#309 prazer de existir juntos | amizade, amor, partilha


Resumo

O episódio #309 do podcast Imposturas Filosóficas, intitulado “prazer de existir juntos | amizade, amor, partilha”, é uma conversa entre os dois Rafaels sobre a natureza do amor e da amizade como experiências fundamentais de partilha. A discussão parte de um texto escrito por Rafael Lauro, que reflete sobre como os momentos mais significativos e belos da vida são, em sua maioria, vividos na companhia de outras pessoas.

Os participantes exploram a ideia do amor como “prazer de existir juntos”, uma definição que abrange desde a intimidade entre amigos até a alegria coletiva de um bloco de carnaval. Eles discutem como a partilha transforma e enriquece a experiência, criando uma “triangulação” onde o mundo ganha mais lastro e sentido quando visto em conjunto. A conversa também aborda a abertura ao desconhecido e o risco inerente aos encontros, contrastando com uma tendência conservadora de se fechar em círculos sociais já estabelecidos.

A escrita é apresentada como uma extensão dessa vontade de partilha. Rafael Lauro descreve seu desejo de que seus textos funcionem como uma “cozinha de domingo” que recebe amigos, um espaço de convivência e diálogo com o leitor. Eles criticam a escrita vaidosa e autocentrada, defendendo uma abordagem mais aberta e comunicativa, que antecipe e acolha a perspectiva do outro.

A discussão também tangencia temas como a linguagem como fenômeno comunitário, a amizade como relação amorosa muitas vezes subvalorizada, e a experiência do término de amizades. Eles refletem sobre como a sociabilidade pode ser um ato de resistência contra forças sociais que buscam isolar e disciplinar os indivíduos. O episódio termina com um convite aos ouvintes para responderem à pergunta central do texto: nos seus momentos mais bonitos, você estava sozinho ou acompanhado?


Indicações

Authors

  • Anne Ernaud — Autora francesa citada por escrever em primeira pessoa sobre a própria vida, mas com a intenção de criar um espaço para que outros se reconheçam em sua experiência, especialmente como uma mulher ‘transfuga de classe’.
  • Naomi Jaffe — Uma das autoras que guiará as exposições na oficina de escrita mencionada no início do episódio. É descrita como uma das pessoas no Brasil com grande experiência em coordenar oficinas de escrita.
  • Rosa Monteiro — Autora do livro ‘A Louca da Casa’, que será usado na oficina de escrita. O livro é descrito como contendo reflexões sobre escrita e sobre viver como escritora.
  • Adriana Caravero — Autora de ‘Olha Minarra-me’, também indicada para a oficina de escrita. O livro é descrito como abordando temas da escrita e da linguagem no campo da filosofia.

Books

  • Ensaios — De Michel de Montaigne. É mencionado como um exemplo de escrita que dialoga diretamente com o leitor, criando um espaço de intimidade e partilha, mesmo sabendo que suas primeiras leitoras eram mulheres que o liam escondidas.
  • Os Irmãos Karamazov — De Fiódor Dostoiévski. Rafael Trindade menciona o desejo de reler esta obra gigantesca e convida os ouvintes a lerem junto, exemplificando o prazer da leitura compartilhada.
  • Orlando — De Virginia Woolf. Rafael Lauro comenta que está terminando de ler o livro, demonstrando mais uma vez o hábito de partilhar leituras e experiências literárias.

Concepts

  • Amor como prazer de existir juntos — Conceito central discutido no episódio, proposto por Rafael Lauro. Define o amor não apenas como um afeto romântico, mas como a alegria coletiva de existir em companhia, abrangendo desde a intimidade a dois até a euforia de uma multidão no carnaval.
  • Triangulação da experiência — Ideia discutida de que a experiência ganha uma nova dimensão (uma ‘superfície’) quando compartilhada. Um evento, duas pessoas percebendo-o, criam um terceiro ponto de vista enriquecido, diferente da experiência solitária.

Linha do Tempo

  • 00:05:42Abertura e anúncio das oficinas de escrita — Rafael apresenta o episódio e faz um anúncio sobre as inscrições para as oficinas de escrita do Razão Inadequada. Ele detalha o formato dos encontros, que envolvem exposição, escrita e partilha, guiados por autoras como Naomi Jaffe, Rosa Monteiro e Adriana Caravero. Rafael Trindade comenta sobre a evolução perceptível de Rafael Lauro como escritor devido à sua dedicação.
  • 00:13:39Discussão sobre o texto e a ânsia de partilha — Os Rafaels começam a discutir o texto escrito por Rafael Lauro. Ele descreve sua “ânsia de partilha”, o impulso de compartilhar experiências significativas (como ouvir um disco) com outras pessoas imediatamente. A conversa gira em torno da pergunta central do texto: “nos momentos mais bonitos, você estava sozinho ou acompanhado?”, explorando a ideia de que a beleza se amplifica quando compartilhada.
  • 00:20:23Sociabilidade como contraconduta e a linguagem comunitária — Os participantes discutem a sociabilidade como uma força natural dos seres humanos, contrastada com estruturas sociais que a inibem (como citado em Foucault). Eles falam sobre a linguagem como fenômeno essencialmente comunitário e dialógico, onde o entendimento depende mais do desejo de se conectar do que de uma linguagem perfeita. A partilha é vista como um ato de resistência à homogeneização capitalista.
  • 00:32:21Amor como prazer de existir juntos e suas dimensões — A conversa se aprofunda na definição de amor como “prazer de existir juntos”. Eles destacam que essa concepção é coletiva, abrangendo desde a intimidade entre duas pessoas até a alegria de uma multidão no carnaval. Discutem como essa experiência de amor pode ser encontrada no banal e no cotidiano, e não apenas em momentos excepcionais, valorizando a amizade como uma forma de amor.
  • 00:38:41Término de amizades e abertura a novos encontros — Rafael Trindade compartilha uma experiência pessoal de término de uma amizade e como isso o levou a rearticular sua rede social, retomando contatos antigos e abrindo espaço para novas pessoas. Eles discutem a importância de encarar os términos de relações com a mesma seriedade das relações amorosas e como essas rupturas podem, apesar da dor, abrir espaço para novas conexões e redes de sociabilidade.
  • 00:52:45A escrita como espaço de convivência e diálogo — Rafael Lauro expõe sua filosofia de escrita, descrevendo o texto ideal como uma “cozinha de domingo” que recebe amigos – um espaço de convivência e partilha com o leitor. Ele critica a escrita vaidosa e autocentrada, defendendo uma escrita que busca o diálogo, que se abre para o outro e que valoriza a comunicação. Eles mencionam autores como Montaigne e Anne Ernaud como exemplos dessa escrita aberta.
  • 01:06:11A partilha como antídoto ao solipsismo e ao desespero — Os participantes discutem como a partilha e a conexão com os outros funcionam como um antídoto para o solipsismo (exemplificado pelo “demônio enganador” de Descartes) e para a sensação de desespero. A presença do outro dá “lastro” à realidade e à beleza do mundo. Eles refletem sobre como momentos aparentemente banais de partilha (como um café conversado) são, na verdade, fundamentais e profundamente valorizados.
  • 01:12:37Reflexões finais e respostas pessoais à pergunta central — Cada Rafael oferece sua resposta pessoal à pergunta do texto. Rafael Lauro afirma sua preferência clara pela experiência compartilhada, enquanto Rafael Trindade se descreve como mais “comedido” e seletivo, embora reconheça a essencialidade das trocas. Eles finalizam discutindo as nuances entre amor romântico e amizade dentro do conceito de “prazer de existir juntos”, e convidam os ouvintes a compartilhar suas próprias respostas.

Dados do Episódio

  • Podcast: Imposturas Filosóficas
  • Autor: Razão Inadequada
  • Categoria: Society & Culture Philosophy Society & Culture Society & Culture Relationships
  • Publicado: 2026-02-27T03:00:00Z
  • Duração: 01:19:54

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Aliás, outra experiência carnavalesca que é ótima

[00:00:04] é quando você não combina com alguém

[00:00:05] aí tá no meio de uma multidão

[00:00:07] e aí você vê lá, mó longe, você vê uma pessoa

[00:00:10] que você gosta e de repente você fica

[00:00:12] eufórico, gritando

[00:00:13] e aí quando

[00:00:16] chega junto é um abraço, assim

[00:00:18] é uma força que vem, assim, que é tipo

[00:00:19] que bom, no meio

[00:00:22] dessa gente toda a gente se encontrou

[00:00:24] O que é essa refeição, que é um texto

[00:00:28] que é pra todo mundo

[00:00:29] ler e saborear

[00:00:32] e falar, puta, olha mano

[00:00:34] esse adverbo

[00:00:36] aqui ficou uma delícia, velho

[00:00:38] perfeito, nossa, juntou com ele

[00:00:40] nossa

[00:00:40] Mas tem pessoas que eu conheci há muito pouco

[00:00:46] tempo, que eu cruzei por acaso

[00:00:48] por internet

[00:00:49] por sei lá o que, e que se tornaram

[00:00:52] fundamentais, então

[00:00:53] porque o que mais me reforça

[00:00:56] a continuar aberto

[00:00:57] é o fato de ter acontecido

[00:00:59] esses encontros

[00:01:01] E aí gente, vocês estão ouvindo

[00:01:16] Imposturas Filosóficas

[00:01:18] podcast do site Razão Inadequada

[00:01:20] meu nome é Rafael

[00:01:21] e eu estou aqui com o meu amigo Rafael

[00:01:24] Oi gente

[00:01:25] Essa é a abertura clássica

[00:01:28] que nem diz o Frank

[00:01:29] Imposturas do Velho Testamento

[00:01:32] Sem mortes

[00:01:34] e sem degolamento

[00:01:35] Só de burguês rico

[00:01:37] Bom, gente

[00:01:39] estamos aqui pra mais um programa

[00:01:41] Antes de começar

[00:01:43] eu queria falar que agora é a hora

[00:01:45] de fazer a inscrição pras oficinas de escrita

[00:01:48] se ainda tiver vaga

[00:01:49] Nesse momento em que eu estou falando, ainda tem vagas

[00:01:52] Na terça-feira à noite

[00:01:53] às 19h, das 19h às 22h

[00:01:56] a gente tem algumas vagas

[00:01:57] Na quarta-feira à tarde, às 15h

[00:01:59] das 15h às 18h

[00:02:00] também temos vagas

[00:02:02] Os links de inscrição, tanto pra terça quanto pra quarta

[00:02:05] vão estar aí na descrição do episódio

[00:02:08] A oficina de escrita é um projeto que começou

[00:02:10] ano passado e foi muito massa

[00:02:12] Como é que ela acontece?

[00:02:13] Eu escolho alguns autores, no caso desse semestre vão ser só

[00:02:16] autoras, só mulheres, que vão guiar

[00:02:18] algumas exposições que eu faço

[00:02:20] na primeira hora de encontro

[00:02:21] Na segunda hora de encontro a gente escreve

[00:02:23] Na terceira hora de encontro a gente partilha

[00:02:26] aquilo que escrevemos e eu reviso

[00:02:28] os textos de todo mundo

[00:02:29] A gente nesse processo cresce bastante, aprende bastante

[00:02:32] incluindo eu mesmo

[00:02:34] Então convido vocês a participarem

[00:02:36] Tem um valor que tem desconto

[00:02:38] pra quem já é assinante do Razão Inadequada

[00:02:40] Então quem for assinante

[00:02:42] vê lá o valor

[00:02:43] que pode ser mais barato, quem não for assinante

[00:02:46] pode virar assinante pra ter esse desconto

[00:02:48] E quem não for assinante pode fazer também

[00:02:50] direto, sem precisar do desconto

[00:02:52] De toda maneira

[00:02:54] eu pensei em um valor acessível, o semestre inteiro

[00:02:56] vão ser 17 encontros

[00:02:58] A gente tem três grandes temas

[00:03:01] A gente vai ler a Naomi Jaffe

[00:03:03] uma das pessoas aqui no Brasil que mais

[00:03:05] coordenou a oficina de escrita, tem uma grande experiência

[00:03:06] com isso, ela escreveu um livro pra ajudar

[00:03:08] nesses processos

[00:03:09] A gente vai ler a Rosa Monteiro, A Louca da Casa

[00:03:13] um livro de reflexões

[00:03:15] sobre escrita também

[00:03:17] sobre viver como escritora

[00:03:18] Eu te dei esse? Você me deu esse

[00:03:20] E um outro que você indicou também que é o

[00:03:22] Olha Minarra-me, da Adriana Caravero

[00:03:25] que também fala

[00:03:27] sobre, aí já mais no campo da filosofia

[00:03:29] pensando alguns temas da escrita

[00:03:30] da linguagem, e aí a gente vai

[00:03:32] seguir esse percurso ao longo

[00:03:35] de 17 encontros

[00:03:36] tem encontros que vão ser

[00:03:38] encontros de entrega de texto, em textos

[00:03:40] conclusivos, textos maiores que a gente tira

[00:03:43] pra ler, pra eu ler o que vocês

[00:03:44] escreveram, e tira o encontro

[00:03:46] inteiro só pra isso, então tem algumas

[00:03:48] coisas legais planejadas pra esse calendário

[00:03:50] e tô bem animado

[00:03:52] pra mais esse semestre

[00:03:54] de escrita com vocês

[00:03:56] Eu queria dar o depoimento

[00:03:59] não de quem

[00:04:00] fez a oficina, porque nessa hora

[00:04:03] eu também tô dando outra coisa

[00:04:04] mas de quem acompanhou

[00:04:06] a evolução do Rafael como um escritor

[00:04:09] e é gritante

[00:04:10] o quanto o Rafael tem

[00:04:13] se debruçado sobre o tema

[00:04:14] da escrita e o quanto isso modifica

[00:04:16] Bom, vocês vão ter um exemplo agora, né

[00:04:18] o texto de hoje, foi escrito pelo

[00:04:20] Rafael Lauro, e é

[00:04:22] muito nítida

[00:04:24] o quanto a dedicação

[00:04:26] à escrita faz uma diferença

[00:04:28] enorme, então o meu depoimento

[00:04:30] é de quem escreve, pra ele

[00:04:32] revisar, e de quem revisa o que ele

[00:04:34] escreveu, e é muito

[00:04:36] muito prazeroso isso

[00:04:38] Massa, então fica esse recado

[00:04:41] os encontros começam

[00:04:42] dia 3 e 4 de março, então esse

[00:04:44] aviso desse programa é bem pra quem tá

[00:04:46] ouvindo ele nos primeiros dias que ele acabou de sair

[00:04:48] vai começar, então se você

[00:04:50] tem dúvidas, se você quer fazer, já

[00:04:52] entra lá e faz a inscrição

[00:04:54] se não tiverem mais vagas, deixa

[00:04:56] o nome na fila de espera, porque

[00:04:58] mês que vem pode surgir vaga, tá, as vagas

[00:05:00] vão, eu, pessoas vão entrando e saindo

[00:05:02] ao longo do semestre inteiro, e essa lista de

[00:05:04] espera pode ser a chance de você daqui a pouquinho

[00:05:06] tá com a gente fazendo esse, essas

[00:05:08] oficinas, tá bom? E, bom, é isso

[00:05:10] dito isso, vocês já sabem, né

[00:05:12] o Razão Adequada é sustentado por assinantes

[00:05:14] diversos benefícios você ganha

[00:05:17] em apoiar o nosso trabalho, por exemplo

[00:05:18] acabamos de falar, desconto nas oficinas

[00:05:20] desconto nos outros projetos, como

[00:05:22] seminários, que ainda vamos anunciar com mais

[00:05:24] calma, acesso ao grupo de estudos

[00:05:26] participação no grupo do WhatsApp

[00:05:28] e outros benefícios que

[00:05:30] vocês podem saber todos, conhecendo também

[00:05:32] entrando lá no site

[00:05:33] razoanadequada.com.br assine, certo?

[00:05:37] É isso, acho que

[00:05:38] bota partilhar esse texto agora, então

[00:05:41] Bora, vamos que vamos

[00:05:42] Você também viu?

[00:05:53] A beleza

[00:05:54] me toma num ímpeto de

[00:05:56] artilha

[00:05:57] reparo na orquídea dependurada pelo caminho

[00:06:00] e preciso comentar de seus lábios

[00:06:02] exóticos com alguém

[00:06:04] me surpreendo com o contracanto

[00:06:06] de uma canção e quero repetir

[00:06:08] a melodia no outro ouvido

[00:06:10] escolho o mesmo prato que os amigos

[00:06:12] num restaurante, para saboreá-lo

[00:06:14] com comentários

[00:06:15] o belo me faz olhar ao redor

[00:06:19] em busca de alguém que também o tenha visto

[00:06:21] e a graça depende

[00:06:22] desse encontro de olhares

[00:06:24] comigo acontece assim

[00:06:26] mas sei que não sou o único

[00:06:28] o testemunho dos outros

[00:06:30] é uma maneira pela qual nós afirmamos

[00:06:32] a beleza

[00:06:33] no entanto, não sei se as outras pessoas

[00:06:36] o consideram tão fundamental quanto eu

[00:06:38] por isso, tenho andado

[00:06:40] por aí a perguntar

[00:06:42] nos momentos mais bonitos

[00:06:43] você estava sozinho ou acompanhado?

[00:06:48] de meu lado

[00:06:50] não hesito na resposta

[00:06:51] o que eu vivo junto das pessoas

[00:06:54] é quase sempre mais bonito

[00:06:56] tenho até dificuldade de justificar

[00:06:58] esse quase, são poucas as exceções

[00:07:01] mesmo quando estou só

[00:07:03] muito da beleza

[00:07:05] me vem na lembrança

[00:07:06] do que vivi com os outros

[00:07:07] embora minha preferência pela partilha

[00:07:10] esteja sempre na ponta da língua

[00:07:12] as respostas que recebo variam

[00:07:14] muitas vezes retornam

[00:07:17] como assim?

[00:07:19] eu também não sei ao certo

[00:07:20] o que eu quero dizer com bonito

[00:07:21] significativo, importante

[00:07:24] memorável, talvez

[00:07:26] sei também que essa pergunta

[00:07:28] carrega a injustiça de comparar experiências diferentes

[00:07:31] a despeito disso

[00:07:33] acredito que ela começa um bom assunto

[00:07:35] é um dos casos em que a resposta

[00:07:37] importa menos do que a pergunta

[00:07:39] dispor a qualidade da experiência

[00:07:41] em um espectro de sociabilidade

[00:07:43] é só uma desculpa

[00:07:45] pra falar de amor

[00:07:47] quantas definições diferentes pra um só nome

[00:07:51] amor

[00:07:53] há toda uma história de ideias em choque nessa palavra

[00:07:56] segue uma lista muito breve

[00:07:58] vontade de fazer bem a alguém

[00:08:01] alegria acompanhada da ideia de causa

[00:08:04] complacência diante da utilidade de um outro

[00:08:07] invenção literária

[00:08:09] cuidado necessário à reprodução da espécie

[00:08:13] afeição que singulariza e distingue uma pessoa de outra

[00:08:18] algo que só se entende como verbo

[00:08:20] amizade a que se somam particularidades

[00:08:24] alegria mútua

[00:08:26] em vez de buscar uma definição única para o amor

[00:08:30] tenho carregado uma lista de ideias plausíveis

[00:08:33] para uma experiência tão diversa

[00:08:35] tenho necessidade de muitos conceitos à mão

[00:08:38] a partir da pergunta sobre a beleza partilhada

[00:08:44] tenho conversado sobre o amor como

[00:08:46] o prazer de existir juntos

[00:08:49] me agrada a dimensão coletiva que o sentimento toma nessa ideia

[00:08:53] ela contempla tanto a alegria que compartilhar

[00:08:56] na intimidade quanto a que experimentamos em um bloco de carnaval

[00:09:00] o amor, não custa lembrar, é mais do que um afeto que nos toma a dois por vez

[00:09:06] às vezes ele dá as caras quando rimos todos juntos

[00:09:10] há quem se incomode com o uso da palavra amor para experiências banais

[00:09:14] eu, porém, prefiro identificar o amor no banal

[00:09:18] do que esperar a exceção para então nomeá-lo

[00:09:21] além disso, aflorada a sensibilidade, a minha noção

[00:09:22] não me dá mais oportunidade para разir.

[00:09:23] há quem se incomode com o uso da palavra amor para experiências banais

[00:09:24] eu, porém, prefiro identificar o amor no banal do que esperar a exceção para então nomeá-la

[00:09:24] além disso, aflorada a sensibilidade

[00:09:26] O que é exatamente banal?

[00:09:29] Às vezes sou surpreendido, no meio de um dia qualquer, pelo mistério de existir.

[00:09:35] É muito estranho estar aqui, vivo.

[00:09:38] A tristeza faz dessa estranheza um amargor, que geralmente me acontece na solidão.

[00:09:44] Tenho, é claro, alegrias genuínas quando estou sozinho e tristezas inevitáveis quando estou acompanhado.

[00:09:51] Mas é difícil para mim achá-las melhores do que seus contrários.

[00:09:55] Seja como for, cada vez mais identifico o amor quando ele desponta na superfície

[00:10:01] como um pensamento do tipo, que bom que você está aqui.

[00:10:06] Para mim, como mistério, o existir é muito mais bonito junto dos outros.

[00:10:13] Talvez meu gosto pela leitura e escrita tenha essa preferência como raiz.

[00:10:18] Quando me encanto por um livro, me torno cúmplice do autor em sua experiência.

[00:10:23] Alguns dos meus amigos moram dentro.

[00:10:25] Já outros eu nem conheço, mas sei que dividem agora essas letras comigo.

[00:10:31] Quando me arrisco em um texto, o faço à espera de companhia.

[00:10:36] Desejo nas palavras um espaço para convivência.

[00:10:40] Quero que meus textos sejam como uma cozinha que recebe amigos aos domingos.

[00:10:44] Enquanto leio, quero conversar com quem me escreve.

[00:10:47] Enquanto escrevo, quero ouvir quem me lê, ainda que isso pareça impossível.

[00:10:53] Acima de tudo, eu não quero que o livro me deixe em uma casa de um homem.

[00:10:55] Quero o fardo de olhar para as coisas sozinho.

[00:11:00] Olhar juntos inventa uma dimensão de que necessito.

[00:11:04] Compartilhada, a experiência se multiplica em outro ângulo e se dispõe numa superfície.

[00:11:10] Percebo como um filme, uma exposição, uma peça mudam a depender da companhia.

[00:11:15] A experiência triangula.

[00:11:18] Muitas vezes me pego a gostar mais de ouvir alguém falar sobre a coisa do que da própria coisa.

[00:11:25] Por isso, quando estou bem acompanhado, sou pouco seletivo com os planos.

[00:11:29] Qualquer paixão me diverte, como dizem.

[00:11:32] Entre amigos, um fiasco já se transformou tantas vezes em boa história

[00:11:36] que eu deixei de me preocupar tanto com o quê e passei a pensar muito mais no com quem.

[00:11:42] A troca de referências é uma linguagem amorosa.

[00:11:46] Não subestimo o ato de amor de alguém que me indica o disco que anda a lhe acompanhar no chuveiro,

[00:11:51] que fala de tal livro que lhe trouxe novas lentes.

[00:11:55] Que me conta de outra pessoa querida que eu preciso conhecer.

[00:11:59] Afinal, eu faço o mesmo.

[00:12:02] Tudo o que me acontece de importante eu quero e preciso contar para as pessoas que amo.

[00:12:08] Esse é, aliás, um dos jeitos pelo qual eu digo te amo.

[00:12:12] E claro, é inevitável, muitos desses acontecimentos são tristes.

[00:12:17] Mas de tristeza bonita, o poeta gosta.

[00:12:19] E é na prosa com os outros que eu me torno poeta.

[00:12:23] No entanto…

[00:12:25] Esse amor não se expressa apenas com palavras.

[00:12:28] Ora, é de existir juntos que se trata.

[00:12:31] E nós somos capazes de inventar um universo numa mera troca de olhares.

[00:12:35] A sensibilidade é coisa que se partilha.

[00:12:39] O arrepio que começa no braço de um abre caminho pelo braço do outro.

[00:12:44] É esse atravessamento que hoje estou chamando de amor.

[00:12:47] Às vezes ele é feito de uma partilha.

[00:12:49] Que descobre na voz, na pele, no olhar de outra pessoa…

[00:12:55] Mesmo de que se quer falar.

[00:12:57] Então começa o grassejo de um assunto que inventa o seu próprio chão.

[00:13:02] É uma situação de beleza em curto circuito.

[00:13:05] Falar do bonito que acontece entre nós.

[00:13:23] É isso!

[00:13:24] Texto…

[00:13:24] Muito bonito.

[00:13:26] Meu nome é Rafael.

[00:13:27] Estou aqui com o meu amigo Rafael.

[00:13:29] Com quem partilhei muitas coisas legais ao longo dessa vida.

[00:13:33] Opa!

[00:13:34] Vamos partilhar mais esse momento agora.

[00:13:37] Falar sobre esse texto.

[00:13:39] É…

[00:13:39] Você está virando um…

[00:13:42] Um expert no partilhamento de alegrias, né?

[00:13:46] Tem sido…

[00:13:46] Tem sido…

[00:13:47] Você está treinando para as Olimpíadas, né?

[00:13:49] Está indo bem.

[00:13:50] Como é que está sendo esse processo?

[00:13:52] Eu estou…

[00:13:53] Eu acho que estava falando isso mais cedo.

[00:13:54] Enquanto a gente almoçava e falava da vida, com os microfones desligados.

[00:14:00] E a gente estava relembrando, né?

[00:14:02] Minhas próprias mudanças ao longo da vida.

[00:14:05] A gente, inclusive, acompanhou uma vida do outro.

[00:14:08] Sei lá, 80% da vida do outro.

[00:14:10] Nossa, em grande medida.

[00:14:11] A gente sabe quase todos os fatos relevantes um da vida do outro.

[00:14:16] Pouca coisa passou.

[00:14:18] Sem a partilha, né?

[00:14:19] Pouca coisa.

[00:14:20] Não contamos um para o outro.

[00:14:22] E a gente estava pensando como isso mudou em mim, né?

[00:14:24] Eu acho que…

[00:14:24] Eu acho que…

[00:14:24] Esse texto do Rafael de hoje não seria escrito pelo Rafael de 20 anos atrás.

[00:14:32] Pelo Rafael adolescente, acho que até, enfim.

[00:14:35] Então, tem uma mudança mesmo.

[00:14:37] E tem a ver com tomar consciência mesmo.

[00:14:39] Tem a ver com perceber isso em mim.

[00:14:42] E eu tenho percebido isso nas pequenas coisas, assim.

[00:14:47] Na ânsia que eu tenho, às vezes, de partilha.

[00:14:51] O texto começa assim, né?

[00:14:52] Já é…

[00:14:53] É…

[00:14:54] A ânsia de partilha quando eu tomo contato com alguma coisa que é relevante, significativa pra mim.

[00:15:00] Então, se eu ouço um CD, um disco.

[00:15:02] Eu ponho lá, um dia, ah, o que eu vou ouvir hoje e tal?

[00:15:04] Vou correr.

[00:15:05] O que eu vou ouvir hoje?

[00:15:06] Uhum.

[00:15:07] O meu…

[00:15:08] O meu…

[00:15:09] Se eu, né?

[00:15:10] Tipo, oh, vou lavar uma louça aqui.

[00:15:11] De repente eu paro, porque o CD tá muito bom.

[00:15:14] Às vezes acontece, né?

[00:15:15] Você põe o CD pra lavar a louça e fala, não, tá muito bom.

[00:15:16] Não posso mais…

[00:15:17] Não vou conseguir fazer isso.

[00:15:18] Esse aqui eu vou ter que parar pra ouvir.

[00:15:19] Deixa pra daqui a pouco.

[00:15:20] Acontece.

[00:15:20] Aí você senta, ouve e fala, nossa, isso é muito bom.

[00:15:23] E aí, o próximo movimento…

[00:15:25] É claro, esse momento já é um momento bonito sozinho, certo?

[00:15:28] Mas parece que ele não se…

[00:15:29] Não se converte em tudo que pode.

[00:15:32] Ele não chega…

[00:15:34] O próximo momento…

[00:15:36] E assim, me acontece de uma forma muito natural.

[00:15:38] É eu pensar, com quem que isso me lembra?

[00:15:40] Quem que me lembrou enquanto eu ouvia?

[00:15:41] Quem que pode gostar disso?

[00:15:42] E aí, eu já tô mandando.

[00:15:43] Eu já tô falando, não, ouve esse disco.

[00:15:44] Me fala quando você ouvir.

[00:15:45] Me conta, por favor.

[00:15:46] E às vezes eu vou lá e cobro a pessoa.

[00:15:48] Quando eu mando, eu falo, e aí?

[00:15:49] Você ouviu o disco lá?

[00:15:51] O que você achou?

[00:15:52] E assim acontece em pequenas coisas.

[00:15:55] Desde, às vezes, uma mensagem de texto.

[00:15:57] Porque eu vi algum cartaz na rua que tava escrito uma coisa engraçada.

[00:16:01] E assim, eu vejo isso em mim agora acontecendo com muita frequência.

[00:16:04] Então, eu concordo com você que é meio que uma Olimpíadas, assim.

[00:16:08] De perceber isso acontecendo, gostar disso acontecendo.

[00:16:12] E buscar mais isso.

[00:16:13] Intensificar esse processo que é o de partilhar.

[00:16:18] O de sempre buscar um outro pra poder…

[00:16:20] Dar risada junto, pra poder gostar de uma coisa junto, né?

[00:16:24] E, claro, também tem as tristezas.

[00:16:25] Mas aí, eu acho que é outro…

[00:16:26] Esse texto é mais sobre beleza, sobre…

[00:16:28] É, é.

[00:16:29] A pergunta de provocação do texto é muito boa, né?

[00:16:32] Aham.

[00:16:32] Esses instantes imensos, esses momentos de alegria.

[00:16:35] Você tava sozinho ou você tava acompanhado?

[00:16:38] Sim.

[00:16:38] E essa pergunta é pra quem tá ouvindo a gente.

[00:16:41] E eu não vou me eximir de responder.

[00:16:43] Eu só acho que eu não consigo responder agora.

[00:16:45] Eu tô pensando nessa questão.

[00:16:47] Eu acho uma questão extremamente importante.

[00:16:49] Acho que até o final do episódio eu consigo resolver.

[00:16:52] Boa.

[00:16:53] No seu caso, a maioria das vezes é acompanhado.

[00:16:56] Ou se fazendo acompanhar.

[00:16:59] Porque no momento que você sentiu essa beleza da música, por exemplo,

[00:17:02] já é o momento que você já compartilha com alguém.

[00:17:05] Isso já extrapola.

[00:17:07] Sim.

[00:17:08] E aí, eu faço a pergunta porque não é um exercício vaidoso, retórico.

[00:17:14] É real.

[00:17:14] Eu não sei mesmo.

[00:17:15] É tipo, o quanto isso é meu?

[00:17:17] Ou o quanto isso é uma necessidade…

[00:17:19] Mais, né, mais frequente nas pessoas?

[00:17:22] Eu não sei.

[00:17:22] Então, de fato, eu tenho feito essa pergunta pras pessoas.

[00:17:26] Que é uma boa desculpa também pra falar de como…

[00:17:27] Pra puxar assunto.

[00:17:28] É, pra puxar assunto.

[00:17:29] Uma desculpa pra entender como é que as pessoas pensam o amor, né?

[00:17:32] O amor no sentido mais amplo possível.

[00:17:34] Não no sentido romântico.

[00:17:36] No sentido de quanto é importante pra você estar em relação com pessoas.

[00:17:40] É.

[00:17:40] É, é.

[00:17:41] É, dá pra…

[00:17:42] Essa é uma tradução possível da pergunta.

[00:17:44] Não é isso que eu tô perguntando.

[00:17:45] A princípio, tô entrando nesse assunto por essa via.

[00:17:49] E eu acho que é uma resposta difícil.

[00:17:51] Como você tem ouvido muito não sei, muito não entendi, muito…

[00:17:56] Ah, não…

[00:17:57] As duas coisas, né?

[00:17:59] Tipo, ah, meio a meio, né?

[00:18:00] Respostas que vão muito por esse caminho, porque se torna…

[00:18:04] E aí, eu acho que o bom de uma pergunta boa é isso, né?

[00:18:08] Se torna uma necessidade de elaboração.

[00:18:11] Não ter uma resposta tão rápida é algo…

[00:18:14] É o que eu tô sentindo.

[00:18:15] É algo importante.

[00:18:16] Eu queria trazer dois pontos.

[00:18:18] Eu quero muito falar…

[00:18:19] De…

[00:18:20] Dessa passagem pro amor e pra leitura.

[00:18:23] Mas antes, eu queria insistir em dois pontos que eu acho que são importantes.

[00:18:27] Pra gente entender essa questão da partilha.

[00:18:29] Que é, primeiro…

[00:18:31] Assim, biologia, assim.

[00:18:33] Somos seres sociais.

[00:18:35] Sim.

[00:18:35] Então, né?

[00:18:36] Quando a gente desceu da árvore, né?

[00:18:38] Com o polegar opositor e começou a andar pela savana.

[00:18:41] A gente já era seres sociais há milhões de anos.

[00:18:44] Então, somos seres sociais.

[00:18:46] E aí…

[00:18:47] Ah…

[00:18:48] Sendo muito rápido, mas pra trazer isso como algo importante.

[00:18:52] A linguagem tá diretamente relacionada com isso, né?

[00:18:55] Pra você caçar, pra você se proteger do inverno.

[00:18:59] Pra você plantar, pra você…

[00:19:01] Tudo isso exige partilha.

[00:19:03] Exige linguagem.

[00:19:05] Então, né?

[00:19:06] Que que a gente vai caçar?

[00:19:07] Onde a gente vai?

[00:19:08] Que fruta que tá dando nesse momento?

[00:19:10] Então, essa é a primeira questão que eu queria dizer, que é…

[00:19:13] Talvez, naturalmente, a gente já seja inclinado…

[00:19:17] Inclinado pra esse lugar.

[00:19:19] Só que eu acho que tem uma outra força que apareceu recentemente.

[00:19:23] E aí, Foucault explica isso muito bem no Vigiar e Punir.

[00:19:26] Que é uma vigilância e uma punição constante em cima dos indivíduos que se relacionam.

[00:19:35] Existe uma instância superior que vigia e que pune, dizendo…

[00:19:40] Parem de conversar.

[00:19:41] Porque vocês estão atrapalhando a linha de produção.

[00:19:44] É pra todo mundo ficar quietinho, ouvir o professor falar.

[00:19:47] É pra cada preso ficar na sua cela.

[00:19:50] Pra não ter nenhum risco de ter um problema.

[00:19:53] Então, eu diria que existe uma força muito grande no movimento de socialização.

[00:19:57] Mas existe uma força muito grande impedindo essa socialização.

[00:20:01] Cara, a gente…

[00:20:02] Nós dois, né?

[00:20:03] Não sei quem tá ouvindo a gente.

[00:20:04] A gente mora em São Paulo.

[00:20:06] A gente é acostumado a ter medo das pessoas.

[00:20:09] A gente é acostumado a andar na rua.

[00:20:11] E se alguém te oferece alguma coisa, tenha medo.

[00:20:14] Não aceite.

[00:20:15] Sai correndo.

[00:20:16] O cara é perigoso.

[00:20:17] Não faça isso.

[00:20:18] Então, eu acho que são duas coisas que estão relacionadas com esse assunto que a gente tá trazendo.

[00:20:23] Que com certeza influenciaram na resposta que eu vou dar hoje.

[00:20:29] De…

[00:20:30] Será que é isso mesmo?

[00:20:31] Será que não é isso?

[00:20:32] Eu tenho certeza que essas variáveis fazem parte.

[00:20:34] Total.

[00:20:35] É…

[00:20:36] A primeira delas…

[00:20:37] Eu gosto muito da ideia de comunidade verbal, né?

[00:20:39] A linguagem…

[00:20:40] A gente tem a ideia de que ela é individual.

[00:20:42] É impossível.

[00:20:43] Não existe linguagem individual.

[00:20:44] É impossível.

[00:20:45] A linguagem é sempre comunitária.

[00:20:48] E você só entende alguma coisa porque você entende junto de alguém.

[00:20:53] Por isso que precisa de tanta DR, né?

[00:20:54] Relações que…

[00:20:55] De muita proximidade.

[00:20:56] E não só relações amorosas.

[00:20:58] Relações de amizade também.

[00:20:59] Por que que precisa de tanta DR?

[00:21:00] Por que que a gente…

[00:21:01] Porque a gente precisa entender o que é que a gente tá querendo dizer juntos.

[00:21:05] É…

[00:21:06] Não existe.

[00:21:07] Você pode tomar todo cuidado com as palavras e escrever o melhor texto da sua vida.

[00:21:12] Talvez o outro que tá do outro lado não vai entender.

[00:21:14] Se você não tiver o esforço de…

[00:21:15] Primeiro, abrir um espaço dentro das próprias palavras que você usa pra acolher aquilo

[00:21:16] que o outro coloca nelas.

[00:21:17] Porque dentro de cada palavra, e nesse texto tem isso também, né?

[00:21:18] Tem uma guerrinha acontecendo.

[00:21:19] Em palavras como amizade, como amor, como sei lá, Deus, como…

[00:21:20] Nossa, tem palavras que tem cruzadas acontecendo há séculos.

[00:21:21] Literalmente.

[00:21:22] Então, quando a gente entra em diálogo, a gente tá participando de uma…

[00:21:23] De uma comunidade verbal.

[00:21:24] E a gente…

[00:21:25] E a gente…

[00:21:26] E a gente…

[00:21:27] E a gente…

[00:21:28] E a gente…

[00:21:29] E a gente…

[00:21:30] E a gente…

[00:21:31] E a gente…

[00:21:32] E a gente…

[00:21:33] E a gente…

[00:21:34] E a gente…

[00:21:35] E a gente…

[00:21:36] E a gente…

[00:21:37] E a gente…

[00:21:38] E a gente…

[00:21:39] E a gente…

[00:21:40] Literalmente.

[00:21:41] Então, quando a gente entra em diálogo, a gente tá participando de uma…

[00:21:42] De uma comunidade verbal.

[00:21:43] E a gente entende quais são as posições convencionais de uma palavra.

[00:21:46] Ah, isso aqui costuma dizer isso, mas com isso eu estou querendo dizer outra coisa.

[00:21:50] O quê que você quer entender com isso?

[00:21:52] E assim a gente vai se encontrando, né?

[00:21:54] Por isso que eu acho que linguagem nenhuma também dá conta de conflito.

[00:21:59] Geralmente, o que faz as pessoas se entenderem é o desejo, não é a linguagem.

[00:22:02] A linguagem, ela é…

[00:22:03] Ela aparece como…

[00:22:04] Uma…

[00:22:05] Uma…

[00:22:06] ela favorece essa conexão

[00:22:08] mas a gente se entende

[00:22:11] quando a gente quer ter esse contato

[00:22:13] a gente quer colocar em contato as nossas

[00:22:15] ideias com o outro a partir da linguagem

[00:22:16] não tem linguagem perfeita que vai fazer

[00:22:19] duas pessoas que não queiram se entender

[00:22:21] quando as pessoas não querem se entender

[00:22:22] elas não vão se entender, não importa

[00:22:25] tem uma vontade

[00:22:26] inicial que é o

[00:22:28] deixa eu entender o que você está dizendo

[00:22:30] deixa eu entender o que eu estou dizendo e vamos ver

[00:22:32] como é que a gente consegue

[00:22:34] participar desse espaço que é nosso

[00:22:36] que não é um espaço

[00:22:37] tanto que é engraçado que tem essa ideia

[00:22:40] de uma língua universal

[00:22:42] que nunca vai acontecer

[00:22:44] mas aí quando o gringo está ali querendo

[00:22:46] sei lá, comprar uma água de coco

[00:22:48] todo mundo se entende

[00:22:50] por quê? porque tem o desejo

[00:22:52] ali de algo acontecer

[00:22:53] aí a língua vai a reboque

[00:22:57] ela chega lá

[00:22:57] e eu acho que aí chega nesse segundo ponto que você trouxe

[00:23:00] que é importante, que é existe uma

[00:23:02] tentativa de linguagem universal

[00:23:04] pelo capital, que é isso

[00:23:06] a gente tenta traduzir tudo pra número

[00:23:08] tudo pra valor

[00:23:09] e aí todo mundo se entende

[00:23:10] tá bom, se entende nada

[00:23:12] se entende só quando isso

[00:23:14] funciona de forma que os privilégios

[00:23:17] sigam incontestados

[00:23:18] então é uma

[00:23:20] tristeza e aí eu concordo com você

[00:23:23] eu acho que no mundo que a gente vive

[00:23:25] uma sociabilidade

[00:23:27] a valorização da sociabilidade

[00:23:29] é uma contraconduta

[00:23:30] se a gente for ficar em Foucault

[00:23:32] total, total

[00:23:33] total

[00:23:34] , se a gente tem uma

[00:23:35] estrutura disciplinar

[00:23:38] que faz com

[00:23:40] que valoriza

[00:23:42] o que as pessoas permaneçam no lugar

[00:23:44] que foi determinado pra elas

[00:23:45] em todos os tipos de normatividade possível

[00:23:48] seja de gênero

[00:23:50] seja de sexualidade, seja

[00:23:51] de classe, seja

[00:23:53] o que for, quando a gente mistura

[00:23:56] sociabilidade é sobre mistura

[00:23:58] é sobre estar na rua e falar com pessoas que você

[00:24:00] não conhece, é sobre estar

[00:24:01] o carnaval veio pra dizer isso

[00:24:04] é né, estamos aí com a experiência fresca na cabeça

[00:24:06] é, já ansiosos pro próximo

[00:24:08] e aí, né, tipo

[00:24:10] esse tipo de experiência, se ela é valorizada

[00:24:13] e buscada, ela se torna uma

[00:24:14] contraconduta mesmo, ela se torna

[00:24:16] alguma coisa que vai contra os imperativos

[00:24:18] do nosso tempo, e aí eu acho que

[00:24:21] é mais um motivo pelo qual

[00:24:23] eu me interesso

[00:24:24] e percebo como positivo

[00:24:26] essa vontade que eu tenho

[00:24:27] de, mesmo quando eu não conheço alguém

[00:24:30] né, às vezes eu tô

[00:24:31] mas acontece alguma coisa engraçada no meio da rua

[00:24:33] e eu comento com a pessoa que tá sentada do meu lado

[00:24:35] no ônibus, sabe, eu tenho buscado

[00:24:37] fazer isso com mais frequência do que

[00:24:39] eu fiz, acho que na vida inteira

[00:24:41] eu tenho sentido esse ímpeto e tenho feito isso

[00:24:43] mesmo com desconhecidos

[00:24:45] me vê um caminho aqui

[00:24:47] que é o seguinte, então tá, então

[00:24:49] acontece alguma coisa na rua

[00:24:51] você tá no carnaval e vem

[00:24:53] o cara vestido

[00:24:55] de batman

[00:24:57] sei lá o que, e aí você comenta

[00:24:59] com alguém, eu tô pensando

[00:25:01] que a nossa sociedade

[00:25:03] ela faz um esforço

[00:25:06] de homogeneização

[00:25:08] de tentar deixar tudo igual

[00:25:10] ou que todas as novidades só sejam novidades

[00:25:12] num nível do capitalismo

[00:25:14] assim, né, olha o novo iphone, compra logo

[00:25:16] e parece

[00:25:18] que a gente tá trazendo algo aqui que é

[00:25:20] existe uma partilha

[00:25:22] do belo, o belo

[00:25:24] como aquilo que me chama atenção

[00:25:26] né, então olha esse filme, olha essa música

[00:25:28] olha aquele cara

[00:25:29] olha isso acontecendo

[00:25:31] quando a gente partilha

[00:25:33] isso, ela é uma partilha pelo

[00:25:35] na novidade, não é isso que eu quero dizer

[00:25:38] mas é tipo, algo me chama atenção

[00:25:39] me parece que tem

[00:25:41] uma tentativa de

[00:25:43] de uma fuga, de uma

[00:25:45] de uma monotonia

[00:25:47] sabe, é tipo, não, eu quero

[00:25:49] deixa eu ver a peça nova que saiu

[00:25:51] e deixa eu falar com aquela pessoa porque

[00:25:53] aquela pessoa, ela tem umas opiniões

[00:25:56] da hora, ela manja de teatro

[00:25:57] então vai ser da hora eu comentar isso com ela

[00:25:59] me parece que tem um movimento

[00:26:01] que é um movimento de uma

[00:26:03] de

[00:26:03] meio que sair do banal assim

[00:26:05] e aí

[00:26:06] vai vir um pouco do meu pessimismo nesse episódio

[00:26:09] em alguns momentos que é

[00:26:10] as pessoas são muito banais, muitas vezes

[00:26:13] as pessoas são banais assim

[00:26:15] pode ser um preconceito meu se a gente olhar direito

[00:26:17] e tal, não sei o que lá, mas é tipo

[00:26:19] a gente tá fazendo esse esforço

[00:26:21] de sair da monotonia

[00:26:24] do banal, do chato

[00:26:25] do senso comum, né, da estupidez

[00:26:27] muitas vezes

[00:26:28] nesse texto tem um pouco esse

[00:26:31] questionamento que é o que é exatamente

[00:26:33] banal quando a gente tá

[00:26:35] atento, né

[00:26:37] aflorar da sensibilidade

[00:26:39] quando você tá mais aberto, quando você

[00:26:41] tá mais disposto em relação ao mundo

[00:26:43] quando você entra em contato com as coisas

[00:26:45] nada é exatamente

[00:26:47] banal, né, porque a repetição

[00:26:50] é uma coisa que a gente inventa

[00:26:52] nada, a gente, claro

[00:26:54] as coisas se repetem porque a gente

[00:26:55] interpreta a repetição, né

[00:26:57] porque a gente fabrica uma repetição

[00:26:59] nas coisas, mas

[00:27:01] é tudo diferente

[00:27:03] o tempo inteiro, assim, né

[00:27:05] eu sempre dou esse mesmo exemplo, né

[00:27:07] mas certamente tem coisas perto

[00:27:09] de você que você nunca olhou

[00:27:11] né, tem

[00:27:12] ao menos não olhou de determinada maneira

[00:27:15] ou ao menos, certamente

[00:27:17] tem coisas, sem você sair do lugar

[00:27:19] onde você tá, que você

[00:27:21] não só nunca olhou, como você nunca experimentou

[00:27:23] com, sei lá, você nunca

[00:27:25] pegou

[00:27:27] a sua carteira

[00:27:29] e tirou tudo que tem dentro

[00:27:31] dela e olhou todas essas coisas e olhou

[00:27:33] o numerozinho e viu qual é aquela nota

[00:27:35] fiscal que tá parada lá há mil anos

[00:27:37] aonde foi e tentou lembrar que dia

[00:27:39] foi aquele, tipo, existe um tipo

[00:27:41] de implicação com o real

[00:27:43] com o que acontece, que

[00:27:45] tem como germe uma diferença

[00:27:47] brutal, assim

[00:27:49] uma coisa, e aí, eu sei que essa

[00:27:51] disposição, ela não é

[00:27:53] frequente na gente, a gente, tipo

[00:27:55] tá tendo que trabalhar, a gente tem

[00:27:57] que lidar com um milhão de problemas

[00:27:59] a gente precisa da repetição pra se

[00:28:01] organizar, a gente

[00:28:03] não tem tempo e tal, eu entendo

[00:28:05] tudo isso, mas aflorada essa

[00:28:07] sensibilidade, nada é exatamente banal

[00:28:09] né, então eu, a minha provocação

[00:28:11] em contrário é

[00:28:13] isso, né, em resposta é um pouco isso

[00:28:15] assim, né, o quanto a gente tá desperto

[00:28:17] pro preço belo que está

[00:28:19] no banal também, né

[00:28:21] mais do que o banal então, eu vou dizer

[00:28:23] assim, tem gente que é chata

[00:28:25] você manda

[00:28:27] a foto, o poema

[00:28:29] a música pra uma pessoa

[00:28:31] que, porque esse

[00:28:33] algo te afetou, o que a gente tá falando

[00:28:35] acho que é esse movimento, né, algo te afetou

[00:28:37] e algo te afetou de um jeito

[00:28:39] que te arrepiou, você gostou daquilo

[00:28:41] aquilo faz sentido pra você

[00:28:43] isso não é, né, como é

[00:28:45] que é aquela metáfora

[00:28:47] da bíblia, né, você não joga pérola aos

[00:28:49] porcos, né, você não sai distribuindo

[00:28:51] isso à torto e à direito

[00:28:53] até, mesmo quando você põe no Instagram, né

[00:28:55] quando a gente compartilha alguma coisa no Instagram

[00:28:57] você sabe que

[00:28:59] já tem umas três ou quatro pessoas que você

[00:29:01] queria que essa mensagem chegasse

[00:29:03] às vezes você se surpreende, é legal

[00:29:05] mas tem gente que é chata

[00:29:08] e aí eu acho que tem esse movimento

[00:29:09] de, tem essa, a gente

[00:29:11] parece que a gente tá construindo uma rede

[00:29:13] então, é isso? A gente constrói uma rede

[00:29:15] né, e essa rede se constrói às vezes

[00:29:17] também contornando

[00:29:19] certas pessoas

[00:29:21] e certos lugares onde parece que

[00:29:23] não tá vindo muita coisa

[00:29:25] dali, né

[00:29:27] tem gente que é chata, sem dúvida nenhuma

[00:29:29] aí eu não vou, meu otimismo

[00:29:32] não vai tão longe assim

[00:29:33] mas

[00:29:34] eu penso algumas coisas que é

[00:29:37] em geral eu tenho uma muito boa

[00:29:39] disposição em relação às pessoas

[00:29:41] porque às vezes eu entendo que a pessoa é chata

[00:29:43] numa determinada coisa, que ela tem lá

[00:29:45] ela tem às vezes um gosto muito rígido pra alguma

[00:29:47] coisa, ela, ou tem o

[00:29:49] jeito dela que é meio, sei lá

[00:29:51] estranho em algumas coisas, mas aí

[00:29:53] tem uma coisa de permanecer em relação

[00:29:55] que é você descobrir

[00:29:57] qual é a linguagem

[00:29:59] daquela relação, qual é a troca

[00:30:02] que é naquela

[00:30:03] relação com aquela pessoa funciona

[00:30:05] qual é a reciprocidade que existe ali

[00:30:07] se é que existe alguma, se não existe

[00:30:09] nenhuma, ah, tudo bem

[00:30:11] passamos e seguimos a vida

[00:30:13] mas a insistência

[00:30:15] em algumas

[00:30:17] situações, mesmo que às vezes elas sejam

[00:30:19] meio conflituosas, assim, é porque

[00:30:21] a gente sente que tem alguma reciprocidade em alguma coisa

[00:30:23] então, às vezes a pessoa

[00:30:25] pode ser muito diferente de você, a pessoa

[00:30:27] pode ser, ter opiniões que você não gosta

[00:30:29] ter um jeito, às vezes

[00:30:31] mas aí de repente você descobre que ela

[00:30:33] o CD favorito da vida dela é o mesmo

[00:30:35] que o seu, porque essas coisas acontecem

[00:30:37] é verdade, ou filme, ou sei lá o que

[00:30:39] ou, não sei, tem muitos

[00:30:41] jeitos, e aí, de repente você encontra

[00:30:43] um canal mesmo

[00:30:44] e aí meio que com aquela pessoa

[00:30:47] eu tenho esse

[00:30:49] a minha relação acontece bem aqui

[00:30:51] né, então tem pessoas que é assim

[00:30:53] a gente encontra uma vez por ano

[00:30:55] e às vezes consegue

[00:30:57] encontrar, né, nessa

[00:30:59] uma vez por ano um jeito legal de interagir

[00:31:01] mas aí também tem as pessoas que

[00:31:03] a gente quer trocar tudo, tem pessoas que

[00:31:05] bate muita coisa, né, aí que tá

[00:31:07] a magia da coisa, tem pessoas que

[00:31:09] não só elas

[00:31:10] a gente às vezes cultiva

[00:31:13] coisas em comum e

[00:31:14] partilha dessa beleza juntos

[00:31:17] como estão dispostas a conhecer

[00:31:19] as coisas que não conhecem

[00:31:21] a partir da gente e vice-versa

[00:31:23] então a pessoa nunca pensou uma coisa

[00:31:25] você chega e diz pra ela e ela

[00:31:27] fala, nossa, massa, nunca pensei

[00:31:29] sobre isso, vamos conversar sobre isso

[00:31:31] vamos ver e tal, né, você chama ela pra uma peça

[00:31:33] a pessoa nunca foi, sei lá, no teatro

[00:31:35] experimental, sei lá de onde, ela fala, nossa, quero

[00:31:37] muito ir, quero muito ir porque, nossa, deve ser

[00:31:39] se você tá me falando é porque deve ser legal

[00:31:40] então tem essa boa vontade

[00:31:43] tem essa coisa de tipo

[00:31:45] de acreditar

[00:31:47] e de encontrar pessoas em que

[00:31:49] de fato a gente gosta

[00:31:51] dessa partilha, assim, né, então

[00:31:53] que existem pessoas chatas, existem

[00:31:55] sem dúvida nenhuma, mesmo as chatas

[00:31:57] eu, né, tipo, quando não bate, essa coisa de tipo

[00:31:59] mano, não bate direito, ainda assim tem

[00:32:01] alguns caminhos, mas aí tem as pessoas

[00:32:03] com quem a gente super

[00:32:05] se identifica, né

[00:32:06] e aí, ok, queremos

[00:32:08] criar laços de

[00:32:11] partilha

[00:32:12] e isso é uma linguagem do amor

[00:32:14] isso também é uma linguagem do amor

[00:32:16] isso é uma das possíveis belas

[00:32:19] maneiras de definir

[00:32:21] o amor

[00:32:21] a gente chega nesse ponto

[00:32:24] e tem, bom, nem vou passar

[00:32:27] pela lista que eu trouxe

[00:32:28] que é uma lista muito boa, de Darwin

[00:32:30] a Espinosa

[00:32:33] passando por

[00:32:34] tem Hilme, tem Schopenhauer

[00:32:36] enfim

[00:32:39] tem várias definições ali

[00:32:41] de amor, cada uma tem lá

[00:32:43] sua legitimidade

[00:32:45] mas eu tenho pensado sobre essa, né

[00:32:47] o amor como prazer de existir

[00:32:49] juntos, o amor como

[00:32:51] identificar o quanto

[00:32:53] alguma coisa é melhor

[00:32:54] junto de alguém

[00:32:56] e eu tenho sentido muito isso, assim

[00:32:59] é, tipo

[00:33:01] quando que eu iria num

[00:33:03] bloco de carnaval super lotado

[00:33:05] sozinho, aliás, outra experiência

[00:33:07] carnavalesca que é ótima, que é quando você não

[00:33:09] combina com alguém, aí tá no meio de uma

[00:33:11] multidão, e aí você vê lá

[00:33:13] mó longe, você vê uma pessoa que você gosta

[00:33:15] e de repente você fica eufórico

[00:33:17] gritando

[00:33:17] e aí quando chega junto

[00:33:21] é um abraço, assim, é uma força

[00:33:23] que vem, assim, que é tipo, que bom

[00:33:25] no meio dessa gente

[00:33:27] toda a gente se encontrou

[00:33:28] é muito gostosa essa sensação

[00:33:30] e é meio, né

[00:33:31] quando que algum, tem coisas que não fazem

[00:33:34] simplesmente, não fazem sentido

[00:33:36] se não tem outra pessoa junto

[00:33:38] da gente, né, e aí eu acho

[00:33:40] que isso traz, né, no extremo, assim

[00:33:42] né, isso já mostra muito claramente

[00:33:44] essa forma de amor que é a partilha

[00:33:46] e aí às vezes a gente

[00:33:48] inventa desculpas

[00:33:50] só pra encontrar as pessoas mesmo, né

[00:33:52] tipo, às vezes a gente inventa, você falou

[00:33:54] dessa linguagem, né

[00:33:56] tem a coisa também

[00:33:58] de ouvir uma música

[00:34:00] ver um filme, alguma coisa e comentar

[00:34:00] de ouvir uma música, ver um filme, alguma coisa e comentar

[00:34:01] com a pessoa porque você quer falar com ela, ponto

[00:34:03] acontece também

[00:34:06] é, então, é uma linguagem do

[00:34:07] dizer o quanto eu

[00:34:09] o quanto é importante

[00:34:10] o quanto é importante que estejamos

[00:34:13] juntos em alguma coisa, né, estejamos

[00:34:15] juntos, olhando juntos pra alguma

[00:34:17] coisa. Muito se fala

[00:34:19] da experiência de ouvir podcast e querer

[00:34:21] fazer parte da conversa

[00:34:22] eu tô sentindo o contrário, eu tô querendo

[00:34:25] tempo pra pensar

[00:34:26] pra conseguir falar as coisas, sabe

[00:34:29] eu queria que a gente parasse

[00:34:30] dois minutinhos

[00:34:31] mas eu vou falando e pensando enquanto a gente vai

[00:34:34] conversando. Podemos parar também um pouquinho

[00:34:36] eu quero elaborar isso junto

[00:34:38] vamos elaborar isso junto

[00:34:39] que é assim, ó

[00:34:41] há um tempo atrás

[00:34:42] um amigo terminou comigo

[00:34:45] acontece, ué. Acontece

[00:34:47] há um tempo atrás um amigo terminou comigo

[00:34:49] e eu fiquei muito triste na época

[00:34:51] e quando isso aconteceu

[00:34:53] já tava meio ruim

[00:34:56] já tava meio estranho

[00:34:57] e eu fui reclamar, eu fui falar

[00:34:59] mano, tá ruim isso

[00:35:01] não tá virando, não tô gostando

[00:35:04] desse jeito. Não tá legal. E aí ele

[00:35:05] falou, não, então, eu também tô achando

[00:35:08] que já tá estranho e acho que a gente não deveria mais

[00:35:10] falar. E eu fiquei tipo, caraca

[00:35:12] eu não vi terminar com amigo, não é

[00:35:14] algo que acontece com frequência

[00:35:15] quando isso aconteceu, eu lembro

[00:35:17] de eu retomar outras amizades

[00:35:19] que eu tinha, pensando

[00:35:22] tipo, bom, então tá

[00:35:23] foi hiper conservador o pensamento, tipo

[00:35:25] perdi um amigo, vou fazer outro, sabe, foi um negócio meio assim

[00:35:27] e na verdade eu voltei a conversar

[00:35:30] com outras pessoas que foi muito

[00:35:31] legal. Sim. Então

[00:35:33] eu entendo que

[00:35:35] eu posso ser muito

[00:35:37] conservador nas

[00:35:39] amizades que eu tenho

[00:35:41] e aí vão falar, ah, Rafael, porque você é de câncer

[00:35:43] não sei o que, não sei o que lá, e aí eu vou falar

[00:35:45] eu não acredito em signo, e aí eu vou pensar

[00:35:48] mas é bem isso mesmo

[00:35:49] eu sou muito canceriano

[00:35:51] e muito conservador com as minhas

[00:35:54] amizades, é tipo, você é meu amigo

[00:35:56] vai se fuder, a gente tá tendo problema

[00:35:58] eu vou brigar com você

[00:35:59] mas a gente é amigo, e aí

[00:36:01] de repente a gente não é mais amigo

[00:36:03] e aí eu me vi numa situação de, caralho

[00:36:05] tem que preencher essa vaga

[00:36:07] de amigo aí, que isso, e aí eu comecei

[00:36:09] a conversar com umas 3, 4 pessoas, na verdade

[00:36:11] e foi muito bom, foi muito bom

[00:36:13] retomar amizades

[00:36:15] isso tá aí, isso existe

[00:36:17] aí, isso, e eu

[00:36:19] acabei de passar por isso, isso existe

[00:36:21] ok, mas talvez a gente

[00:36:23] esteja muito conservador nessas

[00:36:25] partilhas, sabe

[00:36:26] o Instagram é uma bosta por isso, sabe

[00:36:29] a gente fica compartilhando meme, mano

[00:36:31] você não é realmente amigo

[00:36:33] da pessoa, você tem que fazer alguma coisa a mais

[00:36:35] pra, pra, não dá

[00:36:36] pra ser só isso, tá ligado

[00:36:38] então tá aí, é tipo um solo

[00:36:41] muito fértil, você tá me falando de um

[00:36:43] solo que é muito fértil, e eu percebo

[00:36:45] como eu tô numa posição mais

[00:36:47] conservadora

[00:36:48] dessa partilha

[00:36:51] do que e com quem

[00:36:52] bom, primeiro sinto muito

[00:36:55] pelo término, mas eu acho

[00:36:57] bom, eu acho

[00:36:59] que é, a gente

[00:37:01] trata a amizade

[00:37:03] às vezes como uma relação de segunda classe

[00:37:05] é, como, né, hierarquiza

[00:37:07] mesmo, né, hierarquiza a relação amorosa

[00:37:09] e amizade, amizade fica em

[00:37:11] segundo lugar, a gente já falou disso em outros

[00:37:12] episódios e tal, e

[00:37:15] amizade, às vezes precisa

[00:37:17] de conversas tão sérias e difíceis

[00:37:19] quanto qualquer outra relação, porque

[00:37:21] é relação, não é, né, é

[00:37:23] uma relação, e eu acho

[00:37:25] que às vezes quando as coisas, quando não

[00:37:27] tem vontade, né, eu acho que essa resposta que você

[00:37:29] recebeu, é, né, quando

[00:37:31] você chega e fala, eu, eu não tô gostando

[00:37:33] vamos conversar, para melhorar, e a pessoa

[00:37:35] fala, não tá bom e

[00:37:36] tchau, eu acho que te traz

[00:37:38] te traz aquilo que você precisa, que a pessoa

[00:37:41] não quer, é, é, é, exatamente

[00:37:43] isso, quando é, quando é em relação amorosa

[00:37:45] a gente sofre, fica triste, mas a gente

[00:37:47] entende, e o que acontece, abre espaço pra

[00:37:49] outras coisas, amizade é igual

[00:37:50] então eu acho que é, eu acho que é ótimo

[00:37:53] isso que aconteceu no fim, que é, pelo menos

[00:37:54] né, nesse momento, é

[00:37:56] essa pessoa se afasta, e aí não é que

[00:37:59] você substitui ela, é que de repente

[00:38:01] você vê que, você, pô

[00:38:03] faz falta algumas outras coisas

[00:38:05] e, e, eu acho que é isso

[00:38:07] eu acho importante, sim, a gente

[00:38:09] encarar

[00:38:11] essas, essas questões, e terminar

[00:38:13] relações de amizade, quando elas não fazem mais sentido

[00:38:15] pois é, porque, porque senão é aquela

[00:38:17] coisa que fica meio, até meio paranoico

[00:38:19] assim, que é tipo, será que essa pessoa quer me ver

[00:38:21] porque será que, é, nossa

[00:38:23] horrível essa sensação, horrível

[00:38:25] é muito melhor, horrível, né, tem algumas pessoas

[00:38:27] que acham que não falar, é

[00:38:29] comunicar o suficiente

[00:38:31] né, tipo, é, sabe aquela

[00:38:33] uma dinâmica onde, ah

[00:38:35] eu não respondi a mensagem, ele já entendeu, né

[00:38:37] que eu não quero, entendeu o caralho

[00:38:39] é muito pior, é muito pior

[00:38:41] se você, você passa metade da mensagem

[00:38:42] se, se tanto, se tanto

[00:38:44] porque a pessoa fica pensando, será que não, né

[00:38:46] às vezes até a pessoa tá com uma boa disposição

[00:38:49] e ela tá pensando, ah, não viu

[00:38:50] deve tá corrido do lado de lá

[00:38:52] é, eu vou mandar outra

[00:38:54] e aí a pessoa ignora de novo, mano, isso vai

[00:38:56] causando um, um, né

[00:38:58] o ghosting, ou o

[00:39:00] como é que é, tem um termo em inglês pra isso também

[00:39:02] que é o quiet quitting, né

[00:39:04] de relação, o pessoal fala

[00:39:06] esses termos chiques, mas é basicamente

[00:39:08] abandono, é um tipo de abandono

[00:39:10] e quando a pessoa chega pra você e fala, olha

[00:39:12] não quero mais, é, não é

[00:39:14] abandono num certo sentido, ela tá

[00:39:16] fazendo aquilo que talvez seja melhor pra você

[00:39:18] e, e, porque ela

[00:39:20] é triste, ninguém gosta de estar

[00:39:22] na situação de terminado

[00:39:24] mas, ao mesmo tempo também você tava

[00:39:26] insatisfeito, então eu fico pensando

[00:39:28] é, melhor, melhor porque vem

[00:39:30] um elemento evidente

[00:39:32] pra se trabalhar, e aí você pensa, pô

[00:39:34] eu posso ter outros amigos

[00:39:36] posso ter outros amigos, eu vou

[00:39:38] começar a falar com aquelas outras pessoas

[00:39:40] e eu acho que, aliás, essa é uma das coisas boas de qualquer

[00:39:42] término, ele, né, quando a gente

[00:39:44] monta essa rede que você tava falando

[00:39:46] e essa rede tem uns nós, tem pessoas que são muito

[00:39:48] importantes, quando alguma delas

[00:39:50] sai, a rede se modifica

[00:39:52] inteira, assim, né, abre

[00:39:54] dá uma bambiada, assim, né, dá uma tremida

[00:39:57] o bom de um término

[00:39:58] se é que existem coisas

[00:40:00] né, temos que admitir, é horrível

[00:40:02] sempre, mas é que

[00:40:03] rearticula, você tem a possibilidade

[00:40:06] de abrir de novo uma certa rede, né

[00:40:08] que às vezes se fechou

[00:40:10] um pouco, e aí a gente rearticula

[00:40:12] a nossa sociabilidade, chegam pessoas

[00:40:14] novas, eu acho que, eu acho

[00:40:16] bom, eu acho bom, difícil e bom

[00:40:18] e aí pensando nessas partilhas mesmo

[00:40:20] quando você fala desse movimento

[00:40:22] eu acho que é um movimento

[00:40:23] eu vou chamar de

[00:40:26] corajoso, assim, não sei se é exatamente

[00:40:28] essa palavra, mas é um movimento de

[00:40:30] de, é um movimento

[00:40:31] é arriscado, né

[00:40:34] você vai, você vai puxar assunto

[00:40:36] com alguém fumando

[00:40:38] e você não sabe quem é essa pessoa, você só

[00:40:40] sabe que você também

[00:40:42] tá querendo ter câncer junto com ela

[00:40:44] é a única coisa que você sabe no momento

[00:40:46] você só sabe que ela tem um isqueiro

[00:40:47] não se sabe muita coisa, mas

[00:40:50] essa abertura, é uma abertura

[00:40:52] que é

[00:40:54] muito interessante, sabe o que é que

[00:40:56] eu vou te jogar a minha cartada, ó, prepara-se

[00:40:58] a cartada master

[00:41:00] que é, tem pessoas que eu conheci

[00:41:03] há um ou dois anos

[00:41:05] que hoje são absolutamente fundamentais

[00:41:07] pra mim, né, não são só as pessoas

[00:41:09] não são só as pessoas que eu conheci

[00:41:11] há muito tempo e que se mostraram

[00:41:14] ser presentes

[00:41:15] e que eu desenvolvi uma relação com o tempo

[00:41:17] e que eu fui criando uma história

[00:41:19] não são só essas pessoas que são fundamentais pra mim

[00:41:21] várias delas são, mas tem

[00:41:23] pessoas que eu conheci há muito pouco tempo

[00:41:24] que eu cruzei por acaso

[00:41:26] por internet, por sei lá o que

[00:41:29] e que se tornaram fundamentais

[00:41:30] fundamentais

[00:41:31] então, porque

[00:41:32] o que mais me reforça a continuar

[00:41:35] aberto é o fato de ter

[00:41:37] acontecido esses encontros

[00:41:39] né, e aí

[00:41:41] bom, tá, e essa aí já é

[00:41:43] um argumento forte, assim

[00:41:45] da minha própria experiência, mas

[00:41:46] passando pra esse conceito, né, voltando

[00:41:49] a ele, na verdade, de amor como prazer

[00:41:51] de existir juntos, eu gosto

[00:41:53] dessa definição porque ela é

[00:41:55] coletiva, né, tem isso no texto

[00:41:57] ela não é uma definição de amor

[00:41:59] que reduz a uma

[00:42:00] relação a dois, a gente tá

[00:42:02] a gente costuma pensar, mesmo no amor

[00:42:04] fraternal, amor paternal

[00:42:07] maternal, amor romântico

[00:42:08] amor, né, ainda assim a gente pensa muito

[00:42:10] dois a dois, né, tem

[00:42:12] uma certa variedade de formas de pensar o amor

[00:42:14] mas parece que é sempre dois a dois

[00:42:16] quais são as formas de amor que a gente pensa

[00:42:18] a mais de dois

[00:42:20] né, mais de dois por vez

[00:42:22] e eu acho que essa coisa do prazer de existir

[00:42:24] juntos, muitas vezes

[00:42:25] é de receber vários amigos em casa

[00:42:29] é de uma tarde gostosa junto

[00:42:30] é de

[00:42:32] às vezes até

[00:42:34] entre pessoas desconhecidas

[00:42:36] a experiência, né, carnavalesca

[00:42:38] de tá todo mundo cantando e dançando junto

[00:42:40] ou a da torcida de futebol

[00:42:42] ou a da, né, essa existência coletiva

[00:42:44] assim, uma que às vezes é catártico

[00:42:47] mesmo, né, e eu acho que isso também

[00:42:48] é amor, no sentido de

[00:42:50] que é uma certa alegria

[00:42:53] partilhada

[00:42:54] e onde a gente é

[00:42:56] a gente existe junto

[00:42:58] e com prazer nisso

[00:43:00] né, então eu acho que

[00:43:02] esse conceito ele tem uma dimensão

[00:43:04] muito bonita, coletiva

[00:43:06] que eu acho

[00:43:09] que a gente às vezes

[00:43:10] não chama de amor

[00:43:11] ou não percebe como amor

[00:43:13] uma tarde gostosa com um amigo sentado

[00:43:16] embaixo de uma árvore, no clima ameno, como queira

[00:43:18] a gente não costuma chamar de amor

[00:43:20] né, e de novo aqui

[00:43:22] uma certa militância assim no sentido de valorização

[00:43:24] da amizade, como amor

[00:43:26] existe, amizade e amor

[00:43:28] não são coisas distintas

[00:43:29] né

[00:43:30] se confundem, inclusive

[00:43:32] se confundem no sentido de relação

[00:43:35] amorosa e amizade, muitas vezes ficam

[00:43:37] o que que tá acontecendo aqui

[00:43:38] e a gente não sabe direito o que é que tem

[00:43:40] mas amizade no geral e amor

[00:43:43] são coisas que coexistem

[00:43:45] são coisas que se interseccionam

[00:43:47] mas você deu um exemplo

[00:43:49] que eu acho que vai

[00:43:51] me ajudar a distinguir um pouco

[00:43:53] o que tá acontecendo, que é

[00:43:55] você me descreve algumas

[00:43:57] experiências que são

[00:43:59] mais

[00:44:00] desagregadoras

[00:44:03] e você me descreve algumas experiências

[00:44:05] mais amenas, quando você me

[00:44:07] descreve a experiência

[00:44:09] da perda

[00:44:11] de si, do

[00:44:12] do futebol

[00:44:15] assim, da torcida, não, não, não

[00:44:17] pode até ser isso, mas algo até mais específico

[00:44:19] vamos supor que você vira pra mim e fala

[00:44:21] vamos num bar

[00:44:23] BDSM

[00:44:24] seria possível, é

[00:44:26] exato, seria possível, e qual é a minha

[00:44:29] resposta provável?

[00:44:30] não

[00:44:30] a minha resposta provável

[00:44:33] você me conhecendo há muito tempo

[00:44:35] é provavelmente não

[00:44:36] teria um grande número de circunstâncias

[00:44:39] onde um sim poderia aparecer

[00:44:41] mas o mais provável não

[00:44:43] geralmente o que eu ia fazer é começar a te

[00:44:45] descrever o que é esse lugar pra tentar te convencer

[00:44:48] não, a gente nem vai voltar

[00:44:50] tão tarde, é perto da sua casa

[00:44:52] é perto da sua casa

[00:44:53] vai tal pessoa, que é legal

[00:44:55] você gosta dela, então

[00:44:57] você não precisa ir de cor, preto

[00:44:59] pode ser de cor, de cor, de cor, de cor

[00:45:00] pode ser de cor, de cor, de cor, de cor, de cor, de cor, de cor, de cor, de cor, de cor, de cor, de cor, de cor, de cor, de cor, de cor, de cor

[00:45:00] sem mordaça, tá tudo bem

[00:45:02] a palavra de segurança é X

[00:45:04] você já me entrega logo, pelo amor de Deus

[00:45:06] e quando você me descreve a experiência

[00:45:09] do piquenique

[00:45:11] na beira do lago

[00:45:13] a minha primeira provável

[00:45:15] resposta é sim, bora

[00:45:16] vamos aí, domingo de manhã, posso levar a tcheta?

[00:45:19] tô dentro, vamos lá

[00:45:20] e aí eu acho que

[00:45:22] onde a gente tá

[00:45:24] na maior

[00:45:27] diferença, não é exatamente

[00:45:29] no ver pessoas

[00:45:30] é no quanto ver pessoas pode ser desagregador

[00:45:33] sim, eu acho que sim

[00:45:34] porque eu gosto muito

[00:45:36] eu gosto muito de ficar sozinho, mas eu gosto muito

[00:45:38] de ver pessoas, tipo, se você fala

[00:45:40] vamos no bar fazer não sei o que lá, eu vou feliz

[00:45:43] eu não vou voltar três da manhã

[00:45:44] mas eu vou feliz, então

[00:45:46] talvez a diferença esteja em outro ponto

[00:45:48] porque a partilha

[00:45:50] ela é uma partilha que pode ser

[00:45:52] aí eu não sei se o exemplo vai caber, mas

[00:45:54] a partilha pode ser muito amena

[00:45:56] então, mano, vamos no cinema

[00:45:58] no dia seguinte a gente vai no parque, a gente vai ficar

[00:46:00] trocando mó ideia, putz, esse filme é muito bom

[00:46:02] não sei o que lá, esse diretor, nossa

[00:46:04] você tem que ver tal filme, ou pode ser

[00:46:06] o Barbie DSM

[00:46:08] ou pode ser o, sei lá

[00:46:10] você pensa outro exemplo

[00:46:12] o bloco de carnaval, sei lá

[00:46:14] e aí eu acho

[00:46:16] que o quanto é desagregador

[00:46:18] pode ser o quanto

[00:46:20] a experiência

[00:46:22] pode ser mais convidativa ou não

[00:46:24] e exigir mais ou não

[00:46:26] porque você tem tido experiências

[00:46:28] mais

[00:46:30] desagregadoras

[00:46:31] eu acho que pra usar, pra tentar

[00:46:33] definir um pouco melhor é

[00:46:35] o quanto você tá aberto

[00:46:37] a ser menos você

[00:46:39] porque no fim das contas, quando a gente entra em contato

[00:46:42] com os outros, o que que acontece?

[00:46:44] é uma mistura

[00:46:44] então, eu não sei, sei lá, de repente

[00:46:48] você tá lá no meio do rolê

[00:46:49] e aí alguém vai começar a falar uma coisa

[00:46:51] que você não sabe, nada

[00:46:54] sei lá, tipo BDSM

[00:46:56] talvez, ou qualquer outra coisa

[00:46:58] alguém vai falar lá de microbiologia

[00:47:00] oceânica

[00:47:02] doutorado da pessoa

[00:47:04] e aí qual é a abertura

[00:47:06] que a gente tem nessas coisas

[00:47:08] pra deixar

[00:47:10] uma persona

[00:47:11] na qual a gente tá mais seguro

[00:47:14] de lado, então é tipo

[00:47:15] eu não sei nada disso, a princípio

[00:47:18] eu nem sei se isso me interessa, mas

[00:47:20] deixa eu interagir aqui e ver qual é que é

[00:47:22] essa onda, sabe, o que que tá acontecendo

[00:47:24] ou

[00:47:25] eu acho que isso passa pelo

[00:47:28] campo do assunto, mas isso passa

[00:47:30] pelo campo do, às vezes

[00:47:31] se conhece quase ninguém

[00:47:33] quando você não conhece num rolê, né

[00:47:35] quando você não conhece quase ninguém

[00:47:37] é uma situação que te abre pra uma

[00:47:40] uma possibilidade de ser

[00:47:42] muito diferente do que você é

[00:47:44] ou, o que é mais difícil

[00:47:46] de o que você é

[00:47:48] não ser exatamente aquilo que as

[00:47:50] pessoas vão achar legal, porque

[00:47:52] quando você tá com seus amigos, seus amigos te conhecem

[00:47:54] então tem um acolhimento, sempre tem um acolhimento

[00:47:56] daquele amigo que vira e fala, ah

[00:47:57] Rafael é assim mesmo, isso é

[00:47:59] acolhedor num certo sentido, não é uma

[00:48:02] ofensa, é uma, né, quando não

[00:48:04] tem ninguém pra falar isso, ou tem uma pessoa

[00:48:05] só, você tem, geralmente é legal quando você tem um

[00:48:07] ponto de apoio, né, eu gosto

[00:48:09] não é que eu também, tem situações

[00:48:12] de sociabilidade que são muito desafiadoras

[00:48:14] e eu acho que tem a ver com essa perda de si

[00:48:16] também, tem a ver com

[00:48:17] abrir-se pra ser algo diferente

[00:48:20] do que você costuma ser nas interações

[00:48:22] sociais que já estão

[00:48:24] mais domésticas

[00:48:25] que já estão mais confortáveis

[00:48:27] e eu não acho

[00:48:29] eu acho que eu entendo

[00:48:32] perfeitamente querer situações confortáveis

[00:48:34] porque eu gosto também, eu gosto de um

[00:48:36] rolezinho, low energy em casa

[00:48:37] noite do pijama, vamos ver um filme

[00:48:40] só com pessoas que eu conheço, dormir

[00:48:42] cedo, no dia seguinte tomar um café da manhã junto

[00:48:44] é, tá bom

[00:48:46] isso talvez, dormir junto com amigos talvez já não

[00:48:48] seja o mais confortável pra maioria

[00:48:50] das pessoas, tá bom, outro exemplo

[00:48:51] um piquenique no parque

[00:48:54] tal, beleza, a gente vai

[00:48:56] umas duas, três horinhas, ou um almoço juntos

[00:48:58] eu gosto, eu acho confortável

[00:48:59] é bom, mas aí você tá falando justamente

[00:49:02] que essa diferença é

[00:49:03] o quanto de desconforto eu consigo

[00:49:06] é, e você

[00:49:08] tá cada vez mais

[00:49:10] treinado

[00:49:12] nesse desconforto

[00:49:13] e até no

[00:49:15] improvisar com isso, você tá ficando bom

[00:49:18] de improvisar com isso, eu tô tentando

[00:49:20] eu tô tentando, porque eu tenho

[00:49:22] reconhecido esse valor

[00:49:23] porque você tá sendo reforçado, porque tem

[00:49:26] um monte de coisa da hora acontecendo

[00:49:27] sim, eu acho que sim, acho que tem

[00:49:29] estar topando

[00:49:32] com esse desconforto, estar aceitando

[00:49:34] esse desconforto

[00:49:36] me faz descobrir coisas novas

[00:49:38] e às vezes me surpreende, às vezes

[00:49:39] um lugar eu chego, a minha primeira sensação

[00:49:42] é, vou embora daqui uma hora

[00:49:44] nossa, onde eu vim

[00:49:46] nossa, porque que eu ia, às vezes é verdade

[00:49:48] tá, não tem

[00:49:50] não tem garantia pra nada, às vezes dá

[00:49:52] errado, você volta pra casa e fala, nossa

[00:49:54] que rolê horrível, nossa

[00:49:56] não deu nada certo hoje, beleza

[00:49:58] mas às vezes eu chego nesse lugar e falo

[00:49:59] que eu vou embora daqui uma hora, e aí

[00:50:01] passam horas e eu já tô

[00:50:04] super querendo emendar em outra coisa

[00:50:06] porque eu, nesse

[00:50:07] meio tempo, eu fui descobrindo

[00:50:10] como, o que que tinha de interessante

[00:50:12] ali pra fazer, então

[00:50:13] sempre tem uma, sempre tem esse

[00:50:16] sinalzinho que acende do tipo, nossa

[00:50:18] eu nunca faria isso, tá, nunca faria isso

[00:50:20] por quê, e se eu fizer

[00:50:22] e aí eu sempre

[00:50:24] tenho algumas, algumas regrinhas

[00:50:26] de conforto que é tipo, ah, se não for

[00:50:28] legal, eu volto, eu vou ficar aqui sem

[00:50:29] fazer nada, tipo, eu vou, né, eu meio que

[00:50:31] assim, né, eu vou ficar

[00:50:33] e o que que eu vou fazer no lugar

[00:50:36] disso, qual é, que outra opção eu tenho

[00:50:37] que possa ser, que possa

[00:50:40] entrar no lugar disso, eu não tenho, eu vou lá e vejo

[00:50:41] se não for legal, eu volto, então tem tipo

[00:50:43] algumas coisas muito básicas, assim, do

[00:50:45] do experimentar mesmo, do

[00:50:48] se colocar e ver, e ser um

[00:50:50] pouquinho resiliente, vou dar um

[00:50:51] exemplo de bloco de carnaval, manda

[00:50:53] é, muitas vezes tem blocos

[00:50:55] que eu, os que eu, alguns dos que eu gosto

[00:50:57] mais, que eles são muito cheios

[00:50:59] não são os gigantes mega blocos

[00:51:01] eles são, assim, médios

[00:51:03] é tipo, o que era o charanga, pra quem é

[00:51:05] de São Paulo, né, que era antes, agora o charanga

[00:51:07] tá impossível, mas o que é o agora vai

[00:51:10] é, o Unidos do Swing, enfim

[00:51:11] são blocos que cresceram, eles eram, são blocos de

[00:51:13] fanfarra, então eles, são blocos que

[00:51:15] eles não tem, não é

[00:51:17] pra ter um milhão de pessoas, nunca vai funcionar, mas

[00:51:19] eles já tão grandes, então é meio

[00:51:21] cheio, é meio apertado, e aí a primeira

[00:51:23] hora do bloco, você tá ali no meio, é

[00:51:25] desconfortável, você fica apertado

[00:51:28] e você fica angustiado

[00:51:29] é estranho, é quente

[00:51:32] porque ele geralmente sai a onze, meio dia

[00:51:33] aí você resiste, você vai resistindo

[00:51:36] mas de repente, alguma coisa

[00:51:37] começa a te contagiar, assim, claro que também

[00:51:39] você tá bebendo, tem todo um outro complexo

[00:51:42] sistema de, né, um

[00:51:44] agenciamento aí de coisas que vão te colocando no

[00:51:45] clima, mas não é só isso

[00:51:47] tem a ver com o permanecer ali

[00:51:49] e começar a entender alguma

[00:51:51] brisa, né, tipo, às vezes a música que vai repetindo

[00:51:53] você vai sendo tomado, as pessoas todas

[00:51:55] que vão começando a participar

[00:51:57] mais coletivamente daquilo, né, quando

[00:51:59] chega, quando você chega, todo mundo veio da sua

[00:52:01] própria casa, tá todo mundo de banho tomado

[00:52:04] tá todo mundo desconfortável junto

[00:52:05] todo mundo desconfortável, de repente as pessoas

[00:52:07] vão entrando nessa onda

[00:52:09] e aí a coisa vai começando a

[00:52:11] acontecer, então tem uma

[00:52:13] necessidade de resiliência, muitas vezes

[00:52:15] de você passar um pouquinho

[00:52:17] aquela arrebentação, aquele começo que é desconfortável

[00:52:20] às vezes não dá nada, mas às vezes

[00:52:22] às vezes é muito massa

[00:52:23] às vezes é muito legal, às vezes você se

[00:52:25] surpreende com você mesmo, né

[00:52:27] ótimo exemplo, o

[00:52:29] que me faz passar

[00:52:31] para algo essencial para a nossa

[00:52:33] conversa, que é um jeito

[00:52:35] que você tá encontrando de

[00:52:37] escrever, que tem a ver

[00:52:39] com o que você tá dizendo aqui

[00:52:41] e eu acho que esse

[00:52:43] foi o meu parágrafo favorito do texto

[00:52:45] então eu não quero

[00:52:47] passar este episódio

[00:52:49] sem trazer esse ponto

[00:52:51] um texto que é como

[00:52:53] uma cozinha dos domingos

[00:52:55] puta merda, essa imagem é muito boa, né

[00:52:57] quando você se encontra

[00:52:59] pra cozinhar

[00:53:01] e tá todo mundo

[00:53:03] cozinhando, mesmo que uma pessoa só esteja tomando

[00:53:05] uma cerveja, ela também tá lá cozinhando

[00:53:07] porque vira e mexe, sei lá, pega o gelo

[00:53:09] ali, não sei o que lá, só me ajuda aqui

[00:53:11] me ajuda com isso, não sei o que lá, tá todo mundo

[00:53:13] junto, uma coisa tá acontecendo junto

[00:53:15] então, o que é essa refeição

[00:53:17] que é um texto que é pra

[00:53:19] todo mundo ler

[00:53:21] e saborear e falar

[00:53:23] puta, olha mano, esse

[00:53:24] adverbo aqui ficou uma

[00:53:27] delícia, velho, perfeito, nossa juntou

[00:53:29] com ele, nossa

[00:53:31] excelente

[00:53:33] e quando eu tava

[00:53:35] planejando o texto ainda

[00:53:36] eu pensei em algumas metáforas

[00:53:39] que eu gosto e eu pensei que partilha

[00:53:41] talvez a

[00:53:43] melhor experiência de partilha

[00:53:45] que a gente tenha é a de comer junto

[00:53:47] a cozinha é bem brasileira

[00:53:49] é o espaço

[00:53:51] agregador, por excelência

[00:53:53] e eu queria trazer

[00:53:55] esse exemplo em algum ponto do texto

[00:53:57] que fosse bastante significativo

[00:53:59] e relevante, eu guardei até que chegou esse momento

[00:54:01] e eu acho

[00:54:03] que é um pouco

[00:54:05] isso assim, pensando de

[00:54:07] forma metafórica o espaço

[00:54:09] do texto, como que eu quero que

[00:54:11] seja o espaço de um texto, né

[00:54:13] eu não quero que seja um

[00:54:14] hospital, um laboratório hermético

[00:54:17] um, sei lá

[00:54:19] uma coisa, uma escola

[00:54:21] uma aula

[00:54:23] esses espaços, né, esses espaços

[00:54:25] eles são espaços muito centralizados

[00:54:27] muito hierárquicos, muito disciplinados

[00:54:29] e aí eu fiquei pensando

[00:54:31] que tipo de espaço é o espaço

[00:54:33] de texto que eu quero, um espaço de convivência

[00:54:35] porque é assim que eu gosto de ler

[00:54:37] um texto também, eu gosto quando

[00:54:39] eu tô lendo alguém que sabe que eu tô lendo

[00:54:41] que fez

[00:54:44] esse, que me ajuda

[00:54:45] no processo de ler, não só no sentido

[00:54:48] de seduzir, né, pela escrita

[00:54:49] de usar os recursos da escrita pra

[00:54:51] me seduzir, que eu gosto, gosto de ser seduzido

[00:54:53] quem não gosta, né, de ser seduzido, de estar na posição

[00:54:56] né, é um pouco isso, tem essa relação

[00:54:57] até bastante erótica num texto

[00:54:59] que é, eu sei que você tá aí

[00:55:01] o Montaigne

[00:55:02] que é um divisor de águas

[00:55:05] na maneira como eu penso em filosofia e escrita

[00:55:07] ele foi proibido

[00:55:09] as mulheres foram proibidas de ler os

[00:55:11] primeiras versões dos ensaios

[00:55:13] só que ele sabia que elas liam

[00:55:15] escondidas, e ele fala

[00:55:17] com elas no meio do texto

[00:55:19] às vezes ele deixa escapar assim um

[00:55:21] ah, você que não, que talvez

[00:55:23] esteja me lendo aí, escondido

[00:55:25] ah, você que talvez, e aí ele se dirige

[00:55:27] especialmente às mulheres que não podiam

[00:55:29] lê-lo, ele não era nada bobo

[00:55:31] mas isso é

[00:55:33] é uma consideração que eu acho

[00:55:35] importantíssima

[00:55:36] e que é muito rara

[00:55:38] desse nível de atenção é muito rara

[00:55:41] é, de pensar

[00:55:43] o que esse outro

[00:55:45] está pensando ao ler isso

[00:55:47] o que esse outro está entendendo ao ler isso

[00:55:49] antecipar pensamentos que

[00:55:50] e aí tem essa coisa do querer ouvir, querer conversar

[00:55:53] querer partilhar

[00:55:54] mesmo no texto, e aí eu acho que na leitura

[00:55:57] eu percebo muito claramente quando alguém

[00:55:59] quando alguém escreveu

[00:56:01] sabendo e tomando um cuidado com o leitor

[00:56:03] quando você se sente convidado a

[00:56:05] participar, convidado a pensar

[00:56:07] porque tem às vezes

[00:56:09] textos que já pensaram tudo por você

[00:56:11] parece que eles querem te convencer o tempo

[00:56:13] inteiro, que eles não tem brecha nenhuma pra

[00:56:15] auto questionamento

[00:56:17] tem todos esses problemas

[00:56:19] e aí eu acho que escrevendo tem

[00:56:21] essa busca também, tem uma busca

[00:56:23] de diálogo

[00:56:26] de companhia

[00:56:27] mesmo

[00:56:29] eu não fico satisfeito

[00:56:31] com um texto que não

[00:56:33] seja

[00:56:34] uma espécie de comunhão ou de comunicação

[00:56:37] eu prefiro

[00:56:40] e falamos disso há pouco tempo atrás

[00:56:42] isso mexe até com a forma do texto

[00:56:44] eu gosto do texto curto

[00:56:45] enfim, eu gosto do texto

[00:56:48] em que tem um certo

[00:56:50] equilíbrio na linguagem

[00:56:51] entre uma linguagem mais cotidiana

[00:56:54] mas ao mesmo tempo também não

[00:56:56] pobre, então tem várias

[00:56:58] coisas que eu penso na escrita que

[00:56:59] passam um pouco pela comunicação

[00:57:01] pela tentativa de dar as mãos

[00:57:04] assim, pra esse leitor

[00:57:06] espectral, ausente, virtual

[00:57:08] sei lá, mas que eu sei que tá ali

[00:57:10] porque senão

[00:57:11] por que que eu escreveria, né?

[00:57:13] não escrevo pra mim

[00:57:15] eu escrevo diário, pra mim eu escrevo diário

[00:57:17] mas quando eu tô escrevendo um texto

[00:57:20] quando eu sei que esse texto vai pra um outro

[00:57:22] eu

[00:57:23] faço questão de valorizar muito isso

[00:57:26] e a gente faz o texto

[00:57:28] ir pro outro normalmente

[00:57:29] numa condição de muita

[00:57:32] vaidade, né?

[00:57:33] o que eu mais vejo, assim

[00:57:34] é o…

[00:57:37] ainda mais quando se aproxima da filosofia

[00:57:39] tem um campo do jornalismo também

[00:57:42] que faz isso, assim

[00:57:43] mas é uma escrita muito vaidosa, assim

[00:57:45] eu, texto de fulano

[00:57:48] e aí é tipo

[00:57:49] tá, é um pegar ou largar

[00:57:52] assim, não tem diálogo

[00:57:53] é tipo, ah, eu concordo com esse cara

[00:57:55] então esse cara é foda, hein? Todo mundo é idiota

[00:57:57] todo mundo que ele xingou é idiota

[00:57:58] ou então, tipo, não

[00:57:59] eu discordo desse cara

[00:57:59] esse cara é um merda

[00:58:00] esse cara é um idiota

[00:58:01] nunca mais

[00:58:01] e é tipo

[00:58:02] essa posição é exatamente a posição da

[00:58:05] não partilha, né?

[00:58:06] exatamente

[00:58:07] essa situação

[00:58:09] e aí

[00:58:09] eu acho que você ia se dar muito bem

[00:58:11] na época das cartas, então

[00:58:13] é tipo isso

[00:58:14] é tipo

[00:58:14] eu adoro cartas

[00:58:16] a gente nem manda mais cartas, né?

[00:58:17] e a gente nasceu na época das cartas

[00:58:19] eu ainda mando

[00:58:19] você manda?

[00:58:20] mando, mas é raro

[00:58:22] mas ainda é raro

[00:58:23] mas eu ainda mando

[00:58:23] ficou tão raro

[00:58:24] porque é isso

[00:58:25] a carta é uma troca

[00:58:27] a carta é

[00:58:28] e aí, como é que você tá?

[00:58:29] pô, comigo aconteceu tais coisas

[00:58:31] o que você pensa disso?

[00:58:32] e você?

[00:58:33] você me contou daquela outra vez tal coisa

[00:58:35] melhorou?

[00:58:36] piorou?

[00:58:37] o que tá rolando?

[00:58:38] a gente perde

[00:58:41] o quanto tem exatamente

[00:58:43] essa fusão

[00:58:45] essa confusão

[00:58:47] essa brincadeira acontecendo

[00:58:50] e aí o texto

[00:58:52] o filósofo cai nessa paranoia totalizante, né?

[00:58:56] os sistemas filosóficos, né?

[00:58:58] uhum

[00:58:58] os racionalistas fazem isso, né?

[00:59:03] Leibniz cai nessa

[00:59:04] Schopenhauer depois faz isso também

[00:59:06] vários fazem, né?

[00:59:07] e aí você tem uma escrita como a do Nietzsche

[00:59:09] que é totalmente, né?

[00:59:10] aberta pra todo lado

[00:59:12] aí ele tá brigando com não sei quem

[00:59:13] aí ele tá amando não sei quem

[00:59:15] aí ele, né?

[00:59:15] tá, assim, tá

[00:59:16] então, é

[00:59:17] pensar esse texto aberto

[00:59:19] é muito bonito mesmo, né?

[00:59:22] acho que é

[00:59:22] que vai bem no caminho

[00:59:24] do que a gente tá conversando

[00:59:25] do que interessa pra gente

[00:59:27] e como é difícil encontrar

[00:59:28] o interlocutor

[00:59:30] não é fácil também

[00:59:31] não é fácil

[00:59:33] aí eu acho que é pérola pros porcos mesmo

[00:59:35] porque

[00:59:35] você escreve um texto

[00:59:37] mil pessoas vão ler o primeiro parágrafo

[00:59:40] né?

[00:59:41] aí, sei lá

[00:59:42] cem vão ler o texto inteiro

[00:59:43] cinquenta vão gostar

[00:59:46] e vão ter cinco pessoas

[00:59:47] que vão entrar em contato com você

[00:59:48] e falar

[00:59:48] mano, que da hora

[00:59:49] olha isso, olha aquilo

[00:59:51] isso aqui eu pensei assim

[00:59:52] isso aqui eu pensei assado

[00:59:53] mas, nossa

[00:59:54] eu fico absolutamente realizado

[00:59:57] quando isso acontece, assim

[00:59:58] é

[00:59:58] porque tem um texto que é

[00:59:58] e é, de novo

[01:00:00] de por que que eu continuo fazendo isso

[01:00:02] porque

[01:00:02] todos os textos

[01:00:04] sempre atingem algumas pessoas

[01:00:06] a ponto delas virem me falar

[01:00:07] e me contar

[01:00:07] como foi importante

[01:00:08] ter lido aquilo

[01:00:09] enfim

[01:00:10] a gente recebeu um presente

[01:00:12] esses dias

[01:00:13] de uma leitora

[01:00:15] que gravou na madeira

[01:00:18] uma frase do texto

[01:00:20] né?

[01:00:21] a lágrima é tão semente

[01:00:22] quanto fruto da memória

[01:00:23] a Francine, inclusive

[01:00:24] ficou um beijo pra ela

[01:00:25] já que falamos

[01:00:26] obrigada Francine

[01:00:26] tá na minha estante

[01:00:28] tá na minha estante

[01:00:28] também

[01:00:29] uma placa linda, assim

[01:00:30] ela gravou uma frase do texto

[01:00:32] numa madeira

[01:00:32] depois no correio

[01:00:33] mandou pra mim

[01:00:34] eu fiquei

[01:00:35] chorei vagarão

[01:00:36] agora não recebi

[01:00:36] fiquei emocionadíssimo

[01:00:37] e essas coisas acontecem, assim

[01:00:39] essas

[01:00:40] é por isso que

[01:00:41] né

[01:00:41] tem texto

[01:00:42] tem pessoas que vêm me falar

[01:00:44] de experiências

[01:00:45] que tiveram a partir de

[01:00:45] enfim

[01:00:46] tudo isso é

[01:00:47] porque esse diálogo existe

[01:00:48] e aí

[01:00:49] isso acontecer

[01:00:50] é pra mim

[01:00:52] sei lá

[01:00:52] é muito

[01:00:54] muito forte

[01:00:54] muito forte mesmo

[01:00:55] tem a

[01:00:57] a Anne Ernaud

[01:00:57] que escreve

[01:00:58] em geral

[01:00:59] em primeira pessoa

[01:01:00] sobre a própria vida

[01:01:01] mas ela fala que

[01:01:02] ela não escreve

[01:01:03] pra si mesma

[01:01:05] nem de si mesma

[01:01:06] só que ela escreve

[01:01:07] a própria história

[01:01:07] em primeira pessoa

[01:01:08] sem

[01:01:08] e é fatos

[01:01:10] não é autoficção

[01:01:11] é autosssociografia

[01:01:12] ela fala

[01:01:12] e ela fala isso

[01:01:13] porque ela diz

[01:01:14] que o melhor elogio

[01:01:15] que ela recebe

[01:01:16] é geralmente

[01:01:17] quando alguém chega pra ela

[01:01:18] e fala

[01:01:19] você escreveu a minha história

[01:01:20] porque ela fala

[01:01:21] que ao escrever o eu

[01:01:22] ela quer que o eu

[01:01:22] seja um espaço pro outro

[01:01:24] um espaço de reconhecimento

[01:01:25] pro outro

[01:01:25] especialmente falando

[01:01:27] no caso dela

[01:01:27] da experiência de uma mulher

[01:01:28] transfuga de classe

[01:01:30] como ela fala

[01:01:30] de que veio da pobreza

[01:01:32] e passou a acessar

[01:01:33] uma elite intelectualizada

[01:01:34] fez universidade

[01:01:35] etc e tal

[01:01:36] ela fala

[01:01:37] que ela quer dar

[01:01:38] ela quer dar lugar

[01:01:38] pra que outras pessoas

[01:01:39] se reconheçam

[01:01:40] nessa experiência

[01:01:40] que ela teve

[01:01:41] e aí

[01:01:42] como escrever sobre si

[01:01:43] mas não escrever

[01:01:44] de uma forma

[01:01:45] autocentrada

[01:01:46] egoísta

[01:01:47] e aí o melhor

[01:01:48] o elogio que ela mais gosta

[01:01:49] é esse

[01:01:49] quando outra pessoa

[01:01:50] lê a história dela

[01:01:51] e fala

[01:01:51] essa é a minha

[01:01:52] isso é muito doido

[01:01:54] isso é muito interessante

[01:01:55] como proposta de escrita

[01:01:57] a gente estudou isso

[01:01:58] na

[01:01:58] Na oficina

[01:01:59] do semestre passado

[01:02:00] mas

[01:02:01] eu acho que

[01:02:03] pensando ainda

[01:02:04] a escrita

[01:02:06] é

[01:02:07] é um processo

[01:02:08] que

[01:02:09] corre muito risco

[01:02:10] de ser autocentrado

[01:02:11] né

[01:02:11] então

[01:02:12] precisa desse

[01:02:13] contrapeso

[01:02:14] muito defensivo

[01:02:16] porque

[01:02:16] também é angustiante

[01:02:17] às vezes a gente

[01:02:18] fica inseguro

[01:02:19] a insegurança

[01:02:20] faz com que

[01:02:21] às vezes a gente

[01:02:22] carregue na tinta

[01:02:23] e faça

[01:02:24] eu não estou errado

[01:02:25] não estou errado

[01:02:26] não estou errado

[01:02:26] não estou errado

[01:02:27] sabe

[01:02:27] tipo que essa afirmação

[01:02:28] do eu tenho certeza

[01:02:29] eu tenho certeza

[01:02:29] eu tenho certeza

[01:02:30] que é isso né

[01:02:31] que recurso estranho

[01:02:32] às vezes

[01:02:33] eu acho que

[01:02:34] o gostoso

[01:02:35] muitas vezes

[01:02:36] é eu escrever

[01:02:36] sem certeza

[01:02:37] o gostoso é

[01:02:38] olha

[01:02:38] pensei aqui um negócio

[01:02:40] não sei se faz sentido

[01:02:41] mas eu pensei com cuidado

[01:02:43] eu pensei né

[01:02:44] e o que que você

[01:02:44] acha disso

[01:02:45] e aí você senta

[01:02:46] propõe o texto

[01:02:47] pra diálogo

[01:02:48] joga o texto no mundo

[01:02:49] aí pra que ele seja

[01:02:50] pensado junto

[01:02:51] sabe onde eu vejo isso

[01:02:53] no meu caso

[01:02:54] não acho que é exatamente

[01:02:56] na escrita

[01:02:57] eu acho que é na aula

[01:02:57] porque

[01:02:59] eu gosto muito

[01:03:00] dessa

[01:03:01] mano

[01:03:01] a gente fazia isso

[01:03:02] a gente fazia isso

[01:03:03] de se ligar e falar

[01:03:04] você já leu essa porra

[01:03:06] olha isso

[01:03:06] a gente fez isso muito

[01:03:07] nossa

[01:03:08] olha isso

[01:03:09] você chegou nessa parte já

[01:03:10] nossa

[01:03:11] quando você chega nessa parte

[01:03:12] puta merda

[01:03:13] a gente leu romances

[01:03:14] gigantescos

[01:03:15] é

[01:03:16] aliás quero ler

[01:03:17] o Karamazov de novo

[01:03:18] é então a gente leu junto

[01:03:19] tô convidando todo mundo

[01:03:20] pra a gente ler junto

[01:03:21] tá vendo

[01:03:22] tô convidando todo mundo

[01:03:23] porque eu tô a fim de ler junto

[01:03:24] é sobre isso

[01:03:25] eu acho que eu vou ler

[01:03:26] o Orlando que você leu agora

[01:03:27] nossa

[01:03:27] mano

[01:03:28] falta 10 páginas

[01:03:29] pra terminar essa porra

[01:03:30] tá bom

[01:03:32] eu tô

[01:03:33] tô pensando

[01:03:34] tô pensando

[01:03:35] na aula

[01:03:37] eu acho que isso acontece

[01:03:38] que é tipo

[01:03:38] eu tento passar

[01:03:39] pras pessoas

[01:03:40] que é tipo

[01:03:41] mano

[01:03:41] olha o que

[01:03:42] olha o que essa pessoa pensou

[01:03:44] olha

[01:03:44] olha essa ideia

[01:03:45] você nunca pensou isso

[01:03:47] eu tenho certeza

[01:03:48] olha isso

[01:03:49] e aí

[01:03:50] é

[01:03:50] você fala desse arrepio

[01:03:52] que passa né

[01:03:53] às vezes eu tô dando aula

[01:03:54] arrepiado

[01:03:55] falando

[01:03:55] vocês pegaram

[01:03:57] vocês pegaram

[01:03:57] o que que ele

[01:03:58] o que que ele tá querendo dizer

[01:03:59] olha isso

[01:04:00] isso é muito da hora

[01:04:01] e tem

[01:04:02] e

[01:04:03] é

[01:04:05] é esse mistério

[01:04:06] de existir mesmo

[01:04:07] é

[01:04:07] é compartilhar

[01:04:09] o espanto

[01:04:10] e a beleza

[01:04:11] e às vezes

[01:04:12] os horrores

[01:04:13] mas

[01:04:13] esperamos que

[01:04:14] mais as belezas

[01:04:16] desse mistério

[01:04:17] que é

[01:04:18] a gente tá vivo

[01:04:19] a gente

[01:04:19] tá consciente

[01:04:21] a gente tá acordado

[01:04:22] a gente tá vendo coisas

[01:04:23] e a gente tá

[01:04:24] sentindo coisas

[01:04:25] eu acho que tem essa

[01:04:27] tem

[01:04:27] todo esse campo

[01:04:29] que a gente não falou ainda

[01:04:30] que é

[01:04:30] que tem a ver com a partilha

[01:04:32] que eu acho

[01:04:33] importante de dizer

[01:04:35] que é

[01:04:35] uma outra pessoa

[01:04:37] ela traz algo

[01:04:38] que

[01:04:38] que não pode ser obtido

[01:04:40] de nenhuma outra maneira

[01:04:41] porque a existência

[01:04:43] a experiência de existir

[01:04:44] ela

[01:04:45] pode ser muito individual mesmo né

[01:04:47] sei lá

[01:04:48] se você

[01:04:49] se você não falar com ninguém

[01:04:51] ou tiver trocas só superficiais

[01:04:53] ao longo do dia e tal

[01:04:54] a experiência de existir é sua

[01:04:56] e nessa experiência

[01:04:57] você pode achar coisas bonitas

[01:04:59] você pode achar coisas legais

[01:05:00] e tá tudo certo

[01:05:02] não estou opondo como

[01:05:04] isso é ruim

[01:05:05] e o bom é compartilhar

[01:05:06] eu tô dizendo

[01:05:06] quando entra outra pessoa

[01:05:08] algo

[01:05:09] é diferente

[01:05:10] é

[01:05:11] alguma coisa acontece

[01:05:13] a partir de um segundo olhar

[01:05:15] que não acontece

[01:05:16] sem esse olhar

[01:05:17] quando

[01:05:17] aquilo de mais bonito

[01:05:19] que você viu

[01:05:20] e vai falar pra pessoa

[01:05:21] mostra pra ela

[01:05:22] e ela fala

[01:05:23] nossa e você percebeu tal coisa

[01:05:25] e aí você não tinha visto

[01:05:26] né

[01:05:27] alguma coisa aí acontece né

[01:05:29] e não só isso

[01:05:31] quando você tá emocionado lá

[01:05:33] com alguma coisa que você viu

[01:05:34] de muito lindo

[01:05:35] e aí você vê que a pessoa se emociona também

[01:05:36] tem algo

[01:05:37] é algo de muito misterioso acontece aí

[01:05:40] porque

[01:05:41] parece que é

[01:05:42] sabe

[01:05:43] o gênio enganador

[01:05:46] do demônio enganador do Descartes

[01:05:48] que é tipo

[01:05:48] talvez tudo seja uma mentira

[01:05:50] talvez só eu exista

[01:05:51] nada do mundo exista

[01:05:53] eu esteja aqui sozinho

[01:05:55] e tem um gênio

[01:05:56] um demônio aí

[01:05:57] me enganando o tempo inteiro

[01:05:58] pra que eu pense que existam pessoas

[01:06:00] pra que eu pense que exista essa mesa

[01:06:01] esse microfone e tal

[01:06:03] essa sensação é muito horrível

[01:06:05] certo

[01:06:05] e quando é que a gente quebra ela

[01:06:08] a gente quebra ela

[01:06:09] quando a gente se conecta com os outros

[01:06:11] essa ficção ela só é pensável

[01:06:14] por alguém sozinho

[01:06:15] dentro do quarto meditando

[01:06:17] como né

[01:06:18] como pouco

[01:06:18] como acontecia

[01:06:19] aconteceu muito com o Descartes

[01:06:21] no inverno

[01:06:22] da Holanda

[01:06:24] na França

[01:06:25] na Holanda

[01:06:25] porque estando

[01:06:27] em contato com os outros

[01:06:28] você tem certeza do mundo

[01:06:31] porque aquilo

[01:06:32] aquilo né

[01:06:33] tem essa triangulação

[01:06:34] que é tipo

[01:06:34] aconteceu uma coisa

[01:06:35] ela aconteceu de você

[01:06:37] em um jeito

[01:06:37] e aí você vê

[01:06:38] acontecendo no outro

[01:06:39] de outro jeito

[01:06:40] e aí você percebe que não

[01:06:43] a gente está passando por isso juntos

[01:06:44] está acontecendo com a gente

[01:06:46] e a gente está sentindo isso junto

[01:06:48] o outro

[01:06:49] dá mais lastro

[01:06:51] pra beleza

[01:06:52] que é o mundo

[01:06:53] ah eu acho que sim

[01:06:55] é

[01:06:55] faz sentido

[01:06:56] a experiência

[01:06:58] é uma

[01:06:58] a ideia de triangulação mesmo

[01:07:00] que é

[01:07:01] tem uma superfície

[01:07:01] que só acontece

[01:07:02] se tem

[01:07:03] três pontos

[01:07:04] se tem um acontecimento

[01:07:06] se tem duas pessoas

[01:07:07] percebendo

[01:07:07] claro que a triangulação

[01:07:08] a gente faz de vários jeitos

[01:07:09] às vezes

[01:07:10] quando está lendo um livro

[01:07:11] tem o autor

[01:07:12] tem o que ele está dizendo

[01:07:13] e tem a gente

[01:07:13] certo

[01:07:14] então pode acontecer

[01:07:15] na leitura

[01:07:16] como a gente falou

[01:07:17] pode acontecer

[01:07:18] em relação direta

[01:07:19] com alguma coisa

[01:07:20] porque a gente triangula

[01:07:21] o tempo inteiro

[01:07:22] mas uma outra pessoa

[01:07:24] né

[01:07:24] viva

[01:07:25] no mesmo tempo

[01:07:26] no mesmo tempo

[01:07:26] que a gente

[01:07:27] compartilhando

[01:07:28] e vendo a mesma coisa

[01:07:29] com os próprios olhos

[01:07:30] ouvindo

[01:07:31] sentindo

[01:07:31] é o que tem de

[01:07:33] mais forte

[01:07:35] nessa experiência

[01:07:35] pra mim

[01:07:36] né

[01:07:36] e aí

[01:07:37] de novo

[01:07:38] então acho que a gente vai

[01:07:40] vai retornando

[01:07:41] pro começo

[01:07:41] e tem mais

[01:07:43] tem mais uma coisa

[01:07:43] que eu quero falar

[01:07:44] dessa triangulação

[01:07:45] dessa sensação

[01:07:46] mas é

[01:07:47] tem algo aí

[01:07:47] de insubstituível

[01:07:48] pra mim

[01:07:49] tem algo que é

[01:07:50] eu posso ver

[01:07:51] o filme sozinho

[01:07:53] eu posso gostar

[01:07:54] do filme sozinho

[01:07:55] mas ver com

[01:07:56] alguém

[01:07:56] e ter

[01:07:57] a troca

[01:07:58] depois

[01:07:59] e ter o

[01:08:00] sentir aquilo junto

[01:08:01] ou

[01:08:02] é

[01:08:02] é

[01:08:03] é qualitativamente

[01:08:04] diferente

[01:08:05] tem alguma dimensão

[01:08:06] da experiência

[01:08:07] que se inventa

[01:08:08] nessa partilha

[01:08:09] tem duas coisas

[01:08:10] importantes a ser ditas

[01:08:11] que é a minha resposta

[01:08:12] sobre

[01:08:13] chegaremos lá

[01:08:15] acho que eu consegui

[01:08:16] encontrar

[01:08:16] boa

[01:08:17] você falou que também

[01:08:17] quer dizer uma coisa

[01:08:18] e eu tenho um fato

[01:08:19] absolutamente aleatório

[01:08:21] pra dizer

[01:08:22] sobre o demônio

[01:08:24] de Descartes

[01:08:24] por favor

[01:08:25] você me falou

[01:08:25] e eu lembrei

[01:08:26] eu lembrei

[01:08:26] eu lembrei

[01:08:26] lembrei disso

[01:08:26] se segurem

[01:08:28] se segurem nas cadeiras

[01:08:29] fato completamente aleatório

[01:08:31] o universo existe

[01:08:33] e existe uma certa

[01:08:34] probabilidade

[01:08:36] do universo existir

[01:08:37] x

[01:08:38] x

[01:08:38] probabilidade x

[01:08:39] do universo existir

[01:08:40] muito baixa

[01:08:41] né

[01:08:41] muito baixa

[01:08:42] pelas flutuações

[01:08:44] quânticas

[01:08:44] ó

[01:08:45] vai ficar difícil

[01:08:46] hein

[01:08:46] pelas flutuações

[01:08:47] quânticas

[01:08:48] a probabilidade

[01:08:51] de um cérebro

[01:08:52] vir a existência

[01:08:54] por pura aleatoriedade

[01:08:56] quântica

[01:08:57] a probabilidade

[01:08:57] de um cérebro

[01:08:58] vir a existência

[01:08:59] por uma quantidade

[01:09:00] de tempo muito curto

[01:09:01] exatamente

[01:09:02] com essas memórias

[01:09:03] que você tem agora

[01:09:04] é menor

[01:09:06] do que a probabilidade

[01:09:07] do universo existir

[01:09:09] é mais provável

[01:09:10] você ser uma flutuação

[01:09:11] quântica

[01:09:12] de um cérebro

[01:09:13] no meio do vazio

[01:09:14] do universo

[01:09:15] do que

[01:09:16] o próprio universo

[01:09:17] existir

[01:09:18] ou seja

[01:09:19] o demônio de Descartes

[01:09:20] tem

[01:09:20] o demônio de Descartes

[01:09:22] tem razões

[01:09:23] tem bons argumentos

[01:09:24] quânticas

[01:09:25] e isso é o que

[01:09:26] estatísticas

[01:09:27] pra existir

[01:09:28] e é assustador

[01:09:30] é assustador

[01:09:30] mas por que a gente

[01:09:31] não fica pensando nisso

[01:09:32] porque

[01:09:32] quando você falou

[01:09:33] desse lastro

[01:09:34] da pessoa

[01:09:36] a gente não fica

[01:09:38] pensando nisso

[01:09:38] a gente

[01:09:39] as pessoas

[01:09:40] dão um lastro

[01:09:40] pra gente

[01:09:41] existir no mundo

[01:09:43] sim

[01:09:43] eu não fico pensando

[01:09:45] que eu tô no Matrix

[01:09:46] que eu sou um cérebro

[01:09:47] de Boltzmann

[01:09:48] flutuando no universo

[01:09:49] que tem um gênio

[01:09:51] me enganando

[01:09:51] eu não fico pensando

[01:09:52] em nada disso

[01:09:53] mas eu acho que

[01:09:54] é porque

[01:09:54] por causa dos outros

[01:09:55] é

[01:09:56] é

[01:10:26] , olha aquele pássaro ali

[01:10:26] você reparou nele

[01:10:27] olha que bonito

[01:10:28] é só

[01:10:29] é uma técnica tão simples

[01:10:31] que é o basicamente

[01:10:32] porque tem muita coisa

[01:10:33] de tipo

[01:10:34] você tá super aquecendo

[01:10:36] fechado em si mesmo

[01:10:37] e tipo

[01:10:37] você só consegue ter acesso

[01:10:39] a sua

[01:10:40] a uma perspectiva da coisa

[01:10:42] e ela acelera

[01:10:43] de uma forma

[01:10:44] absolutamente descontrolada

[01:10:45] sendo que de repente

[01:10:46] se você vê

[01:10:47] o pássaro voando

[01:10:48] que alguém te apontou

[01:10:49] e fala

[01:10:49] nossa, bonitinho mesmo

[01:10:50] de repente aquilo começa

[01:10:51] a

[01:10:51] sei lá

[01:10:52] as coisas estão existindo

[01:10:54] as coisas estão seguindo

[01:10:55] então eu fico pensando

[01:10:56] eu fico pensando muito

[01:10:57] nessa

[01:10:57] é tipo

[01:10:58] essa improbabilidade

[01:11:00] né

[01:11:00] gigantesca

[01:11:01] que é o de partilhar

[01:11:02] alguma coisa

[01:11:03] né

[01:11:04] e eu tenho

[01:11:04] é

[01:11:05] é muito difícil

[01:11:07] dizer isso

[01:11:08] mas é

[01:11:08] como a gente

[01:11:10] precisa aprender

[01:11:11] a dar importância

[01:11:13] pra esses momentos

[01:11:14] esses momentos de partilha

[01:11:16] muito banais

[01:11:17] porque

[01:11:17] às vezes

[01:11:18] até vem um problema maior

[01:11:19] alguma doença

[01:11:20] alguma coisa de saúde

[01:11:21] alguma coisa ruim

[01:11:23] e você

[01:11:24] perdeu isso

[01:11:25] que era a coisa

[01:11:25] mais importante

[01:11:26] mais simples de todas

[01:11:26] que é você poder

[01:11:27] tomar um café com alguém

[01:11:28] e falar da vida

[01:11:30] assim

[01:11:30] falar de coisas banais

[01:11:32] ninguém se lamenta

[01:11:33] no leito de morte

[01:11:34] de não ter investido

[01:11:35] em bitcoins

[01:11:36] exato

[01:11:37] ninguém

[01:11:37] ninguém tem

[01:11:38] ninguém

[01:11:39] então é tipo

[01:11:41] tem uma valorização

[01:11:42] do encontro

[01:11:43] da partilha

[01:11:44] que eu acho que

[01:11:45] que

[01:11:45] traz uma outra dimensão

[01:11:47] da vivência

[01:11:48] da experiência

[01:11:48] que pra mim tem sido

[01:11:50] mais fundamental

[01:11:51] do que

[01:11:52] todas as outras

[01:11:52] e que não acontece

[01:11:54] acontece muito mais

[01:11:55] com amigos

[01:11:55] pessoas que eu gosto

[01:11:57] que eu amo

[01:11:57] que tão perto

[01:11:58] mas às vezes acontece

[01:12:00] numa interação

[01:12:01] de caixa de supermercado

[01:12:02] às vezes acontece

[01:12:03] no ônibus

[01:12:04] se você

[01:12:05] tá mais disposto

[01:12:08] né

[01:12:08] então

[01:12:09] acho que isso era

[01:12:10] uma das coisas

[01:12:11] que

[01:12:11] que valia a pena dizer

[01:12:13] e

[01:12:14] eu acho que

[01:12:15] o argumento

[01:12:16] que você trouxe

[01:12:16] o argumento do demônio

[01:12:17] e da improbabilidade

[01:12:19] só favorece

[01:12:20] só mostra

[01:12:21] o quão

[01:12:21] absurdo é isso

[01:12:23] e o quanto isso é

[01:12:24] é o que a gente tem

[01:12:25] e o que a gente tem

[01:12:25] e

[01:12:26] deve valorizar

[01:12:28] assim

[01:12:28] na minha opinião

[01:12:29] e aí

[01:12:30] a gente

[01:12:31] bom

[01:12:31] tem a sua resposta

[01:12:32] e

[01:12:33] dá a sua resposta

[01:12:34] e aí eu finalizo

[01:12:35] com um outro comentário

[01:12:36] a minha resposta

[01:12:37] eu acho que eu encontrei ela

[01:12:39] e ela é mais simples

[01:12:40] do que eu imaginava

[01:12:40] eu só

[01:12:41] eu concordo plenamente

[01:12:42] com o texto

[01:12:43] eu só sou

[01:12:44] ou estou

[01:12:45] como não estou né

[01:12:46] como um bom

[01:12:47] amante de deviris

[01:12:49] boa

[01:12:49] eu estou

[01:12:51] muito mais comedido

[01:12:52] eu acho que

[01:12:53] que eu sempre pergunto

[01:12:54] qual é a palavra

[01:12:55] de segurança

[01:12:56] antes de

[01:12:57] de sair

[01:12:58] que é

[01:12:59] quem vai

[01:13:00] até quando vai

[01:13:01] em que lugar que vai ser

[01:13:02] o que a gente vai comer

[01:13:04] eu acho que eu estou

[01:13:05] muito comedido

[01:13:06] com

[01:13:06] eu estou muito seletivo

[01:13:08] acho que eu estou

[01:13:09] num momento em que

[01:13:09] eu estou mais

[01:13:10] mais fechado

[01:13:11] mas as trocas

[01:13:12] são essenciais

[01:13:13] eu me vi em momentos

[01:13:14] onde eu me senti

[01:13:16] muito solitário

[01:13:16] o ano passado

[01:13:17] eu me vi em momentos

[01:13:18] onde eu me senti

[01:13:19] muito solitário

[01:13:19] e é muito

[01:13:21] é muito óbvia

[01:13:22] a resposta

[01:13:23] para quem está

[01:13:24] solitário

[01:13:25] onde está

[01:13:27] onde estão

[01:13:28] os bons encontros

[01:13:29] e eu acho que eu estou

[01:13:30] mais seletivo com isso

[01:13:31] não sei se eu vou virar

[01:13:32] um véio chato

[01:13:32] pode acontecer

[01:13:33] pode

[01:13:34] é o risco

[01:13:35] é o risco

[01:13:37] me ajudem

[01:13:37] mas eu estou mais comedido

[01:13:38] com isso

[01:13:39] mas o texto faz

[01:13:40] faz muito sentido mesmo

[01:13:41] dessa

[01:13:42] dessa partilha

[01:13:43] ela é

[01:13:43] essencial

[01:13:44] é

[01:13:45] mas boa

[01:13:47] boa

[01:13:47] no texto tem a coisa

[01:13:49] do

[01:13:49] eu estou

[01:13:50] pouco comedido

[01:13:52] acho que aí chegamos

[01:13:53] numa diferença

[01:13:54] que é tipo

[01:13:54] se

[01:13:55] se o convite

[01:13:56] vier de alguém

[01:13:57] que eu acho legal

[01:13:58] interessante

[01:13:59] se veio aí

[01:14:00] uma proposta

[01:14:01] que eu estou

[01:14:02] se eu achar

[01:14:03] que eu estou bem acompanhado

[01:14:04] minimamente

[01:14:04] claro

[01:14:05] se eu vou num lugar

[01:14:06] que eu não conheço

[01:14:06] não conheço ninguém

[01:14:07] tal

[01:14:08] aí a chance de eu ir

[01:14:09] é pequena

[01:14:10] agora se tem pelo menos

[01:14:11] um amigo

[01:14:11] eu já começo

[01:14:13] já estou pensando

[01:14:13] já fico às vezes

[01:14:14] já fico ansioso

[01:14:15] será que eu vou

[01:14:16] será que eu não vou

[01:14:17] então é já

[01:14:18] é fácil mesmo

[01:14:20] não mas você vai ficar

[01:14:20] amarrado

[01:14:21] sem poder mover

[01:14:22] seus braços

[01:14:23] e suas pernas

[01:14:24] tá bom

[01:14:24] é chato

[01:14:25] shibari

[01:14:26] se for já já

[01:14:27] eu fui já

[01:14:27] já fui

[01:14:28] é legal

[01:14:29] eu gostei

[01:14:30] bora bora bora

[01:14:31] eu gostei

[01:14:33] eu achei uma experiência

[01:14:33] interessante

[01:14:34] é

[01:14:35] então

[01:14:37] aí

[01:14:38] tem essa questão

[01:14:39] da da

[01:14:40] né

[01:14:40] com essa imagem

[01:14:41] na minha cabeça

[01:14:42] eu acho que muito

[01:14:42] desse texto fala

[01:14:43] sobre amizade

[01:14:44] sobre relações

[01:14:45] de amor

[01:14:46] que são meio

[01:14:47] indistintas

[01:14:48] em que a gente não

[01:14:49] é enfim

[01:14:50] são

[01:14:50] de alguma maneira

[01:14:52] acontecem

[01:14:54] é

[01:14:54] de muito

[01:14:55] livres

[01:14:55] né

[01:14:56] enfim

[01:14:56] sem tanto

[01:14:57] sem tantas normativas

[01:14:59] e narrativas

[01:15:00] prontas

[01:15:00] a amizade

[01:15:01] ela é muito mais plástica

[01:15:03] do que

[01:15:04] a relação amorosa

[01:15:05] a relação amorosa

[01:15:06] reconhecida como amorosa

[01:15:07] e hierarquizada

[01:15:08] dessa forma

[01:15:09] e tal

[01:15:10] mas existe um tipo

[01:15:11] de experiência amorosa

[01:15:12] que eu acho

[01:15:13] que dá pra pensar

[01:15:14] dentro desse conceito

[01:15:15] de amor

[01:15:15] como prazer

[01:15:16] de existir juntos

[01:15:17] porque esse conceito

[01:15:18] ele tem uma dimensão

[01:15:18] coletiva

[01:15:19] ele abrange

[01:15:20] todo um espectro

[01:15:21] ele abrange

[01:15:22] desde uma multidão

[01:15:23] cantando junto

[01:15:23] até um grupo

[01:15:25] de amigos

[01:15:25] mas aí no texto

[01:15:26] eu não cheguei no dois

[01:15:28] né

[01:15:28] ou no três

[01:15:29] tudo bem

[01:15:30] mas no dois

[01:15:30] na experiência

[01:15:32] de um pra um

[01:15:33] que é

[01:15:33] majoritariamente

[01:15:35] aquela que a gente

[01:15:35] costuma chamar

[01:15:36] de amorosa mesmo

[01:15:37] amorosa no sentido

[01:15:38] romântico

[01:15:39] ou passional

[01:15:40] como vocês quiserem

[01:15:41] e aí eu fiquei pensando

[01:15:42] como pensar isso

[01:15:44] dentro desse conceito

[01:15:47] né

[01:15:47] e é difícil

[01:15:48] é difícil

[01:15:48] mas o final do texto

[01:15:50] é um experimento

[01:15:51] né

[01:15:51] que é

[01:15:52] existe essa coisa

[01:15:53] que é

[01:15:54] uma relação acontecendo

[01:15:56] mediante um fato externo

[01:15:58] um acontecimento externo

[01:15:59] então um filme

[01:16:00] né

[01:16:01] você vai com um amigo

[01:16:02] ver um filme

[01:16:02] você vai com um amigo

[01:16:03] assistir uma peça

[01:16:05] você vai

[01:16:05] ou você está com um amigo

[01:16:06] fofocando de alguma coisa

[01:16:08] ou vocês estão falando

[01:16:09] da vida de cada um

[01:16:10] tem alguma coisa

[01:16:11] que acontece

[01:16:13] que é tipicamente

[01:16:15] da relação amorosa

[01:16:16] eu acho

[01:16:16] que está

[01:16:17] na beleza

[01:16:19] ser a própria relação

[01:16:20] a beleza ser um ao outro

[01:16:22] assim

[01:16:22] e aí

[01:16:23] que a gente

[01:16:24] que a gente

[01:16:24] aparece a coisa

[01:16:25] da beleza em curto circuito

[01:16:26] né

[01:16:27] que é essa coisa

[01:16:28] do

[01:16:28] a última frase do texto

[01:16:30] às vezes o bonito

[01:16:31] é o que acontece

[01:16:31] entre nós

[01:16:32] existe alguma coisa

[01:16:34] de

[01:16:34] isso não é só

[01:16:35] da relação amorosa

[01:16:35] acho que também tem

[01:16:36] na amizade

[01:16:37] mas tem algo

[01:16:38] tipicamente

[01:16:38] quando envolve

[01:16:39] pele

[01:16:39] envolve voz

[01:16:40] envolve um tipo

[01:16:41] de atração física

[01:16:42] sexual

[01:16:42] que a gente costuma

[01:16:43] caracterizar como amoroso

[01:16:44] que tem a ver

[01:16:45] com esse curto circuito

[01:16:46] assim

[01:16:46] de repente é bom

[01:16:47] existir juntos

[01:16:48] por causa um do outro

[01:16:50] a causa já não é

[01:16:51] mais externa

[01:16:52] a causa está ali

[01:16:53] é

[01:16:55] presente

[01:16:55] eu acho que dá

[01:16:56] para pensar esse conceito

[01:16:57] aí por esse lado

[01:16:58] ainda assim

[01:16:59] distinguir amor e amizade

[01:17:01] é um problema

[01:17:02] muito ruim

[01:17:02] na verdade

[01:17:03] eu tenho descoberto

[01:17:03] só aos poucos

[01:17:04] que é tipo

[01:17:04] a gente faz isso

[01:17:06] porque a gente está

[01:17:07] acostumado a fazer isso

[01:17:08] e como fazer isso bem

[01:17:10] não sei

[01:17:10] estou tentando

[01:17:11] não acho que precisa

[01:17:12] fazer isso inclusive

[01:17:13] aí as opiniões mais radicais

[01:17:14] opiniões radicais

[01:17:15] não precisa

[01:17:16] mas a gente acaba fazendo

[01:17:18] e como fazer

[01:17:19] é sempre

[01:17:19] parece um falso problema

[01:17:21] um problema ruim

[01:17:22] sei lá

[01:17:23] eu não consigo

[01:17:23] mas a gente

[01:17:24] a gente faz

[01:17:25] porque precisa

[01:17:26] porque

[01:17:26] o que a gente é convocado

[01:17:28] é isso

[01:17:28] por toda uma dinâmica

[01:17:29] de responsabilidade

[01:17:30] e aí também

[01:17:31] eu fiz esse exercício

[01:17:32] a partir desse conceito

[01:17:33] e acho que existe

[01:17:34] uma resposta possível

[01:17:35] nesse campo

[01:17:36] e está aí

[01:17:38] então para quem quiser

[01:17:39] pensar mais sobre isso

[01:17:40] o texto

[01:17:40] acaba se encaminhando

[01:17:42] nessa direção

[01:17:43] gosto

[01:17:44] eu também

[01:17:45] hahaha

[01:17:46] esse texto

[01:17:53] é um livro

[01:17:53] que eu tenho

[01:17:53] que ler

[01:17:53] que eu tenho

[01:17:53] que ler

[01:17:53] que eu tenho

[01:17:53] que ler

[01:17:53] que eu tenho

[01:17:53] que ler

[01:17:53] que eu tenho

[01:17:53] que ler

[01:17:54] que eu tenho

[01:17:54] que eu tenho

[01:17:54] Esse foi o Imposturas 309.

[01:17:57] Na capa, Felipe Franco.

[01:17:59] Na edição de áudio, Pedro Janczur.

[01:18:02] Na assistência de produção, Bru Almeida.

[01:18:05] Na companhia, na amizade, Rafael Trindade.

[01:18:08] Eu mesmo.

[01:18:09] Até rimou, você viu?

[01:18:11] Na escrita do texto de hoje, eu, Rafael Lauro.

[01:18:14] Se você gosta do nosso programa, a gente repete os jeitos pra que ele continue existindo, né?

[01:18:20] As formas de apoio que permitem com que ele continue.

[01:18:23] A primeira delas, você pode fazer uma doação de qualquer valor pro nosso Pix.

[01:18:28] Rafael, arroba, razão, inadequada, ponto com.

[01:18:30] A segunda, mais usada, mais importante na constância do pagar as contas, é a assinatura.

[01:18:38] Muitos de vocês são assinantes, a gente agradece.

[01:18:41] Quem não é ainda, vai lá no site, conhece.

[01:18:44] E a terceira tem tudo a ver com o que a gente acabou de conversar.

[01:18:48] Verdade.

[01:18:48] Quem divide, multiplica.

[01:18:50] Você ouviu esse podcast?

[01:18:52] Se esse podcast te deixou arrepiado, a melhor coisa que você pode fazer é passar ele pra

[01:18:58] alguém e dizer, olha isso, olha esse texto, olha essa conversa, olha esses dois lunáticos

[01:19:04] conversando como eu me identifico com isso, como eu gosto disso, como isso tem a ver, como

[01:19:09] isso tem a ver com você.

[01:19:11] É isso.

[01:19:11] Quem divide, multiplica.

[01:19:12] Com certeza.

[01:19:14] E responde a pergunta aí no chat.

[01:19:16] Tem uma pergunta importante nesse texto aí, como você responderia?

[01:19:19] Pode mandar textão, eu vou adorar ler.

[01:19:21] Pode mandar.

[01:19:22] Ou se for responder também rapidinho, responda de algum jeito.

[01:19:25] Manda pra mim, manda no site, manda no Spotify, no YouTube, onde você quiser.

[01:19:28] Responde essa pergunta, eu quero saber.

[01:19:30] Vamos fazer uma estatística.

[01:19:33] Não vai dar certo, né?

[01:19:34] Mas tudo bem.

[01:19:34] Tchau, tchau.

[01:19:52] Tchau.

[01:19:53] Tchau.

[01:19:54] Tchau.

[01:19:55] Tchau.

[01:19:56] Tchau.

[01:19:57] Tchau.

[01:19:58] Tchau.

[01:19:59] Tchau.

[01:20:00] Tchau.

[01:20:01] Tchau.

[01:20:02] Tchau.

[01:20:03] Tchau.

[01:20:04] Tchau.

[01:20:05] Tchau.

[01:20:06] Tchau.

[01:20:07] Tchau.

[01:20:08] Tchau.

[01:20:09] Tchau.

[01:20:10] Tchau.

[01:20:11] Tchau.

[01:20:12] Tchau.

[01:20:13] Tchau.

[01:20:14] Tchau.

[01:20:15] Tchau.

[01:20:16] Tchau.

[01:20:17] Tchau.

[01:20:18] Tchau.

[01:20:19] Tchau.

[01:20:20] Tchau.

[01:20:21] Tchau.