Ser feliz em um mundo caótico?
Resumo
O episódio investiga se é possível buscar felicidade e plenitude individual em meio a um mundo marcado por injustiças sociais, desigualdade, violência, guerras e crise climática. A partir desse dilema, o apresentador propõe compreender a “dialética” entre indivíduo e história: as grandes transformações sociais acontecem em escalas de tempo muito maiores do que uma vida humana, o que torna irrealista condicionar a própria felicidade à chegada de uma “terra prometida” histórica.
Para lidar com essa tensão, o episódio recorre a ideias estoicas sobre distinguir o que está (ou não) em nosso poder: devemos participar de lutas coletivas e fazer nossa parte, sem nos consumir por aquilo que excede nossa capacidade individual de controle. Em seguida, argumenta-se que as filosofias antigas permanecem relevantes porque tratam de experiências humanas universais (dor, luto, exílio, amor, opressão), apesar de mudarem as formas históricas e tecnológicas desses eventos.
Na conclusão, a política é apresentada como meio para criar condições externas mínimas para a boa vida, alinhando Aristóteles (eudaimonia e necessidade de bens externos) e Marx (a boa vida como atividade livre e valiosa em si). Assim, a proposta é viver com serenidade possível no presente, enquanto se luta por mudanças coletivas sem transformar a utopia futura em pré-requisito para a própria vida plena.
Anotações
- 00:07:24 — Indivíduo como expressão do Geist: O apresentador introduz a ideia hegeliana de que cada pessoa é uma individuação do Geist (o “espírito” como coletividade de consciências). Ele explica que, como indivíduo, é uma individuação do Geist brasileiro: fala a língua do país e carrega costumes, expectativas e modos de pensar e agir que vão além do que percebe. Para mostrar isso, comenta que tais determinações ficam mais claras quando se vive em outros países, pois o contraste cultural revela valores que pareciam universais; o exemplo é a percepção de que “europeus são frios”, entendida como uma expectativa formada pelo Geist brasileiro e latino-americano.
- 00:16:55 — Fetiche do novo e desvalorização do passado: Ao retomar o tema, o episódio pergunta se as filosofias helenísticas ainda têm algo a dizer hoje e critica o “fetiche pela novidade” da sociedade atual: aprendemos que só tem valor o que é do nosso tempo, e o legado das gerações anteriores vira curiosidade de museu ou “pré-história” do presente. Ele liga essa percepção à necessidade histórica do capitalismo, que depende de produção e circulação incessantes de mercadorias e, para isso, estimula a crença de que o bom está no novo e o velho é ruim. Em contraponto, afirma que o velho está contido no novo e que o novo existe como parte de um processo que nega e ao mesmo tempo conserva e eleva o velho.
- 00:18:50 — Ignorância histórica e repetição dos eventos: O apresentador atribui parte do problema à ignorância histórica: como cada indivíduo vive o mundo pela primeira e única vez, é difícil escapar da impressão de que tudo ao redor é novidade, o que aparece claramente ao conversar com adolescentes que estão descobrindo o mundo. Ele propõe então imaginar a história como um filme visto por uma terceira pessoa: seria monótono, pois veríamos padrões se repetindo—impérios surgindo e caindo, guerras, pessoas nascendo e morrendo, injustiças e sofrimentos, alegrias, amores, festas e arte, intrigas políticas, além de catástrofes naturais como terremotos e erupções. Embora as ações humanas tomem formas diferentes conforme a época e o lugar, em seus aspectos fundamentais esses eventos seriam constantes.
- 00:21:04 — Por que filósofos antigos ainda importam: Ele responde diretamente que os filósofos antigos continuam relevantes porque refletiam sobre questões comuns a toda a humanidade. Argumenta que as diferenças entre nossas experiências e as dos antigos são mais acidentais do que essenciais, atingindo mais a “superfície” do que o núcleo dos acontecimentos. Para ilustrar, pergunta que diferença real faz uma guerra ser travada com espadas e lanças ou com armas de fogo; compara a erupção do Vesúvio e a destruição de Pompeia com catástrofes atuais, enfatizando a dor de quem perde amigos e parentes. Em seguida, aproxima casos políticos de épocas distintas: o suicídio de Catão diante de Júlio César e o de Getúlio Vargas, e as prisões políticas de Boécio e de Antonio Gramsci, concluindo que experiências como exílio, luto e tristeza atravessam tempos e culturas, tornando Sócrates, estoicos e epicuristas úteis ainda hoje.
- 00:26:17 — Boa vida em Aristóteles e Marx (Eagleton): Nas considerações finais, o episódio articula política e felicidade, lembrando que a luta por transformação social busca criar bases para uma vida plena. Depois, cita Terry Eagleton, que afirma que Marx pertence à tradição aristotélica: a moralidade não seria um conjunto de leis e proibições, mas a questão de como viver de forma livre, plena e satisfatória. Eagleton também é mencionado ao dizer que, para Aristóteles e Marx, a boa vida consiste em atividades feitas por si mesmas, e não por motivos externos. O apresentador encerra reforçando que nossa vida ocorre agora, nesta formação social, e que, enquanto mudamos o que podemos, tentamos viver do modo mais sereno e tranquilo possível em um mundo caótico, contando com reflexões de pensadores de milhares de anos.
Indicações
Livros
- Filosofia para a Vida: Quando Pensar é o Melhor Remédio (autor do podcast) — divulgado como obra que resgata a filosofia como “terapia da alma” e ajuda a lidar com dificuldades humanas não patológicas
- Ética a Nicômaco (Aristóteles) — citada para sustentar que a felicidade depende também de condições externas (livro 1, cap. 8)
- Consolação da Filosofia (Boécio) — mencionada ao comparar experiências de prisão política e sofrimento em diferentes épocas (obra escrita em 523 d.C.)
- Por que Marx tinha razão (Terry Eagleton) — citada para argumentar que Marx se insere numa tradição aristotélica sobre moralidade como “como viver bem”
Artigos / Links
Dados do Episódio
- Podcast: Filosofia Vermelha
- Autor: Glauber Ataide
- Categoria: Society & Culture / Philosophy
- Publicado: 2026-02-16
- Duração: 0h28m
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/filosofia-vermelha/dd38e8c0-673a-0138-a0de-0acc26574db2/ser-feliz-em-um-mundo-ca%C3%B3tico/101e4546-86ff-4762-baf6-ebdcb7c51db3
- UUID Episódio: 101e4546-86ff-4762-baf6-ebdcb7c51db3
Dados do Podcast
- Nome: Filosofia Vermelha
- Tipo: episodic
- Site: https://www.filosofiaepsicanalise.org/
- UUID: dd38e8c0-673a-0138-a0de-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Olá, amigos e amigas do Saber, neste episódio de hoje vamos colocar uma das questões mais
[00:00:06] esperadas deste podcast.
[00:00:09] É possível ser feliz em um mundo caótico?
[00:00:13] Quando olhamos para a realidade a nossa volta e acompanhamos as notícias sobre o mundo,
[00:00:19] percebemos que há muito a ser transformado.
[00:00:22] Injustiças sociais alarmantes, o abismo cada vez maior entre ricos e pobres, problemas
[00:00:28] habitacionais em quase todas as grandes cidades do mundo, a inflação diminuindo nosso poder
[00:00:34] de compra, violência, guerras e diversos tipos de opressão.
[00:00:40] Tudo isso pesa sobre nossos ombros e impacta cada vez mais nossa saúde mental.
[00:00:46] Ao mesmo tempo em que precisamos cuidar de nós mesmos, também temos consciência no
[00:00:51] entanto de que grande parte de nossos problemas são de origem social e requerem soluções
[00:00:57] coletivas.
[00:00:58] O que fazer então nesses casos?
[00:01:01] Esgotar toda nossa energia para transformar as condições sociais causadoras dos desconfortos
[00:01:08] de nossas almas?
[00:01:09] Ou buscar cuidar de nós mesmos e viver da melhor forma possível no mundo como está
[00:01:15] agora e na época em que nascemos?
[00:01:18] Para responder a essas questões, falaremos inicialmente sobre a dialética entre a vida
[00:01:23] coletiva e a individual, entre a história e o indivíduo, e depois investigaremos se
[00:01:30] as filosofias da antiguidade continuam relevantes para nós ainda hoje.
[00:01:36] Então vamos lá, acompanhem.
[00:01:50] Antes de iniciar um breve recado, se você deseja uma introdução geral à filosofia
[00:01:55] ou gostaria de se aprofundar em temas específicos, estude Filosofia Conosco.
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[00:02:23] E o nosso segundo e último recado é que, se você acompanha nosso podcast, sem dúvida
[00:02:28] alguma gostará também do meu novo livro.
[00:02:31] Intitulada Filosofia para a Vida, Quando Pensar é o Melhor Remédio, a obra foi publicada
[00:02:37] pela editora Vozes e tem por objetivo resgatar a prática filosófica enquanto terapia para
[00:02:44] alma.
[00:02:45] Eu mostro neste livro que, através da filosofia, podemos lidar com diversas dificuldades da
[00:02:50] vida que, longe de serem patológicas, são apenas parte do que significa ser humano.
[00:02:57] Nem todo o desconforto da alma é uma doença.
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[00:03:20] Voltemos então ao nosso tema Ser Feliz em um Mundo Caótico.
[00:03:25] Parece impossível buscar nossa plenitude individual em um mundo tão caótico.
[00:03:31] Para muitos de nós, está fora de questão fechar os olhos aos grandes problemas políticos
[00:03:36] e sociais de nosso tempo, sobretudo quando sabemos que eles se encontram na raiz de
[00:03:42] grande parte de nossas mazelas.
[00:03:45] Temos riqueza suficiente para acabar com a fome e resolver todos os problemas estruturais
[00:03:51] que flagelam grande parte da humanidade na periferia do mundo.
[00:03:56] De modo que, se tal situação permanece, isso se deve não à escassez natural, mas
[00:04:02] a uma forma de organização social que só podemos classificar como perversa.
[00:04:09] Como eu poderia buscar minha própria felicidade se, ao meu lado, há tanta gente sofrendo?
[00:04:15] Não seria mesquinhez e individualismo buscar uma vida plena para mim enquanto eu poderia
[00:04:21] estar lutando para transformar a realidade social?
[00:04:25] Agora, para responder a tais questões, nós precisamos compreender a relação entre o
[00:04:30] indivíduo e a história.
[00:04:33] Grandes transformações sociais e culturais se desenvolvem ao longo de décadas, séculos
[00:04:39] ou milênios, em uma escala incompatível com aquela de nossas vidas individuais.
[00:04:46] Pensemos, por exemplo, sobre a passagem da antiguidade para o modo de produção feudal
[00:04:50] e depois para o capitalismo.
[00:04:53] Esses três estágios se desenrolaram ao longo de mais de dois mil anos, de modo que até
[00:04:59] mesmo o período de um século parece pequeno nessa escala.
[00:05:04] Ao lermos em um livro de história, por exemplo, sobre dois eventos ocorridos na Idade Média
[00:05:09] com um século de distância entre eles, nós temos a impressão de que ocorreram quase
[00:05:14] que imediatamente após o outro.
[00:05:17] Em nossa percepção histórica, parece não haver muita diferença entre os anos 1250
[00:05:24] e 1350.
[00:05:26] Agora consideremos isso em uma perspectiva individual.
[00:05:31] Quantos de nós tem o privilégio de viver um século inteiro?
[00:05:35] E não apenas estar vivo por 100 anos, mas com saúde e disposição para uma existência
[00:05:42] plena e satisfatória.
[00:05:44] Poucas pessoas alcançam uma idade tão avançada e um número ainda menor deste conjunto tem
[00:05:50] boas condições físicas e mentais para uma existência em que a ausência de perturbações
[00:05:56] seja maior que as dores e os incômodos oriundos do corpo e do mundo.
[00:06:02] Quando consideramos a expectativa de vida em cada país, vemos que alguns indivíduos
[00:06:08] morrem antes da média estatística, enquanto outros vivem além dessa expectativa, de modo
[00:06:14] que há um enorme descompasso entre a escala de tempo histórica e a individual.
[00:06:21] Como conciliar então as duas perspectivas?
[00:06:24] Se por um lado somos indivíduos e não podemos existir fora de nossos corpos, nós também
[00:06:30] somos por outro produtos da história, da cultura e de nossas sociedades.
[00:06:36] Somos dependentes de nossa cultura até mesmo pela língua que falamos, onde é que nós
[00:06:42] aprendemos nosso idioma nativo.
[00:06:45] Por que pensamos, agimos e nos comportamos de uma maneira diferente daquela de outros
[00:06:50] lugares e tempos históricos?
[00:06:52] Por exemplo, se eu tivesse nascido 2400 anos atrás em Atenas, na Grécia, eu não falaria
[00:06:59] português, minha aparência física seria diferente e meus pensamentos não seriam exatamente
[00:07:04] os mesmos que possuo hoje, nessa época, cultura e lugar.
[00:07:09] É nesse sentido que o filósofo alemão Hegel afirma que cada pessoa é uma individuação
[00:07:15] do Geist, ou do espírito, compreendido aqui como uma coletividade de consciências.
[00:07:22] Enquanto indivíduo, eu sou uma individuação do Geist brasileiro, eu falo a língua deste
[00:07:28] país, eu carrego seus costumes, expectativas, seu modo de ser, pensar e agir, e muito mais
[00:07:35] do que eu percebo.
[00:07:37] Muitas dessas questões ficam mais claras quando moramos em outros países e culturas
[00:07:42] porque só então nós podemos confrontar valores que antes considerávamos simplesmente
[00:07:48] dados e universais.
[00:07:50] Quando eu considero, por exemplo, que os europeus são frios em suas relações interpessoais,
[00:07:56] isso revela uma expectativa ou forma de pensar criada não por mim enquanto indivíduo, mas
[00:08:02] oriunda do Geist brasileiro e latino-americano.
[00:08:06] Por isso precisamos nos compreender nessa dialética entre o indivíduo e a história,
[00:08:12] nós somos de fato animais presos a um corpo e com uma vida própria, mas também e ao
[00:08:18] mesmo tempo uma individuação do Geist.
[00:08:23] Nossa felicidade pessoal deve ser pensada em sua própria escala.
[00:08:28] Se a transformação do mundo for condição inegociável de nossa felicidade, nós estamos
[00:08:34] nos condenando à miséria e à infelicidade.
[00:08:39] Grandes transformações históricas ocorrem em uma escala diferente de nossas vidas individuais,
[00:08:45] se estendendo por um período muito maior que uma vida humana regular.
[00:08:51] Mesmo que uma revolução acontecesse amanhã, este seria apenas o dia 1 de um processo que
[00:08:57] se estenderia por centenas de anos talvez.
[00:09:01] Nesse sentido nós somos exatamente como aquele povo que saiu do Egito em direção
[00:09:06] à terra prometida, a Bíblia nos conta que eles nunca alcançaram seu objetivo e nunca
[00:09:12] viram o objeto de seus sonhos, mas apenas as gerações seguintes.
[00:09:18] Se lutamos hoje por um mundo melhor, talvez venhamos a testemunhar pequenas transformações
[00:09:25] ou até mesmo o início de grandes mudanças históricas, mas jamais todo o processo.
[00:09:32] Nossa vida é muito curta para tal.
[00:09:34] Nós devemos nos enxergar como semeadores de uma colheita que será realizada por outros,
[00:09:41] ou então como participantes de uma corrida de bastão.
[00:09:45] Nós devemos fazer tudo o que está em nosso poder para alcançar a vitória, mas quem cruzará
[00:09:51] a linha de chegada serão outros mais jovens que nós.
[00:10:03] Tendo em vista essa dialética entre o indivíduo e a história, nós podemos pensar agora
[00:10:08] com mais clareza sobre nossa própria felicidade.
[00:10:12] Não se trata de abandonar a luta por um mundo mais justo, mas de compreender que a terra
[00:10:18] prometida está fora de nosso alcance, não pelo fato de sermos pessimistas, mas pela
[00:10:24] simples razão de nosso tempo de vida ser insuficiente para tal.
[00:10:30] Quem condiciona sua felicidade à terra prometida morrerá infeliz.
[00:10:36] Nós somos como aquela geração que viveu 40 anos no deserto caminhando para Canaã.
[00:10:42] Nós continuamos nossa jornada e mantemos nossa esperança, mas nós devemos extrair
[00:10:48] o máximo de nossas vidas mesmo vivendo em um clima inóspito.
[00:10:53] Se a ganância capitalista destrói o planeta hoje e uma catástrofe climática parece
[00:10:58] inevitável, o que fazer?
[00:11:01] Nós podemos nos organizar e lutar coletivamente para mudar o rumo da história, mas tudo
[00:11:06] isso depende de muito mais do que está em meu poder individual.
[00:11:12] Para mudar o mundo, eu preciso convencer outras pessoas que façam o mesmo junto comigo,
[00:11:18] mas suas ações não dependem mais de mim.
[00:11:22] Uma das lições mais importantes que aprendemos com os estoicos é que devemos traçar uma
[00:11:27] clara distinção entre as coisas que estão em nosso poder e aquelas que não estão.
[00:11:33] Se algo não está em nosso poder, então não nos interessa e não deve nos afligir.
[00:11:40] Ao integrarmos lutas coletivas por transformações sociais, nós damos nossa contribuição individual
[00:11:47] por uma vida melhor para todos.
[00:11:49] Sozinho, eu sou incapaz de resolver uma guerra, aumentar nossos salários ou acabar com a
[00:11:56] fome, a violência e as injustiças, mas eu devo me desesperar por isso.
[00:12:02] Os estoicos pensavam que não.
[00:12:04] Faremos agora a nossa clássica pausa musical, a fim de que você absorva melhor o conteúdo
[00:12:09] exposto até agora e revigore a concentração para o restante do episódio.
[00:12:13] E hoje vamos de Wolfgang Amadeus Mozart.
[00:12:17] Vamos ouvir um trecho do concerto para piano em La Mayor, K 488, 2 a Dajio.
[00:12:24] Mozart nasceu em 1756 em Salzburg, na Áustria, e faleceu em 1791 em Viena, também na Áustria,
[00:12:32] aos 35 anos de idade.
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[00:16:15] Voltemos então ao nosso tema Ser Feliz em um Mundo Caótico.
[00:16:20] Quando falamos sobre viver de forma plena, as filosofias do período elenístico são
[00:16:26] essenciais.
[00:16:27] Mas será que elas ainda possuem algo de relevante a nos dizer hoje, tendo em vista que são
[00:16:33] produtos de sociedades tão distantes e diferentes da nossa?
[00:16:39] Nossa sociedade padece de um fetiche pela novidade.
[00:16:43] O mundo nos ensina que só tem valor o que é produto de nosso próprio tempo, de tal
[00:16:49] maneira que o enorme tesouro legado pelas gerações anteriores tem valor apenas como
[00:16:56] curiosidade histórica em museus ou então como pré-história para os nossos próprios
[00:17:01] feitos.
[00:17:02] Essa forma de pensar, sentir e perceber ocorre muitas vezes de forma inconsciente e tem
[00:17:08] sua razão histórica de ser, dizendo respeito a uma necessidade do modo de produção capitalista.
[00:17:16] Vejam, o capital precisa de uma incessante produção e circulação de mercadorias e
[00:17:22] para isso ele precisa convencer os indivíduos a comprar cada vez mais.
[00:17:28] Uma das melhores formas de produzir este comportamento é convencendo os indivíduos
[00:17:33] de que o bom reside no novo e que o velho é ruim.
[00:17:38] Essa forma de pensar não compreende, no entanto, que o velho está contido no novo e que o
[00:17:44] novo só existe como parte de um processo que não apenas nega o velho, mas que o conserva
[00:17:51] ao mesmo tempo e o eleva ao nível superior.
[00:17:55] Essa forma de percepção sobre o velho e o novo molda também nossa relação com quase
[00:18:00] toda forma de produção espiritual.
[00:18:04] As novas ideias passam a ser preferíveis às antigas, agora muitas vezes não por seu
[00:18:10] próprio mérito, mas apenas por serem produtos de nossa época e lugar.
[00:18:15] Em muitos casos as novas ideias nem são melhores, nem são tão originais quanto parecem, mas
[00:18:22] são mesmo assim associadas à verdade enquanto a tradição é considerada ultrapassada apenas
[00:18:30] em virtude de sua longa vida.
[00:18:32] Uma das causas deste problema é nossa ignorância histórica.
[00:18:37] Enquanto indivíduos nós estamos experimentando este mundo pela primeira e única vez, sendo
[00:18:43] quase impossível escapar a impressão de que tudo o que acontece à nossa volta é
[00:18:47] novidade.
[00:18:49] Ao conversarmos com adolescentes, por exemplo, vemos isso de forma clara, eles estão descobrindo
[00:18:55] o mundo e parece que tudo está acontecendo pela primeira vez.
[00:18:59] Agora tentemos nos colocar, no entanto, na perspectiva de uma terceira pessoa observando
[00:19:05] toda a história como se fosse um filme.
[00:19:07] Provavelmente esse filme seria monótono, porque nós veríamos uma série de eventos
[00:19:13] se repetindo em toda época e lugar, o que nós veríamos?
[00:19:18] Novos impérios e sociedades surgem e desaparecem, sempre há guerras em algum canto do planeta,
[00:19:26] os indivíduos nascem, crescem, reproduzem e morrem, há injustiças e sofrimentos por
[00:19:32] toda parte, as pessoas se alegram, se amam, festejam e produzem arte, conflitos e intrigas
[00:19:38] políticas causam escândalos, perseguições, sofrimento e morte, a natureza, impassível
[00:19:45] e indiferente, provoca terremotos, maremotos, furacões, tempestades, erupções de vulcões,
[00:19:52] etc.
[00:19:53] Veja, todos esses eventos, causados tanto pelos seres humanos quanto pelas forças naturais,
[00:19:59] são uma constante em toda época histórica.
[00:20:02] As ações humanas tomam formas diferentes em cada época e lugar, de modo que a maneira
[00:20:08] como os indivíduos interpretam e reagem a tais situações se modifica em cada formação
[00:20:14] social.
[00:20:15] Em seus aspectos mais fundamentais, no entanto, esses eventos são comuns a toda a humanidade.
[00:20:21] É por isso que Karl Marx se perguntou certa vez por qual razão as tragédias gregas
[00:20:27] ainda despertavam prazer estético em nós hoje, considerando que as tragédias gregas
[00:20:33] são produtos de uma sociedade bem diferente da nossa.
[00:20:36] A questão é que amor, ódio, amizade e necessidades sexuais são experiências universais e comuns
[00:20:45] a todas as sociedades, tomando formas ligeiramente diferentes dependendo da cultura, mas permanecendo
[00:20:53] ainda sim experiências humanas universais.
[00:20:57] Nós podemos responder agora a pergunta colocada anteriormente.
[00:21:01] Os filósofos antigos ainda são relevantes hoje porque eles refletiam sobre tais questões
[00:21:07] comuns a todos nós.
[00:21:10] Podemos dizer que as diferenças entre nossas experiências atuais e aquelas vividas pelos
[00:21:15] antigos são mais acidentais do que essenciais, tocando mais na superfície e nas propriedades
[00:21:23] dos eventos do que em seu núcleo definidor.
[00:21:26] Que diferença faz, por exemplo, se uma guerra é travada com espadas e lanças ou com armas
[00:21:32] de fogo e granadas?
[00:21:35] E será que a erupção do monte Vesúvio, o qual deixou a cidade de Pompeia inteira
[00:21:40] sob cinzas, foi um evento tão diferente das grandes catástrofes naturais de nosso
[00:21:46] tempo?
[00:21:47] Imagine as pessoas que perderam amigos e parentes naquela cidade.
[00:21:51] Em que sentido nós poderíamos dizer que sua dor se difere daquela que sentimos hoje
[00:21:56] em situações semelhantes?
[00:21:59] Vejamos também quando Cato, o estoico, tirou sua própria vida em 46 antes de Cristo devido
[00:22:05] à tirania de Júlio César e o fim da República.
[00:22:09] Isso é muito diferente do suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, também por razões políticas.
[00:22:17] E considerando unicamente a experiência individual, qual a diferença entre as prisões políticas
[00:22:23] de Boécio, autor medieval que escreveu a obra Consolação da Filosofia no ano 523
[00:22:30] d.C., qual a diferença entre esse Boécio e Antonio Gramtt, teórico e militante marxista
[00:22:36] preso pela ditadura de Mussolini na Itália.
[00:22:39] Então veja que experiências de exílio, dor, abandono, tristeza e luto são comuns
[00:22:46] a toda época e lugar, de modo que, quando Sócrates, os estoicos e os epicuristas falam
[00:22:52] sobre tais temas, eles nos ensinam sobre experiências humanas universais que, embora possam tomar
[00:22:59] formas diferentes em outras épocas e lugares, permanecem experiências essencialmente humanas.
[00:23:07] Por isso, tais filósofos continuam relevantes hoje e talvez sempre permanecerão.
[00:23:22] Vamos encaminhando então para as nossas considerações finais e o que é que podemos afirmar a guisa
[00:23:28] de conclusão.
[00:23:29] Veja, já fazia bastante tempo que eu queria abordar este assunto.
[00:23:33] Em nossas sessões de prática filosófica, os convidados e convidadas frequentemente
[00:23:39] trazem este tema porque sentem certo conflito e desconforto ao tentar buscar o próprio
[00:23:45] bem-estar em um mundo caótico e injusto.
[00:23:48] É importante não perder de vista, no entanto, que a própria política deve ter como finalidade
[00:23:55] uma vida plena e satisfatória, de modo que a luta por transformação social visa justamente
[00:24:02] estabelecer as bases para que todos tenham condições de buscar uma vida plena.
[00:24:08] Não se trata de resolver problemas sociais apenas por si mesmos, mas sobretudo porque
[00:24:14] sua solução é uma pré-condição para uma vida plena e feliz.
[00:24:19] Aristóteles já nos falava sobre isso.
[00:24:21] Em sua ética anicômico, no livro 1 capítulo 8, ele afirma que a felicidade depende também
[00:24:28] de algumas condições externas porque é impossível, ou pelo menos muito difícil,
[00:24:34] praticar ações nobres sem o equipamento apropriado.
[00:24:38] Aristóteles nos diz que nós precisamos às vezes de amigos, riquezas ou poder político,
[00:24:44] de modo que, de uma perspectiva aristotélica, a pobreza e a miséria limitam nossas possibilidades
[00:24:51] para ações nobres ou para a felicidade.
[00:24:54] Por isso, nós abordamos temas aparentemente tão diversos em nosso podcast.
[00:24:59] Algumas pessoas conheceram nosso trabalho devido a alguma reflexão sobre Karl Marx,
[00:25:04] mas quando se deparam com temas de filosofia antiga, por exemplo, podem pensar que não
[00:25:09] há relação entre os assuntos.
[00:25:12] Outros se inscreveram devido a algum conteúdo psicanalítico, mas quando o próximo assunto
[00:25:17] é uma crítica social, isso pode causar certo estranhamento.
[00:25:21] Mas veja que, no fim das contas, há uma relação entre tudo isso.
[00:25:25] Se considerarmos a atividade política como uma das formas de estabelecer as bases necessárias
[00:25:32] para a eudaimonia grega, nós veremos que o objetivo é sempre o mesmo, vivermos da
[00:25:38] maneira mais satisfatória possível, sem fugas para utopias religiosas ou políticas.
[00:25:45] O próprio Karl Marx também pensava assim.
[00:25:48] O autor e teórico-literário Terry Eagleton afirma em sua obra Por que Marx tinha razão
[00:25:54] que Karl Marx pertencia à grande tradição aristotélica, segundo a qual a moralidade
[00:26:01] diz respeito não a um conjunto de leis, obrigações, códigos e proibições, mas a questão de
[00:26:09] como viver a vida da forma mais livre, plena e satisfatória.
[00:26:14] Em outra passagem, ele também nos lembra que, tanto para Aristóteles quanto para Marx,
[00:26:19] a boa vida consiste em atividades às quais nos dedicamos tendo em vista as atividades
[00:26:26] em si mesmas e não motivos externos ou alheios.
[00:26:29] Nossa breve vida acontece agora, neste período histórico e nessa formação social.
[00:26:36] Enquanto buscamos mudar o que podemos, nós tentamos ao mesmo tempo viver da forma mais
[00:26:42] serena e tranquila possível em um mundo caótico.
[00:26:46] Ainda bem que, para isso, nós podemos contar com apoio de mentes tão brilhantes que também
[00:26:52] se ocuparam deste tema milhares de anos antes de nós.
[00:26:56] E lembrando mais uma vez, inscreva-se em nossos cursos de filosofia, os links estão na descrição
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[00:27:58] Um grande abraço e até o próximo.
[00:28:04] Filosofia para a Vida