O Brasil está na moda


Resumo

O episódio discute como a percepção internacional sobre o Brasil mudou nos últimos anos, saindo do estereótipo clássico de “país do futebol, samba e praias” — com o contraponto da violência e da pobreza — para uma visão mais diversa, contemporânea e próxima do cotidiano. A conversa resgata como essa imagem foi historicamente construída por representações como Carmen Miranda e Zé Carioca, e como símbolos atuais (como outros tipos de carnaval, o funk e a cultura de favela) passaram a circular globalmente, reposicionando o Brasil no imaginário estrangeiro.

Segundo Jéssica Nakamura, o fator decisivo dessa virada é o avanço tecnológico: smartphones e redes sociais democratizaram quem conta a história do país, permitindo que brasileiros (e também turistas e criadores de conteúdo estrangeiros) mostrem múltiplos “Brasis” sem a mediação exclusiva da grande imprensa do Norte global. Isso teria ajudado a reduzir a percepção de “perigo” e impulsionado o turismo, além de favorecer um olhar mais positivo sobre traços culturais como receptividade, sociabilidade e formas mais leves de viver relacionamentos, agora interpretados menos como promiscuidade e mais como acolhimento.

O episódio também conecta esse movimento a uma “tempestade perfeita” mais ampla: crises no Norte global, fortalecimento de lutas de minorias via redes sociais e rebrandings culturais em outras regiões (como a Coreia). No caso brasileiro, o cinema entra como ferramenta de soft power: em vez de exportar apenas narrativas centradas em miséria e violência urbana, o Brasil passa a ganhar visibilidade com obras críticas sobre autoritarismo e ditadura, como O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui, alinhadas ao momento político global. O fechamento brinca com o meme de que “o CPF é o novo Green Card”, como sinal de inversão simbólica de desejo e prestígio.


Anotações

  • 00:01:15 — Quando algum estrangeiro meio desavisado digamos… as tradições populares até o cinema com olhar crítico. Mas por que isso está acontecendo? Bom, o que eu posso adiantar é que no cerne da questão estão as redes sociais e a forma como o país é mostrado no exterior.
  • 00:01:45 — era viver em Nova York e… todas as sextas-feiras no YouTube e em plataformas de áudio como o Spotify. Eu sou o Guilherme Becker, em Bonn, na Alemanha, e nesta edição eu converso com a minha colega de DW, a repórter Jéssica Nakamura, em São Paulo, que produziu um vídeo a respeito do assunto que pode ser assistido no Instagram da DW Brasil.
  • 00:02:20 — por exemplo publicado agora em fevereiro… que em determinado período da vida morou em Nova York e no Rio. A primeira é, o Brasil não é para principiantes, que com o tempo foi adaptada para o Brasil não é para amadores. E a segunda, eu digo assim, morar na Alemanha é bom, mas é ruim, e morar no Brasil

Indicações

Filmes / Series

  • Guerreiras do K-pop — citada como exemplo de animação que levou uma cultura coreana menos estereotipada ao mainstream.
  • O Agente Secreto — mencionado como filme brasileiro indicado oficialmente ao Oscar, com denúncia da ditadura militar.
  • Ainda Estou Aqui — citado como filme que rendeu o primeiro Oscar ao Brasil e dialoga com o contexto político atual.
  • Pichote — lembrado como exemplo do cinema brasileiro de exportação focado em urgências sociais.
  • Central do Brasil — citado como exemplo de filme exportado com foco em temas sociais.
  • Cidade de Deus — mencionado como referência de violência urbana espetacularizada no cinema exportado.
  • Carandiru — citado no conjunto de filmes associados a narrativas sociais e violência.

Linha do Tempo

  • [00:00] — Brasil em evidência no exterior e a pergunta: por que a percepção mudou?
  • [00:01] — Dificuldade de explicar o Brasil; ironia de Tom Jobim e contraste “ruim, mas bom”
  • [00:02] — Problemas persistem (ex.: posição no índice de corrupção) e a mudança é sobretudo cultural
  • [00:03] — Estereótipos históricos: Carmen Miranda, Zé Carioca e o Brasil “resumido ao Rio”
  • [00:04] — Carnaval e favela como exemplos de mudança; funk e Anitta levando novas narrativas
  • [00:04] — O “virar do jogo”: tecnologia, redes sociais e quem controla a narrativa sobre o Brasil
  • [00:06] — Conteúdo direto de moradores, indígenas e turistas; recorde de turistas em 2025
  • [00:07] — “Jeito brasileiro”: expansividade, acolhimento e choque cultural reinterpretado
  • [00:08] — “Tempestade perfeita”: inversões culturais, América Latina e crise do Norte global
  • [00:09] — Redes sociais e movimentos globais (feminismo, Black Lives Matter) + rebranding asiático/Coreia
  • [00:10] — Cinema como soft power; mudança do tipo de filme exportado e impacto político
  • [00:12] — Meme “CPF é o novo Green Card”, declínio do “sonho americano” e exemplos de viralização cultural

Dados do Episódio

  • Podcast: DW Revista
  • Autor: DW
  • Categoria: Society & Culture / Documentary / News / News Commentary
  • Publicado: 2026-02-20
  • Duração: 0h15m

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] O Brasil em evidência, visto com admiração pelos estrangeiros.

[00:00:08] Não apenas em quesitos como futebol ou praia, de uns tempos pra cá parece que o país caiu

[00:00:13] no gosto estrangeiro devido a uma série de fatores que vão desde as cores das ruas,

[00:00:18] as tradições populares até o cinema com olhar crítico.

[00:00:21] Mas por que isso está acontecendo?

[00:00:23] Bom, o que eu posso adiantar é que no cerne da questão estão as redes sociais e a

[00:00:28] forma como o país é mostrado no exterior.

[00:00:31] Afinal, os problemas continuam, mas é inegável que a maneira como muita gente de fora percebe

[00:00:37] o Brasil mudou.

[00:00:39] E não foi pouco.

[00:00:40] E está no ar o DW Revista, podcast produzido pela redação brasileira da DW e publicado

[00:00:52] todas as sextas-feiras no YouTube e em plataformas de áudio como o Spotify.

[00:00:56] Eu sou o Guilherme Becker, em Bonn, na Alemanha, e nesta edição eu converso com a minha

[00:01:01] colega de DW, a repórter Jéssica Nakamura, em São Paulo, que produziu um vídeo a

[00:01:05] respeito do assunto que pode ser assistido no Instagram da DW Brasil.

[00:01:14] Quando algum estrangeiro meio desavisado, digamos, me pergunta como é o Brasil

[00:01:19] e se eu sinto falta do meu país natal, eu costumo citar duas frases do Tom Jobim,

[00:01:23] que em determinado período da vida morou em Nova York e no Rio.

[00:01:27] A primeira é, o Brasil não é para principiantes, que com o tempo foi adaptada para o Brasil

[00:01:32] não é para amadores.

[00:01:34] E a segunda, eu digo assim, morar na Alemanha é bom, mas é ruim, e morar no Brasil

[00:01:38] é ruim, mas é bom.

[00:01:40] Com algumas outras palavras, o Tom Jobim disse isso quando perguntado sobre como

[00:01:44] era viver em Nova York e no Rio.

[00:01:47] Esse diálogo normalmente segue, ou melhor, não segue, porque tem um silêncio e aí

[00:01:51] eu pergunto se foi possível entender a ironia.

[00:01:54] Normalmente a resposta é não, o que me faz voltar a primeira frase, ou seja, realmente

[00:01:59] o Brasil não é para amadores.

[00:02:01] O que eu quero dizer com isso é que, de fato, não rara às vezes é complicado

[00:02:05] complexo explicar o Brasil para quem não conhece o país a fundo.

[00:02:09] E eu digo isso porque, tal como muitos países, o Brasil é um lugar sensacional

[00:02:13] que continua com muitos problemas.

[00:02:15] No Índice de Percepção da Corrupção de 2025, da ONG Transparência Internacional,

[00:02:20] por exemplo, publicado agora em fevereiro, o Brasil continua em sua pior posição histórica

[00:02:25] no ranking, em centésimo sétimo lugar, entre 182 nações.

[00:02:30] Sem dúvidas, isso é ruim, e obviamente não é isso que fez a percepção estrangeira

[00:02:35] mudar em relação ao Brasil.

[00:02:37] A questão vai além, é cultural, musical, artística, social, até no esporte.

[00:02:43] Jéssica Nakamura, obrigado por participar do DW Revista.

[00:02:46] A imagem do Brasil mudou no exterior, mas de que forma?

[00:02:50] Te pergunto, em que sentido ocorreu essa mudança?

[00:02:53] Guilherme, eu que agradeço o convite, é sempre um prazer poder aprofundar as pautas

[00:02:57] aqui com você, já que é tão difícil fazer caber tudo num vídeo curto, né?

[00:03:00] E essa imagem do Brasil, como esse país tropical abençoado por Deus pelo futebol

[00:03:04] e pelo samba, começou a ser pintada ali na virada dos anos 30 para os 40, com

[00:03:09] a Carmen Miranda, que inclusive nem brasileira era, né?

[00:03:12] Era portuguesa.

[00:03:13] Mas a Carmen foi a primeira embaixadora da cultura brasileira no mundo, com aquele

[00:03:16] figurino extravagante que remete ao carnaval das escolas de samba, com muito brilho,

[00:03:20] adereços de cabeça, etc, etc.

[00:03:22] E teve também a criação do Zé Carioca, que era a representação do malandro

[00:03:28] carioca pela Disney, que foi em 1940, e só pelo nome já mostra que naquela época

[00:03:33] o Brasil para os gringos era o Rio de Janeiro, né?

[00:03:35] Apesar de uma das músicas mais famosas da Carmen ser o que é que a Baiana tem,

[00:03:39] os filmes que ela protagonizava eram Copacabana, Uma noite no Rio, Romance Carioca.

[00:03:44] Então tinha, assim, essa aura de um Rio de Janeiro mais Manuel Carlos, das praias,

[00:03:48] da bossa nova, do lado positivo, digamos assim, junto com futebol, claro.

[00:03:53] E do lado negativo era a violência, pobreza, favela.

[00:03:57] Inclusive, acho que carnaval e favela são dois ótimos exemplos para a gente

[00:04:00] poder visualizar essa mudança de perspectiva sobre o Brasil.

[00:04:02] Então, antigamente, a imagem do carnaval era desse carnaval das escolas de samba,

[00:04:06] né, que era representado aí pela Carmen Miranda.

[00:04:08] E hoje em dia os gringos estão conhecendo outros carnavais, como da Bahia,

[00:04:13] ou mesmo dos blocos aqui de São Paulo e do Rio.

[00:04:15] Menos o carnaval do show, da performance, mais o carnaval desse povo ocupando as ruas.

[00:04:20] E a imagem da favela, que era totalmente focada na pobreza, na criminalidade,

[00:04:24] no tráfico de drogas, ganha uma outra roupagem com funk carioca,

[00:04:28] que a Anitta ajudou a chegar no norte global.

[00:04:30] Chegou nos Estados Unidos, chegou em Nova York,

[00:04:32] teve Britney Spears dançando ao som da música da Anitta.

[00:04:35] E é uma representação da cultura dos moradores da favela mesmo,

[00:04:39] do churrasquinho, do fluxo, do bronze na laje.

[00:04:41] Outra imagem distante dessa anterior, que vinha sendo pintada, né?

[00:04:45] Sim, mas e como e por que isso aconteceu, Jéssica?

[00:04:48] Bom, teve essa virada da imagem do Brasil por meios oficiais, né,

[00:04:51] tanto na cultura pop hegemônica com a Anitta,

[00:04:53] quanto na diplomacia internacional com o Lula,

[00:04:55] especialmente nos primeiros governos Lula.

[00:04:57] Mas eu acho que o que realmente virou o jogo foi o avanço da tecnologia,

[00:05:01] especialmente das redes sociais e dos smartphones.

[00:05:04] Se a gente pensar, antigamente a única imagem do Brasil que o mundo conhecia

[00:05:08] vinha necessariamente da grande mídia dos seus países.

[00:05:11] Grandes jornais, grandes emissoras de TV,

[00:05:13] que naquela época eram os únicos que tinham câmeras pra fotografar,

[00:05:16] filmar e tinham, né, dinheiro e meios de exibir essa imagem.

[00:05:19] E era também quem detinha o poder sobre essa narrativa, né.

[00:05:23] Então a nossa história era sempre contada a partir do olhar

[00:05:25] do homem branco da Europa ou dos Estados Unidos

[00:05:27] e de toda a subjetividade que isso representa.

[00:05:30] Dos países colonizadores que viam a gente como meros produtores de matéria-prima,

[00:05:34] dos senhores escravos que viam as mulheres negras como objetos sexuais,

[00:05:38] que mostra por que a gente é tão visto de forma tão promíscua também.

[00:05:41] Pra pegar um exemplo concreto, é só a gente pensar na imagem

[00:05:44] que muito americano tem até hoje da África, né.

[00:05:46] Como se o continente inteiro fosse um país resumido a pobreza e miséria

[00:05:50] e crianças com HIV.

[00:05:51] Só que a partir do momento em que o smartphone se torna algo acessível,

[00:05:55] qualquer pessoa tem o equipamento de captação de foto, audio e vídeo

[00:05:58] literalmente na palma da mão.

[00:06:00] E com a popularização das redes sociais,

[00:06:01] cada um tem o poder de publicar o que quiser na hora que quiser,

[00:06:04] sem precisar passar por toda a estrutura da burocracia

[00:06:07] de um grande veículo de comunicação, né.

[00:06:09] O que pode ser visto pelo lado negativo,

[00:06:11] como com a normalização da disseminação de fake news, por exemplo,

[00:06:14] mas pelo lado positivo, ajudou a democratizar a produção e publicação de conteúdo

[00:06:20] pra variadas camadas da população de vários lugares do mundo, né.

[00:06:24] Então, hoje em dia a gente consegue ver a favela pelo olhar de quem mora lá de verdade,

[00:06:28] ver o dia a dia de comunidades indígenas pelo olhar dos próprios indígenas,

[00:06:32] não no branco Salvador da Europa ou do eixo Rio-São Paulo.

[00:06:35] E mesmo quando se trata do olhar estrangeiro,

[00:06:36] agora o mundo consegue ver o que os próprios turistas e criadores de conteúdo gringos gravam, né.

[00:06:42] Não só as propagandas oficiais de ministérios do turismo e afins,

[00:06:45] o que ajuda também a tirar aquela imagem do Brasil como um lugar que se observe perigo.

[00:06:49] Provavelmente por isso a gente recentemente conseguiu bater um recorde de turistas, né.

[00:06:53] Foram mais de 9 milhões em 2025, o que representa quase 40% a mais do que no ano anterior.

[00:06:59] Então, a galera tá querendo mesmo vir pro Brasil,

[00:07:02] gente, produtores de conteúdo de todos os tipos, não só produtores de conteúdo de viagem, lifestyle,

[00:07:07] tem gente de todo tipo vindo pra cá e adorando e convidando as pessoas a please come to Brazil também.

[00:07:13] E tem uma outra questão aí, Jéssica, que o pessoal descobre talvez mais tarde

[00:07:17] quando vai ao Brasil ou quando tem contato com um brasileiro, né, que pode ser considerada social,

[00:07:21] que é o fato de o brasileiro geralmente ter a fama de abraçar,

[00:07:25] só que aqui eu não tô me referindo simplesmente ao sentido literal, que é de simplesmente dar um abraço.

[00:07:30] Mas sim a essa vontade ou facilidade de socializar, de ser aberto a novas pessoas

[00:07:35] e também de querer mostrar um Brasil ou os vários Brasies que muitos estrangeiros não fazem ideia que exista, né.

[00:07:42] Isso também conta?

[00:07:44] Super conta, Guilherme.

[00:07:45] Nossa forma de expressão também causa um choque cultural em que não tá acostumado.

[00:07:49] Então, antigamente esse nosso jeito mais expansivo e carinhoso de ser interpretado

[00:07:53] como uma invasão de espaço, como assédio, como promiscuidade,

[00:07:56] e hoje em dia ele tem sido mais visto como realmente é, né,

[00:07:59] que é esse sinônimo de receptividade, de acolhimento, de união de gente diversa.

[00:08:04] E mesmo a forma como a gente encara beijos e relacionamentos é completamente diferente, né.

[00:08:08] Eu venho visto algumas páginas sobre cultura brasileira,

[00:08:11] fazendo textos em inglês sobre isso, a cultura do beijo no Brasil.

[00:08:15] Porque no norte global a forma de abordar a gente construção de intimidade é outra, né.

[00:08:19] Esse negócio de fazer um test drive de química pra ver se vale evoluir pra um relacionamento mais sério.

[00:08:24] E agora os gringos também passaram a ver isso com bons olhos.

[00:08:28] Isso é, essa é a nossa cultura mais leve de relacionamentos mais soltos, né.

[00:08:32] E passaram a vir pra cá pra curtir o carnaval, as micaretas, etc.

[00:08:36] Mas não de uma forma objetificada ou de turismo sexual, como podia ser antigamente.

[00:08:41] Mas no sentido de sentir inserido no calor da nossa cultura mesmo, em todos os sentidos.

[00:08:45] E é uma cultura que é típica da América Latina como um todo, né.

[00:08:48] Que também vem conquistando cada vez mais protagonismo.

[00:08:51] Pois é, Jéssica, justamente nesse sentido daria pra dizer que houve então uma espécie de tempestade perfeita.

[00:08:56] Ou seja, uma certa inversão da lógica colonialista com países colonizados em meio a crise da Europa e do Norte global.

[00:09:05] Tanto econômica quanto culturalmente, mostrando suas diferentes culturas.

[00:09:09] E aí isso, claro, não cabe apenas ao Brasil, mas sim à América Latina como um todo, né.

[00:09:13] Exatamente, Guilherme.

[00:09:14] Eu acho que tempestade perfeita é o melhor termo pra caracterizar isso mesmo.

[00:09:20] Essa inversão da lógica que não se atém apenas à relação entre colonizadores e colonizados internacionalmente.

[00:09:28] Mas sim dessa relação de opressores e oprimidos de modo geral.

[00:09:31] Que a gente também tem visto com bem mais intensidade nas últimas décadas.

[00:09:35] E eu também acredito que isso seja fruto das redes sociais.

[00:09:37] Que não só deram voz a essas ditas minorias, como permitiram que elas se unissem no mundo todo, fortalecendo a luta, né.

[00:09:44] Eu acho que dá pra gente citar a primavera feminista contemporânea que explodiu em diversos países ali no início dos anos 2010.

[00:09:50] E também o movimento Black Lives Matter, que também é dessa época, mas fortaleceu ainda mais em 2020.

[00:09:55] Depois do assassinato do George Floyd pela polícia, de forma brutal e extremamente racista.

[00:10:01] E agora a gente tem também um levante latino que se intensificou com a perseguição do Ainz, essa população imigrante, mesmo quando ela é legalizada.

[00:10:08] E saindo um pouco dos países colonizados, a gente pode citar também o exemplo do rebranding dos países leste asiáticos, né.

[00:10:14] Assim, pensando num exemplo bem recente que a gente está vivendo agora.

[00:10:17] A própria cultura coreana conseguiu uma entrada no mercado hegemônico que o Japão não conseguiu quando começou lá nos anos 90, 2000.

[00:10:24] Hoje em dia o anime é visto como uma cultura hegemônica também, mas na época era super de nicho.

[00:10:30] E a Coreia entrou num período que já conseguiu fazer isso de forma hegemônica, né.

[00:10:34] É só a gente ver a quantidade de K-dramas que tem nos catálogos das plataformas de streaming.

[00:10:38] Isso sem contar o sucesso absurdo da animação Guerreiras do K-pop, que conseguiu levar uma cultura coreana não estereotipada para o mainstream.

[00:10:45] E alcançou o topo das paradas tanto da Netflix quanto da Billboard e das grandes premiações audiovisuais internacionais, né.

[00:10:51] Jéssica, agora voltando mais especificamente ao Brasil, onde é que o cinema brasileiro entra nessa história?

[00:10:57] Então, Guilherme, esse ponto do cinema também é crucial, porque o cinema não é só uma forma de lazer e entretenimento como muita gente pensa.

[00:11:05] O cinema é uma ferramenta importantíssima de soft power.

[00:11:07] Não é à toa que o mundo todo passou anos acreditando no sonho americano, que foi lindamente pintado, empacotado e vendido pela indústria americana ali, por Hollywood, né.

[00:11:15] E no caso do Brasil, dá pra ver a mudança tanto na produção interna quanto pra exportação.

[00:11:20] Quando eu pesquisei o cinema brasileiro na graduação, por exemplo, na década passada,

[00:11:24] as maiores bilheterias eram, na sua maioria, comédias românticas, que eram praticamente cópias do cinema americano, como se fosse você um e dois, por exemplo.

[00:11:32] Hoje em dia, O Agente Secreto, do Kleber Mendonça, é um indicado oficial do Brasil ao Oscar e recordista nacional de indicações.

[00:11:40] E é um filme cujo nome remete a filmes americanos de espião, mas que se passa em Recife com o protagonista baiano e é uma grande denúncia da ditadura militar.

[00:11:48] E assim como O Agente Secreto é uma grande denúncia da ditadura militar, ainda estou aqui também, né, que foi o filme que nos trouxe o nosso primeiro Oscar no ano passado.

[00:11:58] E os dois são filmes importantíssimos no momento político que a gente vive no Brasil e no mundo,

[00:12:03] com essa ascensão do conservadorismo, da extrema direita, nessa tentativa de uma retomada do autoritarismo como da ditadura militar, né.

[00:12:10] Tanto é que diversos veículos de comunicação dos Estados Unidos noticiaram o julgamento da tentativa de golpe do ex-presidente Harry Bolsonaro aqui no Brasil

[00:12:17] como um exemplo de democracia ser seguido, né, porque isso nunca aconteceu com o Trump lá fora.

[00:12:22] E antigamente essa questão do autoritarismo e tal não era a pauta, né.

[00:12:26] O cinema brasileiro de exportação era focado nas urgências sociais visíveis, como a fome, que existia muito, a infância marginalizada, a violência urbana espetacularizada.

[00:12:36] Então eram filmes como Pichote, Central do Brasil, Cidade de Deus, Carandiru, completamente diferentes do que a gente tem visto agora, né, e exportado.

[00:12:44] Jéssica, pra encerrar, o CPF é o novo Green Card?

[00:12:48] Então, Guilherme, eu amo muito esse meme dos gringos casando com brasileiros pelo CPF, porque é a prova inegável de que o jogo realmente virou.

[00:12:56] Porque antigamente o normal era o movimento contrário, né, de brasileiros e brasileiras buscando um casamento com americanos

[00:13:02] pra conseguir o tão sonhado Green Card e poder residir em solo americano e viver o sonho americano, né.

[00:13:07] Sonho americano é esse que foi milimetricamente construído e disseminado desde os anos de ouro de Hollywood, que começou a ser desbancado também com o advento das redes sociais, né.

[00:13:15] Pensando nisso, um exemplo maravilhoso que me vem à cabeça é daquela vez que os Estados Unidos proibiram o TikTok por medo dos seus cidadãos serem seduzidos pelo tão temido fantasma do comunismo chinês.

[00:13:26] Antigamente era muito mais fácil você conseguir alienar um povo e criar uma imagem de outro país, porque as pessoas não tinham acesso, não só porque, como eu falei anteriormente,

[00:13:37] a narrativa era muito controlada pelos grandes meios de comunicação e principalmente pelo norte global, mas também porque não era tão fácil, assim, acessar outras línguas, né.

[00:13:47] Você tinha que, de fato, fazer um curso de idiomas, aprender, etc, pra conseguir.

[00:13:50] Hoje em dia, você bota um tradutor ali, os próprios aplicativos têm tradutores, você consegue saber tudo que tá acontecendo em todas as línguas o tempo todo, né.

[00:13:58] Então o controle ficou muito mais difícil na era das redes sociais.

[00:14:01] Eu acho que essa mesma coisa aconteceu quando os gringos passaram a ver o Brasil pela lente dos brasileiros, né.

[00:14:07] Não só pela lente deles mesmos.

[00:14:09] E me dá muita satisfação ver vídeos de europeus provando manga no Brasil pela primeira vez, por exemplo.

[00:14:14] Descobrindo qual que é o real gosto de uma fruta madura direto do pé, não aquela meio verde, meio sem gosto, dura, que teve que passar por uma infinidade de processos pra chegar até ir na Alemanha, por exemplo, né.

[00:14:24] Eu comi manga aí na Alemanha, achei triste pra caramba.

[00:14:27] Tem também os americanos comendo arroz com feijão, bife e salada, descobrindo o sabor de uma comida de verdade, que vem da natureza e não de caixas e latas.

[00:14:36] Enfim, e é super compreensível esse processo, né.

[00:14:39] Uma pena que tenha demorado tanto pra gente conseguir ver o tesouro que a gente tem ao alcance de todos os nossos sentidos.

[00:14:51] A edição desta semana do DW Revista, uma produção da DW em Bonn, na Alemanha, fica por aqui.

[00:14:57] Fica aqui também meu muito obrigado à Jéssica Nakamura pelas informações e percepções compartilhadas neste episódio.

[00:15:04] Mais conteúdos você encontra no nosso site dw.com barra Brasil e também no canal da DW Brasil no YouTube.

[00:15:11] A produção, a apresentação e a edição técnica são minhas, Guilherme Becker.

[00:15:15] A revisão final é da Leila Andrew Weidt e a coordenação é do Rafael Plesan.

[00:15:19] O DW Revista volta na sexta-feira que vem.

[00:15:22] Obrigado por acompanhar a gente e um bom final de semana.