] e estão falando o seguinte, tudo bem,

[00:37:42] você não precisa mais usar o multilateralismo então nos Estados Unidos.

[00:37:45] Em alguns casos a China está bancando.

[00:37:48] Ela está falando, você vai sair da agonização mundial da saúde?

[00:37:50] Tudo bem, pode sair.

[00:37:51] Eu ajudo a pagar aquilo que está precisando para continuar com as pesquisas,

[00:37:54] pagamento de pessoal, etc.

[00:37:56] Você vai sair da agonização internacional do trabalho?

[00:37:58] Não tem problema não.

[00:37:59] Eu junto aqui com outros atores e a gente faz uma reconfiguração.

[00:38:02] Em última instância, quando os Estados Unidos saem dessas instituições

[00:38:06] ou não custeiam mais elas, ele está gerando um vácuo

[00:38:10] e esse vácuo ou ele vai significar a ausência de atuação dessas instituições

[00:38:15] ou a reforma mesmo que indireta dessas mesmas instituições.

[00:38:19] E tudo que a China quer junto com os países do BRICS, por exemplo,

[00:38:23] é a reforma das instituições, é a mudança na governança institucional.

[00:38:28] Então é justamente perceber que aquele mundo que foi criado

[00:38:31] no pós-segunda guerra mundial, ele não existe mais.

[00:38:33] As grandes potências hoje são outras e a gente está falando de um mundo policêntrico.

[00:38:37] Não existe mais só arena militar e econômica.

[00:38:40] Nós falamos aqui várias vezes controle de recursos, questões ambientais,

[00:38:43] a gente está falando aqui da arena dos direitos humanos,

[00:38:46] a gente está falando de questões tecnológicas obviamente

[00:38:49] e a gente vai perceber que além de ser policêntrico,

[00:38:52] ou seja, são vários centros diferentes para cada tema,

[00:38:54] para cada área que a gente está olhando,

[00:38:57] cada uma delas tem um jeito melhor ou pior de agir de acordo com o ator.

[00:39:01] Então algumas vão ter uma lógica multilateral mais fácil, por assim dizer,

[00:39:04] e outras não.

[00:39:06] Então eu diria que há uma ruptura a caminho em algumas dessas áreas

[00:39:10] e em outras há transformações.

[00:39:12] Busca, portanto, de outras parcerias

[00:39:14] Ou então um multilateralismo talvez comece a se tornar mais um minilateralismo,

[00:39:19] em certa medida, ou a busca de arranjos mais flexíveis.

[00:39:22] Ao invés de eu ter que gerar um consenso universal sobre regras,

[00:39:25] eu chamo uma parte aqui, chamo uma parte ali, vejo quem concorda,

[00:39:29] faço uma pressão se for necessário e aí as potências médias regionais

[00:39:33] começam então a tomar uma liderança maior desse processo de constituição

[00:39:37] de não sei se é um novo ordenamento,

[00:39:39] mas de uma adaptação à crise do ordenamento criado lá em 45 liberal.

[00:39:44] Então o que eu percebo é que os Estados Unidos com o Donald Trump

[00:39:47] ele é iliberal, alguns autores falam muito isso.

[00:39:50] Ele não é um rompimento total.

[00:39:52] Ele é o uso do que existe de acordo com o seu próprio interesse

[00:39:55] e de acordo com cada situação.

[00:39:57] E acho que é esse o caminho que em geral os países vão começar a seguir daqui para frente.

[00:40:02] Se a gente fala de ruptura,

[00:40:04] a gente acha interessante a gente pensar do que a gente está perdendo,

[00:40:07] do que a gente está abrindo mão,

[00:40:09] mas não dá para pensar isso sem primeiro a gente fazer uma análise crítica

[00:40:13] do que estava no papel e nunca saiu do papel.

[00:40:16] Porque se ele falar os Estados Unidos vão sair, foram eles que bancaram,

[00:40:20] beleza, eles que bancaram, mas eles nunca seguiram essas regras muito bem.

[00:40:23] Então eles saírem, não sei quanto diferença fácil,

[00:40:27] as regras nunca se aplicaram a eles mesmos, entende?

[00:40:29] Compreende o que eu estou falando?

[00:40:31] Então eu queria que você falasse um pouco de assim,

[00:40:33] o que que é a norma que estava no papel e nunca saiu do papel de verdade?

[00:40:38] Não adianta chorar por um defunto ruim, né?

[00:40:42] E o que que de fato se criou de valor por essa ordem que a gente vai sentir falta?

[00:40:49] Olha, quando a gente pensa que tem uma ruptura,

[00:40:51] é como se fosse algo que é impossível voltar atrás, né?

[00:40:56] Então rompeu, acabou.

[00:40:58] E do meu ponto de vista,

[00:41:00] a gente deveria pensar, principalmente na ONU,

[00:41:04] como algo que não deveria ser colocado de lado.

[00:41:08] E aí eu me lembro de uma frase do Winston Churchill,

[00:41:12] quando ele vai falar sobre a democracia.

[00:41:14] Ele fala, democracia é a pior forma de governo,

[00:41:19] mas é a melhor de todas as outras formas.

[00:41:22] E eu acho que a ONU, no cenário internacional, ela é um pouco isso.

[00:41:27] Ela tem várias limitações,

[00:41:28] ela não funcionava igual pra todo mundo.

[00:41:31] Realmente, os Estados Unidos não adotavam vários pontos que ele defendia dentro das Nações Unidas.

[00:41:37] Quando a gente pega a questão dos direitos humanos,

[00:41:39] essa questão, o que que tá acontecendo nos Estados Unidos com os imigrantes?

[00:41:43] Vai totalmente contra aos direitos humanos.

[00:41:46] É óbvio que ele vai sair dessa organização que defende os direitos humanos,

[00:41:49] porque ele não tá mais seguindo nenhuma das normativas dos direitos humanos que foram definidas.

[00:41:54] Mas, do meu ponto de vista, as Nações Unidas é a melhor estrutura que a gente já teve,

[00:42:00] apesar de todas as limitações.

[00:42:03] E aí vou fazer uma manifestação política.

[00:42:07] Nós, de relações internacionais, devíamos defender as Nações Unidas,

[00:42:11] apesar de todos os erros que ela comete, apesar de todas as limitações.

[00:42:15] Porque o trabalho que ela faz com refugiados no mundo,

[00:42:18] o trabalho que ela faz na área da saúde, com MS no mundo.

[00:42:22] Então, ela tem trabalhos incríveis, incríveis, que são necessários e que devem ter continuidade.

[00:42:28] E é importante a China estar ocupando esse espaço.

[00:42:31] E a gente vai ter, talvez, não acho que uma ruptura,

[00:42:34] mas acho que é muito mais uma transformação desse órgão,

[00:42:38] talvez mude de nome, mas é importante que se mantenha, sim, um órgão

[00:42:42] que dê uma construção de normas internacionais que sejam consensuais pra todos.

[00:42:49] Porque a gente tá cada vez mais interdependente,

[00:42:51] não adianta falar de que não existe interdependência.

[00:42:53] É, já mudou, né? Era Liga das Nações e depois foi Nações Unidas.

[00:42:59] Agora, eu tava achando tudo muito ruim, mas quando o Lucas fala…

[00:43:03] Não, peraí, os Estados Unidos saiu e a China bangou, vamos fazer…

[00:43:07] O que eu tô entendendo? Vamos fazer uma vaquinha aqui e vamos sustentar,

[00:43:13] já que você não quer fazer mais.

[00:43:15] Eu adorei a ideia da vaquinha.

[00:43:17] Porque mais do que ter órgãos internacionais que foram criados,

[00:43:21] a imagem semelhança dos Estados Unidos,

[00:43:24] me agrada a ideia de órgãos internacionais criados a imagem semelhança

[00:43:28] de um grupo maior de países.

[00:43:31] Então, me parece que vai atender melhor ao mundo,

[00:43:34] talvez a gente fique menos falso, né?

[00:43:38] Porque era tudo segmentado por uma visão e agora…

[00:43:41] E a gente nem tá falando que é a Europa também, a gente tá falando dos BRICS,

[00:43:46] a gente tá falando da maior população do mundo unida,

[00:43:49] falando, vamos ter que fazer uma vaquinha aqui pra continuar com a MES.

[00:43:54] Isso me parece bom.

[00:43:56] Essa vaquinha já aconteceu, né?

[00:43:57] É bom a gente lembrar que na crise de 2008, 2009,

[00:44:00] o G7 foi colocado de lado e chamaram o G20.

[00:44:03] Os países centrais foram os grandes causadores da crise,

[00:44:06] e o China, pelo amor de Deus, senta aqui com a gente,

[00:44:08] Índia, México, Brasil, Indonésia, Turquia,

[00:44:12] ou seja, a gente precisa discutir aqui com a ajuda de vocês,

[00:44:15] já que a gente ferrou todo o sistema financeiro internacional.

[00:44:17] Ali já foi uma grande demonstração de como que esse poli-centrismo já tava acontecendo.

[00:44:23] Então, é aquilo, ruim com a ONU, tudo bem, mas muito pior sem ela.

[00:44:27] Muito pior sem ela e sem instituições, sem regras e sem valores.

[00:44:30] As instituições multilaterais nas quais as potências intermediárias confiavam,

[00:44:35] a OMC, a ONU, a COP, a arquitetura,

[00:44:39] a própria arquitetura da resolução coletiva de problemas,

[00:44:43] ficam ameaçadas.

[00:44:45] Quando as regras não protegem mais você, você deve se proteger.

[00:44:50] Mas sejamos claros sobre onde isso leva.

[00:44:53] Um mundo de fortaleza será mais pobre, mais frágil e menos sustentável.

[00:44:59] E há outra verdade.

[00:45:01] Investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que todos

[00:45:05] construindo suas próprias fortalezas.

[00:45:07] Padrões compartilhados reduzem fragmentações.

[00:45:10] Complementaridades são uma soma positiva.

[00:45:13] O que eu acho que a gente precisa, a gente ainda não pegou,

[00:45:16] que está muito forte no discurso dele, está fácil de entender,

[00:45:20] é o seguinte, a gente vivia num sistema de regra,

[00:45:24] em que o que determina, o que você pode ou não fazer,

[00:45:28] não é a sua força.

[00:45:29] Porque assim, no sem regra, na regra das ruas,

[00:45:35] é quem tem mais poder manda e quem não tem poder sofre.

[00:45:40] Que ele fala bem.

[00:45:42] Agora, a gente vivia num mundo que você precisa ter a causa,

[00:45:45] você precisa justificar.

[00:45:46] Mesmo que seja falso, como a Cris falou,

[00:45:48] que foi só porque ali tinha armas químicas.

[00:45:55] Não tinha, mas eu tinha que dar essa desculpa,

[00:45:57] porque eu não podia invadir porque eu queria, só porque eu posso.

[00:46:00] Eu precisava de uma desculpa.

[00:46:02] Se a gente sai desse domínio da lei e vai pro domínio da força,

[00:46:07] é uma mudança muito grande.

[00:46:10] E o que ele está trazendo, que eu acho interessante,

[00:46:12] é que todo mundo vai ter que se armar.

[00:46:14] Esse dinheiro de todo mundo…

[00:46:16] Porque a gente não precisa se armar

[00:46:18] se a gente fez um condomínio aqui que fala,

[00:46:20] não pode invadir, não pode invadir.

[00:46:23] O não pode invadir libera dinheiro, recursos, pessoas,

[00:46:27] pra gente investir no mercado financeiro,

[00:46:28] pra gente investir em indústria, pra gente investir em ciência,

[00:46:31] pra gente investir em bem-estar pra toda a população global.

[00:46:35] O que ele falou foi muito poderoso.

[00:46:37] A partir do momento em que esse domínio da lei perde força,

[00:46:42] e não precisa de muita gente,

[00:46:44] precisa de um forte o suficiente pra fazer esse sistema ruir,

[00:46:48] que eu vou fazer o que eu quiser e ninguém vai me impedir,

[00:46:50] quero ver quem vai me impedir.

[00:46:52] Pra mim, esse é a grande coisa na mesa.

[00:46:57] É isso que se perde.

[00:46:58] E perde gente demais pra pouca gente ganhar.

[00:47:02] Posso só fazer um adendo em relação a isso?

[00:47:04] Tem um autor que chama Charles Mills,

[00:47:06] ele escreveu um livro que chamou Contrato Racial.

[00:47:08] Ele joga na cara de todo mundo do ocidente

[00:47:10] que sempre acreditou na ideia de que existe um contrato social,

[00:47:13] que é a ideia de que nós vamos concordar com as regras,

[00:47:16] elas serão muito legais,

[00:47:17] e nós vamos viver nesse condomínio em que todo mundo é feliz,

[00:47:19] das mãos e resolvemos os problemas na Assembleia.

[00:47:21] O Charles Mills tá olhando pra todo mundo e falando o seguinte,

[00:47:24] essa é uma grande mentira que sempre existiu

[00:47:26] e a gente conta ela nas relações internacionais o tempo todo.

[00:47:28] Porque na prática, há um condomínio muito chique,

[00:47:31] muito rico, que todo mundo mantém ali entre si tudo tranquilo,

[00:47:35] e um condomínio muito pior, cheio de problemas, pobre,

[00:47:38] e que depende o tempo todo das regras que esse condomínio rico colocou.

[00:47:42] Na prática, o que a gente tem seria, numa visão que a gente chama de post-colonial,

[00:47:46] a visão de que existe um mundo rico e que ali tem ordenamento,

[00:47:50] as regras funcionam entre os europeus, entre os americanos.

[00:47:53] Só que quando Trump entra na sua perspectiva iliberal,

[00:47:57] ele fala o seguinte, eu cansei desse condomínio aqui também,

[00:47:59] e tudo que eu faço com esse pessoal do condomínio mais simples,

[00:48:03] ou seja, com o terceiro mundo que eles falavam na Guerra Fria,

[00:48:07] com o sul global que nós temos hoje, com o território post-colonial,

[00:48:10] territórios que foram colonizados, que tiveram processos ligados à questão de raça, etc.

[00:48:15] Com essa galera, tudo que eu fiz com eles, agora eu vou fazer também com o acidente.

[00:48:18] Então, é aquilo que a gente, o MSSR, o FANOM, fala o tempo todo,

[00:48:23] a Europa é indefensável e hipócrita,

[00:48:25] porque tudo aquilo que ela fala que está sofrendo,

[00:48:27] ai meu Deus, o que estão fazendo comigo,

[00:48:29] é o que Estados Unidos, Europa e Japão fizeram com todos os outros países do mundo.

[00:48:33] Então, quando o primeiro-ministro canadense fala isso,

[00:48:35] ele está simplesmente só escancarando a realidade que sempre existiu.

[00:48:40] E isso que eu acho que é muito importante a gente olhar,

[00:48:42] é que essas cartas, portanto, foram colocadas na mesa.

[00:48:44] Acabou a hipocrisia.

[00:48:46] Agora nós somos todos iguais, vamos assumir que a gente é uma porcaria tudo junto.

[00:48:50] Argumentam que as potências médias devem agir juntas porque,

[00:48:53] se não estivermos à mesa, estamos no menu.

[00:48:58] Mas eu também diria que as grandes potências

[00:49:01] podem se dar ao luxo de agir sozinhas por enquanto.

[00:49:04] Elas têm o tamanho do mercado, a capacidade militar e a influência para ditar os termos.

[00:49:10] As potências médias não.

[00:49:11] Mas quando negociamos apenas bilateralmente com um regémon,

[00:49:15] negociamos com base na fraqueza.

[00:49:18] Aceitamos o que é oferecido.

[00:49:20] Competimos uns com os outros para sermos os mais acomodados.

[00:49:24] Isso não é soberania.

[00:49:25] É o desempenho da soberania ao mesmo tempo em que aceitamos a subordinação.

[00:49:31] Em um mundo de rivalidade entre grandes potências, os países intermediários têm uma escolha.

[00:49:36] Competir entre si por favores ou se combinar para criar um terceiro caminho com impacto.

[00:49:46] Não devemos permitir que a ascensão do poder duro nos segue para o fato de que o poder da

[00:49:51] legitimidade, integridade e regras permanecerá forte se escolhermos exercê-los juntos.

[00:49:57] O Carlinhos usa uma frase forte.

[00:49:59] Se você não está na mesa, você está no cardápio.

[00:50:03] O que ele quer dizer com isso?

[00:50:05] Fiquei com medo.

[00:50:08] Olha, me parece que quem está na mesa é quem tem armamento nuclear.

[00:50:12] Quem não tem armamento nuclear tem chance de estar no cardápio.

[00:50:16] Tem chance de sofrer qualquer tipo de ameaça.

[00:50:18] Então hoje, na forma que está o sistema internacional,

[00:50:23] quando a gente termina com todas as regras,

[00:50:26] a única forma de garantir que você não vá sofrer um ataque é com armamento nuclear.

[00:50:31] Por isso que a gente tem visto uma corrida armamentista,

[00:50:34] e não só uma corrida armamentista para arma convencional, mas também uma corrida nuclear.

[00:50:39] Acho que essa semana mesmo, se eu não me engano, deve acabar o tratado nuclear entre Estados Unidos

[00:50:45] e Rússia, que era um tratado que já tinha há anos no qual os dois países se comprometiam

[00:50:52] a desativar, cada ano que passasse, um número de bombas atômicas.

[00:50:56] Então, o que a gente tem visto, os países, inclusive o nosso ex-ministro,

[00:51:04] Celso Amorim, fez uma fala recentemente que ele colocou que talvez hoje ele teria repensado

[00:51:11] se o Brasil deveria ter entrado ou não no tratado de não proliferação de armas nucleares,

[00:51:16] que o Brasil faz parte desde os anos 90.

[00:51:20] Por quê? Porque é isso, sem arma nuclear é muito fácil estar no cardápio.

[00:51:50] Por outras palavras, diferentes coligações para diferentes questões com base em valores e interesses comuns.

[00:51:56] Tem uma coisa que você está falando que é muito assustador,

[00:51:58] que é quando fala que tem que ter arma nuclear, eu já falo, claro que não, tá doido?

[00:52:03] Então precisamos pagar com de luz? Então é muito assustador.

[00:52:07] Mas é como se a gente estivesse com uma casa sem alarme, não é necessariamente para usar.

[00:52:11] É muito para eu virar para você e falar, eu tenho, não vem aqui, porque senão o alarme vai tocar.

[00:52:18] Mas ele não estava falando só de arma nuclear, porque ele estava falando porque,

[00:52:22] assim como a gente disse que a pressão econômica implodiu ira por dentro,

[00:52:29] a gente ter todos esses recursos que são essenciais na geopolítica, nos dá um lugar na mesa.

[00:52:37] Então tem muitas coisas que nos dão lugar na mesa.

[00:52:40] Mas ao mesmo tempo ele está comprando arma nuclear e ele fala isso no discurso,

[00:52:43] ou seja, são muitas frentes para agir.

[00:52:46] Eu diria que são muitas mesas.

[00:52:48] Eu acho que a mesa militar é isso.

[00:52:50] Se você tem capacidade nuclear, você consegue dissuadir qualquer inimigo.

[00:52:54] E é por isso que ninguém ataca a Rússia, é por isso que não tem sequestro de presidente russo.

[00:52:58] Muito simples.

[00:52:59] Ou até o Paquistão.

[00:53:01] Exato, o Paquistão.

[00:53:02] Israel, Paquistão, essa galera, a Coreia do Norte, ninguém vai mexer com eles.

[00:53:06] O custo é muito alto, é um custo impensável que coloca todo mundo no pior cenário possível.

[00:53:11] O de destruição muito assegurada que a gente fala, o MED.

[00:53:14] Então eu diria que essas mesas, na verdade, elas vão ser ocupadas por atores diferentes em momentos diferentes.

[00:53:20] Se nós pensamos na mesa da tecnologia, por exemplo,

[00:53:23] hoje se a gente não coloca a China, se não coloca a Coreia do Sul,

[00:53:25] não coloca Japão, Taiwan, Estados Unidos e alguns atores europeus,

[00:53:30] essa mesa não faz sentido.

[00:53:31] E aí já mostra que o Brasil está ficando atrás.

[00:53:33] Ou a gente começa a assumir, portanto, que a defesa cibernética é importante para um país que não tem armas nucleares,

[00:53:40] ou a gente vai começar a ficar para trás.

[00:53:41] Ou a gente ajuda, começa a regular a inteligência artificial e começa a investir nisso pesadamente.

[00:53:46] E aqui eu tô falando de governo, governo mesmo investir, tá?

[00:53:49] É uma bobagem achar que os governos não estão fazendo isso,

[00:53:52] que esses estados estão tudo deixando para a iniciativa privada.

[00:53:54] Não existe esse crescimento de AI, de tecnologia sem estado, em nenhum lugar do mundo, inclusive nos Estados Unidos.

[00:53:59] E aí as outras mesas, a mesa ambiental, o Brasil tem poder de ter palavras, de ter voz.

[00:54:05] Na mesa comercial, o Brasil sempre foi um defensor do livre comércio,

[00:54:09] mesmo inclusive com perdas, como é o caso do acordo com a União Europeia, do Mercosul.

[00:54:12] Então a gente tem que saber, definir quais são as mesas que nós temos interesses estratégicos,

[00:54:17] focar nossos recursos nisso e, portanto, ter voz e não sair, querer atirar para todo perdão.

[00:54:23] Até porque se for comprar bomba, não adianta comprar uma só, né?

[00:54:25] É melhor a gente já fazer o que a gente sabe.

[00:54:27] É isso, exatamente.

[00:54:29] Então, assim, tenda na mesa da tecnologia que é um negócio que você já tá mais ou menos.

[00:54:32] É, tá mais perto, não é?

[00:54:35] Tem uma coisa super importante no discurso desse Primeiro-Ministro,

[00:54:39] que ele faz um grande chamado.

[00:54:41] Ele, assim, vira e fala, países médios univos, né?

[00:54:47] A gente fica com uma ilusão de que a gente é impotente,

[00:54:51] porque olha para as grandes potências e fala, não dá para brigar com eles.

[00:54:55] Só que não é uma verdade se a gente se unir e se a gente se organizar.

[00:55:01] Dá para fazer isso?

[00:55:02] Como que vocês veem a vontade dos países médios sobre essa ótica, esse grande convite?

[00:55:09] Que eu preferir que fosse nosso país fazendo esse convite?

[00:55:12] Eu preferir. A gente é mais agradável de ser visitado?

[00:55:14] Poderia apostar que sim.

[00:55:16] Mas é um convite muito bom.

[00:55:18] Faz sentido?

[00:55:20] Faz sentido os países médios se movimentarem para isso?

[00:55:23] Faz sentido nós nos movimentarmos?

[00:55:25] Faz, faz muito sentido.

[00:55:27] E acho que na lógica desse policentrismo e de policrizes e de muitas mesas,

[00:55:32] quanto mais atores e mais diversificados for nossa relação com esses atores, melhor.

[00:55:36] Então nós estamos falando aqui, falando aqui, por exemplo, de países como Canadá, México, Brasil,

[00:55:40] árabe saudita, Turquia, Indonésia, até a Índia, de certa forma,

[00:55:45] apesar da Índia já estar cada vez mais próximo de grande potência,

[00:55:48] mas também Coreia do Sul, Austrália…

[00:55:50] Imagina tudo da mesma voz.

[00:55:51] Ah, pelo menos é isso, né?

[00:55:52] O bom do Brasil, e por isso, de novo, que o Brasil tem uma posição muito estratégica,

[00:55:56] é que a gente senta na mesa com todos eles, literalmente todos eles,

[00:56:00] de Estados Unidos, a China, a Rússia, a Coreia do Norte, se precisar, a árabe saudita, qualquer outro.

[00:56:06] Então, nesse sentido, eu veria justamente que esses países médios,

[00:56:11] eles perceberam o seguinte, a gente não tem condição de projetar poder com as grandes potências,

[00:56:16] as principais potências, e não é do nosso interesse, que os custos são muito altos

[00:56:20] para a sociedade, para a economia desses países, os custos políticos.

[00:56:24] Então, por que a gente simplesmente não vai focar naquilo que a gente é bom?

[00:56:28] E aí, o que é ser bom? É ser pragmático.

[00:56:30] Eu acho que a Turquia é um ótimo exemplo disso tudo,

[00:56:33] que ela consegue tanto ter uma balança ali com a OTAN, os Estados Unidos,

[00:56:36] ao mesmo tempo que ela tem relações com a China,

[00:56:38] em que ela tem relações com os países dos Emirados Árabes,

[00:56:41] em que ela tem relação ali na questão do Oriente Médio,

[00:56:44] e não tem jeito de você fazer a paz, de certa forma, de manter a estabilidade na região, sem a Turquia.

[00:56:49] No caso da Síria, por exemplo, do Iraque.

[00:56:51] Ou seja, um país médio que é o fiel da balança.

[00:56:54] Acho que é isso.

[00:56:55] Esses países têm que buscar ser fiéis da balança.

[00:56:57] Eles não têm que assumir um compromisso no sentido hegemônico,

[00:57:01] porque no mundo hoje isso é impossível, praticamente, na multipolaridade que a gente vive,

[00:57:05] mas também é assumir responsabilidade.

[00:57:07] Aquilo que o Canadá está fazendo muito bem, que acho que o Brasil faz muito bem,

[00:57:11] a Austrália está caminhando um pouco mais para isso,

[00:57:13] que a Arábia Saudita faz também, a gente fala muito pouco da Arábia Saudita,

[00:57:17] mas é um ator extremamente importante ali para a região.

[00:57:20] A Nigéria é um país extremamente importante,

[00:57:22] a África do Sul, cada vez mais o Egito, o Quênia.

[00:57:25] Então, se nós olharmos hoje para o mundo,

[00:57:28] se o multilateral, o geral, não é mais possível, nós vamos regionalizar.

[00:57:32] Nós vamos para o minilateralismo, nós vamos buscar os arranjos flexíveis.

[00:57:36] BRICS, IBAS, nós vamos para o G20 comercial, para o G20 financeiro.

[00:57:40] A gente vai para onde é possível cooperar com aqueles que é possível cooperar.

[00:57:43] E esses países conseguem fazer essa articulação muito melhor do que superpotências,

[00:57:49] como o caso dos Estados Unidos e China, por exemplo,

[00:57:51] que tem alguns revezes nesse discurso, nessa reativa,

[00:57:54] pelo tamanho que tem, pela dependência que gera, justamente em relação aos demais países.

[00:57:58] E tivemos exemplos históricos, eu acho que o movimento dos países não alinhados,

[00:58:03] na década de 50, depois até mesmo a construção do G77,

[00:58:08] onde eram mais os países, vamos dizer assim, do sul global como um todo,

[00:58:11] não as potências médias somente, mas os países do sul global.

[00:58:15] Então, nós temos exemplos históricos da união desses países,

[00:58:20] que estão numa situação desfavorável, num cenário desfavorável,

[00:58:23] se unindo e buscando agenda comum, e com sucesso.

[00:58:27] Então, quando a gente pensa historicamente, o que o primeiro-ministro do Canadá coloca,

[00:58:33] é algo que já aconteceu, e que me parece que o Canadá não participava desse game.

[00:58:38] Ele não tava nesse game, ele que tá entrando no game.

[00:58:43] A verdade é essa, porque esse game já tá acontecendo,

[00:58:46] os BRICS surgem com um pouco nesse sentido.

[00:58:50] Então, ele entra no jogo falando, olha, eu tenho que me unir.

[00:58:54] Mas, né, unimos. Você tem que se unir.

[00:58:56] Porque o pessoal tá na festa, né.

[00:58:59] Tá tarde, mas tô chegando com whisky bom.

[00:59:02] Eu achei muito engraçado, porque tem um meme que o pessoal da Groenlândia fez,

[00:59:08] e falou que realmente o Donald Trump merece o Nobel da Praça,

[00:59:11] porque ele uniu a Dinamarca e a Groenlândia.

[00:59:13] Porque agora eles têm um inimigo em comum,

[00:59:17] que o colonizador e o colonizador estão de boas agora.

[00:59:21] Agora, quando vocês falam disso, a gente senta com todo mundo.

[00:59:24] Isso é bom pra gente, a gente tá falando desse…

[00:59:27] Agora virou polilateralismo, tem que falar com todo mundo.

[00:59:34] A gente enfrenta muita crítica por isso, né.

[00:59:36] Você vai sentar com esse país, ele é um ditador.

[00:59:40] Aí você vai sentar com outro, não segue as cartas dos direitos humanos.

[00:59:44] Você vai sentar com esse, onde as mulheres são impedidas de fazer coisas básicas,

[00:59:49] como que ficam os direitos humanos à busca por isso,

[00:59:54] sendo que tem que sentar com todo mundo?

[00:59:57] Eu acredito que a política externa tem que ser pragmática,

[01:00:01] atender os interesses internos do país.

[01:00:04] O Brasil nunca defendeu uma política externa intervencionista,

[01:00:08] essa era a postura dos Estados Unidos.

[01:00:10] Ai não, eu não sento com ditador, mas ele tinha alguns ditadores favoritos.

[01:00:14] Ou vamos falar que agora a Arábia Saudita é uma democracia,

[01:00:18] e parece que ele recebeu o tapete vermelho, a Arábia Saudita.

[01:00:22] Então, essa postura é uma falta de percepção do que é política externa.

[01:00:29] Política externa é muito diferente de política doméstica,

[01:00:32] acho que tem que ter uma separação clara.

[01:00:34] E o Brasil tem que sentar com todo mundo, isso é importante.

[01:00:37] Acho que no último mês, no mês de janeiro,

[01:00:39] eu estava vendo que o presidente Lula conversou com mais de 30 lideranças internacionais,

[01:00:44] por telefone, ele não vejou, mas ele falou com 30 líderes internacionais.

[01:00:48] E ai você vai ver que ele falou com Putin, falou com o Trump, falou com o Petro,

[01:00:53] falou com todo mundo, falou com o do Chile, o Caixa extrema direita,

[01:00:58] e está tentando negociar o que é melhor para a economia do Brasil,

[01:01:02] com essa diversidade, com essa pluralidade de lideranças.

[01:01:08] E isso é muito importante a gente manter.

[01:01:10] Infelizmente, não são todos os governos no Brasil que veem a política externa dessa forma.

[01:01:16] Então, é importante que o Itamaraty consiga ter o seu papel e um pouco seu afastamento ideológico

[01:01:24] para manter os interesses do Brasil.

[01:01:27] Uma política de Estado e não de governo, né?

[01:01:29] Exato.

[01:01:29] Agora, o que me parece que a grande questão aqui é como é que a gente contém um bule.

[01:01:36] Então, se tem alguém com um poder desproporcional e que quer fazer o que quiser,

[01:01:42] qual é o poder? Porque quando ele fala, olha, os médiuns não estão sem poder nenhum.

[01:01:47] Ele está falando de um lugar de fronteira territorial e de quem já foi ameaçado de ser anexado.

[01:01:53] E que não tem bomba atômica.

[01:01:56] E que está dizendo que se vier para cima de mim, eu venho, eu sou pequeno,

[01:02:00] nós é pequeno, mas nós é ruim.

[01:02:03] Quando o Canadá chama, o que ele está querendo dizer, os Estados Unidos não pode fazer o que quiser.

[01:02:10] Esse poder de dissuasão que a gente veio falando desde o início, primeiro ameaça,

[01:02:15] depois não sei o que, nós também temos.

[01:02:18] E aí, eu queria saber, tem um mesmo?

[01:02:20] Ou ele está só aqui, ó.

[01:02:22] Se os médiuns se juntarem, eles podem mandar o cachorro de volta para o canil?

[01:02:27] Muito demais, fala abaixo.

[01:02:30] Pode.

[01:02:31] Pode?

[01:02:32] Eu acho que podem sim, não para tudo.

[01:02:34] Se a gente está falando de ameaça nuclear e a gente não tem armas nucleares, acabou a conversa.

[01:02:38] O ponto é, vai usar arma nuclear?

[01:02:41] Arma nuclear não é para ser usada.

[01:02:43] Vai ter gente que vai discordar de mim, existe uma linha nas relações internacionais que vai falar que sim é para ser usada,

[01:02:48] e é elemento de arma, arma tática, que eles vão falar,

[01:02:50] armas estratégicas que são armas nucleares menores,

[01:02:53] que você não vai gerar uma destruição total, mas você atinge certos pontos ali, causa uma destruição limitada

[01:02:58] e obriga o outro lado a negociar.

[01:03:00] Mas eu iria para a questão do bullying.

[01:03:02] Você tem três opções na questão do bullying.

[01:03:03] Ou você se alia a quem faz bullying com você,

[01:03:05] e sede seu lanchinho e fica amiguinho,

[01:03:07] ou você aprende o jitsu e vai bater de frente com o cara que está fazendo bullying com você,

[01:03:12] ou você vai chamar o amiguinho que tem poder como o outro que está fazendo bullying para ficar do seu lado.

[01:03:18] E eu acho que é isso.

[01:03:19] Os países médiuns já entenderam que existem alternativas aos Estados Unidos.

[01:03:23] Por isso que eu falo que o mundo de hoje é muito diferente daquele mundo do pós-guerra fria.

[01:03:27] Lá só tinha Estados Unidos.

[01:03:28] Não tinha essa conversa, não tinha alternativa.

[01:03:31] Não tinha China, não tinha Índia, não tinha Rússia.

[01:03:33] Imagina, Rússia é quebrada, desfacelada.

[01:03:35] Índia?

[01:03:37] A gente nem pensava em Índia chegar onde chegava.

[01:03:39] A própria China passando ainda era um país de indústria de produtos baratos, coisas do tipo.

[01:03:44] Hoje não, acabou isso.

[01:03:46] Hoje nós temos um mundo muito mais complexo, muito mais interdependente,

[01:03:50] como a Nathalia falou,

[01:03:52] e os custos de qualquer tipo de ação contra esses países é muito alto.

[01:03:56] Inclusive pelos Estados Unidos.

[01:03:58] A inflação nos Estados Unidos não abaixa.

[01:04:00] E isso é efeito direto das sanções, inclusive aqui no Brasil.

[01:04:04] Não é à toa que eles pararam e tiveram que sentar eles com o Brasil,

[01:04:08] porque o Brasil não parou de negociar a hora nenhuma.

[01:04:10] Ao contrário do que as pessoas falam,

[01:04:12] tem que sentar, liga pra ele, pelo amor de Deus.

[01:04:14] Não tem que ligar pra ninguém.

[01:04:16] Nós já deixamos claro, nós estamos aqui pra negociar.

[01:04:18] Estamos aqui abertos, fiquem à vontade.

[01:04:20] E quando eles vieram negociar, falamos ok,

[01:04:22] agora a gente quer negociar nesse setor, nesse setor e nesse setor.

[01:04:24] E vocês vão oferecer o que pra gente?

[01:04:26] Funciona sim.

[01:04:28] A gente tem poder de barganha.

[01:04:30] E a gente tem que saber que esse poder de barganha

[01:04:32] tem que estar ligado justamente a esse interesse pragmático,

[01:04:34] como a Nathalia também colocou,

[01:04:36] eu concordo plenamente,

[01:04:38] que tem a ver com autonomia e desenvolvimento.

[01:04:40] Se nós não focarmos em sermos autônomos

[01:04:42] e nos desenvolvermos com esse processo,

[01:04:44] e a questão das terras raras é um ótimo exemplo disso,

[01:04:46] nós vamos ficar constantemente nos mesmos lugares.

[01:04:50] Tanto o Brasil, quanto o México,

[01:04:52] quanto a Nigéria, quanto a África do Sul,

[01:04:54] quanto a própria Índia e outros países.

[01:04:56] Então, qual que é a manha, vamos dizer assim,

[01:04:58] é não usar uma coisa só.

[01:05:00] É você sim, melhorar as suas forças armadas,

[01:05:02] investir em defesa,

[01:05:04] investir em defesa cibernética, é garantir

[01:05:06] uma proteção econômica e comercial,

[01:05:08] diversificar por tantas parcerias.

[01:05:10] É você também se aproximar de quem tem

[01:05:12] arma nuclear pra falar o seguinte,

[01:05:14] meu amiguinho ali tem, então se você fizer

[01:05:16] qualquer coisa comigo, ele vai me defender.

[01:05:18] É muito diferente.

[01:05:20] Tem, Paquistão tem, quem que a gente vai

[01:05:22] chamando pra uma amizade

[01:05:24] desinteressada?

[01:05:26] Vem aqui pro Carnaval, tem o camarote da Brahma.

[01:05:28] Quem que a gente vai chamar pro camarote da Brahma?

[01:05:30] Quem tem arma nuclear é Estados Unidos, França,

[01:05:32] Reino Unido, Israel,

[01:05:34] Paquistão, Índia e Coreia do Norte.

[01:05:36] A gente é amiga da Índia,

[01:05:38] a Índia a gente é BFF,

[01:05:40] a China a gente é amiguinho.

[01:05:42] Eu acho que tem um monte de coisa interessante nisso que você está falando,

[01:05:44] porque eu tenho que oferecer,

[01:05:46] e não só falar, eu sou amiga,

[01:05:48] se eu não vou fazer arma nuclear,

[01:05:50] e o outro tem, o que que eu vou dar pra esse

[01:05:52] outro, pra se eu

[01:05:54] precisar do recurso dele, ele trazer.

[01:05:56] Então, a gente está em ano de

[01:05:58] eleição, tem muitas

[01:06:00] coisas envolvidas, em que

[01:06:02] tipo de gerenciamento a gente precisa

[01:06:04] ter,

[01:06:06] carro de presidente, vai ter que viajar,

[01:06:08] vai ter que ligar pra muita gente,

[01:06:10] ah, eu não gosto de falar no telefone.

[01:06:12] Então assim, tem uma

[01:06:14] coisa incrível que é, precisa de

[01:06:16] habilidades muito boas

[01:06:18] e específicas agora.

[01:06:20] Isso me preocupa.

[01:06:22] Né, assim, temos pessoas com habilidade

[01:06:24] pra fazer esse trabalho nesse momento?

[01:06:26] Por que isso? Mudamos de emprego.

[01:06:28] O cenário mudou.

[01:06:30] Precisa de skills aqui que

[01:06:32] caramba.

[01:06:34] Olha, acredito que a gente tem

[01:06:36] pessoas com habilidades

[01:06:38] pra fazer isso. Acredito que esse governo

[01:06:40] inclusive tem feito, em certa forma,

[01:06:42] eu lembrei,

[01:06:44] da questão de encaixar o PCC como

[01:06:46] um narcoterrorista.

[01:06:48] E esse conceito que os Estados Unidos

[01:06:50] trouxe,

[01:06:52] de que narcotráfico é igual

[01:06:54] a terrorismo. E ele conseguiu

[01:06:56] que isso fosse aderido

[01:06:58] por vários países da América Latina

[01:07:00] e o Brasil se recusou.

[01:07:02] Olha que interessante. Essa

[01:07:04] recusa do Brasil é muito importante.

[01:07:06] Isso foi uma decisão de governo.

[01:07:08] Porque

[01:07:10] é importante colocar o governador

[01:07:12] do Rio de Janeiro, Claudio Castro,

[01:07:14] gostaria muito que o Comando Vermelho

[01:07:16] fosse chamado de narcoterrorismo.

[01:07:18] E você chamar

[01:07:20] um narcotraficante de

[01:07:22] narcoterrorista, você

[01:07:24] descaracteriza completamente o

[01:07:26] sentido do tráfico. Porque o tráfico, ele quer

[01:07:28] estabilidade.

[01:07:30] Ele quer vender um produto.

[01:07:32] É isso.

[01:07:34] Ele não tá interessado em ficar causando terrorismo.

[01:07:36] Ele não quer o caos.

[01:07:38] O caos atrapalha a venda.

[01:07:40] Ele quer o fluxo do comércio, tá certo?

[01:07:42] Pelo contrário, eles estão na faria

[01:07:44] Lima, eles estão na política.

[01:07:46] Eles estão super institucionalizados, gente.

[01:07:48] Eles estão dentro do sistema.

[01:07:50] Mas é isso, é porque quer vender um produto.

[01:07:52] Exato, só que

[01:07:54] se os Estados Unidos consegue

[01:07:56] emplacaís, como implacou em outros países,

[01:07:58] permite uma

[01:08:00] intervenção norte-americana.

[01:08:02] Pois. Facilita.

[01:08:04] Faz com que seja muito mais fácil. E o que o Brasil

[01:08:06] tá fazendo? Nós vamos

[01:08:08] negociar como vamos combater o

[01:08:10] narcotráfico. Deixa com a gente.

[01:08:12] Deixa com a gente, é nosso. Na nossa casa

[01:08:14] a gente resolve. Que é o que o Petro tá fazendo

[01:08:16] também na Colômbia.

[01:08:18] Eu acho que é importante a gente ter um governo que

[01:08:20] resista a essas questões.

[01:08:22] Interferência estrangeira. Interferência estrangeira.

[01:08:24] E interfira

[01:08:26] porque parece uma coisa besta, né? Mas é só

[01:08:28] uma palavra. Lembra que você falou?

[01:08:30] Mas é guerra de linguagem. Eu só queria

[01:08:32] pra terminar que a gente tem que terminar, embora

[01:08:34] a gente gostaria de continuar aqui. Não, jogar warro é maravilhoso.

[01:08:36] Eu adoro.

[01:08:38] Tudo que a gente falou,

[01:08:40] me parece que ainda

[01:08:42] se relaciona

[01:08:44] com a mesma lógica e com a mesma

[01:08:46] ordem. É como é que a gente sustenta

[01:08:48] a ordem quando

[01:08:50] quem criou a ordem tá bagunçando

[01:08:52] as peças do tabuleiro. Mas tudo

[01:08:54] que a gente falou até agora é não, a ordem se sustenta.

[01:08:56] Mesmo que ele

[01:08:58] não queira, a gente quer e a gente faz o jogo

[01:09:00] continuar. E a gente vai colocar ele de volta

[01:09:02] na casinha dele e fica tranquilo. Vai dar certo.

[01:09:04] Qual é, eu queria que vocês

[01:09:06] falassem assim, qual é o ponto

[01:09:08] em que a gente fala

[01:09:10] fodeu.

[01:09:12] Temos uma ruptura. Porque ele fala

[01:09:14] isso, né? Porque ele fala

[01:09:16] já deu, vocês tão dizendo não.

[01:09:18] Tudo bem, se você tá me

[01:09:20] dizendo que não, qual é o momento em que a gente

[01:09:22] fala para, tipo, aceita

[01:09:24] a realidade, aceita que dói menos.

[01:09:26] Esse jogo aqui, essas regras, esse manual

[01:09:28] caiu, hoje não vai,

[01:09:30] o mundo é outro, estamos no Mad Max.

[01:09:32] Acabei de rever com as crianças

[01:09:34] Mad Max, menina do céu

[01:09:36] impressionante como assim.

[01:09:38] É assustador, né?

[01:09:40] Em que momento a gente fala, gente

[01:09:42] isso aqui não tem mais, estamos

[01:09:44] em Mad Max. Não, olha,

[01:09:46] não estamos em Mad Max, mas também

[01:09:48] não estamos na utopia.

[01:09:50] É mostrar que na verdade

[01:09:52] é um processo demora,

[01:09:54] processo histórico são lentos,

[01:09:56] a não ser que a gente tenha revoluções,

[01:09:58] guerras totais, caos sistêmicos que a gente fala.

[01:10:00] Que é quando toda a lógica

[01:10:02] tá de todos contra todos,

[01:10:04] que aconteceu em poucos momentos na história.

[01:10:06] Primeiro e segunda guerra mundial, quando a gente teve

[01:10:08] guerras napoleônicas, quando a gente teve

[01:10:10] a guerra de Vestifália, que a gente fala em relações

[01:10:12] internacionais, 1648,

[01:10:14] que teve ali a definição de que seria o Estado

[01:10:16] e tudo mais. Esses são grandes momentos

[01:10:18] de grandes crises.

[01:10:20] Eu diria que por causa da interdependência

[01:10:22] do mundo hoje, por causa dos

[01:10:24] fatores econômicos, sociais, culturais,

[01:10:26] tudo isso, porque justamente o mundo

[01:10:28] não tá todo concentrado mais o poder

[01:10:30] num lugar só, eu acho

[01:10:32] muito improvável que a gente entre numa

[01:10:34] guerra total, que a gente entre

[01:10:36] numa crise sistêmica

[01:10:38] total. Pequenas crises

[01:10:40] já acontecem, continuaram a acontecer,

[01:10:42] e aí eu vou dizer que

[01:10:44] sim, a ordem de 45

[01:10:46] já acabou, mas

[01:10:48] o velho não morreu e o novo não pode nascer.

[01:10:50] Trazendo aqui o Grams

[01:10:52] pra poder ilustrar o que a gente tá vivendo.

[01:10:54] Estados Unidos não vai ceder,

[01:10:56] o resto do mundo não quer mais aquela

[01:10:58] regra anterior, mas também não tem condições

[01:11:00] de colocar uma regra nova.

[01:11:02] Nós vamos viver em um mundo

[01:11:04] em que isso tudo se mistura.

[01:11:06] Novas regras, nova lógica,

[01:11:08] atores novos, poderes novos,

[01:11:10] mais instabilidade,

[01:11:12] mais imprevisibilidade

[01:11:14] e a necessidade de maior criatividade. Eu acho que é isso.

[01:11:16] Esses países vão começar a ser mais criativos

[01:11:18] na capacidade de interlocução entre si.

[01:11:20] Exausta.

[01:11:22] Olha, teria até uma resposta otimista assim.

[01:11:24] Qual pessimista mesmo, vamos?

[01:11:26] Vamos de realidade, gente, eu quero ser mais.

[01:11:28] Eu tenho a sensação que vai ser

[01:11:30] muito difícil a gente escapar

[01:11:32] do que a gente chama em relações internacionais

[01:11:34] da armadilha de tucídites.

[01:11:36] Pelo processo de rearmamento

[01:11:38] que a gente tem visto no mundo,

[01:11:40] eu acho que ninguém compra uma arma se não

[01:11:42] pensa em matar.

[01:11:44] Então, assim, eu acho que a gente tá caminhando

[01:11:46] pra um cenário assim,

[01:11:48] é que a gente, capaz,

[01:11:50] não sei, da gente ver

[01:11:52] uma grande guerra. Eu não acho que assim é impossível, sabe?

[01:11:54] Eu acho que, sei lá, três anos atrás

[01:11:56] eu falaria que

[01:11:58] ah não, é uma instabilidade,

[01:12:00] mas cada vez mais eu tenho a sensação

[01:12:02] que é possível.

[01:12:04] O que a gente viu, por exemplo,

[01:12:06] o Donald Trump fazer na Venezuela

[01:12:08] era algo que… Impensável, gente.

[01:12:10] Impensável.

[01:12:12] Não tem mais liturgia, né?

[01:12:14] Não, então, e eu vou te falar, isso pra mim foi

[01:12:16] um turning point.

[01:12:18] Na minha visão de futuro, foi um turning point.

[01:12:20] Até então, eu falava, não,

[01:12:22] ele não é tão

[01:12:24] louco, sabe?

[01:12:26] A gente vai conseguir controlar em certa

[01:12:28] medida, mas o que a gente viu na Venezuela

[01:12:30] indica que

[01:12:32] não começou nada porque

[01:12:34] o xixiping não começou.

[01:12:36] Mas essa semana ele já sinalizou que

[01:12:38] o yuan vai se tornar

[01:12:40] uma moeda de reserva internacional.

[01:12:42] Então a gente tá começando a ter uma…

[01:12:44] Mas isso já tá vindo, né? Isso não é de agora.

[01:12:46] Não começou agora.

[01:12:48] Então a gente começa a ter já uma disputa ali

[01:12:50] nessa área financeira, né?

[01:12:52] Daí na área comercial.

[01:12:54] Isso tá escalando, então

[01:12:56] não sei se a gente vai, infelizmente,

[01:12:58] né, passar por isso

[01:13:00] enquanto geração.

[01:13:02] Tem uma coisa que o Lucas, quando faz esse

[01:13:04] cenário, que é o que eu quero ficar…

[01:13:06] Eu também quero, eu também quero.

[01:13:08] Mas esse cenário não é necessariamente positivo, não.

[01:13:10] Mas é melhor, né?

[01:13:12] Quando não tem uma grande guerra,

[01:13:14] não tem como esse cenário não ser melhor, sabe?

[01:13:16] É que eu acredito que não é impossível, mas é improvável.

[01:13:18] Mas é que quando você

[01:13:20] faz essa leitura,

[01:13:22] você faz a leitura de não vale a pena

[01:13:24] porque comercialmente

[01:13:26] não é bom pra ninguém, porque

[01:13:28] é caro pra caramba, enfraquece a economia.

[01:13:30] Não vale a pena.

[01:13:32] Mas isso quando a gente tá falando com pessoas racionais, né?

[01:13:34] Essa que é a questão.

[01:13:36] Parece que de repente a gente

[01:13:38] tem uma pessoa que tá… Sabe quando

[01:13:40] a gente fala fogo no parquinho?

[01:13:42] É a pessoa que

[01:13:44] coloca fogo na própria cela.

[01:13:46] Ela vai morrer, ela tá presa ali.

[01:13:48] Então a minha preocupação

[01:13:50] é que nos… Me parece que

[01:13:52] alguns líderes mundiais, eles…

[01:13:54] Eles meio que, sabe? Tipo…

[01:13:56] Tá com foda assim aí.

[01:13:58] Eu não acho que todo mundo é Trumpista

[01:14:00] nos Estados Unidos e eles têm boas instituições.

[01:14:02] Eu espero que eles deem conta disso.

[01:14:04] Né? Quem não concorda

[01:14:06] com o presidente, que façam

[01:14:08] as instituições deles funcionarem.

[01:14:10] Cada um segura o seu louco.

[01:14:12] Quando você fala que ninguém ganha,

[01:14:14] mais ou menos, né? Porque a indústria armamentista

[01:14:16] tá onde? Então se a indústria armamentista,

[01:14:18] a maior parte tá nos Estados Unidos,

[01:14:20] a gente ir pra esse cenário em que todo mundo compra…

[01:14:22] Ah sim! No crédito ou débito?

[01:14:24] Se eu não consigo concorrer…

[01:14:26] Quer parcelar?

[01:14:28] Se eu não consigo concorrer mais na guerra

[01:14:30] tecnológica de ser uma grande potência,

[01:14:32] eu mudo o jogo

[01:14:34] em que o jogo é sobre arma nuclear

[01:14:36] e eu sou uma grande potência de novo.

[01:14:38] Eu sempre mudo o jogo

[01:14:40] e a forma é que sempre eu seja o principal player.

[01:14:42] Gente, precisamos acabar.

[01:14:44] Obrigada pra quem ficou

[01:14:46] com a gente até aqui. Muito obrigada.

[01:14:48] Gente, assim, são horríveis

[01:14:50] as notícias que a gente deu, mas foi tão

[01:14:52] divertido conversar com vocês.

[01:14:54] Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lados.

[01:14:56] Olha, não tem

[01:14:58] nenhum minuto de tédio, né?

[01:15:00] O contado falava que a gente

[01:15:02] não precisa ser feliz, a gente precisa ter uma vida interessante

[01:15:04] e a vida com vocês é bem interessante.

[01:15:06] Olha aqui. Eu não sei se eu agradeço ou não,

[01:15:08] porque deixava as coisas mais interessantes desse jeito,

[01:15:10] mas as ordens

[01:15:12] fiquem muito à vontade.

[01:15:14] De tédio a gente não morre, né?

[01:15:16] Não morre, não morre.

[01:15:18] Geração exhausta. Vou só mandar um beijo.

[01:15:20] Gente, manda esse programa,

[01:15:22] seja o algoritmo

[01:15:24] que você quer ver no mundo, mande esse programa pra todo mundo

[01:15:26] se preocupar junto com você.

[01:15:28] Não passe nervoso sozinho.

[01:15:30] Beijo.

[01:15:38] Tchau.