RT Comentado 54 - Stalin Wars


Resumo

O episódio explica por que Andor tem um tom tão diferente do resto de Star Wars: Tony Gilroy buscou inspiração não em ficção científica, mas em um episódio real da juventude de Joseph Stalin. A partir do livro Young Stalin, de Simon Montefiore, o narrador traça paralelos entre Cassian Andor e o jovem Stalin (origem humilde, vindo das margens do império e “recrutado” por sua utilidade prática), entre Luthen e Lenin (o estrategista que financia e organiza), e entre Nemik e Trotsky (o idealista do manifesto), além da semelhança na lógica organizacional da clandestinidade em células.

Em seguida, o foco vai para a Geórgia no início do século XX, apresentando a formação de Stalin em Górie e Tiflis, sua radicalização no seminário e sua parceria com Simon “Kamo” Ter-Petrosian, descrito como o homem de ação: corajoso, leal e especialista em disfarces. O episódio contextualiza a necessidade de dinheiro para a revolução e a disputa interna entre mencheviques e bolcheviques, mostrando como Lenin, apesar das condenações formais do partido às “expropriações”, organizou secretamente a operação para financiar o movimento.

O clímax é o assalto ao banco em Tiflis, em 1907: inteligência obtida por informantes, bombas contrabandeadas, vinte conspiradores posicionados e Kamo disfarçado de oficial. O ataque deixa dezenas de mortos e feridos e rende cerca de 340 mil rublos, mas o dinheiro marcado vira um problema enorme, levando a prisões na Europa. A história de Kamo segue com prisão, atuação extrema fingindo loucura por anos, fuga e, após a Revolução, um fim banal e trágico. O episódio fecha voltando a Andor para destacar como a série captura o custo humano, moral e material de uma luta contra um império.


Indicações

Livros

  • Young Stalin (Simon Montefiore) — citado como a principal fonte e inspiração de Tony Gilroy para elementos centrais de Andor.

Filmes / Series

  • Andor — recomendado como a melhor produção recente de Star Wars e como obra cuja força vem da inspiração histórica.

Linha do Tempo

  • [00:00]Andor como Star Wars “diferente” e a inspiração real de Tony Gilroy
  • [00:01] — Livro Young Stalin e os paralelos entre personagens de Andor e líderes bolcheviques
  • [00:02] — Introdução ao caso real: Tiflis/Tbilisi em 1907 e o assalto que mudou a história
  • [00:03] — Origem de Stalin em Górie: família, traumas, talento e ida ao seminário de Tiflis
  • [00:05] — Radicalização no seminário, leitura clandestina e adoção do codinome “Koba”
  • [00:05] — Quem é Kamo: personalidade, lealdade a Stalin e entrada no movimento revolucionário
  • [00:07] — Por que assaltar banco: revolução precisa de dinheiro; divisão mencheviques vs. bolcheviques
  • [00:09] — Congresso de Londres (1907), condenação oficial às expropriações e criação secreta do Centro Bolchevique
  • [00:10] — Reunião secreta e decisão: Stalin e Kamo organizariam o roubo ao banco de Tiflis
  • [00:11] — Preparação: rede de informantes e descoberta do transporte de dinheiro em 26 de junho
  • [00:13] — Logística do ataque: bombas, disfarces, explosão acidental que faz Kamo perder um olho
  • [00:14] — Execução do assalto na Praça Erivanski: explosões, caos e fuga com o dinheiro
  • [00:18] — Consequências imediatas: mortos e feridos; esconderijos do dinheiro e o problema das notas marcadas
  • [00:19] — Tentativa fracassada de “lavar” o dinheiro na Europa e prisões de agentes
  • [00:20] — Prisão de Kamo em Berlim e a estratégia extrema de fingir loucura
  • [00:22] — Extraditação, julgamento interrompido, fuga, nova prisão e anistia até 1917
  • [00:23] — Pós-Revolução: decadência de Kamo e morte em 1922; destino final de Stalin
  • [00:25] — Retorno a Andor: paralelos temáticos e o custo/sacrifício da luta contra um império

Dados do Episódio

  • Podcast: Viracasacas Podcast
  • Autor: Viracasacas Podcast
  • Categoria: News / Politics
  • Publicado: 2026-02-20
  • Duração: 0h28m

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Olá, pessoas. Hoje a gente vai falar de Star Wars, mas de um jeito diferente. Se você

[00:00:24] assistiu o Andor e se você não assistiu o Assista, é de longe a melhor coisa que

[00:00:28] o universo Star Wars produziu nos últimos anos, você sabe que a série tem um tom

[00:00:32] completamente diferente de tudo que veio antes. Não tem Jedi, não tem força, não

[00:00:37] tem sabres de luz. É uma história sobre gente comum tentando resistir a um império.

[00:00:42] E tem uma razão muito concreta para isso. O criador da série, Tony Gilroy, não se

[00:00:48] inspirou em outras histórias de ficção científica. Ele se inspirou em uma história

[00:00:52] real e não em qualquer história. Ele se inspirou na juventude de Joseph Stalin.

[00:00:58] Em entrevista a Rolling Stone, Gilroy contou que passou os últimos 15 anos lendo basicamente

[00:01:04] só a não ficção e que um livro em particular mudou tudo para ele. Young Stalin, do

[00:01:10] historiador Simon Montefiori. Gilroy diz que o capítulo de abertura do livro,

[00:01:15] que descreve um assalto a banco organizado por Stalin em 1907, era, nas palavras dele,

[00:01:21] uma sequência de cinema incrível. E foi por isso que virou o coração da primeira temporada de

[00:01:28] Andor. Os paralelos não param no roteiro. Gilroy olhou uma foto do jovem Stalin e disse,

[00:01:34] ele não é glamoroso, ele se parece com o Diego. Diego Luna, o ator que interpreta

[00:01:39] Cassian Andor. O próprio Montefiori confirmou a semelhança. Os dois são jovens,

[00:01:45] de origem humilde e das margens de um império gigantesco, com um talento especial para

[00:01:50] fazer na somas. Luther Hayel, o personagem de Stalin Skarsgård, é o análogo de Lenin,

[00:01:55] um intelectual que vê no jovem criminoso uma ferramenta para a revolução. E Némic,

[00:02:01] o idealista que escreve um manifesto, podemos inferir que é o Trotsky da história.

[00:02:06] Mas aqui vai o que eu acho mais interessante. A história real é mais insana do que a ficção.

[00:02:12] Eu sei que estou atrasado para o rolê e que talvez muitos de vocês já conheçam a

[00:02:17] história, mas mesmo assim vale a pena. Então hoje a gente vai esquecer a galáxia muito,

[00:02:23] muito distante e vai voltar para um lugar bem real. A cidade de Tiflis, hoje Tbilisi,

[00:02:29] capital da Geórgia, no ano de 1907. Então vem comigo porque hoje a gente vai falar de

[00:02:35] revolução, crime, bombas, disfarces, loucura fingida, dinheiro que não podia ser gasto e

[00:02:42] que dois garotos de uma cidade pequena, no fim, ajudaram a mudar o século XX.

[00:02:47] Antes de começar aquele aviso, apoie o Viracasacas. Ultimamente nossos apoios têm caído e isso

[00:02:55] complica as coisas para a gente. Com R$ 5 por mês você já faz a diferença, então vai lá em

[00:03:01] apoia.se barra viracasacas na orelo.cc ou mande um pix recorrente para viracasacaspodcast

[00:03:10] .com. A gente agradece muito todos os apoiadores e apoiadores. Agora sim vamos para a história e

[00:03:18] para entender ela a gente precisa ir para um lugar que quase ninguém conhece. Górie,

[00:03:23] uma cidadezinha no interior da Geórgia, que na época fazia parte do gigantesco Império Russo.

[00:03:29] Górie ficava no Cáucaso, uma região montanhosa entre o Mar Negro e o Mar Cáspio,

[00:03:34] na periferia absoluta do Império. Uma cidade pequena, multiétnica, onde a maioria era pobre e o

[00:03:41] poder ficava longe, em São Petersburgo. Foi ali que nasceu, em 1878, Joseph Besariones de

[00:03:50] Jougasville, ou simplesmente Sosso, como todo mundo chamava. Futuro Stalin, filho de Besarion,

[00:03:58] um sapateiro que bebia demais e batia na mulher e no filho, e de Ecaterina,

[00:04:03] uma lavadeira devota que sonhava em ver o menino virar padre. A infância foi dura,

[00:04:09] pariu aos sete anos que deixou o rosto dele marcado para sempre, um acidente com carruagem

[00:04:15] que danificou permanentemente o braço esquerdo. O pai eventualmente abandonou a família e foi

[00:04:21] trabalhar numa fábrica de sapatos em Tiflis e saiu da vida do garoto. Sosso cresceu

[00:04:27] basicamente criado pela mãe na casa de um padre local. Mas o menino era brilhante,

[00:04:32] tirava as melhores notas na escola da igreja de Gore, cantava no coro, pintava e escrevia

[00:04:38] poesia. Em 1894, com 15 anos, ganhou uma bolsa para o seminário teológico de Tiflis,

[00:04:45] a melhor educação que um garoto pobre da Geórgia podia conseguir. A mãe ficou radiante,

[00:04:51] o filho ia ser padre. Só que o seminário era um ambiente sufocante. Os padres eram

[00:04:58] bailistas russos reacionários que proibiam os alunos de falar georgiano. A vigilância

[00:05:04] era constante e a disciplina era brutal. E foi justamente essa repressão que empurrou

[00:05:09] Sosso para o outro lado. Ele começou a contrabandear livros proibidos para o dormitório.

[00:05:13] Vitor Hugo, Darwin e claro, Marx. Entrou para um grupo clandestino de discussão marxista

[00:05:20] e adotou um codinome de um romance georgiano, Koba, o nome do protagonista bandido de

[00:05:28] Alexander Kasbeg. Koba, o fora-da-lei rebelde que luta contra a injustiça.

[00:05:35] E agora entra o outro garoto de Górie. Simón Archaque Ter Petrozian nasceu em 1882,

[00:05:42] quatro anos depois de Stalin, numa família armênia da mesma cidade. O pai era um empreiteiro

[00:05:48] relativamente bem de vida, mas que tiranizava a família. O próprio Kamo, como Simón ficaria

[00:05:55] aqui, comparou depois o pai dele com o pai de Stalin. Era o mais velho de 12 irmãos,

[00:06:02] dos quais 7 morreram na infância. Simón era de certo modo o oposto de Sosso. Enquanto

[00:06:08] Stalin era um aluno brilhante, Simón era um desastre na escola. Estudou numa escola

[00:06:13] armênia sem falar armenio direito, foi transferido para uma escola municipal onde

[00:06:17] tinha que aprender russo e acabou expulso por mau comportamento. Não tinha nenhum

[00:06:22] talento acadêmico aparente. Mas tinha uma coisa que o jovem Stalin não tinha, uma coragem física

[00:06:29] absurda, quase suicida e uma lealdade feroz a quem conquistasse sua confiança. E quem conquistou

[00:06:36] essa confiança foi justamente Stalin. Quando Simón foi mandado para Tífilis para entrar no

[00:06:42] seminário teológico, adivinha quem virou o tutor dele? Stalin ajudou Simón a se preparar

[00:06:48] para os exames de admissão. Mas as aulas foram bem além de gramática e matemática. Stalin apresentou

[00:06:54] o marxismo a Simón, leu textos revolucionários com ele e aos poucos transformou aquele garoto

[00:07:01] sem rumo num militante conví. Por volta de 1902, Simón já estava totalmente dentro do

[00:07:08] movimento. E foi aí que ganhou o apelido que ficaria para sempre e a história é boa demais.

[00:07:13] Num dia, enquanto Stalin estava dando uma tarefa para ele, Simón não entendeu direito e perguntou

[00:07:20] de volta. Mas em vez de dizer como, para quem em russo, ele disse como, errando a pronúncia.

[00:07:26] Todo mundo riu e o apelido grudou como, revolucionário que nem sabia falar russo direito.

[00:07:33] Então a gente tem esses dois garotos de Gore. Um é poeta, intelectual, calculista,

[00:07:39] o outro é impulsivo, corajoso e absolutamente leal. Um planeja, o outro executa. Juntos,

[00:07:46] eles vão virar a dupla mais improvável e eficiente e assaltantes de banco que a revolução

[00:07:52] produziu. Para a gente entender por que Stalin e Camo foram assaltar um banco, a gente precisa

[00:07:58] entender uma coisa sobre revoluções. Revoluções custam dinheiro. Você precisa de armas,

[00:08:04] impressoras clandestinas, de passaportes falsos, de casas seguras, de passagens de trem. Você

[00:08:10] precisa manter militantes que vivem na clandestinidade e não podem trabalhar.

[00:08:14] No caso da Rússia do começo do século XX, o partido marxista que pretendia derrubar o Cusar

[00:08:20] estava quebrado. Esse partido era o Partido Operário Social Democrata Russo, fundado em

[00:08:27] 1998, que tinha um objetivo grandioso, uma revolução proletária contra o Império Russo.

[00:08:33] Mas desde 1913, o partido estava rachado em dois grandes grupos que se odiavam. De um lado,

[00:08:40] os mencheviques, que queriam uma abordagem mais moderada, gradual, dentro da legalidade quando

[00:08:46] possível. Do outro, os bolcheviques, liderados por Vladimir Lenin, que defendiam

[00:08:51] uma organização centralizada de revolucionários profissionais dispostos a usar todos os meios

[00:08:57] necessários. Quando eu digo todos os meios necessários, isso inclui expropriações.

[00:09:02] Os mencheviques argumentavam que assaltos violentos manchavam a reputação do partido

[00:09:08] e transformavam revolucionários em criminosos comuns aos olhos do público.

[00:09:12] Em maio de 1907, o partido se reuniu para seu quinto congresso em Londres. Foram 35

[00:09:19] sessões de debates furiosos entre bolcheviques e mencheviques. Stalin estava lá como delegado,

[00:09:25] Strotzki estava lá, Lenin, claro, estava lá, até Rosa Luxemburgo apareceu representando os

[00:09:31] alemães. E uma das questões mais quentes do congresso era justamente essa. As expropriações

[00:09:37] deviam continuar ou não. A resposta do congresso foi clara. Aprovaram a resolução condenando

[00:09:44] a participação em qualquer atividade violenta, incluindo as expropriações. As milícias do

[00:09:50] congresso deviam ser dissolvidas. Acabou sem mais assaltos. Acabou? Claro que não. Porque

[00:09:56] enquanto o congresso estava votando essa resolução, os bolcheviques fizeram uma coisa que define

[00:10:01] perfeitamente quem eles eram. Em segredo, durante o congresso, eles elegeram um órgão paralelo de

[00:10:07] poder chamado Centro Bolchevique, escondido do resto do partido. Dentro desse Centro Bolchevique,

[00:10:14] teram um grupo de finanças composto por três pessoas, Lenin, Krazim e Bogdanov. A função

[00:10:21] desse grupo, arranjar dinheiro, o método e expropriações. E aqui a história fica ainda

[00:10:27] melhor. Antes do congresso começar, em abril de 1907, Lenin já tinha convocado uma reunião

[00:10:34] secreta em Berlim com Stalin, Krazim, Bogdanov e Litvinov. O assunto? Planejar um grande

[00:10:41] produto para comprar armas. A decisão foi tomada. Stalin, o Koba e Kamo seriam os responsáveis

[00:10:48] por organizar o roubo ao banco de Tiflis. Quando depois os mencheviques descobriram,

[00:10:54] a reação foi exatamente a que você imagina. O líder dos mencheviques pediu a separação

[00:10:59] definitiva dos bolcheviques. Martov disse que o Centro Bolchevique era algo entre um comitê

[00:11:05] central de facção secreto e uma gangue criminosa. Mas para Lenin, nada disso importava. Ele queria

[00:11:13] o dinheiro e, no final das contas, ele e todo o partido bolchevique viveram, em parte, desse

[00:11:19] dinheiro até 1917. Então, o dinheiro precisava ser roubado. E para isso, Koba e Kamo voltaram

[00:11:28] a Tiflis. Stalin voltou no final da primavera de 1907. Ele tinha 29 anos, vivia com a esposa

[00:11:35] Katerina e o filho recém-nascido, Yakov. Uma família jovem num apartamento perto da

[00:11:41] praça central da cidade. A essa altura, Stalin já tinha um currículo considerável de expropriações.

[00:11:47] Era isso que fazia dele útil para Lenin. Ele era o cara que resolvia problemas práticos.

[00:11:53] Resolver problemas práticos significava arranjar dinheiro. A primeira coisa que Stalin fez foi

[00:12:01] a rede de informantes. Ele precisava saber quando e como o dinheiro se movia em Tiflis.

[00:12:06] Ele conseguiu dois contatos cruciais dentro do sistema bancário. O primeiro era um funcionário

[00:12:12] do banco. O segundo era um velho amigo de escola que trabalhava no escritório postal

[00:12:17] bancário da cidade e que lhe dava acesso a uma informação valiosíssima. A agenda

[00:12:22] secreta de transferências de dinheiro entre o correio e a filial do Banco Imperial.

[00:12:28] E tem um detalhe com o Ador. Sabe por que esse amigo ajudou? Não foi por convicção

[00:12:33] política, não foi por dinheiro. Foi porque ele admirava a poesia de Stalin. O cara entregou

[00:12:40] informações sigilosas do Banco Imperial Russo porque achava bonitos os poemas do

[00:12:45] Koba. Se alguém escrevesse isso no roteiro de filme, o produtor mandaria reescrever

[00:12:51] por ser inverossímel demais. Mas aconteceu. Eles descobriram que no dia 26 de junho,

[00:12:57] o banco receberia um carregamento de dinheiro transportado por diligência entre o correio

[00:13:03] e a filial do Banco Imperial, passando pela praça Erivansk, bem no coração da cidade.

[00:13:10] Era o alvo perfeito. Agora entra o Kamo. Enquanto Stalin cuidava da inteligência,

[00:13:16] Kamo cuidava da operação. Ele liderava um grupo chamado de Ubando e era conhecido

[00:13:22] por ser, nas palavras de Stalin, um mestre dos disfarces. Lenin chamava ele de meu bandido

[00:13:28] caucasiano e o cara fazia jus ao ti. A primeira tarefa de Kamo foi conseguir as armas.

[00:13:35] Assim, fabricou as bombas. E o método que Kamo usou para contrabandear essas bombas para

[00:13:42] dentro da cidade, ele escondeu elas dentro de um sofá. Só que semanas antes do assalto,

[00:13:48] ele disse que deu tudo errado. Kamo estava tentando armar uma das bombas quando ela detonou

[00:13:54] acidentalmente. A explosão atingiu ele no rosto e destruiu a visão de um olho. O ferimento foi

[00:14:00] grave. Ele ficou de cama por um mês, com dores intensas. Qualquer pessoa normal teria

[00:14:06] desistido. Mas Kamo não era uma pessoa normal. No dia do assalto, ele ainda não tinha se

[00:14:11] desistido completamente, mas estava lá. Enquanto isso, as autoridades russas farejavam alguma

[00:14:19] coisa. A Ucrana, polícia secreta do Khizar, tinha recebido informações de que algo grande

[00:14:25] estava sendo planejado por revolucionários intívios. Mas Kamo e Stalin já tinham previsto isso.

[00:14:31] Os 20 conspiradores foram divididos em posições estratégicas ao redor da praça. Sentinelas

[00:14:38] em pontos elevados com visão de cima. Cada membro do bando sabia exatamente onde devia ficar e o

[00:14:46] que fazer quando o sinal fosse dado. A maioria se vestiu de camponês, com revólveres e

[00:14:51] granadas escondidos debaixo das roupas. Kamo, por sua vez, se fantasiou de capitão

[00:14:57] de cavalaria do Exército Imperial e chegou à praça numa charrete elegante, como se fosse

[00:15:04] um oficial em serviço. O cara tinha acabado de perder um olho com a bomba e apareceu disfarçado

[00:15:10] de oficial do exército que ele queria derrubar. Tudo estava pronto. Vinte homens posicionados,

[00:15:17] bombas distribuídas, informantes confirmando o horário, a diligência com o dinheiro do Khizar

[00:15:22] viria pela praça por volta das dez e meia da manhã. Era só esperar. Naquela manhã fazia

[00:15:31] a praça e rivãs que estavam movimentadas como sempre. Era o coração da cidade, de um lado

[00:15:37] ficava o correio, do outro a filial do Banco Imperial. Os vinte conspiradores estavam em posição.

[00:15:42] Kamo, no meio da praça, impecável no seu uniforme falso de capitão de cavalaria, sentado

[00:15:49] na sua charrete elegante, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Uma taverna que

[00:15:55] dava para a praça, outro grupo de conspiradores tomou conta do estabelecimento e segurou as

[00:16:00] pessoas que estavam lá, até que veio o sinal de que a diligência estava se aproximando.

[00:16:04] Os homens armados saíram correndo com as pistolas na mão. E lá vinha a diligência,

[00:16:09] uma carruagem puxada por cavalos, transportando dinheiro entre o correio e o banco. Dentro dela

[00:16:16] estavam os sacos com cerca de 340 mil rublos, dois guardas armados com rifles,

[00:16:22] um caixa do banco e um contador. Atrás da diligência, uma segunda charrete cheia de

[00:16:28] policiais armados e ao redor, sacos montados a cavalos escoltando o comboio.

[00:16:34] As autoridades sabiam que algo podia acontecer. Haviam reforçado a segurança. Tinha guardas

[00:16:40] em cada esquina. Mas não foi o suficiente. Quando a diligência entrou na praça,

[00:16:45] o inferno começou. Bombas foram lançadas de todas as direções de cima dos lados das

[00:16:51] esquinas. A primeira explosão atingiu a escolta. Cavalos tombaram e soldados caíram.

[00:16:57] O barulho foi tão forte que um jornal georgiano descreveu assim. Ninguém conseguia dizer se o

[00:17:03] som terrível era de canhões ou de explosão de bombas. O som causou pânico em toda a parte.

[00:17:09] Quase na cidade inteira, as pessoas começaram a correr. No meio do caos,

[00:17:14] um dos cavalos feridos que puxava a diligência do banco entrou em pânico e disparou arrastando

[00:17:20] a carruagem com ele. Um dos revolucionários conseguiu alcançar e jogou mais uma granada

[00:17:25] que arrancou as pernas do cavalo, mas a explosão pegou ele também. Ele foi arremessado no chão,

[00:17:31] atordoado e ficou caído ali no meio da fumaça e dos destroços até que recuperou a consciência

[00:17:37] e conseguiu se arrastar para fora da praça antes que os reforços militares chegassem.

[00:17:42] Enquanto isso, outros avançaram para a diligência destroçada e pegaram o saco de dinheiro.

[00:17:48] Camo chegou atirando com a pistola. Os sacos foram jogados dentro da charrete dele e,

[00:17:54] na pressa, deixaram 20 mil rubros para trás,

[00:17:56] partes dos quais teria sido embolsada por espectadores que estavam na praça.

[00:18:02] Camo disparou com a charrete pelas ruas da cidade. O dinheiro foi levado primeiro

[00:18:07] para o esconderijo e depois dividido. A parte foi escondida no colchão de

[00:18:12] um diretor do Observatório Astronômico e o restante foi embrulhado num casaco

[00:18:16] que entrega uma professora que trabalhava com os bolcheviques e o escondeu temporariamente.

[00:18:21] No saldo, cerca de 340 mil rubros roubados, algo entre 3 e 4 milhões de dólares em valores

[00:18:30] de hoje, 40 pessoas mortas e 50 feridos. Nenhum dos assaltantes foi capturado naquele dia.

[00:18:37] O assalto de Tiflis virou manchete no mundo inteiro, mas para Stalin,

[00:18:42] a história estava longe de acabar. Porque ter o dinheiro é uma coisa. Conseguir gastar

[00:18:48] o dinheiro é outra completamente diferente. A maior parte do dinheiro roubado era em notas

[00:18:55] de valor alto, cédulas de 500 rubros. E a polícia exarista tinha os números de série

[00:19:01] de todas elas. Cada nota estava marcada. Qualquer tentativa de trocar ou usar essas

[00:19:07] cédulas em um banco da Rússia ou da Europa, levaria direto à prisão. O dinheiro era,

[00:19:14] na prática, inútil. Lenin, claro, teve uma ideia. Distribuir as notas entre vários agentes

[00:19:21] espalhados pela Europa e, no mesmo dia, cada um trocaria as notas em bancos diferentes,

[00:19:26] em cidades diferentes, antes que a polícia pudesse reagir. Uma operação simultânea de

[00:19:33] dinheiro em escala continental. Foi um desastre. Em janeiro de 1908, agentes tentaram trocar as

[00:19:40] notas em bancos de Paris, Estocolmo, Munique e outros lugares, e vários foram presos

[00:19:46] imediatamente. A Europa inteira agora sabia que Lenin e seus companheiros eram assaltantes

[00:19:53] de banco. E o Camo? Camo teve o destino mais insano de todos. Depois do assalto,

[00:20:01] Camo conseguiu levar uma parte do dinheiro, incluindo as notas marcadas, para fora da Rússia.

[00:20:06] Ele viajou para a Europa, comprou armas e detonadores na Bulgária, e depois foi a Berlim

[00:20:12] entregar uma carta de Lenin a um médico bolchevique, pedindo tratamento para o olho

[00:20:17] destruído dele. Lenin estava tentando ajudar o homem que tinha executado o assalto com

[00:20:23] sucesso, mas sem querer entregou o Camo de bandeja, porque o médico era um agente duplo

[00:20:29] e trabalhava secretamente para a Ucrana. Assim, a polícia de Berlim prendeu o Camo. Com ele,

[00:20:37] encontraram um passaporte austríaco falso e uma mala com 200 detonadores.

[00:20:42] E aqui começa uma parte impressionante da história. Na prisão em Berlim,

[00:20:47] Camo recebeu um bilhete enviado pelo advogado Oscar Kohn, com uma instrução simples.

[00:20:52] Pinja loucura. A ideia era ser declarado incapaz de ir a julgamento, e Camo levou essa

[00:21:00] instrução ao extremo absoluto. Ele recusou comida, rasgou as próprias roupas,

[00:21:04] arrancou os próprios cabelos, tentou se enforcar, cortou os pulsos e… comeu as próprias fezes.

[00:21:12] Tudo para convencer os médicos de que era louco. Os médicos alemães não

[00:21:18] acertaram de primeira. Para testar se ele estava fingindo, enfiaram agulhas debaixo

[00:21:24] das unhas dele. Espetaram uma agulha longa nas costas dele. Queimaram ele com ferro quente,

[00:21:30] e Camo não reagiu, não gritou, não se mexeu, manteve o ápio.

[00:21:35] Depois de todos esses testes, em junho de 1909, o médico-chefe do Manicomio de Berlim

[00:21:42] escreveu no relatório. Não há fundamento para acreditar que ele esteja fingindo

[00:21:47] a idade. Ele está sem dúvida mentalmente doente, é incapaz de comparecer perante um tribunal ou

[00:21:54] de cumprir sentença. Camo tinha vencido, mas não acabou. Ele foi extraditado por uma

[00:22:01] prisão russa onde continuou fingindo loucura. Em abril de 1910, foi levado a julgamento pelo

[00:22:08] assalto. E o que ele fez? Ignorou completamente o julgamento e ficou alimentando um passarinho

[00:22:15] contrabandeado para dentro da sala do tribunal na camisa. O tribunal suspendeu o julgamento para

[00:22:21] avaliar a sanidade dele mais uma vez. Em 1911, depois de mais de três anos fingindo loucura,

[00:22:28] Camo finalmente escapou. Cerrou as barras da janela da ala psiquiática da prisão de Tiflis

[00:22:35] e desceu por uma corda improvisada. Livre. Fugiu para Paris, onde encontrou Lémen.

[00:22:41] Ficou chateado ao saber que tinha acontecido uma ruptura entre Lémen, Bogdanov e Krazim.

[00:22:46] Depois, se juntou a Krazim para planejar mais um assalto. Mas dessa vez a sorte acabou. Foi

[00:22:54] preso antes de executar o plano, julgado por todos seus crimes e condenado a quatro penas

[00:23:00] de morte. Parecia o fim. Mas aí aconteceu uma daquelas coincidências históricas absurdas.

[00:23:07] Em 1913, a dinastia Romanov completou 300 anos no poder e, para celebrar, concedeu

[00:23:14] anistia a vários prisioneiros políticos. A sentência de morte de Camo foi comutada para

[00:23:20] prisão e ele ficou preso até a Revolução de 1917, que finalmente abriu as portas da prisão.

[00:23:26] E o pós-revolução foi triste. Camo, o homem de ação, o mestre dos disfarces,

[00:23:33] o cara que fingiu loucura por três anos e escapou de quatro sentenças de morte,

[00:23:38] simplesmente não se adaptou à vida depois da Revolução. Segundo Fontes, ele parecia entediado.

[00:23:45] A burocracia soviética não precisava de assaltantes de banco. Camo foi trabalhar na

[00:23:51] aduana soviética. Em 14 de julho de 1922, andando de bicicleta pelas ruas de Tiflis,

[00:23:58] foi atropelado por um caminhão e morreu. Ele tinha 40 anos.

[00:24:02] Um monumento a Camo foi erguido nos Jardins Pushkin, perto da praça Erivanski,

[00:24:08] pertinho de onde tudo aconteceu. Camo foi enterrado ali embaixo e, depois,

[00:24:14] o monumento foi removido e os restos dele foram transferidos. Que morto, ele não teve sossego.

[00:24:20] Stalin, o que aconteceu com o organizador do assalto? Você sabe o que aconteceu com

[00:24:27] ele. Ele virou Stalin. O seminarista que escrevia a poesia, o agitador clandestino que organizava

[00:24:33] assaltos, o Koba, ele se tornou o líder da União Soviética. E vale lembrar contra o que essa

[00:24:40] revolução lutava. O Império Russo era um regime autocrático onde a maioria da população

[00:24:45] vivia em miséria. Os camponeses tinham sido servos até 1861 e, 40 anos depois,

[00:24:52] eles estavam presos a uma vida de fome e submissão. Preves eram reprimidas à bala.

[00:24:58] Manifestações pacíficas terminavam em massacre. Judeus eram alvo de pogroms tolerados ou

[00:25:04] incentivados pelo Estado. Georgianos, armênios, polaneses, finlandeses, todos submetidos a uma

[00:25:10] política de russificação forçada. Stalin e Camo cresceram nesse mundo.

[00:25:15] Lenin e Trotski organizaram contra esse mundo. O assalto de Tiflis não aconteceu

[00:25:21] com moral. Aconteceu dentro de uma luta contra um dos regimes mais brutais da Europa.

[00:25:26] E é aqui que a gente pode voltar a Andor para fechar o ciclo. Tony Gilroy leu essa

[00:25:32] história e enxergou Star Wars nela. E faz muito sentido, porque os paralelos são

[00:25:36] quase perfeitos. Kassian Andor é um cara de origem humilde, vindo das margens do império,

[00:25:42] com um passado violento, e é recrutado não porque o enderelo está puro,

[00:25:47] mas porque é capaz de fazer o que precisa ser feito. É exatamente o que Stalin era para Lenin.

[00:25:53] Luther Hayel, o cara que se esconde atrás de uma loja de antiguidades enquanto financia

[00:25:59] uma rebelião inteira, é Lenin, um estrategista implacável que entende que uma revolução não

[00:26:05] se faz só com discursos e panfletos. Némig, o jovem que escreve um manifesto

[00:26:10] filosófico sobre liberdade, é o Trotski da história. Até a estrutura da rebelião

[00:26:16] com células separadas, líderes que não se conhecem, uma rede clandestina mantida por

[00:26:21] disciplina e sigilo, é a estrutura Bolchevique. Gilroy não pegou só a estética,

[00:26:27] ele pegou também a lógica organizacional. Acho também que Gilroy capturou melhor do que

[00:26:33] qualquer outra coisa algo que a própria história do assalto mostra. Que a luta

[00:26:39] exige sacrifícios. Não é bonito, não é limpo. Kamo perdeu um olho, fingiu loucura por três anos,

[00:26:47] e fez tudo isso porque acreditava na causa. O dinheiro que eles roubaram não foi para

[00:26:52] comprar mansões, foi para financiar jornais clandestinos, comprar armas ou manter uma rede

[00:26:58] revolucionária que, dez anos depois, derrubou o czarismo. Se você não assistiu o Andor,

[00:27:04] assista. Não precisa gostar de Star Wars, precisa só gostar de boas histórias.

[00:27:10] Se você já assistiu, agora você sabe de onde vem, em todo aquele peso,

[00:27:15] aquela sensação de que a série é diferente do que Star Wars já fez. É porque ela é.

[00:27:21] Porque por trás da ficção tem uma história real. A história de dois garotos de gori,

[00:27:26] de uma praça de Tiflis e de um assalto que ajudou a derrubar o Império.

[00:27:30] Espero que vocês estejam intrigados. Até a próxima.